Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Quinze
Descrição do Reino de Deus
Devanagari
मैत्रेय उवाच
प्रजापत्यं तु तत्तेज: परतेजोहनं दिति: ।
दधार वर्षाणि शतं शङ्कमाना सुरार्दनात् ॥ १ ॥
प्रजापत्यं तु तत्तेज: परतेजोहनं दिति: ।
दधार वर्षाणि शतं शङ्कमाना सुरार्दनात् ॥ १ ॥
Verse text
maitreya uvāca
prājāpatyaṁ tu tat tejaḥ
para-tejo-hanaṁ ditiḥ
dadhāra varṣāṇi śataṁ
śaṅkamānā surārdanāt
prājāpatyaṁ tu tat tejaḥ
para-tejo-hanaṁ ditiḥ
dadhāra varṣāṇi śataṁ
śaṅkamānā surārdanāt
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — o sábio Maitreya disse; prājāpatyam — do grande Prajāpati; tu — mas; tat tejaḥ — seu poderoso sêmen; para-tejaḥ — proezas dos outros; hanam — perturbando; ditiḥ — Diti (esposa de Kaśyapa); dadhāra — carregou; varṣāṇi — anos; śatam — cem; śaṅkamānā — estando em dúvida; sura-ardanāt — perturbadores para os semideuses.
Translation
Śrī Maitreya disse: Meu querido Vidura, Diti, a esposa do sábio Kaśyapa, pôde entender que os filhos gerados em seu ventre seriam uma causa de perturbação para os semideuses. De tal forma, durante cem anos seguidos ela carregou o poderoso sêmen de Kaśyapa Muni, que se destinava a causar problemas aos outros.
Purport
O grande sábio Śrī Maitreya estava explicando a Vidura as atividades dos semideuses, incluindo o senhor Brahmā. Ao ouvir seu esposo falar que os filhos que ela carregava dentro de seu abdômen seriam uma causa de perturbação para os semideuses, Diti sentiu-se muito infeliz. Há duas classes de homens – devotos e não-devotos. Os não-devotos chamam-se demônios, e os devotos, semideuses. Nenhum homem ou mulher que possua sobriedade pode tolerar os não-devotos causando problemas aos devotos. Por isso, Diti relutava em dar à luz seus bebês: ela esperou por cem anos para que, pelo menos durante aquele período, pudesse poupar os semideuses das perturbações.
Devanagari
लोके तेनाहतालोके लोकपाला हतौजस: ।
न्यवेदयन् विश्वसृजे ध्वान्तव्यतिकरं दिशाम् ॥ २ ॥
न्यवेदयन् विश्वसृजे ध्वान्तव्यतिकरं दिशाम् ॥ २ ॥
Verse text
loke tenāhatāloke
loka-pālā hataujasaḥ
nyavedayan viśva-sṛje
dhvānta-vyatikaraṁ diśām
loka-pālā hataujasaḥ
nyavedayan viśva-sṛje
dhvānta-vyatikaraṁ diśām
Synonyms
loke — dentro deste universo; tena — por força da gravidez de Diti; āhata — sendo desprovidos de; āloke — luz; loka-pālāḥ — os semideuses de diversos planetas; hata-ojasaḥ — cuja potência foi diminuída; nyavedayan — perguntaram; viśva-sṛje — Brahmā; dhvānta-vyatikaram — expansão de escuridão; diśām — em todas as direções.
Translation
Por força da gravidez de Diti, a luz do Sol e da Lua enfraqueceu em todos os planetas, e os semideuses de diversos planetas, perturbados por aquela força, perguntaram a Brahmā, o criador do universo: “Que escuridão é esta que se expande em todas as direções?”
Purport
Parece, a partir deste verso do Śrīmad-Bhāgavatam, que o Sol é a fonte de luz para todos os planetas do universo. Este verso não apoia a moderna teoria científica de que há muitos sóis em cada universo. Subentende-se que, em cada universo, há apenas um sol, que fornece luz a todos os planetas. A Bhagavad-gītā também afirma que a Lua é uma das estrelas. Existem muitas estrelas, e quando as vemos reluzir à noite, podemos entender que elas são refletores de luz. Assim como o luar é um reflexo da luz do Sol, outros planetas também refletem a luz do Sol, e há muitos outros planetas que não podem ser vistos a olho nu. A influência demoníaca dos filhos no ventre de Diti espalhou escuridão por todo o universo.
Devanagari
देवा ऊचु:
तम एतद्विभो वेत्थ संविग्ना यद्वयं भृशम् ।
न ह्यव्यक्तं भगवत: कालेनास्पृष्टवर्त्मन: ॥ ३ ॥
तम एतद्विभो वेत्थ संविग्ना यद्वयं भृशम् ।
न ह्यव्यक्तं भगवत: कालेनास्पृष्टवर्त्मन: ॥ ३ ॥
Verse text
devā ūcuḥ
tama etad vibho vettha
saṁvignā yad vayaṁ bhṛśam
na hy avyaktaṁ bhagavataḥ
kālenāspṛṣṭa-vartmanaḥ
tama etad vibho vettha
saṁvignā yad vayaṁ bhṛśam
na hy avyaktaṁ bhagavataḥ
kālenāspṛṣṭa-vartmanaḥ
Synonyms
devāḥ ūcuḥ — os semideuses disseram; tamaḥ — escuridão; etat — esta; vibho — ó grandioso; vettha — vós conheceis; saṁvignāḥ — muito ansiosos; yat — porque; vayam — nós; bhṛśam — muito; <strong> </strong>na — não; hi — porque; avyaktam — imanifesto; bhagavataḥ — de Vós (a Suprema Personalidade de Deus); kālena — pelo tempo; aspṛṣṭa — intocado; vartmanaḥ — cujo caminho.
Translation
Os afortunados semideuses disseram: Ó grandioso, vede só esta escuridão, a qual conheceis muito bem e que está nos causando ansiedade. Como a influência do tempo não pode vos afetar, nada é imanifesto perante vós.
Purport
Aqui Brahmā é tratado como Vibhu e como a Personalidade de Deus. Ele é a encarnação da Suprema Personalidade de Deus do modo da paixão no mundo material. No sentido representativo, ele não é diferente da Suprema Personalidade de Deus, e, devido a isso, a influência do tempo não pode afetá-lo. A influência do tempo, que se manifesta como passado, presente e futuro, não pode afetar personalidades superiores, como Brahmā e outros semideuses. Às vezes, os semideuses e grandes sábios que alcançaram tal perfeição são chamados de tri-kāla jña.
Devanagari
देवदेव जगद्धातर्लोकनाथशिखामणे ।
परेषामपरेषां त्वं भूतानामसि भाववित् ॥ ४ ॥
परेषामपरेषां त्वं भूतानामसि भाववित् ॥ ४ ॥
Verse text
deva-deva jagad-dhātar
lokanātha-śikhāmaṇe
pareṣām apareṣāṁ tvaṁ
bhūtānām asi bhāva-vit
lokanātha-śikhāmaṇe
pareṣām apareṣāṁ tvaṁ
bhūtānām asi bhāva-vit
Synonyms
deva-deva — ó deus dos semideuses; jagat-dhātaḥ — ó sustentador do universo; lokanātha-śikhāmaṇe — ó joia magna de todos os semideuses em outros planetas; pareṣām — do mundo espiritual; apareṣām — do mundo material; tvam — vós; bhūtānām — de todas as entidades vivas; asi — são; bhāva-vit — conhecendo as intenções.
Translation
Ó deus dos semideuses, sustentador do universo, joia magna de todos os semideuses em outros planetas, vós conheceis as intenções de todas as entidades vivas, tanto no mundo material quanto no mundo espiritual.
Purport
Como Brahmā é quase do mesmo nível que a Personalidade de Deus, ele é tratado aqui como o deus dos semideuses, e, por ser o criador secundário deste universo, ele é tratado como o sustentador do universo. Ele é o líder de todos os semideuses e, por isso, é chamado de a joia magna dos semideuses. Não lhe é difícil entender tudo que acontece, tanto no mundo espiritual quanto no mundo material. Ele conhece o coração e as intenções de todos. Portanto, pediram-lhe para explicar aquele incidente. Por que a gravidez de Diti estava causando tanta ansiedade em todo o universo?
Devanagari
नमो विज्ञानवीर्याय माययेदमुपेयुषे ।
गृहीतगुणभेदाय नमस्तेऽव्यक्तयोनये ॥ ५ ॥
गृहीतगुणभेदाय नमस्तेऽव्यक्तयोनये ॥ ५ ॥
Verse text
namo vijñāna-vīryāya
māyayedam upeyuṣe
gṛhīta-guṇa-bhedāya
namas te ’vyakta-yonaye
māyayedam upeyuṣe
gṛhīta-guṇa-bhedāya
namas te ’vyakta-yonaye
Synonyms
namaḥ — respeitosas reverências; vijñāna-vīryāya — ó fonte original de força e conhecimento científico; māyayā — pela energia externa; idam — este corpo de Brahmā; upeyuṣe — tendo obtido; gṛhīta — aceitando; guṇa-bhedāya — o modo diferenciado da paixão; namaḥ te — prestando-vos reverências; avyakta — imanifesta; yonaye — fonte.
Translation
Ó fonte original de força e conhecimento científico, todas as reverências a vós! Aceitastes da parte da Suprema Personalidade de Deus o modo diferenciado da paixão. Com a ajuda da energia externa, nascestes da fonte imanifesta. Todas as reverências a vós!
Purport
Os Vedas são o conhecimento científico original para todos os setores de entendimento, e esse conhecimento dos Vedas foi infundido primeiramente no coração de Brahmā pela Suprema Personalidade de Deus. Portanto, Brahmā é a fonte original de todo o conhecimento científico. Ele nasce diretamente do corpo transcendental de Garbhodakaśāyī Viṣṇu, que nunca é visto por nenhuma criatura deste universo material e, consequentemente, sempre permanece imanifesto. Aqui se afirma que Brahmā nasceu do imanifesto. Ele é a encarnação do modo da paixão na natureza material, que é a energia externa, separada, do Senhor Supremo.
Devanagari
ये त्वानन्येन भावेन भावयन्त्यात्मभावनम् ।
आत्मनि प्रोतभुवनं परं सदसदात्मकम् ॥ ६ ॥
आत्मनि प्रोतभुवनं परं सदसदात्मकम् ॥ ६ ॥
Verse text
ye tvānanyena bhāvena
bhāvayanty ātma-bhāvanam
ātmani prota-bhuvanaṁ
paraṁ sad-asad-ātmakam
bhāvayanty ātma-bhāvanam
ātmani prota-bhuvanaṁ
paraṁ sad-asad-ātmakam
Synonyms
Translation
Ó senhor, todos estes planetas existem dentro de vosso eu, e todas as entidades vivas são geradas a partir de vós. Portanto, sois a causa deste universo, e todo aquele que em vós medita, sem desvios, alcança o serviço devocional.
Devanagari
तेषां सुपक्वयोगानां जितश्वासेन्द्रियात्मनाम् ।
लब्धयुष्मत्प्रसादानां न कुतश्चित्पराभव: ॥ ७ ॥
लब्धयुष्मत्प्रसादानां न कुतश्चित्पराभव: ॥ ७ ॥
Verse text
teṣāṁ supakva-yogānāṁ
jita-śvāsendriyātmanām
labdha-yuṣmat-prasādānāṁ
na kutaścit parābhavaḥ
jita-śvāsendriyātmanām
labdha-yuṣmat-prasādānāṁ
na kutaścit parābhavaḥ
Synonyms
Translation
Neste mundo material, não há derrota para aqueles que controlam a mente e os sentidos, controlando o processo respiratório, e que, portanto, são místicos experientes e maduros. Isso porque, através de tal perfeição em yoga, eles têm obtido vossa misericórdia.
Purport
Explica-se aqui o propósito das realizações ióguicas. Afirma-se que um místico experiente obtém pleno controle dos sentidos e da mente, controlando o processo respiratório. Portanto, controlar o processo respiratório não é o objetivo final do yoga. O verdadeiro propósito das realizações ióguicas é controlar a mente e os sentidos. Qualquer pessoa que tenha esse controle deve ser considerada um yogī místico maduro e experiente. Nesta passagem, indica-se que o yogī que tem controle sobre a mente e os sentidos tem a verdadeira bênção do Senhor, e não tem medo. Em outras palavras, não podemos alcançar a misericórdia e a bênção do Senhor Supremo sem que sejamos capazes de controlar a mente e os sentidos, o que é realmente possível quando nos ocupamos plenamente em consciência de Kṛṣṇa. Alguém cujos sentidos e cuja mente estão sempre ocupados no transcendental serviço ao Senhor não tem possibilidades de ocupar-se em atividades materiais. Os devotos do Senhor não são derrotados em nenhuma parte do universo. A este respeito, afirma-se que nārāyaṇa parāḥ sarve: aquele que é nārāyaṇa-para, ou devoto da Suprema Personalidade de Deus, nada teme em parte alguma, quer seja enviado ao inferno, quer seja promovido ao céu. (Śrīmad-Bhāgavatam 6.17.28)
Devanagari
यस्य वाचा प्रजा: सर्वा गावस्तन्त्येव यन्त्रिता: ।
हरन्ति बलिमायत्तास्तस्मै मुख्याय ते नम: ॥ ८ ॥
हरन्ति बलिमायत्तास्तस्मै मुख्याय ते नम: ॥ ८ ॥
Verse text
yasya vācā prajāḥ sarvā
gāvas tantyeva yantritāḥ
haranti balim āyattās
tasmai mukhyāya te namaḥ
gāvas tantyeva yantritāḥ
haranti balim āyattās
tasmai mukhyāya te namaḥ
Synonyms
yasya — de quem; vācā — pelas orientações védicas; prajāḥ — entidades vivas; sarvāḥ — todas; gāvaḥ — touros; tantyā — por uma corda; iva — como; yantritāḥ — são dirigidos; haranti — oferecem, tomam; balim — presentes, ingredientes para adoração; āyattāḥ — sob controle; tasmai — a ele; mukhyāya — à pessoa principal; te — a vós; namaḥ — respeitosas reverências.
Translation
Todas as entidades vivas dentro do universo são conduzidas pelas orientações védicas, assim como o touro é dirigido pela corda amarrada a seu focinho. Ninguém pode violar as regras decretadas nos textos védicos. À pessoa mais importante, quem nos outorgou os Vedas, oferecemos nossos respeitos!
Purport
Os textos védicos são as leis da Suprema Personalidade de Deus. Ninguém pode violar os preceitos contidos nos textos védicos, assim como não é permitido violar as leis do estado. Qualquer criatura que deseje verdadeiro benefício na vida deve agir conforme a orientação da literatura védica. As almas condicionadas que vêm a este mundo material em busca de gozo dos sentidos são reguladas pelos preceitos da literatura védica. O gozo dos sentidos é como o sal, que não pode ser usado nem muito nem pouco, mas, sim, na quantidade certa para tornar o alimento saboroso. Todas as almas condicionadas que vieram a este mundo material devem utilizar seus sentidos segundo a orientação da literatura védica, ou cairão em condições de vida com cada vez mais sofrimento. Nenhum ser humano ou semideus pode decretar leis como as da literatura védica, pois os regulamentos védicos são prescritos pelo Senhor Supremo.
Devanagari
स त्वं विधत्स्व शं भूमंस्तमसा लुप्तकर्मणाम् ।
अदभ्रदयया दृष्टया आपन्नानर्हसीक्षितुम् ॥ ९ ॥
अदभ्रदयया दृष्टया आपन्नानर्हसीक्षितुम् ॥ ९ ॥
Verse text
sa tvaṁ vidhatsva śaṁ bhūmaṁs
tamasā lupta-karmaṇām
adabhra-dayayā dṛṣṭyā
āpannān arhasīkṣitum
tamasā lupta-karmaṇām
adabhra-dayayā dṛṣṭyā
āpannān arhasīkṣitum
Synonyms
saḥ — ele; tvam — vós; vidhatsva — executais; śam — boa fortuna; bhūman — ó grandioso senhor; tamasā — pela escuridão; lupta — está suspenso; karmaṇām — dos deveres prescritos; adabhra — magnânimo, sem reservas; dayayā — misericórdia; dṛṣṭyā — por vosso olhar; āpannān — a nós, os rendidos; arhasi — sois capaz; īkṣitum — de ver.
Translation
Os semideuses oraram a Brahmā: Por favor, olhai misericordiosamente por nós, pois caímos numa condição de sofrimento. Devido à escuridão, todo o nosso trabalho está suspenso.
Purport
Devido à total escuridão por todo o universo, suspenderam-se as atividades e as ocupações regulares de todos os diferentes planetas. Nos Polos Norte e Sul deste planeta, às vezes não há distinção entre dia e noite; de forma semelhante, quando a luz do Sol não se aproxima dos diferentes planetas dentro do universo, não se distingue o dia e a noite.
Devanagari
एष देव दितेर्गर्भ ओज: काश्यपमर्पितम् ।
दिशस्तिमिरयन् सर्वा वर्धतेऽग्निरिवैधसि ॥ १० ॥
दिशस्तिमिरयन् सर्वा वर्धतेऽग्निरिवैधसि ॥ १० ॥
Verse text
eṣa deva diter garbha
ojaḥ kāśyapam arpitam
diśas timirayan sarvā
vardhate ’gnir ivaidhasi
ojaḥ kāśyapam arpitam
diśas timirayan sarvā
vardhate ’gnir ivaidhasi
Synonyms
Translation
Assim como o combustível aumenta uma fogueira, o embrião criado pelo sêmen de Kāśyapa no ventre de Diti tem causado completa escuridão em todo o universo.
Purport
Aqui se explica que a escuridão por todo o universo foi causada pelo embrião criado no ventre de Diti pelo sêmen de Kaśyapa.
Devanagari
मैत्रेय उवाच
स प्रहस्य महाबाहो भगवान् शब्दगोचर: ।
प्रत्याचष्टात्मभूर्देवान् प्रीणन् रुचिरया गिरा ॥ ११ ॥
स प्रहस्य महाबाहो भगवान् शब्दगोचर: ।
प्रत्याचष्टात्मभूर्देवान् प्रीणन् रुचिरया गिरा ॥ ११ ॥
Verse text
maitreya uvāca
sa prahasya mahā-bāho
bhagavān śabda-gocaraḥ
pratyācaṣṭātma-bhūr devān
prīṇan rucirayā girā
sa prahasya mahā-bāho
bhagavān śabda-gocaraḥ
pratyācaṣṭātma-bhūr devān
prīṇan rucirayā girā
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — Maitreya disse; saḥ — ele; prahasya — sorrindo; mahā-bāho — ó pessoa de braços poderosos (Vidura); bhagavān — o possuidor de todas as opulências; śabda-gocaraḥ — que é compreendido através da vibração sonora transcendental; pratyācaṣṭa — respondeu; ātma-bhūḥ — senhor Brahmā; devān — os semideuses; prīṇan — satisfazendo; rucirayā — com doces; girā — palavras.
Translation
Śrī Maitreya disse: Então, o senhor Brahmā, que é compreendido através da vibração transcendental, tentou satisfazer os semideuses, pois ficou satisfeito com suas palavras em tom de oração.
Purport
Brahmā pôde compreender as más ações de Diti e, em razão disso, sorriu diante de toda a situação. Ele respondeu aos semideuses ali presentes com palavras que eles pudessem entender.
Devanagari
ब्रह्मोवाच
मानसा मे सुता युष्मत्पूर्वजा: सनकादय: ।
चेरुर्विहायसा लोकाल्लोकेषु विगतस्पृहा: ॥ १२ ॥
मानसा मे सुता युष्मत्पूर्वजा: सनकादय: ।
चेरुर्विहायसा लोकाल्लोकेषु विगतस्पृहा: ॥ १२ ॥
Verse text
brahmovāca
mānasā me sutā yuṣmat-
pūrvajāḥ sanakādayaḥ
cerur vihāyasā lokāl
lokeṣu vigata-spṛhāḥ
mānasā me sutā yuṣmat-
pūrvajāḥ sanakādayaḥ
cerur vihāyasā lokāl
lokeṣu vigata-spṛhāḥ
Synonyms
brahmā uvāca — o senhor Brahmā disse; mānasāḥ — nascidos da mente; me — meus; sutāḥ — filhos; yuṣmat — a vós; pūrva-jāḥ — nascidos anteriormente; sanaka-ādayaḥ — encabeçados por Sanaka; ceruḥ — viajado; vihāyasā — viajando no espaço exterior ou voando pelo céu; lokān — aos mundos material e espiritual; lokeṣu — entre as pessoas; vigata-spṛhāḥ — sem qualquer desejo.
Translation
O senhor Brahmā disse: Meus quatro filhos Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanat-kumāra, que nasceram de minha mente, são vossos predecessores. Às vezes, viajam pelos céus material e espiritual sem qualquer desejo definido.
Purport
Ao falarmos de desejo, referimo-nos ao desejo de gozo material dos sentidos. Pessoas santas como Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanat-kumāra não têm desejos materiais, mas às vezes viajam por todo o universo, a seu bel-prazer, para pregar o serviço devocional.
Devanagari
त एकदा भगवतो वैकुण्ठस्यामलात्मन: ।
ययुर्वैकुण्ठनिलयं सर्वलोकनमस्कृतम् ॥ १३ ॥
ययुर्वैकुण्ठनिलयं सर्वलोकनमस्कृतम् ॥ १३ ॥
Verse text
ta ekadā bhagavato
vaikuṇṭhasyāmalātmanaḥ
yayur vaikuṇṭha-nilayaṁ
sarva-loka-namaskṛtam
vaikuṇṭhasyāmalātmanaḥ
yayur vaikuṇṭha-nilayaṁ
sarva-loka-namaskṛtam
Synonyms
te — eles; ekadā — certa vez; bhagavataḥ — da Suprema Personalidade de Deus; vaikuṇṭhasya — do Senhor Viṣṇu; amala-ātmanaḥ — estando livres de toda a contaminação material; yayuḥ — entraram; vaikuṇṭha-nilayam — a morada chamada Vaikuṇṭha; sarva-loka — pelos residentes de todos os planetas materiais; namaskṛtam — adorados.
Translation
Após viajar dessa maneira por todos os universos, certa vez eles também entraram no céu espiritual, pois estavam livres de toda a contaminação material. No céu espiritual, há planetas espirituais conhecidos como Vaikuṇṭhas, que são a residência da Suprema Personalidade de Deus e Seus devotos puros e que são adorados pelos residentes de todos os planetas materiais.
Purport
O mundo material é cheio de cuidados e ansiedades. Em qualquer um dos planetas, desde o mais elevado até o mais baixo, Pātāla, toda criatura é forçada a encher-se de cuidados e ansiedades porque não se pode viver eternamente no mundo material. Contudo, o fato é que as entidades vivas são eternas. Elas querem um lar eterno, uma residência eterna, mas, por terem aceitado uma morada temporária no mundo material, vivem naturalmente cheias de ansiedade. No céu espiritual, os planetas chamam-se Vaikuṇṭha porque os residentes desses planetas estão livres de todas as ansiedades. Eles não estão sujeitos a nascimentos, mortes, velhice e doenças, daí não terem ansiedades. Por outro lado, os residentes dos planetas materiais sempre temem o nascimento, a morte, a doença e a velhice e, de tal modo, estão cheios de ansiedades.
Devanagari
वसन्ति यत्र पुरुषा: सर्वे वैकुण्ठमूर्तय: ।
येऽनिमित्तनिमित्तेन धर्मेणाराधयन् हरिम् ॥ १४ ॥
येऽनिमित्तनिमित्तेन धर्मेणाराधयन् हरिम् ॥ १४ ॥
Verse text
vasanti yatra puruṣāḥ
sarve vaikuṇṭha-mūrtayaḥ
ye ’nimitta-nimittena
dharmeṇārādhayan harim
sarve vaikuṇṭha-mūrtayaḥ
ye ’nimitta-nimittena
dharmeṇārādhayan harim
Synonyms
vasanti — eles vivem; yatra — onde; puruṣāḥ — pessoas; sarve — todas; vaikuṇṭha-mūrtayaḥ — tendo uma forma de quatro mãos semelhante à do Senhor Supremo, Viṣṇu; ye — essas pessoas de Vaikuṇṭha; animitta — sem desejo de gozar dos sentidos; nimittena — causado por; dharmeṇa — pelo serviço devocional; ārādhayan — adorando continuamente; harim — à Suprema Personalidade de Deus.
Translation
Nos planetas Vaikuṇṭha, todos os residentes têm sua forma semelhante à da Suprema Personalidade de Deus. Todos eles se ocupam em serviço devocional ao Senhor sem desejo algum de gozo dos sentidos.
Purport
Descreve-se neste verso os residentes e o modo de vida em Vaikuṇṭha. Os residentes são todos como a Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa. Nos planetas Vaikuṇṭha, o aspecto plenário de Kṛṣṇa como o Nārāyaṇa de quatro braços é a Deidade predominante, e os residentes de Vaikuṇṭhaloka também têm quatro braços, justamente ao contrário de nossa concepção neste mundo material. Não encontramos em nenhuma parte do mundo material um ser humano com quatro braços. Em Vaikuṇṭhaloka, não há outra ocupação além do serviço ao Senhor, e este serviço não é prestado visando a algum objetivo. Embora todo serviço tenha um resultado específico, os devotos jamais aspiram à satisfação de seus próprios desejos: seus desejos são satisfeitos por eles prestarem transcendental serviço amoroso ao Senhor.
Devanagari
यत्र चाद्य: पुमानास्ते भगवान् शब्दगोचर: ।
सत्त्वं विष्टभ्य विरजं स्वानां नो मृडयन् वृष: ॥ १५ ॥
सत्त्वं विष्टभ्य विरजं स्वानां नो मृडयन् वृष: ॥ १५ ॥
Verse text
yatra cādyaḥ pumān āste
bhagavān śabda-gocaraḥ
sattvaṁ viṣṭabhya virajaṁ
svānāṁ no mṛḍayan vṛṣaḥ
bhagavān śabda-gocaraḥ
sattvaṁ viṣṭabhya virajaṁ
svānāṁ no mṛḍayan vṛṣaḥ
Synonyms
yatra — nos planetas Vaikuṇṭha; ca — e; ādyaḥ — original; pumān — pessoa; āste — ali está; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; śabda-gocaraḥ — compreendida através da literatura védica; sattvam — o modo da bondade; viṣṭabhya — aceitando; virajam — incontaminado; svānām — de Seus próprios associados; naḥ — nos; mṛḍayan — felicidade crescente; vṛṣaḥ — a personificação dos princípios religiosos.
Translation
Nos planetas Vaikuṇṭha, encontra-se a Suprema Personalidade de Deus, que é a pessoa original e que pode ser compreendida através da literatura védica. Ele é pleno do modo incontaminado da bondade, sem lugar para a paixão ou a ignorância. Ele outorga o progresso religioso aos devotos.
Purport
O único processo através do qual se pode compreender o reino da Suprema Personalidade de Deus no céu espiritual é o de ouvir a descrição dele encontrada nos Vedas. Ninguém pode ir lá para vê-lo. Mesmo neste mundo material, quem é incapaz de pagar para ir a um lugar distante em veículos motorizados só pode ter uma noção de tal lugar consultando livros autênticos. De forma semelhante, os planetas Vaikuṇṭha no céu espiritual estão além deste céu material. Os cientistas modernos, que estão tentando viajar pelo espaço, estão tendo dificuldades para ir ao planeta mais próximo, a Lua, isto para não falar dos planetas mais elevados dentro do universo. É impossível eles irem além do céu material e entrarem no céu espiritual para verem pessoalmente os planetas espirituais, Vaikuṇṭha. Portanto, o reino de Deus, no céu espiritual, só pode ser compreendido através das descrições autênticas dos Vedas e dos Purāṇas.
No mundo material, existem três modos de qualidades materiais – bondade, paixão e ignorância –, mas, no mundo espiritual, não há vestígio dos modos de paixão e ignorância; há somente o modo da bondade, que não é contaminado por mancha alguma de ignorância ou paixão. No mundo material, mesmo que alguém esteja completamente em bondade, às vezes fica sujeito a contaminar-se com manchas dos modos de ignorância e paixão. Em contraste, no mundo Vaikuṇṭha, o céu espiritual, existe somente o modo da bondade, sob sua forma pura. O Senhor e Seus devotos residem nos planetas Vaikuṇṭha, e são da mesma qualidade transcendental, ou seja, śuddha-sattva, o modo da bondade pura. Os planetas Vaikuṇṭha são muito queridos pelos vaiṣṇavas, e o próprio Senhor ajuda Seus devotos, os vaiṣṇavas, na marcha progressiva rumo ao reino de Deus.
Devanagari
यत्र नै:श्रेयसं नाम वनं कामदुघैर्द्रुमै: ।
सर्वर्तुश्रीभिर्विभ्राजत्कैवल्यमिव मूर्तिमत् ॥ १६ ॥
सर्वर्तुश्रीभिर्विभ्राजत्कैवल्यमिव मूर्तिमत् ॥ १६ ॥
Verse text
yatra naiḥśreyasaṁ nāma
vanaṁ kāma-dughair drumaiḥ
sarvartu-śrībhir vibhrājat
kaivalyam iva mūrtimat
vanaṁ kāma-dughair drumaiḥ
sarvartu-śrībhir vibhrājat
kaivalyam iva mūrtimat
Synonyms
Translation
Nesses planetas Vaikuṇṭha, há muitas florestas auspiciosíssimas, onde as árvores são árvores-dos-desejos, que vivem cheias de flores e frutos em todas as estações, porque tudo nos planetas Vaikuṇṭha é espiritual e pessoal.
Purport
Nos planetas Vaikuṇṭha, a terra, as árvores, os frutos, as flores e as vacas – tudo é inteiramente espiritual e pessoal. Ali, as árvores satisfazem todos os desejos. Neste planeta material, as árvores podem produzir frutos e flores de acordo com a ordem da energia material, porém, nos planetas Vaikuṇṭha, as árvores, a terra, os residentes e os animais são todos espirituais. Não há diferença entre a árvore e o animal, ou entre o animal e o homem. A palavra mūrtimat indica neste ponto que tudo tem uma forma espiritual. A ausência de formas, como a concebem os impersonalistas, é refutada neste verso: nos planetas Vaikuṇṭha, embora tudo seja espiritual, tudo tem uma forma específica. As árvores e os homens têm forma, e, como todos eles, apesar de terem configurações diferentes, são espirituais, não havendo diferença entre eles.
Devanagari
वैमानिका: सललनाश्चरितानि शश्वद्
गायन्ति यत्र शमलक्षपणानि भर्तु: ।
अन्तर्जलेऽनुविकसन्मधुमाधवीनां
गन्धेन खण्डितधियोऽप्यनिलं क्षिपन्त: ॥ १७ ॥
गायन्ति यत्र शमलक्षपणानि भर्तु: ।
अन्तर्जलेऽनुविकसन्मधुमाधवीनां
गन्धेन खण्डितधियोऽप्यनिलं क्षिपन्त: ॥ १७ ॥
Verse text
vaimānikāḥ sa-lalanāś caritāni śaśvad
gāyanti yatra śamala-kṣapaṇāni bhartuḥ
antar-jale ’nuvikasan-madhu-mādhavīnāṁ
gandhena khaṇḍita-dhiyo ’py anilaṁ kṣipantaḥ
gāyanti yatra śamala-kṣapaṇāni bhartuḥ
antar-jale ’nuvikasan-madhu-mādhavīnāṁ
gandhena khaṇḍita-dhiyo ’py anilaṁ kṣipantaḥ
Synonyms
vaimānikāḥ — voando em seus aeroplanos; sa-lalanāḥ — juntamente com suas esposas; caritāni — atividades; śaśvat — eternamente; gāyanti — cantam; yatra — nesses planetas Vaikuṇṭha; śamala — todas as qualidades inauspiciosas; kṣapaṇāni — desprovidos de; bhartuḥ — do Senhor Supremo; antaḥ-jale — no meio da água; anuvikasat — desabrochadas; madhu — aromáticas, carregadas de mel; mādhavīnām — das flores mādhavī; gandhena — pela fragrância; khaṇḍita — perturbadas; dhiyaḥ — mentes; api — muito embora; anilam — brisa; kṣipantaḥ — zombando.
Translation
Nos planetas Vaikuṇṭha, os habitantes voam em seus aeroplanos, acompanhados por suas esposas e consortes, e eternamente entoam canções sobre o caráter e as atividades do Senhor, que são sempre desprovidos de todas as qualidades inauspiciosas. E por cantarem as glórias do Senhor, eles tornam irrisória inclusive a presença das desabrochadas flores mādhavī, que são aromáticas e cheias de mel.
Purport
Este verso sugere que os planetas Vaikuṇṭha são plenos de todas as opulências. Há aeroplanos nos quais os habitantes viajam pelo céu espiritual com suas amadas. Há uma brisa transportando o aroma de flores desabrochadas, e essa brisa é tão boa que também transporta o mel das flores. Os habitantes de Vaikuṇṭha, contudo, estão de tal modo interessados em glorificar o Senhor que não gostam da perturbação de tão agradável brisa enquanto cantam as glórias do Senhor. Em outras palavras, eles são devotos puros. Eles consideram a glorificação ao Senhor mais importante do que seu próprio gozo dos sentidos. Nos planetas Vaikuṇṭha, não há questão de gozo dos sentidos. Cheirar o aroma de uma flor a desabrochar é muito bom, sem dúvidas, mas isso é simplesmente gozo dos sentidos. Os habitantes de Vaikuṇṭha dão completa prioridade ao serviço ao Senhor, e não a seu próprio gozo dos sentidos. Servir ao Senhor com amor transcendental produz tamanho prazer transcendental que, comparativamente, o gozo dos sentidos é tido como insignificante.
Devanagari
पारावतान्यभृतसारसचक्रवाक-
दात्यूहहंसशुकतित्तिरिबर्हिणां य: ।
कोलाहलो विरमतेऽचिरमात्रमुच्चै
र्भृङ्गाधिपे हरिकथामिव गायमाने ॥ १८ ॥
दात्यूहहंसशुकतित्तिरिबर्हिणां य: ।
कोलाहलो विरमतेऽचिरमात्रमुच्चै
र्भृङ्गाधिपे हरिकथामिव गायमाने ॥ १८ ॥
Verse text
pārāvatānyabhṛta-sārasa-cakravāka-
dātyūha-haṁsa-śuka-tittiri-barhiṇāṁ yaḥ
kolāhalo viramate ’cira-mātram uccair
bhṛṅgādhipe hari-kathām iva gāyamāne
dātyūha-haṁsa-śuka-tittiri-barhiṇāṁ yaḥ
kolāhalo viramate ’cira-mātram uccair
bhṛṅgādhipe hari-kathām iva gāyamāne
Synonyms
pārāvata — pombos; anyabhṛta — cuco; sārasa — grou; cakravāka — cakravāka; dātyūha — galinhola; haṁsa — cisne; śuka — papagaio; tittiri — perdiz; barhiṇām — do pavão; yaḥ — que; kolāhalaḥ — tumulto; viramate — interrompe; acira-mātram — temporariamente; uccaiḥ — alto; bhṛṅga-adhipe — rei dos zangões; hari-kathām — as glórias do Senhor; iva — como; gāyamāne — enquanto canta.
Translation
Quando o rei das abelhas zune em alta vibração, cantando as glórias do Senhor, dá-se um momento de quietude no arrulho dos pombos, nas vozes dos cucos, grous, cakravākas, cisnes, papagaios, perdizes e pavões. Esses pássaros transcendentais param seu próprio canto simplesmente para ouvir as glórias do Senhor.
Purport
Este verso revela a natureza absoluta de Vaikuṇṭha. Não há diferença entre os pássaros dali e os residentes humanos. A situação no céu espiritual é que tudo é espiritual e variado. Variedade espiritual quer dizer que tudo ali é animado e nada há de inanimado. Mesmo as árvores, o solo, as plantas, as flores, os pássaros e os animais estão no nível da consciência de Kṛṣṇa. O aspecto especial de Vaikuṇṭhaloka é que ali não há questão de gozo dos sentidos. No mundo material, mesmo um asno desfruta de sua vibração sonora, mas, nos Vaikuṇṭhas, belos pássaros, como o pavão, o cakravāka e o cuco, preferem ouvir a vibração das glórias do Senhor da parte das abelhas. Os princípios do serviço devocional, começando com ouvir e cantar, são muito proeminentes no mundo Vaikuṇṭha.
Devanagari
मन्दारकुन्दकुरबोत्पलचम्पकार्ण-
पुन्नागनागबकुलाम्बुजपारिजाता: ।
गन्धेऽर्चिते तुलसिकाभरणेन तस्या
यस्मिंस्तप: सुमनसो बहु मानयन्ति ॥ १९ ॥
पुन्नागनागबकुलाम्बुजपारिजाता: ।
गन्धेऽर्चिते तुलसिकाभरणेन तस्या
यस्मिंस्तप: सुमनसो बहु मानयन्ति ॥ १९ ॥
Verse text
mandāra-kunda-kurabotpala-campakārṇa-
punnāga-nāga-bakulāmbuja-pārijātāḥ
gandhe ’rcite tulasikābharaṇena tasyā
yasmiṁs tapaḥ sumanaso bahu mānayanti
punnāga-nāga-bakulāmbuja-pārijātāḥ
gandhe ’rcite tulasikābharaṇena tasyā
yasmiṁs tapaḥ sumanaso bahu mānayanti
Synonyms
mandāra — a flor mandāra; kunda — a flor kunda; kuraba — kuraba; utpala — utpala; campaka — campaka; arṇa — arṇa; punnāga — punnāga; nāga — nāgakeśara; bakula — bakula; ambuja — lírio; pārijātāḥ — pārijāta; gandhe — aroma; arcite — sendo adorado; tulasikā — tulasī; ābharaṇena — com uma guirlanda; tasyāḥ — dela; yasmin — no qual (Vaikuṇṭha); tapaḥ — austeridade; su-manasaḥ — bem disposto, de mentalidade de Vaikuṇṭha; bahu — muitíssimo; mānayanti — glorificam.
Translation
Embora plantas floridas, como a mandāra, kunda, kurabaka, utpala, campaka, arṇa, punnāga, nāgakeśara, bakula, lírio e pārijāta sejam cheias de aroma transcendental, mesmo assim elas são conscientes das austeridades executadas por tulasī, pois tulasī é especialmente preferida pelo Senhor, que Se enfeita com guirlandas de folhas de tulasī.
Purport
Aqui se menciona claramente a importância das folhas de tulasī. As plantas tulasī e suas folhas são muito importantes no serviço devocional. Recomenda-se aos devotos que reguem a planta tulasī todos os dias e recolham as folhas para adorar o Senhor. Certa vez, um svāmī ateísta comentou: “Qual a vantagem de regar a planta tulasī? É melhor regar a berinjela. Regando a berinjela, podemos obter alguns frutos, mas qual a vantagem de regar tulasī?” Essas criaturas tolas, não familiarizadas com o serviço devocional, às vezes arruínam a educação das pessoas em geral.
O ponto mais importante sobre o mundo espiritual é que lá não existe inveja entre os devotos. Isso se aplica inclusive às flores, que são todas conscientes da grandeza de tulasī. No mundo Vaikuṇṭha, visitado pelos quatro Kumāras, até os pássaros e as flores são conscientes do serviço ao Senhor.
Devanagari
यत्संकुलं हरिपदानतिमात्रदृष्टै-
र्वैदूर्यमारकतहेममयैर्विमानै: ।
येषां बृहत्कटितटा: स्मितशोभिमुख्य:
कृष्णात्मनां न रज आदधुरुत्स्मयाद्यै: ॥ २० ॥
र्वैदूर्यमारकतहेममयैर्विमानै: ।
येषां बृहत्कटितटा: स्मितशोभिमुख्य:
कृष्णात्मनां न रज आदधुरुत्स्मयाद्यै: ॥ २० ॥
Verse text
yat saṅkulaṁ hari-padānati-mātra-dṛṣṭair
vaidūrya-mārakata-hema-mayair vimānaiḥ
yeṣāṁ bṛhat-kaṭi-taṭāḥ smita-śobhi-mukhyaḥ
kṛṣṇātmanāṁ na raja ādadhur utsmayādyaiḥ
vaidūrya-mārakata-hema-mayair vimānaiḥ
yeṣāṁ bṛhat-kaṭi-taṭāḥ smita-śobhi-mukhyaḥ
kṛṣṇātmanāṁ na raja ādadhur utsmayādyaiḥ
Synonyms
yat — esta morada Vaikuṇṭha; saṅkulam — é penetrada; hari-pada — aos dois pés de lótus de Hari, a Suprema Personalidade de Deus; ānati — pelas reverências; mātra — simplesmente; dṛṣṭaiḥ — obtêm-se; vaidūrya — lápis-lazúli; mārakata — esmeraldas; hema — ouro; mayaiḥ — feitos de; vimānaiḥ — com aeroplanos; yeṣām — daqueles passageiros; bṛhat — grandes; kaṭi-taṭāḥ — quadris; smita — sorridentes; śobhi — belos; mukhyaḥ — rostos; kṛṣṇa — em Kṛṣṇa; ātmanām — cujas mentes estão absortas; na — não; rajaḥ — desejo sexual; ādadhuḥ — estimulam; utsmaya-ādyaiḥ — por tratos íntimos amistosos, risos e brincadeiras.
Translation
Os habitantes de Vaikuṇṭha viajam em seus aeroplanos feitos de lápis-lazúli, esmeralda e ouro. Embora acompanhados por suas consortes, que têm quadris grandes e belos rostos sorridentes, a alegria e os belos encantos delas não podem incitá-los à paixão.
Purport
No mundo material, as pessoas materialistas obtêm opulências à força de seu trabalho. Não se pode gozar de prosperidade material a menos que se trabalhe arduamente para obtê-la. Porém, os devotos do Senhor que são habitantes de Vaikuṇṭha têm a oportunidade de desfrutar de uma situação transcendental de joias e esmeraldas. Eles obtêm adornos feitos de ouro decorado com joias, não através de trabalho árduo, mas pela bênção do Senhor. Em outras palavras, os devotos no mundo Vaikuṇṭha, ou mesmo neste mundo material, não podem ser afetados pela pobreza, como às vezes se supõe. Eles têm amplas opulências para seu prazer, mas não precisam se esforçar para adquiri-las. Afirma-se também que, no mundo Vaikuṇṭha, as consortes dos residentes são muitas e muitas vezes mais belas do que as que podemos encontrar neste mundo material, mesmo nos planetas superiores. Menciona-se aqui especificamente que os quadris grandes de uma mulher são muito atrativos e estimulam a paixão do homem, mas o aspecto maravilhoso de Vaikuṇṭha é que, embora as mulheres tenham quadris grandes e belos rostos e se decorem com adornos de esmeraldas e joias, os homens estão tão absortos em consciência de Kṛṣṇa que os belos corpos das mulheres não conseguem atraí-los. Em outras palavras, há o prazer da associação com o sexo oposto, mas não há relação sexual. Os habitantes de Vaikuṇṭha têm um padrão melhor de prazer, de modo que não há necessidade de prazer sexual.
Devanagari
श्री रूपिणी क्वणयती चरणारविन्दं
लीलाम्बुजेन हरिसद्मनि मुक्तदोषा ।
संलक्ष्यते स्फटिककुड्य उपेतहेम्नि
सम्मार्जतीव यदनुग्रहणेऽन्ययत्न: ॥ २१ ॥
लीलाम्बुजेन हरिसद्मनि मुक्तदोषा ।
संलक्ष्यते स्फटिककुड्य उपेतहेम्नि
सम्मार्जतीव यदनुग्रहणेऽन्ययत्न: ॥ २१ ॥
Verse text
śrī rūpiṇī kvaṇayatī caraṇāravindaṁ
līlāmbujena hari-sadmani mukta-doṣā
saṁlakṣyate sphaṭika-kuḍya upeta-hemni
sammārjatīva yad-anugrahaṇe ’nya-yatnaḥ
līlāmbujena hari-sadmani mukta-doṣā
saṁlakṣyate sphaṭika-kuḍya upeta-hemni
sammārjatīva yad-anugrahaṇe ’nya-yatnaḥ
Synonyms
śrī — Lakṣmī, a deusa da fortuna; rūpiṇī — assumindo uma bela forma; kvaṇayatī — tilintando; caraṇa-aravindam — pés de lótus; līlā-ambujena — brincando com uma flor de lótus; hari-sadmani — a casa da Personalidade Suprema; mukta-doṣā — livres de todos os defeitos; saṁlakṣyate — torna-se visível; sphaṭika — cristal; kuḍye — paredes; upeta — misturadas; hemni — ouro; sammārjatī iva — parecendo uma varredora; yat-anugrahaṇe — para receber o favor dela; anya — dos outros; yatnaḥ — muito cuidadosas.
Translation
Nos planetas Vaikuṇṭha, as senhoras são tão belas como a própria deusa da fortuna. Essas donzelas transcendentalmente belas, com as mãos a brincar com lótus e guizos tilintando nos tornozelos, às vezes são vistas varrendo as paredes de mármore, que são enfeitadas a intervalos com bordas douradas, a fim de receberem a graça da Suprema Personalidade de Deus.
Purport
Na Brahma-saṁhitā, afirma-se que o Senhor Supremo, Govinda, sempre é servido em Sua morada por muitos e muitos milhões de deusas da fortuna. Lakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānam. Esses milhões e trilhões de deusas da fortuna que residem nos planetas Vaikuṇṭha não são exatamente consortes da Suprema Personalidade de Deus, mas são esposas dos devotos do Senhor e também se ocupam a serviço da Suprema Personalidade de Deus. Aqui se afirma que, nos planetas Vaikuṇṭha, as casas são feitas de mármore. De forma semelhante, declara-se na Brahma-saṁhitā que o solo dos planetas Vaikuṇṭha é feito de pedra filosofal. Desse modo, não há necessidade de varrer a pedra em Vaikuṇṭha, pois praticamente não há nenhuma poeira sobre ela. Contudo, a fim de satisfazer o Senhor, as senhoras ali sempre se ocupam em tirar poeira das paredes de mármore. Por quê? A razão disso é que elas anseiam alcançar a graça do Senhor por meio desse serviço.
Afirma-se aqui também que, nos planetas Vaikuṇṭha, as deusas da fortuna são impecáveis. Geralmente, a deusa da fortuna não permanece quieta em um lugar. Seu nome é Cañcalā, que significa “aquela que não é estável”. Portanto, observamos que um homem que é muito rico pode tornar-se o mais pobre dos pobres. Outro exemplo é Rāvaṇa. Rāvaṇa raptou Lakṣmī, Sītājī, para seu reino, e, em vez de ficar feliz pela graça de Lakṣmī, sua família e seu reino foram aniquilados. Logo, Lakṣmī na casa de Rāvaṇa é Cañcalā, ou instável. Os homens da classe de Rāvaṇa querem somente Lakṣmī, sem seu esposo, Nārāyaṇa, daí se tornarem inquietos devido a Lakṣmījī. As pessoas materialistas criticam Lakṣmī por ela ser Cañcalā, mas, em Vaikuṇṭha, Lakṣmījī está fixa no serviço ao Senhor. Apesar de ser a deusa da fortuna, ela não pode ser feliz sem a graça do Senhor. Embora a própria deusa da fortuna precise da graça do Senhor para ser feliz, no mundo material, até Brahmā, a mais elevada das criaturas, busca o favor de Lakṣmī para ser feliz.
Devanagari
वापीषु विद्रुमतटास्वमलामृताप्सु
प्रेष्यान्विता निजवने तुलसीभिरीशम् ।
अभ्यर्चती स्वलकमुन्नसमीक्ष्य वक्त्र-
मुच्छेषितं भगवतेत्यमताङ्ग यच्छ्री: ॥ २२ ॥
प्रेष्यान्विता निजवने तुलसीभिरीशम् ।
अभ्यर्चती स्वलकमुन्नसमीक्ष्य वक्त्र-
मुच्छेषितं भगवतेत्यमताङ्ग यच्छ्री: ॥ २२ ॥
Verse text
vāpīṣu vidruma-taṭāsv amalāmṛtāpsu
preṣyānvitā nija-vane tulasībhir īśam
abhyarcatī svalakam unnasam īkṣya vaktram
uccheṣitaṁ bhagavatety amatāṅga yac-chrīḥ
preṣyānvitā nija-vane tulasībhir īśam
abhyarcatī svalakam unnasam īkṣya vaktram
uccheṣitaṁ bhagavatety amatāṅga yac-chrīḥ
Synonyms
vāpīṣu — nos lagos; vidruma — feitas de coral; taṭāsu — margens; amala — transparente; amṛta — nectárea; apsu — água; preṣyā-anvitā — rodeada por criadas; nija-vane — em seu próprio jardim; tulasībhiḥ — com tulasī; īśam — o Senhor Supremo; abhyarcatī — adoração; su-alakam — com seu rosto enfeitado com tilaka; unnasam — nariz arrebitado; īkṣya — ao ver; vaktram — rosto; uccheṣitam — sendo beijada; bhagavatā — pelo Senhor Supremo; iti — assim; amata — pensou; aṅga — ó semideuses; yat-śrīḥ — cuja beleza.
Translation
As deusas da fortuna adoram o Senhor em seus próprios jardins, oferecendo-Lhe folhas de tulasī sobre as margens coralíneas de transcendentais reservatórios d’água. Enquanto oferecem adoração ao Senhor, elas podem ver sobre a água o reflexo de seus belos rostos com narizes arrebitados, e parece que ficam mais belas porque o Senhor as beija em seus rostos.
Purport
Geralmente, quando uma mulher é beijada por seu esposo, seu rosto fica mais belo. Também em Vaikuṇṭha, muito embora a deusa da fortuna seja naturalmente tão bela quanto se possa imaginar, ela espera pelo beijo do Senhor para tornar seu rosto mais belo. O belo rosto da deusa da fortuna reflete-se em lagos de transcendental água cristalina quando ela adora o Senhor com folhas de tulasī de seu jardim.
Devanagari
यन्न व्रजन्त्यघभिदो रचनानुवादा-
च्छृण्वन्ति येऽन्यविषया: कुकथा मतिघ्नी: ।
यास्तु श्रुता हतभगैर्नृभिरात्तसारा-
स्तांस्तान् क्षिपन्त्यशरणेषु तम:सु हन्त ॥ २३ ॥
च्छृण्वन्ति येऽन्यविषया: कुकथा मतिघ्नी: ।
यास्तु श्रुता हतभगैर्नृभिरात्तसारा-
स्तांस्तान् क्षिपन्त्यशरणेषु तम:सु हन्त ॥ २३ ॥
Verse text
yan na vrajanty agha-bhido racanānuvādāc
chṛṇvanti ye ’nya-viṣayāḥ kukathā mati-ghnīḥ
yās tu śrutā hata-bhagair nṛbhir ātta-sārās
tāṁs tān kṣipanty aśaraṇeṣu tamaḥsu hanta
chṛṇvanti ye ’nya-viṣayāḥ kukathā mati-ghnīḥ
yās tu śrutā hata-bhagair nṛbhir ātta-sārās
tāṁs tān kṣipanty aśaraṇeṣu tamaḥsu hanta
Synonyms
yat — Vaikuṇṭha; na — nunca; vrajanti — se aproximam; agha-bhidaḥ — do dissipador de toda espécie de pecados; racanā — da criação; anuvādāt — que as narrações; śṛṇvanti — ouvem; ye — aqueles que; anya — outros; viṣayāḥ — temas; ku-kathāḥ — palavras ruins; mati-ghnīḥ — aniquilando a inteligência; yāḥ — que; tu — mas; śrutāḥ — são ouvidos; hata-bhagaiḥ — desventuradas; nṛbhiḥ — por homens; ātta — tomados; sārāḥ — valores da vida; tān tān — tais pessoas; kṣipanti — são atiradas; aśaraṇeṣu — desprovidas de qualquer abrigo; tamaḥsu — a parte mais escura da existência material; hanta — ai de mim!.
Translation
É muitíssimo lamentável que as pessoas desventuradas, em vez de conversarem sobre as descrições dos planetas Vaikuṇṭha, se dediquem a falar de temas indignos de se ouvir e que lhes confundem a inteligência. Aqueles que abandonam os tópicos de Vaikuṇṭha e preferem falar do mundo material são atirados na mais escura região da ignorância.
Purport
As pessoas mais desventuradas são os impersonalistas, que não podem compreender a variedade transcendental do mundo espiritual. Eles têm medo de conversar sobre a beleza dos planetas Vaikuṇṭha por pensarem que a variedade é necessariamente material. Tais impersonalistas pensam que o mundo espiritual é inteiramente vazio, ou, em outras palavras, que não há variedade. Essa mentalidade é aqui descrita como ku-kathā mati-ghnīḥ, “inteligência desorientada por palavras indignas”. As filosofias do niilismo e da situação impessoal do mundo espiritual são condenadas nesta passagem porque confundem nossa inteligência. Como podem os impersonalistas e os filósofos do vazio pensar neste mundo material, que é cheio de variedade, e depois dizer que não há variedade no mundo espiritual? Afirma-se que este mundo material é o reflexo pervertido do mundo espiritual; desse modo, a menos que haja variedade no mundo espiritual, como pode haver variedade temporária no mundo material? O fato de se poder transcender este mundo material não quer dizer que não há variedade transcendental.
Aqui no Bhāgavatam, neste verso em particular, enfatiza-se que as pessoas que tentam discutir e entender a verdadeira natureza espiritual do céu espiritual e dos Vaikuṇṭhas são afortunadas. Descreve-se a variedade dos planetas Vaikuṇṭha em relação com os passatempos transcendentais do Senhor. No entanto, em vez de tentar entender a morada espiritual e as atividades espirituais do Senhor, as pessoas estão mais interessadas em política e desenvolvimento econômico. Elas promovem muitas convenções, encontros e debates para resolver problemas da presente situação mundial, onde poderão permanecer por apenas alguns anos, mas não estão interessadas em compreender a situação espiritual do mundo Vaikuṇṭha. Elas seriam realmente afortunadas caso se interessassem em voltar ao lar, voltar ao Supremo, mas, a menos que compreendam o mundo espiritual, apodrecerão continuamente nesta escuridão material.
Devanagari
येऽभ्यर्थितामपि च तो नृगतिं प्रपन्ना
ज्ञानं च तत्त्वविषयं सहधर्मं यत्र ।
नाराधनं भगवतो वितरन्त्यमुष्य
सम्मोहिता विततया बत मायया ते ॥ २४ ॥
ज्ञानं च तत्त्वविषयं सहधर्मं यत्र ।
नाराधनं भगवतो वितरन्त्यमुष्य
सम्मोहिता विततया बत मायया ते ॥ २४ ॥
Verse text
ye ’bhyarthitām api ca no nṛ-gatiṁ prapannā
jñānaṁ ca tattva-viṣayaṁ saha-dharmaṁ yatra
nārādhanaṁ bhagavato vitaranty amuṣya
sammohitā vitatayā bata māyayā te
jñānaṁ ca tattva-viṣayaṁ saha-dharmaṁ yatra
nārādhanaṁ bhagavato vitaranty amuṣya
sammohitā vitatayā bata māyayā te
Synonyms
ye — aquelas pessoas; abhyarthitām — desejaram; api — certamente; ca — e; naḥ — por nós (Brahmā e os demais semideuses); nṛ-gatim — a forma humana de vida; prapannāḥ — têm atingido; jñānam — conhecimento; ca — e; tattva-viṣayam — tema sobre a Verdade Absoluta; saha-dharmam — juntamente com os princípios religiosos; yatra — onde; na — não; ārādhanam — adoração; bhagavataḥ — à Suprema Personalidade de Deus; vitaranti — realizam; amuṣya — do Senhor Supremo; sammohitāḥ — sendo desorientado; vitatayā — onipenetrante; bata — ai de mim; māyayā — pela influência da energia ilusória; te — eles.
Translation
O senhor Brahmā disse: Meus queridos semideuses, a forma humana de vida é tão importante que até nós desejamos tê-la, pois, na forma humana, pode-se atingir verdade religiosa e conhecimento perfeitos. Se alguém nesta forma humana de vida não compreende a Suprema Personalidade de Deus e Sua morada, deve-se entender que está muitíssimo afetado pela influência da natureza externa.
Purport
Brahmājī condena com muita veemência a condição do ser humano que não se interessa pela Personalidade de Deus e Sua morada transcendental, Vaikuṇṭha. Até Brahmājī deseja a forma de vida humana. Apesar de Brahmā e outros semideuses terem corpos materiais muito melhores que os dos seres humanos, os semideuses, incluindo Brahmā, desejam obter a forma humana de vida por esta se destinar especificamente à entidade viva que pode alcançar conhecimento transcendental e perfeição religiosa. Não é possível voltar ao Supremo em uma só vida, mas, na forma humana, deve-se pelo menos compreender a meta da vida e começar a consciência de Kṛṣṇa. Declara-se que a forma humana é uma grande dádiva porque é o barco mais adequado para se cruzar o oceano da ignorância. O mestre espiritual é considerado o capacitadíssimo capitão desse barco, e a informação proveniente das escrituras é o vento favorável para singrar o oceano da ignorância. O ser humano que não se aproveita de todas essas facilidades nesta vida está cometendo suicídio. Portanto, quem não começa a consciência de Kṛṣṇa na forma de vida humana perde sua vida para a influência da energia ilusória. Brahmā lamenta-se pela situação de um ser humano desse tipo.
Devanagari
यच्च व्रजन्त्यनिमिषामृषभानुवृत्त्या
दूरेयमा ह्युपरि न: स्पृहणीयशीला: ।
भर्तुर्मिथ: सुयशस: कथनानुराग-
वैक्लव्यबाष्पकलया पुलकीकृताङ्गा: ॥ २५ ॥
दूरेयमा ह्युपरि न: स्पृहणीयशीला: ।
भर्तुर्मिथ: सुयशस: कथनानुराग-
वैक्लव्यबाष्पकलया पुलकीकृताङ्गा: ॥ २५ ॥
Verse text
yac ca vrajanty animiṣām ṛṣabhānuvṛttyā
dūre yamā hy upari naḥ spṛhaṇīya-śīlāḥ
bhartur mithaḥ suyaśasaḥ kathanānurāga-
vaiklavya-bāṣpa-kalayā pulakī-kṛtāṅgāḥ
dūre yamā hy upari naḥ spṛhaṇīya-śīlāḥ
bhartur mithaḥ suyaśasaḥ kathanānurāga-
vaiklavya-bāṣpa-kalayā pulakī-kṛtāṅgāḥ
Synonyms
yat — Vaikuṇṭha; ca — e; vrajanti — vão; animiṣām — dos semideuses; ṛṣabha — principal; anuvṛttyā — seguindo os passos; dūre — mantendo à distância; yamāḥ — princípios reguladores; hi — certamente; upari — acima; naḥ — nos; spṛhaṇīya — ser desejado; śīlāḥ — boas qualidades; bhartuḥ — do Senhor Supremo; mithaḥ — uma pela outra; suyaśasaḥ — glórias; kathana — pelos debates, discursos; anurāga — atração; vaiklavya — êxtase; bāṣpa-kalayā — lágrimas nos olhos; pulakī-kṛta — tremendo; aṅgāḥ — corpos.
Translation
As pessoas cujos aspectos corpóreos transformam-se devido ao êxtase e que respiram pesadamente e transpiram por ouvirem as glórias do Senhor são promovidas ao reino de Deus, mesmo que não se importem com meditação e outras austeridades. O reino de Deus está acima dos universos materiais, e é desejado por Brahmā e outros semideuses.
Purport
Nesta passagem, afirma-se claramente que o reino de Deus está acima dos universos materiais. Assim como há muitas centenas de milhares de planetas superiores acima desta Terra, da mesma forma, há muitos milhões e bilhões de planetas espirituais pertencentes ao céu espiritual. Aqui, Brahmājī afirma que o reino espiritual está acima do reino dos semideuses. Só se pode entrar no reino do Senhor Supremo quando se está altamente desenvolvido em qualidades desejáveis. Todas as boas qualidades desenvolvem-se na pessoa de um devoto. No Śrīmad-Bhāgavatam, quinto canto, décimo oitavo capítulo, verso 12, afirma-se que qualquer pessoa que se torne consciente de Kṛṣṇa é agraciada com todas as boas qualidades dos semideuses. No mundo material, as qualidades dos semideuses são altamente apreciadas, assim como, no plano de nossa própria experiência, as qualidades de um cavalheiro são bem mais apreciadas que as qualidades de um homem ignorante ou em condição de vida inferior. As qualidades dos semideuses nos planetas superiores são muito superiores às qualidades dos habitantes da Terra.
Brahmājī confirma neste verso que somente as pessoas que tenham desenvolvido as qualidades desejáveis podem entrar no reino de Deus. O Caitanya-caritāmṛta descreve as vinte e seis qualidades desejáveis do devoto da seguinte maneira: ele é muito bondoso; não briga com ninguém; aceita a consciência de Kṛṣṇa como a meta suprema da vida; é igual para com todos; ninguém pode encontrar defeitos em seu caráter; é magnânimo, meigo e sempre limpo, interna e externamente; não afirma possuir nada neste mundo material; é um benfeitor de todas as entidades vivas; é pacífico e uma alma totalmente rendida a Kṛṣṇa; não tem desejo material a satisfazer; é manso e humilde, sempre estável, e tem domínio sobre as atividades sensuais; não come mais que o necessário para manter-se vivo; nunca anda louco atrás da identidade material; é respeitoso com todos os demais e não exige respeito para si mesmo; é muito grave, muito compassivo e muito amigável; é poético; é hábil em todas as atividades e é silencioso diante de tolices. De forma semelhante, no Śrīmad-Bhāgavatam, terceiro canto, vigésimo quinto capítulo, verso 21, mencionam-se as qualificações de uma pessoa santa. Ali se diz que uma pessoa santa, apta a entrar no reino de Deus, é muito tolerante e muito bondosa com todas as entidades vivas. Ela não é parcial; é bondosa tanto com os seres humanos quanto com os animais. Não é tão tola a ponto de matar um bode Nārāyaṇa para alimentar um homem Nārāyaṇa, ou daridra-nārāyaṇa. É muito bondosa com todas as entidades vivas, motivo pelo qual não tem inimigos. É muito pacífica. Essas são as qualidades de pessoas aptas a entrar no reino de Deus. No Śrīmad-Bhāgavatam, quinto canto, quinto capítulo, verso 2, confirma-se que tal pessoa liberta-se gradualmente e entra no reino de Deus. O Śrīmad-Bhāgavatam, segundo canto, terceiro capítulo, verso 24, também afirma que, se uma pessoa não chora ou manifesta transformações corpóreas após cantar o santo nome de Deus sem ofensas, deve-se compreender que ela tem o coração duro e que, devido a isso, seu coração não se transforma mesmo depois de cantar o santo nome de Deus, Hare Kṛṣṇa. Essas transformações corpóreas ocorrem devido ao êxtase quando cantamos sem ofensas os santos nomes de Deus: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.
Note-se que existem dez ofensas que devemos evitar. A primeira ofensa é caluniar as pessoas que, em suas vidas, tentam difundir as glórias do Senhor. É preciso educar o povo na compreensão das glórias do Supremo; portanto, jamais devemos blasfemar os devotos que se dedicam a pregar as glórias do Senhor. Essa é a maior ofensa. Além disso, o santo nome de Viṣṇu é o mais auspicioso dos nomes, e, também, Seus passatempos não são diferentes do santo nome do Senhor. Muitos tolos costumam dizer que se pode cantar Hare Kṛṣṇa ou cantar o nome de Kālī ou Durgā ou Śiva, porque são todos a mesma coisa. Se alguém pensa que o santo nome da Suprema Personalidade de Deus e os nomes e as atividades dos semideuses estão em nível de igualdade, ou se alguém aceita o santo nome de Viṣṇu como uma vibração sonora material, comete também outra ofensa. A terceira ofensa é pensar que o mestre espiritual, que propaga as glórias do Senhor, é um ser humano comum. A quarta ofensa é considerar os textos védicos, tais como os Purāṇas ou outras escrituras transcendentalmente reveladas, como livros de conhecimento comuns. A quinta ofensa é pensar que os devotos dão importância artificial ao santo nome de Deus. Na realidade, o Senhor não é diferente de Seu nome. A mais elevada compreensão de valor espiritual é cantar o santo nome de Deus, como se prescreve para esta era – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. A sexta ofensa é interpretar o santo nome de Deus de alguma maneira. A sétima ofensa é agir pecaminosamente apoiando-se no canto do santo nome de Deus. Compreende-se que uma pessoa pode livrar-se de todas as reações pecaminosas simplesmente por cantar o santo nome de Deus, mas se ela pensa que por isso tem liberdade para cometer todas as espécies de atos pecaminosos, isso é um sintoma de ofensa. A oitava ofensa é igualar o canto de Hare Kṛṣṇa a outras atividades espirituais, tais como meditação, austeridade, penitência ou sacrifício. Nada pode se equiparar em nenhum nível ao santo nome de Deus. A nona ofensa é glorificar especialmente a importância do santo nome perante pessoas desinteressadas. A décima ofensa é a de alguém estar apegado ao conceito errado de que possui algo, ou aceitar o corpo como o próprio eu, enquanto executa o processo de cultivo espiritual.
Quando nos livrarmos de todas essas dez ofensas ao cantar o santo nome de Deus, desenvolveremos os aspectos corpóreos extáticos chamados pulakāśru. Pulaka significa “sintomas de felicidade”, e aśru significa “lágrimas nos olhos”. Os sintomas de felicidade e lágrimas nos olhos surgem necessariamente em quem tenha cantado o santo nome sem ofensa. Aqui neste verso, afirma-se que os que realmente desenvolveram os sintomas de felicidade com lágrimas nos olhos, cantando as glórias do Senhor, estão aptos a entrar no reino de Deus. No Caitanya-caritāmṛta, declara-se que, caso alguém não desenvolva esses sintomas ao cantar Hare Kṛṣṇa, deve-se entender que ainda é ofensivo. O Caitanya-caritāmṛta sugere um bom remédio para isso. O verso 31 do capítulo oitavo da Ādi-līlā diz que todo aquele que se refugiar no Senhor Caitanya e simplesmente cantar o santo nome do Senhor, Hare Kṛṣṇa, se verá livre de todas as ofensas.
Devanagari
तद्विश्वगुर्वधिकृतं भुवनैकवन्द्यं
दिव्यं विचित्रविबुधाग्र्यविमानशोचि: ।
आपु: परां मुदमपूर्वमुपेत्य योग-
मायाबलेन मुनयस्तदथो विकुण्ठम् ॥ २६ ॥
दिव्यं विचित्रविबुधाग्र्यविमानशोचि: ।
आपु: परां मुदमपूर्वमुपेत्य योग-
मायाबलेन मुनयस्तदथो विकुण्ठम् ॥ २६ ॥
Verse text
tad viśva-gurv-adhikṛtaṁ bhuvanaika-vandyaṁ
divyaṁ vicitra-vibudhāgrya-vimāna-śociḥ
āpuḥ parāṁ mudam apūrvam upetya yoga-
māyā-balena munayas tad atho vikuṇṭham
divyaṁ vicitra-vibudhāgrya-vimāna-śociḥ
āpuḥ parāṁ mudam apūrvam upetya yoga-
māyā-balena munayas tad atho vikuṇṭham
Synonyms
tat — então; viśva-guru — pelo mestre do universo, a Suprema Personalidade de Deus; adhikṛtam — predominado; bhuvana — dos planetas; eka — sozinho; vandyam — digno de ser adorado; divyam — espiritual; vicitra — finamente decorados; vibudha-agrya — dos devotos (que são os melhores dos eruditos); vimāna — dos aeroplanos; śociḥ — iluminados; āpuḥ — alcançaram; parām — o mais elevado; mudam — felicidade; apūrvam — sem precedentes; upetya — tendo alcançado; yoga-māyā — pela potência espiritual; balena — pela influência; munayaḥ — os sábios; tat — Vaikuṇṭha; atho — aquele; vikuṇṭham — Viṣṇu.
Translation
Assim, os grandes sábios, Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanat-kumāra, ao alcançarem o referido Vaikuṇṭha no mundo espiritual, em virtude de suas práticas de yoga místico, sentiram felicidade sem precedentes. Eles observaram que o céu espiritual era iluminado por aeroplanos finamente decorados, pilotados pelos melhores devotos de Vaikuṇṭha, e que o predomínio ali era da Suprema Personalidade de Deus.
Purport
A Suprema Personalidade de Deus é única e incomparável. Ele está acima de todos. Ninguém é igual a Ele, tampouco alguém é superior a Ele. Portanto, é descrito aqui como viśva-guru. Ele é a entidade viva primordial de toda a criação material e espiritual e é bhuvanaika-vandyam, a única personalidade adorável nos três mundos. Os aeroplanos do céu espiritual são autoiluminados e pilotados por grandes devotos do Senhor. Em outras palavras, nos planetas Vaikuṇṭha não há escassez das coisas que são disponíveis no mundo material; elas estão disponíveis, porém são mais valiosas por serem espirituais e, portanto, eternas e bem-aventuradas. Os sábios sentiram uma felicidade sem precedentes porque Vaikuṇṭha não era dominado por um homem comum. Os planetas Vaikuṇṭha são dominados por expansões de Kṛṣṇa, que têm nomes diferentes, tais como Madhusūdana, Mādhava, Nārāyaṇa, Pradyumna etc. Esses planetas transcendentais são adoráveis porque a Personalidade de Deus os governa pessoalmente. Afirma-se como os sábios alcançaram o céu espiritual transcendental em virtude de seu poder místico. Essa é a perfeição do sistema de yoga. Os exercícios respiratórios e as disciplinas para manter a saúde em ordem não são as metas últimas de perfeição do yoga. O sistema de yoga, como geralmente se compreende, é o aṣṭāṅga-yoga, ou siddhi, a perfeição óctupla em yoga. Em virtude da perfeição ióguica, podemos nos tornar mais leves que o mais leve e mais pesados que o mais pesado; podemos ir onde quer que desejemos e podemos alcançar opulências conforme nossa vontade. Há oito de tais perfeições. Os ṛṣis, os quatro Kumāras, alcançaram Vaikuṇṭha tornando-se mais leves que o mais leve, atravessando, assim, o espaço do mundo material. Os modernos veículos espaciais mecânicos são malsucedidos porque não podem ir à região mais elevada desta criação material, e certamente não podem entrar no céu espiritual. Contudo, através da perfeição no sistema de yoga, podemos não apenas viajar pelo espaço material, como também ultrapassar o espaço material e entrar no céu espiritual. Aprendemos também este fato de um incidente a respeito de Durvāsā Muni e Mahārāja Ambariṣa. Sabe-se que, dentro de um ano, Durvāsā Muni viajou por toda parte e foi ao céu espiritual encontrar-se com a Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa. Segundo os padrões atuais, os cientistas calculam que, se alguém pudesse viajar à velocidade da luz, levaria quarenta mil anos para alcançar o planeta mais elevado deste mundo material. Mas o sistema de yoga pode transportar-nos sem limitações nem dificuldades. A palavra yogamāyā é usada neste verso. Yoga-māyā-balena vikuṇṭham. A felicidade transcendental manifesta no mundo espiritual e todas as outras manifestações espirituais de lá tornam-se possíveis pela influência de yogamāyā, a potência interna da Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
तस्मिन्नतीत्य मुनय: षडसज्जमाना:
कक्षा: समानवयसावथ सप्तमायाम् ।
देवावचक्षत गृहीतगदौ परार्ध्य-
केयूरकुण्डलकिरीटविटङ्कवेषौ ॥ २७ ॥
कक्षा: समानवयसावथ सप्तमायाम् ।
देवावचक्षत गृहीतगदौ परार्ध्य-
केयूरकुण्डलकिरीटविटङ्कवेषौ ॥ २७ ॥
Verse text
tasminn atītya munayaḥ ṣaḍ asajjamānāḥ
kakṣāḥ samāna-vayasāv atha saptamāyām
devāv acakṣata gṛhīta-gadau parārdhya-
keyūra-kuṇḍala-kirīṭa-viṭaṅka-veṣau
kakṣāḥ samāna-vayasāv atha saptamāyām
devāv acakṣata gṛhīta-gadau parārdhya-
keyūra-kuṇḍala-kirīṭa-viṭaṅka-veṣau
Synonyms
tasmin — naquele Vaikuṇṭha; atītya — após passarem por; munayaḥ — os grandes sábios; ṣaṭ — seis; asajja mānāḥ — sem ficarem muito atraídos; kakṣāḥ — muros; samāna — igual; vayasau — idade; atha — em seguida; saptamāyām — no sétimo portão; devau — dois porteiros de Vaikuṇṭha; acakṣata — viram; gṛhīta — portando; gadau — maças; para-ardhya — valiosíssimas; keyūra — braceletes; kuṇḍala — brincos; kirīṭa — elmos; viṭaṅka — belas; veṣau — roupas.
Translation
Após passarem pelas seis entradas de Vaikuṇṭha-purī, a residência do Senhor, sem sentir espanto diante de todas as decorações, eles viram, no sétimo portão, dois seres brilhantes da mesma idade, armados com maças e adornados com valiosíssimas joias, brincos, diamantes, elmos, roupas etc.
Purport
Os sábios estavam tão ansiosos por ver o Senhor dentro de Vaikuṇṭha-purī que não se importaram de apreciar as decorações transcendentais dos seis portões pelos quais passaram, um após outro. Contudo, no sétimo portão, encontraram dois porteiros da mesma idade. A importância de os porteiros serem da mesma idade é que nos planetas Vaikuṇṭha não há velhice, de forma que não se pode distinguir quem é mais velho e quem é mais novo. Os habitantes de Vaikuṇṭha são adornados como a Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa, com śaṅkha, cakra, gadā e padma (búzio, roda, maça e lótus).
Devanagari
मत्तद्विरेफवनमालिकया निवीतौ
विन्यस्तयासितचतुष्टयबाहुमध्ये ।
वक्त्रं भ्रुवा कुटिलया स्फुटनिर्गमाभ्यां
रक्तेक्षणेन च मनाग्रभसं दधानौ ॥ २८ ॥
विन्यस्तयासितचतुष्टयबाहुमध्ये ।
वक्त्रं भ्रुवा कुटिलया स्फुटनिर्गमाभ्यां
रक्तेक्षणेन च मनाग्रभसं दधानौ ॥ २८ ॥
Verse text
matta-dvirepha-vanamālikayā nivītau
vinyastayāsita-catuṣṭaya-bāhu-madhye
vaktraṁ bhruvā kuṭilayā sphuṭa-nirgamābhyāṁ
raktekṣaṇena ca manāg rabhasaṁ dadhānau
vinyastayāsita-catuṣṭaya-bāhu-madhye
vaktraṁ bhruvā kuṭilayā sphuṭa-nirgamābhyāṁ
raktekṣaṇena ca manāg rabhasaṁ dadhānau
Synonyms
matta — inebriadas; dvi-repha — abelhas; vana-mālikayā — com uma guirlanda de flores frescas; nivītau — penduradas no pescoço; vinyastayā — colocadas em volta; asita — azuis; catuṣṭaya — quatro; bāhu — mãos; madhye — entre; vaktram — rosto; bhruvā — com suas sobrancelhas; kuṭilayā — franzidas; sphuṭa — contraídas; nirgamābhyām — respiração; rakta — avermelhados; īkṣaṇena — com olhos; ca — e; manāk — um tanto; rabhasam — agitados; dadhānau — olharam para.
Translation
Os dois porteiros usavam guirlandas de flores frescas que atraíam abelhas inebriadas. As guirlandas estavam colocadas em volta de seus pescoços e entre seus quatro braços azuis. Por suas sobrancelhas franzidas, narinas contraídas e olhos avermelhados, parecia que estavam um tanto agitados.
Purport
Suas guirlandas atraíam enxames de abelhas por serem de flores frescas. No mundo Vaikuṇṭha, tudo é fresco, novo e transcendental. Os habitantes de Vaikuṇṭha têm corpos de cor azulada e quatro braços, como Nārāyaṇa.
Devanagari
द्वार्येतयोर्निविविशुर्मिषतोरपृष्ट्वा
पूर्वा यथा पुरटवज्रकपाटिका या: ।
सर्वत्र तेऽविषमया मुनय: स्वदृष्टया
ये सञ्चरन्त्यविहता विगताभिशङ्का: ॥ २९ ॥
पूर्वा यथा पुरटवज्रकपाटिका या: ।
सर्वत्र तेऽविषमया मुनय: स्वदृष्टया
ये सञ्चरन्त्यविहता विगताभिशङ्का: ॥ २९ ॥
Verse text
dvāry etayor niviviśur miṣator apṛṣṭvā
pūrvā yathā puraṭa-vajra-kapāṭikā yāḥ
sarvatra te ’viṣamayā munayaḥ sva-dṛṣṭyā
ye sañcaranty avihatā vigatābhiśaṅkāḥ
pūrvā yathā puraṭa-vajra-kapāṭikā yāḥ
sarvatra te ’viṣamayā munayaḥ sva-dṛṣṭyā
ye sañcaranty avihatā vigatābhiśaṅkāḥ
Synonyms
dvāri — na porta; etayoḥ — ambos os porteiros; niviviśuḥ — entraram; miṣatoḥ — ao verem; apṛṣṭvā — sem pedir; pūrvāḥ — como antes; yathā — como; puraṭa — feitas de ouro; vajra — e diamantes; kapāṭikāḥ — as portas; yāḥ — que; sarvatra — em toda parte; te — eles; aviṣa-mayā — sem qualquer senso de discriminação; munayaḥ — os grandes sábios; sva-dṛṣṭyā — por iniciativa própria; ye — que; sañcaranti — movem-se; avihatāḥ — sem serem impedidos; vigata — sem; abhiśaṅkāḥ — dúvida.
Translation
Os grandes sábios, encabeçados por Sanaka, tinham portas abertas em toda parte. Eles não tinham ideia de “nosso” e “deles”. Com mentes abertas, entraram pela sétima porta por iniciativa própria, assim como haviam passado pelas seis outras portas, que eram feitas de ouro e diamantes.
Purport
Os grandes sábios – a saber, Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanat-kumāra –, embora muito velhos em idade, mantinham-se eternamente como criancinhas. Eles não eram em nada hipócritas, e entraram pelas portas exatamente como criancinhas entram nos lugares sem qualquer ideia do que seja invasão de propriedade alheia. Essa é a natureza das crianças. Uma criança pode entrar em qualquer lugar, e ninguém a impede. Na verdade, geralmente uma criança é bem-vinda em suas tentativas de ir aos diversos lugares, mas, se acontece de uma criança ser impedida de entrar por alguma porta, ela fica naturalmente muito pesarosa e irada. Essa é a natureza das crianças. Neste caso, aconteceu a mesma coisa. As personalidades santas semelhantes a crianças entraram por todas as seis portas do palácio, e ninguém as impediu; portanto, ao tentarem entrar pela sétima porta e ao serem proibidas pelos porteiros, que as retiveram com suas lanças, elas ficaram naturalmente muito iradas e ressentidas. Uma criança comum choraria, mas, como essas não eram crianças comuns, imediatamente se prepararam para punir os porteiros, pois os porteiros haviam cometido uma grande ofensa. Mesmo hoje em dia, na Índia, ninguém impede uma pessoa santa de entrar em sua casa.
Devanagari
तान् वीक्ष्य वातारशनांश्चतुर: कुमारान्
वृद्धान्दशार्धवयसो विदितात्मतत्त्वान् ।
वेत्रेण चास्खलयतामतदर्हणांस्तौ
तेजो विहस्य भगवत्प्रतिकूलशीलौ ॥ ३० ॥
वृद्धान्दशार्धवयसो विदितात्मतत्त्वान् ।
वेत्रेण चास्खलयतामतदर्हणांस्तौ
तेजो विहस्य भगवत्प्रतिकूलशीलौ ॥ ३० ॥
Verse text
tān vīkṣya vāta-raśanāṁś caturaḥ kumārān
vṛddhān daśārdha-vayaso viditātma-tattvān
vetreṇa cāskhalayatām atad-arhaṇāṁs tau
tejo vihasya bhagavat-pratikūla-śīlau
vṛddhān daśārdha-vayaso viditātma-tattvān
vetreṇa cāskhalayatām atad-arhaṇāṁs tau
tejo vihasya bhagavat-pratikūla-śīlau
Synonyms
tān — a eles; vīkṣya — após ver; vāta-raśanān — nus; caturaḥ — quatro; kumārān — meninos; vṛddhān — idosos; daśa-ardha — cinco anos; vayasaḥ — aparentando ter a idade; vidita — haviam compreendido; ātma-tattvān — a verdade do eu; vetreṇa — com suas lanças; ca — também; askhalayatām — proibiram; a-tat-arhaṇān — não merecendo isso deles; tau — aqueles dois porteiros; tejaḥ — glórias; vihasya — menosprezando a etiqueta; bhagavat-pratikūla-śīlau — tendo uma índole desagradável ao Senhor.
Translation
Os quatro meninos-sábios, que nada tinham para cobrir seus corpos além da atmosfera, aparentavam ter apenas cinco anos de idade, muito embora fossem as mais velhas entre todas as criaturas e tivessem compreendido a verdade do eu. Todavia, quando os porteiros, que aconteciam de manifestar uma atitude bastante desagradável ao Senhor, viram os sábios, eles os barraram com suas lanças, desdenhando suas glórias, embora os sábios não merecessem esse tratamento da parte deles.
Purport
Esses quatro sábios eram os filhos primogênitos de Brahmā. Portanto, todas as demais entidades vivas, incluindo o senhor Śiva, nasceram posteriormente e, por isso, são mais jovens que os quatro Kumāras. Embora parecessem meninos de cinco anos e viajassem nus, os Kumāras eram mais velhos que todas as demais criaturas e tinham compreendido a verdade do eu. Tais santos não deveriam ser proibidos de entrar no reino de Vaikuṇṭha, mas, por ventura, os porteiros fizeram restrição à entrada deles. Isso não foi justo. O Senhor está sempre ansioso por servir a sábios como os Kumāras, mas, apesar de saberem deste fato, os porteiros, espantosa e ultrajantemente, proibiram-nos de entrar.
Devanagari
ताभ्यां मिषत्स्वनिमिषेषु निषिध्यमाना:
स्वर्हत्तमा ह्यपि हरे: प्रतिहारपाभ्याम् ।
ऊचु: सुहृत्तमदिदृक्षितभङ्ग ईष-
त्कामानुजेन सहसा त उपप्लुताक्षा: ॥ ३१ ॥
स्वर्हत्तमा ह्यपि हरे: प्रतिहारपाभ्याम् ।
ऊचु: सुहृत्तमदिदृक्षितभङ्ग ईष-
त्कामानुजेन सहसा त उपप्लुताक्षा: ॥ ३१ ॥
Verse text
tābhyāṁ miṣatsv animiṣeṣu niṣidhyamānāḥ
svarhattamā hy api hareḥ pratihāra-pābhyām
ūcuḥ suhṛttama-didṛkṣita-bhaṅga īṣat
kāmānujena sahasā ta upaplutākṣāḥ
svarhattamā hy api hareḥ pratihāra-pābhyām
ūcuḥ suhṛttama-didṛkṣita-bhaṅga īṣat
kāmānujena sahasā ta upaplutākṣāḥ
Synonyms
tābhyām — por aqueles dois porteiros; miṣatsu — enquanto observavam; animiṣeṣu — semideuses que vivem em Vaikuṇṭha; niṣidhyamānāḥ — sendo proibidos; su-arhattamāḥ — nitidamente as pessoas mais dignas; hi api — embora; hareḥ — de Hari, a Suprema Personalidade de Deus; pratihāra pābhyām — pelos dois porteiros; ūcuḥ — disseram; suhrṭ-tama — amadíssimo; didṛkṣita — ânsia de ver; bhaṅge — obstáculo; īṣat — leve; kāma-anujena — pelo irmão mais novo da luxúria (ira); sahasā — subitamente; te — aqueles grandes sábios; upapluta — agitados; akṣāḥ — olhos.
Translation
Quando os Kumāras, embora fossem nitidamente as pessoas mais dignas, foram desse modo barrados pelos dois principais porteiros de Śrī Hari sob as vistas de outras divindades, seus olhos subitamente avermelharam-se de ira devido à sua grande avidez por ver seu amadíssimo mestre, Śrī Hari, a Personalidade de Deus.
Purport
Segundo o sistema védico, o sannyāsī, a pessoa pertencente à ordem de vida renunciada, veste-se com roupas de cor açafroada. A roupa açafroada é praticamente um passaporte para o mendicante e sannyāsī ir a qualquer parte. O dever do sannyāsī é iluminar as pessoas sobre a consciência de Kṛṣṇa. Aqueles que estão na ordem de vida renunciada não têm outro interesse além de pregar as glórias e a supremacia da Suprema Personalidade de Deus. Portanto, a concepção sociológica védica é que um sannyāsī não deve sofrer restrições: ele tem permissão de ir a toda e qualquer parte que deseje, e nenhum presente que ele por acaso peça a um chefe de família lhe é negado. Os quatro Kumāras foram ver a Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa. A palavra suhṛttama, “melhor de todos os amigos”, é importante. Conforme o Senhor Kṛṣṇa afirma na Bhagavad-gītā, Ele é o melhor amigo de todas as entidades vivas. Suhṛdaṁ sarva-bhūtānām. Ninguém pode ser maior amigo e maior benquerente de qualquer entidade viva que a Suprema Personalidade de Deus. Sua atitude é tão generosa para com todos que, apesar de nos esquecermos inteiramente de nossa relação com o Senhor Supremo, Ele próprio vem – às vezes pessoalmente, como o Senhor Kṛṣṇa apareceu nesta Terra, e às vezes como Seu devoto, como o fez o Senhor Caitanya Mahāprabhu – e às vezes envia Seus devotos genuínos para redimir todas as almas caídas. Portanto, Ele é o maior amigo e benquerente de todos, e os Kumāras queriam vê-lO. Os porteiros deviam ter entendido que os quatro sábios não tinham outro interesse, e por isso não foi apropriado impedi-los de entrar no palácio.
Neste verso, afirma-se figuradamente que o irmão mais novo do desejo apareceu subitamente, em pessoa, quando os sábios foram proibidos de ver sua amadíssima Personalidade de Deus. O irmão mais novo do desejo é a ira. Se não satisfazemos nosso desejo, seu irmão mais novo, a ira, sobrevém. Podemos observar aqui como mesmo grandes pessoas santas como os Kumāras também se irritavam, mas não estavam irados devido a seus interesses pessoais, e, sim, porque foram proibidos de entrar no palácio para ver a Personalidade de Deus. Portanto, este verso não apoia a teoria de que, na fase perfectiva, não se deve ter ira. A ira continuará a existir mesmo na fase liberada. Esses quatro irmãos mendicantes, os Kumāras, eram considerados pessoas liberadas, mas, mesmo assim, ficaram irados por sofrerem restrições em seu serviço ao Senhor. A diferença entre a ira de uma pessoa comum e a de uma pessoa liberada é que uma pessoa comum fica irada porque seus desejos sensuais não estão sendo satisfeitos, ao passo que uma pessoa liberada, como os Kumāras, fica irada ao ser restringida no desempenho de deveres relativos ao serviço à Suprema Personalidade de Deus.
No verso anterior, menciona-se claramente que os Kumāras são pessoas liberadas. Viditātma-tattva significa “aquele que compreende a verdade da autorrealização”. Quem não compreende a verdade da autorrealização é chamado de ignorante, mas quem entende o eu, o Super-Eu, a relação entre os dois e as atividades no processo da autorrealização chama-se viditātma-tattva. Muito embora os Kumāras já fossem pessoas liberadas, ficaram irados. Esse ponto é muito importante. Liberar-se não implica em ficar privado das atividades sensórias. As atividades dos sentidos continuam mesmo na fase liberada. A diferença é, entretanto, que atividades sensórias na liberação são aceitas somente em relação com a consciência de Kṛṣṇa, enquanto as atividades sensórias na fase condicionada realizam-se em troca de gozo pessoal dos sentidos.
Devanagari
मुनय ऊचु:
को वामिहैत्य भगवत्परिचर्ययोच्चै-
स्तद्धर्मिणां निवसतां विषम: स्वभाव: ।
तस्मिन् प्रशान्तपुरुषे गतविग्रहे वां
को वात्मवत्कुहकयो: परिशङ्कनीय: ॥ ३२ ॥
को वामिहैत्य भगवत्परिचर्ययोच्चै-
स्तद्धर्मिणां निवसतां विषम: स्वभाव: ।
तस्मिन् प्रशान्तपुरुषे गतविग्रहे वां
को वात्मवत्कुहकयो: परिशङ्कनीय: ॥ ३२ ॥
Verse text
munaya ūcuḥ
ko vām ihaitya bhagavat-paricaryayoccais
tad-dharmiṇāṁ nivasatāṁ viṣamaḥ svabhāvaḥ
tasmin praśānta-puruṣe gata-vigrahe vāṁ
ko vātmavat kuhakayoḥ pariśaṅkanīyaḥ
ko vām ihaitya bhagavat-paricaryayoccais
tad-dharmiṇāṁ nivasatāṁ viṣamaḥ svabhāvaḥ
tasmin praśānta-puruṣe gata-vigrahe vāṁ
ko vātmavat kuhakayoḥ pariśaṅkanīyaḥ
Synonyms
munayaḥ — os grandes sábios; ūcuḥ — disseram; kaḥ — quem; vām — vós dois; iha — em Vaikuṇṭha; etya — tendo alcançado; bhagavat — da Suprema Personalidade de Deus; paricaryayā — pelo serviço; uccaiḥ — tendo sido desenvolvido pelas ações piedosas passadas; tat-dharmiṇām — dos devotos; nivasatām — residindo em Vaikuṇṭha; viṣamaḥ — discordante; svabhāvaḥ — mentalidade; tasmin — no Senhor Supremo; praśānta-puruṣe — sem ansiedades; gata-vigrahe — sem inimigo algum; vām — de vós dois; kaḥ — quem; vā — ou; ātma-vat — como vós próprios; kuhakayoḥ — mantendo duplicidade; pariśaṅkanīyaḥ — não se tornando dignos de confiança.
Translation
Os sábios disseram: Quem são essas duas pessoas a desenvolverem tão discordante mentalidade, apesar de estarem situados na posição mais elevada de serviço ao Senhor e de terem supostamente desenvolvido as mesmas qualidades que o Senhor? Como essas duas pessoas podem estar vivendo em Vaikuṇṭha? Onde está a possibilidade da vinda de um inimigo a este reino de Deus? A Suprema Personalidade de Deus não tem inimigos. Quem poderia ter inveja dEle? Provavelmente, essas duas pessoas são impostores e, por isso, suspeitam que os outros sejam como eles.
Purport
A diferença entre os habitantes de um planeta Vaikuṇṭha e os de um planeta material é que, em Vaikuṇṭha, todos os residentes ocupam-se a serviço do Senhor em pessoa e estão equipados com todas as Suas boas qualidades. Grandes personalidades têm analisado que, quando uma alma condicionada se liberta e torna-se devota, cerca de setenta e nove por cento de todas as boas qualidades do Senhor desenvolvem-se nela. Portanto, no mundo Vaikuṇṭha não há possibilidade de inimizade entre o Senhor e os residentes. Aqui neste mundo material, talvez os cidadãos sejam hostis com os chefes do executivo ou com os líderes do estado, mas, em Vaikuṇṭha, tal mentalidade não existe. Ninguém tem permissão de entrar em Vaikuṇṭha a não ser que tenha desenvolvido inteiramente as boas qualidades. O princípio básico da bondade é aceitar a subordinação à Suprema Personalidade de Deus. Os sábios, portanto, ficaram surpresos de ver que os dois porteiros que os impediram de entrar no palácio não eram exatamente como os residentes de Vaikuṇṭhaloka. Talvez se diga que o dever do porteiro é determinar quem deve e quem não deve ser admitido no palácio. Porém, isso não é relevante neste caso, visto que ninguém é admitido nos planetas Vaikuṇṭha a menos que tenha desenvolvido cem por cento sua mentalidade de serviço devocional ao Senhor Supremo. Nenhum inimigo do Senhor pode entrar em Vaikuṇṭhaloka. Os Kumāras concluíram que a única razão para os porteiros os impedirem era que os próprios porteiros eram impostores.
Devanagari
न ह्यन्तरं भगवतीह समस्तकुक्षा-
वात्मानमात्मनि नभो नभसीव धीरा: ।
पश्यन्ति यत्र युवयो: सुरलिङ्गिनो: किं
व्युत्पादितं ह्युदरभेदि भयं यतोऽस्य ॥ ३३ ॥
वात्मानमात्मनि नभो नभसीव धीरा: ।
पश्यन्ति यत्र युवयो: सुरलिङ्गिनो: किं
व्युत्पादितं ह्युदरभेदि भयं यतोऽस्य ॥ ३३ ॥
Verse text
na hy antaraṁ bhagavatīha samasta-kukṣāv
ātmānam ātmani nabho nabhasīva dhīrāḥ
paśyanti yatra yuvayoḥ sura-liṅginoḥ kiṁ
vyutpāditaṁ hy udara-bhedi bhayaṁ yato ’sya
ātmānam ātmani nabho nabhasīva dhīrāḥ
paśyanti yatra yuvayoḥ sura-liṅginoḥ kiṁ
vyutpāditaṁ hy udara-bhedi bhayaṁ yato ’sya
Synonyms
na — não; hi — porque; antaram — distinção; bhagavati — na Suprema Personalidade de Deus; iha — aqui; samasta-kukṣau — tudo está dentro do abdômen; ātmānam — a entidade viva; ātmani — na Superalma; nabhaḥ — a pequena quantidade de ar; nabhasi — dentro da totalidade do ar; iva — assim como; dhīrāḥ — os eruditos; paśyanti — veem; yatra — em quem; yuvayoḥ — de vós dois; sura-liṅginoḥ — vestidos como habitantes de Vaikuṇṭha; kim — como; vyutpāditam — despertado, desenvolvido; hi — certamente; udara-bhedi — distinção entre o corpo e a alma; bhayam — temor; yataḥ — de onde; asya — do Senhor Supremo.
Translation
No mundo Vaikuṇṭha, há total harmonia entre os residentes e a Suprema Personalidade de Deus, assim como, dentro do espaço, há total harmonia entre o céu grande e o pequeno. Por que, então, há uma semente de medo neste campo de harmonia? Essas duas pessoas estão vestidas como habitantes de Vaikuṇṭha, mas de onde poderia ter surgido sua desarmonia?
Purport
Assim como há diferentes departamentos em cada estado neste mundo material – o departamento cível e o departamento criminal –, da mesma forma, na criação de Deus, há dois departamentos de existência. Assim como no mundo material observamos que o departamento criminal é muito menor que o departamento cível, da mesma forma, este mundo material, que é considerado o departamento criminal, é uma quarta parte de toda a criação do Senhor. Todas as entidades vivas que são habitantes dos universos materiais são consideradas como mais ou menos criminosas, visto que não desejam obedecer à ordem do Senhor, ou são contra as atividades harmoniosas da vontade de Deus. O princípio da criação é que o Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, sendo alegre por natureza, converte-Se em muitos a fim de aumentar Seu júbilo transcendental. As entidades vivas como nós, sendo partes integrantes do Senhor Supremo, destinamo-nos a satisfazer os sentidos do Senhor. Assim, logo que há uma discrepância nesta harmonia, a entidade viva é enredada por māyā, ou ilusão.
A energia externa do Senhor chama-se mundo material, e o reino da energia interna do Senhor chama-se Vaikuṇṭha, ou o reino de Deus. No mundo Vaikuṇṭha, não há desarmonia entre o Senhor e os habitantes. Portanto, a criação de Deus no mundo Vaikuṇṭha é perfeita. Não há motivo para temor. Todo o reino de Deus é uma unidade tão completamente harmoniosa que não há possibilidade de inimizade. Tudo lá é absoluto. Assim como há muitos sistemas fisiológicos dentro do corpo que não obstante trabalham sob uma só ordem para a satisfação do estômago, e assim como numa máquina há centenas e milhares de peças que não obstante funcionam harmoniosamente para satisfazer o objetivo da máquina – nos planetas Vaikuṇṭha o Senhor é perfeito, e os habitantes também se ocupam perfeitamente a serviço do Senhor.
Os filósofos māyāvādīs, os impersonalistas, interpretam este verso do Śrīmad-Bhāgavatam como significando que o pequeno céu e o grande céu são uma coisa só, mas essa ideia não é aceitável. O exemplo do pequeno e do grande céu também é aplicável dentro do corpo de uma pessoa. O grande céu é o próprio corpo, e os intestinos e outras partes do corpo ocupam o pequeno céu. Cada parte do corpo tem individualidade, muito embora ocupe uma pequena parte da totalidade do corpo. Analogamente, toda a criação é o corpo do Senhor Supremo, e nós, as criaturas, ou qualquer coisa que seja criada, não passamos de uma pequena parte daquele corpo. As partes do corpo nunca são iguais ao todo. Isso não é possível em tempo algum. Na Bhagavad-gītā, afirma-se que as entidades vivas, as quais são partes integrantes do Senhor Supremo, são eternamente partes integrantes. Segundo os filósofos māyāvādīs, a entidade viva em ilusão considera-se parte integrante, embora, na verdade, seja igual ao todo supremo. Essa teoria não é válida. A unidade entre o todo e a parte está na qualidade de ambos. A unidade qualitativa da pequena e da grande porção do céu não implica em que o pequeno céu se torne o grande céu.
Não há motivo para a política de divisão e domínio nos planetas Vaikuṇṭha; não há medo, por causa da coincidência de interesses do Senhor e dos residentes. Māyā significa desarmonia entre as entidades vivas e o Senhor Supremo, e Vaikuṇṭha significa harmonia entre eles. Na verdade, todas as entidades vivas recebem provisões do Senhor e são mantidas por Ele, porque Ele é a entidade viva suprema. Contudo, criaturas tolas, embora na verdade estejam sob o controle da entidade viva suprema, desafiam Sua existência, e tal estado chama-se māyā. Às vezes, elas negam que haja um ser como Deus. Elas dizem: “Tudo é vazio”. Outras vezes O negam de uma maneira diferente: “Pode ser que exista um Deus, mas Ele não tem forma.” Essas duas concepções surgem igualmente da condição rebelde da entidade viva. Enquanto esta condição rebelde prevalecer, o mundo material continuará em desarmonia.
Harmonia ou desarmonia são entendidas em função da lei e da ordem de um lugar em particular. A religião é a lei e a ordem do Senhor Supremo. Na Śrīmad Bhagavad-gītā, encontramos que religião significa serviço devocional, ou consciência de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa diz: “Abandona todos os demais princípios religiosos e simplesmente torna-te uma alma rendida a Mim.” Isso é religião. Quando alguém é plenamente consciente de que Kṛṣṇa é o desfrutador supremo e Senhor Supremo e age de acordo, então se manifesta a verdadeira religião. Nada que seja contrário a este princípio pode ser considerado religião. Portanto, Kṛṣṇa diz: “Abandona todos os demais princípios religiosos.” No mundo espiritual, este princípio religioso da consciência de Kṛṣṇa é mantido harmoniosamente, daí esse mundo chamar-se Vaikuṇṭha. Se os mesmos princípios puderem ser adotados aqui, integral ou parcialmente, isso também será Vaikuṇṭha. O mesmo se aplica a qualquer sociedade, tal como a Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna: se os membros da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, depositando fé em Kṛṣṇa como o centro, viverem harmoniosamente, segundo a ordem e os princípios da Bhagavad-gītā, estarão vivendo em Vaikuṇṭha, e não neste mundo material.
Devanagari
तद्वाममुष्य परमस्य विकुण्ठभर्तु:
कर्तुं प्रकृष्टमिह धीमहि मन्दधीभ्याम् ।
लोकानितो व्रजतमन्तरभावदृष्टया
पापीयसस्त्रय इमे रिपवोऽस्य यत्र ॥ ३४ ॥
कर्तुं प्रकृष्टमिह धीमहि मन्दधीभ्याम् ।
लोकानितो व्रजतमन्तरभावदृष्टया
पापीयसस्त्रय इमे रिपवोऽस्य यत्र ॥ ३४ ॥
Verse text
tad vām amuṣya paramasya vikuṇṭha-bhartuḥ
kartuṁ prakṛṣṭam iha dhīmahi manda-dhībhyām
lokān ito vrajatam antara-bhāva-dṛṣṭyā
pāpīyasas traya ime ripavo ’sya yatra
kartuṁ prakṛṣṭam iha dhīmahi manda-dhībhyām
lokān ito vrajatam antara-bhāva-dṛṣṭyā
pāpīyasas traya ime ripavo ’sya yatra
Synonyms
tat — portanto; vām — a esses dois; amuṣya — dEle; paramasya — o Supremo; vikuṇṭha-bhartuḥ — o Senhor de Vaikuṇṭha; kartum — para conceder; prakṛṣṭam — benefício; iha — quanto a esta ofensa; dhīmahi — consideremos; manda-dhībhyām — aqueles cuja inteligência não é muito boa; lokān — para o mundo material; itaḥ — deste lugar (Vaikuṇṭha); vrajatam — vão; antara-bhāva — dualidade; dṛṣṭyā — por verem; pāpīyasaḥ — pecaminosos; trayaḥ — três; ime — esses; ripavaḥ — inimigos; asya — da entidade viva; yatra — onde.
Translation
Consideremos, então, como essas duas pessoas contaminadas deverão ser punidas. Que seja uma punição apropriada para, assim, eles poderem ser beneficiados ao final. Já que veem dualidade na existência da vida de Vaikuṇṭha, eles estão contaminados e devem ser removidos deste lugar para o mundo material, onde as entidades vivas têm três classes de inimigos.
Purport
A razão pela qual almas puras descem às condições existenciais do mundo material, que é considerado o departamento criminal do Senhor Supremo, é exposta na Bhagavad-gītā, sétimo capítulo, verso 27. Afirma-se ali que, enquanto a entidade viva é pura, ela está em total harmonia com os desejos do Senhor Supremo, mas, tão logo se torne impura, põe-se em desarmonia com os desejos do Senhor. Ela é forçada pela contaminação a transferir-se a este mundo material, onde as entidades vivas têm três inimigos, a saber, o desejo, a ira e a luxúria. Esses três inimigos forçam as entidades vivas à contínua existência material, e, quando alguém se livra deles, torna-se apto a entrar no reino de Deus. Não se deve, portanto, ficar irado na ausência de uma oportunidade de gozo dos sentidos, e não se deve ser cobiçoso de adquirir mais que o necessário. Neste verso, afirma-se claramente que os dois porteiros deviam ser enviados ao mundo material, onde se permite que os criminosos residam. Uma vez que os princípios básicos da criminalidade são o gozo dos sentidos, a ira e a luxúria desnecessários, as pessoas conduzidas por esses três inimigos da entidade viva não são promovidas jamais a Vaikuṇṭhaloka. Todos devem aprender a Bhagavad-gītā e aceitar a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, como o Senhor de tudo; devem aprender a satisfazer os sentidos do Senhor Supremo ao invés de tentarem satisfazer seus próprios sentidos. O treinamento em consciência de Kṛṣṇa os ajudará a serem promovidos a Vaikuṇṭha.
Devanagari
तेषामितीरितमुभाववधार्य घोरं
तं ब्रह्मदण्डमनिवारणमस्त्रपूगै: ।
सद्यो हरेरनुचरावुरु बिभ्यतस्तत्-
पादग्रहावपततामतिकातरेण ॥ ३५ ॥
तं ब्रह्मदण्डमनिवारणमस्त्रपूगै: ।
सद्यो हरेरनुचरावुरु बिभ्यतस्तत्-
पादग्रहावपततामतिकातरेण ॥ ३५ ॥
Verse text
teṣām itīritam ubhāv avadhārya ghoraṁ
taṁ brahma-daṇḍam anivāraṇam astra-pūgaiḥ
sadyo harer anucarāv uru bibhyatas tat-
pāda-grahāv apatatām atikātareṇa
taṁ brahma-daṇḍam anivāraṇam astra-pūgaiḥ
sadyo harer anucarāv uru bibhyatas tat-
pāda-grahāv apatatām atikātareṇa
Synonyms
teṣām — dos quatro Kumāras; iti — assim; īritam — proferiram; ubhau — ambos os porteiros; avadhārya — compreendendo; ghoram — terrível; tam — aquela; brahma-daṇḍam — maldição de um brāhmaṇa; anivāraṇam — impossível de ser neutralizada; astra-pūgaiḥ — por qualquer classe de arma; sadyaḥ — imediatamente; hareḥ — do Senhor Supremo; anucarau — devotos; uru — muito; bibhyataḥ — ficaram amedrontados; tat-pāda-grahau — agarrando-se a seus pés; apatatām — caíram; ati-kātareṇa — em grande ansiedade.
Translation
Quando os porteiros de Vaikuṇṭhaloka, que certamente eram devotos do Senhor, perceberam que iam ser amaldiçoados pelos brāhmaṇas, ficaram imediatamente muito amedrontados e caíram aos pés dos brāhmaṇas em grande ansiedade, pois nenhuma classe de arma pode neutralizar a maldição de um brāhmaṇa.
Purport
Embora, por acaso, os porteiros tivessem cometido um erro ao impedir os brāhmaṇas de entrar no portão de Vaikuṇṭha, eles imediatamente se deram conta da gravidade da maldição. Há muitos tipos de ofensas, mas a maior ofensa é ofender um devoto do Senhor. Como os porteiros também eram devotos do Senhor, eles foram capazes de avaliar seu erro e se aterrorizaram ao verem que os quatro Kumāras iam amaldiçoá-los.
Devanagari
भूयादघोनि भगवद्भिरकारि दण्डो
यो नौ हरेत सुरहेलनमप्यशेषम् ।
मा वोऽनुतापकलया भगवत्स्मृतिघ्नो
मोहो भवेदिह तु नौ व्रजतोरधोऽध: ॥ ३६ ॥
यो नौ हरेत सुरहेलनमप्यशेषम् ।
मा वोऽनुतापकलया भगवत्स्मृतिघ्नो
मोहो भवेदिह तु नौ व्रजतोरधोऽध: ॥ ३६ ॥
Verse text
bhūyād aghoni bhagavadbhir akāri daṇḍo
yo nau hareta sura-helanam apy aśeṣam
mā vo ’nutāpa-kalayā bhagavat-smṛti-ghno
moho bhaved iha tu nau vrajator adho ’dhaḥ
yo nau hareta sura-helanam apy aśeṣam
mā vo ’nutāpa-kalayā bhagavat-smṛti-ghno
moho bhaved iha tu nau vrajator adho ’dhaḥ
Synonyms
bhūyāt — que haja; aghoni — para os pecaminosos; bhagavadbhiḥ — por vós; akāri — foi feita; daṇḍaḥ — punição; yaḥ — aquilo que; nau — com relação a nós; hareta — deve destruir; sura-helanam — desobedecendo a grandes semideuses; api — certamente; aśeṣam — ilimitado; mā — não; vaḥ — vossa; anutāpa — arrependimento; kalayā — por um pouco; bhagavat — da Suprema Personalidade de Deus; smṛti-ghnaḥ — destruindo a memória de; mohaḥ — ilusão; bhavet — deve ser; iha — nas tolas espécies de vida; tu — mas; nau — de nós; vrajatoḥ — que estamos indo; adhaḥ adhaḥ — descendo ao mundo material.
Translation
Após serem amaldiçoados pelos sábios, os porteiros disseram: É bastante apropriado que nos tenhais castigado por termos negligenciado o respeito devido a sábios como vós. Mas oramos que, devido à vossa compaixão ante nosso arrependimento, a ilusão de esquecer a Suprema Personalidade de Deus não nos ocorra à medida que formos progressivamente para baixo.
Purport
Para um devoto, qualquer punição rigorosa é tolerável, menos aquela cujo efeito é o esquecimento do Senhor Supremo. Os porteiros, que também eram devotos, puderam entender a punição que lhes fora imposta, pois estavam conscientes da grande ofensa que haviam cometido ao não permitirem que os sábios entrassem em Vaikuṇṭhaloka. Nas espécies inferiores de vida, inclusive nas espécies animais, o esquecimento do Senhor é muito manifesto. Os porteiros estavam sabendo que iriam ao departamento criminal do mundo material, e estavam na expectativa de que teriam de cair nas espécies mais baixas e esquecer-se do Senhor Supremo. Portanto, oraram que isso não acontecesse nas vidas que teriam de aceitar por causa da maldição. Na Bhagavad-gītā, décimo sexto capítulo, versos 19 e 20, declara-se que quem tem inveja do Senhor e de Seus devotos é atirado ao nascimento entre espécies de vida abomináveis: vida após vida, esses tolos são incapazes de lembrar-se da Suprema Personalidade de Deus e, devido a isso, continuam caindo cada vez mais baixo.
Devanagari
एवं तदैव भगवानरविन्दनाभ:
स्वानां विबुध्य सदतिक्रममार्यहृद्य: ।
तस्मिन् ययौ परमहंसमहामुनीना-
मन्वेषणीयचरणौ चलयन् सहश्री: ॥ ३७ ॥
स्वानां विबुध्य सदतिक्रममार्यहृद्य: ।
तस्मिन् ययौ परमहंसमहामुनीना-
मन्वेषणीयचरणौ चलयन् सहश्री: ॥ ३७ ॥
Verse text
evaṁ tadaiva bhagavān aravinda-nābhaḥ
svānāṁ vibudhya sad-atikramam ārya-hṛdyaḥ
tasmin yayau paramahaṁsa-mahā-munīnām
anveṣaṇīya-caraṇau calayan saha-śrīḥ
svānāṁ vibudhya sad-atikramam ārya-hṛdyaḥ
tasmin yayau paramahaṁsa-mahā-munīnām
anveṣaṇīya-caraṇau calayan saha-śrīḥ
Synonyms
evam — assim; tadā eva — naquele mesmo momento; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; aravinda-nābhaḥ — com um lótus crescendo de Seu umbigo; svānām — de Seus próprios servos; vibudhya — ficou sabendo de; sat — contra os grandes sábios; atikramam — o insulto; ārya — dos justos; hṛdyaḥ — o deleite; tasmin — ali; yayau — foi; paramahaṁsa — eremitas; mahā-munīnām — pelos grandes sábios; anveṣaṇīya — que são dignos de serem almejados; caraṇau — os dois pés de lótus; calayan — caminhando; saha-śrīḥ — com a deusa da fortuna.
Translation
Naquele mesmo momento, o Senhor, que é chamado de Padmanābha por causa do lótus que cresce de Seu umbigo e que é o deleite dos justos, ficou sabendo do insulto cometido por Seus próprios servos contra os santos. Acompanhado por Sua esposa, a deusa da fortuna, dirigiu-Se até o local sobre aqueles mesmos pés que eremitas e grandes sábios almejam.
Purport
Na Bhagavad-gītā, o Senhor declara que Seus devotos não podem ser exterminados em tempo algum. O Senhor pôde compreender que a desavença entre os porteiros e os sábios estava mudando de aspecto e, em virtude disso, saiu imediatamente de Seu lugar e dirigiu-Se ao local para impedir maiores agravamentos, de modo que Seus devotos, os porteiros, não fossem aniquilados para sempre.
Devanagari
तं त्वागतं प्रतिहृतौपयिकं स्वपुम्भि-
स्तेऽचक्षताक्षविषयं स्वसमाधिभाग्यम् ।
हंसश्रियोर्व्यजनयो: शिववायुलोल-
च्छुभ्रातपत्रशशिकेसरशीकराम्बुम् ॥ ३८ ॥
स्तेऽचक्षताक्षविषयं स्वसमाधिभाग्यम् ।
हंसश्रियोर्व्यजनयो: शिववायुलोल-
च्छुभ्रातपत्रशशिकेसरशीकराम्बुम् ॥ ३८ ॥
Verse text
taṁ tv āgataṁ pratihṛtaupayikaṁ sva-pumbhis
te ’cakṣatākṣa-viṣayaṁ sva-samādhi-bhāgyam
haṁsa-śriyor vyajanayoḥ śiva-vāyu-lolac-
chubhrātapatra-śaśi-kesara-śīkarāmbum
te ’cakṣatākṣa-viṣayaṁ sva-samādhi-bhāgyam
haṁsa-śriyor vyajanayoḥ śiva-vāyu-lolac-
chubhrātapatra-śaśi-kesara-śīkarāmbum
Synonyms
tam — a Ele; tu — mas; āgatam — avançando; pratihṛta — portavam; aupayikam — os apetrechos; sva-pumbhiḥ — por Seus próprios associados; te — os grandes sábios (os Kumāras); acakṣata — observaram; akṣa-viṣayam — agora um objeto de visão; sva-samādhi-bhāgyam — visível simplesmente pelo transe extático; haṁsa-śriyoḥ — belas como cisnes brancos; vyajanayoḥ — os cāmaras (tufos de pelo branco); śiva-vāyu — ventos favoráveis; lolat — mexendo-se; śubhra-ātapatra — o guarda-sol branco; śaśi — a Lua; kesara — pérolas; śīkara — gotas; ambum — água.
Translation
Os sábios, encabeçados por Sanaka Ṛṣi, observaram que a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, que anteriormente só lhes era visível dentro de seus corações em transe extático, tinha agora Se tornado visível ante seus olhos. Conforme Ele avançava, acompanhado por Seus próprios associados que portavam todos os apetrechos, tais como um guarda-sol e um abano cāmara, os brancos tufos da cāmara moviam-se muito suavemente, como dois cisnes, e, devido à brisa favorável, as pérolas que enguirlandavam o guarda-sol também se mexiam, como gotas de néctar caindo da branca lua cheia ou como o gelo derretendo-se devido a uma rajada de vento.
Purport
Neste verso, encontramos a expressão acakṣatākṣa-viṣayam. O Senhor Supremo não pode ser visto por olhos comuns, mas agora tornava-Se visível aos olhos dos Kumāras. Outra expressão significativa é samādhi-bhāgyam. Os meditadores que são muito afortunados podem ver a forma Viṣṇu do Senhor dentro de seus corações, seguindo o processo ióguico. Mas vê-lO face a face é outra questão. Isso só é possível para devotos puros. Os Kumāras, portanto, ao verem o Senhor avançando em sua direção com Seus associados, que portavam um guarda-sol e um abano cāmara, espantaram-se de estar vendo o Senhor face a face. Na Brahma-saṁhitā, afirma-se que os devotos, sendo elevados em seu amor por Deus, sempre veem Śyāmasundara, a Suprema Personalidade de Deus, dentro de seus corações. Contudo, quando amadurecem, o mesmo Deus torna-Se visível perante eles, face a face. O Senhor não é visível para as pessoas comuns. Entretanto, quando alguém pode entender a importância de Seu santo nome e se ocupa no serviço devocional ao Senhor, começando com a língua, ao cantar e saborear prasāda, então o Senhor Se lhe revela gradualmente. Assim, o devoto vê o Senhor constantemente dentro de seu coração, e, numa fase mais madura, poderá ver o mesmo Senhor diretamente, assim como vemos tudo mais.
Devanagari
कृत्स्नप्रसादसुमुखं स्पृहणीयधाम
स्नेहावलोककलया हृदि संस्पृशन्तम् ।
श्यामे पृथावुरसि शोभितया श्रिया स्व-
श्चूडामणिं सुभगयन्तमिवात्मधिष्ण्यम् ॥ ३९ ॥
स्नेहावलोककलया हृदि संस्पृशन्तम् ।
श्यामे पृथावुरसि शोभितया श्रिया स्व-
श्चूडामणिं सुभगयन्तमिवात्मधिष्ण्यम् ॥ ३९ ॥
Verse text
kṛtsna-prasāda-sumukhaṁ spṛhaṇīya-dhāma
snehāvaloka-kalayā hṛdi saṁspṛśantam
śyāme pṛthāv urasi śobhitayā śriyā svaś-
cūḍāmaṇiṁ subhagayantam ivātma-dhiṣṇyam
snehāvaloka-kalayā hṛdi saṁspṛśantam
śyāme pṛthāv urasi śobhitayā śriyā svaś-
cūḍāmaṇiṁ subhagayantam ivātma-dhiṣṇyam
Synonyms
kṛtsna-prasāda — abençoando a todos; su-mukham — rosto auspicioso; spṛhaṇīya — desejável; dhāma — refúgio; sneha — afeição; avaloka — olhando para; kalayā — pela expansão; hṛdi — dentro do coração; saṁspṛśantam — tocando; śyāme — ao Senhor com cor enegrecida; pṛthau — largo; urasi — peito; śobhitayā — sendo decorado; śriyā — deusa da fortuna; svaḥ — planetas celestiais; cūḍā-maṇim — pináculo; subhagayantam — espalhando boa fortuna; iva — como; ātma — a Suprema Personalidade de Deus; dhiṣṇyam — morada.
Translation
O Senhor é o reservatório de todo o prazer. Sua presença auspiciosa destina-se à bênção de todos, e Seu sorriso e olhar afetuosos tocam o âmago do coração. A bela cor do corpo do Senhor é enegrecida, e Seu peito largo é o lugar de repouso da deusa da fortuna, que glorifica todo o mundo espiritual, o pináculo de todos os planetas celestes. Assim, parecia que o Senhor estava pessoalmente espalhando a beleza e boa fortuna do mundo espiritual.
Purport
Ao aparecer, o Senhor ficou satisfeito com todos. Por isso, aqui se afirma: kṛtsna-prasāda-sumukham. O Senhor sabia que mesmo os porteiros ofensores eram Seus devotos puros, embora acidentalmente tivessem cometido uma ofensa aos pés de outros devotos. No serviço devocional, cometer uma ofensa contra um devoto é muito perigoso. É por isso que o Senhor Caitanya disse que uma ofensa a um devoto é como deixar um elefante louco solto: entrando num jardim, ele pisa em todas as plantas. Analogamente, uma ofensa aos pés de um devoto puro mutila nossa posição no serviço devocional. De Sua parte, o Senhor não Se sentia ofendido, pois Ele não aceita nenhuma ofensa criada por Seu devoto sincero. Contudo, o devoto deve ser muito cauteloso para não cometer ofensas aos pés de outro devoto. Sendo igual para com todos, e sendo especialmente inclinado para com Seu devoto, o Senhor olhou tão misericordiosamente para os ofensores como para os ofendidos. Esta atitude do Senhor deve-se a Sua ilimitada quantidade de qualidades transcendentais. Sua atitude alegre para com os devotos era tão agradável e tocante ao coração que Seu próprio sorriso lhes era atrativo. Aquela atração era gloriosa, não somente para todos os planetas superiores deste mundo material, mas também para o mundo espiritual, que fica muito além desses planetas materiais. Em geral, um ser humano não faz ideia do que seja a posição constitucional nos planetas materiais superiores, que são muito mais bem constituídos no que diz respeito a todas as suas formas e espécies. No entanto, o planeta Vaikuṇṭha é tão agradável e tão celestial que é comparado à joia central, ou ao fecho, num colar de joias.
Neste verso, as palavras spṛhaṇīya-dhāma indicam que o Senhor é o reservatório de todo o prazer porque Ele tem todas as qualidades transcendentais. Embora somente algumas dessas sejam cobiçadas pelas pessoas que anseiam pelo prazer de fundir-se no Brahman impessoal, há outros aspirantes que querem associar-se pessoalmente com o Senhor, como Seus servos. O Senhor é tão bondoso que dá abrigo a todos – tanto impersonalistas quanto devotos. Ele dá abrigo aos impersonalistas sob Sua refulgência Brahman impessoal, ao passo que dá abrigo aos devotos em Suas moradas pessoais conhecidas como os Vaikuṇṭhalokas. Ele Se sente especialmente inclinado a Seu devoto; Ele toca o âmago do coração do devoto simplesmente sorrindo e olhando para ele. O Senhor sempre é servido em Vaikuṇṭhaloka por muitas centenas e milhares de deusas da fortuna, como se afirma na Brahma-saṁhitā (lakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānam). Neste mundo material, uma pessoa é glorificada se recebe mesmo uma gota do favor da deusa da fortuna; assim, mal podemos imaginar quão glorificado é o reino de Deus no mundo espiritual, onde muitas centenas de milhares de deusas da fortuna ocupam-se em serviço direto ao Senhor. Outro aspecto deste verso é que ele declara abertamente onde estão situados os Vaikuṇṭhalokas. Eles se encontram no topo de todos os planetas celestiais, os quais estão acima do globo solar, no limite superior do universo, e são conhecidos como Satyaloka, ou Brahmaloka. O mundo espiritual está situado além do universo. Portanto, nesta passagem se declara que o mundo espiritual, Vaikuṇṭhaloka, é o topo de todos os sistemas planetários.
Devanagari
पीतांशुके पृथुनितम्बिनि विस्फुरन्त्या
काञ्च्यालिभिर्विरुतया वनमालया च ।
वल्गुप्रकोष्ठवलयं विनतासुतांसे
विन्यस्तहस्तमितरेण धुनानमब्जम् ॥ ४० ॥
काञ्च्यालिभिर्विरुतया वनमालया च ।
वल्गुप्रकोष्ठवलयं विनतासुतांसे
विन्यस्तहस्तमितरेण धुनानमब्जम् ॥ ४० ॥
Verse text
pītāṁśuke pṛthu-nitambini visphurantyā
kāñcyālibhir virutayā vana-mālayā ca
valgu-prakoṣṭha-valayaṁ vinatā-sutāṁse
vinyasta-hastam itareṇa dhunānam abjam
kāñcyālibhir virutayā vana-mālayā ca
valgu-prakoṣṭha-valayaṁ vinatā-sutāṁse
vinyasta-hastam itareṇa dhunānam abjam
Synonyms
pīta-aṁśuke — coberto com uma roupa amarela; pṛthu-nitambini — sobre Seus largos quadris; visphurantyā — reluzindo brilhantemente; kāñcyā — com um cinto; alibhiḥ — pelas abelhas; virutayā — zumbidoras; vana-mālayā — com uma guirlanda de flores frescas; ca — e; valgu — adoráveis; prakoṣṭha — pulsos; valayam — braceletes; vinatā-suta — de Garuḍa, o filho de Vinatā; aṁse — sobre o ombro; vinyasta — descansava; hastam — uma das mãos; itareṇa — com outra mão; dhunānam — sendo girada; abjam — uma flor de lótus.
Translation
Ele estava adornado com um cinto reluzindo brilhantemente sobre a roupa amarela que cobria Seus largos quadris, e usava uma guirlanda de flores frescas, a preferida das abelhas zumbidoras. Seus adoráveis pulsos estavam enfeitados com braceletes, e Ele descansava uma de Suas mãos sobre o ombro de Garuḍa, Seu carregador, e, com a outra mão, girava uma flor de lótus.
Purport
Eis aqui uma descrição completa da Personalidade de Deus, conforme foi pessoalmente experimentada pelos sábios. O corpo pessoal do Senhor estava coberto com vestes amarelas, e Sua cintura era fina. Em Vaikuṇṭha, sempre que há uma guirlanda de flores no peito da Personalidade de Deus ou de qualquer um de Seus associados, e descreve-se que abelhas zumbidoras estão ali presentes. Todos esses aspectos eram muito belos e atrativos para os devotos. Uma das mãos do Senhor descansava sobre Seu carregador, Garuḍa, e com outra mão Ele girava uma flor de lótus. Essas são as características pessoais da Personalidade de Deus, Nārāyaṇa.
Devanagari
विद्युत्क्षिपन्मकरकुण्डलमण्डनार्ह-
गण्डस्थलोन्नसमुखं मणिमत्किरीटम् ।
दोर्दण्डषण्डविवरे हरता परार्ध्य-
हारेण कन्धरगतेन च कौस्तुभेन ॥ ४१ ॥
गण्डस्थलोन्नसमुखं मणिमत्किरीटम् ।
दोर्दण्डषण्डविवरे हरता परार्ध्य-
हारेण कन्धरगतेन च कौस्तुभेन ॥ ४१ ॥
Verse text
vidyut-kṣipan-makara-kuṇḍala-maṇḍanārha-
gaṇḍa-sthalonnasa-mukhaṁ maṇimat-kirīṭam
dor-daṇḍa-ṣaṇḍa-vivare haratā parārdhya-
hāreṇa kandhara-gatena ca kaustubhena
gaṇḍa-sthalonnasa-mukhaṁ maṇimat-kirīṭam
dor-daṇḍa-ṣaṇḍa-vivare haratā parārdhya-
hāreṇa kandhara-gatena ca kaustubhena
Synonyms
vidyut — relâmpago; kṣipat — ultrapassando o brilho; makara — em forma de crocodilo; kuṇḍala — brincos; maṇḍana — enfeites; arha — como se assenta; gaṇḍa-sthala — bochechas; unnasa — nariz protuberante; mukham — semblante; maṇi-mat — guarnecida de joias preciosas; kirīṭam — coroa; doḥ-daṇḍa — de Seus quatro braços vigorosos; ṣaṇḍa — conjunto; vivare — entre; haratā — encantador; para-ardhya — pelo preciosíssimo; hāreṇa — colar; kandhara-gatena — adornando Seu pescoço; ca — e; kaustubhena — pela joia Kaustubha.
Translation
Seu semblante distinguia-se por bochechas que realçavam a beleza de Seus brincos em forma de crocodilo, os quais brilhavam mais que o relâmpago. Seu nariz era protuberante, e Sua cabeça estava coberta com uma coroa guarnecida de pedras preciosas. Um colar encantador pendia entre Seus braços vigorosos, e Seu pescoço estava adornado com a joia conhecida pelo nome de Kaustubha.
Devanagari
अत्रोपसृष्टमिति चोत्स्मितमिन्दिराया:
स्वानां धिया विरचितं बहुसौष्ठवाढ्यम् ।
मह्यं भवस्य भवतां च भजन्तमङ्गं
नेमुर्निरीक्ष्य नवितृप्तदृशो मुदा कै: ॥ ४२ ॥
स्वानां धिया विरचितं बहुसौष्ठवाढ्यम् ।
मह्यं भवस्य भवतां च भजन्तमङ्गं
नेमुर्निरीक्ष्य नवितृप्तदृशो मुदा कै: ॥ ४२ ॥
Verse text
atropasṛṣṭam iti cotsmitam indirāyāḥ
svānāṁ dhiyā viracitaṁ bahu-sauṣṭhavāḍhyam
mahyaṁ bhavasya bhavatāṁ ca bhajantam aṅgaṁ
nemur nirīkṣya na vitṛpta-dṛśo mudā kaiḥ
svānāṁ dhiyā viracitaṁ bahu-sauṣṭhavāḍhyam
mahyaṁ bhavasya bhavatāṁ ca bhajantam aṅgaṁ
nemur nirīkṣya na vitṛpta-dṛśo mudā kaiḥ
Synonyms
atra — aqui, na questão da beleza; upasṛṣṭam — humilhada; iti — assim; ca — e; utsmitam — o orgulho de sua beleza; indirāyāḥ — da deusa da fortuna; svānām — de Seus próprios devotos; dhiyā — pela inteligência; viracitam — meditaram em; bahu-sauṣṭhava-āḍhyam — muito belamente adornado; mahyam — de mim; bhavasya — do senhor Śiva; bhavatām — de todos vós; ca — e; bhajantam — adorado; aṅgam — a figura; nemuḥ — prostraram; nirīkṣya — após verem; na — não; vitṛpta — saciados; dṛśaḥ — olhos; mudā — alegremente; kaiḥ — com suas cabeças.
Translation
A requintada beleza de Nārāyaṇa, sendo muitas vezes ampliada pela inteligência de Seus devotos, era tão atrativa que derrotava o orgulho da deusa da fortuna de ser a mais bela. Meus queridos semideuses, o Senhor que assim Se manifestou é adorado por mim, pelo senhor Śiva e por todos vós. Os sábios O veneraram com olhos insaciados e alegremente prostraram-se com suas cabeças a Seus pés de lótus.
Purport
A beleza do Senhor era tão encantadora que não poderia ser suficientemente descrita. A deusa da fortuna é tida como a mais bela visão dentro das criações material e espiritual do Senhor; ela tem a sensação de que é a mais bela, mas sua beleza foi derrotada quando o Senhor apareceu. Em outras palavras, a beleza da deusa da fortuna é secundária na presença do Senhor. Nas palavras dos poetas vaiṣṇavas, declara-se que a beleza do Senhor é tão encantadora que derrota centenas de milhares de Cupidos. Por isso, Ele Se chama Madana-mohana. Descreve-se também que o Senhor às vezes enlouquece pela beleza de Rādhārāṇī. Os poetas descrevem que, nessas circunstâncias, embora o Senhor Kṛṣṇa seja Madana-mohana, Ele Se torna Madana-dāha, ou encantado pela beleza de Rādhārāṇī. Na verdade, a beleza do Senhor é sobre-excelente, ultrapassando inclusive a beleza de Lakṣmī em Vaikuṇṭha. Os devotos do Senhor nos planetas Vaikuṇṭha querem ver o Senhor como o mais belo, mas os devotos em Gokula, ou Kṛṣṇaloka, querem ver Rādhārāṇī como mais bela que Kṛṣṇa. O ajuste é que o Senhor, sendo bhakta-vatsala, ou aquele que quer satisfazer Seus devotos, assume tais aspectos para que devotos como o senhor Brahmā, o senhor Śiva e outros semideuses fiquem satisfeitos. Também aqui, para os devotos-sábios, os Kumāras, o Senhor apareceu sob Seu mais belo aspecto, e eles continuaram a vê-lO sem se saciar e quiseram continuar vendo-O cada vez mais.
Devanagari
तस्यारविन्दनयनस्य पदारविन्द-
किञ्जल्कमिश्रतुलसीमकरन्दवायु: ।
अन्तर्गत: स्वविवरेण चकार तेषां
सङ्क्षोभमक्षरजुषामपि चित्ततन्वो: ॥ ४३ ॥
किञ्जल्कमिश्रतुलसीमकरन्दवायु: ।
अन्तर्गत: स्वविवरेण चकार तेषां
सङ्क्षोभमक्षरजुषामपि चित्ततन्वो: ॥ ४३ ॥
Verse text
tasyāravinda-nayanasya padāravinda-
kiñjalka-miśra-tulasī-makaranda-vāyuḥ
antar-gataḥ sva-vivareṇa cakāra teṣāṁ
saṅkṣobham akṣara-juṣām api citta-tanvoḥ
kiñjalka-miśra-tulasī-makaranda-vāyuḥ
antar-gataḥ sva-vivareṇa cakāra teṣāṁ
saṅkṣobham akṣara-juṣām api citta-tanvoḥ
Synonyms
tasya — dEle; aravinda-nayanasya — do Senhor de olhos de lótus; pada-aravinda — dos pés de lótus; kiñjalka — com os dedos dos pés; miśra — misturado; tulasī — as folhas de tulasī; makaranda — aroma; vāyuḥ — brisa; antaḥ-gataḥ — adentrou; sva-vivareṇa — através de suas narinas; cakāra — fez; teṣām — dos Kumāras; saṅkṣobham — agitação que leva à mudança; akṣara-juṣām — apegados à compreensão do Brahman impessoal; api — muito embora; citta-tanvoḥ — tanto no corpo quanto na mente.
Translation
Quando a brisa que transporta o aroma das folhas de tulasī dos dedos dos pés de lótus da Personalidade de Deus entrou pelas narinas daqueles sábios, eles experimentaram uma mudança tanto no corpo quanto na mente, muito embora estivessem apegados à compreensão do Brahman impessoal.
Purport
Este verso indica que os quatro Kumāras eram impersonalistas, ou protagonistas da filosofia do monismo, cuja meta é tornar-se uno com o Senhor. Contudo, assim que viram as feições do Senhor, suas mentes mudaram. Em outras palavras, o impersonalista que sente prazer transcendental ao esforçar-se por tornar-se uno com o Senhor é derrotado quando vê as belas feições transcendentais do Senhor. Devido ao aroma de Seus pés de lótus, transportado pelo ar e misturado com o aroma de tulasī, suas mentes mudaram: em vez de se tornarem unos com o Senhor Supremo, eles julgaram que seria mais sábio serem devotos. Tornar-se um servo dos pés de lótus do Senhor é melhor do que se tornar uno com o Senhor.
Devanagari
ते वा अमुष्य वदनासितपद्मकोश-
मुद्वीक्ष्य सुन्दरतराधरकुन्दहासम् ।
लब्धाशिष: पुनरवेक्ष्य तदीयमङ्घ्रि-
द्वन्द्वं नखारुणमणिश्रयणं निदध्यु: ॥ ४४ ॥
मुद्वीक्ष्य सुन्दरतराधरकुन्दहासम् ।
लब्धाशिष: पुनरवेक्ष्य तदीयमङ्घ्रि-
द्वन्द्वं नखारुणमणिश्रयणं निदध्यु: ॥ ४४ ॥
Verse text
te vā amuṣya vadanāsita-padma-kośam
udvīkṣya sundaratarādhara-kunda-hāsam
labdhāśiṣaḥ punar avekṣya tadīyam aṅghri-
dvandvaṁ nakhāruṇa-maṇi-śrayaṇaṁ nidadhyuḥ
udvīkṣya sundaratarādhara-kunda-hāsam
labdhāśiṣaḥ punar avekṣya tadīyam aṅghri-
dvandvaṁ nakhāruṇa-maṇi-śrayaṇaṁ nidadhyuḥ
Synonyms
te — aqueles sábios; vai — certamente; amuṣya — da Suprema Personalidade de Deus; vadana — rosto; asita — azul; padma — lótus; kośam — interior; udvikṣya — após olharem para cima; sundara-tara — mais belos; adhara — lábios; kunda — jasmim; hāsam — sorrindo; labdha — alcançaram; āśiṣaḥ — metas da vida; punaḥ — novamente; avekṣya — olhando para baixo; tadīyam — Seus; aṅghri-dvandvam — par de pés de lótus; nakha — unhas; aruṇa — vermelhas; maṇi — rubis; śrayaṇam — refúgio; nidadhyuḥ — meditaram.
Translation
O belo rosto do Senhor parecia-lhes a parte interior de um lótus azul, e Seu sorriso parecia um florescente jasmim. Após verem o rosto do Senhor, os sábios ficaram plenamente satisfeitos, e, quando quiseram vê-lO mais, voltaram os olhos para as unhas de Seus pés de lótus, que se assemelhavam a rubis. Assim eles contemplaram o corpo transcendental do Senhor repetidas vezes, até que finalmente entraram em meditação no aspecto pessoal do Senhor.
Devanagari
पुंसां गतिं मृगयतामिह योगमार्गै-
र्ध्यानास्पदं बहु मतं नयनाभिरामम् ।
पौंस्नं वपुर्दर्शयानमनन्यसिद्धै-
रौत्पत्तिकै: समगृणन् युतमष्टभोगै: ॥ ४५ ॥
र्ध्यानास्पदं बहु मतं नयनाभिरामम् ।
पौंस्नं वपुर्दर्शयानमनन्यसिद्धै-
रौत्पत्तिकै: समगृणन् युतमष्टभोगै: ॥ ४५ ॥
Verse text
puṁsāṁ gatiṁ mṛgayatām iha yoga-mārgair
dhyānāspadaṁ bahu-mataṁ nayanābhirāmam
pauṁsnaṁ vapur darśayānam ananya-siddhair
autpattikaiḥ samagṛṇan yutam aṣṭa-bhogaiḥ
dhyānāspadaṁ bahu-mataṁ nayanābhirāmam
pauṁsnaṁ vapur darśayānam ananya-siddhair
autpattikaiḥ samagṛṇan yutam aṣṭa-bhogaiḥ
Synonyms
puṁsām — daquelas pessoas; gatim — liberação; mṛgayatām — que estão buscando; iha — aqui neste mundo; yoga-mārgaiḥ — pelo processo de aṣṭāṅga-yoga; dhyāna-āspadam — objeto de meditação; bahu — pelos grandes yogīs; matam — aprovada; nayana — olhos; abhirāmam — agradável; pauṁsnam — humana; vapuḥ — forma; darśayānam — manifestando; ananya — não pelos outros; siddhaiḥ — aperfeiçoados; autpattikaiḥ — eternamente presente; samagṛṇan — louvada; yutam — a Suprema Personalidade de Deus, que é dotada; aṣṭa-bhogaiḥ — de oito tipos de consecuções.
Translation
Eis a forma do Senhor em que meditam os seguidores do processo de yoga, e que satisfaz os yogīs em meditação. Ela não é imaginária, mas real, como grandes yogīs têm demonstrado. Embora o Senhor tenha os oito tipos de obtenções em sua plenitude, os outros não podem tê-las em sua plena perfeição.
Purport
Aqui se descreve muito bem o êxito no processo de yoga. Menciona-se especificamente que a forma do Senhor como o Nārāyaṇa de quatro mãos é o objeto de meditação para os seguidores do yoga-mārga. Na era atual, há muitos ditos yogīs que não focalizam sua meditação na forma de quatro mãos de Nārāyaṇa. Alguns deles tentam meditar em algo impessoal ou vazio; isso, porém, não é aprovado pelos yogīs que seguem o método padrão. O verdadeiro processo yoga-mārga envolve o controlar dos sentidos, o sentar-se num lugar solitário e santificado e o meditar na forma de quatro mãos de Nārāyaṇa, adornada da maneira descrita neste capítulo, tal como Ele apareceu perante os quatro sábios. Essa forma de Nārāyaṇa é uma expansão de Kṛṣṇa; portanto, o movimento para a consciência de Kṛṣṇa que está sendo propagado atualmente é o verdadeiro e mais elevado processo dentro da prática de yoga.
A consciência de Kṛṣṇa é o processo de yoga mais elevado, executado por yogīs devocionais treinados. A despeito de todo o encantamento da prática de yoga, é muito difícil que o homem comum alcance os oito tipos de perfeições ióguicas. Aqui, entretanto, descreve-se que o Senhor, que apareceu perante os quatro sábios, é Ele próprio pleno de todas essas oito perfeições. O mais elevado processo de yoga-mārga consiste em concentrar a mente em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia. Isso se chama consciência de Kṛṣṇa. O sistema de yoga, como é descrito no Śrīmad-Bhāgavatam e na Bhagavad-gītā, ou como se recomenda no processo de yoga de Patañjali, é diferente do haṭha-yoga praticado hoje em dia. A verdadeira prática de yoga, ao contrário do conceito geral tão em voga nos países ocidentais, consiste em controlar os sentidos e, depois de estabelecido tal controle, concentrar a mente na forma de Nārāyaṇa da Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. O Senhor Kṛṣṇa é a Personalidade de Deus original, e todas as outras formas de Viṣṇu – com quatro mãos adornadas com búzio, lótus, maça e roda – são expansões plenárias de Kṛṣṇa. Na Bhagavad-gītā, recomenda-se que se medite na forma do Senhor. Para praticar a concentração mental, tem-se de sentar-se com a cabeça e as costas em postura ereta, e deve-se praticá-la num lugar solitário, santificado por uma atmosfera sagrada. O yogī deve observar as regras e regulações de brahmacarya – viver uma vida de estrita moderação e celibato. Não se pode praticar yoga numa cidade congestionada, levando uma vida de extravagâncias, incluindo a prática sexual irrestrita e o adultério da língua. A prática de yoga torna necessário o controle dos sentidos, e o controle dos sentidos começa com o controle da língua. Quem pode controlar a língua também pode ter domínio sobre os demais sentidos. Não se pode permitir que a língua tome todas as espécies de bebidas e alimentos proibidos e, ao mesmo tempo, avançar na prática de yoga. É um fato muito lamentável que muitos ditos yogīs desautorizados venham aos países ocidentais e explorem a tendência das pessoas desejosas de praticar yoga. Tais yogīs desautorizados ousam inclusive dizer publicamente que se pode manter o hábito de beber e, ao mesmo tempo, praticar meditação.
Cinco mil anos atrás, o Senhor Kṛṣṇa recomendou a prática de yoga a Arjuna, mas Arjuna expressou francamente sua incapacidade de seguir as estritas regras e regulações do sistema de yoga. Devemos ser muito práticos em quaisquer campos de atividade, sem desperdiçar nosso tempo valioso, praticando cursos inúteis de ginástica em nome de yoga. Verdadeiro yoga é buscar a Superalma de quatro braços dentro do coração e vê-lO perpetuamente em meditação. Essa meditação contínua chama-se samādhi, e o objeto de tal meditação é o Nārāyaṇa de quatro braços, com ornamentos corpóreos como descritos neste capítulo do Śrīmad-Bhāgavatam. Se, entretanto, alguém quiser meditar em algo vazio ou impessoal, levará muitíssimo tempo antes que alcance sucesso na prática de yoga. Não podemos concentrar nossa mente em algo vazio ou impessoal. Verdadeiro yoga é fixar a mente na forma do Senhor, o Nārāyaṇa de quatro braços que está sentado no coração de todos.
Através da meditação, podemos entender que Deus está sentado dentro de nosso coração. Mesmo que não saibamos disso, Deus está sentado dentro do coração de todos. Ele está sentado, não apenas no coração do ser humano, como também no coração dos cães e gatos. A Bhagavad-gītā confirma este fato através da seguinte declaração do Senhor: īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd-deśe. O īśvara, o controlador supremo do mundo, está sentado no coração de todos. Não somente Ele está no coração de todos, mas também está presente dentro dos átomos. Nenhum lugar é vazio ou desprovido da presença do Senhor. Isso afirma a Īśopaniṣad. Deus está presente em toda parte, e Seu direito de propriedade aplica-se a tudo. O aspecto do Senhor pelo qual Ele está presente em toda parte chama-se Paramātmā. Ātmā significa a alma individual, e Paramātmā significa a Superalma individual; tanto ātmā quanto Paramātmā são pessoas individuais. A diferença entre ātmā e Paramātmā é que ātmā, ou a alma, está presente apenas num corpo em particular, ao passo que o Paramātmā está presente em toda parte. A esse respeito, o exemplo do Sol é muito bom. Talvez um indivíduo esteja situado em um lugar, mas o Sol, apesar de ser um ser individual semelhante, está presente sobre a cabeça de cada indivíduo. Explica-se isso na Bhagavad-gītā. Portanto, muito embora as qualidades de todos os seres, incluindo as do Senhor, sejam iguais, a Superalma é diferente da alma individual devido ao poder quantitativo de expansão. O Senhor, ou a Superalma, pode expandir-Se em milhões de formas diferentes, ao passo que a alma individual não pode fazê-lo.
Como está sentada no coração de todos, a Superalma pode testemunhar as atividades de todos – passadas, presentes e futuras. Nas Upaniṣads, descreve-se que a Superalma está sentada com a alma individual como amiga e testemunha. Como amigo, o Senhor está sempre ansioso por resgatar Seu amigo, a alma individual, e levá-lo de volta ao lar, de volta ao Supremo. Como testemunha, Ele concede todas as bênçãos, e confere a cada indivíduo o resultado de suas ações. A Superalma proporciona à alma individual todas as facilidades para ela alcançar tudo o que deseje com o intuito de desfrutar neste mundo material. O sofrimento é uma reação à propensão da entidade viva de tentar assenhorear-se do mundo material. Porém, o Senhor manda Seu amigo, a alma individual, que também é Seu filho, abandonar todas as demais ocupações e simplesmente se render a Ele para atingir a bem-aventurança perpétua e uma vida eterna, plena de conhecimento. Essa é a instrução final da Bhagavad-gītā, o livro mais autorizado e amplamente lido sobre todas as variedades de yoga. Assim, a última palavra da Bhagavad-gītā é a última palavra na perfeição do yoga.
A Bhagavad-gītā declara que quem está sempre absorto em consciência de Kṛṣṇa é o yogī mais elevado. O que é a consciência de Kṛṣṇa? Assim como a alma individual está presente, através de sua consciência, em todo o corpo, da mesma forma, a Superalma, ou Paramātmā, está presente em toda a criação pela superconsciência. Essa energia superconsciente é imitada pela alma individual, a qual tem consciência limitada. Eu posso entender o que acontece dentro de meu corpo limitado, mas não posso sentir o que acontece no corpo de outra pessoa. Estou presente em todo o meu corpo mediante minha consciência, mas minha consciência não está presente no corpo de outrem. No entanto, a Superalma, ou Paramātmā, estando presente em toda parte e dentro de todos, também é consciente da existência de todos. A teoria de que a alma e a Superalma são a mesma coisa não é aceitável, pois isso não é confirmado pela literatura védica autorizada. A consciência da alma individual não pode agir em superconsciência. Contudo, pode-se alcançar essa superconsciência encaixando-se a consciência individual na consciência do Supremo. Esse processo de vínculo chama-se rendição, ou consciência de Kṛṣṇa. A partir dos ensinamentos da Bhagavad-gītā, aprendemos claramente que, a princípio, Arjuna não quis lutar contra seus irmãos e parentes, mas, após compreender a Bhagavad-gītā, ele vinculou sua consciência à superconsciência de Kṛṣṇa, a partir do que se fixou em consciência de Kṛṣṇa.
Uma pessoa em plena consciência de Kṛṣṇa age conforme as ordens de Kṛṣṇa. No começo da consciência de Kṛṣṇa, recebem-se tais ordens através do meio transparente do mestre espiritual. Quando estamos suficientemente treinados e agimos com fé submissa e amor por Kṛṣṇa, sob a orientação do mestre espiritual autêntico, o processo de vínculo torna-se mais firme e preciso. Essa fase de serviço devocional atingida pelo devoto em consciência de Kṛṣṇa é a mais perfeita dentro do sistema de yoga. Nesta fase, Kṛṣṇa, ou a Superalma, dá orientações internamente, ao passo que, externamente, o devoto é auxiliado pelo mestre espiritual, que é o representante fidedigno de Kṛṣṇa. Internamente, Ele ajuda o devoto como caitya, pois está sentado dentro do coração de todos. Entretanto, compreender que Deus está sentado no coração de todos não é suficiente. É preciso familiarizar-se com Deus, tanto interna quanto externamente, e devem-se aceitar ordens de dentro e de fora para agir em consciência de Kṛṣṇa. Essa é a fase perfectiva máxima da forma de vida humana e a perfeição mais elevada de todo o yoga.
Para o yogī perfeito, existem oito tipos de superconsecuções: ele pode tornar-se mais leve que o ar, menor que o átomo, maior que uma montanha, pode conseguir tudo o que deseje, pode controlar como o Senhor e assim por diante. Todavia, quando alguém se eleva à fase perfectiva de receber orientações do Senhor, isso é superior a quaisquer das fases de consecuções materiais supramencionadas. O exercício respiratório do sistema de yoga geralmente praticado é apenas o início. A meditação na Superalma é apenas outro passo adiante. Todavia, entrar em contato direto com a Superalma e receber instruções dEle é a fase perfectiva mais elevada. Os exercícios respiratórios da prática de meditação eram muito difíceis mesmo cinco mil anos atrás, ou Arjuna não teria rejeitado a proposta de Kṛṣṇa de que ele adotasse tal sistema. Esta era de Kali chama-se a era caída. Nesta era, as pessoas em geral têm vidas curtas e são muito lentas para compreender a autorrealização, ou vida espiritual; a maioria delas são desventuradas, e, portanto, alguém que esteja um pouco interessado em autorrealização estará sujeito a ser desencaminhado por muitas fraudes. A única maneira de compreender a fase perfeita do yoga é seguir os princípios da Bhagavad-gītā conforme foram praticados pelo Senhor Caitanya. Essa é a perfeição mais simples e mais elevada da prática de yoga. O Senhor Caitanya demonstrou esse sistema de yoga da consciência de Kṛṣṇa de maneira prática, simplesmente cantando o santo nome de Kṛṣṇa, como se prescreve no Vedānta, no Śrīmad-Bhāgavatam, na Bhagavad-gītā e em muitos Purāṇas importantes.
A maioria dos indianos segue este processo de yoga, e, nos Estados Unidos, ele está se espalhando gradualmente em muitas cidades. É um processo muito fácil e prático para esta era, especialmente para os que levam a sério o sucesso no yoga. Nenhum outro processo de yoga pode ser bem-sucedido nesta era. O processo de meditação era possível na era dourada, Satya-yuga, visto que as pessoas naquela era viviam por centenas de milhares de anos. Alguém que deseje sucesso num sistema de yoga prático é aconselhado a adotar o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, o que o fará sentir-se progredindo verdadeiramente. Na Bhagavad-gītā, prescreve-se tal prática de consciência de Kṛṣṇa como rāja-vidyā, ou o rei de toda a erudição.
Aqueles que têm adotado este sublimíssimo sistema de bhakti-yoga, que praticam o serviço devocional com amor transcendental por Kṛṣṇa, podem dar testemunho de sua execução alegre e fácil. Os quatro sábios Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanat-kumāra também ficaram atraídos pelas feições do Senhor e pelo aroma transcendental da poeira de Seus pés de lótus, como já se descreveu no verso 43.
O yoga torna necessário o controle dos sentidos, e o bhakti-yoga, ou a consciência de Kṛṣṇa, é o processo de purificar os sentidos. Quando os sentidos se purificam são automaticamente controlados. Não é possível cessar as atividades dos sentidos por meios artificiais, mas, se purificamos os sentidos, ocupando-os a serviço do Senhor, não apenas podemos afastá-los de ocupações inúteis, como também podemos ocupá-los no transcendental serviço ao Senhor, como almejaram os quatro sábios Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanat-kumāra. Portanto, a consciência de Kṛṣṇa não é uma invenção produzida pela mente especulativa. É o processo prescrito na Bhagavad-gītā (9.34): man-manā bhava mad-bhakto mad-yājī māṁ namaskuru.
Devanagari
कुमारा ऊचु:
योऽन्तर्हितो हृदि गतोऽपि दुरात्मनां त्वं
सोऽद्यैव नो नयनमूलमनन्त राद्ध: ।
यर्ह्येव कर्णविवरेण गुहां गतो न:
पित्रानुवर्णितरहा भवदुद्भवेन ॥ ४६ ॥
योऽन्तर्हितो हृदि गतोऽपि दुरात्मनां त्वं
सोऽद्यैव नो नयनमूलमनन्त राद्ध: ।
यर्ह्येव कर्णविवरेण गुहां गतो न:
पित्रानुवर्णितरहा भवदुद्भवेन ॥ ४६ ॥
Verse text
kumārā ūcuḥ
yo ’ntarhito hṛdi gato ’pi durātmanāṁ tvaṁ
so ’dyaiva no nayana-mūlam ananta rāddhaḥ
yarhy eva karṇa-vivareṇa guhāṁ gato naḥ
pitrānuvarṇita-rahā bhavad-udbhavena
yo ’ntarhito hṛdi gato ’pi durātmanāṁ tvaṁ
so ’dyaiva no nayana-mūlam ananta rāddhaḥ
yarhy eva karṇa-vivareṇa guhāṁ gato naḥ
pitrānuvarṇita-rahā bhavad-udbhavena
Synonyms
kumārāḥ ūcuḥ — os Kumāras disseram; yaḥ — Ele que; antarhitaḥ — não manifesto; hṛdi — no coração; gataḥ — está sentado; api — apesar de; durātmanām — para os patifes; tvam — Vós; saḥ — Ele; adya — hoje; eva — certamente; naḥ — de nós; nayana-mūlam — face a face; ananta — ó ilimitado; rāddhaḥ — alcançado; yarhi — quando; eva — certamente; karṇa-vivareṇa — através dos ouvidos; guhām — inteligência; gataḥ — têm alcançado; naḥ — nosso; pitrā — por nosso pai; anuvarṇita — descritos; rahāḥ — mistérios; bhavat-udbhavena — por Vosso aparecimento.
Translation
Os Kumāras disseram: Nosso querido Senhor, Vós não Vos manifestais para os patifes, apesar de estardes sentado no coração de todos. Quanto a nós, porém, vemos-Vos face a face, embora sejais ilimitado. Agora, devido a Vosso generoso aparecimento, podemos compreender as declarações a Vosso respeito que Brahmā, nosso pai, infundiu em nossos ouvidos.
Purport
Os assim chamados yogīs que concentram sua mente ou meditam no impessoal ou no vazio são descritos aqui. Este verso do Śrīmad-Bhāgavatam descreve pessoas que supostamente são yogīs peritos, ocupados em meditação, mas que não encontram a Suprema Personalidade de Deus sentada dentro do coração. Essas pessoas são aqui descritas como durātmā, que significa uma pessoa de coração muito desonesto, ou uma pessoa menos inteligente, justamente em oposição ao mahātmā, que significa uma pessoa de grande coração. Esses supostos yogīs que, embora ocupados em meditação, não possuem um grande coração não podem encontrar a forma Nārāyaṇa de quatro mãos, a despeito de Ele estar sentado dentro de seus corações. Embora a primeira compreensão da Suprema Verdade Absoluta seja o Brahman impessoal, não devemos nos contentar com a experiência da refulgência impessoal do Senhor Supremo. Na Īśopaniṣad também, o devoto ora que a refulgência deslumbrante do Brahman seja removida de seus olhos para que ele possa ver o verdadeiro aspecto pessoal do Senhor e assim se satisfazer plenamente. De forma similar, embora o Senhor não seja visível no início por causa da ofuscante refulgência de Seu corpo, o Senhor Se revela ao devoto caso este deseje sinceramente vê-lO. Na Bhagavad-gītā, afirma-se que não podemos ver o Senhor com nossos olhos imperfeitos, nem podemos ouvi-lO com nossos ouvidos imperfeitos, nem podemos experimentá-lO com nossos sentidos imperfeitos, mas, para quem se ocupa em serviço devocional com fé e devoção, a ele Deus Se revela.
Nesta passagem, os quatro sábios Sanat-kumāra, Sanātana, Sanandana e Sanaka são descritos como devotos realmente sinceros. Embora tivessem ouvido seu pai, Brahmā, falar sobre o aspecto pessoal do Senhor, somente o aspecto impessoal, Brahman, foi-lhes revelado. No entanto, como buscavam o Senhor sinceramente, no fim viram diretamente o Seu aspecto pessoal, que correspondia à descrição dada pelo pai deles. Desse modo, eles ficaram plenamente satisfeitos. Eles expressam aqui sua gratidão porque, embora a princípio fossem impersonalistas tolos, pela graça do Senhor puderam ter a boa fortuna de ver, enfim, Seu aspecto pessoal. Outro detalhe importante deste verso é que os sábios descrevem a experiência que tiveram ao ouvir as palavras de seu pai, Brahmā, que nascera diretamente do Senhor. Em outras palavras, aceita-se aqui a sucessão discipular do Senhor a Brahmā e de Brahmā a Nārada e de Nārada a Vyāsa, e assim por diante. Como eram filhos de Brahmā, os Kumāras tiveram a oportunidade de aprender o conhecimento védico junto à sucessão discipular de Brahmā, e por isso, apesar de seus primórdios impersonalistas, tornaram-se, enfim, videntes diretos do aspecto pessoal do Senhor.
Devanagari
तं त्वां विदाम भगवन् परमात्मतत्त्वं
सत्त्वेन सम्प्रति रतिं रचयन्तमेषाम् ।
यत्तेऽनुतापविदितैर्दृढभक्तियोगै-
रुद्ग्रन्थयो हृदि विदुर्मुनयो विरागा: ॥ ४७ ॥
सत्त्वेन सम्प्रति रतिं रचयन्तमेषाम् ।
यत्तेऽनुतापविदितैर्दृढभक्तियोगै-
रुद्ग्रन्थयो हृदि विदुर्मुनयो विरागा: ॥ ४७ ॥
Verse text
taṁ tvāṁ vidāma bhagavan param ātma-tattvaṁ
sattvena samprati ratiṁ racayantam eṣām
yat te ’nutāpa-viditair dṛḍha-bhakti-yogair
udgranthayo hṛdi vidur munayo virāgāḥ
sattvena samprati ratiṁ racayantam eṣām
yat te ’nutāpa-viditair dṛḍha-bhakti-yogair
udgranthayo hṛdi vidur munayo virāgāḥ
Synonyms
tam — a Ele; tvām — Vós; vidāma — sabemos; bhagavan — ó Suprema Personalidade de Deus; param — a Suprema; ātma-tattvam — Verdade Absoluta; sattvena — por Vossa forma de bondade pura; samprati — agora; ratim — amor a Deus; racayantam — criando; eṣām — de todas elas; yat — as quais; te — Vossa; anutāpa — misericórdia; viditaiḥ — entendida; dṛḍha — inabalável; bhakti-yogaiḥ — através do serviço devocional; udgranthayaḥ — sem apego, livre do cativeiro material; hṛdi — no coração; viduḥ — entendida; munayaḥ — grandes sábios; virāgāḥ — não interessados na vida material.
Translation
Sabemos que Vós sois a Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, a qual manifesta Sua forma transcendental no modo incontaminado da bondade pura. Essa forma eterna e transcendental de Vossa personalidade só pode ser entendida por Vossa misericórdia e através do serviço devocional inabalável por grandes sábios cujos corações têm sido purificados no caminho devocional.
Purport
Pode-se compreender a Verdade Absoluta sob três aspectos – Brahman impessoal, Paramātmā localizado e Bhagavān, a Suprema Personalidade de Deus. Aqui se admite que a Suprema Personalidade de Deus é a última palavra na compreensão da Verdade Absoluta. Muito embora os quatro Kumāras fossem instruídos por seu grandioso e erudito pai, Brahmā, eles não puderam entender realmente a Suprema Verdade Absoluta. Só puderam entendê-lA ao verem pessoalmente a Personalidade de Deus com seus próprios olhos. Em outras palavras, se alguém vê ou compreende a Suprema Personalidade de Deus, compreende automaticamente os outros dois aspectos da Verdade Absoluta, a saber, o Brahman impessoal e o Paramātmā localizado. Portanto, os Kumāras confirmam: “Vós sois a Verdade Absoluta fundamental.” Os impersonalistas poderão argumentar que, uma vez que a Suprema Personalidade de Deus estava tão bem adornada, Ela não era, portanto, a Verdade Absoluta. Mas aqui se confirma que toda a variedade da plataforma absoluta é constituída de śuddha-sattva, bondade pura. No mundo material, qualquer qualidade – bondade, paixão ou ignorância – é contaminada. Mesmo a qualidade da bondade, aqui no mundo material, não está isenta de manchas de paixão e ignorância. Porém, no mundo transcendental, existe apenas bondade pura, sem mácula alguma de paixão ou ignorância; por conseguinte, a forma da Suprema Personalidade de Deus e Seus variados passatempos e parafernália são todos puro sattva-guṇa. Essa variedade em bondade pura, o Senhor a manifesta eternamente para a satisfação do devoto. O devoto não quer ver a Suprema Personalidade da Verdade Absoluta no vazio ou impersonalismo. Em um sentido, a variedade transcendental absoluta destina-se somente aos devotos, não a outros, porque esse aspecto distinto de variedade transcendental só pode ser compreendido pela misericórdia do Senhor Supremo, e não pela especulação mental, ou pelo processo ascendente. Afirma-se que uma pessoa pode entender a Suprema Personalidade de Deus quando é favorecida mesmo que ligeiramente por Ele; caso contrário, sem Sua misericórdia, pode ser que um homem especule por milhares de anos e não entenda o que é realmente a Verdade Absoluta. O devoto pode perceber essa misericórdia ao livrar-se inteiramente de toda a contaminação. Declara-se, portanto, que só o devoto que elimina toda a contaminação e se desapega totalmente das atrações materiais é que pode receber essa misericórdia do Senhor.
Devanagari
नात्यन्तिकं विगणयन्त्यपि ते प्रसादं
किम्वन्यदर्पितभयं भ्रुव उन्नयैस्ते ।
येऽङ्ग त्वदङ्घ्रि शरणा भवत: कथाया:
कीर्तन्यतीर्थयशस: कुशला रसज्ञा: ॥ ४८ ॥
किम्वन्यदर्पितभयं भ्रुव उन्नयैस्ते ।
येऽङ्ग त्वदङ्घ्रि शरणा भवत: कथाया:
कीर्तन्यतीर्थयशस: कुशला रसज्ञा: ॥ ४८ ॥
Verse text
nātyantikaṁ vigaṇayanty api te prasādaṁ
kimv anyad arpita-bhayaṁ bhruva unnayais te
ye ’ṅga tvad-aṅghri-śaraṇā bhavataḥ kathāyāḥ
kīrtanya-tīrtha-yaśasaḥ kuśalā rasa-jñāḥ
kimv anyad arpita-bhayaṁ bhruva unnayais te
ye ’ṅga tvad-aṅghri-śaraṇā bhavataḥ kathāyāḥ
kīrtanya-tīrtha-yaśasaḥ kuśalā rasa-jñāḥ
Synonyms
na — não; ātyantikam — liberação; vigaṇayanti — importam-se com; api — mesmo; te — aquelas; prasādam — bênçãos; kim u — isto para não falar; anyat — outras felicidades materiais; arpita — dadas; bhayam — temor; bhruvaḥ — das sobrancelhas; unnayaiḥ — pelo erguer; te — Vossas; ye — esses devotos; aṅga — ó Suprema Personalidade de Deus; tvat — Vossos; aṅghri — pés de lótus; śaraṇāḥ — que têm se refugiado; bhavataḥ — Vossas; kathāyāḥ — narrações; kīrtanya — dignos de se cantar; tīrtha — puras; yaśasaḥ — glórias; kuśalāḥ — muito hábeis; rasa-jñāḥ — conhecedores das doçuras ou humores.
Translation
As pessoas que são muito hábeis e muito inteligentes em compreender as coisas como elas são dedicam-se a ouvir as narrações das auspiciosas atividades e passatempos do Senhor, que são dignos de se cantar e dignos de se ouvir. Tais pessoas não se importam nem mesmo com a mais elevada bênção material, ou seja, a liberação, isto para não falar de outras bênçãos menos importantes, como a felicidade material do reino celeste.
Purport
A bem-aventurança transcendental desfrutada pelos devotos do Senhor é completamente diferente da felicidade material desfrutada pelas pessoas menos inteligentes. As pessoas menos inteligentes no mundo material agem em função dos quatro princípios de bênção chamados dharma, artha, kāma e mokṣa. Geralmente, elas preferem adotar a vida religiosa para conseguir alguma bênção material, cujo propósito é satisfazer os sentidos. Quando, por meio deste processo, elas se confundem ou se frustram ao satisfazerem a quantidade máxima de gozo dos sentidos, procuram tornar-se unas com o Supremo, o que é, segundo sua concepção, mukti, ou liberação. Há cinco tipos de liberação, a menos importante das quais se chama sāyujya, tornar-se uno com o Supremo. Os devotos não se importam com tal liberação porque são realmente inteligentes. Tampouco se sentem inclinados a aceitar qualquer um dos outros quatro tipos de liberação, a saber, viver no mesmo planeta que o Senhor, viver com Ele lado a lado como um associado, ter a mesma opulência que Ele e alcançar os mesmos aspectos corpóreos que Ele. Eles estão interessados somente em glorificar o Senhor Supremo e Suas atividades auspiciosas. O serviço devocional puro é śravaṇaṁ kīrtanam. Os devotos puros, que sentem prazer transcendental em ouvir e cantar as glórias do Senhor, não se importam com nenhum tipo de liberação; mesmo que lhes ofereçam os cinco tipos de liberação, eles se recusam a aceitá-las, como se declara no terceiro canto do Bhāgavatam. As pessoas materialistas aspiram ao gozo dos sentidos de prazeres celestiais no reino celestial, mas os devotos rejeitam de vez esses prazeres materiais. Os devotos não se importam nem mesmo com o posto de Indra. O devoto sabe que qualquer posição material prazerosa está sujeita a ser aniquilada em algum momento. Mesmo que alguém alcance o posto de Indra, Candra ou qualquer outro semideus, terá que ser dissolvido numa determinada fase. O devoto nunca se interessa por tal prazer temporário. Pelas escrituras védicas, entende-se que às vezes mesmo Brahmā e Indra caem, mas um devoto na morada transcendental do Senhor jamais cai. Essa fase transcendental de vida, em que se sente prazer transcendental em ouvir os passatempos do Senhor, também é recomendada pelo Senhor Caitanya. Durante a conversa do Senhor Caitanya com Rāmānanda Rāya, este apresentou àquele uma variedade de sugestões a respeito da realização espiritual, mas o Senhor Caitanya rejeitou todas, exceto uma, que devemos ouvir as glórias do Senhor na companhia de devotos puros. Isso é aceitável para todos, especialmente nesta era. Devemos nos dedicar a ouvir os devotos puros falarem sobre as atividades do Senhor. Essa é considerada a bênção suprema para a humanidade.
Devanagari
कामं भव: स्ववृजिनैर्निरयेषु न: स्ता-
च्चेतोऽलिवद्यदि नु ते पदयो रमेत ।
वाचश्च नस्तुलसिवद्यदि तेऽङ्घ्रि शोभा:
पूर्येत ते गुणगणैर्यदि कर्णरन्ध्र: ॥ ४९ ॥
च्चेतोऽलिवद्यदि नु ते पदयो रमेत ।
वाचश्च नस्तुलसिवद्यदि तेऽङ्घ्रि शोभा:
पूर्येत ते गुणगणैर्यदि कर्णरन्ध्र: ॥ ४९ ॥
Verse text
kāmaṁ bhavaḥ sva-vṛjinair nirayeṣu naḥ stāc
ceto ’livad yadi nu te padayo rameta
vācaś ca nas tulasivad yadi te ’ṅghri-śobhāḥ
pūryeta te guṇa-gaṇair yadi karṇa-randhraḥ
ceto ’livad yadi nu te padayo rameta
vācaś ca nas tulasivad yadi te ’ṅghri-śobhāḥ
pūryeta te guṇa-gaṇair yadi karṇa-randhraḥ
Synonyms
kāmam — tanto quanto merecido; bhavaḥ — nascimento; sva-vṛjinaiḥ — por nossas próprias atividades pecaminosas; nirayeṣu — em nascimentos baixos; naḥ — nossos; stāt — deixai que; cetaḥ — mentes; ali-vat — como abelhas; yadi — se; nu — estejam; te — Vossos; padayoḥ — a Vossos pés de lótus; rameta — estejam ocupados; vācaḥ — palavras; ca — e; naḥ — nossas; tulasi-vat — como as folhas de tulasī; yadi — se; te — Vossos; aṅghri — a Vossos pés de lótus; śobhāḥ — embelezadas; pūryeta — estejam repletos; te — Vossas; guṇa-gaṇaiḥ — por qualidades transcendentais; yadi — se; karṇa-randhraḥ — os orifícios dos ouvidos.
Translation
Ó Senhor, oramos para que nos deixeis nascer sob qualquer condição infernal de vida, desde que nossos corações e mentes estejam sempre ocupados a serviço de Vossos pés de lótus, nossas palavras se tornem belas (falando de Vossas atividades) assim como as folhas de tulasī são embelezadas ao serem oferecidas a Vossos pés de lótus, e desde que nossos ouvidos estejam sempre repletos do canto de Vossas qualidades transcendentais.
Purport
Os quatro sábios agora oferecem suas desculpas humildemente à Personalidade de Deus por terem sido arrogantes ao amaldiçoar dois outros devotos do Senhor. Jaya e Vijaya, os dois porteiros que os impediram de entrar no planeta Vaikuṇṭha, eram certamente ofensores, mas, como eram vaiṣṇavas, os quatro sábios não deviam tê-los amaldiçoado sob o efeito da ira. Depois do incidente, eles se conscientizaram de que tinham feito mal ao amaldiçoar os devotos do Senhor, e oraram ao Senhor para que, mesmo sob condições infernais de vida, suas mentes não se desviassem da ocupação no serviço aos pés de lótus do Senhor Nārāyana. Aqueles que são devotos do Senhor não temem nenhuma condição de vida, contanto que haja constante ocupação a serviço do Senhor. A respeito dos nārāyaṇa-para, ou aqueles que são devotos de Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus, afirma-se: na kutaścana bibhyati (Śrīmad-Bhāgavatam 6.17.28): eles não temem entrar numa condição infernal, pois, já que se ocupam no transcendental serviço amoroso ao Senhor, para eles céu e inferno são a mesma coisa. Na vida material, tanto o céu quanto o inferno são a mesma coisa porque são materiais: em nenhum dos dois lugares há ocupação no serviço ao Senhor. Portanto, aqueles que se ocupam no serviço ao Senhor não veem distinção entre céu e inferno; somente os materialistas é que preferem um ao outro.
Esses quatro devotos oraram ao Senhor para não se esquecerem do serviço ao Senhor, mesmo que tivessem de ir ao inferno por terem amaldiçoado os devotos. Executa-se o transcendental serviço amoroso ao Senhor de três maneiras – com o corpo, com a mente e com as palavras. Aqui, os sábios oram para que suas palavras sejam sempre empregadas na glorificação ao Senhor Supremo. Pode ser que alguém fale muito bem, com linguagem ornamental, ou talvez seja hábil em falar com perfeito domínio da gramática, mas, se não utilizar suas palavras a serviço do Senhor, elas não terão gosto, nem utilidade real. Dá-se aqui o exemplo das folhas de tulasī. A folha de tulasī é muito útil mesmo do ponto de vista médico ou antisséptico. Ela é considerada sagrada e é oferecida aos pés de lótus do Senhor. A folha de tulasī tem inúmeras boas qualidades, mas, se não fosse oferecida aos pés de lótus do Senhor, tulasī não poderia ter muito valor ou importância. Analogamente, pode ser que alguém fale muito bem do ponto de vista retórico ou gramatical, os quais talvez sejam muito apreciados por uma audiência materialista. No entanto, suas palavras serão inúteis se não forem oferecidas ao serviço do Senhor. Se os orifícios dos ouvidos são tão pequenos e podem ser preenchidos com qualquer som insignificante, como poderão receber uma vibração tão grande como a glorificação do Senhor? A resposta é que os orifícios dos ouvidos são como o céu. Assim como nunca se pode preencher o céu, a qualidade do ouvido é tal que se pode derramar continuamente sobre ele várias classes de vibrações e, ainda assim, ele será capaz de receber mais e mais vibrações. O devoto não tem medo de ir ao inferno caso tenha oportunidade de ouvir as glórias do Senhor constantemente. É esta a vantagem de cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Podemos ser postos sob qualquer condição de vida, mas Deus nos dá a prerrogativa de cantar Hare Kṛṣṇa. Sob qualquer condição de vida, jamais seremos infelizes se nos mantivermos cantando Hare Kṛṣṇa.
Devanagari
प्रादुश्चकर्थ यदिदं पुरुहूत रूपं
तेनेश निर्वृतिमवापुरलं दृशो न: ।
तस्मा इदं भगवते नम इद्विधेम
योऽनात्मनां दुरुदयो भगवान् प्रतीत: ॥ ५० ॥
तेनेश निर्वृतिमवापुरलं दृशो न: ।
तस्मा इदं भगवते नम इद्विधेम
योऽनात्मनां दुरुदयो भगवान् प्रतीत: ॥ ५० ॥
Verse text
prāduścakartha yad idaṁ puruhūta rūpaṁ
teneśa nirvṛtim avāpur alaṁ dṛśo naḥ
tasmā idaṁ bhagavate nama id vidhema
yo ’nātmanāṁ durudayo bhagavān pratītaḥ
teneśa nirvṛtim avāpur alaṁ dṛśo naḥ
tasmā idaṁ bhagavate nama id vidhema
yo ’nātmanāṁ durudayo bhagavān pratītaḥ
Synonyms
prāduścakartha — Vós manifestastes; yat — que; idam — esta; puruhūta — ó tão adorado; rūpam — forma eterna; tena — por esta forma; īśa — ó Senhor; nirvṛtim — satisfação; avāpuḥ — obtida; alam — tanto; dṛśaḥ — visão; naḥ — nossa; tasmai — a Ele; idam — esta; bhagavate — à Suprema Personalidade de Deus; namaḥ — reverências; it — somente; vidhema — oferecemos; yaḥ — quem; anātmanām — daqueles que são menos inteligentes; durudayaḥ — não pode ser vista; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; pratītaḥ — tem sido vista por nós.
Translation
Ó Senhor, portanto, oferecemos nossas respeitosas reverências a Vossa forma eterna como a Personalidade de Deus, que tão bondosamente manifestastes diante de nós. As pessoas desventuradas e menos inteligentes não podem ver Vossa forma suprema e eterna, mas, quanto a nós, nossa mente e nossa visão estão satisfeitíssimas de vê-la.
Purport
Os quatro sábios foram impersonalistas no começo de sua vida espiritual, mas, depois disso, pela graça de seu pai e mestre espiritual, Brahmā, eles entenderam a forma espiritual eterna do Senhor e sentiram-se plenamente satisfeitos. Em outras palavras, os transcendentalistas que aspiram ao Brahman impessoal ou ao Paramātmā localizado não estão plenamente satisfeitos e ainda anseiam por algo mais. Mesmo que fiquem satisfeitos mentalmente, de qualquer maneira, transcendentalmente, seus olhos não estarão satisfeitos. Contudo, assim que tais pessoas chegarem a compreender a Suprema Personalidade de Deus, ficarão satisfeitas sob todos os aspectos. Em outras palavras, elas se tornarão devotas e deverão ver continuamente a forma do Senhor. A Brahma-saṁhitā confirma que quem desenvolve amor transcendental por Kṛṣṇa, untando seus olhos com o unguento do amor, vê constantemente a forma eterna do Senhor. A palavra específica usada a este respeito, anātmanām, refere-se àqueles que não têm controle sobre a mente e os sentidos e que, portanto, especulam e querem tornar-se unos com o Senhor. Tais pessoas não podem ter o prazer de ver a forma eterna do Senhor. Para os impersonalistas e os ditos yogīs, o Senhor está sempre escondido pela cortina de yogamāyā. A Bhagavad-gītā diz que mesmo quando o Senhor Kṛṣṇa foi visto por todos enquanto esteve presente sobre a face da Terra, os impersonalistas e os ditos yogīs não puderam vê-lO por estarem desprovidos de visão devocional. A teoria dos impersonalistas e ditos yogīs é que o Senhor Supremo assume uma forma específica ao entrar em contato com māyā, embora, na verdade, Ele não tenha forma. Essa mesma concepção dos impersonalistas e supostos yogīs impede-os de ver a Suprema Personalidade de Deus como Ele é. Por isso, o Senhor está sempre além da visão de tais não-devotos. Os quatro sábios sentiram-se tão agradecidos ao Senhor que Lhe ofereceram suas respeitosas reverências repetidamente.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do terceiro canto, décimo quinto capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Descrição do Reino de Deus”.