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Purport

CAPÍTULO TREZE

Brahmā Rouba os Meninos e os Bezerros

Este capítulo descreve como o senhor Brahmā tentou roubar os bezerros e os vaqueirinhos, e também narra a desorientação do senhor Brahmā e como ele finalmente conseguiu livrar-se de sua ilusão.
Embora o episódio referente a Aghāsura tenha ocorrido um ano antes, quando os vaqueirinhos tinham cinco anos de idade, eles disseram aos seis anos: “Isso aconteceu hoje.” Deu-se de fato o seguin­te. Após matar Aghāsura, Kṛṣṇa, juntamente com Seus associados, os vaqueirinhos, foi fazer um piquenique na floresta. Os bezerros, atraídos pela grama verde, afastaram-se pouco a pouco, motivo pelo qual os associados de Kṛṣṇa ficaram um pouco agitados, desejosos de reaver os bezerros. Kṛṣṇa, entretanto, encorajou os meninos, dizendo: “Lanchai tranquilamente. Eu procurarei os bezerros.” E assim o Senhor partiu. Então, apenas para examinar a potência de Kṛṣṇa, o senhor Brahmā roubou todos os bezerros e vaqueirinhos e os manteve em um lugar solitário.
Vendo que não conseguia encontrar os bezerros e os meninos, Kṛṣṇa pôde entender que aquilo era um truque de Brahmā. Então, a Suprema Personalidade de Deus, a causa de todas as causas, a fim de satisfazer o senhor Brahmā, bem como Seus próprios associados e as mães destes, expandiu-Se transformando-Se nos bezer­ros e meninos exatamente como eles eram antes. Dessa maneira, Ele experimentou outro passatempo. Um aspecto especial deste passatempo foi que as mães dos vaqueirinhos ficaram mais apegadas aos seus respectivos filhos, e as vacas ficaram mais apega­das aos seus bezerros. Depois de quase um ano, Baladeva observou que todos os vaqueirinhos e bezerros eram expansões de Kṛṣṇa. Nesse momento, Ele dirigiu perguntas a Kṛṣṇa e foi informado do que acontecera.
Passado exatamente um ano, Brahmā retornou e viu que, como antes, Kṛṣṇa estava ocupado com Seus amigos, com os bezerros e com as vacas. Então, tal qual Nārāyaṇa, todos os bezerros e vaquei­rinhos apresentaram-Se como formas de quatro braços. Então, Brahmā pôde entender a potência de Kṛṣṇa, e ficou atônito com os passatem­pos de Kṛṣṇa, seu Senhor adorável. Kṛṣṇa, entretanto, concedeu a Brahmā misericórdia imotivada e o libertou da ilusão. Então, Brahmā começou a oferecer orações em glorificação à Suprema Personalidade de Deus.
श्रीशुक उवाच
साधु पृष्टं महाभाग त्वया भागवतोत्तम ।
यन्नूतनयसीशस्य श‍ृण्वन्नपि कथां मुहु: ॥ १ ॥
śrī-śuka uvāca
sādhu pṛṣṭaṁ mahā-bhāga
tvayā bhāgavatottama
yan nūtanayasīśasya
śṛṇvann api kathāṁ muhuḥ

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚukadeva Gosvāmī disse; sādhu pṛṣṭamfico muito honrado com tua pergunta; mahā-bhāgatu és uma personalidade grandemente afortunada; tvayāpor ti; bhāgavata-uttamaó melhor dos devotos; yatporque; nūtanayasitornas cada vez mais novos; īśasyada Suprema Personalidade de Deus; śṛṇvan apiembora estejas ouvindo continuamente; kathāmos passatempos; muhuḥrepetidas vezes.

Translation

Śrīla Śukadeva Gosvāmī disse: Ó melhor dos devotos, afortuna­díssimo Parīkṣit, indagaste muito bem, pois, embora ouças constan­temente os passatempos do Senhor, percebes que Suas atividades se renovam a cada instante.

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SIGNIFICADO—Quem não é muito avançado em consciência de Kṛṣṇa não pode fixar-se em ouvir os passatempos do Senhor constantemente. Nityaṁ nava-navāya-mānam: Muito embora ouçam constantemente sobre o Senhor por anos, os devotos avançados continuam sentindo que esses tópicos lhes parecem cada vez mais novos e recen­tes. Portanto, esses devotos não conseguem parar de ouvir os passa­tempos do Senhor Kṛṣṇa. Premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti. A palavra santaḥ é usada para se referir a pessoas que desenvolveram amor por Kṛṣṇa. Yaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi. (Brahma-saṁhitā 5.38) Parīkṣit Mahārāja, portanto, é cha­mado de bhāgavatottama, o melhor dos devotos, porque, a menos que alguém seja muito elevado em serviço devocional, não poderá sentir o êxtase que surge quando se ouve mais e mais, nem poderá apreciar os tópicos como sendo cada vez mais novos e viçosos.
सतामयं सारभृतां निसर्गो
यदर्थवाणीश्रुतिचेतसामपि ।
प्रतिक्षणं नव्यवदच्युतस्य यत्
स्त्रिया विटानामिव साधुवार्ता ॥ २ ॥
satām ayaṁ sāra-bhṛtāṁ nisargo
yad-artha-vāṇī-śruti-cetasām api
prati-kṣaṇaṁ navya-vad acyutasya yat
striyā viṭānām iva sādhu vārtā

Synonyms

satāmdos devotos; ayamisto; sāra-bhṛtāmaqueles que são paramahaṁsas, que aceitaram a essência da vida; nisargaḥaspecto ou característica; yato qual; artha-vāṇīa meta da vida, a meta do benefício; śrutia meta da compreensão; cetasām apique decidiram por bem aceitar a bem-aventurança dos assuntos transcenden­tais como a meta e objetivo da vida; prati-kṣaṇamtodo momento; navya-vatcomo se fossem cada vez mais novos; acyutasyado Senhor Kṛṣṇa; yatporque; striyāḥ(tópicos) de mulher ou sexo; viṭānāmde libertinos, apegados a mulheres; ivaexatamente como; sādhu vārtāverdadeira conversa.

Translation

Os paramahaṁsas, os devotos que aceitaram a essência da vida, são apegados a Kṛṣṇa no âmago de seus corações, e Ele é a meta de suas vidas. É da natureza deles falar somente em Kṛṣṇa a cada momento, como se esses tópicos fossem cada vez mais novos. Eles têm apego por esses tópicos assim como os materialistas são apegados aos tópicos referentes a mulheres e sexo.

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SIGNIFICADO—A palavra sāra-bhṛtām significa paramahaṁsas. O haṁsa, ou cisne, extrai o leite de uma mistura de leite e água e rejeita a água. Igual­mente, a natureza das pessoas que adotaram a vida espiritual e a consciência de Kṛṣṇa, compreendendo que Kṛṣṇa é a vida e alma de todos, é que em momento algum eles podem afastar-se de kṛṣṇa-­kathā, ou os tópicos sobre Kṛṣṇa. Esses paramahaṁsas sempre veem Kṛṣṇa no âmago do coração (santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti). Kāma (desejos), krodha (ira) e bhaya (medo) sempre estão presentes no mundo material, mas, no mundo espiritual, ou transcendental, todos podem usá-los para Kṛṣṇa. Kāmaṁ kṛṣṇa-karmārpaṇe. O de­sejo dos paramahaṁsas, portanto, é sempre agir em prol de Kṛṣṇa. Krodhaṁ bhakta-dveṣi jane. Eles aplicam a sua ira para os não­ devotos, e transformam bhaya, ou medo, no medo de desviar-se da consciência de Kṛṣṇa. Dessa maneira, a vida do devoto paramahaṁsa é usada inteiramente para Kṛṣṇa, assim como a vida da pessoa apega­da ao mundo material é usada simplesmente para mulheres e dinheiro. Aquilo que é dia para o materialista é noite para o espiritualista. Aquilo que é doce para o materialista – a saber, mulheres e dinheiro – é tido como veneno pelo espiritualista.
sandarśanaṁ viṣayinām atha yoṣitāṁ ca
ha hanta hanta viṣa-bhakṣaṇato ’py asādhu
Esta é a instrução de Caitanya Mahāprabhu. Para o paramahaṁsa, Kṛṣṇa é tudo, mas, para o materialista, mulheres e dinheiro são tudo.
श‍ृणुष्वावहितो राजन्नपि गुह्यं वदामि ते ।
ब्रूयु: स्‍निग्धस्य शिष्यस्य गुरवो गुह्यमप्युत ॥ ३ ॥
śṛṇuṣvāvahito rājann
api guhyaṁ vadāmi te
brūyuḥ snigdhasya śiṣyasya
guravo guhyam apy uta

Synonyms

śṛṇusvapor favor, ouve; avahitaḥcom muita atenção; rājanó rei (Mahārāja Parīkṣit); apiembora; guhyammuito confiden­ciais (porque os homens comuns não podem entender as atividades de Kṛṣṇa); vadāmiexplicarei; tea ti; brūyuḥexplicam; snigdha­syasubmisso; śiṣyasyade um discípulo; guravaḥmestres espirituais; guhyammuito confidenciais; api utamesmo assim.

Translation

Ó rei, por favor, ouve-me com muita atenção. Embora as ativida­des do Senhor Supremo sejam muito confidenciais, e nenhum homem ordinário seja capaz de entendê-las, eu te falarei sobre elas, pois os mestres espirituais explicam ao discípulo submisso até mesmo temas que são muito confidenciais e difíceis de entender.
तथाघवदनान्मृत्यो रक्षित्वा वत्सपालकान् ।
सरित्पुलिनमानीय भगवानिदमब्रवीत् ॥ ४ ॥
tathāgha-vadanān mṛtyo
rakṣitvā vatsa-pālakān
sarit-pulinam ānīya
bhagavān idam abravīt

Synonyms

tathāem seguida; agha-vadanātda boca de Aghāsura; mṛtyoḥa morte personificada; rakṣitvāapós salvar; vatsa-pālakāntodos os vaqueirinhos e bezerros; sarit-pulinampara a margem do rio; ānīyalevando-os; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa; idamestas palavras; abravītfalou.

Translation

Então, após salvar os meninos e bezerros da boca de Aghāsura, que era a morte personificada, o Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Persona­lidade de Deus, levou todos eles à margem do rio e falou as seguintes palavras.
अहोऽतिरम्यं पुलिनं वयस्या:
स्वकेलिसम्पन्मृदुलाच्छबालुकम् ।
स्फुटत्सरोगन्धहृतालिपत्रिक-
ध्वनिप्रतिध्वानलसद्‌‌‌द्रुमाकुलम् ॥ ५ ॥
aho ’tiramyaṁ pulinaṁ vayasyāḥ
sva-keli-sampan mṛdulāccha-bālukam
sphuṭat-saro-gandha-hṛtāli-patrika-
dhvani-pratidhvāna-lasad-drumākulam

Synonyms

ahooh!; ati-ramyambelíssima; pulinama margem do rio; vayasyāḥMeus queridos amigos; sva-keli-sampatcheia de parafernálias próprias para os passatempos recreativos; mṛdula-­accha-bālukama margem arenosa muito suave e limpa; sphuṭatplenamente desabrochadas; saraḥ-gandhapelo aroma das flores de lótus; hṛtaatraídos; alidas abelhas; patrikae dos pássaros; dhvani-pratidhvānaos sons de seu chilrear e movimentos, e os ecos destes sons; lasatmovendo-se por todas; druma-ākulamcheia de árvores formosas.

Translation

Meus queridos amigos, vede só como a margem deste rio é extre­mamente bela devido à sua agradável atmosfera. E vede só como os lótus floridos atraem abelhas e pássaros com seu aroma. O zum­bido e o chilrear das abelhas e dos pássaros ecoam por todas as for­mosas árvores da floresta. Além disso, aqui a areia é limpa e macia. Portanto, este deve ser considerado o melhor lugar para nossas brin­cadeiras e passatempos.

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SIGNIFICADO—A descrição da floresta de Vṛndāvana conforme apresentada nesta passagem foi falada por Kṛṣṇa há cinco mil anos, e há três ou quatro séculos, durante a época dos ācāryas vaiṣṇavas, prevalecia a mesma condição. Kūjat-kokila-haṁsa-sārasa-gaṇākīrṇe mayūrākule. A flo­resta de Vṛndāvana está sempre repleta do chilrear e gorjear de pássaros, como os cucos (kokila), patos (haṁsa) e grous (sārasa), e também está cheia de pavões (mayūrākule). Os mesmos sons e atmosfera ainda prevalecem na área onde se situa nosso templo de Kṛṣṇa­-Balarāma. Todos aqueles que visitam esse templo alegram-se em ouvir o chilrear dos pássaros, como se descreve aqui (kūjat-kokila-haṁsa-sārasa).
अत्र भोक्तव्यमस्माभिर्दिवारूढं क्षुधार्दिता: ।
वत्सा: समीपेऽप: पीत्वा चरन्तु शनकैस्तृणम् ॥ ६ ॥
atra bhoktavyam asmābhir
divārūḍhaṁ kṣudhārditāḥ
vatsāḥ samīpe ’paḥ pītvā
carantu śanakais tṛṇam

Synonyms

atraaqui, neste lugar; bhoktavyamnosso almoço deve ser comido; asmābhiḥpor nós; diva-ārūḍhamé muito tarde agora; kṣudhā arditāḥestamos cansados e com fome; vatsāḥos bezer­ros; samīpenas proximidades; apaḥágua; pītvāapós beberem; carantuque eles comam; śanakaiḥvagarosamente; tṛṇama grama.

Translation

Acho que devemos almoçar aqui, uma vez que já estamos com fome por estar muito tarde. Aqui, os bezerros podem beber água, andar vagarosamente de um lado a outro e comer grama.
तथेति पाययित्वार्भा वत्सानारुध्य शाद्वले ।
मुक्त्वा शिक्यानि बुभुजु: समं भगवता मुदा ॥ ७ ॥
tatheti pāyayitvārbhā
vatsān ārudhya śādvale
muktvā śikyāni bubhujuḥ
samaṁ bhagavatā mudā

Synonyms

tathā iticomo Kṛṣṇa propôs, os outros vaqueirinhos concor­daram; pāyayitvā arbhāḥeles deixaram beber água; vatsānos bezerros; ārudhyaamarrando-os às árvores, deixaram que eles co­messem; śādvaleem um lugar onde havia grama verde e delicada; muktvāabrindo; śikyānisuas sacolas de comestíveis e outras posses; bubhujuḥforam e desfrutaram; samamigualmente; bha­gavatācom a Suprema Personalidade de Deus; mudāem prazer transcendental.

Translation

Aceitando a sugestão do Senhor Kṛṣṇa, os vaqueirinhos deixaram os bezerros beber a água do rio e, então, amarraram-nos a árvores onde havia grama verde e delicada. Depois, os meninos abriram seus cestos de alimento e, com grande prazer transcendental, come­çaram a comer com Kṛṣṇa.
कृष्णस्य विष्वक् पुरुराजिमण्डलै-
रभ्यानना: फुल्लद‍ृशो व्रजार्भका: ।
सहोपविष्टा विपिने विरेजु-
श्छदा यथाम्भोरुहकर्णिकाया: ॥ ८ ॥
kṛṣṇasya viṣvak puru-rāji-maṇḍalair
abhyānanāḥ phulla-dṛśo vrajārbhakāḥ
sahopaviṣṭā vipine virejuś
chadā yathāmbhoruha-karṇikāyāḥ

Synonyms

kṛṣṇasya viṣvakcercando Kṛṣṇa; puru-rāji-maṇḍalaiḥatravés de diferentes círculos de associados; abhyānanāḥcada um dirigindo o seu olhar para o centro, onde Kṛṣṇa estava sentado; phulla-dṛśaḥseus rostos muito radiantes devido ao prazer transcendental; vraja-­arbhakāḥtodos os vaqueirinhos de Vrajabhūmi; saha-upaviṣṭāḥsentados com Kṛṣṇa; vipinena floresta; virejuḥfeito com grande primor e beleza; chadāḥpétalas e folhas; yathāassim como; ambhoruhade uma flor de lótus; karṇikāyāḥdo verticilo.

Translation

Como o verticilo de uma flor de lótus cercado por suas pétalas e folhas, Kṛṣṇa, sentado no centro, ficou circundado por fileiras de amigos, todos os quais pareciam muito belos. Cada um deles tentava dirigir seu olhar a Kṛṣṇa, na esperança de que Kṛṣṇa olhasse para ele. Dessa maneira, todos comeram seu almoço na floresta.

Purport

SIGNIFICADO—Ao devoto puro, Kṛṣṇa sempre é visível, como afirma a Brahma-saṁhitā (santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti) e o próprio Kṛṣṇa indica na Bhagavad-gītā (sarvataḥ pāṇi-pādaṁ tat sarvato ’kṣi-śiro-mukham). Se acumulando atividades piedosas (kṛta-puṇya-puñjāḥ) alguém se eleva à plataforma de serviço devocional puro, Kṛṣṇa permanece sempre visível no âmago de seu coração. Aquele que alcançou essa perfeição goza de completa beleza em sua bem-aventurança transcendental. O atual movimento da consciência de Kṛṣṇa busca manter Kṛṣṇa no centro, pois, em consequência disso, todas as atividades automaticamente se tornarão belas e bem-aventuradas.
केचित् पुष्पैर्दलै: केचित्पल्लवैरङ्कुरै: फलै: ।
शिग्भिस्त्वग्भिर्द‍ृषद्भ‍िश्च बुभुजु: कृतभाजना: ॥ ९ ॥
kecit puṣpair dalaiḥ kecit
pallavair aṅkuraiḥ phalaiḥ
śigbhis tvagbhir dṛṣadbhiś ca
bubhujuḥ kṛta-bhājanāḥ

Synonyms

kecitalguém; puṣpaiḥpelas flores; dalaiḥpor belas folhas de flores; kecitalguém; pallavaiḥna superfície de montes de folhas; aṅkuraiḥsobre brotos de flores; phalaiḥe alguns sobre frutas; śigbhiḥalguns no próprio cesto ou invólucro; tvagbhiḥpela casca de árvores; dṛṣadbhiḥsobre rochas; cae; bubhujuḥdesfrutaram; kṛta-bhājanāḥcomo se tivessem feito seus pratos para comer.

Translation

Entre os vaqueirinhos, alguns puseram seu almoço sobre flores, alguns puseram sobre folhas, frutas ou montes de folhas, alguns puseram nos próprios cestos, enquanto outros puseram em cascas de árvores ou sobre rochas. Eis o que as crianças imaginavam serem seus pratos enquanto comiam seu al­moço.
सर्वे मिथो दर्शयन्त: स्वस्वभोज्यरुचिं पृथक् ।
हसन्तो हासयन्तश्चाभ्यवजह्रु: सहेश्वरा: ॥ १० ॥
sarve mitho darśayantaḥ
sva-sva-bhojya-ruciṁ pṛthak
hasanto hāsayantaś cā-
bhyavajahruḥ saheśvarāḥ

Synonyms

sarvetodos os vaqueirinhos; mithaḥuns aos outros; darśayan­taḥmostrando; sva-sva-bhojya-rucim pṛthakdiferentes variedades de alimentos trazidos de casa, com seus diversos e diferentes sabo­res; hasantaḥapós saborearem, todos riam; hāsayantaḥ cae fa­zendo os outros rirem; abhyavajahruḥdesfrutavam do almoço; saha-īśvarāḥjuntamente com Kṛṣṇa.

Translation

Todos os vaqueirinhos desfrutaram de seu almoço com Kṛṣṇa, mostrando uns aos outros os diferentes sabores das diferentes varie­dades de preparações que haviam trazido de casa. Saboreando as preparações uns dos outros, eles começaram a rir e a provocar risos uns nos outros.

Purport

SIGNIFICADO—Às vezes, um amigo dizia: “Kṛṣṇa, vê como minha comida está gostosa”, e Kṛṣṇa comia um pouco e ria. Igualmente, Balarāma, Sudāmā e outros amigos saboreavam o alimento uns dos outros e riam. Assim, com muita alegria, os amigos começaram a comer suas respectivas preparações trazidas de casa.
बिभ्रद् वेणुं जठरपटयो: श‍ृङ्गवेत्रे च कक्षे
वामे पाणौ मसृणकवलं तत्फलान्यङ्गुलीषु ।
तिष्ठन् मध्ये स्वपरिसुहृदो हासयन् नर्मभि: स्वै:
स्वर्गे लोके मिषति बुभुजे यज्ञभुग् बालकेलि: ॥ ११ ॥
bibhrad veṇuṁ jaṭhara-paṭayoḥ śṛṅga-vetre ca kakṣe
vāme pāṇau masṛṇa-kavalaṁ tat-phalāny aṅgulīṣu
tiṣṭhan madhye sva-parisuhṛdo hāsayan narmabhiḥ svaiḥ
svarge loke miṣati bubhuje yajña-bhug bāla-keliḥ

Synonyms

bibhrat veṇummantendo a flauta; jaṭhara-paṭayoḥentre a roupa apertada e o abdômen; śṛṅga-vetretanto a corneta de chifre quanto o bastão para conduzir vacas; catambém; kakṣena cintu­ra; vāmedo lado esquerdo; pāṇausegurando; masṛṇa-kavalamalimento delicioso, preparado com arroz e coalhada especial; tat-phalānipedaços adequados de frutas, tais como bael; aṅgulīṣuentre os dedos; tiṣṭhanpermanecendo dessa maneira; madhyeno meio; sva-pari-suhṛdaḥSeus próprios associados pessoais; hāsayanfazendo-os rir; narmabhiḥcom palavras engraçadas; svaiḥSuas próprias; svarge loke miṣatienquanto os habitantes dos planetas celestiais, Svargaloka, observavam esta cena maravilhosa; bubhujeKṛṣṇa desfrutava; yajña-bhuk bāla-keliḥembora Ele aceite oferendas em yajña, Ele, por causa dos passatempos infantis, comia muito ale­gremente com Seus amigos vaqueirinhos.

Translation

Kṛṣṇa é yajña-bhuk – isto é, Ele come somente oferendas de yajña –, mas, para manifestar Seus passatempos infantis, agora Ele Se sentava tendo a Seu lado direito Sua flauta apertada à cintura por Sua roupa, e, à Sua esquerda, tinha Sua corneta de chifre e o bastão para conduzir vacas. Segurando em Sua mão uma deliciosa preparação de iogurte e arroz, e com pedaços de frutas entre Seus dedos, estava sentado como o verticilo de uma flor de lótus, olhando para todos os Seus amigos, brincando pessoalmente com eles e fazendo-os rir jubilosamente enquanto comia. Nesse momento, os cidadãos do céu assistiam a essa cena, maravilhados em ver como a Personalidade de Deus, que só come em yajña, estava agora comendo com Seus amigos na floresta.

Purport

SIGNIFICADO—Enquanto Kṛṣṇa comia com Seus amigos vaqueirinhos, uma abelha apareceu ali para participar da refeição. Assim, Kṛṣṇa brincou: “Por que vieste perturbar Meu amigo brāhmaṇa Madhumaṅgala? Queres matar um brāhmaṇa. Isso não é bom.” Todos os meninos riam e desfrutavam falando essas palavras jocosas en­quanto comiam. Por isso, os habitantes dos planetas superiores fica­ram espantados vendo como a Suprema Personalidade de Deus, que come apenas quando oferecem yajña, agora, na companhia de Seus amigos na floresta, estava comendo como uma criança comum.
भारतैवं वत्सपेषु भुञ्जानेष्वच्युतात्मसु ।
वत्सास्त्वन्तर्वने दूरं विविशुस्तृणलोभिता: ॥ १२ ॥
bhārataivaṁ vatsa-peṣu
bhuñjāneṣv acyutātmasu
vatsās tv antar-vane dūraṁ
viviśus tṛṇa-lobhitāḥ

Synonyms

bhārataó Mahārāja Parīkṣit; evamdessa maneira (enquanto comiam seu almoço); vatsa-peṣujuntamente com todos os meninos que apascentavam os bezerros; bhuñjāneṣuocupados em comer seu alimento; acyuta-ātmasutodos eles sendo muito queridos e preferidos por Acyuta, Kṛṣṇa; vatsāḥos bezerros; tucontudo; antaḥ-vanena densa floresta; dūrammuito longe; viviśuḥentra­ram; tṛṇa-lobhitāḥsentindo-se atraídos pela grama verde.

Translation

Ó Mahārāja Parīkṣit, enquanto os vaqueirinhos, que no âmago de seus corações só conheciam Kṛṣṇa, estavam comendo seu almoço na floresta, os bezerros, atraídos pela grama verde, afastaram-se muito, embrenhando-se na floresta.
तान् द‍ृष्ट्वा भयसन्त्रस्तानूचे कृष्णोऽस्य भीभयम् ।
मित्राण्याशान्मा विरमतेहानेष्ये वत्सकानहम् ॥ १३ ॥
tān dṛṣṭvā bhaya-santrastān
ūce kṛṣṇo ’sya bhī-bhayam
mitrāṇy āśān mā viramate-
hāneṣye vatsakān aham

Synonyms

tānque aqueles bezerros estavam indo embora; dṛṣṭvāvendo; bhaya-santrastānaos vaqueirinhos, que estavam perturbados devido ao medo de que os bezerros pudessem ser atacados por animais ferozes dentro da densa floresta; ūceKṛṣṇa disse; kṛṣṇaḥ asya bhī­bhayamKṛṣṇa, que é Ele próprio o elemento temido por todas as classes de medo (quando Kṛṣṇa está presente, não há temor); mitrā­ṇiMeus queridos amigos; āśātde comer; viramatanão pareis; ihaa este lugar, a este local; āneṣyetrarei de volta; vatsakānos bezerros; ahamEu.

Translation

Ao ver que Seus amigos vaqueirinhos estavam assustados, Kṛṣṇa, o temível controlador até mesmo do próprio medo, disse o seguinte, somente para aliviá-los do temor: “Meus queridos amigos, não pareis de comer. Trarei os bezerros de volta a este lugar, indo procurá-los pessoalmente.”

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SIGNIFICADO—O devoto que tem a amizade de Kṛṣṇa não é capaz de sentir medo algum. Kṛṣṇa, o controlador supremo, é inclusive o controlador da morte, que é tida como o temor último neste mundo material. Bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ syāt. (Śrīmad-Bhāgavatam 11.2.37) Esse temor surge devido à falta de consciência de Kṛṣṇa; caso contrário, não pode haver temor algum. Para alguém que se refugiou nos pés de lótus de Kṛṣṇa, este mundo material permeado de temor praticamente não oferece nenhum
bhavāmbudhir vatsa-padaṁ paraṁ padaṁ
padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām
Bhavāmbudhiḥ, o oceano material dos temores, torna-se muito fácil de se atravessar com a misericórdia do controlador supremo. Este mundo material, no qual existe temor e perigo a cada passo (padaṁ padaṁ yad vipadām), não se destina àqueles que se refugiaram nos pés de lótus de Kṛṣṇa. Tais pessoas estão libertas deste mundo temeroso.
samāśritā ye pada-pallava-plavaṁ
mahat-padaṁ puṇya-yaśo murāreḥ
bhavāmbudhir vatsa-padaṁ paraṁ padaṁ
padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām
(Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.58)
Todos, portanto, devem refugiar-se na Pessoa Suprema, que é a fonte do destemor, e assim gozar de segurança.
इत्युक्त्वाद्रिदरीकुञ्जगह्वरेष्वात्मवत्सकान् ।
विचिन्वन्भगवान्कृष्ण: सपाणिकवलो ययौ ॥ १४ ॥
ity uktvādri-darī-kuñja-
gahvareṣv ātma-vatsakān
vicinvan bhagavān kṛṣṇaḥ
sapāṇi-kavalo yayau

Synonyms

iti uktvādizendo isto (“trarei os teus bezerros pessoalmente”); adri-darī-kuñja-gahvareṣuem toda parte nas montanhas, nas cavernas de montanhas, nas moitas e passagens estreitas; ātma-vatsakānos bezerros pertencentes aos Seus amigos pessoais; vicin­vanprocurando; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; kṛṣṇaḥSenhor Kṛṣṇa; sa-pāṇi-kavalaḥcarregando Seu iogurte e arroz em Sua mão; yayaupartiu.

Translation

“Eu procurarei os bezerros”, disse Kṛṣṇa. “Não inter­rompais a vossa diversão.” Então, carregando Seu iogurte e arroz em Sua mão, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, imediatamente saiu em busca dos bezerros de Seus amigos. Para satisfazer Seus amigos, Ele começou a procurar em todas as montanhas, cavernas de montanhas, moitas e passagens estreitas.

Purport

SIGNIFICADO—Os Vedas (Śvetāśvatara Upaniṣad 6.8) afirmam que a Suprema Perso­nalidade de Deus nada tem a fazer pessoalmente (na tasya kāryaṁ karaṇaṁ ca vidyate) porque Ele faz tudo através de Suas energias e potências (parāsya śaktir vividhaiva śrūyate). Entretanto, vemos aqui que Ele mesmo Se incumbiu de procurar os bezerros de Seus amigos. Essa foi a imotivada misericórdia de Kṛṣṇa. Mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sa-carācaram: Todas as atividades do mundo in­teiro e de toda a manifestação cósmica funcionam sob Sua direção, através de Suas diferentes energias. Mesmo assim, quando é preciso cuidar de Seus amigos, Ele Se encarrega disso pessoalmente. Kṛṣṇa assegurou a Seus amigos: “Não fiqueis com medo. Estou indo pes­soalmente buscar vossos bezerros.” Essa foi a imotivada misericórdia de Kṛṣṇa.
अम्भोजन्मजनिस्तदन्तरगतो मायार्भकस्येशितु-
र्द्रष्टुं मञ्जु महित्वमन्यदपि तद्वत्सानितो वत्सपान् ।
नीत्वान्यत्र कुरूद्वहान्तरदधात् खेऽवस्थितो य: पुरा
द‍ृष्ट्वाघासुरमोक्षणं प्रभवत: प्राप्त: परं विस्मयम् ॥ १५ ॥
ambhojanma-janis tad-antara-gato māyārbhakasyeśitur
draṣṭuṁ mañju mahitvam anyad api tad-vatsān ito vatsapān
nītvānyatra kurūdvahāntaradadhāt khe ’vasthito yaḥ purā
dṛṣṭvāghāsura-mokṣaṇaṁ prabhavataḥ prāptaḥ paraṁ vismayam

Synonyms

ambhojanma-janiḥo senhor Brahmā, que nasceu de uma flor de lótus; tat-antara-gataḥagora ficou emaranhado nos afazeres de Kṛṣṇa, que desfrutava de um almoço com Seus vaqueirinhos; māyā-arbhakasyados meninos feitos pela māyā de Kṛṣṇa; īśituḥdo controlador supremo; draṣṭumsó para ver; mañjumuito agradáveis; mahitvam anyat apitambém outras glórias do Senhor; tat­-vatsānseus bezerros; itaḥdiferente daquele lugar onde eles estavam; vatsa-pāne os vaqueirinhos que cuidavam dos bezerros; nītvālevando-os; anyatrapara outro lugar; kurūdvahaó Mahārāja Parīkṣit; antara-dadhātmanteve escondidos e invisíveis por algum tempo; khe avasthitaḥ yaḥessa pessoa Brahmā, que residia no siste­ma planetário superior no céu; purāoutrora; dṛṣṭvāestava obser­vando; aghāsura-mokṣaṇamo maravilhoso extermínio de Aghāsura e sua libertação da tribulação material; prabhavataḥda onipotente Pessoa Suprema; prāptaḥ param vismayamficara deveras atônito.

Translation

Ó Mahārāja Parīkṣit, Brahmā, que reside no sistema planetário superior no céu, observara o poderosíssimo Kṛṣṇa executar as ativi­dades que consistiram em matar e libertar Aghāsura, o que o deixou atônito. Agora, esse mesmo Brahmā queria mostrar um pouco de seu próprio poder e ver o poder de Kṛṣṇa, que estava ocupado em Seus passatempos infantis, como se estivesse brincando com vaqueirinhos comuns. Portanto, na ausência de Kṛṣṇa, Brahmā levou todos os meninos e bezerros para outro lugar. Assim, ele se colocou em uma situação complexa, pois, em um futuro muito próximo, veria o grande poder de Kṛṣṇa.

Purport

SIGNIFICADO—Quando Aghāsura estava sendo morto por Kṛṣṇa, que Se fazia acompanhar de Seus associados, Brahmā ficou atônito, mas, quando viu que Kṛṣṇa estava desfrutando imensamente de Seus passatempos de almoço, ele ficou ainda mais admirado e quis averiguar se Kṛṣṇa real­mente estava ali. Nesse momento, ele foi preso pela māyā de Kṛṣṇa. Afinal, Brahmā tinha um nascimento material. Como se men­ciona aqui, ambhojanma janiḥ: nasceu de ambhoja, uma flor de lótus. Não importa que ele tenha nascido de um lótus, e não de algum homem, animal ou pai material. Um lótus também é mate­rial, e qualquer um que nasce através da energia material deve sujei­tar-se às quatro deficiências materiais: bhrama (a tendência a cometer erros), pramāda (a tendência a iludir-se), vipralipsā (a tendência a enganar), e karaṇāpāṭava (sentidos imperfeitos). Assim, Brahmā também se enredou.
Brahmā, com sua māyā, queria testar se Kṛṣṇa realmente esta­va ali presente. Esses vaqueirinhos eram meras expansões do eu pessoal de Kṛṣṇa (ānanda-cinmaya-rasa-pratibhāvitābhiḥ). Mais tarde, Kṛṣṇa mostraria a Brahmā como Ele Se expande em tudo sob a forma de Seu prazer pessoal, ānanda-cinmaya-rasa. Hlādinī śaktir asmāt: Kṛṣṇa tem uma potência transcendental chamada hlādinī śakti. Ele não desfruta de nada que seja produzido pela energia material. Brahmā, portanto, veria o Senhor Kṛṣṇa expandir Sua energia.
Brahmā queria levar os associados de Kṛṣṇa, mas, em vez disso, levou alguns outros meninos e bezerros. Rāvaṇa queria levar Sītā, mas isso não foi possível, e, em vez de Sītā, ele levou uma Sītā māyā. Igualmente, Brahmā levou māyārbhakāḥ: meninos manifestados pela māyā de Kṛṣṇa. Brahmā pôde mostrar alguma extraordinária opulência aos māyārbhakāḥ, mas não pôde mostrar nenhuma potên­cia extraordinária aos associados de Kṛṣṇa. Isso ele veria em um futuro muito próximo. Māyārbhakasya īśituḥ. Essa desorientação, essa māyā, foi causada pelo controlador supremo, prabhavataḥ – a onipotente Pessoa Suprema, Kṛṣṇa –, e veremos o resultado. Qualquer pessoa nascida materialmente está sujeita a se desorientar. Este passatempo, portanto, chama-se brahma-vimohana-līlā, o passatempo em que Brahmā ficou confuso. Mohitaṁ nābhijānāti mām ebhyaḥ param avyayam. (Bhagavad-gītā 7.13) As pessoas que aceitam um nascimento material não podem entender Kṛṣṇa por completo. Nem mesmo os semideuses podem entendê-lO (muhyanti yat sūrayaḥ). Tene brahmā hṛdā ya ādi-kavaye (Śrīmad-Bhāgavatam 1.1.1). Todos, desde Brahmā e descendo até o pequeno inseto, têm que aprender com Kṛṣṇa.
ततो वत्सानद‍ृष्ट्वैत्य पुलिनेऽपि च वत्सपान् ।
उभावपि वने कृष्णो विचिकाय समन्तत: ॥ १६ ॥
tato vatsān adṛṣṭvaitya
puline ’pi ca vatsapān
ubhāv api vane kṛṣṇo
vicikāya samantataḥ

Synonyms

tataḥem seguida; vatsānos bezerros; adṛṣṭvānão vendo ali, dentro da floresta; etyaapós; puline apià margem do Yamunā; catambém; vatsapānnão pôde ver os vaqueirinhos; ubhau apiambos (os bezerros e os vaqueirinhos); vanedentro da floresta; kṛṣṇaḥSenhor Kṛṣṇa; vicikāyanão se cansou de procurar; sa­mantataḥaqui e ali.

Translation

Em seguida, ao perceber que não conseguia encontrar os bezerros, Kṛṣṇa retornou à margem do rio, mas não viu os vaqueirinhos ali também. Assim, Ele começou a procurar tanto os bezerros quanto os meninos, como se não fosse capaz de entender o que acontecera.

Purport

SIGNIFICADO—Kṛṣṇa pôde entender imediatamente que Brahmā levara tanto os bezerros quanto os meninos, mas, como uma criança inocente, Ele procurava em um lugar e outro para que Brahmā não pudesse entender a māyā de Kṛṣṇa. Tudo isso foi uma encenação dramática. Um ator sabe de tudo, mas, ainda assim, ele atua no palco de tal maneira que os outros não o entendam.
क्‍वाप्यद‍ृष्ट्वान्तर्विपिने वत्सान्पालांश्च विश्ववित् ।
सर्वं विधिकृतं कृष्ण: सहसावजगाम ह ॥ १७ ॥
kvāpy adṛṣṭvāntar-vipine
vatsān pālāṁś ca viśva-vit
sarvaṁ vidhi-kṛtaṁ kṛṣṇaḥ
sahasāvajagāma ha

Synonyms

kva apiem parte alguma; adṛṣṭvānão vendo ninguém; antaḥ-vipinedentro da floresta; vatsānos bezerros; pālān cae seus protetores, os vaqueirinhos; viśva-vitKṛṣṇa, que sabe de tudo o que acontece em toda a manifestação cósmica; sarvamtudo; vidhi-kṛtamfoi executado por Brahmā; kṛṣṇaḥSenhor Kṛṣṇa; sahasāimediatamente; avajagāma hapôde entender.

Translation

Ao ver-Se incapaz de encontrar os bezerros e seus protetores, os vaqueirinhos, em parte alguma da floresta, Kṛṣṇa subitamente pôde entender que aquilo era obra do senhor Brahmā.

Purport

SIGNIFICADO—Embora Kṛṣṇa seja viśva-vit, o conhecedor de tudo o que acontece em toda a manifestação cósmica, Ele, como uma criança inocente, comportou-Se como se ignorasse as ações de Brahmā, embora pu­desse perceber imediatamente que aquilo era obra de Brahmā. Este passatempo se chama brahma-vimohana, “a desorientação de Brahmā”. Brahmā já estava confuso com as atividades que Kṛṣṇa executara como uma criança inocente, e agora sua confusão aumentaria.
तत: कृष्णो मुदं कर्तुं तन्मातृणां च कस्य च ।
उभयायितमात्मानं चक्रे विश्वकृदीश्वर: ॥ १८ ॥
tataḥ kṛṣṇo mudaṁ kartuṁ
tan-mātṝṇāṁ ca kasya ca
ubhayāyitam ātmānaṁ
cakre viśva-kṛd īśvaraḥ

Synonyms

tataḥdepois disso; kṛṣṇaḥa Suprema Personalidade de Deus; mudamprazer; kartumpara criar; tat-mātṝṇām cadas mães dos vaqueirinhos e bezerros; kasya cae (o prazer) de Brahmā; ubhayāyitamexpansão, como bezerros e vaqueirinhos; ātmānamEle próprio; cakrefez; viśva-kṛt īśvaraḥnão Lhe foi difícil, pois Ele é o criador de toda a manifestação cósmica.

Translation

Depois disso, simplesmente para dar prazer a Brahmā e às mães dos bezerros e dos vaqueirinhos, Kṛṣṇa, o criador de toda a mani­festação cósmica, expandiu-Se sob a forma de bezerros e meninos.

Purport

SIGNIFICADO—Embora já estivesse preso em sua desorientação, Brahmā quis mostrar seu poder aos vaqueirinhos; porém, depois que ele levou os meninos e seus bezerros e regressou à sua morada, Kṛṣṇa criou algo ainda mais espantoso para Brahmā, e para as mães dos meninos, voltando a estabelecer os passatempos nos quais ele comia Seu almoço na floresta e repondo todos os bezerros e meninos, da mesma maneira como eles se mostravam antes. De acordo com os Vedas, ekaṁ bahu syām: a Personalidade de Deus pode tornar-Se muitíssimos milhões e milhões de bezerros e vaqueirinhos, e isso aconteceu quando Ele quis confundir Brahmā ainda mais.
यावद् वत्सपवत्सकाल्पकवपुर्यावत् कराङ्‌‌घ्र्यादिकं
यावद् यष्टिविषाणवेणुदलशिग् यावद् विभूषाम्बरम् ।
यावच्छीलगुणाभिधाकृतिवयो यावद् विहारादिकं
सर्वं विष्णुमयं गिरोऽङ्गवदज: सर्वस्वरूपो बभौ ॥ १९ ॥
yāvad vatsapa-vatsakālpaka-vapur yāvat karāṅghry-ādikaṁ
yāvad yaṣṭi-viṣāṇa-veṇu-dala-śig yāvad vibhūṣāmbaram
yāvac chīla-guṇābhidhākṛti-vayo yāvad vihārādikaṁ
sarvaṁ viṣṇumayaṁ giro ’ṅga-vad ajaḥ sarva-svarūpo babhau

Synonyms

yāvat vatsapaexatamente como os vaqueirinhos; vatsaka-alpaka-­vapuḥe exatamente como os delicados corpos dos bezerros; yāvat kara-aṅghri-ādikama mesmíssima medida das variedades específicas de suas mãos e pernas; yāvat yaṣṭi-viṣāṇa-veṇu-dala-śiknão apenas como seus corpos, mas exatamente como suas cornetas, flautas, bastões, lancheiras e assim por diante; yāvat vibhūṣā-ambaramexatamente como seus adornos e vestes em todas as suas mínimas singu­laridades; yāvat śīla-guṇa-abhidhā-ākṛti-vayaḥseu exato caráter, hábitos, aspectos, atributos e traços corpóreos explícitos; yāvat vihāra-ādikamexatamente de acordo com seus gostos ou preferências; sarvamtudo em pormenores; viṣṇu-mayamexpansões de Vāsudeva, Viṣṇu; giraḥ aṅga-vatvozes exatamente como as suas; ajaḥKṛṣṇa; sarva-svarūpaḥ babhaucriou tudo minuciosamente, como Ele mesmo, sem nenhuma alteração.

Translation

Através de Seu aspecto Vāsudeva, Kṛṣṇa simultaneamente expan­diu-Se no número exato de vaqueirinhos e bezerros ausentes, com seus mesmíssimos traços físicos, seus tipos específicos de mãos, pernas e outros membros, seus bastões, cornetas e flautas, suas lancheiras, seus tipos específicos de roupas e adornos postos de várias maneiras, seus nomes, idades e formas, e suas atividades e características espe­ciais. Expandindo-Se dessa maneira, o belo Kṛṣṇa provou a afirma­ção samagra-jagad viṣṇumayam: “O Senhor Viṣṇu é onipenetrante.”

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma na Brahma-saṁhitā (5.33):
advaitam acyutam anādim ananta-rūpam
ādyaṁ purāṇa-puruṣaṁ nava-yauvanaṁ ca
Kṛṣṇa, paraṁ brahma, a Suprema Personalidade de Deus, é ādyam, o começo de tudo; Ele é ādi-puruṣam, a pessoa original e sempre vi­çosa. Ele pode expandir-Se em mais formas do que se possa imagi­nar, apesar do que Ele não perde Sua original forma de Kṛṣṇa; logo, Ele Se chama Acyuta. Assim é a Suprema Personalidade de Deus. Sarvaṁ viṣṇumayaṁ jagat. Sarvaṁ khalv idaṁ brahma. Dessa maneira, Kṛṣṇa provou que é tudo, que pode transformar-Se em tudo, mas que, não obstante, é pessoalmente diferente de tudo (mat-sthāni sarva-bhūtāni na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ). Este é Kṛṣṇa, que é compreendido através da filosofia acintya-bhedābheda-tattva. Pūrṇasya pūrṇam ādāya pūrṇam evāvaśiṣyate: Kṛṣṇa é sempre completo, e, embora possa criar milhões de universos, todos eles plenos de todas as opulências, Ele permanece tão opulento como sempre, sem qualquer mu­dança (advaitam). Diferentes ācāryas vaiṣṇavas explicam isso através de filosofias tais como viśuddhādvaita, viśiṣṭādvaita e dvaitādvaita. Portanto, é com os ācāryas que todos devem aprender sobre Kṛṣṇa. Ācāryavān puruṣo veda: Aquele que segue o caminho dos ācāryas conhece os fatos como eles são. Semelhante pessoa pode co­nhecer Kṛṣṇa como Ele é, pelo menos até certo ponto, e logo que entende Kṛṣṇa (janma karma ca me divyam evaṁ yo vetti tattvataḥ), ela se liberta do cativeiro material (tyaktvā dehaṁ punar janma naiti mām eti so ’rjuna).
स्वयमात्मात्मगोवत्सान् प्रतिवार्यात्मवत्सपै: ।
क्रीडन्नात्मविहारैश्च सर्वात्मा प्राविशद् व्रजम् ॥ २० ॥
svayam ātmātma-govatsān
prativāryātma-vatsapaiḥ
krīḍann ātma-vihāraiś ca
sarvātmā prāviśad vrajam

Synonyms

svayam ātmāKṛṣṇa, que é pessoalmente a Alma Suprema, a Superalma; ātma-go-vatsānagora expandido em bezerros que também eram Ele próprio; prativārya ātma-vatsapaiḥnovamente Ele próprio era representado como os vaqueirinhos controlando e comandando os bezerros; krīḍanassim Ele próprio constituindo tudo nestes pas­satempos transcendentais; ātma-vihāraiḥ caEle mesmo desfrutando de Si mesmo de diferentes maneiras; sarva-ātmāa Superalma, Kṛṣṇa; prāviśatentrou; vrajamem Vrajabhūmi, a terra de Mahā­rāja Nanda e Yaśodā.

Translation

Expandindo-Se agora de modo a aparecer como todos os bezer­ros e vaqueirinhos, todos eles inalterados, e ao mesmo tempo apare­cer como seu líder, Kṛṣṇa entrou em Vrajabhūmi, a terra de Seu pai, Nanda Mahārāja, do mesmo modo como costumava fazer en­quanto desfrutava da companhia deles.

Purport

SIGNIFICADO—Kṛṣṇa costumava permanecer na floresta e nos campos de pasta­gem, cuidando das vacas e bezerros com Seus associados, os vaquei­rinhos. Agora que o grupo original fora levado por Brahmā, o próprio Kṛṣṇa assumiu as formas de cada membro do grupo, sem o conhe­cimento de ninguém, incluindo Baladeva, e continuou o programa habitual. Ele ordenava a Seus amigos que fizessem isso e aquilo, e Ele controlava os bezerros e ia até a floresta procurá-los quando eles se afastavam, atraídos por grama nova, mas esses bezerros e meninos eram Ele próprio. Essa era a potência in­concebível de Kṛṣṇa. Como Śrīla Svarūpa Dāmodara Gosvāmī explica: rādhā kṛṣṇa-praṇaya-vikṛtir hlādinī śaktir asmāt. Rādhā e Kṛṣṇa são os mesmos. Kṛṣṇa, expandindo Sua potência de prazer, torna-Se Rādhārāṇī. Kṛṣṇa expandiu a mesma potência de prazer (ānanda-cinmaya-rasa) quando Se transformou em todos os bezerros e meni­nos e desfrutou de bem-aventurança transcendental em Vrajabhūmi. Isso foi feito pela potência yogamāyā e era inconcebível a pessoas sob a potência de mahāmāyā.
तत्तद्वत्सान्पृथङ्‌नीत्वा तत्तद्गोष्ठे निवेश्य स: ।
तत्तदात्माभवद् राजंस्तत्तत्सद्म प्रविष्टवान् ॥ २१ ॥
tat-tad-vatsān pṛthaṅ nītvā
tat-tad-goṣṭhe niveśya saḥ
tat-tad-ātmābhavad rājaṁs
tat-tat-sadma praviṣṭavān

Synonyms

tat-tat-vatsānos bezerros, que pertenciam a diferentes vacas; pṛthakseparadamente; nītvātrazendo; tat-tat-goṣṭheem seus respectivos estábulos; niveśyaentrando; saḥKṛṣṇa; tat-tat-ātmācomo originalmente, diferentes almas individuais; abhavatEle Se expandiu daquela maneira; rājanó rei Parīkṣit; tat-tat-sadmaem suas respectivas casas; praviṣṭavānentrou (Kṛṣṇa assim entrou em toda parte).

Translation

Ó Mahārāja Parīkṣit, Kṛṣṇa, que Se dividira como diferentes bezerros e também como diferentes vaqueirinhos, entrou em diferentes estábulos como os bezerros e, então, em diferentes lares como os diferen­tes meninos.

Purport

SIGNIFICADO—Kṛṣṇa tinha muitos e muitos amigos, entre os quais Śrīdāmā, Sudāmā e Subala eram proeminentes. Assim, o próprio Kṛṣṇa tornou­-Se Śrīdāma, Sudāmā e Subala e entrou em suas respectivas casas com seus respectivos bezerros.
तन्मातरो वेणुरवत्वरोत्थिता
उत्थाप्य दोर्भि: परिरभ्य निर्भरम् ।
स्‍नेहस्‍नुतस्तन्यपय:सुधासवं
मत्वा परं ब्रह्म सुतानपाययन् ॥ २२ ॥
tan-mātaro veṇu-rava-tvarotthitā
utthāpya dorbhiḥ parirabhya nirbharam
sneha-snuta-stanya-payaḥ-sudhāsavaṁ
matvā paraṁ brahma sutān apāyayan

Synonyms

tat-mātaraḥas mães dos respectivos vaqueirinhos; veṇu-ravadevido aos sons que os vaqueirinhos produziam nas flautas e corne­tas; tvaraimediatamente; utthitāḥdespertaram de seus respec­tivos deveres domésticos; utthāpyaimediatamente ergueram seus respectivos filhos; dorbhiḥcom seus dois braços; parirabhyaabraçando; nirbharamsem sentirem peso algum; sneha-snutaque fluía devido ao amor intenso; stanya-payaḥo leite de seus seios; sudhā-āsavamcom o mesmíssimo gosto de uma bebida nectárea; matvāaceitando o leite como tal; paramo Supremo; brahmaKṛṣṇa; sutān apāyayancomeçaram a alimentar seus respectivos filhos.

Translation

As mães dos meninos, ao ouvirem os sons das flautas e cornetas que eram tocadas pelos seus filhos, imediatamente deixaram suas tarefas domésticas, colocaram seus meninos no colo, abraçaram-nos com ambos os braços e começaram a alimentá-los com o leite de seus seios, que fluía devido ao amor extremo, especificamente por Kṛṣṇa. Na verdade, Kṛṣṇa é tudo, mas, naquele momento, expressando amor e afeição extremos, elas sentiam prazer especial em alimentar Kṛṣṇa, o Parabrahman, e Kṛṣṇa bebia o leite de Suas respectivas mães como se fosse uma bebida nectárea.

Purport

SIGNIFICADO—Muito embora soubessem que Kṛṣṇa era o filho de mãe Yaśodā, as gopīs mais velhas desejavam: “Se Kṛṣṇa Se tornasse meu filho, eu também cuidaria dEle como mãe Yaśodā.” Essa era sua ambição íntima. Agora, para satisfazê-las, Kṛṣṇa pessoalmente as­sumiu o papel de seus filhos e concretizou o desejo delas. As gopīs mais velhas inten­sificaram seu amor especial por Kṛṣṇa, abraçando-O e alimentando-O, e, ao saborear o leite de seus seios, Kṛṣṇa parecia saborear uma bebida nectárea. Enquanto desorientava Brahmā dessa maneira, Ele des­frutava do prazer especial e transcendental que yogamāyā produzia entre Ele e todas as mães.
ततो नृपोन्मर्दनमज्जलेपना-
लङ्काररक्षातिलकाशनादिभि: ।
संलालित: स्वाचरितै: प्रहर्षयन्
सायं गतो यामयमेन माधव: ॥ २३ ॥
tato nṛponmardana-majja-lepanā-
laṅkāra-rakṣā-tilakāśanādibhiḥ
saṁlālitaḥ svācaritaiḥ praharṣayan
sāyaṁ gato yāma-yamena mādhavaḥ

Synonyms

tataḥem seguida; nṛpaó rei (Mahārāja Parīkṣit); unmardanamassageando-os com óleo; majjabanhando; lepanauntando o corpo com óleo e polpa de sândalo; alaṅkāradecorando com adornos; rakṣācantando mantras protetores; tilakadecorando o corpo com marcas de tilaka em doze lugares; aśana-ādibhiḥe alimentando-os suntuosamente; saṁlālitaḥrecebendo essa atenção que suas mães lhes davam; sva-ācaritaiḥcom seu comportamento característico; praharṣa-yanfazendo as mães se sentirem muito sa­tisfeitas; sāyamcomeço da noite; gataḥchegava; yāma-yamenaà medida que o tempo de cada atividade passava; mādhavaḥSenhor Kṛṣṇa.

Translation

Em seguida, ó Mahārāja Parīkṣit, como se requer de acordo com o ciclo programado de Seus passatempos, Kṛṣṇa retornava no começo da noite, entrava na casa de cada um dos vaqueirinhos, e ocupava-Se exatamente como os antigos meninos, vivificando então suas mães com um prazer transcendental. As mães cuidavam dos meninos massa­geando-os com óleo, banhando-os, untando seus corpos com polpa de sândalo, decorando-os com adornos, cantando mantras proteto­res, decorando seus corpos com tilaka e alimentando-os. Dessa ma­neira, as mães serviam a Kṛṣṇa pessoalmente.
गावस्ततो गोष्ठमुपेत्य सत्वरं
हुङ्कारघोषै: परिहूतसङ्गतान् ।
स्वकान् स्वकान् वत्सतरानपाययन्
मुहुर्लिहन्त्य: स्रवदौधसं पय: ॥ २४ ॥
gāvas tato goṣṭham upetya satvaraṁ
huṅkāra-ghoṣaiḥ parihūta-saṅgatān
svakān svakān vatsatarān apāyayan
muhur lihantyaḥ sravad audhasaṁ payaḥ

Synonyms

gāvaḥos bezerros; tataḥem seguida; goṣṭhamaos estábulos; upetyachegando; satvarambem depressa; huṅkāra-ghoṣaiḥemitindo mugidos jubilosos; parihūta-saṅgatānpara chamar as vacas; svakān svakānseguindo suas respectivas mães; vatsatarānos respectivos bezerros; apāyayanalimentando-os; muhuḥrepetidas vezes; lihantyaḥlambendo os bezerros; sravat audhasam payaḥleite abundante, que fluía de seus úberes.

Translation

Em seguida, todas as vacas entravam em seus diferentes estábu­los e começavam a mugir bem alto, chamando seus respectivos be­zerros. Quando os bezerros chegavam, as mães começavam a lamber repetidas vezes os corpos dos bezerros e alimentá-los profusamente com o leite que fluía de seus úberes.

Purport

SIGNIFICADO—Todas essas atividades em que os bezerros recebiam a atenção de suas respectivas mães foram executadas pelo próprio Kṛṣṇa.
गोगोपीनां मातृतास्मिन्नासीत्स्‍नेहर्धिकां विना ।
पुरोवदास्वपि हरेस्तोकता मायया विना ॥ २५ ॥
go-gopīnāṁ mātṛtāsminn
āsīt snehardhikāṁ vinā
purovad āsv api hares
tokatā māyayā vinā

Synonyms

go-gopīnāmtanto para as vacas quanto para as gopīs, as vaquei­ras mais velhas; mātṛtāafeição materna; asminpor Kṛṣṇa; āsītordinariamente havia; snehade afeição; ṛdhikāmqualquer aumento; vināsem; puraḥ-vatcomo antes; āsuhavia entre as vacas e as gopīs; apiembora; hareḥde Kṛṣṇa; tokatāKṛṣṇa é meu filho; māyayā vināsem māyā.

Translation

Anteriormente, desde o começo, as gopīs tinham afeição materna por Kṛṣṇa. Na verdade, a afeição que elas sentiam por Kṛṣṇa excedia até mesmo sua afeição pelos seus próprios filhos. Ao manifestarem sua afeição, portanto, elas faziam distinção entre Kṛṣṇa e seus filhos, mas agora essa distinção desaparecera.

Purport

SIGNIFICADO—A diferença que alguém faz entre seu próprio filho e o filho de outrem não é antinatural. Muitas mulheres idosas têm afeição ma­terna pelos filhos alheios. Entretanto, elas fazem distinção entre esses outros filhos e seus próprios filhos. Agora, entretanto, as gopīs mais velhas não podiam distinguir entre seus próprios filhos e Kṛṣṇa, pois, uma vez que seus próprios filhos haviam sido levados por Brahmā, Kṛṣṇa Se expandira como seus filhos. Logo, a afeição extra que elas tinham por seus filhos, que agora eram o próprio Kṛṣṇa, devia-se a uma desorientação similar àquela de Brahmā. Anteriormente, as mães de Śrīdāmā, Sudāmā, Subala e outros amigos de Kṛṣṇa não tinham a mesma afeição pelos filhos de suas amigas, mas agora as gopīs tratavam todos os meninos como seus próprios filhos. Śukadeva Gosvāmī, portanto, queria explicar esse aumento de afeição como decorrente da desorientação que Kṛṣṇa causou a Brahmā, às gopīs, às vacas e a todos os demais.
व्रजौकसां स्वतोकेषु स्‍नेहवल्‍ल्याब्दमन्वहम् ।
शनैर्नि:सीम ववृधे यथा कृष्णे त्वपूर्ववत् ॥ २६ ॥
vrajaukasāṁ sva-tokeṣu
sneha-vally ābdam anvaham
śanair niḥsīma vavṛdhe
yathā kṛṣṇe tv apūrvavat

Synonyms

vraja-okasāmde todos os habitantes de Vraja, Vṛndāvana; sva­-tokeṣupor seus próprios filhos; sneha-vallīa trepadeira da afeição; ā-abdampor um ano; anu-ahamtodos os dias; śanaiḥaos poucos; niḥsīmasem limite; vavṛdheaumentava; yathā kṛṣṇeaceitando Kṛṣṇa exatamente como seu filho; tuna verdade; apūrva-vatcomo não havia sido antes.

Translation

Embora os habitantes de Vrajabhūmi, os vaqueiros e vaqueiras, anteriormente tivessem mais afeição por Kṛṣṇa do que pelos seus próprios filhos, agora, por um ano, a sua afeição pelos seus próprios filhos aumentava continuamente, pois Kṛṣṇa agora Se tornara seus filhos. Não havia limite para o aumento de sua afeição pelos seus filhos, que agora eram Kṛṣṇa. Todos os dias, encontravam nova inspiração para amar seus filhos tanto quanto amavam Kṛṣṇa.
इत्थमात्मात्मनात्मानं वत्सपालमिषेण स: ।
पालयन् वत्सपो वर्षं चिक्रीडे वनगोष्ठयो: ॥ २७ ॥
ittham ātmātmanātmānaṁ
vatsa-pāla-miṣeṇa saḥ
pālayan vatsapo varṣaṁ
cikrīḍe vana-goṣṭhayoḥ

Synonyms

itthamdessa maneira; ātmāa Alma Suprema, Kṛṣṇa; ātmanāpor Ele próprio; ātmānamEle próprio novamente; vatsa-pāla-miṣeṇacom as formas dos vaqueirinhos e bezerros; saḥKṛṣṇa em pessoa; pālayanmantendo; vatsa-paḥapascentando os bezerros; varṣamcontinuamente, por um ano; cikrīḍedesfrutou dos passatempos; vana-goṣṭhayoḥtanto em Vṛndāvana quanto na flo­resta.

Translation

Dessa maneira, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, tendo Ele próprio Se trans­formado nos vaqueirinhos e grupos de bezerros, mantinha-Se através de Si mesmo. Assim, Ele deu continuidade a Seus passatempos tanto em Vṛndāvana quanto na floresta por um ano.

Purport

SIGNIFICADO—Tudo era Kṛṣṇa. Os bezerros, os vaqueirinhos e o próprio mantenedor deles – todos eram Kṛṣṇa. Em outras palavras, Kṛṣṇa expandiu-Se nas muitas variedades de bezerros e vaqueirinhos, e Seus passatempos continuaram ininterruptos por um ano. Como afirma a Bhagavad-gītā, a expansão de Kṛṣṇa situa-Se no coração de todos como a Superalma. Igualmente, em vez de expandir-Se como a Superalma, Ele Se expandiu como um grupo de bezer­ros e vaqueirinhos por um ano contínuo.
एकदा चारयन् वत्सान्सरामो वनमाविशत् ।
पञ्चषासु त्रियामासु हायनापूरणीष्वज: ॥ २८ ॥
ekadā cārayan vatsān
sa-rāmo vanam āviśat
pañca-ṣāsu tri-yāmāsu
hāyanāpūraṇīṣv ajaḥ

Synonyms

ekadācerto dia; cārayan vatsānenquanto cuidava de todos os bezerros; sa-rāmaḥjuntamente com Balarāma; vanamna flo­resta; āviśatentrou; pañca-ṣāsucinco ou seis; tri-yāmāsunoites; hāyanaum ano inteiro; apūraṇīṣusem se completar (fal­tando cinco ou seis dias para completar um ano); ajaḥSenhor Śrī Kṛṣṇa.

Translation

Certo dia, faltando cinco ou seis noites para completar um ano, Kṛṣṇa, apascentando os bezerros, entrou na floresta juntamente com Balarāma.

Purport

SIGNIFICADO—Até este momento, mesmo Balarāma estava preso na desorientação que assolava Brahmā. Nem mesmo Balarāma sabia que todos os bezerros e vaqueirinhos eram expansões de Kṛṣṇa ou que Ele próprio também era uma expansão de Kṛṣṇa. Isso foi revelado a Balarāma apenas quando faltavam cinco ou seis dias para comple­tar um ano.
ततो विदूराच्चरतो गावो वत्सानुपव्रजम् ।
गोवर्धनाद्रिशिरसि चरन्त्यो दद‍ृशुस्तृणम् ॥ २९ ॥
tato vidūrāc carato
gāvo vatsān upavrajam
govardhanādri-śirasi
carantyo dadṛśus tṛṇam

Synonyms

tataḥem seguida; vidūrātde um lugar não distante; carataḥenquanto pastavam; gāvaḥtodas as vacas; vatsāne seus respecti­vos bezerros; upavrajamtambém pastando perto de Vṛndāvana; govardhana-adri-śirasino topo da colina Govardhana; carantyaḥenquanto pastavam, tentaram encontrar; dadṛśuḥviram; tṛṇamgrama tenra por perto.

Translation

Em seguida, enquanto pastavam sobre a colina Govardhana, as vacas olharam para baixo, tentando encontrar alguma grama verde, e viram seus bezerros pastando perto de Vṛndāvana, não muito longe.
द‍ृष्ट्वाथ तत्स्‍नेहवशोऽस्मृतात्मा
स गोव्रजोऽत्यात्मपदुर्गमार्ग: ।
द्विपात्ककुद्ग्रीव उदास्यपुच्छो-
ऽगाद्धुङ्कृतैरास्रुपया जवेन ॥ ३० ॥
dṛṣṭvātha tat-sneha-vaśo ’smṛtātmā
sa go-vrajo ’tyātmapa-durga-mārgaḥ
dvi-pāt kakud-grīva udāsya-puccho
’gād dhuṅkṛtair āsru-payā javena

Synonyms

dṛṣṭvāquando as vacas viram seus bezerros ali em baixo; athaem seguida; tat-sneha-vaśaḥdevido ao intenso amor pelos bezerros; asmṛta-ātmācomo se tivessem se esquecido de si; saḥaquele; go-vrajaḥrebanho de vacas; ati-ātma-pa-durga-mārgaḥescapando de seus guardadores devido ao intenso amor pelos bezerros, embora o caminho fosse muito difícil e tortuoso; dvi-pātpares de pernas unidas; kakut-grīvaḥsuas gibas movendo-se com seus pescoços; udāsya-pucchaḥerguendo suas cabeças e caudas; agātvinha; huṅkṛtaiḥmugindo bem alto; āsru-payāḥcom leite fluindo de seus úberes; javenamuito impetuosamente.

Translation

Ao verem do topo da colina Govardhana seus próprios bezer­ros, as vacas se esqueceram de si mesmas e de seus guardadores devido à intensa afeição, e embora o caminho fosse muito áspero, pre­cipitaram-se rumo a seus bezerros com muita ansiedade, cada uma correndo como se usasse apenas um único par de pernas. Com seus úberes repletos de leite transbordante, suas cabeças e caudas ergui­das, e suas gibas movendo-se com seus pescoços, elas correram impetuosamente até alcançarem seus bezerros para alimentá-los.

Purport

SIGNIFICADO—De um modo geral, os bezerros e as vacas pastam separadamente. Os homens mais velhos cuidam das vacas, e as criancinhas vigiam os bezerros. Desta vez, entretanto, as vacas imediatamente esqueceram suas posições logo que, da colina Govardhana, viram os bezerros lá embaixo, e correram com muito ímpeto, com suas caudas eretas e suas patas dianteiras e traseiras juntas, até que alcançaram os bezerros.
समेत्य गावोऽधो वत्सान् वत्सवत्योऽप्यपाययन् ।
गिलन्त्य इव चाङ्गानि लिहन्त्य: स्वौधसं पय: ॥ ३१ ॥
sametya gāvo ’dho vatsān
vatsavatyo ’py apāyayan
gilantya iva cāṅgāni
lihantyaḥ svaudhasaṁ payaḥ

Synonyms

sametyareunindo; gāvaḥtodas as vacas; adhaḥembaixo, no sopé da colina Govardhana; vatsāntodos os seus bezerros; vatsa-vatyaḥcomo se novos bezerros tivessem nascido delas; apimuito embora novos bezerros estivessem presentes; apāyayanalimentaram-nos; gilantyaḥengolindo-os; ivacomo se; catambém; aṅgāniseus corpos; lihantyaḥlambendo, como fazem quando bezerros recém-nascidos estão presentes; sva-odhasam payaḥseu próprio leite fluindo dos úberes.

Translation

As vacas haviam dado à luz novos bezerros, mas, enquanto desciam da colina Govardhana, as vacas, devido à forte afeição pelos bezerros mais velhos, deixaram os bezerros mais velhos beber o leite de seus úberes e, então, passaram a lamber os corpos dos be­zerros sofregamente, como se quisessem engoli-los.
गोपास्तद्रोधनायासमौघ्यलज्जोरुमन्युना ।
दुर्गाध्वकृच्छ्रतोऽभ्येत्य गोवत्सैर्दद‍ृशु: सुतान् ॥ ३२ ॥
gopās tad-rodhanāyāsa-
maughya-lajjoru-manyunā
durgādhva-kṛcchrato ’bhyetya
go-vatsair dadṛśuḥ sutān

Synonyms

gopāḥos vaqueiros; tat-rodhana-āyāsade sua tentativa de impedir que as vacas fossem ter com seus bezerros; maughyadevido à frustração; lajjāficaram envergonhados; uru-manyunāe, ao mesmo tempo, ficaram muito irados; durga-adhva-kṛcchrataḥembora passassem pelo caminho muito áspero com grande dificul­dade; abhyetyaapós chegarem ali; go-vatsaiḥjuntamente com os bezerros; dadṛśuḥviram; sutānseus respectivos filhos.

Translation

Os vaqueiros, tendo sido incapazes de impedir que as vacas se di­rigissem a seus bezerros, sentiram-se simultaneamente envergonhados e irados. Eles atravessaram a áspera estrada com muita dificuldade, mas, quando desceram e viram seus próprios filhos, ficaram do­minados por grande afeição.

Purport

SIGNIFICADO—Em todos, aumentava a afeição por Kṛṣṇa. Quando os vaqueiros que desciam da colina viram seus próprios filhos, que eram exata­mente Kṛṣṇa, a afeição deles aumentou.
तदीक्षणोत्प्रेमरसाप्लुताशया
जातानुरागा गतमन्यवोऽर्भकान् ।
उदुह्य दोर्भि: परिरभ्य मूर्धनि
घ्राणैरवापु: परमां मुदं ते ॥ ३३ ॥
tad-īkṣaṇotprema-rasāplutāśayā
jātānurāgā gata-manyavo ’rbhakān
uduhya dorbhiḥ parirabhya mūrdhani
ghrāṇair avāpuḥ paramāṁ mudaṁ te

Synonyms

tat-īkṣaṇa-utprema-rasa-āpluta-āśayāḥtodos os pensamentos dos vaqueiros imergiram na doçura do amor paterno, que foi des­pertado quando viram seus filhos; jāta-anurāgāḥexperimentando um grande anseio ou atração; gata-manyavaḥa ira deles desapare­ceu; arbhakānseus jovens filhos; uduhyaerguendo; dorbhiḥcom seus braços; parirabhyaabraçando; mūrdhania cabeça; ghrāṇaiḥcheirando; avāpuḥobtiveram; paramāmo mais eleva­do; mudamprazer; teaqueles vaqueiros.

Translation

Naquele momento, todos os pensamentos dos vaqueiros imergiram na doçura do amor paterno, que foi despertado pela visão de seus filhos. Experimentando uma grande atração, a ira deles desapareceu por completo, eles ergueram seus filhos, abraçaram-nos e desfruta­ram do prazer mais elevado, cheirando a cabeça de seus filhos.

Purport

SIGNIFICADO—Depois que Brahmā roubou os vaqueirinhos e bezerros originais, Kṛṣṇa expandiu-Se e, então, novamente surgiram os meninos e bezerros. Portanto, porque os meninos eram realmente expansões de Kṛṣṇa, os vaqueiros sentiam especial atração por eles. A princípio, os vaqueiros, que estavam no topo da colina, ficaram irados, mas, devido a Kṛṣṇa, os meninos eram muito atraentes, em razão do que os vaqueiros imediatamente desceram da colina e demonstraram afeição especial.
तत: प्रवयसो गोपास्तोकाश्लेषसुनिर्वृता: ।
कृच्छ्राच्छनैरपगतास्तदनुस्मृत्युदश्रव: ॥ ३४ ॥
tataḥ pravayaso gopās
tokāśleṣa-sunirvṛtāḥ
kṛcchrāc chanair apagatās
tad-anusmṛty-udaśravaḥ

Synonyms

tataḥdepois disso; pravayasaḥmais velhos; gopāḥvaqueiros; toka-āśleṣa-sunirvṛtāḥdeleitaram-se em abraçar seus filhos; kṛc­chrātcom dificuldade; śanaiḥaos poucos; apagatāḥpararam de abraçar e retornaram à floresta; tat-anusmṛti-uda-śravaḥà me­dida que eles se lembravam de seus filhos, lágrimas começavam a cair de seus olhos.

Translation

Depois disso, os vaqueiros mais velhos, muito emotivos após abraçarem seus filhos, aos poucos e com grande difi­culdade e relutância pararam de abraçá-los e retornaram à floresta. Contudo, à medida que os homens se lembravam de seus filhos, lágrimas começavam a cair de seus olhos.

Purport

SIGNIFICADO—No começo, os vaqueiros ficaram zangados em virtude de as vacas se sen­tirem atraídas pelos bezerros, mas, quando os homens desceram da colina, eles próprios foram atraídos pelos seus filhos e, por isso, os homens abraçaram-nos. Abraçar o filho e cheirar-lhe a cabeça são sintomas de afeição.
व्रजस्य राम: प्रेमर्धेर्वीक्ष्यौत्कण्ठ्यमनुक्षणम् ।
मुक्तस्तनेष्वपत्येष्वप्यहेतुविदचिन्तयत् ॥ ३५ ॥
vrajasya rāmaḥ premardher
vīkṣyautkaṇṭhyam anukṣaṇam
mukta-staneṣv apatyeṣv apy
ahetu-vid acintayat

Synonyms

vrajasyado rebanho de vacas; rāmaḥBalarāma; prema-ṛdheḥdevido ao aumento de afeição; vīkṣyaapós observar; aut-kaṇṭhyamapego; anu-kṣaṇamconstantemente; mukta-staneṣuque haviam crescido e não mais mamavam em suas mães; apatyeṣucom res­peito àqueles bezerros; apimesmo; ahetu-vitnão compreendendo a razão; acintayatcomeçando a considerar da seguinte maneira.

Translation

Devido ao aumento da afeição, as vacas tinham constante apego até mesmo por aqueles bezerros que eram crescidos e haviam parado de mamar em suas mães. Ao ver esse apego, Baladeva foi incapaz de compreender a razão disso e, assim, começou a considerar da se­guinte maneira.

Purport

SIGNIFICADO—As vacas tinham bezerros mais novos que haviam começado a beber o leite de suas mães, e algumas vacas haviam acabado de dar à luz, mas agora, devido ao amor, as vacas entusiasticamente mostravam sua afeição pelos bezerros mais velhos, que haviam deixado de mamar. Esses bezerros eram crescidos, mas, ainda assim, as mães queriam alimentá-los. Portanto, Balarāma ficou um pouco surpreso e quis perguntar a Kṛṣṇa qual era a razão daquele comportamento delas. Na ver­dade, as mães estavam mais ansiosas por alimentar os bezerros mais velhos, embora os bezerros novos estivessem presentes, porque os bezerros mais velhos eram expansões de Kṛṣṇa. Estes eventos surpreen­dentes aconteciam pela manipulação de yogamāyā. Existem duas māyās, ambas funcionando sob a direção de Kṛṣṇa – mahāmāyā, a energia do mundo material, e yogamāyā, a energia do mundo espiri­tual. Estes episódios incomuns ocorriam devido à influência de yoga­māyā. Desde o dia no qual Brahmā roubou os bezerros e os meninos, yoga­māyā atuou de tal maneira que os habitantes de Vṛndāvana, inclusive o próprio Senhor Balarāma, não puderam entender como yogamāyā agia e fazia esses fenômenos acontecerem. Porém, à medi­da que yogamāyā agia, Balarāma em particular foi capaz de entender pouco a pouco o que acontecia e, portanto, Ele começou a fazer perguntas a Kṛṣṇa.
किमेतदद्भ‍ुतमिव वासुदेवेऽखिलात्मनि ।
व्रजस्य सात्मनस्तोकेष्वपूर्वं प्रेम वर्धते ॥ ३६ ॥
kim etad adbhutam iva
vāsudeve ’khilātmani
vrajasya sātmanas tokeṣv
apūrvaṁ prema vardhate

Synonyms

kimo que; etateste; adbhutammaravilhoso; ivaassim como; vāsudeveem Vāsudeva, o Senhor Śrī Kṛṣṇa; akhila-ātmania Superalma de todas as entidades vivas; vrajasyade todos os habitantes de Vraja; sa-ātmanaḥjuntamente comigo; tokeṣunestes meninos; apūrvamsem precedentes; premaafeição; vardhateestá aumentando.

Translation

Que maravilhoso fenômeno é este? A afeição de todos os habitan­tes de Vraja, incluindo Eu, para com estes meninos e bezerros está aumentando como nunca antes, parecendo com nossa afeição pelo Senhor Kṛṣṇa, a Superalma de todas as entidades vivas.

Purport

SIGNIFICADO—Esse aumento de afeição não era māyā; ao contrário, porque Kṛṣṇa expandira-Se como tudo e porque a vida de todos em Vṛndāvana destinava-se a Kṛṣṇa, as vacas, devido à afeição por Kṛṣṇa, sentiam mais afeição pelos bezerros mais velhos do que pelos bezer­ros novos, e houve um aumento na afeição que os homens sentiam por seus filhos. Balarāma ficou atônito vendo todos os habitantes tão afetuosos com seus próprios filhos, pelos quais desenvolveram a mesma afeição que devotavam a Kṛṣṇa. Igualmente, as vacas sentiam-se mais afetuosas com seus bezerros – tanto quanto eram com Kṛṣṇa. Balarāma estava surpreso de ver as atividades de yogamāyā. Portanto, Ele perguntou a Kṛṣṇa: “O que está acontecendo aqui? O que é este mistério?”
केयं वा कुत आयाता दैवी वा नार्युतासुरी ।
प्रायो मायास्तु मे भर्तुर्नान्या मेऽपि विमोहिनी ॥ ३७ ॥
keyaṁ vā kuta āyātā
daivī vā nāry utāsurī
prāyo māyāstu me bhartur
nānyā me ’pi vimohinī

Synonyms

quem; iyamisto; ou; kutaḥde onde; āyātāveio; dai­vītalvez semideus; ou; nārīmulher; utaou; āsurīdemônia; prāyaḥna maioria dos casos; māyāenergia ilusória; astudeve ser; meMeu; bhartuḥdo mestre, o Senhor Kṛṣṇa; nanão; anyānenhum outro; meMeu; apidecerto; vimohinīmistificador.

Translation

Que poder místico é este, e de onde ele veio? Trata-se de um semideus ou de uma demônia? Deve ser a energia ilusória de Meu mestre, o Senhor Kṛṣṇa, pois quem mais poderia confundir-Me?

Purport

SIGNIFICADO—Balarāma ficou surpreso. Essa extraordinária demonstração de afeto, pensou Ele, era algo místico, realizado pelos semideuses ou por algum homem maravilhoso. Caso contrário, como essa surpreen­dente mudança poderia acontecer? “Essa māyā talvez seja alguma rākṣasī-māyā”, pensou Ele, “mas como uma rākṣasī-māyā pode exercer alguma influência sobre Mim? Isso não é possível. Logo, deve ser a māyā de Kṛṣṇa.” Assim, Ele concluiu que a mudança mística deve ter sido causada por Kṛṣṇa, a quem Balarāma considerava Sua ado­rável Personalidade de Deus. Ele pensou: “Isto foi arranjado por Kṛṣṇa, e nem mesmo Eu pude impedir este poder místico.” Desta maneira, Balarāma compreendeu que todos esses meninos e bezerros eram apenas ex­pansões de Kṛṣṇa.
इति सञ्चिन्त्य दाशार्हो वत्सान्सवयसानपि ।
सर्वानाचष्ट वैकुण्ठं चक्षुषा वयुनेन स: ॥ ३८ ॥
iti sañcintya dāśārho
vatsān sa-vayasān api
sarvān ācaṣṭa vaikuṇṭhaṁ
cakṣuṣā vayunena saḥ

Synonyms

iti sañcintyapensando dessa maneira; dāśārhaḥBaladeva; vat­sānos bezerros; sa-vayasānjuntamente com Seus companheiros; apitambém; sarvāntodos; ācaṣṭaviu; vaikuṇṭhamcomo Śrī Kṛṣṇa apenas; cakṣuṣā vayunenacom o olho do conhecimento transcendental; saḥEle (Baladeva).

Translation

Munido desse pensamento, o Senhor Balarāma foi capaz de ver, com o olho do conhecimento transcendental, que todos esses bezer­ros e amigos de Kṛṣṇa eram expansões da forma de Śrī Kṛṣṇa.

Purport

SIGNIFICADO—Cada indivíduo é diferente. Existem distinções mesmo entre irmãos gêmeos. No entanto, quando Kṛṣṇa expandiu-Se como meninos e bezerros, cada menino e cada bezerro apareceram em seu próprio aspecto original, com a mesma maneira individual de agir, as mesmas tendências, a mesma cor, a mesma roupa e assim por diante, pois Kṛṣṇa manifestou todas essas peculiaridades. Essa era a opulência de Kṛṣṇa.
नैते सुरेशा ऋषयो न चैते
त्वमेव भासीश भिदाश्रयेऽपि ।
सर्वं पृथक्त्वं निगमात् कथं वदे-
त्युक्तेन वृत्तं प्रभुणा बलोऽवैत् ॥ ३९ ॥
naite sureśā ṛṣayo na caite
tvam eva bhāsīśa bhid-āśraye ’pi
sarvaṁ pṛthak tvaṁ nigamāt kathaṁ vadety
uktena vṛttaṁ prabhuṇā balo ’vait

Synonyms

nanão; eteestes meninos; sura-īśāḥos melhores dos semideuses; ṛṣavaḥgrandes sábios; nanão; cae; eteestes bezerros; tvamTu (Kṛṣṇa); evasozinho; bhāsiestás manifestando; īśaó controlador supremo; bhit-āśrayena existência de diferentes varie­dades; apimesmo; sarvamtudo; pṛthakexistindo; tvamTu (Kṛṣṇa); nigamātum pouco; kathamcomo; vadapor favor, explica; itiassim; uktenatendo sido solicitado (por Baladeva); vṛttama situação; prabhuṇā(tendo sido explicada) pelo Senhor Kṛṣṇa; balaḥBaladeva; avaitentendeu.

Translation

O Senhor Baladeva disse: “Ó controlador supremo! Diferentemente do que Eu pensava antes, estes meninos não são grandes semideuses. Tampouco estes bezerros são grandes sábios como Nārada. Agora posso ver que sozinho estás manifestando-Te em todas as diferentes variedades. Embora sejas um, existes nas diferentes formas de bezer­ros e meninos. Por favor, explica-Me isso brevemente.” Re­cebendo essa solicitação do Senhor Baladeva, Kṛṣṇa explicou toda a situação, e Baladeva compreendeu.

Purport

SIGNIFICADO—Indagando de Kṛṣṇa a verdadeira situação, o Senhor Balarāma disse: “No começo, Meu querido Kṛṣṇa, Eu pensava que todas estas vacas, bezerros e vaqueirinhos eram grandes sábios e pessoas santas ou semideuses, mas agora parece que eles realmente são Tuas expansões. Todos eles são Tua pessoa; Tu mesmo estás fazendo o papel de bezerros, vacas e meninos. Qual é o mistério desta situação? Para onde foram aqueles outros bezerros, vacas e meninos? E por que Te ex­pandes como vacas, bezerros e meninos? Podes, por favor, dizer-Me o motivo disto?” A pedido de Balarāma, Kṛṣṇa explicou brevemente toda a situação: como os bezerros e meninos foram roubados por Brahmā e como Ele ocultou o incidente expandindo-Se para que as pessoas não notassem o sumiço das vacas, bezerros e meninos ori­ginais. Balarāma entendeu, portanto, que não se tratava de māyā, mas da opulência de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa tem todas as opulências, e essa era apenas outra opulência de Kṛṣṇa.
“A princípio”, disse o Senhor Balarāma, “pensei que estes meninos e bezerros eram uma manifestação do poder de grandes sábios como Nārada, mas agora vejo que todos estes meninos e bezerros são Tua pessoa.” Após apresentar Sua pergunta a Kṛṣṇa, o Senhor Balarāma compreendeu que o próprio Kṛṣṇa Se transformara em muitos. Na Brahma-saṁhitā (5.33), afirma-se que o Senhor pode fazer isso. Advaitam acyutam anādim ananta-rūpam: Embora Ele seja um, Ele pode expandir-Se em muitas formas. De acordo com a versão védica, ekaṁ bahu syām: Ele pode expandir-Se em muitos milhares e milhões, mas, mesmo assim, permanece apenas um. Nesse sentido, tudo é espiritual porque tudo é uma expansão de Kṛṣṇa, isto é, tudo é expansão do próprio Kṛṣṇa ou de Sua potência. Porque a potência não é diferente do poten­te, a potência e o potente são unos (śakti-śaktimatayor abhedaḥ). Os māyāvādīs, entretanto, dizem que cid-acit-samanvayaḥ: espírito e matéria são unos. Essa é uma concepção errônea. O espírito (cit) é diferente da matéria (acit), como o próprio Kṛṣṇa explica na Bhagavad-gītā (7.4-5):
bhūmir āpo ’nalo vāyuḥ
khaṁ mano buddhir eva ca
ahaṅkāra itīyaṁ me
bhinnā prakṛtir aṣṭadhā
apareyam itas tv anyāṁ
prakṛtiṁ viddhi me parām
jīva-bhūtāṁ mahā-bāho
yayedaṁ dhāryate jagat
“Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e falso ego – juntos, todos estes oito elementos formam Minhas energias materiais separadas. Além dessas, ó Arjuna de braços poderosos, existe uma outra energia, a Minha energia superior, que consiste das entidades vivas que exploram os recursos desta natureza material inferior.” O espírito e a matéria não podem ser igualados, pois, na verdade, são energias superior e inferior – mas os māyā­vādīs, ou advaita-vādīs, tentam torná-los unos. Isso é um erro. Embora, em última análise, venham da mesma fonte única, o espírito e a ma­téria não podem ser considerados iguais. Por exemplo, existem muitas coisas que vêm dos nossos corpos, mas, embora tenham a mesma fonte, não podem ser classificadas como iguais. Devemos ser zelosos em notar que, embora a fonte suprema seja única, as emanações dessa fonte devem ser tidas separadamente como inferiores e superiores. A diferença entre a filosofia māyāvāda e a filosofia vaiṣṇava é que a filosofia vaiṣṇava reconhece esse fato. A filosofia de Śrī Caitanya Mahāprabhu, portanto, chama-se acintya-bhedābheda – igualdade e diferença simultâneas. Por exemplo, o fogo e o calor não podem ser separados, pois onde há fogo há calor, e onde há calor há fogo. No entanto, embora não possamos tocar o fogo, podemos tolerar o calor. Portanto, embora unos, eles são diferentes.
तावदेत्यात्मभूरात्ममानेन त्रुट्यनेहसा ।
पुरोवदाब्दं क्रीडन्तं दद‍ृशे सकलं हरिम् ॥ ४० ॥
tāvad etyātmabhūr ātma-
mānena truṭy-anehasā
purovad ābdaṁ krīḍantaṁ
dadṛśe sa-kalaṁ harim

Synonyms

tāvatpor tanto tempo; etyaapós retornar; ātma-bhūḥsenhor Brahmā; ātma-mānenapela sua (de Brahmā) própria medida; truṭi-anehasāpor um instante de tempo; puraḥ-vatassim como antes; ā-abdampor um ano (pelo método humano de calcular o tempo); krīḍantambrincando; dadṛśeele viu; sa-kalamjuntamente com Suas expansões; harimSenhor Hari (Śrī Kṛṣṇa).

Translation

Ao regressar após ter transcorrido um instante de tempo (de acordo com sua própria medida), o senhor Brahmā viu que, embora pelos cálculos humanos já houvesse passado um ano completo, o Senhor Kṛṣṇa, depois de todo aquele tempo, estava ocupado em brincar com os meninos e bezerros, que eram Suas expansões, exatamente como antes.

Purport

SIGNIFICADO—O senhor Brahmā ausentara-se por apenas um instante do seu tempo, mas, quando regressou, havia passado um ano do tempo hu­mano. Em diferentes planetas, o cálculo do tempo é outro. Para dar um exemplo, um satélite feito pelo homem pode girar em torno da Terra em uma hora e vinte e cinco minutos e assim completar um dia inteiro, embora um dia comumente dure vinte e quatro horas para aqueles que vivem na Terra. Portanto, aquilo que era apenas um momento para Brahmā era um ano na Terra. Por um ano, Kṛṣṇa continuou expandindo-Se em muitas formas, mas, por arranjo de yogamāyā, ninguém pôde entender isso, com exceção de Balarāma.
Transcorrido um momento de acordo com o cálculo de Brahmā, Brahmā voltou para ver as consequências causadas por sua diversão de roubar os meni­nos e bezerros. Ao mesmo tempo, ele também tinha medo de estar brincando com fogo. Kṛṣṇa era seu amo, e ele fizera uma brincadeira por mera diversão, levando os bezerros e meninos de Kṛṣṇa. Ele realmente estava ansioso, daí não ter-se afastado por muito tempo – ele voltou após um mo­mento (de acordo com seu cálculo). Ao retornar, Brahmā viu que todos os meninos, bezerros e vacas estavam brincando com Kṛṣṇa da mesma maneira que brincavam quando topara com eles; pelo fato de Kṛṣṇa manifestar yogamāyā, os mesmos passatempos continuavam sem mudança alguma.
No dia em que o senhor Brahmā veio pela primeira vez, Baladeva não pôde ir com Kṛṣṇa e os vaqueirinhos, pois era Seu aniversário, e Sua mãe O manteve em casa para o banho cerimonial adequado, chamado śāntika-snāna. Portanto, o Senhor Baladeva não foi leva­do por Brahmā naquela oportunidade. Agora, um ano mais tarde, Brahmā retornou, e porque retornou exatamente no mesmo dia, Baladeva novamente estava em casa para Seu aniversário. Portan­to, embora este verso mencione que Brahmā viu Kṛṣṇa e todos os outros vaqueirinhos, Baladeva não é mencionado. Já fazia cinco ou seis dias que Baladeva perguntara a Kṛṣṇa sobre a extraordinária afeição das vacas e vaqueiros, mas agora, quando Brahmā regres­sou, Brahmā viu que todos os bezerros e vaqueirinhos brincavam com Kṛṣṇa como expansões de Kṛṣṇa, mas não viu Baladeva. Como no ano anterior, o Senhor Baladeva não foi para a floresta no dia em que o senhor Brahmā apareceu ali.
यावन्तो गोकुले बाला: सवत्सा: सर्व एव हि ।
मायाशये शयाना मे नाद्यापि पुनरुत्थिता: ॥ ४१ ॥
yāvanto gokule bālāḥ
sa-vatsāḥ sarva eva hi
māyāśaye śayānā me
nādyāpi punar utthitāḥ

Synonyms

yāvantaḥtodos, tantos quantos; gokuleem Gokula; bālāḥmeninos; sa-vatsāḥjuntamente com seus bezerros; sarvetodos; evana verdade; hiporque; māyā-āśayena rede de māyā; śayānāḥestão dormindo; meminha; nanão; adyahoje; apimesmo; punaḥnovamente; utthitāḥacordaram.

Translation

O senhor Brahmā pensou: Todos os meninos e bezerros que havia em Gokula, eu os mantive dormindo na rede da minha potência mística, e até hoje eles não voltaram a acordar.

Purport

SIGNIFICADO—Por um ano, o senhor Brahmā, através de seu poder místico, manteve os bezerros e meninos deitados em uma caverna. Portan­to, ao ver que o Senhor Kṛṣṇa continuava brincando com todas as vacas e bezerros, o senhor Brahmā começou a tentar entender o que acontecia. “O que é isto?”, pensou ele. “Talvez eu tenha levado aqueles bezerros e vaqueirinhos, mas agora eles foram retirados da­quela caverna. Será que foi isso o que aconteceu? Será que Kṛṣṇa os trouxe de volta para cá?” Depois, entretanto, o senhor Brahmā viu que os bezerros e meninos que ele havia levado ainda estavam na mesma māyā mística na qual haviam sido postos. Assim, ele concluiu que os bezerros e vaqueirinhos que agora brincavam com Kṛṣṇa eram diferentes daqueles que estavam na caverna. Ele pôde entender que, embora os bezerros e meninos originais ainda estives­sem na caverna onde ele os havia deixado, Kṛṣṇa expandira-Se, de modo que a presente demonstração de bezerros e meninos consistia em ex­pansões de Kṛṣṇa. Eles tinham os mesmos traços físicos, a mesma mentalidade e as mesmas intenções, mas todos eles eram Kṛṣṇa.
इत एतेऽत्र कुत्रत्या मन्मायामोहितेतरे ।
तावन्त एव तत्राब्दं क्रीडन्तो विष्णुना समम् ॥ ४२ ॥
ita ete ’tra kutratyā
man-māyā-mohitetare
tāvanta eva tatrābdaṁ
krīḍanto viṣṇunā samam

Synonyms

itaḥpor essa razão; eteestes meninos com seus bezerros; atraaqui; kutratyāḥde onde vieram; mat-māyā-mohita-itarediferen­tes daqueles que foram encantados por minha potência ilusória; tāvantaḥo mesmo número de meninos; evana verdade; tatra; ā-abdampor um ano; krīḍantaḥestá brincando; viṣṇunā samamjuntamente com Kṛṣṇa.

Translation

Um número semelhante de meninos e bezerros brincou com Kṛṣṇa por um ano inteiro, mas eles são diferentes daqueles ilu­didos por minha potência mística. Quem são eles? De onde vieram?

Purport

SIGNIFICADO—Embora aparecessem como bezerros, vacas e vaqueirinhos, todos eles eram Viṣṇu. Na verdade, eram viṣṇu-tattva, e não jīva-tattva. Brahmā ficou surpreso. “Os vaqueirinhos e vacas originais”, pensou ele, “ainda estão onde os deixei no último ano. Então, quem são estes que fazem companhia a Kṛṣṇa exatamente como antes? De onde vieram?” Brahmā ficou surpreso de que seu poder místico tivesse sido frustrado. Sem tocar nas vacas e vaqueirinhos originais mantidos por Brahmā, Kṛṣṇa criou outro conjunto de bezerros e meninos, que eram todos expansões de viṣṇu-tattva. Assim, o poder místico de Brahmā foi suplantado.
एवमेतेषु भेदेषु चिरं ध्यात्वा स आत्मभू: ।
सत्या: के कतरे नेति ज्ञातुं नेष्टे कथञ्चन ॥ ४३ ॥
evam eteṣu bhedeṣu
ciraṁ dhyātvā sa ātma-bhūḥ
satyāḥ ke katare neti
jñātuṁ neṣṭe kathañcana

Synonyms

evamdessa maneira; eteṣu bhedeṣuentre estes meninos, que tinham existência separada; cirampor um longo tempo; dhyātvāapós refletir; saḥele; ātma-bhūḥsenhor Brahmā; satyāḥreal; kequem; katarequem; nanão é; itiassim; jñātumde enten­der; nanão; iṣṭefoi capaz; kathañcanade modo algum.

Translation

Assim, o senhor Brahmā, refletindo demoradamente, tentou dis­tinguir entre aqueles dois conjuntos de meninos, cada um dos quais tinha uma existência separada. Ele tentou entender quem era real e quem não era real, mas não o foi capaz de modo algum.

Purport

SIGNIFICADO—Brahmā ficou estupefato. “Os meninos e bezerros originais ainda estão dormindo como os deixei”, pensou ele, “mas outro grupo está aqui brincando com Kṛṣṇa. Como isso aconteceu?” Brahmā não podia compreender o que acontecia. Que meninos eram reais, e quais não eram reais? Brahmā era incapaz de chegar a alguma conclusão definitiva. Ele ponderou o assunto por um longo tempo. “Como pode haver dois conjuntos de bezerros e meninos ao mesmo tempo? Será que os meninos e bezerros daqui foram criados por Kṛṣṇa, ou será que Kṛṣṇa criou aqueles que estão deitados e dormindo? Ou será que ambos são meras criações de Kṛṣṇa?” Brahmā pensou no assun­to de muitas maneiras diferentes. “Depois que eu for à caverna e vir que os meninos e bezerros ainda estão lá, será que Kṛṣṇa os buscará e trará para cá a fim de que eu venha e os veja, e será que Kṛṣṇa, então, irá tirá-los daqui e colocá-los lá?” Brahmā não podia de­terminar como havia dois conjuntos de bezerros e vaqueirinhos tão parecidos. Embora pensasse e pensasse, ele nada conseguia entender.
एवं सम्मोहयन् विष्णुं विमोहं विश्वमोहनम् ।
स्वयैव माययाजोऽपि स्वयमेव विमोहित: ॥ ४४ ॥
evaṁ sammohayan viṣṇuṁ
vimohaṁ viśva-mohanam
svayaiva māyayājo ’pi
svayam eva vimohitaḥ

Synonyms

evamdessa maneira; sammohayanquerendo mistificar; viṣṇumo onipenetrante Senhor Kṛṣṇa; vimohamque nunca pode ser mistificado; viśva-mohanammas que mistifica todo o universo; svayāpelo seu (de Brahmā) próprio; evana verdade; māyayāpelo poder místico; ajaḥsenhor Brahmā; apimesmo; svayamele próprio; evadecerto; vimohitaḥfoi desorientado, ficou mistificado.

Translation

Assim, porque o senhor Brahmā quis mistificar o onipenetrante Senhor Kṛṣṇa, que nunca pode ser mistificado, mas que, ao contrá­rio, mistifica todo o universo, ele mesmo se desorientou pelo seu próprio poder místico.

Purport

SIGNIFICADO—Brahmā queria confundir Kṛṣṇa, aquele que confunde todo o universo. Todo o universo está sob o poder místico de Kṛṣṇa (mama māyā duratyayā), mas Brahmā quis mistificá-lO. O resultado foi que o próprio Brahmā foi mistificado, assim como alguém que quer matar outrem pode terminar sendo morto. Em outras palavras, Brahmā foi derrotado pela sua própria tentativa. Em posição semelhante estão os cientistas e filósofos que querem sobrepujar o poder místico de Kṛṣṇa. Eles desafiam Kṛṣṇa, dizendo: “Quem é Deus? Podemos fazer isso, e podemos fazer aquilo.” Porém, quanto mais lançam a Kṛṣṇa semelhante desafio, mais se sujeitam ao sofrimento. Aqui, a lição a ser aprendida é que não devemos tentar suplantar Kṛṣṇa. Ao contrário disso, em vez de nos esforçarmos por superá-lO, devemos nos render a Ele (sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja).
Em vez de derrotar Kṛṣṇa, o próprio Brahmā foi derrotado, pois não pôde entender o que Kṛṣṇa fazia. Uma vez que Brahmā, a principal pessoa dentro deste universo, ficou imerso nessa desorientação, o que dizer dos supostos cientistas e filósofos? Sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja. Devemos abandonar todos os nossos frágeis esforços com os quais tentamos desafiar o arranjo de Kṛṣṇa. Em vez disso, todos os arranjos que Ele propuser, devemos aceitar. Isso sempre é o melhor, pois isso nos fará felizes. Quanto mais tentarmos derrotar o arranjo de Kṛṣṇa, mais nos implica­remos na māyā de Kṛṣṇa (daivī hy eṣā guṇa-mayī mama māyā duratyayā). Mas aquele que chegou à posição de render-se às instruções de Kṛṣṇa (mām eva ye prapadyante) é liberado, liberto de kṛṣṇa-māyā (māyām etāṁ taranti te). O poder de Kṛṣṇa é exatamente como um governo que não pode ser subjugado. Em primeiro lugar, existem as leis, e então existe o poder policial, e, acima deste, o poder militar. Portan­to, que adianta tentar dominar o poder do governo? Igualmente, que adianta tentar desafiar Kṛṣṇa?
No próximo verso, fica claro que Kṛṣṇa não pode ser derrotado por nenhuma classe de poder místico. Se a pessoa obtém mesmo um pequeno poder de conhecimento científico, ela tenta desafiar Deus, mas, na verdade, ninguém é capaz de confundir Kṛṣṇa. Quando Brahmā, a principal pessoa dentro do universo, tentou confundir Kṛṣṇa, ele próprio foi confundido e surpreendido. Essa é a posição da alma condicionada. Brahmā quis mistificar Kṛṣṇa, mas ele próprio foi mistificado.
Neste verso, a palavra viṣṇum é significativa. Viṣṇu penetra todo o mundo material, ao passo que Brahmā ocupa meramente um posto subordinado.
yasyaika-niśvasita-kālam athāvalambya
jīvanti loma-vila-jā jagadaṇḍa-nāthāḥ
(Brahma-saṁhitā 5.48)
A palavra nāthāḥ, que se refere ao senhor Brahmā, é plural porque existem inúmeros universos e inúmeros Brahmās. Brahmā não passa de uma força muito pequena. Isso foi demonstrado em Dvārakā quando Kṛṣṇa mandou chamar por Brahmā. Certo dia, quando Brahmā foi visitar Kṛṣṇa em Dvārakā, o porteiro, a pedido do Senhor Kṛṣṇa, pergun­tou: “Que Brahmā tu és?” Mais tarde, quando Brahmā perguntou a Kṛṣṇa se isso significava que havia mais de um Brahmā, Kṛṣṇa sorriu e imediatamente chamou muitos Brahmās que residiam em muitos universos. O Brahmā de quatro cabeças, encarregado deste universo, viu então inúmeros outros Brahmās que vinham ver Kṛṣṇa e ofere­ciam seus respeitos. Alguns deles tinham dez cabeças; outros, vinte; outros, cem, e alguns tinham um milhão de cabeças. Ao ver essa maravilhosa apresentação, o Brahmā de quatro cabeças ficou nervoso e começou a julgar que ele não era mais do que um mosquito em meio a muitos elefantes. Logo, o que Brahmā pode fazer para confun­dir Kṛṣṇa?
तम्यां तमोवन्नैहारं खद्योतार्चिरिवाहनि ।
महतीतरमायैश्यं निहन्त्यात्मनि युञ्जत: ॥ ४५ ॥
tamyāṁ tamovan naihāraṁ
khadyotārcir ivāhani
mahatītara-māyaiśyaṁ
nihanty ātmani yuñjataḥ

Synonyms

tamyāmem uma noite escura; tamaḥ-vatassim como a escuridão; naihāramproduzida pela neve; khadyota-arciḥa luz de um vaga-lume; ivaassim como; ahanidurante o dia, à luz do Sol; mahatiem uma grande personalidade; itara-māyāpotência mística inferior; aiśyama habilidade; nihantidestrói; ātmaniem seu próprio eu; yuñjataḥda pessoa que tenta usar.

Translation

Assim como não tem importância a escuridão que a neve produz na noite escura ou a luz que um vaga-lume acende à luz do dia, o poder místico de uma pessoa inferior que tenta usá-lo contra uma pessoa de maior poder é incapaz de surtir algum efeito; ao contrário, o poder dessa pessoa inferior é ofuscado.

Purport

SIGNIFICADO—Quando alguém quer exceder um poder superior, seu poder inferior é ridicularizado. Assim como um vaga-lume de dia e a neve à noite não têm valor, o poder místico de Brahmā tornou­-se inútil na presença de Kṛṣṇa, pois o poder místico superior elimina o poder místico inferior. Em uma noite escura, a escuridão produzi­da pela neve não tem significado algum. O vaga-lume parece muito importante à noite, mas seu brilho não tem valor algum de dia; todo valor que ele acaso tenha desaparece. Igualmente, Brahmā se tornou­ insignificante na presença do poder místico de Kṛṣṇa. A māyā de Kṛṣṇa não perdeu nada de seu valor, mas a māyā de Brahmā foi destroçada. Portanto, ninguém deve tentar exibir sua opulência insignificante diante de um poder maior.
तावत् सर्वे वत्सपाला: पश्यतोऽजस्य तत्क्षणात् ।
व्यद‍ृश्यन्त घनश्यामा: पीतकौशेयवासस: ॥ ४६ ॥
tāvat sarve vatsa-pālāḥ
paśyato ’jasya tat-kṣaṇāt
vyadṛśyanta ghana-śyāmāḥ
pīta-kauśeya-vāsasaḥ

Synonyms

tāvatenquanto; sarvetodos; vatsa-pālāḥos bezerros e os meninos que os apascentavam; paśyataḥenquanto ele observava; ajasyado senhor Brahmā; tat-kṣaṇātimediatamente; vyadṛśyantaforam vistos; ghana-śyāmāḥcomo tendo a tonalidade de nuvens azuis e carregadas; pīta-kauśeya-vāsasaḥe vestidos em roupas de seda amarela.

Translation

Então, enquanto o senhor Brahmā observava, todos os bezerros e meninos que os apascentavam imediatamente pareceram assumir a tonalidade de nuvens azuis e carregadas e estar vestidos com roupas de seda amarela.

Purport

SIGNIFICADO—Enquanto Brahmā olhava, todos os bezerros e vaqueirinhos imediatamente se transformaram em viṣṇu-mūrtis, com tonalidades azu­ladas e usando roupas amarelas. Brahmā contemplava seu próprio poder e o imenso e ilimitado poder de Kṛṣṇa, mas, antes que pu­desse chegar a uma conclusão, ele viu essa transformação imediata.
चतुर्भुजा: शङ्खचक्रगदाराजीवपाणय: ।
किरीटिन: कुण्डलिनो हारिणो वनमालिन: ॥ ४७ ॥
श्रीवत्साङ्गददोरत्नकम्बुकङ्कणपाणय: ।
नूपुरै: कटकैर्भाता: कटिसूत्राङ्गुलीयकै: ॥ ४८ ॥
catur-bhujāḥ śaṅkha-cakra-
gadā-rājīva-pāṇayaḥ
kirīṭinaḥ kuṇḍalino
hāriṇo vana-mālinaḥ
śrīvatsāṅgada-do-ratna-
kambu-kaṅkaṇa-pāṇayaḥ
nūpuraiḥ kaṭakair bhātāḥ
kaṭi-sūtrāṅgulīyakaiḥ

Synonyms

catuḥ-bhujaḥtendo quatro braços; śaṅkha-cakra-gadā-rājīva-pāṇayaḥportando búzio, disco, maça e flor de lótus em Suas mãos; kirīṭinaḥusando elmo em Suas cabeças; kuṇḍalinaḥusando brincos; hāriṇaḥusando colares de pérolas; vana-mālinaḥusando guirlandas de flores silvestres; śrīvatsa-aṅgada-do-ratna-kambu-kaṅkaṇa-pāṇayaḥportando o emblema da deusa da fortuna em Seu peito, braceletes em Seus braços, a joia Kaustubha em Seu pesco­ço, que era marcado com três linhas como um búzio, e pulseiras em Suas mãos; nūpuraiḥcom adornos nos pés; kaṭakaiḥcom si­ninhos de tornozelos; bhātāḥpareciam belos; kaṭi-sūtra-aṅgulī-ya­kaiḥcom cintos sagrados em torno da cintura e anéis nos dedos.

Translation

Todas aquelas personalidades tinham quatro braços, portando em Suas mãos búzio, disco, maça e flor de lótus. Eles usavam elmos na cabeça, brincos em Suas orelhas e guirlandas de flores silvestres em torno do pescoço. Na porção superior do lado di­reito de Seu peito, estava o emblema da deusa da fortuna. Ademais, usavam braceletes em Seus braços, a joia Kaustubha em volta de Seus pescoços, que eram marcados com três linhas como um búzio, e pulseiras em Seus pulsos. Com sininhos de tornozelo, adornos em Seus pés, e cintos sagrados em volta de Suas cinturas, todos pa­reciam muito belos.

Purport

SIGNIFICADO—Todas as formas Viṣṇu tinham quatro braços, com búzio e outros artigos, mas também possuem essas características aqueles que alcançaram sārūpya-mukti em Vaikuṇṭha e, por conseguinte, têm formas exatamente iguais à forma do Senhor. Entretanto, essas formas Viṣṇu que apareceram diante do senhor Brahmā também possuíam a marca Śrīvatsa e a joia Kaustubha, características especiais que apenas o próprio Senhor Supremo possui. Isso prova que todos esses meninos e bezerros de fato eram expansões diretas de Viṣṇu, a Personalidade de Deus, e não meramente Seus associados de Vaikuṇṭha. Viṣṇu está incluído em Kṛṣṇa. Todas as opulências de Viṣṇu já estão presentes em Kṛṣṇa, e, consequentemente, o fato de Kṛṣṇa demonstrar tantas formas Viṣṇu não era algo realmente muito espantoso.
A marca Śrīvatsa é descrita pelo Vaiṣṇava-toṣaṇī como sendo um cacho de cabelo amarelo e belíssimo localizado na porção superior do lado direito do peito do Senhor Viṣṇu. Essa marca não é vista em devotos comuns. É uma marca especial de Viṣṇu ou Kṛṣṇa.
आङ्‍‍घ्रिमस्तकमापूर्णास्तुलसीनवदामभि: ।
कोमलै: सर्वगात्रेषु भूरिपुण्यवदर्पितै: ॥ ४९ ॥
āṅghri-mastakam āpūrṇās
tulasī-nava-dāmabhiḥ
komalaiḥ sarva-gātreṣu
bhūri-puṇyavad-arpitaiḥ

Synonyms

ā-aṅghri-mastakamda cabeça aos pés; āpūrṇāḥplenamente decorados; tulasī-nava-dāmabhiḥcom guirlandas de folhas de tulasī frescas; komalaiḥtenras, macias; sarva-gātreṣuem todos os membros do corpo; bhūri-puṇyavat-arpitaiḥque foram oferecidas pelos devotos ocupados na maior atividade piedosa: adorar o Senhor Supremo, ouvindo, cantando e assim por diante.

Translation

Todas as partes de Seus corpos, da cabeça aos pés, estavam plena­mente decoradas com frescas e tenras guirlandas de folhas de tula­sī oferecidas pelos devotos dedicados a adorar o Senhor através das atividades piedosas mais grandiosas, a saber, ouvir e cantar.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra bhūri-puṇyavad-arpitaiḥ é significativa. Estas formas de Viṣṇu eram adoradas por aqueles que executaram atividades piedosas (sukṛtibhiḥ) por muitas vidas e que estavam constantemente ocupados em serviço devocional (śravaṇaṁ kīrta­naṁ viṣṇoḥ). Bhakti, serviço devocional, é a ocupação daqueles que realizaram atividades piedosas das mais avançadas. O acúmulo de atividades piedosas já foi mencionado em outra passagem do Śrīmad-Bhāgavatam (10.12.11), onde Śukadeva Gosvāmī diz:
itthaṁ satāṁ brahma-sukhānubhūtyā
dāsyaṁ gatānāṁ para-daivatena
māyāśritānāṁ nara-dārakeṇa
sākaṁ vijahruḥ kṛta-puṇya-puñjāḥ
“Aqueles que estão ocupados em autorrealização, apreciando a refulgência Brahman do Senhor, e aqueles ocupados em serviço devocional, aceitando como mestre a Suprema Personalidade de Deus, bem como aqueles que estão sob as garras de māyā, pensando que o Senhor é uma pessoa comum, não podem entender que certas personalidades sublimes – após acumularem volumosa quantidade de atividades piedosas – agora são vaqueirinhos que brincam amigavelmente com o Senhor.”
Em Vṛndāvana, em nosso templo de Kṛṣṇa-Balarāma, existe uma ár­vore tamāla que cobre todo um canto do quintal. Antes de se construir o templo, a árvore estava abandonada, mas agora ela se desenvolveu muito exuberantemente, cobrindo todo o canto do quintal. Esse é um sinal de bhūri-puṇya.
चन्द्रिकाविशदस्मेरै: सारुणापाङ्गवीक्षितै: ।
स्वकार्थानामिव रज:सत्त्वाभ्यां स्रष्टृपालका: ॥ ५० ॥
candrikā-viśada-smeraiḥ
sāruṇāpāṅga-vīkṣitaiḥ
svakārthānām iva rajaḥ-
sattvābhyāṁ sraṣṭṛ-pālakāḥ

Synonyms

candrikā-viśada-smeraiḥpelo sorriso puro como o luar pleno e progressivo; sa-aruṇa-apāṅga-vīkṣitaiḥpelos claros olhares de Seus olhos avermelhados; svaka-arthānāmdos desejos de Seus próprios devotos; ivaassim como; rajaḥ-sattvābhyāmatravés dos modos de paixão e bondade; sraṣṭṛ-pālakāḥeram criadores e protetores.

Translation

Aquelas formas Viṣṇu, com Seu sorriso puro, semelhante ao crescente brilho da Lua, e com os olhares de soslaio lançados por Seus olhos avermelhados, criavam e protegiam os desejos de Seus devotos, como se agissem nos modos da paixão e bondade.

Purport

SIGNIFICADO—Aquelas formas Viṣṇu abençoavam os devotos com Seus olhares e sorrisos francos, que pareciam a luz da Lua, cujo brilho aumenta até atingir a plenitude máxima (śreyaḥ-kairava-candrikā-vitaraṇam). Como mantenedores, Eles olhavam para Seus devotos, abraçando-os e protegendo-os com Seus sorrisos. Seus sorrisos pareciam o modo da bondade, protegendo todos os desejos dos devotos, e o olhar que Eles lançavam parecia o modo da paixão. Na verdade, neste verso, a palavra rajaḥ não significa “paixão”, mas “afeição”. No mundo material, rajo-guṇa é paixão, mas, no mundo espiritual, é afeição. No mundo material, a afeição é contaminada por rajo­-guṇa e tamo-guṇa, mas, em śuddha-sattva, a afeição que existe nos devotos é transcendental.
A palavra svakārthānām se refere a grandes desejos. Como se menciona neste verso, o olhar lançado pelo Senhor Viṣṇu cria os desejos dos devotos. O devoto puro, entretanto, não tem desejos. Portanto, Sanātana Gosvāmī comenta que, como os desejos dos devotos cuja atenção está fixa em Kṛṣṇa já foram plenamente satisfeitos, os olhares que o Senhor lança de soslaio criam variados desejos ligados a Kṛṣṇa e o serviço devocional. No mundo material, o desejo é um produto de rajo-guṇa e tamo-guṇa, mas, no mundo espiritual, o desejo faz surgir uma imensa variedade de serviços transcendentais e permanentes. Logo, a palavra svakārthānām refere-se ao anseio de servir a Kṛṣṇa.
Em Vṛndāvana, havia um lugar onde não havia templo algum, mas um devoto desejou: “Que haja um templo e sevā, serviço devo­cional.” Portanto, aquilo que certa vez foi um lugar vazio, agora se tornou­ um lugar de peregrinação. São esses os desejos de um devoto.
आत्मादिस्तम्बपर्यन्तैर्मूर्तिमद्भ‍िश्चराचरै: ।
नृत्यगीताद्यनेकार्है: पृथक्पृथगुपासिता: ॥ ५१ ॥
ātmādi-stamba-paryantair
mūrtimadbhiś carācaraiḥ
nṛtya-gītādy-anekārhaiḥ
pṛthak pṛthag upāsitāḥ

Synonyms

ātma-ādi-stamba-paryantaiḥdesde o senhor Brahmā até a entidade viva insignificante; mūrti-madbhiḥassumindo alguma forma; cara-acaraiḥmóveis e inertes; nṛtya-gīta-ādi-aneka-arhaiḥpelos mais variados meios de adoração, tais como dançar e cantar; pṛthak pṛthakdiferentemente; upāsitāḥque estavam sendo adoradas.

Translation

Todos os seres, móveis e inertes, desde o senhor Brahmā de quatro cabeças até a mais insignificante entidade viva, haviam assumido formas e adoravam de diferentes maneiras aquelas Viṣṇu-mūrtis, de acordo com suas respectivas capacidades, com vários meios de adoração, tais como dança e canto.

Purport

SIGNIFICADO—De acordo com suas habilidades e seu karma, inúmeras entidades vivas se ocupam em diferentes classes de adoração ao Supremo, mas todas estão ocupadas (jīvera ‘svarūpa’ haya-kṛṣṇera ‘nitya-dāsa’); não há ninguém que não esteja servindo. Portanto, o mahā-bhāgavata, o devoto mais elevado, vê todos como ocupados a serviço de Kṛṣṇa; somente a si mesmo ele vê como não estando ocupado. Temos de elevar-nos de uma posição inferior a uma posição superior, e a posição máxima é aquela em que se presta serviço diretamente em Vṛndāvana. Mas todos estão ocupados em servir. Esquecer-se de servir ao Senhor é māyā.
ekale īśvara kṛṣṇa, āra saba bhṛtya
yāre yaiche nācāya, se taiche kare nṛtya
“Somente Kṛṣṇa é o mestre supremo, e todos os demais são Seus servos. Eles dançam como Ele os faz dançar.” (Caitanya-caritāmṛta, Ādi 5.142)
Existem duas categorias de entidades vivas – móveis e inertes. As árvores, por exemplo, permanecem em um só lugar, ao passo que as formigas se movem. Brahmā viu que todas as entidades vivas, desde as criaturas mais elevadas até as mais baixas, assumiram diferentes formas e, de acordo com sua posição, estavam ocupadas no servi­ço ao Senhor Viṣṇu.
Recebe-se uma forma segundo a maneira como se adora o Senhor. No mundo material, o corpo que alguém recebe é guiado pelos semideuses. Na verdade, é a isso que as pessoas se referem ao mencionar a influência dos astros. Como se indica na Bhagavad-gītā (3.27) através das palavras prakṛteḥ kriyamāṇāni, a pessoa é controlada pelos semideuses de acordo com as leis da natureza.
Todas as entidades vivas estão servindo a Kṛṣṇa de diferentes modos, mas, quando elas são conscientes de Kṛṣṇa, seu serviço se manifesta plenamente. Assim como uma flor em botão pouco a pouco desabrocha e fornece aroma e beleza, do mesmo modo, quando a entidade viva chega à plataforma da consciência de Kṛṣṇa, a beleza de sua verdadeira forma desabrocha plenamente. Essa é a beleza última e a satisfação última do desejo.
अणिमाद्यैर्महिमभिरजाद्याभिर्विभूतिभि: ।
चतुर्विंशतिभिस्तत्त्वै: परीता महदादिभि: ॥ ५२ ॥
aṇimādyair mahimabhir
ajādyābhir vibhūtibhiḥ
catur-viṁśatibhis tattvaiḥ
parītā mahad-ādibhiḥ

Synonyms

aṇimā-ādyaiḥencabeçadas por aṇimā; mahimabhiḥpelas opulências; ajā-ādyābhiḥencabeçadas por Ajā; vibhūtibhiḥpelas potências; catuḥ-viṁśatibhiḥperfazendo vinte e quatro; tattvaiḥpelos ele­mentos que participam na criação do mundo material; parītāḥ(todas as viṣṇu-mūrtis) estavam cercadas; mahat-ādibhiḥencabeçados pelo mahat-tattva.

Translation

Todas as viṣṇu-mūrtis estavam cercadas pelas opulências, encabeçadas por aṇimā-siddhi; pelas potências místicas, encabeçadas por Ajā, e pelos vinte e quatro elementos que participam na criação do mundo material, encabeçados pelo mahat-tattva.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra mahimabhiḥ significa aiśvarya, ou opulência. A Suprema Personalidade de Deus pode fazer o que bem quiser. Isso é Seu aiśvarya. Ninguém pode comandá-lO, mas Ele pode co­mandar a todos. Ṣaḍ-aiśvarya-pūrṇam. O Senhor é pleno de seis opulências. Os yoga-siddhis, as perfeições do yoga, tais como a ha­bilidade de tornar-se menor do que o menor (aṇimā-siddhi) ou maior do que o maior (mahimā-siddhi), estão presentes no Senhor Viṣṇu. Ṣaḍ-aiśvaryaiḥ pūrṇo ya iha bhagavān. (Caitanya-caritāmṛta, Ādi 1.3) A palavra ajā quer dizer māyā, ou poder místico. Tudo o que é misterioso existe plenamente em Viṣṇu.
Os vinte e quatro elementos a que se alude nesta passagem são os cinco sentidos funcionais (pañca-karmendriya), os cinco senti­dos com os quais se obtém conhecimento (pañca-jñānendriya), os cinco elementos materiais grosseiros (pañca-mahābhūta), os cinco objetos dos sentidos (pañca-tanmātra), a mente (manas), o falso ego (ahaṅkāra), o mahat-tattva, e a natureza material (prakṛti). Todos esses vinte e quatro elementos são empregados para que ocorra a manifestação deste mundo material. O mahat-tattva divide-se em diferentes categorias sutis, mas, originalmente, é chamado de mahat-tattva.
कालस्वभावसंस्कारकामकर्मगुणादिभि: ।
स्वमहिध्वस्तमहिभिर्मूर्तिमद्भ‍िरुपासिता: ॥ ५३ ॥
kāla-svabhāva-saṁskāra-
kāma-karma-guṇādibhiḥ
sva-mahi-dhvasta-mahibhir
mūrtimadbhir upāsitāḥ

Synonyms

kālapelo fator tempo; svabhāvaprópria natureza; saṁskārareforma; kāmadesejo; karmaação fruitiva; guṇaos três modos da natureza material; ādibhiḥe por outros; sva-mahi-dhvasta-­mahibhiḥcuja própria independência estava subordinada à potência do Senhor; mūrti-madbhiḥpossuindo forma; upāsitāḥestavam sendo adoradas.

Translation

Então, o senhor Brahmā viu que kāla (o fator tempo), svabhāva (a própria natureza que alguém adquire através da associação), saṁskāra (reforma), kāma (desejo), karma (atividade fruitiva) e os guṇas (os três modos da natureza material) – a própria independên­cia deles estando inteiramente subordinada à potência do Senhor – tinham todos adquirido formas e também estavam adorando aquelas viṣṇu-mūrtis.

Purport

SIGNIFICADO—Com exceção de Viṣṇu, ninguém possui independência alguma. Se passamos a entender esse fato, estamos em verdadeira consciência de Kṛṣṇa. Devemos sempre nos lembrar de que Kṛṣṇa é o único mestre supremo e todos os demais são Seus servos (ekale īśvara kṛṣṇa, āra saba bhṛtya). Todos são subordinados a Kṛṣṇa, mesmo Nārāyaṇa ou o senhor Śiva (śiva-viriñci-nutam). Até mesmo Baladeva é subordinado a Kṛṣṇa. Isso é um fato.
ekale īśvara kṛṣṇa, āra saba bhṛtya
yāre yaiche nācāya, se taiche kare nṛtya

(Caitanya-caritāmṛta, Ādi 5.142)
Todos devem procurar entender que ninguém é independente, pois tudo é parte integrante de Kṛṣṇa e age e se move pelo desejo supre­mo de Kṛṣṇa. Esta compreensão, esta consciência, é a consciência de Kṛṣṇa.
yas tu nārāyaṇaṁ devaṁ
brahma-rudrādi-daivataiḥ
samatvenaiva vīkṣeta
sa pāṣaṇḍī bhaved dhruvam
“A pessoa que considera semideuses como Brahmā e Śiva como estando no mesmo nível de Nārāyaṇa na certa deve ser considerada um ofensor.” Ninguém pode comparar-se a Nārāyaṇa, ou Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é Nārāyaṇa, e Nārāyaṇa também é Kṛṣṇa, pois Kṛṣṇa é o Nārāyaṇa original. O próprio Brahmā, ao dirigir-se a Kṛṣṇa, diz que nārāyaṇas tvaṁ na hi sarva-dehinām: “Também sois Nārāyaṇa. Na verdade, sois o Nārāyaṇa original.” (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.14)
Kāla, ou o fator tempo, tem muitos assistentes, tais como svabhāva, saṁskāra, kāma, karma e guṇa. Svabhāva, ou a própria natureza de alguém, forma-se de acordo com a associação com as qualidades materiais. Kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya sad-asad-yoni janmasu. (Bhagavad-gītā 13.22) Sat e asat-svabhāva – a natureza superior ou in­ferior de alguém – desenvolvem-se através da associação com as diferentes qualidades, a saber, sattva-guṇa, rajo-guṇa e tamo-guṇa. Devemos gradualmente chegar a sattva-guṇa, para que possamos evitar os dois guṇas inferiores. Isso pode ser levado a efeito se co­mentarmos regularmente o Śrīmad-Bhāgavatam e ouvirmos sobre as atividades de Kṛṣṇa. Naṣṭa-prāyeṣv abhadreṣu nityaṁ bhāgavata-sevayā. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.18) Todas as atividades de Kṛṣṇa descritas no Śrīmad-Bhāgavatam, começando inclusive com os passatempos rela­cionados com Pūtanā, são transcendentais. Portanto, ouvindo e discutindo o Śrīmad-Bhāgavatam, rajo-guṇa e tamo-guṇa são subjugadas, e então sobra apenas sattva-guṇa. Então, rajo-guṇa e tamo-guṇa não podem fazer-nos nenhum mal.
O varṇāśrama-dharma, portanto, é essencial, pois pode conduzir as pessoas a sattva-guṇa. Tadā rajas-tamo-bhāvāḥ kāma-lobhādayaś ca ye. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.19). Tamo-guṇa e rajo-guṇa aumentam a luxúria e a cobiça, que enredam a entidade viva de tal maneira que ela tem de existir neste mundo material em muitas e muitas formas. Isso é muito perigoso. Através da implantação do varṇāśrama-dharma, a pessoa deve, portanto, elevar-se a sattva-guṇa e deve desenvolver as qualificações bramânicas – ser muito limpa e asseada, acordar bem cedo pela manhã e assistir ao maṅgala-ārātrika e assim por diante. Dessa maneira, ela deve permanecer em sattva-guṇa, e então deixará de ser influenciada por tamo-guṇa e rajo-guṇa.
tadā rajas-tamo-bhāvāḥ
kāma-lobhādayaś ca ye
ceta etair anāviddhaṁ
sthitaṁ sattve prasīdati
(Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.19)
A oportunidade de obter esta purificação é um aspecto especial da vida humana – em outras vidas, isso não é possível. Essa purificação pode ser alcançada muito facilmente através de rādhā-kṛṣṇa-bhajana, o serviço devocional prestado a Rādhā e Kṛṣṇa, daí Narottama Dāsa Ṭhakura cantar: hari hari viphale janama goṅāinu, indicando que, se alguém não adora Rādhā-Kṛṣṇa, desperdiça sua forma de vida humana. Vāsudeve bhagavati bhakti-yogaḥ prayojitaḥ/ janayaty āśu vairāgyam. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.7) Através da ocupação no serviço a Vasudeva, a pessoa rapidamente renuncia a vida material. Os membros do movimento da consciência de Kṛṣṇa, por exemplo, estando ocupados em vāsudeva-bhakti, bem depressa chegam à etapa em que se tornam vaiṣṇavas magníficos, tanto que as pessoas ficam surpresas de que mlecchas e yavanas sejam capazes de atingir essa fase. Isso é possível através de vāsudeva-bhakti. Contudo, se nesta vida humana não che­garmos à etapa de sattva-guṇa, então, como Narottama Dāsa Ṭhākura canta, hari hari viphale janama goṅāinu – não há proveito algum em ganhar esta forma de vida humana.
Śrī Vīrarāghava Ācārya comenta que cada um dos itens mencionados na primeira metade deste verso é causa de enredamento material. Kāla, ou o fator tempo, agita os modos da natureza material, e svabhāva resulta da associação com esses modos. Logo, Narottama Dāsa Ṭhākura diz que bhakta-sane vāsa. Se alguém se associa com bhaktas, então o svabhāva, ou natureza, mudará. Nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa destina-se a dar às pessoas boa associação para que essa mudança possa ocorrer, e realmente vemos que, através desse método, as pessoas em todo o mundo estão se tornando devotos pouco a pouco.
Quanto a saṁskāra, ou reforma, isso é possível através de boa associação, pois, através de boa associação, a pessoa desenvolve bons hábitos, e os hábitos tornam-se uma segunda natureza. Portan­to, bhakta-sane vāsa: que as pessoas recebam a oportunidade de conviver com os bhaktas. Então, seus hábitos mudarão. Na forma de vida humana, tem-se esta chance, mas, como Narottama Dāsa Ṭhākura canta, hari hari viphale janama goṅāinu: se alguém deixa de tirar proveito desta oportunidade, sua vida humana é desperdiçada, Por­tanto, estamos tentando impedir que a sociedade humana se degrade e estamos realmente tentando elevar as pessoas à natureza superior.
Quanto a kāma e karma – desejos e atividades –, se alguém se ocupa em serviço devocional, ele desenvolve uma natureza diferente daquela desenvolvida quando se ocupa em atividades de gozo dos sentidos, e, evidentemente, o resultado também é outro. De acordo com a associação com diferentes naturezas, a pessoa recebe uma determinada classe de corpo. Kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya sad-asad-yoni janmasu. (Bhagavad-gītā 13.22) Logo, devemos sempre buscar boa associação, a associação dos devotos. Então, nossa vida será exitosa. Podemos conhecer um homem pela companhia que ele escolhe. Se ele tem a oportunidade de viver na boa associação dos devotos, será capaz de cultivar conhecimento, e naturalmente seu caráter ou sua natureza mudarão, trazendo-lhe benefício eterno.
सत्यज्ञानानन्तानन्दमात्रैकरसमूर्तय: ।
अस्पृष्टभूरिमाहात्म्या अपि ह्युपनिषद्‍‌द‍ृशाम् ॥ ५४ ॥
satya-jñānānantānanda-
mātraika-rasa-mūrtayaḥ
aspṛṣṭa-bhūri-māhātmyā
api hy upaniṣad-dṛśām

Synonyms

satyaeternas; jñānatendo pleno conhecimento; anantailimitadas; ānandaplenamente bem-aventuradas; mātrasomente; eka-rasasempre existindo; mūrtayaḥformas; aspṛṣṭa-bhūri-māhāt­myāḥcuja grande glória não é tocada; apimesmo; porque; upaniṣat-dṛśāmpor aqueles jñānīs que estão ocupados em estudar as Upaniṣads.

Translation

Todas as viṣṇu-mūrtis tinham formas eternas e ilimitadas, plenas de conhecimento e bem-aventurança, cuja existência estava além da influência do tempo. Sua grande glória jamais poderia ser sequer tocada pelos jñānīs ocupados em estudar as Upaniṣads.

Purport

SIGNIFICADO—Mero śāstra-jñāna, ou conhecimento acerca dos Vedas, não ajuda ninguém a entender a Personalidade de Deus. Somente alguém que é favorecido ou agraciado pelo Senhor pode entendê-lO. Isso também é explicado nas Upaniṣads (Muṇḍaka Upaniṣad 3.2.3):
nāyam ātmā pravacanena labhyo
na medhasā na bahunā śrutena
yam evaiṣa vṛṇute tena labhyas
tasyaiṣa ātmā vivṛṇute tanuṁ svām
“O Senhor Supremo não é acessível através de explicações esmeradas, vasta inteligência ou mesmo muita audição. Ele é obtido apenas por aquele a quem Ele próprio escolhe. Para tal pessoa, Ele manifesta Sua própria forma.”
Uma descrição feita em relação ao Brahman é satyaṁ brahma, ānanda-rūpam: “O Brahman é a Verdade Absoluta e ānanda, ou bem-aventurança, completa.” As formas de Viṣṇu, o Brahman Su­premo, eram unas, mas tinham diversas manifestações. Os seguidores das Upaniṣads, entretanto, não podem entender a variedade manifes­tada pelo Brahman. Isso prova que o Brahman e Paramātmā realmen­te podem ser entendidos apenas através da devoção, como o próprio Senhor confirma no Śrīmad-Bhāgavatam (bhaktyāham ekayā grāhyaḥ, Śrīmad-Bhāgavatam 11.14.21). Para estabelecer que o Brahman, na verdade, tem uma forma transcendental, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura cita várias vezes os śāstras. Na Śvetāśvatara Upaniṣad (3.8), o Supremo é descrito como āditya-varṇaṁ tamasaḥ parastāt: “Aquele cuja forma automanifesta é luminosa como o Sol e transcendental à escuridão da ignorância.” Ānanda-mātram ajaraṁ purāṇam ekaṁ santaṁ bahudhā dṛśyamānam: “O Supremo é bem-aventurado, sem nenhum vestígio de infelicidade. Embora seja o mais velho, Ele nunca envelhe­ce, e embora único, Ele é conhecido sob diferentes formas.” Sarve nityāḥ śāśvatāś ca dehās tasya parātmanaḥ: “Todas as formas desta Pessoa Suprema são eternas.” (Mahā-varāha Purāṇa) A Pessoa Su­prema tem uma forma, com mãos, pernas e outros aspectos pessoais, mas Suas mãos e pernas não são materiais. Os bhaktas sabem que a forma de Kṛṣṇa, ou Brahman, não é material de modo algum. Em vez disso, o Brahman tem uma forma transcendental, e quando alguém está absorto nela, tendo plenamente desenvolvido sua bhakti, ele pode entendê-lO (premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena). Os māyāvādīs, entretanto, não podem entender essa forma transcenden­tal, pois pensam que ela é material.
As formas transcendentais existentes na Suprema Personalidade de Deus são tão grandiosas que os seguidores impessoais das Upaniṣads não podem alcançar a plataforma do conhecimento com o qual podem ser compreendidas. Particularmente, as formas transcendentais do Senhor estão além do alcance dos impersonalis­tas, que podem apenas entender, através de estudos das Upaniṣads, que a Verdade Absoluta não é matéria e que a Verdade Absoluta não é materialmente restringida por uma potência limitada.
No entanto, embora Kṛṣṇa não possa ser visto através das Upaniṣads, em algumas passagens afirma-se que Kṛṣṇa de fato pode ser conhecido dessa maneira. Aupaniṣadaṁ puruṣam: “Ele é conhecido através das Upaniṣads.” Isso significa que, quando alguém se purifica através do conhecimento védico, ele tem permissão de ingres­sar na compreensão devocional (mad-bhaktiṁ labhate parām).
tac chraddadhānā munayo
jñāna-vairagya-yuktayā
paśyanty ātmani cātmānaṁ
bhaktyā śruta-gṛhītayā
“O estudante ou sábio seriamente inquisitivo, bem equipado de conhecimento e desapego, compreende esta Verdade Absoluta prestando serviço devocional de acordo com o que ouviu do Vedānta-śruti.” (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.12) A palavra śruta-gṛhītayā refere-se ao conhecimento vedānta, e não a sentimentalismo. Śruta-gṛhīta é o conhecimento transmitido através do som.
O Senhor Viṣṇu, conforme Brahmā compreendeu, é o reservatório de toda a verdade, conhecimento e bem-aventurança. Ele é a combinação desses três aspectos transcendentais, e Ele é o objeto da adoração prestada pelos seguidores das Upaniṣads. Brahmā compreendeu que todas as diferentes formas de vacas, meninos e bezerros transformadas em formas de Viṣṇu não obtiveram essa transforma­ção através do misticismo do tipo que um yogī ou semideus podem exibir mediante poderes específicos dos quais são investidos. As vacas, os bezerros e os meninos transformados em viṣṇu-mūrtis, ou formas de Viṣṇu, não eram manifestações de viṣṇu-māyā, ou a energia de Viṣṇu, senão que eram o próprio Viṣṇu. As respectivas qualificações de Viṣṇu e viṣṇu-māyā são como as do fogo e do calor. No calor, existe a qua­lificação do fogo, a saber, a quentura, apesar do que o calor não é fogo. As formas dos meninos, vacas e bezerros manifestas como Viṣṇu não eram como o calor, senão que, em vez disso, eram como o fogo – todas elas realmente eram Viṣṇu. De fato, Viṣṇu caracteriza-Se pela verdade plena, conhecimento pleno e bem-aventurança plena. Pode-­se dar outro exemplo com objetos materiais que podem refletir-se em muitas e muitas formas. Por exemplo, o Sol reflete-se em muitos potes de água, mas os reflexos do Sol nos diversos potes não são o próprio Sol. Não há verdadeiros calor e luz emanados pelo Sol visto no pote, embora o reflexo pareça ser o Sol. Em contraste, cada uma das formas que Kṛṣṇa assumiu era Viṣṇu em toda a Sua plenitude.
Devemos, ao máximo possível, comentar diariamente o Śrīmad-Bhāgavatam, e então tudo se tornará claro, pois o Bhāgavatam é a essência de toda a literatura védica (nigama-kalpa-taror galitaṁ phalam). Foi escrito por Vyāsadeva (mahā-muni-kṛte) quando ele se tornou autorrealizado. Logo, quanto mais lemos o Śrīmad-Bhāgavatam, mais este conhecimento se evidencia. Todos os seus versos são transcendentais.
एवं सकृद् ददर्शाज: परब्रह्मात्मनोऽखिलान् ।
यस्य भासा सर्वमिदं विभाति सचराचरम् ॥ ५५ ॥
evaṁ sakṛd dadarśājaḥ
para-brahmātmano ’khilān
yasya bhāsā sarvam idaṁ
vibhāti sa-carācaram

Synonyms

evamassim; sakṛtde uma só vez; dadarśaviu; ajaḥsenhor Brahmā; para-brahmada Suprema Verdade Absoluta; ātmanaḥexpansões; akhilāntodos os bezerros e meninos etc.; yasyade quem; bhāsāpela manifestação; sarvamtudo; idamisto; vibhātise manifesta; sa-cara-acaramo que quer que seja móvel e inerte.

Translation

Assim, o senhor Brahmā viu o Brahman Supremo, mediante cuja energia todo este universo, com seus seres vivos móveis e inertes, manifesta-se. Ao mesmo tempo, ele também viu todos os bezerros e meninos como expansões do Senhor.

Purport

SIGNIFICADO—Através deste incidente, o senhor Brahmā foi capaz de ver como Kṛṣṇa mantém todo o universo de diferentes maneiras. Tudo é visí­vel porque Kṛṣṇa manifesta tudo.
ततोऽतिकुतुकोद्‌वृत्यस्तिमितैकादशेन्द्रिय: ।
तद्धाम्नाभूदजस्तूष्णीं पूर्देव्यन्तीव पुत्रिका ॥ ५६ ॥
tato ’tikutukodvṛtya-
stimitaikādaśendriyaḥ
tad-dhāmnābhūd ajas tūṣṇīṁ
pūr-devy-antīva putrikā

Synonyms

tataḥentão; atikutuka-udvṛtya-stimita-ekādaśa-indriyaḥcujos onze sentidos foram impactados por um acontecimento muito surpreendente e depois aturdidos pela bem-aventurança transcendental; tad-dhām­napela refulgência daquelas viṣṇu-mūrtis; abhūtficou; ajaḥsenhor Brahmā; tūṣṇīmsilencioso; pūḥ-devī-antina presença de uma deidade da vila (grāmya-devatā); ivaassim como; putri­kāum boneco de barro feito por uma criança.

Translation

Então, pelo poder da refulgência daquelas viṣṇu-mūrtis, o senhor Brahmā, com seus onze sentidos impactados pelo evento surpreendente e aturdidos pela bem-aventurança transcendental, silenciou-se, assim como um boneco de barro de uma criança na presença da deidade da vila.

Purport

SIGNIFICADO—Brahmā ficou atordoado devido à bem-aventurança transcenden­tal (muhyanti yat sūrayaḥ). Em seu espanto, todos os seus sentidos ficaram aturdidos, e ele foi incapaz de ver ou fazer alguma coisa. Brahmā considerava-se absoluto, julgando-se a única deidade poderosa, mas agora seu orgulho foi subjugado, e ele voltou a ser um mero semideus – um importante semideus, evidentemente, mas um semideus. Brahmā, portanto, não pode ser comparado a Deus – Kṛṣṇa, ou Nārāyaṇa. Se é proibido comparar a Nārāyaṇa mesmo semideuses como Brahmā e Śiva, o que dizer de outros?
yas tu nārāyaṇaṁ devaṁ
brahma-rudrādi-daivataiḥ
samatvenaiva vīkṣeta
sa pāṣaṇḍī bhaved dhruvam
“Alguém que considera que os semideuses como Brahmā e Śiva estão no mesmo nível que Nārāyaṇa na certa deve ser considerado um ofensor.” Não devemos igualar os semideuses a Nārāyaṇa, pois até mesmo Śaṅkarācārya proibiu isso (nārāyaṇaḥ paro ’vyaktāt). Também, como se menciona nos Vedas, eko nārāyaṇa āsīn na brahmā neśānaḥ: “No começo da criação, havia apenas a Personalidade Suprema, Nārāyaṇa, e não existia Brahmā ou Śiva.” Portanto, todo aquele que, no final de sua vida, lembra-se de Nārāyaṇa alcança a perfeição da vida (ante nārāyaṇa-smṛtiḥ).
इतीरेशेऽतर्क्ये निजमहिमनि स्वप्रमितिके
परत्राजातोऽतन्निरसनमुखब्रह्मकमितौ ।
अनीशेऽपि द्रष्टुं किमिदमिति वा मुह्यति सति
चच्छादाजो ज्ञात्वा सपदि परमोऽजाजवनिकाम् ॥ ५७ ॥
itīreśe ’tarkye nija-mahimani sva-pramitike
paratrājāto ’tan-nirasana-mukha-brahmaka-mitau
anīśe ’pi draṣṭuṁ kim idam iti vā muhyati sati
cacchādājo jñātvā sapadi paramo ’jā-javanikām

Synonyms

itiassim; irā-īśesenhor Brahmā, o senhor de Sarasvatī (Irā); atarkyealém de; nija-mahimanicuja própria glória; sva-pramitikeautomanifesto e bem-aventurado; paratraalém de; ajātaḥa energia material (prakṛti); atatirrelevante; nirasana-mukhapela rejeição daquilo que é irrelevante; brahmakapor intermédio das joias mais valiosas dos Vedas; mitauem quem existe conhecimen­to; anīśenão foi capaz; apimesmo; draṣṭumde ver; kimo que; idamé isto; itiassim; ou; muhyati satisendo mistificado; cacchādaremoveu; ajaḥSenhor Śrī Kṛṣṇa; jñātvāapós entender; sapadide uma vez; paramaḥo maior de todos; ajā-javani­kāma cortina de māyā.

Translation

O Brahman Supremo está além da especulação mental, é auto­manifesto, existindo em Sua própria bem-aventurança, e está além da energia material. Ele é conhecido por intermédio das joias mais valiosas dos Vedas, que refutam o conhecimento irrelevante. Assim, em relação com esse Brahman Supremo – a Personalidade de Deus, cuja glória fora mostrada pela manifestação de todas as formas de Viṣṇu de quatro braços –, o senhor Brahmā, o senhor de Sarasvatī, foi mistificado. “O que é isto?”, ele quis saber, e então não foi capaz nem mesmo de ver. O Senhor Kṛṣṇa, entendendo a posição de Brahmā, removeu então de uma vez a cortina, Sua yogamāyā.

Purport

SIGNIFICADO—Brahmā foi inteiramente mistificado. Ele não podia entender o que via e, depois, não foi capaz nem mesmo de ver. O Senhor Kṛṣṇa, compreendendo a posição de Brahmā, removeu então aquela cobertura, removeu yogamāyā. Neste verso, Brahmā é chamado de ireśa. Irā significa Sarasvatī, a deusa da sabedoria, e Ireśa é seu esposo, o senhor Brahmā. Brahmā, portanto, é inteligentíssimo. Mas mesmo Brahmā, o senhor de Sarasvatī, ficou confuso diante das ações de Kṛṣṇa. Embora tentasse, ele não pôde entender o Senhor Kṛṣṇa. No come­ço, os meninos, os bezerros e o próprio Kṛṣṇa foram cobertos por yogamāyā, que mais tarde expôs o segundo grupo de bezerros e meninos, que eram expansões de Kṛṣṇa, e que então manifestaram tantas formas de quatro braços. Agora, vendo a desorientação de Brahmā, o Senhor Kṛṣṇa fez desaparecer aquela yogamāyā. Pode­-se pensar que a māyā afastada por Kṛṣṇa era mahāmāyā, mas Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta que era yogamāyā, a po­tência pela qual Kṛṣṇa ora Se manifesta, ora não Se mani­festa. A potência que cobre a verdadeira realidade e apresenta algo irreal é mahāmāyā, mas a potência pela qual a Verdade Absoluta ora Se manifesta, ora não Se manifesta é yogamāyā. Por­tanto, neste verso, a palavra ajā refere-se a yogamāyā.
A energia de Kṛṣṇa – Sua māyā-śakti, ou svarūpa-śakti – é apenas uma, mas se manifesta com variedades. Parāsya śaktir vividhaiva śrūyate. (Śvetāśvatara Upaniṣad 6.8) A diferença entre os vaiṣṇavas e os māyāvādīs é que os māyāvādīs dizem que māyā é apenas uma, ao passo que os vaiṣṇavas reconhecem suas variedades. Existe igualdade na variedade. Por exemplo, em uma árvore, existem muitas variedades de folhas, frutas e flores. Variedades de energia são necessárias para realizar as várias atividades dentro da criação. Citando outro exem­plo: em uma máquina, todas as suas partes talvez sejam ferro, mas a máquina exerce atividades variadas. Embora toda a máquina seja de ferro, uma parte funciona de uma maneira, e outras partes fun­cionam de maneiras diferentes. Alguém que não saiba como a má­quina funciona talvez diga que toda a máquina é somente ferro; entretanto, apesar de ser feita de ferro, a máquina tem diferentes elementos, todos fun­cionando diferentemente para cumprir o propósito para o qual a máquina foi feita. Uma roda gira dessa maneira, outra roda gira daquela maneira, funcionando naturalmente de tal modo que o tra­balho da máquina se desenvolve. Consequentemente, damos dife­rentes nomes a diferentes partes da máquina, dizendo: “Isto é uma roda”, “Isto é um parafuso”, “Isto é uma rosca”, “Isto é a lubri­ficação”, e assim por diante. Igualmente, como se explica nos Vedas:
parāsya śaktir vividhaiva śrūyate
svābhāvikī jñāna-bala-kriyā ca
Uma vez que o poder de Kṛṣṇa é diverso, a mesma śakti, ou potência, funciona de várias maneiras. Vividhā significa “varieda­des”. Existe unidade na variedade. Assim, yogamāyā e mahāmāyā estão entre as várias partes individuais da mesma potência única, e todas essas potências individuais funcionam de acordo com suas próprias e variadas maneiras. As potências saṁvit, sandhinī e āhlādinī – a potência de Kṛṣṇa que se encarrega da existência, Sua po­tência utilizada no conhecimento e Sua potência utilizada no prazer – são distintas de yogamāyā. Cada uma delas é uma potência indi­vidual. A potência āhlā­dinī é Rādhārāṇī. Como Svarūpa Dāmodara Gosvāmī explica, rādhā kṛṣṇa-praṇaya-vikṛtir hlādinī śaktir asmāt. (Caitanya-caritāmṛta, Ādi 1.5) A āhlādinī-śakti manifesta-se como Rādhārāṇī, mas Kṛṣṇa e Rādhārāṇī são os mesmos, embora um seja o potente, e a outra, a potência.
A opulência de Kṛṣṇa mistificou Brahmā porque essa opulência (nija-mahi­mani) era atarkya, ou inconcebível. Com sentidos limitados, ninguém pode discutir sobre aquilo que é inconcebí­vel. Portanto, o inconcebível se chama acintya, aquilo que está além de cintya, nossos pensamentos e argumentações. Acintya refere-se àquilo que não podemos contemplar, senão que temos de aceitar. Śrīla Jīva Gosvāmī disse que, a menos que aceitemos que o Supremo é acintya, não poderemos nos dar conta do que é Deus. Isso tem de ser enten­dido. Portanto, dizemos que as palavras dos śāstras devem ser aceitas como elas são, sem mudanças, pois ultrapassam nossos argumen­tos. Acintyāḥ khalu ye bhāvā na tāṁs tarkeṇa yojayet: “Aquilo que é acintya não pode ser averiguado através do argumento.” De um modo geral, as pessoas contestam, mas nosso processo não é contestar, pois preferimos aceitar o conhecimento védico como ele é. Quando Kṛṣṇa diz: “Isso é superior e aquilo é inferior”, aceita­mos exatamente o que Ele diz. Não ficamos argumentando: “Por que isso é superior e aquilo é inferior?” Se alguém contesta, sua chance de obter conhecimento se esvai.
Este caminho da aceitação chama-se avaroha-panthā. A palavra avaroha relaciona-se com a palavra avatāra, que significa “aquilo que desce”. O materialista quer entender tudo através de āroha-panthā – através do argumento e da razão –, mas os temas trans­cendentais não podem ser entendidos dessa maneira. Em vez disso, a pessoa deve seguir avaroha-panthā, o processo de conhecimento descendente. Portanto, deve-se aceitar o sistema paramparā. E o melhor paramparā é aquele que procede de Kṛṣṇa (evaṁ paramparā-prāptam). O que Kṛṣṇa diz, devemos aceitar (imaṁ rājarṣayo viduḥ) Isso se chama avaroha-panthā.
Brahmā, entretanto, adotou āroha-panthā. Através de seu próprio poder imaginativo limitado, ele queria entender o poder místico de Kṛṣṇa, daí ter sido mistificado. Todos querem sentir prazer em seu próprio conhecimento, pensando: “Eu sou entendido de um assunto.” Quando se refere a entender Kṛṣṇa, no entanto, esse conceito não tem validade, pois ninguém pode colocar Kṛṣṇa dentro das limitações da prakṛti. Todos devem submeter-se. Não há alternativa. Na tāṁs tarkeṇa yojayet. Essa submissão marca a diferença entre os kṛṣṇaístas e os māyāvādīs.
Os dizeres atan-nirasana refere-se ao ato de dispensar aquilo que é irrelevante. (Atat significa “aquilo que não é um fato”.) O Brahman às vezes é descrito como asthūlam anaṇv ahrasvam adīrgham: “Aquilo que não é nem grande nem pequeno, nem curto nem comprido.” (Bṛhad-āraṇyaka Upaniṣad 5.8.8) Neti neti: “Não é isto, não é aquilo.” Mas o que é isso? Ao descrever um lápis, pode-se dizer: “Não é isto, não é aquilo”, mas isso não nos diz o que ele é. Isso se chama definição através da negação. Na Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa também expli­ca a alma dando definições negativas. Na jāyate mriyate vā: “Ela não nasce nem morre. Dificilmente se consegue entender mais do que isto.” Mas o que é a alma? Ela é eterna. Ajo nityaḥ śāśvato ’yaṁ purāṇo na hanyate hanyamāne śarīre: “Ela é não-nascida, eterna, sempre existente, imortal e primordial. Ela não morre quando o corpo morre.” (Bhagavad-gītā 2.20) A princípio, é difícil entender a alma, daí Kṛṣṇa fornecer definições negativas:
nainaṁ chindanti śastrāṇi
nainaṁ dahati pāvakaḥ
na cainaṁ kledayanty āpo
na śoṣayati mārutaḥ
“A alma nunca pode ser despedaçada por arma alguma, tampouco pode ser queimada pelo fogo, umedecida pela água ou enxugada pelo vento.” (Bhagavad-gītā 2.23) Kṛṣṇa diz: “Ela não é queimada pelo fogo.” Portanto, deve-se imaginar o que não é queimado pelo fogo. Essa é uma definição negativa.
ततोऽर्वाक्प्रतिलब्धाक्ष: क: परेतवदुत्थित: ।
कृच्छ्रादुन्मील्य वै द‍ृष्टीराचष्टेदं सहात्मना ॥ ५८ ॥
tato ’rvāk pratilabdhākṣaḥ
kaḥ paretavad utthitaḥ
kṛcchrād unmīlya vai dṛṣṭīr
ācaṣṭedaṁ sahātmanā

Synonyms

tataḥentão; arvākexternamente; pratilabdha-akṣaḥtendo recuperado sua consciência; kaḥsenhor Brahmā; pareta-vatassim como um cadáver; utthitaḥlevantou-se; kṛcchrātcom grande dificuldade; unmīlyaabrindo; vaina verdade; dṛṣṭīḥseus olhos; ācaṣṭaele viu; idameste universo; saha-ātmanājuntamente com ele mesmo.

Translation

O senhor Brahmā recuperou então sua consciência externa e le­vantou-se, assim como um morto que volta a viver. Abrindo seus olhos com grande dificuldade, ele viu o universo, juntamente com ele mesmo.

Purport

SIGNIFICADO—Nós, na realidade, não morremos. Por ocasião da morte, somos mera­mente mantidos inertes por algum tempo, assim como durante o sono. À noite, nós dormimos, e todas as nossas atividades cessam, mas logo que acordamos, nossa memória imediatamente retorna, e pensamos: “Oh! Onde estou? O que devo fazer?” Isso se chama suptotthita-nyāya. Suponha que nós morremos. “Morrer” significa que ficamos inertes por algum tempo e, depois, recomeçamos as nossas atividades. Isso acon­tece vida após vida, de acordo com o nosso karma, ou atividades, e svabhāva, ou a natureza adquirida através da associação. Agora, na vida humana, se nos prepararmos, começando a realizar atividades espirituais, retornaremos à nossa verdadeira vida e alcançaremos a perfeição. Caso contrário, de acordo com karma, svabhāva, prakṛti e assim por diante, nossas variedades de vidas e atividades con­tinuarão, e também os nossos nascimentos e mortes. Como explica Bhaktivinoda Ṭhākura, māyāra vaśe, yāccha bhese’, khāccha hābuḍubu bhāi: “Meus queridos irmãos, por que estais sendo arrastados pelas ondas de māyā?” Todos devem chegar à plataforma espiritual, momento em que suas atividades serão permanentes. Kṛta-puṇya-puñjāḥ: esta etapa é alcançada depois que alguém acumula os resultados de atividades piedosas por muitas e muitas vidas. Janma-koṭi-sukṛtair na labhyate. (Caitanya-caritāmṛta, Madhya 8.70) O movimento da consciência de Kṛṣṇa quer interromper koṭi-janma, os repetidos nascimentos e mortes. Em um nascimento, a pessoa pode retificar tudo e chegar a obter uma vida permanente. Isso é consciência de Kṛṣṇa.
सपद्येवाभित: पश्यन् दिशोऽपश्यत्पुर:स्थितम् ।
वृन्दावनं जनाजीव्यद्रुमाकीर्णं समाप्रियम् ॥ ५९ ॥
sapady evābhitaḥ paśyan
diśo ’paśyat puraḥ-sthitam
vṛndāvanaṁ janājīvya-
drumākīrṇaṁ samā-priyam

Synonyms

sapadiimediatamente; evana verdade; abhitaḥpara todos os lados; paśyanolhando; diśaḥpara as direções; apaśyato senhor Brahmā viu; puraḥ-sthitamsituada diante dele; vṛndāvanamVṛndāvana; jana-ājīvya-druma-ākīrṇamrepleta de árvores, que eram o meio de subsistência para os habitantes; samā-priyame que exerciam o mesmo fascínio em todas as estações.

Translation

Então, olhando para todas as direções, o senhor Brahmā imediatamente viu Vṛndāvana diante dele, cheia de árvores, que eram o meio de subsistência para os habitantes e que, em todas as estações, eram igualmente aprazíveis.

Purport

SIGNIFICADO—Janājīvya-drumākīrṇam: As árvores e plantas são essenciais e proporcionam felicidade durante todo o ano, em todas as estações. Esse é o arranjo que prevalece em Vṛndāvana, e, graças a isso, não acontece que, em uma estação, as árvores são agradáveis e, em outra estação, elas são desagradáveis; ao contrário, em todas as mudanças sazo­nais elas exercem o mesmo fascínio. As árvores e plantas fornecem os verdadeiros meios de subsistência recomendados para todos. Sarva-kāma-dughā mahī. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.10.4) As árvores e vegetais, e não a in­dústria, fornecem os verdadeiros meios de vida.
यत्र नैसर्गदुर्वैरा: सहासन् नृमृगादय: ।
मित्राणीवाजितावासद्रुतरुट्‌‌तर्षकादिकम् ॥ ६० ॥
yatra naisarga-durvairāḥ
sahāsan nṛ-mṛgādayaḥ
mitrāṇīvājitāvāsa-
druta-ruṭ-tarṣakādikam

Synonyms

yatraonde; naisargapor natureza; durvairāḥvivendo com inimizade; saha āsanvivem juntos; nṛseres humanos; mṛga­-ādayaḥe animais; mitrāṇiantigos; ivacomo; ajitado Senhor Śrī Kṛṣṇa; āvāsaresidência; drutafoi embora; ruṭira; tarṣaka­ādikamsede e assim por diante.

Translation

Vṛndāvana é a morada transcendental do Senhor, onde não há fome, ira ou sede. Embora sejam inimigos por natureza, tanto os seres humanos quanto os animais ferozes ali convivem em amizade transcendental.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra vana significa “floresta”. Temos medo da floresta e não desejamos ir até lá, mas, em Vṛndāvana, os animais silvestres se comparam a semideuses, pois não têm inveja. Mesmo neste mundo material, na floresta, os animais vivem juntos, e quando vão beber água, eles não atacam ninguém. A inveja surge devido ao gozo dos sentidos, mas não há gozo dos sentidos em Vṛndāvana, pois a única meta é a satisfação de Kṛṣṇa. Mesmo neste mundo material, os animais em Vṛndāvana não invejam os sādhus que vivem ali. Os sādhus mantêm vacas e fornecem leite aos tigres, dizendo: “Venham cá e tomem um pouco de leite.” Assim, a inveja e a malícia são desconhecidas em Vṛndāvana. Essa é a diferença entre Vṛndāvana e o mundo habitual. Nós nos sentimos aterrorizados ao ouvir a palavra vana, flo­resta, mas não há esse pavor em Vṛndāvana. Ali, todos são felizes satisfazendo Kṛṣṇa. Kṛṣṇotkīrtana-gāna-nartana-parau. Quer se trate de um gosvāmī, um tigre ou outro animal feroz, todos têm a mesma ocupação – satisfazer a Kṛṣṇa. Mesmo os tigres também são devo­tos. Esta é a qualificação específica de Vṛndāvana. Em Vṛndāvana, todos são felizes. O bezerro é feliz, o gato é feliz, o cão é feliz, o homem é feliz – todos. Todos querem servir a Kṛṣṇa de acordo com sua competência em particular, daí não haver inveja. Talvez alguém pense que os macacos de Vṛndāvana são invejosos porque eles causam estragos e roubam comida, mas, em Vṛndāvana, observamos que os macacos podem pegar a manteiga distribuída pelo próprio Kṛṣṇa. Kṛṣṇa demonstra pessoalmente que todos têm o direito de viver. Esta é a vida em Vṛndāvana. Por que eu posso viver e tu deves morrer? Não. Isso é vida material. Os habitantes de Vṛndāvana pensam:
No mundo material, mesmo que se arrecadem fundos em todo o mundo para distribuir alimentos gratuitamente, aqueles a quem os alimentos são dados talvez não apreciem muito esse ato. O valor da consciência de Kṛṣṇa, entretanto, gradualmente será muito apre­ciado. Por exemplo, em um artigo sobre o templo do Movimento Hare Kṛṣṇa em Durban, África do Sul, o Durban Post escreveu: “Aqui, todos os devotos são muito ativos no serviço ao Senhor Kṛṣṇa, e é fácil ver os resultados: felicidade, muita saúde, paz mental e o desenvolvimento de todas as boas qualidades.” Esta é a natureza de Vṛndāvana. Harāv abhaktasya kuto mahad-guṇāḥ: sem consciên­cia de Kṛṣṇa, a felicidade é impossível; mesmo que lute, a pessoa não poderá ter felicidade. Portanto, estamos tentando dar à sociedade humana a oportunidade de obter, através da consciência de Deus, uma vida na qual há felicidade, perfeita saúde, paz mental e todas as boas qualidades.
तत्रोद्वहत् पशुपवंशशिशुत्वनाट्यं
ब्रह्माद्वयं परमनन्तमगाधबोधम् ।
वत्सान् सखीनिव पुरा परितो विचिन्व-
देकं सपाणिकवलं परमेष्ठ्यचष्ट ॥ ६१ ॥
tatrodvahat paśupa-vaṁśa-śiśutva-nāṭyaṁ
brahmādvayaṁ param anantam agādha-bodham
vatsān sakhīn iva purā parito vicinvad
ekaṁ sa-pāṇi-kavalaṁ parameṣṭhy acaṣṭa

Synonyms

tatralá (em Vṛndāvana); udvahatassumindo; paśupa-vaṁśa-śiśutva-nāṭyamo papel no qual era uma criança em uma família de vaqueiros (outro nome de Kṛṣṇa é Gopāla, “aquele que mantém as vacas”); brahmaa Verdade Absoluta; advayaminigualável; paramSupremo; anantamilimitado; agādha-bodhampossuindo conhecimento ilimitado; vatsānos bezerros; sakhīne Seus amigos, os meninos; iva purāexatamente como antes; paritaḥem toda parte; vicinvatprocurando; ekamsozinho; sa-pāṇi-kavalamcom um pouco de alimento em Sua mão; parameṣṭhīo senhor Brahmā; acaṣṭaviu.

Translation

Então, o senhor Brahmā viu a Verdade Absoluta – que é única e inigualável, que possui conhecimento pleno e que é ilimitada – assu­mindo o papel de uma criança em uma família de vaqueiros e, como antes, estava completamente sozinha com um pouco de comida em Sua mão, procurando em toda parte os bezerros e Seus amigos vaqueirinhos.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra agādha-bodham, que significa “pleno de conhecimento ilimitado”, é significativa. O Senhor possui conhecimento ilimitado, motivo pelo qual ninguém pode descobrir seu término, assim como ninguém pode medir o oceano. Qual é a extensão de nossa inteligência em comparação com o vasto volume de água do oceano? Em minha viagem à América, quão insignificante era o navio; ele era como uma caixa de fósforos no meio do oceano. A inteligência de Kṛṣṇa parece o oceano, pois ninguém pode imaginar o quanto ela é vasta. A melhor atitude, portanto, é render-se a Kṛṣṇa. Não tente medir Kṛṣṇa.
A palavra advayam, que significa “único e inigualável”, também é significativa. Porque foi coberto pela māyā de Kṛṣṇa, Brahmā julgava-se o Supremo. No mundo material, cada um pensa: “Sou o melhor homem deste mundo. Conheço tudo.” A pessoa pensa: “Por que devo ler a Bhagavad-gītā? Conheço tudo. Tenho minha própria interpretação.” Brahmā, entretanto, foi capaz de entender que a Personalidade Suprema é Kṛṣṇa. Īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ. Outro nome de Kṛṣṇa, portanto, é parameśvara.
Agora, Brahmā viu Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, aparecer como um vaqueirinho em Vṛndāvana, sem demonstrar Sua opulência, mas agindo como um menino inocente que carrega algum alimento em Sua mão, perambulando com Seus amigos vaqueirinhos, bezerros e vacas. Brahmā não via Kṛṣṇa como catur-bhuja, o opulento Nārāyaṇa, senão que ele simplesmente via um menino inocente. Entretanto, ele pôde entender que, embora não estivesse demonstrando Seu poder, Kṛṣṇa era a mesma Pessoa Suprema. De um modo geral, as pessoas não apreciam alguém a menos que ele revele algo maravilhoso, mas aqui, embora Kṛṣṇa não manifestasse nenhum ato maravilhoso, Brahmā pôde entender que a mesma pessoa maravilho­sa estava presente como uma criança comum, embora Ele fosse o mestre de toda a criação. Por isso, Brahmā orou que govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi: “Sois a pessoa original, a causa de tudo. Prostro-me diante de Vós.” Essa foi sua compreensão. Tam ahaṁ bhajāmi: isso é o que se deve procurar alcançar. Vedeṣu durlabham: ninguém pode chegar a Kṛṣṇa meramente através do conhecimento védico. Adurlabham ātma-bhaktau: mas quando alguém se torna um devoto, ele pode compreendê-lO. Brahmā, portanto, tornou-se um devoto. No começo, orgulhava-se de ser Brahmā, o senhor do universo, mas agora ele compreendeu: “Eis o Senhor do universo. Sou um simples agente insignificante. Govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi.”
Kṛṣṇa agia como um ator dramático. Porque Brahmā tinha um pouco de falso prestígio, pensando que possuía algum poder, Kṛṣṇa mostrou-lhe qual era a sua verdadeira posição. Episódio semelhante ocorreu quando Brahmā foi ver Kṛṣṇa em Dvārakā. Quando o por­teiro de Kṛṣṇa informou ao Senhor Kṛṣṇa que o senhor Brahmā chegara, Kṛṣṇa quis saber: “Qual Brahmā? Pergunta-lhe qual Brahmā.” O porteiro voltou com essa pergunta, e Brahmā ficou espantado. “Acaso existe outro Brahmā além de mim?”, pensou consigo mesmo. Quando o porteiro informou ao Senhor Kṛṣṇa: “É o Brahmā de quatro ca­beças”, o Senhor Kṛṣṇa disse: “Ah! O de quatro cabeças! Chama os outros. Mostra-os para ele.” Essa é a posição de Kṛṣṇa. Se para Kṛṣṇa o Brahmā de quatro cabeças é insignificante, o que dizer, então, dos “cientistas de quatro cabeças?” Os cientistas materialistas pensam que, embora este planeta Terra seja pleno de opulência, todos os outros são vazios. Porque não fazem nada além de especular, essa é a sua conclu­são científica. A partir do Bhāgavatam, entendemos que todo o universo está repleto de entidades vivas em toda parte. Logo, os cientistas cometem a grande tolice de desencaminhar a população, apresentando-se como cientistas, filósofos e homens de conhecimento, embora não conheçam nada.
द‍ृष्ट्वा त्वरेण निजधोरणतोऽवतीर्य
पृथ्व्यां वपु: कनकदण्डमिवाभिपात्य ।
स्पृष्ट्वा चतुर्मुकुटकोटिभिरङ्‍‍घ्रियुग्मं
नत्वा मुदश्रुसुजलैरकृताभिषेकम् ॥ ६२ ॥
dṛṣṭvā tvareṇa nija-dhoraṇato ’vatīrya
pṛthvyāṁ vapuḥ kanaka-daṇḍam ivābhipātya
spṛṣṭvā catur-mukuṭa-koṭibhir aṅghri-yugmaṁ
natvā mud-aśru-sujalair akṛtābhiṣekam

Synonyms

dṛṣṭvāapós ver; tvareṇacom grande velocidade, rapidamen­te; nija-dhoraṇataḥde seu cisne carregador; avatīryadesceu; pṛthvyāmsobre o solo; vapuḥseu corpo; kanaka-daṇḍam ivacomo uma vara dourada; abhipātyacaiu; spṛṣṭvātocando; catuḥ-mukuṭa-koṭi-bhiḥcom as extremidades de suas quatro coroas; aṅghri-­yugmamos dois pés de lótus; natvāprestando reverências; mut-aśru-su-jalaiḥcom a água de suas lágrimas de alegria; akṛtarealizou; abhiṣekama cerimônia de ablução de Seus pés de lótus.

Translation

Após ver isso, o senhor Brahmā rapidamente desceu de seu cisne carregador, estirou-se ao chão como uma vara dourada e, com as extremidades das quatro coroas que estavam sobre suas cabeças, tocou os pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa. Oferecendo suas reverências, ele banhou os pés de Kṛṣṇa com a água de suas lágrimas de alegria.

Purport

SIGNIFICADO—O senhor Brahmā prostrou-se, tal qual uma vara, e, como a tez do senhor Brahmā é dourada, ele parecia uma vara de ouro colocada diante do Senhor Kṛṣṇa. Quando alguém cai diante de um superior e fica tal qual uma vara, esse oferecimento de reverên­cias chama-se daṇḍavat. Daṇḍa significa “vara”, e vat, “como”. Mas não se deve simplesmente dizer: “daṇḍavat”. Em vez disso, a pessoa deve estirar-se no chão. Assim, Brahmā caiu, tocando suas frontes nos pés de lótus de Kṛṣṇa, e seu choro de êxtase deve ser considerado como uma cerimônia abhiṣeka com a qual se faz a ablução dos pés de lótus de Kṛṣṇa.
Aquele que apareceu diante de Brahmā como uma criança hu­mana de fato era a Verdade Absoluta, o Parabrahman (brahmeti paramātmeti bhagavān iti śabdyate). O Senhor Supremo é narākṛti, isto é, Ele parece um ser humano. Não se deve pensar que Ele tem quatro braços (catur-bāhu). Nārāyaṇa é catur-bāhu, mas a Pessoa Suprema parece um ser humano. Isso também é confirmado na Bíblia, onde se diz que o homem foi feito à imagem de Deus.
O senhor Brahmā viu que Kṛṣṇa, sob Sua forma de vaqueirinho, era Parabrahman, a causa fundamental de tudo, mas agora apare­cia como uma criança humana, perambulando em Vṛndāvana com um pouco de alimento em Sua mão. Atônito, o senhor Brahmā apressou-se em descer de seu cisne carregador e caiu ao solo com seu corpo esticado. Habitualmente, os semideuses nunca tocam o solo, mas o senhor Brahmā, voluntariamente abandonando seu pres­tígio de semideus, colocou-se diante de Kṛṣṇa e prostrou-se no solo. Embora tenha uma cabeça em cada direção, Brahmā voluntariamente caiu ao solo com todas as cabeças e tocou os pés de Kṛṣṇa com as pontas de seus quatro elmos. Embora sua inteligência funcione em todas as direções, ele entregou tudo diante do menino Kṛṣṇa.
Menciona-se que Brahmā lavou os pés de Kṛṣṇa com suas lágrimas, e aqui a palavra sujalaiḥ indica que suas lágrimas foram purificadas. Logo que bhakti se faz presente, tudo se purifica (sarvopādhi-vinirmuktam). Portanto, o choro de Brahmā era uma forma de bhakty-anubhāva, uma transformação do amor extático transcendental.
उत्थायोत्थाय कृष्णस्य चिरस्य पादयो: पतन् ।
आस्ते महित्वं प्राग्द‍ृष्टं स्मृत्वा स्मृत्वा पुन: पुन: ॥ ६३ ॥
utthāyotthāya kṛṣṇasya
cirasya pādayoḥ patan
āste mahitvaṁ prāg-dṛṣṭaṁ
smṛtvā smṛtvā punaḥ punaḥ

Synonyms

utthāya utthāyalevantando-se repetidas vezes; kṛṣṇasyado Senhor Kṛṣṇa; cirasyademoradamente; pādayoḥaos pés de lótus; patancaindo; āstepermaneceu; mahitvama grandeza; prāk­-dṛṣṭamque vira anteriormente; smṛtvā smṛtvānão se cansando de se lembrar de; punaḥ punaḥrepetidas vezes.

Translation

Repetidamente levantando-se e caindo diante dos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa por um longo tempo, o senhor Brahmā não se cansava de lembrar-se daquilo que acabara de ver: a grandeza do Senhor.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma em uma oração:
śrutim apare smṛtim itare
bhāratam anye bhajantu bhava-bhītāḥ
aham iha nandaṁ vande
yasyālinde paraṁ brahma
“Que os outros que temem a existência material estudem os Vedas, o smṛti e o Mahābhārata, mas prefiro adorar Nanda Mahārāja, em cujo quintal engatinha o Brahman Supremo. Nanda Mahārāja é tão grandioso que o Parabrahman está engatinhando em seu quintal, e, portanto, eu o adoro.” (Padyāvalī 126)
Brahmā estava entrando em êxtase. Devido à presença da Suprema Personalidade de Deus, que Se parecia exatamente com uma criança humana, Brahmā ficou naturalmente atônito. Portanto, com a voz embargada, ele ofereceu orações, entendendo que ali estava a Pessoa Suprema.
शनैरथोत्थाय विमृज्य लोचने
मुकुन्दमुद्वीक्ष्य विनम्रकन्धर: ।
कृताञ्जलि: प्रश्रयवान् समाहित:
सवेपथुर्गद्गदयैलतेलया ॥ ६४ ॥
ज्ञाने प्रयासमुदपास्य नमन्त एव
जीवन्ति सन्मुखरितां भवदीयवार्ताम् ।
स्थाने स्थिता: श्रुतिगतां तनुवाङ्‌मनोभि-
र्ये प्रायशोऽजित जितोऽप्यसि तैस्त्रिलोक्याम् ॥
śanair athotthāya vimṛjya locane
mukundam udvīkṣya vinamra-kandharaḥ
kṛtāñjaliḥ praśrayavān samāhitaḥ
sa-vepathur gadgadayailatelayā

Synonyms

śanaiḥgradualmente; athaentão; utthāyalevantando-se; vimṛjyaenxugando; locaneseus dois olhos; mukundampara Mukunda, o Senhor Śrī Kṛṣṇa; udvīkṣyaolhando; vinamra-kandharaḥseu pescoço inclinado; kṛta-añjaliḥde mãos postas; praśraya-vānmuito humilde; samāhitaḥsua mente concentrada; sa­-vepathuḥseu corpo tremendo; gadgadayāsufocadas; ailataBrahmā começou a oferecer louvores; īlayācom palavras.

Translation

Então, levantando-se muito gradualmente e enxugando seus dois olhos, o senhor Brahmā olhou para Mukunda. O senhor Brahmā, com sua cabeça curvada, sua mente concentrada e seu corpo trêmulo, começou, com palavras sufocadas, a oferecer lou­vores ao Senhor Kṛṣṇa com muita humildade.

Purport

SIGNIFICADO—Brahmā, estando muito contente, começou a verter lágrimas, com as quais lavou os pés de lótus de Kṛṣṇa. Repetidas vezes, ele caía e levantava-se à medida que recordava as atividades maravilhosas do Senhor. Após repetidas reverências por um longo tempo, Brahmā levantou-se e esfregou seus olhos com as mãos. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta que a palavra locane indica que, com suas duas mãos, ele enxugou os dois olhos de cada um de seus quatro rostos. Vendo o Senhor diante dele, Brahmā começou a oferecer orações com grande humildade, respeito e atenção.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do décimo canto, décimo terceiro capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Brahmā Rouba os Meninos e os Bezerros”.