Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Vinte e Um
Instruções de Mahārāja Pṛthu
Devanagari
Verse text
maitreya uvāca
mauktikaiḥ kusuma-sragbhir
dukūlaiḥ svarṇa-toraṇaiḥ
mahā-surabhibhir dhūpair
maṇḍitaṁ tatra tatra vai
mauktikaiḥ kusuma-sragbhir
dukūlaiḥ svarṇa-toraṇaiḥ
mahā-surabhibhir dhūpair
maṇḍitaṁ tatra tatra vai
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — o grande sábio Maitreya continuou a falar; mauktikaiḥ — com pérolas; kusuma — de flores; sragbhiḥ — com guirlandas; dukūlaiḥ — tecidos; svarṇa — dourados; toraṇaiḥ — com portões; mahā-surabhibhiḥ — muito perfumada; dhūpaiḥ — com incenso; maṇḍitam — decorada; tatra tatra — toda parte; vai — decerto.
Translation
grande sábio Maitreya disse a Vidura: Ao entrar o rei em sua cidade, ela estava muito belamente decorada para recebê-lo com pérolas, guirlandas de flores, belos tecidos e portões dourados, e toda a cidade estava perfumada com incensos muitos fragrantes.
Purport
SIGNIFICADO—A verdadeira riqueza provém de dádivas naturais, tais como ouro, prata, pérolas, pedras preciosas, flores frescas, árvores e tecidos de seda. Assim, a civilização védica recomenda opulência e decoração com essas dádivas naturais da Suprema Personalidade de Deus. Essa opulência imediatamente muda as condições mentais, e toda a atmosfera se espiritualiza. A capital do rei Pṛthu foi enfeitada com essas decorações muito opulentas.
Devanagari
चन्दनागुरुतोयार्द्ररथ्याचत्वरमार्गवत् ।
पुष्पाक्षतफलैस्तोक्मैर्लाजैरर्चिर्भिरर्चितम् ॥ २ ॥
पुष्पाक्षतफलैस्तोक्मैर्लाजैरर्चिर्भिरर्चितम् ॥ २ ॥
Verse text
candanāguru-toyārdra-
rathyā-catvara-mārgavat
puṣpākṣata-phalais tokmair
lājair arcirbhir arcitam
rathyā-catvara-mārgavat
puṣpākṣata-phalais tokmair
lājair arcirbhir arcitam
Synonyms
candana — sândalo; aguru — um tipo de erva fragrante; toya — a água de; ārdra — borrifado com; rathyā — um caminho destinado a quadrigas; catvara — pequenos parques; mārgavat — veredas; puṣpa — flores; akṣata — frescas; phalaiḥ — pelas frutas; tokmaiḥ — minerais; lājaiḥ — cereais molhados; arcirbhiḥ — por lamparinas; arcitam — decorada.
Translation
Com perfume destilado de sândalo e da erva aguru, borrifou-se todos os locais: as veredas, as estradas e os pequenos parques por toda a cidade, e, em todo lugar, havia decorações de frutas frescas, flores, cereais molhados, vários minerais e lamparinas, tudo oferecido como parafernália auspiciosa.
Devanagari
सवृन्दै: कदलीस्तम्भै: पूगपोतै: परिष्कृतम् ।
तरुपल्लवमालाभि: सर्वत: समलङ्कृतम् ॥ ३ ॥
तरुपल्लवमालाभि: सर्वत: समलङ्कृतम् ॥ ३ ॥
Verse text
savṛndaiḥ kadalī-stambhaiḥ
pūga-potaiḥ pariṣkṛtam
taru-pallava-mālābhiḥ
sarvataḥ samalaṅkṛtam
pūga-potaiḥ pariṣkṛtam
taru-pallava-mālābhiḥ
sarvataḥ samalaṅkṛtam
Synonyms
sa-vṛndaiḥ — juntamente com frutas e flores; kadalī-stambhaiḥ — pelos caules de bananeiras; pūga-potaiḥ — por grupos de animais novos e por procissões de elefantes; pariṣkṛtam — muito bem limpa; taru — plantas novas; pallava — folhas novas de mangueiras; mālābhiḥ — por guirlandas; sarvataḥ — toda parte; samalaṅkṛtam — muito bem decorada.
Translation
Nos cruzamentos das ruas, havia cachos de frutas e ramalhetes de flores, bem como caules de bananeiras e ramos de noz de betel. Todas essas decorações dispostas em toda parte tornavam tudo muito atrativo.
Devanagari
प्रजास्तं दीपबलिभि: सम्भृताशेषमङ्गलै: ।
अभीयुर्मृष्टकन्याश्च मृष्टकुण्डलमण्डिता: ॥ ४ ॥
अभीयुर्मृष्टकन्याश्च मृष्टकुण्डलमण्डिता: ॥ ४ ॥
Verse text
prajās taṁ dīpa-balibhiḥ
sambhṛtāśeṣa-maṅgalaiḥ
abhīyur mṛṣṭa-kanyāś ca
mṛṣṭa-kuṇḍala-maṇḍitāḥ
sambhṛtāśeṣa-maṅgalaiḥ
abhīyur mṛṣṭa-kanyāś ca
mṛṣṭa-kuṇḍala-maṇḍitāḥ
Synonyms
prajāḥ — cidadãos; tam — a ele; dīpa-balibhiḥ — com lamparinas; sambhṛta — equipados com; aśeṣa — ilimitados; maṅgalaiḥ — artigos auspiciosos; abhīyuḥ — adiantaram-se para dar as boas-vindas; mṛṣṭa — com belo brilho corpóreo; kanyāḥ ca — e mocinhas solteiras; mṛṣṭa — colidindo com; kuṇḍala — brincos; maṇḍitāḥ — estando adornados com.
Translation
Quando o rei atravessou o portão da cidade, todos os cidadãos receberam-no com muitos artigos auspiciosos, como lamparinas, flores e iogurte. O rei também foi recebido por muitas mocinhas solteiras e belas, cujos corpos estavam adornados com vários enfeites, especialmente com brincos que tilintavam uns contra os outros.
Purport
SIGNIFICADO—O oferecimento de produtos naturais, tais como nozes de betel, bananas, trigo recém-colhido, arroz, iogurte e vermelhão, transportados pelos cidadãos e espalhados por toda a cidade, são artigos muito auspiciosos, segundo a civilização védica, para a recepção de um visitante importante, tal como um noivo, rei ou o mestre espiritual. Da mesma forma, é auspiciosa uma recepção de boas-vindas oferecida por mocinhas solteiras que são limpas interna e externamente e se vestem com boas roupas e adornos. Kumārī, ou mocinhas solteiras que não foram tocadas por qualquer pessoa do sexo oposto, são membros auspiciosos da sociedade. Mesmo hoje em dia, na sociedade hindu, as famílias mais conservadoras não permitem que mocinhas solteiras saiam livremente ou se misturem com rapazes. Elas são protegidas com muito cuidado pelos pais enquanto solteiras. Após o casamento, são protegidas por seus jovens esposos. E, quando ficam idosas, são protegidas por seus filhos. Assim protegidas, as mulheres, como uma classe, permanecem sempre uma auspiciosa fonte de energia para o homem.
Devanagari
शङ्खदुन्दुभिघोषेण ब्रह्मघोषेण चर्त्विजाम् ।
विवेश भवनं वीर: स्तूयमानो गतस्मय: ॥ ५ ॥
विवेश भवनं वीर: स्तूयमानो गतस्मय: ॥ ५ ॥
Verse text
śaṅkha-dundubhi-ghoṣeṇa
brahma-ghoṣeṇa cartvijām
viveśa bhavanaṁ vīraḥ
stūyamāno gata-smayaḥ
brahma-ghoṣeṇa cartvijām
viveśa bhavanaṁ vīraḥ
stūyamāno gata-smayaḥ
Synonyms
Translation
Quando o rei entrou no palácio, búzios e timbales ressoaram, sacerdotes cantaram mantras védicos e recitadores profissionais ofereceram diferentes orações. Contudo, apesar de toda essa cerimônia. para lhe dar as boas-vindas, o rei não se sentiu nem um pouco orgulhoso.
Purport
SIGNIFICADO—A recepção dada ao rei era cheia de opulências, mas ele não se envaideceu. Afirma-se, portanto, que as grandes personalidades, poderosas e opulentas, nunca ficam orgulhosas, e dá-se o exemplo de uma árvore cheia de frutos e flores que não permanece ereta, orgulhosamente, mas, ao contrário, pende para baixo, mostrando submissão. Esse é o sinal do maravilhoso caráter de grandes personalidades.
Devanagari
पूजित: पूजयामास तत्र तत्र महायशा: ।
पौराञ्जानपदांस्तांस्तान्प्रीत: प्रियवरप्रद: ॥ ६ ॥
पौराञ्जानपदांस्तांस्तान्प्रीत: प्रियवरप्रद: ॥ ६ ॥
Verse text
pūjitaḥ pūjayām āsa
tatra tatra mahā-yaśāḥ
paurāñ jānapadāṁs tāṁs tān
prītaḥ priya-vara-pradaḥ
tatra tatra mahā-yaśāḥ
paurāñ jānapadāṁs tāṁs tān
prītaḥ priya-vara-pradaḥ
Synonyms
pūjitaḥ — sendo adorado; pūjayām āsa — ofereceram adoração; tatra tatra — aqui e ali; mahā-yaśāḥ — com um passado de grandes atividades; paurān — os homens nobres da cidade; jāna-padān — cidadãos comuns; tān tān — dessa maneira; prītaḥ — estando satisfeito; priya-vara-pradaḥ — estava pronto para lhes oferecer todas as bênçãos.
Translation
Tanto os cidadãos importantes quanto os cidadãos comuns deram suas sinceras boas-vindas ao rei, e ele também lhes concedeu as bênçãos que desejavam.
Purport
SIGNIFICADO—Reis responsáveis sempre foram acessíveis a seus cidadãos. De um modo geral, os cidadãos, importantes ou comuns, aspiravam todos a ver o rei e receber suas bênçãos. O rei sabia disso, de modo que sempre que se encontrava com os cidadãos e imediatamente realizava seus desejos ou mitigava seus pesares. À luz desses relacionamentos, uma monarquia responsável é melhor do que um governo supostamente democrático que não se sente responsável por mitigar as dores dos cidadãos, incapazes de se encontrarem pessoalmente com o líder executivo supremo. Em monarquias responsáveis, os cidadãos não tinham queixas contra o governo e, mesmo que as tivessem, podiam aproximar-se diretamente do rei para que suas necessidades fossem supridas de imediato.
Devanagari
स एवमादीन्यनवद्यचेष्टित:
कर्माणि भूयांसि महान्महत्तम: ।
कुर्वन् शशासावनिमण्डलं यश:
स्फीतं निधायारुरुहे परं पदम् ॥ ७ ॥
कर्माणि भूयांसि महान्महत्तम: ।
कुर्वन् शशासावनिमण्डलं यश:
स्फीतं निधायारुरुहे परं पदम् ॥ ७ ॥
Verse text
sa evam ādīny anavadya-ceṣṭitaḥ
karmāṇi bhūyāṁsi mahān mahattamaḥ
kurvan śaśāsāvani-maṇḍalaṁ yaśaḥ
sphītaṁ nidhāyāruruhe paraṁ padam
karmāṇi bhūyāṁsi mahān mahattamaḥ
kurvan śaśāsāvani-maṇḍalaṁ yaśaḥ
sphītaṁ nidhāyāruruhe paraṁ padam
Synonyms
saḥ — o rei Pṛthu; evam — assim; ādīni — desde o começo; anavadya — magnânimo; ceṣṭitaḥ — realizando vários trabalhos; karmāṇi — trabalho; bhūyāṁsi — repetidamente; mahān — grande; mahat-tamaḥ — maior que o maior; kurvan — realizando; śaśāsa — governou; avani-maṇḍalam — à superfície da Terra; yaśaḥ — reputação; sphītam — muito difundida; nidhāya — alcançando; āruruhe — foi elevado; param padam — aos pés de lótus do Senhor Supremo.
Translation
O rei Pṛthu era mais grandioso do que as almas mais grandiosas e, portanto, adorável para todos. Ele realizou muitas atividades gloriosas governando a extensão do mundo e era sempre magnânimo. Após alcançar tão grande sucesso e uma reputação que se espalhava por todo o universo, ele finalmente obteve os pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus.
Purport
SIGNIFICADO—Um rei ou líder executivo responsável tem muitos deveres de grande responsabilidade para cumprir no governo dos cidadãos. O dever mais importante do monarca ou do governo é realizar vários sacrifícios, conforme prescrevem os textos védicos. O próximo dever do rei é garantir que todos os cidadãos cumpram os deveres prescritos de sua comunidade em particular. É dever do rei certificar que todos cumpram perfeitamente os deveres prescritos para as divisões de varṇa e āśrama da sociedade. Além disso, como o rei Pṛthu exemplificou, o rei deve cultivar a terra para produzir o máximo possível de grãos alimentícios.
Há diferentes classes de grandes personalidades – algumas grandes personalidades estão no grau positivo, outras no comparativo e outras no superlativo –, mas o rei Pṛthu excedeu todas. Portanto, ele é descrito aqui como mahat-tamaḥ, “maior do que o maior”. Mahārāja Pṛthu foi um kṣatriya, e cumpriu seus deveres de kṣatriya perfeitamente. Do mesmo modo, os brāhmaṇas, vaiśyas e śūdras podem desempenhar seus respectivos deveres perfeitamente e, assim, com o término desta vida, serem promovidos ao mundo transcendental, que se chama paraṁ padam. Somente é possível alcançar paraṁ padam, ou os planetas Vaikuṇṭha, através do serviço devocional. A região do Brahman impessoal também é chamada paraṁ padam, mas, a não ser que nos apeguemos à Personalidade de Deus, somos forçados a cair novamente da posição paraṁ padam impessoal, retornando ao mundo material. Afirma-se, portanto, que āruhya kṛcchreṇa paraṁ padam tataḥ: os impersonalistas esforçam-se muito arduamente para alcançar paraṁ padam, ou o brahmajyoti impessoal, mas, infelizmente, estando desprovidos de uma relação com a Suprema Personalidade de Deus, eles recaem no mundo material. Se alguém voa no espaço exterior, pode subir muito alto, mas, a menos que alcance algum planeta, tem que retornar à Terra. Do mesmo modo, como os impersonalistas que alcançam o paraṁ padam do brahmajyoti impessoal não entram nos planetas Vaikuṇṭha, eles descem de novo a este mundo material, onde se refugiam em um dos planetas materiais. Mesmo que alcancem Brahmaloka, ou Satyaloka, todos esses planetas estão situados no mundo material.
Devanagari
सूत उवाच
तदादिराजस्य यशो विजृम्भितं
गुणैरशेषैर्गुणवत्सभाजितम् ।
क्षत्ता महाभागवत: सदस्पते
कौषारविं प्राह गृणन्तमर्चयन् ॥ ८ ॥
तदादिराजस्य यशो विजृम्भितं
गुणैरशेषैर्गुणवत्सभाजितम् ।
क्षत्ता महाभागवत: सदस्पते
कौषारविं प्राह गृणन्तमर्चयन् ॥ ८ ॥
Verse text
sūta uvāca
tad ādi-rājasya yaśo vijṛmbhitaṁ
guṇair aśeṣair guṇavat-sabhājitam
kṣattā mahā-bhāgavataḥ sadaspate
kauṣāraviṁ prāha gṛṇantam arcayan
tad ādi-rājasya yaśo vijṛmbhitaṁ
guṇair aśeṣair guṇavat-sabhājitam
kṣattā mahā-bhāgavataḥ sadaspate
kauṣāraviṁ prāha gṛṇantam arcayan
Synonyms
sūtaḥ uvāca — Sūta Gosvāmī disse; tat — esta; ādi-rājasya — do rei original; yaśaḥ — reputação; vijṛmbhitam — altamente qualificado; guṇaiḥ — por qualidades; aśeṣaiḥ — ilimitadas; guṇa-vat — adequadamente; sabhājitam — sendo louvado; kṣattā — Vidura; mahā-bhāgavataḥ — o devoto santo e grandioso; sadaḥ-pate — líder dos grandes sábios; kauṣāravim — a Maitreya; prāha — disse; gṛṇantam — enquanto falava; arcayan — prestando as mais respeitosas reverências.
Translation
Sūta Gosvāmī prosseguiu: Ó Śaunaka, líder dos grandes sábios, após ouvir Maitreya falar sobre as diversas atividades do rei Pṛthu, o rei original, que era plenamente qualificado, glorioso e amplamente louvado em todo o mundo, Vidura, o grande devoto, adorou Maitreya Ṛṣi com muita submissão e perguntou-lhe o seguinte.
Devanagari
विदुर उवाच
सोऽभिषिक्त: पृथुर्विप्रैर्लब्धाशेषसुरार्हण: ।
बिभ्रत् स वैष्णवं तेजो बाह्वोर्याभ्यां दुदोह गाम् ॥ ९ ॥
सोऽभिषिक्त: पृथुर्विप्रैर्लब्धाशेषसुरार्हण: ।
बिभ्रत् स वैष्णवं तेजो बाह्वोर्याभ्यां दुदोह गाम् ॥ ९ ॥
Verse text
vidura uvāca
so ’bhiṣiktaḥ pṛthur viprair
labdhāśeṣa-surārhaṇaḥ
bibhrat sa vaiṣṇavaṁ tejo
bāhvor yābhyāṁ dudoha gām
so ’bhiṣiktaḥ pṛthur viprair
labdhāśeṣa-surārhaṇaḥ
bibhrat sa vaiṣṇavaṁ tejo
bāhvor yābhyāṁ dudoha gām
Synonyms
viduraḥ uvāca — Vidura disse; saḥ — ele (rei Pṛthu); abhiṣiktaḥ — quando elevado ao trono; pṛthuḥ — rei Pṛthu; vipraiḥ — pelos grandes sábios e brāhmaṇas; labdha — obteve; aśeṣa — inúmeros; sura-arhaṇaḥ — presentes dos semideuses; bibhrat — expandindo; saḥ — ele; vaiṣṇavam — que recebeu através do Senhor Viṣṇu; tejaḥ — força; bāhvoḥ — braços; yābhyām — com os quais; dudoha — explorou; gām — a Terra.
Translation
Vidura disse: Meu querido brāhmaṇa Maitreya, é muito edificante saber que o rei Pṛthu foi entronado pelos grandes sábios e brāhmaṇas. Todos os semideuses deram-lhe inúmeros presentes, e ele também expandiu sua influência ao receber força pessoalmente do Senhor Viṣṇu. Assim, ele desenvolveu muito a Terra.
Purport
SIGNIFICADO—Como Pṛthu Mahārāja era uma encarnação dotada de poder do Senhor Viṣṇu e era naturalmente um grande devoto vaiṣṇava do Senhor, todos os semideuses estavam satisfeitos com ele e lhe deram diferentes presentes para ajudá-lo no exercício do poder real, e os grandes sábios e pessoas santas também se reuniram em sua coroação. Assim abençoado por eles, governou a Terra e explorou seus recursos para a máxima satisfação do povo. Isso já foi explicado nos capítulos anteriores, que tratam das atividades do rei Pṛthu. Como ficará evidente no verso seguinte, todo líder executivo do estado deve seguir os passos de Mahārāja Pṛthu ao governar seu reino. Independentemente de o chefe executivo ser rei ou presidente, ou de o governo ser monárquico ou democrático, este processo é tão perfeito que, se for seguido, todos se tornarão felizes, de maneira que será muito fácil para todos prestar serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
को न्वस्य कीर्तिं न शृणोत्यभिज्ञो
यद्विक्रमोच्छिष्टमशेषभूपा: ।
लोका: सपाला उपजीवन्ति काम-
मद्यापि तन्मे वद कर्म शुद्धम् ॥ १० ॥
यद्विक्रमोच्छिष्टमशेषभूपा: ।
लोका: सपाला उपजीवन्ति काम-
मद्यापि तन्मे वद कर्म शुद्धम् ॥ १० ॥
Verse text
ko nv asya kīrtiṁ na śṛṇoty abhijño
yad-vikramocchiṣṭam aśeṣa-bhūpāḥ
lokāḥ sa-pālā upajīvanti kāmam
adyāpi tan me vada karma śuddham
yad-vikramocchiṣṭam aśeṣa-bhūpāḥ
lokāḥ sa-pālā upajīvanti kāmam
adyāpi tan me vada karma śuddham
Synonyms
kaḥ — quem; nu — mas; asya — rei Pṛthu; kīrtim — atividades gloriosas; na śṛṇoti — não ouve; abhijñaḥ — inteligente; yat — sua; vikrama — bravura; ucchiṣṭam — restos; aśeṣa — inúmeros; bhūpāḥ — reis; lokāḥ — planetas; sa-pālāḥ — com seus semideuses; upajīvanti — ganham a subsistência; kāmam — objetos desejados; adya api — até isto; tat — isto; me — a mim; vada — por favor, fala; karma — atividades; śuddham — auspiciosas.
Translation
Pṛthu Mahārāja era tão grandioso em suas atividades e magnânimo em seu método de governar que todos os reis e semideuses dos vários planetas ainda seguem seus passos. Quem, então, não procurará ouvir sobre suas gloriosas atividades? Desejo ouvir cada vez mais sobre Pṛthu Mahārāja, porque suas atividades são muito piedosas e auspiciosas.
Purport
SIGNIFICADO—Ouvindo repetidas vezes sobre Pṛthu Mahārāja, o santo Vidura tencionava estabelecer um exemplo para os reis e chefes executivos comuns, que devem sentir-se inclinados a ouvir repetidamente sobre as atividades de Pṛthu Mahārāja a fim de também serem capazes de governar seus reinos ou estados muito lealmente, para a paz e prosperidade do povo. Infelizmente, no momento atual, ninguém se importa em ouvir sobre Mahārāja Pṛthu ou em seguir seus passos; portanto, nenhuma nação no mundo é feliz ou progressiva na compreensão espiritual, embora esta seja a única meta ou objetivo da vida humana.
Devanagari
मैत्रेय उवाच
गङ्गायमुनयोर्नद्योरन्तरा क्षेत्रमावसन् ।
आरब्धानेव बुभुजे भोगान् पुण्यजिहासया ॥ ११ ॥
गङ्गायमुनयोर्नद्योरन्तरा क्षेत्रमावसन् ।
आरब्धानेव बुभुजे भोगान् पुण्यजिहासया ॥ ११ ॥
Verse text
maitreya uvāca
gaṅgā-yamunayor nadyor
antarā kṣetram āvasan
ārabdhān eva bubhuje
bhogān puṇya-jihāsayā
gaṅgā-yamunayor nadyor
antarā kṣetram āvasan
ārabdhān eva bubhuje
bhogān puṇya-jihāsayā
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — o grande santo Maitreya disse; gaṅgā — o rio Ganges; yamunayoḥ — do rio Yamunā; nadyoḥ — dos dois rios; antarā — entre; kṣetram — a terra; āvasan — vivendo ali; ārabdhān — destinada; eva — como; bubhuje — desfrutava; bhogān — fortunas; puṇya — atividades piedosas; jihāsayā — com o propósito de reduzir.
Translation
O grande sábio e santo Maitreya disse a Vidura: Meu querido Vidura, o rei Pṛthu viveu na região entre os dois grandes rios Ganges e Yamunā. Por ser muito opulento, parecia que estava desfrutando da fortuna a ele destinada a fim de reduzir os resultados de suas atividades piedosas passadas.
Purport
SIGNIFICADO—Os termos “piedoso” e “ímpio” são aplicáveis apenas em referência às atividades de um ser vivo comum. Porém, Mahārāja Pṛthu era uma encarnação diretamente dotada de poder pelo Senhor Viṣṇu; portanto, ele não estava sujeito às reações de atividades piedosas ou impiedosas. Como já explicamos anteriormente, quando um ser vivo é especificamente dotado de poder pelo Senhor Supremo para agir com um objetivo em particular, ele se chama śaktyāveśa-avatāra. Pṛthu Mahārāja era não apenas um śaktyāveśa-avatāra, mas também um grande devoto. O devoto não está sujeito às reações resultantes de atos passados. A Brahma-saṁhitā afirma que karmāṇi nirdahati kintu ca bhakti-bhājām: a Suprema Personalidade de Deus anula os resultados de atividades passadas piedosas ou impiedosas dos devotos. As palavras ārabdhān eva significam “como se alcançadas mediante atividades passadas”, mas, no caso de Pṛthu Mahārāja, não havia possibilidade de reação a atos passados, e, deste modo, a palavra eva é usada aqui para indicar comparação com as pessoas comuns. Na Bhagavad-gītā, o Senhor diz: avajānanti māṁ mūḍhāḥ. Isso significa que às vezes as pessoas confundem uma encarnação da Suprema Personalidade de Deus com um homem comum. A Divindade Suprema, Suas encarnações ou Seus devotos podem se fazer passar por homens comuns, mas jamais devem ser considerados assim. Tampouco deve um homem comum, sem o apoio das afirmações autorizadas dos śāstras e dos ācāryas, ser aceito como uma encarnação ou devoto. Apoiado na evidência dos śāstras, Sanātana Gosvāmī percebeu que o Senhor Caitanya Mahāprabhu era uma encarnação direta de Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, embora o Senhor Caitanya nunca tivesse revelado o fato. Portanto, recomenda-se geralmente que não se entenda o ācārya, ou guru, como um homem comum.
Devanagari
सर्वत्रास्खलितादेश: सप्तद्वीपैकदण्डधृक् ।
अन्यत्र ब्राह्मणकुलादन्यत्राच्युतगोत्रत: ॥ १२ ॥
अन्यत्र ब्राह्मणकुलादन्यत्राच्युतगोत्रत: ॥ १२ ॥
Verse text
sarvatrāskhalitādeśaḥ
sapta-dvīpaika-daṇḍa-dhṛk
anyatra brāhmaṇa-kulād
anyatrācyuta-gotrataḥ
sapta-dvīpaika-daṇḍa-dhṛk
anyatra brāhmaṇa-kulād
anyatrācyuta-gotrataḥ
Synonyms
sarvatra — toda parte; askhalita — irrevogável; ādeśaḥ — ordem; sapta-dvīpa — sete ilhas; eka — um; daṇḍa-dhṛk — o governante que porta o cetro; anyatra — exceto; brāhmaṇa-kulāt — brāhmaṇas e pessoas santas; anyatra — exceto; acyuta-gotrataḥ — descendentes da Suprema Personalidade de Deus (vaiṣṇavas).
Translation
Mahārāja Pṛthu era um rei irrivalizável e possuía o cetro para governar todas as sete ilhas na superfície do globo. Ninguém podia desobedecer às suas ordens irrevogáveis, exceto as pessoas santas, os brāhmaṇas e os descendentes da Suprema Personalidade de Deus [os vaiṣṇavas].
Purport
SIGNIFICADO—Sapta-dvīpa refere-se às sete grandes ilhas, ou continentes, na superfície do globo: (1) Ásia, (2) Europa, (3) África, (4) América do Norte, (5) América do Sul, (6) Austrália e (7) Oceania. Na era moderna, as pessoas têm a impressão de que, durante o período védico ou as eras pré-históricas, os Estados Unidos e muitas outras partes do mundo não haviam sido descobertos, mas isso não é verdade. Pṛthu Mahārāja governou o mundo inteiro milhares de anos antes da dita era pré-histórica, e aqui se menciona claramente que, naqueles dias, todas as diferentes partes do mundo eram, não somente conhecidas, mas também governadas por um só rei, Mahārāja Pṛthu. O país onde Pṛthu Mahārāja residia deve ter sido a Índia, porque se afirma no décimo primeiro verso deste capítulo que ele vivia no trecho de terra entre os rios Ganges e Yamunā. Este trecho de terra, que se chama Brahmāvarta, consiste naquilo que é conhecido na era moderna como as regiões do Punjab e do norte da Índia. Fica evidente que os reis da Índia outrora governaram todo o mundo e que sua cultura era védica.
A palavra askhalita indica que ninguém em todo o mundo podia desobedecer às ordens do rei. Semelhantes ordens, contudo, nunca eram dadas com o intento de controlar pessoas santas ou os descendentes da Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu. O Senhor Supremo é conhecido como Acyuta, e o Senhor Kṛṣṇa é chamado assim por Arjuna na Bhagavad-gītā (senayor ubhayor madhye rathaṁ sthāpaya me ’cyuta). Acyuta se refere àquele que não cai por nunca ser influenciado pelos modos da natureza material. Ao cair de sua posição original para o mundo material, a entidade viva se torna cyuta, o que significa que ela se esquece de sua relação com Acyuta. Na verdade, toda entidade viva é parte integrante, ou filha, da Suprema Personalidade de Deus. Ao ser influenciada pelos modos da natureza material, a entidade viva se esquece dessa relação e pensa em termos de diferentes espécies de vida; porém, quando retorna à sua consciência original, ela não observa tais designações corpóreas. Indica-se isso na Bhagavad-gītā (5.18) através das palavras paṇḍitāḥ sama-darśinaḥ.
As designações materiais criam diferenciação em termos de casta, cor, credo, nacionalidade etc. Diferentes gotras, ou designações familiares, são distinções em termos do corpo material, mas quem atinge a consciência de Kṛṣṇa se torna de imediato um dos Acyuta-gotras, ou descendentes da Suprema Personalidade de Deus, e assim se torna transcendental a todas as considerações de casta, credo, cor e nacionalidade.
Pṛthu Mahārāja não tinha controle sobre brāhmaṇa-kula, que se refere aos estudiosos eruditos no conhecimento védico, nem sobre os vaiṣṇavas, que estão acima das considerações do conhecimento védico. Portanto, afirma-se:
arcye viṣṇau śilā-dhīr guruṣu nara-matir vaiṣṇave jāti-buddhir
viṣṇor vā vaiṣṇavānāṁ kali-mala-mathane pāda-tīrthe ’mbu-buddhiḥ
śrī-viṣṇor nāmni mantre sakala-kaluṣa-he śabda-sāmānya-buddhir
viṣṇau sarveśvareśe tad-itara-sama-dhīr yasya vā nārakī saḥ
viṣṇor vā vaiṣṇavānāṁ kali-mala-mathane pāda-tīrthe ’mbu-buddhiḥ
śrī-viṣṇor nāmni mantre sakala-kaluṣa-he śabda-sāmānya-buddhir
viṣṇau sarveśvareśe tad-itara-sama-dhīr yasya vā nārakī saḥ
“Pensar que a Deidade no templo é feita de madeira ou pedra, pensar que o mestre espiritual na sucessão discipular é um homem comum, pensar que o vaiṣṇava no Acyuta-gotra pertence a determinada casta ou determinado credo ou pensar que o caraṇāmṛta ou a água do Ganges são águas comuns – estas são características de um habitante do inferno.” (Padma Purāṇa)
A partir dos fatos apresentados neste verso, parece que a população em geral deve ser controlada por um rei até que chegue à plataforma de vaiṣṇavas ou brāhmaṇas, que não estão sob o controle de ninguém. Brāhmaṇa se refere àquele que conhece o Brahman, ou o aspecto impessoal da Verdade Absoluta, e o vaiṣṇava é aquele que serve à Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
एकदासीन्महासत्रदीक्षा तत्र दिवौकसाम् ।
समाजो ब्रह्मर्षीणां च राजर्षीणां च सत्तम ॥ १३ ॥
समाजो ब्रह्मर्षीणां च राजर्षीणां च सत्तम ॥ १३ ॥
Verse text
ekadāsīn mahā-satra-
dīkṣā tatra divaukasām
samājo brahmarṣīṇāṁ ca
rājarṣīṇāṁ ca sattama
dīkṣā tatra divaukasām
samājo brahmarṣīṇāṁ ca
rājarṣīṇāṁ ca sattama
Synonyms
ekadā — certa vez; āsīt — fez um voto; mahā-satra — grande sacrifício; dīkṣā — iniciação; tatra — nessa cerimônia; diva-okasām — dos semideuses; samājaḥ — assembleia; brahma-ṛṣīṇām — de grandes brāhmaṇas santos; ca — também; rāja-ṛṣīṇām — de grandes reis santos; ca — também; sat-tama — o maior dos devotos.
Translation
Certa vez, o rei Pṛthu iniciou a realização de um grandioso sacrifício, no qual se reuniram sábios grandiosos e santos, brāhmaṇas, semideuses de sistemas planetários superiores e grandes reis santos conhecidos como rājarṣis.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, o ponto mais significativo é que, embora o rei Pṛthu residisse na Índia, entre os rios Ganges e Yamunā, os semideuses também participaram do grande sacrifício que ele realizou. Isso indica que outrora os semideuses costumavam vir a este planeta. Do mesmo modo, grandes personalidades, como Arjuna, Yudhiṣṭhira e muitas outras, costumavam visitar os sistemas planetários superiores. Assim, havia comunicação interplanetária por intermédio de aeroplanos adequados e veículos espaciais.
Devanagari
तस्मिन्नर्हत्सु सर्वेषु स्वर्चितेषु यथार्हत: ।
उत्थित: सदसो मध्ये ताराणामुडुराडिव ॥ १४ ॥
उत्थित: सदसो मध्ये ताराणामुडुराडिव ॥ १४ ॥
Verse text
tasminn arhatsu sarveṣu
sv-arciteṣu yathārhataḥ
utthitaḥ sadaso madhye
tārāṇām uḍurāḍ iva
sv-arciteṣu yathārhataḥ
utthitaḥ sadaso madhye
tārāṇām uḍurāḍ iva
Synonyms
tasmin — naquele grande encontro; arhatsu — de todos aqueles que são adoráveis; sarveṣu — de todos eles; su-arciteṣu — sendo adorados de acordo com suas respectivas posições; yathā-arhataḥ — como eles mereciam; utthitaḥ — levantou-se; sadasaḥ — entre os membros da assembleia; madhye — no meio; tārāṇām — das estrelas; uḍu-rāṭ — a lua; iva — como.
Translation
Naquela grande assembleia, Mahārāja Pṛthu primeiramente adorou todos os visitantes respeitáveis de acordo com suas respectivas posições. Depois disso, levantou-se no meio da assembleia, e parecia que a lua cheia havia surgido entre as estrelas.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo o sistema védico, a recepção de personalidades grandiosas e elevadas, providenciada por Pṛthu Mahārāja naquela grande arena de sacrifício, é muito importante. O primeiro procedimento ao receber visitantes é lavar seus pés, e, segundo consta na literatura védica, certa vez, quando Mahārāja Yudhiṣṭhira realizava um rājasūya-yajña, Kṛṣṇa encarregou-Se de lavar os pés dos visitantes. De forma semelhante, Mahārāja Pṛthu também providenciou a recepção adequada aos semideuses, aos sábios santos, aos brāhmaṇas e aos grandes reis.
Devanagari
प्रांशु: पीनायतभुजो गौर: कञ्जारुणेक्षण: ।
सुनास: सुमुख: सौम्य: पीनांस: सुद्विजस्मित: ॥ १५ ॥
सुनास: सुमुख: सौम्य: पीनांस: सुद्विजस्मित: ॥ १५ ॥
Verse text
prāṁśuḥ pīnāyata-bhujo
gauraḥ kañjāruṇekṣaṇaḥ
sunāsaḥ sumukhaḥ saumyaḥ
pīnāṁsaḥ sudvija-smitaḥ
gauraḥ kañjāruṇekṣaṇaḥ
sunāsaḥ sumukhaḥ saumyaḥ
pīnāṁsaḥ sudvija-smitaḥ
Synonyms
prāṁśuḥ — muito alto; pīna-āyata — cheios e largos; bhujaḥ — braços; gauraḥ — tez clara; kañja — como o lótus; aruṇa-īkṣaṇaḥ — com olhos brilhantes como o sol nascendo de manhã, su-nāsaḥ — nariz reto; su-mukhaḥ — com um belo rosto; saumyaḥ — de grave estatura corpórea; pīna-aṁsaḥ — ombros erguidos; su — belo; dvija — dentes; smitaḥ — sorridente.
Translation
O corpo do rei Pṛthu era alto e robusto, e sua tez era clara. Seus braços eram fartos e largos, e seus olhos, brilhantes como o sol nascente. Seu nariz era reto; seu rosto, muito belo, e sua personalidade era grave. Seus dentes estavam belamente assentados em seu rosto sorridente.
Purport
SIGNIFICADO—Entre as quatro ordens sociais (brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras), os kṣatriyas, tanto homens como mulheres, geralmente são muito belos. Como ficará evidente nos versos seguintes, deve-se concluir que, além de as feições corpóreas de Mahārāja Pṛthu serem atrativas, como se descreve aqui, ele também tinha sinais específicos e inteiramente auspiciosos em sua estrutura corpórea.
Como diz o provérbio, “os olhos são o espelho da alma.” Nossa constituição mental revela-se através de nossa fisionomia. Os aspectos corpóreos de uma pessoa em particular manifestam-se de acordo com seus atos passados, pois, segundo seus atos passados, determinam-se seus futuros aspectos corpóreos – seja na sociedade humana, na sociedade animal ou na sociedade dos semideuses. Essa é uma prova da transmigração da alma através de diferentes espécies de corpos.
Devanagari
व्यूढवक्षा बृहच्छ्रोणिर्वलिवल्गुदलोदर: ।
आवर्तनाभिरोजस्वी काञ्चनोरुरुदग्रपात् ॥ १६ ॥
आवर्तनाभिरोजस्वी काञ्चनोरुरुदग्रपात् ॥ १६ ॥
Verse text
vyūḍha-vakṣā bṛhac-chroṇir
vali-valgu-dalodaraḥ
āvarta-nābhir ojasvī
kāñcanorur udagra-pāt
vali-valgu-dalodaraḥ
āvarta-nābhir ojasvī
kāñcanorur udagra-pāt
Synonyms
Translation
O peito de Mahārāja Pṛthu era muito largo, sua cintura muito grossa, e seu abdômen, enrugado por dobras de pele, parecia uma folha de figueira-de-bengala. Seu umbigo era anelado e profundo; suas coxas, douradas, e seu peito do pé, arqueado.
Devanagari
सूक्ष्मवक्रासितस्निग्धमूर्धज: कम्बुकन्धर: ।
महाधने दुकूलाग्र्ये परिधायोपवीय च ॥ १७ ॥
महाधने दुकूलाग्र्ये परिधायोपवीय च ॥ १७ ॥
Verse text
sūkṣma-vakrāsita-snigdha-
mūrdhajaḥ kambu-kandharaḥ
mahā-dhane dukūlāgrye
paridhāyopavīya ca
mūrdhajaḥ kambu-kandharaḥ
mahā-dhane dukūlāgrye
paridhāyopavīya ca
Synonyms
sūkṣma — muito finos; vakra — cacheados; asita — negros; snigdha — lisos; mūrdhajaḥ — cabelos sobre a cabeça; kambu — como um búzio; kandharaḥ — pescoço; mahā-dhane — muito valioso; dukūla-agrye — vestido com um dhotī; paridhāya — na parte superior do corpo; upavīya — colocado como um cordão sagrado; ca — também.
Translation
Os cabelos negros e lisos sobre a cabeça eram muito finos e cacheados, e seu pescoço, como um búzio, era decorado com linhas auspiciosas. Ele usava um dhotī muito valioso e um belo manto na parte superior de seu corpo.
Devanagari
व्यञ्जिताशेषगात्रश्रीर्नियमे न्यस्तभूषण: ।
कृष्णाजिनधर: श्रीमान् कुशपाणि:कृतोचित: ॥ १८ ॥
कृष्णाजिनधर: श्रीमान् कुशपाणि:कृतोचित: ॥ १८ ॥
Verse text
vyañjitāśeṣa-gātra-śrīr
niyame nyasta-bhūṣaṇaḥ
kṛṣṇājina-dharaḥ śrīmān
kuśa-pāṇiḥ kṛtocitaḥ
niyame nyasta-bhūṣaṇaḥ
kṛṣṇājina-dharaḥ śrīmān
kuśa-pāṇiḥ kṛtocitaḥ
Synonyms
Translation
Conforme Mahārāja Pṛthu se preparava para a realização do sacrifício, ele tinha que ir se despojando de suas roupas preciosas, em razão do que sua beleza corpórea natural se tornou visível. Era muito agradável vê-lo vestindo-se com pele de veado negra e usando um anel de grama kuśa no dedo, pois isso aumentava a beleza natural de seu corpo. Parece que Mahārāja Pṛthu observou todos os princípios reguladores antes de realizar o sacrifício.
Devanagari
शिशिरस्निग्धताराक्ष: समैक्षत समन्तत: ।
ऊचिवानिदमुर्वीश: सद: संहर्षयन्निव ॥ १९ ॥
ऊचिवानिदमुर्वीश: सद: संहर्षयन्निव ॥ १९ ॥
Verse text
śiśira-snigdha-tārākṣaḥ
samaikṣata samantataḥ
ūcivān idam urvīśaḥ
sadaḥ saṁharṣayann iva
samaikṣata samantataḥ
ūcivān idam urvīśaḥ
sadaḥ saṁharṣayann iva
Synonyms
śiśira — orvalho; snigdha — molhado; tārā — estrelas; akṣaḥ — olhos; samaikṣata — olhou para; samantataḥ — ao redor; ūcivān — começou a falar; idam — isto; urvīśaḥ — altamente elevado; sadaḥ — entre os membros da assembleia; saṁharṣayan — realçando o prazer deles; iva — como.
Translation
Simplesmente para encorajar os membros da assembleia e ampliar o prazer deles, o rei Pṛthu olhou para eles com olhos que pareciam estrelas em um céu orvalhado. Em seguida, dirigiu-lhes a palavra com uma voz impactante.
Devanagari
चारु चित्रपदं श्लक्ष्णं मृष्टं गूढमविक्लवम् ।
सर्वेषामुपकारार्थं तदा अनुवदन्निव ॥ २० ॥
सर्वेषामुपकारार्थं तदा अनुवदन्निव ॥ २० ॥
Verse text
cāru citra-padaṁ ślakṣṇaṁ
mṛṣṭaṁ gūḍham aviklavam
sarveṣām upakārārthaṁ
tadā anuvadann iva
mṛṣṭaṁ gūḍham aviklavam
sarveṣām upakārārthaṁ
tadā anuvadann iva
Synonyms
Translation
O discurso de Mahārāja Pṛthu era muito belo, rico em linguagem metafórica, muito claro e imensamente agradável de se ouvir. Todas as suas palavras eram graves e corretas. Ao falar, ele parecia expressar sua compreensão pessoal da Verdade Absoluta para beneficiar todos aqueles ali presentes.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Pṛthu era belo em seu aspecto corpóreo externo, e seu discurso também era muito glorioso sob todos os aspectos. Suas palavras, que eram muito bem compostas em linguagem ornamental e altamente metafórica, eram agradáveis de se ouvir e eram, não apenas melífluas, mas também muito claramente compreensíveis e livres de dúvida ou ambiguidade.
Devanagari
राजोवाच
सभ्या: शृणुत भद्रं व: साधवो य इहागता: ।
सत्सु जिज्ञासुभिर्धर्ममावेद्यं स्वमनीषितम् ॥ २१ ॥
सभ्या: शृणुत भद्रं व: साधवो य इहागता: ।
सत्सु जिज्ञासुभिर्धर्ममावेद्यं स्वमनीषितम् ॥ २१ ॥
Verse text
rājovāca
sabhyāḥ śṛṇuta bhadraṁ vaḥ
sādhavo ya ihāgatāḥ
satsu jijñāsubhir dharmam
āvedyaṁ sva-manīṣitam
sabhyāḥ śṛṇuta bhadraṁ vaḥ
sādhavo ya ihāgatāḥ
satsu jijñāsubhir dharmam
āvedyaṁ sva-manīṣitam
Synonyms
rājā uvāca — o rei começou a falar; sabhyāḥ — dirigindo-se às senhoras e aos cavalheiros; śṛṇuta — por favor, ouvi; bhadram — boa fortuna; vaḥ — vossa; sādhavaḥ — todos grandes almas; ye — que; iha — aqui; āgatāḥ — presentes; satsu — aos homens nobres; jijñāsubhiḥ — quem é inquisitivo; dharmam — princípios religiosos; āvedyam — devem ser apresentados; sva-manīṣitam — concluídos por alguém.
Translation
O rei Pṛthu disse: Ó gentis membros da assembleia, que toda a boa fortuna vos sorria! Peço a todos vós, grandes almas que viestes participar deste encontro, que façam a bondade de ouvir atentamente minha súplica. Alguém que seja realmente inquisitivo deve apresentar suas decisões perante uma assembleia de almas nobres.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra sādhavaḥ, “todos grandes almas”, é muito significativa. Quando alguém é grandioso e célebre, muitas pessoas inescrupulosas se tornam seus inimigos, pois a inveja é da natureza dos materialistas. Em qualquer reunião, há diferentes classes de homens, e supõe-se, portanto, que, devido ao fato de Pṛthu Mahārāja ser grandioso, ele devia ter diversos inimigos presentes na assembleia, embora eles não pudessem expressar-se. Mahārāja Pṛthu, entretanto, estava interessado nas pessoas que eram gentis e, em virtude disso, dirigiu-se primeiramente a todas as pessoas honestas, não se importando com as invejosas. Contudo, ele não se apresentou como uma autoridade real dotada de poder para comandar a todos, pois queria apresentar sua declaração com humilde submissão perante a assembleia de grandes sábios e pessoas santas. Como rei soberano do mundo inteiro, ele podia ter dado ordens a eles, mas era tão humilde, manso e honesto que apresentou suas declarações para aprovação a fim de esclarecer sua madura decisão. Todos neste mundo material são condicionados pelos modos da natureza material e, portanto, têm quatro defeitos. Embora Pṛthu Mahārāja estivesse acima de todos esses defeitos, ainda assim, como se fosse uma alma condicionada comum, ele apresentou suas declarações às grandes almas, aos sábios e às pessoas santas ali presentes.
Devanagari
अहं दण्डधरो राजा प्रजानामिह योजित: ।
रक्षिता वृत्तिद: स्वेषु सेतुषु स्थापिता पृथक् ॥ २२ ॥
रक्षिता वृत्तिद: स्वेषु सेतुषु स्थापिता पृथक् ॥ २२ ॥
Verse text
ahaṁ daṇḍa-dharo rājā
prajānām iha yojitaḥ
rakṣitā vṛttidaḥ sveṣu
setuṣu sthāpitā pṛthak
prajānām iha yojitaḥ
rakṣitā vṛttidaḥ sveṣu
setuṣu sthāpitā pṛthak
Synonyms
Translation
O rei Pṛthu prosseguiu: Pela graça do Senhor Supremo, fui designado como rei deste planeta e porto o cetro para governar os cidadãos, protegê-los contra todos os perigos e dar-lhes a ocupação de acordo com suas respectivas posições na ordem social estabelecida pelo preceito védico.
Purport
SIGNIFICADO—Supõe-se que o rei seja apontado pela Suprema Personalidade de Deus para zelar pelos interesses de seu planeta em particular. Em todo o planeta, existe uma pessoa predominante, assim como agora observamos que, em todos os países, há um presidente. Se alguém é presidente ou rei, deve-se compreender que essa oportunidade lhe foi dada pelo Senhor Supremo. Segundo o sistema védico, o rei é considerado como o representante de Deus e deve receber o respeito dos cidadãos como se fosse Deus sob a forma humana de vida. Na verdade, conforme a informação védica, o Senhor Supremo mantém todas as entidades vivas, e especialmente os seres humanos, para elevá-los à perfeição máxima. Após muitos e muitos nascimentos em espécies inferiores, quando uma entidade viva alcança a forma humana de vida e, em particular, a forma humana de vida civilizada, sua sociedade deve ser dividida em quatro classes, como ordena a Suprema Personalidade de Deus na Bhagavad-gītā (cāturvarṇyaṁ mayā sṛṣṭam etc.). As quatro ordens sociais – os brāhmaṇas, os kṣatriyas, os vaiśyas e os śūdras – são divisões naturais da sociedade humana, e, como declara Pṛthu Mahārāja, todo homem em sua respectiva ordem social precisa estar devidamente ocupado para ganhar a vida. É dever do rei ou do governo certificar-se de que a população observe a ordem social e que também se dedique a seus respectivos deveres ocupacionais. Nos tempos modernos, desde que a proteção do governo ou do rei foi retirada, a ordem social praticamente entrou em colapso. Ninguém sabe quem é brāhmaṇa, quem é kṣatriya, quem é vaiśya ou quem é śūdra, e as pessoas afirmam pertencer a uma ordem social específica apenas por direito hereditário. É dever do governo restabelecer a ordem social em termos de deveres ocupacionais e dos modos da natureza material, pois isso fará toda a população mundial realmente civilizada. Sem observar as funções institucionais das quatro ordens sociais, a sociedade humana não passa de uma sociedade animal, na qual nunca há tranquilidade, paz e prosperidade, mas somente caos e confusão. Mahārāja Pṛthu, como o rei ideal, observava estritamente a manutenção da ordem social védica.
Prajāyate iti prajā. A palavra prajā refere-se aos que nascem. Portanto, Pṛthu Mahārāja garantiu proteção a prajānām – todas as entidades vivas que nascessem em seu reino. Prajā refere-se não somente aos seres humanos, mas também aos animais, árvores e todas as demais entidades vivas. É dever do rei proteger e alimentar todas as entidades vivas. Os tolos e patifes da sociedade moderna ignoram a extensão da responsabilidade do governo. Os animais também são cidadãos da terra onde aconteça de nascerem, e também têm o direito de continuar sua existência sob o amparo do Senhor Supremo. Perturbar a população animal através da carnificina geral produz uma reação futura catastrófica para o açougueiro, sua terra e seu governo.
Devanagari
तस्य मे तदनुष्ठानाद्यानाहुर्ब्रह्मवादिन: ।
लोका: स्यु: कामसन्दोहा यस्य तुष्यति दिष्टदृक् ॥ २३ ॥
लोका: स्यु: कामसन्दोहा यस्य तुष्यति दिष्टदृक् ॥ २३ ॥
Verse text
tasya me tad-anuṣṭhānād
yān āhur brahma-vādinaḥ
lokāḥ syuḥ kāma-sandohā
yasya tuṣyati diṣṭa-dṛk
yān āhur brahma-vādinaḥ
lokāḥ syuḥ kāma-sandohā
yasya tuṣyati diṣṭa-dṛk
Synonyms
tasya — seu; me — meu; tat — isto; anuṣṭhānāt — cumprindo; yān — aquilo que; āhuḥ — é falado; brahma-vādinaḥ — pelos peritos em conhecimento védico; lokāḥ — planetas; syuḥ — tornam-se; kāmasandohāḥ — satisfazendo os objetivos a que aspiramos; yasya — cujo; tuṣyati — fica satisfeito; diṣṭa-dṛk — o vidente de todo o destino.
Translation
Mahārāja Pṛthu disse: Creio que, cumprindo meus deveres como rei, serei capaz de atingir os objetivos desejáveis expostos pelos peritos em conhecimento védico. Esse destino é decerto alcançado através do prazer da Suprema Personalidade de Deus, que é o vidente de todo destino.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Pṛthu dá ênfase especial à palavra brahma-vādinaḥ, “pelos peritos em conhecimento védico”. Brahma se refere aos Vedas, os quais também são conhecidos como śabda-brahma, ou som transcendental. O som transcendental não é uma linguagem comum, embora pareça estar escrito em linguagem comum. A evidência da literatura védica deve ser aceita como a autoridade final. Na literatura védica, há muitas informações e, evidentemente, há informações sobre os deveres que um rei deve desempenhar. Um rei responsável, que executa seu dever prescrito, dando a devida proteção a todas as entidades vivas em seu planeta, é promovido ao sistema planetário celestial. Isso também depende do prazer do Senhor Supremo. Não se deve pensar que quem executa seu dever adequadamente é promovido de modo automático, pois a promoção depende da satisfação da Suprema Personalidade de Deus. Deve-se concluir, em última análise, que alguém pode alcançar o resultado desejado de suas atividades satisfazendo o Senhor Supremo. Confirma-se isso também no primeiro canto, segundo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam:
ataḥ pumbhir dvija-śreṣṭhā
varṇāśrama-vibhāgaśaḥ
svanuṣṭhitasya dharmasya
saṁsiddhir hari-toṣaṇam
varṇāśrama-vibhāgaśaḥ
svanuṣṭhitasya dharmasya
saṁsiddhir hari-toṣaṇam
A perfeição do cumprimento de nossos deveres prescritos está, em última análise, em satisfazermos o Senhor Supremo. A expressão kāma-sandohāḥ significa “consecução do resultado desejado”. Todos desejam alcançar a meta última da vida, mas, na civilização moderna, os grandes cientistas pensam que a vida humana não tem meta. Essa ignorância grosseira é muito perigosa e um grande risco para a civilização. As pessoas ignoram as leis da natureza, que são os regulamentos da Suprema Personalidade de Deus. Por serem ateístas de primeira ordem, não têm fé na existência de Deus e de Seus regulamentos, em razão do que não sabem como funciona a natureza. Essa ignorância grosseira da massa popular, incluindo os próprios pretensos cientistas e filósofos, faz da vida uma situação arriscada na qual os seres humanos não sabem se estão progredindo na vida. Segundo o Śrīmad-Bhāgavatam (7.5.30), eles estão simplesmente avançando em direção à mais escura região da existência material (adānta-gobhir viśatāṁ tamisram). O movimento para a consciência de Kṛṣṇa foi iniciado, portanto, para dar aos filósofos, aos cientistas e à população em geral o conhecimento correto sobre o destino da vida. Todos devem tirar proveito deste movimento e aprender a verdadeira meta da vida.
Devanagari
य उद्धरेत्करं राजा प्रजा धर्मेष्वशिक्षयन् ।
प्रजानां शमलं भुङ्क्ते भगं च स्वं जहाति स: ॥ २४ ॥
प्रजानां शमलं भुङ्क्ते भगं च स्वं जहाति स: ॥ २४ ॥
Verse text
ya uddharet karaṁ rājā
prajā dharmeṣv aśikṣayan
prajānāṁ śamalaṁ bhuṅkte
bhagaṁ ca svaṁ jahāti saḥ
prajā dharmeṣv aśikṣayan
prajānāṁ śamalaṁ bhuṅkte
bhagaṁ ca svaṁ jahāti saḥ
Synonyms
yaḥ — qualquer pessoa (rei ou governante); uddharet — cobre; karam — impostos; rājā — rei; prajāḥ — os cidadãos; dharmeṣu — a executar seus respectivos deveres; aśikṣayan — sem lhes ensinar como executar seus respectivos deveres; prajānām — dos cidadãos; śamalam — ímpias; bhuṅkte — desfruta; bhagam — fortuna; ca — também; svam — própria; jahāti — abandona; saḥ — este rei.
Translation
Qualquer rei que não ensine a seus cidadãos sobre os deveres respectivos em termos de varṇa e āśrama, mas apenas cobre impostos e taxas diversas deles, sujeita-se a sofrer pelas atividades ímpias realizadas pelos cidadãos. Além dessa degradação, o rei também perde sua própria fortuna.
Purport
SIGNIFICADO—Um rei, governante ou presidente não deve somente aproveitar-se da oportunidade de ter ocupado seu posto, senão que também deve desempenhar seu dever. Ele deve ensinar às pessoas dentro do estado a como observar as divisões de varṇa e āśrama. Se um rei negligencia dar semelhantes instruções e simplesmente se contenta em cobrar impostos, então aqueles que compartilham da coleta – a saber, todos os funcionários do governo e o líder do estado – ficam passíveis de compartilhar das atividades ímpias da massa popular. As leis da natureza são muito sutis. Por exemplo, se alguém come em um lugar muito pecaminoso, compartilha da reação resultante das atividades pecaminosas ali realizadas. (É próprio do sistema védico, portanto, que um chefe de família convide os brāhmaṇas e vaiṣṇavas para comer em sua casa na realização de cerimônias, isso porque os brāhmaṇas e vaiṣṇavas podem imunizá-lo de atividades pecaminosas. Porém, não é dever de brāhmaṇas e vaiṣṇavas rígidos aceitar convites por toda parte. Não há, evidentemente, qualquer objeção quanto a participar de banquetes nos quais seja distribuída prasāda.) Existem muitas leis sutis que são praticamente desconhecidas pela população em geral, mas o movimento para a consciência de Kṛṣṇa está muito cientificamente distribuindo todo este conhecimento védico para o benefício da população mundial.
Devanagari
तत् प्रजा भर्तृपिण्डार्थं स्वार्थमेवानसूयव: ।
कुरुताधोक्षजधियस्तर्हि मेऽनुग्रह: कृत: ॥ २५ ॥
कुरुताधोक्षजधियस्तर्हि मेऽनुग्रह: कृत: ॥ २५ ॥
Verse text
tat prajā bhartṛ-piṇḍārthaṁ
svārtham evānasūyavaḥ
kurutādhokṣaja-dhiyas
tarhi me ’nugrahaḥ kṛtaḥ
svārtham evānasūyavaḥ
kurutādhokṣaja-dhiyas
tarhi me ’nugrahaḥ kṛtaḥ
Synonyms
tat — portanto; prajāḥ — meus queridos cidadãos; bhartṛ — do amo; piṇḍa-artham — bem-estar após a morte; sva-artham — próprio interesse; eva — decerto; anasūyavaḥ — sem ser invejosos; kuruta — simplesmente cumpri; adhokṣaja — a Suprema Personalidade de Deus; dhiyaḥ — pensando nEle; tarhi — portanto; me — de mim; anugrahaḥ — misericórdia; kṛtaḥ — sendo feito.
Translation
Pṛthu Mahārāja prosseguiu: Portanto, meus queridos cidadãos, para o bem-estar de vosso rei após sua morte, deveis executar vossos deveres adequadamente em termos de vossas posições de varṇa e āśrama e deveis sempre pensar na Suprema Personalidade de Deus dentro de vossos corações. Se assim fizerdes, protegereis vossos próprios interesses e concedereis misericórdia a vosso rei no que diz respeito a seu bem-estar após a morte.
Purport
SIGNIFICADO—As palavras adhokṣaja-dhiyaḥ, significando “consciência de Kṛṣṇa”, são muito importantes neste verso. Tanto o rei quanto os cidadãos devem ser conscientes de Kṛṣṇa, ou serão condenados a espécies inferiores de vida após a morte. Um governo responsável deve ensinar consciência de Kṛṣṇa muito vigorosamente para o benefício de todos. Sem consciência de Kṛṣṇa, nem o estado nem os cidadãos do estado podem ser responsáveis. Por isso, Pṛthu Mahārāja pediu especificamente aos cidadãos que agissem em consciência de Kṛṣṇa, e ele também estava muito ansioso por lhes ensinar a como se tornarem conscientes de Kṛṣṇa. A Bhagavad-gītā (9.27) apresenta um resumo da consciência de Kṛṣṇa:
yat karoṣi yad aśnāsi
yaj juhoṣi dadāsi yat
yat tapasyasi kaunteya
tat kuruṣva mad-arpaṇam
yaj juhoṣi dadāsi yat
yat tapasyasi kaunteya
tat kuruṣva mad-arpaṇam
“Tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que deres em caridade e todas as penitências a que te submeteres – deves fazer tudo isso em consciência de Kṛṣṇa, ou seja, para a satisfação da Suprema Personalidade de Deus.” Se todas as pessoas do estado, incluindo os servidores do governo, aprenderem as técnicas da vida espiritual, então, embora todos sejam passíveis de serem punidos de diferentes maneiras pelas estritas leis da natureza material, não ficarão comprometidos.
Devanagari
यूयं तदनुमोदध्वं पितृदेवर्षयोऽमला: ।
कर्तु: शास्तुरनुज्ञातुस्तुल्यं यत्प्रेत्य तत्फलम् ॥ २६ ॥
कर्तु: शास्तुरनुज्ञातुस्तुल्यं यत्प्रेत्य तत्फलम् ॥ २६ ॥
Verse text
yūyaṁ tad anumodadhvaṁ
pitṛ-devarṣayo ’malāḥ
kartuḥ śāstur anujñātus
tulyaṁ yat pretya tat phalam
pitṛ-devarṣayo ’malāḥ
kartuḥ śāstur anujñātus
tulyaṁ yat pretya tat phalam
Synonyms
yūyam — todos vós, pessoas respeitáveis que estais aqui presentes; tat — isto; anumodadhvam — por favor, aprovai minha proposta; pitṛ — pessoas oriundas de Pitṛloka; deva — pessoas oriundas dos planetas celestiais; ṛṣayaḥ — grandes sábios e pessoas santas; amalāḥ — aqueles que se purificaram de todas as atividades pecaminosas; kartuḥ — o executor; śāstuḥ — o ordenador; anujñātuḥ — do aprovador; tulyam — igual; yat — o qual; pretya — após a morte; tat — este; phalam — resultado.
Translation
Peço a todos os semideuses de coração puro, aos antepassados e às pessoas santas que apoiem a minha proposta, pois, após a morte, o resultado de uma ação é igualmente compartilhado pelo executor, pelo superintendente e pelo apoiador.
Purport
SIGNIFICADO—O governo de Pṛthu Mahārāja era perfeito porque era administrado exatamente de acordo com as ordens dos preceitos védicos. Pṛthu Mahārāja já explicou que o dever principal do governo é zelar para que todos desempenhem seus respectivos deveres e se elevem à plataforma da consciência de Kṛṣṇa. O governo deve ser conduzido de tal modo que naturalmente as pessoas sejam levadas à consciência de Kṛṣṇa. Portanto, o rei Pṛthu queria que seus cidadãos cooperassem plenamente com ele, visto que, se eles concordassem, gozariam do mesmo benefício que o rei após a morte. Se Pṛthu Mahārāja, como rei perfeito, fosse elevado aos planetas celestiais, os cidadãos que cooperassem, aprovando seus métodos, seriam também elevados com ele. Uma vez que o movimento para a consciência de Kṛṣṇa em vigor no momento atual é genuíno, perfeito e autorizado e está seguindo os passos de Pṛthu Mahārāja, qualquer pessoa que cooperar com este movimento ou aceitar seus princípios obterá o mesmo resultado que os trabalhadores ativamente dedicados a propagar a consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
अस्ति यज्ञपतिर्नाम केषाञ्चिदर्हसत्तमा: ।
इहामुत्र च लक्ष्यन्ते ज्योत्स्नावत्य: क्वचिद्भुव: ॥ २७ ॥
इहामुत्र च लक्ष्यन्ते ज्योत्स्नावत्य: क्वचिद्भुव: ॥ २७ ॥
Verse text
asti yajña-patir nāma
keṣāñcid arha-sattamāḥ
ihāmutra ca lakṣyante
jyotsnāvatyaḥ kvacid bhuvaḥ
keṣāñcid arha-sattamāḥ
ihāmutra ca lakṣyante
jyotsnāvatyaḥ kvacid bhuvaḥ
Synonyms
asti — tem que haver; yajña-patiḥ — o desfrutador de todos os sacrifícios; nāma — do nome; keṣāñcit — na opinião de alguns; arha-sattamāḥ — ó mais respeitáveis; iha — neste mundo material; amutra — após a morte; ca — também; lakṣyante — é visível; jyotsnā-vatyaḥ — poderosos, belos; kvacit — em algum lugar; bhuvaḥ — corpos.
Translation
Meus queridos e respeitáveis senhores e senhoras, conforme as afirmações autorizadas do śāstra, é preciso que haja uma autoridade suprema que seja capaz de conceder os respectivos benefícios de nossas atividades atuais. Caso contrário, por que haveria pessoas incomumente belas e poderosas tanto nesta vida quanto na vida após a morte?
Purport
SIGNIFICADO—A única meta de Pṛthu Mahārāja ao governar seu reino era elevar os cidadãos ao padrão da consciência de Deus. Como havia uma grande assembleia na arena do sacrifício, havia diferentes classes de homens presentes, mas ele estava especialmente interessado em falar àqueles que não eram ateístas. Já se explicou nos versos anteriores que Pṛthu Mahārāja aconselhou os cidadãos a tornarem-se adhokṣaja-dhiyaḥ, que significa “conscientes de Deus”, ou “conscientes de Kṛṣṇa”, e, neste verso, ele apresenta especificamente a autoridade dos śāstras, muito embora seu pai fosse o ateísta número um, que não se guiava pelos preceitos mencionados nos śāstras védicos, que praticamente suspendeu todas as realizações de sacrifícios e que causou tanto desgosto aos brāhmaṇas que estes não somente o destronaram, mas também o amaldiçoaram e o mataram. Os homens ateístas não creem na existência de Deus, de modo que entendem tudo o que acontece em nossas atividades diárias como sendo devido ao arranjo físico e ao acaso. Os ateus acreditam na filosofia sāṅkhya ateísta da combinação de prakṛti e puruṣa. Eles acreditam unicamente na matéria e sustentam que a matéria, sob certas condições de amalgamação, dá origem à força vital, que então aparece como o puruṣa, o desfrutador; depois, quando a matéria se combina com a força vital, as muitas variedades de manifestação material passam a existir. Tampouco os ateístas creem nos preceitos dos Vedas. Segundo eles, todos os preceitos védicos são meras teorias que não têm aplicação prática na vida. Levando tudo isso em consideração, Pṛthu Mahārāja sugeriu que os homens teístas rejeitassem solidamente as visões ateístas, com base em que não pode haver muitas variedades de existência sem o plano de uma inteligência superior. Os ateístas explicam muito vagamente que essas variedades de existência ocorrem apenas por acaso, mas os teístas que creem nos preceitos dos Vedas devem chegar a todas as suas conclusões sob a orientação dos Vedas.
O Viṣṇu Purāṇa afirma que toda a instituição varṇāśrama destina-se a satisfazer a Suprema Personalidade de Deus. As regras e regulações estabelecidas para o cumprimento dos deveres dos brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras, ou dos brahmacārīs, gṛhasthas, vānaprasthas e sannyāsīs, destinam-se todas a satisfazer o Senhor Supremo. Hoje em dia, embora os supostos brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras tenham perdido sua cultura original, eles afirmam ser brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras por hereditariedade. Todavia, têm rejeitado a proposição de que tais ordens sociais e espirituais destinam-se especialmente à adoração do Senhor Viṣṇu. A perigosa teoria māyāvāda apresentada por Śaṅkarācārya – de que Deus é impessoal – não corresponde aos preceitos dos Vedas. Portanto, Śrī Caitanya Mahāprabhu descrevia os filósofos māyāvādīs como sendo os maiores ofensores contra a Personalidade de Deus. Segundo o sistema védico, quem não se guia pelas ordens dos Vedas chama-se nāstika, ou ateísta. Ao pregar sua teoria de nãoviolência, o senhor Buddha foi obrigado a negar a autoridade dos Vedas, razão pela qual foi considerado nāstika pelos seguidores dos Vedas. Todavia, apesar de Śrī Caitanya Mahāprabhu denunciar muito claramente os seguidores da filosofia do senhor Buddha como nāstikas, ou ateístas, por estes negarem a autoridade dos Vedas, Ele considerou os śaṅkaristas, que queriam estabelecer a autoridade védica através de truques e que na verdade seguiam a filosofia māyāvāda da escola de Buddha, mais perigosos do que os próprios budistas. A teoria dos filósofos śaṅkaristas, de que temos de imaginar uma forma de Deus, é mais perigosa do que a negação da existência de Deus. Não obstante toda a teorização filosófica dos ateístas ou māyāvādīs, os seguidores da consciência de Kṛṣṇa vivem rigidamente conforme os preceitos dados na Bhagavad-gītā, que é aceita como a essência de todas as escrituras védicas. A Bhagavad-gītā (18.46) afirma:
yataḥ pravṛttir bhūtānāṁ
yena sarvam idaṁ tatam
sva-karmaṇā tam abhyarcya
siddhiṁ vindati mānavaḥ
yena sarvam idaṁ tatam
sva-karmaṇā tam abhyarcya
siddhiṁ vindati mānavaḥ
“Através da adoração ao Senhor, que é a fonte de todos os seres e que é onipenetrante, o homem pode, no desempenho de seu próprio dever, alcançar a perfeição.” Isso indica que a Suprema Personalidade de Deus é a fonte original de tudo, como se descreve no Vedānta-sūtra (janmādy asya yataḥ). O próprio Senhor também confirma na Bhagavad-gītā que ahaṁ sarvasya prabhavaḥ: “Eu sou a origem de tudo.” A Suprema Personalidade de Deus é a fonte original de todas as emanações, e, ao mesmo tempo, como o Paramātmā, Ele Se difunde em toda a existência. A Verdade Absoluta é, portanto, a Suprema Personalidade de Deus, e todo ser vivo destina-se a satisfazer a Divindade Suprema, desempenhando seu respectivo dever (sva-karmaṇā tam abhyarcya). Mahārāja Pṛthu queria introduzir esta fórmula entre os cidadãos.
O ponto mais importante na civilização humana é que, enquanto alguém se dedica a diferentes deveres ocupacionais, ele deve tentar satisfazer o Senhor Supremo através do cumprimento de tais deveres. Esta é a perfeição máxima da vida. Svanuṣṭhitasya dharmasya saṁsiddhir hari-toṣaṇam: desempenhando nosso dever prescrito, poderemos tornar-nos muito exitosos na vida se simplesmente satisfizermos a Suprema Personalidade de Deus. Um vívido exemplo disso é Arjuna. Ele era um kṣatriya, seu dever era lutar e, desempenhando seu dever prescrito, ele satisfez o Senhor Supremo e, em virtude disso, tornou-se perfeito. Todos devem seguir este princípio. Os ateístas, que não o fazem, são condenados na Bhagavad-gītā (16.19) através da seguinte afirmação: tān ahaṁ dviṣataḥ krūrān saṁsāreṣu narādhamān. Este verso afirma claramente que pessoas que têm inveja da Suprema Personalidade de Deus são as mais baixas da humanidade e são muito perniciosas. Sob os princípios reguladores do Supremo, tais pessoas perniciosas são lançadas à mais escura região da existência material e nascem em famílias de asuras, ou ateus. Nascimento após nascimento, semelhantes asuras caem cada vez mais, chegando, por fim, às formas animais, como as de tigres ou animais ferozes semelhantes. Assim, por milhões de anos, eles são obrigados a permanecer na escuridão, sem conhecimento de Kṛṣṇa.
A Suprema Personalidade de Deus é conhecida como Puruṣottama, ou a melhor de todas as entidades vivas. Ele é uma pessoa como todas as demais entidades vivas, mas Ele é o líder ou o melhor de todos os seres vivos. Isso também se afirma nos Vedas, nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām: Ele é o principal de todos os eternos, a principal de todas as entidades vivas, sendo completo e pleno. Ele não tem necessidade de obter benefícios, interferindo nos afazeres de outras entidades vivas, mas, por ser o mantenedor de todos, Ele tem o direito de conduzi-las ao padrão adequado para que todas as entidades vivas possam tornar-se felizes. Um pai deseja que todos os seus filhos se tornem felizes sob sua orientação. Do mesmo modo, Deus, ou Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, tem o direito de zelar para que todas as entidades vivas sejam felizes. Não há possibilidade de alguém tornar-se feliz neste mundo material. O pai e os filhos são eternos, mas, se uma entidade viva não chega à plataforma de sua vida eterna de bem-aventurança e conhecimento, não há possibilidade de ser feliz. Embora Puruṣottama, a melhor de todas as entidades vivas, não tire proveito nenhum das entidades vivas comuns, tem o direito de discriminar entre seus procedimentos corretos e errados. O procedimento correto é o caminho de atividades destinadas a satisfazer a Suprema Personalidade de Deus, como já discutimos (svanuṣṭhitasya dharmasya saṁsiddhir hari-toṣaṇam). Uma entidade viva pode dedicar-se a qualquer dever ocupacional, mas, se ela deseja obter a perfeição em seus deveres, precisa satisfazer o Senhor Supremo. Sendo assim, quem quer que O satisfaça obtém melhores meios de vida, mas aquele que O desagrada vê-se envolvido em situações indesejáveis.
Conclui-se, portanto, que existem duas classes de deveres – o dever mundano e o dever desempenhado em nome de yajña, ou sacrifício (yajñārthāt karma). Qualquer karma (atividade) que alguém execute sem a intenção de yajña é causa de cativeiro. Yajñārthāt karmaṇo ’nyatra loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ: “Deve-se executar trabalho como um sacrifício a Viṣṇu, ou o trabalho nos prende a este mundo material.” (Bhagavad-gītā 3.9) Karma-bandhanaḥ, ou o cativeiro do karma, é administrado sob os regulamentos das estritas leis da natureza material. A existência material é uma luta para vencer os obstáculos apresentados pela natureza material. Os asuras estão sempre lutando para superar esses obstáculos, e, através do poder ilusório da natureza material, as entidades vivas tolas trabalham muito arduamente neste mundo material e aceitam isso como felicidade. Isso se chama māyā. Nessa árdua luta pela vida, eles negam a existência da autoridade suprema, Puruṣottama, a Suprema Personalidade de Deus.
A fim de regular as atividades das entidades vivas, Deus nos forneceu códigos, assim como um rei fornece códigos de leis no estado, e qualquer pessoa que viole a lei é punida. De forma semelhante, o Senhor deu o conhecimento infalível dos Vedas, que não são contaminados pelos quatro defeitos da vida humana – a saber, cometer erros, iludir-se, enganar e ter sentidos imperfeitos. Se não aceitarmos a orientação dos Vedas e, ao invés disso, agirmos caprichosamente conforme nossa própria escolha, decerto seremos punidos pelas leis do Senhor, que oferece diferentes espécies de corpos nas 8.400.000 espécies de formas. A existência material, ou o processo de gozo dos sentidos, é conduzida de acordo com a classe de corpo que a prakṛti, ou a natureza material, nos dá. Sendo assim, é preciso haver divisões de atividades piedosas e impiedosas (puṇya e pāpa). A Bhagavad-gītā (7.28) afirma claramente:
yeṣāṁ tv anta-gataṁ pāpaṁ
janānāṁ puṇya-karmaṇām
te dvandva-moha-nirmuktā
bhajante māṁ dṛḍha-vratāḥ
janānāṁ puṇya-karmaṇām
te dvandva-moha-nirmuktā
bhajante māṁ dṛḍha-vratāḥ
“Quem supera inteiramente as atividades resultantes do caminho ímpio de vida [isto só é possível para quem se dedica com exclusividade a atividades piedosas] pode compreender sua relação eterna com a Suprema Personalidade de Deus. Deste modo, ocupa-se no transcendental serviço amoroso ao Senhor.” Esta vida constituída de sempre ocupar-se no serviço amoroso ao Senhor chama-se adhokṣaja-dhiyaḥ, ou uma vida de consciência de Kṛṣṇa, a qual o rei Pṛthu queria que seus cidadãos seguissem.
As diferentes variedades de vida e de existência material não surgem por acaso e necessidade: o Senhor Supremo faz diferentes arranjos em termos das atividades piedosas e ímpias das entidades vivas. Quem realiza atividades piedosas pode nascer em boa família em uma boa nação, pode obter um belo corpo ou pode tornar-se muito bem instruído ou muito rico. Vemos, portanto, que, em diferentes locais e em diferentes planetas, há diferentes padrões de vida, feições corpóreas e níveis educacionais, todos outorgados pela Suprema Personalidade de Deus de acordo com as atividades piedosas ou ímpias. Portanto, as variedades de vida desenvolvem-se, não por acaso, mas por um arranjo pré-estabelecido. Existe um plano, que se encontra esboçado no conhecimento védico. Devemos tirar proveito desse conhecimento e moldar nossa vida de tal maneira que, no final, especialmente na forma de vida humana, possamos voltar ao lar, voltar ao Supremo, praticando a consciência de Kṛṣṇa.
A literatura védica pode explicar melhor a teoria do acaso com as palavras ajñāta-sukṛti, que se referem a atividades piedosas realizadas sem o conhecimento do autor. Mas elas também são planejadas. Por exemplo, Kṛṣṇa aparece como um ser humano comum, Ele aparece como devoto na forma do Senhor Caitanya ou, então, envia Seu representante, o mestre espiritual, ou o devoto puro. Esta também é uma atividade planejada pela Suprema Personalidade de Deus. Eles vêm para atrair as pessoas e educá-las, e, assim, uma pessoa situada na energia ilusória do Senhor Supremo tem a oportunidade de conviver com eles, falar com eles e receber lições deles. Se, de alguma forma, uma alma condicionada se rende a semelhantes personalidades e, através do contato íntimo com eles, acontece de se tornar consciente de Kṛṣṇa, ela é salva das condições materiais da vida. Portanto, Kṛṣṇa instrui:
sarva-dharmān parityajya
mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja
ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo
mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ
mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja
ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo
mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ
“Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Eu te livrarei de todas as reações pecaminosas. Não temas.” (Bhagavad-gītā 18.66) A expressão sarva-pāpebhyaḥ significa “de todas as atividades pecaminosas”. Uma pessoa que se rende a Ele, valendo-se da oportunidade de associar-se com o devoto puro, com o mestre espiritual ou com outras encarnações autorizadas da Divindade, tais como Pṛthu Mahārāja, é salva por Kṛṣṇa, e sua vida torna-se exitosa.
Devanagari
मनोरुत्तानपादस्य ध्रुवस्यापि महीपते: ।
प्रियव्रतस्य राजर्षेरङ्गस्यास्मत्पितु: पितु: ॥ २८ ॥
ईदृशानामथान्येषामजस्य च भवस्य च ।
प्रह्लादस्य बलेश्चापि कृत्यमस्ति गदाभृता ॥ २९ ॥
प्रियव्रतस्य राजर्षेरङ्गस्यास्मत्पितु: पितु: ॥ २८ ॥
ईदृशानामथान्येषामजस्य च भवस्य च ।
प्रह्लादस्य बलेश्चापि कृत्यमस्ति गदाभृता ॥ २९ ॥
Verse text
manor uttānapādasya
dhruvasyāpi mahīpateḥ
priyavratasya rājarṣer
aṅgasyāsmat-pituḥ pituḥ
dhruvasyāpi mahīpateḥ
priyavratasya rājarṣer
aṅgasyāsmat-pituḥ pituḥ
īdṛśānām athānyeṣām
ajasya ca bhavasya ca
prahlādasya baleś cāpi
kṛtyam asti gadābhṛtā
ajasya ca bhavasya ca
prahlādasya baleś cāpi
kṛtyam asti gadābhṛtā
Synonyms
manoḥ — de Manu (Svāyambhuva Manu); uttānapādasya — de Uttānapāda, o pai de Dhruva Mahārāja; dhruvasya — de Dhruva Mahārāja; api — decerto; mahī-pateḥ — do grande rei; priyavratasya — de Priyavrata, na família de Mahārāja Dhruva; rājarṣeḥ — de grandes reis santos; aṅgasya — chamado Aṅga; asmat — meu; pituḥ — de meu pai; pituḥ — do pai; īdṛśānām — de tais personalidades; atha — também; anyeṣām — de outros; ajasya — do supremo imortal; ca — também; bhavasya — das entidades vivas; ca — também; prahlādasya — de Mahārāja Prahlāda; baleḥ — de Mahārāja Bali; ca — também; api — decerto; kṛtyam — reconhecido por eles; asti — há; gadā-bhṛtā — a Suprema Personalidade de Deus, que porta uma maça.
Translation
Confirmam isto, não apenas as evidências dos Vedas, mas também o comportamento pessoal de grandes personalidades, como Manu, Uttānapāda, Dhruva, Priyavrata e meu avô Aṅga, bem como muitas outras grandes personalidades e entidades vivas comuns, exemplificadas por Mahārāja Prahlāda e Bali, todos os quais são teístas, crendo na existência da Suprema Personalidade de Deus, que porta uma maça.
Purport
SIGNIFICADO—Narottama Dāsa Ṭhākura afirma que é preciso determinarmos o caminho correto para nossas atividades seguindo os passos de grandes pessoas santas e livros de conhecimento sob a orientação de um mestre espiritual (sādhu-śāstra-guru-vākya). Pessoa santa é aquela que segue os preceitos védicos, que são as ordens da Suprema Personalidade de Deus. A palavra guru refere-se a quem fornece orientações adequadas sob a autoridade dos preceitos védicos e de acordo com os exemplos das vidas de grandes personalidades. A melhor maneira de moldar nossa vida é seguir os passos das personalidades autorizadas, como aquelas mencionadas nesta passagem por Pṛthu Mahārāja, começando com Svāyambhuva Manu. O caminho mais seguro na vida é seguir essas grandes personalidades, especialmente aquelas mencionadas no Śrīmad-Bhāgavatam. Os mahājanas, ou grandes personalidades, são Brahmā, o senhor Śiva, Nārada Muni, Manu, os Kumāras, Prahlāda Mahārāja, Bali Mahārāja, Yamarāja, Bhīṣma, Janaka, Śukadeva Gosvāmī e Kapila Muni.
Devanagari
दौहित्रादीनृते मृत्यो: शोच्यान् धर्मविमोहितान् ।
वर्गस्वर्गापवर्गाणां प्रायेणैकात्म्यहेतुना ॥ ३० ॥
वर्गस्वर्गापवर्गाणां प्रायेणैकात्म्यहेतुना ॥ ३० ॥
Verse text
dauhitrādīn ṛte mṛtyoḥ
śocyān dharma-vimohitān
varga-svargāpavargāṇāṁ
prāyeṇaikātmya-hetunā
śocyān dharma-vimohitān
varga-svargāpavargāṇāṁ
prāyeṇaikātmya-hetunā
Synonyms
dauhitra-ādīn — netos como meu pai, Vena; ṛte — exceto; mṛtyoḥ — da morte personificada; śocyān — abomináveis; dharma-vimohitān — confusos no caminho da religião; varga — religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e liberação; svarga — elevação aos planetas celestiais; apavargāṇām — estando livres da contaminação material; prāyeṇa — quase sempre; eka — único; ātmya — a Suprema Personalidade de Deus; hetunā — por causa de.
Translation
Embora pessoas abomináveis como meu pai, Vena, o neto da morte personificada, fiquem confusas em relação ao caminho da religião, todas as grandes personalidades, como aquelas já mencionadas, concordam que, neste mundo, o único outorgador das bênçãos de religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos, liberação ou elevação aos planetas celestiais é a Suprema Personalidade de Deus.
Purport
SIGNIFICADO—O rei Vena, pai de Pṛthu Mahārāja, foi condenado pelos brāhmaṇas e pelas pessoas santas por ter negado a existência da Suprema Personalidade de Deus e rejeitado o método de satisfazê-lO através da realização de sacrifícios védicos. Em outras palavras, ele era ateu, não acreditava na existência de Deus, em consequência do que suspendeu todas as cerimônias ritualísticas védicos em seu reino. Pṛthu Mahārāja considerava o caráter do rei Vena abominável porque Vena era tolo no que diz respeito à realização de cerimônias religiosas. Os ateus são da opinião de que não há necessidade de aceitar a autoridade da Suprema Personalidade de Deus para se ter sucesso em religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos ou liberação. Segundo eles, dharma, ou os princípios religiosos, destinam-se a estabelecer um Deus imaginário para encorajar o indivíduo a tornar-se moral e honesto e de modo que as ordens sociais sejam mantidas em paz e tranquilidade. Além disso, eles dizem que, na verdade, não há necessidade de aceitar Deus para esse propósito, pois, se alguém segue os princípios de moralidade e honestidade, isso é suficiente. Do mesmo modo, se alguém fizer bons planos e trabalhar muito arduamente em busca do desenvolvimento econômico, o resultado do desenvolvimento econômico virá de forma automática. De modo semelhante, o gozo dos sentidos também independe da misericórdia da Suprema Personalidade de Deus, pois, se alguém ganhar dinheiro suficiente através de qualquer processo, terá oportunidades o bastante para o gozo dos sentidos. No que diz respeito à liberação, eles dizem que não há necessidade de falar em liberação porque, após a morte, tudo se acaba. Pṛthu Mahārāja, entretanto, não aceitava a autoridade de semelhantes ateístas, liderados por seu pai, que era neto da morte personificada. De um modo geral, a filha herda as qualidades do pai, e o filho, as qualidades da mãe. Assim, a filha de Mṛtyu, Sunīthā, obteve todas as qualidades de seu pai, e Vena herdou as qualidades de sua mãe. Uma pessoa que está sempre sujeita às regras e regulações de repetidos nascimentos e mortes não pode conciliar nada além de ideias materialistas. Uma vez que o rei Vena era um homem assim, ele não acreditava na existência de Deus. A civilização moderna concorda com os princípios do rei Vena, mas, de fato, se estudarmos minuciosamente todas as condições de religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e liberação, teremos que aceitar os princípios da autoridade da Suprema Personalidade de Deus. Segundo a literatura védica, religião consiste somente nos códigos de lei dados por Deus.
Se alguém não aceita a autoridade da Divindade Suprema em assuntos de religião e moralidade, tem que explicar por que duas pessoas do mesmo padrão moral alcançam resultados diferentes. De um modo geral, observa-se que, mesmo que dois homens tenham os mesmos padrões morais de ética, honestidade e moralidade, ainda assim, suas posições não são as mesmas. Do mesmo modo, no desenvolvimento econômico, observa-se que, se dois homens trabalham muito arduamente dia e noite, ainda assim, os resultados não são os mesmos. Pode ser que uma pessoa goze de grande opulência mesmo sem trabalhar, ao passo que outra pessoa, apesar de trabalhar muito arduamente, nem mesmo obtenha duas refeições suficientes por dia. De modo semelhante, quanto ao gozo dos sentidos, às vezes quem tem alimentos suficientes ainda assim não é feliz em seus afazeres familiares ou, às vezes, nem mesmo é casado, ao passo que outra pessoa, muito embora não esteja bem no tocante às suas economias, tem maiores oportunidades de gozo dos sentidos. Mesmo um animal como o porco ou o cão pode ter maiores oportunidades de gozo dos sentidos do que o ser humano. Afora a liberação, mesmo que consideremos apenas as necessidades preliminares da vida – dharma, artha e kāma (religião, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos) –, veremos que elas não são as mesmas para todos. Portanto, deve-se aceitar a existência de alguém que determina os diferentes padrões. Concluindo, devemos depender do Senhor, não somente para a liberação, mas até mesmo para as necessidades comuns neste mundo material. Pṛthu Mahārāja indicou, portanto, que, apesar de ter pais ricos, os filhos às vezes não são felizes. Do mesmo modo, apesar do valioso remédio administrado por um médico competente, às vezes um paciente morre, ou, então, apesar de estar um barco grande e seguro, às vezes um homem naufraga. Podemos assim lutar para neutralizar os obstáculos apresentados pela natureza material, mas nossas tentativas não poderão ser exitosas a menos que sejamos favorecidos pela Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
यत्पादसेवाभिरुचिस्तपस्विना-
मशेषजन्मोपचितं मलं धिय: ।
सद्य: क्षिणोत्यन्वहमेधती सती
यथा पदाङ्गुष्ठविनि:सृता सरित् ॥ ३१ ॥
मशेषजन्मोपचितं मलं धिय: ।
सद्य: क्षिणोत्यन्वहमेधती सती
यथा पदाङ्गुष्ठविनि:सृता सरित् ॥ ३१ ॥
Verse text
yat-pāda-sevābhirucis tapasvinām
aśeṣa-janmopacitaṁ malaṁ dhiyaḥ
sadyaḥ kṣiṇoty anvaham edhatī satī
yathā padāṅguṣṭha-viniḥsṛtā sarit
aśeṣa-janmopacitaṁ malaṁ dhiyaḥ
sadyaḥ kṣiṇoty anvaham edhatī satī
yathā padāṅguṣṭha-viniḥsṛtā sarit
Synonyms
yat-pāda — cujos pés de lótus; sevā — serviço; abhiruciḥ — inclinação; tapasvinām — pessoas que se submetem a rigorosas penitências; aśeṣa — inúmeros; janma — nascimentos; upacitam — adquirem; malam — sujeira; dhiyaḥ — mente; sadyaḥ — de imediato; kṣiṇoti — destrói; anvaham — dia após dia; edhatī — aumentando; satī — sendo; yathā — como; pada-aṅguṣṭha — os dedos de Seus pés de lótus; viniḥsṛtā — emanando de; sarit — água.
Translation
Através da inclinação para servir os pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, a humanidade sofredora pode eliminar de imediato a poeira que tem se acumulado em suas mentes há inúmeros nascimentos. Assim como a água do Ganges, que emana dos dedos dos pés de lótus do Senhor, tal processo imediatamente purifica a mente, e, assim, a consciência espiritual, ou consciência de Kṛṣṇa, aumenta pouco a pouco.
Purport
SIGNIFICADO—Na Índia, pode-se realmente ver que quem se banha nas águas do Ganges diariamente livra-se quase completamente de toda classe de doenças. Um brāhmaṇa muito respeitável em Calcutá nunca tomou sequer um remédio receitado por um médico. Muito embora ele, às vezes, se sentisse doente, não costumava aceitar remédios dos médicos, senão que simplesmente bebia água do Ganges, e sempre se curava dentro de pouquíssimo tempo. As glórias da água do Ganges são conhecidas pelos indianos e também por nós. O rio Ganges atravessa Calcutá. Às vezes, dentro da água, há muitas fezes e outras coisas sujas que são despejadas dos moinhos e fábricas vizinhas, mas, ainda assim, milhares de homens se banham na água do Ganges, e são todos muito saudáveis, bem como espiritualmente inclinados. Esse é o efeito da água do Ganges. O Ganges é glorioso por emanar dos dedos dos pés de lótus do Senhor. De modo semelhante, se alguém adota o serviço aos pés de lótus do Senhor, ou aceita a consciência de Kṛṣṇa, limpa-se imediatamente das muitas sujeiras que se acumularam em seus inúmeros nascimentos. Temos visto que, apesar dos trevosos registros de suas vidas passadas, pessoas que adotam a consciência de Kṛṣṇa purificam-se por inteiro de todas as sujeiras e fazem progresso espiritual muito rapidamente. Portanto, Pṛthu Mahārāja adverte que, sem a bênção do Senhor Supremo, não se pode avançar – seja em dita moralidade, em desenvolvimento econômico ou em gozo dos sentidos. Devemos, portanto, adotar o serviço ao Senhor, ou a consciência de Kṛṣṇa, para que muito rapidamente nos tornemos homens perfeitos, como confirma a Bhagavad-gītā (kṣipraṁ bhavati dharmātmā śaśvac-chāntiṁ nigacchati). Sendo um rei responsável, Pṛthu Mahārāja recomenda que todos se refugiem na Suprema Personalidade de Deus e, assim, purifiquem-se de imediato. O Senhor Śrī Kṛṣṇa também diz na Bhagavad-gītā que, pelo simples fato de rendermo-nos a Ele, livramo-nos prontamente de todas as reações pecaminosas. Assim como Kṛṣṇa remove todas as reações pecaminosas de uma pessoa tão logo esta se renda a Ele, do mesmo modo, a manifestação externa de Kṛṣṇa, o representante de Kṛṣṇa que atua como a misericórdia da Suprema Personalidade de Deus, remove todas as reações da vida pecaminosa do discípulo logo após iniciar o discípulo. Assim, se o discípulo seguir os princípios ensinados pelo mestre espiritual, permanecerá puro, livre da contaminação da infecção material.
Śrī Caitanya Mahāprabhu afirmava, portanto, que o mestre espiritual desempenhando o papel de representante de Kṛṣṇa tem que consumir todas as reações pecaminosas de seu discípulo. Às vezes, um mestre espiritual aceita o risco de ser dominado pelas reações pecaminosas dos discípulos e submete-se a uma série de tribulações devido a isso. Śrī Caitanya Mahāprabhu aconselha, portanto, que ninguém aceite muitos discípulos.
Devanagari
विनिर्धुताशेषमनोमल: पुमा-
नसङ्गविज्ञानविशेषवीर्यवान् ।
यदङ्घ्रिमूले कृतकेतन: पुन-
र्न संसृतिं क्लेशवहां प्रपद्यते ॥ ३२ ॥
नसङ्गविज्ञानविशेषवीर्यवान् ।
यदङ्घ्रिमूले कृतकेतन: पुन-
र्न संसृतिं क्लेशवहां प्रपद्यते ॥ ३२ ॥
Verse text
vinirdhutāśeṣa-mano-malaḥ pumān
asaṅga-vijñāna-viśeṣa-vīryavān
yad-aṅghri-mūle kṛta-ketanaḥ punar
na saṁsṛtiṁ kleśa-vahāṁ prapadyate
asaṅga-vijñāna-viśeṣa-vīryavān
yad-aṅghri-mūle kṛta-ketanaḥ punar
na saṁsṛtiṁ kleśa-vahāṁ prapadyate
Synonyms
vinirdhuta — limpando-se especificamente; aśeṣa — ilimitada; manaḥ-malaḥ — especulação mental ou a sujeira acumulada na mente; pumān — a pessoa; asaṅga — estando desgostosa; vijñāna — cientificamente; viśeṣa — em particular; vīrya-vān — fortalecendo-se em bhakti-yoga; yat — cujos; aṅghri — pés de lótus; mūle — à raiz dos; kṛta-ketanaḥ — refugiado; punaḥ — de novo; na — jamais; saṁsṛtim — existência material; kleśa-vahām — repleta de condições dolorosas; prapadyate — adota.
Translation
Ao se refugiar aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, o devoto se limpa inteiramente de todo equívoco ou especulação mental, e manifesta a renúncia. Isso só é possível para quem se fortalece mediante a prática de bhakti-yoga. Uma vez que se refugie na raiz dos pés de lótus do Senhor, o devoto jamais volta a esta existência material, que é repleta das três espécies de sofrimentos.
Purport
IGNIFICADO—Como o Senhor Caitanya Mahāprabhu afirma em Suas instruções no Śikṣāṣṭaka, cantando o santo nome do Senhor – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare – ou mediante o processo de ouvir e cantar as glórias do Senhor, nossa mente limpa-se aos poucos de toda sujeira. Devido a nosso contato com a matéria desde tempos imemoriais, acumulamos pilhas de sujeira em nossas mentes. O efeito total disso se manifesta quando a entidade viva se identifica com seu corpo e, deste modo, cai na armadilha das estritas leis da natureza material, girando no ciclo de repetidos nascimentos e mortes sob o falso conceito da identificação corpórea. Quando alguém se fortalece mediante a prática de bhakti-yoga, sua mente limpa-se desse equívoco, fazendo com que perca o interesse na existência material ou no gozo dos sentidos.
Bhakti, ou o serviço devocional, caracteriza-se por vairāgya e jñāna. Jñāna refere-se à compreensão de que não somos o corpo, e vairāgya significa desinteresse pelo gozo dos sentidos. Esses dois princípios primários do processo de escapar do cativeiro material podem ser compreendidos com base em bhakti-yoga. Assim, tão logo o devoto se fixe no serviço amoroso aos pés de lótus do Senhor, ele jamais voltará a esta existência material após deixar seu corpo, como o Senhor confirma na Bhagavad-gītā (tyaktvā dehaṁ punar janma naiti mām eti so ’rjuna).
Neste verso, a palavra vijñāna é especificamente importante. Jñāna, o conhecimento da identidade espiritual obtido quando deixamos de pensar que somos o corpo, explica-se na Bhagavad-gītā como brahma-bhūta, o reviver da percepção espiritual. No estado condicionado de existência material, pelo fato de identificar-se com a matéria, ninguém pode realizar-se espiritualmente. O entendimento da distinção entre existência material e existência espiritual chama-se jñāna. Após atingirmos a plataforma de jñāna, ou o estado de brahma-bhūta, chegamos, enfim, ao serviço devocional, no qual entendemos inteiramente nossa própria posição e a posição da Suprema Personalidade de Deus. Nesta passagem, explica-se que esse entendimento é vijñāna-viśeṣa. O Senhor diz, portanto, que conhecê-lO é vijñāna, ciência. Em outras palavras, quem se fortalece mediante o conhecimento científico da Suprema Personalidade de Deus tem garantida a sua posição de liberação. A Bhagavad-gītā (9.2) descreve a ciência do serviço devocional como pratyakṣāvagamaṁ dharmyam, entendimento direto dos princípios da religião através da compreensão prática.
Praticando bhakti-yoga, todos podem perceber diretamente seu avanço na vida espiritual. Em outras práticas – como karma-yoga, jñāna-yoga e dhyāna-yoga –, ninguém pode ficar confiante quanto a seu progresso, mas, em bhakti-yoga, pode-se perceber diretamente o progresso na vida espiritual, assim como uma pessoa, à medida que come, pode sentir que está satisfazendo sua fome. Nosso falso apetite por prazer e assenhoreamento do mundo material deve-se à predominância de paixão e ignorância. Através do bhakti-yoga, essas duas qualidades definham, e atinge-se o modo da bondade. Aos poucos, superando o modo da bondade, atinge-se a bondade pura, que não é contaminada pelas qualidades materiais. O devoto assim situado já não tem qualquer dúvida: ele sabe que não voltará a este mundo material.
Devanagari
तमेव यूयं भजतात्मवृत्तिभि-
र्मनोवच:कायगुणै: स्वकर्मभि: ।
अमायिन: कामदुघाङ्घ्रिपङ्कजं
यथाधिकारावसितार्थसिद्धय: ॥ ३३ ॥
र्मनोवच:कायगुणै: स्वकर्मभि: ।
अमायिन: कामदुघाङ्घ्रिपङ्कजं
यथाधिकारावसितार्थसिद्धय: ॥ ३३ ॥
Verse text
tam eva yūyaṁ bhajatātma-vṛttibhir
mano-vacaḥ-kāya-guṇaiḥ sva-karmabhiḥ
amāyinaḥ kāma-dughāṅghri-paṅkajaṁ
yathādhikārāvasitārtha-siddhayaḥ
mano-vacaḥ-kāya-guṇaiḥ sva-karmabhiḥ
amāyinaḥ kāma-dughāṅghri-paṅkajaṁ
yathādhikārāvasitārtha-siddhayaḥ
Synonyms
tam — a Ele; eva — certamente; yūyam — todos vós, cidadãos; bhajata — adorai; ātma — próprio; vṛttibhiḥ — dever ocupacional; manaḥ — mente; vacaḥ — palavras; kāya — corpo; guṇaiḥ — pelas qualidades específicas; sva-karmabhiḥ — pelos deveres ocupacionais; amāyinaḥ — sem reservas; kāma-dugha — satisfazendo todos os desejos; aṅghri-paṅkajam — os pés de lótus; yathā — quanto a; adhikāra — habilidade; avasita-artha — plenamente convencido do próprio interesse; siddhayaḥ — satisfação.
Translation
Pṛthu Mahārāja aconselhou seus cidadãos: Ocupando vossas mentes, vossas palavras, vossos corpos e os resultados de vossos deveres ocupacionais, e sendo sempre liberais, deveis todos prestar serviço devocional ao Senhor. Conforme vossas habilidades e as ocupações nas quais estais situados, podeis consagrar vosso serviço aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus com plena confiança e sem reservas. Então, certamente sereis exitosos na consecução do objetivo final de vossas vidas.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma no décimo oitavo capítulo da Bhagavad-gītā, sva-karmaṇā tam abhyarcya: devemos adorar a Suprema Personalidade de Deus através de nossos deveres ocupacionais. Para isso, é necessário aceitar o princípio de quatro varṇas e quatro āśramas. Pṛthu Mahārāja, portanto, diz: guṇaiḥ sva-karmabhiḥ. A Bhagavad-gītā explica essa frase. Cātur-varṇyaṁ mayā sṛṣṭaṁ guṇa-karma-vibhāgaśaḥ: “As quatro castas (os brāhmaṇas, os kṣatriyas, os vaiśyas e os śūdras) foram criadas pela Suprema Personalidade de Deus de acordo com os modos materiais da natureza e os deveres específicos desempenhados nesses modos.” Alguém situado no modo da bondade é com certeza mais inteligente do que os outros. Portanto, ele pode praticar as atividades bramânicas, a saber, falar a verdade, controlar os sentidos, controlar a mente, permanecer sempre limpo, praticar a tolerância, ter pleno conhecimento sobre sua identidade e entender de serviço devocional. Dessa maneira, se ele se ocupar em serviço amoroso ao Senhor como um brāhmaṇa de verdade, seu objetivo, que é alcançar o interesse final da vida, será atingido. Do mesmo modo, os deveres do kṣatriya consistem em dar proteção aos cidadãos, dar todas as suas posses em caridade, ser estritamente védico na administração dos afazeres do estado e ser destemido na luta sempre que houver um ataque dos inimigos. Dessa maneira, o kṣatriya pode satisfazer a Suprema Personalidade de Deus através de seus deveres ocupacionais. De modo semelhante, o vaiśya pode satisfazer a Divindade Suprema, desempenhando adequadamente seus deveres ocupacionais – dedicando-se à produção de alimentos, dando proteção às vacas e comercializando, se necessário e quando houver excesso de produção agrícola. Da mesma forma, como os śūdras não têm inteligência ampla, devem simplesmente ocupar-se em trabalhar para servir às classes superiores da sociedade. A meta de todos deve ser satisfazer a Suprema Personalidade de Deus, ocupando a mente em pensar sempre em Kṛṣṇa, as palavras em sempre oferecer orações ao Senhor ou pregar sobre as glórias do Senhor e o corpo em prestar o serviço necessário para satisfazer o Senhor. Assim como há quatro partes em nosso corpo – a cabeça, os braços, o estômago e as pernas – a sociedade humana, tomada como um todo, divide-se em quatro classes de homens de acordo com suas qualidades materiais e deveres ocupacionais. Assim, os homens bramânicos, ou inteligentes, devem cumprir o dever da cabeça, os kṣatriyas devem cumprir o dever dos braços, os da classe vaiśya devem cumprir o dever do estômago, e os śūdras devem cumprir o dever das pernas. No cumprimento dos deveres prescritos da vida, ninguém é superior ou inferior; estabelecem-se divisões tais como “os superiores” e “os inferiores”, mas como há, na verdade, um interesse comum – satisfazer a Suprema Personalidade de Deus – não há distinções entre eles.
Talvez alguém questione o seguinte: uma vez que o Senhor é adorado por grandes semideuses, como o senhor Brahmā, o senhor Śiva e outros, como um ser humano comum neste planeta pode servi-lo? Pṛthu Mahārāja explica isso claramente, usando a palavra yathādhikāra, “de acordo com a própria habilidade”. Se alguém desempenhar sinceramente seu dever ocupacional, isso bastará. Não é preciso tornar-se como o senhor Brahmā, o senhor Śiva, Indra, o Senhor Caitanya ou Rāmānujācārya, cujas capacidades estão decerto muito acima das nossas. Mesmo um śūdra, que segundo suas qualidades materiais está na fase mais baixa da vida, pode obter o mesmo sucesso. Qualquer pessoa pode ter êxito em serviço devocional, contanto que não demonstre duplicidade. Explica-se aqui como cada um deve ser muito franco e liberal (amāyinaḥ). Estar situado num status de vida inferior não é uma desqualificação para o sucesso em serviço devocional. A única qualificação é que, quer sejamos brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas ou śūdras, devemos ser abertos, francos e sem reservas. Então, cumprindo nosso dever ocupacional em particular sob a orientação de um mestre espiritual adequado, poderemos alcançar o sucesso máximo na vida. Como o próprio Senhor confirma, striyo vaiśyās tathā śūdrās te ’pi yānti parāṁ gatim. (Bhagavad-gītā 9.32) Não importa o que alguém possa ser – brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya, śūdra ou uma mulher degradada –, caso se ocupe seriamente em serviço devocional, trabalhando com o corpo, a mente e a inteligência, decerto terá êxito e voltará ao lar, voltará ao Supremo. Descreve-se aqui os pés de lótus do Senhor como kāma-dughāṅghri-paṅkajam porque eles têm todo o poder para satisfazer os desejos de todos. O devoto é feliz, mesmo nesta vida, porque, embora na existência material tenhamos muitas necessidades, todas as suas necessidades materiais são satisfeitas, e quando ele finalmente abandona o corpo, ele volta ao lar, volta ao Supremo, sem dúvida alguma.
Devanagari
असाविहानेकगुणोऽगुणोऽध्वर:
पृथग्विधद्रव्यगुणक्रियोक्तिभि: ।
सम्पद्यतेऽर्थाशयलिङ्गनामभि-
र्विशुद्धविज्ञानघन: स्वरूपत: ॥ ३४ ॥
पृथग्विधद्रव्यगुणक्रियोक्तिभि: ।
सम्पद्यतेऽर्थाशयलिङ्गनामभि-
र्विशुद्धविज्ञानघन: स्वरूपत: ॥ ३४ ॥
Verse text
asāv ihāneka-guṇo ’guṇo ’dhvaraḥ
pṛthag-vidha-dravya-guṇa-kriyoktibhiḥ
sampadyate ’rthāśaya-liṅga-nāmabhir
viśuddha-vijñāna-ghanaḥ svarūpataḥ
pṛthag-vidha-dravya-guṇa-kriyoktibhiḥ
sampadyate ’rthāśaya-liṅga-nāmabhir
viśuddha-vijñāna-ghanaḥ svarūpataḥ
Synonyms
asau — a Suprema Personalidade de Deus; iha — neste mundo material; aneka — diversas; guṇaḥ — qualidades; aguṇaḥ — transcendentais; adhvaraḥ — yajña; pṛthak-vidha — variedades; dravya — elementos físicos; guṇa — ingredientes; kriyā — realizações; uktibhiḥ — cantando diversos mantras; sampadyate — é adorado; artha — interesse; āśaya — propósito; liṅga — forma; nāmabhiḥ — nome; viśuddha — sem contaminação; vijñāna — ciência; ghanaḥ — concentrado; sva-rūpataḥ — em Sua própria forma.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus é transcendental e não contaminada por este mundo material. Porém, embora Ele seja uma alma espiritual concentrada e sem variedade material, para o benefício da alma condicionada, Ele, mesmo assim, aceita diferentes classes de sacrifícios realizados com vários elementos materiais, rituais e mantras e oferecidos aos semideuses sob diferentes nomes de acordo com os interesses e propósitos dos realizadores.
Purport
SIGNIFICADO—Para quem busca prosperidade material, há recomendações nos Vedas para diversas espécies de yajña (sacrifício). A Bhagavad-gītā (3.10) confirma que o senhor Brahmā criou todas as entidades vivas, incluindo os seres humanos e os semideuses, e as aconselhou a realizarem yajña de acordo com seus desejos materiais (saha-yajñāḥ prajāḥ sṛṣṭvā). Essas funções se chamam yajñas porque sua meta última é satisfazer a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu. O propósito de realizar yajñas é obter benefícios materiais, mas, como a meta é simultaneamente satisfazer o Senhor Supremo, semelhantes yajñas são recomendados nos Vedas. Essas cerimônias são, evidentemente, conhecidas como karma-kāṇḍa, ou atividades materiais, e todas as atividades materiais são decerto contaminadas pelos três modos da natureza material. De um modo geral, as cerimônias ritualísticas karma-kāṇḍa são feitas no modo da paixão, mas as almas condicionadas, tanto os seres humanos quanto os semideuses, são obrigadas a realizar esses yajñas porque, sem eles, não se pode ser feliz de forma alguma.
Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta que essas cerimônias ritualísticas karma-kāṇḍa, embora contaminadas, contêm vestígios de serviço devocional, visto que o Senhor Viṣṇu é a figura central do sacrifício sempre que se realiza algum yajña. Isso é muito importante porque mesmo um pequeno esforço para satisfazer o Senhor Viṣṇu é bhakti e tem grande valor. Uma gotinha de bhakti purifica a natureza material das cerimônias, as quais, através do serviço devocional, gradualmente atingem a posição transcendental. Portanto, embora semelhantes yajñas sejam superficialmente atividades materiais, os resultados são transcendentais. Yajñas tais como Sūrya-yajña, Indra-yajña e Candra-yajña são realizados em nome dos semideuses, mas esses semideuses são partes do corpo da Suprema Personalidade de Deus. Os semideuses não podem aceitar oferendas de sacrifício para eles mesmos, mas podem aceitá-las em benefício da Suprema Personalidade de Deus, assim como o cobrador de impostos de um governo não pode cobrar impostos para depositá-los em sua conta pessoal, mas deve fazê-lo para o governo. Qualquer yajña realizado com base neste conhecimento e entendimento plenos é descrito na Bhagavad-gītā como brahmārpaṇaṁ, ou um sacrifício oferecido à Suprema Personalidade de Deus. Uma vez que ninguém além do Senhor Supremo pode desfrutar dos resultados do sacrifício, o Senhor afirma ser o verdadeiro desfrutador de todos os sacrifícios (bhoktāram yajña-tapasāṁ sarva-loka-maheśvaram). Deve-se executar sacrifícios com essa perspectiva em mente. Como se afirma na Bhagavad-gītā (4.24):
brahmārpaṇaṁ brahma havir
brahmāgnau brahmaṇā hutam
brahmaiva tena gantavyaṁ
brahma-karma-samādhinā
brahmāgnau brahmaṇā hutam
brahmaiva tena gantavyaṁ
brahma-karma-samādhinā
“Uma pessoa que está plenamente absorta em consciência de Kṛṣṇa com certeza alcança o reino espiritual devido a sua completa contribuição às atividades espirituais, nas quais a consumação é absoluta e aquilo que se oferece é da mesma natureza espiritual.” O realizador de sacrifícios deve sempre ter em mente que os sacrifícios mencionados nos Vedas se destinam a satisfazer a Suprema Personalidade de Deus. Viṣṇur ārādhyate panthāḥ. (Viṣṇu Purāṇa 3.8.9) Qualquer coisa, quer material, quer espiritual, feita para a satisfação do Senhor Supremo, é tida como um yajña verdadeiro, e, executando semelhantes yajñas, libertamo-nos do cativeiro material. O método direto de libertar-se do cativeiro material é o serviço devocional, que consiste nos nove seguintes processos:
śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ
smaraṇaṁ pāda-sevanam
arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ
sakhyam ātma-nivedana
smaraṇaṁ pāda-sevanam
arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ
sakhyam ātma-nivedana
(Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.23)
Esse verso descreve esse processo nônuplo como viśuddha-vijñāna-ghanaḥ, ou seja, satisfazer a Suprema Personalidade de Deus diretamente através de conhecimento transcendental concentrado sob a forma do Senhor Supremo, Viṣṇu. Esse é o melhor método para satisfazer o Senhor Supremo. Alguém que não possa adotar esse processo direto, entretanto, deve adotar o processo indireto de realizar yajñas para a satisfação de Viṣṇu, ou Yajña. Viṣṇu, portanto, é chamado de yajña-pati. Śriyaḥ patiṁ yajña-patiṁ jagat patiṁ. (Śrīmad-Bhāgavatam 2.9.15)
O profundo conhecimento científico da Suprema Personalidade de Deus é concentrado ao máximo. Por exemplo, a ciência médica conhece algumas coisas superficialmente, mas os médicos não sabem exatamente como as coisas acontecem no corpo. O Senhor Kṛṣṇa, contudo, conhece tudo detalhadamente. Portanto, Seu conhecimento é vijñāna-ghana porque não tem nenhum dos defeitos da ciência material. A Suprema Personalidade de Deus é viśuddha-vijñāna-ghana, conhecimento transcendental concentrado; portanto, mesmo que aceite yajñas de karma-kāṇḍīya materialista, Ele sempre permanece em posição transcendental. Portanto, a menção de aneka-guṇa refere-se às muitas qualidades transcendentais da Suprema Personalidade de Deus, pois as qualidades materiais não O afetam. As diferentes classes de parafernália material ou elementos físicos também se transformam aos poucos em compreensão espiritual porque, em última análise, não há diferença entre as qualidades materiais e as espirituais, pois tudo emana do Espírito Supremo. Isso pode ser percebido através de um processo gradual de compreensão e purificação. Um exemplo vívido disso é Dhruva Mahārāja, que praticou meditação na floresta em troca de benefícios materiais, mas, por fim, tornou-se espiritualmente avançado e não quis qualquer bênção ligada a vantagens materiais. Ele estava simplesmente satisfeito de associar-se com o Senhor Supremo. Āśaya significa “determinação”. De um modo geral, a alma condicionada tem a determinação de obter lucro material, mas, satisfazendo esses desejos de lucro material através da realização de yajña, aos poucos ela atinge a plataforma espiritual. Então, sua vida se torna perfeita. Por isso, o Śrīmad-Bhāgavatam (2.3.10) recomenda:
akāmaḥ sarva-kāmo vā
mokṣa-kāma udāra-dhīḥ
tīvreṇa bhakti-yogena
yajeta puruṣaṁ param
mokṣa-kāma udāra-dhīḥ
tīvreṇa bhakti-yogena
yajeta puruṣaṁ param
Todos – sejam akāma (devotos), sarva-kāma (karmīs) ou mokṣa-kāma (jñānīs ou yogīs) – são incentivados a adorar a Suprema Personalidade de Deus pelo método direto do serviço devocional. Dessa maneira, todos podem obter se beneficiar material e espiritualmente ao mesmo tempo.
Devanagari
प्रधानकालाशयधर्मसङ्ग्रहे
शरीर एष प्रतिपद्य चेतनाम् ।
क्रियाफलत्वेन विभुर्विभाव्यते
यथानलो दारुषु तद्गुणात्मक: ॥ ३५ ॥
शरीर एष प्रतिपद्य चेतनाम् ।
क्रियाफलत्वेन विभुर्विभाव्यते
यथानलो दारुषु तद्गुणात्मक: ॥ ३५ ॥
Verse text
pradhāna-kālāśaya-dharma-saṅgrahe
śarīra eṣa pratipadya cetanām
kriyā-phalatvena vibhur vibhāvyate
yathānalo dāruṣu tad-guṇātmakaḥ
śarīra eṣa pratipadya cetanām
kriyā-phalatvena vibhur vibhāvyate
yathānalo dāruṣu tad-guṇātmakaḥ
Synonyms
pradhāna — natureza material; kāla — tempo; āśaya — desejo; dharma — deveres ocupacionais; saṅgrahe — conjunto; śarīre — corpo; eṣaḥ — este; pratipadya — aceitando; cetanām — consciência; kriyā — atividades; phalatvena — pelo resultado de; vibhuḥ — a Suprema Personalidade de Deus; vibhāvyate — manifesta; yathā — tanto quanto; analaḥ — fogo; dāruṣu — na lenha; tat-guṇa-ātmakaḥ — de acordo com a forma e a qualidade.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus é onipenetrante, mas Ele também Se manifesta em diferentes classes de corpos que surgem de combinações da natureza material, do tempo, de desejos e de deveres ocupacionais. Assim, diferentes classes de consciência se desenvolvem, assim como o fogo, que é basicamente o mesmo a todo momento, queima de diferentes maneiras de acordo com a forma e dimensão da lenha.
Purport
SIGNIFICADO—Como o Paramātmā, a Suprema Personalidade de Deus vive constantemente com a alma individual. A percepção da alma individual varia de acordo com seu corpo material, o qual ela obtém em virtude da prakṛti, ou natureza material. Os ingredientes materiais são ativados pela força do tempo, e assim manifestam-se os três modos materiais da natureza. Dependendo de como se associa com os três modos da natureza, a entidade viva desenvolve uma espécie de corpo em particular. Na vida animal, o modo material da ignorância é tão proeminente que há pouquíssima possibilidade de perceber o Paramātmā, que também está presente dentro do coração do animal, mas, sob a forma humana de vida, devido à consciência desenvolvida (cetanām), a entidade viva pode transferir-se da ignorância e da paixão à bondade através dos resultados de suas atividades (kriyā phalatvena). Portanto, aconselha-se ao ser humano que se associe com personalidades espiritualmente avançadas. Os Vedas (Muṇḍaka Upaniṣad 1.2.12) orientam-nos no sentido de tadvijñānārthaṁ sa gurum evābhigacchet: a fim de alcançar a perfeição da vida, ou entender a verdadeira posição constitucional da entidade viva, é preciso aproximar-se de um mestre espiritual. Gurum evābhigacchet – não é algo opcional, mas sim compulsório. É imprescindível aproximar-se do mestre espiritual, pois, em contato com ele, desenvolve-se proporcionalmente a consciência, voltando-a para a Suprema Personalidade de Deus. A perfeição máxima de tal consciência se chama consciência de Kṛṣṇa. Nossa consciência apresenta-se conforme o corpo dado pela prakṛti (natureza). Nossas atividades se realizam de acordo com o desenvolvimento dessa consciência, e, segundo a pureza de tais atividades, percebemos a Suprema Personalidade de Deus, que está presente no coração de todos. O exemplo dado nesta passagem é muito elucidativo. O fogo é sempre o mesmo, mas, dependendo do tamanho do combustível ou da lenha, o fogo parece ser reto, curvo, pequeno, grande etc.
A compreensão de Deus se faz presente de acordo com o desenvolvimento da consciência. Na forma humana de vida, portanto, somos recomendados a submeter-nos às diversas espécies de penitências e austeridades descritas na Bhagavad-gītā (karma-yoga, jñāna-yoga, dhyāna-yoga e bhakti-yoga). Como uma escada, o yoga tem diferentes degraus antes de chegar ao andar mais elevado, e, conforme nossa posição na escada, considera-se que estamos situados em karma-yoga, jñāna-yoga, dhyāna-yoga ou bhakti-yoga. Evidentemente, bhakti-yoga é o degrau máximo na escada da compreensão da Suprema Personalidade de Deus. Em outras palavras, segundo o desenvolvimento de nossa consciência, percebemos nossa identidade espiritual, e assim, ao purificarmos plenamente nossa condição existencial, situamo-nos em brahmānanda, que é, em última análise, ilimitada. Portanto, o movimento de saṅkīrtana outorgado pela Suprema Personalidade de Deus sob a forma do Senhor Caitanya é o processo direto e mais fácil de atingir a forma mais pura de consciência – consciência de Kṛṣṇa, a plataforma na qual se compreende plenamente a Personalidade Suprema. Instruções para a realização de diferentes classes de yajñas são providenciadas especificamente para que se possa alcançar a compreensão máxima do Senhor Supremo, como o próprio Senhor confirma na Bhagavad-gītā (4.11): ye yathā māṁ prapadyante tāṁs tathaiva bhajāmy aham. Compreendemos a Suprema Personalidade de Deus à proporção que nos rendemos a Ele. A rendição plena, contudo, ocorre para quem está perfeitamente situado em conhecimento: bahūnāṁ janmanām ante jñānavān māṁ prapadyate. (Bhagavad-gītā 7.19)
Devanagari
अहो ममामी वितरन्त्यनुग्रहं
हरिं गुरुं यज्ञभुजामधीश्वरम् ।
स्वधर्मयोगेन यजन्ति मामका
निरन्तरं क्षोणितले दृढव्रता: ॥ ३६ ॥
हरिं गुरुं यज्ञभुजामधीश्वरम् ।
स्वधर्मयोगेन यजन्ति मामका
निरन्तरं क्षोणितले दृढव्रता: ॥ ३६ ॥
Verse text
aho mamāmī vitaranty anugrahaṁ
hariṁ guruṁ yajña-bhujām adhīśvaram
sva-dharma-yogena yajanti māmakā
nirantaraṁ kṣoṇi-tale dṛḍha-vratāḥ
hariṁ guruṁ yajña-bhujām adhīśvaram
sva-dharma-yogena yajanti māmakā
nirantaraṁ kṣoṇi-tale dṛḍha-vratāḥ
Synonyms
aho — ó todos vós; mama — a mim; amī — todos eles; vitaranti — distribuindo; anugraham — misericórdia; harim — a Suprema Personalidade de Deus; gurum — o mestre espiritual supremo; yajñabhujām — todos os semideuses qualificados para aceitar oferecimentos de yajña; adhīśvaram — o senhor supremo; sva-dharma — deveres ocupacionais; yogena — através de; yajanti — adorais; māmakāḥ — tendo uma relação comigo; nirantaram — incessantemente; kṣoṇi-tale — sobre a face do globo; dṛḍha-vratāḥ — com firme determinação.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus é o senhor e o desfrutador dos resultados de todos os sacrifícios, sendo, também, o mestre espiritual supremo. Todos vós, cidadãos sobre a face do globo, que tendes uma relação comigo e estais adorando-O através de vossos deveres ocupacionais, estais concedendo-me vossa misericórdia. Portanto, ó meus cidadãos, eu vos agradeço.
Purport
SIGNIFICADO—O conselho de Mahārāja Pṛthu a seus cidadãos de adotarem o serviço devocional é agora concluído de duas maneiras. Repetidas vezes, ele tem aconselhado aos neófitos que se ocupem em serviço devocional de acordo com as capacidades das diferentes ordens da vida social e espiritual, mas aqui ele agradece especificamente àqueles já ocupados nesse serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, que é o verdadeiro desfrutador de todas as cerimônias de sacrifícios e que também é o mestre supremo como antaryāmī, ou Paramātmā. Faz-se menção específica da palavra gurum, a qual indica a Personalidade Suprema como caitya-guru. A Divindade Suprema sob Seu aspecto como Paramātmā está presente no coração de todos e sempre tenta induzir a alma individual a render-se a Ele e ocupar-se em serviço devocional; por isso, Ele é o mestre espiritual original. Ele Se manifesta como o mestre espiritual, tanto interna quanto externamente, para ajudar a alma condicionada de ambos os modos. Portanto, Ele é mencionado neste verso como gurum. Entretanto, parece que, na época de Mahārāja Pṛthu, todas as pessoas na superfície do globo eram seus súditos. A maioria delas – de fato quase todas elas – estavam ocupadas em serviço devocional. Portanto, ele lhes agradeceu de maneira humilde por estarem praticando serviço devocional e, assim, outorgando-lhe misericórdia. Em outras palavras, em um estado onde os cidadãos e os líderes estão ocupados em serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, eles se ajudam uns aos outros e beneficiam-se mutuamente.
Devanagari
मा जातु तेज: प्रभवेन्महर्द्धिभि-
स्तितिक्षया तपसा विद्यया च ।
देदीप्यमानेऽजितदेवतानां
कुले स्वयं राजकुलाद् द्विजानाम् ॥ ३७ ॥
स्तितिक्षया तपसा विद्यया च ।
देदीप्यमानेऽजितदेवतानां
कुले स्वयं राजकुलाद् द्विजानाम् ॥ ३७ ॥
Verse text
mā jātu tejaḥ prabhaven maharddhibhis
titikṣayā tapasā vidyayā ca
dedīpyamāne ’jita-devatānāṁ
kule svayaṁ rāja-kulād dvijānām
titikṣayā tapasā vidyayā ca
dedīpyamāne ’jita-devatānāṁ
kule svayaṁ rāja-kulād dvijānām
Synonyms
mā — nunca façais isto; jātu — em tempo algum; tejaḥ — poder supremo; prabhavet — manifestam; mahā — grande; ṛddhibhiḥ — por opulência; titikṣayā — por tolerância; tapasā — penitência; vidyayā — por educação; ca — também; dedīpyamāne — àqueles que já são gloriosos; ajita-devatānām — vaiṣṇavas, ou os devotos da Suprema Personalidade de Deus; kule — na sociedade; svayam — pessoalmente; rāja-kulāt — superiores à família real; dvijānām — dos brāhmaṇas.
Translation
Os brāhmaṇas e vaiṣṇavas são pessoalmente glorificados por seus característicos poderes de tolerância, penitência, conhecimento e educação. Em virtude de todos esses bens espirituais, os vaiṣṇavas são mais poderosos do que a realeza. Portanto, aconselha-se que a ordem principesca não exiba seus poderes materiais diante dessas duas comunidades e evite ofendê-las.
Purport
SIGNIFICADO—Pṛthu Mahārāja explicou no verso anterior a importância do serviço devocional, tanto para os governantes, quanto para os cidadãos do estado. Agora ele explica como alguém pode fixar-se estavelmente em serviço devocional. Ao instruir Śrīla Rūpa Gosvāmī, Śrī Caitanya Mahāprabhu comparou o serviço devocional ao Senhor a uma trepadeira. A trepadeira tem um caule frágil e precisa do suporte de outra árvore para crescer, e, enquanto cresce, requer suficiente proteção para que não morra. Descrevendo o sistema de proteção para a trepadeira do serviço devocional, Śrī Caitanya Mahāprabhu enfatizava especialmente a proteção contra as ofensas aos pés de lótus dos vaiṣṇavas. Tais ofensas se chamam vaiṣṇava-aparādhas. Aparādha significa “ofensa”. Se alguém comete vaiṣṇava-aparādhas, todo o seu progresso em serviço devocional é interrompido. Mesmo que seja muito avançado em serviço devocional, se alguém comete ofensas aos pés de um vaiṣṇava, seu avanço é completamente arruinado. Os śāstras relatam que um eminente yogī, Durvāsā Muni, cometeu vaiṣṇava-aparādha e, em consequência disso, por um ano completo, teve que viajar por todo o universo, chegando inclusive a Vaikuṇṭhaloka, para se livrar da ofensa. Por fim, mesmo quando se aproximou da Suprema Personalidade de Deus em Vaikuṇṭha, foi-lhe negada proteção. Portanto, devemos ser muito cuidadosos para não cometermos ofensas aos pés de um vaiṣṇava. A espécie mais grave de vaiṣṇava-aparādha chama-se gurv-aparādha, que se refere a ofensas aos pés de lótus do mestre espiritual. No cantar do santo nome da Suprema Personalidade de Deus, esse gurv-aparādha é considerado a ofensa mais grave. Guror avajñā śruti-śāstra-nindanam (Padma Purāṇa). Entre as dez ofensas cometidas contra o cantar do santo nome, as primeiras ofensas são a desobediência ao mestre espiritual e a blasfêmia contra a literatura védica.
A definição simples de vaiṣṇava é dada por Śrī Caitanya Mahāprabhu: uma pessoa que imediatamente faz alguém lembrar-se da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é um vaiṣṇava. Neste verso, mencionam-se tanto os vaiṣṇavas quanto os brāhmaṇas. O vaiṣṇava é um brāhmaṇa erudito, sendo, por isso, designado como brāhmaṇa-vaiṣṇava, brāhmaṇa-paṇḍita ou como vaiṣṇava e brāhmaṇa. Em outras palavras, supõe-se que o vaiṣṇava já seja um brāhmaṇa, mas nem todo brāhmaṇa é um vaiṣṇava puro. Quando uma pessoa entende sua identidade pura, brahma-jānāti, torna-se imediatamente um brāhmaṇa. Na fase de brāhmaṇa, sua compreensão da Verdade Absoluta baseia-se principalmente na visão impessoal. Contudo, ao elevar-se à plataforma de compreensão pessoal da Divindade Suprema, o brāhmaṇa torna-se um vaiṣṇava. O vaiṣṇava transcende até mesmo um brāhmaṇa. No conceito material, a posição do brāhmaṇa é a mais elevada na sociedade humana, mas o vaiṣṇava transcende até mesmo um brāhmaṇa. Tanto o brāhmaṇa quanto o vaiṣṇava são avançados espiritualmente. A Bhagavad-gītā menciona que as qualificações de um brāhmaṇa são veracidade, equanimidade mental, controle dos sentidos, o poder de tolerância, simplicidade, conhecimento da Verdade Absoluta, firme fé nas escrituras e aplicação prática das qualidades bramânicas na vida. Em acréscimo a todas essas qualificações, quando alguém se ocupa plenamente em transcendental serviço amoroso as Senhor, torna-se um vaiṣṇava. Pṛthu Mahārāja adverte seus cidadãos que estão realmente ocupados em serviço devocional ao Senhor que tenham cuidado com as ofensas aos brāhmaṇas e aos vaiṣṇavas. Ofensas a seus pés de lótus são tão destrutivas que mesmo os descendentes de Yadu, os quais haviam nascido na família do Senhor Kṛṣṇa, foram destruídos devido a ofensas a seus pés. A Suprema Personalidade de Deus não é capaz de tolerar nenhuma ofensa aos pés de lótus de brāhmaṇas e vaiṣṇavas. Às vezes, devido a suas poderosas posições, príncipes ou servos do governo menosprezam a posição dos brāhmaṇas e dos vaiṣṇavas, não sabendo que, devido a suas ofensas, serão arruinados.
Devanagari
ब्रह्मण्यदेव: पुरुष: पुरातनो
नित्यं हरिर्यच्चरणाभिवन्दनात् ।
अवाप लक्ष्मीमनपायिनीं यशो
जगत्पवित्रं च महत्तमाग्रणी: ॥ ३८ ॥
नित्यं हरिर्यच्चरणाभिवन्दनात् ।
अवाप लक्ष्मीमनपायिनीं यशो
जगत्पवित्रं च महत्तमाग्रणी: ॥ ३८ ॥
Verse text
brahmaṇya-devaḥ puruṣaḥ purātano
nityaṁ harir yac-caraṇābhivandanāt
avāpa lakṣmīm anapāyinīṁ yaśo
jagat-pavitraṁ ca mahattamāgraṇīḥ
nityaṁ harir yac-caraṇābhivandanāt
avāpa lakṣmīm anapāyinīṁ yaśo
jagat-pavitraṁ ca mahattamāgraṇīḥ
Synonyms
brāhmaṇya-devaḥ — o Senhor da cultura bramânica; puruṣaḥ — a Personalidade Suprema; purātanaḥ — a mais velha; nityam — eterna; hariḥ — a Personalidade de Deus; yat — cujos; caraṇa — pés de lótus; abhivandanāt — por meio da adoração; avāpa — obteve; lakṣmīm — opulências; anapāyinīm — perpetuamente; yaśaḥ — reputação; jagat — universal; pavitram — purificado; ca — também; mahat — grande; tama — suprema; agraṇīḥ — principal.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus, a antiga e eterna Divindade, que é a principal entre todas as grandes personalidades, obteve a opulência de Sua sólida reputação, que purifica todo o universo, adorando os pés de lótus desses brāhmaṇas e vaiṣṇavas.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, descreve-se a Pessoa Suprema como brahmaṇya-deva. Brahmaṇya se refere aos brāhmaṇas, aos vaiṣṇavas ou à cultura bramânica, e deva significa “Senhor adorável”. Portanto, a menos que estejamos na plataforma transcendental de sermos vaiṣṇavas ou na plataforma mais elevada de bondade material (como brāhmaṇas), não podemos apreciar a Suprema Personalidade de Deus. Nas fases inferiores de ignorância e paixão, é difícil apreciar ou entender o Senhor Supremo. Portanto, este verso descreve o Senhor como a Deidade adorável para pessoas na cultura bramânica e vaiṣṇava.
namo brahmaṇya-devāya
go-brāhmaṇa-hitāya ca
jagad-dhitāya kṛṣṇāya
govindāya namo nama
go-brāhmaṇa-hitāya ca
jagad-dhitāya kṛṣṇāya
govindāya namo nama
(Viṣṇu Purāṇa 1.19.65)
O Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, é o protetor original da cultura bramânica e das vacas. Sem saber e respeitar isso, não se pode compreender a ciência de Deus, e, sem esse conhecimento, nenhuma atividade beneficente ou propaganda humanitária pode ser exitosa. O Senhor é puruṣa, ou o desfrutador supremo. Ele não é apenas o desfrutador ao aparecer como uma encarnação manifesta, mas é o desfrutador desde tempos imemoriais, desde o início (purātanaḥ) e eternamente (nityam). Yac-caraṇābhivandanāt: Pṛthu Mahārāja disse que a Suprema Personalidade de Deus obteve esta opulência de fama eterna simplesmente adorando os pés de lótus dos brāhmaṇas. A Bhagavad-gītā diz que o Senhor não precisa trabalhar para obter ganho material. Como é perpétua e supremamente perfeito, Ele não precisa obter nada, mas, ainda assim, afirma-se que Ele obteve Suas opulências adorando os pés de lótus dos brāhmaṇas. Essas são Suas ações exemplares. Quando o Senhor Śrī Kṛṣṇa estava em Dvārakā, Ele ofereceu Seus respeitos prostrando-Se aos pés de lótus de Nārada. Ao receber a visita de Sudāmā Vipra, o Senhor Kṛṣṇa pessoalmente lavou seus pés e o deixou sentar-se em Sua própria cama. Apesar de ser a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Śrī Kṛṣṇa prestava Seus respeitos a Mahārāja Yudhiṣṭhira e a Kuntī. O Senhor comporta-Se de maneira exemplar para nos ensinar que devemos proteger as vacas, cultivar qualidades bramânicas e respeitar os brāhmaṇas e os vaiṣṇavas. O Senhor diz na Bhagavad-gītā (3.21) que yad yad ācarati śreṣṭhas tat tad evetaro janaḥ: “Se os líderes comportam-se de determinada maneira, os demais os seguem automaticamente.” Que personalidade pode ter mais liderança do que a Suprema Personalidade de Deus e quem pode ter um comportamento mais exemplar? É evidente que Ele não precisava fazer todas essas coisas para obter um ganho material, mas todos esses atos foram realizados simplesmente para nos ensinar como nos comportarmos neste mundo material.
Este verso descreve a Suprema Personalidade de Deus como mahattama-agraṇiḥ. Neste mundo material, os mahattamas, ou grandes personalidades, são o senhor Brahmā e o senhor Śiva, mas Ele está acima de todas elas. Nārāyaṇaḥ paro ’vyaktāt: a Suprema Personalidade de Deus encontra-Se em posição transcendental, acima de todas as coisas criadas neste mundo material. Suas opulências, Suas riquezas, Sua beleza, Sua sabedoria, Seu conhecimento, Sua renúncia e Sua reputação são todos jagat-pavitram, universalmente purificantes. À medida que falamos de Suas opulências, o universo torna-se cada vez mais puro. No mundo material, as opulências pertencentes a um materialista jamais são permanentes. Talvez hoje alguém seja muito rico, mas amanhã poderá ficar pobre; talvez hoje alguém seja muito famoso, mas pode ser que amanhã seja infame. Opulências obtidas materialmente nunca são permanentes, mas todas as seis opulências existem perpetuamente na Suprema Personalidade de Deus, e não apenas no mundo espiritual, mas também neste mundo material. A reputação do Senhor Kṛṣṇa é permanente, e Seu livro de sabedoria, a Bhagavadgītā, é honrado ainda hoje. Tudo que se relaciona com a Suprema Personalidade de Deus existe eternamente.
Devanagari
यत्सेवयाशेषगुहाशय: स्वराड्
विप्रप्रियस्तुष्यति काममीश्वर: ।
तदेव तद्धर्मपरैर्विनीतै:
सर्वात्मना ब्रह्मकुलं निषेव्यताम् ॥ ३९ ॥
विप्रप्रियस्तुष्यति काममीश्वर: ।
तदेव तद्धर्मपरैर्विनीतै:
सर्वात्मना ब्रह्मकुलं निषेव्यताम् ॥ ३९ ॥
Verse text
yat-sevayāśeṣa-guhāśayaḥ sva-rāḍ
vipra-priyas tuṣyati kāmam īśvaraḥ
tad eva tad-dharma-parair vinītaiḥ
sarvātmanā brahma-kulaṁ niṣevyatām
vipra-priyas tuṣyati kāmam īśvaraḥ
tad eva tad-dharma-parair vinītaiḥ
sarvātmanā brahma-kulaṁ niṣevyatām
Synonyms
yat — cujos; sevayā — servindo; aśeṣa — ilimitado; guhā-āśayaḥ — residindo no coração de todos; sva-rāṭ — mas, de qualquer modo, plenamente independente; vipra-priyaḥ — muito querido para os brāhmaṇas e vaiṣṇavas; tuṣyati — fica satisfeito; kāmam — de desejos; īśvaraḥ — a Suprema Personalidade de Deus; tat — isso; eva — decerto; tat-dharma-paraiḥ — seguindo os passos do Senhor; vinītaiḥ — com humildade; sarva-ātmanā — sob todos os aspectos; brahma-kulam — os descendentes de brāhmaṇas e vaiṣṇavas; niṣevyatām — estando sempre ocupados a serviço deles.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus, que é eternamente independente e que existe no coração de todos, fica muito satisfeito com aqueles que seguem Seus passos e se ocupam, sem reservas, a serviço dos descendentes de brāhmaṇas e vaiṣṇavas, pois Ele é sempre muito querido pelos brāhmaṇas e vaiṣṇavas, e estes Lhe são sempre muito queridos.
Purport
SIGNIFICADO—Afirma-se que o Senhor fica muito satisfeito ao ver alguém se ocupar a serviço de Seu devoto. Ele não precisa do serviço de ninguém porque é completo, mas se trata de nosso próprio interesse oferecer toda classe de serviços à Suprema Personalidade de Deus. Esses serviços podem ser oferecidos à Pessoa Suprema, não diretamente, mas através do serviço a brāhmaṇas e vaiṣṇavas. Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura canta: chāḍyā vaiṣṇavā-sevā nistāra pāyeche kebā, significando que, a menos que sirvamos os vaiṣṇavas e os brāhmaṇas, não podemos libertar-nos das garras materiais. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura também diz que yasya prasādād bhagavat-prasādaḥ: satisfazendo os sentidos do mestre espiritual, é possível satisfazer os sentidos da Suprema Personalidade de Deus. Assim, este comportamento, além de ser mencionado nas escrituras, também é seguido pelos ācāryas. Pṛthu Mahārāja aconselhou seus cidadãos a seguirem o comportamento exemplar do próprio Senhor e, assim, ocuparem-se em serviço aos brāhmaṇas e aos vaiṣṇavas.
Devanagari
पुमाँल्लभेतानतिवेलमात्मन:
प्रसीदतोऽत्यन्तशमं स्वत: स्वयम् ।
यन्नित्यसम्बन्धनिषेवया तत:
परं किमत्रास्ति मुखं हविर्भुजाम् ॥ ४० ॥
प्रसीदतोऽत्यन्तशमं स्वत: स्वयम् ।
यन्नित्यसम्बन्धनिषेवया तत:
परं किमत्रास्ति मुखं हविर्भुजाम् ॥ ४० ॥
Verse text
pumāḻ labhetānativelam ātmanaḥ
prasīdato ’tyanta-śamaṁ svataḥ svayam
yan-nitya-sambandha-niṣevayā tataḥ
paraṁ kim atrāsti mukhaṁ havir-bhujām
prasīdato ’tyanta-śamaṁ svataḥ svayam
yan-nitya-sambandha-niṣevayā tataḥ
paraṁ kim atrāsti mukhaṁ havir-bhujām
Synonyms
pumān — uma pessoa; labheta — pode obter; anati-velam — sem demora; ātmanaḥ — de sua alma; prasīdataḥ — estando satisfeita; atyanta — a maior; śamam — paz; svataḥ — automaticamente; svayam — pessoalmente; yat — cuja; nitya — regular; sambandha — relação; niṣevayā — mediante o serviço; tataḥ — depois disso; param — superior; kim — que; atra — aqui; asti — há; mukham — felicidade; haviḥ — manteiga clarificada; bhujām — aqueles que bebem.
Translation
Prestando serviço regular aos brāhmaṇas e aos vaiṣṇavas, podemos remover a sujeira de nosso coração e, assim, gozar da paz suprema e da liberação do apego material e ficarmos satisfeitos. Neste mundo, não há atividade fruitiva superior ao serviço à classe bramânica, pois isso pode dar prazer aos semideuses, para quem os muitos sacrifícios são recomendados.
Purport
SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (2.65), declara-se: prasāde sarva-duḥkhānāṁ hānir asyopajāyate. A menos que sejamos autossatisfeitos, não podemos nos livrar das condições dolorosas da existência material. Portanto, é essencial prestar serviço aos brāhmaṇas e aos vaiṣṇavas para se alcançar a perfeição da autossatisfação. Portanto, Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura diz:
tāṅdera caraṇa sevi bhakta-sane vāsa
janame janame haya, ei abhilāṣa
janame janame haya, ei abhilāṣa
“Nascimento após nascimento, desejo servir os pés de lótus dos ācāryas e viver em uma sociedade de devotos.” Só é possível manter uma atmosfera espiritual vivendo-se em uma sociedade de devotos e servindo as ordens dos ācāryas. O mestre espiritual é o melhor brāhmaṇa. Atualmente, na era de Kali, é muito difícil prestar serviço ao brāhmaṇa-kula, ou a classe bramânica. A dificuldade, segundo o Varāha Purāṇa, é que os demônios, aproveitando-se de Kali-yuga, nascem em famílias de brāhmaṇas. Rākṣasāḥ kalim āśritya jāyante brahma-yoniṣu (Varāha Purāṇa). Em outras palavras, nesta era, há muitos ditos brāhmaṇas de casta e gosvāmīs de casta que, aproveitando-se dos śāstras e da inocência da população em geral, afirmam serem brāhmaṇas e vaiṣṇavas por direito hereditário. Ninguém conseguirá benefício nenhum prestando serviço a esses falsos brāhmaṇa-kulas. É preciso, portanto, refugiar-se em um mestre espiritual fidedigno e em seus associados e, além disso, prestar-lhes serviço, pois semelhante atividade ajudará bastante o neófito a obter plena satisfação. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura explica isso bem claramente ao comentar o verso vyavasāyātmikā buddhir ekeha kuru-nandana. (Bhagavad-gītā 2.41) Quem realmente observa os princípios reguladores de bhakti-yoga, conforme os recomenda Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura, pode atingir em pouco tempo a plataforma transcendental de liberação, como se explica neste verso (atyanta-śamam).
O uso específico da palavra anativelam (“sem demora”) é muito significativo porque, pelo simples fato de se servir os brāhmaṇas e os vaiṣṇavas, podemos libertar-nos. Não é necessário nos submetermos a rigorosas penitências e austeridades. Exemplo vívido disso é o próprio Nārada Muni. Em seu nascimento anterior, ele era um simples filho de uma criada, mas teve a oportunidade de prestar serviço a brāhmaṇas e vaiṣṇavas elevados, e assim, em sua próxima vida, não somente libertou-se, mas também se tornou famoso como o mestre espiritual supremo de toda a sucessão discipular vaiṣṇava. Segundo o sistema védico, portanto, recomenda-se costumeiramente que, após realizar uma cerimônia ritualística, deve-se servir alimento aos brāhmaṇas.
Devanagari
अश्नात्यनन्त: खलु तत्त्वकोविदै:
श्रद्धाहुतं यन्मुख इज्यनामभि: ।
न वै तथा चेतनया बहिष्कृते
हुताशने पारमहंस्यपर्यगु: ॥ ४१ ॥
श्रद्धाहुतं यन्मुख इज्यनामभि: ।
न वै तथा चेतनया बहिष्कृते
हुताशने पारमहंस्यपर्यगु: ॥ ४१ ॥
Verse text
aśnāty anantaḥ khalu tattva-kovidaiḥ
śraddhā-hutaṁ yan-mukha ijya-nāmabhiḥ
na vai tathā cetanayā bahiṣ-kṛte
hutāśane pāramahaṁsya-paryaguḥ
śraddhā-hutaṁ yan-mukha ijya-nāmabhiḥ
na vai tathā cetanayā bahiṣ-kṛte
hutāśane pāramahaṁsya-paryaguḥ
Synonyms
aśnāti — coma; anantaḥ — a Suprema Personalidade de Deus; khalu — embora; tattva-kovidaiḥ — pessoas com conhecimento da Verdade Absoluta; śraddhā — fé; hutam — oferecendo sacrifícios de fogo; yat-mukhe — cuja boca; ijya-nāmabhiḥ — por diferentes nomes de semideuses; na — nunca; vai — decerto; tathā — tanto; cetanayā — pela força viva; bahiḥ-kṛte — sendo privado de; huta-aśane — no sacrifício de fogo; pāramahaṁsya — com respeito aos devotos; paryaguḥ — nunca vai embora.
Translation
Embora a Suprema Personalidade de Deus, Ananta, coma por meio de sacrifícios de fogo oferecidos em nome de diferentes semideuses, Ele não sente tanto prazer em comer por meio do fogo como O sente ao aceitar oferendas por meio das bocas de sábios eruditos e devotos, pois, neste caso, Ele jamais deixa a companhia dos devotos.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo os preceitos védicos, realiza-se um sacrifício de fogo a fim de oferecer alimento à Suprema Personalidade de Deus em nome de diferentes semideuses. Ao realizar um sacrifício de fogo, pronuncia-se a palavra svāhā em mantras tais como indrāya svāhā e ādityāya svāhā. Esses mantras são pronunciados para se satisfazer a Suprema Personalidade de Deus através de semideuses, tais como Indra e Āditya, pois a Suprema Personalidade de Deus diz:
nāhaṁ tiṣṭhāmi vaikuṇṭhe
yogināṁ hṛdayeṣu vā
tatra tiṣṭhāmi nārada
yatra gāyanti mad-bhaktāḥ
yogināṁ hṛdayeṣu vā
tatra tiṣṭhāmi nārada
yatra gāyanti mad-bhaktāḥ
“Não estou em Vaikuṇṭha nem nos corações dos yogīs. Permaneço onde Meus devotos se dedicam a glorificar Minhas atividades.” Deve-se compreender, a partir disso, que a Suprema Personalidade de Deus não deixa a companhia de Seus devotos.
O fogo é certamente desprovido de vida, mas os devotos e brāhmaṇas são os representantes vivos do Senhor Supremo. Portanto, alimentar os brāhmaṇas e vaiṣṇavas é alimentar a Suprema Personalidade de Deus diretamente. Pode-se concluir que, ao invés de oferecer sacrifícios de fogo, deve-se oferecer alimentos aos brāhmaṇas e aos vaiṣṇavas, pois esse processo é mais eficaz do que o yajña de fogo. Advaita Prabhu deu um exemplo vívido desse princípio na prática. Ao realizar a cerimônia de śrāddha para Seu pai, Ele primeiramente chamou Haridāsa Ṭhākura e ofereceu-lhe o alimento. É costume que, após terminar a cerimônia de śrāddha, deve-se oferecer alimento a um brāhmaṇa elevado. Advaita Prabhu, porém, ofereceu o alimento primeiramente a Haridāsa Ṭhākura, que nascera em família maometana. Portanto, Haridāsa Ṭhākura perguntou a Advaita por que Ele estava fazendo algo que poderia colocar em risco Sua posição na sociedade bramânica. Advaita Prabhu respondeu que estava alimentando milhões de brāhmaṇas de primeira classe ao oferecer alimento a Haridāsa Ṭhākura. Ele estava disposto a falar com qualquer brāhmaṇa erudito sobre esse assunto e provar, de uma vez por todas, que, oferecendo alimento a um devoto puro como Haridāsa Ṭhākura, Ele seria tão abençoado como o seria se oferecesse alimento a milhares de brāhmaṇas eruditos. Enquanto executamos sacrifícios, oferecemos oblações ao fogo de sacrifício, mas, ao oferecermos essas oblações aos vaiṣṇavas, elas certamente são mais efetivas.
Devanagari
यद्ब्रह्म नित्यं विरजं सनातनं
श्रद्धातपोमङ्गलमौनसंयमै: ।
समाधिना बिभ्रति हार्थदृष्टये
यत्रेदमादर्श इवावभासते ॥ ४२ ॥
श्रद्धातपोमङ्गलमौनसंयमै: ।
समाधिना बिभ्रति हार्थदृष्टये
यत्रेदमादर्श इवावभासते ॥ ४२ ॥
Verse text
yad brahma nityaṁ virajaṁ sanātanaṁ
śraddhā-tapo-maṅgala-mauna-saṁyamaiḥ
samādhinā bibhrati hārtha-dṛṣṭaye
yatredam ādarśa ivāvabhāsate
śraddhā-tapo-maṅgala-mauna-saṁyamaiḥ
samādhinā bibhrati hārtha-dṛṣṭaye
yatredam ādarśa ivāvabhāsate
Synonyms
yat — aquilo que; brahma — a cultura bramânica; nityam — eternamente; virajam — sem contaminação; sanātanam — sem começo; śraddhā — fé; tapaḥ — austeridade; maṅgala — auspiciosa; mauna — silêncio; saṁyamaiḥ — controlando a mente e os sentidos; samādhinā — com plena concentração; bibhrati — ilumina; ha — como ele o fez; artha — o verdadeiro objetivo dos Vedas; dṛṣṭaye — com o intuito de descobrir; yatra — em que; idam — tudo isso; ādarśe — num espelho; iva — como; avabhāsate — manifesta.
Translation
Na cultura bramânica, a posição transcendental do brāhmaṇa é mantida eternamente porque os preceitos dos Vedas são aceitos com fé, austeridade, conclusões das escrituras, pleno controle dos sentidos e da mente e meditação. Dessa maneira, derrama-se luz sobre a verdadeira meta da vida, assim como o rosto de uma pessoa reflete-se inteiramente em um espelho limpo.
Purport
SIGNIFICADO—Como se descreve no verso anterior que alimentar um brāhmaṇa vivo é mais efetivo do que oferecer oblações em um sacrifício de fogo, agora este verso descreve claramente o que é bramanismo e quem é o brāhmaṇa. Na era de Kali, aproveitando-se do fato de que, alimentando um brāhmaṇa, obtém-se um resultado mais efetivo do que realizar sacrifícios, uma classe de homens sem qualificações bramânicas reivindica para si o privilégio alimentar conhecido como brāhmaṇa-bhojana, simplesmente baseados em seus nascimentos em famílias de brāhmaṇas. A fim de distinguir essa classe de homens dos brāhmaṇas verdadeiros, Mahārāja Pṛthu descreve exatamente um brāhmaṇa e a cultura bramânica. Ninguém deve tirar proveito de sua posição simplesmente para viver como um fogo sem luz. O brāhmaṇa deve ser plenamente versado nas conclusões védicas, que se descrevem na Bhagavad-gītā. Vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ. (Bhagavad-gītā 15.15) A conclusão védica – a compreensão fundamental, ou a compreensão Vedānta – é o conhecimento de Kṛṣṇa. Na verdade, isso é um fato, pois, pelo simples fato de entender Kṛṣṇa como Ele é, como O descreve a Bhagavad-gītā (janma karma ca me divyam evam yo vetti tattvataḥ), tornamo-nos brāhmaṇas perfeitos. O brāhmaṇa que conhece Kṛṣṇa perfeitamente bem está sempre em uma posição transcendental. Confirma-se isso também na Bhagavad-gītā (14.26):
māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
“Quem se ocupa em serviço devocional pleno e não cai em circunstância alguma transcende de imediato os modos da natureza material e, assim, atinge o nível de Brahman.”
Portanto, o devoto do Senhor Kṛṣṇa é realmente um brāhmaṇa perfeito. Sua situação é transcendental, pois ele está livre dos quatro defeitos da vida condicionada, que são as tendências de cometer erros, enganar-se, enganar os outros e possuir sentidos imperfeitos. O vaiṣṇava perfeito, ou a pessoa consciente de Kṛṣṇa, está sempre nessa posição transcendental por falar de acordo com Kṛṣṇa e Seu representante. Já que os vaiṣṇavas falam exatamente em afinação com Kṛṣṇa, tudo o que dizem está livre desses quatro defeitos. Por exemplo, Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā que todos devem sempre pensar nEle, todos devem tornar-se Seus devotos, prestar-Lhe reverências e adorá-lO, e, em última análise, todos devem render-se a Ele. Essas atividades devocionais são transcendentais e isentas de erros, ilusão, trapaça e imperfeição. Portanto, quem quer que seja um devoto sincero do Senhor Kṛṣṇa e que pregue este culto, falando apenas com base nas instruções de Kṛṣṇa, é tido como virajam, ou livre dos defeitos da contaminação material. Portanto, o brāhmaṇa ou o vaiṣṇava genuíno depende eternamente das conclusões dos Vedas ou das interpretações védicas apresentadas pela própria Suprema Personalidade de Deus. Somente através do conhecimento védico é que podemos entender a verdadeira posição da Verdade Absoluta, a qual, como se descreve no Śrīmad-Bhāgavatam, manifesta-se sob três aspectos – a saber, o Brahman impessoal, o Paramātmā localizado e, por fim, a Suprema Personalidade de Deus. Esse conhecimento é perfeito desde tempos imemoriais, e a cultura bramânica ou vaiṣṇava depende eternamente desse princípio. Portanto, devemos estudar os Vedas com fé, não apenas em busca de conhecimento para nós mesmos, mas também com o intuito de difundir este conhecimento e estas atividades através de verdadeira fé nas palavras da Suprema Personalidade de Deus e dos Vedas.
Neste verso, a palavra maṅgala, “auspicioso”, é muito significativa. Śrīla Śrīdhara Svāmī cita que fazer o que é bom e rejeitar o que não é bom se chama maṅgala, ou auspicioso. Fazer o que é bom significa aceitar tudo que é favorável ao desempenho do serviço devocional, e rejeitar o que não é bom significa rejeitar tudo que não é favorável ao desempenho do serviço devocional. Em nosso movimento para a consciência de Kṛṣṇa, aceitamos esse princípio, rejeitando quatro itens proibidos, a saber, vida sexual ilícita, intoxicação, jogos de azar e consumo de carne, e aceitando o canto diário de pelo menos dezesseis voltas do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa e a meditação diária de cantar, três vezes ao dia, o mantra Gāyatrī. Dessa maneira, pode-se manter a cultura bramânica e a força espiritual intactas. Seguindo esses princípios de serviço devocional estritamente, cantando vinte e quatro horas por dia o mahā-mantra – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare –, fazemos progresso positivo na vida espiritual e, por fim, qualificamo-nos perfeitamente para ver a Suprema Personalidade de Deus face a face. Como a meta última do estudo ou a compreensão do conhecimento védico é encontrar Kṛṣṇa, aquele que segue os princípios védicos descritos acima pode, desde o início, ver todos os aspectos do Senhor Kṛṣṇa, a Verdade Absoluta, muito distintamente, assim como uma pessoa pode ver seu próprio rosto inteiramente refletido em um espelho limpo. Conclui-se, portanto, que o brāhmaṇa não se torna brāhmaṇa pelo simples fato de ser uma entidade viva ou por ter nascido em família de brāhmaṇas; ele deve possuir todas as qualidades mencionadas nos śāstras e praticar os princípios bramânicos em sua vida. Assim, em última análise, ele se torna uma pessoa plenamente consciente de Kṛṣṇa e pode entender quem é Kṛṣṇa. A seguir, a Brahma-saṁhitā (5.38) descreve como o devoto vê Kṛṣṇa face a face, a cada instante:
premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena
santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti
yaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti
yaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Desenvolvendo amor puro por Kṛṣṇa, o devoto vê, a cada instante, a Suprema Personalidade de Deus, que é conhecida como Śyāmasundara, dentro de seu coração. Essa é a fase de perfeição da cultura bramânica.
Devanagari
तेषामहं पादसरोजरेणु-
मार्या वहेयाधिकिरीटमायु: ।
यं नित्यदा बिभ्रत आशु पापं
नश्यत्यमुं सर्वगुणा भजन्ति ॥ ४३ ॥
मार्या वहेयाधिकिरीटमायु: ।
यं नित्यदा बिभ्रत आशु पापं
नश्यत्यमुं सर्वगुणा भजन्ति ॥ ४३ ॥
Verse text
teṣām ahaṁ pāda-saroja-reṇum
āryā vaheyādhi-kirīṭam āyuḥ
yaṁ nityadā bibhrata āśu pāpaṁ
naśyaty amuṁ sarva-guṇā bhajanti
āryā vaheyādhi-kirīṭam āyuḥ
yaṁ nityadā bibhrata āśu pāpaṁ
naśyaty amuṁ sarva-guṇā bhajanti
Synonyms
teṣām — de todos eles; aham — eu; pāda — pés; saroja — lótus; reṇum — poeira; āryāḥ — ó pessoas respeitáveis; vaheya — levarei; adhi — até; kirīṭam — elmo; āyuḥ — até o fim da vida; yam — que; nitvadā — sempre; bibhrataḥ — carregando; āśu — em pouco tempo; pāpam — atividades pecaminosas; naśyati — são eliminadas; amum — todos aqueles; sarva-guṇāḥ — plenamente qualificados; bhajanti — adoram.
Translation
Ó respeitáveis personalidades aqui presentes, imploro as bênçãos de todos vós para que eu possa sempre carregar sobre minha coroa a poeira dos pés de lótus de tais brāhmaṇas e vaiṣṇavas até o fim de minha vida. Aquele que pode carregar essa poeira sobre sua cabeça alivia-se em pouco tempo de todas as reações decorrentes da vida pecaminosa e, por fim, desenvolve todas as qualidades boas e desejáveis.
Purport
SIGNIFICADO—Afirma-se que quem tem fé inquebrantável na Suprema Personalidade de Deus, isto é, fé inquebrantável no vaiṣṇava ou no devoto puro do Senhor Supremo, desenvolve todas as boas qualidades dos semideuses: yasyāsti bhaktir bhagavaty akiñcanā sarvair guṇais tatra samāsate surāḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 5.18.12) Além disso, Prahlāda Mahārāja diz: naiṣāṁ matis tāvad urukramāṅghrim. (Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.32) A menos que ponhamos a poeira dos pés de lótus de um vaiṣṇava puro sobre nossa cabeça, não podemos entender o que é a Suprema Personalidade de Deus, e, sem conhecer a Suprema Personalidade de Deus, nossa vida permanece imperfeita. É raríssimo encontrar uma grande alma que tenha se rendido por completo ao Senhor Supremo, após compreendê-lO plenamente e após submeter-se a austeridades e penitências por muitas e muitas vidas. A coroa do rei não passa de um grande fardo se o rei ou chefe de estado realmente não carrega sobre si a poeira dos pés de lótus dos brāhmaṇas e dos vaiṣṇavas. Em outras palavras, se um rei liberal como Pṛthu Mahārāja não segue as instruções de brāhmaṇas e vaiṣṇavas ou não segue a cultura bramânica, ele não passa de um fardo para o estado, pois não pode beneficiar os cidadãos. Mahārāja Pṛthu constitui o exemplo perfeito de um chefe executivo ideal.
Devanagari
गुणायनं शीलधनं कृतज्ञं
वृद्धाश्रयं संवृणतेऽनु सम्पद: ।
प्रसीदतां ब्रह्मकुलं गवां च
जनार्दन: सानुचरश्च मह्यम् ॥ ४४ ॥
वृद्धाश्रयं संवृणतेऽनु सम्पद: ।
प्रसीदतां ब्रह्मकुलं गवां च
जनार्दन: सानुचरश्च मह्यम् ॥ ४४ ॥
Verse text
guṇāyanaṁ śīla-dhanaṁ kṛta-jñaṁ
vṛddhāśrayaṁ saṁvṛṇate ’nu sampadaḥ
prasīdatāṁ brahma-kulaṁ gavāṁ ca
janārdanaḥ sānucaraś ca mahyam
vṛddhāśrayaṁ saṁvṛṇate ’nu sampadaḥ
prasīdatāṁ brahma-kulaṁ gavāṁ ca
janārdanaḥ sānucaraś ca mahyam
Synonyms
guṇa-ayanam — aquele que adquiriu todas as boas qualidades; śila-dhanam — aquele cuja riqueza é o bom comportamento; kṛta-jñam — aquele que é grato; vṛddha-āśrayam — aquele que se refugia nos eruditos; saṁvṛṇate — obtém; anu — decerto; sampadaḥ — todas as opulências; prasīdatām — fiquem satisfeitos com; brahmakulam — a classe bramânica; gavām — as vacas; ca — e; janārdanaḥ — a Suprema Personalidade de Deus; sa — com; anucaraḥ — juntamente com Seu devoto; ca — e; mahyam — comigo.
Translation
Qualquer pessoa que adquira as qualificações de um brāhmaṇa – cuja única riqueza é o bom comportamento, que é grato e que se refugia em pessoas experientes – obtém toda a opulência do mundo. Portanto, desejo que a Suprema Personalidade de Deus e Seus associados fiquem satisfeitos com a classe bramânica, com as vacas e comigo.
Purport
SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus é adorada com a oração namo brāhmaṇya-devāya go-brāhmaṇa-hitāya ca. Assim, torna-se claro que a Suprema Personalidade de Deus respeita e protege os brāhmaṇas e a cultura bramânica, bem como as vacas; em outras palavras, onde quer que haja brāhmaṇas e cultura bramânica, há vacas e proteção às vacas. Em uma sociedade ou civilização em que não há brāhmaṇas ou cultura bramânica, as vacas são tratadas como animais comuns e são abatidas, para o prejuízo da civilização humana. A menção específica da palavra gavām por parte de Pṛthu Mahārāja é significativa porque o Senhor está sempre associado com as vacas e com Seus devotos. Nos quadros, o Senhor Kṛṣṇa é sempre visto com as vacas e com Seus associados, tais como os vaqueirinhos e as gopīs. Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, não consegue ficar sozinho. Portanto, Pṛthu Mahārāja disse que sānucaraś ca, indicando que a Suprema Personalidade de Deus está sempre na companhia de Seus seguidores e devotos.
Um devoto adquire todas as boas qualidades dos semideuses; ele é guṇāyanam, o reservatório de todas as boas qualidades. Sua única posse é o bom comportamento, e ele é grato. A gratidão pela misericórdia da Suprema Personalidade de Deus é uma das qualidades dos brāhmaṇas e vaiṣṇavas. Todos devem sentir-se agradecidos à Suprema Personalidade de Deus porque Ele mantém todas as entidades vivas e satisfaz todas as suas necessidades. Como se afirma nos Vedas (Kaṭha Upaniṣad 2.2.13), eko bahūnāṁ yo vidadhāti kāmān: a entidade viva suprema satisfaz todas as necessidades das entidades vivas. A entidade viva que, portanto, é grata à Suprema Personalidade de Deus é decerto dotada de boas características.
A palavra vṛddhāśrayam é muito significativa neste verso. Vṛddha refere-se àquele que é avançado em conhecimento. Há dois tipos de homens idosos – aquele que é avançado em idade e aquele que é experiente em conhecimento. Aquele que é avançado em conhecimento é realmente vṛddha (jñāna-vṛddha); não é a idade avançada que faz alguém se tornar vṛddha. Vṛddhāśrayam, alguém que se refugia em uma pessoa superior que é avançada em conhecimento, pode adquirir todas as boas qualidades de um brāhmaṇa e ser treinado em bom comportamento. Quando um indivíduo realmente obtém boas qualidades, torna-se grato pela misericórdia da Suprema Personalidade de Deus e refugia-se em um mestre espiritual fidedigno, ele passa a ter toda opulência. Uma pessoa assim é um brāhmaṇa ou vaiṣṇava. Portanto, Pṛthu Mahārāja invoca as bênçãos e a misericórdia da Suprema Personalidade de Deus, juntamente com Seus associados, devotos, vaiṣṇavas, brāhmaṇas e vacas.
Devanagari
मैत्रेय उवाच
इति ब्रुवाणं नृपतिं पितृदेवद्विजातय: ।
तुष्टुवुर्हृष्टमनस: साधुवादेन साधव: ॥ ४५ ॥
इति ब्रुवाणं नृपतिं पितृदेवद्विजातय: ।
तुष्टुवुर्हृष्टमनस: साधुवादेन साधव: ॥ ४५ ॥
Verse text
maitreya uvāca
iti bruvāṇaṁ nṛpatiṁ
pitṛ-deva-dvijātayaḥ
tuṣṭuvur hṛṣṭa-manasaḥ
sādhu-vādena sādhavaḥ
iti bruvāṇaṁ nṛpatiṁ
pitṛ-deva-dvijātayaḥ
tuṣṭuvur hṛṣṭa-manasaḥ
sādhu-vādena sādhavaḥ
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — o grande sábio Maitreya continuou a falar; iti — assim; bruvāṇam — enquanto falava; nṛ-patim — o rei; pitṛ — os cidadãos de Pitṛloka; deva — os semideuses; dvi-jātayaḥ — e os duas vezes nascidos (os brāhmaṇas e os vaiṣṇavas); tuṣṭuvuḥ — satisfeitos; hṛṣṭa-manasaḥ — bastante apaziguados mentalmente; sādhu-vādena — expressando congratulações; sādhavaḥ — todas as pessoas santas presentes.
Translation
O grande sábio Maitreya disse: Após ouvir o rei Pṛthu falar tão bem, todos os semideuses, os cidadãos de Pitṛloka, os brāhmaṇas e as pessoas santas presentes naquela reunião congratularam-se com ele, expressando sua satisfação.
Purport
SIGNIFICADO—Quando uma pessoa fala muito bem em uma reunião, ela recebe congratulações da audiência, que expressa sua satisfação dizendo: sādhu, sādhu. Isso se chama sādhu-vāda. Todas as pessoas santas, Pitās (cidadãos de Pitṛloka) e semideuses que estavam presentes naquela reunião e ouviram Pṛthu Mahārāja expressaram sua satisfação com as palavras sādhu, sādhu. Tendo aceitado a boa missão de Pṛthu Mahārāja, todos eles ficaram plenamente satisfeitos.
Devanagari
पुत्रेण जयते लोकानिति सत्यवती श्रुति: ।
ब्रह्मदण्डहत: पापो यद्वेनोऽत्यतरत्तम: ॥ ४६ ॥
ब्रह्मदण्डहत: पापो यद्वेनोऽत्यतरत्तम: ॥ ४६ ॥
Verse text
putreṇa jayate lokān
iti satyavatī śrutiḥ
brahma-daṇḍa-hataḥ pāpo
yad veno ’tyatarat tamaḥ
iti satyavatī śrutiḥ
brahma-daṇḍa-hataḥ pāpo
yad veno ’tyatarat tamaḥ
Synonyms
putreṇa — pelo filho; jayate — alguém se torna vitorioso; lokān — todos os planetas celestiais; iti — assim; satya-vatī — torna-se verdade; śrutiḥ — os Vedas; brahma-daṇḍa — pela maldição dos brāhmaṇas; hataḥ — morto; pāpaḥ — o pecaminosíssimo; yat — como; venaḥ — o pai de Mahārāja Pṛthu; ati — grande; atarat — libertou-se; tamaḥ — da escuridão da vida infernal.
Translation
Todos eles declararam que a conclusão védica de que é possível conquistar os planetas celestiais por intermédio de um putra, ou filho, foi cumprida, pois o pecaminosíssimo Vena, que fora morto pela maldição dos brāhmaṇas, agora estava se livrando da mais escura região de vida infernal graças a seu filho, Mahārāja Pṛthu.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo a versão védica, existe um planeta infernal chamado Put, e uma pessoa que liberta outra desse planeta se chama putra. O objetivo do casamento, portanto, é ter um putra, ou filho que seja capaz de libertar seu pai, mesmo que o pai caia nas condições infernais de Put. O pai de Mahārāja Pṛthu, Vena, foi uma pessoa muito pecaminosa, daí ter sido amaldiçoado pelos brāhmaṇas a morrer. Agora, todas as grandes pessoas santas, sábios e brāhmaṇas presentes na reunião, após ouvirem Pṛthu Mahārāja falar sobre sua grande missão na vida, ficaram convencidos de que a afirmação dos Vedas fora plenamente comprovada. O propósito de aceitar uma esposa em matrimônio religioso, conforme sancionam os Vedas, é ter um putra, um filho capaz de libertar seu pai da mais escura região de vida infernal. O casamento se destina, não ao gozo dos sentidos, mas sim a obter um filho plenamente capacitado a libertar seu pai. Porém, se o filho for criado para se tornar um demônio desqualificado, como poderá libertar seu pai da vida infernal? Portanto, é dever do pai tornar-se um vaiṣṇava e criar seus filhos para que eles se tornem vaiṣṇavas; então, mesmo que, por acaso, o pai caia na vida infernal em seu próximo nascimento, esse filho o poderá libertar, assim como Mahārāja Pṛthu libertou seu pai.
Devanagari
हिरण्यकशिपुश्चापि भगवन्निन्दया तम: ।
विविक्षुरत्यगात्सूनो: प्रह्लादस्यानुभावत: ॥ ४७ ॥
विविक्षुरत्यगात्सूनो: प्रह्लादस्यानुभावत: ॥ ४७ ॥
Verse text
hiraṇyakaśipuś cāpi
bhagavan-nindayā tamaḥ
vivikṣur atyagāt sūnoḥ
prahlādasyānubhāvataḥ
bhagavan-nindayā tamaḥ
vivikṣur atyagāt sūnoḥ
prahlādasyānubhāvataḥ
Synonyms
hiraṇyakaśipuḥ — o pai de Prahlāda Mahārāja; ca — também; api — de novo; bhagavat — da Suprema Personalidade de Deus; nindayā — blasfemando; tamaḥ — na mais escura região de vida infernal; vivikṣuḥ — entrou; atyagāt — foi liberto; sūnoḥ — de seu filho; prahlādasya — de Mahārāja Prahlāda; anubhāvataḥ — pela influência de.
Translation
De modo semelhante, Hiraṇyakaśipu, que em virtude de suas atividades pecaminosas sempre desafiava a supremacia da Suprema Personalidade de Deus, entrou na mais escura região de vida infernal; contudo, pela graça de seu grande filho, Prahlāda Mahārāja, ele também foi liberto e voltou ao lar, voltou ao Supremo.
Purport
SIGNIFICADO—Quando o Senhor Nṛsiṁhadeva quis abençoar Prahlāda Mahārāja, devido à sua grande devoção e tolerância, este se recusou a aceitar qualquer bênção do Senhor, julgando que tal aceitação não era digna de um devoto sincero. Prahlāda Mahārāja condena como sendo um negócio mercantil a prestação de serviço à Suprema Personalidade de Deus na esperança de uma boa recompensa. Por ser um vaiṣṇava, Prahlāda Mahārāja não pediu bênção alguma para seu benefício pessoal, senão que foi muito afetuoso para com seu pai. Embora seu pai o tivesse torturado e pudesse ter matado seu filho se ele próprio não tivesse sido morto pela Suprema Personalidade de Deus, Prahlāda Mahārāja pediu ao Senhor que perdoasse seu pai. O Senhor concedeu esse favor de imediato, e Hiraṇyakaśipu foi liberto da mais escura região de vida infernal, e voltou ao lar, voltou ao Supremo, pela graça de seu filho. Prahlāda Mahārāja é o maior exemplo de um vaiṣṇava, o qual é sempre compassivo para com as pessoas pecaminosas, que sofrem uma vida infernal neste mundo material. Kṛṣṇa, portanto, é conhecido como para-duḥkha-duḥkhī kṛpāmbudhiḥ, ou seja, aquele que tem compaixão do sofrimento alheio e que é um oceano de misericórdia. Assim como Prahlāda Mahārāja, todos os devotos puros do Senhor vêm a este mundo material, com grande compaixão, para libertar os pecadores. Eles se submetem a toda espécie de tribulações, sofrendo-as com tolerância, porque essa é outra qualificação de um vaiṣṇava, que tenta libertar todas as pessoas pecaminosas das condições infernais da existência material. Portanto, os vaiṣṇavas recebem a seguinte oração:
vāñchā-kalpatarubhyaś ca
kṛpā-sindhubhya eva ca
patitānāṁ pāvanebhyo
vaiṣṇavebhyo namo namaḥ
kṛpā-sindhubhya eva ca
patitānāṁ pāvanebhyo
vaiṣṇavebhyo namo namaḥ
O principal interesse do vaiṣṇava é libertar as almas caídas.
Devanagari
वीरवर्य पित: पृथ्व्या: समा: सञ्जीव शाश्वती: ।
यस्येदृश्यच्युते भक्ति: सर्वलोकैकभर्तरि ॥ ४८ ॥
यस्येदृश्यच्युते भक्ति: सर्वलोकैकभर्तरि ॥ ४८ ॥
Verse text
vīra-varya pitaḥ pṛthvyāḥ
samāḥ sañjīva śāśvatīḥ
yasyedṛśy acyute bhaktiḥ
sarva-lokaika-bhartari
samāḥ sañjīva śāśvatīḥ
yasyedṛśy acyute bhaktiḥ
sarva-lokaika-bhartari
Synonyms
Translation
Todos os brāhmaṇas santos dirigiram-se assim a Pṛthu Mahārāja: Ó melhor dos guerreiros, ó pai deste planeta, sê abençoado com uma longa vida, pois tens grande devoção pela infalível Suprema Personalidade de Deus, que é o mestre de todo o universo.
Purport
SIGNIFICADO—Pṛthu Mahārāja foi abençoado pelas pessoas santas presentes no encontro a ter uma longa vida devido à sua fé inquebrantável e à sua devoção pela Suprema Personalidade de Deus. Embora a duração de nossa vida seja limitada em anos, se acontece de nos tornamos devotos, ultrapassamos a duração prescrita para nossa vida; na verdade, às vezes, os yogīs morrem de acordo com sua vontade, e não de acordo com as leis da natureza material. Outra característica do devoto é que ele vive para sempre devido à sua infalível devoção ao Senhor. Afirma-se que kīrtir yasya sa jīvati: “Quem deixa como legado uma boa reputação vive para sempre.” Especificamente, quem é famoso como devoto do Senhor sem dúvida vive para sempre. Conversando com Rāmānanda Rāya, o Senhor Caitanya Mahāprabhu lhe perguntou: “Qual é a reputação mais grandiosa?” Rāmānanda Rāya respondeu que tem a reputação mais grandiosa quem é famoso como um grande devoto, pois o devoto vive para sempre, não somente nos planetas Vaikuṇṭha, mas, através de sua reputação, também vive para sempre neste mundo material.
Devanagari
अहो वयं ह्यद्य पवित्रकीर्ते
त्वयैव नाथेन मुकुन्दनाथा: ।
य उत्तमश्लोकतमस्य विष्णो-
र्ब्रह्मण्यदेवस्य कथां व्यनक्ति ॥ ४९ ॥
त्वयैव नाथेन मुकुन्दनाथा: ।
य उत्तमश्लोकतमस्य विष्णो-
र्ब्रह्मण्यदेवस्य कथां व्यनक्ति ॥ ४९ ॥
Verse text
aho vayaṁ hy adya pavitra-kīrte
tvayaiva nāthena mukunda-nāthāḥ
ya uttamaślokatamasya viṣṇor
brahmaṇya-devasya kathāṁ vyanakti
tvayaiva nāthena mukunda-nāthāḥ
ya uttamaślokatamasya viṣṇor
brahmaṇya-devasya kathāṁ vyanakti
Synonyms
aho — oh, que bom; vayam — nós; hi — decerto; adya — hoje; pavitra-kīrte — ó pureza suprema; tvayā — por ti; eva — decerto; nāthena — pelo Senhor; mukunda — a Suprema Personalidade de Deus; nāthāḥ — sendo o súdito do Supremo; ye — aquele que; uttama-śloka-tamasya — da Suprema Personalidade de Deus, que é louvada pelos melhores versos; viṣṇoḥ — de Viṣṇu; brahmaṇya-devasya — do Senhor adorável dos brāhmaṇas; kathām — palavras; vyanakti — expressaram.
Translation
A audiência prosseguiu: Querido rei Pṛthu, tua reputação é a mais pura de todas, pois estás pregando as glórias do mais glorioso de todos, a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor dos brāhmaṇas. Já que, devido à nossa grande fortuna, temos tua pessoa como nosso mestre, julgamos estar vivendo diretamente sob o amparo do Senhor.
Purport
SIGNIFICADO—Os cidadãos declararam que, por estarem sob a proteção de Mahārāja Pṛthu, estavam diretamente sob a proteção da Suprema Personalidade de Deus. Essa compreensão é a situação adequada de estabilidade social neste mundo material. Uma vez que se afirma nos Vedas que a Suprema Personalidade de Deus é o mantenedor e líder de todas as entidades vivas, o rei ou chefe executivo do governo deve ser um representante da Pessoa Suprema. Então, ele pode exigir honra exatamente igual à do Senhor. Este verso indica, também, como o rei ou líder da sociedade pode tornar-se o representante da Suprema Personalidade de Deus, através da afirmação de que, como Pṛthu Mahārāja estava pregando a supremacia e as glórias da Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, ele era, portanto, um representante digno do Senhor. Permanecer sob a jurisdição ou administração de semelhante rei ou líder é a posição perfeita para a sociedade humana. A responsabilidade primária de um rei ou líder assim é proteger a cultura bramânica e as vacas em seu estado.
Devanagari
नात्यद्भुतमिदं नाथ तवाजीव्यानुशासनम् ।
प्रजानुरागो महतां प्रकृति: करुणात्मनाम् ॥ ५० ॥
प्रजानुरागो महतां प्रकृति: करुणात्मनाम् ॥ ५० ॥
Verse text
nātyadbhutam idaṁ nātha
tavājīvyānuśāsanam
prajānurāgo mahatāṁ
prakṛtiḥ karuṇātmanām
tavājīvyānuśāsanam
prajānurāgo mahatāṁ
prakṛtiḥ karuṇātmanām
Synonyms
Translation
Nosso amado senhor, teu dever ocupacional é governar os cidadãos. Essa não é uma tarefa muito maravilhosa para uma personalidade como tu, que tens muita afeição por zelar pelos interesses dos cidadãos, porque és pleno de misericórdia. Essa é a grandeza de teu caráter.
Purport
SIGNIFICADO—É dever do rei proteger seus cidadãos e cobrar impostos deles para sua subsistência. Uma vez que a sociedade védica se divide em quatro classes de homens – os brāhmaṇas, os kṣatriyas, os vaiśyas e os śūdras –, seus meios de subsistência também são mencionados nas escrituras. Os brāhmaṇas devem dedicar a vida a difundir o conhecimento e, portanto, devem receber contribuições de seus discípulos, ao passo que o rei deve proteger os cidadãos para estes se desenvolverem para um padrão de vida superior, de modo que ele pode cobrar impostos deles; os negociantes ou mercadores, por produzirem alimentos para toda a sociedade, podem tirar um pequeno lucro disso, ao passo que os śūdras, que não podem trabalhar nem como brāhmanas, nem como kṣatriyas, nem como vaiśyas, devem prestar serviço às classes superiores da sociedade e ser providos por elas com o suprimento de todas as necessidades da vida.
Menciona-se nesta passagem as características de um rei ou líder político qualificado. Ele tem que ser muito misericordioso e compassivo com os cidadãos e deve zelar pelo principal interesse deles, que consiste em se tornarem devotos elevados da Suprema Personalidade de Deus. Grandes almas naturalmente se inclinam a fazer o bem aos outros, e o vaiṣṇava, especialmente, é a personalidade mais compassiva e misericordiosa na sociedade. Portanto, prestamos nossos respeitos a um líder vaiṣṇava da seguinte maneira:
vāñchā-kalpatarubhyaś ca
kṛpā-sindhubhya eva ca
patitānāṁ pāvanebhyo
vaiṣṇavebhyo namo namaḥ
kṛpā-sindhubhya eva ca
patitānāṁ pāvanebhyo
vaiṣṇavebhyo namo namaḥ
Somente um líder vaiṣṇava pode satisfazer todos os desejos da população (vāñchā-kalpataru), e ele é compassivo porque contribui com o maior benefício para a sociedade humana. Ele é patita-pāvana, o salvador de todas as almas caídas, uma vez que, se o rei ou chefe do governo seguir os passos dos brāhmaṇas e vaiṣṇavas, que são líderes naturais no trabalho missionário, os vaiśyas também seguirão os passos dos vaiṣṇavas e brāhmaṇas, e os śūdras lhes prestarão serviço. Deste modo, toda a sociedade torna-se uma instituição humana perfeita para o progresso conjunto, rumo à perfeição máxima da vida.
Devanagari
अद्य नस्तमस: पारस्त्वयोपासादित: प्रभो ।
भ्राम्यतां नष्टदृष्टीनां कर्मभिर्दैवसंज्ञितै: ॥ ५१ ॥
भ्राम्यतां नष्टदृष्टीनां कर्मभिर्दैवसंज्ञितै: ॥ ५१ ॥
Verse text
adya nas tamasaḥ pāras
tvayopāsāditaḥ prabho
bhrāmyatāṁ naṣṭa-dṛṣṭīnāṁ
karmabhir daiva-saṁjñitaiḥ
tvayopāsāditaḥ prabho
bhrāmyatāṁ naṣṭa-dṛṣṭīnāṁ
karmabhir daiva-saṁjñitaiḥ
Synonyms
adya — hoje; naḥ — de nós; tamasaḥ — da escuridão da existência material; pāraḥ — o outro lado; tvayā — por ti; upāsāditaḥ — aumentada; prabho — ó senhor; bhrāmyatām — que estão vagando; naṣṭa-dṛṣṭīnām — que perderam sua meta na vida; karmabhiḥ — devido a atos passados; daiva-saṁjñitaiḥ — por arranjo da autoridade superior.
Translation
Os cidadãos prosseguiram: Hoje abriste nossos olhos e revelaste como podemos cruzar o oceano da escuridão. Devido a nossos atos passados e por arranjo da autoridade superior, estamos emaranhados em uma rede de atividades fruitivas e perdemos de vista o destino da vida; assim, estamos vagando dentro do universo.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, as palavras karmabhir daiva-saṁjñitaiḥ são muito significativas. Devido à qualidade de nossas ações, entramos em contato com os modos da natureza material e, por arranjo superior, temos a oportunidade de gozar dos resultados fruitivos dessas atividades em diferentes classes de corpos. Dessa maneira, tendo perdido de vista o destino na vida, todas as entidades vivas estão vagando sob diferentes formas por todo o universo, ora nascendo em espécies inferiores, ora em sistemas planetários superiores; assim, estamos todos vagando pelo universo desde tempos imemoriais. É pela graça do mestre espiritual e da Suprema Personalidade de Deus que recebemos a chave da vida devocional, e assim começa o sucesso de progredirmos em nossa vida. Nesta passagem, os cidadãos do rei Pṛthu admitem isso; plenamente conscientes, eles admitem terem se beneficiado devido às atividades de Mahārāja Pṛthu.
Devanagari
नमो विवृद्धसत्त्वाय पुरुषाय महीयसे ।
यो ब्रह्म क्षत्रमाविश्य बिभर्तीदं स्वतेजसा ॥ ५२ ॥
यो ब्रह्म क्षत्रमाविश्य बिभर्तीदं स्वतेजसा ॥ ५२ ॥
Verse text
namo vivṛddha-sattvāya
puruṣāya mahīyase
yo brahma kṣatram āviśya
bibhartīdaṁ sva-tejasā
puruṣāya mahīyase
yo brahma kṣatram āviśya
bibhartīdaṁ sva-tejasā
Synonyms
namaḥ — todas as reverências; vivṛddha — altamente elevada; sattvāya — à existência; puruṣāya — à pessoa; mahīyase — àquela que é assim glorificada; yaḥ — que; brahma — cultura bramânica; kṣatram — dever administrativo; āviśya — entrando; bibharti — mantendo; idam — isto; sva-tejasā — por seus próprios poderes.
Translation
Querido senhor, estás situado em tua posição existencial de bondade pura; portanto, és o representante perfeito do Senhor Supremo. És glorificado por teus próprios poderes, de modo que estás mantendo o mundo inteiro ao introduzir a cultura bramânica e ao proteger a todos na linha de teu dever como kṣatriya.
Purport
SIGNIFICADO—Sem a propagação da cultura bramânica e sem a devida proteção por parte do governo, não é possível manter nenhum padrão social adequadamente. Admite-se isso neste verso através dos cidadãos de Mahārāja Pṛthu, que o viam manter a maravilhosa situação de seu governo devido à sua posição em bondade pura. A palavra vivṛddha-sattvāya é significativa. No mundo material, existem três qualidades, a saber, bondade, paixão e ignorância. É preciso elevar-se da plataforma da ignorância para a plataforma da bondade mediante o serviço devocional. Não há outro meio para alguém se elevar da fase inferior de vida à fase superior além da execução de serviço devocional; como aconselham os capítulos anteriores do Śrīmad-Bhāgavatam, todos podem elevar-se da posição inferior à posição superior simplesmente associando-se com os devotos e ouvindo-os falar o Śrīmad-Bhāgavatam regularmente.
śṛṇvatāṁ sva-kathāḥ kṛṣṇaḥ
puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ
hṛdy antaḥ-stho hy abhadrāṇi
vidhunoti suhṛt satām
puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ
hṛdy antaḥ-stho hy abhadrāṇi
vidhunoti suhṛt satām
“O Senhor, que Se encontra no coração de todos, presenciando o devoto que se ocupa em serviço devocional nas primeiras fases de ouvir e cantar, ajuda-o no processo de purificar seu coração.” (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.17) No processo gradual de purificação, livramo-nos da influência da paixão e da ignorância e situamo-nos na plataforma da bondade. O resultado do contato com as qualidades de paixão e ignorância é que a pessoa se torna luxuriosa e cobiçosa. Porém, quem se eleva à plataforma da bondade fica satisfeito em qualquer condição de vida e livre de luxúria e cobiça. Essa mentalidade é indicativa de alguém situado na plataforma da bondade. É preciso transcender essa bondade e elevar-se à bondade pura chamada vivṛddha-sattva, ou a fase avançada de bondade. Na fase avançada de bondade, todos podem tornar-se conscientes de Kṛṣṇa. Portanto, Mahārāja Pṛthu é chamado aqui de vivṛddha-sattva, ou seja, aquele que está situado na posição transcendental. No entanto, Mahārāja Pṛthu, embora situado na posição transcendental de um devoto puro, desceu à posição de brāhmaṇa e kṣatriya para o benefício da sociedade humana e, assim, protegeu o mundo inteiro através de seus poderes pessoais. Apesar de ser um rei, um kṣatriya, por ser um vaiṣṇava, ele também era um brāhmaṇa. Como brāhmaṇa, ele podia dar orientações adequadas aos cidadãos, e, como kṣatriya, podia protegê-los devidamente. Assim, os cidadãos de Mahārāja Pṛthu estavam protegidos sob todos os aspectos por um rei perfeito.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do quarto canto, vigésimo primeiro capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Instruções de Mahārāja Pṛthu”.