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Purport

Capítulo Quatro

As Orações Haṁsa-guhya Oferecidas ao Senhor pelo Prajāpati Dakṣa

Depois que Mahārāja Parīkṣit solicitou a Śukadeva Gosvāmī que descrevesse de maneira mais pormenorizada a criação das entidades vivas dentro deste universo, Śukadeva Gosvāmī lhe informou que, quando os Pracetās, os dez filhos de Prācīnabarhi, entraram no mar para executar austeridades, o planeta Terra ficou negligenciado porque não havia rei para governá-lo. Naturalmente, muitas ervas daninhas e árvores desnecessárias cresceram, e não se produziram grãos alimentícios. Na verdade, toda a terra ficou parecendo uma floresta. Ao saírem do mar e ver o mundo inteiro repleto de árvores, os dez Pracetās ficaram muito irados contra as árvores e decidiram destruir todas elas para corrigir a irregularidade. Assim, os Pracetās criaram vento e fogo para reduzir as árvores a cinzas. Entretanto, Soma, o rei da Lua e o rei de toda a vegetação, proibiu os Pracetās de destruírem as árvores, já que elas são fonte de frutas e flores para todos os seres vivos. Simplesmente para satisfazer os Pracetās, Soma lhes deu uma bela moça nascida de Pramlocā Apsarā. Através do sêmen de todos os Pracetās, Dakṣa nasceu daquela moça.
No começo, Dakṣa criou todos os semideuses, demônios e seres humanos, mas, ao notar que a população não aumentava apropriadamente, ele aceitou sannyāsa e se dirigiu à montanha Vindhya, onde se submeteu a rigorosas austeridades e ofereceu ao Senhor Viṣṇu uma oração específica, conhecida como Haṁsa-guḥya, através da qual o Senhor Viṣṇu ficou muito satisfeito com ele. O conteúdo da oração era o seguinte.
“A Suprema Personalidade de Deus, a Superalma, o Senhor Hari, é o controlador tanto das entidades vivas quanto da natureza mate­rial. Ele é autossuficiente e autoiluminado. Assim como o tema da percepção não é a causa de nossos sentidos perceptivos, do mesmo modo, a entidade viva, embora situada dentro de seu próprio corpo, não é a causa de seu amigo eterno, a Superalma, que é a causa da criação de todos os sentidos. Devido à ignorância, a entidade viva ocupa seus sentidos em objetos materiais. Como tem vida, a entidade viva pode, até certo ponto, entender a criação deste mundo material, mas não pode entender a Suprema Personalidade de Deus, que está além do conceito de corpo, mente e inteligência. Contudo, os grandes sábios que sempre estão em meditação podem ver dentro de seus corações a forma pessoal do Senhor.”
“Dado que o ser vivo comum está materialmente contaminado, suas palavras e sua inteligência também são materiais. Portanto, não é se valendo de seus sentidos materiais que ele compreenderá a Suprema Personalidade de Deus. O conceito atinente a Deus a que se chega através dos sentidos materiais é impreciso porque o Senhor Supremo está além dos sentidos materiais, mas, quando alguém ocupa seus sentidos em serviço devocional, a eterna Suprema Personali­dade de Deus revela-Se na plataforma da alma. Quando essa Divindade Suprema torna-Se a meta da vida de alguém, afirma-se que ele alcançou o conhecimento espiritual.”
“O Brahman Supremo é a causa de todas as causas porque existia originalmente, antes da criação. Ele é a causa que origina todas as coisas, tanto materiais quanto espirituais, e Sua existência é independente. Entretanto, o Senhor tem uma potência chamada avidyā, a energia ilusória, que induz o falso argumentador a se julgar per­feito e que leva a energia ilusória a confundir a alma condicionada. Esse Brahman Supremo, a Superalma, é muito afetuoso com Seus devotos. Para lhes conceder misericórdia, Ele revela a Sua forma, nome, atributos e qualidades para serem adorados dentro deste mundo material.”
“Infelizmente, entretanto, aqueles que estão absortos na matéria adoram vários semideuses. Assim como, ao entrar em contato com uma flor de lótus, o ar transporta o perfume da flor, ou assim como o ar às vezes carrega poeira e, portanto, assume cores, a Suprema Personalidade de Deus aparece como os diversos semideuses de acordo com o desejo de vários de Seus adoradores que agem como tolos, mas, na realidade, Ele é a verdade suprema, o Senhor Viṣṇu. Para satisfazer os desejos dos Seus devotos, Ele aparece sob várias encarnações e, portanto, não se faz necessário adorar os semideuses.”
Ficando muito satisfeito com as orações de Dakṣa, o Senhor Viṣṇu, com oito braços, apareceu diante de Dakṣa. O Senhor vestia-Se com roupas amarelas e tinha uma tez enegrecida. Compreendendo que Dakṣa estava muito ansioso por seguir o caminho do desfrute, o Senhor lhe concedeu a potência de desfrutar da energia ilusória. O Senhor lhe ofereceu a filha de Pañcajana chamada Asiknī, que era apropriada para o desfrute sexual de Mahārāja Dakṣa. Na ver­dade, ele recebeu esse nome, Dakṣa, porque era muito hábil na vida sexual. Após conceder esta bênção, o Senhor Viṣṇu desapareceu.
श्रीराजोवाच
देवासुरनृणां सर्गो नागानां मृगपक्षिणाम् ।
सामासिकस्त्वया प्रोक्तो यस्तु स्वायम्भुवेऽन्तरे ॥ १ ॥
तस्यैव व्यासमिच्छामि ज्ञातुं ते भगवन् यथा ।
अनुसर्गं यया शक्त्या ससर्ज भगवान् पर: ॥ २ ॥
śrī-rājovāca
devāsura-nṛṇāṁ sargo
nāgānāṁ mṛga-pakṣiṇām
sāmāsikas tvayā prokto
yas tu svāyambhuve ’ntare
tasyaiva vyāsam icchāmi
jñātuṁ te bhagavan yathā
anusargaṁ yayā śaktyā
sasarja bhagavān paraḥ

Synonyms

śrī-rājā uvācao rei disse; deva-asura-nṛṇāmdos semideuses, dos demônios e dos seres humanos; sargaḥa criação; nāgānāmdas Nāgas (entidades vivas serpentinas); mṛga-pakṣiṇāmdas feras e dos pássaros; sāmāsikaḥbrevemente; tvayāpor ti; proktaḥdescrita; yaḥa qual; tucontudo; svāyambhuvede Svāyambhuva Manu; antaredentro do período; tasyadisto; evana verdade; vyāsamo relato pormenorizado; icchāmidesejo; jñātumconhecer; tede ti; bhagavanó meu senhor; yathābem como; anusargama criação subsequente; yayāatravés da qual; śaktyāpotência; sa­sarjacriou; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; paraḥtranscendental.

Translation

O abençoado rei disse a Śukadeva Gosvāmī: Meu querido senhor, os semideuses, os demônios, os seres humanos, as Nāgas, as feras e os pássaros foram criados durante o reinado de Svāyambhuva Manu. Falaste brevemente sobre essa criação [no terceiro canto]. Agora, desejo saber sobre isso em pormenores. Também desejo saber sobre a potência da Suprema Personalidade de Deus através da qual Ele efetuou a criação secundária.
श्रीसूत उवाच
इति सम्प्रश्नमाकर्ण्य राजर्षेर्बादरायणि: ।
प्रतिनन्द्य महायोगी जगाद मुनिसत्तमा: ॥ ३ ॥
śrī-sūta uvāca
iti sampraśnam ākarṇya
rājarṣer bādarāyaṇiḥ
pratinandya mahā-yogī
jagāda muni-sattamāḥ

Synonyms

śrī-sūtaḥ uvācaSūta Gosvāmī disse; itiassim; sampraśnama pergunta; ākarṇyaouvindo; rājarṣeḥdo rei Parīkṣit; bādarāyaṇiḥŚukadeva Gosvāmī; pratinandyalouvando; mahā-yogīo grande yogī; jagādarespondeu; muni-sattamāḥó melhores entre os sábios.

Translation

Sūta Gosvāmī disse: Ó grandes sábios [reunidos em Naimiṣāraya], após ouvir a pergunta do rei Parīkṣit, o grande yogī Śukadeva Go­svāmī a louvou e respondeu da seguinte maneira.
श्रीशुक उवाच
यदा प्रचेतस: पुत्रा दश प्राचीनबर्हिष: ।
अन्त:समुद्रादुन्मग्ना दद‍ृशुर्गां द्रुमैर्वृताम् ॥ ४ ॥
śrī-śuka uvāca
yadā pracetasaḥ putrā
daśa prācīnabarhiṣaḥ
antaḥ-samudrād unmagnā
dadṛśur gāṁ drumair vṛtām

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚukadeva Gosvāmī disse; yadāquando; pracetasaḥos Pracetās; putrāḥos filhos; daśadez; prācīnabarhi­ṣaḥdo rei Prācīnabarhi; antaḥ-samudrātde dentro do oceano; unmagnāḥemergiram; dadṛśuḥeles viram; gāmtodo o plane­ta; drumaiḥ vṛtāmcoberto de árvores.

Translation

Śukadeva Gosvāmī disse: Ao emergirem das águas, nas quais estavam executando austeridades, os dez filhos de Prācīnabarhi viram que toda a superfície do mundo estava coberta de árvores.

Purport

SIGNIFICADO—Quando o rei Prācīnabarhi estava realizando rituais védicos nos quais se recomendava a matança de animais, Nārada Muni, por compaixão, aconselhou-o a não continuar com essa atividade. Prācīna­barhi entendeu Nārada adequadamente e, então, deixou o reino para praticar austeridades na floresta. Entretanto, seus dez filhos estavam executando austeridades dentro da água e, por conseguinte, não havia rei para zelar pela administração do mundo. Quando os dez filhos, os Pracetās, saíram da água, viram que a terra estava abarrotada de árvores.
Quando o governo negligencia a agricultura, que é necessária para a produção de alimentos, a terra se cobre de árvores desnecessárias. Evidentemente, muitas árvores são úteis porque produzem frutas e flores, mas muitas outras são desnecessárias. Elas poderiam ser usadas como combustível e a terra ficaria limpa e adequada para o uso agrícola. Quando o governo é negligente, há menos produção de grãos. Como se afirma na Bhagavad-gītā (18.44), kṛṣi-go-rakṣya-vāṇijyaṁ vaiśya-karma svabhāva jam: as ocupações próprias para os vaiśyas, de acordo com a sua natureza, são a agricultura e a proteção às vacas. O dever do governo e dos katriyas é atentar para que os membros da terceira classe, os vaiśyas, que não são brāhmaṇas nem kṣatriyas, desempenhem essa sua devida ocupa­ção. Aos kṣatriyas, cabe proteger os seres humanos, ao passo que, aos vaiśyas, cabe proteger os animais úteis, especialmente as vacas.
द्रुमेभ्य: क्रुध्यमानास्ते तपोदीपितमन्यव: ।
मुखतो वायुमग्निं च ससृजुस्तद्दिधक्षया ॥ ५ ॥
drumebhyaḥ krudhyamānās te
tapo-dīpita-manyavaḥ
mukhato vāyum agniṁ ca
sasṛjus tad-didhakṣayā

Synonyms

drumebhyaḥcontra as árvores; krudhyamānāḥestando muito irados; teeles (os dez filhos de Prācīnabarhi); tapaḥ-dīpita-manya­vaḥcuja ira estava acesa devido às longas austeridades; mukhataḥda boca; vāyumvento; agnimfogo; cae; sasṛjuḥeles produziram; tataquelas florestas; didhakṣayācom o desejo de queimar.

Translation

Por terem se submetido a demoradas austeridades na água, os Pracetās ficaram muito irritados de ver tantas árvores. Desejando reduzi-las a cinzas, produziram vento e fogo de suas bocas.

Purport

SIGNIFICADO—Aqui, a palavra tapo-dīpita-manyavaḥ indica que as pessoas que se submeteram a rigorosas austeridades (tapasya) estão dotadas de grande poder místico, como se vê no exemplo dos Pracetās, que produziram fogo e vento a partir de suas bocas. Embora se submetam a um tipo severo de tapasya, os devotos são vimanyavaḥ, sādhavaḥ, o que significa que nunca ficam irados. Eles sempre estão decorados com boas qualidades. O Bhāgavatam (3.25.21) afirma:
titikṣavaḥ kāruṇikāḥ
suhṛdaḥ sarva-dehinām
ajāta-śatravaḥ śāntāḥ
sādhavaḥ sādhu-bhūṣaṇāḥ
Um sādhu, um devoto, jamais se ira. Na verdade, o verdadeiro aspecto dos devotos que se submetem a tapasya, austeridade, é sua capacidade de perdoar. Embora adquira suficiente poder ao realizar tapasya, o vaiṣṇava não se enraivece quando posto em dificuldades. Contudo, quem se submete a tapasya, mas não se torna vaiṣṇava, não desenvolve boas qualidades. Por exemplo, Hiraṇyakaśipu e Rāvaṇa também executaram grandes austeridades, mas com o propósito de demonstrar suas tendências demoníacas. Ao pregarem as glórias do Senhor, os vaiṣṇavas têm que se defrontar com muitos oponentes, mas Śrī Caitanya Mahāprabhu recomenda que não fiquem irados enquanto pregam. O Senhor Caitanya forneceu esta fórmula, tṛṇād api sunīcena taror api sahiṣṇunā/ amāninā mānadena kīrtanīyaḥ sadā hariḥ: “Deve-se cantar o santo nome do Senhor em um estado mental humilde, considerando-se inferior à palha na rua; é preciso ser mais tolerante do que uma árvore, desprovido de todo o sentido de falso pres­tígio e deve-se estar pronto para oferecer todo respeito aos outros. Nesse estado mental, pode-se cantar o santo nome do Senhor cons­tantemente.” Aqueles que estão ocupados em pregar as glórias do Senhor devem ser mais humildes do que a grama e mais tolerantes do que uma árvore; então, eles podem facilmente pregar as glórias do Senhor.
ताभ्यां निर्दह्यमानांस्तानुपलभ्य कुरूद्वह ।
राजोवाच महान् सोमो मन्युं प्रशमयन्निव ॥ ६ ॥
tābhyāṁ nirdahyamānāṁs tān
upalabhya kurūdvaha
rājovāca mahān somo
manyuṁ praśamayann iva

Synonyms

tābhyāmpelo vento e pelo fogo; nirdahyamānānsendo queimadas; tāna elas (as árvores); upalabhyavendo; kurūdvahaó Mahārāja Parīkṣit; rājāo rei da floresta; uvācadisse; mahāno grande; somaḥSomadeva, a deidade que predomina a Lua; manyuma ira; praśamayanapaziguando; ivacomo.

Translation

Meu querido rei Parīkṣit, quando Soma, o rei das árvores e a dei­dade que predomina a Lua, viu o fogo e o vento reduzindo todas as árvores a cinzas, sentiu muita compaixão porque é o mantenedor de todas as ervas e árvores. Para apaziguar a ira dos Pracetās, Soma falou o seguinte.

Purport

SIGNIFICADO—Compreende-se por meio deste verso que a deidade que predomina a Lua é o mantenedor de todas as árvores e plantas do universo inteiro. É devido ao luar que as árvores e plantas crescem com grande exuberância. Portanto, como podemos concordar com os pretensos cientistas cujas expedições lunares nos informam que não existem árvores nem vegetação na Lua? Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura diz que somo vṛkṣādhiṣṭhātā sa eva vṛkṣāṇāṁ rājā: Soma, a deidade que predomina a Lua, é o rei de toda a vegetação. Como podemos aceitar que o mantenedor da vegetação não tenha vegetação em seu próprio planeta?
न द्रुमेभ्यो महाभागा दीनेभ्यो द्रोग्धुमर्हथ ।
विवर्धयिषवो यूयं प्रजानां पतय: स्मृता: ॥ ७ ॥
na drumebhyo mahā-bhāgā
dīnebhyo drogdhum arhatha
vivardhayiṣavo yūyaṁ
prajānāṁ patayaḥ smṛtāḥ

Synonyms

nanão; drumebhyaḥas árvores; mahā-bhāgāḥó afortunadíssimos; dīnebhyaḥque são indefesas; drogdhumreduzir a cinzas; arhathamereceis; vivardhayiṣavaḥdesejando provocar um aumento; yūyamvós; prajānāmde todas as entidades vivas que se refugiaram em vós; patayaḥos mestres ou protetores; smṛtāḥconhecidos como.

Translation

Ó afortunadíssimos, não deveis matar essas pobres árvores reduzindo as mesmas a cinzas. Cabe a vós desejar a prosperidade de todos os cidadãos [prajās] e agir como seus protetores.

Purport

SIGNIFICADO—Aqui se indica que o governante ou o rei têm o dever de proteger não apenas os seres humanos, mas todas as outras entidades vivas, incluindo os animais, as árvores e as plantas. Nenhuma entidade viva deve ser morta sem necessidade.
अहो प्रजापतिपतिर्भगवान् हरिरव्यय: ।
वनस्पतीनोषधीश्च ससर्जोर्जमिषं विभु: ॥ ८ ॥
aho prajāpati-patir
bhagavān harir avyayaḥ
vanaspatīn oṣadhīś ca
sasarjorjam iṣaṁ vibhuḥ

Synonyms

ahooh; prajāpati-patiḥo Senhor de todos os senhores dos seres criados; bhagavān hariḥHari, a Suprema Personalidade de Deus; avyayaḥindestrutível; vanaspatīnas árvores e as plantas; oṣadhīḥas ervas; cae; sasarjacriou; ūrjamrevigorante; iṣamalimento; vibhuḥo Ser Supremo.

Translation

Śrī Hari, a Suprema Personalidade de Deus, é o mestre de todas as entidades vivas, incluindo todos os prajāpatis, tais como o senhor Brahmā. Porque Ele é o mestre onipenetrante e indestrutível, Ele criou todas essas árvores e vegetais para servirem de alimento a outras entidades vivas.

Purport

SIGNIFICADO—Soma, a deidade que predomina a Lua, lembrou aos Pracetās que essa vegetação fora criada pelo Senhor dos senhores para fornecer alimentos a todos. Se os Pracetās decidissem matá-las, seus próprios súditos também sofreriam, pois as árvores também são necessárias para a alimentação.
अन्नं चराणामचरा ह्यपद: पादचारिणाम् ।
अहस्ता हस्तयुक्तानां द्विपदां च चतुष्पद: ॥ ९ ॥
annaṁ carāṇām acarā
hy apadaḥ pāda-cāriṇām
ahastā hasta-yuktānāṁ
dvi-padāṁ ca catuṣ-padaḥ

Synonyms

annamalimento; carāṇāmdaqueles que se movem com asas; acarāḥos inertes (frutas e flores); hina verdade; apadaḥas entidades vivas destituídas de pés, como a grama; pāda-cāriṇāmdos animais que se movem sobre pernas, tais como as vacas e o búfalo; ahastāḥanimais sem mãos; hasta-yuktānāmdos animais que têm garras, como os tigres; dvi-padāmdos seres humanos, que são bípedes; cae; catuḥ-padaḥos animais de quatro patas, como o veado.

Translation

Pelo arranjo da natureza, as frutas e as flores são consideradas o alimento dos insetos e dos pássaros; a grama e outras entidades vivas destituídas de pés destinam-se à alimentação dos animais de quatro patas, tais como as vacas e o búfalo; os animais que não podem usar suas pernas dianteiras como mãos se destinam a servir de alimento aos animais como os tigres, que têm garras; e os animais que, como o veado e os bodes, têm quatro patas, bem como os grãos alimentícios, destinam-se à alimentação dos seres humanos.

Purport

SIGNIFICADO—Pela lei da natureza, ou arranjo da Suprema Personalidade de Deus, uma espécie de entidade viva serve de alimento para outras entidades vivas. Como se menciona aqui, dvi-padāṁ ca catuṣ-padaḥ: os animais de quatro patas (catuṣ-padaḥ), bem como os grãos ali­mentícios, são os víveres dos seres humanos (dvi-padām). Esses animais de quatro patas são representados pelo veado e pelas cabras, e não pelas vacas, que devem ser protegidas. De um modo geral, os homens das classes superiores da sociedade – os brāhmaṇas, os kṣatriyas e os vaiśyas – não comem carne. Às vezes, para aprender a arte de matar, os kṣatriyas vão à floresta matar animais como o veado, e, algumas vezes vezes, eles também comem animais. Os śūdras, também, comem animais da espécie caprina. As vacas, entretanto, nunca devem ser mortas ou comidas pelos seres humanos. Todos os śāstras condenam peremptoriamente o abate de vacas. Na ver­dade, alguém que mata uma vaca tem que sofrer por tantos anos quantos são os números de pelos encontrados no corpo de uma vaca. A Manu-saṁhitā diz que pravṛttir eṣā bhūtānāṁ nivṛttis tu mahā­-phalā: neste mundo material, temos muitas tendências, mas, na vida humana, devemos aprender como controlar essas tendências. Aqueles que desejam comer carne podem satisfazer as exigências de suas línguas comendo animais inferiores, mas nunca devem matar vacas, que de fato são aceitas como mães da sociedade humana porque for­necem leite. Os śāstras recomendam especialmente que kṛṣi-go-rakṣya: a seção vaiśya da humanidade deve encarregar-se de providenciar alimento para toda a sociedade através de atividades agrícolas e deve dar completa proteção às vacas, que são os animais mais úteis, pois fornecem leite para a sociedade humana.
यूयं च पित्रान्वादिष्टा देवदेवेन चानघा: ।
प्रजासर्गाय हि कथं वृक्षान्निर्दग्धुमर्हथ ॥ १० ॥
yūyaṁ ca pitrānvādiṣṭā
deva-devena cānaghāḥ
prajā-sargāya hi kathaṁ
vṛkṣān nirdagdhum arhatha

Synonyms

yūyamvós; catambém; pitrāpor vosso pai; anvādiṣṭāḥordenados; deva-devenapela Suprema Personalidade de Deus, o mestre dos mestres; catambém; anaghāḥó pessoas desprovidas de pecado; prajā-sargāyapara gerar população; hina verdade; kathamcomo; vṛkṣānas árvores; nirdagdhumde reduzir a cinzas; arhathasois capazes.

Translation

Ó pessoas de coração puro, Prācīnabarhi, vosso pai, e a Suprema Personalidade de Deus ordenaram-vos que gerásseis população. Portanto, como é que reduzis a cinzas essas árvores e ervas, neces­sárias à manutenção de vossos súditos e descendentes?
आतिष्ठत सतां मार्गं कोपं यच्छत दीपितम् ।
पित्रा पितामहेनापि जुष्टं व: प्रपितामहै: ॥ ११ ॥
ātiṣṭhata satāṁ mārgaṁ
kopaṁ yacchata dīpitam
pitrā pitāmahenāpi
juṣṭaṁ vaḥ prapitāmahaiḥ

Synonyms

ātiṣṭhatasimplesmente segui; satām mārgamo caminho das grandes personalidades santas; kopama ira; yacchatasubjugai; dīpitamque agora foi despertada; pitrāpelo pai; pitāmahena apie pelo avô; juṣṭamtrilhado; vaḥvossos; prapitāmahaiḥpelos bisavós.

Translation

O caminho da bondade trilhado por vosso pai, avô e bisavós é aquele em que se zela pelos súditos [prajās], incluindo homens, animais e árvores. É esse o caminho que deveis seguir. A ira desnecessária contraria o vosso dever. Portanto, peço-vos que controleis vossa raiva.

Purport

SIGNIFICADO—Aqui, as palavras pitrā pitāmahenāpi juṣṭaṁ vaḥ prapitāmahaiḥ retratam uma honesta família real, formada de reis, de seus pais, de seus avós e de seus bisavós. Semelhante família real possui uma posição prestigiosa porque mantém os cidadãos, ou prajās. A palavra prajā se refere a alguém que nasce dentro da jurisdição do governo. As nobres famílias reais eram cônscias de que todos os seres vivos, quer fossem pessoas, quer animais, quer entidades inferiores aos animais, deveriam receber proteção. O sistema democrático moderno não pode ser enaltecido dessa maneira, pois os líderes eleitos lutam apenas pelo poder e não têm senso de responsabilidade. Em uma monarquia, o rei que tem posição prestigiosa segue os grandes feitos de seus antepassados. Assim, Soma, o rei da Lua, aproveita para fazer com que os Pracetās se lembrem das glórias de seu pai, avô e bisavós.
तोकानां पितरौ बन्धू द‍ृश: पक्ष्म स्त्रिया: पति: ।
पति: प्रजानां भिक्षूणां गृह्यज्ञानां बुध: सुहृत् ॥ १२ ॥
tokānāṁ pitarau bandhū
dṛśaḥ pakṣma striyāḥ patiḥ
patiḥ prajānāṁ bhikṣūṇāṁ
gṛhy ajñānāṁ budhaḥ suhṛt

Synonyms

tokānāmdos filhos; pitarauambos os progenitores; bandhūos amigos; dṛśaḥdo olho; pakṣmaa pálpebra; striyāḥda mulher; patiḥo esposo; patiḥo protetor; prajānāmdos súdi­tos; bhikṣūṇāmdos pedintes; gṛhīo pai de família; ajñānāmdos ignorantes; budhaḥo sábio; su-hṛto amigo.

Translation

Assim como o pai e a mãe são os amigos e mantenedores de seus filhos, assim como a pálpebra é a protetora dos olhos, assim como o esposo é o mantenedor e protetor da esposa, assim como o pai de família é o mantenedor e protetor dos pedintes, e assim como o sábio é amigo dos ignorantes, do mesmo modo, o rei é o protetor de todos os seus súditos, e é ele quem lhes dá vida. As árvores também são súditas do rei. Portanto, elas devem receber proteção.

Purport

SIGNIFICADO—De acordo com a vontade suprema da Personalidade de Deus, existem vários protetores e mantenedores das entidades vivas desamparadas. As árvores também são consideradas prajās, súditas do rei, e se ao monarca cabe proteger inclusive as árvores, o que dizer, então, de ele ter que proteger os outros seres? O rei tem por obrigação proteger as entidades vivas que estão em seu reino. Assim, embora os pais sejam diretamente responsáveis pela proteção e manutenção dos seus filhos, cabe ao rei zelar para que todos os pais cumpram seu dever adequadamente. Do mesmo modo, o rei também deve super­visionar os outros protetores mencionados neste verso. Também convém atentar que os pedintes que devem ser mantidos pelos pais de família não são os pedintes profissionais, mas os sannyāsīs e brāhmaṇas, a quem os pais de família devem fornecer alimentos e roupas.
अन्तर्देहेषु भूतानामात्मास्ते हरिरीश्वर: ।
सर्वं तद्धिष्ण्यमीक्षध्वमेवं वस्तोषितो ह्यसौ ॥ १३ ॥
antar deheṣu bhūtānām
ātmāste harir īśvaraḥ
sarvaṁ tad-dhiṣṇyam īkṣadhvam
evaṁ vas toṣito hy asau

Synonyms

antaḥ deheṣudentro dos corpos (no âmago dos corações); bhūtānāmde todas as entidades vivas; ātmāa Superalma; āstereside; hariḥa Suprema Personalidade de Deus; īśvaraḥo Senhor ou dirigente; sarvamtodos; tat-dhiṣṇyamSua residência; īkṣadhvamprocurai ver; evamdessa maneira; vaḥconvosco; toṣitaḥsatisfeito; hina verdade; asauessa Suprema Personalidade de Deus.

Translation

Como Superalma, a Suprema Personalidade de Deus situa-Se no âmago do coração de todas as entidades vivas, móveis ou inertes, incluindo homens, pássaros, animais, árvores e, na verdade, todas as entidades vivas. Portanto, deveis considerar todos os corpos como residências ou templos do Senhor. Com essa visão, satisfareis o Senhor. Não deveis ficar irados e matar essas entidades vivas que estão sob a forma de árvores.

Purport

SIGNIFICADO—Como afirma a Bhagavad-gītā e confirmam todas as escrituras védicas, īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati: a Superalma está situada dentro do coração de todos. Portanto, como todos os corpos são residências do Senhor Supremo, ninguém deve destruir o corpo somente por causa da inveja desnecessária. Esse comportamento traz insatisfação à Superalma. Soma disse aos Pracetās que, depois de terem tentado satisfazer a Superalma, não deveriam agora deixá-lA insatisfeita.
य: समुत्पतितं देह आकाशान्मन्युमुल्बणम् ।
आत्मजिज्ञासया यच्छेत्स गुणानतिवर्तते ॥ १४ ॥
yaḥ samutpatitaṁ deha
ākāśān manyum ulbaṇam
ātma-jijñāsayā yacchet
sa guṇān ativartate

Synonyms

yaḥqualquer pessoa que; samutpatitamsubitamente desper­tada; deheno corpo; ākāśātdo céu; manyumira; ulbaṇampoderosa; ātma-jijñāsayābuscando realização espiritual ou autorrealização; yacchetsubjuga; saḥessa pessoa; guṇānos modos da natureza material; ativartatetranscende.

Translation

Aquele que busca autorrealização e, dessa maneira, subjuga sua poderosa ira – que costuma despertar subitamente no corpo como se caísse do céu – transcende a influência dos modos da natureza material.

Purport

SIGNIFICADO—Quando alguém se ira, esquece-se de si mesmo e de sua situação, mas quem é sábio para ponderar sua situação, transcenderá a influência dos modos da natureza material. Todos estão sempre servindo aos desejos luxuriosos, a ira, a cobiça, a ilusão, a inveja e assim por diante, mas aquele que obtém forças suficientes para avançar espi­ritualmente pode controlar tudo isso. Aquele que obtém esse con­trole estará sempre situado transcendentalmente, imune aos modos da natureza material. Isso é possível apenas a quem se ocupa plena­mente a serviço do Senhor. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (14.26):
māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
“Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno e não falha em circunstância alguma, transcende de imediato os modos da natureza material e chega, então, ao nível de Brahman.” Ocupando as pessoas em serviço devocional, o movimento da consciência de Kṛṣṇa as mantém sempre transcendentais à ira, à cobiça, à luxúria, à inveja e assim por diante. Devemos prestar serviço devocional, ou seremos vitimados pelos modos da natureza material.
अलं दग्धैर्द्रुमैर्दीनै: खिलानां शिवमस्तु व: ।
वार्क्षी ह्येषा वरा कन्या पत्नीत्वे प्रतिगृह्यताम् ॥ १५ ॥
alaṁ dagdhair drumair dīnaiḥ
khilānāṁ śivam astu vaḥ
vārkṣī hy eṣā varā kanyā
patnītve pratigṛhyatām

Synonyms

alamo bastante; dagdhaiḥcom a queimada; drumaiḥas árvores; dīnaiḥindefesas; khilānāmdas árvores sobreviventes; śivamtoda a boa fortuna; astuque haja; vaḥde vós; vārkṣīcriada pelas árvores; hina verdade; eṣāesta; varāseleta; kanyāfilha; patnītvecomo esposa; pratigṛhyatāmque ela seja aceita.

Translation

Não há necessidade de continuardes incinerando essas pobres ár­vores. Deixai que todas as árvores sobreviventes sejam felizes. Na verdade, também deveis ser felizes. Portanto, tendes aqui uma jovem chamada Māriṣā, que é bela e muito bem qualificada e que as árvores criaram como sua própria filha. Deveis aceitar essa bela jovem como vossa esposa.
इत्यामन्‍त्र्‍य वरारोहां कन्यामाप्सरसीं नृप ।
सोमो राजा ययौ दत्त्वा ते धर्मेणोपयेमिरे ॥ १६ ॥
ity āmantrya varārohāṁ
kanyām āpsarasīṁ nṛpa
somo rājā yayau dattvā
te dharmeṇopayemire

Synonyms

itiassim; āmantryadirigindo-se; vara-ārohāmpossuindo quadris belíssimos e elevados; kanyāma jovem; āpsarasīmnascida de uma Apsarā; nṛpaó rei; somaḥSoma, a deidade que predo­mina a Lua; rājāo rei; yayauregressou; dattvāentregando; teeles; dharmeṇade acordo com os princípios religiosos; upaye­mirecasaram-se com.

Translation

Śukadeva Gosvāmī continuou: Meu querido rei, após apaziguar assim os Pracetās, Soma, o rei da Lua, deu-lhes a bela jovem, nascida de Pramlocā Apsarā. Todos os Pracetās receberam a filha de Pramlocā, que tinha quadris belíssimos e elevados, e se casaram com ela de acordo com o sistema religioso.
तेभ्यस्तस्यां समभवद् दक्ष: प्राचेतस: किल ।
यस्य प्रजाविसर्गेण लोका आपूरितास्त्रय: ॥ १७ ॥
tebhyas tasyāṁ samabhavad
dakṣaḥ prācetasaḥ kila
yasya prajā-visargeṇa
lokā āpūritās trayaḥ

Synonyms

tebhyaḥde todos os Pracetās; tasyāmnela; samabhavatfoi gerado; dakṣaḥDakṣa, perito em gerar filhos; prācetasaḥo filho dos Pracetās; kilana verdade; yasyacujo; prajā-visargeṇaprocesso de gerar entidades vivas; lokāḥos mundos; āpūritāḥencheu; trayaḥtrês.

Translation

No ventre daquela jovem, todos os Pracetās geraram um filho cha­mado Dakṣa, que encheu os três mundos com entidades vivas.

Purport

SIGNIFICADO—Dakṣa nasceu primeiramente durante o reinado de Svāyambhuva Manu, mas, por ter ofendido o senhor Śiva, ele recebeu a punição de que, em vez de sua cabeça, ficaria com uma cabeça de bode.
Com esse castigo, teve que abandonar esse corpo, e, no sexto manvantara, chamado manvantara Cākṣuṣa, ele nasceu do ventre de Māriṣā como Dakṣa. Com relação a isso, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura cita este verso:
cākṣuṣe tv antare prāpte
prāk-sarge kāla-vidrute
yaḥ sasarja prajā iṣṭāḥ
sa dakṣo daiva-coditaḥ
“Seu corpo anterior fora destruído, mas ele, o mesmo Dakṣa, inspirado pela vontade suprema, criou, no manvantara Cākṣuṣa, todas as entidades vivas desejadas.” (Śrīmad-Bhāgavatam 4.30.49) Assim, Dakṣa conseguiu reaver sua opulência anterior e novamente gerou milhares e milhões de filhos para encherem os três mundos.
यथा ससर्ज भूतानि दक्षो दुहितृवत्सल: ।
रेतसा मनसा चैव तन्ममावहित: श‍ृणु ॥ १८ ॥
yathā sasarja bhūtāni
dakṣo duhitṛ-vatsalaḥ
retasā manasā caiva
tan mamāvahitaḥ śṛṇu

Synonyms

yathācomo; sasarjacriou; bhūtānias entidades vivas; dakṣaḥDakṣa; duhitṛ-vatsalaḥque é muito afetuoso com suas filhas; retasāatravés do sêmen; manasāatravés da mente; catambém; evana verdade; tatisto; mamade mim; avahitaḥficando atento; śṛṇupor favor, ouve.

Translation

Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Por favor, ouve com muita atenção enquanto narro como foi que o Prajāpati Dakṣa, que tinha muita afeição por suas filhas, criou, através do seu sêmen e de sua mente, diferentes espécies de entidades vivas.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra duhitṛ-vatsalaḥ denota que todos os prajās nasceram das filhas de Dakṣa. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura diz que, aparentemente, Dakṣa não teve nenhum filho.
मनसैवासृजत्पूर्वं प्रजापतिरिमा: प्रजा: ।
देवासुरमनुष्यादीन्नभ:स्थलजलौकस: ॥ १९ ॥
manasaivāsṛjat pūrvaṁ
prajāpatir imāḥ prajāḥ
devāsura-manuṣyādīn
nabhaḥ-sthala-jalaukasaḥ

Synonyms

manasācom a mente; evana verdade; asṛjatcriou; pūrvamno começo; prajāpatiḥo prajāpati (Dakṣa); imāḥessas; prajāḥentidades vivas; devaos semideuses; asuraos demônios; manuṣya­-ādīne outras entidades vivas, encabeçadas pelos seres humanos; nabhaḥnos céus; sthalana terra; jalaou dentro da água; okasaḥque têm suas moradas.

Translation

Com sua mente, o prajāpati Dakṣa primeiramente criou todas as classes de semideuses, demônios, seres humanos, pássaros, feras, seres aquáticos e assim por diante.
तमबृंहितमालोक्य प्रजासर्गं प्रजापति: ।
विन्ध्यपादानुपव्रज्य सोऽचरद्‌दुष्करं तप: ॥ २० ॥
tam abṛṁhitam ālokya
prajā-sargaṁ prajāpatiḥ
vindhya-pādān upavrajya
so ’carad duṣkaraṁ tapaḥ

Synonyms

tamisto; abṛṁhitamnão aumentando; ālokyavendo; prajā-­sargama criação das entidades vivas; prajāpatiḥDakṣa, o gerador das entidades vivas; vindhya-pādānas montanhas situadas perto da cordilheira Vindhya; upavrajyaindo para; saḥele; acaratexecutou; duṣkaramdificílimas; tapaḥausteridades.

Translation

Contudo, ao perceber que não estava gerando adequadamente todas as espécies de entidades vivas, o prajāpati Dakṣa se aproximou de uma montanha situada perto da cordilheira Vindhya, onde, então, executou austeridades dificílimas.
तत्राघमर्षणं नाम तीर्थं पापहरं परम् ।
उपस्पृश्यानुसवनं तपसातोषयद्धरिम् ॥ २१ ॥
tatrāghamarṣaṇaṁ nāma
tīrthaṁ pāpa-haraṁ param
upaspṛśyānusavanaṁ
tapasātoṣayad dharim

Synonyms

tatra; aghamarṣaṇamAghamarṣaṇa; nāmachamado; tīrthamo lugar sagrado; pāpa-haramadequado para destruir todas as reações pecaminosas; parammelhor; upaspṛśyaexe­cutando ācamana e se banhando; anusavanamregularmente; tapa­sācom a austeridade; atoṣayatdeu prazer; harimà Suprema Personalidade de Deus.

Translation

Perto dessa montanha, havia um lugar sacratíssimo, chamado Aghamarṣaṇa. Ali, o Prajāpati Dakṣa executou cerimônias ritualísticas e satisfez a Suprema Personalidade de Deus, ocupando-se em grandes austeridades para o prazer de Hari.
अस्तौषीद्धंसगुह्येन भगवन्तमधोक्षजम् ।
तुभ्यं तदभिधास्यामि कस्यातुष्यद्यथा हरि: ॥ २२ ॥
astauṣīd dhaṁsa-guhyena
bhagavantam adhokṣajam
tubhyaṁ tad abhidhāsyāmi
kasyātuṣyad yathā hariḥ

Synonyms

astauṣītsatisfeito; haṁsa-guhyenapelas célebres orações conhecidas como Haṁsa-guhya; bhagavantama Suprema Personalida­de de Deus; adhokṣajamque está além do alcance dos sentidos; tubhyama ti; tatisto; abhidhāsyāmiexplicarei; kasyacom Dakṣa, o prajāpati; atuṣyatficou satisfeito; yathācomo; hariḥa Suprema Personalidade de Deus.

Translation

Meu querido rei, eu te explicarei plenamente as orações Haṁsa-­guhya, que foram oferecidas à Suprema Personalidade de Deus por Dakṣa, e também te explicarei como o Senhor ficou satisfeito com ele devido a essas orações.

Purport

SIGNIFICADO—Convém salientar que as orações Haṁsa-guḥya não foram compostas por Dakṣa, senão que já existiam na literatura védica.
श्रीप्रजापतिरुवाच
नम: परायावितथानुभूतये
गुणत्रयाभासनिमित्तबन्धवे ।
अद‍ृष्टधाम्ने गुणतत्त्वबुद्धिभि-
र्निवृत्तमानाय दधे स्वयम्भुवे ॥ २३ ॥
śrī-prajāpatir uvāca
namaḥ parāyāvitathānubhūtaye
guṇa-trayābhāsa-nimitta-bandhave
adṛṣṭa-dhāmne guṇa-tattva-buddhibhir
nivṛtta-mānāya dadhe svayambhuve

Synonyms

śrī prajāpatiḥ uvācao prajāpati Dakṣa disse; namaḥtodas as respeitosas reverências; parāyaà Transcendência; avitathacor­reta; anubhūtayeàquele cuja potência espiritual torna-O compreen­sível aos demais; guṇa-trayados três modos da natureza material; ābhāsadas entidades vivas que têm o aspecto; nimittae da energia material; bandhaveao controlador; adṛṣṭa-dhāmneque não é percebido em Sua morada; guṇa-tattva-buddhibhiḥpelas almas condicionadas cuja inteligência rudimentar lhes impõe que a verdade insofismável encontra-se nas manifestações dos três modos da na­tureza material; nivṛtta-mānāyaque ultrapassou todas as mensurações e cálculos materiais; dadheofereço; svayambhuveao Senhor Supremo, que Se manifesta sem precisar ser impelido por alguma causa.

Translation

O prajāpati Dakṣa disse: A Suprema Personalidade de Deus é transcendental à energia ilusória e às categorias físicas que ela produz. Possui potência de conhecimento infalível e suprema força de von­tade, e Ele é o controlador das entidades vivas e da energia ilusória. As almas condicionadas que aceitaram esta manifestação material como tudo não podem vê-lO, pois Ele está acima do alcance do co­nhecimento experimental. Autoevidente e autossuficiente, nenhuma causa superior responde por Sua existência. Ofereço-Lhe minhas respeitosas reverências.

Purport

SIGNIFICADO—Nesta passagem, explica-se a posição transcendental da Suprema Personalidade de Deus. Ele não é perceptível às almas condicionadas, que estão acostumadas à visão material e não conseguem compreen­der que a Suprema Personalidade de Deus existe em Sua morada, a qual está além dessa visão. Mesmo que pudesse contar todos os átomos do universo, o materialista seria incapaz de entender a Suprema Personalidade de Deus. Como se confirma na Brahma-saṁhitā (5.34):
panthās tu koṭi-śata-vatsara-saṁpragamyo
vāyor athāpi manaso muni-puṅgavānām
so ’py asti yat-prapada-sīmny avicintya-tattve
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Através de sua especulação mental, viajando à velocidade da mente ou do vento, as almas condicionadas podem investir muitos bilhões de anos no processo de tentar entender a Suprema Personalidade de Deus, mas, mesmo assim, a Verdade Absoluta lhes permanecerá inconcebível porque nenhum materialista consegue medir o comprimento e a largura da ilimitada existência da Suprema Personalidade de Deus. Talvez alguém pergunte: se a Verdade Absoluta é incomen­surável, como seria possível compreendê-lA? A resposta é dada aqui através da palavra svayambhuve: quer alguém A entenda, quer não, Ela existe em Sua própria potência espiritual.
न यस्य सख्यं पुरुषोऽवैति सख्यु:
सखा वसन् संवसत: पुरेऽस्मिन् ।
गुणो यथा गुणिनो व्यक्तद‍ृष्टे-
स्तस्मै महेशाय नमस्करोमि ॥ २४ ॥
na yasya sakhyaṁ puruṣo ’vaiti sakhyuḥ
sakhā vasan saṁvasataḥ pure ’smin
guṇo yathā guṇino vyakta-dṛṣṭes
tasmai maheśāya namaskaromi

Synonyms

nanão; yasyacuja; sakhyamfraternidade; puruṣaḥa entidade viva; avaiticonhece; sakhyuḥdo amigo supremo; sakhāo amigo; vasanmorando; saṁvasataḥdaquele com quem reside; pureno corpo; asministo; guṇaḥo objeto da percepção sen­sorial; yathāassim como; guṇinaḥde seu respectivo órgão sen­sorial; vyakta-dṛṣṭeḥque supervisiona a manifestação material; tasmaia Ele; mahā-īśāyaao controlador supremo; namaskaromiofereço minhas reverências.

Translation

Assim como os objetos dos sentidos [forma, paladar, tato, aroma e som] não podem compreender como os sentidos os percebem, do mesmo modo, a alma condicionada, embora resida em seu corpo juntamente com a Superalma, não pode entender como a suprema pessoa espiritual, o mestre da criação material, dirige-lhe os sentidos. Ofereço minhas respeitosas reverências a essa Pessoa Suprema, que é o controlador supremo.

Purport

SIGNIFICADO—Juntas, a alma individual e a Alma Suprema vivem dentro do corpo. Isso é confirmado nas Upaniṣads através da analogia dos dois pássaros amigos que vivem em uma mesma árvore – um pássaro come o fruto da árvore e o outro simplesmente testemunha e dirige. Embora o ser vivo individual, que é comparado ao pássaro que está comendo, esteja sentado com seu amigo, a Alma Suprema, o ser vivo individual não pode vê-lo. Com efeito, a Superalma diri­ge o ser vivo para que, com as funções dos seus sentidos, obtenha o gozo dos objetos dos sentidos, mas, assim como os objetos dos sentidos não podem ver os sentidos, a alma condicionada não pode ver a alma dirigente. A alma condicionada tem desejos, e a Alma Suprema os satisfaz, mas a alma condicionada é incapaz de ver a Alma Suprema. Assim, embora incapaz de vê-lA, o prajāpati Dakṣa oferece suas reverências à Alma Suprema, à Superalma. Outro exem­plo que se apresenta é que, embora trabalhem sob a orientação do governo, os cidadãos comuns não entendem como estão sendo governados ou o que é o governo. Com relação a isso, Madhvācārya cita o seguinte verso do Skanda Purāṇa:
yathā rājñaḥ priyatvaṁ tu
bhṛtyā vedena cātmanaḥ
tathā jīvo na yat-sakhyaṁ
vetti tasmai namo ’stu te
“Assim como os vários servidores em diferentes departamentos de grandes estabelecimentos não podem ver o supremo diretor administrativo sob cuja supervisão estão trabalhando, as almas condicionadas não podem ver o amigo supremo que está sentado dentro de seus corpos. Ofereçamos, portanto, nossas respeitosas reverên­cias ao Supremo, que é invisível a nossos olhos materiais.”
देहोऽसवोऽक्षा मनवो भूतमात्रा-
मात्मानमन्यं च विदु: परं यत् ।
सर्वं पुमान् वेद गुणांश्च तज्ज्ञो
न वेद सर्वज्ञमनन्तमीडे ॥ २५ ॥
deho ’savo ’kṣā manavo bhūta-mātrām
ātmānam anyaṁ ca viduḥ paraṁ yat
sarvaṁ pumān veda guṇāṁś ca taj-jño
na veda sarva-jñam anantam īḍe

Synonyms

dehaḥeste corpo; asavaḥos ares vitais; akṣāḥos diversos sentidos; manavaḥa mente, a compreensão, o intelecto e o ego; bhūta-­mātrāmos cinco elementos materiais grosseiros e os objetos dos sentidos (forma, paladar, som e assim por diante); ātmānameles próprios; anyamnenhum outro; cae; viduḥconhecem; paramalém de; yataquilo que; sarvamtudo; pumāno ser vivo; vedaconhece; guṇānas qualidades da natureza material; cae; tat­-jñaḥconhecendo essas coisas; nanão; vedaconhece; sarva-­jñamao onisciente; anantamao ilimitado; īḍeofereço minhas respeitosas reverências.

Translation

Porque são apenas matéria, o corpo, os ares vitais, os sentidos internos e externos, os cinco elementos grosseiros e os objetos senso­riais sutis [forma, paladar, aroma, som e tato] não podem conhecer sua própria natureza, a natureza dos outros sentidos ou a natureza de seus controladores. Mas o ser vivo, por causa de sua natureza espiritual, pode conhecer seu corpo, os ares vitais, os sentidos, os elementos e os objetos dos sentidos, e também pode conhecer as três qualidades que formam suas raízes. Entretanto, embora esteja in­teiramente a par deles, o ser vivo é incapaz de ver o Ser Supremo, que é onisciente e ilimitado. Portanto, ofereço-Lhe minhas respei­tosas reverências.

Purport

SIGNIFICADO—Os cientistas materialistas podem fazer um estudo analítico dos elementos físicos, do corpo, dos sentidos, dos objetos dos sentidos e até mesmo do ar que controla a força vital, mas, ainda assim, não podem compreender que, acima de tudo isso, está a verdadeira alma espiritual. Em outras palavras, a entidade viva, devido ao fato de ser uma alma espiritual, pode entender todos os objetos materiais, ou, quando autorrealizada, pode entender o Paramātmā, em quem me­ditam os yogīs. Entretanto, o ser vivo, mesmo que seja avançado, não consegue entender o Ser Supremo, a Personalidade de Deus, pois, em todas as seis opulências, Ele é ananta, ilimitado.
यदोपरामो मनसो नामरूप-
रूपस्य द‍ृष्टस्मृतिसम्प्रमोषात् ।
य ईयते केवलया स्वसंस्थया
हंसाय तस्मै शुचिसद्मने नम: ॥ २६ ॥
yadoparāmo manaso nāma-rūpa-
rūpasya dṛṣṭa-smṛti-sampramoṣāt
ya īyate kevalayā sva-saṁsthayā
haṁsāya tasmai śuci-sadmane namaḥ

Synonyms

yadāquando em transe; uparāmaḥcessação completa; mana­saḥda mente; nāma-rūpanomes e formas materiais; rūpasyadaquilo pelo qual aparecem; dṛṣṭada visão material; smṛtie da lembrança; sampramoṣātdevido à destruição; yaḥquem (a Suprema Personalidade de Deus); īyateé percebido; kevalayāespiritual; sva-saṁsthayācom Sua própria forma original; haṁsāyaà pureza suprema; tasmaia Ele; śuci-sadmaneque é depreendido apenas no estado puro da existência espiritual; namaḥofereço minhas respeitosas reverências.

Translation

Quando a consciência de alguém está inteiramente purificada da contaminação da existência material, grosseira e sutil, sem se deixar envolver pela agitação dos estados trabalho e sonho, e quando a mente não se dissolve em situações que lembram suṣupti, o sono pro­fundo, o indivíduo chega à plataforma do transe. Então, sua visão material e as lembranças da mente, que manifestam nomes e formas, são sub­jugadas. Somente ao atingir esse transe é que Se revela a ele a Suprema Personalidade de Deus. Portanto, ofereçamos nossas respeitosas reverências à Suprema Personalidade de Deus, que é visível nesse estado transcendental e incontaminado.

Purport

SIGNIFICADO—Existem duas fases em que se pode compreender Deus. Uma se chama sujñeyam, ou compreendido com grande facilidade (geralmente, através da especulação mental), e a outra se chama durjñeyam, compreendido apenas com dificuldade. Compreender o Paramātmā e o Brahman é considerado sujñeyam, mas depreender a Suprema Personalidade de Deus é algo classificado como durjñeyam. Como se descreve aqui, entende de maneira definitiva a Personalidade de Deus quem abandona as atividades da mente – pensar, sentir e desejar – ou, em outras palavras, quando a espe­culação mental é descontinuada. Essa compreensão transcendental está acima de suṣupti, sono profundo. Em nossa fase condicionada grosseira, percebemos as coisas através da experiência e da lembrança materiais, e, na etapa sutil, percebemos o mundo nos sonhos. O processo de percepção também envolve a lembrança, e também existe sob uma forma sutil. Acima da experiência grosseira e dos sonhos, está suṣupti, o sono profundo, e quando alguém chega à plataforma inteiramente espiri­tual, transcendendo o sono profundo, ele alcança o transe, viśuddha­-sattva, ou vasudeva-sattva, no qual a Personalidade de Deus revela-Se.
Ataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi na bhaved grāhyam indriyaiḥ: enquanto alguém estiver situado em dualidade, na plataforma sensória, gros­seira ou sutil, não lhe será possível compreender a original Persona­lidade de Deus. Sevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ: porém, quando ele ocupar seus sentidos a serviço do Senhor – especificamente, quando ocupar a língua em cantar o mantra Hare Kṛṣṇa e em saborear apenas kṛṣṇa-prasāda em uma atitude de serviço –, a Suprema Personalidade de Deus Se revelará. Indicam isso neste verso as palavras śuci-sadmane. Śuci significa purificado. Com o es­pírito de prestar serviço por meio de seus sentidos, a pessoa transfe­re toda a sua existência para śuci-sadma – a plataforma de pureza completa. Dakṣa, portanto, oferece suas respeitosas reverências à Suprema Personalidade de Deus, que Se revela na plataforma de śuci-sadma. Com relação a isso, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura cita a seguinte oração que o senhor Brahmā profere no Śrīmad-­Bhāgavatam (10.14.6), tathāpi bhūman mahimāguṇasya te viboddhum arhaty amalāntar-ātmabhiḥ: “Ó meu Senhor, aquele cujo coração se purificou por completo pode entender as qualidades trans­cendentais de Vossa Onipotência e pode entender a grandeza de Vossas atividades.”
मनीषिणोऽन्तर्हृदि सन्निवेशितं
स्वशक्तिभिर्नवभिश्च त्रिवृद्भ‍ि: ।
वह्निं यथा दारुणि पाञ्चदश्यं
मनीषया निष्कर्षन्ति गूढम् ॥ २७ ॥
स वै ममाशेषविशेषमाया
निषेधनिर्वाणसुखानुभूति: ।
स सर्वनामा स च विश्वरूप:
प्रसीदतामनिरुक्तात्मशक्ति: ॥ २८ ॥
manīṣiṇo ’ntar-hṛdi sanniveśitaṁ
sva-śaktibhir navabhiś ca trivṛdbhiḥ
vahniṁ yathā dāruṇi pāñcadaśyaṁ
manīṣayā niṣkarṣanti gūḍham
sa vai mamāśeṣa-viśeṣa-māyā-
niṣedha-nirvāṇa-sukhānubhūtiḥ
sa sarva-nāmā sa ca viśva-rūpaḥ
prasīdatām aniruktātma-śaktiḥ

Synonyms

manīṣiṇaḥgrandes brāhmaṇas eruditos que executam cerimônias ritualísticas védicas e sacrifícios; antaḥ-hṛdino âmago do coração; sanniveśitamestando situado; sva-śaktibhiḥcom Suas próprias potências espirituais; navabhiḥtambém com nove diferentes potências materiais (natureza material, a totalidade da energia mate­rial, o ego, a mente e os cinco objetos dos sentidos); cae (os cinco elementos materiais grosseiros e os dez sentidos funcionais e cognoscitivos); trivṛdbhiḥpelos três modos materiais da natureza; vahnimfogo; yathāassim como; dāruṇida madeira; pāñca­daśyamproduzido pelo cantar de quinze hinos conhecidos como mantras Sāmidhenī; manīṣayācom inteligência purificada; niṣkarṣantiextraem; gūḍhamembora não manifeste; saḥessa Suprema Personalidade de Deus; vaina verdade; mamaa mim; aśeṣatodas; viśeṣavariedades; māyāda energia ilusória; niṣedhaatravés do processo de negação; nirvāṇada liberação; sukha-­anubhūtiḥque é percebida através da bem-aventurança transcendental; saḥessa Suprema Personalidade de Deus; sarva-nāmāque é a fonte de todos os nomes; saḥessa Suprema Personalidade de Deus; catambém; viśva-rūpaḥa gigantesca forma do universo; prasīdatāmque Ele seja misericordioso; aniruktainconcebível; ātma-śaktiḥo reservatório de todas as potências espirituais.

Translation

Assim como, ao cantarem os quinze mantras Sāmidhenī, os grandes brāhmaṇas eruditos, que são hábeis em executar cerimônias ritua­lísticas e sacrifícios, podem extrair da madeira comburente o fogo latente, provando, assim, a eficácia dos mantras védicos, do mesmo modo, aqueles que realmente são de consciência avançada – em outras palavras, aqueles que são conscientes de Kṛṣṇa – podem encontrar a Superalma que, por Sua própria potência espiritual, situa-­Se dentro do coração. O coração está coberto pelos três modos da natureza material e pelos nove elementos materiais [natureza ma­terial, a totalidade da energia material, o ego, a mente e os cinco objetos de gozo dos sentidos], e também pelos cinco elementos materiais e pelos dez sentidos. Esses vinte e sete elementos constituem a energia externa do Senhor. Os grandes yogīs meditam no Senhor, que, como Superalma, Paramātmā, está situado no âmago do coração. Que essa Superalma Se satisfaça comigo. A Superalma é compreendida por aquele que está ansioso por se libertar das ilimi­tadas variedades da vida material. Alcança realmente essa liberação quem se ocupa no transcendental serviço amoroso ao Senhor, e ele pode, então, compreender o Senhor devido à sua atitude de serviço. Alguém pode dirigir-se ao Senhor através de vários nomes espiri­tuais, que são inconcebíveis aos sentidos materiais. Quando essa Su­prema Personalidade de Deus ficará satisfeita comigo?

Purport

SIGNIFICADO—Ao comentar este verso, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura usa a palavra durvijñeyam, a qual significa “muito difícil de compreen­der”. A fase de existência pura está descrita na Bhagavad-gītā (7.28), onde Kṛṣṇa diz:
yeṣāṁ tv anta-gataṁ pāpaṁ
janānāṁ puṇya-karmaṇām
te dvandva-moha-nirmuktā
bhajante māṁ dṛḍha-vratāḥ
“Aqueles que agiram piedosamente tanto nesta vida quanto em vidas passadas, e cujas ações pecaminosas se erradicaram por completo, livram-se da ilusão manifesta sob a forma das dualidades, e se ocupam em servir-Me com determinação.”
Em outra passagem da Bhagavad-gītā (9.14), o Senhor diz:
satataṁ kīrtayanto māṁ
yatantaś ca dṛḍha-vratāḥ
namasyantaś ca māṁ bhaktyā
nitya-yuktā upāsate
“Sempre cantando Minhas glórias, esforçando-se com muita determinação, prostrando-se diante de Mim, essas grandes almas adoram-Me perpetuamente com devoção.”
Pode compreender a Suprema Personalidade de Deus quem transcende todos os impedimentos materiais. Portanto, o Senhor Kṛṣṇa também diz na Gītā (7.3):
manuṣyāṇāṁ sahasreṣu
kaścid yatati siddhaye
yatatām api siddhānāṁ
kaścin māṁ vetti tattvataḥ
“Dentre muitos milhares de homens, talvez haja um que se esforce para obter a perfeição, e dentre aqueles que alcançaram a perfeição, é difícil encontrar um que Me conheça de verdade.”
Para compreender Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, a pessoa deve submeter-se a rigorosas penitências e austeridades, mas, como o caminho do serviço devocional é perfeito, seguindo este processo pode-se chegar muito facilmente à plataforma espiritual e compreender o Senhor. Também se confirma isso na Bhagavad-gītā (18.55), onde Kṛṣṇa diz:
bhaktyā mām abhijānāti
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad-anantaram
“É unicamente através do serviço devocional que alguém pode compreender-Me como sou, como a Suprema Personalidade de Deus. E quando, mediante tal devoção, ele se absorve em plena consciência de Mim, ele pode entrar no reino de Deus.”
Assim, embora o tema seja durvijñeyam, extremamente difícil de ser entendido, torna-se fácil se a pessoa segue o método prescrito. Entrar em contato com a Suprema Personalidade de Deus é pos­sível através do serviço devocional puro, que começa com śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ. Com relação a isso, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura cita um verso do Śrīmad-Bhāgavatam (2.8.5): praviṣṭaḥ karṇa-randhreṇa svānāṁ bhāva-saroruham. O processo de ouvir e cantar penetra o âmago do coração, e, dessa maneira, a pessoa se torna um devoto puro. Continuando esse processo, ela chega à etapa do amor transcendental e, então, aprecia o nome, a forma, as qualida­des e os passatempos transcendentais da Suprema Personalidade de Deus. Em outras palavras, através do serviço devocional, o devoto puro é capaz de ver a Suprema Personalidade de Deus, apesar de muitos impedimentos materiais, todos os quais são diversas energias da Suprema Personalidade de Deus. Atravessando facilmente esses impedimentos, o devoto entra em contato direto com a Suprema Personalidade de Deus. Afinal, os impedimentos materiais descritos nestes versos são meramente várias energias do Senhor. Estando ansioso por ver a Suprema Personalidade de Deus, o devoto ora ao Senhor:
ayi nanda-tanuja kiṅkaraṁ
patitaṁ māṁ viṣame bhavāmbudhau
kṛpayā tava pāda-paṅkaja-
sthita-dhūlī-sadṛśaṁ vicintaya
“Ó filho de Mahārāja Nanda [Kṛṣṇa], sou Teu servo eterno, mas, de alguma forma, caí no oceano de nascimentos e mortes. Por favor, tira-me deste oceano de mortes e me coloca como um dos átomos a Teus pés de lótus.” Estando satisfeito com o devoto, o Senhor transforma em serviço espiritual todos os seus impedimentos mate­riais. Com relação a isso, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura cita um verso do Viṣṇu Purāṇa:
hlādinī sandhinī samvit
tvayy ekā sarva-saṁsthitau
hlāda-tāpa-karī miśrā
tvayi no guṇa-varjite
No mundo material, a energia espiritual da Suprema Personalidade de Deus se manifesta como tāpa-karī, que significa “causadora de sofrimentos”. Todos anseiam por felicidade, mas, embora a felicidade originalmente venha da potência de prazer da Suprema Personali­dade de Deus, no mundo material, devido às atividades materiais, a potência de prazer do Senhor se torna fonte de sofrimentos (hlāda-­tāpa-karī). A falsa felicidade do mundo material é uma fonte de sofrimentos, mas, quando voltamos a investir na satisfação da Suprema Personalidade de Deus, os nossos esforços de busca de felicidade, o fator tāpa-karī, que responde pela existência da sofrimentos, é eliminado. Com relação a isso, apresenta-se o exemplo de que decerto é muito difícil extrair fogo da madeira, mas, ao irromper, o fogo reduz a madeira a cinzas. Em outras palavras, sentir a Suprema Personalidade de Deus é extremamente difícil para aqueles que não praticam o serviço devocional, mas tudo se torna mais fácil para o devoto, e, dessa maneira, ele pode encontrar-se com o Senhor Supremo muito facilmente.
Aqui, as orações afirmam que a forma do Senhor está além da jurisdição da forma material e, portanto, é inconcebível. Entre­tanto, o devoto ora: “Meu querido Senhor, ficai satisfeito comigo para que eu possa muito facilmente ver Vossa forma e potência trans­cendentais.” Os não-devotos tentam entender o Brahman Supremo através de discussões de neti neti. Niṣedha-nirvāṇa-sukhānubhūtiḥ: o devoto, contudo, simplesmente cantando o santo nome do Senhor, evita essas especulações fastidiosas e compreende muito facilmente a existência do Senhor.
यद्यन्निरुक्तं वचसा निरूपितं
धियाक्षभिर्वा मनसोत यस्य ।
मा भूत्स्वरूपं गुणरूपं हि तत्तत्
स वै गुणापायविसर्गलक्षण: ॥ २९ ॥
yad yan niruktaṁ vacasā nirūpitaṁ
dhiyākṣabhir vā manasota yasya
mā bhūt svarūpaṁ guṇa-rūpaṁ hi tat tat
sa vai guṇāpāya-visarga-lakṣaṇaḥ

Synonyms

yat yattudo o que; niruktamexpresso; vacasāpor palavras; nirūpitamcomprovado; dhiyāpela assim chamada meditação ou inteligência; akṣabhiḥpelos sentidos; ou; manasāpela mente; utadecerto; yasyade quem; bhūtpode não ser; sva-rūpama verdadeira forma do Senhor; guṇa-rūpamconsistindo nas três qualidades; hina verdade; tat tatisto; saḥessa Suprema Personalidade de Deus; vaina verdade; guṇa-apāyaa causa da aniquilação de tudo que é formado através dos modos da natureza material; visargae a criação; lakṣaṇaḥaparecendo como.

Translation

Qualquer coisa expressa pelas vibrações materiais, qualquer coisa comprovada pela inteligência material e qualquer coisa experimen­tada pelos sentidos materiais ou inventada pela mente material não passa de uma resultante dos modos da natureza material e, portanto, nada tem a ver com a verdadeira natureza da Suprema Personalida­de de Deus. O Senhor Supremo está além da criação deste mundo material, pois Ele é a fonte das qualidades e da criação materiais. Como a causa de todas as causas, Ele existe antes e depois da criação. Desejo oferecer-Lhe minhas respeitosas reverências.

Purport

SIGNIFICADO—A pessoa que fabrica nomes, formas, qualidades ou parafernália atinentes à Suprema Personalidade de Deus não pode compreendê­-lO, pois Ele está além da criação. O Senhor Supremo é o criador de tudo, e isso significa que Ele existia mesmo quando não havia criação alguma. Em outras palavras, Seu nome, Sua forma e Suas qualidades não são entidades materialmente criadas; são sempre transcen­dentais. Portanto, através de nossas invenções, vibrações e pensamentos materiais não conseguiremos comprovar a existência do Senhor Supremo. Explica isso o verso ataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi na bhaved grāhyam indriyaiḥ.
Prācetasa, Dakṣa, oferece aqui orações à Transcendência, e não a qualquer pessoa que esteja dentro da criação material. Somente os tolos e os patifes pensam que Deus é uma criação material. Na Bhagavad-gītā (9.11), o próprio Senhor confirma isso:
avajānanti māṁ mūḍhā
mānuṣīṁ tanum āśritam
paraṁ bhāvam ajānanto
mama bhūta-maheśvaram
“Os tolos zombam de Mim quando venho sob a forma humana. Eles não conhecem Minha natureza transcendental como o Supremo Senhor de tudo o que existe.” Portanto, deve-se receber conhecimento de alguém a quem o Senhor tenha Se revelado; não há valor algum em criar um nome ou forma imaginários para o Senhor. Embora fosse impersonalista, Śrīpāda Śaṅkarācārya disse que nārāyaṇaḥ paro ’vyaktāt: Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus, não é uma pessoa do mundo material. Não podemos atribuir a Nārāyaṇa designações materiais, como é característica dos tolos quando mencionam daridra-nārāyaṇa (Nārāyaṇa indigente). Nārāyaṇa é sempre transcendental, estando situado além desta criação material. Como Ele pode tornar-Se daridra-nārāyaṇa? A pobreza é encontrada dentro deste mundo material, mas não há essa coisa chamada pobreza no mundo espiritual. Portanto, daridra-nārāyaṇa é mera invenção.
Dakṣa aponta muito cuidadosamente que as designações materiais não Se aplicam ao Senhor adorável: yad yan niruktaṁ vacasā nirūpitam. Nirukta se refere ao dicionário védico. Não é através da mera referência a expressões de um dicionário que alguém entenderá apropriadamente a Suprema Personalidade de Deus. Ao orar ao Senhor, Dakṣa não deseja que nomes e formas materiais sejam obje­tos de sua adoração; ao contrário, ele quer adorar o Senhor, que existia antes da criação dos dicionários e nomes materiais. Como confirmam os Vedas, yato vāco nivartante/ aprāpya manasā saha: o nome, a forma, os atributos e a parafernália do Senhor não podem ser determinados através de um dicionário material. Entretanto, quem alcança a plataforma transcendental, onde compreende a Suprema Personalidade de Deus, torna-se bem familiarizado com todas as coisas, materiais e espirituais. Confirma isso outro mantra védico: tam eva viditvāti mṛtyum eti. A pessoa que, pela graça do Senhor, entende a posição transcendental do Senhor, torna-se eterna. Na Bhagavad-gītā (4.9), o próprio Senhor apresenta maiores confirmações disso:
janma karma ca me divyam
evaṁ yo vetti tattvataḥ
tyaktvā dehaṁ punar janma
naiti mām eti so ’rjuna
“Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.” Pelo simples fato de compreender o Senhor Supremo, a pessoa suplanta o nascimento, a morte, a velhice e a doença. Portanto, no Śrīmad­-Bhāgavatam (2.1.5), Śrīla Śukadeva Gosvāmī aconselha Mahārāja Parīkṣit:
tasmād bhārata sarvātmā
bhagavān īśvaro hariḥ
śrotavyaḥ kīrtitavyaś ca
smartavyaś cecchatābhayam
“Ó descendente do rei Bharata, aquele que deseja livrar-se de todos os sofrimentos deve ouvir, glorificar, bem como lembrar a Personalidade de Deus, a Superalma, que controla e afasta todos os sofrimentos.”
यस्मिन्यतो येन च यस्य यस्मै
यद्यो यथा कुरुते कार्यते च ।
परावरेषां परमं प्राक् प्रसिद्धं
तद् ब्रह्म तद्धेतुरनन्यदेकम् ॥ ३० ॥
yasmin yato yena ca yasya yasmai
yad yo yathā kurute kāryate ca
parāvareṣāṁ paramaṁ prāk prasiddhaṁ
tad brahma tad dhetur ananyad ekam

Synonyms

yasminem quem (a Suprema Personalidade de Deus ou o su­premo lugar de repouso); yataḥde quem (tudo emana); yenapor quem (tudo é decretado); catambém; yasyaa quem tudo perten­ce; yasmaia quem (tudo é oferecido); yato qual; yaḥquem; yathācomo; kuruteexecuta; kāryaterealiza-se; catambém; para-avareṣāmtanto na existência material quanto na espiritual; paramamo supremo; prāka origem; prasiddhamque todos conhecem perfeitamente bem; tatisto; brahmao Brahman Supremo; tat hetuḥa causa de todas as causas; ananyatnão tendo nenhuma outra causa; ekamúnico e inigualável.

Translation

Kṛṣṇa, o Brahman Supremo, é o definitivo lugar de repouso e fonte de tudo. Tudo é feito por Ele, tudo Lhe pertence e tudo Lhe é ofe­recido. Ele é o objetivo último, e, quer agindo, quer fazendo os outros agirem, Ele é o autor final. Existem muitas causas, superiores e infe­riores, mas, como Ele é a causa de todas as causas, é conhecido como o Brahman Supremo, que existia antes de todas as atividades. Ele é único e inigualável e não tem outra causa. Portanto, ofereço-Lhe meus respeitos.

Purport

SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é a causa original, como se confirma na Bhagavad-gītā (ahaṁ sarvasya prabhavaḥ). Inclu­sive a causa deste mundo material, que é conduzido sob os modos da natureza material, é a Suprema Personalidade de Deus, que, por­tanto, também tem uma íntima relação com o mundo material. Se o mundo material não fosse uma parte de Seu corpo, o Senhor Su­premo, a causa suprema, seria incompleto. Portanto, ouvimos que vāsudevaḥ sarvam iti sa mahātmā su-durlabhaḥ: se alguém sabe que Vāsudeva é a causa da qual se originam todas as causas, torna-se um mahātmā perfeito.
A Brahma-saṁhitā (5.1) declara:
īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ
sac-cid-ānanda-vigrahaḥ
anādir ādir govindaḥ
sarva-kāraṇa-kāraṇam
“Kṛṣṇa, conhecido como Govinda, é o controlador Supremo. Ele tem um corpo espiritual eterno e bem-aventurado. Ele é a origem de tudo. Ele não tem outra origem, pois Ele é a causa primordial de todas as causas.” O Brahman Supremo (tad brahma) é a causa de todas as causas, mas Ele não tem nenhuma causa. Anādir ādir govindaḥ sarva-kāraṇa-kāraṇam: Govinda, Kṛṣṇa, é a causa que origina todas as causas, mas não é devido a alguma causa que Ele aparece como Govinda. Govinda expande-Se em formas multifárias, as quais, entretanto, são apenas uma. Como confirma Madhvācārya, ananyaḥ sadṛśābhāvād eko rūpādy-abhedataḥ: Kṛṣṇa não tem causa alguma, tampouco alguém se compara a Ele, e Ele é único porque Suas várias formas, tais como svāṁśa e vibhinnāṁśa, não são diferentes dEle próprio.
यच्छक्तयो वदतां वादिनां वै
विवादसंवादभुवो भवन्ति ।
कुर्वन्ति चैषां मुहुरात्ममोहं
तस्मै नमोऽनन्तगुणाय भूम्ने ॥ ३१ ॥
yac-chaktayo vadatāṁ vādināṁ vai
vivāda-saṁvāda-bhuvo bhavanti
kurvanti caiṣāṁ muhur ātma-mohaṁ
tasmai namo ’nanta-guṇāya bhūmne

Synonyms

yat-śaktayaḥcujas potências multifárias; vadatāmfalando diferentes filosofias; vādināmdos oradores; vaina verdade; vivādada contestação; saṁvādae do acordo; bhuvaḥas causas; bhavan­tisão; kurvanticriam; cae; eṣāmdeles (os teóricos); muhuḥcontinuamente; ātma-mohamperplexidade quanto à existência da alma; tasmaia Ele; namaḥminhas respeitosas reverências; anantailimitados; guṇāyaque possui atributos transcendentais; bhūmnea divindade onipenetrante.

Translation

Ofereço minhas respeitosas reverências à onipenetrante Suprema Personalidade de Deus, que possui ilimitadas qualidades transcendentais. Agindo no âmago do coração de todos os filóso­fos, que defendem vários pontos de vista, Ele faz com que se es­queçam de suas próprias almas enquanto ora concordam em suas opiniões, ora discordam entre si. Assim, Ele cria dentro deste mundo material uma situação na qual eles são incapazes de chegar a uma conclusão. Ofereço-Lhe minhas reverências.

Purport

SIGNIFICADO—Desde tempos imemoriais, ou desde a criação da manifestação cósmica, as almas condicionadas formaram vários grupos de especulação filosófica, mas isso não se aplica aos devotos. No que diz respeito à criação, manutenção e aniquilação, os não-devotos têm diferentes ideias e, portanto, são chamados vādīs e prativādīs – proponentes e contraproponentes. Depreende-se da afirmação do Mahā­bhārata que existem muitos munis, ou especuladores:
tarko ’pratiṣṭhaḥ śrutayo vibhinnā
nāsāv ṛṣir yasya mataṁ na bhinnam
Cada especulador tem que discordar de outros especuladores; caso contrário, não haveria tantos grupos opositores, interessados em determinar a causa suprema.
Filosofia significa encontrar a causa definitiva. Como o Vedānta-­sūtra diz muito sensatamente, athāto brahma jijñāsā: a vida humana se destina a que se compreenda a causa última. Os devotos aceitam que a causa última é Kṛṣṇa, porque essa conclusão é apoiada por toda a literatura védica e também pelo próprio Kṛṣṇa, o qual afirma que ahaṁ sarvasya prabhavaḥ: “Eu sou a fonte de tudo.” Os devotos não têm nenhuma dificuldade de entender a causa final de tudo, mas os não-devotos têm que se defrontar com muita oposição, pois todo aquele que deseja ser um filósofo proeminente in­venta seu próprio processo. Na Índia, existem muitos grupos de filósofos, tais como os dvaita-vādīs, os advaita-vādīs, os vaiśeṣikas, os mīmāṁsakas, os māyāvādīs e os svabhāva-vādīs, e cada um deles se opõe aos demais. Do mesmo modo, nos países ocidentais, existem muitos filósofos com diferentes pontos de vista quanto à criação, à vida, à manutenção e à aniquilação. Assim, é um fato incontestá­vel que, em todo o mundo, existem inúmeros filósofos, e cada um deles refuta os demais.
Então, talvez alguém pergunte como existem tantos filóso­fos se a meta última da filosofia é apenas uma. Sem dúvidas, a causa definitiva é única – o Brahman Supremo. Como Arjuna disse a Kṛṣṇa na Bhagavad-gītā (10.12):
paraṁ brahma paraṁ dhāma
pavitraṁ paramaṁ bhavān
puruṣaṁ śāśvataṁ divyam
ādi-devam ajaṁ vibhum
“És o Brahman Supremo, o definitivo, a morada e o purificador supremos, a Verdade Absoluta e a eterna pessoa divina. És o Deus primordial, transcendental e original, e és a beleza não-nascida e onipenetrante.” Entretanto, os não-devotos especuladores não aceitam uma causa definitiva (sarva-kāraṇa-kāraṇam). Porque eles são ignorantes e ficam confusos quanto à realidade da alma e suas atividades, muito embora alguns deles tenham uma vaga ideia do que é a alma, surgem muitas controvérsias, e os especuladores filo­sóficos nunca conseguem chegar a uma conclusão. Todos esses especuladores invejam a Suprema Personalidade de Deus, e, como Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā (16.19-20):
tān ahaṁ dviṣataḥ krūrān
saṁsāreṣu narādhamān
kṣipāmy ajasram aśubhān
āsurīṣv eva yoniṣu
āsurīṁ yonim āpannā
mūḍhā janmani janmani
mām aprāpyaiva kaunteya
tato yānty adhamāṁ gatim
“Aqueles que são invejosos e maliciosos, os mais baixos entre os homens, Eu os lanço perpetuamente no oceano da existência material, em várias espécies de vida demoníaca. Submetendo-se a repetidos nascimentos entre as espécies de vida demoníaca, ó filho de Kuntī, tais pessoas jamais conseguem aproximar-se de Mim. Aos poucos, elas afundam-se na mais abominável condição de existência.” Devido a invejarem a Suprema Personalidade de Deus, os não-devotos, vida após vida, nascem em famílias demoníacas. Eles são grandes ofensores, e, devido a suas ofensas, o Senhor Supremo os mantém sempre per­plexos. Kurvanti caiṣāṁ muhur ātma-moham: o Senhor, a Suprema Personalidade de Deus, propositalmente os mantém na escuridão (ātma-moham).
A grande autoridade Parāśara, o pai de Vyāsadeva, explica a Suprema Personalidade de Deus desta maneira:
jñāna-śakti-balaiśvarya-
vīrya-tejāṁsy aśeṣataḥ
bhagavac-chabda-vācyāni
vinā heyair guṇādibhiḥ
Os especuladores demoníacos não conseguem entender as qualidades, forma, passatempos, força, conhecimento e opulências transcen­dentais da Suprema Personalidade de Deus, que estão todos imunes à contaminação material (vinā heyair guṇādibhiḥ). Esses especula­dores invejam a existência do Senhor. Jagad āhur anīśvaram: a conclusão deles é que, em toda a sua extensão, a manifestação cósmica não tem controlador, senão que simplesmente funciona de maneira espon­tânea. Assim, nascimento após nascimento, eles são mantidos em constante escuridão e não podem entender a verdadeira causa de todas as causas. Essa é a razão pela qual existem tantas escolas de especulação filosófica.
अस्तीति नास्तीति च वस्तुनिष्ठयो-
रेकस्थयोर्भिन्नविरुद्धधर्मणो: ।
अवेक्षितं किञ्चन योगसाङ्ख्ययो:
समं परं ह्यनुकूलं बृहत्तत् ॥ ३२ ॥
astīti nāstīti ca vastu-niṣṭhayor
eka-sthayor bhinna-viruddha-dharmaṇoḥ
avekṣitaṁ kiñcana yoga-sāṅkhyayoḥ
samaṁ paraṁ hy anukūlaṁ bṛhat tat

Synonyms

astiexiste; itiassim; nanão; astiexiste; itiassim; ca­e; vastu-niṣṭhayoḥque professa conhecer a causa última; eka­-sthayoḥcom um único e mesmo tema: estabelecer o Brahman; bhinnademonstrando diferentemente; viruddha-dharmaṇoḥe características opostas; avekṣitampercebidas; kiñcanaalgo que; yoga-sāṅkhyayoḥdo yoga místico e da filosofia sāṅkhya (análise dos processos da natureza); samama mesma; paramtranscen­dental; hina verdade; anukūlamresidência; bṛhat tatessa causa última.

Translation

Existem dois grupos – a saber, os teístas e os ateístas. O teísta, que aceita a Superalma, encontra a causa espiritual através do yoga místico. O sāṅkhyite, entretanto, que meramente analisa os elementos materiais, chega a uma conclusão impersonalista e não aceita uma causa suprema – quer seja Bhagavān, quer Paramātmā, quer mesmo Brahman. Ao contrário, interessam-lhe as supérfluas atividades externas vistas na natureza material. Em última análise, contudo, ambos os grupos demonstram a Verdade Absoluta porque, embora ofereçam argumentos opostos, seu objetivo se concentra na mesmís­sima causa definitiva. Ambos estão se aproximando do mesmo Brahman Supremo, a quem ofereço minhas respeitosas reverências.

Purport

SIGNIFICADO—Na verdade, pode-se ver esse argumento de dois ângulos. Alguns dizem que o Absoluto não tem forma (nirākāra), e outros afirmam que o Absoluto tem forma (sākāra). Portanto, a palavra “forma” é o fator comum, embora alguns aceitem-na (asti ou astika), enquanto outros tentam negá-la (nāsti ou nāstika). Já que considera a palavra “forma” (ākāra) o fator comum, o devoto oferece suas res­peitosas reverências à forma, embora outros possam continuar du­vidando se o Absoluto tem uma forma ou não.
Neste verso, a palavra yoga-sāṅkhyayoḥ é muito importante. Yoga significa bhakti-yoga porque os yogīs também aceitam a existência da onipenetrante Alma Suprema e tentam vê-lA dentro de seus corações. Como afirma o Śrīmad-Bhāgavatam (12.13.1): dhyānāvasthita-tad-gatena manasā paśyanti yaṁ yoginaḥ. O devoto tenta entrar em contato direto com a Suprema Personalidade de Deus, ao passo que, através da meditação, o yogī tenta encontrar a Superalma dentro do coração. Assim, tanto direta quanto indiretamente, yoga significa bhakti-yoga. Sāṅkhya, contudo, significa estudo físico da situação cósmica através do conhecimento especulativo. Geralmente, isso é conhecido como jñāna-śāstra. Os sāṅkhyites estão apegados ao Brahman impessoal, mas a Verdade Absoluta é conhecida de três maneiras. Brahmeti paramātmeti bhagavān iti śabdyate: embora a Verdade Absoluta seja apenas uma, alguns A aceitam como o Brahman impessoal, outros como a Superalma que existe em toda parte, e alguns outros como Bhagavān, a Suprema Personalidade de Deus. O ponto central é a Verdade Absoluta.
Embora briguem entre si, os impersonalistas e os personalistas focalizam o mesmo Parabrahman, a mesma Verdade Absoluta. Nos yoga-­śāstras, Kṛṣṇa é descrito da seguinte maneira: kṛṣṇaṁ piśaṅgāmbaram ambujekṣaṇaṁ catur-bhujaṁ śaṅkha-gadādy-udāyudham. Assim, descreve-se o agradável aspecto do porte físico, dos membros e das vestes da Suprema Personalidade de Deus. Entretanto, o sāṅkhya-śāstra nega a existência da forma transcendental do Senhor. O sāṅkhya-śāstra afirma que a Suprema Verdade Absoluta não possui mãos, pernas ou nome: hy anāma-rūpa-guṇa-pāṇi-pādam acakṣur aśrotram ekam advitīyam api nāma-rūpādikaṁ nāsti. Os mantras védicos dizem que apāṇi-pādo javano grahītā: o Senhor Supremo não tem pernas nem mãos, mas pode aceitar tudo o que Lhe é oferecido. Na verdade, essas afirmações aceitam o fato de que o Supremo tem mãos e pernas, mas rejeitam a proposição de que Ele tenha mãos e pernas materiais. É por isso que o Absoluto recebe o nome de aprākṛta. Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, possui um sac-cid-ānanda-vigraha, uma forma de eternidade, conhecimento e bem-aventurança, e não uma forma material. Os sāṅkhyites, ou jñānīs, negam existir a forma material, e os devotos também sabem perfeitamente que Bhagavān, a Verdade Absoluta, não tem forma material.
īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ
sac-cid-ānanda-vigrahaḥ
anādir ādir govindaḥ
sarva-kāraṇa-kāraṇam
“Kṛṣṇa, conhecido como Govinda, é o controlador Supremo. Ele tem um corpo espiritual eterno e bem-aventurado. Ele é a origem de tudo. Ele não tem outra origem, pois Ele é a causa primordial de todas as causas.” A concepção de que o Absoluto não tem mãos e pernas e a concepção de que o Absoluto tem mãos e pernas são aparentemente contraditórias, mas ambas estão de acordo com a mesma verdade sobre a Suprema Pessoa Absoluta. Portan­to, a palavra vastu- niṣṭhayoḥ, utilizada aqui, deixa entrever que tanto os yogīs quanto os sāṅkhyites possuem fé na realidade, mas estão argu­mentando sobre ela a partir de diferentes pontos de vista atinentes às identidades espiritual e material. O Parabrahman, ou bṛhat, é o ponto comum. Os sāṅkhyites e os yogīs estão situados nesse mesmo Brahman, mas discordam entre si devido aos diferentes pontos de vista.
As orientações dadas pelo bhakti-śāstra encaminham todos para a direção perfeita porque, na Bhagavad-gītā, a Suprema Personali­dade de Deus diz que bhaktyā mām abhijānāti: “Somente através do serviço devocional é que Eu posso ser conhecido.” Os bhaktas sabem que a Pessoa Suprema não tem forma material, ao passo que os jñānīs simplesmente negam a forma material. Portanto, todos devem refugiar-se em bhakti-mārga, o caminho da devoção; então, tudo ficará claro. Os jñānīs se concentram no virāṭ-rūpa, a gigan­tesca forma universal do Senhor. No começo, este é um bom sistema para aqueles que são extremamente materialistas, mas não é preciso que alguém fique continuamente pensando no virāṭ-rūpa. Quando Arjuna viu o virāṭ-rūpa de Kṛṣṇa, ele não quis continuar vendo-a perpetuamente. Portanto, pediu ao Senhor que retornasse à Sua forma original, como o Kṛṣṇa de dois braços. Em conclusão, os estudiosos eruditos não encontram contradições no fato de os devotos se concen­trarem na forma espiritual do Senhor (īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ). Com relação a isso, Śrīla Madhvācārya diz que os não-devotos, que são menos inteligentes, pensam que sua con­clusão é definitiva, mas porque são inteiramente eruditos, os devo­tos podem entender que a Suprema Personalidade de Deus é a meta última.
योऽनुग्रहार्थं भजतां पादमूल-
मनामरूपो भगवाननन्त: ।
नामानि रूपाणि च जन्मकर्मभि-
र्भेजे स मह्यं परम: प्रसीदतु ॥ ३३ ॥
yo ’nugrahārthaṁ bhajatāṁ pāda-mūlam
anāma-rūpo bhagavān anantaḥ
nāmāni rūpāṇi ca janma-karmabhir
bheje sa mahyaṁ paramaḥ prasīdatu

Synonyms

yaḥquem (a Suprema Personalidade de Deus); anugraha-arthampara mostrar sua misericórdia imotivada; bhajatāmaos devotos que sempre prestam serviço devocional; pāda-mūlamaos seus pés de lótus transcendentais; anāmasem nenhum nome material; rūpaḥou forma material; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; anantaḥilimitado, onipenetrante e que existe eternamente; nāmānisantos nomes transcendentais; rūpāṇiSuas formas transcendentais; catambém; janma-karmabhiḥcom Seu nascimento e atividades transcendentais; bhejemanifesta; saḥEle; mahyamcomigo; paramaḥo Supremo; prasīdatuque Ele seja misericordioso.

Translation

A Suprema Personalidade de Deus, que é inconcebivelmente opu­lento, que é desprovido de todos os nomes, formas e passatempos materiais, e que é onipenetrante, é especialmente misericordioso com os devotos que adoram Seus pés de lótus. Assim, em Seus diferentes passatempos, Ele manifesta formas e nomes transcenden­tais. Que essa Suprema Personalidade de Deus, cuja forma é eterna e plena de conhecimento e bem-aventurança, tenha misericórdia de mim.

Purport

SIGNIFICADO—Em relação à significativa palavra anāma-rūpaḥ, Śrī Śrīdhara Svāmī diz que prākṛta-nāma-rūpa-rahito ’pi. A palavra anāma, que significa “não tendo nenhum nome”, indica que a Suprema Perso­nalidade de Deus não possui um nome material. Simplesmente cantando o nome de Nārāyaṇa para chamar seu filho, Ajāmila alcançou a sal­vação. Isso significa que Nārāyaṇa não é um nome mundano ou comum; ele não é material. Portanto, a palavra anāma deixa bem claro que os nomes do Senhor Supremo não pertencem a este mundo material. A vibração do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa não é um som material, e, do mesmo modo, a forma, o aparecimento e as atividades do Senhor não são materiais. Para mostrar Sua imotivada misericórdia para com os devotos, bem como para com os não-devotos, Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, aparece com nomes, formas e passatempos neste mundo material – todos eles transcendentais. Os homens ininteligentes, incapazes de compreender isso, pensam que esses nomes, formas e passatempos são materiais e, portanto, negam que Ele tenha um nome ou uma forma.
Consideradas minuciosamente, a conclusão dos não-devotos, que dizem que Deus não tem nome, e a conclusão dos devotos, que dizem que Seu nome não é material, são praticamente as mesmas. A Suprema Personalidade de Deus não tem nome, forma, nascimento, aparecimento ou desaparecimento materiais, mas Ele nasce (janma). Como se afirma na Bhagavad-gītā (4.6):
ajo ’pi sann avyayātmā
bhūtānām īśvaro ’pi san
prakṛtiṁ svām adhiṣṭhāya
sambhavāmy ātma-māyayā
Muito embora seja não-nascido (aja) e Seu corpo jamais passe por mudanças materiais, o Senhor aparece como uma encarnação, mantendo-Se sempre na fase transcendental (śuddha-sattva). Assim, Ele manifesta Suas formas, nomes e atividades transcendentais. Esta é a Sua misericórdia especial para com os Seus devotos. Talvez outros indivíduos continuem meramente argumentando se a Verdade Absoluta possui ou não possui forma, mas quando, pela graça do Senhor, o devoto vê o Senhor pessoalmente, ele fica em êxtase espiritual.
As pessoas ininteligentes dizem que o Senhor nada faz. De fato, Ele nada tem a fazer, mas Ele tem de fazer tudo, porque, sem a Sua sanção, ninguém pode fazer nada. Todavia, as pessoas sem inteligência não conseguem ver como Ele está trabalhando e como toda a natureza material funciona sob a Sua direção. Suas diferentes potências funcionam perfeitamente.
na tasya kāryaṁ karaṇaṁ ca vidyate
na tat-samaś cābhyadhikaś ca dṛśyate
parāsya śaktir vividhaiva śrūyate
svābhāvikī jñāna-bala-kriyā ca
(Śvetāśvatara Upaniṣad 6.8)
Ele não precisa fazer nada pessoalmente, pois, como Suas potên­cias são perfeitas, tudo imediatamente se faz de acordo com a Sua vontade. Aqueles a quem a Suprema Personalidade de Deus não Se revela não conseguem ver como é que Ele está trabalhando, de modo que pensam que, mesmo que Deus exista, Ele nada tem a fazer ou Ele não tem um nome que Lhe é próprio.
Na verdade, devido a Suas atividades transcendentais, o nome do Senhor já existe. Às vezes, o Senhor é chamado guṇa-karma-nāma porque Ele é denominado de acordo com Suas atividades transcendentais. Por exemplo, Kṛṣṇa significa “o todo-atrativo”. Esse é o nome do Senhor, porque Suas qualidades transcendentais O tornam muito atrativo. Quando era um menininho, Ele ergueu a colina Govardhana, e, em Sua infância, matou muitos demônios. Essas atividades são muito atrativas e, portanto, Ele é às vezes chamado de Giridhārī, Madhusūdana, Agha-niṣūdana e assim por diante. Porque agiu como filho de Nanda Mahārāja, Ele é chamado de Nanda-­tanuja. Esses nomes já existem, mas, como os não-devotos não con­seguem compreender os nomes do Senhor, às vezes Ele é chamado de anāma, ou anônimo. Isso significa que Ele não tem nomes mate­riais. Todas as Suas atividades são espirituais, daí Ele ter nomes espirituais.
Geralmente, os homens menos inteligentes têm a impressão de que o Senhor não tem forma. Portanto, sob Sua forma original, Ele apa­rece como Kṛṣṇa, sac-cid-ānanda-vigraha, para cumprir a Sua missão de participar na Guerra de Kurukṣetra e executar passatempos em que protege os devotos e aniquila os demônios (paritrāṇāya sādhūnāṁ vināśāya ca duṣkṛtām). É essa a Sua misericórdia. Para aqueles que pensam que Ele não tem forma alguma e nenhum trabalho a fazer, Kṛṣṇa vem para mostrar que, de fato, Ele trabalha. Seu trabalho é tão glorioso que nenhuma outra pessoa pode executar atos tão in­comuns. Embora tivesse aparecido como um ser humano, Ele Se casou com 16.108 esposas, e essa tarefa é impossível para qualquer ser hu­mano. O Senhor executa essas atividades para mostrar às pessoas quão grande, afetuoso e misericordioso Ele é. Embora Seu nome original seja Kṛṣṇa (kṛṣṇas tu bhagavān svayam), Ele age de maneiras ilimitadas, e, portanto, de acordo com a Sua atividade, Ele tem mui­tíssimos milhares de nomes.
य: प्राकृतैर्ज्ञानपथैर्जनानां
यथाशयं देहगतो विभाति ।
यथानिल: पार्थिवमाश्रितो गुणं
स ईश्वरो मे कुरुतां मनोरथम् ॥ ३४ ॥
yaḥ prākṛtair jñāna-pathair janānāṁ
yathāśayaṁ deha-gato vibhāti
yathānilaḥ pārthivam āśrito guṇaṁ
sa īśvaro me kurutāṁ manoratham

Synonyms

yaḥquem; prākṛtaiḥde grau inferior; jñāna-pathaiḥpelos caminhos de adoração; janānāmde todas as entidades vivas; yathā-āśayamde acordo com o desejo; deha-gataḥsituado no âmago do coração; vibhātimanifesta; yathāassim como; anilaḥo ar; pārthivamterrestre; āśritaḥrecebendo; guṇama qualidade (como aroma e cor); saḥEle; īśvaraḥa Suprema Personalidade de Deus; memeu; kurutāmque Ele satisfaça; manorathamdesejo (de serviço devocional).

Translation

Assim como o ar transporta várias características dos elementos físicos, tais como o aroma de uma flor ou as cores resultantes da mistura de poeira no ar, o Senhor, de acordo com os desejos de alguém, aparece através dos sistemas inferiores de adoração, embo­ra Ele apareça como os semideuses e não sob Sua forma original. De que adiantam essas outras formas? Que a original Suprema Perso­nalidade de Deus seja bondoso e realize os meus desejos.

Purport

SIGNIFICADO—Os impersonalistas imaginam os vários semideuses como formas do Senhor. Por exemplo, os māyāvādīs adoram cinco semideuses (pañcopāsanā). Na verdade, eles não acreditam na forma do Senhor, mas, com o propósito de adorar, imaginam que Deus é alguma forma. Em geral, eles imaginam uma forma de Viṣṇu, uma forma de Śiva, e as formas de Gaṇeśa, do deus do Sol e de Durgā. Isso se chama pañcopāsanā. Dakṣa, entretanto, não queria adorar uma forma imaginária, mas a suprema forma do Senhor Kṛṣṇa.
Com relação a isso, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura descre­ve a diferença entre a Suprema Personalidade de Deus e o ser vivo comum. Como assinala o verso anterior, sarvaṁ pumān veda guṇāṁś ca taj-jño na veda sarva jñam anantam īḍe: o onipotente Senhor Su­premo conhece tudo, mas o ser vivo, na verdade, não conhece a Su­prema Personalidade de Deus. Como Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā: “Eu conheço tudo, e ninguém Me conhece.” É essa a diferença entre o Senhor Supremo e o ser vivo comum. Em uma oração proferida no Śrīmad-Bhāgavatam, a rainha Kuntī diz: “Meu querido Senhor, existis interna e externamente, mas ninguém Vos pode ver.”
Não é através do conhecimento especulativo ou da imaginação que a alma condicionada entenderá a Suprema Personalidade de Deus. É, portanto, pela graça da Suprema Personalidade de Deus que se deve conhecê-lO. Ele Se revela, mas não pode ser compreendido através da especulação. Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (10.14.29):
athāpi te deva padāmbuja-dvaya-
prasāda-leśānugṛhīta eva hi
jānāti tattvaṁ bhagavan-mahimno
na cānya eko ’pi ciraṁ vicinvan
“Meu Senhor, se alguém é favorecido ao menos por um vestígio da misericórdia dos Vossos pés de lótus, pode entender a grandeza de Vossa Personalidade. Mas aqueles que, na tentativa de entender a Suprema Personalidade de Deus, especulam, não são capazes de Vos conhecer, muito embora continuem a estudar os Vedas por muitos anos.”
Este é o veredito dos śāstras. Talvez um homem comum seja um grande filósofo e especule sobre o que é a Verdade Absoluta, qual a Sua forma e onde Ela vive, mas tal homem não consegue entender essas verdades. Sevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ: é unicamente através do serviço devocional que se pode entender a Suprema Personalidade de Deus. A Suprema Personalidade de Deus em pessoa também explica isso na Bhagavad-gītā (18.55). Bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ: “Somente através do serviço devocional é que alguém pode entender a Suprema Personalidade de Deus como Ela é.” As pessoas sem inteligência procuram imaginar ou inventar uma forma da Suprema Personalidade de Deus, mas os devotos procuram adorar a verdadeira Personalidade de Deus. Portanto, Dakṣa ora: “Talvez alguém pense que sois pessoal, impessoal ou imaginário, mas desejo orar a Vossa Onipotência para que satisfaçais meus desejos de Vos ver como realmente sois.”
Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta que este verso é dirigido especialmente ao impersonalista, que julga ser o Supremo porque não há diferença entre o ser vivo e Deus, segundo sua concepção. O filósofo māyā­vādī julga que existe apenas uma Verdade Suprema e que ele também é essa Verdade Suprema. Com efeito, isso não é conhecimento, mas uma tolice, e este verso se destina especialmente a esses tolos, cujo conhecimento foi roubado pela ilusão (māyayāpahṛta-jñānāḥ). Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura diz que, embora tais pessoas, jñāni­māninaḥ, julguem-se muito avançadas, elas, na verdade, não têm inteligência.
Com relação a esse verso, Śrīla Madhvācārya diz:
svadeha-sthaṁ hariṁ prāhur
adhamā jīvam eva tu
madhyamāś cāpy anirṇītaṁ
jīvād bhinnaṁ janārdanam
Existem três classes de homens – os inferiores (adhama), os que estão em uma plataforma intermediária (madhyama) e os melhores (uttama). Os inferiores (adhama) pensam que não há diferença entre Deus e a entidade viva, excetuando que a entidade viva está sob designações, ao passo que a Verdade Absoluta não tem designações. Na opinião deles, logo que se desfazem as designações do corpo material, a jīva, a entidade viva, imerge no Supremo. Eles apresentam o argumento de ghaṭākāśa-paṭākāśa, segundo o qual o corpo é comparado a um pote em que o céu se localiza tanto interna quanto externamente. Quando o pote se quebra, o céu interno se torna uno com o céu externo; dessa maneira, os impersonalistas dizem que o ser vivo se torna uno com o Supremo. Esse é o argumento deles, mas Śrīla Madhvācārya diz que tal argumento é apresentado pela classe de homens inferiores. Outra classe de homens não pode determinar qual é a verdadeira forma do Supremo, mas concorda que existe um Supremo que controla as atividades do ser vivo comum. Esses filósofos são tidos como medianos. Os melhores, entretanto, são aqueles que compreendem o Senhor Supremo (sac-cid-ānanda-vigraha). Pūrṇānandādi-guṇakaṁ sarva jīva-vilakṣaṇam: Ele tem uma forma inteiramente espiritual, cheia de bem-aventurança e totalmente dis­tinta da forma da alma condicionada ou de qualquer outra entidade viva. Uttamās tu hariṁ prāhus tāratamyena teṣu ca: esses filósofos são os melhores porque sabem que a Suprema Personalidade de Deus revela-Se diferentemente àqueles que praticam adoração de acordo com os vários modos da natureza material. Eles sabem que existem trinta e três milhões de semideuses cuja função é convencer a alma condicionada de que há um poder supremo e induzi-la a concordar em adorar um desses semideuses para que, através da associação com os devotos, ela se torne capaz de compreender que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Como o Senhor Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā, mattaḥ parataraṁ nānyat kiñcid asti dhanañjaya: “Não há verdade superior a Mim.” Aham ādir hi devānām: “Eu sou a origem de todos os semideuses.” Ahaṁ sarvasya prabhavaḥ: “Eu sou superior a todos; sou inclusive superior ao senhor Brahmā, ao senhor Śiva e aos outros semideuses.” Essas são as conclusões do śāstra, e aquele que aceita essas conclusões deve ser considerado um filósofo de primeira classe. Semelhante filósofo sabe que a Suprema Personalidade de Deus é o Senhor dos semideuses (deva-deveśvaraṁ sūtram ānandaṁ prāṇa-vedinaḥ).
श्रीशुक उवाच
इति स्तुत: संस्तुवत: स तस्मिन्नघमर्षणे ।
प्रादुरासीत्कुरुश्रेष्ठ भगवान् भक्तवत्सल: ॥ ३५ ॥
कृतपाद: सुपर्णांसे प्रलम्बाष्टमहाभुज: ।
चक्रशङ्खासिचर्मेषुधनु:पाशगदाधर: ॥ ३६ ॥
पीतवासा घनश्याम: प्रसन्नवदनेक्षण: ।
वनमालानिवीताङ्गो लसच्छ्रीवत्सकौस्तुभ: ॥ ३७ ॥
महाकिरीटकटक: स्फुरन्मकरकुण्डल: ।
काञ्‍च्यङ्गुलीयवलयनूपुराङ्गदभूषित: ॥ ३८ ॥
त्रैलोक्यमोहनं रूपं बिभ्रत् त्रिभुवनेश्वर: ।
वृतो नारदनन्दाद्यै: पार्षदै: सुरयूथपै: ।
स्तूयमानोऽनुगायद्भ‍ि: सिद्धगन्धर्वचारणै: ॥ ३९ ॥
śrī-śuka uvāca
iti stutaḥ saṁstuvataḥ
sa tasminn aghamarṣaṇe
prādurāsīt kuru-śreṣṭha
bhagavān bhakta-vatsalaḥ
kṛta-pādaḥ suparṇāṁse
pralambāṣṭa-mahā-bhujaḥ
cakra-śaṅkhāsi-carmeṣu-
dhanuḥ-pāśa-gadā-dharaḥ
pīta-vāsā ghana-śyāmaḥ
prasanna-vadanekṣaṇaḥ
vana-mālā-nivītāṅgo
lasac-chrīvatsa-kaustubhaḥ
mahā-kirīṭa-kaṭakaḥ
sphuran-makara-kuṇḍalaḥ
kāñcy-aṅgulīya-valaya-
nūpurāṅgada-bhūṣitaḥ
trailokya-mohanaṁ rūpaṁ
bibhrat tribhuvaneśvaraḥ
vṛto nārada-nandādyaiḥ
pārṣadaiḥ sura-yūthapaiḥ
stūyamāno ’nugāyadbhiḥ
siddha-gandharva-cāraṇaiḥ

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; itiassim; stu­taḥsendo louvado; saṁstuvataḥde Dakṣa, que oferecia orações; saḥessa Suprema Personalidade de Deus; tasminnaquele; agha­marṣanelugar sagrado, conhecido como Aghamarṣaṇa; prādurā­sītapareceu; kuru-śreṣṭhaó melhor da dinastia Kuru; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; bhakta-vatsalaḥque é muito bondoso com Seus devotos; kṛta pādaḥcujos pés de lótus descansavam; suparṇa-aṁsenos ombros do Seu carregador, Garuḍa; pralambamuito longos; aṣṭa-mahā-bhujaḥpossuindo oito braços poderosos; cakradisco; śaṅkhabúzio; asiespada; carmaescudo; iṣuflecha; dhanuḥarco; pāśacorda; gadāmaça; dharaḥportando; pīta-vāsāḥcom roupas amarelas; ghana-śyāmaḥcuja tez corpórea era de um azul intenso e escuro; prasannamuito encantadores; vadanacujo rosto; īkṣaṇaḥe olhar; vana-mālāpor uma guirlanda de flores silvestres; nivīta-aṅgaḥcujo corpo es­tava adornado desde o pescoço até os pés; lasatreluzente; śrīvatsa-­kaustubhaḥa joia conhecida como Kaustubha e a marca de śrīvatsa; mahā-kirīṭade um elmo grande e esplêndido; kaṭakaḥum círculo; sphuratcintilantes; makara-kuṇḍalaḥbrincos em forma de tubarões; kāñcīcom um cinto; aṅgulīyaanéis; valayabraceletes; nūpurasinos de tornozelo; aṅgadabraceletes que se usam na parte superior do braço; bhūṣitaḥdecorado; trai-lokya­-mohanamcativando os três mundos; rūpamSeus aspectos físicos; bibhratresplandecentes; tri-bhuvanados três mundos; īśvaraḥo Senhor Supremo; vṛtaḥcercado; nāradade devotos magnânimos, encabeçados por Nārada; nanda-ādyaiḥe outros, como Nanda; pārṣadaiḥque são todos associados eternos; sura-yūthapaiḥbem como pelos líderes dos semideuses; stūyamānaḥsendo glorificado; anugāyadbhiḥcantando enquanto estavam situados atrás dEle; siddha-gandharva-cāraṇaiḥpelos Siddhas, Gandharvas e Cāraṇas.

Translation

Śrī Śukadeva Gosvāmī disse: Hari, a Suprema Personalidade de Deus, que é extremamente afetuoso com Seus devotos, ficou muito satisfeito com as orações oferecidas por Dakṣa e, dessa maneira, apareceu naquele lugar sagrado conhecido como Aghamarṣaṇa. Ó Mahārāja Parīkṣit, melhor da dinastia Kuru, os pés de lótus do Senhor repousavam nos ombros do Seu carregador, Garuḍa, e Ele apareceu com Seus oito longos braços poderosos e belíssimos. Em Suas mãos, portava um disco, um búzio, uma espada, um escudo, uma flecha, um arco, uma corda e uma maça – em cada mão, uma arma dife­rente, todas estas reluzindo com imenso esplendor. Suas roupas eram amarelas, e a tez de Seu corpo era azul escura. Seus olhos e Seu rosto eram muito encantadores, e, de Seu pescoço até Seus pés, pendia uma enorme guirlanda de flores. Seu peito estava decorado com a joia Kaustubha e com a marca Śrīvatsa. Sobre Sua cabeça, havia um esplêndido elmo arredondado, e Suas orelhas estavam ornadas com brincos em forma de tubarões. Todos esses adornos tinham uma be­leza incomum. O Senhor usava um cinto de ouro, braceletes, anéis e sinos de tornozelo. Decorado, então, com esses vários adornos, o Senhor Hari, que é atrativo para todas as entidades vivas dos três mundos, é conhecido como Puruṣottama, a melhor entre todas as personalidades. Acompanhavam-nO grandes devotos, tais como Nārada, Nanda e todos os principais semideuses, encabeçados por Indra, o rei celes­tial, e os habitantes de vários sistemas planetários superiores, tais como Siddhaloka, Gandharvaloka e Cāraṇaloka. Ficando de ambos os lados do Senhor e atrás dEle também, esses devotos não paravam de oferecer-Lhe orações.
रूपं तन्महदाश्चर्यं विचक्ष्यागतसाध्वस: ।
ननाम दण्डवद्भ‍ूमौ प्रहृष्टात्मा प्रजापति: ॥ ४० ॥
rūpaṁ tan mahad-āścaryaṁ
vicakṣyāgata-sādhvasaḥ
nanāma daṇḍavad bhūmau
prahṛṣṭātmā prajāpatiḥ

Synonyms

rūpamforma transcendental; tatessa; mahat-āścaryamgrandemente maravilhosa; vicakṣyavendo; āgata-sādhvasaḥno come­ço, ficou com medo; nanāmaprestou reverências; daṇḍa-vatcomo uma vara; bhūmauno chão; prahṛṣṭa-ātmācom corpo, mente e alma satisfeitos; prajāpatiḥo prajāpati conhecido como Dakṣa.

Translation

Vendo essa maravilhosa e refulgente forma da Suprema Personalidade de Deus, Prajāpati Dakṣa primeiramente ficou um pouco amedrontado, mas depois se mostrou muito satisfeito de ver o Senhor e, como uma vara, caiu ao solo para ofere­cer seus respeitos ao Senhor.
न किञ्चनोदीरयितुमशकत् तीव्रया मुदा ।
आपूरितमनोद्वारैर्ह्रदिन्य इव निर्झरै: ॥ ४१ ॥
na kiñcanodīrayitum
aśakat tīvrayā mudā
āpūrita-manodvārair
hradinya iva nirjharaiḥ

Synonyms

nanão; kiñcananada; udīrayitumde falar; aśakatele foi capaz; tīvrayādevido à imensa; mudāfelicidade; āpūritarepletos; manaḥ-dvāraiḥpelos sentidos; hradinyaḥos rios; ivacomo; nirjharaiḥpelas torrentes da montanha.

Translation

Assim como os rios ficam repletos de água que corre de uma mon­tanha, todos os sentidos de Dakṣa se encheram de prazer. Devido à sua felicidade imensa, Dakṣa nada podia dizer, senão que simplesmente permanecia estendido no solo.

Purport

SIGNIFICADO—Quando alguém realmente compreende ou vê a Suprema Personalidade de Deus, enche-se de completa felicidade. Por exemplo, ao ver o Senhor em sua presença, Dhruva Mahārāja disse que svāmin kṛtārtho ’smi varaṁ na yāce: “Meu querido Senhor, nada tenho para Vos pedir. Agora, estou completamente satisfeito.” Do mesmo modo, ao ver o Senhor Supremo em sua presença, o prajāpati Dakṣa simplesmente caiu esticado, incapaz de falar ou pedir-Lhe qualquer coisa.
तं तथावनतं भक्तं प्रजाकामं प्रजापतिम् ।
चित्तज्ञ: सर्वभूतानामिदमाह जनार्दन: ॥ ४२ ॥
taṁ tathāvanataṁ bhaktaṁ
prajā-kāmaṁ prajāpatim
citta-jñaḥ sarva-bhūtānām
idam āha janārdanaḥ

Synonyms

tama ele (o prajāpati Dakṣa); tathādessa maneira; avanatamprostrado diante dEle; bhaktamum grande devoto; prajā-kāmamdesejando aumentar a população; prajāpatimao prajāpati (Dakṣa); citta-jñaḥque pode entender os corações; sarva-bhūtānāmde todas as entidades vivas; idamisto; āhadisse; janārdanaḥa Suprema Personalidade de Deus, que pode satisfazer os desejos de todos.

Translation

Embora o Prajāpati Dakṣa não conseguisse dizer nada, quando o Senhor, que conhece o coração de todos, viu Seu devoto prostrado daquela maneira, dirigiu-lhe as seguintes palavras, pois este desejava aumentar a população.
श्रीभगवानुवाच
प्राचेतस महाभाग संसिद्धस्तपसा भवान् ।
यच्छ्रद्धया मत्परया मयि भावं परं गत: ॥ ४३ ॥
śrī-bhagavān uvāca
prācetasa mahā-bhāga
saṁsiddhas tapasā bhavān
yac chraddhayā mat-parayā
mayi bhāvaṁ paraṁ gataḥ

Synonyms

śrī-bhagavān uvācaa Suprema Personalidade de Deus disse; prācetasaó Meu querido Prācetasa; mahā-bhāgaó tu que és tão afortunado; saṁsiddhaḥaperfeiçoaste; tapasācom tuas austeridades; bhavāna ti mesmo; yatporque; śraddhayāpela grande fé; mat-parayācujo objetivo sou Eu; mayiem Mim; bhāvamêxtase; paramsupremo; gataḥalcançaste.

Translation

A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó afortunadíssimo Prā­cetasa, devido à tua grande fé em Mim, alcançaste o supremo êx­tase devocional. Na verdade, em razão de tuas austeridades, acrescidas da tua grande devoção, tua vida agora é exitosa. Atingiste a perfeição plena.

Purport

SIGNIFICADO—Como o próprio Senhor confirma na Bhagavad-gītā (8.15), alcança a perfeição máxima aquele que tem a fortuna de compreender a Suprema Personalidade de Deus:
mām upetya punar janma
duḥkhālayam aśāśvatam
nāpnuvanti mahātmānaḥ
saṁsiddhiṁ paramāṁ gatāḥ
“Após Me alcançarem, as grandes almas, que são yogīs em devoção, jamais retornam a este mundo temporário e cheio de sofrimentos, porque eles obtiveram a perfeição máxima.” Portanto, o movimento da consciência de Kṛṣṇa nos ensina a seguirmos o caminho rumo à perfeição máxima, simplesmente prestando serviço devocional.
प्रीतोऽहं ते प्रजानाथ यत्तेऽस्योद्बृंहणं तप: ।
ममैष कामो भूतानां यद्भ‍ूयासुर्विभूतय: ॥ ४४ ॥
prīto ’haṁ te prajā-nātha
yat te ’syodbṛṁhaṇaṁ tapaḥ
mamaiṣa kāmo bhūtānāṁ
yad bhūyāsur vibhūtayaḥ

Synonyms

prītaḥmuitíssimo satisfeito; ahamEu; tecontigo; prajā-­nāthaó rei da população; yatporque; tetua; asyadeste mundo material; udbṛṁhaṇamatitude de causar o aumento; tapaḥausteridade; mamaMeu; eṣaḥeste; kāmaḥdesejo; bhū­tānāmdas entidades vivas; yatas quais; bhūyāsuḥque haja; vibhūtayaḥavanço sob todos os aspectos.

Translation

Meu querido prajāpati Dakṣa, para o bem-estar e progresso do mundo, executaste austeridades extremas. Também é Meu desejo que todos dentro deste mundo sejam felizes. Portanto, estou muito satisfeito contigo porque estás te esforçando para satisfazer Meu desejo de trazer bem-estar ao mundo inteiro.

Purport

SIGNIFICADO—Sempre que ocorre a dissolução do cosmo material, todas as en­tidades vivas se refugiam no corpo de Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu, e quando a criação se repete, elas, em suas várias espécies, surgem de Seu corpo para retomar suas atividades. Por que a criação ocorre de maneira tal que as entidades vivas são postas em uma vida condicionada para sofrer os três tipos de sofrimentos que lhe são infligidos pela natureza material? Aqui, o Senhor diz a Dakṣa: “Desejas beneficiar todas as entidades vivas, e esse também é o Meu desejo.” As entidades vivas que entram em contato com o mundo material devem ser corrigidas. Todas as entidades vivas dentro deste mundo material se revoltaram contra o serviço ao Senhor, e, por­tanto, sempre condicionadas, nitya-baddha, permanecem dentro deste mundo, nascendo repetidas vezes. É claro que elas recebem a oportunidade de se libertarem, mas as almas condiciona­das, rejeitando essa oportunidade, continuam uma vida de gozo dos sentidos e, dessa maneira, são punidas com repetidos nascimentos e mortes. Essa é a lei da natureza. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (7.14):
daivī hy eṣā guṇa-mayī
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
“Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpô-la.” Em outra passagem da Bhagavad-gītā (15.7), o Senhor diz:
mamaivāṁśo jīva-loke
jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ
manaḥ ṣaṣṭhānīndriyāṇi
prakṛti-sthāni karṣati
“As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas eternas partes fragmentárias. Por força da vida condicionada, elas empreendem árdua luta com os seis sentidos, entre os quais se inclui a mente.” A luta que a entidade viva empreende para sobreviver dentro do mundo material deve-se à sua natureza rebelde. Enquanto não se render a Kṛṣṇa, a entidade viva deverá continuar sua vida de pelejas.
O movimento da consciência de Kṛṣṇa não é modismo. Trata-se de um movimento fidedigno que se propõe promover o bem-estar de todas as almas condicionadas, tentando elevar todas essas almas à plata­forma da consciência de Kṛṣṇa. Quem não chega a essa plataforma deve continuar perpetuamente na existência material, ora nos planetas superiores, ora nos planetas inferiores. Como confirma o Caitanya-caritāmṛta (Madhya 20.118), kabhu svarge uṭhāya, kabhu narake ḍubāya: a alma condicionada ora mergulha na ignorância, ora obtém algum alívio ficando relativamente livre desta. Assim é a vida da alma condicionada.
O prajāpati Dakṣa está tentando beneficiar as almas condicionadas, gerando-as para lhes dar vida com a oportunidade de se libertarem. Liberação significa render-se a Kṛṣṇa. Se alguém gera filhos com o propósito de treiná-los para que se rendam a Kṛṣṇa, esse tipo de pater­nidade é algo muito bom. Do mesmo modo, quando o mestre espiritual treina as almas condicionadas para se tornarem conscientes de Kṛṣṇa, a posição dele é exitosa. Se alguém confere às almas condicionadas a oportunidade de se tornarem conscientes de Kṛṣṇa, todas as suas ativi­dades são aprovadas pela Suprema Personalidade de Deus, que, como se afirma aqui (prīto ’ham), fica extremamente satisfeito. Se­guindo os exemplos dos ācāryas anteriores, todos os membros do movimento da consciência de Kṛṣṇa devem tentar beneficiar as almas condicionadas, induzindo-as a se tornarem conscientes de Kṛṣṇa e lhes dando todas as facilidades para que elas alcancem esse objetivo. Essas atividades constituem o verdadeiro trabalho beneficente. Com isso, um pregador ou qualquer pessoa que se esforce por espalhar a consciência de Kṛṣṇa tem o reconhecimento da Suprema Personalidade de Deus. Como o próprio Senhor confirma na Bhagavad-gītā (18.68-69):
ya idaṁ paramaṁ guhyaṁ
mad-bhakteṣv abhidhāsyati
bhaktiṁ mayi parāṁ kṛtvā
mām evaiṣyaty asaṁśayaḥ
na ca tasmān manuṣyeṣu
kaścin me priya-kṛttamaḥ
bhavitā na ca me tasmād
anyaḥ priyataro bhuvi
“Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo, o serviço devocional puro está garantido, e, no final, ele voltará a Mim. Não há neste mundo servo que Me seja mais querido do que ele, tampouco em algum momento haverá alguém mais querido.”
ब्रह्मा भवो भवन्तश्च मनवो विबुधेश्वरा: ।
विभूतयो मम ह्येता भूतानां भूतिहेतव: ॥ ४५ ॥
brahmā bhavo bhavantaś ca
manavo vibudheśvarāḥ
vibhūtayo mama hy etā
bhūtānāṁ bhūti-hetavaḥ

Synonyms

brahmāsenhor Brahmā; bhavaḥsenhor Śiva; bhavantaḥtodos vós, prajāpatis; cae; manavaḥos Manus; vibudha-īśvarāḥtodos os diferentes semideuses (tais como o Sol, a Lua, Vênus, Marte e Júpiter, que estão encarregados de várias atividades para o bem-estar do mundo); vibhūtayaḥexpansões de energia; mamaMinhas; hina verdade; etāḥtodas essas; bhūtānāmde todas as entidades vivas; bhūtido bem-estar; hetavaḥcausas.

Translation

O senhor Brahmā, o senhor Śiva, os Manus, todos os outros semideuses nos sistemas planetários superiores, e vós, os prajāpatis, que aumentais a população, estais trabalhando para o benefício de todas as entidades vivas. Assim, vós, expansões da Minha energia marginal, sois encarnações de Minhas várias qualidades.

Purport

SIGNIFICADO—Existem várias espécies de encarnações e expansões da Suprema Personalidade de Deus. As expansões do Seu eu pessoal, ou viṣṇu­tattva, chamam-se expansões svāṁśa, ao passo que as entidades vivas, que não são viṣṇu-tattva, mas jīva-tattva, chamam-se vibhinnāṁśa, expansões distintas. Embora não esteja no mesmo nível do senhor Brahmā e do senhor Śiva, Prajāpati Dakṣa é comparado a eles porque se ocupa a serviço do Senhor. No serviço à Personalidade de Deus, não se deve pensar que o senhor Brahmā é considerado muito grande enquanto um ser humano comum que tenta pregar as glórias do Senhor é tido como insignificante. Não existem essas distinções. Quer seja materialmente elevado, quer seja baixo, todo aquele que se ocupa a serviço do Senhor Lhe é espiritualmente muito que­rido. Com relação a isso, Śrīla Madhvācārya menciona a seguinte citação do Tantra-nirṇaya:
viśeṣa-vyakti-pātratvād
brahmādyās tu vibhūtayaḥ
tad-antaryāmiṇaś caiva
matsyādyā vibhavāḥ smṛtāḥ
Começando do senhor Brahmā e descendo, todas as entidades vivas ocupadas a serviço do Senhor são extraordinárias e se chamam vibhūti. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (10.41):
yad yad vibhūtimat sattvaṁ
śrīmad ūrjitam eva vā
tat tad evāvagaccha tvaṁ
mama tejo-’ṁśa-sambhavam
“Fica sabendo que todas as criações opulentas, belas e gloriosas emanam de uma mera centelha do Meu esplendor.” A entidade viva especialmente dotada de poder para agir em nome do Senhor chama­-se vibhūti, ao passo que as encarnações do Senhor, manifestas sob a forma de viṣṇu-tattva, tais como o avatāra Matsya (keśava dhṛta-mīna-śarīra jaya jagad-īśa hare), chamam-se vibhava.
तपो मे हृदयं ब्रह्मंस्तनुर्विद्या क्रियाकृति: ।
अङ्गानि क्रतवो जाता धर्म आत्मासव: सुरा: ॥ ४६ ॥
tapo me hṛdayaṁ brahmaṁs
tanur vidyā kriyākṛtiḥ
aṅgāni kratavo jātā
dharma ātmāsavaḥ surāḥ

Synonyms

tapaḥausteridades, tais como o controle da mente, yoga místico e meditação; meMeu; hṛdayamcoração; brahmanó brāhmaṇa; tanuḥo corpo; vidyāo conhecimento proveniente da escritura védica; kriyāatividades espirituais; ākṛtiḥforma; aṅgānios membros do corpo; kratavaḥas cerimônias ritualísticas e sacrifí­cios mencionados na literatura védica; jātāḥcompletos; dharmaḥos princípios religiosos mediante os quais se executam as cerimônias ritualísticas; ātmāMinha alma; asavaḥares vitais; surāḥos semideuses que, em diferentes departamentos do mundo material, executam as Minhas ordens.

Translation

Meu querido brāhmana, a austeridade sob a forma de meditação é o Meu coração, o conhecimento védico sob a forma dos hinos e mantras constitui Meu corpo, e as atividades espirituais e emoções extáticas são Minha verdadeira forma. As cerimônias ritualísticas e sacrifícios, quando apropriadamente conduzidos, são os vários membros do Meu corpo, a invisível boa fortuna decorrente das atividades piedosas ou espirituais constitui Minha mente, e os semi­deuses que, em vários departamentos, executam Minhas ordens, são Minha vida e alma.

Purport

SIGNIFICADO—Às vezes, os ateístas argumentam que, uma vez que Deus é invi­sível aos seus olhos, eles não acreditam em Deus. É para eles que o Senhor Supremo está descrevendo um método através do qual é possível ver Deus em Sua forma impessoal. Como afirmam os śāstras, as pessoas inteligentes podem ver Deus em Sua forma pessoal, mas, se alguém está muito ansioso por ver a Suprema Personalidade de Deus imediatamente, face a face, pode ver o Senhor Supremo através desta descrição, que retrata as várias partes internas e externas do Seu corpo.
Ocupar-se em tapasya, ou abstenção de atividades materiais, é o primeiro passo da vida espiritual. Depois, vêm as atividades espiri­tuais, tais como a realização de sacrifícios ritualísticos védicos, o estudo do conhecimento védico, a meditação na Suprema Persona­lidade de Deus e o cantar do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa. Devem-se, também, respeitar os semideuses e compreender a sua posição, como agem e como administram as atividades dos vários departamentos deste mundo material. Dessa maneira, pode-se ver como Deus exis­te e como tudo é administrado perfeitamente devido à presença do Senhor Supremo. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (9.10):
mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ
sūyate sa-carācaram
hetunānena kaunteya
jagad viparivartate
“Esta natureza material, que é uma das Minhas energias, funciona sob Minha direção, ó filho de Kuntī, produzindo todos os seres móveis e imóveis. Obedecendo-lhe ao comando, esta manifestação é criada e aniquilada repetidas vezes.” Se alguém é incapaz de ver o Senhor Supremo apesar de, em Suas várias encarnações, Ele estar presente como Kṛṣṇa, essa pessoa pode, de acordo com a orientação dos Vedas e através das atividades da natureza material, ver o aspecto impessoal do Senhor Supremo.
Tudo aquilo que é feito sob a orientação dos preceitos védicos se chama dharma, como descrevem os mensageiros de Yamarāja:
veda-praṇihito dharmo
hy adharmas tad-viparyayaḥ
vedo nārāyaṇaḥ sākṣāt
svayambhūr iti śuśruma
“Aquilo que está prescrito nos Vedas constitui dharma, os princípios religiosos, e o que se opõe a isso é irreligião. Os Vedas são direta­mente a Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa, e são autóge­nos. Foi Yamarāja quem nos disse isso.” (Śrīmad-Bhāgavatam 6.1.40)
A esse respeito, Śrīla Madhvācārya comenta:
tapo ’bhimānī rudras tu
viṣṇor hṛdayam āśritaḥ
vidyā rūpā tathaivomā
viṣṇos tanum upāśritā
śṛṅgārādy-ākṛti-gataḥ
kriyātmā pāka-śāsanaḥ
aṅgeṣu kratavaḥ sarve
madhya-dehe ca dharma-rāṭ
prāṇo vāyuś citta-gato
brahmādyāḥ sveṣu devatāḥ
Os vários semideuses estão agindo sob a proteção da Suprema Perso­nalidade de Deus, e, de acordo com suas diversas ações, eles recebem diferentes nomes.
अहमेवासमेवाग्रे नान्यत् किञ्चान्तरं बहि: ।
संज्ञानमात्रमव्यक्तं प्रसुप्तमिव विश्वत: ॥ ४७ ॥
aham evāsam evāgre
nānyat kiñcāntaraṁ bahiḥ
saṁjñāna-mātram avyaktaṁ
prasuptam iva viśvataḥ

Synonyms

ahamEu, a Suprema Personalidade de Deus; evasomente; āsamexistia; evacom certeza; agreno começo, antes da criação; nanão; anyatoutra; kiñcacoisa alguma; antaramalém de Mim; bahiḥexterna (uma vez que a manifestação cósmica é exter­na ao mundo espiritual, o mundo espiritual já existia antes do mundo material); saṁjñāna-mātramapenas a consciência das entidades vivas; avyaktamimanifesta; prasuptamsono; ivacomo; viśvataḥa todo momento.

Translation

Antes da criação desta manifestação cósmica, Eu existia sozinho com Minhas potências espirituais. A consciência, então, estava imanifesta, assim como a consciência fica imanifesta durante o sono.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra aham indica uma pessoa. Como explicam os Vedas, nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām (Kaṭha Upaniṣad 2.2.13): O Senhor é o eterno supremo entre inúmeros eternos e o ser vivo supremo entre inúmeros seres vivos. O Senhor é uma pessoa que também possui aspectos impes­soais. Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.11):
vadanti tat tattva-vidas
tattvaṁ yaj jñānam advayam
brahmeti paramātmeti
bhagavān iti śabdyate
“Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta chamam essa substância não-dual de Brahman, Paramātmā ou Bhagavān.” Somente após a criação é que se fez referência ao Paramātmā e ao Brahman impessoal; antes da criação, existia apenas a Suprema Personalidade de Deus. Como se declara firmemente na Bhagavad-gītā (18.55), o Senhor pode ser compreendido apenas através do bhakti-yoga. A causa última, a suprema causa da criação, é a Su­prema Personalidade de Deus, que pode ser compreendido apenas através de bhakti-yoga. Ele não pode ser compreendido mediante análise filosófica especulativa ou meditação, uma vez que todos esses processos passaram a existir após a criação material. As pondera­ções impessoal e localizada a respeito do Senhor Supremo são, até certo ponto, materialmente contaminadas. Portanto, o verdadeiro processo espiritual é o bhakti-yoga. Como o Senhor diz, bhaktyā mām abhijānāti: “Somente através do serviço devocional é que posso ser compreendido.” Conforme aqui indicado pela palavra aham, o Senhor existia como pessoa antes da criação. Ao vê-lO como uma pessoa que estava belamente vestida e ornamentada, o prajāpati Dakṣa, através do serviço devocional, pôde realmente experimentar o significado dessa palavra aham.
Toda pessoa é eterna. Porque o Senhor diz que antes da criação (agre) existia como pessoa e também continuará existindo após a aniquilação, Ele é eternamente uma pessoa. Portanto, Śrīla Viśva­nātha Cakravartī Ṭhākura cita esses versos do Śrīmad-Bhāgavatam (10.9.13-14):
na cāntar na bahir yasya
na pūrvaṁ nāpi cāparam
pūrvāparaṁ bahiś cāntar
jagato yo jagac ca yaḥ
taṁ matvātmajam avyaktaṁ
martya-liṅgam adhokṣajam
gopikolūkhale dāmnā
babandha prākṛtaṁ yathā
A Personalidade de Deus apareceu em Vṛndāvana como filho de mãe Yaśodā, que amarrou o Senhor com uma corda, assim como uma mãe comum amarra um filho material. De fato, a forma da Suprema Personalidade de Deus (sac-cid-ānanda-vigraha) não é constituída de divisões externa e interna, mas, quando Ele aparece sob Sua própria forma, as pessoas sem inteligência O consideram uma pessoa comum. Avajānanti māṁ mūḍhā mānuṣīṁ tanum āśritam: embora Ele advenha em Seu próprio corpo, que jamais passa por transformações, os mūḍhas, aqueles que não têm inteligência, pensam que, para vir sob a forma de uma pessoa, o Brahman impessoal assumiu um corpo material. Os seres vivos comuns aceitam corpos materiais, mas tal fenômeno não se aplica à Suprema Personalidade de Deus. Como a Suprema Personalidade de Deus é a consciência Suprema, afirma-se nesta passagem que saṁjñāna-mātram, a cons­ciência original, a consciência de Kṛṣṇa, estava imanifesta antes da criação, embora a consciên­cia da Suprema Personalidade de Deus seja a origem de tudo. Na Bhagavad-gītā (2.12), o Senhor diz: “Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir.” Assim, a pessoa do Senhor é a Verdade Absoluta no passado, no presente e no futuro.
A esse respeito, Madhvācārya cita dois versos do Matsya Purāṇa:
nānā-varṇo haris tv eko
bahu-śīrṣa-bhujo rūpāt
āsīl laye tad-anyat tu
sūkṣma-rūpaṁ śriyaṁ vinā
asuptaḥ supta iva ca
mīlitākṣo ’bhavad dhariḥ
anyatrānādarād viṣṇau
śrīś ca līneva kathyate
sūkṣmatvena harau sthānāl
līnam anyad apīṣyate
Após a aniquilação de tudo, o Senhor Supremo, devido ao Seu sac­-cid-ānanda-vigraha, permanece sob Sua forma original, mas, como as outras entidades vivas têm corpos materiais, a matéria imerge na matéria, e a forma sutil da alma espiritual permanece dentro do corpo do Senhor. O Senhor não dorme, mas as entidades vivas comuns ficam adormecidas até a próxima criação. Pessoas sem inteligência pensam que, após a aniquilação, a opulência do Senhor Supremo inexiste, mas isso não é verdade. No mundo espiritual, a opulência da Suprema Personalidade de Deus permanece incólume, mas, no mundo material é que tudo é dissolvido. Brahma-līna, a imersão no Brahman Supremo, não é verdadeira līna, ou aniquilação, visto que, após a criação material, a forma sutil que está imersa na refulgência Brahman regressará ao mundo material e reassumirá uma forma material. Descreve-se isso como bhūtvā bhūtvā pralīyate. Quando o corpo material é aniquilado, a alma espiritual permanece sob uma forma sutil, que mais tarde adquire outro corpo material. Isso é válido em relação às almas condicionadas, mas a Suprema Perso­nalidade de Deus continua eternamente em Sua consciência e corpo espiritual originais.
मय्यनन्तगुणेऽनन्ते गुणतो गुणविग्रह: ।
यदासीत्तत एवाद्य: स्वयम्भू: समभूदज: ॥ ४८ ॥
mayy ananta-guṇe ’nante
guṇato guṇa-vigrahaḥ
yadāsīt tata evādyaḥ
svayambhūḥ samabhūd ajaḥ

Synonyms

mayiem Mim; ananta-guṇepossuindo potências ilimitadas; ananteilimitada; guṇataḥde Minha potência conhecida como māyā; guṇa-vigrahaḥo universo, que é o resultado dos modos da natureza; yadāquando; āsītele passou a existir; tataḥentão; evana verdade; ādyaḥo primeiro ser vivo; svayambhūḥo senhor Brahmā; samabhūtnasceu; ajaḥembora não tivesse uma mãe material.

Translation

Eu sou o reservatório de potência ilimitada e, portanto, sou conhecido como ilimitado ou onipenetrante. A partir de Minha energia material, a manifestação cósmica apareceu dentro de Mim, e, nessa manifestação universal, surgiu o ser principal, o senhor Brahmā, que é tua fonte e não nasce de uma mãe material.

Purport

SIGNIFICADO—Esta é uma descrição da história da criação universal. A causa primordial é o próprio Senhor, a Pessoa Suprema. A partir dEle, Brahmā é criado, e Brahmā se encarrega dos afazeres universais. Os afaze­res universais da criação material dependem da energia material da Suprema Personalidade de Deus, que, portanto, é a causa da criação material. Toda a manifestação cósmica é descrita aqui como guṇa-­vigrahaḥ, a forma das qualidades do Senhor. A partir da forma cósmica universal, a primeira criatura é o senhor Brahmā, que é a causa de todas as entidades vivas. Com relação a isso, Śrīla Madhvācārya descreve os ilimitados atributos do Senhor:
praty-ekaśo guṇānāṁ tu
niḥsīmatvam udīryate
tadānantyaṁ tu guṇatas
te cānantā hi saṅkhyayā
ato ’nanta-guṇo viṣṇur
guṇato ’nanta eva ca
Parāsya śaktir vividhaiva śrūyate: o Senhor tem inúmeras potências, todas as quais são ilimitadas. Portanto, o próprio Senhor e todas as Suas qualidades, formas, passatempos e parafernália também são ilimitados. Porque tem atributos ilimitados, o Senhor Viṣṇu é conhecido como Ananta.
स वै यदा महादेवो मम वीर्योपबृंहित: ।
मेने खिलमिवात्मानमुद्यत: स्वर्गकर्मणि ॥ ४९ ॥
अथ मेऽभिहितो देवस्तपोऽतप्यत दारुणम् ।
नव विश्वसृजो युष्मान् येनादावसृजद्विभु: ॥ ५० ॥
sa vai yadā mahādevo
mama vīryopabṛṁhitaḥ
mene khilam ivātmānam
udyataḥ svarga-karmaṇi
atha me ’bhihito devas
tapo ’tapyata dāruṇam
nava viśva-sṛjo yuṣmān
yenādāv asṛjad vibhuḥ

Synonyms

saḥesse senhor Brahmā; vaina verdade; yadāquando; mahā­-devaḥo principal de todos os semideuses; mamaMinha; vīrya­upabṛṁhitaḥganhando ímpeto com a potência; meneconsiderou-se; khilamincapaz; ivacomo se; ātmānamele próprio; udyataḥtentando; svarga-karmaṇina criação dos afazeres universais; athanaquele momento; mepor Mim; abhihitaḥaconselhado; devaḥesse senhor Brahmā; tapaḥausteridade; atapyatareali­zou; dāruṇamextremamente difícil; navanove; viśva-sṛjaḥimportantes personalidades para criar o universo; yuṣmāntodos vós; yenapor quem; ādauno começo; asṛjatcriou; vibhuḥo grande.

Translation

Quando, inspirado por Minha energia, o principal senhor do universo, o senhor Brahmā [Svayambhū], tentava criar, viu-se in­capaz de fazê-lo. Portanto, ofereci-lhe alguns conselhos e, de acordo com as Minhas instruções, submeteu-se a austeridades extremamente di­fíceis. Devido a essas austeridades, o grande senhor Brahmā foi capaz de criar nove personalidades para ajudá-lo nas funções da criação, e estás incluído entre elas.

Purport

SIGNIFICADO—Nada é possível sem tapasya. Entretanto, devido às suas austeridades, o senhor Brahmā recebeu o poder de criar todo este universo. Pela graça do Senhor, quanto mais nos ocupamos em austeridades, mais nos tornamos poderosos. Portanto, Ṛṣabhadeva aconse­lhou a Seus filhos que tapo divyaṁ putrakā yena sattvaṁ śuddhyed: “Para alcançar a divina posição de serviço devocional, a pessoa deve ocupar-se em penitências e austeridades. Através dessa atividade, seu coração se purifica.” (Śrīmad-Bhāgavatam 5.5.1) Em nossa existência mate­rial, somos impuros e, portanto, não podemos fazer nada maravi­lhoso, mas se, através de tapasya, purificarmos a nossa existência, poderemos, pela graça do Senhor, fazer coisas maravilhosas. Portanto, como se enfatiza neste verso, tapasya é algo muito importante.
एषा पञ्चजनस्याङ्ग दुहिता वै प्रजापते: ।
असिक्नी नाम पत्नीत्वे प्रजेश प्रतिगृह्यताम् ॥ ५१ ॥
eṣā pañcajanasyāṅga
duhitā vai prajāpateḥ
asiknī nāma patnītve
prajeśa pratigṛhyatām

Synonyms

eṣāisto; pañcajanasyade Pañcajana; aṅgaó Meu querido filho; duhitāa filha; vaina verdade; prajāpateḥoutro prajāpati; asiknī nāmachamada Asiknī; patnītvecomo tua esposa; prajeśaó prajāpati; pratigṛhyatāmque ela seja aceita.

Translation

Ó Meu querido filho Dakṣa, o Prajāpati Pañcajana tem uma filha chamada Asiknī, a qual te ofereço para que a aceites como tua esposa.
मिथुनव्यवायधर्मस्त्वं प्रजासर्गमिमं पुन: ।
मिथुनव्यवायधर्मिण्यां भूरिशो भावयिष्यसि ॥ ५२ ॥
mithuna-vyavāya-dharmas tvaṁ
prajā-sargam imaṁ punaḥ
mithuna-vyavāya-dharmiṇyāṁ
bhūriśo bhāvayiṣyasi

Synonyms

mithunade homem e mulher; vyavāyaatividades sexuais; dharmaḥquem aceita através da prática religiosa; tvamtu; prajā­-sargamcriação de entidades vivas; imamisto; punaḥnovamen­te; mithunade homem e mulher unidos; vyavāya-dharmiṇyāmnela, tendo relação sexual de acordo com a prática religiosa; bhūriśaḥum grande número; bhāvayiṣyasitrarás à existência.

Translation

Portanto, como homem e mulher, uni-vos através da atividade sexual e, dessa maneira, através da relação sexual, serás capaz de gerar centenas de filhos no ventre dessa jovem para aumentar a população.

Purport

SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (7.11), o Senhor diz que dharmāviruddho bhūteṣu kāmo ’smi: “Eu sou o sexo que não é contrário aos princípios religiosos.” O intercurso sexual ordenado pela Suprema Personali­dade de Deus é dharma, princípio religioso, mas não visa ao gozo dos sentidos. Os princípios védicos não permitem a prática do gozo dos sentidos através do intercurso sexual. Com o único propósito de gerar filhos é que alguém pode seguir a sua tendência natural à atividade sexual. Portanto, neste verso, o Senhor disse a Dakṣa: “Recebes esta jovem apenas para a atividade sexual destinada a gerar filhos, e não para algum outro propósito. Ela é muito fértil, de modo que serás capaz de ter tantos filhos quantos puderes gerar.”
A esse respeito, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura assinala que Dakṣa recebeu facilidades para um intercurso sexual ilimitado. Em sua vida anterior, Dakṣa também era conhecido como Dakṣa, mas, enquanto executava sacrifícios, ele ofendeu o senhor Śiva, e assim sua cabeça foi substituída pela cabeça de um bode. Depois, devido à sua condição degradada, Dakṣa abandonou sua vida, mas, porque man­teve os mesmos desejos sexuais ilimitados, submeteu-se a rigorosas austeridades com as quais satisfez o Senhor Supremo, que lhe ofereceu, então, ilimitada potência para o intercurso sexual.
Deve-se notar que, embora seja obtida pela graça da Suprema Personalidade de Deus, essa facilidade para o intercurso sexual não é ofe­recida aos devotos avançados, que estão livres de desejos materiais (anyābhilāṣitā-śūnyam). Com relação a isso, é bom notar que, se os rapazes e moças americanos ocupados no movimento da consciência de Kṛṣṇa quiserem avançar em consciência de Kṛṣṇa para alcançar o benefício supremo de prestar serviço amoroso ao Senhor, deverão evitar de se entregar a essas condições favoráveis à prática sexual. Portanto, aconselhamos que a pessoa deve ao menos se abster do sexo ilícito. Mesmo que alguém tenha oportunidades para uma vida sexual ativa, ele deve aceitar voluntariamente restringir a atividade sexual apenas à procriação e esquivar-se de qualquer outro propósito. Kardama Muni também recebeu facilidades para as ativida­des sexuais, mas quase não tinha desejo de se envolver com isso. Portanto, após gerar filhos no ventre de Devahūti, Kardama Muni se tornou inteiramente renunciado. O ponto é que se alguém quer voltar ao lar, voltar ao Supremo, deve voluntariamente restringir sua vida sexual. O sexo deve ser aceito somente tanto quanto necessário, e não de modo ilimitado.
Ninguém deve pensar que, pelo fato de ter obtido facili­dades para o sexo ilimitado, Dakṣa tenha recebido o favor do Senhor. Os versos seguintes revelarão que Dakṣa voltou a cometer uma ofensa; desta vez, aos pés de lótus de Nārada. Portanto, embora a vida sexual seja o gozo máximo no mundo material, e embora, pela graça de Deus, alguém possa ter a oportunidade de gozo sexual, a pessoa corre o risco de cometer ofensas. Dakṣa estava exposto a esse risco de ofender e, portanto, falando estritamente, não foi favorecido de fato pelo Senhor Supremo. Ninguém deve buscar o Senhor em troca do favor de obter ilimitada potência para a vida sexual.
त्वत्तोऽधस्तात्प्रजा: सर्वा मिथुनीभूय मायया ।
मदीयया भविष्यन्ति हरिष्यन्ति च मे बलिम् ॥ ५३ ॥
tvatto ’dhastāt prajāḥ sarvā
mithunī-bhūya māyayā
madīyayā bhaviṣyanti
hariṣyanti ca me balim

Synonyms

tvattaḥtu; adhastātapós; prajāḥas entidades vivas; sarvāḥtodas; mithunī-bhūyatendo vida sexual; māyayādevido à influência ou facilidades da energia ilusória; madīyayāMinha; bhaviṣyantieles se tornarão; hariṣyantieles oferecerão; catambém; mea Mim; balimpresentes.

Translation

Após gerares muitas centenas e milhares de filhos, eles também se deixarão cativar por Minha energia ilusória e, como tu, eles se ocuparão em vida sexual ativa. Porém, devido à Minha misericórdia contigo e com eles, também serão capazes de trazer presentes em devoção a Mim.
श्रीशुक उवाच
इत्युक्त्वा मिषतस्तस्य भगवान् विश्वभावन: ।
स्वप्नोपलब्धार्थ इव तत्रैवान्तर्दधे हरि: ॥ ५४ ॥
śrī-śuka uvāca
ity uktvā miṣatas tasya
bhagavān viśva-bhāvanaḥ
svapnopalabdhārtha iva
tatraivāntardadhe hariḥ

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚukadeva Gosvāmī continuou a falar; itiassim; uktvādizendo; miṣataḥ tasyaenquanto ele (Dakṣa) olhava pessoalmente; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; viśva-­bhāvanaḥque cria os afazeres universais; svapna-upalabdha-arthaḥum objeto obtido em sonho; ivacomo; tatra; evacom certeza; antardadhedesapareceu; hariḥo Senhor, a Suprema Personali­dade de Deus.

Translation

Śukadeva Gosvāmī continuou: Depois que o criador de todo o universo, a Suprema Personalidade de Deus, Hari, falou dessa maneira na presença do prajāpati Dakṣa, desapareceu imediatamente, como se fosse um objeto experimentado em sonho.

Purport

Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do sexto canto, quarto capítulo do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “As Orações Haṁsa-guḥya Oferecidas ao Senhor pelo Prajāpati Dakṣa”.