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Purport

Capítulo Vinte e Nove

Conversas entre Nārada e o Rei Prācīnabarhi

प्राचीनबर्हिरुवाच
भगवंस्ते वचोऽस्माभिर्न सम्यगवगम्यते ।
कवयस्तद्विजानन्ति न वयं कर्ममोहिता: ॥ १ ॥
prācīnabarhir uvāca
bhagavaṁs te vaco ’smābhir
na samyag avagamyate
kavayas tad vijānanti
na vayaṁ karma-mohitāḥ

Synonyms

prācīnabarhiḥ uvācao rei Prācīnabarhi disse; bhagavanó meu senhor; tevossas; vacaḥpalavras; asmābhiḥpor nós; nanunca; samyakperfeitamente; avagamyatesão entendidas; kavayaḥaqueles que são muito hábeis; tatisto; vijānanti­podem entender; nanunca; vayamnós; karmapelas atividades fruitivas; mohitāḥencantados.

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O rei Prācīnabarhi respondeu: Meu caro senhor, não somos capazes de apreciar inteiramente o significado de vossa história alegórica do rei Purañjana. Na verdade, aqueles que são perfeitos em conhecimento espiritual podem entendê-la, mas, para nós, que estamos demasia­damente apegados a atividades fruitivas, é muito difícil compreender o significado de vossa história.

Purport

SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (7.13), o Senhor Kṛṣṇa diz:
tribhir guṇa-mayair bhāvair
ebhiḥ sarvam idaṁ jagat
mohitaṁ nābhijānāti
mām ebhyaḥ param avyayam
“Iludido pelos três modos [bondade, paixão e ignorância], o mundo inteiro não conhece a Mim, que estou acima dos modos e sou inesgotável.” De um modo geral, as pessoas se deixam encantar pelos três modos da natureza material e, portanto, são praticamente incapazes de entender que a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, está sempre por trás de todas as atividades materialis­tas na manifestação cósmica. De um modo geral, quando as pessoas se dedicam a atividades, quer piedosas, quer pecaminosas, elas não são perfeitas em conhecimento do serviço devocional. A história alegórica nar­rada por Nārada Muni ao rei Barhiṣmān destina-se especialmente a ocupar as almas condicionadas em serviço devocional. Toda a histó­ria, narrada alegoricamente, pode ser compreendida com facilidade por uma pessoa em serviço devocional, mas aqueles que não estão ocupados em serviço devocional, mas sim em gozo dos sentidos, não podem entendê-la perfeitamente. É isso o que admite o rei Barhiṣmān.
Este vigésimo nono capítulo descreve como, através de demasia­do apego a mulheres, a pessoa torna-se uma mulher na próxima vida, ao passo que uma pessoa que se associa com a Suprema Personali­dade de Deus ou com Seu representante livra-se de todos os apegos materiais e, dessa maneira, alcança a liberação.
नारद उवाच
पुरुषं पुरञ्जनं विद्याद्यद् व्यनक्त्यात्मन: पुरम् ।
एकद्वित्रिचतुष्पादं बहुपादमपादकम् ॥ २ ॥
nārada uvāca
puruṣaṁ purañjanaṁ vidyād
yad vyanakty ātmanaḥ puram
eka-dvi-tri-catuṣ-pādaṁ
bahu-pādam apādakam

Synonyms

nāradaḥ uvācaNārada disse; puruṣama entidade viva, o desfrutador; purañjanamrei Purañjana; vidyātdeve-se saber; yatvisto que; vyanaktiproduz; ātmanaḥde si mesma; paramresidên­cia; ekauma; dviduas; tritrês; catuḥ-pādamcom quatro pernas; bahu-pādamcom muitas pernas; apādakamsem pernas.

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O grande sábio Nārada Muni prosseguiu: Deves entender que Purañjana, a entidade viva, transmigra, de acordo com seu próprio trabalho, para diferentes classes de corpos, os quais podem ser de uma perna, duas pernas, três pernas, quatro pernas, muitas pernas ou simplesmente sem pernas. Transmigrando para essas várias classes de corpos, a entidade viva, como o suposto desfrutador, passa a ser conhecida como Purañjana.

Purport

SIGNIFICADO—Descreve-se aqui muito bem como a alma espiritual transmigra de uma espécie de corpo a outro. A palavra eka-pāda, “de uma perna”, refere-se aos fantasmas, pois se diz que os fantasmas caminham sobre uma perna só. A palavra dvi-pāda, significando “bípede”, refere-se aos seres humanos. Quando está velho e invá­lido, o ser humano é chamado de trípede, ou “de três pernas”, porque caminha com o auxílio de uma bengala ou alguma espécie de bas­tão. Evidentemente, a palavra catuṣ-pāda refere-se aos quadrú­pedes, ou animais. A palavra bahu-pāda se refere às criaturas com mais de quatro pernas. Há muitos insetos, tais como a centopeia, bem como muitos animais aquáticos, que têm muitas pernas. A pala­vra apādaka, significando “sem pernas”, refere-se às “serpentes”. O nome Purañjana indica a pessoa que gosta de possuir diferentes espécies de corpos. Sua mentalidade de desfrute no mundo material adapta-se a diferentes classes de corpos.
योऽविज्ञाताहृतस्तस्य पुरुषस्य सखेश्वर: ।
यन्न विज्ञायते पुम्भिर्नामभिर्वा क्रियागुणै: ॥ ३ ॥
yo ’vijñātāhṛtas tasya
puruṣasya sakheśvaraḥ
yan na vijñāyate pumbhir
nāmabhir vā kriyā-guṇaiḥ

Synonyms

yaḥaquele que; avijñātadesconhecido; āhṛtaḥdescrito; tasyadela; puruṣasyada entidade viva; sakhāo amigo eterno; īśvaraḥo senhor; yatporque; najamais; vijñāyateé compreendido; pumbhiḥpelas entidades vivas; nāmabhiḥatravés de nomes; ou; kriyā-guṇaiḥatravés de atividades ou qualidades.

Translation

A pessoa que acabo de descrever como desconhecida é a Suprema Personalidade de Deus, o senhor e amigo eterno da entidade viva. Uma vez que as entidades vivas não podem perceber a Suprema Personalidade de Deus através de nomes, atividades ou qualidades materiais, Ele permanece perpetuamente desconhecido para a alma condicionada.

Purport

SIGNIFICADO—Como a Suprema Personalidade de Deus é desconhecida para a alma condicionada, às vezes é descrita nos textos védicos como nirākāra, avijñāta ou avāṅ-mānasa-gocara. De fato, é verdade que, no que diz respeito à Sua forma, nome, qualidades, passatem­pos ou parafernália, a Suprema Personalidade de Deus não pode ser percebida com o auxílio dos sentidos materiais. Entretanto, quem é avançado espiritualmente pode entender o nome, a forma, as qualidades, os passatempos e a parafernália do Senhor Supremo. Confirma-se isso na Bhagavad-gītā (18.55), onde se diz que bhaktyā mām abhijā­nāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ: só pode entender realmente a Suprema Personalidade de Deus quem se ocupa em serviço devo­cional. Pessoas comuns, ocupadas em atividades piedosas e impie­dosas, não podem entender a forma, o nome e as atividades do Senhor. No entanto, o devoto pode conhecer a Personalidade de Deus de diversas maneiras. Ele pode entender que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, que Seu endereço é Goloka Vṛndāvana e que Suas atividades são todas espirituais. Como os materialistas não podem entender a forma e as atividades do Senhor, os śāstras descrevem-nO como nirākāra, isto é, aquele cuja forma não pode ser descoberta por um materialista. Isso não quer dizer que a Suprema Personalidade de Deus não tenha forma; quer dizer que Sua forma não é compreendida pelos karmīs, ou trabalhadores fruitivos. Sua forma é descrita na Brahma-saṁhitā como sac-cid­-ānanda-vigraha. Como confirma o Padma Purāṇa:
ataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi
na bhaved grāhyam indriyaiḥ
sevonmukhe hi jihvādau
svayam eva sphuraty adaḥ
“Ninguém pode entender Kṛṣṇa como Ele é, utilizando-se dos senti­dos materiais grosseiros. Contudo, o Senhor revela-Se a Seus devo­tos, estando satisfeito com eles por causa do transcendental serviço amoroso que Lhe prestam.”
Visto que o nome, a forma, as qualidades e atividades da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, não podem ser entendidos pelos sentidos materiais, Ele também é chamado adhokaja, signifi­cando “além da percepção dos sentidos”. Quando os sentidos se purificam mediante atividades devocionais, o devoto entende tudo a respeito do Senhor pela graça do Senhor. Neste verso, as palavras pumbhir nāmabhir vākriyā-guṇaiḥ são especialmente significativas porque Deus, Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, tem muitos nomes, atividades e qualidades, embora nenhum deles seja material. Apesar do fato de todos esses nomes, atividades e passatempos serem mencionados nos śāstras e compreendidos pelos devotos, os karmīs (trabalhadores fruitivos) não podem entendê-los. Tampouco o podem os jñānīs (especuladores mentais). Embora haja milhares de nomes do Senhor Viṣṇu, os karmīs e os jñānīs misturam os nomes da Divindade Suprema com os nomes de semi­deuses e seres humanos. Por não poderem entender o verdadeiro nome da Suprema Personalidade de Deus, eles dão por certo que qualquer nome pode ser aceito. Acreditam que, uma vez que a Ver­dade Absoluta é impessoal, podem chamá-lA por qualquer nome. Caso contrário, argumentam eles, a Ver­dade Absoluta não tem nome algum. Isso não é verdade. Aqui se afirma claramente: nāmabhir vā kriyā­-guṇaiḥ. O Senhor tem nomes específicos, tais como Rāma, Kṛṣṇa, Govinda, Nārāyaṇa, Viṣṇu e Adhokṣaja. Na verdade, existem muitos nomes, mas a alma condicionada não pode compreendê-los.
यदा जिघृक्षन् पुरुष: कार्त्स्‍न्येन प्रकृतेर्गुणान् ।
नवद्वारं द्विहस्ताङ्‌घ्रि तत्रामनुत साध्विति ॥ ४ ॥
yadā jighṛkṣan puruṣaḥ
kārtsnyena prakṛter guṇān
nava-dvāraṁ dvi-hastāṅghri
tatrāmanuta sādhv iti

Synonyms

yadāquando; jighṛkṣandesejando desfrutar; puruṣaḥa entidade viva; kārtsnyenatotalmente; prakṛteḥda natureza material; guṇānos modos; nava-dvāramtendo nove portões; dviduas; hastamãos; aṅghripernas; tatraali; amanutaela pensou; sādhuótimo; itiassim.

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Desejando desfrutar dos modos da natureza material em sua totalidade, a entidade viva prefere, dentre muitas formas corpóreas, aceitar o corpo que tem nove portões, duas mãos e duas pernas. Assim, ela prefere tornar-se um ser humano ou um semideus.

Purport

SIGNIFICADO—Esta é uma ótima explicação de como o ser espiritual, a parte integrante de Kṛṣṇa, Deus, aceita um corpo material em virtude de seus próprios desejos. Aceitando duas mãos, duas pernas e assim por diante, a entidade viva desfruta plenamente dos modos da natureza material. O Senhor Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā (7.27):
icchā-dveṣa-samutthena
dvandva-mohena bhārata
sarva-bhūtāni sammohaṁ
sarge yānti parantapa
“Ó descendente de Bharata (Arjuna), ó vencedor do inimigo, todas as entidades vivas nascem em ilusão, confundidas pelas dualidades surgidas do desejo e do ódio.”
Originalmente, a entidade viva é um ser espiritual, mas, quando ela realmente deseja desfrutar deste mundo material, ela cai. A partir deste verso, podemos entender que a entidade viva aceita primeiramente um corpo de forma humana, mas, aos poucos, devido a suas atividades degradadas, ela cai em formas inferiores de vida – nas formas animais, de plantas e de seres aquáticos. Através do processo gra­dual de evolução, a entidade viva reobtém o corpo de um ser humano e recebe outra oportunidade de escapar do processo de transmigração. Se ela outra vez perde sua oportunidade de entender sua posição na forma humana, é posta de novo no ciclo de nasci­mentos e mortes em várias classes de corpos.
O desejo da entidade viva de vir ao mundo material não é muito difícil de ser compreendido. Mesmo que alguém nasça em família de arianos, onde atividades como comer carne, intoxicar-se, praticar jogos de azar e fazer sexo ilícito são proibidas, ele pode desejar gozar dessas coisas proibidas. Sempre existe alguém a procurar uma prostituta em busca de sexo ilícito ou um hotel para comer carne e beber vinho. Sempre existem pessoas que desejam apostar em cassinos ou desfrutar de ditos passatempos. Todas essas propen­sões já estão dentro do coração das entidades vivas, mas certas entidades vivas decidem desfrutar dessas atividades abomináveis, em consequência do que caem para uma plataforma degradada. Quanto mais alguém deseja uma vida degradada dentro de seu coração, mais ele cai, sendo obrigado a ocupar diferentes formas abomináveis de existência. Esse é o processo de transmi­gração e evolução. Pode ser que uma espécie de animal em particular tenha uma forte tendência a desfrutar de uma classe de gozo dos sentidos, mas, sob a forma humana, pode-se gozar de todos os sentidos. A forma humana nos proporciona a oportunidade de uti­lizar todos os sentidos em busca do prazer. A menos que sejamos devidamente treinados, tornamo-nos vítimas dos modos da natureza material, segundo confirma a Bhagavad-gītā (3.27):
prakṛteḥ kriyamāṇāni
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
“A alma espiritual confusa, soba influência dos três modos da natureza material, julga-se autora de atividades que, na realidade, são realizadas pela natureza.” Tão logo alguém deseje gozar de seus sentidos, cai sob o controle da energia material e, de forma automática, ou mecânica, é posto no círculo de nascimentos e mortes em várias formas de vida.
बुद्धिं तु प्रमदां विद्यान्ममाहमिति यत्कृतम् ।
यामधिष्ठाय देहेऽस्मिन् पुमान् भुङ्क्तेऽक्षभिर्गुणान् ॥ ५ ॥
buddhiṁ tu pramadāṁ vidyān
mamāham iti yat-kṛtam
yām adhiṣṭhāya dehe ’smin
pumān bhuṅkte ’kṣabhir guṇān

Synonyms

buddhiminteligência; tuentão; pramadāma jovem (Purañjanī); vidyātdeve-se saber; mamameu; ahameu; itiassim; yat­-kṛtamfeito pela inteligência; yāma inteligência que; adhiṣṭhāyarefugiando-se em; deheno corpo; asmineste; pumāna en­tidade viva; bhuṅktesofre e desfruta; akṣabhiḥpelos sentidos; guṇānos modos da natureza material.

Translation

O grande sábio Nārada continuou: A palavra pramadā mencionada a este respeito refere-se à inteligência material, ou à ignorância. Ela deve ser entendida assim. Alguém que se refugie nessa espécie de inteligência identifica-se com o corpo material. Influenciado pela consciência material de “eu” e “meu”, coloca-se a desfrutar e sofrer através de seus sentidos. Assim, a entidade viva é presa em uma armadilha.

Purport

SIGNIFICADO—Na existência material, a dita inteligência é, na verdade, ignorân­cia. A inteligência purificada chama-se buddhi-yoga. Em outras palavras, a inteligência encaixada com os desejos de Kṛṣṇa chama­-se buddhi-yoga ou bhakti-yoga. Portanto, na Bhagavad-gītā (10.10), Kṛṣṇa diz:
teṣāṁ satata-yuktānāṁ
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
“Àqueles que estão constantemente devotados a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim.”
Inteligência verdadeira significa unir-se à Suprema Personalidade de Deus. A pessoa que faz isso recebe da Suprema Personalidade de Deus, internamente, a verdadeira inteligência pela qual ela pode vol­tar ao lar, voltar ao Supremo. A inteligência do mundo material é descrita neste verso como pramadā porque, na existência material, a entidade viva afirma falsamente que as coisas lhe pertencem. Ela pensa: “Eu sou o soberano de tudo à minha volta.” Isso é ignorância. Na realidade, nada lhe pertence. Nem mesmo o corpo e os sen­tidos lhe pertencem, pois lhe são dados pela graça do Senhor para satisfazer suas diferentes propensões através da energia material. Na verdade, nada pertence à entidade viva, mas ela enlouquece por tudo, afirmando: “Isto é meu. Aquilo é meu. Aquilo outro é meu.” Janasya moho ’yam ahaṁ mameti. Isso é o que se chama ilusão. Embora nada pertença à entidade viva, ela afirma que tudo lhe pertence. O Senhor Caitanya Mahāprabhu recomenda que se purifique essa falsa inteligência (ceto-darpaṇa-mārjanam). As verdadeiras atividades da entidade viva começam quando o espelho de sua inteligência é polido. Isso quer dizer que, quando alguém chega à plataforma de consciência de Kṛṣṇa, sua verdadeira inteligência começa a agir. Nesse momento, ele sabe que tudo pertence a Kṛṣṇa e nada lhe pertence. Enquanto pensarmos que tudo nos pertence, estaremos em consciência material, e, quando tivermos perfeito conhecimento de que tudo pertence a Kṛṣṇa, estaremos em consciência de Kṛṣṇa.
सखाय इन्द्रियगणा ज्ञानं कर्म च यत्कृतम् ।
सख्यस्तद्वृत्तय: प्राण: पञ्चवृत्तिर्यथोरग: ॥ ६ ॥
sakhāya indriya-gaṇā
jñānaṁ karma ca yat-kṛtam
sakhyas tad-vṛttayaḥ prāṇaḥ
pañca-vṛttir yathoragaḥ

Synonyms

sakhāyaḥos amigos; indriya-gaṇāḥos sentidos; jñānamconhecimento; karmaatividade, ca — também; yat-kṛtamfeita pelos sentidos; sakhyaḥamigas; tatdos sentidos; vṛttayaḥocupações; prāṇaḥar vital; pañca-vṛttiḥtendo cinco processos; yathā­como; uragaḥa serpente.

Translation

Os cinco sentidos funcionais e os cinco sentidos que adquirem conhecimento são todos amigos de Purañjanī. A entidade viva é assistida por esses sentidos na aquisição de conhecimento e no exercício de atividades. As ocupações dos sentidos são conhecidas como amigas, e a serpente, que, conforme se descreveu, tem cinco cabeças, é o ar vital que age dentro dos cinco processos circulatórios.

Purport

kṛṣṇa-bahirmukha hañā bhoga-vāñchā kare
nikaṭa-stha māyā tāre jāpaṭiyā dhare
(Prema-vivarta)
Devido a seu desejo de gozar do mundo material, a entidade viva se veste de corpos materiais grosseiros e sutis. Assim, ela recebe uma oportunidade de gozar dos sentidos. Os sentidos, portanto, são os instrumentos usados por ela para gozar do mundo material; consequentemente, descrevem-se os sentidos como amigos. Às vezes, devido a um excesso de atividades pecaminosas, a entidade viva não obtém um corpo material grosseiro, senão que paira na plataforma sutil. Isso se chama vida espectral. Por não possuir um corpo grosseiro, ela causa muitos incômodos em seu corpo sutil. Assim, a presença de um fantasma é muito ruim para aqueles que vivem em corpos grossei­ros. Afirma-se na Bhagavad-gītā (15.10):
utkrāmantaṁ sthitaṁ vāpi
bhuñjānaṁ vā guṇānvitam
vimūḍhā nānupaśyanti
paśyanti jñāna-cakṣuṣaḥ
“Os tolos não conseguem compreender como a entidade viva pode abandonar seu corpo, nem conseguem entender que tipo de corpo ela usufruirá sob o encanto dos modos da natureza. Mas aquele cujos olhos estão treinados em conhecimento pode ver tudo isso.”
As entidades vivas estão imersas no ar vital, que age de diferentes maneiras para manter a circulação. Existe o prāṇa, o apāna, o udāna, o vyāna e o samāna, e, como o ar vital funciona dessa maneira quíntupla, ele é comparado à serpente de cinco cabeças. A alma passa pelo kuṇḍalinī-cakra assim como uma serpente se arrasta pelo solo. O ar vital é comparado ao uraga, a serpente. Pañca-vṛtti é o desejo de satisfazer os sentidos, atraídos por seus cinco objetos, a saber, forma, sabor, som, cheiro e toque.
बृहद्बलं मनो विद्यादुभयेन्द्रियनायकम् ।
पञ्चाला: पञ्च विषया यन्मध्ये नवखं पुरम् ॥ ७ ॥
bṛhad-balaṁ mano vidyād
ubhayendriya-nāyakam
pañcālāḥ pañca viṣayā
yan-madhye nava-khaṁ puram

Synonyms

bṛhat-balammuito poderosa; manaḥa mente, vidyāt — deve-se saber; ubhaya-indriyade ambos os grupos de sentidos; nāyakamo líder; pañcālāḥo reino chamado Pañcāla; pañcacinco; viṣayāḥobjetos dos sentidos; yatdos quais; madhyeno meio; nava-kham­tendo nove aberturas; purama cidade.

Translation

O décimo primeiro assistente, que é o comandante dos demais, é conhecido como a mente. Ele é o líder dos sentidos, tanto para a aquisição de conhecimento quanto para a realização de trabalho. O reino Pañcāla é a atmosfera na qual se desfruta dos cinco objetos dos sentidos. Dentro desse reino Pañcāla, encontra-se a cidade do corpo, a qual tem nove portões.

Purport

SIGNIFICADO—A mente é o centro de todas as atividades e é descrita aqui como bṛhad-bala, muito poderosa. Para escapar das garras de māyā, a existência material, é preciso controlar a mente. Dependendo do treinamento, a mente é o amigo ou o inimigo da entidade viva. Se alguém consegue um bom administrador, seu estado é muito bem gerido, mas, se o administrador é um ladrão, seu estado vai à ruína. De modo semelhante, em sua existência condicionada mate­rial, a entidade viva delega poderes à sua mente. Sendo assim, ela está sujeita a ser desencaminhada por sua mente para gozar dos objetos dos sentidos. Śrīla Ambarīṣa Mahārāja, portanto, primeiro absorveu sua mente nos pés de lótus do Senhor (sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ. Quando a mente está ocupada em meditar nos pés de lótus do Senhor, os sentidos ficam controlados. Esse sistema de controle se chama yama, que quer dizer “subjugar os sentidos”. Quem pode subjugar os sentidos se chama gosvāmī, mas quem não pode controlar a mente chama-se go-dāsa. A mente orienta as atividades dos sentidos, que se expressam através de dife­rentes aberturas, como se descreve no verso seguinte.
अक्षिणी नासिके कर्णौ मुखं शिश्नगुदाविति ।
द्वे द्वे द्वारौ बहिर्याति यस्तदिन्द्रियसंयुत: ॥ ८ ॥
akṣiṇī nāsike karṇau
mukhaṁ śiśna-gudāv iti
dve dve dvārau bahir yāti
yas tad-indriya-saṁyutaḥ

Synonyms

akṣiṇīdois olhos; nāsikeduas narinas; karṇaudois ouvidos; mukhamboca; śiśnaórgãos genitais; gudaue o ânus; itiassim; dvedois; dvedois; dvārauportões; bahiḥpara fora; yātivai; yaḥuma pessoa que; tatatravés dos portões; indriyapelos sentidos; saṁyutaḥacompanhada.

Translation

Os olhos, as narinas e os ouvidos são pares de portões situados em um lugar. A boca, o órgão genital e o ânus também são diferentes portões. Encontrando-se em um corpo com esses nove portões, a entidade viva age externamente no mundo material e goza de obje­tos dos sentidos, tais como as formas e os sabores.

Purport

SIGNIFICADO—Não tendo noção de sua posição espiritual, a entidade viva, orientada pela mente, sai pelos nove portões para desfrutar de obje­tos materiais. Devido a seu longo contato com objetos materiais, ela se esquece de suas verdadeiras atividades espirituais e, assim, é desencaminhada. O mundo inteiro vem sendo desencaminhado por ditos líderes, tais como cientistas e filósofos, que desconhecem a alma espiritual. Assim, a alma condicionada enreda-se cada vez mais.
अक्षिणी नासिके आस्यमिति पञ्चपुर: कृता: ।
दक्षिणा दक्षिण: कर्ण उत्तरा चोत्तर: स्मृत: ।
पश्चिमे इत्यधोद्वारौ गुदं शिश्नमिहोच्यते ॥ ९ ॥
akṣiṇī nāsike āsyam
iti pañca puraḥ kṛtāḥ
dakṣiṇā dakṣiṇaḥ karṇa
uttarā cottaraḥ smṛtaḥ
paścime ity adho dvārau
gudaṁ śiśnam ihocyate

Synonyms

akṣiṇīdois olhos; nāsikeduas narinas; āsyama boca; iti­assim; pañcacinco; puraḥna frente; kṛtāḥfeitos; dakṣiṇāportão meridional; dakṣiṇaḥdireito; karṇaḥouvido; uttarāportão setentrional; catambém; uttaraḥouvido esquerdo; smṛtaḥentendido; paścimeno ocidente; itiassim; adhaḥpara baixo; dvāraudois portões; gudamânus; śiśnamórgão genital; iha­aqui; ucyatese diz.

Translation

Dois olhos, duas narinas e uma boca – cinco ao todo – encontram-se na frente. O ouvido direito é tido como o portão meridional, e o ouvido esquerdo é o portão setentrional. As duas cavidades, ou por­tões, situadas no ocidente são conhecidas como o ânus e o órgão genital.

Purport

SIGNIFICADO—De todos os pontos cardeais, o oriente é considerado o mais importante, principalmente porque é dali que o Sol nasce. Os portões no lado oriental – os olhos, o nariz e a boca – são, deste modo, portões muito importantes no corpo.
खद्योताविर्मुखी चात्र नेत्रे एकत्र निर्मिते ।
रूपं विभ्राजितं ताभ्यां विचष्टे चक्षुषेश्वर: ॥ १० ॥
khadyotāvirmukhī cātra
netre ekatra nirmite
rūpaṁ vibhrājitaṁ tābhyāṁ
vicaṣṭe cakṣuṣeśvaraḥ

Synonyms

khadyotāchamado Khadyotā; āvirmukhīchamado Āvirmu­khī; catambém; atraaqui; netreos dois olhos; ekatraem um só lugar; nirmitecriada; rūpamforma; vibhrājitamchamada Vibhrājita (brilhante); tābhyāmatravés dos olhos; vicaṣṭepercebem; cakṣuṣācom o sentido da visão; īśvaraḥo senhor.

Translation

Os dois portões chamados Khadyotā e Āvirmukhī, dos quais já se falou, são os dois olhos situados lado a lado em um só lugar. Deve-se compreender que a cidade chamada Vibhrājita é a forma. Dessa maneira, os dois olhos vivem ocupados em ver diferentes espécies de formas.

Purport

SIGNIFICADO—Os dois olhos se sentem atraídos por coisas brilhantes, como a luz. Às vezes, observamos que pequenos insetos se sentem atraídos pelo brilho do fogo e assim se lançam sobre ele. Do mesmo modo, os olhos da entidade viva se atraem por formas brilhantes e belas. Eles se deixam enredar nessas formas, exatamente como o inseto se deixa atrair pelo fogo.
नलिनी नालिनी नासे गन्ध: सौरभ उच्यते ।
घ्राणोऽवधूतो मुख्यास्यं विपणो वाग्रसविद्रस: ॥ ११ ॥
nalinī nālinī nāse
gandhaḥ saurabha ucyate
ghrāṇo ’vadhūto mukhyāsyaṁ
vipaṇo vāg rasavid rasaḥ

Synonyms

nalinīchamada Nalinī; nālinīchamada Nālinī; nāseas duas narinas; gandhaḥaroma; saurabhaḥSaurabha (fragrância); ucya­techama-se; ghrāṇaḥo sentido do olfato; avadhūtaḥchama­do Avadhūta; mukhyāchamada Mukhyā (principal); āsyama boca; vipaṇaḥchamada Vipaa; vāka faculdade da fala; rasa­-vitchamado Rasajña (hábil em saborear); rasaḥo sentido do paladar.

Translation

As duas portas chamadas Nalinī e Nālinī representam as duas narinas, e a cidade chamada Saurabha representa o aroma. O com­panheiro mencionado como Avadhūta é o sentido do olfato. A porta chamada Mukhyā é a boca, e Vipaṇa é a faculdade da fala. Rasajña é o sentido do paladar.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra avadhūta significa “completamente livre”. Uma pessoa que tenha atingido a fase de avadhūta não se submete às regras e regu­lações de nenhum preceito. Em outras palavras, ela pode agir como quiser. Essa fase de avadhūta é exatamente como o ar, que não se importa com nenhum obstáculo. A Bhagavad-gītā (6.34) diz o seguinte:
cañcalaṁ hi manaḥ kṛṣṇa
pramāthi balavad dṛḍham
tasyāhaṁ nigrahaṁ manye
vāyor iva suduṣkaram
“A mente é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte, ó Kṛṣṇa, e me parece que a subjugar é mais difícil do que controlar o vento.”
Assim como o ar ou o vento não podem ser contidos por nin­guém, da mesma forma, as duas narinas, situadas em um só lugar, gozam de seu objeto, o aroma, sem obstáculos. Na presença da língua, a boca continuamente saboreia toda espécie de alimentos deliciosos.
आपणो व्यवहारोऽत्र चित्रमन्धो बहूदनम् ।
पितृहूर्दक्षिण: कर्ण उत्तरो देवहू: स्मृत: ॥ १२ ॥
āpaṇo vyavahāro ’tra
citram andho bahūdanam
pitṛhūr dakṣiṇaḥ karṇa
uttaro devahūḥ smṛtaḥ

Synonyms

āpaṇaḥchamada Āpaṇa; vyavahāraḥfunção da língua; atra­aqui; citramde todas as variedades; andhaḥalimentos; bahūda­namchamada Bahūdana; pitṛ-hūḥchamado Pitṛhū; dakṣiṇaḥdireito; karṇaḥouvido; uttaraḥesquerdo; deva-hūḥDevahū; smṛtaḥchama-se.

Translation

A cidade chamada Āpaṇa representa a faculdade de falar da língua, e Bahūdana é a variedade de alimentos. O ouvido direito se chama portão de Pitṛhū, e o esquerdo se chama portão de Devahū.
प्रवृत्तं च निवृत्तं च शास्त्रं पञ्चालसंज्ञितम् ।
पितृयानं देवयानं श्रोत्राच्छ्रुतधराद्‌व्रजेत् ॥ १३ ॥
pravṛttaṁ ca nivṛttaṁ ca
śāstraṁ pañcāla-saṁjñitam
pitṛ-yānaṁ deva-yānaṁ
śrotrāc chruta-dharād vrajet

Synonyms

pravṛttamo processo de gozo dos sentidos; catambém; nivṛttamo processo de desapego; catambém; śāstramescritura; pañcālaPañcāla; saṁjñitamdescreve-se como; pitṛ-yānamindo a Pitṛloka; deva-yānamindo a Devaloka; śrotrātouvindo; śruta­-dharātpelo companheiro chamado Śrutadhara; vrajeté possível elevar-se.

Translation

Nārada Muni prosseguiu: A cidade chamada Dakṣiṇa-pañcāla representa as escrituras destinadas a orientar pravṛtti, o processo de gozo dos sentidos em atividades fruitivas. A outra cidade, chamada Uttara-pañcāla, representa as escrituras destinadas a diminuir as atividades fruitivas e aumentar o conhecimento. A entidade viva recebe diferentes espécies de conhecimento por intermédio dos dois ouvidos, e algumas entidades vivas são promovidas a Pitṛloka e outras a Devaloka. Tudo isso se torna possível através dos dois ouvidos.

Purport

SIGNIFICADO—Os Vedas são conhecidos como śruti, e o conhecimento recebido deles através de recepção auditiva se chama śruta-dhara. Como se afirma na Bhagavad-gītā, alguém pode ser promovido aos planetas dos semideuses ou aos planetas dos Pitās (antepassados), ou até mesmo aos planetas Vaikuṇṭha, simplesmente através do processo de ouvir. Essas coisas já foram explicadas em capítulos anteriores.
आसुरी मेढ्रमर्वाग्द्वार्व्यवायो ग्रामिणां रति: ।
उपस्थो दुर्मद: प्रोक्तो निऋर्तिर्गुद उच्यते ॥ १४ ॥
āsurī meḍhram arvāg-dvār
vyavāyo grāmiṇāṁ ratiḥ
upastho durmadaḥ prokto
nirṛtir guda ucyate

Synonyms

āsurīchamado Āsurī; meḍhramo órgão genital; arvākdos tolos e patifes; dvāḥportão; vyavāyaḥrealizando atividades sexuais; grāmiṇāmde homens comuns; ratiḥatração; upasthaḥa faculdade de procriação; durmadaḥDurmada; proktaḥchama-se; nirṛtiḥNirṛti; gudaḥânus; ucyatechama-se.

Translation

A cidade chamada Grāmaka, à qual se chega através do portão inferior chamado Āsurī [o órgão genital], destina-se ao sexo, o qual é muito agradável para homens comuns que não passam de tolos e patifes. A faculdade de procriação chama-se Durmada, e o ânus chama-se Nirṛti.

Purport

SIGNIFICADO—Com a degradação do mundo, a civilização torna-se demoníaca, e, para o homem comum, o ânus e o órgão genital são levados muito a sério como os centros de todas as atividades. Mesmo em um lugar tão sagrado como Vṛndāvana, Índia, homens sem inteligência exercem atividades do ânus e dos órgãos genitais como se elas fossem espirituais. Essas pessoas chamam-se sahajiyās. De acordo com a filosofia dessas pessoas, é possível elevar-se à plataforma espiritual através da prática sexual. Com estes versos do Śrīmad-Bhāgavatam, entretanto, compreendemos que os desejos de satisfação sexual se destinam aos arvāks, os mais baixos entre os homens. Corrigir esses tolos e patifes é muito difícil. Contudo, os desejos sexuais do homem comum são condenados nestes versos. A palavra dur­mada significa “erroneamente orientado”, e nirṛti significa “ativi­dade pecaminosa”. Apesar de isso indicar com clareza que a prática sexual é abominável e desencaminhadora, mesmo do ponto de vista ordinário, os sahajiyās ainda assim fazem-se passar por devotos que praticam atividades espirituais. Por essa razão, Vṛndāvana não é mais visitada por homens inteligentes. Muitas vezes nos perguntam por que estabelecemos nosso centro em Vṛndāvana. Do ponto de vista externo, pode-se concluir que Vṛndāvana se degenerou devido a essas atividades sahajiyās, mas, do ponto de vista espiritual, Vṛndāvana é o único lugar onde todos esses pecadores podem ser corrigidos, nascendo como cães, porcos e macacos. Vivendo em Vṛndāvana como um cão, porco ou macaco, a entidade viva pode elevar-se à plataforma espiritual na próxima vida.
वैशसं नरकं पायुर्लुब्धकोऽन्धौ तु मे श‍ृणु ।
हस्तपादौ पुमांस्ताभ्यां युक्तो याति करोति च ॥ १५ ॥
vaiśasaṁ narakaṁ pāyur
lubdhako ’ndhau tu me śṛṇu
hasta-pādau pumāṁs tābhyāṁ
yukto yāti karoti ca

Synonyms

vaiśasamchamado Vaiśasa; narakaminferno; pāyuḥo sen­tido funcional do ânus; lubdhakaḥchamado Lubdhaka (muito cobiçoso); andhaucegos; tuentão; mea mim; śṛṇuouve; hasta-pādaumãos e pernas; pumāna entidade viva; tābhyām­com elas; yuktaḥsendo ocupadas; yātivai; karotitrabalha; cae.

Translation

Ao se dizer que Purañjana foi a Vaiśasa, isso significa que ele foi ao inferno. Lubdhaka, o sentido funcional do ânus, o acompanha. Anteriormente, falei também de dois associados cegos. Deve-se entender que esses associados são as mãos e as pernas. Valendo-se das mãos e das pernas, a entidade viva realiza toda espécie de trabalhos e se move de um lado a outro.
अन्त:पुरं च हृदयं विषूचिर्मन उच्यते ।
तत्र मोहं प्रसादं वा हर्षं प्राप्नोति तद्गुणै: ॥ १६ ॥
antaḥ-puraṁ ca hṛdayaṁ
viṣūcir mana ucyate
tatra mohaṁ prasādaṁ vā
harṣaṁ prāpnoti tad-guṇaiḥ

Synonyms

antaḥ-puramresidência privada; cae; hṛdayamo coração; viṣūciḥo servo chamado Viṣūcīna; manaḥa mente; ucyatese diz; tatraali; mohamilusão; prasādamsatisfação; ou; harṣamjúbilo; prāpnotiobtém; tatda mente; guṇaiḥpelos modos da natureza.

Translation

A palavra antaḥ-pura se refere ao coração. A palavra viṣūcīna significa “indo a toda parte” e indica a mente. Dentro da mente, a entidade viva goza dos efeitos dos modos da natureza material. Tais efeitos causam ora ilusão, ora satisfação, ora júbilo.

Purport

SIGNIFICADO—A mente e a inteligência da entidade viva na existência material são afetadas pelos modos da natureza material, e, de acordo com o contato com os modos materiais, a mente está habituada a ir de um lado a outro. O coração sente satisfação, júbilo ou ilusão de acordo com os efeitos dos modos da natureza material. Na realidade, a entidade viva em sua condição material permanece inerte. São os modos da natureza material que atuam sobre a mente e o coração. Os resultados são desfrutados ou sofridos pela entidade viva. A Bhagavad-gītā (3.27) afirma claramente:
prakṛteḥ kriyamāṇāni
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
“Confusa, a alma espiritual que está sob a influência do falso ego julga-se a autora das atividades que, de fato, são executadas pelos três modos da natureza material.”
यथा यथा विक्रियते गुणाक्तो विकरोति वा ।
तथा तथोपद्रष्टात्मा तद्वृत्तीरनुकार्यते ॥ १७ ॥
yathā yathā vikriyate
guṇākto vikaroti vā
tathā tathopadraṣṭātmā
tad-vṛttīr anukāryate

Synonyms

yathā yathāassim como; vikriyateé agitada; guṇa-aktaḥassociada com os modos da natureza; vikaroticomo faz; ou; tathā tathāde forma semelhante; upadraṣṭāobservadora; ātmāa alma; tatda inteligência; vṛttīḥocupações; anukāryateimita.

Translation

Anteriormente, explicou-se que a rainha é a inteligência da entidade viva. Durante a vigília ou o sono, essa inteligência cria diferentes situações. Deixando-se influenciar pela inteligência conta­minada, a entidade viva imagina algo e simplesmente imita as ações e reações de sua inteligência.

Purport

SIGNIFICADO—A rainha de Purañjana é descrita nesta passagem como a própria inteligência. A inteligência age tanto durante o sono quanto durante a vigília, mas ela está contaminada pelos três modos da natureza material. Uma vez que a inteligência está contaminada, a entidade viva também está contaminada. No estado condicionado, a entidade viva age de acordo com sua inteligência contaminada. Apesar de permanecer como simples observadora, ela age, sendo forçada por uma inteligência contaminada, a qual, na realidade, é um agente passivo.
देहो रथस्त्विन्द्रियाश्व: संवत्सररयोऽगति: ।
द्विकर्मचक्रस्त्रिगुणध्वज: पञ्चासुबन्धुर: ॥ १८ ॥
मनोरश्मिर्बुद्धिसूतो हृन्नीडो द्वन्द्वकूबर: ।
पञ्चेन्द्रियार्थप्रक्षेप: सप्तधातुवरूथक: ॥ १९ ॥
आकूतिर्विक्रमो बाह्यो मृगतृष्णां प्रधावति ।
एकादशेन्द्रियचमू: पञ्चसूनाविनोदकृत् ॥ २० ॥
deho rathas tv indriyāśvaḥ
saṁvatsara-rayo ’gatiḥ
dvi-karma-cakras tri-guṇa-
dhvajaḥ pañcāsu-bandhuraḥ
mano-raśmir buddhi-sūto
hṛn-nīḍo dvandva-kūbaraḥ
pañcendriyārtha-prakṣepaḥ
sapta-dhātu-varūthakaḥ
ākūtir vikramo bāhyo
mṛga-tṛṣṇāṁ pradhāvati
ekādaśendriya-camūḥ
pañca-sūnā-vinoda-kṛt

Synonyms

dehaḥcorpo; rathaḥquadriga; tumas; indriyaos sentidos que adquirem conhecimento; aśvaḥos cavalos; saṁvatsaratotalidade de anos; rayaḥduração de vida; agatiḥsem avançar; dvi­duas; karmaatividades; cakraḥrodas; tritrês; guṇamodos da natureza; dhvajaḥbandeiras; pañcacinco; asuares vitais; bandhuraḥcativeiro; manaḥa mente; raśmiḥrédea; buddhiinteligência; sūtaḥquadrigário; hṛtcoração; nīḍaḥlocal de assento do cocheiro; dvandvadualidade; kūbaraḥas extremidades onde se amarram os tirantes; pañcacinco; indriya-arthaobjetos dos sentidos; prakṣe­paḥarmas; saptasete; dhātuelementos; varūthakaḥcober­turas; ākūtiḥtentativas dos cinco sentidos funcionais; vikramaḥ­poderes ou processos; bāhyaḥexternos; mṛga-tṛṣṇāmfalsa aspi­ração; pradhāvaticorre em busca de; ekādaśaonze; indriya­sentidos; camūḥsoldados; pañcacinco; sūnāinveja; vinoda­prazer; kṛtfazendo.

Translation

Nārada Muni continuou: Aquilo que mencionei como a quadriga era, na realidade, o corpo. Os sentidos são os cavalos que puxam essa quadriga. À medida que o tempo passa, ano após ano, esses cavalos correm sem obstáculos, mas, na verdade, eles não fazem pro­gresso algum. As atividades piedosas e ímpias são as duas rodas da quadriga. Os três modos da natureza material são as bandeiras da quadriga. As cinco classes de ar vital constituem o cativeiro da entidade viva, e a mente é considerada a rédea. A inteligência é o quadrigário. O coração é a boleia da quadriga, e as dualidades da vida, tais como prazer e dor, são as extremidades onde se amarram os tirantes. Os sete elementos são as coberturas da quadriga, e os sentidos funcionais são os cinco processos externos. Os onze sentidos são os soldados. Estando absorta em gozo dos sentidos, a enti­dade viva, sentada na quadriga, anseia pela satisfação de seus falsos desejos e corre em busca de gozo dos sentidos, vida após vida.

Purport

SIGNIFICADO—O enredamento da entidade viva no gozo dos sentidos é muito bem explicado nestes versos. A palavra saṁvatsara, significando “o progresso do tempo”, é significativa. Dia após dia, semana após semana, quinzena após quinzena, mês após mês, ano após ano, a entidade viva se enreda no progresso da quadriga. A quadriga se apoia sobre duas rodas, que são as atividades piedosas e ímpias. A entidade viva alcança determinada posição na vida, em uma espé­cie de corpo em particular, de acordo com suas atividades piedosas e ímpias. Porém, sua transmigração para diferentes corpos não deve ser aceita como progresso. A Bhagavad-gītā (4.9) explica o que é progresso verdadeiro. Tyaktvā dehaṁ punar janma naiti: faz pro­gresso verdadeiro quem não precisa aceitar outro corpo material. Como se afirma no Caitanya-caritāmṛta (Madhya 19.138):
eita brahmāṇḍa bhari’ ananta jīva-gaṇa
caurāśī-lakṣa yonite karaye bhramaṇa
A entidade viva vagueia por todo o universo e nasce em diferentes espécies de vida em diferentes planetas. Assim, ela sobe e desce, mas isso não é progresso verdadeiro. Progresso verdadeiro é escapar de uma vez por todas desse mundo material. Como se afirma na Bhagavad-gītā (8.16):
ābrahma-bhuvanāl lokāḥ
punar āvartino ’rjuna
mām upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate
“Partindo do planeta mais elevado no mundo material e descendo ao mais baixo, todos são lugares de sofrimento, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança a Minha morada, ó filho de Kuntī, jamais volta a nascer.” Mesmo que alguém seja promovido a Brahmaloka, o planeta mais elevado do universo, será obrigado a descer mais uma vez aos sistemas planetários inferiores. Assim, ele continuará vagando para cima e para baixo perpetuamente, sob a influência dos três modos da natureza material. Iludido, pensará que está progredindo. Uma pessoa assim é como um avião que circunda a Terra dia e noite, incapaz de deixar o campo de gravidade da Terra. Não há progresso de fato porque o avião está condicionado pela gravidade da Terra.
Assim como o rei se encontra sentado em uma quadriga, a entidade viva se encontra sentada no corpo. O assento é o coração, e ali fica a entidade viva, ocupada na luta pela vida, que continua sem sinal de progresso perpetuamente. Nas palavras de Narottama Dāsa Ṭhākura:
karma-kāṇḍa, jñāna-kāṇḍa, kevala viṣera bhāṇḍa,
amṛta baliyā yebā khāya
nānā yoni sadā phire, kadarya bhakṣaṇa kare,
tāra janma adhaḥ-pāte yāya
A entidade viva luta muito arduamente devido à influência da ativi­dade fruitiva e da especulação mental e simplesmente obtém uma espécie diferente de corpo, vida após vida. Ela come toda classe de besteiras e é condenada por suas atividades de gozo dos sentidos. Se alguém realmente quer progredir na vida, deve abandonar os processos de karma-kāṇḍa e jñāna-kāṇḍa, atividades fruitivas e especulação mental. Quem se fixa em consciência de Kṛṣṇa pode livrar-se do enredamento de nascimentos e mortes e da inútil batalha pela vida. Nestes versos, as palavras mṛga-tṛṣṇāṁ pradhāvati são muito significativas porque a entidade viva está influenciada pela sede de gozo dos sentidos. Ela é como um veado que vai ao deserto buscar água. No deserto, um animal busca por água inutilmente. É evidente que não existe água no deserto, e o animal simplesmente sacrifica sua vida na tentativa de encontrá-la. Todos planejam a felicidade futura pensando que, de algum modo, se puderem chegar a certo ponto, serão felizes. Na realidade, contudo, chegando a esse ponto, descobrem que não há felicidade alguma. Então, planejam ir cada vez mais adiante até chegar a outro ponto. Isso se chama mṛga-­tṛṣṇā, e sua base é o gozo dos sentidos neste mundo material.
संवत्सरश्चण्डवेग: कालो येनोपलक्षित: ।
तस्याहानीह गन्धर्वा गन्धर्व्यो रात्रय: स्मृता: ।
हरन्त्यायु: परिक्रान्त्या षष्ट्युत्तरशतत्रयम् ॥ २१ ॥
saṁvatsaraś caṇḍavegaḥ
kālo yenopalakṣitaḥ
tasyāhānīha gandharvā
gandharvyo rātrayaḥ smṛtāḥ
haranty āyuḥ parikrāntyā
ṣaṣṭy-uttara-śata-trayam

Synonyms

saṁvatsaraḥano; caṇḍa-vegaḥchamado Caṇḍavega; kālaḥtempo; yenapelo qual; upalakṣitaḥsimbolizado; tasyada duração de vida; ahānidias; ihanesta vida; gandharvāḥGandhar­vas; gandharvyaḥGandharvīs; rātrayaḥnoites; smṛtāḥsão compreendidos; harantieles tiram; āyuḥduração de vida; parikrāntyāviajando; ṣaṣṭisessenta; uttaraacima; śatacem; trayamtrês.

Translation

Aquilo que foi anteriormente explicado como Caṇḍavega, o poderoso tempo, está coberto por dias e noites, chamados Gandharvas e Gandharvīs. A duração de vida do corpo é gradualmente reduzida com o transcurso dos dias e noites, que são em número de trezentos e sessenta.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra parikrāntyā significa “viajando”. A entidade viva viaja em sua quadriga dia e noite, durante um ano que consiste em 360 dias e noites, ou mais. O progresso da vida é roubado pelo esforço desnecessário que se faz para cobrir esses 360 dias e noites da vida.
कालकन्या जरा साक्षाल्लोकस्तां नाभिनन्दति ।
स्वसारं जगृहे मृत्यु: क्षयाय यवनेश्वर: ॥ २२ ॥
kāla-kanyā jarā sākṣāl
lokas tāṁ nābhinandati
svasāraṁ jagṛhe mṛtyuḥ
kṣayāya yavaneśvaraḥ

Synonyms

kāla-kanyāa filha do Tempo; jarāvelhice; sākṣātdireta­mente; lokaḥtodas as entidades vivas; tāma ela; nanunca; abhinandatiacolhem; svasāramcomo sua irmã; jagṛheaceitou; mṛtyuḥmorte; kṣayāyapara a destruição; yavana-īśvaraḥo rei dos Yavanas.

Translation

Aquilo que foi descrito como Kālakanyā deve ser compreendido como a velhice. Ninguém deseja aceitar a velhice, mas Yavaneśvara [Yavana-rāja], que é a morte, aceita Jarā [a velhice] como sua irmã.

Purport

SIGNIFICADO—Encarcerado dentro do corpo, o ser vivo recebe Kālakanyā, a velhice, pouco antes da morte. Yavaneśvara é o emblema da morte, Yamarāja. Antes de ir à morada de Yamarāja, a entidade viva recebe Jarā, a velhice, a irmã de Yamarāja. Uma pessoa se sujeita à influência de Yavana-rāja e de sua irmã devido a atividades impiedosas. Aqueles que estão em consciência de Kṛṣṇa e ocupados em serviço devocional sob as instruções de Nārada Muni não estão sujeitos à influência de Yamarāja e sua irmã Jarā. Se alguém é consciente de Kṛṣṇa, ele vence a morte. Após deixar o corpo material, ele não aceita outro corpo material, senão que volta ao lar, volta ao Supremo. Isso é corroborado pela Bhagavad-gītā (4.9).
आधयो व्याधयस्तस्य सैनिका यवनाश्चरा: ।
भूतोपसर्गाशुरय: प्रज्वारो द्विविधो ज्वर: ॥ २३ ॥
एवं बहुविधैर्दु:खैर्दैवभूतात्मसम्भवै: ।
क्लिश्यमान: शतं वर्षं देहे देही तमोवृत: ॥ २४ ॥
प्राणेन्द्रियमनोधर्मानात्मन्यध्यस्य निर्गुण: ।
शेते कामलवान्ध्यायन्ममाहमिति कर्मकृत् ॥ २५ ॥
ādhayo vyādhayas tasya
sainikā yavanāś carāḥ
bhūtopasargāśu-rayaḥ
prajvāro dvi-vidho jvaraḥ
evaṁ bahu-vidhair duḥkhair
daiva-bhūtātma-sambhavaiḥ
kliśyamānaḥ śataṁ varṣaṁ
dehe dehī tamo-vṛtaḥ
prāṇendriya-mano-dharmān
ātmany adhyasya nirguṇaḥ
śete kāma-lavān dhyāyan
mamāham iti karma-kṛt

Synonyms

ādhayaḥperturbações da mente; vyādhayaḥperturbações do corpo ou doenças; tasyade Yavaneśvara; sainikāḥsoldados; yavanāḥYavanas; carāḥseguidores; bhūtade entidades vivas; upasargaem momentos de aflição; āśumuito em breve; rayaḥmuito poderoso; prajvāraḥchamado Prajvāra; dvi-vidhaḥduas espécies; jvaraḥfebre; evamassim; bahu-vidhaiḥde diferentes variedades; duḥkhaiḥpor tribulações; daivapela providência; bhūtapor outras entidades vivas; ātmapelo corpo e pela mente; sambhavaiḥproduzidos; kliśyamānaḥsujeita a sofrimentos; śatamcem; varṣamanos; deheno corpo; dehīa entidade viva; tamaḥ-vṛtaḥcoberta pela existência material; prāṇade vida; indriyados sentidos; manaḥda mente; dharmāncaracterísticas; ātmanià alma; adhyasyaatribuindo erroneamente; nir­guṇaḥembora transcendental; śetejaz; kāmade gozo dos sentidos; lavānem fragmentos; dhyāyanmeditando; mamameu; ahameu; itiassim; karma-kṛto ator.

Translation

Os seguidores de Yavaneśvara [Yamarāja] são chamados de soldados da morte, sendo conhecidos como as várias classes de perturbações pertinentes ao corpo e à mente. Prajvāra representa as duas espécies de febre: calor extremo e frio extremo – a febre tifoide e a pneumonia. A entidade viva deitada dentro do corpo é perturbada por muitas tribulações pertinentes à providência, a outras entidades vivas e a seus próprios corpo e mente. Apesar de toda espécie de tribulações, a entidade viva, sujeita às necessidades do corpo, da mente e dos sentidos e padecendo de várias espécies de doenças, deixa-se levar por muitos planos devido a seu desejo luxurioso de gozar do mundo. Embora transcendental a esta existência material, a entidade viva, por ignorância, aceita todos esses sofrimentos mate­riais sob o pretexto do falso egoísmo (“eu” e “meu”). Dessa maneira, ela vive por cem anos dentro deste corpo.

Purport

SIGNIFICADO—Os Vedas afirmam que asaṅgo hy ayaṁ puruṣaḥ: Na realidade, a enti­dade viva é distinta da existência material, pois a alma não é mate­rial. Na Bhagavad-gītā, também, declara-se que a entidade viva é a ener­gia superior, e os elementos materiais – terra, água, fogo, ar e assim por diante – são a energia inferior. Os elementos materiais descrevem-se, também, como bhinna, ou energia separada. Ao entrar em contato com a energia externa, a energia interna ou superior se sujeita a muitas tribulações. Na Bhagavad-gītā (2.14), o Senhor também diz que mātrā-sparśās tu kaunteya śītoṣṇa-sukha-duḥkha-dāḥ: Devido ao corpo material, a entidade viva se sujeita a muitas tribulações provocadas pelo ar, água, fogo, calor extremo, frio extremo, raios solares, comer em excesso, alimentos insalubres, desajustes dos três elementos do corpo (kapha, pitta e vāyu) e assim por diante. Os intestinos, a garganta, o cérebro e outras partes do corpo são afetadas por toda espécie de doenças, as quais são tão poderosas que se tornam fonte de extremo sofrimento para a enti­dade viva. A entidade viva, contudo, é diferente de todos esses ele­mentos materiais. As duas espécies de febre descritas neste verso podem ser explicadas em linguagem contemporânea como pneu­monia e tifo. Quando o corpo sofre de febre extrema, ocorre tifo e pneumonia, descritos nesta passagem como prajvāra. Existem ainda os sofrimentos causados por outras entidades vivas. O estado cobra impostos, e também há muitos assaltantes, ladrões e trapaceiros. Os sofrimentos provocados por outras entidades vivas chamam-se adhibhautika. Há também sofrimentos sob a forma de fome, peste, escassez, guerra, terremotos e assim por diante. Esses são causados pelos semideuses e outras fontes fora de nosso con­trole. Na verdade, as entidades vivas têm muitos inimigos, os quais são descritos para nos mostrar quão lastimável é esta existência material.
Conhecendo os sofrimentos básicos da existência material, todos devem sentir-se induzidos a escapar das garras materiais e voltar ao lar, voltar ao Supremo. Na verdade, a entidade viva não é de forma alguma feliz neste corpo material. Por causa do corpo, ela sente sede e fome e é influenciada pela mente, por palavras, pela ira, pelo estômago, pelos órgãos genitais, pelo ânus e assim por diante. Sofrimentos múltiplos circundam a entidade viva transcendental simples­mente porque ela deseja satisfazer seus sentidos neste mundo material. Basta ela se abster de atividades de gozo dos sentidos e aplicar seus sentidos a serviço do Senhor para todos os problemas da existência material diminuírem imediatamente. Então, avançando em consciência de Kṛṣṇa, ela se livrará de todas as tribulações e, após abandonar o corpo, voltará ao lar, voltará ao Supremo.
यदात्मानमविज्ञाय भगवन्तं परं गुरुम् ।
पुरुषस्तु विषज्जेत गुणेषु प्रकृते: स्वद‍ृक् ॥ २६ ॥
गुणाभिमानी स तदा कर्माणि कुरुतेऽवश: ।
शुक्लं कृष्णं लोहितं वा यथाकर्माभिजायते ॥ २७ ॥
yadātmānam avijñāya
bhagavantaṁ paraṁ gurum
puruṣas tu viṣajjeta
guṇeṣu prakṛteḥ sva-dṛk
guṇābhimānī sa tadā
karmāṇi kurute ’vaśaḥ
śuklaṁ kṛṣṇaṁ lohitaṁ vā
yathā-karmābhijāyate

Synonyms

yadāquando; ātmānama Alma Suprema; avijñāyaesquecendo-se; bhagavantama Suprema Personalidade de Deus; paramsupremo; gurumo instrutor; puruṣaḥa entidade viva; tuentão; viṣajjetaentrega-se; guṇeṣuaos modos; prakṛteḥda natureza material; sva-dṛkuma pessoa que pode ver seu próprio bem-estar; guṇa-abhimānīidentificada com os modos da natureza; saḥela; tadānesse momento; karmāṇiatividades fruitivas; kuruterealiza; avaśaḥespontaneamente; śuklambranco; kṛṣṇamnegro; lohitamvermelho; ou; yathāde acordo com; karmatrabalho; abhijāyatenasce.

Translation

A entidade viva, por natureza, tem independência diminuta para escolher sua própria boa ou má fortuna, mas, esquecendo-se de seu mestre supremo, a Personalidade de Deus, ela se entrega aos modos da natureza material. Estando influenciada pelos modos da nature­za material, ela se identifica com o corpo e, pelo interesse do corpo, apega-se a várias atividades. Às vezes, fica sob a influência do modo da ignorância, outras vezes, sob a influência do modo da paixão e, outras vezes, sob a influência do modo da bondade. Assim, a entidade viva obtém diferentes espécies de corpos sob os modos da natureza material.

Purport

SIGNIFICADO—Essas diferentes espécies de corpos são explicadas na Bhagavad-gītā (13.22):
puruṣaḥ prakṛti-stho hi
bhuṅkte prakṛtijān guṇān
kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya
sad-asad-yoni-janmasu
“A entidade viva dentro da natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza. Isso decorre de sua associação com essa natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de vida.”
Por estar em contato com os modos da natureza, a entidade viva obtém uma variedade de corpos entre as 8.400.000 formas. Explica­-se claramente aqui como a entidade viva tem uma pequena inde­pendência, indicada pela palavra sva-dṛk, significando “aquele que pode ver seu próprio bem-estar”. A posição constitucional da enti­dade viva é que ela é muito pequena, e ela pode desorientar-se em sua escolha. Pode ser que ela escolha imitar a Suprema Personalidade de Deus. Pode ser que um servo deseje começar seu próprio negó­cio e imitar seu patrão, e, quando escolhe fazê-lo, pode ser que deixe a proteção de seu patrão. Às vezes, ele fracassa e, às vezes, é bem-sucedido. De forma semelhante, a entidade viva, parte inte­grante de Kṛṣṇa, começa seu próprio negócio para competir com o Senhor. São muitos os que competem para alcançar a posição do Senhor, mas se tornar igual ao Senhor não é possível de modo algum. Assim, há uma grande luta pela vida no mundo material, uma vez que diferentes grupos tentam imitar o Senhor. O cativeiro material é causado pelo desvio do serviço ao Senhor e pela tentativa de imitá-lO. O Senhor é imitado por filósofos māyāvādīs que tentam tornar-se unos com o Senhor de maneira artificial. Quando os filó­sofos māyāvādīs julgam-se liberados, eles estão sob a ilusão da invenção mental. Ninguém pode tornar-se uno com Deus ou igual a Ele. Imaginar isso é continuar cativo na existência material.
शुक्लात्प्रकाशभूयिष्ठाँल्लोकानाप्नोति कर्हिचित् ।
दु:खोदर्कान् क्रियायासांस्तम:शोकोत्कटान् क्‍वचित् ॥ २८ ॥
śuklāt prakāśa-bhūyiṣṭhāḻ
lokān āpnoti karhicit
duḥkhodarkān kriyāyāsāṁs
tamaḥ-śokotkaṭān kvacit

Synonyms

śuklātpela bondade; prakāśapela iluminação; bhūyiṣṭhāncaracterizados; lokānplanetas; āpnotialcança; karhicitàs vezes; duḥkhainfelicidade; udarkāntendo como resultado final; kriyā-āyāsāncheia de atividades laboriosas; tamaḥ­escuridão; śokaem lamentação; utkaṭānabundando; kvacitàs vezes.

Translation

Aqueles que estão situados no modo da bondade agem piedosamente, de acordo com os preceitos védicos. Assim, eles se elevam aos sistemas planetários superiores, onde vivem os semideuses. Aqueles que estão sob a influência do modo da paixão se ocupam em várias classes de atividades produtivas nos sistemas planetários onde vivem os seres humanos. Do mesmo modo, os influenciados pelo modo da escuridão se sujeitam a várias classes de sofrimentos e vivem no reino animal.

Purport

SIGNIFICADO—Há três sistemas planetários – superior, intermediário e inferior. Aqueles que estão sob a influência do modo da bondade são promovidos aos sistemas planetários superiores – Brahmaloka (Sa­tyaloka), Tapoloka, Janaloka e Maharloka. Aqueles influenciados pelo modo da paixão situam-se em Bhūrloka e Bhuvarloka. Aqueles influen­ciados pelo modo da ignorância ganham seu lugar em Atala, Vitala, Sutala, Talātala, Mahātala, Rasātala, Pātāla ou no reino animal. Qualitativamente, a entidade viva é igual à Suprema Personalidade de Deus, mas, devido a seu esquecimento, ela obtém diferentes corpos em diferentes sistemas planetários. No momento atual, a sociedade humana está demasiadamente influenciada pelo modo da paixão, em consequência do que as pessoas se ocupam em trabalhar em grandes fábricas. Elas esquecem quão doloroso é viver nesses lugares. A Bhagavad-gītā descreve essas atividades como ugra-­karma, isto é, atividades dolorosas. Aqueles que se utilizam das energias do operário se chamam capitalistas, e os que realmente realizam o trabalho se chamam operários. Na verdade, ambos são capitalistas, e os operários estão nos modos de paixão e ignorância. O resultado é que a situação deles é sempre dolorosa. Em contraste com esses homens, existem aqueles que são influenciados pelo modo da bondade – os karmīs e os jñānīs. Os karmīs, sob a orientação das instruções védicas, tentam elevar-se a sistemas planetários superiores. Os jñānīs tentam fundir-se na existência do Brahman, o aspecto impessoal do Senhor. Dessa maneira, todas as classes de entidades vivas em várias espécies de vida coexistem dentro deste mundo material. Isso explica as formas de vida superiores e inferiores den­tro do mundo material.
क्‍वचित्पुमान् क्‍वचिच्च स्त्री क्‍वचिन्नोभयमन्धधी: ।
देवो मनुष्यस्तिर्यग्वा यथाकर्मगुणं भव: ॥ २९ ॥
kvacit pumān kvacic ca strī
kvacin nobhayam andha-dhīḥ
devo manuṣyas tiryag vā
yathā-karma-guṇaṁ bhavaḥ

Synonyms

kvacitàs vezes; pumānmasculino; kvacitàs vezes; ca­também; strīfeminino; kvacitàs vezes; nanão; ubhayamambos; andhacego; dhīḥaquele cuja inteligência; devaḥ­semideus; manuṣyaḥser humano; tiryakanimal, pássaro, quadrúpede; ou; yathāde acordo com; karmade atividades; guṇamas qualidades; bhavaḥnascimento.

Translation

Coberta pelo modo da ignorância na natureza material, a entidade viva ora é um ser masculino, ora um ser feminino, ora um eunuco, ora um ser humano, ora um semideus, ora um pássaro, ora uma fera e assim por diante. Dessa maneira, ela vaga dentro do mundo material. Sua aceitação de diferentes classes de corpos é provocada por suas atividades sob a influência dos modos da natureza.

Purport

SIGNIFICADO—De fato, a entidade viva é parte integrante do Senhor, em razão do que ela é espiritual em qualidade. A entidade viva nunca é material, e seu conceito material não passa de mero erro devido ao es­quecimento. Ela é tão brilhante como a Suprema Personalidade de Deus. Tanto o Sol quanto o brilho do Sol são muito refulgentes. O Senhor é como o Sol plenamente refulgente, e a entidade viva é como as pequenas partículas desse Sol, as quais constituem o oni­penetrante brilho solar. Ao ficarem cobertas pela nuvem de māyā, essas pequenas partículas perdem sua capacidade de brilhar. Quando a nuvem de māyā se vai, as partículas novamente se tornam brilhantes e reluzentes. Basta a entidade viva ficar coberta pela ignorância de māyā, ou escuridão, para deixar de entender sua relação com o Deus Supremo. De alguma forma, se ela se apresenta diante do Senhor, pode ver que é tão brilhante como o Senhor Supremo, apesar de não ser tão extensa como o Senhor. Como a entidade viva deseja imitar o Senhor Supremo, māyā a encobre. Não podemos imitar o Senhor, nem podemos nos tornar o desfruta­dor supremo. Isso não é possível, e, ao pensarmos que é, ficamos condicionados por māyā. Assim, o encarceramento da entidade viva sob as garras de māyā é provocado pelo esquecimento de sua relação com o Senhor Supremo.
Sob a influência de māyā, a entidade viva se torna exatamente como uma pessoa possuída por fantasmas. Uma pessoa assim fala toda espécie de disparates. Ao ficar coberta pela influência de māyā, a entidade viva se torna um falso cientista, filósofo, político ou socialista e, a todo momento, apresenta diferentes planos para o benefício da sociedade humana. Todos esses planos acabam fracassando porque são ilusórios. Dessa maneira, a entidade viva se esquece de sua posição como serva eterna do Senhor. Em vez disso, ela se torna serva de māyā. Em qualquer caso, ela permanece serva. Seu infortúnio é que, esquecendo-se de seu contato real com o Senhor Supremo, ela se torna serva de māyā. Como serva de māyā, pode tornar-se ou um rei, ou um cidadão comum, ou um brāhmaṇa, ou um śūdra e assim por diante. Ora será um homem feliz, um homem próspero, ora um pequeno inseto, ora estará no céu, ora estará no inferno. Ora será um semideus, ora será um demônio. Ora será um servo, ora será um amo. Dessa maneira, a entidade viva divaga por todo o universo. Apenas quando entra em contato com o mestre espiritual fidedigno é que ela pode entender sua verdadeira posição constitucional. Então, ela fica desgostosa com a existência material. Nesse momento, em plena consciência de Kṛṣṇa, ela se arre­pende de suas experiências passadas na existência material. Esse arrependimento é muito benéfico porque purifica a entidade viva da vida condicionada material. Então, ela ora ao Senhor para que a ocupe em Seu serviço, e, nesse momento, Kṛṣṇa a liberta das garras de māyā. O Senhor Kṛṣṇa explica isto na Bhagavad-gītā (7.14):
daivī hy eṣā guṇa-mayī
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
“Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpô-la.”
Só se pode escapar das garras de māyā pela graça de Kṛṣṇa. Não é possível escapar através de especulação mental ou de outras ativi­dades. Ao entender sua verdadeira posição pela graça de Kṛṣṇa, a entidade viva se mantém sempre apta em consciência de Kṛṣṇa e age corretamente. Assim, ao poucos, ela se livra por completo das garras de māyā. Quando fica forte em consciência de Kṛṣṇa, māyā não pode tocá-la. Dessa maneira, na companhia de devotos conscientes de Kṛṣṇa, a entidade viva pode livrar-se da contaminação da exis­tência material. A esse respeito, Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī diz:
tāte kṛṣṇa bhaje, kare gurura sevana
māyā-jāla chuṭe, pāya kṛṣṇera caraṇa
“No estado de consciência de Kṛṣṇa, a entidade viva se ocupa em serviço devocional sob a orientação do mestre espiritual. Dessa maneira, ela escapa das garras de māyā e se refugia aos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa.” (Cc. Madhya 22.25)
क्षुत्परीतो यथा दीन: सारमेयो गृहं गृहम् ।
चरन्विन्दति यद्दिष्टं दण्डमोदनमेव वा ॥ ३० ॥
तथा कामाशयो जीव उच्चावचपथा भ्रमन् ।
उपर्यधो वा मध्ये वा याति दिष्टं प्रियाप्रियम् ॥ ३१ ॥
kṣut-parīto yathā dīnaḥ
sārameyo gṛhaṁ gṛham
caran vindati yad-diṣṭaṁ
daṇḍam odanam eva vā
tathā kāmāśayo jīva
uccāvaca-pathā bhraman
upary adho vā madhye vā
yāti diṣṭaṁ priyāpriyam

Synonyms

kṣut-parītaḥdominado pela fome; yathācomo; dīnaḥpobre; sārameyaḥum cão; gṛhamde uma casa; gṛhama outra casa; carandivagando; vindatirecebe; yatcujo; diṣṭamconforme o destino; daṇḍamcastigo; odanamalimento; evadecerto; ou; tathāanalogamente; kāma-āśayaḥem busca de diferentes classes de desejos; jīvaḥa entidade viva; uccaalto; avacabaixo; pathāem um caminho; bhramandivagando: upari — alto; adhaḥbaixo; ou; madhyeno meio; ou; yātivai em direção a; diṣṭamconforme o destino; priyaagradável; apriyam­desagradável.

Translation

A entidade viva é exatamente como um cachorro, o qual, dominado pela fome, vai de porta em porta em busca de alguma comida. Con­forme seu destino, às vezes o cão é castigado e enxotado e, outras vezes, recebe um pouco de alimento para comer. Analogamente, a enti­dade viva, sob a influência de tantos desejos, divaga por diferentes espécies de vida, conforme seu destino. Às vezes, ela está no alto e, às vezes, está em baixo. Ora ela vai aos planetas celestiais, ora vai ao inferno, ora ruma aos planetas intermediários, e assim por diante.

Purport

SIGNIFICADO—A posição da entidade viva é comparada aqui à posição de um cachorro. Pode ser que o cão tenha um dono muito rico, ou talvez ele se torne um vira-latas. Se for o cão de um homem rico, ele viverá com muita opulência. Nos países ocidentais, às vezes ouvimos que o dono de um cão lhe deixa milhões de dólares em seu testamento. E, evidentemente, há muitos cães perambulando pelas ruas sem alimento. Portanto, comparar a existência condicionada da entidade viva à de um cão é algo muito apropriado. Um ser humano inteligente, contudo, pode entender que, para não ter que viver a vida de um cão, seria melhor tornar-se um cão de Kṛṣṇa. No mundo material, um cão ora é bem tratado, ora é um cachorro de rua. No mundo espiritual, porém, o cão de Kṛṣṇa é feliz por todo o sempre. Por esse motivo, Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura canta: vaiṣṇava ṭhākura, tomāra kukura, baliyā jānaha more. Dessa maneira, Bhaktivinoda Ṭhākura se ofe­rece para ser o cão de um vaiṣṇava. O cão sempre se mantém à porta de seu dono e não permite que ninguém desfavorável ao dono entre. Do mesmo modo, devemos ocupar-nos a serviço de um vaiṣṇava e tentar satisfazê-lo sob todos os aspectos. A menos que o façamos, não avançaremos espiritualmente. Não levando em conta o avanço espiritual, no mundo material, se alguém não desenvolve suas qualidades em bondade, não pode ser promovido ao sistema planetário superior. Como confirma a Bhagavad-gītā (14.18):
ūrdhvaṁ gacchanti sattva-sthā
madhye tiṣṭhanti rājasāḥ
jaghanya-guṇa-vṛtti-sthā
adho gacchanti tāmasāḥ
“Aqueles situados no modo da bondade gradualmente se elevam aos planetas superiores, aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres, e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais.”
Muitas são as variedades de vida nos diferentes sistemas plane­tários, e elas surgem devido ao fato de a entidade viva desenvolver suas qualidades nos modos de bondade, paixão e ignorância. Estando em bondade, ela é promovida aos sistemas superiores; estando em paixão, permanece nos sistemas intermediários, e, estando em ignorância, é precipitada nas espécies de vida inferiores.
दु:खेष्वेकतरेणापि दैवभूतात्महेतुषु ।
जीवस्य न व्यवच्छेद: स्याच्चेत्तत्तत्प्रतिक्रिया ॥ ३२ ॥
duḥkheṣv ekatareṇāpi
daiva-bhūtātma-hetuṣu
jīvasya na vyavacchedaḥ
syāc cet tat-tat-pratikriyā

Synonyms

duḥkheṣuquanto às aflições; ekatareṇade uma espécie; apimesmo; daivaprovidência; bhūtaoutras entidades vivas; ātmao corpo e a mente; hetuṣupor causa de; jīvasyada entidade viva; nanunca; vyavacchedaḥeliminar; syāté possível; cetembora; tat-tatdesses sofrimentos; pratikriyāneutralização.

Translation

As entidades vivas procuram neutralizar as diferentes condições dolorosas pertinentes à providência, a outras entidades vivas ou ao corpo e à mente. Mesmo assim, elas são obrigadas a permanecer condicionadas pelas leis da natureza, apesar de todas as tentativas de contrariar essas leis.

Purport

SIGNIFICADO—Assim como um cão vaga de um lado a outro em troca de um pedaço de pão ou de pancadas, da mesma forma, a entidade viva divaga perpetuamente, tentando ser feliz e fazendo muitos planos para neutralizar os sofrimentos materiais. Essa é a chamada luta pela vida. Na verdade, podemos ver em nossas vidas diárias como somos forçados a fazer planos para afastar as condições de sofrimento. Se queremos escapar de uma condição dolorosa, somos forçados a nos sujeitar a outra espécie de condição dolorosa. O homem pobre sofre por falta de dinheiro, mas, se ele quer se tornar rico, é obri­gado a pelejar de muitas maneiras. Na verdade, esse não é um pro­cesso válido de neutralização, mas sim uma armadilha da energia ilusória. Se uma pessoa não se esforça para remediar sua situação, mas fica satisfeita com sua posição, sabendo que obteve essa posição através de suas atividades passadas, ela pode, ao invés disso, ocupar sua energia para desenvolver a consciência de Kṛṣṇa. Isso é recomendado em toda a literatura védica.
tasyaiva hetoḥ prayateta kovido
na labhyate yad bhramatām upary adhaḥ
tal labhyate duḥkhavad anyataḥ sukhaṁ
kālena sarvatra gabhīra-raṁhasā
“Pessoas realmente inteligentes e com inclinação filosófica devem esforçar-se apenas por esse fim significativo, o qual não é obtenível mesmo que se vagueie desde o planeta mais elevado [Brahmaloka] até o mais baixo [Pātāla]. Quanto à felicidade obtida do gozo dos sentidos, ela pode ser alcançada naturalmente no decorrer do tempo, assim como no decorrer do tempo obtemos sofrimentos, muito embora não os desejemos.” (Śrīmad-Bhāgavatam 1.5.18) Todos devem simplesmente tentar desenvolver sua consciência de Kṛṣṇa e não perder tempo tentando melhorar sua condição material. Na verdade, não é possível melhorar a condição material. O processo de melhora acarreta a aceitação de outra condição dolorosa. Con­tudo, se nos esforçarmos para melhorar nossa consciência de Kṛṣṇa, as aflições da vida material desaparecerão sem esforço extrínseco. Portanto, Kṛṣṇa promete que kaunteya pratijānīhi na me bhaktaḥ praṇaśyati: “Ó filho de Kuntī, declara ousadamente que Meu devoto jamais perece.” (Bhagavad-gītā 9.31) Quem adotar o caminho do ser­viço devocional jamais será derrotado, apesar de todos os sofrimentos do corpo e da mente e apesar de todos os sofrimentos provocados por outras entidades vivas e pela providência, sofrimentos que estão além de nosso controle.
यथा हि पुरुषो भारं शिरसा गुरुमुद्वहन् ।
तं स्कन्धेन स आधत्ते तथा सर्वा: प्रतिक्रिया: ॥ ३३ ॥
yathā hi puruṣo bhāraṁ
śirasā gurum udvahan
taṁ skandhena sa ādhatte
tathā sarvāḥ pratikriyāḥ

Synonyms

yathācomo; hidecerto; puruṣaḥum homem; bhāramuma carga; śirasāsobre a cabeça; gurumpesada; udvahancarregando; tamesta; skandhenano ombro; saḥele; ādhattepõe; tathāde modo semelhante; sarvāḥtodas; pratikriyāḥneutralizações.

Translation

Um homem poderá carregar uma carga sobre sua cabeça e, ao sentir que ela está muito pesada, descansará sua cabeça, colocando a carga sobre o ombro. Dessa maneira, ele tentará aliviar-se do peso. Contudo, qualquer processo que ele invente para anular a carga não fará nada mais do que mudar a mesma carga de um lugar para o outro.

Purport

SIGNIFICADO—É boa esta comparação de tentar transferir uma carga de um lugar para o outro. Cansando-se de transportar uma carga sobre sua cabeça, o homem a colocará sobre seu ombro. Isso não quer dizer que ele se livrou do esforço de transportar a carga. De modo semelhante, em nome de civilização, a sociedade humana está criando uma espécie de incômodo para evitar outra espécie de incômodo. Na civilização contemporânea, vemos que se fabricam muitos automó­veis para nos transportar rapidamente de um lugar a outro, mas, com isso, criamos outros problemas. Temos de construir muitas rodovias, apesar do que essas rodovias são insuficientes para enfrentar os congestionamentos de automóveis e os engarrafamentos de tráfego. Existem, também, problemas de poluição do ar e de falta de combustível. Concluindo, os processos que inventamos para remediar ou minimizar nossas aflições não findam realmente nossas dores. Tudo isso não passa de ilusão. Simplesmente troca­mos a carga da cabeça para o ombro. O único processo verdadeiro pelo qual podemos minimizar nossos problemas é rendendo-nos à Suprema Personalidade de Deus e nos entregando à Sua proteção. O Senhor, sendo todo-poderoso, pode fazer arranjos para mitigar nossa vida sofrida na existência material.
नैकान्तत: प्रतीकार: कर्मणां कर्म केवलम् ।
द्वयं ह्यविद्योपसृतं स्वप्ने स्वप्न इवानघ ॥ ३४ ॥
naikāntataḥ pratīkāraḥ
karmaṇāṁ karma kevalam
dvayaṁ hy avidyopasṛtaṁ
svapne svapna ivānagha

Synonyms

nanunca; ekāntataḥem última análise; pratīkāraḥanula­ção; karmaṇāmde diferentes atividades; karmaoutra atividade; kevalamsomente; dvayamambas; hiporque; avidyādevido à ilusão; upasṛtamaceito; svapneem um sonho; svapnaḥum sonho; ivacomo; anaghaó tu que estás livre de atividades pecaminosas.

Translation

Nārada prosseguiu: Ó tu que estás livre de toda atividade pecaminosa! Ninguém pode neutralizar os efeitos de atividades fruitivas simplesmente inventando uma atividade diferente, desprovida de consciência de Kṛṣṇa. Todas essas atividades devem-se à nossa ignorância. Quando temos um sonho incômodo, não podemos nos livrar dele com uma alucinação incômoda. Só é possível neutralizar um sonho despertando. Do mesmo modo, nossa existência material deve-se à nossa ignorância e ilusão. A menos que despertemos para a consciência de Kṛṣṇa, não poderemos nos livrar desses sonhos. Para darmos a solução última de todos os problemas, devemos desper­tar para a consciência de Kṛṣṇa.

Purport

SIGNIFICADO—Há duas espécies de atividade fruitiva. Podemos colocar a carga sobre a cabeça, ou podemos colocá-la sobre o ombro. Na reali­dade, não faz diferença onde se mantém a carga. A transferência, contudo, está ocorrendo sob o nome de neutralização. A esse respeito, Prahlāda Mahārāja disse que tolos e patifes no mundo material fazem planos muito exuberantes de conforto corpóreo, igno­rando que esses arranjos, mesmo que exitosos, são simplesmente māyā. Há pessoas trabalhando duramente, dia e noite, em busca da felicidade ilusória do corpo. Não é assim que se alcança a felici­dade. Para tal, é preciso escapar deste enredamento material e voltar ao lar, voltar ao Supremo. Essa é a verdadeira felicidade. Portanto, os Vedas prescrevem: “Não permaneças na escuridão deste mundo material. Vai ao encontro da luz do mundo espiritual.” Para anular a aflição deste corpo material, somos forçados a submeter-nos a uma outra condição aflitiva. Ambas as situações não passam de ilusão. Não se ganha nada em aceitar um problema para remediar outro problema. Em conclusão, ninguém poderá ser perpetuamente feliz enquanto existir neste mundo material. O único remédio é escapar deste mundo material de uma vez por todas e voltar ao lar, voltar ao Supremo.
अर्थे ह्यविद्यमानेऽपि संसृतिर्न निवर्तते ।
मनसा लिङ्गरूपेण स्वप्ने विचरतो यथा ॥ ३५ ॥
arthe hy avidyamāne ’pi
saṁsṛtir na nivartate
manasā liṅga-rūpeṇa
svapne vicarato yathā

Synonyms

arthecausa real; hidecerto; avidyamānenão existindo; apiembora; saṁsṛtiḥmaterial; nanão; nivartatecessa; manasāpela mente; liṅga-rūpeṇapela forma sutil; svapneem um sonho; vicarataḥagindo; yathācomo.

Translation

Às vezes, sofremos porque vemos um tigre em um sonho ou uma serpente em uma visão, mas, na realidade, não existe nem tigre nem serpente. Assim, criamos uma situação de forma sutil e sofremos as consequências. Não podemos mitigar esses sofrimentos a menos que despertemos de nosso sonho.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma nos Vedas, a entidade viva é sempre distinta das duas espécies de corpos materiais – o sutil e o grosseiro. Todos os nossos sofrimentos devem-se a esses corpos materiais. Explica-se isso na Bhagavad-gītā (2.14):
mātrā-sparśās tu kaunteya
śītoṣṇa-sukha-duḥkha-dāḥ
āgamāpāyino ’nityās
tāṁs titikṣasva bhārata
“Ó filho de Kuntī, o aparecimento temporário da felicidade e da aflição, e o seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Eles surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e precisa-se aprender a tolerá-los sem se perturbar.” O Senhor Kṛṣṇa informou assim a Arjuna que todas as aflições provocadas pelo corpo vêm e vão. É preciso aprender a tolerá-las. A existência material é a causa de todos os nossos sofrimentos, pois não sofre­ríamos se estivéssemos fora da condição material. Os Vedas, por­tanto, prescrevem que todos devem realmente entender que não são materiais, mas sim Brahman (ahaṁ brahmāsmi). Só pode compreender isso plenamente quem se dedica a atividades de Brahman, a saber, o serviço devocional. Para libertar-se das condições materiais, é preciso adotar a consciência de Kṛṣṇa. Esse é o único remédio.
अथात्मनोऽर्थभूतस्य यतोऽनर्थपरम्परा ।
संसृतिस्तद्वय‍वच्छेदो भक्त्या परमया गुरौ ॥ ३६ ॥
वासुदेवे भगवति भक्तियोग: समाहित: ।
सध्रीचीनेन वैराग्यं ज्ञानं च जनयिष्यति ॥ ३७ ॥
athātmano ’rtha-bhūtasya
yato ’nartha-paramparā
saṁsṛtis tad-vyavacchedo
bhaktyā paramayā gurau
vāsudeve bhagavati
bhakti-yogaḥ samāhitaḥ
sadhrīcīnena vairāgyaṁ
jñānaṁ ca janayiṣyati

Synonyms

athaportanto; ātmanaḥda entidade viva; artha-bhūtasyavendo seu verdadeiro interesse; yataḥde que; anarthade todas as coisas indesejáveis; param-parāuma série contínua; saṁsṛtiḥ­existência material; tatdesta; vyavacchedaḥparando; bhaktyā­pelo serviço devocional; paramayāimaculado; gurauao Senhor Supremo ou Seu representante; vāsudeveVāsudeva; bhagavatia Suprema Personalidade de Deus; bhakti-yogaḥserviço devo­cional; samāhitaḥaplicado; sadhrīcīnenapor completo; vairāgyamdesapego; jñānamconhecimento pleno; cae; janayiṣyatifará com que se manifeste.

Translation

O verdadeiro interesse da entidade viva é escapar da ignorância que faz com que ela sofra repetidos nascimentos e mortes. O único remédio é entregar-se à Suprema Personalidade de Deus através de Seu representante. A menos que prestemos serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, Vāsudeva, não temos possibili­dade de desapegar-nos por completo deste mundo material, nem nos é possível manifestar verdadeiro conhecimento.

Purport

SIGNIFICADO—É assim que nos desapegamos da condição material artificial. O único remédio é adotar a consciência de Kṛṣṇa e ocupar-se constantemente em serviço devocional ao Senhor Vāsudeva, a Suprema Personalidade de Deus. Todos se esforçam em ser felizes, e o processo adotado para alcançar essa felicidade se chama interesse pessoal. Infelizmente, a alma condicionada divagando dentro deste mundo material não sabe que sua meta última de interesse pessoal é Vāsu­deva. Saṁsṛti, ou existência material, começa com o ilusório conceito de vida corpórea e, com base nesse conceito, segue-se uma série de coisas indesejáveis (anarthas). Essas coisas indesejáveis são, na verdade, desejos mentais de várias espécies de gozo dos sentidos. Dessa maneira, aceitam-se diferentes classes de corpos dentro deste mundo material. Antes de mais nada, é preciso controlar a mente para que os desejos da mente possam purificar-se. O Nārada­-pañcarātra descreve esse processo como sarvopādhi-vinirmuktaṁ tat paratvena nirmalam. Sem purificar a mente, não há possibili­dade de livrar-se da condição material. Como se afirma no Śrīmad-­Bhāgavatam (1.7.6):
anarthopaśamaṁ sākṣād
bhakti-yogam adhokṣaje
lokasyājānato vidvāṁś
cakre sātvata-saṁhitām
“Os sofrimentos materiais da entidade viva, que são supérfluos para ela, podem ser diretamente mitigados através do processo unitivo de serviço devocional. Contudo, a massa popular não sabe disso, em razão do que o erudito Vyāsadeva compilou esta literatura védica, que está relacionada com a Verdade Suprema.” Anarthas, coisas indesejáveis, transferem-se de uma vida corpórea para a outra. Para escapar desse enredamento, deve-se adotar o serviço devocional ao Senhor Vāsudeva, Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus. A palavra guru é muito significativa a esse respeito. A palavra guru pode ser tradu­zida como “pesado”, ou “o supremo”. Em outras palavras, o guru é o mestre espiritual. Śrīla Ṛṣabhadeva aconselhava Seus filhos dizendo que gurur na sa syāt na mocayed yaḥ samupeta-mṛtyum: “Ninguém deve assumir o posto de mestre espiritual a menos que seja capaz de libertar seu discípulo do ciclo de nascimentos e mortes.” (Śrīmad-Bhāgavatam 5.5.18) A existência material, na verdade, é uma cadeia de ações e reações provocadas por diferentes espécies de atividades fruitivas. Essa é a causa de nascimentos e mortes. Só pode parar este processo quem se ocupa a serviço de Vāsudeva.
Bhakti refere-se àquelas atividades realizadas a serviço do Senhor Vāsudeva. Uma vez que o Senhor Vāsudeva é o Supremo, devemos ocupar-nos a serviço dEle, e não a serviço dos semideuses. O ser­viço devocional começa a partir da fase neófita – a fase de seguir as regras e regulações – e estende-se até se chegar ao serviço amoroso espontâneo ao Senhor. A finalidade de todas as fases é satisfazer o Senhor Vāsudeva. Quando alguém é perfeitamente avançado em ser­viço devocional a Vāsudeva, ele se desapega por completo do ser­viço ao corpo, isto é, da posição a ele atribuída na existência material. Após se desapegar assim, ele se torna deveras perfeito em conhecimento e ocupa-se com perfeição a serviço do Senhor Vāsu­deva. Śrī Caitanya Mahāprabhu diz que jīvera ‘svarūpa’ haya — kṛṣṇera ‘nitya-dāsa’: “Toda entidade viva, por posição cons­titucional, é serva eterna de Kṛṣṇa.” Tão logo alguém se ocupe em servir o Senhor Vāsudeva, ele atinge sua posição constitucional normal. Essa posição se chama “estado liberado”. Muktir hitvānyathā-rūpaṁ svarūpeṇa vyavasthitiḥ: no estado liberado, situamo-nos em nossa posição consciente de Kṛṣṇa original. Abandonamos todos os compromissos com o serviço à matéria, compromissos inventados sob os nomes de serviço social, serviço nacional, serviço comunitá­rio, serviço canino, serviço automobilístico e tantos outros serviços conduzidos sob a ilusão de “eu” e “meu”. Como se explica no segundo capítulo do primeiro canto Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.7):
vāsudeve bhagavati
bhakti-yogaḥ prayojitaḥ
janayaty āśu vairāgyaṁ
jñānaṁ ca yad ahaitukam
“Aquele que presta serviço devocional à Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, adquire imediatamente conhecimento imotivado e desapego do mundo.” Assim, todos devem ocupar-se em servir Vāsudeva sem desejos materiais, especulação mental ou atividades fruitivas.
सोऽचिरादेव राजर्षे स्यादच्युतकथाश्रय: ।
श‍ृण्वत: श्रद्दधानस्य नित्यदा स्यादधीयत: ॥ ३८ ॥
so ’cirād eva rājarṣe
syād acyuta-kathāśrayaḥ
śṛṇvataḥ śraddadhānasya
nityadā syād adhīyataḥ

Synonyms

saḥisto; acirātmuito em breve; evadecerto; rājā-ṛṣeó melhor dos reis; syāttorna-se; acyutada Suprema Personalidade de Deus; kathānarrações; āśrayaḥdependendo de; śṛṇvataḥde alguém que está ouvindo; śraddadhānasyafiel; nityadāsempre; syāttorna-se; adhīyataḥpelo cultivo.

Translation

Ó melhor dos reis, alguém que é fiel, que está sempre ouvindo as glórias da Suprema Personalidade de Deus, que sempre se ocupa no cultivo da consciência de Kṛṣṇa e em ouvir a respeito das atividades do Senhor, muito em breve se habilita a ver a Suprema Personalidade de Deus face a face.

Purport

SIGNIFICADO—Ocupação constante no transcendental serviço amoroso a Vāsu­deva significa ouvir constantemente as glórias do Senhor. Os princípios de bhakti-yogaśravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam/ arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ sakhyam ātma-nivedanam – ­são o único meio pelo qual se pode alcançar a perfeição. Pelo simples fato de ouvir as glórias do Senhor, elevamo-nos à posição transcendental.
यत्र भागवता राजन् साधवो विशदाशया: ।
भगवद्गुणानुकथनश्रवणव्यग्रचेतस: ॥ ३९ ॥
तस्मिन्महन्मुखरिता मधुभिच्चरित्र-
पीयूषशेषसरित: परित: स्रवन्ति ।
ता ये पिबन्त्यवितृषो नृप गाढकर्णै-
स्तान्न स्पृशन्त्यशनतृड्भयशोकमोहा: ॥ ४० ॥
yatra bhāgavatā rājan
sādhavo viśadāśayāḥ
bhagavad-guṇānukathana-
śravaṇa-vyagra-cetasaḥ
tasmin mahan-mukharitā madhubhic-caritra-
pīyūṣa-śeṣa-saritaḥ paritaḥ sravanti
tā ye pibanty avitṛṣo nṛpa gāḍha-karṇais
tān na spṛśanty aśana-tṛḍ-bhaya-śoka-mohāḥ

Synonyms

yatraonde; bhāgavatāḥgrandes devotos; rājanó rei; sā­dhavaḥpessoas santas; viśada-āśayāḥliberais; bhagavatda Suprema Personalidade de Deus; guṇaas qualidades; anukathanarecitar regularmente; śravaṇaouvir; vyagraávida; cetasaḥcuja consciência; tasmin; mahatde grandes pessoas santas; mukharitāḥemanando das bocas; madhu-bhitdo matador do demônio Madhu; caritraas atividades ou o caráter; pīyūṣade néctar; śeṣade sobra; saritaḥrios; paritaḥao redor; sravantifluem; tāḥtodos eles; yeaqueles que; pibantibebem; avitṛṣaḥsem ficarem satisfeitos; nṛpaó rei; gāḍhaatentos; karṇaiḥcom seus ouvidos; tāna eles; nanunca; spṛśantitocam; aśanafome; tṛṭ sede; bhayamedo; śokalamentação; mohāḥilusão.

Translation

Meu querido rei, no lugar onde vivem os devotos puros, seguindo as regras e regulações e, deste modo, puramente conscientes e ocupados, com grande avidez, em ouvir e cantar as glórias da Suprema Personalidade de Deus – nesse lugar, se alguém obtiver a oportunidade de ouvir o constante fluir do néctar que emana deles, o qual é exatamente como as ondas de um rio, haverá de se esquecer das necessidades da vida – ou seja, da fome e da sede – e ficará imune a toda espécie de medo, lamentação e ilusão.

Purport

SIGNIFICADO—O cultivo de consciência de Kṛṣṇa é possível onde grandes devotos vivem juntos e ocupam-se constantemente em ouvir e cantar as glórias do Senhor. Em um lugar santo como Vṛndāvana, há muitos devotos ocupados constantemente em cantar e ouvir as glórias do Senhor. Se alguém tem a oportunidade de ouvir devotos puros em um lugar assim, permitindo que o fluxo constante do rio de néctar emane da boca dos devotos puros, então o cultivo de consciência de Kṛṣṇa se torna muito fácil. Aquele que se ocupa em ouvir constantemente as glórias do Senhor decerto se eleva acima do conceito corpó­reo. Quando alguém está no conceito corpóreo, ele sente as dores da fome e da sede, do medo, da lamentação e da ilusão. Contudo, quando alguém se ocupa em ouvir e cantar as glórias do Senhor, ele transcende o conceito corpóreo.
A expressão bhagavad-guṇānukathana-śravaṇa-vyagra-cetasaḥ, significando “sempre ansiosos por encontrar o lugar onde ouvem e cantam as glórias do Senhor”, é importante neste verso. Um homem de negócios está sempre muito ansioso por ir a um lugar onde se façam negócios. Do mesmo modo, um devoto está muito ansioso por ouvir algo dos lábios de devotos liberados. Logo que alguém ouve as glórias do Senhor da parte de devotos liberados, ele imediatamente se impregna com a consciência de Kṛṣṇa. Confirma-se isso, também, em outro verso:
satāṁ prasaṅgān mama vīrya-saṁvido
bhavanti hṛt-karṇa-rasāyanāḥ kathāḥ
taj-joṣaṇād āśv apavarga-vartmani
śraddhā ratir bhaktir anukramiṣyati
“Na companhia de devotos puros, a discussão dos passatempos e atividades da Suprema Personalidade de Deus é muito agradável e satisfatória ao ouvido e ao coração. Quem cultiva tal conhecimento gradualmente avança no caminho da liberação e, em seguida, liberta-­se, fixando sua atração. É então que começam a devoção e o ser­viço devocional verdadeiros.” (Śrīmad-Bhāgavatam 3.25.25) Na companhia de devotos puros, apegamo-nos a ouvir e cantar as glórias do Senhor. Dessa maneira, podemos cultivar a consciência de Kṛṣṇa e, tão logo esse cultivo avance, tornamo-nos fiéis ao Senhor, devota­dos ao Senhor e apegados ao Senhor, e assim podemos alcançar muito rapi­damente a plena consciência de Kṛṣṇa. O segredo do sucesso no cultivo da consciência de Kṛṣṇa é ouvir a pessoa certa. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa nunca se deixa perturbar pelas necessidades corpóreas – a saber, comer, dormir, acasalar-se e defender-se.
एतैरुपद्रुतो नित्यं जीवलोक: स्वभावजै: ।
न करोति हरेर्नूनं कथामृतनिधौ रतिम् ॥ ४१ ॥
etair upadruto nityaṁ
jīva-lokaḥ svabhāvajaiḥ
na karoti harer nūnaṁ
kathāmṛta-nidhau ratim

Synonyms

etaiḥpor essas; upadrutaḥperturbada; nityamsempre; jīva­-lokaḥa alma condicionada no mundo material; sva-bhāva-jaiḥnatural; na karotinão faz; hareḥda Suprema Personalidade de Deus; nūnamdecerto; kathādas palavras; amṛtade néctar; nidhauno oceano; ratimapego.

Translation

Como a alma condicionada vive sendo perturbada pelas necessidades corpóreas, tais como fome e sede, ela tem pouquíssimo tempo para cultivar apego à audição das palavras nectáreas da Suprema Personalidade de Deus.

Purport

SIGNIFICADO—A menos que alguém esteja na companhia dos devotos, ele não pode cultivar a consciência de Kṛṣṇa. Nirjana-bhajana – o cultivo da consciência de Kṛṣṇa em um lugar solitário – não é possível para o neófito, pois ele será perturbado pelas necessidades corpóreas (comer, dormir, acasalar-se e defender-se). Estando assim perturbado, ninguém pode cultivar a consciência de Kṛṣṇa. Portanto, vemos que os devo­tos conhecidos como sahajiyās, que tornam tudo muito fácil, não se associam com os devotos avançados. Semelhantes pessoas, em nome de atividades devocionais, viciam-se em toda espécie de atos pecaminosos – sexo ilícito, intoxicação, jogos de azar e consumo de carne. Há muitos pseudodevotos que se fazem passar por devotos enquanto se ocupam nessas atividades pecaminosas. Em outras palavras, alguém influenciado por atividades pecaminosas não pode ser aceito como uma pessoa consciente de Kṛṣṇa. Como se indica neste verso, uma pessoa viciada em vida pecaminosa não pode desenvolver a consciên­cia de Kṛṣṇa.
प्रजापतिपति: साक्षाद्भगवान् गिरिशो मनु: ।
दक्षादय: प्रजाध्यक्षा नैष्ठिका: सनकादय: ॥ ४२ ॥
मरीचिरत्र्यङ्गिरसौ पुलस्त्य: पुलह: क्रतु: ।
भृगुर्वसिष्ठ इत्येते मदन्ता ब्रह्मवादिन: ॥ ४३ ॥
अद्यापि वाचस्पतयस्तपोविद्यासमाधिभि: ।
पश्यन्तोऽपि न पश्यन्ति पश्यन्तं परमेश्वरम् ॥ ४४ ॥
prajāpati-patiḥ sākṣād
bhagavān giriśo manuḥ
dakṣādayaḥ prajādhyakṣā
naiṣṭhikāḥ sanakādayaḥ
marīcir atry-aṅgirasau
pulastyaḥ pulahaḥ kratuḥ
bhṛgur vasiṣṭha ity ete
mad-antā brahma-vādinaḥ
adyāpi vācas-patayas
tapo-vidyā-samādhibhiḥ
paśyanto ’pi na paśyanti
paśyantaṁ parameśvaram

Synonyms

prajāpati-patiḥBrahmā, o pai de todos os progenitores; sākṣātdiretamente; bhagavāno poderosíssimo; giriśaḥsenhor Śiva; manuḥManu; dakṣa-ādayaḥliderados pelo rei Dakṣa; prajā­-adhyakṣāḥos governantes da humanidade; naiṣṭhikāḥos fortes brahmacārīs; sanaka-ādayaḥliderados por Sanaka; marīciḥMa­rīci; atri-aṅgirasauAtri e Aṅgirā; pulastyaḥPulastya; pulahaḥ­Pulaha; kratuḥKratu; bhṛguḥBhṛgu; vasiṣṭhaḥVasiṣṭha; iti­assim; etetodos eles; mat-antāḥterminando comigo; brahma­vādinaḥbrāhmaṇas, oradores da literatura védica; adya apiaté hoje; vācaḥ-patayaḥmestres da oratória; tapaḥausteridades; vidyāconhecimento; samādhibhiḥe pela meditação; paśyantaḥobservando; apiembora; na paśyantinão observem; paśyantamaquele que vê; parama-īśvarama Suprema Personalidade de Deus.

Translation

O poderosíssimo senhor Brahmā, o pai de todos os progenitores; o senhor Śiva; Manu, Dakṣa e outros governantes da humanidade; os quatro santos brahmacārīs de primeira classe, liderados por Sana­ka e Sanātana; os grandes sábios Marīci, Atri, Aṅgirā, Pulastya, Pulaha, Kratu, Bhṛgu e Vasiṣṭha, e minha humilde pessoa [Nārada] somos todos brāhmaṇas resolutos, capazes de falar com autoridade sobre a literatura védica. Nós somos muito poderosos devido às austeridades, meditação e educação. Entretanto, mesmo após in­dagar acerca da Suprema Personalidade de Deus, que sempre vemos, não O conhecemos perfeitamente.

Purport

SIGNIFICADO—Segundo a tola teoria darwiniana dos antropólogos, afirma-se que, há quarenta mil anos, o Homo sapiens não havia aparecido neste planeta, pois o processo de evolução não havia chegado a esse ponto. Contudo, as histórias védicas – os Purāṇas e o Mahā­bhārata – relatam histórias humanas que se estendem a milhões e milhões de anos no passado. No início da criação, havia uma personalidade muito inteligente, o senhor Brahmā, do qual emanaram todos os Manus e os brahmacārīs como Sanaka e Sanātana, bem como o senhor Śiva, os grandes sábios e Nārada. Todas essas per­sonalidades praticaram grandes austeridades e penitências e assim se tornaram autoridades em conhecimento védico. O conhecimento perfeito para os seres humanos, bem como para todas as entidades vivas, está contido nos Vedas. Todas as grandes personalidades supramencionadas são, não apenas poderosas – conhecendo o pas­sado, o presente e o futuro –, mas também são devotos. Ainda assim, apesar de sua grande educação em termos de conhecimen­to e apesar de poderem se encontrar com a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Viṣṇu, eles realmente não podem entender a perfeição da relação da entidade viva com o Senhor Viṣṇu. Isso quer dizer que essas personalidades ainda são limitadas no que diz respeito a seu conhecimento do ilimitado. Em conclusão, o mero avanço em conhecimento não qualifica alguém para ser considerado perito na compreensão da Suprema Personalidade de Deus. Não é através de conhecimento avançado, mas sim através de serviço devocional puro, que se pode compreender a Suprema Personali­dade de Deus, como confirma a Bhagavad-gītā (18.55), bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ: a menos que adotemos o serviço devocional puro e transcendental, não poderemos entender realmente a Suprema Personalidade de Deus. Todos têm alguma ideia imperfeita sobre o Senhor. Pretensos cientistas e especuladores filosóficos são incapazes de entender o Senhor Supremo mediante seu conhecimento. Ninguém possui conhecimento perfeito a menos que chegue à plataforma de serviço devocional. A versão védica confirma isso:
athāpi te deva padāmbuja-dvaya-
prasāda-leśānugṛhīta eva hi
jānāti tattvaṁ bhagavan mahimno
na cānya eko ’pi ciraṁ vicinvan
(Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.29)
Os especuladores, os jñānīs, continuam especulando sobre a Suprema Personalidade de Deus por muitas e muitas centenas de milha­res de anos, mas, sem ser favorecido pela Suprema Personalidade de Deus, ninguém pode entender Suas glórias supremas. Todos os grandes sábios mencionados neste verso têm seus planetas perto de Brahmaloka, o planeta onde reside o senhor Brahmā juntamente com os quatro grandes sábios – Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanat-kumāra. Esses sábios residem em diferentes estrelas conheci­das como as estrelas meridionais, as quais circundam a Estrela Polar. A Estrela Polar, chamada Dhruvaloka, é o pivô deste uni­verso, e todos os planetas giram em torno dela. Segundo podemos ver, todas as estrelas dentro deste universo são planetas. Segundo a teoria ocidental, todas as estrelas são diferentes sóis, mas, segundo a informação védica, só existe um sol dentro deste universo. Todas as ditas estrelas nada mais são do que diferentes planetas. Além deste universo, existem muitos milhões de outros universos, cada um dos quais contém inúmeras estrelas e planetas semelhantes.
शब्दब्रह्मणि दुष्पारे चरन्त उरुविस्तरे ।
मन्त्रलिङ्गैर्व्यवच्छिन्नं भजन्तो न विदु: परम् ॥ ४५ ॥
śabda-brahmaṇi duṣpāre
caranta uru-vistare
mantra-liṅgair vyavacchinnaṁ
bhajanto na viduḥ param

Synonyms

śabda-brahmaṇina literatura védica; duṣpāreilimitada; carantaḥestando ocupados; urubastante; vistareexpansivos; mantrade hinos védicos; liṅgaiḥcom característicos; vyavac­chinnamparcialmente poderosos (os semideuses); bhajantaḥadorando; na viduḥeles não conhecem; paramo Supremo.

Translation

Apesar do cultivo de conhecimento védico, que é ilimitado, e da adoração a diferentes semideuses com característicos mantras védicos, a adoração a semideuses não nos ajuda a entender a suprema e poderosa Personalidade de Deus.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma na Bhagavad-gītā (7.20):
kāmais tais tair hṛta-jñānāḥ
prapadyante ’nya-devatāḥ
taṁ taṁ niyamam āsthāya
prakṛtyā niyatāḥ svayā
“Aqueles cuja inteligência foi roubada pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses e prestam adoração através de determinadas regras e regulações que se coadunam com suas próprias naturezas.” A maioria das pessoas está interessada em adorar os semideuses para adquirir poderes. Cada semideus tem um poder específico. Por exemplo, o semideus Indra, o rei do céu, tem o poder de derramar chuva sobre a face do globo para dar suficiente vegetação à Terra. Esse semideus é descrito nos Vedas: vajra-hastaḥ purandaraḥ. Indra governa o suprimento de água com um raio em sua mão. O próprio raio é controlado por Indra. Do mesmo modo, outros semideuses – Agni, Varuṇa, Candra, Sūrya – têm poderes específicos. Todos esses semideuses são adorados nos hinos védicos através de uma arma simbólica. Portanto, aqui se diz: mantra-liṅgair vyavacchinnam. Mediante tal adoração, pode ser que os karmīs obtenham a bênção de opulência material sob a forma de animais, riquezas, belas espo­sas, muitos seguidores e assim por diante. Contudo, não são essas opulências materiais que nos proporcionam o entendimento da Suprema Personalidade de Deus.
यदा यस्यानुगृह्णाति भगवानात्मभावित: ।
स जहाति मतिं लोके वेदे च परिनिष्ठिताम् ॥ ४६ ॥
yadā yasyānugṛhṇāti
bhagavān ātma-bhāvitaḥ
sa jahāti matiṁ loke
vede ca pariniṣṭhitām

Synonyms

yadāquando; yasyaa quem; anugṛhṇātifavorece com imotivada misericórdia; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; ātma-bhāvitaḥcompreendido por um devoto; saḥtal devoto; jahātiabandona; matimconsciência; lokeno mundo material; vedenas cerimônias védicas; catambém; pariniṣṭhitāmfixo.

Translation

Uma pessoa que se ocupa plenamente em serviço devocional é favorecida pelo Senhor, que lhe concede Sua imotivada misericórdia. Nesse momento, o devoto desperto abandona todas as atividades materiais e cerimônias ritualísticas mencionadas nos Vedas.

Purport

SIGNIFICADO—No verso anterior, aqueles que são dotados de conhecimento foram descritos como incapazes de apreciar a Suprema Personali­dade de Deus. De modo semelhante, este verso indica que os segui­dores dos rituais védicos, bem como os seguidores de atividades fruitivas, são incapazes de ver a Suprema Personalidade de Deus. Esses dois versos descrevem tanto os karmīs quanto os jñānīs como incapazes de entendê-lO. Como descreve Śrīla Rūpa Gosvāmī, ape­nas quem está inteiramente livre da especulação mental e da atividade fruitiva (anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam) pode ocupar-se em serviço devocional puro, sem ser poluído por desejos materiais. A significativa palavra ātma-bhāvitaḥ indica que o Senhor surge na mente de uma pessoa se ela pensa constante­mente nEle. O devoto puro está sempre pensando nos pés de lótus do Senhor (sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ). O devoto puro não consegue passar um momento sequer sem se absorver em pensar na Suprema Personalidade de Deus. A Bhagavad-gītā descreve esse pensamento constante no Senhor como satata-yuktānām, “ocupar-se sempre a serviço do Senhor”. Bhajatāṁ prīti-pūrvakam: esse é o ser­viço devocional prestado com amor e afeição. Como a Suprema Personalidade de Deus orienta o devoto puro internamente, o devoto se salva de todas as atividades materiais. Mesmo as cerimônias ritualísticas védicas são consideradas atividades materiais, visto que, praticando essas atividades, simplesmente elevamo-nos a outros sistemas planetários, as moradas dos semideuses. O Senhor Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā (9.25):
yānti deva-vratā devān
pitṝn yānti pitṛ-vratāḥ
bhūtāni yānti bhūtejyā
yānti mad-yājino ’pi mām
“Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses, aqueles que adoram os ancestrais irão ter com os ancestrais, aqueles que adoram os fantasmas e espíritos nascerão entre tais seres, e aqueles que Me adoram viverão coMigo.”
A palavra ātma-bhāvitaḥ também indica que o devoto sempre se dedica a pregar a fim de salvar as almas condicionadas. A respeito dos seis Gosvāmīs, afirma-se: nānā-śāstra-vicāraṇaika-nipuṇau sad-dharma-saṁsthāpakau lokānāṁ hita-kāriṇau. O devoto puro da Suprema Personalidade de Deus sempre pensa em como poderá salvar as caídas almas condicionadas. A Suprema Personalidade de Deus, influenciada pela misericordiosa tentativa dos devotos de salvar as almas caídas, ilumina as pessoas em geral internamente, por Sua imotivada misericórdia. Se um devoto é abençoado por outro devoto, ele se liberta de atividades karma-kāṇḍa e jñāna-kāṇḍa. Como confirma a Brahma-saṁhitā, vedeṣu durlabham: não é através de karma-kāṇḍa e jñāna-kāṇḍa que se pode compreender a Suprema Personalidade de Deus. Adurlabham ātma-bhaktau: somente um devoto sincero compreende o Senhor.
Este mundo material, a manifestação cósmica, é criado pela Suprema Personalidade de Deus, e as entidades vivas vêm aqui para desfrutar por elas mesmas. As instruções védicas orientam-nos de acordo com diferentes princípios reguladores, e as pessoas inteli­gentes tiram proveito dessas instruções. Assim, elas podem gozar da vida material sem perturbação. Na verdade, contudo, isso é ilusão, e é muito difícil escapar dessa ilusão através do esforço pessoal. A população em geral ocupa-se em atividades materiais, e as pessoas que avançam um pouco sentem atração pelas cerimônias ritualísti­cas mencionadas nos Vedas. Entretanto, quando a pessoa se frustra depois de realizar cerimônias ritualísticas, ela novamente se volta para as atividades materiais. Dessa maneira, tanto os seguidores dos rituais védicos quanto os seguidores de atividades materiais enredam­-se na vida condicionada. Tais pessoas só recebem a semente do serviço devocional pela boa vontade do guru e de Kṛṣṇa. Confirma isso o Caitanya-caritāmṛta: guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā­-bīja.
Quando alguém se ocupa em serviço devocional, ele não sente mais atração por atividades materiais. Enquanto alguém está coberto por diferentes designações, ele não pode ocupar-se em serviço devocional. É preciso livrar-se dessas atividades designativas (sarvopādhi-vinirmuktam) e tornar-se puro para servir a Suprema Personalidade de Deus com os sentidos purificados. Hṛṣīkena hṛṣīkeśa-sevanaṁ bhaktir ucyate: servir ao Senhor com sentidos purificados chama-se bhakti-yoga, ou serviço devocional. O devoto sincero é sempre ajudado pela Superalma, que reside dentro do coração de toda entidade viva, como o Senhor Kṛṣṇa confirma na Bhagavad-gītā (10.10):
teṣāṁ satata-yuktānāṁ
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
“Àqueles que estão constantemente devotados a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim.”
Essa é a fase em que nos libertamos da contaminação do mundo material. Nesse momento, o devoto faz amizade com outro devoto e abandona, de uma vez por todas, sua ocupação em atividades materiais. Então, ele obtém a graça do Senhor e perde sua fé na civilização material, a qual começa com varṇāśrama-dharma. Śrī Caitanya Mahāprabhu fala claramente da importância de alguém libertar-se do varṇāśrama-dharma, o mais elevado sistema de civilização hu­mana. Nessa fase, ele se sente perpetuamente servo de Kṛṣṇa, posição assumida pelo próprio Śrī Caitanya Mahāprabhu.
nāhaṁ vipro na ca nara-patir nāpi vaiśyo na śūdro
nāhaṁ varṇī na ca gṛha-patir no vana-stho yatir vā
kintu prodyan nikhila-paramānanda-pūrṇāmṛtābdher
gopī-bhartuḥ pada-kamalayor dāsa-dāsānudāsaḥ
(Padyāvalī 63)
“Não sou nem brāhmaṇa, nem kṣatriya, nem vaiśya, nem śūdra. Não sou nem brahmacārī, nem gṛhastha, nem vānaprastha, nem sannyāsī. O que Eu sou? Sou um servo eterno do servo do servo do Senhor Kṛṣṇa.” Através da sucessão discipular, pode-se chegar a essa conclusão, que vem a ser a perfeita elevação à plataforma transcendental.
तस्मात्कर्मसु बर्हिष्मन्नज्ञानादर्थकाशिषु ।
मार्थद‍ृष्टिं कृथा: श्रोत्रस्पर्शिष्वस्पृष्टवस्तुषु ॥ ४७ ॥
tasmāt karmasu barhiṣmann
ajñānād artha-kāśiṣu
mārtha-dṛṣṭiṁ kṛthāḥ śrotra-
sparśiṣv aspṛṣṭa-vastuṣu

Synonyms

tasmātportanto; karmasuem atividades fruitivas; barhiṣman­ó rei Prācīnabarhiṣat; ajñānātpor ignorância; artha-kāśiṣuno cintilante resultado fruitivo; nunca; artha-dṛṣṭimconside­rando ser a meta da vida; kṛthāḥfaças; śrotra-sparśiṣuagradáveis ao ouvido; aspṛṣṭasem tocar; vastuṣuinteresse verdadeiro.

Translation

Meu querido rei Barhiṣmān, nunca deves, por ignorância, adotar os rituais védicos ou as atividades fruitivas, os quais podem ser agradáveis de se ouvir ou que podem parecer a meta do interesse pessoal. Jamais deves aceitar essas coisas como a meta última da vida.

Purport

SIGNIFICADO—A Bhagavad-gītā (2.42-43) diz:
yām imāṁ puṣpitāṁ vācaṁ
pravadanty avipaścitaḥ
veda-vāda-ratāḥ pārtha
nānyad astīti vādinaḥ
kāmātmānaḥ svarga-parā
janma-karma-phala-pradām
kriyā-viśeṣa-bahulāṁ
bhogaiśvarya-gatiṁ prati
“Os homens de pouco conhecimento estão muitíssimo apegados às palavras floridas dos Vedas, que recomendam várias atividades fruitivas àqueles que desejam elevar-se aos planetas celestiais, com o consequente bom nascimento, poder e assim por diante. Por estarem ávidos em satisfazer os sentidos e ter uma vida opulenta, eles dizem que isso é tudo o que importa.”
De um modo geral, as pessoas têm muita atração pelas ativi­dades fruitivas sancionadas nos rituais védicos. Alguém pode ficar muito atraído pela sua elevação a planetas celestiais mediante a rea­lização de grandes sacrifícios, como os realizados pelo rei Barhiṣmān. Śrī Nārada Muni queria impedir o rei Barhiṣmān de ocupar-se nessas atividades fruitivas. Agora, portanto, ele está lhe dizendo diretamente: “Não te interesses por semelhantes benefícios temporários. Na civilização moderna, as pessoas estão muito interessadas em explorar os recursos da natureza material através de métodos científicos. Na verdade, considera-se isso como sendo avanço. Porém, isso não é avanço verdadeiro, senão que é simplesmente agradável de se ouvir. Embora estejamos avançando, de acordo com esses métodos inven­tados, esquecemo-nos de nosso verdadeiro propósito. Portanto, Bhaktivinoda Ṭhākura diz que jaḍa-vidyā yata māyāra vaibhava tomāra bhajane bādhā: “Estudos materialistas nada mais são do que o brilho de māyā, pois são um obstáculo ao progresso espiritual.”
Os confortos temporários da vida, experimentados neste ou em outros planetas, devem ser tidos todos como ilusórios, porque não atingem o verdadeiro propósito da vida. O verdadeiro propósito da vida é voltar ao lar, voltar ao Supremo. Ignorantes do verdadeiro propósito da vida, as pessoas se dedicam, quer a atividades materia­listas grosseiras, quer a atividades ritualísticas. Nesta passagem, Nārada pede ao rei Barhiṣmān que não se apegue a semelhantes atividades. Nos Vedas, afirma-se que a realização de sacrifícios é o verdadeiro propósito da vida. Uma parte da população indiana, conhecida como os ārya-samājistas, enfatiza demasiadamente a parte sacrificatória dos Vedas. Este verso indica, contudo, que esses sacrifícios devem ser tidos como ilusórios. De fato, a meta da vida humana deve ser a compreensão de Deus, ou a consciência de Kṛṣṇa. Os rituais védicos são, evidentemente, muito cintilantes e agradáveis de se ouvir, mas não conduzem ao verdadeiro propósito da vida.
स्वं लोकं न विदुस्ते वै यत्र देवो जनार्दन: ।
आहुर्धूम्रधियो वेदं सकर्मकमतद्विद: ॥ ४८ ॥
svaṁ lokaṁ na vidus te vai
yatra devo janārdanaḥ
āhur dhūmra-dhiyo vedaṁ
sakarmakam atad-vidaḥ

Synonyms

svamprópria; lokammorada; nanunca; viduḥsabem; tetais pessoas; vaidecerto; yatraonde; devaḥa Suprema Personalidade de Deus; janārdanaḥKṛṣṇa, ou Viṣṇu; āhuḥfalam; dhūmra-dhiyaḥa classe menos inteligente de homens; vedamos quatro Vedas; sa-karmakamcheios de cerimônias ritualísticas; a-­tat-vidaḥpessoas sem conhecimento.

Translation

Aqueles que são menos inteligentes aceitam as cerimônias ritualís­ticas védicas como tudo que existe. Eles desconhecem que o propósito dos Vedas é compreender nosso próprio lar, onde vive a Suprema Personali­dade de Deus. Não estando interessados em seu verdadeiro lar, eles andam iludidos à procura de outros lares.

Purport

SIGNIFICADO—De um modo geral, as pessoas não têm noção de seu verdadeiro interesse na vida – voltar ao lar, voltar ao Supremo. Elas não sabem nada sobre seu verdadeiro lar no mundo espiritual. No mundo espiritual, há muitos planetas Vaikuṇṭha, e o planeta mais elevado é Kṛṣṇaloka, Goloka Vṛndāvana. Apesar do suposto avanço da civilização, ninguém tem informações sobre os Vaikuṇṭhalokas, os planetas espirituais. No momento atual, os ditos homens civili­zados e avançados estão tentando ir a outros planetas, mas eles não sabem que, mesmo se forem ao sistema planetário mais elevado, Brahmaloka, terão de voltar a este planeta. A Bhagavad-gītā (8.16) confirma isso:
ābrahma-bhuvanāl lokāḥ
punar āvartino ’rjuna
mām upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate
“Partindo do planeta mais elevado do mundo material e descendo ao mais baixo, todos são lugares de sofrimento, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança a Minha morada, ó filho de Kuntī, jamais volta a nascer.”
Mesmo se alguém vai ao sistema planetário mais elevado dentro deste universo, ele tem que regressar após terminarem os efeitos de suas atividades piedosas. Embora os veículos espaciais possam ir bem alto no céu, logo que se acaba seu combustível, eles são obrigados a regressar a este planeta terrestre. Todas essas ativi­dades realizam-se em ilusão. O verdadeiro empenho, portanto, deve ser voltar ao lar, voltar ao Supremo. O processo é men­cionado na Bhagavad-gītā. Yānti mad-yājino ’pi mām: aqueles que se ocupam em serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus voltam ao lar, voltam ao Supremo. A vida humana é muito valiosa, e ninguém deve desperdiçá-la na vã exploração de outros planetas. Todos devem desenvolver a inteligência necessária para regressar ao Supremo. Todos devem estar interessados em informar-­se sobre os planetas espirituais Vaikuṇṭha e, em particular, sobre o planeta conhecido como Goloka Vṛndāvana, e devem aprender a arte de ir lá pelo simples método de serviço devocional, que começa com o processo de ouvir (śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ). Confirma-se isso, também, no Śrīmad-Bhāgavatam (12.3.51):
kaler doṣa-nidhe rājann
asti hy eko mahān guṇaḥ
kīrtanād eva kṛṣṇasya
mukta-saṅgaḥ paraṁ vrajet
É possível ir ao planeta supremo (paraṁ vrajet) mediante o simples método de cantar o mantra Hare Kṛṣṇa. Isso se destina especialmente às pessoas desta era (kaler doṣa-nidhe). A vantagem especial desta era é que, simplesmente cantando o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa, é possível purificar-se de toda a contaminação material e voltar ao lar, voltar ao Supremo. Quanto a isso, não há dúvida.
आस्तीर्य दर्भै: प्रागग्रै: कार्त्स्‍न्येन क्षितिमण्डलम् ।
स्तब्धो बृहद्वधान्मानी कर्म नावैषि यत्परम् ।
तत्कर्म हरितोषं यत्सा विद्या तन्मतिर्यया ॥ ४९ ॥
āstīrya darbhaiḥ prāg-agraiḥ
kārtsnyena kṣiti-maṇḍalam
stabdho bṛhad-vadhān mānī
karma nāvaiṣi yat param
tat karma hari-toṣaṁ yat
sā vidyā tan-matir yayā

Synonyms

āstīryatendo coberto; darbhaiḥcom grama kuśa; prāk-­agraiḥcom as pontas voltadas para o oriente; kārtsnyenaintei­ramente; kṣiti-maṇḍalama superfície do globo; stabdhaḥorgu­lhosamente arrogante; bṛhatgrande; vadhātmatando; mānījulgando-te muito importante; karmaatividade; na avaiṣinão sa­bes; yatque; paramsuprema; tatesta; karmaatividade; pari-toṣamsatisfazendo o Senhor Supremo; yatque; esta; vidyāeducação; tatao Senhor; matiḥconsciência; yayāpela qual.

Translation

Meu querido rei, o mundo inteiro está coberto com as pontas afiadas da grama kuśa, e, baseado nisso, ficaste orgulhoso por teres matado várias espécies de animais em sacrifício. Devido à tua tolice, não sabes que o serviço devocional é o único meio pelo qual pode­mos satisfazer a Suprema Personalidade de Deus. Não podes entender esse fato. Tuas únicas atividades devem ser aquelas que podem satisfazer a Personalidade de Deus. Nossa educação deve ser tal que possamos nos elevar à consciência de Kṛṣṇa.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, o grande sábio Nārada Muni repreende diretamente o rei por este ter-se ocupado em realizar sacrifícios que incluíam a morte de um grande número de animais. O rei pensava que ele era grandioso por ter executado tantos sacrifícios, mas o grande sábio Nārada repreende-o diretamente, informando-o de que sua matança de animais somente o levava a ficar arrogante e com falso prestígio. Na verdade, qualquer coisa que se faça que não leve à consciência de Kṛṣṇa é uma atividade pecaminosa, e qualquer educação que não leve a entender Kṛṣṇa é uma educação falsa. Se carece de consciência de Kṛṣṇa, qualquer atividade em que nos ocupemos é falsa e qualquer propo­sito educacional que ambicionemos também é falso.
हरिर्देहभृतामात्मा स्वयं प्रकृतिरीश्वर: ।
तत्पादमूलं शरणं यत: क्षेमो नृणामिह ॥ ५० ॥
harir deha-bhṛtām ātmā
svayaṁ prakṛtir īśvaraḥ
tat-pāda-mūlaṁ śaraṇaṁ
yataḥ kṣemo nṛṇām iha

Synonyms

hariḥŚrī Hari; deha-bhṛtāmde entidades vivas que aceitaram corpos materiais; ātmāa Superalma; svayamEle próprio; prakṛtiḥnatureza material; īśvaraḥo controlador; tatSeus; pāda-mūlampés; śaraṇamrefúgio; yataḥde que; kṣemaḥboa fortuna; nṛṇāmdos homens; ihaneste mundo.

Translation

Śrī Hari, a Suprema Personalidade de Deus, é a Superalma e guia de todas as entidades vivas que aceitaram corpos materiais dentro deste mundo. Ele é o controlador supremo de todas as atividades materiais na natureza material. Ele é também nosso melhor amigo, e todos devem refugiar-se a Seus pés de lótus. Fazendo-o, suas vidas serão auspiciosas.

Purport

SIGNIFICADO—A Bhagavad-gītā (18.61) diz que īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd­-deśe ’rjuna tiṣṭhati: “O Senhor Supremo encontra-Se no coração de todos, ó Arjuna.” A entidade viva está dentro do corpo, e a Superal­ma, a Suprema Personalidade de Deus, também está ali. Ele Se chama­ antaryāmī e caitya-guru. Como o Senhor Kṛṣṇa afirma na Bhagavad-gītā (15.15), Ele controla tudo.
sarvasya cāhaṁ hṛdi sanniviṣṭo
mattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca
“Estou situado no coração de todos, e é de Mim que vêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento.”
Tudo está sendo dirigido pela Superalma dentro do corpo; portanto, o melhor a se fazer é aceitar Sua orientação e ser feliz. Para aceitar Suas orientações, é preciso ser um devoto, e isso também se confirma na Bhagavad-gītā (10.10):
teṣāṁ satata-yuktānāṁ
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
“Àqueles que estão constantemente devotados a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim.”
Embora a Superalma esteja no coração de todos (īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati), conversa apenas com os devotos puros que se ocupam constantemente em Seu serviço. No Caitanya-bhāgavata (Antya 3.45), afirma-se:
tāhāre se bali vidyā, mantra, adhyayana
kṛṣṇa-pāda-padme ye karaye sthira mana
“Deve-se compreender que quem tem sua mente fixa nos pés de lótus de Kṛṣṇa tem a melhor educação e estudou todos os Vedas.” Também há outras citações condizentes no Caitanya-bhāgavata:
sei se vidyāra phala jāniha niścaya
kṛṣṇa-pāda-padme yadi citta-vṛtti raya
“O resultado perfeito da educação é fixar a mente nos pés de lótus de Kṛṣṇa.” (Ādi 13.178)
‘dig-vijaya kariba,’ — vidyāra kārya nahe
īśvare bhajile, sei vidyā ‘satya’ kahe
“Não é desejável conquistar o mundo por meio da educação material. Se alguém se ocupa em serviço devocional, sua educação se aperfeiçoa.” (Ādi 13.173)
paḍe kene loka — kṛṣṇa-bhakti jānibāre
se yadi nahila, tabe vidyāya ki kare
“O propósito da educação é compreender Kṛṣṇa e Seu serviço devocional. Se alguém não o faz, sua educação é falsa.” (Ādi 12.49)
tāhāre se bali dharma, karma sadācāra
īśvare se prīti janme sammata sabāra
“Ser culto, educado, muito ativo e religioso significa desenvolver amor natural por Kṛṣṇa.” (Antya 3.44) Todos têm um amor por Kṛṣṇa que está adormecido, mas esse amor deve ser despertado através da cultura e da educação. Esse é o propósito deste movimento para a consciên­cia de Kṛṣṇa. Certa vez, o Senhor Caitanya perguntou a Śrī Rāmānanda Rāya qual era a melhor parte da educação, e Rāmā­nanda Rāya respondeu que a melhor parte da educação é o avanço em consciência de Kṛṣṇa.
स वै प्रियतमश्चात्मा यतो न भयमण्वपि ।
इति वेद स वै विद्वान्यो विद्वान्स गुरुर्हरि: ॥ ५१ ॥
sa vai priyatamaś cātmā
yato na bhayam aṇv api
iti veda sa vai vidvān
yo vidvān sa gurur hariḥ

Synonyms

saḥele; vaidecerto; priya-tamaḥo mais querido; ca­também; ātmāSuperalma; yataḥde quem; nanunca; bhayamtemor; aṇupequeno; apimesmo; itiassim; veda(quem) conhece; saḥele; vaidecerto; vidvāneducado; yaḥaquele que; vidvāneducado; saḥele; guruḥmestre espiritual; hariḥnão diferente do Senhor.

Translation

Uma pessoa ocupada em serviço devocional em nada teme a existência material. Isso porque a Suprema Personalidade de Deus é a Superalma e o amigo de todos. Quem conhece este segredo é realmente instruído, podendo tornar-se o mestre espiritual do mundo. Um mestre espiritual realmente fidedigno, representante de Kṛṣṇa, não é diferente de Kṛṣṇa.

Purport

SIGNIFICADO—Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura diz que sākṣād-dharitvena samasta-śāstrair uktas tathā bhāvyata eva sadbhiḥ: o mestre espi­ritual é descrito em todas as escrituras como o representante da Suprema Personalidade de Deus. O mestre espiritual é aceito como idêntico à Suprema Personalidade de Deus por ser o servo mais íntimo do Senhor (kintu prabhor yaḥ priya eva tasya). Isso significa que tanto a Superalma quanto a alma individual são muito queridas por todos. Todos amam a si mesmos, e, quando alguém se torna mais avançado, passa a amar a Superalma também. Uma pessoa autorrealizada não recomenda a adoração a ninguém além da Superalma. Ela sabe que adorar a Suprema Personalidade de Deus é mais fácil do que adorar vários semideuses sob a influência da luxúria e do desejo de gozo material. Portanto, o devoto está sempre ocupado em serviço devocional amoroso ao Senhor. Semelhante pessoa é um verdadeiro guru. O Padma Purāa diz:
ṣaṭ-karma-nipuṇo vipro
mantra-tantra-viśāradaḥ
avaiṣṇavo gurur na syād
vaiṣṇavaḥ śva-paco guruḥ
“Mesmo que um brāhmaṇa seja muito erudito nas escrituras védi­cas e conheça os seis deveres ocupacionais de um brāhmaṇa, ele não pode tornar-se um guru, ou mestre espiritual, a menos que seja devoto da Suprema Personalidade de Deus. Contudo, se alguém nasce em família de comedores de cães, mas é devoto puro do Senhor, ele pode tornar-se um mestre espiritual.” Em conclusão, ninguém pode tornar-se mestre espiritual a menos que seja um devoto puro do Senhor. Quem é mestre espiritual de acordo com as des­crições do serviço devocional, como enumeradas anteriormente, deve ser considerado como se fosse a própria Suprema Personalidade de Deus presente. Segundo as palavras aqui mencionadas (gurur hariḥ), consultar um mestre espi­ritual fidedigno significa consultar a Suprema Personalidade de Deus em pessoa. Portanto, todos devem refugiar-se em seme­lhante mestre espiritual fidedigno. Ter sucesso na vida significa acei­tar um mestre espiritual que conheça Kṛṣṇa como a única e querida Personalidade Suprema. Todos devem adorar semelhante devoto íntimo do Senhor.
नारद उवाच
प्रश्न एवं हि सञ्छिन्नो भवत: पुरुषर्षभ ।
अत्र मे वदतो गुह्यं निशामय सुनिश्चितम् ॥ ५२ ॥
nārada uvāca
praśna evaṁ hi sañchinno
bhavataḥ puruṣarṣabha
atra me vadato guhyaṁ
niśāmaya suniścitam

Synonyms

nāradaḥ uvācaNārada disse; praśnaḥpergunta; evam­assim; hidecerto; sañchinnaḥrespondida; bhavataḥtua; puruṣa-ṛṣabhaó grandiosa personalidade; atraaqui; me vada­taḥenquanto eu falo; guhyamconfidencial; niśāmayaouve; su­-niścitamperfeitamente reconhecida.

Translation

O grande santo Nārada prosseguiu: Ó grandiosa personalidade, respondi adequadamente tudo aquilo que me perguntaste. Agora, ouve outra narração, a qual é aceita por pessoas santas e é muito confidencial.

Purport

SIGNIFICADO—Śrī Nārada Muni está agindo pessoalmente como o mestre espi­ritual do rei Barhiṣmān. Era intenção de Nārada Muni que, através de suas instruções, o rei abandonasse imediatamente toda ocu­pação em atividades fruitivas e adotasse o serviço devocional. Con­tudo, embora o rei tivesse entendido tudo, ele ainda não estava preparado para abandonar suas ocupações. Como os versos seguin­tes mostrarão, o rei estava meditando em mandar chamar seus filhos, que estavam longe de casa, praticando austeridades e peni­tências. Após o regresso deles, ele lhes confiaria seu reino e, então, deixaria o lar. Essa é a posição da maioria das pessoas. Elas acei­tam um mestre espiritual fidedigno e ouvem-no, mas, quando o mestre espiritual indica que elas devem deixar o lar e ocupar-se ple­namente em serviço devocional, elas hesitam. É dever do mestre espiritual instruir o discípulo até que ele compreenda que este modo de vida materialista, de atividades fruitivas, não é bené­fico de modo algum. Na verdade, deve-se adotar o serviço devocional desde o início da vida, como aconselhava Prahlāda Mahārāja: kaumāra ācaret prājño dharmān bhāgavatān iha. (Śrīmad-Bhāgavatam 7.6.1) Todas as instruções dos Vedas nos indicam que, a menos que alguém adote a consciência de Kṛṣṇa e o serviço devocional, ele está simplesmente desperdiçando seu tempo, ocupando-se nas atividades fruitivas da existência material. Nārada Muni, portanto, decidiu relatar outra alegoria ao rei para induzi-lo a abandonar a vida familiar dentro da existência material.
क्षुद्रं चरं सुमनसां शरणे मिथित्वा
रक्तं षडङ्‌घ्रिगणसामसु लुब्धकर्णम् ।
अग्रे वृकानसुतृपोऽविगणय्य यान्तं
पृष्ठे मृगं मृगय लुब्धकबाणभिन्नम् ॥ ५३ ॥
kṣudraṁ caraṁ sumanasāṁ śaraṇe mithitvā
raktaṁ ṣaḍaṅghri-gaṇa-sāmasu lubdha-karṇam
agre vṛkān asu-tṛpo ’vigaṇayya yāntaṁ
pṛṣṭhe mṛgaṁ mṛgaya lubdhaka-bāṇa-bhinnam

Synonyms

kṣudramna grama; carampastando; sumanasāmde um belo jardim florido; śaraṇesob a proteção; mithitvāestando unido com uma mulher; raktamapegado; ṣaṭ-aṅghride abelhas; gaṇade grupos; sāmasuao zumbido; lubdha-karṇamcujo ou­vido está atraído; agreem frente; vṛkāntigres; asu-tṛpaḥque vivem às custas da vida alheia; avigaṇayyanegligenciando; yān­tammovendo-se; pṛṣṭheatrás; mṛgamo veado; mṛgaya­procura; lubdhakade um caçador; bāṇapelas flechas; bhinnam­passível de ser trespassado.

Translation

Meu querido rei, por favor, procura aquele veado ocupado em comer grama em um belo jardim florido, junto com sua corça. Esse veado está muito apegado à sua ocupação, e está desfrutando do doce zumbido das abelhas em seu jardim. Procura entender a posição dele. Ele não está ciente de que, diante dele, há um tigre, acostumado a viver às custas da carne alheia. No encalço do veado, há também um caçador, ameaçando trespassá-lo com afiadas flechas. Assim, a morte do veado é iminente.

Purport

SIGNIFICADO—Eis uma alegoria na qual o rei é aconselhado a procurar um veado que está sempre em uma posição perigosa. Embora ameaçado de todos os lados, o veado não faz nada além de comer grama em um belo jardim flo­rido, inconsciente do perigo que o cerca. Todas as entidades vivas, especialmente os seres humanos, julgam-se muito felizes no meio dos familiares. Como se vivessem em um jardim florido, ouvindo o doce zumbir de abelhas, todos centralizam suas vidas em torno de sua esposa, que constitui a beleza da vida familiar. O zumbir das abelhas pode ser comparado à conversa das crianças. O ser humano, assim como o veado, desfruta de sua família sem saber que, diante dele, está o fator tempo, representado pelo tigre. As ativi­dades fruitivas de uma entidade viva simplesmente criam outra situação perigosa e a obrigam a aceitar diferentes espécies de corpos. Não é raro um veado correr atrás de uma miragem no deserto. O veado também gosta muito de sexo. Em conclusão, alguém que viva como um veado acabará sendo morto. Os textos védicos, portanto, aconselham que devemos entender nossa posição constitucional e adotar o serviço devocional antes que a morte venha. Segundo o Bhāgavatam (11.9.29):
labdhvā sudurlabham idaṁ bahu-sambhavānte
mānuṣyam arthadam anityam apīha dhīraḥ
tūrṇaṁ yateta na pated anumṛtyu yāvan
niḥśreyasāya viṣayaḥ khalu sarvataḥ syāt
Depois de muitos nascimentos, obtivemos esta forma humana; portando, antes que a morte venha, devemos ocupar-nos no transcendental serviço amoroso ao Senhor. Essa é a realização da vida humana.
सुमन:समधर्मणां स्‍त्रीणां शरण आश्रमे पुष्पमधुगन्धवत्क्षुद्रतमं काम्यकर्मविपाकजं कामसुखलवं जैह्व्यौपस्थ्यादि विचिन्वन्तं मिथुनीभूय तदभिनिवेशितमनसंषडङ्‌घ्रिगणसामगीत वदतिमनोहरवनितादिजनालापेष्वतितरामतिप्रलोभितकर्णमग्रे वृकयूथवदात्मन आयुर्हरतोऽहोरात्रान्तान् काललवविशेषानविगणय्य गृहेषु विहरन्तं पृष्ठत एव परोक्षमनुप्रवृत्तो लुब्धक: कृतान्तोऽन्त:शरेण यमिह पराविध्यति तमिममात्मानमहो राजन् भिन्नहृदयं द्रष्टुमर्हसीति ॥ ५४ ॥
sumanaḥ-sama-dharmaṇāṁ strīṇāṁ śaraṇa āśrame puṣpa-madhu-gandhavat kṣudratamaṁ kāmya-karma-vipākajaṁ kāma-sukha-lavaṁ jaihvyaupasthyādi vicinvantaṁ mithunī-bhūya tad-abhiniveśita-manasaṁ ṣaḍaṅghri-gaṇa-sāma-gītavad atimanohara-vanitādi-janālāpeṣv atitarām atipralobhita-karṇam agre vṛka-yūthavad ātmana āyur harato ’ho-rātrān tān kāla-lava-viśeṣān avigaṇayya gṛheṣu viharantaṁ pṛṣṭhata eva parokṣam anupravṛtto lubdhakaḥ kṛtānto ’ntaḥ śareṇa yam iha parāvidhyati tam imam ātmānam aho rājan bhinna-hṛdayaṁ draṣṭum arhasīti.

Synonyms

sumanaḥflores; sama-dharmaṇāmexatamente como; strī­ṇāmde mulheres; śaraṇeno refúgio; āśramevida familiar; puṣpaem flores; madhude mel; gandhao aroma; vatcomo; kṣudra-tamammuito insignificante; kāmyadesejadas; karmade atividades; vipāka-jamobtidas como resultado; kāma-sukhade gozo dos sentidos; lavamum fragmento; jaihvyaprazer da língua; aupasthyagozo sexual; ādicomeçando com; vicinvantamsempre pensando em; mithunī-bhūyafazendo sexo; tatem sua esposa; abhiniveśitasempre absorta; manasamcuja mente; ṣaṭ-aṅghride abelhas; gaṇados grupos; sāmasuave; gītao canto; vatcomo; atimuito; manoharaatrativo; vanitā-ādicomeçando com a esposa; janade pessoas; ālāpeṣuàs conversas; atitarāmexcessivamente; atimuito; pralobhitaatraídos; karṇamcujos ouvidos; agreem frente; vṛka-yūthaum grupo de tigres; vatcomo; ātmanaḥdo próprio eu; āyuḥ­duração de vida; harataḥroubando; ahaḥ-rātrāndias e noites; tāntodos eles; kāla-lava-viśeṣānos momentos do tempo; avi­gaṇayyasem considerar; gṛheṣuna vida familiar; viharantamdesfrutando; pṛṣṭhataḥpelas costas; evadecerto; parokṣamsem ser visto; anupravṛttaḥindo ao encalço de; lubdhakaḥo caça­dor; kṛta-antaḥo superintendente da morte; antaḥno coração; śarenapor uma flecha; yama quem; ihaneste mundo; parā­vidhyatitrespassa; tamesta; imamisto; ātmānamtu próprio; aho rājanó rei; bhinna-hṛdayamcujo coração está trespassado; draṣṭumver; arhasideves; itiassim.

Translation

Meu querido rei, a mulher, que é muito atrativa no início, mas muito perturbadora no final, é exatamente como a flor, que é atrativa no início e detestável no fim. Com a mulher, o ser vivo enreda­-se em desejos luxuriosos e goza de sexo, assim como alguém que desfruta do aroma de uma flor. Assim, o ser vivo leva uma vida de gozo dos sentidos – desde sua língua até seus órgãos genitais – e, dessa maneira, considera-se muito feliz na vida familiar. Unido com sua esposa, ele sempre permanece absorto nesses pensamentos. Sente muito prazer em ouvir as conversas de sua esposa e de seus filhos, as quais são como o doce zumbido de abelhas que colhem mel de flor em flor. Ele esquece que, diante dele, está o tempo, que reduz a duração de sua vida dia após dia, noite após noite. Ele não vê a redução gradual de sua vida, nem se importa com o superintendente da morte, que está tentando matá-lo pelas costas. Procura compreen­der isso. Tu estás em uma posição precária e estás sendo ameaçado de todos os lados.

Purport

SIGNIFICADO—Vida materialista significa esquecimento de nossa posição cons­titucional como servos eternos de Kṛṣṇa, e esse esquecimento é especialmente acentuado no gṛhastha-āśrama. No gṛhastha-­āśrama, um jovem aceita uma jovem esposa que é muito bela no início, mas, com o transcorrer do tempo, após dar à luz muitos filhos e tornar-se cada vez mais velha, ela exige muitas coisas do esposo para manter toda a família. Nesse momento, a esposa torna-se detestável para o mesmo homem que a aceitou em seus dias de juventude. Um homem fica apegado ao gṛhastha-āśrama por apenas duas razões: a esposa cozinha preparações deliciosas para a satis­fação da língua do esposo e lhe dá prazer sexual à noite. Uma pessoa apegada ao gṛhastha-āśrama sempre pensa nestas duas coisas – comida saborosa e prazer sexual. Tanto as conversas da esposa quanto as conversas dos filhos, desfrutadas como uma recreação familiar, atraem a entidade viva. Assim, ela esquece que acabará morrendo um dia e que precisa preparar se para a próxima vida caso deseje ser posta em um corpo agradável.
O veado no jardim florido é uma alegoria usada pelo grande sábio Nārada para mostrar ao rei que o próprio rei está igualmente preso na armadilha das coisas que o cercam. Na verdade, todos estão cercados por essa vida familiar, a qual os desorienta. Deste modo, a entidade viva esquece que tem que voltar ao lar, voltar ao Supremo. Ela simplesmente se enreda na vida familiar. Portanto, Prahlāda Mahārāja sugeriu: hitvātma-pātaṁ gṛham andha-kūpaṁ vanaṁ gato yad dharim āśrayeta. A vida familiar é considerada um poço camuflado (andha-kūpam) no qual todos que caem morrem desamparados. Prahlāda Mahārāja recomenda que, enquanto tivermos os sentidos funcionando bem e sejamos suficientemente fortes, devemos abandonar o gṛhastha-āśrama e refugiar-nos aos pés de lótus do Senhor, indo à floresta de Vṛndāvana. Segundo a civili­zação védica, é preciso abandonar a vida familiar em uma determi­nada idade (cinquenta anos de idade), aceitar vānaprastha e, por fim, permanecer sozinho como sannyāsī. Esse é o método prescrito de civilização védica conhecido como varṇāśrama-dharma. Alguém que aceita sannyāsa após gozar da vida familiar satisfaz o Supremo Senhor Viṣṇu.
Todos devem entender sua posição na vida familiar ou mun­dana. Isso se chama inteligência. Ninguém deve permanecer preso para sempre na armadilha da vida familiar para satisfazer sua língua e seus órgãos genitais na companhia de uma esposa. Quem faz isso simplesmente arruína sua vida. Segundo a civilização vé­dica, é imprescindível abandonar a família em uma determinada fase, à força, se necessário. Infelizmente, pretensos seguidores da vida védica não abandonam sua família nem mesmo no fim da vida, a menos que sejam forçados pela morte. É necessário que haja uma completa revisão do sistema social, e a sociedade deve voltar aos princípios védicos, isto é, aos quatro varṇas e quatro āśramas.
स त्वं विचक्ष्य मृगचेष्टितमात्मनोऽन्त-
श्चित्तं नियच्छ हृदि कर्णधुनीं च चित्ते ।
जह्यङ्गनाश्रममसत्तमयूथगाथं
प्रीणीहि हंसशरणं विरम क्रमेण ॥ ५५ ॥
sa tvaṁ vicakṣya mṛga-ceṣṭitam ātmano ’ntaś
cittaṁ niyaccha hṛdi karṇa-dhunīṁ ca citte
jahy aṅganāśramam asattama-yūtha-gāthaṁ
prīṇīhi haṁsa-śaraṇaṁ virama krameṇa

Synonyms

saḥessa mesma pessoa; tvamtu; vicakṣyaconsiderando; mṛga-ceṣṭitamas atividades do veado; ātmanaḥdo eu; antaḥdentro; cittamconsciência; niyacchafixa; hṛdino coração; karṇa-dhunīmrecepção auditiva; cae; citteà consciência; jahirenuncia; aṅganā-āśramamvida familiar; asat-tamamuito abominável; yūtha-gāthamcheia de histórias de homem e mulher; prīṇīhisimplesmente aceita; haṁsa-śaraṇamo refúgio de almas liberadas; viramadesapega-te; krameṇaaos poucos.

Translation

Meu querido rei, simplesmente tenta compreender o significado alegórico do veado. Sê plenamente consciente de ti mesmo e abandona o prazer de ouvir sobre a promoção aos planetas celestiais mediante ativi­dades fruitivas. Abandona a vida familiar, que é cheia de sexo, bem como histórias sobre tais assuntos, e refugia-te na Suprema Personalidade de Deus através da misericórdia das almas liberadas. Dessa maneira, por favor, abandona tua atração pela existência material.

Purport

SIGNIFICADO—Em uma de suas canções, Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura escreve:
karma-kāṇḍa, jñāna-kāṇḍa, kevala viṣera bhāṇḍa,
amṛta baliyā yebā khāya
nānā yoni sadā phire, kadarya bhakṣaṇa kare,
tāra janma adhaḥ-pāte yāya
“As atividades fruitivas e a especulação mental são simplesmente taças de veneno. Qualquer pessoa que as beba, julgando-as néctar, é obrigada a lutar muito arduamente, vida após vida, em diferentes espécies de corpos. Uma pessoa assim come toda sorte de bes­teiras e se condena por suas atividades de dito gozo dos sentidos.”
De um modo geral, todos estão enamorados dos resultados fruiti­vos de atividades mundanas e da especulação mental. Geralmente, eles desejam ser promovidos aos planetas celestiais, fundir-se na existência de Brahman ou manter-se no meio familiar, encanta­dos pelos prazeres da língua e dos órgãos genitais. O grande sábio Nārada instrui claramente o rei Barhiṣmān a não permanecer toda a sua vida no gṛhastha-āśrama. Estar no gṛhastha-āśrama significa estar sob o controle da esposa. É preciso abandonar tudo isso e ingressar no āśrama de paramahaṁsa, isto é, colocar-se sob o con­trole do mestre espiritual. O paramahaṁsa-āśrama é o āśrama da Suprema Personalidade de Deus, à sombra de quem o mestre espi­ritual se refugia. As características do mestre espiritual fidedigno são descritas no Śrīmad-Bhāgavatam (11.3.21):
tasmād guruṁ prapadyeta
jijñāsuḥ śreya uttamam
śābde pare ca niṣṇātaṁ
brahmaṇy upaśamāśrayam
“Quem quer que deseje seriamente alcançar a verdadeira felicidade deve procurar um mestre espiritual fidedigno e refugiar-se nele através da iniciação. A qualificação de mestre espiritual consiste em que ele compreendeu as conclusões das escrituras através da deliberação e de argumentos, sendo, assim, capaz de convencer outros sobre essas conclusões. Essas grandes personalidades, tendo se refugiado completamente na Divindade Suprema e deixado de lado todas as considerações materiais, devem ser tidas como mestres espirituais fidedignos.”
Um paramahaṁsa é aquele que se refugiou no Parabrahman, a Suprema Personalidade de Deus. Se alguém se refugiar no mestre espiritual paramahaṁsa, aos poucos, através do treinamento e da instrução, ele se desapegará da vida mundana e finalmente voltará ao lar, voltará ao Supremo. A menção específica de aṅganāśramam asattama-yūtha-gātham é muito interessante. O mundo inteiro está nas garras de māyā, sendo controlado pela mulher. Um homem não é apenas controlado pela mulher que é sua esposa, mas também é controlado por muitos livros eróticos. Essa é a causa de ele ficar enredado no mundo material. Não é possível alguém abandonar essa associação abominável através de seu próprio esforço, mas, refugiando-se em um mestre espiritual fidedigno, que seja um paramahaṁsa, ele aos poucos se elevará à plataforma da vida espiritual.
As palavras agradáveis dos Vedas que inspiram as pessoas a se elevarem aos planetas celestiais ou a fundirem-se na existência do Supremo destinam-se aos menos inteligentes, descritos na Bhagavad-­gītā como māyayāpahṛta-jñānāḥ (pessoas cujo conhecimento foi rou­bado pela energia ilusória). Verdadeiro conhecimento significa compreender a condição dolorosa da vida material. Todos devem refugiar-se em uma alma liberada genuína, um mestre espiritual, e, aos poucos, elevar-se à plataforma espiritual, desapegando-se, assim, do mundo material. Segundo Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, haṁsa-śaraṇam refere-se à cabana na qual vivem as pessoas santas. De um modo geral, uma pessoa santa vive em lugares remotos na floresta ou em uma humilde cabana. Contudo, devemos observar que os tempos mudaram. Pode ser benéfico para o interesse próprio de uma pessoa santa ir à floresta e viver em uma cabana, mas, se alguém se torna um pregador, especialmente nos países ocidentais, ele precisa convidar muitas classes de homens acos­tumados a viver em apartamentos confortáveis. Portanto, nesta era, uma pessoa santa deve tomar as devidas providências para receber as pessoas e atraí-las à mensagem da consciência de Kṛṣṇa. Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura, talvez pela primeira vez, intro­duziu automóveis e palácios para a residência de pessoas santas ape­nas para atrair o público em geral das grandes cidades. O fato principal é que todos devem associar-se com pessoas santas. Nesta era, as pessoas não saem à procura de santos na floresta, logo os santos e sábios devem dirigir-se às grandes cidades para receber ali as pessoas em geral, as quais estão habituadas às amenidades modernas da vida material. Pouco a pouco, essas pessoas aprenderão que palá­cios ou apartamentos confortáveis não são necessários de modo algum. A verdadeira necessidade é livrar-se do cativeiro material de qual­quer maneira. Segundo as ordens de Śrīla Rūpa Gosvāmī:
anāsaktasya viṣayān
yathārham upayuñjataḥ
nirbandhaḥ kṛṣṇa-sambandhe
yuktaṁ vairāgyam ucyate
“Quem uma pessoa não está apegada a nada, mas, ao mesmo tempo, aceita tudo que tenha em relação com Kṛṣṇa, está corretamente situada acima de todo senso de posse.” (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.2.255)
Ninguém deve apegar-se à opulência material, mas pode-se acei­tar a opulência material no movimento para a consciência de Kṛṣṇa de modo a facilitar a propagação do movimento. Em outras palavras, pode-se aceitar a opulência material como sendo yukta-vairāgya, isto é, visando à renúncia.
राजोवाच
श्रुतमन्वीक्षितं ब्रह्मन् भगवान् यदभाषत ।
नैतज्जानन्त्युपाध्याया: किं न ब्रूयुर्विदुर्यदि ॥ ५६ ॥
rājovāca
śrutam anvīkṣitaṁ brahman
bhagavān yad abhāṣata
naitaj jānanty upādhyāyāḥ
kiṁ na brūyur vidur yadi

Synonyms

rājā uvācao rei disse; śrutamfoi ouvido; anvīkṣitamfoi considerado; brahmanó brāhmaṇa; bhagavāno poderosíssimo; gato qual; abhāṣatafalastes; nanão; etatisto; jānanticonhecem; upādhyāyāḥos mestres de atividades fruitivas; kimpor que; na brūyuḥnão instruíram; viduḥcompreenderam; yadicaso.

Translation

O rei respondeu: Meu querido brāhmaṇa, ouvi com grande aten­ção tudo o que dissestes e, considerando tudo isso, cheguei à con­clusão de que os ācāryas [mestres] que me ocuparam em atividades fruitivas ignoravam esse conhecimento confidencial. Se o tinham, por que não me explicaram?

Purport

SIGNIFICADO—De fato, os pretensos professores ou líderes da sociedade material não conhecem a verdadeira meta da vida. A Bhagavad-gītā os des­creve como māyayāpahṛta jñānāḥ. Eles parecem estudiosos muito eruditos, mas, na verdade, a influência da energia ilusória roubou­-lhes o conhecimento. Verdadeiro conhecimento significa buscar Kṛṣṇa. Vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ. Todo o conhecimento védico destina-se a buscar Kṛṣṇa, porque Kṛṣṇa é a origem de tudo (janmādy asya yataḥ). Na Bhagavad-gītā (10.2), Kṛṣṇa diz que aham ādir hi devānāṁ: “Eu sou a fonte dos semideuses.” Assim, Kṛṣṇa é a origem e o início de todos os semideuses, incluindo o senhor Brahmā, o senhor Śiva e todos os demais. Nas cerimônias ritualísticas védi­cas, a preocupação é satisfazer diferentes semideuses, mas, a menos que alguém seja muito avançado, ele não poderá entender que a personalidade original é Śrī Kṛṣṇa (govindam ādi-purusāṁ tam ahaṁ bhajāmi). Após ouvir as instruções de Nārada, o rei Barhiṣmān voltou à razão. A verdadeira meta da vida é alcançar o serviço devo­cional à Suprema Personalidade de Deus. O rei, portanto, decidiu rejeitar as pretensas ordens sacerdotais que simplesmente ocupam seus seguidores em cerimônias ritualísticas sem dar instruções efi­cazes sobre a meta da vida. No momento atual, as igrejas, templos e mesquitas em todo o mundo não exercem atração sobre as pessoas porque sacerdotes tolos não são capazes de elevar seus seguidores à plata­forma de conhecimento. Ignorando a verdadeira meta da vida, eles simplesmente mantêm suas comunidades em ignorância. Em conse­quência disso, as pessoas instruídas perderam o interesse pelas ceri­mônias ritualísticas. Por outro lado, elas não se beneficiam do ver­dadeiro conhecimento. Este movimento para a consciência de Kṛṣṇa, portanto, é de grande importância para a iluminação de todas as classes sociais. Seguindo os passos de Mahārāja Barhiṣmān, todos devem aproveitar-se deste movimento para a consciência de Kṛṣṇa e abandonar as estereotipadas cerimônias ritualísticas que se fazem passar por muitas religiões. Os Gosvāmīs, desde o início, discorda­vam da classe sacerdotal ocupada em cerimônias ritualísticas. Na verdade, Śrīla Sanātana Gosvāmī compilou seu Hari-bhakti-vilāsa para a orientação dos vaiṣṇavas. Os vaiṣṇavas, não se importando com as atividades sem vida das classes sacerdotais, adotam a consciência de Kṛṣṇa plena e se tornam perfeitos nesta mesma vida. Descreveu-se isso no verso anterior como paramahaṁsa-śaraṇam: refugiar-se no paramahaṁsa, a alma liberada, e tornar-se exitoso nesta vida.
संशयोऽत्र तु मे विप्र सञ्छिन्नस्तत्कृतो महान् ।
ऋषयोऽपि हि मुह्यन्ति यत्र नेन्द्रियवृत्तय: ॥ ५७ ॥
saṁśayo ’tra tu me vipra
sañchinnas tat-kṛto mahān
ṛṣayo ’pi hi muhyanti
yatra nendriya-vṛttayaḥ

Synonyms

saṁśayaḥdúvida; atraaqui; tumas; meminha; vipraó brāhmaṇa; sañchinnaḥaclarastes; tat-kṛtaḥfeito por isso; mahānmuito grande; ṛṣayaḥos grandes sábios; apimesmo; hidecerto; muhyantiestão confusos; yatraonde; nanão; indriyados sentidos; vṛttayaḥatividades.

Translation

Meu querido brāhmaṇa, há contradições entre vossas instruções e as de meus mestres espirituais que me ocuparam em atividades fruitivas. Agora posso entender a distinção entre serviço devocional, conhecimento e renúncia. Eu carregava comigo algumas dúvidas acerca disso. Agora, porém, bondosamente dissipastes todas as minhas dúvidas. Agora posso entender que até mesmo os grandes sábios estão confusos quanto ao verdadeiro propósito da vida. Evidentemente, o gozo dos sentidos é algo que não devemos sequer cogitar.

Purport

SIGNIFICADO—O rei Barhiṣmān dedicou-se a diferentes classes de sacrifício visando à elevação aos planetas celestiais. De um modo geral, as pessoas sentem-se atraídas por essas atividades, sendo muito raro alguém se atrair pelo serviço devocional, como confirma Śrī Caitanya Mahāprabhu. A menos que alguém seja muitíssimo afor­tunado, ele não adota o serviço devocional. Mesmo os estudiosos védicos supostamente eruditos estão confusos quanto ao serviço devocional. De um modo geral, eles se deixam atrair pelos rituais em busca de gozo dos sentidos. No serviço devocional, não há gozo dos sentidos, mas apenas o transcendental serviço amoroso ao Senhor. Em consequência disso, os pretensos sacerdotes ocupados em gozo dos sentidos não gostam muito do serviço devocional. Os brāhmaṇas, os sacerdotes, têm sido adversários deste movimento para a consciên­cia de Kṛṣṇa desde que ele começou com o Senhor Caitanya Mahā­prabhu. Quando o Senhor Caitanya Mahāprabhu iniciou este movimento, a classe sacerdotal fez queixas ao Kazi, o magistrado do governo muçulmano. Caitanya Mahāprabhu teve que liderar um movimento de desobediência civil contra a propaganda dos supostos seguidores dos princípios védicos. Essas pessoas costumam ser chamadas de karma-jaḍa-smārtas, ou seja, sacerdotes ocupados em cerimônias ritualísticas. Aqui se afirma como tais pessoas se desorientam (ṛṣayo ’pi hi muhyanti). Para nos salvarmos das mãos desses karma-jaḍa-smārtas, devemos seguir estritamente as instru­ções da Suprema Personalidade de Deus.
sarva-dharmān parityajya
mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja
ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo
mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ
“Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Eu te libertarei de todas as reações pecaminosas. Não temas.” (Bhagavad-gītā 18.66)
कर्माण्यारभते येन पुमानिह विहाय तम् ।
अमुत्रान्येन देहेन जुष्टानि स यदश्नुते ॥ ५८ ॥
karmāṇy ārabhate yena
pumān iha vihāya tam
amutrānyena dehena
juṣṭāni sa yad aśnute

Synonyms

karmāṇiatividades fruitivas; ārabhatecomeça a executar; yenapelas quais; pumānuma entidade viva; ihanesta vida; vihāyaabandonando; tamisto; amutrana vida seguinte; anyenaoutro; dehenapor um corpo; juṣṭānios resultados; saḥela; yatisso; aśnutedesfruta.

Translation

Os resultados de qualquer coisa que uma entidade viva faça nesta vida são desfrutados na vida seguinte.

Purport

SIGNIFICADO—De um modo geral, ninguém sabe como um corpo está vinculado a outro corpo. Como é possível que alguém sofra ou desfrute dos resultados de atividades realizadas neste corpo em outro corpo na vida seguinte? Esta é uma pergunta que o rei quer que Nārada Muni responda. Como alguém pode ter um corpo humano nesta vida e não ter um corpo humano na seguinte? Nem mesmo grandes filósofos e cientistas podem explicar a transferência do karma de um corpo a outro. Segundo nossa experiência, cada alma indi­vidual tem um corpo individual, e as atividades de uma pessoa ou as atividades de um corpo não são desfrutadas ou sofridas por outro corpo ou por outra pessoa. A pergunta é: como as atividades de um corpo são sofridas ou desfrutadas no próximo corpo?
इति वेदविदां वाद: श्रूयते तत्र तत्र ह ।
कर्म यत्क्रियते प्रोक्तं परोक्षं न प्रकाशते ॥ ५९ ॥
iti veda-vidāṁ vādaḥ
śrūyate tatra tatra ha
karma yat kriyate proktaṁ
parokṣaṁ na prakāśate

Synonyms

itiassim; veda-vidāmde pessoas que conhecem as conclusões védicas; vādaḥa tese; śrūyateé ouvida; tatra tatraaqui e ali; hadecerto; karmaa atividade; yatque; kriyateé executada; proktamcomo foi dito; parokṣamdesconhecido; na prakāśatenão se manifesta diretamente.

Translation

Os peritos conhecedores das conclusões védicas dizem como alguém desfruta ou sofre dos resultados de suas atividades passadas. Contudo, na prática, observa-se que o corpo que realizou o trabalho no último nascimento já se perdeu. Assim, como é possível desfrutar ou sofrer as reações daquele trabalho em um corpo diferente?

Purport

SIGNIFICADO—Os ateístas querem evidências do que acontece com as ações resultantes de atividades passadas. Portanto, eles perguntam: “Onde está a prova de que estou sofrendo e gozando das ações resultantes do karma passado?” Eles não fazem ideia de como o corpo sutil transporta os resultados das ações do corpo atual até o próximo corpo grosseiro. O corpo atual pode se acabar no nível grosseiro, mas o corpo sutil não se acaba; ele transporta a alma para o corpo seguinte. Na verdade, o corpo grosseiro depende do corpo sutil. Portanto, o próximo corpo grosseiro é obrigado a sofrer e desfrutar de acordo com o corpo sutil. A alma é transpor­tada pelo corpo sutil continuamente até se libertar do cativeiro material grosseiro.
नारद उवाच
येनैवारभते कर्म तेनैवामुत्र तत्पुमान् ।
भुङ्क्ते ह्यव्यवधानेन लिङ्गेन मनसा स्वयम् ॥ ६० ॥
nārada uvāca
yenaivārabhate karma
tenaivāmutra tat pumān
bhuṅkte hy avyavadhānena
liṅgena manasā svayam

Synonyms

nāradaḥ uvācaNārada disse; yenapelo qual; evadecerto; ārabhatecomeça; karmaatividades fruitivas; tenapor este corpo; evadecerto; amutrana próxima vida; tatisso; pumāna entidade viva; bhuṅktedesfruta; hiporque; avyavadhānenasem mudança alguma; liṅgenapelo corpo sutil; manasāpela mente; svayampessoalmente.

Translation

O grande sábio Nārada prosseguiu: A entidade viva age em um corpo grosseiro nesta vida. Tal corpo é forçado a agir por meio do corpo sutil, composto de mente, inteligência e ego. Depois que o corpo grosseiro se perde, o corpo sutil continua a existir para desfrutar ou sofrer. Assim, não existe mudança.

Purport

SIGNIFICADO—A entidade viva tem duas espécies de corpo – o corpo sutil e o corpo grosseiro. Na verdade, ela desfruta através do corpo sutil, que é composto de mente, inteligência e ego. O corpo grosseiro é a cobertura externa instrumental. Quando o corpo grosseiro se perde, ou quando ele morre, a raiz do corpo grosseiro – a mente, a inteli­gência e o ego – continua a existir e ocasiona outro corpo gros­seiro. Embora os corpos grosseiros aparentemente mudem, a verda­deira raiz do corpo grosseiro – o corpo sutil composto de mente, inteligência e ego – continua existindo. As atividades do corpo sutil, sejam ímpias ou piedosas, criam outra situação para a entidade viva desfrutar ou sofrer no corpo grosseiro seguinte. Deste modo, o corpo sutil continua a existir, ao passo que os corpos grosseiros mudam, um após o outro.
Visto que os cientistas e filósofos modernos são muito materia­listas, e uma vez que seu conhecimento é roubado pela energia ilusó­ria, eles não podem explicar as transformações do corpo grosseiro. O filósofo materialista Darwin tentou estudar as transformações do corpo grosseiro, mas, como não tinha conhecimento, nem do corpo sutil, nem da alma, ele não pôde explicar com clareza como funcio­na o processo evolutivo. Alguém pode mudar de corpo grosseiro, mas ele age no corpo sutil. As pessoas não podem entender as atividades do corpo sutil, em consequência do que ficam confusas sobre como as ações de um corpo grosseiro afetam outro corpo grosseiro. As atividades do corpo sutil também são orientadas pela Superalma, como se explica na Bhagavad-gītā (15.15):
sarvasya cāhaṁ hṛdi sanniviṣṭo
mattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca
“Estou situado no coração de todos, e de Mim vêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento.”
Uma vez que a Suprema Personalidade de Deus, como a Superal­ma, está sempre orientando a alma individual, a alma individual sempre sabe como agir de acordo com as reações de seu karma passado. Em outras palavras, a Superalma faz com que ela se lembre de agir de certa maneira. Portanto, embora aparentemente haja uma mudança no corpo grosseiro, existe uma continuidade entre as vidas de uma alma individual.
शयानमिममुत्सृज्य श्वसन्तं पुरुषो यथा ।
कर्मात्मन्याहितं भुङ्क्ते ताद‍ृशेनेतरेण वा ॥ ६१ ॥
śayānam imam utsṛjya
śvasantaṁ puruṣo yathā
karmātmany āhitaṁ bhuṅkte
tādṛśenetareṇa vā

Synonyms

śayānamdeitado em uma cama; imameste corpo; utsṛjyaapós abandonar; śvasantamrespirando; puruṣaḥa entidade viva; yathācomo; karmaatividade; ātmanina mente; āhitamexecutada; bhuṅktegoza; tādṛśenapor um corpo semelhante; itareṇapor um corpo diferente; ou.

Translation

Enquanto sonha, a entidade viva abandona o próprio corpo vivo. Através das atividades de sua mente e de sua inteligência, ela atua em outro corpo, seja como um deus, seja como um cão. Após abandonar este corpo grosseiro, a entidade viva entra, quer em um corpo animal, quer em um corpo de semideus, neste planeta ou em outro planeta. Assim, ela goza dos resultados das ações de sua vida passada.

Purport

SIGNIFICADO—Muito embora a raiz da aflição e da felicidade seja a mente, a inteligên­cia e o ego, o corpo grosseiro é necessário como instrumento para o gozo. O corpo grosseiro pode mudar, mas o corpo sutil continua a agir. A menos que a entidade viva obtenha outro corpo grosseiro, ela será obrigada a continuar em um corpo sutil, ou em um corpo fantasmagórico. Uma pessoa se torna um fantasma quando o corpo sutil age sem a ajuda do corpo grosseiro instrumental. Como se afirma neste verso, śayānam imam utsṛjya śvasantam. O corpo grosseiro pode estar deitado em uma cama a repousar, e, mesmo que o maquinário do corpo grosseiro esteja funcionando, a entidade viva pode sair do corpo, entrar no estado de sonho e voltar ao corpo grosseiro. Ao retornar ao corpo, ela se esquece de seu sonho. De modo semelhante, quando a entidade viva assume outro corpo grosseiro, ela se esquece do corpo grosseiro atual. Em conclusão, o corpo sutil – mente, inteligência e ego – cria uma atmos­fera de desejos e ambições desfrutados pela entidade viva no corpo sutil. Na verdade, a entidade viva se encontra no corpo sutil, muito embora o corpo grosseiro aparentemente mude e muito embora ela habite o corpo grosseiro em vários planetas. Todas as atividades realizadas pela entidade viva no corpo sutil se chamam ilusórias por não serem permanentes. Liberação significa escapar das garras do corpo sutil. O fato de a alma libertar-se do corpo grosseiro sim­plesmente significa que ela transmigra de um corpo grosseiro a outro. Educando a mente em consciência de Kṛṣṇa, ou seja, em consciência superior no modo da bondade, somos transferidos ou para os planetas celestiais superiores, ou para o mundo espiritual, os planetas Vaikuṇṭha. Portanto, é preciso que mudemos nossa consciência, cultivando o conhecimento contido nas instruções vé­dicas e recebido da Suprema Personalidade de Deus por intermédio da sucessão discipular. Se treinarmos o corpo sutil nesta vida, pen­sando sempre em Kṛṣṇa, nós nos transferiremos a Kṛṣṇaloka após deixar o corpo grosseiro. Isso é confirmado pela Suprema Persona­lidade de Deus.
janma karma ca me divyam
evaṁ yo vetti tattvataḥ
tyaktvā dehaṁ punar janma
naiti mām eti so ’rjuna
“Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.” (Bhagavad-gītā 4.9)
Assim, a mudança do corpo grosseiro não é muito importante, mas a mudança do corpo sutil é importante. O movimento para a consciência de Kṛṣṇa está educando as pessoas a iluminarem seu corpo sutil. O exemplo perfeito disso é Ambarīṣa Mahārāja, que mantinha sua mente sempre absorta nos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa (sa vai manaḥ kṛṣṇa padāravindayoḥ). Do mesmo modo, nesta vida, devemos sempre fixar nossa mente nos pés de lótus de Kṛṣṇa, que Se encontra presente em Seu arcā-vigraha, a encarnação da Deidade no templo. Devemos sempre nos ocupar, também, em Sua adoração. Se usarmos nossas palavras para descrever as ativi­dades do Senhor e nossos ouvidos para ouvir a respeito de Seus passatempos, e se seguirmos os princípios reguladores para mantermos a mente impoluta em prol do avanço em consciência de Kṛṣṇa, com certeza seremos elevados à plataforma espiritual. Então, à hora da morte, a mente, a inteligência e o ego não estarão mais contamina­dos materialmente. A entidade viva existe, e a mente, a inteligência e o ego também existem. Quando a mente, a inteligência e o ego se purificam, todos os sentidos ativos da entidade viva tornam-se espi­rituais. Assim, a entidade viva alcança sua forma sac-cid-ānanda. O Senhor Supremo sempre existe sob Sua forma sac-cid-ānanda, mas a entidade viva, embora parte integrante do Senhor, contamina-se materialmente ao desejar vir ao mundo material em busca de gozo material. A prescrição de voltar ao lar, voltar ao Supremo, vem do próprio Senhor, na Bhagavad-gītā (9.34):
man-manā bhava mad-bhakto
mad-yājī māṁ namaskuru
mām evaiṣyasi yuktvaivam
ātmānaṁ mat-parāyaṇaḥ
“Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e Me adora. Estando absorto por completo em Mim, com certeza virás a Mim.”
ममैते मनसा यद्यदसावहमिति ब्रुवन् ।
गृह्णीयात्तत्पुमान् राद्धं कर्म येन पुनर्भव: ॥ ६२ ॥
mamaite manasā yad yad
asāv aham iti bruvan
gṛhṇīyāt tat pumān rāddhaṁ
karma yena punar bhavaḥ

Synonyms

mamaminha; etetodas essas; manasāpela mente, yat yat — tudo o que; asauisso; ahameu (sou); itiassim; bruvan­aceitando; gṛhṇīyātleva com ela; tatisso; pumāna entidade viva; rāddhamaperfeiçoado; karmatrabalho; yenapelo qual; punaḥde novo; bhavaḥexistência material.

Translation

A entidade viva trabalha sob a influência do conceito corpóreo: “Eu sou isso, eu sou aquilo. Esse é meu dever e, por isso, eu devo cumpri-lo.” Essas impressões são todas mentais, e essas atividades são todas temporárias; entretanto, pela graça da Suprema Persona­lidade de Deus, a entidade viva tem a oportunidade de realizar todas as suas invenções mentais. É assim que ela obtém outro corpo.

Purport

SIGNIFICADO—Enquanto alguém estiver absorto no conceito corpóreo, ele realiza suas atividades nesta plataforma. Não é muito difícil entender isso. No mundo, observamos que cada nação se esforça para superar todas as demais nações e que cada homem se esforça para superar seus companheiros. Todas essas atividades acontecem sob o rótulo de “avanço da civilização”. Muitos são os planos para dar con­forto ao corpo, e esses planos acompanham o corpo sutil após a destruição do corpo grosseiro. Não é verdade que a entidade viva se acabe após a destruição do corpo grosseiro. Embora muitos grandes filósofos e mestres deste mundo tenham a impressão de que, após se acabar o corpo, tudo se acaba, isso não é verdade. Nārada Muni diz neste verso que, à hora da morte, cada um leva seus planos consigo (gṛhṇīyāt), e, para executar esses planos, obtém outro corpo. Isso se chama punar bhavaḥ. Quando o corpo grosseiro perece, os planos da entidade viva são levados pela mente, e, pela graça do Senhor, a entidade viva tem a oportunidade de dar forma a esses planos na vida seguinte. Isso é algo conhecido como “lei do karma”. Enquanto a mente estiver absorta nas leis do karma, será preciso aceitar determinada espécie de corpo na próxima vida.
Karma é o conjunto de atividades fruitivas executadas de modo a fazer tudo confortável ou desconfortável para este corpo. De fato, tivemos a oportunidade de presenciar um homem prestes a morrer pedindo a seu médico que lhe desse a oportunidade de viver por mais quatro anos a fim de que pudesse realizar seus planos. Isso quer dizer que, enquanto morria, ele estava pensando em seus planos. Depois de destruído o seu corpo, ele, sem dúvida, levou seus planos consigo por meio do corpo sutil, composto de mente, inteligência e ego. Assim, ele obteria outra oportunidade pela graça do Senhor Supremo, a Superalma, que está sempre no seu coração.
sarvasya cāhaṁ hṛdi sanniviṣṭo
mattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca
No próximo nascimento, a Superalma recorda a pessoa acerca dos planos iniciados na vida anterior, os quais ela se põe a executar. A Bhagavad-gītā também explica isso em outro verso:
īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ
hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati
bhrāmayan sarva-bhūtāni
yantrārūḍhāni māyayā
“O Senhor Supremo está situado nos corações de todos, ó Arjuna, e está dirigindo as andanças de todas as entidades vivas, que estão sentadas num tipo de máquina feita de energia material.” (Bhagavad-gītā 18.61) Situada no veículo recebido da natureza material e obtendo a recordação da Superalma em seu coração, a entidade viva luta por todo o universo para cumprir seus planos, pensando: “Eu sou um brāhmaṇa”, “eu sou um kṣatriya”, “sou americano”, “sou indiano” e assim por diante. Essas designações têm todas a mesma essência. Não há motivo para alguém preferir ser um brāhmaṇa em vez de ser um americano, ou preferir ser um americano em vez de ser um negro. Acima de tudo, essas concepções são todas corpóreas, sob a influência dos modos da natureza material.
यथानुमीयते चित्तमुभयैरिन्द्रियेहितै: ।
एवं प्राग्देहजं कर्म लक्ष्यते चित्तवृत्तिभि: ॥ ६३ ॥
yathānumīyate cittam
ubhayair indriyehitaiḥ
evaṁ prāg-dehajaṁ karma
lakṣyate citta-vṛttibhiḥ

Synonyms

yathācomo; anumīyatepode-se imaginar; cittama consciên­cia ou condição mental de uma pessoa; ubhayaiḥambos; indriyados sentidos; īhitaiḥpelas atividades; evamde modo semelhante; prākanteriores; dehajamrealizadas pelo corpo; karmaatividades; lakṣyatepode-se perceber; cittada consciência; vṛttibhiḥ­pelas ocupações.

Translation

Podemos entender a posição mental ou consciente de uma entidade viva através das atividades de duas classes de sentidos – os sentidos de adquirir conhecimento e os sentidos funcionais. De modo semelhante, através da condição mental ou da consciência de uma pessoa, podemos entender sua posição na vida anterior.

Purport

SIGNIFICADO—Como diz o provérbio, “os olhos são o espelho da alma”. Se uma pessoa fica irada, sua ira imediatamente se reflete em seu olhar. Do mesmo modo, outros estados mentais refletem-se nas ações do corpo grosseiro. Em outras palavras, as atividades do corpo gros­seiro são reações às condições mentais. As atividades da mente são pensar, sentir e querer. O aspecto volitivo da mente manifesta-se através das atividades do corpo. A conclusão é que, através das atividades do corpo e dos sentidos, podemos deduzir as condições da mente. As condições da mente são afetadas por atividades pas­sadas realizadas no corpo anterior. Quando a mente se junta com um sentido em particular, ela imediatamente se manifesta de determinada maneira. Por exemplo, quando ocorre a ira na mente, a língua vibra muitas maldições. Do mesmo modo, quando a ira mental se expressa através das mãos, sobrevém a luta. Ao se expressar através das pernas, há chutes. Existem muitas maneiras pelas quais as atividades sutis da mente se expressam através dos vários sentidos. A mente de uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa também age de forma semelhante. A língua canta Hare Kṛṣṇa, o mahā-mantra, as mãos levantam-se em êxtase e as pernas dançam em consciência de Kṛṣṇa. Tais sintomas se chamam, tecnicamente, aṣṭa-sāttvika-vikāra. Sāttvika-vikāra é a transformação da condição mental em bondade ou, às vezes, em êxtase transcendental.
नानुभूतं क्‍व चानेन देहेनाद‍ृष्टमश्रुतम् ।
कदाचिदुपलभ्येत यद्रूपं याद‍ृगात्मनि ॥ ६४ ॥
nānubhūtaṁ kva cānena
dehenādṛṣṭam aśrutam
kadācid upalabhyeta
yad rūpaṁ yādṛg ātmani

Synonyms

nanunca; anubhūtamexperimentado; kvaem tempo algum; catambém; anena dehenapor este corpo; adṛṣṭamnunca visto; aśrutamnunca ouvido; kadācitàs vezes; upalabhyetapode-se experimentar; yatque; rūpamforma; yādṛkqualquer espécie; ātmanina mente.

Translation

Às vezes, experimentamos algo repentinamente, embora nunca o tivéssemos experimentado no corpo atual pela visão ou audição. Outras vezes, essas coisas nos aparecem, muito de repente, em nossos sonhos.

Purport

SIGNIFICADO—Às vezes, em sonhos, vemos coisas que nunca experimentamos no corpo atual. Às vezes, em sonhos, pensamos estar voando no céu, embora não tenhamos a experiência de voar. Isso quer dizer que alguma vez, em uma vida anterior, seja como semideus, seja como astronauta, nós voamos no céu. A impressão ficou gravada na mente, e subi­tamente ela se expressa. É algo assim como uma fermentação, ocor­rida nas profundezas da água, que às vezes se manifesta em bolhas na superfície da água. Algumas vezes, sonhamos que estamos indo a um lugar onde jamais estivemos ou experimentamos nesta vida, o que prova que, em uma vida anterior, tivemos a experiência disso. A impres­são é mantida dentro da mente e, às vezes, ela se manifesta ou em sonho, ou em pensamento. Em conclusão, a mente é o repositório de vários pensamentos e experiências que tivemos em nossas vidas passadas. Assim, há um elo de continuidade de uma vida para a outra, de vidas anteriores para esta vida e desta vida para vidas futuras. Às vezes também se prova isso se dizendo que um homem é um poeta nato, um cientista nato ou um devoto nato. Se, como Mahārāja Ambarīṣa, pensarmos constantemente em Kṛṣṇa nesta vida (sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ), é certo que seremos transferidos ao reino de Deus à hora da morte. Mesmo se nossa tentativa de nos tornarmos conscientes de Kṛṣṇa não se conclua, nossa consciência de Kṛṣṇa continuará na vida seguinte. Confirma-­se isso na Bhagavad-gītā (6.41):
prāpya puṇya-kṛtāṁ lokān
uṣitvā śāśvatīḥ samāḥ
śucīnāṁ śrīmatāṁ gehe
yoga-bhraṣṭo ’bhijāyate
“Após muitos e muitos anos de gozo nos planetas habitados por entidades vivas piedosas, o yogī malogrado nasce em uma família de pessoas virtuosas ou em uma família aristocrata e rica.”
Se observarmos rigidamente os princípios de meditação em Kṛṣṇa, não haverá dúvida de que, na próxima vida, seremos transfe­ridos a Kṛṣṇaloka, Goloka Vṛndāvana.
तेनास्य ताद‍ृशं राजँल्लिङ्गिनो देहसम्भवम् ।
श्रद्धत्स्वाननुभूतोऽर्थो न मन: स्प्रष्टुमर्हति ॥ ६५ ॥
tenāsya tādṛśaṁ rājaḻ
liṅgino deha-sambhavam
śraddhatsvānanubhūto ’rtho
na manaḥ spraṣṭum arhati

Synonyms

tenaportanto; asyada entidade viva; tādṛśamassim; rājanó rei; liṅginaḥque tem uma cobertura mental sutil; deha-sambha­vamproduzida no corpo anterior; śraddhatsvaaceita isso como um fato; ananubhūtaḥnão percebido; arthaḥalgo; nanunca; manaḥna mente; spraṣṭumde manifestar; arhatié capaz.

Translation

Portanto, meu querido rei, a entidade viva, que tem uma cobertura mental sutil, desenvolve toda espécie de pensamentos e imagens devido a seu corpo anterior. Não tenhas dúvidas quanto a isso que eu compartilho. Inexiste a possibilidade de inventar qualquer coisa mentalmente sem que isso tenha sido percebido no corpo anterior.

Purport

kṛṣṇa-bahirmukha hañā bhoga-vāñchā kare
nikaṭa-stha māyā tāre jāpaṭiyā dhare
(Prema-vivarta)
Na verdade, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é o desfrutador supremo. Ao querer imitá-lO, a entidade viva recebe uma opor­tunidade de satisfazer seu falso desejo de se assenhorear da natureza material. Esse é o início de sua queda. Enquanto ela estiver nesta atmosfera material, estará munida de um veículo sutil, sob a forma da mente, que é o repositório de toda classe de desejos materiais. Semelhantes desejos se manifestam em diferentes formas corpóreas. Śrīla Nārada Muni pede ao rei que aceite esse fato da parte dele, porque Nārada é uma autoridade. Em conclusão, a mente é o repositório de nossos desejos passados, e temos este corpo atual devido a nossos desejos passados. De maneira semelhante, qualquer coisa que desejemos neste corpo atual se expressará em um corpo futuro. Assim, a mente é a fonte de diferentes espécies de corpos.
Se alguém purificar sua mente mediante a consciência de Kṛṣṇa, é natural que, no futuro, obterá um corpo espiritual e pleno de consciência de Kṛṣṇa. Semelhante corpo é a nossa forma original, como confirma Śrī Caitanya Mahāprabhu ao dizer que jīvera ‘svarūpa’ haya — kṛṣṇera ‘nitya-dāsa’; “Toda entidade viva é cons­titucionalmente serva eterna de Kṛṣṇa.” Uma pessoa ocupada em serviço devocional ao Senhor deve ser considerada uma alma libe­rada mesmo nesta vida. Isso é confirmado por Śrīla Rūpa Gosvāmī:
īhā yasya harer dāsye
karmaṇā manasā girā
nikhilāsv apy avasthāsu
jīvan-muktaḥ sa ucyate
“Quem se ocupa em transcendental serviço ao Senhor com corpo, mente e palavras deve ser considerado liberado em todas as con­dições de existência material.” (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.2.187) O movimento para a consciência de Kṛṣṇa baseia-se nesse princípio. Devemos ensinar as pessoas a se deixarem absorver sempre mais no serviço ao Senhor, pois essa é a posição natural delas. Quem está sempre servindo o Senhor já deve ser considerado liberto. Confirma-se isso, também, na Bhagavad-gītā (14.26):
māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
“Quem sempre se ocupa nas atividades espirituais do serviço devo­cional puro transcende de imediato os modos da natureza material e eleva-se à plataforma espiritual.” O devoto, portanto, está acima dos três modos da natureza material, sendo transcendental inclusive à plataforma de brāhmaṇa. Um brāhmaṇa pode estar infectado pelos dois modos inferiores – a saber, rajo-guṇa e tamo-guṇa. O devoto puro, estando livre de todos os desejos materiais experimen­tados na plataforma mental e estando também livre da especulação filosófica empírica ou da atividade fruitiva, mantém-se sempre acima do condicionamento material e está liberto para sempre.
मन एव मनुष्यस्य पूर्वरूपाणि शंसति ।
भविष्यतश्च भद्रं ते तथैव न भविष्यत: ॥ ६६ ॥
mana eva manuṣyasya
pūrva-rūpāṇi śaṁsati
bhaviṣyataś ca bhadraṁ te
tathaiva na bhaviṣyataḥ

Synonyms

manaḥa mente; evadecerto; manuṣyasyade um homem; pūrvapassadas; rūpāṇiformas; śaṁsatiindica; bhaviṣyataḥ­de quem nascerá; catambém; bhadramboa fortuna; tepara ti; tathāassim; evadecerto; nanão; bhaviṣyataḥde quem nascerá.

Translation

Ó rei, toda boa fortuna a ti! É a mente que faz a entidade viva obter determinada espécie de corpo, segundo o contato dela com a natureza material. Segundo a composição mental de cada entidade viva, podemos saber o que ela foi em sua vida pas­sada, bem como que espécie de corpo terá no futuro. Logo, é a mente quem indica os corpos passados e futuros.

Purport

SIGNIFICADO—A mente é o catálogo de informações sobre as vidas passadas e futuras de cada um. Se um homem é devoto do Senhor, ele cultivou o serviço devocional em sua vida anterior. Do mesmo modo, se a mente de alguém é criminosa, ele foi um criminoso em sua vida passada. Da mesma maneira, de acordo com a mente de alguém, podemos saber o que lhe acontecerá em sua vida futura. A Bhagavad-gītā (14.18) diz:
ūrdhvaṁ gacchanti sattva-sthā
madhye tiṣṭhanti rājasāḥ
jaghanya-guṇa-vṛtti-sthā
adho gacchanti tāmasāḥ
“Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores; aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres; e aqueles no modo da ignorância descem para os mundos infernais.”
Se alguém estiver no modo da bondade, suas atividades mentais o promoverão a um sistema planetário superior. Da mesma forma, se ele tiver uma mentalidade inferior, sua vida futura será muito abominável. As vidas da entidade viva, tanto no passado quanto no futuro, são determinadas pela condição mental. Nesta passagem, Nārada Muni abençoa o rei com toda a boa fortuna para que o rei não deseje nada nem faça planos de gozo dos sentidos. O rei ocupava-se em cerimônias ritualísticas fruitivas porque esperava obter uma vida melhor no futuro. Nārada Muni desejava que ele abandonasse todas essas invenções mentais. Como se explicou antes, todos os corpos existentes em planetas celestiais e em plane­tas infernais surgem de invenções mentais, sendo que os sofrimentos e os prazeres da vida material estão simplesmente na plataforma mental. Eles ocorrem na quadriga da mente (mano-ratha). Por­tanto, afirma-se:
yasyāsti bhaktir bhagavaty akiñcanā
sarvair guṇais tatra samāsate surāḥ
harāv abhaktasya kuto mahad-guṇā
mano-rathenāsati dhāvato bahiḥ
“Alguém que tenha devoção inquebrantável pela Personalidade de Deus possui todas as boas qualidades dos semideuses. Contudo, alguém que não é devoto do Senhor tem apenas qualificações materiais, que são de pouca valia. Isso porque ele está pairando no plano mental e certamente se atrairá pela deslumbrante energia mate­rial.” (Śrīmad-Bhāgavatam 5.18.12)
Quem não se tornar devoto do Senhor, ou plenamente consciente de Kṛṣṇa, certamente permanecerá na plataforma mental e será promovido ou degradado a diferentes classes de corpos. Todas as quali­dades consideradas boas, de acordo com os cálculos materiais, não têm valor algum, na realidade, pois essas supostas boas qualidades não salvarão ninguém do ciclo de nascimentos e mortes. Em conclusão, devemos ser isentos de desejos materiais. Anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam: deve-se estar inteiramente livre de desejos materiais, de especulação filosófica e de atividades fruiti­vas. O melhor procedimento para o ser humano é aceitar favora­velmente o transcendental serviço devocional ao Senhor. Essa é a perfeição máxima da vida humana.
अद‍ृष्टमश्रुतं चात्र क्‍वचिन्मनसि द‍ृश्यते ।
यथा तथानुमन्तव्यं देशकालक्रियाश्रयम् ॥ ६७ ॥
adṛṣṭam aśrutaṁ cātra
kvacin manasi dṛśyate
yathā tathānumantavyaṁ
deśa-kāla-kriyāśrayam

Synonyms

adṛṣṭamnunca experimentado; aśrutamnunca ouvido; cae; atranesta vida; kvacitem certo momento; manasina mente; dṛśyateé visível; yathācomo; tathāsegundo; anuman­tavyamser compreendido; deśalugar; kālatempo; kriyāatividade; āśrayamdependendo de.

Translation

Às vezes, ao sonharmos, vemos algo nunca experimentado ou ouvido nesta vida, mas todos esses incidentes foram experimentados em outros tempos, em outros lugares e em outras condições.

Purport

SIGNIFICADO—No verso anterior, explicou-se que, ao sonharmos, vemos aquilo que experimentamos durante o dia. Porém, por que, às vezes, em nossos sonhos, vemos coisas de que nunca ouvimos falar ou nunca vistas em momento algum durante esta vida? Aqui se afirma que, mesmo que tais eventos não tenham sido experimentados nesta vida, eles foram experimentados em vidas anteriores. De acordo com o tempo e as circunstâncias, eles se combinam de modo que, ao sonharmos, vejamos algo maravilhoso que nunca experimenta­mos antes. Por exemplo, podemos ver um oceano no topo de uma montanha. Ou, então, podemos ver o mar secando. Trata-se simplesmente de combinações de diferentes experiências no tempo e no espaço. Às vezes, podemos ver uma montanha de ouro, e isso se deve ao fato de termos a experiência do ouro e da montanha separa­damente. Em um sonho, iludidos, combinamos esses fatores distintos. Dessa maneira, somos capazes de ver montanhas de ouro ou estre­las durante o dia. Concluindo, tudo isso é mera invenção mental, embora realmente tenha sido experimentado em diferentes circuns­tâncias. São apenas coisas que se combinam em um sonho. Continua­-se a explicar este fato no verso seguinte.
सर्वे क्रमानुरोधेन मनसीन्द्रियगोचरा: ।
आयान्ति बहुशो यान्ति सर्वे समनसो जना: ॥ ६८ ॥
sarve kramānurodhena
manasīndriya-gocarāḥ
āyānti bahuśo yānti
sarve samanaso janāḥ

Synonyms

sarvetodos; krama-anurodhenaem ordem cronológica; ma­nasina mente; indriyapelos sentidos; gocarāḥexperimentados; āyāntivêm; bahuśaḥde muitas maneiras; yāntivão embora; sarvetodos; samanasaḥcom a mente; janāḥentidades vivas.

Translation

A mente da entidade viva continua a existir em vários corpos grosseiros, e, de acordo com os desejos que cada entidade viva tenha de gozo dos sentidos, a mente registra diferentes pensamentos. Essas imagens aparecem juntas na mente, sob a forma de dife­rentes combinações; portanto, às vezes, essas imagens parecem coisas nunca vistas ou nunca ouvidas anteriormente.

Purport

SIGNIFICADO—As atividades da entidade viva no corpo de um cão, por exemplo, podem ser experimentadas na mente de um corpo diferente; por isso, temos a impressão de que nunca vimos nem ouvimos falar de tais atividades. A mente continua, embora o corpo mude. Mesmo durante esta vida, às vezes podemos experimentar sonhos de nossa infância. Embora semelhantes incidentes agora pareçam estranhos, deve-se compreender que estavam registrados na mente e, em virtude disso, tornam-se visíveis em sonhos. A transmigração da alma é ocasio­nada pelo corpo sutil, que é o depósito de toda espécie de desejos materiais. Se não estivermos plenamente absortos em consciência de Kṛṣṇa, os desejos materiais continuarão indo e vindo. Esta é a natureza da mente – pensar, sentir e querer. Enquanto a mente não estiver ocupada em meditação nos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, a mente desejará muitos prazeres materiais. Há imagens sensoriais registradas na mente em ordem cronológica, e elas se manifestam uma após outra; portanto, a entidade viva é força­da a aceitar um corpo após outro. A mente planeja o gozo mate­rial, e o corpo grosseiro serve como instrumento para realizar esses desejos e planos. A mente é a plataforma na qual todos os desejos vêm e vão. Portanto, Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura canta:
guru-mukha-padma-vākya, cittete kariyā aikya,
āra nā kariha mane āśā
Narottama Dāsa Ṭhākura aconselha todos a se manterem fiéis ao princípio de cumprir as ordens do mestre espiritual. Ninguém deve desejar mais nada. Se os princípios reguladores ordenados pelo mes­tre espiritual forem seguidos rigidamente, a mente aos poucos será treinada a não desejar nada além do serviço a Kṛṣṇa. Semelhante treinamento é a perfeição da vida.
सत्त्वैकनिष्ठे मनसि भगवत्पार्श्ववर्तिनि ।
तमश्चन्द्रमसीवेदमुपरज्यावभासते ॥ ६९ ॥
sattvaika-niṣṭhe manasi
bhagavat-pārśva-vartini
tamaś candramasīvedam
uparajyāvabhāsate

Synonyms

sattva-eka-niṣṭheem plena consciência de Kṛṣṇa; manasiem mente; bhagavatcom a Suprema Personalidade de Deus; pārśva-vartiniassociando-se constantemente; tamaḥo planeta escuro; candramasina Lua; ivacomo; idamesta manifestação cósmica; uparajyaestando ligada; avabhāsatemanifesta-se.

Translation

Consciência de Kṛṣṇa significa associar-se constantemente com a Suprema Personalidade de Deus em um estado mental em que o devoto possa observar a manifestação cósmica do mesmo modo como a Suprema Personalidade de Deus o faz. Não é sempre que essa obser­vação é possível, mas, às vezes, ela se manifesta, tal qual o planeta escuro conhecido como Rāhu, que é observado na presença da lua cheia.

Purport

SIGNIFICADO—No verso anterior, explicou-se que todos os desejos na plataforma mental se manifestam um após o outro. Às vezes, contudo, pela von­tade insuperável da Suprema Personalidade de Deus, todos os registros podem tornar-se visíveis de uma só vez. Na Brahma-saṁhitā (5.54), afirma-se, karmāṇi nirdahati kintu ca bhakti-bhājām: Quando uma pessoa está plenamente absorta em consciência de Kṛṣṇa, seu estoque de desejos materiais é reduzido. Na verdade, os desejos deixam de frutificar sob a forma de corpos grosseiros. Em vez disso, o estoque de desejos manifesta-se na plataforma mental pela graça da Suprema Personalidade de Deus.
A esse respeito, a escuridão ocorrida antes da lua cheia, o eclipse lunar, pode ser explicada como uma interposição de outro planeta, conhecido como Rāhu. A astronomia védica aceita a existência do planeta Rāhu, que é invisível. Às vezes, o planeta Rāhu é visível na presença da lua cheia. Então, parece que esse planeta Rāhu existe em algum lugar perto da órbita da Lua. O planeta Rāhu pode ter sido a causa do fracasso dos modernos excursionistas lunares. Em outras palavras, aqueles que julgam ter ido à Lua podem, na verdade, ter ido a esse planeta invisível de nome Rāhu. Na verdade, eles não estão indo à Lua, mas sim ao planeta Rāhu, e, após alcançar esse planeta, eles voltam. Afora essa discussão, o problema é que a entidade viva tem imensos e ilimitados desejos de gozo material, e ela é forçada a transmigrar de um corpo grosseiro a outro até que esses desejos se esgotem.
Nenhuma entidade viva está livre do ciclo de nascimentos e mortes a menos que adote a consciência de Kṛṣṇa; portanto, neste verso, afirma-se claramente (sattvaika-niṣṭhe) que, ao se absorver plenamente em consciência de Kṛṣṇa, a entidade viva se livra de desejos mentais passados e futuros de uma só vez. Então, pela graça do Senhor Supremo, tudo se manifesta ao mesmo tempo dentro da mente. Com relação a isso, Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura cita o exemplo de mãe Yaśodā ao ver toda a manifestação cósmica dentro da boca do Senhor Kṛṣṇa. Pela graça do Senhor Kṛṣṇa, mãe Yaśodā viu todos os universos e planetas dentro da boca de Kṛṣṇa. De modo semelhante, pela graça da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa pode ver todos os seus desejos adormecidos de uma só vez e terminar todas as suas transmigrações futuras. Recebendo essa oportunidade especial, o devoto vê aberto o seu caminho de volta ao lar, de volta ao Supremo.
Nesta passagem, explica-se a razão pela qual nós vemos coisas não experimentadas nesta vida. Aquilo que vemos é a expressão futura de um corpo grosseiro ou algo que já está armazenado em nosso registro mental. Como uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não precisa aceitar mais corpos grosseiros futuros, seus desejos registrados são vividos em sonhos. Portanto, às vezes, ao sonharmos, encontramos coisas nunca experimentadas em nossa vida atual.
नाहं ममेति भावोऽयं पुरुषे व्यवधीयते ।
यावद् बुद्धिमनोऽक्षार्थगुणव्यूहो ह्यनादिमान् ॥ ७० ॥
nāhaṁ mameti bhāvo ’yaṁ
puruṣe vyavadhīyate
yāvad buddhi-mano-’kṣārtha-
guṇa-vyūho hy anādimān

Synonyms

nanão; ahameu; mamameu; itiassim; bhāvaḥconsciência; ayamisto; puruṣena entidade viva; vyavadhīyateesti­ver separado; yāvatenquanto, buddhi — inteligência; manaḥmente, akṣa — sentidos; arthaobjetos dos sentidos; guṇadas qualidades materiais; vyūhaḥuma manifestação; hidecerto; anādi-māno corpo sutil (existindo desde tempos imemoriais).

Translation

Enquanto existir o corpo material sutil, composto de inteligência, mente, sentidos, objetos dos sentidos e as reações das qualidades materiais, também existirá a consciência de falsa identificação e seu objetivo relativo, o corpo grosseiro.

Purport

SIGNIFICADO—Os desejos no corpo sutil, composto de mente, inteligência e ego, não podem ser satisfeitos sem um corpo grosseiro, composto dos elementos materiais: terra, água, ar, fogo e éter. Quando o corpo material grosseiro está imanifesto, a entidade viva não pode real­mente atuar nos modos da natureza material. Neste verso, explica­-se claramente que as atividades sutis da mente e da inteligência continuam devido aos sofrimentos e prazeres do corpo sutil da enti­dade viva. A consciência de identificação material (tal como “eu” e “meu”) ainda continua porque essa consciência existe desde tempos imemoriais. Contudo, quando a alma espiritual se transfere ao mundo espiritual em virtude de ter compreendido a consciência de Kṛṣṇa, as ações e reações dos corpos grosseiro e sutil não a incomodam mais.
सुप्तिमूर्च्छोपतापेषु प्राणायनविघातत: ।
नेहतेऽहमिति ज्ञानं मृत्युप्रज्वारयोरपि ॥ ७१ ॥
supti-mūrcchopatāpeṣu
prāṇāyana-vighātataḥ
nehate ’ham iti jñānaṁ
mṛtyu-prajvārayor api

Synonyms

suptiem sono profundo; mūrcchadesmaiando; upatāpeṣuou muito traumatizada; prāṇa-ayanado movimento do ar vital; vighātataḥda prevenção; nanão; īhatepensa em; ahameu; itiassim; jñānamconhecimento; mṛtyuenquanto morre; prajvārayvoḥou durante uma febre alta; apitambém.

Translation

Quando a entidade viva jaz em sono profundo, quando desmaia, quando fica muito traumatizada devido a uma grave perda, à hora da morte ou quando a temperatura do corpo está muito alta, o movimento do ar vital fica estagnado. Nesse momento, a entidade viva perde seu conhecimento, deixando de identificar o corpo com o eu.

Purport

SIGNIFICADO—Os tolos negam a existência da alma, mas, na verdade, ao dormirmos, esquecemos a identidade do corpo material, e, ao despertarmos, esquecemos a identidade do corpo sutil. Em outras palavras, enquanto dormimos, esquecemos as atividades do corpo grosseiro, e, quando estamos ativos no corpo grosseiro, esquecemos as atividades ocorridas durante o sono. De fato, ambos os estados – sono e vigília – são criações da energia ilusória. A entidade viva, realmente, não tem relação nem com as atividades ocorridas durante o sono, nem com as atividades ocorridas durante o dito estado de vigília. Uma pessoa profundamente adormecida ou desmaiada se esquece de seu corpo grosseiro. Do mesmo modo, sob a influência de clorofórmio ou de qualquer outro anestésico, a enti­dade viva se esquece de seu corpo grosseiro e não sente dor ou prazer durante uma operação cirúrgica. De forma semelhante, quando um homem de repente fica traumatizado devido a alguma grande perda, ele se esquece de sua identificação com o corpo grosseiro. À hora da morte, quando a temperatura do corpo sobe para 43 graus, a enti­dade viva cai em coma e é incapaz de identificar seu corpo gros­seiro. Nesses casos, o ar vital que circula dentro do corpo fica obstruído, e a entidade viva esquece sua identificação com o corpo grosseiro. Por ignorarmos o corpo espiritual, do qual não temos experiência, não temos noção das atividades do corpo espiritual e, ignorantes, pulamos de uma plataforma falsa a outra. Às vezes, agimos em relação ao corpo grosseiro e, outras vezes, relação ao corpo sutil. Se, pela graça de Kṛṣṇa, agimos em nosso corpo espiri­tual, podemos transcender os corpos grosseiro e sutil. Em outras palavras, podemos aos poucos nos treinar para agirmos em termos do corpo espiritual. Como se afirma no Nārada-pañcarātra, hṛṣīkeṇa hṛṣīkeśa-sevanaṁ bhaktir ucyate: serviço devocional significa ocu­par o corpo espiritual e os sentidos espirituais a serviço do Senhor. Ocupando-nos nessas atividades, cessam as ações e reações dos corpos grosseiro e sutil.
गर्भे बाल्येऽप्यपौष्कल्यादेकादशविधं तदा ।
लिङ्गं न द‍ृश्यते यून: कुह्वां चन्द्रमसो यथा ॥ ७२ ॥
garbhe bālye ’py apauṣkalyād
ekādaśa-vidhaṁ tadā
liṅgaṁ na dṛśyate yūnaḥ
kuhvāṁ candramaso yathā

Synonyms

garbheno ventre; bālyena meninice; apitambém; apauṣ­kalyātpor imaturidade; ekādaśaos dez sentidos e a mente; vidhamsob a forma de; tadānesse momento; liṅgamo corpo sutil ou o falso ego; nanão; dṛśyateé visível; yūnaḥde um jovem; kuhvāmdurante a noite de lua nova; candramasaḥa Lua; yathā­como.

Translation

Na juventude, todos os dez sentidos e a mente são inteiramente visíveis. Contudo, no ventre materno ou na meninice, os órgãos dos sentidos e a mente permanecem cobertos, assim como a lua cheia é coberta pela escuridão da noite de lua nova.

Purport

SIGNIFICADO—Quando a entidade viva está dentro do ventre, seu corpo grossei­ro, os dez órgãos dos sentidos e a mente não estão inteiramente desenvolvidos. Nessa fase, os objetos dos sentidos não a perturbam. Ao sonhar, pode ser que um jovem experimente a presença de uma mocinha porque, nessa fase, os sentidos estão ativos. Por ainda não ter sentidos desenvolvidos, uma criança ou um menino não verá mocinhas em seus sonhos. Os sentidos ficam ativos na juven­tude, mesmo durante sonhos, e, mesmo que não haja uma jovem presente, os sentidos poderão agir e poderá ocorrer ejaculação semi­nal (polução noturna). As atividades dos corpos grosseiro e sutil dependem de quão desenvolvidas estão as condições. O exemplo da Lua é muito apropriado. Em uma noite de lua nova, o brilho da lua cheia ainda está presente, mas parece estar ausente devido às condições. Do mesmo modo, os sentidos da entidade viva estão sempre presentes, mas só se tornam ativos quando o corpo gros­seiro e o corpo sutil se desenvolvem. A não ser que os sentidos do corpo grosseiro estejam desenvolvidos, eles não agirão no corpo sutil. De forma semelhante, devido à ausência de desejos no corpo sutil, pode ser que não haja desenvolvimento no corpo grosseiro.
अर्थे ह्यविद्यमानेऽपि संसृतिर्न निवर्तते ।
ध्यायतो विषयानस्य स्वप्नेऽनर्थागमो यथा ॥ ७३ ॥
arthe hy avidyamāne ’pi
saṁsṛtir na nivartate
dhyāyato viṣayān asya
svapne ’narthāgamo yathā

Synonyms

artheobjetos dos sentidos; hidecerto; avidyamānenão estan­do presentes; apiembora; saṁsṛtiḥexistência material; na­nunca; nivartatecessa; dhyāyataḥmeditando; viṣayānem obje­tos dos sentidos; asyado ser vivo; svapneem sonho; anarthade coisas indesejáveis; āgamaḥaparecimento; yathācomo.

Translation

Quando a entidade viva sonha, os objetos dos sentidos não estão realmente presentes. Contudo, por ela ter-se associado com os objetos dos sentidos, estes se manifestam. Analogamente, a entidade viva com sentidos não desenvolvidos não deixa de existir material­mente, muito embora não esteja exatamente em contato com os objetos dos sentidos.

Purport

SIGNIFICADO—Às vezes se diz que, devido ao fato de uma criança ser inocente, ela é completamente pura. Isso, porém, não é verdade. Os efeitos de atividades fruitivas armazenados no corpo sutil aparecem em três fases coordenadas. Uma delas se chama bīja (a raiz), outra se chama kūṭa-stha (o desejo), e outra se chama phalonmukha (prestes a frutificar). A fase manifesta se chama prārabdha (já em ação). Em estado consciente ou inconsciente, as ações dos corpos sutil ou grosseiro podem não se manifestar, mas semelhantes estados não podem ser chamados de estados liberados. Pode ser que uma criança seja inocente, mas isso não quer dizer que ela é uma alma liberada. Tudo está armazenado, e tudo se manifestará com o transcorrer do tempo. Mesmo na ausência de determinadas manifestações no corpo sutil, os objetos de gozo dos sentidos podem agir. Deu-se o exemplo da polução noturna, na qual os sentidos físicos agem mesmo quando os objetos físicos não se manifestam. Pode ser que os três modos da natureza material não estejam manifestos no corpo sutil, mas a contaminação dos três modos permanece arma­zenada, e, no transcurso do tempo, ela se manifesta. Mesmo que as reações de nossos corpos grosseiro e sutil não se manifestem, não nos livramos das condições materiais. Portanto, é errado dizer que uma criança é igual a uma alma liberada.
एवं पञ्चविधं लिङ्गं त्रिवृत् षोडश विस्तृतम् ।
एष चेतनया युक्तो जीव इत्यभिधीयते ॥ ७४ ॥
evaṁ pañca-vidhaṁ liṅgaṁ
tri-vṛt ṣoḍaśa vistṛtam
eṣa cetanayā yukto
jīva ity abhidhīyate

Synonyms

evamassim; pañca-vidhamos cinco objetos dos sentidos; liṅgamo corpo sutil; tri-vṛtinfluenciado pelos três modos; ṣoḍaśadezesseis; vistṛtamexpandido; eṣaḥeste; cetanayā­com a entidade viva, yuktaḥ — combinado; jīvaḥa alma condicionada; itiassim; abhidhīyatecompreende-se.

Translation

Os cinco objetos dos sentidos, os cinco órgãos dos sentidos, os cinco sentidos de adquirir conhecimento e a mente constituem as dezesseis expansões materiais. Eles se combinam com a entidade viva e são influenciados pelos três modos da natureza material. É assim que se compreende a existência da alma condicionada.

Purport

SIGNIFICADO—O Senhor Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā (15.7):
mamaivāṁśo jīva-loke
jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ
manaḥ-ṣaṣṭhānīndriyāṇi
prakṛti-sthāni karṣati
“As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas eternas partes fragmentárias. Por força da vida condicionada, elas empreendem árdua luta com os seis sentidos, entre os quais se inclui a mente.”
Nesta passagem, explica-se, também, que a entidade viva entra em contato com os dezesseis elementos materiais e é influenciada pelos três modos da natureza material. A entidade viva e esta com­binação de elementos juntam-se para formar o que se chama jīva­-bhūta, a alma condicionada que luta arduamente dentro da natureza material. A totalidade da existência material primeira­mente é animada pelos três modos da natureza material, que passam a ser as condições de vida da entidade viva. Assim se desenvolvem os corpos grosseiro e sutil, cujos ingredientes são terra, água, fogo, ar, céu e assim por diante. Segundo Śrī Madhvācārya, quando a consciência, a força viva no coração, é agitada pelos três modos da natureza material, torna-se possível, então, o corpo sutil da enti­dade viva, o qual consiste em mente, objetos dos sentidos, cinco sentidos de adquirir conhecimento e cinco sentidos para ação nas condições materiais.
अनेन पुरुषो देहानुपादत्ते विमुञ्चति ।
हर्षं शोकं भयं दु:खं सुखं चानेन विन्दति ॥ ७५ ॥
anena puruṣo dehān
upādatte vimuñcati
harṣaṁ śokaṁ bhayaṁ duḥkhaṁ
sukhaṁ cānena vindati

Synonyms

anenapor este processo; puruṣaḥa entidade viva; dehāncorpos grosseiros; upādatteobtém; vimuñcatiabandona; harṣamgozo; śokamlamentação; bhayamtemor; duḥkhaminfelicida­de; sukhamfelicidade; catambém; anenapelo corpo grosseiro; vindatidesfruta.

Translation

Em virtude dos processos do corpo sutil, a entidade viva desenvolve e abandona corpos grosseiros. Isso é conhecido como a transmigração da alma. Assim, a alma se sujeita a diferentes classes de ditos gozo, lamentação, temor, felicidade e tristeza.

Purport

SIGNIFICADO—De acordo com esta explicação, podemos entender com clareza que, originalmente, a entidade viva era tão boa como a Suprema Personalidade de Deus em sua existência espiritual pura. Contudo, quando a mente se polui por desejos de gozo dos sentidos, no mundo material, a entidade viva cai nas condições materiais, como se explica neste verso. Assim, ela começa sua existência material, o que significa que ela transmigra de um corpo a outro, enredando-se cada vez mais na existência material. O processo de consciência de Kṛṣṇa, mediante o qual sempre pensamos em Kṛṣṇa, é o processo transcendental pelo qual podemos voltar à nossa existência espiritual original. Serviço devocional significa pensar sempre em Kṛṣṇa.
man-manā bhava mad-bhakto
mad-yājī māṁ namaskuru
mām evaiṣyasi satyaṁ te
pratijāne priyo ’si me
“Pensa sempre em Mim e torna-te Meu devoto. Adora-Me e oferece-Me homenagens. Agindo assim, virás a Mim impreterivelmente. Eu te prometo isso porque és Meu amigo muito querido.” (Bhagavad-gītā 18.65)
Todos devem sempre ocupar-se em serviço devocional ao Senhor. Como se recomenda no arcana-mārga, deve-se adorar a Deidade no templo e constantemente prestar reverências ao mestre espiritual e à Deidade. Esses processos são recomendados para quem realmente quer livrar-se do enredamento material. Os psicólogos modernos podem estudar as atividades da mente – pensar, sentir e desejar –, ­mas são incapazes de se aprofundar no assunto. Isso porque eles carecem de conhecimento e não se associam com um ācārya liberado.
Como afirma a Bhagavad-gītā (4.2):
evaṁ paramparā-prāptam
imaṁ rājarṣayo viduḥ
sa kāleneha mahatā
yogo naṣṭaḥ parantapa
“Esta ciência suprema foi assim recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na desta maneira. Porém, com o passar do tempo, a sucessão foi interrompida, e, portanto, a ciência como ela é parece ter-se perdido.” Orientadas por pretensos psicólogos e filósofos, as pessoas, na era moderna, não conhecem as atividades do corpo sutil e, assim, não podem enten­der o que significa a transmigração da alma. Sobre esses assuntos, devemos aceitar as afirmações autorizadas da Bhagavad-gītā (2.13):
dehino ’smin yathā dehe
kaumāraṁ yauvanaṁ jarā
tathā dehāntara-prāptir
dhīras tatra na muhyati
“Assim como a alma encarnada passa seguidamente, neste corpo, da infância à juventude e à velhice, da mesma maneira, a alma passa para um outro corpo após a morte. A alma autorrealizada não se confunde com tal mudança.” A menos que toda a sociedade humana compreenda este importante verso da Bhagavad-gītā, a civi­lização avançará em ignorância, e não em conhecimento.
यथा तृणजलूकेयं नापयात्यपयाति च ।
न त्यजेन्म्रियमाणोऽपि प्राग्देहाभिमतिं जन: ॥ ७६ ॥
यावदन्यं न विन्देत व्यवधानेन कर्मणाम् ।
मन एव मनुष्येन्द्र भूतानां भवभावनम् ॥ ७७ ॥
yathā tṛṇa-jalūkeyaṁ
nāpayāty apayāti ca
na tyajen mriyamāṇo ’pi
prāg-dehābhimatiṁ janaḥ
yāvad anyaṁ na vindeta
vyavadhānena karmaṇām
mana eva manuṣyendra
bhūtānāṁ bhava-bhāvanam

Synonyms

yathācomo; tṛṇa-jalūkālagarta; iyamesta; na apayātinão vai; apayātivai; catambém; nanão; tyajetabandona; mriyamāṇaḥà hora da morte; apimesmo; prākanterior; deha­com o corpo; abhimatimidentificação; janaḥuma pessoa; yāvat­enquanto; anyamoutro; nanão; vindetaobtém; vyavadhānenapelo término; karmaṇāmde atividades fruitivas; manaḥa mente; evadecerto; manuṣya-indraó governante dos homens; bhūtānāmde todas as entidades vivas; bhavada existência material; bhāvanama causa.

Translation

A lagarta passa de uma folha a outra, agarrando-se a uma folha antes de abandonar a outra. De modo semelhante, de acordo com seu trabalho anterior, a entidade viva é forçada a assumir outro corpo antes de abandonar aquele que tem. Isso porque a mente é o reservatório de toda espécie de desejos.

Purport

SIGNIFICADO—Uma entidade viva muito absorta em atividades materiais fica muito atraída pelo corpo material. Mesmo à hora da morte, ela pensa em seu corpo atual e nos parentes ligados a ele. Assim, ela permanece inteiramente absorta no conceito corpóreo de vida, tanto que, mesmo à hora da morte, ela detesta deixar seu corpo atual. Às vezes, observa-se que uma pessoa a ponto de morrer per­manece em coma durante muitos dias antes de abandonar o corpo. Isso é comum entre ditos líderes e políticos, os quais pensam que, sem sua presença, todo o país e toda a sociedade serão tomados pelo caos. Isso se chama māyā. Os líderes políticos não gostam de deixar seus postos políticos, sendo forçados a deixá-los ao serem assassina­dos por um inimigo, ou com a chegada da morte. Através de um arranjo superior, a entidade viva recebe outro corpo, mas, devido à sua atração pelo corpo atual, ela não gosta de transferir-se a outro corpo. Assim, as leis da natureza forçam-na a aceitar outro corpo.
prakṛteḥ kriyamāṇāni
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
“A alma espiritual confusa, sob a influência dos três modos da natureza material, julga-se autora de atividades que, na verdade, são executadas pela natureza.” (Bhagavad-gītā 3.27)
A natureza material é muito forte, e os modos materiais forçam todos a aceitarem outros corpos. Essa força é visível quando uma entidade viva transmigra de um corpo superior para um inferior. Quem age como cão ou como porco no corpo atual com certeza será forçado a aceitar um corpo de cão ou porco na próxima vida. Pode ser que alguém esteja desfrutando no corpo de um primeiro-ministro ou de um presidente, mas, ao entender que será forçado a aceitar o corpo de um cão ou de um porco, ele optará por não deixar o corpo atual. Portanto, ficará em coma muitos dias antes da morte. Essa tem sido a experiência de muitos políticos à hora da morte. Em conclusão, o próximo corpo já está determinado por controle superior. A entidade viva abandona imediatamente o cor­po atual e entra em outro. Às vezes, no corpo atual, a entidade viva sente que muitos de seus desejos e imaginações não estão satisfeitos. Aqueles que sentem excessiva atração por sua situação na vida são forçados a permanecer em um corpo de fantasma e não têm permissão de aceitar outro corpo grosseiro. Mesmo no corpo de um fantasma, eles criam perturbações para vizinhos e parentes. A mente é a causa primordial de semelhante situação. De acordo com a mente de cada um, diversas espécies de corpos são gerados, e a pessoa é forçada a aceitá-los. Como se confirma na Bhagavad-gītā (8.6):
yaṁ yaṁ vāpi smaran bhāvaṁ
tyajaty ante kalevaram
taṁ tam evaiti kaunteya
sadā tad-bhāva-bhāvitaḥ
“Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kuntī, esse mesmo estado ele alcançará impreterivelmente.” Em seu corpo e em sua mente, alguém pode pensar ou como um cão, ou como um deus, e a próxima vida lhe será concedida de acordo com isso. Explica-se o mesmo na Bhagavad-gītā (13.22):
puruṣaḥ prakṛti-stho hi
bhuṅkte prakṛtijān guṇān
kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya
sad-asad-yoni-janmasu
“Dessa forma, a entidade viva dentro da natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza. Isso decorre de sua associação com essa natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de vida.” A entidade viva pode trans­migrar a corpos superiores ou inferiores, dependendo de seu contato com os modos da natureza material. Ao se associar com o modo da ignorância, ela obtém o corpo de um animal ou de um homem inferior, mas, ao se associar com o modo da bondade ou da paixão, obtém um corpo condizente. Confirma-se isso, também, na Bhagavad-gītā (14.18):
ūrdhvaṁ gacchanti sattva-sthā
madhye tiṣṭhanti rājasāḥ
jaghanya-guṇa-vṛtti-sthā
adho gacchanti tāmasāḥ
“Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores, aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres, e aqueles no modo da ignorância descem para os mundos infernais.”
A causa fundamental de nosso contato com a matéria é a mente. Este grande movimento para a consciência de Kṛṣṇa é a maior dá­diva para a sociedade humana porque está ensinando todos a sempre pensarem em Kṛṣṇa, executando serviço devocional. Dessa maneira, no final da vida, todos podem transferir-se para a com­panhia de Kṛṣṇa. Tecnicamente, isso se chama nitya-līlā-praviṣṭa, ingressar no planeta Goloka Vṛndāvana. A Bhagavad-gītā (18.55) explica:
bhaktyā mām abhijānāti
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad anantaram
“Só é possível entender a Personalidade Suprema como Ele é através do serviço devocional. E, tendo plena consciência do Senhor Supremo através dessa devoção, pode-se ingressar no reino de Deus.” Depois que a mente estiver inteiramente absorta em cons­ciência de Kṛṣṇa, será possível entrar no planeta conhecido como Goloka Vṛndāvana. Para entrar em contato com a Suprema Per­sonalidade de Deus, é preciso compreender Kṛṣṇa. O processo de compreender Kṛṣṇa é o serviço devocional. Após compreender Kṛṣṇa como Ele é, qualificamo-nos a ingressar em Kṛṣṇaloka e associar-nos com Ele. A mente é a causa dessa elevada posição. A mente também pode fazer com que alguém obtenha um corpo de cão ou de porco. Portanto, a per­feição máxima da vida humana é absorver a mente sempre em cons­ciência de Kṛṣṇa.
यदाक्षैश्चरितान् ध्यायन् कर्माण्याचिनुतेऽसकृत् ।
सति कर्मण्यविद्यायां बन्ध: कर्मण्यनात्मन: ॥ ७८ ॥
yadākṣaiś caritān dhyāyan
karmāṇy ācinute ’sakṛt
sati karmaṇy avidyāyāṁ
bandhaḥ karmaṇy anātmanaḥ

Synonyms

yadāquando; akṣaiḥpelos sentidos; caritānprazeres desfrutados; dhyāyanpensando em; karmāṇiatividades; ācinuteexecuta; asakṛtsempre; sati karmaṇiao continuarem os afazeres materiais; avidyāyāmsob ilusão; bandhaḥcativeiro; karmaṇiem atividade; anātmanaḥdo corpo material.

Translation

Enquanto desejarmos desfrutar de prazeres dos sentidos, criaremos atividades materiais. Quando a entidade viva age no campo material, ela goza dos sentidos e, ao fazê-lo, cria outra série de atividades materiais. Dessa maneira, a entidade viva fica enredada como alma condicionada.

Purport

SIGNIFICADO—Enquanto estamos no corpo sutil, criamos muitos planos para desfrutar de prazeres dos sentidos. Esses planos ficam registrados na fita magnética da mente sob a forma de bīja, a raiz das atividades fruiti­vas. Na vida condicionada, a entidade viva cria uma série de corpos, um após o outro, e isso se chama karma-bandhana. Conforme explica a Bhagavad-gītā (3.9), yajñārthāt karmaṇo ’nyatra loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ: se agimos apenas para satisfazer Viṣṇu, não há cativeiro devido às atividades materiais, mas, se agimos de outro modo, enredamo-nos em atividades materiais incessantes. Nessas circunstâncias, deve-se entender que, pensando, sentindo e desejando, estamos criando uma série de corpos materiais futuros. Nas palavras de Bhaktivinoda Ṭhākura, anādi karama-phale, paḍi’ bhavārṇava-jale: a entidade viva cai no oceano de karma-bandhana como resultado de atividades materiais passadas. Em vez de mer­gulhar no oceano de atividades materiais, devemos aceitar ativi­dades materiais apenas para nos manter vivos. O resto do tempo devemos devotar a ocupações do transcendental serviço amoroso ao Senhor. Dessa maneira, poderemos aliviar-nos das reações das ativi­dades materiais.
अतस्तदपवादार्थं भज सर्वात्मना हरिम् ।
पश्यंस्तदात्मकं विश्वं स्थित्युत्पत्त्यप्यया यत: ॥ ७९ ॥
atas tad apavādārthaṁ
bhaja sarvātmanā harim
paśyaṁs tad-ātmakaṁ viśvaṁ
sthity-utpatty-apyayā yataḥ

Synonyms

ataḥportanto; tatisto; apavāda-arthampara neutralizar; bhajaocupa-te em serviço devocional; sarva-ātmanācom todos os teus sentidos; harimà Suprema Personalidade de Deus; paśyanvendo; tatdo Senhor; ātmakamsob o controle; viśvama manifestação cósmica; sthitimanutenção; utpatticriação; apyayāḥe aniquilação; yataḥde quem.

Translation

Deves saber sempre que esta manifestação cósmica é criada, mantida e aniquilada pela vontade da Suprema Personalidade de Deus. Em consequência disso, tudo dentro desta manifestação cósmica está sob o controle do Senhor. Para serem iluminadas por este conhecimento perfeito, as pessoas devem sempre ocupar-se em serviço devocional ao Senhor.

Purport

SIGNIFICADO—A autorrealização, ou seja, entender que somos Brahman, ou almas espirituais, é muito difícil na condição material. Contudo, se aceitarmos o serviço devocional ao Senhor, o Senhor aos poucos Se revelará. Dessa maneira, o devoto progressivo compreenderá, pouco a pouco, a sua posição espiritual. Não podemos ver nada na escuridão da noite, sequemos podemos ver a nós mesmos, mas, com o brilho do Sol, podemos ver não apenas o Sol, mas também tudo que está no mundo. No sétimo capítulo da Bhagavad-gītā (7.1), o Senhor Kṛṣṇa explica:
mayy āsakta-manāḥ pārtha
yogaṁ yuñjan mad-āśrayaḥ
asaṁśayaṁ samagraṁ māṁ
yathā jñāsyasi tac chṛṇu
“Agora, presta atenção, ó filho de Pṛthā, enquanto te explico como é que, praticando yoga com plena consciência de Mim, e com a mente apegada a Mim, poderás livrar-te das dúvidas e conhecer-Me por completo.”
Quando nos ocupamos em serviço devocional ao Senhor para nos tornarmos conscientes de Kṛṣṇa, entendemos não apenas Kṛṣṇa, mas também tudo que se relaciona com Kṛṣṇa. Em outras pala­vras, através da consciência de Kṛṣṇa, podemos entender não somente Kṛṣṇa e a manifestação cósmica, mas também nossa posição constitucional. Em consciência de Kṛṣṇa, podemos enten­der que toda a criação material é feita pela Suprema Personalidade de Deus, mantida por Ele, aniquilada por Ele e absorvida nEle. Nós também somos partes integrantes do Senhor. Tudo está sob o con­trole do Senhor, de modo que o nosso único dever é rendermo-nos ao Supremo e ocuparmo-nos em Seu transcendental serviço amoroso.
मैत्रेय उवाच
भागवतमुख्यो भगवान्नारदो हंसयोर्गतिम् ।
प्रदर्श्य ह्यमुमामन्‍त्र्य सिद्धलोकं ततोऽगमत् ॥ ८० ॥
maitreya uvāca
bhāgavata-mukhyo bhagavān
nārado haṁsayor gatim
pradarśya hy amum āmantrya
siddha-lokaṁ tato ’gamat

Synonyms

maitreyaḥ uvācaMaitreya disse; bhāgavatados devotos; mukhyaḥo principal; bhagavāno poderosíssimo; nāradaḥNā­rada Muni; haṁsayoḥda entidade viva e do Senhor; gatimposição constitucional; pradarśyatendo mostrado; hidecerto; amuma ele (o rei); āmantryaapós convidar; siddha-lokama Siddhaloka; tataḥdepois disso; agamatpartiu.

Translation

O grande sábio Maitreya prosseguiu: O devoto supremo, o grande santo Nārada, explicou assim ao rei Prācīnabarhi a posição constitucional da Suprema Personalidade de Deus e da entidade viva. Após fazer um convite ao rei, Nārada Muni partiu, retor­nando a Siddhaloka.

Purport

SIGNIFICADO—Siddhaloka e Brahmaloka estão ambos no mesmo sistema planetário. Brahmaloka é considerado o planeta mais elevado dentro deste universo. Siddhaloka é considerado um dos satélites de Brahmaloka. Os habitantes de Siddhaloka possuem todos os poderes do misticismo ióguico. Este verso indica que o grande sábio Nārada é um habitante de Siddhaloka, embora viaje por todos os sistemas planetários. Todos os habitantes de Siddhaloka são homens do espaço, podendo viajar no espaço sem auxílio de naves mecânicas. Os habitantes de Siddhaloka podem ir de um planeta a outro individualmente, em virtude de sua perfeição ióguica. Após instruir o grande rei Prācīnabarhi, Nārada Muni partiu e também o convidou para ir a Siddhaloka.
प्राचीनबर्ही राजर्षि: प्रजासर्गाभिरक्षणे ।
आदिश्य पुत्रानगमत्तपसे कपिलाश्रमम् ॥ ८१ ॥
prācīnabarhī rājarṣiḥ
prajā-sargābhirakṣaṇe
ādiśya putrān agamat
tapase kapilāśramam

Synonyms

prācīnabarhiḥrei Prācīnabarhi; rāja-ṛṣiḥo rei santo; prajā-sargaa massa de cidadãos; abhirakṣaneproteger; ādiśyaapós ordenar; putrānseus filhos; agamatpartiu; tapasepara se submeter a austeridades; kapila-āśramamao lugar sagrado conhecido como Kapilāśrama.

Translation

Na presença de seus ministros, o santo rei Prācīnabarhi deixou ordens instruindo que seus filhos protegessem os cidadãos. Então, ele deixou o lar e partiu para se submeter a austeridades em um lugar sagrado conhecido como Kapilāśrama.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra prajā-sarga é muito importante neste verso. Quando o santo rei Prācīnabarhi foi induzido pelo grande sábio Nārada a deixar o lar e adotar o serviço devocional ao Senhor, seus filhos ainda não haviam regressado de sua prática de austeridades na água. Contudo, ele não esperou pelo regresso deles, senão que simplesmente deixou mensagem, estabelecendo que seus filhos deveriam pro­teger a massa de cidadãos. Segundo Vīrarāghava Ācārya, semelhante proteção significa organizar os cidadãos dentro das classes específi­cas de quatro varṇas e āśramas. Era responsabilidade da ordem real zelar para que os cidadãos estivessem seguindo os princípios reguladores dos quatro varṇas (a saber, brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya e śūdra) e dos quatro āśramas (a saber, brahmacarya, gṛhastha, vāna­prastha e sannyāsa). É muito difícil governar os cidadãos em um reino sem organizar esse varṇāśrama-dharma. Não é possível governar a massa de cidadãos do estado e mantê-los em perfeita ordem progres­siva simplesmente decretando leis a cada ano em uma assembleia legislativa. O varṇāśrama-dharma é essencial em um bom governo. Uma classe de homens (os brāhmaṇas) deve ser inteligente e qualificada com os atributos bramânicos; outra classe deve ser treinada no trabalho administrativo (kṣatriya); outra, nos afazeres comerciais (vaiśya), e outra, simplesmente no trabalho (śūdra). Essas quatro classes de homens já existem de acordo com a natureza, mas é dever do governo zelar para que cada uma dessas classes siga os princípios de seu varṇa metodicamente. Isso recebe o nome de abhirakṣaṇa, ou proteção.
É significativo que, ao convencer-se da meta da vida através das instruções de Nārada, Mahārāja Prācīnabarhi nem quis esperar até o momento de regressarem seus filhos, senão que partiu de imediato. Havia muitas providências a tomar quando regressassem seus filhos, mas ele apenas deixou-lhes uma mensagem. Ele sabia qual era o seu principal dever. Ele simplesmente deixou instruções para seus filhos e partiu com o propósito de avanço espiritual. Esse é o sistema da civilização védica.
Śrīdhara Svāmī nos informa que Kapilāśrama está localizado na confluência do Ganges com a Baía de Bengala, em um lugar hoje conhecido como Gaṅgā-sāgara. Esse lugar ainda é famoso como um lugar de peregrinação, e muitos milhões de pessoas reúnem-se ali todos os anos no dia de Makara-saṅkrānti e se banham ali. Tal lugar se chama Kapilāśrama porque o Senhor Kapila viveu ali para praticar Suas austeridades e penitências. O Senhor Kapila foi quem apresentou o sistema de filosofia Sāṅkhya.
तत्रैकाग्रमना धीरो गोविन्दचरणाम्बुजम् ।
विमुक्तसङ्गोऽनुभजन् भक्त्या तत्साम्यतामगात् ॥ ८२ ॥
tatraikāgra-manā dhīro
govinda-caraṇāmbujam
vimukta-saṅgo ’nubhajan
bhaktyā tat-sāmyatām agāt

Synonyms

tatra; eka-agra-manāḥcom plena atenção; dhīraḥsóbrio; govindade Kṛṣṇa; caraṇa-ambujamaos pés de lótus; vimukta­livre de; saṅgaḥcontato com a matéria; anubhajanocupando-se continuamente em serviço devocional; bhaktyāpor devoção pura; tatcom o Senhor; sāmyatāmigualdade qualitativa; agātalcançou.

Translation

Tendo praticado austeridades e penitências em Kapilāśrama, o rei Prācīnabarhi libertou-se plenamente de todas as designações mate­riais. Ele se ocupou constantemente no transcendental serviço amo­roso ao Senhor e alcançou uma posição espiritual qualitativamente igual à da Suprema Personalidade de Deus.

Purport

SIGNIFICADO—As palavras tat-sāmyatām agāt têm importância especial. O rei alcançou a posição de possuidor do mesmo status ou da mesma forma que o Senhor. Isso prova definitivamente que a Suprema Per­sonalidade de Deus é sempre uma pessoa. Sob Seu aspecto impes­soal, Ele é os raios de Seu corpo transcendental. Quando uma entidade viva alcança a perfeição espiritual, ela também obtém a mesma espécie de corpo, conhecido como sac-cid-ānanda-vigraha. Esse corpo espiritual jamais se mistura com os elementos mate­riais. Embora na vida condicionada a entidade viva esteja cercada por elementos materiais (terra, água, fogo, ar, céu, mente, inteligên­cia e ego), ela permanece sempre distinta deles. Em outras palavras, a entidade viva pode libertar-se da condição material a qualquer momento, desde que o deseje. O ambiente material se chama māyā. De acordo com Kṛṣṇa:
daivī hy eṣā guṇa-mayī
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
“Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpô-la.” (Bhagavad-gītā 7.14)
Tão logo a entidade viva se ocupe em transcendental serviço amoroso ao Senhor, ela se liberta de imediato de todas as condições materiais (sa guṇān samatītyaitān brahma-bhūyāya kalpate). Em seu estado material, a entidade viva está na plataforma jīva-bhūta, mas, prestando serviço devocional ao Senhor, ela se eleva à plata­forma brahma-bhūta. Na plataforma brahma-bhūta, a entidade viva liberta-se do cativeiro material e se ocupa a serviço do Senhor. Neste verso, a palavra dhīra às vezes é lida como vīra. Na verdade, não faz muita diferença. A palavra dhīra significa “sóbrio”, e vīra, “herói”. Quem está lutando contra māyā é um herói, e quem é sóbrio o bastante para entender sua posição é um dhīra. Sem se tornar sóbrio ou heroico, ninguém pode alcançar a salvação espiritual.
एतदध्यात्मपारोक्ष्यं गीतं देवर्षिणानघ ।
य: श्रावयेद्य: श‍ृणुयात्स लिङ्गेन विमुच्यते ॥ ८३ ॥
etad adhyātma-pārokṣyaṁ
gītaṁ devarṣiṇānagha
yaḥ śrāvayed yaḥ śṛṇuyāt
sa liṅgena vimucyate

Synonyms

etatesta; adhyātmaespiritual; pārokṣyamdescrição autorizada; gītamnarrada; deva-ṛṣiṇāpelo grande sábio Nārada; ana­ghaó impecável Vidura; yaḥtodo aquele que; śrāvayetdescre­va; yaḥtodo aquele que; śṛṇuyātouça; saḥele; liṅgenado conceito corpóreo de vida; vimucyateliberta-se.

Translation

Meu querido Vidura, todo aquele que ouvir esta narração a respeito da compreensão da existência espiritual da entidade viva, como foi descrita pelo grande sábio Nārada, ou que a relatar a outros, ficará livre do conceito corpóreo de vida.

Purport

SIGNIFICADO—Esta criação material é o sonho da alma espiritual. Na ver­dade, toda a existência no mundo material é um sonho de Mahā-­Viṣṇu, conforme descreve a Brahma-saṁhitā:
yaḥ kāraṇārṇava-jale bhajati sma yoga-
nidrām ananta-jagad-aṇḍa-saroma-kūpaḥ
Este mundo material é criado pelo sonho de Mahā-Viṣṇu. A plataforma verdadeira e concreta é o mundo espiritual, mas, quando a alma espiritual deseja imitar a Suprema Personalidade de Deus, ela é posta neste mundo imaginário de criação material. Após entrar em contato com os modos materiais da natureza, a entidade viva desenvolve os corpos sutil e grosseiro. Ao ter a fortuna de associar-­se com o Mahāmuni Śrī Nārada ou com seus servos, a entidade viva liberta-se deste mundo imaginário de criação material e do conceito corpóreo de vida.
एतन्मुकुन्दयशसा भुवनं पुनानं
देवर्षिवर्यमुखनि:सृतमात्मशौचम् ।
य: कीर्त्यमानमधिगच्छति पारमेष्ठ्यं
नास्मिन् भवे भ्रमति मुक्तसमस्तबन्ध: ॥ ८४ ॥
etan mukunda-yaśasā bhuvanaṁ punānaṁ
devarṣi-varya-mukha-niḥsṛtam ātma-śaucam
yaḥ kīrtyamānam adhigacchati pārameṣṭhyaṁ
nāsmin bhave bhramati mukta-samasta-bandhaḥ

Synonyms

etatesta narração; mukunda-yaśasācom a fama do Senhor Kṛṣṇa; bhuvanameste mundo material; punānamsantificando; deva-ṛṣidos grandes sábios; varyado principal; mukhada boca; niḥsṛtamproferida; ātma-śaucampurificando o coração; yaḥtodo aquele que; kīrtyamānamsendo cantada; adhigacchativolta; pārameṣṭhyamao mundo espiritual; nanunca; asminneste; bhavemundo material; bhramatiperambula; muktaliber­tando-se; samastade todo; bandhaḥcativeiro.

Translation

Esta narração proferida pelo grande sábio Nārada está repleta da fama transcendental da Suprema Personalidade de Deus. Em consequência disso, essa narração, quando descrita, certamente santifica este mundo material. Ela purifica o coração da entidade viva e a ajuda a alcançar sua identidade espiritual. Todo aquele que relatar esta narração transcendental se libertará de todo o cativeiro mate­rial e não terá mais que perambular dentro deste mundo material.

Purport

SIGNIFICADO—Como indica o verso 79, Nārada Muni aconselhou o rei Prācīna­barhi a adotar o serviço devocional em vez de desperdiçar seu tempo realizando cerimônias ritualísticas e atividades fruitivas. As vívidas descrições dos corpos grosseiro e sutil, encontradas neste capítulo, são muito científicas e, por serem apresentadas pelo grande sábio Nārada, são autorizadas. Uma vez que essas narrativas estão repletas das glórias da Suprema Personalidade de Deus, elas constituem o processo mais eficaz para a purificação da mente. Como Śrī Caitanya Mahāprabhu confirmou, ceto-darpaṇa-mār­janam. Quanto mais falarmos de Kṛṣṇa, pensarmos em Kṛṣṇa e pregarmos em nome de Kṛṣṇa, mais nós nos purificaremos. Isso quer dizer que não teremos mais que aceitar um alucinatório corpo grosseiro e sutil, senão que, ao invés disso, alcançaremos nossa identidade espiritual. Quem tenta entender esse instrutivo conhecimento espi­ritual liberta-se deste oceano de ignorância. A palavra pārameṣ­ṭhyam é muito significativa a este respeito. Com pārameṣ­ṭhyam, também nos referimos a Brahmaloka, o planeta onde vive o senhor Brahmā. Os habitantes de Brahmaloka sempre discutem essas nar­rações de modo que, após a aniquilação do mundo material, possam transferir-se diretamente ao mundo espiritual. Uma pessoa transferida ao mundo espiritual não precisa ir para cima e para baixo dentro deste mundo material. Às vezes, a palavra pārameṣṭhyam também é usada para referir-se a atividades espirituais.
अध्यात्मपारोक्ष्यमिदं मयाधिगतमद्भुतम् ।
एवं स्त्रियाश्रम: पुंसश्छिन्नोऽमुत्र च संशय: ॥ ८५ ॥
adhyātma-pārokṣyam idaṁ
mayādhigatam adbhutam
evaṁ striyāśramaḥ puṁsaś
chinno ’mutra ca saṁśayaḥ

Synonyms

adhyātmaespiritual; pārokṣyamdescrita de acordo com a autoridade; idamesta; mayāpor mim; adhigatamouvida; adbhutammaravilhosa; evamassim; striyācom uma esposa; āśramaḥrefúgio; puṁsaḥda entidade viva; chinnaḥeliminada; amutrasobre a vida após a morte; catambém; saṁśayaḥ­dúvida.

Translation

A alegoria do rei Purañjana, descrita aqui de acordo com a auto­ridade, é plena de conhecimento espiritual, e eu a ouvi da parte de meu mestre espiritual. Se alguém puder entender o propósito desta alegoria, certamente se aliviará do conceito corpóreo e entenderá com clareza a vida após a morte. Mesmo alguém com dificuldade de entender o que é a transmigração da alma poderá compreender esse tópico por completo estudando esta história.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra striyā, significando “juntamente com a esposa”, é significativa. Macho e fêmea vivendo juntos constitui a essência da existência material. A atração entre macho e fêmea neste mundo material é muito forte. Em todas as espécies de vida, a atração entre macho e fêmea é o princípio básico de existência. O mesmo princí­pio de se entremisturar também existe na sociedade humana, mas de forma regulada. Existência material significa dois seres viverem juntos como macho e fêmea e sentirem-se atraídos um pelo outro. Contudo, quando alguém entende plenamente sua vida espiritual, sua atração pelo sexo oposto é eliminada por completo. Semelhante atração faz com que fiquemos demasiadamente apegados a este mundo material. Ela é um nó cego dentro do coração.
puṁsaḥ striyā mithunī-bhāvam etaṁ
tayor mitho hṛdaya-granthim āhuḥ
ato gṛha-kṣetra-sutāpta-vittair
janasya moho ’yam ahaṁ mameti
(Bhāg. 5.5.8)
Todos vêm a este mundo material atraídos pelo gozo dos sentidos, e o nó cego do gozo dos sentidos é a atração entre macho e fêmea. Essa atração faz com que a pessoa fique demasiadamente apegada ao mundo material em termos de gṛha-kṣetra-suta-āpta-vitta – isto é, lar, terra, filhos, amigos, dinheiro e assim por diante. Assim, ela se enreda no conceito corpóreo de “eu” e “meu”. Contudo, se alguém entender a história do rei Purañjana e compreender como, através da atração sexual, Purañjana tornou-se uma mulher em sua próxima vida, ele também entenderá o processo de transmigração.
Nota Especial: Segundo Vijayadhvaja Tīrtha, que pertence ao Madhvācārya-sampradāya, os dois primeiros versos apresentados a seguir constam depois do verso 45 deste capítulo, e os outros dois versos aparecem depois do verso 79.
सर्वेषामेव जन्तूनां सततं देहपोषणे ।
अस्ति प्रज्ञा समायत्ता को विशेषस्तदा नृणाम् ॥ १अ ॥
लब्ध्वेहान्ते मनुष्यत्वं हित्वा देहाद्यसद्ग्रहम् ।
आत्मसृत्या विहायेदं जीवात्मा स विशिष्यते ॥ २अ ॥
sarveṣām eva jantūnāṁ
satataṁ deha-poṣaṇe
asti prajñā samāyattā
ko viśeṣas tadā nṛṇām
labdhvehānte manuṣyatvaṁ
hitvā dehādy-asad-graham
ātma-sṛtyā vihāyedaṁ
jīvātmā sa viśiṣyate

Synonyms

sarveṣāmtodos; evadecerto; jantūnāmde animais; satatamsempre; deha-poṣaṇepara manter o corpo; asti; prajñā­inteligência; samāyattārepousando em; kaḥqual; viśeṣaḥdiferença; tadāentão; nṛṇāmdos seres humanos; labdhvātendo alcançado; ihaaqui; anteao fim de muitos nascimentos; manuṣyatvamuma vida humana; hitvāapós abandonar; deha-ādi­no corpo grosseiro e no sutil; asat-grahamuma concepção de vida incorreta; ātmade conhecimento espiritual; sṛtyāpelo caminho; vihāyatendo abandonado; idameste corpo; jīva-ātmāa alma espiritual individual; saḥesta; viśiṣyatetorna-se proeminente.

Translation

Na sociedade animal, também, observa-se o desejo de manter o corpo, a esposa e os filhos. Os animais têm plena inteligência para administrar tais afazeres. Se um ser humano só é avançado nesse sentido, qual é, então, a diferença entre ele e um animal? Deve-se ter muito cuidado em entender que esta vida humana é alcançada depois de muitos e muitos nascimentos no processo evolutivo. Um homem erudito que abandone o conceito corpóreo de vida, tanto grosseiro quanto sutil, haverá de se tornar, através da iluminação pelo conhecimento espiritual, uma proeminente alma espiritual individual, assim como o Senhor Supremo.

Purport

SIGNIFICADO—Afirma-se que o homem é um animal racional, mas este verso nos indica, também, que a racionalidade existe inclusive na vida animal. Se não houvesse racionalidade, como um animal poderia manter seu corpo trabalhando tão arduamente? Não é ver­dade que os animais são irracionais; a racionalidade deles, contudo, não é muito avançada. De qualquer modo, não podemos negar-lhes a racionalidade. A ideia é que devemos usar nossa razão para enten­der a Suprema Personalidade de Deus, pois essa é a perfeição da vida humana.
भक्ति: कृष्णे दया जीवेष्वकुण्ठज्ञानमात्मनि ।
यदि स्यादात्मनो भूयादपवर्गस्तु संसृते: ॥ १ब ॥
bhaktiḥ kṛṣṇe dayā jīveṣv
akuṇṭha-jñānam ātmani
yadi syād ātmano bhūyād
apavargas tu saṁsṛteḥ

Synonyms

bhaktiḥserviço devocional; kṛṣṇea Kṛṣṇa; dayāmisericór­dia; jīveṣupara com outras entidades vivas; akuṇṭha-jñānam­conhecimento perfeito; ātmanido eu; yadise; syāttorna-se; ātmanaḥdo próprio eu; bhūyātdecerto haverá; apavargaḥ­liberação; tuentão; saṁsṛteḥdo cativeiro da vida material.

Translation

Se uma entidade viva tiver consciência de Kṛṣṇa desenvolvida e for misericordiosa para com os outros, e se o seu conhecimento espiritual de autorrealização for perfeito, ela se libertará imediata­mente do cativeiro da existência material.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, as palavras dayā jīveṣu, significando “misericórdia para com outras entidades vivas”, indicam que a entidade viva deve ter misericórdia de outras entidades vivas caso deseje progredir em autorrealização. Isso quer dizer que ela deve pregar este conheci­mento após aperfeiçoar-se e compreender sua própria posição como serva eterna de Kṛṣṇa. Pregar isso é mostrar verdadeira misericórdia para com as entidades vivas. Outras espécies de trabalho humanitá­rio podem ser temporariamente benéficas ao corpo, mas, como a entidade viva é uma alma espiritual, em última análise, só é possível mostrar-lhe verdadeira misericórdia revelando-lhe o conhecimento de sua existência espiritual. Como Caitanya Mahāprabhu diz, jīvera ‘svarūpa’ haya — kṛṣṇera ‘nitya-dāsa’: “Toda entidade viva é constitucionalmente serva de Kṛṣṇa.” Todos devem conhecer este fato perfeitamente e pregá-lo às pessoas em geral. Se alguém com­preende que é um servo eterno de Kṛṣṇa, mas não o prega, sua compreensão é imperfeita. Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura canta, portanto, duṣṭa mana, tumi kisera vaiṣṇava? pratiṣṭhāra tare, nirjanera ghare, tava hari-nāma kevala kaitava: “Minha querida mente, que espécie de vaiṣṇava tu és? Simplesmente em troca de falso prestígio e de reputação material, estás cantando o mantra Hare Kṛṣṇa em um lugar solitário.” Assim são criticadas as pessoas que não pregam. Há muitos vaiṣṇavas em Vṛndāvana que não gostam de pregar; eles tentam principalmente imitar Haridāsa Ṭhākura. O verdadeiro resultado de seu suposto canto em um lugar solitário, con­tudo, é que eles dormem e pensam em mulheres e dinheiro. De forma semelhante, quem se dedica apenas à adoração no templo, mas não cuida dos interesses das pessoas em geral ou não pode reconhe­cer os devotos chama-se kaniṣṭha-adhikārī:
arcāyām eva haraye
pūjāṁ yaḥ śraddhayehate
na tad-bhakteṣu cānyeṣu
sa bhaktaḥ prākṛtaḥ smṛtaḥ
(Bhāg. 11.2.47)
श्लोक २ब
अद‍ृष्टं द‍ृष्टवन्नङ्‌क्षेद्भूतं स्वप्नवदन्यथा ।
भूतं भवद्भविष्यच्च सुप्तं सर्वरहोरह: ॥ २ब ॥
adṛṣṭaṁ dṛṣṭavan naṅkṣed
bhūtaṁ svapnavad anyathā
bhūtaṁ bhavad bhaviṣyac ca
suptaṁ sarva-raho-rahaḥ

Synonyms

adṛṣṭamfelicidade futura; dṛṣṭa-vatcomo experiência direta; naṅkṣetelimina-se; bhūtama existência material; svapnavatcomo um sonho; anyathāde outro modo; bhūtamque aconteceu no passado; bhavatpresente; bhaviṣyatfuturo; catambém; suptamum sonho; sarvade tudo; rahaḥ-rahaḥa conclusão secreta.

Translation

Tudo que acontece dentro do tempo, que consiste em passado, presente e futuro, não passa de mero sonho. Essa é a compreensão secreta de toda a literatura védica.

Purport

SIGNIFICADO—De fato, toda a existência material é apenas um sonho. Assim, não há possibilidade de passado, presente ou futuro. Pessoas vicia­das em karma-kāṇḍa-vicāra, que significa “trabalhar em prol da felicidade futura através de atividades fruitivas”, também estão sonhando. Do mesmo modo, a felicidade passada e a felicidade presente não passam de meros sonhos. A verdadeira realidade é Kṛṣṇa e o ser­viço a Kṛṣṇa, que podem salvar-nos das garras de māyā, pois o Senhor diz na Bhagavad-gītā (7.14) que mām eva ye prapadyante māyām etāṁ taranti te: “Aqueles que se rendem a Mim podem facilmente transpor a Minha energia ilusória.”
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do quar­to canto, vigésimo nono capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitu­lado “Conversas entre Nārada e o Rei Prācīnabarhi”.