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CAPÍTULO TREZE

O Comportamento da Pessoa Perfeita

O décimo terceiro capítulo descreve os princípios reguladores que os sannyāsīs devem seguir e também narra a história de um avadhūta. Em sua conclusão, explica-se como o estudante deve comportar-se para poder alcançar a perfeição no avanço espiritual.
Śrī Nārada Muni já descreveu as características dos vários āśramas e varṇas. Agora, neste capítulo, ele apresenta especificamente os princípios reguladores a serem seguidos pelos sannyāsīs. Após se retirar da vida familiar, deve-se aceitar a fase de vānaprastha, na qual o indivíduo formalmente se prontifica a aceitar o corpo como seu meio de subsistência, mas, aos poucos, começa a prescindir das necessidades corpóreas. Após a vida de vānaprastha, tendo deixado o lar e sendo um sannyāsī, ele deve viajar para diferentes lugares. Sem confortos físicos e sem precisar recorrer a alguém que lhe satisfaça as necessidades corpóreas, ele deve viajar por toda parte vestindo quase nada ou mesmo caminhando inteiramente despido. Não se dando à companhia da sociedade humana comum, ele deve mendigar e estar sempre satisfeito consigo mesmo. Ele deve ser amigo de todas as entidades vivas e deve ser pacífico em consciência de Kṛṣṇa. O sannyāsī deve viajar sozinho dessa maneira, não se importando com a vida ou a morte, esperando o momento em que deixará seu corpo material. Ele não deve ler livros desnecessários nem adotar profissões desnecessárias, tais como a astrologia, tampouco deve tentar ser um grande orador. Ele também deve abandonar o caminho da argumentação desnecessária e, em nenhuma circunstância, convém que ele dependa de alguém. Ele não deve tentar atrair as pessoas para se tornarem seus discípulos com o simples propósito de aumentar o número de discípulos. Ele deve abandonar o processo de procurar seu meio de subsistência através da leitura de muitos livros, e não deve tentar aumentar o número de templos e maṭhas, ou monastérios. Quando, então, ele se torna completamente independente, pacífico e equânime, o sannyāsī pode escolher qual o destino que deseja após a morte e seguir os princípios através dos quais conseguirá alcançar esse destino. Embora plenamente erudito, ele deve sempre permanecer silencioso tal qual um mudo, e deve viajar como uma criança inquieta.
Com relação a isso, Nārada Muni descreve um encontro entre Prahlāda e um santo que passara a viver como um píton. Foi então que ele delineou as características de um paramahaṁsa. A pessoa que alcançou a fase de paramahaṁsa conhece muito bem a diferença entre matéria e espírito. Ela não está nem um pouco interessada em satisfazer os sentidos materiais, pois sempre está obtendo prazer no serviço devocional ao Senhor. Ela não está muito ansiosa por proteger o seu corpo material. Satisfazendo-se com o que o Senhor lhe reservou, ela é completamente independente da felicidade e aflição materiais, sendo, portanto, transcendental a todos os princípios reguladores. Algumas vezes, ela aceita rigorosas austeridades e, outras vezes, aceita a opulência material. Sua única preocupação é satisfazer Kṛṣṇa e, com esse propósito, ela se prontifica a tomar qualquer atitude, sem se importar com os princípios reguladores. Ela nunca deve ser comparada aos homens materialistas, tampouco está sujeita ao julgamento que esses homens possam fazer.
श्रीनारद उवाच
कल्पस्त्वेवं परिव्रज्य देहमात्रावशेषित: ।
ग्रामैकरात्रविधिना निरपेक्षश्चरेन्महीम् ॥ १ ॥
śrī-nārada uvāca
kalpas tv evaṁ parivrajya
deha-mātrāvaśeṣitaḥ
grāmaika-rātra-vidhinā
nirapekṣaś caren mahīm

Synonyms

śrī-nāradaḥ uvācaŚrī Nārada Muni disse; kalpaḥuma pessoa que é competente para se submeter às austeridades de sannyāsa, a ordem de vida renunciada, ou para se dedicar ao estudo do conhecimento transcendental; tumas; evamdessa maneira (como descrito anteriormente); parivrajyaentendendo plenamente sua identidade espiritual e assim viajando de um lugar a outro; deha-mātramantendo apenas o corpo; avaśeṣitaḥenfim; grāmaem uma vila; ekasomente um; rātrade pernoite; vidhināno processo; nirapekṣaḥsem depender de nada material; caretdeve mover-se de uma parte a outra; mahīmsobre a terra.

Translation

Śrī Nārada Muni disse: A pessoa que é capaz de cultivar o conhecimento espiritual deve renunciar a todas as ligações materiais e, meramente mantendo o corpo habitável, deve viajar de um lugar a outro, passando somente uma noite em cada vila. Dessa maneira, sem se curvar às necessidades do corpo, o sannyāsī deve viajar mundo afora.
बिभृयाद् यद्यसौ वास: कौपीनाच्छादनं परम् ।
त्यक्तं न लिङ्गाद् दण्डादेरन्यत् किञ्चिदनापदि ॥ २ ॥
bibhṛyād yady asau vāsaḥ
kaupīnācchādanaṁ param
tyaktaṁ na liṅgād daṇḍāder
anyat kiñcid anāpadi

Synonyms

bibhṛyātela deve usar; yadise; asauuma pessoa na ordem renunciada; vāsaḥuma roupa ou cobertura; kaupīnauma tanga (simplesmente para cobrir as partes privadas); ācchādanampara cobrir; paramsomente isso; tyaktamlargado; nanão; liṅgātalém das marcas que distinguem um sannyāsī; daṇḍa-ādeḥcomo o bastão (tridaṇḍa); anyatoutra; kiñcitqualquer coisa; anāpadiem épocas habituais, quando não há contratempos.

Translation

A pessoa na ordem de vida renunciada talvez prefira até mesmo evitar uma veste para se cobrir. Se ela tiver que vestir algo, que use apenas uma tanga, e quando não houver necessidade, o sannyāsī não deve sequer aceitar uma daṇḍa. O sannyāsī deve procurar carregar apenas a daṇḍa e o kamaṇḍalu.
एक एव चरेद्भ‍िक्षुरात्मारामोऽनपाश्रय: ।
सर्वभूतसुहृच्छान्तो नारायणपरायण: ॥ ३ ॥
eka eva cared bhikṣur
ātmārāmo ’napāśrayaḥ
sarva-bhūta-suhṛc-chānto
nārāyaṇa-parāyaṇaḥ

Synonyms

ekaḥsozinho; evaapenas; caretpode mover-se; bhikṣuḥum sannyāsī que pede esmolas; ātma-ārāmaḥplenamente satisfeito no eu; anapāśrayaḥsem depender de nada; sarva-bhūta-suhṛttornando-se um benquerente de todas as entidades vivas; śāntaḥcompletamente pacífico; nārāyaṇa-parāyaṇaḥtornando-se absolutamente dependente de Nārāyaṇa e tornando-se Seu devoto.

Translation

O sannyāsī, inteiramente satisfeito no eu, deve viver de esmolas pedidas de porta em porta. Jamais precisando depender de alguém ou de algum lugar, ele sempre deve ser um amigo benquerente de todos os seres vivos e um imaculado e pacífico devoto de Nārāyaṇa. Dessa maneira, ele deve mover-se de um lugar a outro.
पश्येदात्मन्यदो विश्वं परे सदसतोऽव्यये ।
आत्मानं च परं ब्रह्म सर्वत्र सदसन्मये ॥ ४ ॥
paśyed ātmany ado viśvaṁ
pare sad-asato ’vyaye
ātmānaṁ ca paraṁ brahma
sarvatra sad-asan-maye

Synonyms

paśyetalguém deve ver; ātmanina Alma Suprema; adaḥeste; viśvamuniverso; parealém da; sat-asataḥcriação ou causa da criação; avyayeno Absoluto, que está livre da deterioração; ātmānamele próprio; catambém; paramo supremo; brahmaabsoluto; sarvatraem toda parte; sat-asatna causa e no efeito; mayeonipenetrante.

Translation

O sannyāsī sempre deve tentar ver que o Supremo é onipenetrante e deve ver que todas as coisas, incluindo este universo, repousam no Supremo.
सुप्तिप्रबोधयो: सन्धावात्मनो गतिमात्मद‍ृक् ।
पश्यन्बन्धं च मोक्षं च मायामात्रं न वस्तुत: ॥ ५ ॥
supti-prabodhayoḥ sandhāv
ātmano gatim ātma-dṛk
paśyan bandhaṁ ca mokṣaṁ ca
māyā-mātraṁ na vastutaḥ

Synonyms

suptino estado de inconsciência; prabodhayoḥe no estado de consciência; sandhauno estado de existência intermediária; ātmanaḥseu próprio; gatimo movimento; ātma-dṛkalguém que realmente pode ver o eu; paśyansempre tentando ver ou entender; bandhamo estado de vida condicionada; cae; mokṣamo estado de vida liberada; catambém; māyā-mātramapenas ilusão; nanão; vastutaḥde fato.

Translation

Durante o estado de consciência e inconsciência, e entre os dois, ele deve tentar entender o eu e se situar plenamente no eu. Dessa maneira, deve compreender que as fases de vida condicionada e liberada são apenas ilusórias, e não acontecimentos reais. Munido dessa compreensão superior, ele deve ver apenas a onipenetrante Verdade Absoluta.

Purport

SIGNIFICADO—O estado inconsciente é igual à ignorância, escuridão ou existência material, e, no estado consciente, a pessoa está desperta. O estado marginal, entre a consciência e a inconsciência, não tem existência permanente. Portanto, alguém que compreende profundamente o eu sabe que consciência e inconsciência são apenas ilusões, pois, a rigor, não existem. Apenas a Suprema Verdade Absoluta existe. Como o Senhor confirma na Bhagavad-gītā (9.4):
mayā tatam idaṁ sarvaṁ
jagad avyakta-mūrtinā
mat-sthāni sarva-bhūtāni
na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ
“Sob Minha forma imanifesta, Eu penetro todo este universo. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles.” Tudo existe com base no aspecto impessoal de Kṛṣṇa; sem Kṛṣṇa, nada pode existir. Portanto, o devoto de Kṛṣṇa já avançado pode ver o Senhor em toda parte, sem ilusão.
नाभिनन्देद् ध्रुवं मृत्युमध्रुवं वास्य जीवितम् ।
कालं परं प्रतीक्षेत भूतानां प्रभवाप्ययम् ॥ ६ ॥
nābhinanded dhruvaṁ mṛtyum
adhruvaṁ vāsya jīvitam
kālaṁ paraṁ pratīkṣeta
bhūtānāṁ prabhavāpyayam

Synonyms

nanão; abhinandetalguém deve louvar; dhruvamcerto; mṛtyummorte; adhruvamincerta; ou; asyadeste corpo; jīvitama duração da vida; kālamtempo eterno; paramsupremo; pratīkṣetadeve-se observar; bhūtānāmdas entidades vivas; prabhavamanifestação; apyayamdesaparecimento.

Translation

Uma vez que o corpo material com certeza será exterminado e a duração da vida da pessoa não é fixa, nem a morte nem a vida devem ser louvadas. Ao contrário, deve-se observar o eterno fator tempo, no qual a entidade viva se manifesta e desaparece.

Purport

SIGNIFICADO—No mundo material, os seres vivos, tanto no presente quanto no passado, têm estado ocupados em tentar resolver o problema do nascimento e da morte. Alguns põem a morte em relevo e apontam a existência ilusória de tudo o que é material, ao passo que outros dão ênfase à vida, tentando preservá-la perpetuamente e aproveitá-la ao máximo. Ambos são tolos e patifes. Aconselha-se que se observe o eterno fator tempo, que é a causa do aparecimento e desaparecimento do corpo material, e que se observe que a entidade viva se enreda nesse fator tempo. Portanto, em seu Gītāvalī, Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura canta:
anādi karama-phale, paḍi’ bhavārṇava-jale,
taribāre nā dekhi upāya
Devem-se observar as atividades do tempo eterno, o qual é a causa do nascimento e da morte. Antes da criação do presente milênio, as entidades vivas estavam sob a influência do fator tempo, e, dentro do fator tempo, o mundo material passa a existir e, então, é aniquilado. Bhūtvā bhūtvā pralīyate. Estando sob o controle do fator tempo, as entidades vivas aparecem e morrem, vida após vida. Esse fator tempo é uma representação impessoal da Suprema Personalidade de Deus, que outorga às entidades vivas condicionadas pela natureza material uma oportunidade de emergir dessa natureza tão logo elas se rendam ao Senhor.
नासच्छास्त्रेषु सज्जेत नोपजीवेत जीविकाम् ।
वादवादांस्त्यजेत्तर्कान्पक्षं कंच न संश्रयेत् ॥ ७ ॥
nāsac-chāstreṣu sajjeta
nopajīveta jīvikām
vāda-vādāṁs tyajet tarkān
pakṣaṁ kaṁca na saṁśrayet

Synonyms

nanão; asat-śāstreṣuliteratura, tal como jornais, novelas, dramas e ficção; sajjetadeve apegar-se a ela ou lê-la; nanem; upajīvetaalguém deve tentar subsistir; jīvikāmde alguma carreira literária profissional; vāda-vādānargumentar desnecessariamente acerca de diferentes aspectos filosóficos; tyajeta pessoa deve deixar de; tarkānargumentos e contra-argumentos; pakṣamfacção; kaṁcaalguma; nanão; saṁśrayetdeve refugiar-se em.

Translation

A literatura que é um desperdício de tempo – em outras palavras, a literatura que não produz benefício espiritual – deve ser rejeitada. Ninguém deve adotar a profissão de professor apenas para subsistir dela, nem deve alguém se absorver em argumentos e contra-argumentos. Tampouco deve alguém se refugiar em alguma causa ou facção.

Purport

SIGNIFICADO—Alguém que deseja avançar em compreensão espiritual deve ser extremamente cuidadoso e evitar ler livros ordinários. O mundo está repleto de literatura ordinária, o que cria uma agitação desnecessária na mente. Semelhante literatura, incluindo os jornais, dramas, novelas ou revistas, realmente não se destina ao avanço em conhecimento espiritual. Na verdade, ela é descrita como o lugar reservado para o prazer dos corvos (tad vāyasaṁ tīrtham). Todos aqueles que querem avançar em conhecimento espiritual devem rejeitar semelhante literatura. Ademais, ninguém deve interessar-se pelas conclusões dos vários lógicos ou filósofos. Algumas vezes, é claro, aqueles que pregam precisam argumentar contra as proposições dos oponentes, mas, tanto quanto possível, deve-se evitar uma atitude que conduza a discussões. No tocante a isso, Śrīla Madhvācārya diz:
aprayojana-pakṣaṁ na saṁśrayet
nāprayojana-pakṣī syān
na vṛthā śiṣya-bandha-kṛt
na codāsīnaḥ śāstrāṇi
na viruddhāni cābhyaset
na vyākhyayopajīveta
na niṣiddhān samācaret
evam-bhūto yatir yāti
tad-eka-śaraṇo harim
“Não há necessidade de a pessoa refugiar-se em literatura desnecessária ou dar ouvidos a muitos supostos filósofos e pensadores que não a ajudam no avanço espiritual. Tampouco deve alguém aceitar discípulos apenas por modismo ou desejo de popularidade. A pessoa deve mostrar-se indiferente a esses supostos śāstras, nem se opondo nem sendo favorável a eles, e ninguém deve ganhar a vida recebendo dinheiro para explicar os śāstras. O sannyāsī deve ser sempre neutro e buscar os meios para avançar na vida espiritual, refugiando-se completamente sob os pés de lótus do Senhor.”
न शिष्याननुबध्नीत ग्रन्थान्नैवाभ्यसेद् बहून् ।
न व्याख्यामुपयुञ्जीत नारम्भानारभेत्‍क्‍वचित् ॥ ८ ॥
na śiṣyān anubadhnīta
granthān naivābhyased bahūn
na vyākhyām upayuñjīta
nārambhān ārabhet kvacit

Synonyms

nanão; śiṣyāndiscípulos; anubadhnītadeve atrair por meio de benefícios materiais; granthānliteratura desnecessária; nanão; evadecerto; abhyasetdeve tentar entender ou cultivar; bahūnmuitas; nanem; vyākhyāmconferências; upayuñjītadeve fazer disso um meio de subsistência; nanem; ārambhānopulência desnecessária; ārabhetdeve tentar aumentar; kvacitem tempo algum.

Translation

O sannyāsī não deve propor benefícios materiais apenas para obter muitos discípulos, nem deve ler desnecessariamente muitos livros ou dar conferências para sobreviver. Ele jamais deve tentar aumentar sem necessidade as opulências materiais.

Purport

SIGNIFICADO—Os falsos svāmīs e yogīs em geral fazem discípulos seduzindo-os com benefícios materiais. Existem muitos pretensos gurus que atraem discípulos prometendo curar suas doenças ou aumentar sua opulência material fabricando ouro. Essas propostas lucrativas atraem os homens sem inteligência. O sannyāsī é proibido de fazer discípulos através dessas seduções materiais. Os sannyāsīs, às vezes, cedem à opulência material, construindo desnecessariamente muitos templos e monastérios, mas, na verdade, esses empreendimentos devem ser evitados. Os templos e mosteiros devem ser construídos para que se pregue a consciência espiritual, ou consciência de Kṛṣṇa, e não para servir de hotéis gratuitos que acolhem pessoas que nada ajudam material ou espiritualmente. Os templos e mosteiros não devem de modo algum permitir a infiltração da vida que os homens loucos têm nos clubes inúteis. No movimento da consciência de Kṛṣṇa, damos as boas-vindas a todas as pessoas que ao menos concordam em seguir os quatro princípios reguladores que há no movimento – não praticar sexo ilícito, não se intoxicar, não comer carne e não participar de jogos de azar. Nos templos e mosteiros, reuniões de indivíduos desnecessários, rejeitados e preguiçosos devem ser estritamente repelidas. Os templos e mosteiros devem ser usados exclusivamente pelos devotos que levam a sério o avanço espiritual em consciência de Kṛṣṇa. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura explica a palavra ārambhān como significando maṭhādi-vyāpārān, o que quer dizer: “Tentativa de construir templos e monastérios.” A primeira ocupação do sannyāsī é pregar a consciência de Kṛṣṇa, mas se, pela graça de Kṛṣṇa, existirem condições disponíveis, ele poderá construir templos e monastérios para abrigar os estudantes que são sérios na consciência de Kṛṣṇa. Caso contrário, esses templos e monastérios não são necessários.
न यतेराश्रम: प्रायो धर्महेतुर्महात्मन: ।
शान्तस्य समचित्तस्य बिभृयादुत वा त्यजेत् ॥ ९ ॥
na yater āśramaḥ prāyo
dharma-hetur mahātmanaḥ
śāntasya sama-cittasya
bibhṛyād uta vā tyajet

Synonyms

nanão; yateḥdo sannyāsī; āśramaḥa veste simbólica (com daṇḍa e kamaṇḍalu); prāyaḥquase sempre; dharma-hetuḥa causa do avanço em vida espiritual; mahā-ātmanaḥque é de fato elevado e avançado; śāntasyaque é pacífico; soma-cittasyaque alcançou a fase de ser equânime; bibhṛyātpodem-se aceitar (esses sinais simbólicos); utana verdade; ou; tyajetpodem-se abandonar.

Translation

Uma pessoa pacífica e equânime, que realmente é avançada em consciência espiritual, não precisa aceitar os símbolos do sannyāsī, tais como a tridaṇḍa e o kamaṇḍalu. De acordo com a necessidade, ora ela pode aceitar esses símbolos, ora pode rejeitá-los.

Purport

SIGNIFICADO—Existem quatro fases da ordem de vida renunciada – kuṭīcaka, bahūdaka, parivrājakācārya e paramahaṁsa. Nesta passagem, o Śrīmad-Bhāgavatam se refere aos paramahaṁsas entre os sannyāsīs. Os sannyāsīs impersonalistas māyāvādīs não podem alcançar a fase de paramahaṁsa. E isso decorre do fato de que eles têm um conceito impessoal acerca da Verdade Absoluta. Brahmeti paramātmeti bhagavān iti śabdyate. A Verdade Absoluta é compreendida em três etapas, das quais bhagavān, ou a fase em que se compreende a Suprema Personalidade de Deus, destina-se aos paramahaṁsas. Na verdade, o próprio Śrīmad-Bhāgavatam se destina aos paramahaṁsas (paramo nirmatsarāṇāṁ satām). Enquanto alguém não estiver na fase de paramahaṁsa, não se habilitará a entender o Śrīmad-Bhāgavatam. Para os paramahaṁsas, ou sannyāsīs da ordem vaiṣṇava, pregar é o primeiro dever. Para pregar, esses sannyāsīs podem aceitar os símbolos de sannyāsa, tais como a daṇḍa e o kamaṇḍalu, ou às vezes podem dispensá-los. De um modo geral, os sannyāsīs vaiṣṇavas, sendo paramahaṁsas, são automaticamente chamados de bābājīs, e não carregam um kamaṇḍalu ou uma daṇḍa. Tal sannyāsī tem liberdade para aceitar ou rejeitar as insígnias de sannyāsa. Seu único pensamento é: “Onde existe a oportunidade de difundir a consciência de Kṛṣṇa?” Às vezes, o movimento da consciência de Kṛṣṇa envia seus representantes sannyāsīs a países estrangeiros onde a daṇḍa e o kamaṇḍalu não são muito apreciados. Enviamos, então, nossos pregadores vestidos em roupas comuns para que apresentem nossos livros e filosofia. Nossa única preocupação é atrair as pessoas para a consciência de Kṛṣṇa. Podemos conseguir isso vestidos de sannyāsīs ou usando as vestes de um cavalheiro comum. Nosso único propósito é infundir em todos o interesse pela consciência de Kṛṣṇa.
अव्यक्तलिङ्गो व्यक्तार्थो मनीष्युन्मत्तबालवत् ।
कविर्मूकवदात्मानं स द‍ृष्टय‍ा दर्शयेन्नृणाम् ॥ १० ॥
avyakta-liṅgo vyaktārtho
manīṣy unmatta-bālavat
kavir mūkavad ātmānaṁ
sa dṛṣṭyā darśayen nṛṇām

Synonyms

avyakta-liṅgaḥcujas características de sannyāsa não são manifestas; vyakta-arthaḥcujo propósito é manifesto; manīṣītal pessoa santa e grandiosa; unmattainquieta; bāla-vatcomo um menino; kaviḥum grande poeta ou orador; mūka-vatcomo um homem mudo; ātmānamele próprio; saḥele; dṛṣṭyāpelo exemplo; darśayetdeve apresentar; nṛṇāmà sociedade humana.

Translation

Embora uma pessoa santa prefira não se expor à visão da sociedade humana, o seu propósito acaba sendo revelado através do seu comportamento. À sociedade humana, ela deve apresentar-se como uma criança inquieta e, embora seja o orador mais ponderado e magnífico, deve apresentar-se como um homem mudo.

Purport

SIGNIFICADO—Uma personalidade grandiosa e muito avançada em consciência de Kṛṣṇa talvez prefira não se expor através dos sinais de um sannyāsī. Nesse caso, ela pode viver como uma criança inquieta ou um homem mudo, embora ela seja o maior orador ou poeta.
अत्राप्युदाहरन्तीममितिहासं पुरातनम् ।
प्रह्रादस्य च संवादं मुनेराजगरस्य च ॥ ११ ॥
atrāpy udāharantīmam
itihāsaṁ purātanam
prahrādasya ca saṁvādaṁ
muner ājagarasya ca

Synonyms

atraneste ensejo; apiembora não exposto aos olhos comuns; udāharantios sábios eruditos recitam como exemplo; imameste; itihāsamepisódio histórico; purātanamantiquíssimo; prahrādasyade Prahlāda Mahārāja; catambém; saṁvādamconversa; muneḥdo grande santo; ājagarasyaque adotou a profissão de um píton; catambém.

Translation

Como exemplo histórico disso, os sábios eruditos recitam a história de um antigo diálogo ocorrido entre Prahlāda Mahārāja e um grande santo que se alimentava como um píton.

Purport

SIGNIFICADO—A pessoa santa encontrada por Prahlāda Mahārāja estava praticando ājagara-vṛtti, as condições de vida de um píton, o qual não vai a parte alguma, senão que permanece no mesmo lugar por anos e come apenas aquilo que se faz disponível automaticamente. Prahlāda Mahārāja, juntamente com seus associados, encontrou esse grande santo e lhe falou as seguintes palavras.
तं शयानं धरोपस्थे कावेर्यां सह्यसानुनि ।
रजस्वलैस्तनूदेशैर्निगूढामलतेजसम् ॥ १२ ॥
ददर्श लोकान्विचरन् लोकतत्त्वविवित्सया ।
वृतोऽमात्यै: कतिपयै: प्रह्रादो भगवत्प्रिय: ॥ १३ ॥
taṁ śayānaṁ dharopasthe
kāveryāṁ sahya-sānuni
rajas-valais tanū-deśair
nigūḍhāmala-tejasam
dadarśa lokān vicaran
loka-tattva-vivitsayā
vṛto ’mātyaiḥ katipayaiḥ
prahrādo bhagavat-priyaḥ

Synonyms

tamessa (pessoa santa); śayānamdeitada; dharā-upastheno chão; kāveryāmà margem do rio Kāverī; sahya-sānuniem uma encosta da montanha conhecida como Sahya; rajaḥ-valaiḥcoberto com pó e areia; tanū-deśaiḥcom todas as partes do corpo; nigūḍhamuito grave e profundo; amalaimaculado; tejasamcujo poder espiritual; dadarśaele viu; lokānem todos os diferentes planetas; vicaranviajando; loka-tattvaa natureza dos seres vivos (especialmente daqueles que estão tentando avançar em consciência de Kṛṣṇa); vivitsayāpara tentar entender; vṛtaḥrodeado; amātyaiḥpor companheiros reais; katipayaiḥalguns; prahrādaḥMahārāja Prahlāda; bhagavat-priyaḥque é sempre muitíssimo querido à Suprema Personalidade de Deus.

Translation

Prahlāda Mahārāja, o mais querido servo da Suprema Personalidade de Deus, certa vez viajava pelo universo com alguns de seus companheiros confidenciais simplesmente para estudar a natureza das pessoas santas. Então, ele chegou às margens do Kāverī, onde havia uma montanha conhecida como Sahya. Ali, encontrou uma grande pessoa santa, que estava deitada no chão, coberta com areia e pó, mas possuía profundo avanço espiritual.
कर्मणाकृतिभिर्वाचा लिङ्गैर्वर्णाश्रमादिभि: ।
न विदन्ति जना यं वै सोऽसाविति न वेति च ॥ १४ ॥
karmaṇākṛtibhir vācā
liṅgair varṇāśramādibhiḥ
na vidanti janā yaṁ vai
so ’sāv iti na veti ca

Synonyms

karmaṇāpelas atividades; ākṛtibhiḥpelos aspectos físicos; vācāpelas palavras; liṅgaiḥpelas características; varṇa-āśramareferentes às divisões material e espiritual de cada varṇa e āśrama; ādibhiḥe por outras características; na vidantinão conseguiam entender; janāḥas pessoas em geral; yamquem; vaina verdade; saḥse essa pessoa; asauera a mesma pessoa; itiassim; nanão; ou; itiassim; catambém.

Translation

Nem através das atividades daquela pessoa santa, de seus aspectos físicos ou de suas palavras, nem pelas características que definiam sua situação no varṇāśrama – as pessoas não conseguiam entender se ele era a mesma pessoa que haviam conhecido.

Purport

SIGNIFICADO—Os habitantes daquele lugar específico, situado às margens do Kāverī no vale da montanha conhecida como Sahya, eram incapazes de entender se o santo era o mesmo homem que haviam conhecido. Portanto, declara-se que vaiṣṇavera kriyā mudrā vijñe nā bhujhaya. Um vaiṣṇava muito avançado vive de tal maneira que ninguém possa compreender o que ele é ou o que ele foi. Tampouco devem-se fazer tentativas de compreender o passado de um vaiṣṇava. Sem indagar da pessoa santa sobre a sua vida anterior, Prahlāda Mahārāja imediatamente lhe ofereceu respeitosas reverências.
तं नत्वाभ्यर्च्य विधिवत्पादयो: शिरसा स्पृशन् ।
विवित्सुरिदमप्राक्षीन्महाभागवतोऽसुर: ॥ १५ ॥
taṁ natvābhyarcya vidhivat
pādayoḥ śirasā spṛśan
vivitsur idam aprākṣīn
mahā-bhāgavato ’suraḥ

Synonyms

tama ele (a pessoa santa); natvāapós oferecer reverências; abhyarcyae adorar; vidhi-vatem termos das regras e regulações em que se baseia a etiqueta; pādayoḥos pés de lótus da pessoa santa; śirasācom a cabeça; spṛśantocando; vivitsuḥdesejando saber sobre ele (a pessoa santa); idamas seguintes palavras; aprākṣītperguntou; mahā-bhāgavataḥo avançadíssimo devoto do Senhor; asuraḥembora nascido em família asura.

Translation

O avançado devoto Prahlāda Mahārāja adorou a pessoa santa que passara a sobreviver como um píton e ofereceu ao santo as devidas reverências. Após prestar essa adoração à pessoa santa e tocar com sua própria cabeça os pés de lótus do santo, Prahlāda Mahārāja, a fim de compreendê-lo, fez-lhe as seguintes perguntas com grande submissão.
बिभर्षि कायं पीवानं सोद्यमो भोगवान्यथा ॥ १६ ॥
वित्तं चैवोद्यमवतां भोगो वित्तवतामिह ।
भोगिनां खलु देहोऽयं पीवा भवति नान्यथा ॥ १७ ॥
bibharṣi kāyaṁ pīvānaṁ
sodyamo bhogavān yathā
vittaṁ caivodyamavatāṁ
bhogo vittavatām iha
bhogināṁ khalu deho ’yaṁ
pīvā bhavati nānyathā

Synonyms

bibharṣiestás mantendo; kāyamum corpo; pīvānamgordo; sa-udyamaḥalguém que se esforça; bhogavānalguém que desfruta; yathācomo; vittamdinheiro; catambém; evadecerto; udyama-vatāmde pessoas sempre ocupadas em desenvolvimento econômico; bhogaḥgozo dos sentidos; vitta-vatāmpara pessoas que possuem riquezas consideráveis; ihaneste mundo; bhogināmdos desfrutadores, karmīs; khaluna verdade; dehaḥcorpo; ayameste; pīvāmuito gordo; bhavatitorna-se; nanão; anyathāde outro modo.

Translation

Vendo que a pessoa santa era bastante gorda, Prahlāda Mahārāja disse: Meu querido senhor, embora não realizes nenhum esforço para sobreviver, tens um corpo vigoroso, exatamente como o de um desfrutador materialista. Sei que se alguém é muito rico e nada tem a fazer, torna-se extremamente gordo, comendo, dormindo e não executando trabalho algum.

Purport

SIGNIFICADO—Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura não gostava que seus discípulos ficassem muito gordos à medida que os anos passassem. Ele receava muito que, tendo engordado, seus discípulos se tornassem bhogīs, ou desfrutadores dos sentidos. Essa atitude é aqui aprovada por Prahlāda Mahārāja, que ficou surpreso ao ver uma pessoa santa adotar ājagara-vṛtti e se tornar muito gorda. E, no mundo material, geralmente vemos que, quando um homem é pobre e macilento, mas pouco a pouco consegue ganhar dinheiro através de negócios ou de outros empreendimentos, ele procura desfrutar dos sentidos intensamente tão logo ele tem o dinheiro. Desfrutando dos sentidos, a pessoa engorda. Portanto, no avanço espiritual, tornar-se gordo não é algo recomendado de maneira alguma.
न ते शयानस्य निरुद्यमस्य
ब्रह्मन्नु हार्थो यत एव भोग: ।
अभोगिनोऽयं तव विप्र देह:
पीवा यतस्तद्वद न: क्षमं चेत् ॥ १८ ॥
na te śayānasya nirudyamasya
brahman nu hārtho yata eva bhogaḥ
abhogino ’yaṁ tava vipra dehaḥ
pīvā yatas tad vada naḥ kṣamaṁ cet

Synonyms

nanão; tede ti; śayānasyadeitado; nirudyamasyasem atividades; brahmanó pessoa santa; nuna verdade; haé evidente; arthaḥdinheiro; yataḥdo qual; evana verdade; bhogaḥgozo dos sentidos; abhoginaḥde alguém que não está ocupado em gozo dos sentidos; ayamisto; tavateu; vipraó brāhmaṇa erudito; dehaḥcorpo; pīvāgordo; yataḥcomo é que; tateste fato; vadapor favor, dize; naḥa nós; kṣamamperdoa; cetse fiz uma pergunta insolente.

Translation

Ó brāhmaṇa, conhecendo plenamente a transcendência, nada tens a fazer, de modo que estás deitado. Também é fácil deduzir que não tens dinheiro para o gozo dos sentidos. Então, como foi que teu corpo obteve tanto sobrepeso? Nessas circunstâncias, se não achares que minhas perguntas são inoportunas, por favor, explica-me como isso aconteceu.

Purport

SIGNIFICADO—De um modo geral, aqueles que estão ocupados em avanço espiritual se alimentam apenas uma vez, ou à tarde ou ao pôr do sol. Se alguém se alimenta apenas uma vez, naturalmente ele não engorda. O sábio erudito, entretanto, era bastante gordo, daí Prahlāda Mahārāja ter ficado tão surpreso. Porque é experiente em autorrealização, o transcendentalista decerto fica com o rosto brilhante. E quem é avançado em autorrealização deve ser colocado na mesma categoria de um brāhmaṇa. Como a pessoa santa e de rosto brilhante ficava deitada e não saía para trabalhar e, mesmo ainda, era bastante gorda, Prahlāda Mahārāja ficou intrigado e se sentiu impelido a lhe perguntar como aquilo se dera.
कवि: कल्पो निपुणद‍ृक् चित्रप्रियकथ: सम: । लोकस्य कुर्वत: कर्म शेषे तद्वीक्षितापि वा ॥ १९ ॥
kaviḥ kalpo nipuṇa-dṛk
citra-priya-kathaḥ samaḥ
lokasya kurvataḥ karma
śeṣe tad-vīkṣitāpi vā

Synonyms

kaviḥmuito erudito; kalpaḥhábil; nipuṇa-dṛkinteligente; citra priya-kathaḥcapaz de falar palavras agradáveis ao coração; samaḥequânime; lokasyado povo em geral; kurvataḥocupado em; karmatrabalho fruitivo; śeṣetu te deitas; tat-vīkṣitāvendo todos eles; apiembora; ou.

Translation

Vossa Senhoria parece erudito, hábil e inteligente em todos os sentidos. Trazes belas mensagens, dizendo frases que agradam ao coração. Embora vejas que a população em geral está ocupada em atividades fruitivas, permaneces aqui, deitado e inativo.

Purport

SIGNIFICADO—Prahlāda Mahārāja estudou os traços físicos da pessoa santa e, através da fisiognomonia, pôde entender que o santo era muito inteligente e hábil, embora estivesse deitado e nada fizesse. Prahlāda estava naturalmente curioso para saber o motivo pelo qual ele permanecia deitado e inativo.
श्रीनारद उवाच
\स इत्थं दैत्यपतिना परिपृष्टो महामुनि: ।
स्मयमानस्तमभ्याह तद्वागमृतयन्त्रित: ॥ २० ॥
śrī-nārada uvāca
sa itthaṁ daitya-patinā
paripṛṣṭo mahā-muniḥ
smayamānas tam abhyāha
tad-vāg-amṛta-yantritaḥ

Synonyms

śrī-nāradaḥ uvācao grande santo Nārada Muni disse; saḥaquela pessoa santa (deitada); itthamdessa maneira; daitya-patināpelo rei dos Daityas (Prahlāda Mahārāja); paripṛṣṭaḥsendo suficientemente interpelada; mahā-muniḥa pessoa santíssima; smayamānaḥsorrindo; tama ele (Prahlāda Mahārāja); abhyāhapreparada para responder; tat-vākde suas palavras; amṛta-yantritaḥestando cativada pelo néctar.

Translation

Nārada Muni prosseguiu: Ao ouvir as perguntas que Prahlāda Mahārāja, o rei dos Daityas, endereçara-lhe, a pessoa santa ficou cativada com essa chuva de palavras nectáreas e, com um sorriso nos lábios, respondeu à curiosidade de Prahlāda Mahārāja.
श्रीब्राह्मण उवाच
वेदेदमसुरश्रेष्ठ भवान् नन्वार्यसम्मत: ।
ईहोपरमयोर्नृणां पदान्यध्यात्मचक्षुषा ॥ २१ ॥
śrī-brāhmaṇa uvāca
vededam asura-śreṣṭha
bhavān nanv ārya-sammataḥ
īhoparamayor nṝṇāṁ
padāny adhyātma-cakṣuṣā

Synonyms

śrī-brāhmaṇaḥ uvācao brāhmaṇa respondeu; vedasabes muito bem; idamtodas essas coisas; asura-śreṣṭhaó melhor dos asuras; bhavāntu; nanuna verdade; ārya-sammataḥcujas atividades são aprovadas pelos homens civilizados; īhāda inclinação; uparamayoḥdo decréscimo; nṝṇāmdas pessoas em geral; padānidiferentes fases; adhyātma-cakṣuṣāatravés de olhos transcendentais.

Translation

O brāhmaṇa santo disse: Ó melhor dos asuras, Prahlāda Mahārāja, que és reconhecido pelos homens avançados e civilizados, estás a par das diferentes fases da vida porque teus olhos são intrinsecamente transcendentais e, com eles, podes ver o caráter de um homem e assim conhecer, com toda a clareza, os verdadeiros resultados de se aceitar e rejeitar as coisas.

Purport

SIGNIFICADO—Devido à sua visão pura associada ao serviço devocional, um devoto puro como Prahlāda Mahārāja pode entender as mentes alheias. Um devoto como Prahlāda Mahārāja não encontra dificuldade alguma em estudar o caráter de outro homem.
यस्य नारायणो देवो भगवान्‍हृद्गत: सदा ।
भक्त्या केवलयाज्ञानं धुनोति ध्वान्तमर्कवत् ॥ २२ ॥
yasya nārāyaṇo devo
bhagavān hṛd-gataḥ sadā
bhaktyā kevalayājñānaṁ
dhunoti dhvāntam arkavat

Synonyms

yasyade quem; nārāyaṇaḥ devaḥNārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus; bhagavāno Senhor; hṛt-gataḥno âmago do coração; sadāsempre; bhaktyāatravés do serviço devocional; kevalayāsozinho; ajñānamignorância; dhunotilimpa; dhvāntamescuridão; arka-vatcomo o Sol.

Translation

Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus, que é pleno de todas as opulências, é predominante no âmago de teu coração porque és um devoto puro. Ele sempre afasta toda a escuridão e ignorância, assim como o Sol dissipa a escuridão do universo.

Purport

SIGNIFICADO—As palavras bhaktyā kevalayā indicam que, pelo simples fato de executar serviço devocional, a pessoa pode tornar-se plena de todo o conhecimento. Kṛṣṇa é o dono de todo o conhecimento (aiśvaryasya samagrasya vīryasya yaśasaḥ śriyaḥ). O Senhor está situado no coração de todos (īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati) e, quando está satisfeito com o devoto, o Senhor o instrui. Entretanto, apenas aos devotos o Senhor confere as instruções mediante as quais sempre se continua avançando no serviço devocional. Quanto aos outros, os não-devotos, o Senhor instrui de acordo com a maneira como eles se rendem. O devoto puro é descrito por intermédio das palavras bhaktyā kevalayā. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura explica que bhaktyā kevalayā significa jñāna-karmādy-amiśrayā: “Sem mistura com atividades fruitivas ou conhecimento especulativo.” A simples rendição aos pés de lótus é a causa de toda a iluminação e percepção que caracterizam o devoto.
तथापि ब्रूमहे प्रश्नांस्तव राजन्यथाश्रुतम् ।
सम्भाषणीयो हि भवानात्मन: शुद्धिमिच्छता ॥ २३ ॥
tathāpi brūmahe praśnāṁs
tava rājan yathā-śrutam
sambhāṣaṇīyo hi bhavān
ātmanaḥ śuddhim icchatā

Synonyms

tathāpimesmo assim; brūmaheresponderei; praśnāntodas as perguntas; tavatuas; rājanó rei; yathā-śrutamcomo aprendi ouvindo as autoridades; sambhāṣaṇīyaḥum interlocutor adequado; hina verdade; bhavāntu; ātmanaḥdo eu; śuddhimpurificação; icchatāpara alguém que deseja.

Translation

Meu querido rei, embora saibas tudo, formulaste algumas perguntas, as quais tentarei responder de acordo com o que aprendi ouvindo o que me ensinaram as autoridades. Não posso manter-me silencioso neste ensejo, pois aquele que deseja purificar-se não deve desperdiçar a oportunidade de dialogar com uma personalidade igual a ti.

Purport

SIGNIFICADO—Um santo não fala com toda e qualquer pessoa, senão que é grave e silencioso. De um modo geral, um homem comum não precisa receber conselhos. É dito que uma pessoa santa não deve dirigir-se a alguém enquanto este não estiver preparado para receber instruções, embora, às vezes, devido à sua grande bondade, uma pessoa santa fale com os homens comuns. Quanto a Prahlāda Mahārāja, entretanto, uma vez que ele não era um homem comum, todas as perguntas por ele formuladas teriam de ser respondidas, mesmo por uma personalidade grande e elevada. Portanto, o brāhmaṇa santo não permaneceu silencioso, senão que começou a responder. Suas respostas, entretanto, não foram inventadas por ele. Indicam isso as palavras yathā-śrutam, que significam “como ouvi das autoridades”. No sistema paramparā, quando as perguntas são genuínas, as respostas também o são. Ninguém deve tentar criar ou inventar respostas. Todos devem consultar os śāstras e dar respostas que estejam de acordo com o entendimento védico. As palavras yathā-śrutam se referem ao conhecimento védico. Os Vedas são conhecidos como śruti porque esse conhecimento é recebido das autoridades. As afirmações dos Vedas são conhecidas como śruti-pramāṇa. Devem-se citar evidências do śruti – os Vedas ou literatura védica –, em consequência do que as afirmações apresentadas serão corretas. Caso contrário, sobressairão palavras que procedem da invenção mental.
तृष्णया भववाहिन्या योग्यै: कामैरपूर्यया ।
कर्माणि कार्यमाणोऽहं नानायोनिषु योजित: ॥ २४ ॥
tṛṣṇayā bhava-vāhinyā
yogyaiḥ kāmair apūryayā
karmāṇi kāryamāṇo ’haṁ
nānā-yoniṣu yojitaḥ

Synonyms

tṛṣṇayādevido aos desejos materiais; bhava-vāhinyāao balanço das leis da natureza material; yogyaiḥcomo é de se esperar; kāmaiḥpelos desejos materiais; apūryayāsem fim, um após outro; karmāṇiatividades; kāryamāṇaḥconstantemente sendo impelido a realizar; ahameu; nānā-yoniṣuem várias formas de vida; yojitaḥocupado na luta pela existência.

Translation

Devido aos insaciáveis desejos materiais, eu estava sendo arrastado pelas ondas das leis da natureza material e, portanto, eu me ocupava em diferentes atividades, lutando pela existência em várias formas de vida.

Purport

SIGNIFICADO—Enquanto quiser satisfazer várias classes de desejos materiais, a entidade viva terá que continuar aceitando corpos consecutivos. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura explica que, assim como um pequeno pedaço de grama cai em um rio e é arrastado com diferentes espécies de troncos e galhos de árvores, a entidade viva flutua no oceano da existência material e é sacudida e arremessada em meio às condições materiais. Isso se chama luta pela existência. Uma classe de atividade fruitiva faz com que a entidade viva assuma uma forma de corpo, e, devido às ações executadas nesse corpo, cria-se outro corpo. Portanto, todos devem cessar essas atividades materiais, e a oportunidade surge na forma de vida humana. Especificamente, devemos ocupar a serviço do Senhor a energia que nos capacita a agir, pois, dessa maneira, as atividades materialistas decerto cessarão. Devemos satisfazer nossos desejos rendendo-nos ao Senhor Supremo, pois Ele sabe como satisfazê-los. Mesmo que alguém tenha desejos materiais, é bom que se ocupe no serviço devocional ao Senhor. Isso purificará sua luta pela existência.
akāmaḥ sarva-kāmo vā
mokṣa-kāma udāra-dhīḥ
tīvreṇa bhakti-yogena
yajeta puruṣaṁ param
“A pessoa de inteligência mais desenvolvida, esteja ela repleta de todos os desejos materiais, não tenha nenhum desejo material ou deseje a liberação, deve, por todos os meios, adorar o todo supremo, a Personalidade de Deus.” (Śrīmad-Bhāgavatam 2.3.10)
anyābhilāṣitā-śūnyaṁ
jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-
śīlanaṁ bhaktir uttamā
“É com atitude favorável e sem desejo de lucro material ou de ganho através de atividades fruitivas ou especulação filosófica que se deve prestar transcendental serviço amoroso ao Supremo Senhor Kṛṣṇa. Isso se chama serviço devocional puro.” (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.1.11)
यद‍ृच्छया लोकमिमं प्रापित: कर्मभिर्भ्रमन् ।
स्वर्गापवर्गयोर्द्वारं तिरश्चां पुनरस्य च ॥ २५ ॥
yadṛcchayā lokam imaṁ
prāpitaḥ karmabhir bhraman
svargāpavargayor dvāraṁ
tiraścāṁ punar asya ca

Synonyms

yadṛcchayācarregado pelas ondas da natureza material; lokamforma humana; imamesta; prāpitaḥalcançada; karmabhiḥpela influência das diferentes atividades fruitivas; bhramanvagando de uma forma de vida para outra; svargaaos planetas celestiais; apavargayoḥà liberação; dvāramo portão; tiraścāmespécies de vida inferior; punaḥnovamente; asyados seres humanos; cae.

Translation

No transcurso do processo evolutivo, o qual decorre das atividades fruitivas através das quais se procura obter o indesejável gozo dos sentidos materiais, recebi esta forma de vida humana, que pode levar aos planetas celestiais, à liberação, às espécies inferiores ou ao renascimento entre os seres humanos.

Purport

SIGNIFICADO—De acordo com as leis da natureza, todas as entidades vivas deste mundo material estão se submetendo ao ciclo de nascimentos e mortes. Esta luta na qual um ser nasce e morre em diferentes espécies pode ser chamada de processo evolutivo, o que, no mundo ocidental, costuma ser explicado erroneamente. A teoria através da qual Darwin menciona que o animal evolui até se tornar um homem é incompleta porque ela não apresenta a condição reversa, isto é, o homem se tornar um animal. Neste verso, entretanto, a evolução é muito bem explicada com base na autoridade védica. A vida humana, que é obtida no decorrer do processo evolutivo, pode propiciar elevação (svargāpavarga) ou produzir retrocesso (tiraścām punar asya ca). Usando devidamente a forma de vida humana, a pessoa poderá elevar-se aos sistemas planetários superiores, onde a felicidade material é muitos milhares de vezes superior à felicidade deste planeta, ou então poderá cultivar o conhecimento através do qual se libertará do processo evolutivo e voltará a se estabelecer em sua vida espiritual original. Isso se chama apavarga, ou liberação.
A vida material se chama pavarga porque aqui estamos sujeitos a cinco diferentes estados de sofrimento, representados pelas letras pa, pha, ba, bha e ma. Pa significa pariśrama, trabalho muito árduo. Pha significa phena, ou espuma na boca. Por exemplo, às vezes vemos que, ao trabalhar muito arduamente, um cavalo fica espumando pela boca. Ba quer dizer byarthatā, desapontamento. Apesar de tanto trabalho árduo, no fim só há desapontamento. Bha significa bhaya, ou medo. Na vida material, todos vivem no ardente fogo do medo, pois ninguém sabe o que o futuro reserva. Enfim, ma significa mṛtyu, ou morte. Quando alguém tenta anular esses cinco diferentes estados de vida – pa, pha, ba, bha e ma –, ele alcança apavarga, ou se liberta da punição que a existência material inflige.
A palavra tiraścām se refere à vida degradada. A vida humana, evidentemente, oferece a oportunidade de melhores condições de vida. Como pensa o povo ocidental, a partir dos macacos surgiram os seres humanos, que estão em uma situação mais confortável. Entretanto, se alguém não procura utilizar sua vida humana para, através dela, promover-se a svarga ou apavarga, ele recai na degradada vida animal dos cães e porcos. Portanto, o ser humano sensato deve ponderar se prefere elevar-se aos planetas superiores, preparar-se para ficar livre do processo evolutivo ou continuar viajando no processo evolutivo, assumindo espécies de vida superior e inferior. Se alguém trabalha piedosamente, pode elevar-se aos sistemas planetários superiores ou alcançar a liberação e retornar ao lar, retornar ao Supremo; caso contrário, pode degradar-se a uma vida de cão, porco e assim por diante. Como se explica na Bhagavad-gītā (9.25), yānti deva-vratā devān. Aqueles que estão interessados em se elevar aos sistemas planetários superiores (Devaloka ou Svargaloka) devem conduzir-se de maneira tal que possam alcançar esse objetivo. Igualmente, se alguém quiser a liberação e desejar retornar ao lar, retornar ao Supremo, deverá tomar as devidas providências para que possa atingir esse propósito.
Portanto, nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa é o movimento que propicia a maior bênção para a sociedade humana porque este movimento está ensinando as pessoas a como voltar ao lar, como voltar ao Supremo. A Bhagavad-gītā (13.22) afirma claramente que diferentes espécies de vida são obtidas através da associação com os três modos da natureza material (kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya sad-asad-yoni-janmasu). De acordo com a associação que a pessoa mantém nesta vida com as qualidades materiais de bondade, paixão e ignorância, ela receberá um corpo correspondente em sua próxima vida. A civilização moderna não sabe que, devido às variadas associações com a natureza material, a entidade viva, embora eterna, é posta em diferentes condições doentias conhecidas como as muitas espécies de vida. A civilização moderna desconhece as leis da natureza.
prakṛteḥ kriyamāṇāni
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
“Confusa, a alma espiritual que está sob a influência do falso ego julga-se a autora das atividades que, de fato, são executadas pelos três modos da natureza material.” (Bhagavad-gītā 3.27) Toda entidade viva está sob pleno controle das estritas leis da natureza material, mas os patifes pensam que são independentes. Na verdade, entretanto, não podem ser independentes. É tolice alguém pensar que é independente. Uma civilização tola oferece sérios riscos, e, portanto, o movimento da consciência de Kṛṣṇa está tentando mostrar às pessoas a sua verdadeira condição, ou seja, que elas são plenamente dependentes e estão sob as estritas leis da natureza, e, dessa maneira, está tentando impedir que sejam vitimadas por māyā, a forte energia externa de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa, o Senhor Supremo, controla as leis materiais (mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sacarācaram). Portanto, se alguém se rende a Kṛṣṇa (mām eva ye prapadyante māyām etāṁ taranti te), pode imediatamente se livrar do controle a ele imposto pela natureza externa (sa guṇān samatītyaitān brahma-bhūyāya kalpate). Essa deve ser a meta da vida.
तत्रापि दम्पतीनां च सुखायान्यापनुत्तये ।
कर्माणि कुर्वतां द‍ृष्ट्वा निवृत्तोऽस्मि विपर्ययम् ॥ २६ ॥
tatrāpi dam-patīnāṁ ca
sukhāyānyāpanuttaye
karmāṇi kurvatāṁ dṛṣṭvā
nivṛtto ’smi viparyayam

Synonyms

tatraali; apitambém; dam-patīnāmdos homens e mulheres unidos pelo casamento; cae; sukhāyacom o propósito de obter prazer, especificamente o prazer da vida sexual; anya-apanuttayepara evitar o sofrimento; karmāṇiatividades fruitivas; kurvatāmsempre ocupados em; dṛṣṭvāobservando; nivṛttaḥ asmiagora descontinuei (essas atividades); viparyayamo oposto.

Translation

Nesta forma de vida humana, o homem e a mulher se unem para tentar obter prazer sexual, mas, através da verdadeira experiência, observamos que nenhum deles é feliz. Portanto, vendo ocorrerem os resultados contrários, deixei de participar das atividades materialistas.

Purport

SIGNIFICADO—Como afirma Prahlāda Mahārāja, yan maithunādi-gṛhamedhi-sukhaṁ hi tuccham. Tanto o homem quanto a mulher buscam o gozo sexual, e, ao se unirem através da cerimônia ritualística do casamento, eles são felizes por algum tempo, mas, por fim, começam as discussões, e assim existem tantos casos de separação e divórcio. Embora todo homem e mulher estejam realmente ansiosos por gozar da vida através da união sexual, o resultado é a desunião e a infelicidade. O casamento é recomendado para que, ao homem e à mulher, seja concedida uma vida sexual restrita, a qual a Suprema Personalidade de Deus também aconselha na Bhagavad-gītā. Dharmāviruddho bhūteṣu kāmo ’smi: a vida sexual que não é contrária aos princípios da religião é Kṛṣṇa. Toda entidade viva sempre está ansiosa por gozar de vida sexual porque a vida materialista consiste em comer, dormir, acasalar-se e defender-se. Na vida animal, o comer, o dormir, o gozo sexual e o medo não podem ser regulados, mas, para a sociedade humana, o plano é que, embora os homens, tais como os animais, tenham a permissão de comer, dormir, obter gozo sexual e se protegerem contra os temores, eles devem ser regulados. De acordo com o plano védico, para comer, a pessoa deve aceitar yajña-śiṣṭa, ou prasāda, alimento oferecido a Kṛṣṇa. Yajña-śiṣṭāśinaḥ santo mucyante sarva-kilbiṣaiḥ: “Os devotos do Senhor libertam-se de todas as espécies de pecados porque comem alimentos que primeiramente são oferecidos em sacrifício.” (Bhagavad-gītā 3.13) Na vida material, cometem-se atividades pecaminosas, especialmente ao comer, e, devido às atividades pecaminosas, as leis da natureza condenam a pessoa a aceitar outro corpo, que lhe é imposto como uma punição. Sexo e alimentação são essenciais e, portanto, dentro das restrições védicas, são oferecidos à sociedade humana para que, de acordo com os preceitos védicos, as pessoas possam comer, dormir, ter relações sexuais, proteger-se da vida temerosa e, aos poucos, elevar-se e libertar-se da punição infligida pela existência material. Assim, as instruções védicas referentes ao casamento propiciam à sociedade humana uma concessão, mas a ideia é que um homem e uma mulher unidos mediante uma cerimônia ritualística matrimonial devem ajudar-se a avançar mutuamente na vida espiritual. Infelizmente, e com maior intensidade nesta era, os homens e as mulheres se unem para o gozo sexual irrestrito. Então, eles são punidos, sendo obrigados a renascer nas formas animais para satisfazer suas propensões animalescas. Portanto, os preceitos védicos advertem: nāyaṁ deho deha-bhājāṁ nṛloke kaṣṭān kāmān arhate viḍ-bhujāṁ ye. Ninguém deve gozar de vida sexual como os porcos, tampouco deve comer toda e qualquer coisa, pois há quem chegue ao extremo de comer excrementos. O ser humano deve comer a prasāda oferecida à Deidade e deve gozar de vida sexual de acordo com os preceitos védicos. Ele deve ocupar-se na atividade da consciência de Kṛṣṇa, deve salvar-se da condição temerária, a existência material, e deve dormir apenas para se recuperar da fadiga consequente ao trabalho árduo.
O brāhmaṇa erudito disse que, uma vez que tudo é dissipado pelos trabalhadores fruitivos, ele deliberou afastar-se de todas as atividades fruitivas.
सुखमस्यात्मनो रूपं सर्वेहोपरतिस्तनु: ।
मन:संस्पर्शजान् द‍ृष्ट्वा भोगान्स्वप्स्यामि संविशन् ॥ २७ ॥
sukham asyātmano rūpaṁ
sarvehoparatis tanuḥ
manaḥ-saṁsparśajān dṛṣṭvā
bhogān svapsyāmi saṁviśan

Synonyms

sukhamfelicidade; asyadela; ātmanaḥda entidade viva; rūpama posição natural; sarvatodas; īhaas atividades materiais; uparatiḥabandonando completamente; tanuḥo meio de sua manifestação; manaḥ-saṁsparśa-jānproduzidas através das exigências do gozo dos sentidos; dṛṣṭvāapós ver; bhogāngozo dos sentidos; svapsyāmiestou sentado em silêncio, ponderando essas atividades materiais; saṁviśanentrando nessas atividades.

Translation

Para as entidades vivas, a verdadeira forma de vida é aquela em que há felicidade espiritual, que é a felicidade real. Essa felicidade pode ser alcançada apenas por alguém que abandonou todas as atividades materiais. O gozo dos sentidos materiais é simples imaginação. Portanto, ponderando este assunto, encerrei todas as atividades materiais e estou deitado aqui.

Purport

SIGNIFICADO—Nesta passagem, explica-se a diferença entre as filosofias māyāvāda e vaiṣṇava. Tanto os māyāvādīs quanto os vaiṣṇavas sabem que não há felicidade nas atividades materialistas. Portanto, os filósofos māyāvādīs, aderindo ao lema brahma satyaṁ jagan mithyā, querem refrear-se das falsas atividades materialistas. Eles querem findar todas as atividades e imergir no Brahman Supremo. Entretanto, de acordo com a filosofia vaiṣṇava, se alguém simplesmente cessar as atividades materialistas, ele não poderá permanecer inativo por muito tempo, e, em razão disso, todos devem ocupar-se em atividades espirituais, que solucionarão o problema do sofrimento neste mundo material. Portanto, declara-se que, embora lutem para se restringir das atividades materiais e imergir no Brahman, e embora cheguem realmente a imergir na existência do Brahman, os filósofos māyāvādīs recaem na atividade materialista porque lhes faltam atividades (āruhya kṛcchreṇa paraṁ padaṁ tataḥ patanty adhaḥ). Assim é que o pretenso renunciante, incapaz de permanecer meditando no Brahman, retorna às atividades materialistas, abrindo hospitais, escolas e assim por diante. Portanto, simplesmente cultivar conhecimento de que as atividades materialistas não podem dar felicidade e de que, consequentemente, devem-se abandonar essas atividades não é suficiente. Devem-se evitar as atividades materialistas e adotar as atividades espirituais. Então, a solução do problema será alcançada. As atividades espirituais são aquelas atividades executadas de acordo com a ordem de Kṛṣṇa (ānukūlyena kṛṣṇānuśīlanam). Se alguém fizer tudo o que Kṛṣṇa disser, suas atividades não serão materiais. Por exemplo, quando Arjuna lutou em resposta à ordem de Kṛṣṇa, suas atividades não eram materiais. Lutar a troco de gozo dos sentidos é uma atividade materialista, mas lutar sob a ordem de Kṛṣṇa é espiritual. Através das atividades espirituais, todos se habilitam a voltar ao lar, a voltar ao Supremo, e, então, desfrutar de uma vida eterna e bem-aventurada. Aqui no mundo material, tudo é meramente uma invenção mental que jamais nos dará verdadeira felicidade. A solução prática, portanto, é encerrar as atividades materialistas e se ocupar em atividades espirituais. Yajñārthāt karmaṇo ’nyatra loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ. Se alguém trabalha com o propósito de satisfazer o Senhor Supremo – Yajña, ou Viṣṇu –, ele está na vida liberada. Todavia, se deixa de adotar esse procedimento, permanece em uma vida de cativeiro.
इत्येतदात्मन: स्वार्थं सन्तं विस्मृत्य वै पुमान् ।
विचित्रामसति द्वैते घोरामाप्नोति संसृतिम् ॥ २८ ॥
ity etad ātmanaḥ svārthaṁ
santaṁ vismṛtya vai pumān
vicitrām asati dvaite
ghorām āpnoti saṁsṛtim

Synonyms

itidessa maneira; etatuma pessoa materialmente condicionada; ātmanaḥdo seu eu; sva-arthaminteresse próprio; santamexistindo dentro dela mesma; vismṛtyaesquecendo; vaina verdade; pumāna entidade viva; vicitrāmfalsas variedades atrativas; asatino mundo material; dvaitediferentes do eu; ghorāmmuito perigosas (devido à contínua aceitação de nascimento e morte); āpnotia pessoa torna-se enredada; saṁsṛtimna existência material.

Translation

Dessa maneira, a alma condicionada vivendo dentro do corpo se esquece de seu próprio interesse porque se identifica com o corpo. Porque o corpo é material, sua tendência natural é deixar-se atrair pelas muitas variedades encontradas no mundo material. Então, a entidade viva se submete aos sofrimentos da existência material.

Purport

SIGNIFICADO—Todos estão tentando ser felizes porque, como se explicou no verso anterior, sukham asyātmano rūpaṁ sarvehoparatis tanuḥ: quando está em sua forma espiritual original, a entidade viva é feliz por natureza. Para o ser espiritual, os sofrimentos estão fora de cogitação. Como Kṛṣṇa sempre é feliz, as entidades vivas, que são Suas partes integrantes, também são felizes por natureza, mas, devido ao fato de terem sido postas dentro deste mundo material e de terem se esquecido de sua eterna relação com Kṛṣṇa, elas não se lembram de sua verdadeira natureza. Porque todos nós somos partes de Kṛṣṇa, temos uma relação muito afetuosa com Ele; contudo, como nos esquecemos de nossa identidade e estamos considerando que o corpo é o eu, somos afligidos por todos os problemas manifestos na forma de nascimento, morte, velhice e doença. Essa concepção errônea, presente na vida materialista, continuará enquanto não entendermos a relação que existe entre nós e Kṛṣṇa. A felicidade que a alma condicionada está sempre procurando decerto é apenas ilusão, como explica o próximo verso.
जलं तदुद्भ‍वैश्छन्नं हित्वाज्ञो जलकाम्यया ।
मृगतृष्णामुपाधावेत्तथान्यत्रार्थद‍ृक् स्वत: ॥ २९ ॥
jalaṁ tad-udbhavaiś channaṁ
hitvājño jala-kāmyayā
mṛgatṛṣṇām upādhāvet
tathānyatrārtha-dṛk svataḥ

Synonyms

jalamágua; tat-udbhavaiḥpela grama crescida com a ajuda daquela água; channamcoberta; hitvāabandonando; ajñaḥum animal tolo; jala-kāmyayādesejando beber água; mṛgatṛṣṇāmuma miragem; upādhāvetpersegue; tathādo mesmo modo; anyatraem algum outro lugar; artha-dṛkcom interesse próprio; svataḥnele mesmo.

Translation

Assim como um veado, devido à ignorância, não pode ver a água que está dentro de um poço coberto de grama e procura água em outra parte, a entidade viva, coberta pelo corpo material, não vê a felicidade dentro de si mesma, senão que corre em busca da felicidade no mundo material.

Purport

SIGNIFICADO—Este é um exemplo preciso, retratando como a entidade viva, devido à falta de conhecimento, persegue a felicidade situada fora do seu próprio eu. Ao entender sua verdadeira identidade como ser espiritual, a pessoa pode compreender Kṛṣṇa, o supremo ser espiritual, e a verdadeira felicidade que Kṛṣṇa reciproca com ela. É muito interessante notar como este verso assinala como o corpo surge a partir da alma espiritual. O moderno cientista materialista pensa que a vida surge da matéria, quando, de fato, é a matéria que surge da vida. Nesta passagem, a vida, ou a alma espiritual, é comparada com a água, da qual surgem montes de matéria aqui apresentados sob a forma de grama. Alguém que ignora o conhecimento científico referente à alma espiritual não olha para dentro do corpo, onde encontrará felicidade na alma; em vez disso, sai em busca da felicidade externa, assim como um veado que não sabe que a água está debaixo da grama percorre o deserto procurando por água. O movimento da consciência de Kṛṣṇa tenta remover a ignorância existente nos seres humanos desencaminhados, que estão tentando encontrar água fora da jurisdição da vida. Raso vai saḥ. Raso ’ham apsu kaunteya. O sabor da água é Kṛṣṇa. Para matar sua sede, a pessoa deve degustar a água associando-a com Kṛṣṇa. É esse o preceito védico.
देहादिभिर्दैवतन्त्रैरात्मन: सुखमीहत: ।
दु:खात्ययं चानीशस्य क्रिया मोघा: कृता: कृता: ॥ ३० ॥
dehādibhir daiva-tantrair
ātmanaḥ sukham īhataḥ
duḥkhātyayaṁ cānīśasya
kriyā moghāḥ kṛtāḥ kṛtāḥ

Synonyms

deha-ādibhiḥcom o corpo, a mente, o ego e a inteligência; daiva-tantraiḥsob o controle do poder superior; ātmanaḥdo eu; sukhamfelicidade; īhataḥbuscando; duḥkha-atyayamdiminuição das condições dolorosas; catambém; anīśasyada entidade viva sob o completo controle da natureza material; kriyāḥplanos e atividades; moghāḥ kṛtāḥ kṛtāḥmalogram-se repetidas vezes.

Translation

A entidade viva tenta alcançar a felicidade e se livrar das causas da aflição, mas, como os vários corpos das entidades vivas estão sob o completo controle da natureza material, todos os seus planos em diferentes corpos, enfim, malogram-se, um após o outro.

Purport

SIGNIFICADO—Porque simplesmente ignora como as leis da natureza material agem sobre ele em resposta às suas atividades fruitivas, o materialista cai no erro de planejar obter conforto corpóreo na forma de vida humana e, com esse objetivo, recorre ao suposto desenvolvimento econômico, às atividades piedosas que lhe deem a oportunidade de se elevar aos sistemas planetários superiores, e a muitos outros processos, mas de fato ele se torna uma vítima das reações de suas atividades fruitivas. Como a Superalma, a Suprema Personalidade de Deus situa-Se no âmago do coração de todas as entidades vivas. Conforme o Senhor diz na Bhagavad-gītā (15.15):
sarvasya cāhaṁ hṛdi sanniviṣṭo
mattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca
“Eu estou situado no coração de todos, e é de Mim que vêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento.” Os desejos e atividades dos seres vivos são observados pela Superalma, que é o upadraṣṭā, o supervisor, e aquele que ordena à natureza material que satisfaça os vários desejos dos seres vivos. Como se afirma claramente na Bhagavad-gītā (18.61):
īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ
hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati
bhrāmayan sarva-bhūtāni
yantrārūḍhāni māyayā
O Senhor está situado no coração de todos e, conforme os desejos da pessoa, Ele lhe confere várias classes de corpos, que são como máquinas. Montada nessa máquina, a entidade viva, sob o controle da natureza e modos materiais, vagueia por todo o universo. Logo, o ser vivo não é livre para agir de modo algum, senão que está sob o pleno controle da natureza material, que, por sua vez, é plenamente controlada pela Suprema Personalidade de Deus.
Logo que é vitimada pelos desejos materiais e passa a querer assenhorear-se da natureza material, a entidade viva se sujeita ao controle da natureza material, que é supervisionada pela Alma Suprema. O resultado é que ela faz planos e se frustra vezes e mais vezes, mas ela é tão tola que não consegue perceber a causa do seu fracasso. Essa causa é declarada explicitamente na Bhagavad-gītā: porque não se rendeu à Suprema Personalidade de Deus, a pessoa tem que trabalhar sob o controle da natureza material e de suas leis estritas (daivī hy eṣā guṇamayī mama māyā duratyayā). O único meio de se livrar desse cativeiro é se render ao Senhor Supremo. Na forma de vida humana, a entidade viva precisa aceitar essa instrução de Kṛṣṇa, a Pessoa Suprema, sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja: “Não planejes alcançar a felicidade e afastar a infelicidade. Jamais sairás vitorioso. Simplesmente rende-te a Mim.” Infelizmente, entretanto, a entidade viva não aceita as instruções que, com muita clareza, o Senhor Supremo declara na Bhagavad-gītā e, assim, torna-se perpetuamente prisioneira das leis da natureza material.
Yajñārthāt karmaṇo ’nyatra loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ: se alguém não age para satisfazer Kṛṣṇa, que é conhecido como Viṣṇu ou Yajña, tem que ficar emaranhado nas reações das atividades fruitivas. Essas reações se chamam pāpa ou puṇya – pecaminosas ou piedosas. Através das atividades piedosas, a pessoa se eleva aos sistemas planetários superiores e, através das atividades ímpias, ela se degrada às espécies de vida inferior, nas quais é punida pelas leis da natureza. Nas espécies de vida inferior, existe um processo evolutivo, e quando se esgota a punição devido à qual a entidade viva é forçada a ficar aprisionada nas espécies inferiores, novamente lhe é oferecida a forma humana, onde tem a oportunidade de decidir por si própria o caminho que prefere trilhar. Caso volte a desperdiçar essa oportunidade, recairá no ciclo de nascimentos e mortes, ora se elevando, ora se degradando, girando no saṁsāracakra, a roda da existência material. Assim como uma roda ora sobe, ora desce, as estritas leis da natureza material fazem com que a entidade viva na natureza material ora se sinta feliz, ora se sinta aflita. O verso seguinte descreve como ela sofre no ciclo de felicidade e aflição.
आध्यात्मिकादिभिर्दु:खैरविमुक्तस्य कर्हिचित् ।
मर्त्यस्य कृच्छ्रोपनतैरर्थै: कामै: क्रियेत किम् ॥ ३१ ॥
ādhyātmikādibhir duḥkhair
avimuktasya karhicit
martyasya kṛcchropanatair
arthaiḥ kāmaiḥ kriyeta kim

Synonyms

ādhyātmika-ādibhiḥadhyātmika, adhidaivika e adhibhautika; duḥkhaiḥpelos três sofrimentos da vida material; avimuktasyadaquele que não está livre dessas condições dolorosas (ou de alguém que está sujeito ao nascimento, morte, velhice e doença); karhicitàs vezes; martyasyada entidade viva sujeita à morte; kṛcchra-upanataiḥcoisas decorrentes de sofrimentos severos; arthaiḥmesmo que se obtenha algum benefício; kāmaiḥque possa satisfazer os seus desejos materiais; kriyetao que podem fazer; kime qual é o valor dessa felicidade.

Translation

As atividades materialistas sempre estão acompanhadas de três classes de condições dolorosas – adhyātmika, adhidaivika e adhibhautika. Portanto, mesmo que alguém alcance algum sucesso executando essas atividades, de que adiantará esse sucesso? Mesmo assim, ele estará sujeito a nascimento, morte, velhice, doença e às reações de suas atividades fruitivas.

Purport

SIGNIFICADO—De acordo com o modo de vida materialista, se um homem pobre, após trabalhar muito arduamente, obtém algum ganho material no fim de sua vida, ele é considerado um sucesso, muito embora também morra enquanto sofre as três classes de sofrimentos – adhyātmika, adhidaivika e adhibhautika. Ninguém pode escapar das três espécies de sofrimentos presentes na vida materialista, a saber, os sofrimentos relacionados com o corpo e a mente, os sofrimentos decorrentes das dificuldades impostas pela sociedade, comunidade, nação e outras entidades vivas, e os sofrimentos que nos são infligidos pelos distúrbios naturais, tais como os terremotos, a fome, a seca, as inundações, as epidemias e assim por diante. Se alguém trabalha muito arduamente e se submete às três classes de sofrimentos e, então, consegue ganhar algum pequeno benefício, qual o valor desse benefício? Além disso, mesmo que um karmī seja exitoso em acumular alguma riqueza material, ele não conseguirá desfrutá-la, pois tem que morrer em um clima de profunda agonia. Certa vez, até mesmo presenciei um homem prestes a morrer implorando que um profissional de saúde lhe desse mais quatro anos de vida a fim de que pudesse completar seus planos materiais. Evidentemente, o médico não conseguiu prolongar a vida do homem, que, portanto, morreu em uma situação muito pesarosa. Todos têm que morrer dessa maneira, e, depois que a condição mental da pessoa é esquadrinhada pelas leis da natureza material, ela recebe outra oportunidade de tentar satisfazer os seus desejos em outro corpo. Traçar planos materiais para obter a felicidade material não tem valor algum, mas, sob o encanto da energia ilusória, nós os consideramos extremamente valiosos. Houve muitos políticos, reformadores sociais e filósofos que morreram muito infelizes, sem conseguir extrair dos seus planos materiais algum valor prático. Portanto, um homem são e sensato jamais deseja trabalhar arduamente, sujeitando-se às condições impostas pelas três classes de sofrimentos, e acabar morrendo em frustração.
पश्यामि धनिनां क्लेशं लुब्धानामजितात्मनाम् ।
भयादलब्धनिद्राणां सर्वतोऽभिविशङ्किनाम् ॥ ३२ ॥
paśyāmi dhanināṁ kleśaṁ
lubdhānām ajitātmanām
bhayād alabdha-nidrāṇāṁ
sarvato ’bhiviśaṅkinām

Synonyms

paśyāmiposso ver na prática; dhanināmdas pessoas que são muito ricas; kleśamos sofrimentos; lubdhānāmque são extremamente cobiçosas; ajita-ātmanāmque são vítimas de seus sentidos; bhayātdevido ao medo; alabdha-nidrāṇāmque sofrem de insônia; sarvataḥde todos os lados; abhiviśaṅkināmestando particularmente temerosas.

Translation

O brāhmaṇa prosseguiu: Vejo de fato que um homem rico, o qual é vítima dos seus sentidos, é muito ávido por acumular riquezas e, portanto, sofre de insônia devido ao temor que o aflige de todos os lados, apesar de sua riqueza e opulências.

Purport

SIGNIFICADO—Os capitalistas cobiçosos acumulam riquezas submetidos a muitas condições dolorosas, e o que acontece é que, como obtêm dinheiro através de métodos escusos, suas mentes sempre estão agitadas. Em virtude disso, são incapazes de dormir à noite, e têm que tomar pílulas que lhe deem tranquilidade mental para que possam conciliar o sono. E, algumas vezes, nem mesmo as pílulas funcionam. Consequentemente, o resultado de ter acumulado dinheiro através de tanto trabalho decerto não é a felicidade, mas apenas a infelicidade. De que adianta adquirir uma posição confortável se a pessoa está sempre com a mente perturbada? Narottama Dāsa Ṭhākura, portanto, canta:
saṁsāra-biṣānale, dibāniśi hiyā jvale,
juḍāite nā kainu upāya
“Estou sofrendo o efeito venenoso do gozo material. Com isso, meu coração está sempre ardendo e está quase à beira do colapso.” Em consequência de seu desnecessário e cobiçoso acúmulo de riqueza, o capitalista tem que sofrer no fogo abrasador da ansiedade e sempre deve empenhar-se em poupar seu dinheiro e investi-lo adequadamente para ganhar cada vez mais. Tal vida decerto não é muito feliz, mas, devido ao encanto da energia ilusória, os materialistas se ocupam nessas atividades.
Quanto ao nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa, estamos ganhando dinheiro naturalmente, pois, pela graça de Deus, estamos vendendo nossas publicações literárias. Essas publicações não são vendidas para o gozo dos nossos sentidos; o fato é que, para espalharmos o movimento da consciência de Kṛṣṇa, precisamos de muitas coisas, e Kṛṣṇa, portanto, está nos fornecendo o dinheiro necessário para levarmos adiante essa missão. A missão de Kṛṣṇa é espalhar a consciência de Kṛṣṇa pelo mundo inteiro, e, para concretizarmos esse propósito, naturalmente precisamos ter dinheiro o bastante. Portanto, de acordo com o conselho de Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda, não devemos abandonar o apego ao dinheiro que pode ajudar a difundir o movimento da consciência de Kṛṣṇa. Em seu Bhakti-rasāmta-sindhu (1.2.256), Śrīla Rūpa Gosvāmī diz:
prāpañcikatayā buddhyā
hari-sambandhi-vastunaḥ
mumukṣubhiḥ parityāgo
vairāgyaṁ phalgu kathyate
“Quando as pessoas ansiosas por alcançar a liberação renunciam as coisas que, embora materiais, estão relacionadas com a Suprema Personalidade de Deus, isso se chama renúncia incompleta.” O dinheiro que pode ajudar na propagação do movimento da consciência de Kṛṣṇa não faz parte do mundo material, e não devemos rejeitá-lo pensando que é material. Śrīla Rūpa Gosvāmī aconselha:
anāsaktasya viṣayān
yathārham upayuñjataḥ
nirbandhaḥ kṛṣṇa-sambandhe
yuktaṁ vairāgyam ucyate
“Quando alguém não está apegado a nada, mas, ao mesmo tempo, aceita tudo aquilo que está relacionado com Kṛṣṇa, ele está corretamente situado acima do sentimento de posse.” (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.2.255) Sem dúvida, o dinheiro vem em grande quantidade, mas não devemos empregar esse dinheiro no gozo dos sentidos; cada centavo deve ser aplicado em espalhar a consciência de Kṛṣṇa, e não no gozo dos sentidos. Há perigo para o pregador quando ele recebe grande quantidade de dinheiro, pois, logo que gaste ao menos um centavo da arrecadação no gozo dos seus próprios sentidos, ele se torna uma vítima caída. Os pregadores do movimento da consciência de Kṛṣṇa devem ser extremamente cuidadosos em não desperdiçar as imensas quantidades de dinheiro necessárias para espalhar esse movimento. Não façamos desse dinheiro a causa da nossa infelicidade; ele deve ser usado para Kṛṣṇa, e isso causará nossa felicidade eterna. O dinheiro é Lakṣmī, ou a deusa da fortuna, a companheira de Nārāyaṇa. Lakṣmījī sempre deve permanecer com Nārāyaṇa, em decorrência do que não será preciso temer alguma degradação.
राजतश्चौरत: शत्रो: स्वजनात्पशुपक्षित: ।
अर्थिभ्य: कालत: स्वस्मान्नित्यं प्राणार्थवद्भ‍यम् ॥ ३३ ॥
rājataś caurataḥ śatroḥ
sva-janāt paśu-pakṣitaḥ
arthibhyaḥ kālataḥ svasmān
nityaṁ prāṇārthavad bhayam

Synonyms

rājataḥdo governo; caurataḥdos ladrões e assaltantes; śatroḥe dos inimigos; sva-janātdos parentes; paśu-pakṣitaḥdos animais e pássaros; arthibhyaḥdos pedintes e pessoas que buscam caridade; kālataḥdo fator tempo; svasmātbem como dela própria; nityamsempre; prāṇa-artha-vatpara a pessoa que tem vida ou dinheiro; bhayammedo.

Translation

Aqueles que são considerados materialmente poderosos e ricos estão sempre cheios de ansiedades por causa das leis governamentais, dos ladrões e assaltantes, dos inimigos, dos membros familiares, dos animais, dos pássaros, das pessoas que buscam caridade, do inevitável fator tempo e, inclusive, por causa deles mesmos. Assim, eles invariavelmente estão com medo.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra svasmāt significa “de si próprio”. Devido ao apego ao dinheiro, o rico tem medo até de si mesmo. Ele teme ter guardado seu dinheiro de maneira insegura ou teme cometer algum erro. Como se não bastassem o governo e seu imposto de renda e também os ladrões, os próprios parentes de um homem rico estão sempre pensando em como se aproveitar dele e tirar o seu dinheiro. Às vezes, esses parentes são descritos como sva-janaka-dasyu, que significa “ladrões e assaltantes disfarçados de parentes”. Portanto, não é preciso acumular riquezas ou se empenhar excessivamente na tentativa de ganhar cada vez mais dinheiro. O verdadeiro propósito da vida é perguntar “Quem sou eu?” e entender o eu. Todos devem procurar entender a posição da entidade viva neste mundo material e se esforçar por retornar ao lar, retornar ao Supremo.
शोकमोहभयक्रोधरागक्लैब्यश्रमादय: ।
यन्मूला: स्युर्नृणां जह्यात्स्पृहां प्राणार्थयोर्बुध: ॥ ३४ ॥
śoka-moha-bhaya-krodha-
rāga-klaibya-śramādayaḥ
yan-mūlāḥ syur nṛṇāṁ jahyāt
spṛhāṁ prāṇārthayor budhaḥ

Synonyms

śokalamentação; mohailusão; bhayamedo; krodhaira; rāgaapego; klaibyapobreza; śramatrabalho desnecessário; ādayaḥe assim por diante; yat-mūlāḥa causa original de todos eles; syuḥtornam-se; nṛṇāmdos seres humanos; jahyātdeve abandonar; spṛhāmo desejo; prāṇade força física ou prestígio; arthayoḥe de acumular dinheiro; budhaḥuma pessoa inteligente.

Translation

Aqueles membros da sociedade humana que são inteligentes devem abandonar a causa original da lamentação, ilusão, medo, ira, apego, pobreza e trabalho desnecessário. A causa original de todas essas aflições é o desejo de prestígio e dinheiro desnecessários.

Purport

SIGNIFICADO—Aqui está a diferença entre a civilização védica e a moderna civilização demoníaca. A civilização védica se preocupava em como a pessoa poderia alcançar a autorrealização e, com esse propósito, recomendava-se que ela tivesse uma pequena renda para se manter viva. A sociedade se dividia em brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras, e os membros dessa sociedade costumavam se esforçar apenas para obter o mínimo necessário. Em particular, os brāhmaṇas não tinham desejos materiais. Porque os kṣatriyas tinham que governar a população, para eles era necessário ter dinheiro e prestígio. Mas os vaiśyas se satisfaziam com a produção agrícola e o leite fornecido pelas vacas, e se por acaso houvesse algum excedente, permitia-se o comércio. Os śūdras também eram felizes, pois eram alimentados e abrigados pelas três classes superiores. Entretanto, na civilização demoníaca dos dias atuais, a existência de brāhmaṇas ou kṣatriyas está fora de cogitação; há apenas os hipotéticos trabalhadores e uma florescente classe mercantil sem qualquer objetivo na vida.
De acordo com a civilização védica, a perfeição última da vida é aceitar sannyāsa, mas, no presente momento, as pessoas não sabem por que se deve aceitar sannyāsa. Devido a uma compreensão errônea, elas pensam que se aceita sannyāsa para se escapar das responsabilidades sociais. Mas não se aceita sannyāsa para escapar das responsabilidades para com a sociedade. Em geral, aceita-se sannyāsa na quarta fase da vida espiritual. A pessoa começa como brahmacārī, então se torna gṛhastha, vānaprastha e termina como sannyāsī para poder aproveitar os dias de sua vida se ocupando plenamente em autorrealização. Sannyāsa não significa esmolar de porta em porta para acumular o dinheiro que será empregado no gozo dos sentidos. Entretanto, como em Kali-yuga as pessoas estão mais ou menos inclinadas ao gozo dos sentidos, ninguém é recomendado a aceitar sannyāsa de maneira imatura. Śrīla Rūpa Gosvāmī escreve em seu Néctar da Instrução (2):
atyāhāraḥ prayāsaś ca
prajalpo niyamāgrahaḥ
jana-saṅgaś ca laulyaṁ ca
ṣaḍbhir bhaktir vinaśyati
“Tem seu serviço devocional destruído aquele que se envolve demais nas seis seguintes atividades: (1) comer mais do que o necessário ou arrecadar mais fundos do que o essencial; (2) esforçar-se em demasia por conseguir coisas mundanas que sejam muito difíceis de obter; (3) conversar desnecessariamente a respeito de assuntos mundanos; (4) praticar as regras e regulações das escrituras só por segui-las e não pelo avanço espiritual, ou rejeitar as regras e regulações das escrituras e trabalhar independente ou caprichosamente; (5) associar-se com pessoas de mentalidade mundana, que não estão interessadas na consciência de Kṛṣṇa; e (6) estar ávido por realizações mundanas.” O sannyāsī deve pertencer a uma instituição destinada a pregar a consciência de Kṛṣṇa; ele não necessita acumular dinheiro para si mesmo. Recomendamos que, tão logo se acumule dinheiro em nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa, cinquenta por cento dele deve ser investido na publicação de livros, e os cinquenta por cento restantes devem ser empregados em outros empreendimentos, especialmente na abertura de centros por todo o mundo. Os administradores do movimento da consciência de Kṛṣṇa devem ser muito cautelosos em observar este ponto. Caso contrário, o dinheiro será causa de lamentação, ilusão, medo, ira, apego material, pobreza material e desnecessário trabalho árduo. Quando estava sozinho em Vṛndāvana, jamais procurei construir maṭhās ou templos; em vez disso, estava plenamente satisfeito com a pequena quantia de dinheiro que podia conseguir através da venda da revista Volta ao Supremo e, dessa forma, obtinha meu sustento e também imprimia minhas obras. Ao viajar para os países estrangeiros, vivi de acordo com esse mesmo princípio, mas, quando os europeus e os americanos passaram a doar dinheiro em profusão, abri templos nos quais dei início ao processo de adoração à Deidade. Ainda se deve seguir o mesmo princípio. Todo dinheiro que se colete deve ser gasto para Kṛṣṇa, e nem mesmo um centavo deve ser utilizado no gozo dos sentidos. Esse é o princípio bhāgavata.
मधुकारमहासर्पौ लोकेऽस्मिन्नो गुरूत्तमौ ।
वैराग्यं परितोषं च प्राप्ता यच्छिक्षया वयम् ॥ ३५ ॥
madhukāra-mahā-sarpau
loke ’smin no gurūttamau
vairāgyaṁ paritoṣaṁ ca
prāptā yac-chikṣayā vayam

Synonyms

madhukāraabelhas que vão de flor em flor para coletar mel; mahā-sarpaua grande serpente (o píton, que não se move de um lugar para o outro); lokeno mundo; asmineste; naḥnossos; gurumestres espirituais; uttamaude primeira classe; vairāgyamrenúncia; paritoṣam cae satisfação; prāptāḥobtidas; yat-śikṣayāmediante cuja instrução; vayamnós.

Translation

A abelha e o píton são dois excelentes mestres espirituais que nos dão instruções exemplares acerca de como alguém pode satisfazer-se coletando apenas um pouco e como pode permanecer no mesmo lugar, prescindindo de mudanças.
विराग: सर्वकामेभ्य: शिक्षितो मे मधुव्रतात् ।
कृच्छ्राप्तं मधुवद्वित्तं हत्वाप्यन्यो हरेत्पतिम् ॥ ३६ ॥
virāgaḥ sarva-kāmebhyaḥ
śikṣito me madhu-vratāt
kṛcchrāptaṁ madhuvad vittaṁ
hatvāpy anyo haret patim

Synonyms

virāgaḥdesapego; sarva-kāmebhyaḥde todos os desejos materiais; śikṣitaḥfoi ensinado; mea mim; madhu-vratātpela abelha; kṛcchracom muita dificuldade; āptamadquirido; madhu-vattão bom como o mel (“o dinheiro é doce”); vittamdinheiro; hatvāmatando; apimesmo; anyaḥoutrem; haretleva; patimo dono.

Translation

Com a abelha, aprendi a ser indiferente ao acúmulo de dinheiro, pois, embora o dinheiro seja tão bom como o mel, qualquer pessoa pode matar alguém que o possua e depois pegar o dinheiro.

Purport

SIGNIFICADO—O mel acumulado no favo é levado embora à força. Portanto, alguém que acumula dinheiro deve compreender que pode ser importunado pelo governo ou por ladrões ou pode inclusive ser morto por inimigos. Em especial nesta era, Kali-yuga, declara-se que, em vez de proteger o dinheiro dos cidadãos, o próprio governo, apoiando-se na força da lei, usurpa-lhes o dinheiro. Portanto, o brāhmaṇa erudito decidira que não deveria acumular nenhum dinheiro. Deve-se possuir apenas o que for necessário para os gastos imediatos. Não é preciso dispor de um grande saldo e, ao mesmo tempo, ficar com medo de que ele possa ser saqueado pelo governo ou por ladrões.
अनीह: परितुष्टात्मा यद‍ृच्छोपनतादहम् ।
नो चेच्छये बह्वहानि महाहिरिव सत्त्ववान् ॥ ३७ ॥
anīhaḥ parituṣṭātmā
yadṛcchopanatād aham
no cec chaye bahv-ahāni
mahāhir iva sattvavān

Synonyms

anīhaḥsem desejo de continuar aumentando as posses; parituṣṭamuito satisfeito; ātmāo eu; yadṛcchāespontaneamente, sem esforço; upanatātpor coisas conquistadas através da posse; ahameu; nonão; cetse assim; śayedeito-me; bahumuitos; ahānidias; mahā-ahiḥum píton; ivacomo; sattva-vāntolerando.

Translation

Não me esforço por obter nada, senão que estou satisfeito com o que quer que seja conseguido espontaneamente. Se não obtenho nada, permaneço paciente e inabalável como o píton e fico aqui deitado por muitos dias.

Purport

SIGNIFICADO—Deve-se aprender o desapego com a abelha, pois ela coleta gotas de mel aqui e ali e guarda isso no favo, mas depois vem alguém e, à força, leva todo o mel, deixando a abelha sem nada. Portanto, deve-se aprender com a abelha a não se manter mais dinheiro do que o necessário. Da mesma forma, deve-se aprender com o píton que, embora não haja alimento, a pessoa deve permanecer no mesmo lugar por muitíssimos dias e, então, comer apenas algo que venha espontaneamente. Assim, o brāhmaṇa erudito deu instruções obtidas de duas criaturas, a saber, a abelha e o píton.
क्‍वचिदल्पं क्‍वचिद्भ‍ूरि भुञ्जेऽन्नं स्वाद्वस्वादु वा ।
क्‍वचिद्भ‍ूरि गुणोपेतं गुणहीनमुत क्व‍चित् ।
श्रद्धयोपहृतं क्व‍ापि कदाचिन्मानवर्जितम् ।
भुञ्जे भुक्त्वाथ कस्मिंश्चिद्दिवा नक्तं यद‍ृच्छया ॥ ३८ ॥
kvacid alpaṁ kvacid bhūri
bhuñje ’nnaṁ svādv asvādu vā
kvacid bhūri guṇopetaṁ
guṇa-hīnam uta kvacit
śraddhayopahṛtaṁ kvāpi
kadācin māna-varjitam
bhuñje bhuktvātha kasmiṁś cid
divā naktaṁ yadṛcchayā

Synonyms

kvacitàs vezes; alpampouquíssimo; kvacitàs vezes; bhūriuma grande quantidade; bhuñjeeu como; annamalimento; svādusaboroso; asvāduestragado; ou; kvacitàs vezes; bhūrigrande; guṇa-upetamum gosto agradável; guṇa-hīnaminsípido; utase; kvacitàs vezes; śraddhayācom respeito; upahṛtamtrazido por alguém; kvāpiàs vezes; kadācitàs vezes; māna-varjitamoferecido sem respeito; bhuñjecomo; bhuktvāapós comer; athadessa forma; kasmin citàs vezes, em algum lugar; divādurante o dia; naktamou à noite; yadṛcchayācomo estiver disponível.

Translation

Às vezes, eu como uma pouquíssima quantidade e, outras vezes, uma grande quantidade. Às vezes, o alimento é muito saboroso e, outras vezes, está estragado. Às vezes, a prasāda é oferecida com muito respeito, mas outras vezes o alimento é dado com negligência. Às vezes, como durante o dia e, às vezes, à noite. Dessa forma, eu como o que estiver facilmente disponível.
क्षौमं दुकूलमजिनं चीरं वल्कलमेव वा ।
वसेऽन्यदपि सम्प्राप्तं दिष्टभुक्तुष्टधीरहम् ॥ ३९ ॥
kṣaumaṁ dukūlam ajinaṁ
cīraṁ valkalam eva vā
vase ’nyad api samprāptaṁ
diṣṭa-bhuk tuṣṭa-dhīr aham

Synonyms

kṣaumamvestimenta de linho; dukūlamseda ou algodão; ajinampele de veado; cīramtanga; valkalamcasca de árvore; evacomo for; ou; vasevisto; anyatalguma outra coisa; apiembora; samprāptamo que estiver disponível; diṣṭa-bhukdevido ao destino; tuṣṭasatisfeita; dhīḥmente; ahamsou.

Translation

Para cobrir meu corpo, uso aquilo que estiver disponível, seja linho, seda, algodão, casca de árvore ou pele de veado, de acordo com o meu destino, e fico completamente satisfeito e inabalável.
क्व‍चिच्छये धरोपस्थे तृणपर्णाश्मभस्मसु ।
क्व‍चित्प्रासादपर्यङ्के कशिपौ वा परेच्छया ॥ ४० ॥
kvacic chaye dharopasthe
tṛṇa-parṇāśma-bhasmasu
kvacit prāsāda-paryaṅke
kaśipau vā parecchayā

Synonyms

kvacitàs vezes; śayedeito-me; dhara-upasthena superfície da terra; tṛṇana grama; parṇafolhas; aśmapedra; bhasmasuou em um monte de cinzas; kvacitàs vezes; prāsādaem palácios; paryaṅkeem uma cama de primeira qualidade; kaśipauem um travesseiro; ou; parade outrem; icchayāpelo desejo.

Translation

Ora me deito na superfície da terra, ora me deito sobre folhas, grama ou pedra, ora me deito sobre um monte de cinzas, ora, pelo desejo de outros, eu me deito em um palácio, onde me é oferecida uma excelente cama com travesseiros.

Purport

SIGNIFICADO—A descrição apresentada pelo brāhmaṇa erudito indica as diferentes classes de nascimentos, pois o ser vivo se deita conforme o corpo que ele tem. Às vezes, nasce-se como animal e, outras vezes, como rei. Quem nasce como animal deve deitar-se no chão, e quem nasce como rei ou um homem muito rico recebe a permissão de ir deitar-se em quartos de palácios primorosos, enormes e decorados com camas e outras mobílias. Todavia, semelhantes facilidades não estão disponíveis pelo simples desejo da entidade viva; em vez disso, elas são disponíveis através do desejo supremo (parecchayā), ou através do arranjo de māyā. Como se declara na Bhagavad-gītā (18.61):
īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ
hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati
bhrāmayan sarva-bhūtāni
yantrārūḍhāni māyayā
“O Senhor Supremo está situado no coração de todos, ó Arjuna, e está dirigindo as andanças de todas as entidades vivas, que estão sentadas em um tipo de máquina feita de energia material.” De acordo com seus desejos materiais, a entidade viva recebe diferentes classes de corpos, os quais não passam de máquinas que a natureza material lhe oferece em obediência à ordem da Suprema Personalidade de Deus. Mediante o desejo do Supremo, todos devem aceitar diferentes corpos com diferentes recursos para se deitarem.
क्व‍चित्स्‍नातोऽनुलिप्ताङ्ग: सुवासा: स्रग्व्यलङ्‌कृत: ।
रथेभाश्वैश्चरे
क्व‍ापि दिग्वासा ग्रहवद्विभो ॥ ४१ ॥
kvacit snāto ’nuliptāṅgaḥ
suvāsāḥ sragvy alaṅkṛtaḥ
rathebhāśvaiś care kvāpi
dig-vāsā grahavad vibho

Synonyms

kvacitàs vezes; snātaḥbanhando-me muito bem; anulipta-aṅgaḥtodo o corpo untado com polpa de sândalo; su-vāsāḥvestindo-me com trajes finíssimos; sragvīdecorado com guirlandas de flores; alaṅkṛtaḥusando diferentes classes de ornamentos; rathaem uma quadriga; ibhaem um elefante; aśvaiḥou no dorso de um cavalo; carevagueio; kvāpiàs vezes; dik-vāsāḥcompletamente nu; graha-vatcomo se estivesse sendo perseguido por fantasmas; vibhoó senhor.

Translation

Algumas vezes, ó meu senhor, banho-me muito bem, unto todo o meu corpo com polpa de sândalo, uso uma guirlanda de flores e me visto com trajes e ornamentos finíssimos. Então, montado no dorso de um elefante ou em uma quadriga ou em um cavalo, viajo como se fosse um rei. Às vezes, todavia, viajo despido, como uma pessoa perseguida por fantasmas.
नाहं निन्दे न च स्तौमि स्वभावविषमं जनम् ।
एतेषां श्रेय आशासे
उतैकात्म्यं महात्मनि ॥ ४२ ॥
nāhaṁ ninde na ca staumi
sva-bhāva-viṣamaṁ janam
eteṣāṁ śreya āśāse
utaikātmyaṁ mahātmani

Synonyms

nanão; ahameu; nindeblasfemo; nanem; catambém; staumilouvo; sva-bhāvacuja natureza; viṣamamcontraditória; janamuma entidade viva ou ser humano; eteṣāmde todos eles; śreyaḥo benefício último; āśāseoro por; utana verdade; aikātmyamunidade; mahā-ātmanina Superalma, o Parabrahman (Kṛṣṇa).

Translation

Diferentes pessoas têm diferentes mentalidades. Portanto, não me cabe louvá-las ou blasfemá-las. Só desejo o bem-estar delas, esperando que elas concordem em se tornarem unas com a Superalma, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa.

Purport

SIGNIFICADO—Assim que chega à plataforma de bhakti-yoga, a pessoa compreende plenamente que Vāsudeva, a Suprema Personalidade de Deus, é a meta da vida (vāsudevaḥ sarvam iti sa mahātmā sudurlabhaḥ). Essa é a instrução de toda a literatura védica (vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ, sarva dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja). Não faz sentido louvar as qualificações materiais de alguém ou blasfemá-lo porque ele tem desqualificações materiais. No mundo material, bondade ou maldade não têm significado porque, se alguém for bom, poderá ser elevado ao sistema planetário superior, mas, se ele for mau, poderá ser rebaixado aos sistemas planetários inferiores. Pessoas de diferentes mentalidades ora se elevam, ora se degradam, mas essa não é a meta da vida. Ao contrário, a meta da vida consiste em a pessoa se livrar da elevação ou degradação e adotar a consciência de Kṛṣṇa. Portanto, a pessoa santa não discrimina entre o que é supostamente bom e supostamente mau; em vez disso, ela deseja que todos sejam felizes em consciência de Kṛṣṇa, pois é nisso que consiste a meta última da vida.
विकल्पं जुहुयाच्चित्तौ तां मनस्यर्थविभ्रमे ।
मनो वैकारिके हुत्वा तं मायायां जुहोत्यनु ॥ ४३ ॥
vikalpaṁ juhuyāc cittau
tāṁ manasy artha-vibhrame
mano vaikārike hutvā
taṁ māyāyāṁ juhoty anu

Synonyms

vikalpamdiscriminação (entre bondade e maldade, uma e outra pessoa, uma e outra nação, e qualquer discriminação semelhante); juhuyātdeve-se apresentar como oblações; cittauno fogo da consciência; tāmessa consciência; manasina mente; artha-vibhramea raiz de toda a aceitação e rejeição; manaḥessa mente; vaikārikeno falso ego, através do qual alguém se identifica com a matéria; hutvāapresentando como oblações; tameste falso ego; māyāyāmna totalidade da energia material; juhotiapresenta como oblações; anuseguindo este princípio.

Translation

A invenção mental em que alguém discrimina entre bondade e maldade deve ser aceita como uma unidade e, então, deve ser investida na mente, a qual, por sua vez, deve ser investida no falso ego. O falso ego deve ser investido na totalidade da energia material. Esse é o processo para ele combater a falsa discriminação.

Purport

SIGNIFICADO—Este verso descreve como o yogī pode libertar-se da afeição material. Devido à atração material, o karmī não pode ver a si mesmo. Os jñānīs podem discriminar entre matéria e espírito, mas os yogīs, dentre os quais os bhakti-yogīs são os melhores, querem retornar ao lar, retornar ao Supremo. Os karmīs estão em completa ilusão, os jñānīs não estão nem em ilusão nem em conhecimento positivo, ao passo que os yogīs, especialmente os bhakti-yogīs, estão completamente na plataforma espiritual. Como se confirma na Bhagavad-gītā (14.26):
māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
“Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno e não falha em circunstância alguma, transcende de imediato os modos da natureza material e chega, então, ao nível de Brahman.” Com isso, vê-se que a posição do devoto é segura. O devoto se eleva de imediato à plataforma espiritual, ao passo que os outros, tais como os jñānīs e os haṭha-yogīs, para ascenderem à plataforma espiritual, submetem-se a processos graduais: a anulação de sua discriminação material através de métodos psicológicos e a supressão do falso ego, através do qual alguém pensa: “Eu sou este corpo, um produto da matéria.” O falso ego deve ser imergido na totalidade da energia material, a qual deve ser imergida no energético supremo. Esse é o processo para a pessoa se libertar da atração material.
आत्मानुभूतौ तां मायां जुहुयात्सत्यद‍ृङ्‍मुनि: ।
ततो निरीहो विरमेत् स्वानुभूत्यात्मनि स्थित: ॥ ४४ ॥
ātmānubhūtau tāṁ māyāṁ
juhuyāt satya-dṛṅ muniḥ
tato nirīho viramet
svānubhūty-ātmani sthitaḥ

Synonyms

ātma-anubhūtauna autorrealização; tāmisto; māyāmo falso ego da existência material; juhuyātdeve apresentar como oblação; satya-dṛkalguém que realmente compreendeu a verdade última; muniḥsemelhante pessoa introspectiva; tataḥdevido a essa autorrealização; nirīhaḥsem desejos materiais; virametdeve-se afastar por completo das atividades materiais; sva-anubhūti-ātmaniem autorrealização; sthitaḥestando então situada.

Translation

A pessoa erudita e introspectiva deve perceber que a existência material é uma ilusão. Isso só se faz possível através da autorrealização. A pessoa autorrealizada, que realmente viu a verdade, deve afastar-se de todas as atividades materiais, situando-se na autorrealização.

Purport

SIGNIFICADO—Mediante o estudo analítico de toda a constituição do corpo, certamente é possível chegar à conclusão de que a alma é diferente de todos os elementos materiais do corpo, tais como terra, água, fogo e ar. Por conseguinte, a diferença entre o corpo e a alma pode ser percebida por alguém que é introspectivo (manīṣī ou muni), o qual, após compreender dessa maneira a alma espiritual individual, pode muito facilmente compreender a alma espiritual suprema. Então, quem compreende que a alma individual é subordinada à alma espiritual suprema atinge a autorrealização. Como se explica no décimo terceiro capítulo da Bhagavad-gītā, há duas almas dentro do corpo. O corpo se chama kṣetra, e há dois kṣetra-jñas, ou ocupantes do corpo, a saber, a Superalma (Paramātmā) e a alma individual. A Superalma e a alma individual são como dois pássaros situados na mesma árvore (o corpo material). Um deles, o pássaro individual e esquecido, está comendo o fruto da árvore, não se importando com as instruções do outro pássaro, o qual, sendo testemunha das atividades do primeiro pássaro, também é seu amigo. Ao compreender o amigo supremo que, em diferentes corpos, está sempre com ele e tenta orientá-lo, o pássaro abandona seu antigo esquecimento e se refugia nos pés de lótus do pássaro supremo. Como se explica no processo de yoga, dhyānāvasthita-tad-gatena manasā paśyanti yaṁ yoginaḥ. Quando alguém se torna de fato um yogī perfeito, ele pode ver o amigo supremo e se render a Ele através da meditação. Esse é o início do bhakti-yoga, ou vida em verdadeira consciência de Kṛṣṇa.
स्वात्मवृत्तं मयेत्थं ते सुगुप्तमपि वर्णितम् ।
व्यपेतं लोकशास्त्राभ्यां भवान्हि भगवत्पर: ॥ ४५ ॥
svātma-vṛttaṁ mayetthaṁ te
suguptam api varṇitam
vyapetaṁ loka-śāstrābhyāṁ
bhavān hi bhagavat-paraḥ

Synonyms

sva-ātma-vṛttama informação sobre a história da autorrealização; mayāpor mim; itthamdessa maneira; tea ti; su-guptamextremamente confidencial; apiembora; varṇitamexplicada; vyapetamsem; loka-śāstrābhyāma opinião dos homens ou obras comuns; bhavāntu mesmo; hina verdade; bhagavat-paraḥtendo compreendido plenamente a Personalidade de Deus.

Translation

Prahlāda Mahārāja, decerto és uma alma autorrealizada e um devoto do Senhor Supremo. Não te importas com a opinião pública ou com as pretensas escrituras. Foi por essa razão que não hesitei em descrever-te a história de minha autorrealização.

Purport

SIGNIFICADO—A pessoa que é um verdadeiro devoto de Kṛṣṇa não se importa com a presumível opinião pública, tampouco com os textos védicos ou filosóficos. Prahlāda Mahārāja, um desses devotos, sempre desafiava as falsas instruções de seu pai e pretensos professores, os quais foram designados para instruí-lo. Em vez disso, ele simplesmente seguia as instruções de Nārada Muni, seu guru, e assim sempre permanecia um devoto intrépido. Essa é a natureza do devoto inteligente. O Śrīmad-Bhāgavatam ensina: yajñaiḥ saṅkīrtana-prāyair yajanti hi sumedhasaḥ. Alguém que é de fato muito inteligente deve aderir ao movimento da consciência de Kṛṣṇa, e, como compreende que ele é, na verdade, um servo eterno de Kṛṣṇa, pratica então o canto constante do santo nome do Senhor – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.
श्रीनारद उवाच
धर्मं पारमहंस्यं वै मुने: श्रुत्वासुरेश्वर: ।
पूजयित्वा तत: प्रीत आमन्‍त्र्यप्रययौ गृहम् ॥ ४६ ॥
śrī-nārada uvāca
dharmaṁ pāramahaṁsyaṁ vai
muneḥ śrutvāsureśvaraḥ
pūjayitvā tataḥ prīta
āmantrya prayayau gṛham

Synonyms

śrī-nāradaḥ uvacaŚrī Nārada Muni disse; dharmamo dever ocupacional; pāramahaṁsyamdos paramahaṁsas, os seres humanos mais perfeitos; vaina verdade; muneḥda pessoa santa; śrutvāouvindo então; asura-īśvaraḥo rei dos asuras, Prahlāda Mahārāja; pūjayitvāadorando o santo; tataḥdepois disso; prītaḥestando muito satisfeito; āmantryarecebendo permissão; prayayaudeixou aquele lugar; gṛhamrumo a seu lar.

Translation

Nārada Muni continuou: Após ouvir essas instruções transmitidas pelo santo, Prahlāda Mahārāja, o rei dos demônios, compreendeu os deveres ocupacionais da pessoa perfeita [paramahaṁsa]. Assim, tendo prestado ao santo a devida adoração, recebeu permissão deste e, então, partiu para o seu próprio lar.

Purport

SIGNIFICADO—Conforme a citação do Caitanya-caritāmṛta (Madhya 8.128), Śrī Caitanya Mahāprabhu disse:
kibā vipra, kibā nyāsī, śūdra kene naya
yei kṛṣṇa-tattva-vettā sei ‘guru’ haya
Todo aquele que é versado na ciência de Kṛṣṇa pode ser guru, ou mestre espiritual. Portanto, embora fosse um gṛhastha que governava os demônios, Prahlāda Mahārāja era um paramahaṁsa, o melhor dos seres humanos, daí ele ser nosso guru. Portanto, na lista de gurus, ou autoridades, menciona-se o nome de Prahlāda Mahārāja.
svayambhūr nāradaḥ śambhuḥ
kumāraḥ kapilo manuḥ
prahlādo janako bhīṣmo
balir vaiyāsakir vayam
(Bhāg. 6.3.20)
A conclusão é que o paramahaṁsa é um devoto sublime (bhagavat-priya). Semelhante paramahaṁsa pode estar em qualquer fase de vida – brahmacārī, gṛhastha, vānaprastha ou sannyāsa – e ostentar o mesmo grau de liberação e sublimidade.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do sétimo canto, décimo terceiro capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intituladoO Comportamento da Pessoa Perfeita.