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CAPÍTULO TRÊS

O Nascimento do Senhor Kṛṣṇa

Como se descreve neste capítulo, sob Sua forma original, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, Hari, apareceu como Viṣṇu para que Seu pai e Sua mãe pudessem entender que seu filho era a Suprema Personalidade de Deus. Como temiam Kaṁsa, logo que o Senhor apareceu como uma criança comum, levaram-nO para Gokula, o lar de Nanda Mahārāja.
Mãe Devakī, sendo plenamente transcendental, sac-cid-ānanda, não pertence a este mundo material. Assim, a Suprema Personalidade de Deus apareceu com quatro mãos, como se houvesse nascido de seu ventre. Ao ver o Senhor apresentar aquela forma de Viṣṇu, Vasudeva ficou maravilhado e, em felicidade transcenden­tal, ele e Devakī deram mentalmente dez mil vacas em caridade aos brāhmaṇas. Então, Vasudeva ofereceu orações ao Senhor, dirigindo­-se a Ele como a Pessoa Suprema, Parabrahman, a Superalma, que está situado além da dualidade e que, interna e externamente, é onipenetrante. O Senhor, a causa de todas as causas, está além da existên­cia material, embora seja o criador deste mundo material. Ao entrar neste mundo como o Paramātmā, Ele é onipenetrante (aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-stham), mas Ele Se situa transcendentalmente. Para executar a criação, manutenção e aniquilação deste mundo material, o Senhor aparece como os guṇa-avatāras – Brahmā, Viṣṇu e Maheśvara. Assim, Vasudeva ofereceu significati­vas orações à Suprema Personalidade de Deus. A exemplo de seu esposo, Devakī ofereceu orações que descreviam a natureza transcen­dental do Senhor. Temendo Kaṁsa e desejando que o Senhor não fosse entendido pelos ateístas e não-devotos materialistas, ela orou para que o Senhor desfizesse Sua transcendental forma de quatro braços e aparecesse como uma criança comum, com duas mãos.
O Senhor fez com que Vasudeva e Devakī se lembrassem das duas outras encarnações em que Ele aparecera como filho deles. Ele aparecera como Pṛśnigarbha e Vāmanadeva, e essa era a terceira vez que Ele aparecia como filho de Devakī para satisfazer-lhes o desejo. Então, o Senhor decidiu deixar a residência de Vasudeva e Devakī, na prisão em que foram colocados por Kaṁsa, e, naquele exato momento, Yogamāyā nasceu como filha de Yaśoda. Por ar­ranjo de Yogamāyā, Vasudeva foi capaz de deixar a prisão e salvar a criança das mãos de Kaṁsa. Ao levar Kṛṣṇa à casa de Nanda Mahārāja, Vasudeva viu que, por arranjo de Yogamāyā, Yaśoda, bem como os demais, estavam em sono profundo. Assim, ele trocou os bebês, tirando Yogamāyā do colo de Yaśodā e substituindo-a por Kṛṣṇa. Vasudeva retornou, então, à mesma prisão, levando Yogamāyā como se fosse sua filha. Ele colocou Yogamāyā na cama de Deva­kī e voltou a ser um prisioneiro como antes. Em Gokula, Yaśodā não ficara sabendo se dera à luz um menino ou uma menina.
श्रीशुक उवाच
अथ सर्वगुणोपेत: काल: परमशोभन: ।
यर्ह्येवाजनजन्मक्षन शान्तर्क्षग्रहतारकम् ॥ १ ॥
दिश: प्रसेदुर्गगनं निर्मलोडुगणोदयम् ।
मही मङ्गलभूयिष्ठपुरग्रामव्रजाकरा ॥ २ ॥
नद्य: प्रसन्नसलिला ह्रदा जलरुहश्रिय: ।
द्विजालिकुलसन्नादस्तवका वनराजय: ॥ ३ ॥
ववौ वायु: सुखस्पर्श: पुण्यगन्धवह: शुचि: ।
अग्नयश्च द्विजातीनां शान्तास्तत्र समिन्धत ॥ ४ ॥
मनांस्यासन् प्रसन्नानि साधूनामसुरद्रुहाम् ।
जायमानेऽजने तस्मिन् नेदुर्दुन्दुभय: समम् ॥ ५ ॥
śrī-śuka uvāca
atha sarva-guṇopetaḥ
kālaḥ parama-śobhanaḥ
yarhy evājana-janmarkṣaṁ
śāntarkṣa-graha-tārakam
diśaḥ prasedur gaganaṁ
nirmaloḍu-gaṇodayam
mahī maṅgala-bhūyiṣṭha-
pura-grāma-vrajākarā
nadyaḥ prasanna-salilā
hradā jalaruha-śriyaḥ
dvijāli-kula-sannāda-
stavakā vana-rājayaḥ
vavau vāyuḥ sukha-sparśaḥ
puṇya-gandhavahaḥ śuciḥ
agnayaś ca dvijātīnāṁ
śāntās tatra samindhata
manāṁsy āsan prasannāni
sādhūnām asura-druhām
jāyamāne ’jane tasmin
nedur dundubhayaḥ samam

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; athapor ocasião do aparecimento do Senhor; sarvaem toda parte; guṇa-upetaḥdotado com atributos ou facilidades materiais; kālaḥum tempo favorável; parama-śobhanaḥmuito auspiciosa e bem favorável, sob todos os pontos de vista; yarhiquando; evadecerto; ajana janma-ṛkṣama constelação conhecida como Rohiṇī; śānta-ṛkṣanenhuma das constelações era rebelde (todas estavam plácidas); graha-tārakame os planetas e as estrelas como Aśvinī; diśaḥtodas as direções; praseduḥpareciam muito auspiciosas e pacíficas; gaganamtodo o espaço exterior, ou o céu; nirmala-uḍu-gaṇa-udayamno qual todas as estrelas auspiciosas eram visíveis (na camada supe­rior do universo); mahīa Terra; maṅgala-bhūyiṣṭha-pura-grāma-­vraja-ākarāḥcujas cidades, municípios, campos de pastagem e minas tornaram-se auspiciosos e muito limpos e asseados; nadyaḥos rios; prasanna-salilāḥas águas tornaram-se cristalinas; hradāḥ­os lagos ou grandes reservatórios de água; jalaruha-śriyaḥpareciam muito belos devido ao fato de que floresciam lótus em toda a volta; dvija-ali-kula-sannāda-stavakāḥos pássaros, especialmente os cucos, e enxames de abelhas começaram a cantar com doces vozes, como se orassem à Suprema Personalidade de Deus; vana-rājayaḥárvores e plantas verdes também eram muito agradáveis de se ver; vavausoprava; vāyuḥa brisa; sukha-sparśaḥmuito agradável ao tato; puṇya-gandha-vahaḥque estava cheia de fragrâncias; śuciḥsem poluição de poeira; agnayaḥ cae os fogos (nos locais de sacrifício); dvijātīnāmdos brāhmaṇas; śāntāḥimperturbáveis, estáveis, calmos e quietos; tatraali; samindhataardiam; manāṁsias mentes dos brāhmaṇas (que, por causa de Kaṁsa, sempre estavam com medo); āsantornarem-se; prasannāniassaz satisfeitas e livres de perturbações; sādhūnāmdos brāhmaṇas, que eram todos devotos vaiṣṇavas; asura-druhāmque haviam sido oprimidos por Kaṁsa e outros demônios que perturbavam o desempenho de rituais religio­sos; jāyamānedevido ao aparecimento ou nascimento; ajanedo Senhor Viṣṇu, que sempre é não-nascido; tasminnaquela situação; neduḥressoaram; dundubhayaḥtimbales; samamsimultanea­mente (nos planetas superiores).

Translation

Em seguida, no momento auspicioso do aparecimento do Senhor, o universo inteiro transbordou de todas as qualidades em que existia bondade, beleza e paz. A constelação Rohiṇī apareceu, e também estrelas como a Aśvinī. O Sol, a Lua e as outras estrelas e planetas estavam muito plácidos. Todas as direções pareciam extremamente agradáveis, e belas estrelas cintilavam no céu diáfano. Decorada com cidades, vilas, minas e campos de pastagem, a Terra parecia muito auspiciosa. As águas dos rios eram cristalinas, e os lagos e vários reservatórios, cheios de lírios e lótus, estavam extraordinariamente belos. Nas árvores e plantas verdes, repletas de flores e folhas, agra­dáveis aos olhos, pássaros como cucos e enxames de abelhas começa­ram a cantar com doces vozes para agradar aos semideuses. Soprava uma brisa pura, que satisfazia o tato e transportava o aroma das flores, e, quando os brāhmaṇas ocupados em cerimônias ritualísticas acen­deram o fogo de sacrifício de acordo com os princípios védicos, as chamas se revelaram estáveis, não sendo perturbadas pela brisa. Assim, quando o não-nascido Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus, estava prestes a aparecer, os santos e brāhmaṇas, que sempre eram incomodados por demônios como Kaṁsa e seus homens, sen­tiram paz no âmago de seus corações, e, simultaneamente, os timbales vibraram no sistema planetário superior.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma na Bhagavad-gītā, o Senhor diz que Seu aparecimento, nascimento e atividades são todos transcendentais e que alguém que os compreende de fato logo se torna apto a transferir-se para o mundo espiritual. O aparecimento ou nascimento do Senhor não é como o de um homem comum, pois esse é forçado a aceitar um corpo material de acordo com seus feitos passados. O aparecimento do Senhor é explicado no capítulo anterior: Ele aparece de acordo com Seu bel-prazer.
Ao chegar a hora do aparecimento do Senhor, as constelações tornaram-se muito auspiciosas. A influência astrológica da constela­ção conhecida como Rohiṇī também predominava porque essa cons­telação é considerada muito auspiciosa. Rohiṇī está sob a supervisão direta de Brahmā, que nasce de Viṣṇu, e aparece no nascimento do Senhor Viṣṇu, que, aliás, não tem nascimento. De acordo com a conclusão astrológica, além da apropriada situação das estrelas, existem momentos auspiciosos e inauspiciosos decorrentes de diferen­tes situações de vários sistemas planetários. Na ocasião do nascimento de Kṛṣṇa, os sistemas planetários naturalmente organizaram-se de tal modo que tudo se tornasse auspicioso.
Naquele momento, em todas as direções – leste, oeste, sul, norte, afinal, em toda parte –, havia uma atmosfera de paz e prosperidade. Estrelas auspiciosas eram visíveis no céu, e, na superfície da Terra, em todas as cidades e vilas ou campos de pastagem, bem como na mente de todos, havia indícios de boa fortuna. Os rios fluíam cheios de água, e os lagos estavam belamente decorados com flores de lótus. As florestas estavam repletas de belos pássaros e pavões. Todos os pássaros que viviam dentro das florestas começaram a cantar com doces vozes, e os pavões começaram a dançar com suas consortes. O vento soprava muito agradavelmente, carregando o aroma de dife­rentes flores, e, ao tocar no corpo, causava uma sensação muito agra­dável. No lar, os brāhmaṇas, acostumados a oferecer sacrifícios no fogo, sentiam seus lares muito propícios à realização de oferendas. Devido às perturbações criadas pelos reis demoníacos, o fogo de sacrifício quase se extinguira nas casas dos brāhmaṇas, mas agora eles podiam dispor da oportunidade de acender o fogo pacificamente. Proibidos de oferecer sacrifícios, os brāhmaṇas tinham a mente e a inteligência muito perturbadas e agiam com ansiedade. Contudo, no exato instante do aparecimento de Kṛṣṇa, suas mentes se impregnaram de um júbilo espontâneo porque eles podiam ouvir no céu altas vi­brações de sons transcendentais que anunciavam o aparecimento da Suprema Personalidade de Deus.
Na ocasião do nascimento do Senhor Kṛṣṇa, ocorreram mudan­ças sazonais em todo o universo. Kṛṣṇa nasceu durante o mês de setembro, mas parecia que era a primavera. A atmosfera, no entanto, estava bem fria, embora não fosse gélida, e parecia que os rios e reservatórios estavam em śarat, o outono. Os lótus e os lírios desabrocham durante o dia, mas, embora Kṛṣṇa tivesse aparecido exatamente à meia-noite, os lírios e os lótus floresciam e, em virtude disso, o vento que soprava naquele momento estava repleto de aromas. Devido às perturbações causadas por Kaṁsa, as cerimônias ritualís­ticas védicas haviam quase cessado. Os brāhmaṇas e as pessoas santas não podiam executar pacificamente os rituais védicos. Agora, no entanto, os brāhmaṇas estavam muito satisfeitos porque podiam realizar com tranquilidade suas cerimônias ritualísticas diárias. A ocupação dos asuras é perturbar os suras, os devotos e brāhmaṇas, mas, no mo­mento do aparecimento de Kṛṣṇa, esses devotos e brāhmaṇas não foram incomodados.
जगु: किन्नरगन्धर्वास्तुष्टुवु: सिद्धचारणा: ।
विद्याधर्यश्च ननृतुरप्सरोभि: समं मुदा ॥ ६ ॥
jaguḥ kinnara-gandharvās
tuṣṭuvuḥ siddha-cāraṇāḥ
vidyādharyaś ca nanṛtur
apsarobhiḥ samaṁ mudā

Synonyms

jaguḥrecitaram canções auspiciosas; kinnara-gandharvāḥos Kinnaras e Gandharvas, habitantes de vários planetas do sistema planetário celestial; tuṣṭuvuḥofereceram suas respectivas orações; siddha-cāraṇāḥos Siddhas e Cāraṇas, outros habitantes dos plane­tas celestiais; vidyādharyaḥ cae os Vidyādharīs, outro grupo que habita os planetas celestiais; nanṛtuḥdançaram em bem-aventurança transcendental; apsarobhiḥas Apsarās, belas dançarinas do reino celestial; samamjuntamente com; mudāem grande júbilo.

Translation

Os Kinnaras e Gandharvas começaram a cantar canções auspiciosas, os Siddhas e Cāraṇas ofereceram orações auspiciosas, e os Vi­dyādharīs, juntamente com as Apsarās, começaram a dançar em júbilo.
मुमुचुर्मुनयो देवा: सुमनांसि मुदान्विता: ।
मन्दं मन्दं जलधरा जगर्जुरनुसागरम् ॥ ७ ॥
निशीथे तमउद्भ‍ूते जायमाने जनार्दने ।
देवक्यां देवरूपिण्यां विष्णु: सर्वगुहाशय: ।
आविरासीद् यथा प्राच्यां दिशीन्दुरिव पुष्कल: ॥ ८ ॥
mumucur munayo devāḥ
sumanāṁsi mudānvitāḥ
mandaṁ mandaṁ jaladharā
jagarjur anusāgaram
niśīthe tama-udbhūte
jāyamāne janārdane
devakyāṁ deva-rūpiṇyāṁ
viṣṇuḥ sarva-guhā-śayaḥ
āvirāsīd yathā prācyāṁ
diśīndur iva puṣkalaḥ

Synonyms

mumucuḥlançaram; munayaḥtodos os grandes sábios e pessoas santas; devāḥe os semideuses; sumanāṁsiflores belíssimas e perfumadas; mudā anvitāḥem atitude alegre; mandam mandammuito discretamente; jala-dharāḥas nuvens; jagarjuḥvibraram; anusāgaramimitando as vibrações das ondas do mar; niśīthetarde da noite; tamaḥ-udbhūtequando reinava uma densa escuridão; jāyamāneno aparecimento de; janārdanea Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu; devakyāmno ventre de Devakī; deva-rūpiṇyāmque estava na mesma categoria da Suprema Personalidade de Deus (ānanda-cinmaya-rasa-pratibhāvitābhiḥ); viṣṇuḥo Senhor Viṣṇu, o Senhor Supremo; sarva-guhā-śayaḥque está situado no âmago do coração de todos; āvirāsītapareceu; yathācomo; prācyām diśino Oriente; induḥ ivacomo a lua cheia; puṣkalaḥcompleto em todos os sentidos.

Translation

Os semideuses e grandes pessoas santas lançaram flores festivamente, e nuvens juntaram-se no céu e trovejaram muito discretamen­te, fazendo sons parecidos com os das ondas do oceano. Então, na densa escuridão da noite, a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, que está situado no âmago do coração de todos, apareceu do cora­ção de Devakī, como a lua cheia que surge no horizonte oriental, porque Devakī estava na mesma categoria de Śrī Kṛṣṇa.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma na Brahma-saṁhitā (5.37):
ānanda-cinmaya-rasa-pratibhāvitābhis
tābhir ya eva nija-rūpatayā kalābhiḥ
goloka eva nivasaty akhilātma-bhūto
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Este verso indica que Kṛṣṇa e Seu séquito têm a mesma potência espiritual (ānanda-cinmaya-rasa). O pai de Kṛṣṇa, Sua mãe, Seus amigos vaqueirinhos e as vacas são todos expansões de Kṛṣṇa, como se ex­plicará na brahma-vimohana-līlā. Quando Brahmā raptou os associados de Kṛṣṇa para testar a supremacia do Senhor Kṛṣṇa, o Senhor expandiu-Se nas formas dos vaqueirinhos e bezerros, todas as quais, como Brahmā viu, eram viṣṇu-mūrtis. Devakī também era uma expansão de Kṛṣṇa, e, portanto, este verso diz: devakyāṁ deva-rūpiṇyāṁ viṣṇuḥ sarva-guhā-śayaḥ.
No momento do aparecimento do Senhor, os grandes sábios e semideuses, estando satisfeitos, começaram a lançar flores. Na orla marítima, ouvia-se o som de ondas suaves, e, no céu acima do mar, havia nuvens que começaram a trovejar muito agradavelmente.
Quando os fenômenos adquiriram essa configuração, o Senhor Viṣṇu, que reside no coração de toda entidade viva, na escuridão da noite, apareceu diante de Devakī como a Suprema Personalidade de Deus. Devakī parecia uma das semideusas. O aparecimento do Senhor Viṣṇu naquele momento podia ser comparado ao surgimento da lua cheia no céu, no horizonte oriental. Pode-se objetar que, como o Senhor Kṛṣṇa apareceu no oitavo dia da lua minguante, a lua cheia não poderia ter surgido. Em resposta a isso, pode-se dizer que o Senhor Kṛṣṇa apareceu na dinastia descendente da Lua; portanto, embora a Lua estivesse incompleta naquela noite, devido ao fato de o Senhor ter aparecido na dinastia onde a própria Lua é a pessoa original, a Lua transbordava de alegria, e assim, pela graça de Kṛṣṇa, ela pôde aparecer como lua cheia. Para acolher a Suprema Persona­lidade de Deus, a lua minguante tornou-se uma jubilosa lua cheia.
Em vez de deva-rūpiṇyām, alguns textos do Śrīmad-Bhāgavatam dizem claramente viṣṇu-rūpiṇyām. Em todo caso, o significado é que Devakī tem a mesma forma espiritual do Senhor. O Senhor é sac-cid-ānanda-vigraha, e Devakī também é sac-cid-ānanda-vigraha. Portanto, ninguém pode encontrar defeito algum na maneira como a Suprema Personalidade de Deus, sac-cid-ānanda-vigraha, apareceu do ventre de Devakī.
Aqueles que não conhecem a fundo o fato de que o aparecimento e desaparecimento do Senhor são transcendentais (janma karma ca me divyam) às vezes ficam surpresos de que a Suprema Personalidade de Deus possa nascer como uma criança comum. Na verdade, entre­tanto, o nascimento do Senhor nunca é comum. A Suprema Perso­nalidade de Deus já está situado no âmago do coração de todos como o antaryāmī, a Superalma. Logo, como estava presente com toda a potência no coração de Devakī, Ele também foi capaz de apare­cer fora de seu corpo.
Uma das doze grandes personalidades é Bhīṣmadeva (svayambhūr nāradaḥ śambhuḥ kumāraḥ kapilo manuḥ prahlāda, janako bhīṣmaḥ). No Śrīmad-Bhāgavatam (1.9.42), Bhīṣma, uma grande autoridade que deve ser seguida pelos devotos, diz que a Suprema Personalidade de Deus está situado no âmago do coração de todos, assim como o Sol que paira sobre a cabeça de todos. Entretanto, embora o Sol fique sobre a cabeça de milhões e milhões de pessoas, isso não significa que o Sol esteja situado em várias partes. Igualmente, como tem potências inconcebíveis, a Suprema Personalidade de Deus pode estar no coração de todos, apesar de não precisar situar-Se em várias partes. Ekatvam anupaśyataḥ (Īśopaniṣad 7). O Senhor é um, mas pode aparecer no coração de todos através de Sua potência incon­cebível. Logo, embora estivesse no coração de Devakī, o Senhor apareceu como seu filho. Portanto, de acordo com o Viṣṇu Pu­rāṇa, que é citado no Vaiṣṇava-toṣaṇī, o Senhor apareceu como o Sol (anugrahāsaya). A Brahma-saṁhitā (5.35) confirma que o Senhor está situado inclusive dentro do átomo (aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-stham). Ele está situado em Mathurā, em Vaikuṇṭha e no âmago do coração. Portanto, deve-se procurar entender clara­mente que Ele não vivia no coração ou no ventre de Devakī como uma criança ordinária. Tampouco Ele apareceu como uma criança humana comum, embora parecesse, pois Ele queria confundir asuras como Kaṁsa. Os asuras pensam que Kṛṣṇa nasceu como uma criança comum e saiu deste mundo como um homem comum. Essas concepções assúricas são rejeitadas por pessoas que possuem conhecimento acerca da Suprema Personalidade de Deus. Ajo ’pi sann avyayātmā bhūtānām īśvaro ’pi san. (Bhagavad-gītā 4.6) Como se afirma na Bhagavad-gītā, o Senhor é aja, não-nascido, e o supremo controlador de tudo. En­tretanto, Ele apareceu como o filho de Devakī. Este verso descreve a potência inconcebível do Senhor, que apareceu como a lua cheia. Entendendo o significado especial do aparecimento da Divindade Suprema, ninguém deve presumir que Ele nasceu como uma criança comum.
तमद्भ‍ुतं बालकमम्बुजेक्षणं
चतुर्भुजं शङ्खगदाद्युदायुधम् ।
श्रीवत्सलक्ष्मं गलशोभिकौस्तुभं
पीताम्बरं सान्द्रपयोदसौभगम् ॥ ९ ॥
महार्हवैदूर्यकिरीटकुण्डल-
त्विषा परिष्वक्तसहस्रकुन्तलम् ।
उद्दामकाञ्‍च्यङ्गदकङ्कणादिभि-
र्विरोचमानं वसुदेव ऐक्षत ॥ १० ॥
tam adbhutaṁ bālakam ambujekṣaṇaṁ
catur-bhujaṁ śaṅkha-gadādy-udāyudham
śrīvatsa-lakṣmaṁ gala-śobhi-kaustubhaṁ
pītāmbaraṁ sāndra-payoda-saubhagam
mahārha-vaidūrya-kirīṭa-kuṇḍala-
tviṣā pariṣvakta-sahasra-kuntalam
uddāma-kāñcy-aṅgada-kaṅkaṇādibhir
virocamānaṁ vasudeva aikṣata

Synonyms

tamesta; adbhutammaravilhosa; bālakamcriança; ambuja­-īkṣaṇamcom olhos parecendo lótus; catuḥ-bhujamcom quatro mãos; śaṅkha-gadā-ādiportando um búzio, maça, disco e lótus (naquelas quatro mãos); udāyudhamdiferentes armas; śrīvatsa­-lakṣmamdecorado com um pelo específico, chamado Śrīvatsa, que é visível somente no peito da Suprema Personalidade de Deus; gala­-śobhi-kaustubhamem Seu pescoço pendia a joia Kaustubha, que é particularmente encontrada em Vaikuṇṭhaloka; pīta-ambaramSuas roupas eram amarelas; sāndra-payoda-saubhagammuito belo, cujo matiz era como o de nuvens negras; mahā-arha-vaidūrya-kirīṭa­kuṇḍalade Seu elmo e brincos, nos quais estavam engastadas preciosíssimas pedras Vaidūryas; tviṣāpela beleza; pariṣvakta-sahasra­-kuntalambrilhantemente iluminado pelos cabelos desalinhados e já crescidos; uddāma-kāñcī-aṅgada-kaṅkaṇa-ādibhiḥcom um bri­lhante cinto em Sua cintura, braceletes em Seus braços, pulseiras em Seus pulsos etc.; virocamānammuito belamente decorado; va­sudevaḥVasudeva, o pai de Kṛṣṇa; aikṣataviu.

Translation

Então, Vasudeva viu a criança recém-nascida, que tinha maravilhosos olhos de lótus e, em Suas quatro mãos, portava as armas śaṅkha, cakra, gadā e padma. Sobre Seu peito, havia a marca de Śrīvatsa e, em Seu pescoço, a reluzente joia Kaustubha. Vestida de amarelo, o corpo negro como uma nuvem densa, Seu cabelo em desalinho e crescido, e Seu elmo e brincos incomumente cintilantes, cravejados da joia preciosa Vaidūrya, a criança, adornada com um cinto, bra­celetes, pulseiras e outros ornamentos brilhantes, parecia muito maravilhosa.

Purport

SIGNIFICADO—Para apoiar a palavra adbhutam, que significa “maravilhoso”, descrevem-se na íntegra as decorações e opulências da criança recém-­nascida. Como se confirma na Brahma-saṁhitā (5.30), barhāvataṁsam asitāmbuda-sundarāṅgam: a tez da bela forma do Senhor faz recordar a cor negra de densas nuvens (asita significa “negra”, e ambuda, “nuvem”). A partir da palavra catur-bhujam, fica evidente que Kṛṣṇa primeiro apareceu com quatro mãos, como o Senhor Viṣṇu. Uma criança humana comum jamais nasceu com quatro mãos. E qual é a criança que nasce com o cabelo já inteiramente crescido? O advento do Senhor, portanto, difere totalmente do nascimento de uma criança comum. A joia Vaidūrya, que ora fica azul, ora amare­la, ora vermelha, existe em Vaikuṇṭhaloka. O elmo e os brincos do Senhor estavam cravejados dessa pedra especial.
स विस्मयोत्फुल्लविलोचनो हरिं
सुतं विलोक्यानकदुन्दुभिस्तदा ।
कृष्णावतारोत्सवसम्भ्रमोऽस्पृशन्
मुदा द्विजेभ्योऽयुतमाप्लुतो गवाम् ॥ ११ ॥
sa vismayotphulla-vilocano hariṁ
sutaṁ vilokyānakadundubhis tadā
kṛṣṇāvatārotsava-sambhramo ’spṛśan
mudā dvijebhyo ’yutam āpluto gavām

Synonyms

saḥele (Vasudeva, também conhecido como Ānakadundubhi); vismaya-utphulla-vilocanaḥseus olhos estando admirados com o belo aparecimento da Suprema Personalidade de Deus; harimSenhor Hari, a Suprema Personalidade de Deus; sutamcomo seu filho; vilokyaobservando; ānakadundubhiḥVasudeva; tadāna­quele momento; kṛṣṇa-avatāra-utsavapara um festival a ser obser­vado em honra ao aparecimento de Kṛṣṇa; sambhramaḥdesejando acolher o Senhor com muito respeito; aspṛśataproveitou para distri­buir; mudāpor grande júbilo; dvijebhyaḥaos brāhmaṇas; ayutamdez mil; āplutaḥinundado, dominado; gavāmvacas.

Translation

Quando Vasudeva viu seu extraordinário filho, seus olhos ficaram admirados. Em júbilo transcendental, ele reuniu mentalmente dez mil vacas e as distribuiu entre os brāhmaṇas, como um festival trans­cendental.

Purport

SIGNIFICADO—Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta a admiração que tomou conta de Vasudeva quando ele viu seu filho extraordinário. Vasudeva tremia de deslumbramento vendo uma criança recém-­nascida tão belamente decorada com roupas finas e pedras preciosas. Ele imediatamente pôde compreender que a Suprema Personalidade de Deus aparecera, não como uma criança comum, mas em Sua forma original, possuindo quatro braços e cheia de adornos. O pri­meiro evento que o espantou foi o fato de o Senhor não ter tido medo de aparecer dentro da prisão que Kaṁsa erigira em sua casa, onde Vasudeva e Devakī estavam confinados. Em segundo lugar, embora seja onipenetrante, o Senhor, a Transcendência Suprema, surgira do ventre de Devakī. O terceiro fator que o espantou, por­tanto, foi que a criança pudesse sair do ventre tão belamente decorada. Em quarto lugar, a Suprema Personalidade de Deus era a Deidade adorada por Vasudeva, mas nascera como seu filho. Por todas essas razões, Vasudeva sentia um júbilo transcendente e quis realizar um festival, à maneira dos kṣatriyas que celebram o nascimento de uma criança. Contudo, devido ao seu aprisionamento, ele estava impossibilitado de realizar um festival formalmente e, portanto, reali­zou-o com sua mente, o que tinha igual valor. Se alguém não pode servir à Suprema Personalidade de Deus através dos processos roti­neiros, pode servi-lO com sua mente, pois as atividades da mente se igualam às atividades dos outros sentidos. Isso se chama situação absoluta ou não-dual (advaya jñāna). De um modo geral, as pessoas realizam cerimônias ritualísticas em honra ao nascimento de uma criança. Por que, então, Vasudeva deveria deixar de realizar tal cerimônia quando o Senhor Supremo apareceu como seu filho?
अथैनमस्तौदवधार्य पूरुषं
परं नताङ्ग: कृतधी: कृताञ्जलि: ।
स्वरोचिषा भारत सूतिकागृहं
विरोचयन्तं गतभी: प्रभाववित् ॥ १२ ॥
athainam astaud avadhārya pūruṣaṁ
paraṁ natāṅgaḥ kṛta-dhīḥ kṛtāñjaliḥ
sva-rociṣā bhārata sūtikā-gṛhaṁ
virocayantaṁ gata-bhīḥ prabhāva-vit

Synonyms

athaem seguida; enamà criança; astautofereceu orações; avadhāryatendo a certeza de que a criança era a Suprema Personalidade de Deus; pūruṣama Pessoa Suprema; paramtranscen­dental; nata-aṅgaḥcaindo; kṛta-dhīḥcom atenção concentrada; kṛta-añjaliḥde mãos postas; sva-rociṣācom o brilho de Sua bele­za pessoal; bhārataó Mahārāja Parīkṣit, descendente de Mahārāja Bharata; sūtikā-gṛhamo lugar onde o Senhor nasceu; virocayan­tamiluminando em todo o redor; gata-bhīḥtodo o seu temor sumiu; prabhāva-vitele agora pôde entender a influência (da Su­prema Personalidade de Deus).

Translation

Ó Mahārāja Parīkṣit, descendente do rei Bharata, Vasudeva pôde entender que aquela criança era a Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa. Tendo definitivamente chegado a essa conclusão, ele se tornou destemido. Prostrando-se de mãos postas e concentrando sua atenção, ele começou a oferecer orações à criança, que, com Seu encanto natural, iluminava o lugar onde nascera.

Purport

SIGNIFICADO—Imensamente maravilhado, agora Vasudeva concentrava sua atenção na Suprema Personalidade de Deus. Entendendo o prestígio do Senhor Supremo, ele decerto experimentava destemor, uma vez que compreendeu que o Senhor aparecera para protegê-lo (gata-bhīḥ prabhāva-vit). Compreendendo que a Suprema Personalidade de Deus estava presente, ele ofereceu as seguintes orações oportunas da seguinte maneira.
श्रीवसुदेव उवाच
विदितोऽसि भवान् साक्षात्पुरुष: प्रकृते: पर: ।
केवलानुभवानन्दस्वरूप: सर्वबुद्धिद‍ृक् ॥ १३ ॥
śrī-vasudeva uvāca
vidito ’si bhavān sākṣāt
puruṣaḥ prakṛteḥ paraḥ
kevalānubhavānanda-
svarūpaḥ sarva-buddhi-dṛk

Synonyms

śrī-vasudevaḥ uvācaŚrī Vasudeva orou; viditaḥ asiagora eu Vos compreendo inteiramente; bhavānVossa Onipotência; sākṣātdiretamente; puruṣaḥa Pessoa Suprema; prakṛteḥà natureza material; paraḥtranscendental, que ultrapassa tudo que é material; kevala-anubhava-ānanda-svarūpaḥVossa forma é sac-cid-ānanda­vigraha, e qualquer pessoa que Vos perceba obtém bem-aventurança transcendental; sarva-buddhi-dṛko observador supremo, a Superalma, a inteligência de todos.

Translation

Vasudeva disse: Meu Senhor, sois a Pessoa Suprema, situado além da existência material, e sois a Superalma. Vossa forma pode ser percebida através do conhecimento transcendental, pelo qual podeis ser entendido como a Suprema Personalidade de Deus. Agora compreendo perfeitamente a Vossa posição.

Purport

SIGNIFICADO—No coração de Vasudeva, despertara tanto a afeição pelo seu filho quanto o conhecimento acerca da natureza transcendental do Senhor Supremo. A princípio, Vasudeva pensava: “Acaba de nascer uma bela criança, mas Kaṁsa logo virá matá-lA.” Porém, ao com­preender que não era uma criança comum, mas a Suprema Persona­lidade de Deus, ele se desfez de seus temores. Considerando seu filho como o Senhor Supremo, maravilhoso em tudo, ele passou a oferecer-Lhe orações apropriadas. Inteiramente livre do medo produzido pelas atrocidades de Kaṁsa, ele aceitou a criança simultaneamente como um objeto de afeição e um objeto digno de ser adorado com orações.
स एव स्वप्रकृत्येदं सृष्ट्वाग्रे त्रिगुणात्मकम् ।
तदनु त्वं ह्यप्रविष्ट: प्रविष्ट इव भाव्यसे ॥ १४ ॥
sa eva svaprakṛtyedaṁ
sṛṣṭvāgre tri-guṇātmakam
tad anu tvaṁ hy apraviṣṭaḥ
praviṣṭa iva bhāvyase

Synonyms

saḥEle (a Suprema Personalidade de Deus); evana verdade; sva-prakṛtyāpor Vossa energia pessoal (mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sa-carācaram); idameste mundo material; sṛṣṭvāapós criar; agreno começo; tri-guṇa-ātmakamfeito dos três modos de energia (sattva-rajas-tamo-guṇa); tat anuem seguida; tvam­Vossa Onipotência; hina verdade; apraviṣṭaḥembora não entrás­seis; praviṣṭaḥ ivaparece terdes entrado; bhāvyaseassim sois compreendido.

Translation

Meu Senhor, sois a própria pessoa que, no começo, criou este mundo material através de Sua energia externa pessoal. Após a criação deste mundo sob o influxo dos três guṇas [sattva, rajas e tamas], parece terdes entrado nele, embora de fato não o tenhais.

Purport

SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (7.4), a Suprema Personalidade de Deus explica claramente:
bhūmir āpo ’nalo vāyuḥ
khaṁ mano buddhir eva ca
ahaṅkāra itīyaṁ me
bhinnā prakṛtir aṣṭadhā
Este mundo material, que sofre a influência dos três modos da natureza – sattva-guṇa, rajo-guṇa e tamo-guṇa –, é composto de terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e falso ego, todos os quais são energias provenientes de Kṛṣṇa, mas Kṛṣṇa, sendo sempre transcendental, está à parte deste mundo material. Aqueles que não têm conhecimento puro pensam que Kṛṣṇa é um produto da matéria e que, como o nosso, o Seu corpo é material (avajānanti māṁ mūḍhāḥ). Entretanto, Kṛṣṇa, na verdade, sempre está à parte deste mundo material.
Vemos na literatura védica que a criação é descrita em relação com o Mahā-Viṣṇu. Como se afirma na Brahma-saṁhitā (5.35):
eko ’py asau racayituṁ jagad-aṇḍa-koṭiṁ
yac-chaktir asti jagad-aṇḍa-cayā yad-antaḥ
aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-sthaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
“Adoro Govinda, o Senhor primordial, a Personalidade de Deus original. Através de Sua expansão plenária parcial como Mahā-Viṣṇu, Ele entra na natureza material. Depois, Ele entra em todos os universos como Garbhodakaśāyī Viṣṇu, e entra em todos os elementos, incluindo cada átomo da matéria, como Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu. Essas manifestações da criação cósmica são inúmeras, tanto nos universos quanto nos átomos individuais.” Govinda manifesta-Se parcialmen­te como o antaryāmī, a Superalma, que entra neste mundo material (aṇḍāntara-stha) e que também está dentro do átomo. Continuando, a Brahma-saṁhitā (5.48) diz:
yasyaika-niśvasita-kālam athāvalambya
jīvanti loma-vilajā jagad-aṇḍa-nāthāḥ
viṣṇur mahān sa iha yasya kalā-viśeṣo
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Este verso descreve Mahā-Viṣṇu como uma expansão plenária de Kṛṣṇa. Mahā-Viṣṇu deita-Se no Oceano Causal, e, ao exalar, milhões de brahmāṇḍas, ou universos, surgem dos poros do Seu corpo. Em seguida, quando Mahā-Viṣṇu inspira, todos esses brahmāṇḍas desaparecem. Logo, neste mundo material, os milhões de brahmāṇḍas controlados pelos Brahmās e outros semideuses surgem e desa­parecem através da respiração de Mahā-Viṣṇu.
As pessoas tolas pensam que, ao aparecer como filho de Vasudeva, Kṛṣṇa é limitado como uma criança comum. Mas Vasudeva sabia que, embora tivesse aparecido como seu filho, o Senhor não entra­ra no ventre de Devakī e depois saíra de lá. Em vez disso, o Senhor sempre esteve ali. O Senhor Supremo é onipenetrante, presente dentro e fora. Praviṣṭa iva bhāvyase: apenas parecia que Ele entrara no ventre de Devakī e agora aparecia como filho de Vasudeva. O fato de Vasudeva ter manifestado esse conhecimento deixou bem claro que ele sabia como é que esses eventos aconteceram. Vasudeva decerto era um devoto do Senhor dotado de conhecimento pleno, e devemos aprender com devotos como ele. A Bhagavad-gītā (4.34), portanto, recomenda:
tad viddhi praṇipātena
paripraśnena sevayā
upadekṣyanti te jñānaṁ
jñāninas tattva-darśinaḥ
“Tenta aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Faze-lhe perguntas com submissão e presta-lhe serviço. As almas autorrealizadas podem te transmitir conhecimento porque elas são videntes da verdade.” Vasudeva gerou a Suprema Personalidade de Deus, mas tinha pleno conhecimento de como é que o Senhor Supremo aparece e desaparece. Portanto, ele era tattva-darśī, um vidente da verdade, porque viu pessoalmente como a Suprema Verdade Absoluta aparecera como seu filho. Vasudeva não estava em ignorância, pensando que, como a Divindade Suprema aparecera como seu filho, o Senhor Se tornara limitado. O Senhor tem existência ilimitada e é onipenetrante, dentro e fora. Logo, está fora de cogitação Ele aparecer ou desaparecer.
यथेमेऽविकृता भावास्तथा ते विकृतै: सह ।
नानावीर्या: पृथग्भूता विराजं जनयन्ति हि ॥ १५ ॥
सन्निपत्य समुत्पाद्य द‍ृश्यन्तेऽनुगता इव ।
प्रागेव विद्यमानत्वान्न तेषामिह सम्भव: ॥ १६ ॥
एवं भवान् बुद्ध्यनुमेयलक्षणै-
र्ग्राह्यैर्गुणै: सन्नपि तद्गुणाग्रह: ।
अनावृतत्वाद् बहिरन्तरं न ते
सर्वस्य सर्वात्मन आत्मवस्तुन: ॥ १७ ॥
yatheme ’vikṛtā bhāvās
tathā te vikṛtaiḥ saha
nānā-vīryāḥ pṛthag-bhūtā
virājaṁ janayanti hi
sannipatya samutpādya
dṛśyante ’nugatā iva
prāg eva vidyamānatvān
na teṣām iha sambhavaḥ
evaṁ bhavān buddhy-anumeya-lakṣaṇair
grāhyair guṇaiḥ sann api tad-guṇāgrahaḥ
anāvṛtatvād bahir antaraṁ na te
sarvasya sarvātmana ātma-vastunaḥ

Synonyms

yathācomo; imeessas criações materiais, feitas de energia material; avikṛtāḥrealmente não desintegrada; bhāvāḥcom tal conceito; tathāde modo semelhante; teelas; vikṛtaiḥ sahaassociação com esses diferentes elementos, provenientes da totalidade da energia material; nānā-vīryāḥtodo elemento é repleto de diferentes energias; pṛthakseparado; bhūtāḥtornando-se; virājamtoda a manifes­tação cósmica; janayanticriam; hina verdade; sannipatyadevido à associação com a energia espiritual; samutpādyaapós ser criada; dṛśyanteaparecem; anugatāḥentraram nela; ivacomo que; prākdesde o começo, antes da criação desta manifestação cósmica; evana verdade; vidyamānatvātdevido à existência da Suprema Personalidade de Deus; nanão; teṣāmdesses elementos materiais; ihano que se refere à criação; sambhavaḥentrar teria sido possível; evamdessa maneira; bhavānó meu Senhor; buddhi­-anumeya-lakṣaṇaiḥpela verdadeira inteligência e por esses sintomas; grāhyaiḥcom os objetos dos sentidos; guṇaiḥcom os modos da natureza material; san apiembora em contato; tat-guṇa-agrahaḥnão sois tocado pelas qualidades materiais; anāvṛtatvātpor estar­des situado em toda parte; bahiḥ antaramdentro do externo e do interno; na tenada disso se aplica a Vós; sarvasyade tudo; sarva­-ātmanaḥsois a raiz de tudo; ātma-vastunaḥtudo pertence a Vós, mas estais dentro e fora de tudo.

Translation

O mahat-tattva, a totalidade da energia material, é indiviso, mas, devido aos modos da natureza material, ele parece decompor-se em terra, água, fogo, ar e éter. Devido à energia vital [jīva-bhūta], essas energias separadas combinam-se para tornar visível a manifes­tação cósmica, mas, em verdade, antes da criação do cosmo, a energia total já está presente. Portanto, a totalidade da energia material, na realidade, nunca entra na criação. Do mesmo modo, embora sejais percebido por nossos sentidos devido à Vossa presença, não podeis ser percebido pelos sentidos, nem experimentado pela mente ou pala­vras [avāṅ-mānasa-gocara]. Com nossos sentidos, podemos perceber alguns objetos, mas não todos; por exemplo, podemos usar nossos olhos para ver, mas não para saborear. Consequentemente, estais além da percepção sensorial. Embora entreis em contato com os modos da natureza material, não sois afetado por eles. Sois o fator primordial em tudo, a Superalma onipenetrante e indivisa. Para Vós, portanto, não há externo ou interno. Jamais entrastes no ventre de Devakī; ao contrário, já existíeis ali.

Purport

SIGNIFICADO—Esta mesma compreensão é apresentada pelo próprio Senhor na Bhagavad­-gītā (9.4):
mayā tatam idaṁ sarvaṁ
jagad-avyakta-mūrtinā
mat-sthāni sarva-bhūtāni
na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ
“Sob Minha forma imanifesta, Eu penetro todo este universo. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles.”­
A Suprema Personalidade de Deus não é perceptível aos sentidos materiais grosseiros. Afirma-se que o nome, a fama, os passatempos etc. do Senhor Śrī Kṛṣṇa não podem ser compreendidos através dos sentidos materiais. Ele Se revela somente a pessoas que, sob a orientação adequada, ocupam-se em serviço devocional puro. Como se afirma na Brahma-saṁhitā (5.38):
premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena
santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti
Pode sempre ver a Suprema Personalidade de Deus, Govinda, dentro e fora de si aquele que desenvolve uma transcendental atitude amo­rosa para com Ele. Logo, Ele não é visível às pessoas em geral. No verso acima mencionado da Bhagavad-gītā, portanto, se diz que, embora seja onipenetrante, presente em toda parte, Ele não é concebível pelos sentidos materiais. Mas, na verdade, embora não possamos vê-lO, tudo repousa nEle. Como se comenta no sétimo capítulo da Bhagavad-gītā, toda a manifestação cósmica material é apenas uma combinação de Suas duas diferentes energias, a energia espiri­tual superior e a energia material inferior. Assim como o brilho do Sol espalha-se por todo o universo, a energia do Senhor espalha-se por toda a criação, e tudo repousa nessa energia.
Todavia, ninguém deve concluir que, como Ele Se espalha por toda parte, Ele Se tornou destituído de uma existência pessoal. Para refutar esses argu­mentos, o Senhor diz: “Eu estou em toda parte, e tudo está em Mim, mas, mesmo assim, situo-Me à parte.” Por exemplo, um rei li­dera um governo que é uma mera manifestação da energia do rei; os diferentes departamentos governamentais são simplesmente energias do rei, e cada departamento repousa no poder do rei. Mesmo assim, não se pode esperar que o rei esteja pessoalmente presente em cada departamento. Esse é um exemplo grosseiro. Igualmente, todas as manifestações que vemos, e tudo o que existe, tanto neste mundo material quanto no mundo espiritual, repousam na energia da Su­prema Personalidade de Deus. A criação ocorre através da difusão de Suas diferentes energias, e, de acordo com o que se afirma no Bhagavad-gītā, Ele está presente em toda parte através de Sua repre­sentação pessoal, a saber, as Suas diferentes energias.
Pode-se argumentar que a Suprema Personalidade de Deus, que cria toda a manifestação cósmica através de Seu simples olhar, não pode ficar dentro do ventre de Devakī, a esposa de Vasudeva. Para erradicar esse argumento, Vasudeva disse: “Meu querido Senhor, não é muito espantoso que tenhais aparecido dentro do ventre de Devakī, pois a criação também foi feita dessa maneira. Estáveis dei­tado no Oceano Causal como Mahā-Viṣṇu, e, através de Vossa respi­ração, inúmeros universos passaram a existir. Então, entrastes em cada um desses universos como Garbhodakaśāyī Viṣṇu. Depois, voltastes a Vos expandir como Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu e entrastes no coração de todas as entidades vivas e inclusive nos átomos. Portanto, Vosso ingresso no ventre de Devakī tem a mesma conotação. Pare­ce terdes entrado, mas, ao mesmo tempo, sois onipenetrante. A partir de exemplos materiais, podemos entender o fato de terdes e não terdes entrado. A totalidade da energia material permanece intacta, mesmo após dividir-se em dezesseis elementos. O corpo material não passa de uma combinação dos cinca elementos grosseiros – a saber, terra, água, fogo, ar e éter. Sempre que surge um corpo material, parece que esses elementos passaram a ser criados, mas, na verdade, os elementos sempre existem, mesmo na ausência do corpo. Do mesmo modo, embora apareçais como uma criança no ventre de Devakī, também existis fora dele. Estais sempre em Vossa mora­da, mas podeis expandir-Vos simultaneamente em milhões de formas.”
“Deve-se usar de muita inteligência para entender Vosso aparecimento porque a energia material também emana de Vós. Sois a fonte que origina a energia material, assim como o Sol é a fonte do brilho solar. O brilho solar não pode cobrir o globo solar; tampouco a energia material – sendo uma emanação Vossa – pode cobrir-Vos. Pa­receis estar nos três modos da energia material, mas, na verdade, os três modos da energia material não Vos podem cobrir. Os filósofos altamente eruditos compreendem isso. Em outras palavras, embora pareçais estar dentro da energia material, jamais sois encoberto por ela.”
Aprendemos com a interpretação védica que o Brahman Supremo mani­festa Sua refulgência e, em consequência disso, tudo se ilumina. Podemos entender através da Brahma-saṁhitā que o brahmajyoti, ou a refulgência Brahman, emana do corpo do Senhor Supremo. E da refulgência Brahman, surge toda a criação. Também na Bhagavad-gītā, afirma-se que o Senhor é o sustentáculo da refulgência Brahman. Originalmente, Ele é a causa primordial de tudo. Todavia, as pessoas menos inteligentes pensam que, ao vir a este mundo material, a Suprema Personalidade de Deus aceita qualidades materiais. Essas con­clusões imaturas são feitas por pessoas menos inteligentes.
य आत्मनो द‍ृश्यगुणेषु सन्निति
व्यवस्यते स्वव्यतिरेकतोऽबुध: ।
विनानुवादं न च तन्मनीषितं
सम्यग् यतस्त्यक्तमुपाददत् पुमान् ॥ १८ ॥
ya ātmano dṛśya-guṇeṣu sann iti
vyavasyate sva-vyatirekato ’budhaḥ
vinānuvādaṁ na ca tan manīṣitaṁ
samyag yatas tyaktam upādadat pumān

Synonyms

yaḥqualquer pessoa que; ātmanaḥde sua própria identidade verdadeira, a alma; dṛśya-guṇeṣuentre os objetos visíveis, começando com o corpo; sanestando situado nessa posição; itiassim; vyavasyatecontinua a agir; sva-vyatirekataḥcomo se o corpo fosse independente da alma; abudhaḥum patife; vinā anuvādamsem o devido estudo analítico; nanão; catambém; tato corpo e outros objetos visíveis; manīṣitamtais considerações tendo sido discutidas; samyakplenamente; yataḥporque é um tolo; tyaktamsão rejeitadas; upādadataceita este corpo como realidade; pumānuma pessoa.

Translation

Aquele que considera seu corpo visível, que é um produto dos três modos da natureza, como independente da alma não conhece a base da existência e, portanto, é um patife. Quem é erudito rejei­ta essa conclusão porque se pode entender através de argumentação sensata que, sem base na alma, o corpo visível e os sentidos não teriam fundamento. Entretanto, embora sua conclusão seja rejeitada, os tolos consideram-na real.

Purport

SIGNIFICADO—Sem o princípio básico da alma, o corpo não pode ser produzi­do. Os supostos cientistas empreenderam muitas tentativas de produ­zir um corpo vivo em seus laboratórios químicos, mas ninguém foi exitoso nesse intento porque, a menos que a alma espiritual esteja presente, não se pode fazer um corpo a partir de elementos mate­riais. Como os cientistas estão sempre absortos em teorias sobre a compo­sição química do corpo, desafiamos muitos cientistas a pelo menos fazerem um pequeno ovo. As substâncias químicas presentes nos ovos podem ser encontradas muito facilmente. Existe uma substância branca e uma substância amarela, cobertas por uma casca, e os cien­tistas modernos não deveriam sentir dificuldade alguma em reprodu­zir isso. No entanto, mesmo se conseguissem preparar esse ovo e o pusessem em uma incubadora, esse ovo químico feito pelo homem não produ­ziria um filhote de galinha, visto que seria preciso a presença da alma, já que fica afastada a possibilidade de que uma combinação química produza vida. Portanto, aqueles que pensam que a vida pode existir sem a alma são aqui descritos como abudhaḥ, patifes tolos.
Há também aqueles que rejeitam o corpo, considerando-o insubstancial. Eles estão na mesma categoria dos tolos. Não se pode nem rejeitar o corpo nem aceitá-lo como fundamental. A substância é a Suprema Personalidade de Deus, e tanto o corpo quanto a alma são energias da Divindade Suprema, como o próprio Senhor descreve na Bhagavad-gītā (7.4-5):
bhūmir āpo ’nalo vāyuḥ
khaṁ mano buddhir eva ca
ahaṅkāra itīyaṁ me
bhinnā prakṛtir aṣṭadhā
apareyam itas tv anyāṁ
prakṛtiṁ viddhi me parām
jīva-bhūtāṁ mahā-bāho
yayedaṁ dhāryate jagat
“Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e falso ego – juntos, todos esses oito elementos formam Minhas energias materiais separadas. Além dessas, ó Arjuna de braços poderosos, existe uma outra energia, a Minha energia superior, que consiste nas entidades vivas que exploram os recursos desta natureza material inferior.”
Assim como a alma, o corpo, portanto, tem relação com a Supre­ma Personalidade de Deus. Como ambos são energias do Senhor, nenhum deles é falso, porque provêm da realidade. Aquele que não conhece este segredo da vida é descrito como abudhaḥ. De acordo com os preceitos védicos, aitadātmyam idaṁ sarvam, sarvaṁ khalv idaṁ brahma: tudo é o Brahman Supremo. Logo, tanto o corpo quanto a alma são Brahman, pois a matéria e o espírito emanam do Brahman.
Desconhecendo as conclusões dos Vedas, algumas pessoas aceitam a natureza material como substância, e outras aceitam a alma espiritual como a substância, mas, na verdade, o Brahman é a substância. O Brahman é a causa de todas as causas. Os ingredientes e a causa imediata deste mundo material manifesto são Brahman, e, indepen­dentemente de Brahman, não podemos manufaturar os ingredientes deste mundo. Ademais, visto que os ingredientes e a causa imediata desta manifestação material são Brahman, ambos são verdade, satya, e a expressão brahma satyaṁ jagan mithyā não é válida. O mundo não é falso.
Os jñānīs rejeitam este mundo, e há os tolos que aceitam este mundo como realidade, e, dessa maneira, ambos se equivocam. Em­bora o corpo não seja tão importante como a alma, não podemos dizer que ele seja falso. Entretanto, o corpo é temporário, e somente pessoas tolas e materialistas, que não têm conhecimento pleno a res­peito da alma, consideram o corpo temporário como realidade e ocupam-se em decorá-lo. Estas duas armadilhas – rejeição do corpo como falso e aceitação do corpo como tudo o que existe – podem ser evitadas quando alguém se situa em plena consciência de Kṛṣṇa. Se julgamos este mundo como falso, caímos na categoria dos asuras, que dizem que este mundo é irreal, sem fundamento, e que não há nenhum Deus controlando (asatyam apratiṣṭhaṁ te jagad āhur anīśvaram). Como se descreve no décimo sexto capítulo da Bhagavad-gītā, essa conclusão é dos demônios.
त्वत्तोऽस्य जन्मस्थितिसंयमान् विभो
वदन्त्यनीहादगुणादविक्रियात् ।
त्वयीश्वरे ब्रह्मणि नो विरुध्यते
त्वदाश्रयत्वादुपचर्यते गुणै: ॥ १९ ॥
tvatto ’sya janma-sthiti-saṁyamān vibho
vadanty anīhād aguṇād avikriyāt
tvayīśvare brahmaṇi no virudhyate
tvad-āśrayatvād upacaryate guṇaiḥ

Synonyms

tvattaḥsão de Vossa Onipotência; asyade toda a manifestação cósmica; janmaa criação; sthitimanutenção; saṁyamāne aniquilação; vibhoó meu Senhor; vadantios eruditos estudiosos védicos concluem; anīhātque não desempenhais esforço algum; aguṇātque não sois afetado pelos modos da natureza material; avikriyātque sois imutável em Vossa posição espiritual; tvayiem Vós; īśvarea Suprema Personalidade de Deus; brahmaṇique sois o Parabrahman, o Brahman Supremo; nonão; virudhyatehá contradição; tvat-āśrayatvātpor serem controladas por Vós; upacaryatetudo acontece automaticamente; guṇaiḥoperadas pelos modos materiais.

Translation

Ó meu Senhor, os eruditos estudiosos dos Vedas concluem que a criação, manutenção e aniquilação de toda a manifestação cósmica são realizadas por Vós, que não executais esforço algum, não sois afetado pelos modos da natureza material e sois imutável em Vossa posição espiritual. Não há contradições em Vós, que sois a Suprema Personalidade de Deus, o Parabrahman. Porque os três modos da natureza material – sattva, rajas e tamas – estão sob Vosso controle, tudo ocorre automaticamente.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma nos Vedas:
na tasya kāryaṁ karaṇaṁ ca vidyate
na tat-samaś cābhyadhikaś ca dṛśyate
parāsya śaktir vividhaiva śrūyate
svābhāvikī jñāna-bala-kriyā ca
“O Senhor Supremo nada tem a fazer, e não há ninguém igual ou superior a Ele, pois tudo é feito natural e sistematicamente por Suas energias multifárias.” (Śvetāśvatara Upaniṣad 6.8) A criação, manutenção e aniquilação são todas conduzidas pessoalmente pela Suprema Personalidade de Deus, e confirma isso a Bhagavad-gītā (mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sa-carācaram). No entanto, em última análise, o Senhor não precisa fazer nada e, portanto, Ele é nirvikāra, imutável. Visto que tudo é feito sob Sua orientação, Ele é chamado sṛṣṭi-kartā, o mestre da criação. Igualmente, Ele é o mestre da aniquilação. Quando o amo se senta em um determinado lugar enquanto seus servos executam diferentes deveres, tudo o que os servos fazem acaba sendo atividades do amo, embora ele nada faça (na tasya kāryaṁ karaṇaṁ ca vidyate). As potências do Senhor são tão numerosas que tudo é feito muito ordenadamente. Portanto, Ele é naturalmente inerte e não é diretamente o autor de nada neste mundo material.
स त्वं त्रिलोकस्थितये स्वमायया
बिभर्षि शुक्लं खलु वर्णमात्मन: ।
सर्गाय रक्तं रजसोपबृंहितं
कृष्णं च वणन तमसा जनात्यये ॥ २० ॥
sa tvaṁ tri-loka-sthitaye sva-māyayā
bibharṣi śuklaṁ khalu varṇam ātmanaḥ
sargāya raktaṁ rajasopabṛṁhitaṁ
kṛṣṇaṁ ca varṇaṁ tamasā janātyaye

Synonyms

saḥ tvamVossa Onipotência, que é a mesma pessoa, a Transcendência; tri-loka-sthitayepara manter os três mundos, os sistemas planetários superior, intermediário e inferior; sva-māyayāpor Vossa energia pessoal (ātma-māyayā); bibharṣiassumis; śuklama forma branca de Viṣṇu em bondade; khalubem como; varṇamcor; ātmanaḥda mesma categoria Vossa (viṣṇu-tattva); sargāyapara a criação do mundo inteiro; raktama cor vermelha de rajo­-guṇa; rajasācom a qualidade da paixão; upabṛṁhitamestando revestida; kṛṣṇam cae a qualidade da escuridão; varṇama cor; tamasāque está envolta em ignorância; jana-atyayepara a destrui­ção final de toda a criação.

Translation

Meu Senhor, Vossa forma é transcendental aos três modos mate­riais, mas, para a manutenção dos três mundos, manifestais a bondade, assumindo a cor branca de Viṣṇu; para a criação, que é revestida com a qualidade da paixão, apareceis vermelho, e, no final, quando há necessidade da aniquilação, que é revestida de ignorân­cia, apareceis negro.

Purport

SIGNIFICADO—Vasudeva orou ao Senhor: “Sois chamado śuklam. Śuklam, ou “brancura”, é a representação simbólica da Verdade Absoluta porque não é afetada pelas qualidades materiais. O senhor Brahmā é cha­mado rakta, ou vermelho, porque Brahmā representa as qualidades da paixão vistas na criação. A escuridão é confiada ao senhor Śiva porque ele aniquila o cosmo. A criação, aniquilação e manutenção desta manifestação cósmica são conduzidas por Vossas potências, mas nunca sois afetado por essas qualidades.” Como se con­firma nos Vedas, harir hi nirguṇaḥ sākṣāt: a Suprema Personalidade de Deus sempre está livre de todas as qualidades materiais. Também se diz que as qualidades de paixão e ignorância não existem na pessoa do Senhor Supremo.
Neste verso, as três cores mencionadas – śukla, rakta e kṛṣṇa – não devem ser entendidas literalmente, em termos daquilo que experimentamos com nossos sentidos, mas sim como representantes de sattva-guṇa, rajo-guṇa e tamo-guṇa. Afinal, às vezes vemos que um pato é branco, embora esteja em tamo-guṇa, o modo da ignorância. Ilustrando a lógica chamada bakāndha-nyāya, o pato é tão tolo que corre atrás dos testículos de um touro, pensando que são um peixe pendurado que será comido logo que cair. Assim, o pato sempre está em escuridão. No entanto, Vyāsadeva, o compilador da literatura védica, é escuro, mas isso não significa que ele este­ja em tamo-guṇa; ao contrário, ele está na posição mais alta de sattva-guṇa, que ultrapassa os modos da natureza material. Às vezes, essas cores (śukla-raktas tathā pītaḥ) são usadas para designar os brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras. O Senhor Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu é célebre como possuidor de uma cor negra, o senhor Śiva é branco, e o senhor Brahmā avermelhado, mas, de acordo com o que Śrīla Sanātana Gosvāmī diz no Vaiṣṇava-toṣaṇī-ṭīkā, a manifes­tação dessas cores nada tem a ver com o que se menciona aqui.
A verdadeira compreensão de śukla, rakta e kṛṣṇa é a seguinte. O Senhor sempre é transcendental, mas, para que haja a criação, Ele assume a cor rakta do senhor Brahmā. O Senhor também fica irado algumas vezes. Como Ele diz na Bhagavad-gītā (16.19):
tān ahaṁ dviṣataḥ krūrān
saṁsāreṣu narādhamān
kṣipāmy ajasram aśubhān
āsurīṣv eva yoniṣu
“Aqueles que são invejosos e maliciosos, os mais baixos entre os homens, Eu os lanço perpetuamente no oceano da existência material, em várias espécies de vida demoníaca.” Para destruir os demônios, o Senhor fica irado e, portanto, assume a forma do senhor Śiva. Em suma, a Suprema Personalidade de Deus sempre está além das qualidades materiais, e não devemos cair no erro de cultivar algum outro pensa­mento devido à simples percepção sensorial. Deve-se entender a po­sição do Senhor através das autoridades, ou mahājanas. Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (1.3.28), ete cāṁśa-kalāḥ puṁsaḥ kṛṣṇas tu bhagavān svayam.
त्वमस्य लोकस्य विभो रिरक्षिषु-
र्गृहेऽवतीर्णोऽसि ममाखिलेश्वर ।
राजन्यसंज्ञासुरकोटियूथपै-
र्निर्व्यूह्यमाना निहनिष्यसे चमू: ॥ २१ ॥
tvam asya lokasya vibho rirakṣiṣur
gṛhe ’vatīrṇo ’si mamākhileśvara
rājanya-saṁjñāsura-koṭi-yūthapair
nirvyūhyamānā nihaniṣyase camūḥ

Synonyms

tvamVossa Onipotência; asyadeste mundo; lokasyaespecialmente deste martya-loka, o planeta Terra; vibhoó Supremo; rirak­ṣiṣuḥdesejando proteção (da perturbação causada pelos asuras); gṛhenesta casa; avatīrṇaḥ asiaparecestes agora; mamaminha; akhila-īśvaraembora sejais o proprietário de toda a criação; rājanya­-saṁjña-asura-koṭi-yūtha-paiḥcom milhões de demônios e seus seguidores no papel de políticos e reis; nirvyūhyamānāḥque estão se locomovendo de uma parte a outra, em todo o mundo; nihani­ṣyasematareis; camūḥos exércitos, parafernália, soldados e co­mitivas.

Translation

Ó meu Senhor, proprietário de toda a criação, aparecestes agora em minha casa, desejando proteger este mundo. Tenho certeza de que matareis todos os exércitos que se locomovem por todo o mundo sob a liderança de políticos que se fazem passar por governantes kṣatriyas, mas que, em realidade, são demônios. Para a proteção do público inocente, eles devem ser mortos por Vós.

Purport

SIGNIFICADO—Kṛṣṇa aparece neste mundo com dois propósitos, paritrāṇāya sādhūnāṁ vināśāya ca duṣkṛtām: para proteger os inocentes devo­tos religiosos do Senhor e para aniquilar todos os asuras de baixa cultura e baixa educação, que desnecessariamente latem como cães e lutam entre si em busca de poder político. Declara-se que kali-kāle nāma-rūpe kṛṣṇa avatāra. O movimento Hare Kṛṣṇa também é uma encarnação de Kṛṣṇa sob a forma do santo nome (nāma-rūpe). Todos aqueles que realmente temem os governantes e políticos da natureza dos asuras devem acolher esta encarnação de Kṛṣṇa: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Então, será possível ficar protegido dos incômodos trazidos pelos governantes de natureza assúrica. No presente momento, esses governantes são tão poderosos que, por bem ou por mal, arrebatam os postos gover­namentais mais elevados e, sob o pretexto de segurança nacional ou de alguma emergência, atormentam um incontável número de pessoas. Então, um asura também derrota outro asura, mas o público continua a sofrer. Portanto, o mundo inteiro está em uma condição precária, e a única esperança é este movimento Hare Kṛṣṇa. O Senhor Nṛsiṁ­hadeva apareceu quando Prahlāda estava sendo excessivamente mal­tratado pelo seu pai assúrico. Devido a esses pais assúricos – isto é, os políticos governantes –, é muito difícil impulsionar o movimento Hare Kṛṣṇa, mas, como Kṛṣṇa agora apareceu em Seu santo nome por intermédio deste movimento, podemos cultivar a esperança de que esses pais assúricos serão aniquilados e o reino de Deus será estabelecido em todo o mundo. O mundo inteiro está agora repleto de muitos asuras disfarçados de políticos, gurus, sādhus, yogīs e encarnações, e eles estão afastando o público em geral para bem longe da consciência de Kṛṣṇa, que pode oferecer verdadeiros benefícios à sociedade humana.
अयं त्वसभ्यस्तव जन्म नौ गृहे
श्रुत्वाग्रजांस्ते न्यवधीत् सुरेश्वर ।
स तेऽवतारं पुरुषै: समर्पितं
श्रुत्वाधुनैवाभिसरत्युदायुध: ॥ २२ ॥
ayaṁ tv asabhyas tava janma nau gṛhe
śrutvāgrajāṁs te nyavadhīt sureśvara
sa te ’vatāraṁ puruṣaiḥ samarpitaṁ
śrutvādhunaivābhisaraty udāyudhaḥ

Synonyms

ayameste (patife); tumas; asabhyaḥque não é nem um pouco civilizado (asura significa “incivilizado”, e sura, “civilizado”); tavade Vossa Onipotência; janmao nascimento; naunosso; gṛheno lar; śrutvāapós ouvir sobre; agrajān tetodos os irmãos nascidos antes de Vós; nyavadhītmortos; sura-īśvaraó Senhor dos suras, as pessoas civilizadas; saḥele (o incivilizado Kaṁsa); teVosso; avatāramaparecimento; puruṣaiḥpelos seus comissários; samar­pitamsendo informado de; śrutvāapós ouvir; adhunāagora; evana verdade; abhisarativirá imediatamente; udāyudhaḥbrandindo armas.

Translation

Ó meu Senhor, Senhor dos semideuses, após ouvir a profecia de que nasceríeis em nosso lar e o mataríeis, esse incivilizado Kaṁsa matou muitos de Vossos irmãos mais velhos. Logo que seus comissários lhe contarem que aparecestes, ele virá imediatamente com armas para matar-Vos.

Purport

SIGNIFICADO—Kaṁsa é aqui descrito como asabhya, que significa “inciviliza­do” ou “muito odioso”, porque matou muitos filhos de sua irmã. Ao ouvir a profecia de que seria morto pelo oitavo filho dela, esse homem incivilizado, Kaṁsa, preparou-se imediatamente para matar sua irmã inocente na ocasião de seu casamento. Em troca da satisfa­ção dos seus sentidos, um homem incivilizado pode tomar qualquer atitude. Ele pode matar crianças, pode matar vacas, pode matar brāhmaṇas, pode matar pessoas idosas; ele não tem misericórdia de ninguém. De acordo com a civilização védica, vacas, mulheres, crianças, anciãos e brāhmaṇas devem ser perdoados se cometerem erros. Mas os asuras, os homens incivilizados, não se importam com isso. No momento atual, a matança de vacas e a matança de crianças prosseguem irrestritamente, de modo que essa civilização não é humana de modo algum, e aqueles que conduzem essa civilização condenada são asuras incivilizados.
Esses homens incivilizados não veem com bons olhos o movimento da consciência de Kṛṣṇa. Como funcionários públicos, eles não hesitam em declarar que o canto do movimento Hare Kṛṣṇa é um estorvo, embora a Bhagavad-gītā diga claramente que satataṁ kīrtayanto māṁ yatantaś ca dṛḍha-vratāḥ. De acordo com esse verso, é dever dos mahātmās cantar o mantra Hare Kṛṣṇa e usar toda a sua habili­dade para tentar espalhá-lo mundo afora. Infelizmente, a sociedade está em uma situação tão incivilizada que existem pretensos mahātmās que estão dispostos a matar vacas e crianças e acabar com o movi­mento Hare Kṛṣṇa. Exemplo dessas atividades incivilizadas é o fato de que há pessoas que fizeram oposição ao centro que o movimento Hare Kṛṣṇa construía em Bombaim, de nome Hare Kṛṣṇa Land. Assim como Kaṁsa não poderia matar o belo filho de Devakī e Vasudeva, a sociedade incivilizada, embora descontente com o avanço do mo­vimento da consciência de Kṛṣṇa, não terá condições de sustá-lo. Entretanto, teremos de enfrentar muitas dificuldades, de muitas maneiras diferentes. Embora Kṛṣṇa não pudesse ser morto, Vasudeva, como pai de Kṛṣṇa, tinha medo, pois, movido por sua afeição, pensava que Kaṁsa viria imediatamente para matar seu filho. Do mesmo modo, embora o movimento da consciência de Kṛṣṇa e Kṛṣṇa não sejam diferentes e não haja asura algum que possa destruí-lo, ficamos com medo de que, a qualquer momento, os asuras acabem sustando este movimento em alguma parte do mundo.
श्रीशुक उवाच
अथैनमात्मजं वीक्ष्य महापुरुषलक्षणम् ।
देवकी तमुपाधावत् कंसाद् भीता सुविस्मिता ॥ २३ ॥
śrī-śuka uvāca
athainam ātmajaṁ vīkṣya
mahā-puruṣa-lakṣaṇam
devakī tam upādhāvat
kaṁsād bhītā suvismitā

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; athaapós este oferecimento de orações por parte de Vasudeva; enameste Kṛṣṇa; ātmajamfilho deles; vīkṣyaobservando; mahā-puruṣa-lakṣaṇamcom todas as características da Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu; devakīa mãe de Kṛṣṇa; tama Ele (Kṛṣṇa); upādhāvatofereceu orações; kaṁsātde Kaṁsa; bhītātendo medo; su-vismi­tāe também admirada de ver uma criança tão maravilhosa.

Translation

Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Em seguida, tendo observado que seu filho tinha todas as características da Suprema Personalidade de Deus, Devakī, que tinha muito medo de Kaṁsa e estava deveras atônita, começou a oferecer orações ao Senhor.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra suvismitā, que significa “atônita”, é significativa. Devakī e seu esposo, Vasudeva, sabiam muito bem que seu filho era a Suprema Personalidade de Deus e não poderia ser morto por Kaṁsa, mas, devido à afeição, à medida que pensavam nas atrocidades anteriores de Kaṁsa, ambos temiam simultaneamente que Kṛṣṇa fosse morto. É por isso que se usou a palavra suvismitā. Do mesmo modo, ficamos aturdidos, pensando se este movimento será eliminado pelos asuras ou continuará a avançar sem temor.
श्रीदेवक्युवाच
रूपं यत् तत् प्राहुरव्यक्तमाद्यं
ब्रह्म ज्योतिर्निर्गुणं निर्विकारम् ।
सत्तामात्रं निर्विशेषं निरीहं
स त्वं साक्षाद् विष्णुरध्यात्मदीप: ॥ २४ ॥
śrī-devaky uvāca
rūpaṁ yat tat prāhur avyaktam ādyaṁ
brahma jyotir nirguṇaṁ nirvikāram
sattā-mātraṁ nirviśeṣaṁ nirīhaṁ
sa tvaṁ sākṣād viṣṇur adhyātma-dīpaḥ

Synonyms

śrī-devakī uvācaŚrī Devakī disse; rūpamforma ou substância; yat tatporque Vós sois a própria substância; prāhuḥàs vezes sois chamado; avyaktamimperceptível aos sentidos materiais (ataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi na bhaved grāhyam indriyaiḥ); ādyamsois a causa original; brahmasois conhecido como Brahman; jyotiḥluz; nirguṇamsem qualidades materiais; nirvikāramsem mudanças, a mesma forma de Viṣṇu perpetuamente; sattā-mātrama substância original, a causa de tudo; nirviśeṣamestais presente em toda parte como a Superalma (dentro do coração de um ser humano e dentro do coração de um animal, a mesma substância está presente); nirīhamsem desejos materiais; saḥesta Pessoa Suprema; tvamVossa Onipotência; sākṣātdiretamente; viṣṇuḥSenhor Viṣṇu; adhyātma-dīpaḥa luz de todo o conhecimento transcendental (conhecendo-vos, conhece-se tudo: yasmin vijñāte sarvam evaṁ vijñātaṁ bhavati).

Translation

Śrī Devakī disse: Meu querido Senhor, existem diferentes Vedas, alguns dos quais Vos descrevem como imperceptível às palavras e à mente. No entanto, sois a origem de toda a manifestação cósmi­ca. Sois o Brahman, o maior de tudo, pleno de refulgência como o Sol. Não tendes causa material, não sofreis mudanças ou modificações, e não tendes desejos materiais. Em razão disso, os Vedas dizem que sois a substância. Portanto, meu Senhor, sois diretamente a origem de todas as afirmações védicas, e, compreendendo-Vos, todos podem gradualmente passar a compreender tudo. Sois diferente da luz do Brahman e do Paramātmā, mas não sois diferente deles. Tudo emana de Vós. Na verdade, sois a causa de todas as causas, o Senhor Viṣṇu, a luz de todo o conhecimento transcendental.

Purport

SIGNIFICADO—Viṣṇu é a origem de tudo, e não há diferença entre o Senhor Viṣṇu e o Senhor Kṛṣṇa porque ambos são viṣṇu-tattva. Através do Ṛg Veda, entendemos que oṁ tad viṣṇoḥ paramaṁ padam: a substância original é o onipenetrante Senhor Viṣṇu, que também é o Paramātmā e o Brahman refulgente. As entidades vivas também são partes inte­grantes de Viṣṇu, o qual tem várias energias (parāsya śaktir vividhaiva śrūyate svābhāvikī jñāna-bala-kriyā ca). Viṣṇu, ou Kṛṣṇa, portanto, é tudo. Na Bhagavad-gītā (10.8), o Senhor Kṛṣṇa diz que ahaṁ sarvasya prabhavo mattaḥ sarvaṁ pravartate: “Eu sou a fonte de todos os mundos espirituais e materiais. Tudo emana de Mim.” Logo, Kṛṣṇa é a causa da qual tudo se origina (sarva-kāraṇa-kāraṇam). Quando Viṣṇu Se expande em Seu aspecto onipenetrante, deve-se entender que Ele é nirākāra-nirviśeṣa-brahmajyoti.
Embora tudo emane de Kṛṣṇa, Ele, em última análise, é uma pessoa. Aham ādir hi devānām: Ele é a origem de Brahmā, Viṣṇu e Maheś­vara, e deles se manifestam muitos outros semideuses. Portanto, na Bhagavad-gītā (14.27), Kṛṣṇa diz que brahmaṇo hi pratiṣṭhāham: “O Brahman repousa em Mim.” O Senhor também diz:
ye ’py anya-devatā-bhaktā
yajante śraddhayānvitāḥ
te ’pi mām eva kaunteya
yajanty avidhi-pūrvakam
“Tudo o que um homem acaso sacrifique a outros deuses, ó filho de Kuntī, na verdade destina-se unicamente a Mim, mas é oferecido sem a compreensão verdadeira.” (Bhagavad-gītā 9.23) Existem muitas pessoas que adoram diferentes semideuses, considerando todos eles como deuses separados, mas eles não o são de fato. A realidade é que todos os semideuses, e todas as entidades vivas, são partes integrantes de Kṛṣṇa (mamaivāṁśo jīva-loke jīva-bhūtaḥ). Os semideuses também estão na categoria de entidades vivas; eles não são deuses independentes. Mas o homem cujo conhecimento é imaturo e contamina­do pelos modos da natureza material adora vários semideuses, de acordo com a sua inteligência. Logo, a Bhagavad-gītā os censura (kāmais tais tair hṛta-jñānāḥ prapadyante ’nya-devatāḥ). Porque não têm inteligência e não são muito avançados e não ponderaram adequadamente a verdade, eles prestam adoração a vários semideu­ses ou especulam de acordo com várias filosofias, tais como a filosofia māyāvāda.
Kṛṣṇa, Viṣṇu, é a verdadeira origem de tudo. Como se afirma nos Vedas, yasya bhāṣā sarvam idaṁ vibhāti. A Verdade Absoluta é subsequentemente descrita no Śrīmad-Bhāgavatam (10.28.15) como satyaṁ jñānam anantam yad brahma-jyotiḥ sanātanam. O brahma­jyoti é sanātana, eterno, mas ele depende de Kṛṣṇa (brahmaṇo hi pratiṣṭhāham). A Brahma-saṁhitā afirma que o Senhor é onipenetrante. Aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-stham: Ele está dentro deste universo, e está dentro do átomo como Paramātmā. Yasya prabhā prabhavato jagad-aṇḍa-koṭi-koṭiṣv aśeṣa-vasudhādi-vibhūti-bhinnam: o Brahman também não é independente dEle. Portanto, tudo o que um filósofo escreve, em última instância, é Kṛṣṇa, ou o Senhor Viṣṇu (sarvaṁ khalv idaṁ brahma, paraṁ brahma paraṁ dhāma pavitraṁ paramaṁ bhavān). De acordo com os dife­rentes graus de compreensão, o Senhor Viṣṇu é descrito de diferentes maneiras, mas, na verdade, Ele é a origem de tudo.
Como era uma devota imaculada, Devakī pôde entender que o próprio Senhor Viṣṇu aparecera como seu filho. Portanto, após as orações de Vasudeva, Devakī ofereceu suas orações. Ela estava muito amedrontada com as atrocidades de seu irmão. Devakī disse: “Meu querido Senhor, Vossas formas eternas, tais como Nārāyaṇa, Senhor Rāma, Śeṣa, Varāha, Nṛsiṁha, Vāmana, Baladeva e milhões de encarnações semelhantes que emanam de Viṣṇu, são descritas na literatura védica como originais. Sois original porque todas as formas em que encarnais estão fora desta criação material. Vossa forma existia antes de que esta manifestação cósmica fosse criada. Vossas formas são eternas e onipenetrantes. Elas são autorrefulgentes, imu­táveis e não contaminadas pelas qualidades materiais. Tais formas eternas são sempre cognoscitivas e plenas de bem-aventurança; elas estão situadas em bondade transcendental e sempre se ocupam em diferentes passatempos. Não Vos limitais apenas a uma forma espe­cífica; todas essas formas eternas e transcendentais são autossuficien­tes. Segundo entendo, sois o Supremo Senhor Viṣṇu.” Podemos concluir, portanto, que o Senhor Viṣṇu é tudo, embora Ele também seja diferente de tudo. Isso é a filosofia acintya-bhedābheda-tattva.
नष्टे लोके द्विपरार्धावसाने
महाभूतेष्वादिभूतं गतेषु ।
व्यक्तेऽव्यक्तं कालवेगेन याते
भवानेक: शिष्यतेऽशेषसंज्ञ: ॥ २५ ॥
naṣṭe loke dvi-parārdhāvasāne
mahā-bhūteṣv ādi-bhūtaṁ gateṣu
vyakte ’vyaktaṁ kāla-vegena yāte
bhavān ekaḥ śiṣyate ’śeṣa-saṁjñaḥ

Synonyms

naṣṭeapós a aniquilação; lokeda manifestação cósmica; dvi-pa­rārdha-avasāneapós milhões e milhões de anos (a vida de Brahmā); mahā-bhūteṣuquando os cinco elementos primários (terra, água, fogo, ar e éter); ādi-bhūtam gateṣuentram nos elementos sutis da percepção sensorial; vyaktequando tudo manifesto; avyaktamno imanifesto; kāla-vegenapela força do tempo; yāteentra; bha­vānVossa Onipotência; ekaḥúnico; śiṣyatepermanece; aśeṣa­saṁjñaḥo mesmíssimo, mas com nomes diferentes.

Translation

Após milhões de anos, no momento da aniquilação cósmica, quando tudo, manifesto e imanifesto, é aniquilado pela força do tempo, os cinco elementos grosseiros entram na concepção sutil, e as catego­rias manifestas entram na substância imanifesta. Nessa ocasião, per­maneceis apenas Vós, e sois conhecido como Ananta Śeṣa-nāga.

Purport

SIGNIFICADO—No momento da aniquilação, os cinco elementos grosseiros – terra, água, fogo, ar e éter – entram na mente, inteligência e falso ego (ahaṅkāra), e toda a manifestação cósmica entra na energia espiritual da Suprema Personalidade de Deus, que permanece sozi­nho como a origem de tudo. O Senhor, portanto, é conhecido como Śeṣa-nāga, como Ādi-puruṣa e por muitos outros nomes.
Devakī, portanto, orou: “Após muitos milhões de anos, quando o senhor Brahmā chega ao fim de sua vida, ocorre a aniquilação da manifestação cósmica. Naquele momento, os cinco elementos – a saber, terra, água, fogo, ar e éter – entram no mahat-tattva. Por sua vez, devido à força do tempo, o mahat-tattva entra na tota­lidade da energia material imanifesta; a totalidade da energia mate­rial entra no pradhāna energético, e o pradhāna entra em Vós. Logo, após a aniquilação de toda a manifestação cósmica, permaneceis so­zinho com Vosso nome, forma, qualidade e parafernália transcen­dentais.”
“Meu Senhor, ofereço-Vos minhas respeitosas reverências porque sois o controlador da energia total imanifesta, e o reservatório últi­mo da natureza material. Meu Senhor, toda a manifestação cósmica está sob a influência do tempo, começando com a fração de um se­gundo até a duração de um ano. Todos agem sob Vossa direção.” Sois o controlador original de tudo e o reservatório de todas as energias potentes.
योऽयं कालस्तस्य तेऽव्यक्तबन्धो
चेष्टामाहुश्चेष्टते येन विश्वम् ।
निमेषादिर्वत्सरान्तो महीयां-
स्तं त्वेशानं क्षेमधाम प्रपद्ये ॥ २६ ॥
yo ’yaṁ kālas tasya te ’vyakta-bandho
ceṣṭām āhuś ceṣṭate yena viśvam
nimeṣādir vatsarānto mahīyāṁs
taṁ tveśānaṁ kṣema-dhāma prapadye

Synonyms

yaḥaquilo que; ayamisto; kālaḥtempo (minutos, horas, segundos); tasyadEle; tede Vós; avyakta-bandhoó meu Senhor, sois o inaugurador do imanifesto (o mahat-tattva ou prakṛti origi­nais); ceṣṭāmtentativa ou passatempos; āhuḥafirma-se; ceṣṭatefunciona; yenapelo qual; viśvamtoda a criação; nimeṣa-ādiḥcomeçando com as diminutas partes do tempo; vatsara-antaḥaté o limite de um ano; mahīyānpoderoso; tama Vossa Onipotên­cia; tvā īśānama Vós, o controlador supremo; kṣema-dhāmao reservatório de toda a prosperidade; prapadyeofereço rendição plena.

Translation

Ó principiador da energia material, esta maravilhosa criação fun­ciona sob o controle do tempo poderoso, que se divide em segundos, minutos, horas e anos. Este elemento tempo, que se estende por muitos milhões de anos, é apenas outra forma do Senhor Viṣṇu. Para executardes Vossos passatempos, agis como o controlador do tempo, mas sois o reservatório de toda a boa fortuna. Assim, entrego-me por completo a Vossa Onipotência.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma na Brahma-saṁhitā (5.52):
yac-cakṣur eṣa savitā sakala-grahāṇāṁ
rājā samasta-sura-mūrtir aśeṣa-tejāḥ
yasyājñayā bhramati saṁbhṛta-kāla-cakro
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
“O Sol é o rei de todos os sistemas planetários e tem ilimitada po­tência de calor e luz. Adoro Govinda, o Senhor primordial, a Suprema Personalidade de Deus, sob cujo controle até mesmo o Sol, que é considerado o olho do Senhor, gira dentro de uma órbita fixa, o tempo eterno.” Embora vejamos como a manifestação cósmica é gigantesca e maravilhosa, ela está dentro dos limites de kāla, o fator tempo. Esse fator tempo também é controlado pela Suprema Personalidade de Deus, como confirma a Bhagavad-gītā (mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sa-carācaram). Prakṛti, a manifestação cósmica, está sob o controle do tempo. Na verdade, tudo está sob o controle do tempo, mas esse é controlado pela Suprema Personalidade de Deus. Logo, o Senhor Supremo não teme as investidas do tempo. O tempo é cal­culado de acordo com os movimentos do Sol (savitā). Cada minu­to, cada segundo, cada dia, cada noite, cada mês e cada ano do tempo podem ser calculados de acordo com os movimentos do Sol. Mas o Sol não é independente, pois está sob o controle do tempo. Bhramati saṁbhṛta-kāla-cakraḥ: o Sol se move dentro do kāla-cakra, a órbita do tempo. O Sol está sob o controle do tempo, e o tempo é controlado pela Suprema Personalidade de Deus. Logo, o Senhor não tem nenhum medo do tempo.
O Senhor é aqui chamado de avyakta-bandhu, ou o inaugurador dos movimentos de toda a manifestação cósmica. Às vezes, a mani­festação cósmica é comparada à roda de um oleiro. Quando uma roda de oleiro está girando, quem a colocou em movimento? Foi o olei­ro, evidentemente, embora às vezes vejamos somente o movimento da roda e não vejamos o próprio oleiro. Portanto, o Senhor, que está por trás do movimento do cosmo, chama-Se avyakta-bandhu. Tudo está dentro dos limites do tempo, mas o tempo se move sob a direção do Senhor, que, portanto, não está dentro dos limites im­postos pelo tempo.
मर्त्यो मृत्युव्यालभीत: पलायन्‌
लोकान् सर्वान्निर्भयं नाध्यगच्छत् ।
त्वत्पादाब्जं प्राप्य यद‍ृच्छयाद्य
सुस्थ: शेते मृत्युरस्मादपैति ॥ २७ ॥
martyo mṛtyu-vyāla-bhītaḥ palāyan
lokān sarvān nirbhayaṁ nādhyagacchat
tvat pādābjaṁ prāpya yadṛcchayādya
susthaḥ śete mṛtyur asmād apaiti

Synonyms

martyaḥas entidades vivas que com certeza morrerão; mṛtyu­-vyāla-bhītaḥcom medo da serpente da morte; palāyancorrendo (logo que vê uma serpente, a pessoa foge, temendo a morte imedia­ta); lokāna diferentes planetas; sarvāntodos; nirbhayamdeste­mor; na adhyagacchatnão obtêm; tvat-pāda-abjamde Vossos pés de lótus; prāpyaobtendo o refúgio; yadṛcchayāpor acaso, por misericórdia de Vossa Onipotência e de Vosso representante, o mestre espiritual (guru-kṛpā, kṛṣṇa-kṛpā); adyapresentemente; su­-sthaḥsendo imperturbáveis e mentalmente equilibradas; śetedormem; mṛtyuḥmorte; asmātdessas pessoas; apaitifoge.

Translation

Nem mesmo fugindo para qualquer planeta, ninguém neste mundo material jamais se libertou dos quatro princípios: nascimento, morte, velhice e doença. Mas agora que aparecestes, meu Senhor, a morte foge com medo de Vós, e as entidades vivas, tendo por Vossa misericórdia obtido refúgio a Vossos pés de lótus, dormem com plena paz mental.

Purport

SIGNIFICADO—Existem diversas categorias de entidades vivas, mas todos temem a morte. A meta máxima dos karmīs é promoverem-se aos planetas celestiais superiores, onde a duração de vida é muito longa. Como se afirma na Bhagavad-gītā (8.17), sahasra-yuga-paryantam ahar yad brahmaṇo viduḥ: um dia de Brahmā é igual a 1000 yugas, e cada yuga consiste em 4.300.000 anos. Igualmente, a noite de Brahmā dura 1000 vezes 4.300.000 anos. Por esse método, pode-se calcular o mês e o ano de Brahmā, mas mesmo Brahmā, que vive milhões e milhões de anos (dvi-parārdha-kāla), também tem de morrer. De acordo com os śāstras védicos, os habitantes dos sistemas planetários superiores vivem 10.000 anos, e assim como se calcula que o dia de Brahmā equivale a 4.300.000.000 de nossos anos, um dia nos sis­temas planetários superiores é igual a 6 de nossos meses. Os karmīs, portanto, tentam promover-se aos sistemas planetários superiores, mas isso não os livrará da morte. Neste mundo material, todos, desde Brahmā até a formiga insignificante, têm de morrer. Portanto, este mundo se chama martya-loka. Como Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā (8.16), ābrahma-bhuvanāl lokāḥ punar āvartino ’rjuna: enquanto alguém estiver dentro deste mundo material, seja em Brahmaloka, seja em qualquer outro loka dentro deste universo, ele terá de submeter-se ao kāla-cakra, ou seja, sujeitar-se a vidas e mais vidas (bhūtvā bhūtvā pralīyate). Todavia, se retornar à Suprema Personalidade de Deus (yad gatvā na nivartante), ele não precisará reingressar nos li­mites do tempo. Portanto, os devotos que se refugiaram nos pés de lótus do Senhor Supremo podem dormir muito pacificamente com esta garantia dada pela Suprema Personalidade de Deus. Como se confirma na Bhagavad-gītā (4.9), tyaktvā dehaṁ punar janma naiti: após abandonar o corpo atual, o devoto que entende Kṛṣṇa como Ele é não precisa retornar a este mundo material.
A posição constitucional da entidade viva é a eternidade (na hanyate hanyamāne śarīre, nityaḥ śāśvato ’yam). Toda entidade viva é eterna. Porém, por ter caído neste mundo material, a pessoa vagueia dentro do universo, mudando continuamente de um corpo a outro. Caitanya Mahāprabhu diz:
brahmāṇḍa bhramite kona bhāgyavān jīva
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
(Caitanya-caritāmṛta, Madhya 19.151)
Todos estão vagando pelas regiões superiores e inferiores deste universo, mas aquele que é assaz afortunado entra em contato com a consciência de Kṛṣṇa através da misericórdia do mestre espiritual e adota o caminho do serviço devocional. Então, fica-lhe garantida a vida eterna, sem medo da morte. Quando Kṛṣṇa aparece, todos se livram do medo da morte, mas o sentimento de Devakī era o seguinte: “Ainda te­memos Kaṁsa, embora tenhais aparecido como nosso filho.” Ela estava mais ou menos confusa, não sabendo exatamente a razão daquilo, e recorreu ao Senhor pedindo-Lhe que a libertasse desse medo e fizesse o mesmo por Vasudeva.
Com relação a isso, pode-se notar que a Lua é um dos planetas celestiais. Sabemos através da literatura védica que, quando alguém vai à Lua, recebe uma vida que dura dez mil anos, por intermédio da qual goza os frutos de suas atividades piedosas. Se nossos supos­tos cientistas estão indo à Lua, por que deveriam voltar para cá? Devemos indubitavelmente concluir que eles não foram à Lua. Para ir à Lua, a pessoa deve qualificar-se com atividades piedosas. Então, ela poderá viver ali. Se alguém foi à Lua, por que teria retornado a este planeta, onde a vida tem uma curtíssima duração?
स त्वं घोरादुग्रसेनात्मजान्न-
स्त्राहि त्रस्तान् भृत्यवित्रासहासि ।
रूपं चेदं पौरुषं ध्यानधिष्ण्यं
मा प्रत्यक्षं मांसद‍ृशां कृषीष्ठा: ॥ २८ ॥
sa tvaṁ ghorād ugrasenātmajān nas
trāhi trastān bhṛtya-vitrāsa-hāsi
rūpaṁ cedaṁ pauruṣaṁ dhyāna-dhiṣṇyaṁ
mā pratyakṣaṁ māṁsa-dṛśāṁ kṛṣīṣṭhāḥ

Synonyms

saḥVossa Onipotência; tvamVós; ghorātterrivelmente feroz; ugrasena-ātmajātdo filho de Ugrasena; naḥa nós; trāhipor favor, protegei; trastānque temos muito medo (dele); bhṛtya-vitrāsa- asisois naturalmente o destruidor do medo que há em Vossos servos; rūpamem Vossa forma de Viṣṇu; catambém; idamesta; pauruṣamcomo a Suprema Personalidade de Deus; dhyāna-dhiṣṇyamque é apreciada através da meditação; não; pratyakṣamdiretamente visível; māṁsa-dṛśāmàqueles que veem com olhos materiais; kṛṣīṣṭhāḥpor favor, sede.

Translation

Meu Senhor, visto que dissipais todo o temor sentido por Vossos devotos, peço-Vos que nos salveis e nos protejais do terrível medo produzido por Kaṁsa. Vossa forma de Viṣṇu, a Suprema Personali­dade de Deus, é apreciada pelos yogīs meditativos. Por favor, tornai essa forma invisível àqueles que veem com olhos materiais.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra dhyāna-dhiṣṇyam é significativa porque os yogīs meditam na forma do Senhor Viṣṇu (dhyānāvasthita-tad-gatena manasā paśyanti yaṁ yoginaḥ). Devakī pediu que o Senhor, que lhe aparecera como Viṣṇu, não manifestasse aquela forma, pois queria ver o Senhor como uma criança comum, do jeito de uma criança que é apreciada por pessoas que têm olhos materiais. Devakī queria ver se a Suprema Personalidade de Deus realmente aparecera ou se estava sonhando com a forma de Viṣṇu. Se Kaṁsa viesse, pensava ela, ele imediatamente mataria a criança ao ver a forma de Viṣṇu, mas, se visse uma criança humana, poderia reconsiderar. Devakī temia Ugrasena-ātmaja, isto é, ela não temia Ugrasena e seus par­ceiros, mas o filho de Ugrasena. Assim, ela pediu que o Senhor dissipasse aquele temor, uma vez que Ele sempre está disposto a proteger (abhayam) Seus devotos. “Meu Senhor”, rogou ela, “peço-Vos que me salveis das mãos cruéis do filho de Ugrasena, Kaṁsa. Estou orando a Vossa Onipotência pedindo que, por favor, libertai-me desta condição temerosa, pois sempre estais disposto a proteger Vossos servos.” Na Bhagavad-gītā, o Senhor confirma essa afirmação ao garantir a Arjuna: “Podes declarar ao mundo: Meu devoto jamais perecerá.”
Enquanto orava ao Senhor pedindo redenção, mãe Devakī expres­sou sua afeição materna: “Entendo que esta forma transcendental geralmente é percebida pelos grandes sábios em suas meditações, mas continuo com medo porque, logo que perceba que aparecestes, Kaṁsa procurará incomodar-Vos. Logo, peço que, por enquanto, Vos torneis invisível aos nossos olhos materiais.” Em outras palavras, ela pediu que o Senhor assumisse a forma de uma criança comum. “A única razão que me faz ter medo de meu irmão Kaṁsa é o Vosso aparecimento. Meu Senhor Madhusūdana, Kaṁsa talvez saiba que já nascestes. Portanto, peço-Vos que oculteis esta Vossa forma de quatro braços, que porta os quatro símbolos de Viṣṇu – a saber, o búzio, o disco, a maça e a flor de lótus. Meu querido Senhor, ao se dar a aniquilação da manifestação cósmica, depositais todo o universo dentro de Vosso abdômen; não obstante, por Vossa misericórdia imaculada, aparecestes em meu ventre. Fico surpresa de que, só para satisfazerdes Vossos devotos, imitais as atividades dos seres humanos comuns.”
Devakī tinha tanto medo de Kaṁsa que não conseguia acredit­ar que Kaṁsa fosse incapaz de matar o Senhor Viṣṇu, que estava pessoalmente presente. Devido à afeição materna, portanto, ela pediu que a Suprema Personalidade de Deus desaparecesse. Mesmo sabendo que, com o desaparecimento do Senhor, Kaṁsa iria afligi-la cada vez mais, pensando que a criança que havia nascido dela estava escondida em algum lugar, ela não queria que a criança transcendental fosse molestada e morta. Portanto, ela pediu ao Senhor Viṣṇu que desaparecesse. Mais tarde, enquanto sofresse as perseguições, ela pen­saria nEle dentro de sua mente.
जन्म ते मय्यसौ पापो मा विद्यान्मधुसूदन ।
समुद्विजे भवद्धेतो: कंसादहमधीरधी: ॥ २९ ॥
janma te mayy asau pāpo
mā vidyān madhusūdana
samudvije bhavad-dhetoḥ
kaṁsād aham adhīra-dhīḥ

Synonyms

janmao nascimento; tede Vossa Onipotência; mayiem meu (ventre); asaueste Kaṁsa; pāpaḥextremamente pecaminoso; vidyātpossa ser incapaz de entender; madhusūdanaó Madhusūdana; samudvijeestou cheia de ansiedade; bhavat-hetoḥdevido ao Vosso aparecimento; kaṁsātpor causa de Kaṁsa, com quem tive uma experiência muito negativa; ahameu; adhīra-dhīḥtornei-me cada vez mais ansiosa.

Translation

Ó Madhusūdana, devido ao Vosso aparecimento, estou ficando cada vez mais ansiosa e com medo de Kaṁsa. Portanto, por favor, fazei com que este pecaminoso Kaṁsa seja incapaz de compreender que nascestes de meu ventre.

Purport

SIGNIFICADO—Devakī dirigiu-se à Suprema Personalidade de Deus como Madhusūdana. Ela estava inteirada de que o Senhor havia matado muitos demônios, tais como Madhu, que eram centenas e milhares de vezes mais poderosos do que Kaṁsa, mas, devido à afeição pela criança transcendental, ela acreditava que Kaṁsa poderia matá-lO. Em vez de pensar no poder ilimitado do Senhor, ela pensava no Senhor com afeição e, portanto, pediu que a criança transcendental desaparecesse.
उपसंहर विश्वात्मन्नदो रूपमलौकिकम् ।
शङ्खचक्रगदापद्मश्रिया जुष्टं चतुर्भुजम् ॥ ३० ॥
upasaṁhara viśvātmann
ado rūpam alaukikam
śaṅkha-cakra-gadā-padma-
śriyā juṣṭaṁ catur-bhujam

Synonyms

uupasaṁhararecolhei; viśvātmanó onipenetrante Suprema Personalidade de Deus; adaḥesta; rūpamforma; alaukikamque não é natural a este mundo; śaṅkha-cakra-gadā-padmado búzio, disco, maça e lótus; śriyācom essas opulências; juṣṭamdecora­dos; catuḥ-bhujamquatro braços.

Translation

Ó meu Senhor, sois a onipenetrante Suprema Personalidade de Deus, e Vossa transcendental forma de quatro braços, portando o búzio, o disco, a maça e o lótus, não é natural a este mundo. Por favor, recolhei essa forma [e tornai-Vos tal qual uma criança humana natural para que eu possa esconder-Vos em algum lugar].

Purport

SIGNIFICADO—Devakī pensava em esconder a Suprema Personalidade de Deus e não em entregá-lO a Kaṁsa, como fizera com todos os seus filhos anteriores. Embora Vasudeva tivesse prometido entregar cada crian­ça a Kaṁsa, dessa vez ele queria quebrar sua promessa e esconder a criança em algum lugar. Contudo, devido ao aparecimento do Senhor nesta surpreendente forma de quatro braços, seria impossível escon­dê-lO.
विश्वं यदेतत् स्वतनौ निशान्ते
यथावकाशं पुरुष: परो भवान् ।
बिभर्ति सोऽयं मम गर्भगोऽभू-
दहो नृलोकस्य विडम्बनं हि तत् ॥ ३१ ॥
viśvaṁ yad etat sva-tanau niśānte
yathāvakāśaṁ puruṣaḥ paro bhavān
bibharti so ’yaṁ mama garbhago ’bhūd
aho nṛ-lokasya viḍambanaṁ hi tat

Synonyms

viśvamtoda a manifestação cósmica; yat etatcontendo todas as criações móveis e inertes; sva-tanaudentro de Vosso corpo; niśā-anteno momento da devastação; yathā-avakāśamrefúgio em Vosso corpo sem dificuldade; puruṣaḥa Suprema Personali­dade de Deus; paraḥtranscendental; bhavānVossa Onipotência; bibhartimantém; saḥesta (Suprema Personalidade de Deus); ayamesta forma; mamameu; garbha-gaḥentrou em meu ventre; abhūtassim aconteceu; ahooh!; nṛ-lokasyadentro deste mundo material de entidades vivas; viḍambanamé impossível pensar em; hina verdade; tatesta (classe de concepção).

Translation

No momento da devastação, todo o cosmo, contendo todas as entidades móveis e inertes, entra em Vosso corpo transcendental, onde é mantido sem dificuldade. Agora, entretanto, essa forma transcenden­tal nasceu de meu ventre. As pessoas não acreditarão nisso, e eu cairei no ridículo.

Purport

SIGNIFICADO—Como se explica no Caitanya-caritāmṛta, o serviço amoroso à Personalidade de Deus é de duas diferentes classes: aiśvarya-pūrṇa, cheio de opulência, e aiśvarya-śīthila, sem opulência. O verdadeiro amor a Deus começa com aiśvarya-śīthila, simplesmente com base no amor puro.
premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena
santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti
yaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
(Brahma-saṁhitā 5.38)
Os devotos puros, cujos olhos estão untados com o bálsamo de prema, amor, querem ver a Suprema Personalidade de Deus como Śyāmasundara, Muralīdhara, com uma flauta dançando em Suas duas mãos. Essa é a forma com a qual entram em contato os habi­tantes de Vṛndāvana, todos os quais amam a Suprema Personalidade de Deus como Śyāmasundara, e não como o Senhor Viṣṇu, Nārāyaṇa, que é adorado em Vaikuṇṭha, onde os devotos admiram Sua opulên­cia. Embora não esteja na plataforma de Vṛndāvana, Devakī está perto da plataforma de Vṛndāvana. Na plataforma de Vṛndāvana, a mãe de Kṛṣṇa é mãe Yāśodā, e nas plataformas de Mathurā e Dvārakā, a mãe de Kṛṣṇa é Devakī. Em Mathurā e Dvārakā, o amor pelo Senhor está misturado com o apreço por Sua opulência, mas, em Vṛndāvana, não há manifestação da opulência da Suprema Personalidade de Deus.
Existem cinco fases de serviço amoroso à Suprema Personalidade de Deus – śānta, dāsya, sakhya, vātsalya e mādhurya. Devakī está na plataforma de vātsalya. Ela queria relacionar-se com seu filho eterno, Kṛṣṇa, naquela fase amorosa, e, portanto, ela queria que a Suprema Personalidade de Deus retraísse Sua opulenta forma de Viṣṇu. Ao explicar este verso, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura esclarece esse fato muito precisamente.
Bhakti, bhagavān e bhakta não pertencem ao mundo material. Confirma-se isso na Bhagavad-gītā (14.26):
māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
“Aquele que se ocupa nas atividades espirituais do serviço devocional imaculado transcende imediatamente os modos da natureza ma­terial e eleva-se à plataforma espiritual.” Desde o comecinho de seus empreendimentos em bhakti, a pessoa situa-se na plataforma transcendental. Vasudeva e Devakī, portanto, estando situados em um estado devocional inteiramente puro, estão além deste mundo material e não se sujeitam ao medo material. No mundo transcen­dental, entretanto, devido à devoção pura, também existe um con­ceito referente ao medo, mas que se deve ao amor intenso.
Como se afirma na Bhagavad-gītā (bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ) e como se confirma no Śrīmad-Bhāgavatam (bhaktyāham ekayā grāhyaḥ), sem bhaktī, não se pode entender a situação espiritual do Senhor. Bhakti pode ser considerada em três etapas, chamadas guṇī-bhūta, pradhānī-bhūta e kevala, e, de acordo com essas etapas, há três divisões, chamadas jñāna, jñānamayī e rati, ou prema – isto é, conhecimento simples, amor misturado com conhecimento, e amor puro. Aquele que tem conhecimento simples percebe bem-aventurança transcendental sem variedade. Essa percepção chama-se māna-bhūti. Quando alguém chega à etapa de jñāna­mayī, compreende as opulências transcendentais da Personalidade de Deus. Porém, quando se alcança amor puro, compreende-se a forma transcendental do Senhor como o Senhor Kṛṣṇa ou o Senhor Rāma. Afinal, é isso o que se deseja. Especialmente em mādhurya-rasa, a pessoa fica apegada à Personalidade de Deus (śrī-vigraha-niṣṭha-rūpādi). Então, começam as trocas amorosas entre o Senhor e o devoto.
O significado especial de Kṛṣṇa conservar uma flauta em Suas mãos em Vrajabhūmi, Vṛndāvana, é descrito como mādhurī ... virājate. A forma do Senhor com uma flauta em Suas mãos é muito atra­tiva, e a pessoa que Se sente mais sublimemente atraída é Śrīmatī Rādhārānī, Rādhikā. Ela desfruta da supremamente bem-aventurada associação de Kṛṣṇa. Às vezes, as pessoas não podem entender por que motivo o nome de Rādhikā não é mencionado no Śrīmad-Bhāgavatam. Na verdade, entretanto, pode-se compreender Rādhikā através da palavra ārādhana, que indica que ela desfruta dos mais elevados intercâmbios amorosos com Kṛṣṇa.
Não desejando ser ridicularizada por ter dado à luz Viṣṇu, Deva­kī queria o Kṛṣṇa de duas mãos e, portanto, pediu que o Senhor mudasse Sua forma.
श्रीभगवानुवाच
त्वमेव पूर्वसर्गेऽभू: पृश्न‍ि: स्वायम्भुवे सति ।
तदायं सुतपा नाम प्रजापतिरकल्मष: ॥ ३२ ॥
śrī-bhagavān uvāca
tvam eva pūrva-sarge ’bhūḥ
pṛśniḥ svāyambhuve sati
tadāyaṁ sutapā nāma
prajāpatir akalmaṣaḥ

Synonyms

śrī-bhagavān uvācaa Suprema Personalidade de Deus disse a Devakī; tvamtu; evana verdade; pūrva-sargeem um milênio anterior; abhūḥtu te tornaste; pṛśniḥchamada Pṛśni; svāyambhu­veo milênio de Svāyambhuva Manu; satió pessoa castíssima; tadānaquela época; ayamVasudeva; sutapāSutapā; nāmade nome; prajāpatiḥum Prajāpati; akalmaṣaḥuma imaculada pessoa piedosa.

Translation

A Suprema Personalidade de Deus respondeu: Minha querida mãe, ó mulher castíssima, em teu nascimento anterior, no milênio de Svāyambhuva, eras conhecida como Pṛśni, e Vasudeva, que era o mais piedoso Prajāpati, chamava-se Sutapā.

Purport

SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus deixou bem claro que Devakī não se tornara Sua mãe somente agora; ao contrário, ela também fora Sua mãe anteriormente. Kṛṣṇa é eterno, e eternamente Ele esco­lhe um pai e uma mãe entre Seus devotos. Também em outra ocasião, Devakī fora a mãe do Senhor, e Vasudeva fora o pai do Senhor, e eles se chamavam Pṛśni e Sutapā. Ao aparecer, a Suprema Personalidade de Deus aceita Seu pai e Sua mãe eternos, e eles aceitam Kṛṣṇa como seu filho. Esse passatempo ocorre eternamente, daí se chamar nitya-līlā. Logo, não havia motivo para surpresa ou ridi­cularização. Como o próprio Senhor confirma na Bhagavad-gītā (4.9):
janma karma ca me divyam
evaṁ yo vetti tattvataḥ
tyaktvā dehaṁ punar janma
naiti mām eti so ’rjuna
“Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.” É através das autoridades védicas, e não da própria imaginação, que se deve procurar entender o aparecimento e o desaparecimento da Suprema Personalidade de Deus. Aquele que se deixa levar por suas imaginações referentes à Suprema Personalidade de Deus está condenado.
avajānanti māṁ mūḍhā
mānuṣīṁ tanum āśritam
paraṁ bhāvam ajānanto
mama bhūta-maheśvaram
(Bg. 9.11)
O Senhor aparece como filho de Seu devoto através de Seu paraṁ bhāvam. A palavra bhāva refere-se à fase de amor puro, que nada tem a ver com as atividades materiais.
युवां वै ब्रह्मणादिष्टौ प्रजासर्गे यदा तत:

सन्नियम्येन्द्रियग्रामं तेपाथे परमं तप: ॥ ३३ ॥
yuvāṁ vai brahmaṇādiṣṭau
prajā-sarge yadā tataḥ
sanniyamyendriya-grāmaṁ
tepāthe paramaṁ tapaḥ

Synonyms

yuvāmVós ambos (Pṛśni e Sutapā); vaina verdade; brahmaṇā ādiṣṭauordenados pelo senhor Brahmā (que é conhecido como Pitāmaha, o pai dos Prajāpatis); prajā-sargena criação de progê­nie; yadāquando; tataḥem seguida; sanniyamyamantendo sob pleno controle; indriya-grāmamos sentidos; tepāthesubmetestes-vos; paramama intensa; tapaḥausteridade.

Translation

Quando ambos recebestes do senhor Brahmā a ordem para procriardes, primeiramente vos submetestes a rigorosas austeridades, controlando vossos sentidos.

Purport

SIGNIFICADO—Eis uma instrução sobre como usar os sentidos para gerar uma prole. De acordo com os princípios védicos, antes de procriar, devem­-se controlar plenamente os sentidos. Esse controle se dá através do garbhādhāna-saṁskāra. Na Índia, há uma grande campanha de controle da natalidade mediante vários processos mecânicos, mas o nas­cimento não pode ser mecanicamente controlado. Como se afirma na Bhagavad-gītā (13.9), janma-mṛtyu-jarā-vyādhi-duḥkha-doṣānudarśanam: nascimento, morte, velhice e doença na certa são as aflições primárias do mundo material. As pessoas tentam controlar o nascimento, mas não são capazes de controlar a morte; e se alguém não pode controlar a morte, também não pode controlar o nascimento. Em outras palavras, o controle artificial do nascimento não é mais factível do que o controle artificial da morte.
De acordo com a civilização védica, a procriação não deve contrariar os princípios religiosos, em consequência do que a taxa de nascimentos será controlada. Como se afirma na Bhagavad-gītā (7.11), dharmāviruddho bhūteṣu kāmo ’smi: o sexo que não é contrário aos princípios reli­giosos é uma representação do Senhor Supremo. As pessoas devem ser instruídas a gerar bons filhos através de saṁskāras, começando com o garbhādhāna-saṁskāra; o nascimento não deve ser controlado por meios artificiais, pois isso produzirá uma civilização de animais. Se alguém seguir princípios religiosos, automaticamente praticará controle da natalidade, visto que quem possui educação espiritual sabe que os efeitos advindos do sexo são várias classes de sofrimentos (bahu­duḥkha-bhāja). Aquele que é espiritualmente avançado não se entrega ao sexo descontrolado. Portanto, em vez de serem forçadas a abster­-se de sexo ou evitar gerar muitos filhos, as pessoas devem ser espiritualmente educadas, e isso redundará automaticamente em controle de natalidade.
Se alguém está determinado a realizar avanço espiritual, não gera­rá um filho, a menos que consiga fazer deste um devoto. Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (5.5.18), pitā na sa syāt: ninguém deve tornar-se pai caso não seja capaz de proteger seu filho de mṛtyu, o caminho de nascimentos e mortes. No entanto, onde encontrar tal educa­ção? Um pai responsável jamais gera filhos à maneira dos cães e dos gatos. Em vez de serem encorajadas a adotar meios artificiais de controle de natalidade, as pessoas devem instruir-se na consciên­cia de Kṛṣṇa porque somente então entenderão a responsabilidade que têm para com seus filhos. Caso alguém possa gerar filhos que se tornem devotos e aprendam a escapar do caminho de nascimentos e mortes (mṛtyu-saṁsāra-vartmani), não haverá necessidade de controle de natalidade. Nessas circunstâncias, deve-se encorajá-lo a gerar filhos. Os meios artificiais de controle da natalidade não têm valor. Quer sejam gerados filhos, quer não, uma população de homens que são como cães e gatos nunca fará a sociedade humana feliz. Portanto, é necessário que as pessoas se eduquem espiritualmente para que, em vez de gerarem filhos à maneira dos cães e dos gatos, elas se subme­tam a austeridades para produzir devotos. Com isso, suas vidas serão exitosas.
वर्षवातातपहिमघर्मकालगुणाननु ।
सहमानौ श्वासरोधविनिर्धूतमनोमलौ ॥ ३४ ॥
शीर्णपर्णानिलाहारावुपशान्तेन चेतसा ।
मत्त: कामानभीप्सन्तौ मदाराधनमीहतु: ॥ ३५ ॥
varṣa-vātātapa-hima-
gharma-kāla-guṇān anu
sahamānau śvāsa-rodha-
vinirdhūta-mano-malau
śīrṇa-parṇānilāhārāv
upaśāntena cetasā
mattaḥ kāmān abhīpsantau
mad-ārādhanam īhatuḥ

Synonyms

varṣaa chuva; vātavento fustigante; ātapasol inclemente; himafrio severo; gharmacalor; kāla-guṇān anude acordo com as mudanças das estações; sahamānausuportando; śvāsa-rodhapraticando yoga, controlando a respiração; vinirdhūtaas sujeiras acumuladas na mente foram inteiramente expurgadas; manaḥ-malaua mente tornou-se limpa, livre da contaminação material; śīrṇarejeitadas, secas; parṇafolhas das árvores; anilae ar; āhāraualimentando-vos de; upaśāntenapacífica; cetasācom uma mente assaz controlada; mattaḥMinha; kāmān abhīpsantaudesejando pedir alguma bênção; matMinha; ārādhanamadoração; īhatuḥexecutastes.

Translation

Meus queridos pai e mãe, vós suportastes chuva, vento, sol forte, calor escaldante e frio severo, sofrendo toda classe de inconveniências, de acordo com as diferentes estações. Praticando prāṇāyāma para, através do yoga, controlar o ar dentro do corpo, e alimentan­do-vos apenas de ar e das folhas secas que caíam das árvores, tiras­tes de vossa mente toda sujeira. Desse modo, desejando uma bênção Minha, adorastes-Me com a mente pacífica.

Purport

SIGNIFICADO—Vasudeva e Devakī não obtiveram a Suprema Personalidade de Deus como seu filho muito facilmente; tampouco a Divindade Suprema aceita qualquer pessoa como Seu pai e Sua mãe. Aqui, podemos ver como Vasudeva e Devakī obtiveram Kṛṣṇa como seu filho eterno. Em nossas próprias vidas, para que possamos gerar bons filhos, é bom que sigamos os princípios indicados nesta passagem. Evidente­mente, não é possível que todos obtenham Kṛṣṇa como seu filho, mas pelo menos podem-se obter bons filhos e filhas úteis à sociedade humana. Na Bhagavad-gītā, afirma-se que, se os seres humanos não seguirem o caminho de vida espiritual, haverá um aumento de popu­lação varṇa-saṅkara, população gerada como cães e gatos, e o mundo inteiro se tornará um inferno. Deixar de praticar a consciência de Kṛṣṇa para simplesmente encorajar meios artificiais que impeçam o crescimento da população será inútil; a população aumentará, e consistirá em varṇa-saṅkara, progênie indesejável. É melhor ensinar a população a não gerar filhos como cães e porcos, mas a gerá-los dentro de uma vida regulada.
A vida humana não se destina a produzir cães ou porcos, mas à realização de tapo divyam, austeridade transcendental. Todos devem aprender a submeter-se a austeridades, tapasya. Embora talvez não seja possível alguém se submeter a um tapasya como aquele a que se submeteram Pṛśni e Suta­pā, os śāstras recomendam um método de tapasya muito fácil de se realizar – o movimento de saṅkīrtana. Ninguém conseguirá subme­ter-se a um tapasya através do qual obtenha Kṛṣṇa como seu filho, mas simplesmente cantando o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa (kīrtanād eva kṛṣṇasya), a pessoa se tornará tão pura que ficará livre de toda a contaminação deste mundo material (mukta-saṅgaḥ) e voltará ao lar, voltará ao Supremo (paraṁ vrajet). O movimento da consciên­cia de Kṛṣṇa, portanto, está ensinando as pessoas a não adotarem meios que lhes propiciem felicidade artificial, mas a seguirem o caminho da verdadeira felicidade como prescrito no śāstra – o canto do mantra Hare Kṛṣṇa – e aperfeiçoarem-se em todos os aspectos da existência material.
एवं वां तप्यतोस्तीव्रं तप: परमदुष्करम् ।
दिव्यवर्षसहस्राणि द्वादशेयुर्मदात्मनो: ॥ ३६ ॥
evaṁ vāṁ tapyatos tīvraṁ
tapaḥ parama-duṣkaram
divya-varṣa-sahasrāṇi
dvādaśeyur mad-ātmanoḥ

Synonyms

evamdessa maneira; vāmpara ambos; tapyatoḥexecutando austeridades; tīvrammuito rigorosas; tapaḥausteridade; parama­-duṣkaramextremamente difícil de executar; divya-varṣaanos celes­tiais, ou anos contados de acordo com o sistema planetário superior; sahasrāṇimil; dvādaśadoze; īyuḥpassaram-se; mat-ātmanoḥsimplesmente ocupados em consciência de Mim.

Translation

Assim, passastes doze mil anos celestiais realizando difíceis atividades de tapasya em consciência de Mim [consciência de Kṛṣṇa].
तदा वां परितुष्टोऽहममुना वपुषानघे ।
तपसा श्रद्धया नित्यं भक्त्या च हृदि भावित: ॥ ३७ ॥
प्रादुरासं वरदराड् युवयो: कामदित्सया ।
व्रियतां वर इत्युक्ते माद‍ृशो वां वृत: सुत: ॥ ३८ ॥
tadā vāṁ parituṣṭo ’ham
amunā vapuṣānaghe
tapasā śraddhayā nityaṁ
bhaktyā ca hṛdi bhāvitaḥ
prādurāsaṁ varada-rāḍ
yuvayoḥ kāma-ditsayā
vriyatāṁ vara ity ukte
mādṛśo vāṁ vṛtaḥ sutaḥ

Synonyms

tadāentão (após findarem-se doze mil anos celestiais); vāmconvosco; parituṣṭaḥ ahamfiquei muito satisfeito; amunācom isto; vapuṣānesta forma de Kṛṣṇa; anagheó Minha querida e impecá­vel mãe; tapasāpela austeridade; śraddhayāpela fé; nityamcons­tantemente (ocupados); bhaktyāpelo serviço devocional; cabem como; hṛdino âmago do coração; bhāvitaḥfixos (em determina­ção); prādurāsamapareci diante de vós (da mesma maneira); vara­da-rāṭo melhor de todos os outorgadores de bênçãos; yuvayoḥvosso; kāma-ditsayādesejando satisfazer o desejo; vriyatāmpedi que abrísseis vossas mentes; varaḥpara uma bênção; iti uktequando recebestes este pedido; mādṛśaḥexatamente como Eu; vāmde ambos; vṛtaḥfoi pedido; sutaḥcomo Vosso filho (queríeis um filho exatamente como Eu).

Translation

Ó impecável mãe Devakī, após expirarem doze mil anos celestiais, nos quais, munidos de grande fé, devoção e austeridade, constante­mente Me contemplastes no âmago de vossos corações, fiquei muito satisfeito convosco. Como sou o melhor de todos os outorgadores de bênçãos, apareci nesta mesma forma de Kṛṣṇa para pedir-vos que recebais de Mim a bênção que desejastes. Expressastes, então, o desejo de ter um filho exatamente como Eu.

Purport

SIGNIFICADO—Doze mil anos nos planetas celestiais não é um tempo muito longo para aqueles que vivem no sistema planetário superior, embora possa ser muito longo para aqueles que vivem neste planeta. Sutapā era filho de Brahmā, e a Bhagavad-gītā (8.17) informa-nos que um dia de Brahmā é igual a muitos milhões dos anos com os quais estamos familiarizados (sahasra-yuga-paryantam ahar yad brahmaṇo viduḥ). Devemos atentar ao fato de que, para obter Kṛṣṇa como seu filho, a pessoa deve submeter-se a essas grandes austeridades. Se deseja­mos fazer com que a Suprema Personalidade de Deus venha a este mundo material e Se torne um de nós, será preciso executarmos grandes penitências, mas, se desejamos voltar para Kṛṣṇa (tyaktvā dehaṁ punar janma naiti mām eti so ’rjuna), basta conhecê-lO e amá-lO. Basta termos amor e poderemos voltar ao lar, voltar ao Supremo, muito facilmente. Śrī Caitanya Mahāprabhu, portanto, declarou que premā pum-artho mahān: o amor a Deus é o maior triunfo que se pode alcançar.
Como já explicamos, existem três fases na adoração ao Senhor – jñāna, jñānamayī e rati, ou amor. Sutapā e sua esposa, Pṛśni, principiaram suas atividades devocionais com base no conhecimento pleno. Aos poucos, desenvolveram amor pela Suprema Personalidade de Deus, e, quando esse amor amadureceu, o Senhor apareceu como Viṣṇu, embora Devakī Lhe pedisse, então, que assumisse a forma de Kṛṣṇa. Para aumentarmos nosso amor pela Suprema Personalidade de Deus, desejamos que o Senhor Se apresente a nós em uma forma de Kṛṣṇa ou Rāma. Podemos ocupar-nos em trocas amorosas especial­mente com Kṛṣṇa.
Nesta era, todos nós somos caídos, mas a Suprema Personalidade de Deus apareceu como Caitanya Mahāprabhu para diretamente nos conceder amor a Deus. Os associados de Śrī Caitanya Mahāprabhu louvaram essa Sua atitude. Rūpa Gosvāmī disse (Caitanya-caritāmṛta, Madhya 19.53):
namo mahā-vadānyāya
kṛṣṇa-prema-pradāya te
kṛṣṇāya kṛṣṇa-caitanya-
nāmne gaura-tviṣe nama
Nesse verso, Śrī Caitanya Mahāprabhu é descrito como mahā-vadānya, a mais munificente das pessoas caridosas, porque Ele dá Kṛṣṇa tão facilmente aos outros que pode alcançar Kṛṣṇa quem simplesmente canta o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa. Portanto, devemos tirar proveito dessa bênção dada por Śrī Caitanya Mahāprabhu, e quando, através do canto do mantra Hare Kṛṣṇa, limparmo-nos de todas as sujeiras (ceto-darpaṇa-mārjanam), seremos capazes de entender muito facil­mente que Kṛṣṇa é o único objeto de amor (kīrtanād eva kṛṣṇasya mukta-saṅgaḥ paraṁ vrajet).
Logo, ninguém precisa submeter-se a rigorosas penitências que levam muitos milhares de anos; precisa-se apenas aprender a amar a Kṛṣṇa e sempre ocupar-se em Seu serviço (sevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ). Então, pode-se muito facilmente voltar ao lar, voltar ao Supremo. Se em vez de nos deixarmos levar por algum propósito material, tal como ter um filho ou alguma outra ambição dessas, procurarmos voltar ao lar, voltar ao Supremo, nossa verdadeira relação com o Senhor ficará patente e nos ocuparemos para sempre em nossa relação eterna. Cantando o mantra Hare Kṛṣṇa, pouco a pouco desenvolvemos nossa relação eterna com a Pessoa Suprema e, dessa maneira, alcançamos a perfeição chamada svarūpa-siddhi. Devemos tirar proveito dessa bênção e voltar ao lar, voltar ao Supremo. Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura, portanto, canta que patita-pāvana-hetu tava avatāra: Caitanya Mahāprabhu apareceu como uma encarnação para libertar todas as almas caídas como nós e diretamente nos conceder amor a Deus. Devemos tirar proveito dessa grande bênção outorgada pela magnífica Personalidade de Deus.
अजुष्टग्राम्यविषयावनपत्यौ च दम्पती ।
न वव्राथेऽपवगन मे मोहितौ देवमायया ॥ ३९ ॥
ajuṣṭa-grāmya-viṣayāv
anapatyau ca dam-patī
na vavrāthe ’pavargaṁ me
mohitau deva-māyayā

Synonyms

ajuṣṭa-grāmya-viṣayaupara a vida sexual e gerar um filho como Eu; anapatyaupor não possuírem filhos; catambém; dam-patīesposo e esposa; nanunca; vavrāthepedistes (alguma outra bênção); apavargampara libertar-vos deste mundo; mea Mim; mohitauestando muito atraídos; deva-māyayāpelo amor transcendental por Mim (desejando-Me como vosso amado filho).

Translation

Sendo esposo e esposa, mas sempre sem filhos, fostes atraídos pelo desejo sexual, pois, por influência de devamāyā, o amor transcendental, quisestes ter-Me como vosso filho. Portanto, nunca dese­jastes libertar-vos deste mundo material.

Purport

SIGNIFICADO—Desde a época de Sutapā e Pṛśni, Vasudeva e Devakī haviam sido dam-patī, esposo e esposa, e desejavam permanecer esposo e espo­sa para terem a Suprema Personalidade de Deus como seu filho. Esse apego foi provocado por influência de devamāyā. Alguém que ama Kṛṣṇa como seu filho está seguindo um princípio védico. Vasu­deva e Devakī jamais desejaram algo além de ter o Senhor como seu filho, mas, com esse propósito, eles aparentemente deseja­ram viver como gṛhasthas comuns para terem vida sexual. Em­bora essa fosse uma atividade da potência espiritual, o desejo deles lembra o apego ao sexo existente na vida conjugal. Se alguém quer retornar ao lar, retornar ao Supremo, deve abandonar esses desejos. Isso é possível somente quando a pessoa desenvolve intenso amor pela Suprema Personalidade de Deus. Śrī Caitanya Mahāprabhu diz:
niṣkiñcanasya bhagavad-bhajanonmukhasya
pāraṁ paraṁ jigamiṣor bhava-sāgarasya
(Caitanya-caritāmṛta, Madhya 11.8)
Se alguém quer voltar ao lar, voltar ao Supremo, deve tornar-se niṣkiñcana, livre de todos os desejos materiais. Portanto, em vez de desejar que o Senhor venha aqui e se torne seu filho, a pessoa deve procurar livrar-se de todos os desejos materiais (anyābhilāṣitā-śūnyam) e voltar ao lar, voltar ao Supremo. Śrī Caitanya Mahāprabhu nos ensina em Seu Śikṣāṣṭaka:
na dhanaṁ na janaṁ na sundarīṁ
kavitāṁ vā jagad-īśa kāmaye
mama janmani janmanīśvare
bhavatād bhaktir ahaitukī tvayi
“Ó Senhor todo-poderoso, não desejo acumular riquezas, nem dese­jo belas mulheres, tampouco desejo grande número de seguidores. Quero apenas Vosso serviço devocional imotivado, nascimento após nascimento.” Ninguém deve pedir que o Senhor satisfaça algum desejo com máculas materiais.
गते मयि युवां लब्ध्वा वरं मत्सद‍ृशं सुतम् ।
ग्राम्यान् भोगानभुञ्जाथां युवां प्राप्तमनोरथौ ॥ ४० ॥
gate mayi yuvāṁ labdhvā
varaṁ mat-sadṛśaṁ sutam
grāmyān bhogān abhuñjāthāṁ
yuvāṁ prāpta-manorathau

Synonyms

gate mayiapós Minha partida; yuvāmvós (esposo e esposa); labdhvāapós receberdes; varama bênção de (ter um filho); mat­-sadṛśamexatamente como Eu; sutamum filho; grāmyān bhogānocupação em sexo; abhuñjāthāmdesfrutastes de; yuvāmvós ambos; prāptatendo sido alcançado; manorathauo resultado desejado de vossas aspirações.

Translation

Depois que recebestes essa bênção e Eu desapareci, ocupastes-vos em sexo para terdes um filho como Eu, e satisfiz o vosso desejo.

Purport

SIGNIFICADO—De acordo com o dicionário sânscrito Amara-kośa, a vida sexual também se chama grāmya-dharma, desejo material, mas, na vida espiritual, esse grāmya-dharma, ou o desejo material de sexo, não é muito apreciado. Se alguém tem algum vestígio de apego ao gozo material, consistindo em comer, dormir, acasalar-se e defender-se, ele não é niṣkiñcana. Mas todos realmente devem ser niṣkiñcana. Portanto, todos devem estar livres do desejo de gerar filhos como Kṛṣṇa através do gozo sexual. Isso é indiretamente indicado neste verso.
अद‍ृष्ट्वान्यतमं लोके शीलौदार्यगुणै: समम् ।
अहं सुतो वामभवं पृश्न‍िगर्भ इति श्रुत: ॥ ४१ ॥
adṛṣṭvānyatamaṁ loke
śīlaudārya-guṇaiḥ samam
ahaṁ suto vām abhavaṁ
pṛśnigarbha iti śrutaḥ

Synonyms

adṛṣṭvānão encontrando; anyatamamnenhuma outra pessoa; lokeneste mundo; śīla-audārya-guṇaiḥcom as qualidades transcendentais de bom caráter e magnanimidade; samamigual a vós; ahamEu; sutaḥo filho; vāmde vós ambos; abhavamtornei-Me; pṛśni-garbhaḥcélebre por ter nascido de Pṛśni; itiassim; śrutaḥsou conhecido.

Translation

Como não encontrei nenhuma outra pessoa tão ele­vadíssima como vós em simplicidade e outras qualidades de bom cará­ter, apareci neste mundo como Pṛśnigarbha, ou aquele que é célebre por ter nascido de Pṛśni.

Purport

SIGNIFICADO—Em Treta-yuga, o Senhor apareceu como Pṛśnigarbha. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura diz: pṛśnigarbha iti so ’yaṁ tretā-yugāvatāro lakṣyate.
तयोवान पुनरेवाहमदित्यामास कश्यपात् ।
उपेन्द्र इति विख्यातो वामनत्वाच्च वामन: ॥ ४२ ॥
tayor vāṁ punar evāham
adityām āsa kaśyapāt
upendra iti vikhyāto
vāmanatvāc ca vāmanaḥ

Synonyms

tayoḥde vós dois, esposo e esposa; vāmem vós ambos; punaḥ evamais uma vez; ahamEu mesmo; adityāmno ventre de Aditi; āsaapareci; kaśyapātpor intermédio do sêmen de Kaśyapa Muni; upendraḥchamado Upendra; itiassim; vikhyātaḥcélebre; vāmanatvāt cae por ser um anão; vāmanaḥEu era co­nhecido como Vāmana.

Translation

No milênio seguinte, apareci mais uma vez por intermédio de vós, que fostes Minha mãe, Aditi, e Meu pai, Kaśyapa. Eu era conheci­do como Upendra e, por ser um anão, também era conhecido como Vāmana.
तृतीयेऽस्मिन् भवेऽहं वै तेनैव वपुषाथ वाम् ।
जातो भूयस्तयोरेव सत्यं मे व्याहृतं सति ॥ ४३ ॥
tṛtīye ’smin bhave ’haṁ vai
tenaiva vapuṣātha vām
jāto bhūyas tayor eva
satyaṁ me vyāhṛtaṁ sati

Synonyms

tṛtīyepela terceira vez; asmin bhaveneste aparecimento (como Kṛṣṇa); ahamEu próprio; vaina verdade; tenacom a mesma personalidade; evadessa maneira; vapuṣācom a forma; athacomo; vāmde vós ambos; jātaḥnascido; bhūyaḥnovamente; tayoḥde vós ambos; evana verdade; satyamaceitai como verdadeiras; meMinhas; vyāhṛtampalavras; satió sumamente casta.

Translation

Ó mãe sumamente casta, Eu, a mesma personalidade, acabo de aparecer de vós como vosso filho, pela terceira vez. Aceitai Minhas palavras como verdadeiras.

Purport

SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus escolhe uma mãe e um pai de quem possa nascer repetidas vezes. O Senhor primeiramente nasceu de Sutapā e Pṛśni, depois de Kaśyapa e Aditi, e novamente dos mesmos pai e mãe, Vasudeva e Devakī. “Também em outros aparecimentos”, disse o Senhor, “assumi a forma de uma criança comum sim­plesmente para tornar-Me vosso filho, de modo que pudéssemos reciprocar amor eterno.” Jīva Gosvāmī explica este verso em seu Kṛṣṇa-sandarbha, nonagésimo sexto capítulo, onde ele comenta que, no verso 37, o Senhor diz que amunā-vapuṣa, significando “nesta mesma forma”. Em outras palavras, o Senhor disse a Deva­kī: “Desta vez, apareci sob Minha forma original, como Śrī Kṛṣṇa.” Śrīla Jīva Gosvāmī afirma que as outras formas eram expansões parciais da forma original do Senhor, mas, devido ao intenso amor desenvolvido por Pṛśni e Sutapā, o Senhor apareceu de Deva­kī e Vasudeva manifestando plena opulência como Śrī Kṛṣṇa. Neste verso, o Senhor confirma: “Sou a mesma Suprema Personalidade de Deus, mas, como Śrī Kṛṣṇa, apareço em plena opulência.” Esse é o significado das palavras tenaiva vapuṣā. Ao mencionar o nas­cimento de Pṛśnigarbha, o Senhor não disse tem tenaiva vapuṣā, mas assegurou a Devakī que, no terceiro nascimento, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, havia aparecido, e não Sua expansão parcial. Pṛśnigarbha e Vāmana eram expansões parciais de Kṛṣṇa, mas, neste terceiro nascimento, o próprio Kṛṣṇa apareceu. É essa a explicação que Śrīla Jīva Gosvāmī apresenta no Śrī Kṛṣṇa-sandarbha.
एतद् वां दर्शितं रूपं प्राग्जन्मस्मरणाय मे ।
नान्यथा मद्भ‍वं ज्ञानं मर्त्यलिङ्गेन जायते ॥ ४४ ॥
etad vāṁ darśitaṁ rūpaṁ
prāg-janma-smaraṇāya me
nānyathā mad-bhavaṁ jñānaṁ
martya-liṅgena jāyate

Synonyms

etatesta forma de Viṣṇu; vāma vós ambos; darśitamfoi mostrada; rūpamMinha forma como a Suprema Personalidade de Deus com quatro mãos; prāk-janmade Meus aparecimentos anteriores; smaraṇāyasimplesmente para que pudésseis lembrar­vos; meMeu; nanão; anyathāde outro modo; mat-bhavamaparecimento de Viṣṇu; jñānameste conhecimento transcendental; martya-liṅgenanascendo como uma criança humana; jāyatesurge.

Translation

Mostrei-vos esta forma de Viṣṇu simplesmente para que pudésseis lembrar-vos de Meus nascimentos anteriores. Se Eu aparecesse como uma criança humana comum não acreditaríeis que a Suprema Perso­nalidade de Deus, Viṣṇu, realmente apareceu.

Purport

SIGNIFICADO—Não era preciso lembrar a Devakī que a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Viṣṇu, aparecera como seu filho; ela já aceitava isso. Entretanto, ela estava ansiosa, preocupada com o fato de que, se os vizinhos ouvissem que Viṣṇu aparecera como seu filho, nenhum deles acreditaria nisso. Portanto, ela quis que o Senhor Viṣṇu Se transformasse em uma criança humana. Por outro lado, o Senhor Supremo também estava ansioso, pensando que, se aparecesse como uma criança comum, ela não acreditaria que o Senhor Viṣṇu havia aparecido. Tais relacionamentos se dão entre os devotos e o Senhor. O Senhor convive com Seus devotos exatamente como um ser huma­no, mas isso não significa que o Senhor seja um dos seres humanos, embora essa seja a conclusão dos não-devotos (avajānanti māṁ mūḍhā mānuṣīṁ tanum āśritam). Os devotos conhecem a Suprema Personalidade de Deus em quaisquer circunstâncias. Essa é a diferen­ça entre um devoto e um não-devoto. O Senhor diz que man-manā bhava mad-bhakto mad-yājī māṁ namaskuru: “Ocupa tua mente sempre em pensar em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reve­rências e adora-Me.” O não-devoto não pode acreditar que, pelo simples fato de pensar em uma pessoa, alguém consiga libertar-se deste mundo material e voltar ao lar, voltar ao Supremo. Mas isso é verdade. O Senhor vem como um ser humano, e se alguém se apega ao Senhor, prestando-Lhe serviço amoroso, sua promoção ao mundo transcendental está garantida.
युवां मां पुत्रभावेन ब्रह्मभावेन चासकृत् ।
चिन्तयन्तौ कृतस्‍नेहौ यास्येथे मद्गतिं पराम् ॥ ४५ ॥
yuvāṁ māṁ putra-bhāvena
brahma-bhāvena cāsakṛt
cintayantau kṛta-snehau
yāsyethe mad-gatiṁ parām

Synonyms

yuvāmvós ambos (esposo e esposa); māma Mim; putra-bhāve­nacomo vosso filho; brahma-bhāvenasabendo que sou a Suprema Personalidade de Deus; cae; asakṛtconstante; cintayantaucom este pensamento; kṛta-snehaulidando com amor e afeição; yāsye­theambos obtereis; mat-gatimMinha morada suprema; parāmque é transcendental, além deste mundo material.

Translation

Vós ambos, esposo e esposa, pensais constantemente em Mim como vosso filho, mas sabeis sempre que sou a Suprema Personalidade de Deus. Assim, pensando constantemente em Mim com amor e afeição, alcançareis a perfeição máxima – retornar ao lar, retornar ao Supremo.

Purport

SIGNIFICADO—Esta instrução que a Suprema Personalidade de Deus apresenta a Seu pai e Sua mãe, que estão eternamente relacionados com Ele, visa especialmente às pessoas ansiosas por retornar ao lar, retornar ao Supremo. Ninguém jamais deve ser como os não-devotos, que pensam que a Suprema Personalidade de Deus é um ser humano comum. Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, apareceu pessoalmente e deixou Suas instruções em benefício de toda a sociedade humana, mas os tolos e patifes pensam que Ele é um ser humano comum e, para a satisfação dos seus sentidos, deturpam as instruções da Bhagavad-gītā. Praticamente todos aqueles que comentam a Bhagavad-gītā interpretam-na para estimular o gozo dos sentidos. Está especialmente me alta os eruditos e políticos modernos interpretarem a Bhagavad-gītā como se fosse algo fictício, e, com suas interpretações errôneas, eles estão arruinando suas próprias carreiras e as carreiras dos outros. O movimento da consciência de Kṛṣṇa, entretanto, está lutando contra esse princípio segundo o qual Kṛṣṇa é tido como uma pessoa fictícia e aceita-se que não houve a Guerra de Kurukṣetra, que tudo é simbólico, e que nada na Bhagavad-gītā é verdade. Em qualquer caso, se alguém realmente deseja sair triunfante, ele o conseguirá lendo o texto da Bhagavad-gītā como ela é. Śrī Caitanya Mahāprabhu dá especial ênfase às instruções da Bhagavad-gītā: yāre dekha, tāre kaha ‘kṛṣṇa’-upadeśa. Se alguém quer alcançar o sucesso máximo na vida, deve aceitar a Bhagavad-gītā como é falada pelo Senhor Supremo. Aceitando a Bhagavad-gītā dessa maneira, toda a sociedade humana pode tornar-se perfeita e feliz.
Deve-se atentar ao fato de que, como Vasudeva e Devakī se separariam de Kṛṣṇa quando Ele fosse levado a Gokula, a residência de Nanda Mahārāja, o Senhor instruiu-lhes pessoalmente que deve­riam sempre pensar nEle como seu filho e como a Suprema Perso­nalidade de Deus. Isso os manteria em contato com Ele. Após onze anos, o Senhor retornaria a Mathurā para ser filho deles, de modo que a separação era algo incogitável.
श्रीशुक उवाच
इत्युक्त्वासीद्धरिस्तूष्णीं भगवानात्ममायया ।
पित्रो: सम्पश्यतो: सद्यो बभूव प्राकृत: शिशु: ॥ ४६ ॥
śrī-śuka uvāca
ity uktvāsīd dharis tūṣṇīṁ
bhagavān ātma-māyayā
pitroḥ sampaśyatoḥ sadyo
babhūva prākṛtaḥ śiśuḥ

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; iti uktvāapós dar essas instruções; āsītpermaneceu; hariḥa Suprema Persona­lidade de Deus; tūṣṇīmsilencioso; bhagavānSenhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus; ātma-māyayāagindo com Sua própria energia espiritual; pitroḥ sampaśyatoḥenquanto Seu pai e Sua mãe realmente O viam; sadyaḥimediatamente; babhūvaEle Se tornou; prākṛtaḥcomo um ser humano comum; śiśuḥuma criança.

Translation

Śukadeva Gosvāmī disse: Após dar essas instruções a Seu pai e Sua mãe, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, manteve-Se em silêncio. Então, diante deles, através de Sua energia interna, Ele Se transformou­ em uma criancinha humana. [Em outras palavras, transfor­mou-Se em Sua forma original: kṛṣṇas tu bhagavān svayam.]

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma na Bhagavad-gītā (4.6), sambhavāmy ātma-māyayā: tudo o que é feito pela Suprema Personalidade de Deus é feito por Sua energia espiritual; a energia material nada Lhe impõe. Essa é a diferença entre o Senhor e as entidades vivas ordinárias. Os Vedas dizem:
parāsya śaktir vividhaiva śrūyate
svābhāvikī jñāna-bala-kriyā ca
(Śvetāśvatara Upaniṣad 6.8)
Para o Senhor, é natural não estar maculado por qualidades materiais, e como tudo está perfeitamente presente em Sua energia espiri­tual, logo que Ele deseja algo, isso acontece de imediato. O Senhor não é prākṛta-śiśu, uma criança deste mundo, mas, mediante Sua energia pessoal, Ele Se parecia com uma. As pessoas comuns talvez sintam dificuldade em aceitar o controlador supremo, Deus, como um ser humano porque se esquecem de que Ele pode fazer tudo através da energia espiritual (ātma-māyayā). Os incrédulos dizem: “Como o controlador supremo poderia descer como um ser comum?” Essa classe de pensamento é materialista. Śrīla Jīva Go­svāmī diz que, a menos que aceitemos a energia da Suprema Perso­nalidade de Deus como inconcebível, situada além de tudo aquilo que nossas palavras e mente possam conceber, não poderemos enten­der o Senhor Supremo. Aqueles que duvidam de que a Suprema Personalidade de Deus possa advir como um ser humano e tornar-Se uma criança humana são tolos que pensam que o corpo de Kṛṣṇa é material, que Ele nasce e, portanto, também morre.
O Śrīmad-Bhāgavatam, terceiro canto, quarto capítulo, versos 28 e 29, descreve Kṛṣṇa deixando Seu corpo. Mahārāja Parīkṣit per­guntou a Śukadeva Gosvāmī: “Quando todos os membros da dinas­tia Yadu finaram-se, Kṛṣṇa também Se encerrou, e o único membro da família que permaneceu vivo foi Uddhava. Como isso foi possível?” Śukadeva Gosvāmī respondeu que Kṛṣṇa, através de Sua própria energia, destruiu toda a família e, então, pensou em fazer Seu próprio corpo desaparecer. Com relação a isso, Śukadeva Go­svāmī descreveu como o Senhor abandonou o Seu corpo. Mas isso não foi a destruição do corpo de Kṛṣṇa; ao contrário, o Senhor Su­premo desapareceu através de Sua energia pessoal.
Na verdade, o Senhor não abandona Seu corpo, que é eterno, senão que, assim como Ele pode transformar Seu corpo da forma de Viṣṇu para a de uma criança humana comum, Ele pode transformar Seu corpo em qualquer forma que Lhe aprouver. Isso não significa que Ele abandone Seu corpo. Através da energia espiritual, o Senhor pode aparecer em um corpo feito de madeira ou pedra. Ele pode transformar Seu corpo em qualquer coisa porque tudo é uma energia Sua (parāsya śaktir vividhaiva śrūyate). Como diz claramente a Bhagavad-gītā (7.4), bhinnā prakṛtir aṣṭadhā: os elementos materiais são ener­gias separadas do Senhor Supremo. Mesmo que Se transforme na arcā-mūrti, a Deidade adorável, que vemos como pedra ou madeira, Ele continua sendo Kṛṣṇa. Logo, os śāstras advertem que arcye viṣṇau śilā-dhīr guruṣu nara-matiḥ. Aquele que pensa que a Deidade adorada no templo é feita de madeira ou pedra, aquele que vê o guru vaiṣṇava como um ser humano comum, ou aquele que se vale de sua concepção material para inferir que o vaiṣṇava pertence a uma casta específica são nārakī, habitantes do inferno. A Suprema Perso­nalidade de Deus pode aparecer diante de nós em muitas formas, como bem Lhe aprouver, mas devemos conhecer os fatos: janma karma ca me divyam evaṁ yo vetti tattvataḥ. (Bhagavad-gītā 4.9) Seguindo as instruções de sādhu, guru e śāstra – as pessoas santas, o mestre espiritual e as escrituras autorizadas –, a pessoa pode entender Kṛṣṇa e, então, tornar sua vida exitosa, retornando ao lar, retornan­do ao Supremo.
ततश्च शौरिर्भगवत्प्रचोदित:
सुतं समादाय स सूतिकागृहात् ।
यदा बहिर्गन्तुमियेष तर्ह्यजा
या योगमायाजनि नन्दजायया ॥ ४७ ॥
tataś ca śaurir bhagavat-pracoditaḥ
sutaṁ samādāya sa sūtikā-gṛhāt
yadā bahir gantum iyeṣa tarhy ajā
yā yoga-māyājani nanda-jāyayā

Synonyms

tataḥem seguida; cana verdade; śauriḥVasudeva; bhagavat­-pracoditaḥsendo instruído pela Suprema Personalidade de Deus; sutamseu filho; samādāyacarregando com muito cuidado; saḥele; sūtikā-gṛhātda sala de maternidade; yadāquando; bahiḥ gantumsair; iyeṣadesejou; tarhinaquele exato momento; ajāa energia transcendental, que também nunca nasce; que; yoga­māyāé conhecida como Yogamāyā; ajaninasceu; nanda-jāyayāda esposa de Nanda Mahārāja.

Translation

Em seguida, exatamente quando Vasudeva, recebendo inspiração da Suprema Personalidade de Deus, estava prestes a levar da sala de parto a criança recém-nascida, Yogamāyā, a energia espiritual do Senhor, nasceu como a filha da esposa de Mahārāja Nanda.

Purport

SIGNIFICADO—Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta que, juntamente com a energia espiritual, Yogamāyā, Kṛṣṇa apareceu simultaneamente como filho de Devakī e filho de Yaśodā. Como filho de Devakī, primeiro Ele apareceu como Viṣṇu, e porque Vasudeva não estava na posição de afeição pura por Kṛṣṇa, Vasudeva adorou seu filho como o Senhor Viṣṇu. Yaśodā, entretanto, satisfez seu filho Kṛṣṇa sem entender Sua divindade. Esta é a diferença entre o Kṛṣṇa filho de Yaśodā e o Kṛṣṇa filho de Devakī. Isso é explicado por Viśvanātha Cakravartī, com base na autoridade do Hari-vaṁśa.
तया हृतप्रत्ययसर्ववृत्तिषु
द्वा:स्थेषु पौरेष्वपि शायितेष्वथ ।
द्वारश्च सर्वा: पिहिता दुरत्यया
बृहत्कपाटायसकीलश‍ृङ्खलै: ॥ ४८ ॥
ता: कृष्णवाहे वसुदेव आगते
स्वयं व्यवर्यन्त यथा तमो रवे: ।
ववर्ष पर्जन्य उपांशुगर्जित:
शेषोऽन्वगाद् वारि निवारयन्‌ फणै: ॥ ४९ ॥
tayā hṛta-pratyaya-sarva-vṛttiṣu
dvāḥ-stheṣu paureṣv api śāyiteṣv atha
dvāraś ca sarvāḥ pihitā duratyayā
bṛhat-kapāṭāyasa-kīla-śṛṅkhalaiḥ
tāḥ kṛṣṇa-vāhe vasudeva āgate
svayaṁ vyavaryanta yathā tamo raveḥ
vavarṣa parjanya upāṁśu-garjitaḥ
śeṣo ’nvagād vāri nivārayan phaṇaiḥ

Synonyms

tayāpor influência de Yogamāyā; hṛta-pratyayaprivados de toda a sensação; sarva-vṛttiṣutendo todos os seus sentidos; dvāḥ-­stheṣutodos os porteiros; paureṣu apibem como os outros membros da casa; śāyiteṣudormindo muito profundamente; athaquando Vasudeva tentou tirar do confinamento seu filho transcendental; dvāraḥ cabem como as portas; sarvāḥtodas; pihitāḥconstruídas; duratyayāmuito firmes e rígidas; bṛhat-kapāṭae nos portões; āyasa-kīla-śṛṅkhalaiḥfortemente construídos com hastes de ferro e fechadas com correntes de ferro; tāḥtodos eles; kṛṣṇa-vāhesegurando Kṛṣṇa; vasudevequando Vasudeva; āgateapareceu; svayamautomaticamente; vyavaryantaescancararam-se; yathācomo; tamaḥescuridão; raveḥcom o aparecimento do Sol; vavarṣaderramaram chuva; parjanyaḥas nuvens do céu; upāṁśu-garjitaḥressoando muito levemente e derramando uma chuva suave; śeṣaḥAnanta-nāga; anvagātseguiu; vāritorrentes de chuva; nivārayancontendo; phaṇaiḥestendendo Seus capelos.

Translation

Por influência de Yogamāyā, todos os porteiros caíram em sono profundo, e seus sentidos ficaram incapazes de funcionar, e os outros habitantes da casa também adormeceram profundamente. Quando o Sol nasce, a escuridão automaticamente desaparece; do mesmo modo, quando Vasudeva apareceu, as portas, estando fechadas com fortes travas e correntes de ferro, abriram-se automaticamente. Visto que trovões e chuva eram mansamente produzidos pelas nuvens do céu, Ananta-nāga, uma expansão da Suprema Personalidade de Deus, seguiu Vasudeva a partir da porta, estendendo Seus capelos para proteger Vasudeva e a criança transcendental.

Purport

SIGNIFICADO—Śeṣa-nāga é uma expansão da Suprema Personalidade de Deus cuja ocupação consiste em servir ao Senhor com toda a parafernália necessária. Enquanto Vasudeva carregava a criança, Śeṣa-nāga veio servir ao Senhor e protegê-lO da tempestade.
मघोनि वर्षत्यसकृद् यमानुजा
गम्भीरतोयौघजवोर्मिफेनिला ।
भयानकावर्तशताकुला नदी
मागन ददौ सिन्धुरिव श्रिय: पते: ॥ ५० ॥
maghoni varṣaty asakṛd yamānujā
gambhīra-toyaugha-javormi-phenilā
bhayānakāvarta-śatākulā nadī
mārgaṁ dadau sindhur iva śriyaḥ pateḥ

Synonyms

maghoni varṣatidevido à chuva que o senhor Indra enviava; asakṛtconstantemente; yama-anujāo rio Yamunā, que é considerado a irmã caçula de Yamarāja; gambhīra-toya-oghadas águas bem profundas; javapela força; ūrmipelas ondas; phenilācheias de espuma; bhayānakarevoltas; āvarta-śatapelas ondas que re­demoinhavam; ākulāagitado; nadīo rio; mārgampassagem; dadaudeu; sindhuḥ ivacomo o oceano; śriyaḥ pateḥao Senhor Rāmacandra, o esposo da deusa Sītā.

Translation

Devido à constante chuva enviada pelo semideus Indra, o rio Yamunā transbordou, e suas águas espumavam, formando ondas revoltas. Porém, assim como o grande Oceano Índico anteriormente deu passagem ao Senhor Rāmacandra, permitindo que Ele construísse uma ponte, o rio Yamunā abriu passagem a Vasudeva e permitiu que ele o atravessasse.
नन्दव्रजं शौरिरुपेत्य तत्र तान्
गोपान् प्रसुप्तानुपलभ्य निद्रया ।
सुतं यशोदाशयने निधाय त-
त्सुतामुपादाय पुनर्गृहानगात् ॥ ५१ ॥
nanda-vrajaṁ śaurir upetya tatra tān
gopān prasuptān upalabhya nidrayā
sutaṁ yaśodā-śayane nidhāya tat-
sutām upādāya punar gṛhān agāt

Synonyms

nanda-vrajama vila ou a casa de Nanda Mahārāja; śauriḥVasudeva; upetyaalcançando; tatra; tāntodos os membros; gopānos vaqueiros; prasuptānestavam profundamente adormecidos; upalabhyaentendendo isto; nidrayāem sono profundo; sutamo filho (filho de Vasudeva); yaśodā-śayanena cama onde mãe Yaśodā dormia; nidhayapondo; tat-sutāma filha dela; upā­dāyapegando; punaḥnovamente; gṛhānpara a sua própria casa; agātretornou.

Translation

Ao alcançar a casa de Nanda Mahārāja, Vasudeva viu que todos os vaqueiros estavam profundamente adormecidos. Assim, ele pôs seu próprio filho na cama de Yaśoda, pegou-lhe a filha, uma expansão de Yogamāyā, e, em seguida, regressou à sua residência, a prisão na casa de Kaṁsa.

Purport

SIGNIFICADO—Vasudeva sabia muito bem que, tão logo a filha estivesse na prisão que ficava na casa de Kaṁsa, esse imediatamente a mataria, mas, para proteger seu próprio filho, ele teria de deixar morrer a filha de seu amigo. Nanda Mahārāja era seu amigo, mas, devido à pro­funda afeição e apego a seu próprio filho, ele tomou essa atitude deliberadamente. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura diz que ninguém pode ser censurado por proteger seu próprio filho com o sacrifício do filho de outrem. Ademais, Vasudeva não pode ser acusado de insensibilidade, uma vez que suas ações foram impelidas pela força de Yogamāyā.
देवक्या: शयने न्यस्य वसुदेवोऽथ दारिकाम् ।
प्रतिमुच्य पदोर्लोहमास्ते पूर्ववदावृत: ॥ ५२ ॥
devakyāḥ śayane nyasya
vasudevo ’tha dārikām
pratimucya pador loham
āste pūrvavad āvṛtaḥ

Synonyms

devakyāḥde Devakī; śayanena cama; nyasyapondo; vasudevaḥVasudeva; athaassim; dārikāma menina; pratimucyaprendendo-se novamente; padoḥ lohamcom algemas de ferro nas duas pernas; āstepermaneceu; pūrva-vatcomo antes; āvṛtaḥpreso.

Translation

Vasudeva colocou a menina na cama de Devakī, prendeu suas próprias pernas com as algemas de ferro e, então, ali permaneceu como antes.
यशोदा नन्दपत्नी च जातं परमबुध्यत ।
न तल्लिङ्गं परिश्रान्ता निद्रयापगतस्मृति: ॥ ५३ ॥
yaśodā nanda-patnī ca
jātaṁ param abudhyata
na tal-liṅgaṁ pariśrāntā
nidrayāpagata-smṛtiḥ

Synonyms

yaśodāYaśodā, a mãe de Kṛṣṇa em Gokula; nanda-patnīa esposa de Nanda Mahārāja; catambém; jātamnasceu uma criança; parama Pessoa Suprema; abudhyatapodia entender; nanão; tat-liṅgamse a criança era menino ou menina; pariśrāntādevido ao extenuante trabalho de parto; nidrayāquando ficou mergulhada no sono; apagata-smṛtiḥtendo perdido a consciência.

Translation

Exausta com o trabalho de parto, Yaśodā estava mergulhada no sono e não sabia qual o sexo da criança que lhe nascera.

Purport

SIGNIFICADO—Nanda Mahārāja e Vasudeva eram amigos íntimos, e também o eram suas esposas, Yaśodā e Devakī. Embora seus nomes fossem diferentes, eles eram praticamente as mesmas personalidades. A única diferença era que Devakī era capaz de entender que a Suprema Personalidade de Deus nascera dela e agora Se transformara em Kṛṣṇa, ao passo que Yaśodā não era capaz de entender que tipo de criança nascera dela. Yaśodā era uma devota tão avançada que jamais tratava Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus, senão que simplesmente amava-O como seu próprio filho. Devakī, entretanto, sabia desde o começo que, embora fosse seu filho, Kṛṣṇa era a Suprema Personali­dade de Deus. Em Vṛndāvana, ninguém tratava Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Quando algo muito maravilhoso acontecia devido às atividades de Kṛṣṇa, os habitantes de Vṛndāvana – os vaqueiros, os vaqueirinhos, Nanda Mahārāja, Yaśodā e outros – ficavam surpresos, mas nunca consideravam seu filho Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Às vezes, eles propunham que algum grande semideus aparecera ali como Kṛṣṇa. Nesse elevado nível de serviço devocional, o devoto se esquece da posição de Kṛṣṇa e ama intensamente a Suprema Personalidade de Deus, sem com­preender Sua posição. Isso se chama kevala-bhakti e é diferente dos estados de jñāna e jñānamayī bhakti.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do décimo canto, terceiro capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intituladoO Nascimento do Senhor Kṛṣṇa”.