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Devanagari
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Purport
CAPÍTULO QUATRO
As Atrocidades do Rei Kaṁsa
Este capítulo descreve como Kaṁsa, seguindo os conselhos de seus amigos demoníacos, considerava a perseguição de pequenas crianças como uma atividade muito diplomática.
Depois que Vasudeva se prendeu com algemas de ferro e ficou como antes, todas as portas da prisão se fecharam por influência de Yogamāyā, que então começou a chorar como uma criança recém-nascida. Esse choro despertou os porteiros, que imediatamente informaram Kaṁsa de que uma criança nascera de Devakī. Ao ouvir essa notícia, Kaṁsa apareceu com grande ímpeto na sala de maternidade e, apesar das súplicas de Devakī para que poupasse a criança, o demônio arrancou à força a criança das mãos de Devakī e a atirou contra uma pedra. Infelizmente para Kaṁsa, entretanto, a criança recém-nascida escapuliu de suas mãos, elevou-se acima de sua cabeça e apareceu como a forma de Durgā de oito braços. Então, Durgā disse a Kaṁsa: “O inimigo que aguardas nasceu em algum outro lugar. Logo, teu plano que consiste em perseguir todas as crianças será inútil.”
De acordo com a profecia, o oitavo filho de Devakī mataria Kaṁsa, de modo que, ao ver que a oitava criança era uma menina e ao tomar conhecimento de que seu suposto inimigo nascera em outro lugar, Kaṁsa ficou espantado. Ele decidiu libertar Devakī e Vasudeva, e admitiu diante deles que errara ao cometer tantas atrocidades. Caindo aos pés de Devakī e Vasudeva, pediu-lhes perdão e tentou convencê-los de que, como os eventos que aconteceram foram obra do destino, eles não deveriam ficar infelizes com o fato de ele ter matado tantos filhos seus. Devakī e Vasudeva, sendo por natureza muito piedosos, imediatamente perdoaram as atrocidades de Kaṁsa, e Kaṁsa, após ver que sua irmã e seu cunhado estavam bastante felizes, regressou à sua casa.
Passada a noite, entretanto, Kaṁsa convocou seus ministros e informou-lhes tudo o que acontecera. Os ministros, que eram todos demônios, aconselharam a Kaṁsa que, como seu inimigo já nascera em algum outro lugar, todas as crianças que nos últimos dez dias haviam nascido nas vilas localizadas dentro do reino de Kaṁsa deveriam ser mortas. Embora os semideuses sempre temessem Kaṁsa, eles não deveriam ser tratados com muita lenidade; uma vez que eles eram inimigos, Kaṁsa deveria envidar todos os esforços para acabar com a existência deles. Continuando, os ministros demoníacos aconselharam que Kaṁsa e os demônios continuassem sua inimizade com Viṣṇu porque Viṣṇu é a pessoa original entre todos os semideuses. Os brāhmaṇas, as vacas, os Vedas, a austeridade, a veracidade, o controle dos sentidos e da mente, a fidelidade e a misericórdia são algumas das diferentes partes do corpo de Viṣṇu, que é a origem de todos os semideuses, incluindo o senhor Brahmā e o senhor Śiva. Portanto, os ministros aconselharam que os semideuses, as pessoas santas, as vacas e os brāhmaṇas deveriam ser sistematicamente perseguidos. Recebendo este forte conselho de seus amigos, os ministros demoníacos, Kaṁsa aprovou suas instruções e considerou benéfico invejar os brāhmaṇas. Seguindo as ordens de Kaṁsa, portanto, os demônios passaram a cometer suas atrocidades em toda a Vrajabhūmi.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
बहिरन्त:पुरद्वार: सर्वा: पूर्ववदावृता: ।
ततो बालध्वनिं श्रुत्वा गृहपाला: समुत्थिता: ॥ १ ॥
बहिरन्त:पुरद्वार: सर्वा: पूर्ववदावृता: ।
ततो बालध्वनिं श्रुत्वा गृहपाला: समुत्थिता: ॥ १ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
bahir-antaḥ-pura-dvāraḥ
sarvāḥ pūrvavad āvṛtāḥ
tato bāla-dhvaniṁ śrutvā
gṛha-pālāḥ samutthitāḥ
bahir-antaḥ-pura-dvāraḥ
sarvāḥ pūrvavad āvṛtāḥ
tato bāla-dhvaniṁ śrutvā
gṛha-pālāḥ samutthitāḥ
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvārm disse; bahiḥ-antaḥ-pura-dvāraḥ — as portas dentro e fora da casa; sarvāḥ — todas; pūrva-vat — como antes; āvṛtāḥ — fechadas; tataḥ — em seguida; bāla-dhvanim — o choro da criança recém-nascida; śrutvā — ouvindo; gṛha-pālāḥ — todos os habitantes da casa, especialmente os porteiros; samutthitāḥ — despertaram.
Translation
Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Meu querido rei Parīkṣit, as portas dentro e fora da casa ficaram fechadas como antes. Em seguida, os habitantes da casa, especialmente os vigias, ouviram o choro da criança recém-nascida e, por isso, despertaram em seus leitos.
Purport
SIGNIFICADO—As atividades de Yogamāyā são distintamente visíveis neste capítulo, no qual Devakī e Vasudeva perdoam as muitas atividades desonestas e atrozes cometidas por Kaṁsa, e Kaṁsa arrepende-se e cai aos pés deles. Antes do despertar dos porteiros e de outros na casa onde ficava a prisão, muitos outros fenômenos aconteceram. Kṛṣṇa nasceu e foi transferido ao lar de Yaśodā, em Gokula; as fortes portas abriram-se e voltaram a fechar-se, e Vasudeva reassumiu sua condição anterior, ficando algemado. Os vigias, entretanto, não puderam compreender nada disso. Eles só despertaram quando ouviram o choro de Yogamāyā, a criança recém-nascida.
Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura enfatiza que os vigias eram como cães. À noite, os cães da rua agem como vigias. Se um cão late, muitos outros cães imediatamente imitam-no e latem. Embora não sejam por ninguém designados para agirem como vigias, os cães de rua pensam que são responsáveis pela proteção da vizinhança, e logo que por ali aparece algum desconhecido, todos eles começam a latir. Tanto Yogamāyā quanto Mahāmāyā atuam em todas as atividades materiais (prakṛteḥ kriyamāṇāni guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ), mas, embora a energia da Suprema Personalidade de Deus aja sob a direção do Senhor Supremo (mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sa-carācaram), os vigilantes que tanto parecem cães, tais como os políticos e os diplomatas, pensam que estão protegendo sua vizinhança dos perigos do mundo exterior. Essas são as ações de māyā. Alguém que se rende a Kṛṣṇa, entretanto, livra-se da proteção concedida pelos cães e sentinelas deste mundo material, os quais agem como cães.
Devanagari
ते तु तूर्णमुपव्रज्य देवक्या गर्भजन्म तत् ।
आचख्युर्भोजराजाय यदुद्विग्न: प्रतीक्षते ॥ २ ॥
आचख्युर्भोजराजाय यदुद्विग्न: प्रतीक्षते ॥ २ ॥
Verse text
te tu tūrṇam upavrajya
devakyā garbha-janma tat
ācakhyur bhoja-rājāya
yad udvignaḥ pratīkṣate
devakyā garbha-janma tat
ācakhyur bhoja-rājāya
yad udvignaḥ pratīkṣate
Synonyms
te — todos os vigias; tu — na verdade; tūrṇam — muito rapidamente; upavrajya — indo diante (do rei); devakyāḥ — de Devakī; garbha-janma — o fruto do ventre; tat — aquela (criança); ācakhyuḥ — apresentaram; bhoja-rājāya — ao rei dos Bhojas, Kaṁsa; yat — de quem; udvignaḥ — com muita ansiedade; pratīkṣate — esperava (pelo nascimento da criança).
Translation
Em seguida, todos os vigias muito rapidamente foram ter com o rei Kaṁsa, o governador da dinastia Bhoja, e apresentaram a notícia do nascimento do bebê de Devakī. Kaṁsa, que com muita ansiedade esperava essa notícia, agiu de imediato.
Purport
SIGNIFICADO—Kaṁsa esperava muito ansiosamente alguma notícia devido à profecia de que o oitavo filho de Devakī o mataria. Desta vez, naturalmente, ele estava esperando acordado, e quando os vigias se aproximaram dele, ele logo se dispôs a matar a criança.
Devanagari
स तल्पात् तूर्णमुत्थाय कालोऽयमिति विह्वल: ।
सूतीगृहमगात् तूर्णं प्रस्खलन् मुक्तमूर्धज: ॥ ३ ॥
सूतीगृहमगात् तूर्णं प्रस्खलन् मुक्तमूर्धज: ॥ ३ ॥
Verse text
sa talpāt tūrṇam utthāya
kālo ’yam iti vihvalaḥ
sūtī-gṛham agāt tūrṇaṁ
praskhalan mukta-mūrdhajaḥ
kālo ’yam iti vihvalaḥ
sūtī-gṛham agāt tūrṇaṁ
praskhalan mukta-mūrdhajaḥ
Synonyms
saḥ — ele (o rei Kaṁsa); talpāt — da cama; tūrṇam — muito rapidamente; utthāya — levantando-se; kālaḥ ayam — eis minha morte, o tempo supremo; iti — dessa maneira; vihvalaḥ — oprimido; sūtī-gṛham — à casa que serviu de maternidade; agāt — foi; tūrṇam — sem demora; praskhalan — espalhando; mukta — ficou desatado; mūrdha-jaḥ — o cabelo de sua cabeça.
Translation
Kaṁsa imediatamente levantou-se da cama, pensando: “Eis Kāla, o supremo fator tempo, que nasceu para matar-me!” Sentindo essa opressão, Kaṁsa, ainda com o cabelo despenteado, logo chegou ao lugar onde a criança nascera.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra kālaḥ é significativa. Embora a criança houvesse nascido para matar Kaṁsa, Kaṁsa julgou que aquele era o momento adequado para matar a criança para que ele próprio fosse salvo. Kāla realmente é outro nome da Suprema Personalidade de Deus quando Ele aparece com o único propósito de matar. Quando Arjuna perguntou à forma universal de Kṛṣṇa: “Quem sois?”, o Senhor apresentou-Se como kāla, a morte personificada que vem para matar. Pela lei da natureza, quando há o aumento de população indesejável, kāla aparece e, por algum arranjo da Suprema Personalidade de Deus, as pessoas são mortas de diferentes maneiras, maciçamente, através da guerra, peste, fome e assim por diante. Nesse momento, até mesmo os líderes políticos ateístas vão a uma igreja, mesquita ou templo em busca da proteção de Deus ou de deuses e submissamente dizem: “É a vontade de Deus.” Antes disso, eles não prestam nenhuma atenção a Deus, não se importando em conhecer Deus ou Sua vontade, mas, quando kāla aparece, eles dizem: “É a vontade de Deus.” A morte é apenas outro aspecto do kāla supremo, a Suprema Personalidade de Deus. Na hora da morte, o ateísta tem de submeter-se a esse kāla supremo, momento no qual a Suprema Personalidade de Deus tira-lhe todas as posses (mṛtyuḥ sarva-haraś cāham) e força-o a aceitar outro corpo (tathā dehāntara-prāptiḥ). Os ateístas não sabem disso, ou, se sabem, negligenciam isso para que possam continuar sua vida normal. O movimento da consciência de Kṛṣṇa está procurando ensinar-lhes que, embora alguém possa agir como um grande protetor ou grande vigilante por alguns anos; com o aparecimento de kāla, a morte, deve-se receber outro corpo, de acordo com as leis da natureza. Não sabendo disso, essas pessoas desnecessariamente desperdiçam seu tempo, ocupando-se como cães de guarda, e não tentam obter a misericórdia da Suprema Personalidade de Deus. Como se diz claramente, aprāpya māṁ nivartante mṛtyu-saṁsāra-vartmani: sem a consciência de Kṛṣṇa, a pessoa é condenada a continuar vagando em nascimentos e mortes, desconhecendo o que acontecerá em seu próximo nascimento.
Devanagari
तमाह भ्रातरं देवी कृपणा करुणं सती । स्नुषेयं तव कल्याण स्त्रियं मा हन्तुमर्हसि ॥ ४ ॥
Verse text
tam āha bhrātaraṁ devī
kṛpaṇā karuṇaṁ satī
snuṣeyaṁ tava kalyāṇa
striyaṁ mā hantum arhasi
kṛpaṇā karuṇaṁ satī
snuṣeyaṁ tava kalyāṇa
striyaṁ mā hantum arhasi
Synonyms
tam — a Kaṁsa; āha — disse; bhrātaram — seu irmão; devī — mãe Devakī; kṛpaṇā — em desamparo; karuṇam — suplicante; satī — a casta senhora; snuṣā iyam tava — esta criança será tua nora, a esposa de teu futuro filho; kalyāṇa — ó auspiciosíssima; striyam — uma mulher; mā — não; hantum — matar; arhasi — mereces.
Translation
Desamparada, Devakī apelou a Kaṁsa de maneira muito comovente: Meu querido irmão, desejo-te toda a boa fortuna. Não mates esta menininha. Ela será tua nora. Na verdade, não é nada condizente matares uma mulher.
Purport
SIGNIFICADO—Kaṁsa anteriormente poupara a vida de Devakī porque sabia que uma mulher não deveria ser morta, especialmente quando grávida. Mas agora, por influência de māyā, estava preparado para matar uma mulher – não apenas uma mulher, mas uma pequena e desamparada criança recém-nascida. Devakī queria impedir que seu irmão praticasse esse terrível ato pecaminoso. Portanto, disse-lhe: “Não sejas tão atroz a ponto de matar uma menina. Desejo que recebas toda boa fortuna!” Para seu benefício pessoal, os demônios podem tomar qualquer atitude, sem considerar se o que está sendo feito é piedoso ou ímpio. Mas Devakī, ao contrário, embora salva porque já dera à luz seu próprio filho, Kṛṣṇa, estava ansiosa para salvar das investidas alheias a sua filha. Isso lhe era natural.
Devanagari
बहवो हिंसिता भ्रात: शिशव: पावकोपमा: ।
त्वया दैवनिसृष्टेन पुत्रिकैका प्रदीयताम् ॥ ५ ॥
त्वया दैवनिसृष्टेन पुत्रिकैका प्रदीयताम् ॥ ५ ॥
Verse text
bahavo hiṁsitā bhrātaḥ
śiśavaḥ pāvakopamāḥ
tvayā daiva-nisṛṣṭena
putrikaikā pradīyatām
śiśavaḥ pāvakopamāḥ
tvayā daiva-nisṛṣṭena
putrikaikā pradīyatām
Synonyms
Translation
Meu querido irmão, por influência do destino, já mataste muitos bebês, cada um deles tão brilhante e belo como o fogo. Mas, por favor, poupa esta filha. Deixa-me recebê-la como um presente teu.
Purport
SIGNIFICADO—Aqui, vemos que Devakī primeiro chamou a atenção de Kaṁsa para as suas atividades atrozes, o assassinato dos vários filhos dela. Depois, ela quis fazer um acordo com ele, dizendo-lhe que tudo o que ele fizera não fora culpa sua, mas fora obra do destino. Então, pediu-lhe que lhe desse a filha como presente. Devakī era filha de um kṣatriya e sabia como jogar o jogo político. Na política, existem diferentes métodos para se alcançar o sucesso: primeiro a repressão (dama), depois o acordo (sāma) e, então, pedir um presente (dāna). Devakī primeiro adotou a política de repressão, diretamente acusando Kaṁsa por ter matado seus bebês de maneira cruel e atroz. Depois, ela entrou em um acordo, dizendo que isso não era culpa dele, após o que pediu um presente. Como aprendemos na história do Mahābhārata, ou “A Grande Índia”, as esposas e filhas da classe governante, os kṣatriyas, conheciam o jogo político, mas em passagem alguma vê-se uma mulher recebendo o posto de líder executivo. Isso está de acordo com os preceitos da Manu-saṁhitā, mas, infelizmente, a Manu-saṁhitā agora está sendo ultrajada, e os arianos, os membros da sociedade védica, nada podem fazer. Essa é a natureza de Kali-yuga.
Nada acontece a menos que seja ordenado pelo destino.
tasyaiva hetoḥ prayateta kovido
na labhyate yad bhramatām upary adhaḥ
tal labhyate duḥkhavad anyataḥ sukhaṁ
kālena sarvatra gabhīra-raṁhasā
na labhyate yad bhramatām upary adhaḥ
tal labhyate duḥkhavad anyataḥ sukhaṁ
kālena sarvatra gabhīra-raṁhasā
(Śrīmad-Bhāgavatam 1.5.18)
Devakī sabia muito bem que, como o assassinato de seus muitos filhos fora ordenado pelo destino, não se deveria culpar Kaṁsa. Não convinha dar boas instruções a Kaṁsa. Upadeśo hi murkhāṇāṁ prakopāya na śāntaye (Cāṇakya Paṇḍita). Se um tolo recebe boas instruções, ele fica cada vez mais irado. Ademais, uma pessoa cruel é mais perigosa do que uma serpente. Tanto uma serpente quanto uma pessoa cruel são cruéis, mas uma pessoa cruel é mais perigosa porque, embora uma serpente possa ser encantada por mantras ou subjugada por ervas, uma pessoa cruel não pode ser subjugada de maneira alguma. Tal era a natureza de Kaṁsa.
Devanagari
नन्वहं ते ह्यवरजा दीना हतसुता प्रभो ।
दातुमर्हसि मन्दाया अङ्गेमां चरमां प्रजाम् ॥ ६ ॥
दातुमर्हसि मन्दाया अङ्गेमां चरमां प्रजाम् ॥ ६ ॥
Verse text
nanv ahaṁ te hy avarajā
dīnā hata-sutā prabho
dātum arhasi mandāyā
aṅgemāṁ caramāṁ prajām
dīnā hata-sutā prabho
dātum arhasi mandāyā
aṅgemāṁ caramāṁ prajām
Synonyms
nanu — entretanto; aham — eu sou; te — tua; hi — na verdade; avarajā — irmã caçula; dīnā — muito pobre; hata-sutā — desprovida de todos os filhos; prabho — ó meu senhor; dātum arhasi — mereces dar (algum presente); mandāyāḥ — a mim, que sou tão pobre; aṅga — meu querido irmão; imām — esta; caramām — última; prajām — criança.
Translation
Meu senhor, meu irmão, sou muito pobre, pois fiquei sem meus filhos, mas, mesmo assim, sou tua irmã caçula, e, portanto, quão digno seria que me desses de presente esta última criança.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
उपगुह्यात्मजामेवं रुदत्या दीनदीनवत् ।
याचितस्तां विनिर्भर्त्स्य हस्तादाचिच्छिदे खल: ॥ ७ ॥
उपगुह्यात्मजामेवं रुदत्या दीनदीनवत् ।
याचितस्तां विनिर्भर्त्स्य हस्तादाचिच्छिदे खल: ॥ ७ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
upaguhyātmajām evaṁ
rudatyā dīna-dīnavat
yācitas tāṁ vinirbhartsya
hastād ācicchide khalaḥ
upaguhyātmajām evaṁ
rudatyā dīna-dīnavat
yācitas tāṁ vinirbhartsya
hastād ācicchide khalaḥ
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; upaguhya — abraçando; ātmajām — sua filha; evam — dessa maneira; rudatyā — por Devakī, que chorava; dīna-dīna-vat — muito desconsolada, como uma pobre mulher; yācitaḥ — sendo solicitado; tām — a ela (Devakī); vinirbhartsya — castigando; hastāt — de suas mãos; ācicchide — arrebatou a criança à força; khalaḥ — Kaṁsa, o mais cruel.
Translation
Śukadeva Gosvāmī continuou: Ternamente abraçando sua filha e chorando, Devakī implorou a Kaṁsa a criança, mas ele era tão cruel que a castigou e arrancou a criança de suas mãos.
Purport
SIGNIFICADO—Embora chorasse como uma pobre mulher, Devakī não era realmente pobre, daí a palavra usada aqui ser dīnavat. Ela já dera à luz Kṛṣṇa. Logo, quem poderia ser mais rico do que ela? Até mesmo os semideuses vieram oferecer orações a Devakī, mas ela desempenhou o papel de uma pobre mulher amargurada porque queria salvar a filha de Yaśodā.
Devanagari
तां गृहीत्वा चरणयोर्जातमात्रां स्वसु: सुताम् ।
अपोथयच्छिलापृष्ठे स्वार्थोन्मूलितसौहृद: ॥ ८ ॥
अपोथयच्छिलापृष्ठे स्वार्थोन्मूलितसौहृद: ॥ ८ ॥
Verse text
tāṁ gṛhītvā caraṇayor
jāta-mātrāṁ svasuḥ sutām
apothayac chilā-pṛṣṭhe
svārthonmūlita-sauhṛdaḥ
jāta-mātrāṁ svasuḥ sutām
apothayac chilā-pṛṣṭhe
svārthonmūlita-sauhṛdaḥ
Synonyms
tām — a criança; gṛhītvā — pegando à força; caraṇayoḥ — pelas duas pernas; jāta-mātrām — a criança recém-nascida; svasuḥ — de sua irmã; sutām — a filha; apothayat — esmagada; śilā-pṛṣṭhe — contra uma pedra; sva-artha-unmūlita — rompida devido ao intenso egoísmo; sauhṛdaḥ — toda a amizade ou relações familiares.
Translation
Tendo rompido todas as relações com sua irmã devido ao intenso egoísmo, Kaṁsa, que estava de joelhos dobrados e sentado sobre seus tornozelos, agarrou pelas pernas a criança recém-nascida e tentou arremessá-la contra uma pedra.
Devanagari
सा तद्धस्तात् समुत्पत्य सद्यो देव्यम्बरं गता ।
अदृश्यतानुजा विष्णो: सायुधाष्टमहाभुजा ॥ ९ ॥
अदृश्यतानुजा विष्णो: सायुधाष्टमहाभुजा ॥ ९ ॥
Verse text
sā tad-dhastāt samutpatya
sadyo devy ambaraṁ gatā
adṛśyatānujā viṣṇoḥ
sāyudhāṣṭa-mahābhujā
sadyo devy ambaraṁ gatā
adṛśyatānujā viṣṇoḥ
sāyudhāṣṭa-mahābhujā
Synonyms
sā — aquela menina; tat-hastāt — da mão de Kaṁsa; sam-utpatya — escapuliu; sadyaḥ — imediatamente; devī — a forma de uma semideusa; ambaram — no céu; gatā — entrou; adṛśyata — foi vista; anujā — a irmã mais nova; viṣṇoḥ — da Suprema Personalidade de Deus; sa-āyudhā — com armas; aṣṭa — oito; mahā-bhujā — com braços poderosos.
Translation
A criança, Yogamāyā-devī, a irmã caçula do Senhor Viṣṇu, escapuliu das mãos de Kaṁsa e, tendo subido, apareceu no céu como Devī, a deusa Durgā, com oito braços e inteiramente equipada com armas.
Purport
SIGNIFICADO—Kaṁsa tentou esmagar a criança, atirando-a contra um pedaço de pedra, mas, visto que ela era Yogamāyā, a irmã mais nova do Senhor Viṣṇu, ela escapuliu para o alto e assumiu a forma da deusa Durgā. A palavra anujā, que significa “a irmã mais nova”, é expressiva. Ao nascer de Devakī, Viṣṇu, ou Kṛṣṇa, também deve simultaneamente ter nascido de Yaśodā. Caso contrário, como Yogamāyā poderia ser anujā, a irmã mais nova do Senhor?
Devanagari
दिव्यस्रगम्बरालेपरत्नाभरणभूषिता ।
धनु:शूलेषुचर्मासिशङ्खचक्रगदाधरा ॥ १० ॥
सिद्धचारणगन्धर्वैरप्सर:किन्नरोरगै: ।
उपाहृतोरुबलिभि: स्तूयमानेदमब्रवीत् ॥ ११ ॥
धनु:शूलेषुचर्मासिशङ्खचक्रगदाधरा ॥ १० ॥
सिद्धचारणगन्धर्वैरप्सर:किन्नरोरगै: ।
उपाहृतोरुबलिभि: स्तूयमानेदमब्रवीत् ॥ ११ ॥
Verse text
divya-srag-ambarālepa-
ratnābharaṇa-bhūṣitā
dhanuḥ-śūleṣu-carmāsi-
śaṅkha-cakra-gadā-dharā
ratnābharaṇa-bhūṣitā
dhanuḥ-śūleṣu-carmāsi-
śaṅkha-cakra-gadā-dharā
siddha-cāraṇa-gandharvair
apsaraḥ-kinnaroragaiḥ
upāhṛtoru-balibhiḥ
stūyamānedam abravīt
apsaraḥ-kinnaroragaiḥ
upāhṛtoru-balibhiḥ
stūyamānedam abravīt
Synonyms
divya-srak-ambara-ālepa — então, ela assumiu a forma de uma semideusa, inteiramente decorada com polpa de sândalo, guirlandas de flores e uma bela roupa; ratna-ābharaṇa-bhūṣitā — decorada com adornos de joias preciosas; dhanuḥ-śūla-iṣu-carma-asi — com arco, tridente, flechas, escudo e espada; śaṅkha-cakra-gadā-dharā — e portando as armas de Viṣṇu (búzio, disco e maça); siddha-cāraṇa-gandharvaiḥ — pelos Siddhas, Cāraṇas e Gandharvas; apsaraḥ-kinnara-uragaiḥ — e pelas Apsarās, Kinnaras e Uragas; upāhṛta-uru-balibhiḥ — que lhe trouxeram toda espécie de presentes; stūyamānā — sendo louvada; idam — essas palavras; abravīt — ela disse.
Translation
A deusa Durgā estava decorada com guirlanda de flores, untada com polpa de sândalo e vestida com roupas esmeradas e adornos feitos de joias preciosas. Portando em suas mãos um arco, um tridente, flechas, um escudo, uma espada, um búzio, um disco e uma maça, e sendo louvada pelos seres celestiais, como as Apsarās, os Kinnaras, os Uragas, os Siddhas, os Cāraṇas e os Gandharvas, que a adoravam com toda classe de presentes, ela falou as seguintes palavras.
Devanagari
किं मया हतया मन्द जात: खलु तवान्तकृत् ।
यत्र क्व वा पूर्वशत्रुर्मा हिंसी: कृपणान् वृथा ॥ १२ ॥
यत्र क्व वा पूर्वशत्रुर्मा हिंसी: कृपणान् वृथा ॥ १२ ॥
Verse text
kiṁ mayā hatayā manda
jātaḥ khalu tavānta-kṛt
yatra kva vā pūrva-śatrur
mā hiṁsīḥ kṛpaṇān vṛthā
jātaḥ khalu tavānta-kṛt
yatra kva vā pūrva-śatrur
mā hiṁsīḥ kṛpaṇān vṛthā
Synonyms
kim — que proveito há; mayā — a mim; hatayā — em matar; manda — ó seu tolo; jātaḥ — já nasceu; khalu — na verdade; tava anta-kṛt — que te matará; yatra kva vā — em alguma outra parte; pūrva-śatruḥ — teu antigo inimigo; mā — não; hiṁsīḥ — mates; kṛpaṇān — outras pobres crianças; vṛthā — desnecessariamente.
Translation
Ó Kaṁsa, ó grande tolo, que adiantará matar-me? A Suprema Personalidade de Deus, que, desde o princípio, tem sido teu inimigo e que decerto te matará, já nasceu em outra parte. Portanto, não mates desnecessariamente outras crianças.
Devanagari
इति प्रभाष्य तं देवी माया भगवती भुवि ।
बहुनामनिकेतेषु बहुनामा बभूव ह ॥ १३ ॥
बहुनामनिकेतेषु बहुनामा बभूव ह ॥ १३ ॥
Verse text
iti prabhāṣya taṁ devī
māyā bhagavatī bhuvi
bahu-nāma-niketeṣu
bahu-nāmā babhūva ha
māyā bhagavatī bhuvi
bahu-nāma-niketeṣu
bahu-nāmā babhūva ha
Synonyms
iti — dessa maneira; prabhāṣya — dirigindo-se; tam — a Kaṁsa; devī — a deusa Durgā; māyā — Yogamāyā; bhagavatī — possuindo um poder imenso, como o da Suprema Personalidade de Deus; bhuvi — na superfície da Terra; bahu-nāma — de diferentes nomes; niketeṣu — em diferentes lugares; bahu-nāmā — diferentes nomes; babhūva — tornou-se; ha — na verdade.
Translation
Após dirigir a Kaṁsa essas palavras, a deusa Durgā, Yogamāyā, apareceu em diferentes lugares, tais como Vārāṇasī, e tornou-se conhecida por diferentes nomes, como Annapūrṇā, Durgā, Kālī e Bhadrā.
Purport
SIGNIFICADO—A deusa Durgā é célebre em Calcutá como Kālī; em Bombaim, como Mumbādevī; em Varāṇasī, como Annapūrṇā; em Cuttack, como Bhadrakālī, e em Ahmedabad, como Bhadrā. Assim, em diferentes lugares, ela é conhecida por diferentes nomes. Seus devotos são conhecidos como śāktas, ou adoradores da energia da Suprema Personalidade de Deus, ao passo que os adoradores da própria Suprema Personalidade de Deus chamam-se vaiṣṇavas. Os vaiṣṇavas estão destinados a retornar ao lar, a retornar ao Supremo, ao mundo espiritual, ao passo que os śāktas estão destinados a viver dentro deste mundo material para desfrutarem de diferentes classes de felicidade material. No mundo material, a entidade viva deve aceitar diferentes espécies de corpos. Bhrāmayan sarva-bhūtāni yantrārūḍhāni māyayā. (Bhagavad-gītā 15.61) De acordo com o desejo da entidade viva, Yogamāyā, ou Māyā, a deusa Durgā, confere-lhe um determinado tipo de corpo, que é definido como yantra, uma máquina. Mas as entidades vivas que são promovidas ao mundo espiritual não retornam à prisão do corpo material (tyaktvā dehaṁ punar janma naiti mām eti so ’rjuna). As palavras janma na eti indicam que essas entidades vivas permanecem em seus corpos espirituais originais para desfrutar da companhia da Suprema Personalidade de Deus em Vaikuṇṭha e Vṛndāvana, as moradas transcendentais.
Devanagari
तयाभिहितमाकर्ण्य कंस: परमविस्मित: ।
देवकीं वसुदेवं च विमुच्य प्रश्रितोऽब्रवीत् ॥ १४ ॥
देवकीं वसुदेवं च विमुच्य प्रश्रितोऽब्रवीत् ॥ १४ ॥
Verse text
tayābhihitam ākarṇya
kaṁsaḥ parama-vismitaḥ
devakīṁ vasudevaṁ ca
vimucya praśrito ’bravīt
kaṁsaḥ parama-vismitaḥ
devakīṁ vasudevaṁ ca
vimucya praśrito ’bravīt
Synonyms
Translation
Após ouvir as palavras da deusa Durgā, Kaṁsa ficou espantado. Assim, aproximou-se de sua irmã Devakī e de seu cunhado Vasudeva, libertou-os imediatamente de suas algemas, e muito humildemente falou o seguinte.
Purport
SIGNIFICADO—Kaṁsa estava atônito com o fato de a deusa Durgā ter-se tornado filha de Devakī. Uma vez que Devakī era um ser humano, como a deusa Durgā poderia tornar-se sua filha? Esse era um dos motivos de seu espanto. E como é que o oitavo bebê de Devakī era uma menina? Isso também o deixou atônito. De um modo geral, os asuras são devotos da mãe Durgā, Śakti, ou dos semideuses, especialmente do senhor Śiva. O aparecimento de Durgā em seu aspecto original de oito braços, portando várias armas, imediatamente fez Kaṁsa reconsiderar se Devakī era um ser humano comum. Devakī devia ter algumas qualidades transcendentais; caso contrário, por que a deusa Durgā nasceria de seu ventre? Nessas circunstâncias, Kaṁsa, atônito, queria reparar as atrocidades que cometera contra sua irmã Devakī.
Devanagari
अहो भगिन्यहो भाम मया वां बत पाप्मना ।
पुरुषाद इवापत्यं बहवो हिंसिता: सुता: ॥ १५ ॥
पुरुषाद इवापत्यं बहवो हिंसिता: सुता: ॥ १५ ॥
Verse text
aho bhaginy aho bhāma
mayā vāṁ bata pāpmanā
puruṣāda ivāpatyaṁ
bahavo hiṁsitāḥ sutāḥ
mayā vāṁ bata pāpmanā
puruṣāda ivāpatyaṁ
bahavo hiṁsitāḥ sutāḥ
Synonyms
aho — ai de mim; bhagini — minha querida irmã; aho — ai de mim; bhāma — meu querido cunhado; mayā — por mim; vām — de vós; bata — na verdade; pāpmanā — devido às atividades pecaminosas; puruṣa-adaḥ — um Rākṣasa, canibal; iva — como; apatyam — criança; bahavaḥ — muitos; hiṁsitāḥ — foram mortos; sutāḥ — filhos.
Translation
Ai de mim, minha irmã! Ai de mim, meu cunhado! Na verdade, sou tão pecaminoso que, exatamente como um canibal [Rākṣasa] que come seu próprio filho, matei muitos filhos nascidos de vós.
Purport
SIGNIFICADO—Tal qual às vezes fazem as serpentes e outros animais, os Rākṣasas costumam comer seus próprios filhos. No momento atual de Kali-yuga, pais e mães Rākṣasas estão matando seus próprios filhos no ventre, e alguns sentem até mesmo muito prazer em comer o feto. Portanto, a civilização está gradualmente avançando na produção de Rākṣasas.
Devanagari
स त्वहं त्यक्तकारुण्यस्त्यक्तज्ञातिसुहृत् खल: । कान्लोकान् वै गमिष्यामि ब्रह्महेव मृत: श्वसन् ॥ १६ ॥
Verse text
sa tv ahaṁ tyakta-kāruṇyas
tyakta-jñāti-suhṛt khalaḥ
kān lokān vai gamiṣyāmi
brahma-heva mṛtaḥ śvasan
tyakta-jñāti-suhṛt khalaḥ
kān lokān vai gamiṣyāmi
brahma-heva mṛtaḥ śvasan
Synonyms
saḥ — aquela pessoa (Kaṁsa); tu — na verdade; aham — eu; tyakta-kāruṇyaḥ — desprovido de toda a misericórdia; tyakta-jñāti-suhṛt — meus parentes e amigos foram preteridos por mim; khalaḥ — cruel; kān lokān — a que planetas; vai — na verdade; gamiṣyāmi — irei; brahma-hā iva — igual ao matador de um brāhmaṇa; mṛtaḥ śvasan — seja após a morte, seja enquanto respiro.
Translation
Sendo inclemente e cruel, preteri todos os meus parentes e amigos. Portanto, igual a alguém que matou um brāhmaṇa, não sei a que planeta irei, seja após a morte, seja enquanto estiver respirando.
Devanagari
दैवमप्यनृतं वक्ति न मर्त्या एव केवलम् ।
यद्विश्रम्भादहं पाप: स्वसुर्निहतवाञ्छिशून् ॥ १७ ॥
यद्विश्रम्भादहं पाप: स्वसुर्निहतवाञ्छिशून् ॥ १७ ॥
Verse text
daivam apy anṛtaṁ vakti
na martyā eva kevalam
yad-viśrambhād ahaṁ pāpaḥ
svasur nihatavāñ chiśūn
na martyā eva kevalam
yad-viśrambhād ahaṁ pāpaḥ
svasur nihatavāñ chiśūn
Synonyms
Translation
Oh! Não apenas os seres humanos, mas às vezes até mesmo a providência mente. E sou tão pecaminoso que acreditei no presságio da providência e matei tantos filhos da minha irmã.
Devanagari
मा शोचतं महाभागावात्मजान् स्वकृतंभुज: ।
जान्तवो न सदैकत्र दैवाधीनास्तदासते ॥ १८ ॥
जान्तवो न सदैकत्र दैवाधीनास्तदासते ॥ १८ ॥
Verse text
mā śocataṁ mahā-bhāgāv
ātmajān sva-kṛtaṁ bhujaḥ
jāntavo na sadaikatra
daivādhīnās tadāsate
ātmajān sva-kṛtaṁ bhujaḥ
jāntavo na sadaikatra
daivādhīnās tadāsate
Synonyms
mā śocatam — por favor, não fiqueis consternados (com os acontecimentos passados); mahā-bhāgau — ó vós que sois eruditos e afortunados em conhecimento espiritual; ātmajān — por vossos filhos; sva-kṛtam — somente devido aos seus próprios atos; bhujaḥ — que estão sofrendo; jāntavaḥ — todas as entidades vivas; na — não; sadā — sempre; ekatra — em um lugar; daiva-adhīnāḥ — que estão sob o controle da providência; tadā — a partir de então; āsate — vivem.
Translation
Ó grandes almas, vossos filhos sofreram seu próprio infortúnio. Portanto, por favor, não vos lamenteis por eles. Todas as entidades vivas estão sob o controle do Supremo e não podem viver juntas para sempre.
Purport
SIGNIFICADO—Kaṁsa dirigiu-se à sua irmã e a seu cunhado como mahā-bhāgau porque, embora ele tivesse matado seus filhos comuns, a deusa Durgā nasceu deles. Visto que Devakī carregou Durgādevī em seu ventre, Kaṁsa louvou Devakī e o esposo desta. Os asuras são muito devotados à deusa Durgā, Kālī e assim por diante. Kaṁsa, portanto, deveras atônito, apreciou a exímia posição de sua irmã e de seu cunhado. Durgā decerto não está sob as leis da natureza, porque ela própria é a controladora das leis da natureza. Os seres vivos comuns, entretanto, são controlados por essas leis (prakṛteḥ kriyamāṇāni guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ). Consequentemente, a nenhum de nós se permite que vivamos juntos por muito tempo. Falando dessa maneira, Kaṁsa tentou apaziguar sua irmã e seu cunhado.
Devanagari
भुवि भौमानि भूतानि यथा यान्त्यपयान्ति च । नायमात्मा तथैतेषु विपर्येति यथैव भू: ॥ १९ ॥
Verse text
bhuvi bhaumāni bhūtāni
yathā yānty apayānti ca
nāyam ātmā tathaiteṣu
viparyeti yathaiva bhūḥ
yathā yānty apayānti ca
nāyam ātmā tathaiteṣu
viparyeti yathaiva bhūḥ
Synonyms
bhuvi — sobre a superfície do mundo; bhaumāni — todos os produtos materiais da terra, tais como os potes; bhūtāni — que são produzidos; yatha — como; yānti — aparecem (na forma); apayānti — desaparecem (quebrados ou misturados com a terra); ca — e; na — não; ayam ātmā — a alma ou identidade espiritual; tathā — igualmente; eteṣu — entre todos esses (produtos dos elementos materiais); viparyeti — muda ou quebra-se; yathā — como; eva — decerto; bhūḥ — a terra.
Translation
Neste mundo, podemos ver que os potes, bonecos e outros produtos feitos de barro aparecem, quebram-se e, então, desaparecem, misturando-se com a terra. Igualmente, os corpos de todas as entidades vivas condicionadas são aniquilados, mas as entidades vivas, como a própria terra, são imutáveis e nunca são aniquiladas [na hanyate hanyamāne śarīre].
Purport
SIGNIFICADO—Embora seja descrito como um demônio, Kaṁsa tinha bastante conhecimento do tema ātma-tattva, a verdade do eu. Há cinco mil anos, havia reis como Kaṁsa, que é descrito como um asura, mas que se posicionava acima dos políticos e diplomatas modernos, que não têm conhecimento sobre ātma-tattva. Como se afirma nos Vedas, asaṅgo hy ayaṁ puruṣaḥ: a alma espiritual não tem ligação com as mudanças do corpo material. O corpo se submete a seis mudanças – nascimento, crescimento, manutenção, subprodutos, decrepitude e, por fim, a aniquilação –, mas a alma não está sujeita a essas mudanças. Mesmo após a aniquilação de uma forma corpórea específica, a fonte da qual se originam os elementos corpóreos não muda. A entidade viva desfruta no corpo material, que aparece e desaparece, mas os cinco elementos, terra, água, fogo, ar e éter, permanecem os mesmos. Aqui, apresenta-se o exemplo de que os potes e bonecos são produzidos da terra, e quando quebrados ou destruídos, eles se misturam com seus ingredientes originais. De qualquer maneira, a fonte de fornecimento permanece a mesma.
Como já foi comentado anteriormente, o corpo é feito de acordo com os desejos da alma. A alma deseja e, em razão disso, o corpo é formado. Kṛṣṇa, portanto, diz na Bhagavad-gītā (18.61):
īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ
hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati
bhrāmayan sarva-bhūtāni
yantrārūḍhāni māyayā
hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati
bhrāmayan sarva-bhūtāni
yantrārūḍhāni māyayā
“O Senhor Supremo está situado no coração de todos, ó Arjuna, e está dirigindo as andanças de todas as entidades vivas, que estão sentadas num tipo de máquina feita de energia material.” Nem a Superalma, Paramātmā, nem a alma individual mudam da identidade espiritual original. Diferentemente do que acontece com o corpo, a alma não se submete a nascimento, morte ou mudanças. Logo, há um aforismo védico que diz que asaṅgo hy ayaṁ puruṣaḥ: embora esteja condicionada dentro deste mundo material, a alma não tem ligações com as mudanças do corpo material.
Devanagari
यथानेवंविदो भेदो यत आत्मविपर्यय: ।
देहयोगवियोगौ च संसृतिर्न निवर्तते ॥ २० ॥
देहयोगवियोगौ च संसृतिर्न निवर्तते ॥ २० ॥
Verse text
yathānevaṁ-vido bhedo
yata ātma-viparyayaḥ
deha-yoga-viyogau ca
saṁsṛtir na nivartate
yata ātma-viparyayaḥ
deha-yoga-viyogau ca
saṁsṛtir na nivartate
Synonyms
yathā — como; an-evam-vidaḥ — de uma pessoa que não tem conhecimento (sobre ātma-tattva e a estabilidade do ātmā em sua própria identidade, apesar das mudanças do corpo); bhedaḥ — a ideia da diferença entre o corpo e o eu; yataḥ — devido à qual; ātma-viparyayaḥ — a compreensão tola de que a pessoa é o corpo; deha-yoga-viyogau ca — e isso causa ligações e separações entre diferentes corpos; saṁsṛtiḥ — a continuação da vida condicionada; na — não; nivartate — para.
Translation
Aquele que não entende a posição constitucional do corpo e da alma [ātmā] torna-se demasiadamente apegado ao conceito de vida corpórea. Em consequência disso, devido ao apego ao corpo e a seus subprodutos, ele se sente afetado pelo convívio com sua família, sociedade e nação, dos quais ele não deseja separar-se. Enquanto isso continuar, ele dará andamento à sua vida material. [Caso contrário, ele é liberado.]
Purport
SIGNIFICADO—Como se confirma no Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.6):
sa vai puṁsāṁ paro dharmo
yato bhaktir adhokṣaje
ahaituky apratihatā
yayātmā suprasīdati
yato bhaktir adhokṣaje
ahaituky apratihatā
yayātmā suprasīdati
A palavra dharma significa “ocupação”. Alguém que ininterruptamente ocupa-se no serviço ao Senhor (yato bhaktir adhokṣaje) e não se deixa abalar por fatores externos é tido como estando situado em sua posição espiritual original. Quando alguém é promovido a essa etapa, sempre é feliz em bem-aventurança transcendental. Caso contrário, enquanto estiver no conceito de vida corpórea, a pessoa terá de submeter-se a condições materiais. Janma-mṛtyu jarā-vyādhi-duḥkha-doṣānudarśanam. O corpo está sujeito aos seus princípios inerentes – nascimento, morte, velhice e doença –, mas a pessoa situada em vida espiritual (yato bhaktir adhokṣaje) não se sujeita a nascimento, morte, velhice ou doença. Talvez alguém argumente que podemos ver pessoas ocupadas em atividades espirituais vinte e quatro horas por dia que, mesmo ainda, sofrem com enfermidades. Entretanto, o que acontece de fato é que ela nem está sofrendo nem está doente; de outro modo, ela não poderia estar ocupada vinte e quatro horas por dia em atividades espirituais. A esse respeito, pode-se dar o exemplo de que, às vezes, espuma suja ou lixo são vistos flutuando na água do Ganges. Isso se chama nīra-dharma, função da água. Mas a pessoa que vai ao Ganges não se importa com as espumas e as sujeiras que flutuam na água. Com sua mão, ela afasta essas coisas imundas, banha-se no Ganges e ganha resultados benéficos. Portanto, aquele que está situado na posição de vida espiritual não é afetado pela espuma e pelo lixo – ou quaisquer sujeiras superficiais. Isso é confirmado por Śrīla Rūpa Gosvāmī:
īhā yasya harer dāsye
karmaṇā manasā girā
nikhilāsv apy avasthāsu
jīvan-muktaḥ sa ucyate
karmaṇā manasā girā
nikhilāsv apy avasthāsu
jīvan-muktaḥ sa ucyate
“Aquele que age a serviço de Kṛṣṇa com seu corpo, mente e palavras é uma pessoa liberada, mesmo enquanto está dentro do mundo material.” (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.2.187) Portanto, é proibido que alguém considere o guru como um ser humano comum (guruṣu nara-matir...nārakī saḥ). O mestre espiritual, ou ācārya, sempre está situado na posição de vida espiritual. Nascimento, morte, velhice e doença não o afetam. De acordo com o Hari-bhakti-vilāsa, portanto, após o desaparecimento de um ācārya, seu corpo nunca é reduzido a cinzas, pois trata-se de um corpo espiritual. O corpo espiritual nunca é afetado por condições materiais.
Devanagari
तस्माद् भद्रे स्वतनयान् मया व्यापादितानपि ।
मानुशोच यत: सर्व: स्वकृतं विन्दतेऽवश: ॥ २१ ॥
मानुशोच यत: सर्व: स्वकृतं विन्दतेऽवश: ॥ २१ ॥
Verse text
tasmād bhadre sva-tanayān
mayā vyāpāditān api
mānuśoca yataḥ sarvaḥ
sva-kṛtaṁ vindate ’vaśaḥ
mayā vyāpāditān api
mānuśoca yataḥ sarvaḥ
sva-kṛtaṁ vindate ’vaśaḥ
Synonyms
tasmāt — portanto; bhadre — minha querida irmã (desejo-te toda auspiciosidade); sva-tanayān — por teus próprios filhos; mayā — por mim; vyāpāditān — desafortunadamente mortos; api — agora; mā anuśoca — não fiques consternada; yataḥ — porque; sarvaḥ — todos; sva-kṛtam — os resultados fruitivos de seus próprios feitos; vindate — sofrem ou desfrutam; avaśaḥ — sob o controle da providência.
Translation
Minha querida irmã Devakī, desejo-te toda boa fortuna. Sob o controle da providência, todos sofrem e desfrutam os resultados de seu próprio trabalho. Portanto, embora teus filhos desafortunadamente tenham sido mortos por mim, por favor, não te lamentes por eles.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma na Brahma-saṁhitā (5.54):
yas tv indra-gopam athavendram aho sva-karma-
bandhānurūpa-phala-bhājanam ātanoti
karmāṇi nirdahati kintu ca bhakti-bhājāṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
bandhānurūpa-phala-bhājanam ātanoti
karmāṇi nirdahati kintu ca bhakti-bhājāṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Todos, começando do pequeno inseto conhecido como indra-gopa, e indo até Indra, o rei dos planetas celestiais, são obrigados a submeter-se aos efeitos de suas ações fruitivas. Superficialmente, podemos ver alguém sofrendo ou desfrutando devido a algumas causas externas, mas a verdadeira causa são suas próprias atividades fruitivas. Mesmo quando alguém mata outrem, deve-se compreender que a pessoa que foi morta recebeu os resultados fruitivos de suas próprias atividades e que o homem que a matou agiu como agente da natureza material. Assim, analisando o assunto profundamente, Kaṁsa implorou o perdão de Devakī. Ele não era a causa da morte dos filhos de Devakī. Em vez disso, a causa era o próprio destino deles. Nessas circunstâncias, Devakī deveria perdoar Kaṁsa e não deveria lamentar-se, mas sim esquecer-se de seus feitos passados. Kaṁsa admitiu seu erro pessoal, mas tudo o que fizera estava sob o controle da providência. Kaṁsa poderia ter sido a causa imediata da morte dos filhos de Devakī, mas a causa remota eram os feitos passados deles. Essa era a grande verdade.
Devanagari
यावद्धतोऽस्मि हन्तास्मीत्यात्मानं मन्यतेऽस्वदृक् ।
तावत्तदभिमान्यज्ञो बाध्यबाधकतामियात् ॥ २२ ॥
तावत्तदभिमान्यज्ञो बाध्यबाधकतामियात् ॥ २२ ॥
Verse text
yāvad dhato ’smi hantāsmī-
ty ātmānaṁ manyate ’sva-dṛk
tāvat tad-abhimāny ajño
bādhya-bādhakatām iyāt
ty ātmānaṁ manyate ’sva-dṛk
tāvat tad-abhimāny ajño
bādhya-bādhakatām iyāt
Synonyms
yāvat — enquanto; hataḥ asmi — agora estou sendo morto (por outros); hantā asmi — sou o matador (dos outros); iti — assim; ātmānam — próprio eu; manyate — ela considera; a-sva-dṛk — uma pessoa que não viu a si mesma (devido à escuridão decorrente do conceito de vida corpórea); tāvat — enquanto perdurar isto; tat-abhimānī — considerando-se aquele que é morto ou aquele que mata; ajñaḥ — um tolo; bādhya-bādhakatām — as imposições do mundo, segundo as quais se é obrigado a assumir alguma responsabilidade; iyāt — continuam.
Translation
No conceito de vida corpórea, a pessoa permanece nas trevas, sem autorrealização, pensando: “Estou sendo morto” ou “Matei meus inimigos”. Enquanto pessoas tolas considerarem o eu como o matador ou como o morto, elas continuarão responsáveis pelas obrigações materiais e, consequentemente, sofrerão as reações da felicidade e infelicidade.
Purport
SIGNIFICADO—Pela graça do Senhor, Kaṁsa sentiu sincero arrependimento por ter desnecessariamente perseguido vaiṣṇavas como Devakī e Vasudeva e, desse modo, chegou à fase de conhecimento transcendental. “Porque estou situado na plataforma de conhecimento”, disse Kaṁsa, “entendo que não sou, de modo algum, o matador de teus filhos e não tenho responsabilidade pela morte deles. Enquanto eu pensava que seria morto pelo teu filho, estava em ignorância, mas agora estou livre dessa ignorância decorrente do conceito de vida corpórea.” Como se afirma na Bhagavad-gītā (18.17):
yasya nāhaṅkṛto bhāvo
buddhir yasya na lipyate
hatvāpi sa imāḻ lokān
na hanti na nibadhyate
buddhir yasya na lipyate
hatvāpi sa imāḻ lokān
na hanti na nibadhyate
“Aquele que não é motivado pelo falso ego, cuja inteligência não está enredada, embora mate homens neste mundo, não mata. Tampouco fica preso a suas ações.” De acordo com esta verdade axiomática, Kaṁsa alegou não ser responsável pela morte dos filhos de Devakī e Vasudeva. “Por favor, tentai perdoar-me por essas falsas atividades externas”, disse ele, “e apaziguai-vos através desse mesmo conhecimento.”
Devanagari
क्षमध्वं मम दौरात्म्यं साधवो दीनवत्सला: ।
इत्युक्त्वाश्रुमुख: पादौ श्याल: स्वस्रोरथाग्रहीत् ॥ २३ ॥
इत्युक्त्वाश्रुमुख: पादौ श्याल: स्वस्रोरथाग्रहीत् ॥ २३ ॥
Verse text
kṣamadhvaṁ mama daurātmyaṁ
sādhavo dīna-vatsalāḥ
ity uktvāśru-mukhaḥ pādau
śyālaḥ svasror athāgrahīt
sādhavo dīna-vatsalāḥ
ity uktvāśru-mukhaḥ pādau
śyālaḥ svasror athāgrahīt
Synonyms
kṣamadhvam — por favor, perdoai; mama — minhas; daurātmyam — atividades atrozes; sādhavaḥ — ambos sois grandes pessoas santas; dīna-vatsalāḥ — e sois muito bondosos com as pobres pessoas de mentalidade mesquinha; iti uktvā — dizendo isso; aśru-mukhaḥ — seu rosto cheio de lágrimas; pādau — os pés; śyālaḥ — seu cunhado Kaṁsa; svasraḥ — de sua irmã e de seu cunhado; atha — assim; agrahīt — agarrou.
Translation
Kaṁsa suplicou: “Minha querida irmã e meu querido cunhado, visto que sois pessoas santas, por favor, tende misericórdia de alguém como eu, cujo coração é tão pobre. Por favor, perdoai minhas atrocidades.” Tendo falado essas palavras, Kaṁsa caiu aos pés de Vasudeva e Devakī, com os olhos cheios de lágrimas de arrependimento.
Purport
SIGNIFICADO—Embora Kaṁsa tivesse falado muito bem sobre o tema do conhecimento verdadeiro, seus feitos passados eram abomináveis e atrozes, de modo que continuou pedindo perdão à sua irmã e ao seu cunhado, caindo aos pés deles e admitindo que era uma pessoa muito pecaminosa.
Devanagari
मोचयामास निगडाद् विश्रब्ध: कन्यकागिरा ।
देवकीं वसुदेवं च दर्शयन्नात्मसौहृदम् ॥ २४ ॥
देवकीं वसुदेवं च दर्शयन्नात्मसौहृदम् ॥ २४ ॥
Verse text
mocayām āsa nigaḍād
viśrabdhaḥ kanyakā-girā
devakīṁ vasudevaṁ ca
darśayann ātma-sauhṛdam
viśrabdhaḥ kanyakā-girā
devakīṁ vasudevaṁ ca
darśayann ātma-sauhṛdam
Synonyms
Translation
Acreditando plenamente nas palavras da deusa Durgā, Kaṁsa manifestou sua afeição familiar por Devakī e Vasudeva, libertando-os imediatamente das algemas de ferro.
Devanagari
भ्रातु: समनुतप्तस्य क्षान्तरोषा च देवकी ।
व्यसृजद् वसुदेवश्च प्रहस्य तमुवाच ह ॥ २५ ॥
व्यसृजद् वसुदेवश्च प्रहस्य तमुवाच ह ॥ २५ ॥
Verse text
bhrātuḥ samanutaptasya
kṣānta-roṣā ca devakī
vyasṛjad vasudevaś ca
prahasya tam uvāca ha
kṣānta-roṣā ca devakī
vyasṛjad vasudevaś ca
prahasya tam uvāca ha
Synonyms
Translation
Ao ver seu irmão deveras arrependido enquanto explicava os acontecimentos fatídicos, Devakī livrou-se de toda a ira. Igualmente, Vasudeva também se viu liberto da ira. Sorrindo, ele falou a Kaṁsa as seguintes palavras.
Purport
SIGNIFICADO—Devakī e Vasudeva, ambos personalidades de alta nobreza, aceitaram a verdade apresentada por Kaṁsa de que tudo é designado pela providência. De acordo com a profecia, Kaṁsa seria morto pelo oitavo filho de Devakī. Logo, Vasudeva e Devakī viram que, atrás de todos esses incidentes, estava um grande plano traçado pela Suprema Personalidade de Deus. Visto que o Senhor já havia nascido como uma criança humana e estava sob a segura custódia de Yaśodā, tudo acontecia de acordo com o plano, e não havia necessidade de eles ficarem rancorosos contra Kaṁsa. Portanto, eles aceitaram as palavras de Kaṁsa.
Devanagari
एवमेतन्महाभाग यथा वदसि देहिनाम् ।
अज्ञानप्रभवाहंधी: स्वपरेति भिदा यत: ॥ २६ ॥
अज्ञानप्रभवाहंधी: स्वपरेति भिदा यत: ॥ २६ ॥
Verse text
evam etan mahā-bhāga
yathā vadasi dehinām
ajñāna-prabhavāhaṁ-dhīḥ
sva-pareti bhidā yataḥ
yathā vadasi dehinām
ajñāna-prabhavāhaṁ-dhīḥ
sva-pareti bhidā yataḥ
Synonyms
evam — sim, está certo; etat — o que disseste; mahā-bhāga — ó grande personalidade; yathā — como; vadasi — estás falando; dehinām — sobre as entidades vivas (que aceitam corpos materiais); ajñāna-prabhavā — por influência da ignorância; aham-dhīḥ — este é meu interesse (falso ego); sva-parā iti — esse é o interesse alheio; bhidā — diferenciação; yataḥ — devido a esse conceito de vida.
Translation
Ó grande personalidade Kaṁsa, apenas por influência da ignorância alguém pode aceitar o corpo material e o ego corpóreo. O que disseste sobre esta filosofia está correto. As pessoas no conceito de vida corpórea, desprovidas de autorrealização, usam termos distintivos, tais como “Isto é meu” e “Isso pertence a outrem”.
Purport
SIGNIFICADO—Tudo é feito automaticamente pelas leis da natureza, que funcionam sob a direção da Suprema Personalidade de Deus. Não há possibilidade de se fazer algo independentemente, pois alguém que se colocou dentro desta atmosfera material está sob o pleno controle das leis da natureza. Nossa principal ocupação, portanto, deve ser escaparmos desta vida condicionada e novamente nos situarmos na existência espiritual. Somente devido à ignorância pode-se pensar: “Sou um semideus”, “Sou um ser humano”, “Sou um cão”, “Sou um gato”, ou, quando a ignorância é ainda maior: “Sou Deus”. A não ser que alguém seja plenamente autorrealizado, sua vida de ignorância continuará.
Devanagari
शोकहर्षभयद्वेषलोभमोहमदान्विता: ।
मिथो घ्नन्तं न पश्यन्ति भावैर्भावं पृथग्दृश: ॥ २७ ॥
मिथो घ्नन्तं न पश्यन्ति भावैर्भावं पृथग्दृश: ॥ २७ ॥
Verse text
śoka-harṣa-bhaya-dveṣa-
lobha-moha-madānvitāḥ
mitho ghnantaṁ na paśyanti
bhāvair bhāvaṁ pṛthag-dṛśaḥ
lobha-moha-madānvitāḥ
mitho ghnantaṁ na paśyanti
bhāvair bhāvaṁ pṛthag-dṛśaḥ
Synonyms
śoka — lamentação; harṣa — júbilo; bhaya — medo; dveṣa — inveja; lobha — cobiça; moha — ilusão; mada — loucura; anvitāḥ — dotadas com; mithaḥ — umas às outras; ghnantam — ocupadas em matar; na paśyanti — não veem; bhāvaiḥ — devido a essa diferenciação; bhāvam — a situação em relação com o Senhor Supremo; pṛthak-dṛśaḥ — pessoas que veem tudo desvinculado do controle do Senhor.
Translation
As pessoas que fazem essa diferenciação são imbuídas de qualidades materiais – lamentação, júbilo, medo, inveja, cobiça, ilusão e loucura. Elas são influenciadas pela causa imediata, a qual se esforçam por anular, porque não conhecem a suprema causa remota, a Personalidade de Deus.
Purport
SIGNIFICADO—Kṛṣṇa é a causa de todas as causas (sarva-kāraṇa-kāraṇam), mas alguém que não se vincula a Kṛṣṇa é perturbado por causas imediatas e não pode deixar de desenvolver separação ou diferenças. Ao tratar um paciente, um médico hábil procura encontrar a causa que originou a doença, e não se deixa distrair pelos sintomas da causa original. Igualmente, o devoto jamais se perturba com os reveses da vida. Tat te ’nukampāṁ susamīkṣamāṇaḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.8) O devoto entende que, quando está em aflição, isso se deve aos seus próprios erros do passado, que agora estão produzindo reações, embora, por graça da Suprema Personalidade de Deus, elas sejam muito leves. Karmāṇi nirdahati kintu ca bhakti-bhājām. (Brahma-saṁhitā 5.54) Quando um devoto sob a proteção da Suprema Personalidade de Deus tem de sofrer devido aos erros que cometeu no passado, ele, pela graça do Senhor, passa por apenas um pouco de sofrimento. Embora a doença que acomete um devoto deva-se aos erros praticados em alguma época passada, ele concorda em sofrer e em tolerar essas dores e depende por completo da Suprema Personalidade de Deus. Portanto, ele jamais é afetado por condições materiais, tais como lamentação, júbilo, medo e assim por diante. O devoto jamais vê que algo esteja desvinculado da Suprema Personalidade de Deus. Śrīla Madhvācārya, citando o Bhaviṣya Purāṇa, diz:
bhagavad-darśanād yasya
virodhād darśanaṁ pṛthak
pṛthag-dṛṣṭiḥ sa vijñeyo
na tu sad-bheda-darśanaḥ
virodhād darśanaṁ pṛthak
pṛthag-dṛṣṭiḥ sa vijñeyo
na tu sad-bheda-darśanaḥ
Devanagari
श्रीशुक उवाच
कंस एवं प्रसन्नाभ्यां विशुद्धं प्रतिभाषित: ।
देवकीवसुदेवाभ्यामनुज्ञातोऽविशद् गृहम् ॥ २८ ॥
कंस एवं प्रसन्नाभ्यां विशुद्धं प्रतिभाषित: ।
देवकीवसुदेवाभ्यामनुज्ञातोऽविशद् गृहम् ॥ २८ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
kaṁsa evaṁ prasannābhyāṁ
viśuddhaṁ pratibhāṣitaḥ
devakī-vasudevābhyām
anujñāto ’viśad gṛham
kaṁsa evaṁ prasannābhyāṁ
viśuddhaṁ pratibhāṣitaḥ
devakī-vasudevābhyām
anujñāto ’viśad gṛham
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; kaṁsaḥ — rei Kaṁsa; evam — assim; prasannābhyām — eles estavam muito pacíficos; viśuddham — com pureza; pratibhāṣitaḥ — obtendo a resposta; devakī-vasudevābhyām — de Devakī e Vasudeva; anujñātaḥ — recebendo permissão; aviśat — entrou; gṛham — em seu próprio palácio.
Translation
Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Tendo então ouvido as palavras puras de Devakī e Vasudeva, que estavam muito apaziguados, Kaṁsa se sentiu satisfeito e, com a permissão deles, entrou em seu próprio lar.
Devanagari
तस्यां रात्र्यां व्यतीतायां कंस आहूय मन्त्रिण: ।
तेभ्य आचष्ट तत् सर्वं यदुक्तं योगनिद्रया ॥ २९ ॥
तेभ्य आचष्ट तत् सर्वं यदुक्तं योगनिद्रया ॥ २९ ॥
Verse text
tasyāṁ rātryāṁ vyatītāyāṁ
kaṁsa āhūya mantriṇaḥ
tebhya ācaṣṭa tat sarvaṁ
yad uktaṁ yoga-nidrayā
kaṁsa āhūya mantriṇaḥ
tebhya ācaṣṭa tat sarvaṁ
yad uktaṁ yoga-nidrayā
Synonyms
tasyām — aquela; rātryām — noite; vyatītāyām — tendo-se passado; kaṁsaḥ — o rei Kaṁsa; āhūya — convocando; mantriṇaḥ — todos os ministros; tebhyaḥ — a eles; ācaṣṭa — informou; tat — isto; sarvam — tudo; yat uktam — que fora falado (que o matador de Kaṁsa já estava em algum outro lugar); yoga-nidrayā — por Yogamāyā, a deusa Durgā.
Translation
Passada a noite, Kaṁsa convocou seus ministros e informou-lhes tudo o que fora dito por Yogamāyā [a qual revelara que aquele que deveria matar Kaṁsa já nascera em algum outro lugar].
Purport
SIGNIFICADO—A escritura védica Caṇḍī descreve māyā, a energia do Senhor Supremo, como nidrā: durgā devī sarva-bhūteṣu nidrā-rūpeṇa samāsthitaḥ. Neste mundo material, a energia de Yogamāyā e Mahāmāyā mantém as entidades vivas dormindo na grande escuridão da ignorância. Yogamāyā, a deusa Durgā, manteve Kaṁsa na escuridão quanto ao nascimento de Kṛṣṇa e levou-o a acreditar que seu inimigo Kṛṣṇa nascera em outro lugar. Ao nascer, Kṛṣṇa era filho de Devakī, mas, de acordo com o plano original do Senhor, tal como profetizado para Brahmā, Ele foi a Vṛndāvana, onde, por onze anos, daria prazer a mãe Yaśodā e Nanda Mahārāja e a outros amigos e devotos íntimos. Ele retornaria depois para matar Kaṁsa. Como não sabia disso, Kaṁsa acreditava na afirmação de Yogamāyā de que Kṛṣṇa nascera em outro lugar, e não de Devakī.
Devanagari
आकर्ण्य भर्तुर्गदितं तमूचुर्देवशत्रव: ।
देवान् प्रति कृतामर्षा दैतेया नातिकोविदा: ॥ ३० ॥
देवान् प्रति कृतामर्षा दैतेया नातिकोविदा: ॥ ३० ॥
Verse text
ākarṇya bhartur gaditaṁ
tam ūcur deva-śatravaḥ
devān prati kṛtāmarṣā
daiteyā nāti-kovidāḥ
tam ūcur deva-śatravaḥ
devān prati kṛtāmarṣā
daiteyā nāti-kovidāḥ
Synonyms
ākarṇya — após ouvirem; bhartuḥ — do seu mestre; gaditam — as palavras ou afirmações; tam ūcuḥ — responderam-lhe; deva-śatravaḥ — todos os asuras, que eram inimigos dos semideuses; devān — os semideuses; prati — de; kṛta-amarṣāḥ — que eram invejosos; daiteyāḥ — os asuras; na — não; ati-kovidāḥ — que agiam com muita habilidade.
Translation
Após ouvirem a afirmação de seu mestre, os asuras invejosos, que eram inimigos dos semideuses e não procediam com muita habilidade, deram o seguinte conselho a Kaṁsa.
Purport
SIGNIFICADO—Existem duas diferentes categorias de homens – os asuras e os suras.
dvau bhūta-sargau loke ’smin
daiva āsura eva ca
viṣṇu-bhaktaḥ smṛto daiva
āsuras tad-viparyayaḥ
daiva āsura eva ca
viṣṇu-bhaktaḥ smṛto daiva
āsuras tad-viparyayaḥ
(Padma Purāṇa)
Aqueles que são devotos do Senhor Viṣṇu, Kṛṣṇa, são suras, ou devas, ao passo que aqueles que se opõem aos devotos chamam-se asuras. Em tudo o que fazem, os devotos usam de muita habilidade (yasyāsti bhaktir bhagavaty akiñcanā sarvair guṇais tatra samāsate surāḥ). Logo, eles são chamados kovida, que significa “hábeis”. Os asuras, entretanto, embora aparentemente mostrem habilidade ao executarem atividades sob o modo da paixão, na verdade são todos tolos. Eles não são sóbrios nem hábeis. Tudo o que fazem é imperfeito. Moghāśā mogha-karmāṇaḥ. De acordo com esta passagem da Bhagavad-gītā (9.12), tudo o que os asuras fazem é frustrado ao final. Foi esse tipo de pessoas que aconselhou Kaṁsa porque eram seus principais amigos e ministros.
Devanagari
एवं चेत्तर्हि भोजेन्द्र पुरग्रामव्रजादिषु ।
अनिर्दशान् निर्दशांश्च हनिष्यामोऽद्य वै शिशून् ॥ ३१ ॥
अनिर्दशान् निर्दशांश्च हनिष्यामोऽद्य वै शिशून् ॥ ३१ ॥
Verse text
evaṁ cet tarhi bhojendra
pura-grāma-vrajādiṣu
anirdaśān nirdaśāṁś ca
haniṣyāmo ’dya vai śiśūn
pura-grāma-vrajādiṣu
anirdaśān nirdaśāṁś ca
haniṣyāmo ’dya vai śiśūn
Synonyms
evam — assim; cet — se é assim; tarhi — então; bhoja-indra — ó rei de Bhoja; pura-grāma-vraja-ādiṣu — em todas as cidades, vilas e campos de pastagens; anirdaśān — aqueles que têm menos de dez dias de idade; nirdaśān ca — e aqueles que têm um pouco mais de dez dias de idade; haniṣyāmaḥ — mataremos; adya — a partir de hoje; vai — na verdade; śiśūn — todas essas crianças.
Translation
Se isso é verdade, ó rei da dinastia Bhoja, a partir de hoje mataremos todas as crianças em todas as vilas, cidades e campos de pastagem nascidas dentro dos últimos dez dias ou um pouco antes desse período.
Devanagari
किमुद्यमै: करिष्यन्ति देवा: समरभीरव: ।
नित्यमुद्विग्नमनसो ज्याघोषैर्धनुषस्तव ॥ ३२ ॥
नित्यमुद्विग्नमनसो ज्याघोषैर्धनुषस्तव ॥ ३२ ॥
Verse text
kim udyamaiḥ kariṣyanti
devāḥ samara-bhīravaḥ
nityam udvigna-manaso
jyā-ghoṣair dhanuṣas tava
devāḥ samara-bhīravaḥ
nityam udvigna-manaso
jyā-ghoṣair dhanuṣas tava
Synonyms
Translation
Os semideuses sempre temem o som da corda do teu arco. Eles estão em constante ansiedade, com medo de lutar. Portanto, que iniciativa eles podem tomar para prejudicar-te?
Devanagari
अस्यतस्ते शरव्रातैर्हन्यमाना: समन्तत: ।
जिजीविषव उत्सृज्य पलायनपरा ययु: ॥ ३३ ॥
जिजीविषव उत्सृज्य पलायनपरा ययु: ॥ ३३ ॥
Verse text
asyatas te śara-vrātair
hanyamānāḥ samantataḥ
jijīviṣava utsṛjya
palāyana-parā yayuḥ
hanyamānāḥ samantataḥ
jijīviṣava utsṛjya
palāyana-parā yayuḥ
Synonyms
asyataḥ — trespassados pelas flechas que disparaste; te — tuas; śara-vrātaiḥ — pela saraivada de flechas; hanyamānāḥ — sendo mortos; samantataḥ — aqui e ali; jijīviṣavaḥ — desejando viver; utsṛjya — deixando o campo de batalha; palāyana-parāḥ — na tentativa de escapar; yayuḥ — eles fugiram (da luta).
Translation
Enquanto eram trespassados por tuas flechas, que disparaste em todas as direções, alguns deles, feridos pela saraivada de flechas, mas desejosos de viver, fugiram do campo de batalha, tentando escapar.
Devanagari
केचित् प्राञ्जलयो दीना न्यस्तशस्त्रा दिवौकस: ।
मुक्तकच्छशिखा: केचिद् भीता: स्म इति वादिन: ॥ ३४ ॥
मुक्तकच्छशिखा: केचिद् भीता: स्म इति वादिन: ॥ ३४ ॥
Verse text
kecit prāñjalayo dīnā
nyasta-śastrā divaukasaḥ
mukta-kaccha-śikhāḥ kecid
bhītāḥ sma iti vādinaḥ
nyasta-śastrā divaukasaḥ
mukta-kaccha-śikhāḥ kecid
bhītāḥ sma iti vādinaḥ
Synonyms
kecit — alguns deles; prāñjalayaḥ — uniram suas mãos simplesmente para satisfazer-te; dīnāḥ — muito pobres; nyasta-śastrāḥ — estando privados de todas as armas; divaukasaḥ — os semideuses; mukta-kaccha-śikhāḥ — suas roupas e cabelos soltos e em desalinho; kecit — alguns deles; bhītāḥ — temos muito medo; sma — assim se deu; iti vādinaḥ — eles falaram dessa maneira.
Translation
Derrotados e privados de todas as armas, alguns semideuses desistiram de lutar e louvaram-te com mãos postas, e alguns deles apareceram diante de ti com roupas e cabelos soltos e disseram: “Ó senhor, temos muito medo de ti.”
Devanagari
न त्वं विस्मृतशस्त्रास्त्रान् विरथान् भयसंवृतान् ।
हंस्यन्यासक्तविमुखान् भग्नचापानयुध्यत: ॥ ३५ ॥
हंस्यन्यासक्तविमुखान् भग्नचापानयुध्यत: ॥ ३५ ॥
Verse text
na tvaṁ vismṛta-śastrāstrān
virathān bhaya-saṁvṛtān
haṁsy anyāsakta-vimukhān
bhagna-cāpān ayudhyataḥ
virathān bhaya-saṁvṛtān
haṁsy anyāsakta-vimukhān
bhagna-cāpān ayudhyataḥ
Synonyms
na — não; tvam — Vossa Majestade; vismṛta-śastra-astrān — aqueles que se esqueceram de como usar as armas; virathān — sem quadrigas; bhaya-saṁvṛtān — confundidos pelo temor; haṁsi — mata; anya-āsakta-vimukhān — pessoas que não são apegadas a lutar, mas a algum outro assunto; bhagna-cāpān — seus arcos partidos; ayudhyataḥ — e assim não lutando.
Translation
Quando os semideuses ficam privados de suas quadrigas, quando não conseguem usar armas, quando têm medo ou estão apegados a algo diferente da luta, ou quando seus arcos se quebram e, por isso, eles perdem a habilidade para lutar, Vossa Majestade não os mata.
Purport
SIGNIFICADO—Existem princípios que governam até mesmo a luta. Se o inimigo não tem quadriga, não se concentra na arte de lutar devido ao medo, ou não deseja lutar, ele não deve ser morto. Os ministros de Kaṁsa deixaram-no atento ao fato de que, apesar de seu poder, ele conhecia os princípios da luta e, portanto, perdoara os semideuses devido à incapacidade deles. “Mas a atual emergência”, disseram os ministros, “não permite tal misericórdia ou etiqueta militar. Agora, deves preparar-te para lutar em quaisquer circunstâncias.” Assim, eles aconselharam Kaṁsa a abandonar a tradicional etiqueta que vigora nas lutas e disseram que deveria castigar o inimigo a qualquer preço.
Devanagari
किं क्षेमशूरैर्विबुधैरसंयुगविकत्थनै: ।
रहोजुषा किं हरिणा शम्भुना वा वनौकसा ।
किमिन्द्रेणाल्पवीर्येण ब्रह्मणा वा तपस्यता ॥ ३६ ॥
रहोजुषा किं हरिणा शम्भुना वा वनौकसा ।
किमिन्द्रेणाल्पवीर्येण ब्रह्मणा वा तपस्यता ॥ ३६ ॥
Verse text
kiṁ kṣema-śūrair vibudhair
asaṁyuga-vikatthanaiḥ
raho-juṣā kiṁ hariṇā
śambhunā vā vanaukasā
kim indreṇālpa-vīryeṇa
brahmaṇā vā tapasyatā
asaṁyuga-vikatthanaiḥ
raho-juṣā kiṁ hariṇā
śambhunā vā vanaukasā
kim indreṇālpa-vīryeṇa
brahmaṇā vā tapasyatā
Synonyms
kim — que há a temer; kṣema — em um lugar onde é escassa a habilidade para lutar; śūraiḥ — pelos semideuses; vibudhaiḥ — por essas pessoas poderosas; asaṁyuga-vikatthanaiḥ — vangloriando-se e falando inutilmente, longe da luta; rahaḥ-juṣā — que vive em um lugar solitário, no âmago do coração; kim hariṇā — por que temer o Senhor Viṣṇu; śambhunā — (e por que temer) o senhor Śiva; vā — ou; vana-okasā — que vive na floresta; kim indreṇa — por que temer Indra; alpa-vīryeṇa — ele não é nada poderoso (não tendo o poder de lutar contigo); brahmaṇā — por que temer Brahmā; vā — ou; tapasyatā — que está sempre ocupado em meditar.
Translation
Os semideuses se vangloriam em vão quando estão longe do campo de batalha. Somente quando não há luta eles sabem ostentar o seu poder. Portanto, nada temos a temer desses semideuses. Quanto ao Senhor Viṣṇu, Ele está recluso no âmago do coração dos yogīs. Quanto ao senhor Śiva, ele foi para a floresta. E quanto ao senhor Brahmā, ele está sempre ocupado em austeridades e meditação. Os outros semideuses, encabeçados por Indra, não são poderosos. Portanto, nada tens a temer.
Purport
SIGNIFICADO—Os ministros de Kaṁsa disseram-lhe que todos os exímios semideuses haviam fugido com medo dele. Um fora para a floresta; outro, para o âmago do coração, e outro fora ocupar-se em tapasya. “Logo, não deves temer os semideuses”, disseram eles. “Simplesmente prepara-te para lutar.”
Devanagari
तथापि देवा: सापत्न्यान्नोपेक्ष्या इति मन्महे ।
ततस्तन्मूलखनने नियुङ्क्ष्वास्माननुव्रतान् ॥ ३७ ॥
ततस्तन्मूलखनने नियुङ्क्ष्वास्माननुव्रतान् ॥ ३७ ॥
Verse text
tathāpi devāḥ sāpatnyān
nopekṣyā iti manmahe
tatas tan-mūla-khanane
niyuṅkṣvāsmān anuvratān
nopekṣyā iti manmahe
tatas tan-mūla-khanane
niyuṅkṣvāsmān anuvratān
Synonyms
tathā api — mesmo assim; devāḥ — os semideuses; sāpatnyāt — devido à inimizade; na upekṣyāḥ — não devem ser subestimados; iti manmahe — essa é a nossa opinião; tataḥ — portanto; tat-mūla-khanane — para derrotá-los completamente; niyuṅkṣva — ocupa; asmān — a nós; anuvratān — que estamos prontos para seguir-te.
Translation
Entretanto, devido à inimizade deles, temos a opinião de que os semideuses não devem ser subestimados. Portanto, para derrotá-los completamente, ocupa-nos em lutar contra eles, pois estamos prontos para seguir-te.
Purport
SIGNIFICADO—De acordo com as instruções morais, ninguém deve deixar de extinguir o fogo completamente, tratar as doenças completamente e saldar as dívidas completamente. Caso contrário, cada um deles se agravará e, mais tarde, será difícil contê-los. Logo, os ministros aconselharam Kaṁsa a derrotar completamente seus inimigos.
Devanagari
यथामयोऽङ्गे समुपेक्षितो नृभि-
र्न शक्यते रूढपदश्चिकित्सितुम् ।
यथेन्द्रियग्राम उपेक्षितस्तथा
रिपुर्महान् बद्धबलो न चाल्यते ॥ ३८ ॥
र्न शक्यते रूढपदश्चिकित्सितुम् ।
यथेन्द्रियग्राम उपेक्षितस्तथा
रिपुर्महान् बद्धबलो न चाल्यते ॥ ३८ ॥
Verse text
yathāmayo ’ṅge samupekṣito nṛbhir
na śakyate rūḍha-padaś cikitsitum
yathendriya-grāma upekṣitas tathā
ripur mahān baddha-balo na cālyate
na śakyate rūḍha-padaś cikitsitum
yathendriya-grāma upekṣitas tathā
ripur mahān baddha-balo na cālyate
Synonyms
yathā — como; āmayaḥ — uma doença; aṅge — no corpo; samupekṣitaḥ — sendo negligenciada; nṛbhiḥ — pelos homens; na — não; śakyate — é capaz; rūḍha-padaḥ — quando ela é aguda; cikitsitum — de ser tratada; yathā — e como; indriya-grāmaḥ — os sentidos; upekṣitaḥ — não controlados no começo; tathā — igualmente; ripuḥ mahān — um grande inimigo; baddha-balaḥ — caso se torne forte; na — não; cālyate — pode ser controlado.
Translation
Assim como uma doença, se inicialmente negligenciada, torna-se aguda e incurável, ou assim como os sentidos, se não controlados no início, mais tarde se tornam incontroláveis, um inimigo, se relegado no começo, mais tarde se torna insuperável.
Devanagari
मूलं हि विष्णुर्देवानां यत्र धर्म: सनातन: ।
तस्य च ब्रह्म गोविप्रास्तपो यज्ञा: सदक्षिणा: ॥ ३९ ॥
तस्य च ब्रह्म गोविप्रास्तपो यज्ञा: सदक्षिणा: ॥ ३९ ॥
Verse text
mūlaṁ hi viṣṇur devānāṁ
yatra dharmaḥ sanātanaḥ
tasya ca brahma-go-viprās
tapo yajñāḥ sa-dakṣiṇāḥ
yatra dharmaḥ sanātanaḥ
tasya ca brahma-go-viprās
tapo yajñāḥ sa-dakṣiṇāḥ
Synonyms
mūlam — o alicerce; hi — na verdade; viṣṇuḥ — é o Senhor Viṣṇu; devānām — dos semideuses; yatra — onde; dharmaḥ — princípios religiosos; sanātanaḥ — tradicionais ou eternos; tasya — desse (alicerce); ca — também; brahma — civilização bramânica; go — proteção às vacas; viprāḥ — brāhmaṇas; tapaḥ — austeridades; yajñāḥ — realizando sacrifícios; sa-dakṣiṇāḥ — com remuneração adequada.
Translation
O alicerce de todos os semideuses é o Senhor Viṣṇu, que vive e é adorado onde quer que haja princípios religiosos, cultura tradicional, os Vedas, as vacas, os brāhmaṇas, austeridades e sacrifícios com remuneração adequada.
Purport
SIGNIFICADO—Eis uma descrição de sanātana-dharma, os princípios religiosos eternos, que devem incluir cultura bramânica, brāhmaṇas, sacrifícios e religião. Esses princípios estabelecem o reino de Viṣṇu. Sem o reino de Viṣṇu, o reino de Deus, ninguém pode ser feliz. Na te viduḥ svārtha-gatiṁ hi viṣṇum: nesta civilização demoníaca, as pessoas infelizmente não entendem que o verdadeiro interesse da sociedade humana repousa em Viṣṇu. Durāśayā ye bahir-artha-māninaḥ: por isso, elas estão às voltas com uma vã esperança. As pessoas querem ser felizes sem consciência de Deus, ou consciência de Kṛṣṇa, porque são guiadas por líderes cegos que conduzem a sociedade humana para o caos. Os adeptos assúricos de Kaṁsa queriam destruir a tradicional condição de felicidade humana e, então, derrotar os devatās, os devotos e semideuses. A menos que os devotos e semideuses predominem, os asuras se destacarão, e a sociedade humana ficará em uma condição caótica.
Devanagari
तस्मात् सर्वात्मना राजन् ब्राह्मणान् ब्रह्मवादिन: ।
तपस्विनो यज्ञशीलान् गाश्च हन्मो हविर्दुघा: ॥ ४० ॥
तपस्विनो यज्ञशीलान् गाश्च हन्मो हविर्दुघा: ॥ ४० ॥
Verse text
tasmāt sarvātmanā rājan
brāhmaṇān brahma-vādinaḥ
tapasvino yajña-śīlān
gāś ca hanmo havir-dughāḥ
brāhmaṇān brahma-vādinaḥ
tapasvino yajña-śīlān
gāś ca hanmo havir-dughāḥ
Synonyms
tasmāt — portanto; sarva-ātmanā — em todos os aspectos; rājan — ó rei; brāhmaṇān — os brāhmaṇas; brahma-vādinaḥ — que mantêm a cultura bramânica, centralizada em Viṣṇu; tapasvinaḥ — pessoas ocupadas em austeridades; yajña-śīlān — pessoas ocupadas em oferecer sacrifícios; gāḥ ca — vacas e pessoas ocupadas em proteger as vacas; hanmaḥ — mataremos; haviḥ-dughāḥ — porque elas fornecem leite, do qual se obtém manteiga clarificada para oferecer sacrifício.
Translation
Ó rei, nós, que em todos os sentidos somos teus adeptos, mataremos, portanto, os brāhmaṇas védicos, as pessoas ocupadas em oferecer sacrifícios e austeridades, e as vacas que fornecem leite, do qual se obtém a manteiga clarificada que se usa nos ingredientes do sacrifício.
Devanagari
विप्रा गावश्च वेदाश्च तप: सत्यं दम: शम: ।
श्रद्धा दया तितिक्षा च क्रतवश्च हरेस्तनू: ॥ ४१ ॥
श्रद्धा दया तितिक्षा च क्रतवश्च हरेस्तनू: ॥ ४१ ॥
Verse text
viprā gāvaś ca vedāś ca
tapaḥ satyaṁ damaḥ śamaḥ
śraddhā dayā titikṣā ca
kratavaś ca hares tanūḥ
tapaḥ satyaṁ damaḥ śamaḥ
śraddhā dayā titikṣā ca
kratavaś ca hares tanūḥ
Synonyms
viprāḥ — os brāhmaṇas; gāvaḥ ca — e as vacas; vedāḥ ca — e o conhecimento védico; tapaḥ — austeridade; satyam — veracidade; damaḥ — controle dos sentidos; śamaḥ — controle da mente; śraddhā — fé; dayā — misericórdia; titikṣā — tolerância; ca — também; kratavaḥ ca — bem como os sacrifícios; hareḥ tanūḥ — são diferentes partes do corpo do Senhor Viṣṇu.
Translation
Os brāhmaṇas, as vacas, o conhecimento védico, a austeridade, a veracidade, o controle da mente e dos sentidos, a fé, a misericórdia, a tolerância e o sacrifício são diferentes partes do corpo do Senhor Viṣṇu, e são a parafernália de uma civilização piedosa.
Purport
SIGNIFICADO—Ao oferecermos nossas reverências à Suprema Personalidade de Deus, dizemos:
namo brahmaṇya-devāya
go-brāhmaṇa-hitāya ca
jagad-dhitāya kṛṣṇāya
govindāya namo namaḥ
go-brāhmaṇa-hitāya ca
jagad-dhitāya kṛṣṇāya
govindāya namo namaḥ
Ao vir estabelecer a verdadeira perfeição da ordem social, Kṛṣṇa protege pessoalmente as vacas e os brāhmaṇas (go-brāhmaṇa-hitāya ca). Esta é a primeira medida que Ele toma porque, sem proteção aos brāhmaṇas e às vacas, não pode haver civilização humana e nem mesmo se cogita em vida feliz e pacífica. Os asuras, portanto, vivem interessados em matar os brāhmaṇas e as vacas. Especialmente nesta era, Kali-yuga, as vacas estão sendo mortas em todo o mundo, e sempre que há um movimento para estabelecer a civilização bramânica, as pessoas em geral se rebelam. Por isso, consideram o movimento da consciência de Kṛṣṇa como uma forma de “lavagem cerebral”. Como essas pessoas invejosas podem ser felizes em sua civilização ímpia? A Suprema Personalidade de Deus as castiga mantendo-as na escuridão nascimento após nascimento e lançando-as cada vez mais nas dolorosas condições da vida infernal. O movimento da consciência de Kṛṣṇa deu início a uma civilização bramânica, mas os asuras tentam impedi-lo de muitas maneiras especialmente quando se tenta introduzi-la nos países ocidentais. Entretanto, para o benefício da sociedade humana, devemos impulsionar este movimento com muita tolerância.
Devanagari
स हि सर्वसुराध्यक्षो ह्यसुरद्विड् गुहाशय: ।
तन्मूला देवता: सर्वा: सेश्वरा: सचतुर्मुखा: ।
अयं वै तद्वधोपायो यदृषीणां विहिंसनम् ॥ ४२ ॥
तन्मूला देवता: सर्वा: सेश्वरा: सचतुर्मुखा: ।
अयं वै तद्वधोपायो यदृषीणां विहिंसनम् ॥ ४२ ॥
Verse text
sa hi sarva-surādhyakṣo
hy asura-dviḍ guhā-śayaḥ
tan-mūlā devatāḥ sarvāḥ
seśvarāḥ sa-catur-mukhāḥ
ayaṁ vai tad-vadhopāyo
yad ṛṣīṇāṁ vihiṁsanam
hy asura-dviḍ guhā-śayaḥ
tan-mūlā devatāḥ sarvāḥ
seśvarāḥ sa-catur-mukhāḥ
ayaṁ vai tad-vadhopāyo
yad ṛṣīṇāṁ vihiṁsanam
Synonyms
saḥ — Ele (o Senhor Viṣṇu); hi — na verdade; sarva-sura-adhyakṣaḥ — o líder de todos os semideuses; hi — na verdade; asura-dviṭ — o inimigo dos asuras; guhā-śayaḥ — Ele é a Superalma no âmago do coração de todos; tat-mūlāḥ — refugiando-se em Seus pés de lótus; devatāḥ — os semideuses existem; sarvāḥ — todos eles; sa-īśvarāḥ — incluindo o senhor Śiva; sa-catuḥ-mukhāḥ — bem como o senhor Brahmā, que tem quatro rostos; ayam — isto é; vai — na verdade; tat-vadha-upāyaḥ — o único meio de matá-lO (Viṣṇu); yat — o qual; ṛṣīṇām — dos grandes sábios, pessoas santas ou vaiṣṇavas; vihiṁsanam — opressão com toda classe de perseguição.
Translation
O Senhor Viṣṇu, a Superalma no âmago do coração de todos, é o inimigo último dos asuras, daí ser conhecido como asura-dviṭ. Ele é o líder de todos os semideuses porque todos os semideuses, incluindo o senhor Śiva e o senhor Brahmā, estão sempre sob Sua proteção. As grandes pessoas santas, os sábios e vaiṣṇavas também dependem dEle. Perseguir os vaiṣṇavas, portanto, é a única maneira de matar Viṣṇu.
Purport
SIGNIFICADO—Especialmente os semideuses e os vaiṣṇavas são partes integrantes do Senhor Supremo, Viṣṇu, porque sempre obedecem às Suas ordens (oṁ tad viṣṇoḥ paramaṁ padaṁ sadā paśyanti sūrayaḥ). Os seguidores demoníacos de Kaṁsa pensavam que, se os vaiṣṇavas, as pessoas santas e os sábios fossem perseguidos, o corpo original de Viṣṇu naturalmente seria destruído. Assim, decidiram suprimir o vaiṣṇavismo. Os asuras entregam-se a uma luta perpétua contra os vaiṣṇavas porque não querem que o vaiṣṇavismo se espalhe. Os vaiṣṇavas pregam apenas o serviço devocional, e não encorajam os karmīs, jñānīs nem os yogīs, pois, se alguém quer libertar-se da vida material condicionada, deve enfim tornar-se um vaiṣṇava. Nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa usa dessa compreensão, e os asuras, em razão disso, sempre tentam suprimi-lo.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
एवं दुर्मन्त्रिभि: कंस: सह सम्मन्त्र्य दुर्मति: ।
ब्रह्महिंसां हितं मेने कालपाशावृतोऽसुर: ॥ ४३ ॥
एवं दुर्मन्त्रिभि: कंस: सह सम्मन्त्र्य दुर्मति: ।
ब्रह्महिंसां हितं मेने कालपाशावृतोऽसुर: ॥ ४३ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
evaṁ durmantribhiḥ kaṁsaḥ
saha sammantrya durmatiḥ
brahma-hiṁsāṁ hitaṁ mene
kāla-pāśāvṛto ’suraḥ
evaṁ durmantribhiḥ kaṁsaḥ
saha sammantrya durmatiḥ
brahma-hiṁsāṁ hitaṁ mene
kāla-pāśāvṛto ’suraḥ
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; evam — dessa maneira; durmantribhiḥ — seus ministros malévolos; kaṁsaḥ — o rei Kaṁsa; saha — juntamente com; sammantrya — após considerar muito elaboradamente; durmatiḥ — sem boa inteligência; brahma-hiṁsām — perseguição aos brāhmaṇas; hitam — como a melhor maneira; mene — aceitou; kāla-pāśa-āvṛtaḥ — estando atado às regras e regulações de Yamarāja; asuraḥ — porque era um demônio.
Translation
Śukadeva Gosvāmī continuou: Assim, tendo ponderado as instruções de seus ministros malévolos, Kaṁsa, que estava atado às leis de Yamarāja e era privado de boa inteligência porque era um demônio, decidiu perseguir as pessoas santas, os brāhmaṇas, pois via nisso a única maneira de alcançar sua própria boa fortuna.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Locana Dāsa Ṭhākura canta: āpana karama, bhuñjāye śamana, kahaye locana dāsa. Em vez de aceitarem as boas instruções dos sábios e dos śāstras, os não-devotos ímpios agem caprichosamente, de acordo com seus próprios planos. Na verdade, entretanto, ninguém tem seus próprios planos porque todos estão atados às leis da natureza e devem agir de acordo com sua tendência na vida material condicionada. Portanto, a pessoa deve mudar sua própria decisão e seguir a decisão de Kṛṣṇa e dos devotos de Kṛṣṇa. Então, ela se livra da punição infligida por Yamarāja. Kaṁsa não era uma pessoa que não recebera educação. De suas conversas com Vasudeva e Devakī, parece que ele conhecia tudo sobre as leis da natureza. Devido à sua associação com ministros perversos, porém, ele não pôde tomar uma decisão que o beneficiasse. Portanto, o Caitanya-caritāmṛta (Madhya 22.54) diz:
‘sādhu-saṅga,’ ‘sādhu-saṅga’ — sarva-śāstre kaya
lava-mātra sādhu-saṅge sarva-siddhi haya
lava-mātra sādhu-saṅge sarva-siddhi haya
Se alguém deseja seu verdadeiro bem-estar, deve associar-se com devotos e pessoas santas e, dessa maneira, corrigir sua condição de vida material.
Devanagari
सन्दिश्य साधुलोकस्य कदने कदनप्रियान् ।
कामरूपधरान् दिक्षु दानवान् गृहमाविशत् ॥ ४४ ॥
कामरूपधरान् दिक्षु दानवान् गृहमाविशत् ॥ ४४ ॥
Verse text
sandiśya sādhu-lokasya
kadane kadana-priyān
kāma-rūpa-dharān dikṣu
dānavān gṛham āviśat
kadane kadana-priyān
kāma-rūpa-dharān dikṣu
dānavān gṛham āviśat
Synonyms
sandiśya — após dar permissão; sādhu-lokasya — das pessoas santas; kadane — em perseguição; kadana-priyān — aos demônios, que eram muito hábeis em perseguir os outros; kāma-rūpa-dharān — que podiam assumir qualquer forma, de acordo com o próprio desejo deles; dikṣu — em todas as direções; dānavān — aos demônios; gṛham āviśat — Kaṁsa entrou em seu próprio palácio.
Translation
Esses demônios, os seguidores de Kaṁsa, eram hábeis em perseguir pessoas, especialmente os vaiṣṇavas, e podiam assumir qualquer forma que desejassem. Após dar a esses demônios permissão para irem a qualquer parte e perseguirem as pessoas santas, Kaṁsa entrou em seu palácio.
Devanagari
ते वै रज:प्रकृतयस्तमसा मूढचेतस: ।
सतां विद्वेषमाचेरुरारादागतमृत्यव: ॥ ४५ ॥
सतां विद्वेषमाचेरुरारादागतमृत्यव: ॥ ४५ ॥
Verse text
te vai rajaḥ-prakṛtayas
tamasā mūḍha-cetasaḥ
satāṁ vidveṣam ācerur
ārād āgata-mṛtyavaḥ
tamasā mūḍha-cetasaḥ
satāṁ vidveṣam ācerur
ārād āgata-mṛtyavaḥ
Synonyms
te — todos os ministros assúricos; vai — na verdade; rajaḥ-prakṛtayaḥ — possuídos de paixão; tamasā — mergulhados na ignorância; mūḍha-cetasaḥ — pessoas tolas; satām — de pessoas santas; vidveṣam — perseguição; āceruḥ — executaram; ārāt āgata-mṛtyavaḥ — a morte iminente já tendo se encarregado deles.
Translation
Transbordando de paixão e ignorância e não sabendo o que era bom ou ruim para eles, os asuras, por quem esperava a morte iminente, começaram a perseguição às pessoas santas.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma na Bhagavad-gītā (2.13):
dehino ’smin yathā dehe
kaumāraṁ yauvanaṁ jarā
tathā dehāntara-prāptir
dhīras tatra na muhyati
kaumāraṁ yauvanaṁ jarā
tathā dehāntara-prāptir
dhīras tatra na muhyati
“Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, na hora da morte, a alma passa para outro corpo. A alma autorrealizada não se confunde com essas mudanças.” As pessoas irresponsáveis, possuídas de paixão e ignorância, cometem a tolice de agir como não se deve agir (nūnaṁ pramattaḥ kurute vikarma). Mas todos devem conhecer os resultados das ações irresponsáveis, como se explica no próximo verso.
Devanagari
आयु: श्रियं यशो धर्मं लोकानाशिष एव च ।
हन्ति श्रेयांसि सर्वाणि पुंसो महदतिक्रम: ॥ ४६ ॥
हन्ति श्रेयांसि सर्वाणि पुंसो महदतिक्रम: ॥ ४६ ॥
Verse text
āyuḥ śriyaṁ yaśo dharmaṁ
lokān āśiṣa eva ca
hanti śreyāṁsi sarvāṇi
puṁso mahad-atikramaḥ
lokān āśiṣa eva ca
hanti śreyāṁsi sarvāṇi
puṁso mahad-atikramaḥ
Synonyms
Translation
Meu querido rei, quando um homem persegue grandes almas, todas as suas bênçãos, sob a forma de longevidade, beleza, fama, religião, dádivas e promoção aos planetas superiores, são destruídas.
Purport
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do décimo canto, quarto capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “As Atrocidades do Rei Kaṁsa”.