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Capítulo Vinte e Dois

O Encontro de Pṛthu Mahārāja com os Quatro Kumāras

मैत्रेय उवाच
जनेषु प्रगृणत्स्वेवं पृथुं पृथुलविक्रमम् ।
तत्रोपजग्मुर्मुनयश्चत्वार: सूर्यवर्चस: ॥ १ ॥
maitreya uvāca
janeṣu pragṛṇatsv evaṁ
pṛthuṁ pṛthula-vikramam
tatropajagmur munayaś
catvāraḥ sūrya-varcasaḥ

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maitreyaḥ uvācao grande sábio Maitreya continuou a falar; janeṣuos cidadãos; pragṛṇatsuenquanto oravam a; evam­assim; pṛthuma Mahārāja Pṛthu; pṛthumaltamente; vikramam­poderoso; tatraali; upajagmuḥchegaram; munayaḥos Kumā­ras; catvāraḥquatro; sūryacomo o Sol; varcasaḥbrilhantes.

Translation

O grande sábio Maitreya disse: Enquanto os cidadãos oravam assim ao poderosíssimo rei Pṛthu, os quatro Kumāras, que eram brilhantes como o Sol, chegaram àquele lugar.
तांस्तु सिद्धेश्वरान् राजा व्योम्नोऽवतरतोऽर्चिषा ।
लोकानपापान् कुर्वाणान् सानुगोऽचष्ट लक्षितान् ॥ २ ॥
tāṁs tu siddheśvarān rājā
vyomno ’vatarato ’rciṣā
lokān apāpān kurvāṇān
sānugo ’caṣṭa lakṣitān

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tāna eles; tumas; siddha-īśvarānmestres de todo o poder místico; rājāo rei; vyomnaḥdo céu; avatarataḥenquanto desciam; arciṣāpor sua refulgência resplandecente; lokāntodos os planetas; apāpānimpecáveis; kurvāṇānfazendo isso; sa-anugaḥcom seus associados; acaṣṭareconheceram; lakṣitānao vê-los.

Translation

Vendo a refulgência resplandecente dos quatro Kumāras, mestres de todo o poder místico, o rei e seus associados puderam reconhecê-los à medida que eles desciam do céu.

Purport

SIGNIFICADODescreve-se aqui os quatro Kumāras como siddheśvarān, significando “mestres de todo o poder místico”. Quem alcança a perfeição na prática de yoga torna-se imediatamente mestre das oito perfeições místicas – tornar-se menor que o menor, mais leve que o mais leve, maior que o maior, obter qualquer coisa que se deseje, controlar tudo etc. Esses quatro Kumāras, como siddheśvaras, haviam conquistado todas as perfeições ióguicas, de modo que podiam viajar pelo espaço exterior sem máquinas. Enquanto vinham de outros planetas até onde estava Mahārāja Pṛthu, eles não o faziam em aeroplano, mas livremente. Em outras palavras, esses quatro Kumāras também eram homens do espaço, podendo viajar pelo espaço sem máquinas. Os habitantes do planeta conhe­cido como Siddhaloka podem viajar pelo espaço exterior, de um planeta a outro, sem veículos. Entretanto, o poder especial dos Kumāras, aqui mencionado, é que todo lugar por eles visitado tornava-se imediatamente impecável. Durante o reinado de Mahārāja Pṛthu, tudo na superfície deste planeta era impecável, em razão do que os Kumāras decidiram visitar o rei. Normalmente, eles não vão a nenhum planeta que seja pecaminoso.
तद्दर्शनोद्गतान् प्राणान् प्रत्यादित्सुरिवोत्थित: ।
ससदस्यानुगो वैन्य इन्द्रियेशो गुणानिव ॥ ३ ॥
tad-darśanodgatān prāṇān
pratyāditsur ivotthitaḥ
sa-sadasyānugo vainya
indriyeśo guṇān iva

Synonyms

tata ele; darśanavendo; udgatānsendo muito desejada; prāṇānvida; pratyāditsuḥindo pacificamente; ivacomo; utthitaḥlevantou-se; sacom; sadasyaassociados ou seguidores; anugaḥauxiliares; vainyaḥrei Pṛthu; indriya-īśaḥuma entidade viva; guṇān ivacomo se estivesse influenciada pelos modos da natureza material.

Translation

Vendo os quatro Kumāras, Pṛthu Mahārāja ficou ansiosíssimo por recebê-los. Portanto, o rei, junto com todos os seus auxiliares, levantou-se bem apressado, tão ansiosamente como uma alma condicionada cujos sentidos ficam imediatamente atraídos pelos modos da natureza material.

Purport

SIGNIFICADO—A Bhagavad-gītā (3.27) diz:
prakṛteḥ kriyamāṇāni
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
Toda alma condicionada é influenciada por uma mistura especí­fica dos modos da natureza material. Sendo assim, a alma condi­cionada fica atraída por determinados tipos de atividade que ela é forçada a executar por estar totalmente sob a influência da natu­reza material. Nesta passagem, Pṛthu Mahārāja é comparado a uma alma condicionada assim, não porque fosse uma alma condi­cionada, mas porque sua ansiedade por receber os Kumāras era tanta que parecia que, sem eles, perderia sua vida. A alma condicionada se atrai pelos objetos de gozo dos sentidos. Seus olhos se atraem por ver coisas belas, seus ouvidos se atraem por ouvir boa música, seu nariz se atrai por cheirar o aroma de uma bela flor, e sua língua se atrai pelo gosto de boa comida. Do mesmo modo, todos os seus outros sentidos – as mãos, as pernas, o estômago, os órgãos genitais, a mente etc. – são tão suscetíveis à atração pelos objetos de gozo que ela não pode se conter. Pṛthu Mahārāja, da mesma maneira, não pôde conter-se diante da oportunidade de receber os quatro Kumāras, que eram radiantes em virtude de seu progresso espiritual, e assim, não ape­nas ele, como também seus auxiliares e associados, todos receberam os quatro Kumāras. Segundo o ditado, “cada qual com seu igual”. Neste mundo, todos sentem atração por uma pessoa da mesma categoria. Uma pessoa afeita a bebidas alcoólicas se atrai por pessoas que também são alcóolatras. Da mesma forma, a pessoa santa se atrai por outras pessoas santas. Pṛthu Mahārāja estava na posição mais elevada de avanço espiritual, de modo que se sentiu atraído pelos Kumāras, que eram da mesma categoria. Afirma-se, portanto, que um homem é conhecido pela companhia em que anda.
गौरवाद्यन्त्रित: सभ्य: प्रश्रयानतकन्धर: ।
विधिवत्पूजयां चक्रे गृहीताध्यर्हणासनान् ॥ ४ ॥
gauravād yantritaḥ sabhyaḥ
praśrayānata-kandharaḥ
vidhivat pūjayāṁ cakre
gṛhītādhyarhaṇāsanān

Synonyms

gauravātglórias; yantritaḥcompletamente; sabhyaḥmuito civilizado; praśrayapor humildade; ānata-kandharaḥcurvando seus ombros; vidhi-vatconforme as instruções dos śāstras; pūjayāmadorando; cakrerealizou; gṛhītaaceitando; adhiincluindo; arhaṇaparafernália para recepção; āsanānassentos.

Translation

Tendo os grandes sábios aceitado a recepção, conforme as instruções dos śāstras, e finalmente tomado seus assentos oferecidos pelo rei, este, influenciado pelas glórias dos sábios, prostrou-se de imediato. Dessa maneira, ele adorou os quatro Kumāras.

Purport

SIGNIFICADO—Os quatro Kumāras são mestres espirituais no paramparā do sampradāya vaiṣṇava. Entre os quatro sampradāyas, a saber, Brahma-sampradāya, Śrī-sampradāya, Kumāra-sampradāya e Rudra-sampradāya, a sucessão discipular de mestre espiritual para discípulo conhecida como Kumāra-sampradāya tem sua origem nos quatro Kumāras. Assim, Pṛthu Mahārāja era muito respeitoso com os sampradāya-ācāryas. Como diz Śrīla Viśvanātha Cakra­vartī Ṭhākura, sākṣād-dharitvena samasta-śāstraiḥ: o mestre espiritual, ou o paramparā-ācārya, deve ser respeitado exatamente como a Suprema Personalidade de Deus. A palavra vidhivat é significa­tiva neste verso. Significa que Pṛthu Mahārāja também seguia estritamente os preceitos dos śāstras no que diz respeito a receber um mestre espiritual, ou ācārya, da sucessão discipular transcen­dental. Sempre que se avista um ācārya, deve-se prostrar-se imedia­tamente diante dele. Pṛthu Mahārāja fez isso corretamente, daí o uso das palavras praśrayānata-kandharaḥ neste verso. Por humildade, ele se prostrou perante os Kumāras.
तत्पादशौचसलिलैर्मार्जितालकबन्धन: ।
तत्र शीलवतां वृत्तमाचरन्मानयन्निव ॥ ५ ॥
tat-pāda-śauca-salilair
mārjitālaka-bandhanaḥ
tatra śīlavatāṁ vṛttam
ācaran mānayann iva

Synonyms

tat-pādaos pés de lótus deles; śaucalavou; salilaiḥágua; mārjitaborrifou; alakacabelo; bandhanaḥmecha; tatra; śīlavatāmdos respeitáveis cavalheiros; vṛttamcomportamento; ācaranportando-se; mānayanpraticando; ivacomo.

Translation

Depois disso, o rei pegou a água que lavara os pés de lótus dos Kumāras e jogou um pouco sobre o seu cabelo. Por meio dessas ações respeitosas, o rei, como uma personalidade exemplar, mostrou como receber uma personalidade espiritualmente avançada.

Purport

SIGNIFICADO—Śrī Caitanya Mahāprabhu diz: āpani ācari prabhu jīvere śikhāya. Sabe-se muito bem que tudo o que Śrī Caitanya Mahāprabhu ensi­nou em Sua vida como ācārya Ele próprio praticou. Durante Seu trabalho de pregação como devoto, apesar de ser reconhecido por diversas personalidades grandiosas como sendo a encarnação de Kṛṣṇa, Ele jamais concordou em ser chamado de uma encarnação. Mesmo que alguém seja uma encarnação de Kṛṣṇa, ou seja alguém especial­mente dotado de poder por Ele, não deve afirmar ser uma encarnação. As pessoas automaticamente aceitarão a evidente realidade com o decorrer do tempo. Pṛthu Mahārāja foi o rei vaiṣṇava ideal; portanto, ele ensinou aos outros, através de seu comportamento pessoal, como receber e respeitar pessoas santas como os Kumāras. Quando uma pessoa santa visita o lar de alguém, é um costume védico primeiro lavar os seus pés com água, que então é borrifada sobre a cabeça do dono da casa e dos membros de sua família. Pṛthu Mahārāja fez isso, pois era um mestre exemplar do seu povo.
हाटकासन आसीनान् स्वधिष्ण्येष्विव पावकान् ।
श्रद्धासंयमसंयुक्त: प्रीत: प्राह भवाग्रजान् ॥ ६ ॥
hāṭakāsana āsīnān
sva-dhiṣṇyeṣv iva pāvakān
śraddhā-saṁyama-saṁyuktaḥ
prītaḥ prāha bhavāgrajān

Synonyms

hāṭaka-āsaneno trono feito de ouro; āsīnānao se sentarem; sva-dhiṣṇyeṣusobre o altar; ivacomo; pāvakānfogo; śraddhārespeito; saṁyamacomedimento; saṁyuktaḥsendo decorado com; prītaḥsatisfez; prāhadisse; bhavasenhor Śiva; agra­jānos irmãos mais velhos.

Translation

Os quatro grandes sábios eram mais velhos que o senhor Śiva e, ao se sentarem sobre o trono dourado, pareciam o fogo abrasador sobre um altar. Devido à sua grande docilidade e respeito por eles, Mahā­rāja Pṛthu começou a falar com grande comedimento as seguintes palavras.

Purport

SIGNIFICADO—Os Kumāras são descritos nesta passagem como irmãos mais velhos do senhor Śiva. Ao nascerem do corpo do senhor Brahmā, os Kumāras foram solicitados a se casarem e aumentar a população. No início da criação, havia grande necessidade de aumentar a população; portanto, o senhor Brahmā estava criando um filho após outro e ordenando que se multiplicassem. Entretanto, quando foram solicitados a fazê-lo, os Kumāras se negaram a isso. Eles queriam perma­necer brahmacārīs por toda a vida e se manterem ocupados plena­mente em serviço devocional ao Senhor. Os Kumāras são chamados de naiṣṭhika-brahmacārīs, o que significa que nunca se casarão. Devido à sua recusa de se casarem, o senhor Brahmā ficou tão irado que seus olhos se avermelharam. De entre seus olhos, apare­ceu o senhor Śiva, ou Rudra. Em consequência disso, o modo da ira é conhecido como rudra. O senhor Śiva também tem seu sam­pradāya, conhecido como Rudra-sampradāya, e eles também são conhecidos como vaiṣṇavas.
पृथुरुवाच
अहो आचरितं किं मे मङ्गलं मङ्गलायना: ।
यस्य वो दर्शनं ह्यासीद्दुर्दर्शानां च योगिभि: ॥ ७ ॥
pṛthur uvāca
aho ācaritaṁ kiṁ me
maṅgalaṁ maṅgalāyanāḥ
yasya vo darśanaṁ hy āsīd
durdarśānāṁ ca yogibhiḥ

Synonyms

pṛthuḥ uvacao rei Pṛthu disse; ahoó Senhor; ācaritam­prática; kimo que; mepor mim; maṅgalamboa fortuna; maṅgala­-āyanāḥó boa fortuna personificada; yasyapela qual; vaḥ­vossa; darśanamaudiência; hidecerto; āsīttornou-se possível; durdarśānāmvisíveis com grande dificuldade; catambém; yogi­bhiḥpor grandes yogīs místicos.

Translation

O rei Pṛthu disse: Meus queridos e grandes sábios, ó auspiciosidade personificada, é dificílimo até mesmo para os yogīs místicos poderem ver-vos. Em verdade, é muito raro ver-vos. Não sei que espécie de atividade piedosa executei para que vós me deis a graça de aparecer diante de mim espontaneamente.

Purport

SIGNIFICADO—Quando acontece algo incomum no progresso de nossa vida espiritual, devemos entender que isso é resultado de ajñāta-sukṛti, ou atividades piedosas além de nosso conhecimento. Ver pessoal­mente a Suprema Personalidade de Deus ou Seu devoto puro não é um incidente comum. Quando acontecem tais coisas, deve­-se entender que foram causadas por atividades piedosas ante­riores, como se afirma na Bhagavad-gītā (7.28): yeṣāṁ tv anta­-gataṁ pāpaṁ janānāṁ puṇya-karmaṇām. Aquele que se liberta inteiramente de todas as reações das atividades pecaminosas e se absorve somente em atividades piedosas pode ocupar-se em serviço devocional. Embora a vida de Mahārāja Pṛthu fosse repleta de ati­vidades piedosas, ele estava espantado com o acontecimento de seu encontro com os Kumāras. Ele não era capaz de imaginar que classe de ativi­dades piedosas havia executado. Esse é um sinal de humildade da parte do rei Pṛthu, cuja vida era tão plena de atividades piedosas que o próprio Senhor Viṣṇu foi vê-lo e predisse que os Kumāras também o visitariam.
किं तस्य दुर्लभतरमिह लोके परत्र च ।
यस्य विप्रा: प्रसीदन्ति शिवो विष्णुश्च सानुग: ॥ ८ ॥
kiṁ tasya durlabhataram
iha loke paratra ca
yasya viprāḥ prasīdanti
śivo viṣṇuś ca sānugaḥ

Synonyms

kimo que; tasyaseu; durlabha-tarammuito difícil de conse­guir; ihaneste mundo; lokemundo; paratraapós a morte; caou; yasyaaquele cujo; viprāḥos brāhmaṇas e vaiṣṇavas; prasīdantificam satisfeitos; śivaḥtodo-auspicioso; viṣṇuḥ­Senhor Viṣṇu; cabem como; sa-anugaḥacompanhando.

Translation

Toda pessoa com quem os brāhmaṇas e vaiṣṇavas fiquem satisfeitos pode obter qualquer coisa que seja muito difícil de conseguir, tanto neste mundo, como após a morte. Não apenas isso, mas essa pessoa também recebe o favor do auspicioso senhor Śiva e do Senhor Viṣṇu, que acompanham os brāhmaṇas e vaiṣṇavas.

Purport

SIGNIFICADO—Os brāhmaṇas e vaiṣṇavas são os portadores do Senhor Viṣṇu, o todo-auspicioso. Como se confirma na Brahma-saṁhitā (5.38):
premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena
santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti
yaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Devido a seu amor extremo por Govinda, a Suprema Personali­dade de Deus, os devotos sempre levam o Senhor dentro de seus corações. O Senhor já está no coração de todos, mas os vaiṣṇavas e os brāhmaṇas realmente O percebem e O veem sempre em êxtase. Portanto, os brāhmaṇas e vaiṣṇavas portam Viṣṇu consigo. Eles levam o Senhor Viṣṇu, o senhor Śiva ou os devotos do Senhor Viṣṇu para onde quer que vão. Os quatro Kumāras são brāhmaṇas, e visitaram a terra de Mahārāja Pṛthu. Naturalmente, o Senhor Viṣṇu e Seus devotos também estavam presentes. Em tais circunstâncias, a conclusão é que, quando os brāhmaṇas e vaiṣṇavas ficam satisfeitos com uma pessoa, o Senhor Viṣṇu também fica satisfeito. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura confirma isso em suas oito estrofes sobre o mestre espiritual: yasya prasādād bhagavat­-prasādaḥ. Satisfazendo o mestre espiritual, que é tanto brāhmaṇa quanto vaiṣṇava, satisfazemos a Suprema Personalidade de Deus. Se a Suprema Personalidade de Deus fica satisfeita conosco, nada mais temos a alcançar, quer neste mundo, quer após a morte.
नैव लक्षयते लोको लोकान् पर्यटतोऽपि यान् ।
यथा सर्वद‍ृशं सर्व आत्मानं येऽस्य हेतव: ॥ ९ ॥
naiva lakṣayate loko
lokān paryaṭato ’pi yān
yathā sarva-dṛśaṁ sarva
ātmānaṁ ye ’sya hetavaḥ

Synonyms

nanão; evaassim; lakṣayatepodem ver; lokaḥpessoas; lokāntodos os planetas; paryaṭataḥviajando; apiembora; yān­a quem; yathātanto quanto; sarva-dṛśama Superalma; sarve­em tudo; ātmānamdentro de todos; yeaqueles; asyada mani­festação cósmica; hetavaḥcausas.

Translation

Pṛthu Mahārāja prosseguiu: Embora estejais viajando por todos os sistemas planetários, as pessoas não podem conhecer-vos, assim como não podem conhecer a Superalma, embora esteja dentro do coração de todos como a testemunha de tudo. Mesmo o senhor Brahmā e o senhor Śiva não podem entender a Superalma.

Purport

SIGNIFICADO—No início do Śrīmad-Bhāgavatam, declara-se que muhyanti yat sūrayaḥ. Grandes semideuses, como o senhor Brahmā, o senhor Śiva, Indra e Candra, às vezes ficam confusos ao tentarem entender a Suprema Personalidade de Deus. Quando Kṛṣṇa esteve presente neste planeta, aconteceu de o senhor Brahmā e o senhor Indra também se confundirem a Seu respeito. E o que dizer, então, de grandes yogīs ou ānīs cuja conclusão é que a Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, é impessoal? Da mesma maneira, grandes personalidades e vaiṣṇavas como os quatro Kumāras também são invisíveis para as pessoas comuns, embora viajem por todo o uni­verso em diferentes sistemas planetários. Quando Sanātana Gosvāmī foi visitar o Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu, Candraśekhara Ācārya não foi capaz de reconhecer essa personalidade. A conclusão é que a Suprema Per­sonalidade de Deus encontra-Se situada no coração de todos, e Seus devotos puros, os vaiṣṇavas, também estão viajando pelo mundo inteiro, mas aqueles que estão sob a influência dos modos da natureza material não podem entender nem a forma da Suprema Personalidade de Deus, a fonte desta manifestação cósmica, nem os vaiṣṇavas. Afirma-se, portanto, que não é possível ver a Suprema Personalidade de Deus ou um vaiṣṇava com estes olhos materiais. É preciso purificar os sentidos e ocupar-se a serviço do Senhor. Em consequência disso, pode-se compreender quem é a Suprema Personalidade de Deus e quem é o vaiṣṇava.
अधना अपि ते धन्या: साधवो गृहमेधिन: ।
यद्गृहा ह्यर्हवर्याम्बुतृणभूमीश्वरावरा: ॥ १० ॥
adhanā api te dhanyāḥ
sādhavo gṛha-medhinaḥ
yad-gṛhā hy arha-varyāmbu-
tṛṇa-bhūmīśvarāvarāḥ

Synonyms

adhanāḥnão muito ricas; apiembora; teelas; dhanyāḥgloriosas; sādhavaḥsantos; gṛha-medhinaḥpessoas apegadas à vida familiar; yat-gṛhāḥcujo lar; hidecerto; arha-varyaas mais adoráveis; ambuágua; tṛṇagrama; bhūmiterra; īśvara­o amo; avarāḥos servos.

Translation

Uma pessoa que não é muito rica e está apegada à vida familiar torna-se gloriosíssima quando pessoas santas estão presentes em seu lar. Gloriosos são o amo e os servos que oferecem água, assentos e parafernália de recepção a visitantes eminentes, e o próprio lar também é glorioso.

Purport

SIGNIFICADO—Materialmente, se um homem não é muito rico, ele não é glorio­so, e, espiritualmente, se um homem é demasiadamente apegado à vida familiar, ele também não é glorioso. Porém, as pessoas santas estão sempre dispostas a visitar o lar de um homem pobre ou de um homem apegado à vida familiar material. Quando isso acon­tece, o dono da casa e seus servos se tornam gloriosos, pois oferecem água para lavar os pés de uma pessoa santa, oferecem assentos e outras coisas para sua recepção. A conclusão é que, se uma pessoa santa visita a casa inclusive de um homem sem impor­tância, suas bênçãos tornam glorioso semelhante homem. Portanto, é um costu­me védico que um chefe de família convide uma pessoa santa a seu lar para receber suas bênçãos. Esse costume ainda é comum na Índia, de modo que as pessoas santas, para onde quer que vão, são hospedadas pelos chefes de família, que, em troca, obtêm a oportunidade de receber conhecimento transcendental. É dever do sannyāsī, portanto, viajar por toda parte a fim de favorecer os chefes de famí­lia, que, de um modo geral, ignoram os valores da vida espiritual.
Alguém poderá argumentar que nenhum chefe de família é muito rico e que não é possível receber grandes pessoas santas ou prega­dores porque eles viajam sempre acompanhados de seus discípu­los. Se um chefe de família receber uma pessoa santa, deverá também receber o séquito dela. Os śāstras dizem que Durvāsā Muni estava sempre acompanhado por sessenta mil discípulos e que, se houvesse um pequeno erro na recepção a eles, Durvāsā Muni ficava muito irado e às vezes amaldiçoava o anfitrião. O fato é que todo chefe de família, não importa qual seja sua posição ou condição econômica, pode pelo menos receber convidados santos com grande devoção e oferecer-lhes água potável, pois água potável é algo sempre disponível. Na Índia, é costume que mesmo a uma pessoa comum se oferece um copo d’água se ela faz uma visita a alguém de repente e este não tem condições de oferecer-lhe algo de comer. Não havendo água, então pode-se oferecer um assento, mesmo que seja uma esteira de palha. E, não havendo esteira de palha, pode-se imediatamente limpar o chão e pedir ao convidado que se sente ali. Supondo que um chefe de família não possa sequer fazer isso, então, de mãos postas, ele poderá simplesmente receber o visitante, dizendo: “Bem­-vindo.” E se não puder fazê-lo, deverá sentir-se muito pesaroso por sua pobre condição e verter lágrimas, oferecendo reverências junta­mente com toda a sua família, esposa e filhos. Dessa maneira, ele poderá satisfazer qualquer visitante, mesmo que o visitante seja uma pessoa santa ou um rei.
व्यालालयद्रुमा वै तेष्वरिक्ताखिलसम्पद: ।
यद्गृहास्तीर्थपादीयपादतीर्थविवर्जिता: ॥ ११ ॥
vyālālaya-drumā vai teṣv
ariktākhila-sampadaḥ
yad-gṛhās tīrtha-pādīya-
pādatīrtha-vivarjitāḥ

Synonyms

vyālaserpentes venenosas; ālayalar; drumāḥárvore; vaidecerto; teṣunessas casas; ariktaabundantemente; akhila­todas; sampadaḥopulências; yatisto; gṛhāḥcasas; tīrtha­-pādīyaem relação aos pés de grandes pessoas santas; pāda-tīrtha­a água que lavou seus pés; vivarjitāḥsem.

Translation

Por outro lado, muito embora repleto de toda opulência e prosperidade material, qualquer lar de um chefe de família onde os devotos do Senhor nunca têm permissão de entrar, e onde não haja água para lavar seus pés, deve ser considerado uma árvore na qual vivem todas as serpentes venenosas.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra tīrtha-pādīya indica os devotos do Senhor Viṣṇu, ou vaiṣṇavas. Quanto aos brāhmaṇas, o verso anterior já descreveu a forma adequada de recebê-los. Agora, neste verso, enfatiza-se especialmente os vaiṣṇavas. De um modo geral, os sannyāsīs, ou aqueles que estão na ordem de vida renunciada, dão-se ao trabalho de iluminar os chefes de família. Existem ekadaṇḍī-sannyāsīs e tri­daṇḍī-sannyāsīs. De um modo geral, os ekadaṇḍī-sannyāsīs são seguidores de Śaṅkarācārya, sendo conhecidos como sannyāsīs māyāvādīs, ao passo que os tridaṇḍī-sannyāsīs são seguidores dos ācāryas vaiṣṇavas – Rāmānujācārya, Madhvācārya e assim por diante – e se dão ao trabalho de iluminar os chefes de família. Os ekadaḍī-sannyāsīs podem situar-se na plataforma do Brahman puro por terem noção de que a alma espiritual é diferente do corpo, mas eles são basicamente impersonalistas. Os vaiṣṇavas sabem que a Verdade Absoluta é a Pessoa Suprema e que a refulgência de Brahman baseia-se na Suprema Personalidade de Deus, como con­firma a Bhagavad-gītā (14.27): brahmaṇo hi pratiṣṭhāham. A con­clusão é que tīrtha-pādīya se refere aos vaiṣṇavas. No Bhāgavatam (1.13.10), também há outra referência: tīrthī-kurvanti tīrthāni. O vaiṣṇava imediatamente transforma qualquer lugar para onde vá em tīrtha, um local de peregrinação. Os sannyāsīs vaiṣṇavas viajam por todo o mundo para transformar todos os lugares em locais de peregrinação mediante o contato de seus pés de lótus. Menciona-se aqui como qualquer lar que não receba um vaiṣṇava da maneira já explicada no verso anterior deve ser considerado como uma morada de serpentes venenosas. Afirma-se que, em volta da árvore de sândalo, que é uma árvore muito preciosa, há sempre uma serpente venenosa. O sândalo é muito frio, e as serpentes venenosas, devido a suas presas peçonhentas, são sempre muito quentes, e refugiam-se nas árvores de sândalo para se refrescarem. Do mesmo modo, existem muitos homens ricos que mantêm cães de guarda ou porteiros e colocam avisos que dizem: “Não entre”, “Entrada proibida”, “Cuidado com o cão” etc. Às vezes, nos países ocidentais, o invasor é baleado, e não há crime nisso. Essa é a posição dos chefes de família demonía­cos, e seus lares são considerados moradas de serpentes venenosas. Os membros de semelhantes famílias não passam de serpentes porque as serpentes são muito invejosas, e, quando essa inveja se dirige às pessoas santas, a posição deles se torna mais perigosa. Cānakya Paṇḍita diz que existem duas entidades vivas invejosas – a serpente e o homem invejoso. O homem invejoso é mais perigoso do que a serpente porque a serpente pode ser subjugada por mantras de encantamento ou por certas ervas, mas uma pessoa invejosa não pode ser apaziguada de maneira alguma.
स्वागतं वो द्विजश्रेष्ठा यद्‌व्रतानि मुमुक्षव: ।
चरन्ति श्रद्धया धीरा बाला एव बृहन्ति च ॥ १२ ॥
svāgataṁ vo dvija-śreṣṭhā
yad-vratāni mumukṣavaḥ
caranti śraddhayā dhīrā
bālā eva bṛhanti ca

Synonyms

su-āgatamboas-vindas; vaḥa vós; dvija-śreṣṭhāḥos melhores dos brāhmaṇas; yatcujos; vratānivotos; mumukṣayaḥde pessoas que desejam a liberação; carantivos comportais; śraddhayācom grande fé; dhīrāḥcontrolados; bālāḥmeninos; evacomo; bṛhantiobservais; catambém.

Translation

Mahārāja Pṛthu deu suas boas-vindas aos quatro Kumāras, chamando-os de os melhores dos brāhmaṇas. Ele os acolheu, dizen­do: Desde o início de vosso nascimento, observastes estritamente os votos de celibato e, embora sejais experientes no caminho da libe­ração, vos mantendes como pequenas crianças.

Purport

SIGNIFICADO—A importância específica dos Kumāras é que eles eram brahma­cārīs, vivendo a vida de celibato desde o nascimento. Eles se mantiveram como meninos de cerca de quatro ou cinco anos de idade porque, crescendo até a juventude, às vezes nossos sentidos podem perturbar-se, e o celibato torna-se difícil. Portanto, os Kumāras propositalmente permaneceram crianças, visto que, na infância, os sen­tidos nunca são agitados pelo sexo. Esse é o significado da vida dos Kumāras, e, de tal modo, Mahārāja Pṛthu chamou-os de os melho­res dos brāḥmaṇas. Os Kumāras não apenas nasceram do melhor brāhmaṇa (o senhor Brahmā), mas são chamados nesta passagem de dvija-śreṣṭhāḥ (“os melhores dos brāhmaṇas”) pelo fato de também serem vaiṣṇavas. Como já explicamos, eles têm seu sampradāya (sucessão discipular), e este sampradāya se mantém até os dias atuais, sendo conhecido como Nimbārka-sampradāya. O Nimbārka­-sampradāya é um dos quatro sampradāyas dos ācāryas vaiṣṇavas. Mahārāja Pṛthu apreciou especificamente a posição dos Kumāras, pois eles mantinham o voto de brahmacarya desde o início de seu nascimento. Mahārāja Pṛthu, contudo, expressou sua grande estima pelo vaiṣṇavismo, chamando os Kumāras de vaiṣṇava-śreṣṭhāḥ. Em outras palavras, todos devem prestar respeitos a um vaiṣṇava sem considerar sua fonte de nascimento. Vaiṣṇave jāti­buddhiḥ. Ninguém deve considerar um vaiṣṇava em termos de seu nascimento. O vaiṣṇava é sempre o melhor dos brāhmaṇas, de modo que se deve prestar todo respeito a um vaiṣṇava, não ape­nas por ele ser um brāhmaṇa, mas também por ser o melhor dos brāhmaṇas.
कच्चिन्न: कुशलं नाथा इन्द्रियार्थार्थवेदिनाम् ।
व्यसनावाप एतस्मिन्पतितानां स्वकर्मभि: ॥ १३ ॥
kaccin naḥ kuśalaṁ nāthā
indriyārthārtha-vedinām
vyasanāvāpa etasmin
patitānāṁ sva-karmabhiḥ

Synonyms

kaccitse; naḥnossa; kuśalamboa fortuna; nāthāḥó mestres; indriya-arthagozo dos sentidos como a meta última da vida; artha-vedināmpessoas que só entendem de gozo dos sentidos; vyasanadoença; āvāpecontraíram; etasminnesta existência material, patitānām — aqueles que são caídos; sva-karmabhiḥpor sua própria capacidade.

Translation

Pṛthu Mahārāja indagou dos sábios acerca das pessoas enredadas nesta perigosa existência material devido a suas ações anteriores; tais pessoas, cuja única meta é o gozo dos sentidos, poderiam ser abençoadas com alguma boa fortuna?

Purport

SIGNIFICADO—Mahārāja Pṛthu não perguntou aos Kumāras sobre a boa fortuna deles, pois os Kumāras são sempre auspiciosos em virtude de sua vida de celibato. Por estarem sempre ocupados no caminho da libe­ração, para eles não havia possibilidade de má fortuna. Em outras palavras, os brāhmaṇas e vaiṣṇavas que seguem estritamente o caminho do avanço espiritual são sempre afortunados. Pṛthu Mahā­rāja fez a pergunta em seu próprio benefício, uma vez que ele estava na posição de gṛhastha e era encarregado da autoridade real. Os reis não são apenas gṛhasthas, que de um modo geral estão absor­tos no gozo dos sentidos, senão que, às vezes, ocupam-se em matar ani­mais na caça porque devem praticar a arte de matar, ou lhes seria muito difícil lutar contra seus inimigos. Seme­lhantes coisas não são auspiciosas. Quatro espécies de atividades pecaminosas – associar-se com uma mulher para fazer sexo ilícito, comer carne, intoxicar-se e jogar – são permitidas para os kṣatriyas. Por razões políticas, às vezes, eles precisam praticar essas atividades pecaminosas. Os kṣatriyas não se abstêm de jogos de azar. Exemplo vívido disso são os Pāṇḍavas. Ao serem desafiados pelo grupo oposto, encabeçado por Duryodhana, a jogar e apostar seu reino, os Pāṇḍavas não puderam deixar de fazê-lo e, naquele jogo, perderam seu reino, e sua esposa foi insultada. Da mesma forma, os kṣatriyas não conseguem abster-se de lutar caso desa­fiados pelo grupo oposto. Portanto, Pṛthu Mahārāja, levando em consideração todos esses fatos, perguntou se existe algum cami­nho auspicioso. A vida de gṛhastha é inauspiciosa porque gṛhastha significa consciência de gozo dos sentidos, e a posição de quem se entrega ao gozo dos sentidos é sempre cheia de perigos. Afirma-se que este mundo material é padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām, peri­goso a cada passo. (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.58) Todos neste mundo material lutam arduamente em troca de gozo dos sentidos. Esclarecendo todos esses pontos, Mahārāja Pṛthu indagou dos quatro Kumāras acerca das caídas almas condicionadas que apodrecem neste mundo material devido a suas atividades passadas más ou inauspiciosas. Há alguma possibilidade de elas terem uma vida espiritual auspiciosa? Neste verso, a palavra indriyārthārtha-vedinām é muito significativa, pois indica pessoas cuja única meta é satisfazer os sentidos. Elas também são descritas como patitānām, ou caídas. Apenas quem descontinua todas as atividades de gozo dos sentidos é considerado elevado. Outra palavra significativa é sva-karmabhiḥ. Uma pessoa torna-se caída em virtude de suas más atividades passadas. Todos são responsáveis por sua condição caída devido a suas próprias atividades. Quando as atividades de alguém se transformam em serviço devocional, sua vida auspiciosa começa.
भवत्सु कुशलप्रश्न आत्मारामेषु नेष्यते ।
कुशलाकुशला यत्र न सन्ति मतिवृत्तय: ॥ १४ ॥
bhavatsu kuśala-praśna
ātmārāmeṣu neṣyate
kuśalākuśalā yatra
na santi mati-vṛttayaḥ

Synonyms

bhavatsua vós; kuśalaboa fortuna; praśnaḥpergunta; ātma-­ārāmeṣuquem está sempre absorto em bem-aventurança espiritual; na iṣyatenão há necessidade de; kuśalaboa fortuna; akuśalāḥ­inauspiciosidade; yatraonde; nanunca; santiexiste; mati­-vṛttayaḥinvenção mental.

Translation

Pṛthu Mahārāja prosseguiu: Meus queridos senhores, não há necessidade de perguntar sobre vossa boa ou má fortuna porque estais sempre absortos em bem-aventurança espiritual. A invenção mental de auspicioso e inauspicioso não existe para vós.

Purport

SIGNIFICADO—O Caitanya-caritāmṛta (Antya 4.176) diz:
‘dvaite’ bhadrābhadra-jñāna, saba — ‘manodharma’
‘ei bhāla, ei manda,’ — ei saba ‘bhrama’
Neste mundo material, o auspicioso e o inauspicioso são meras invenções mentais porque tais coisas existem somente devido ao contato com o mundo material. Isso se chama ilusão, ou ātma­māyā. Pensamos termos sido criados pela natureza material exata­mente como pensamos estar experimentando muitas coisas em um sonho. A alma espiritual, contudo, é sempre transcendental. Não há possibilidade de ela se tornar coberta materialmente. Esta co­bertura é simplesmente algo como uma alucinação ou um sonho. A Bhagavad-gītā (2.62) também diz que saṅgāt sañjāyate kāmaḥ: simplesmente devido à associação, criamos necessidades materiais artificiais. Dhyāyato viṣayān puṁsaḥ saṅgas teṣūpajāyate. Ao nos esque­cermos de nossa verdadeira posição constitucional e desejarmos gozar dos recursos materiais, nossos desejos materiais se manifestam e nos associamos com variedades de prazer material. Tão logo surjam as invenções de prazer material, devido à nossa associação, criamos uma espécie de avidez ou ansiedade por desfrutá-las, e, quando esse falso prazer não nos faz realmente felizes, criamos outra ilusão, conhecida como ira, através de cuja manifestação a ilusão se torna mais forte. Quando estamos assim iludidos, segue-se o esquecimento de nossa relação com Kṛṣṇa e, perdendo desse modo a consciência de Kṛṣṇa, vemo-nos privados de nossa verdadeira inteligência. Dessa maneira, enredamo-nos neste mundo material. A Bhagavad-gītā (2.63) diz:
krodhād bhavati sammohaḥ
sammohāt smṛti-vibhramaḥ
smṛti-bhraṁśād buddhi-nāśo
buddhi-nāśāt praṇaśyati
Através do contato com a matéria, perdemos nossa consciência espiritual; consequentemente, não há possibilidade de coisas auspiciosas e inauspiciosas. Contudo, aqueles que são ātmārāmas, ou auto­rrealizados, transcendem esses problemas. Os ātmārāmas, ou pessoas autorrealizadas, progredindo gradualmente e cada vez mais em bem-aventurança espiritual, chegam à plataforma de associação com a Suprema Personalidade de Deus. Essa é a perfeição da vida. A princípio, os Kumāras eram impersonalistas autorrealizados, mas, aos poucos, sentiram-se atraídos pelos passatempos pessoais do Senhor Supremo. A conclusão é que a dualidade de auspicioso e inauspicioso não se manifesta para quem está sempre ocupado em serviço devocional à Personalidade de Deus. Portanto, Pṛthu Mahārāja indaga acerca da auspiciosidade, não para o benefício dos Kumāras, mas para seu próprio benefício.
तदहं कृतविश्रम्भ: सुहृदो वस्तपस्विनाम् ।
सम्पृच्छे भव एतस्मिन् क्षेम: केनाञ्जसा भवेत् ॥ १५ ॥
tad ahaṁ kṛta-viśrambhaḥ
suhṛdo vas tapasvinām
sampṛcche bhava etasmin
kṣemaḥ kenāñjasā bhavet

Synonyms

tatportanto; ahameu; kṛta-viśrambhaḥestando inteira­mente seguro; su-hṛdaḥamigo; vaḥnosso; tapasvināmpade­cendo de dores materiais; sampṛcchedesejo perguntar; bhave­neste mundo material; etasministo; kṣemaḥrealidade última; kenade que maneira; añjasāsem demora; bhavetpode ser alcançada.

Translation

Estou inteiramente seguro de que personalidades como vós são os únicos amigos de pessoas que estão ardendo no fogo da existência material. Portanto, pergunto-vos como, neste mundo material, podemos alcançar rapidamente a meta última da vida.

Purport

SIGNIFICADO—Quando pessoas santas vão de porta em porta para visitar aqueles que estão demasiadamente envolvidos em atividades materiais, deve-se compreender que elas não o fazem com o intuito de pedir algo para seu benefício pessoal. Na realidade, as pessoas santas vão ter com os materialistas apenas para compartilhar com eles a verdadeira informação sobre o que é auspicioso. Mahārāja Pṛthu estava certo disso; portanto, ao invés de perder tempo perguntando aos Kumāras sobre o bem-estar deles, preferiu perguntar-lhes se seria possível ele se libertar brevemente da perigosa posição da existência materialista. Esta não era, entretanto, uma pergunta pessoal de Pṛthu Mahārāja. A pergunta foi feita para ensinar ao homem comum que, sempre que alguém se encontra com uma grande pessoa santa, deve imediatamente se render a ela e lhe perguntar a respeito de como se livrar das dores da existência material. Portanto, Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura diz que saṁsāra-viṣānale, divā-niśi hiyā jvale, juḍāite nā kainu upāya: “Vivemos padecendo de dores mate­riais, e nossos corações ardem, mas não podemos encontrar a saída para isso.” O materialista também pode ser chamado de tapasvī, que significa alguém que sempre padece de dores materiais. Só podemos livrar-nos de todas essas dores materiais quando nos refugiamos no cantar do mantra Hare Kṛṣṇa. Narottama Dāsa Ṭhākura também explica isto: golokera prema-dhana, hari-nāma-saṅkīrtana, rati nā janmila kene tāya. Narottama Dāsa Ṭhākura se lamentava por não ter se deixado cativar pela vibração transcendental do mantra Hare Kṛṣṇa. A conclusão é que todos neste mundo material padecem de dores materiais, e, se alguém quiser livrar-se delas, deverá associar-se com pessoas santas, devotos puros do Senhor, e cantar o mahā-mantra – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Este é o único processo auspicioso para pessoas materialistas.
व्यक्तमात्मवतामात्मा भगवानात्मभावन: ।
स्वानामनुग्रहायेमां सिद्धरूपी चरत्यज: ॥ १६ ॥
vyaktam ātmavatām ātmā
bhagavān ātma-bhāvanaḥ
svānām anugrahāyemāṁ
siddha-rūpī caraty ajaḥ

Synonyms

vyaktamclara; ātma-vatāmdos transcendentalistas; ātmāa meta da vida; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; ātma-­bhāvanaḥsempre desejando elevar as entidades vivas; svānām­cujos próprios devotos; anugrahāyaapenas para dar misericórdia; imāmassim; siddha-rūpīperfeitamente autorrealizados; carati­viaja; ajaḥNārāyaṇa.

Translation

A Suprema Personalidade de Deus está sempre ansiosa por elevar as entidades vivas, que são Suas partes integrantes, e, para o especial benefício delas, o Senhor viaja por todo o mundo sob a forma de pessoas autorrealizadas como vós.

Purport

SIGNIFICADO—Há diferentes classes de transcendentalistas, a saber, os ānīs, ou impersonalistas, os yogīs místicos e, evidentemente, todos os devo­tos da Suprema Personalidade de Deus. Os Kumāras, contudo, foram tanto yogīs quanto ānīs e, enfim, bhaktas. A princípio, eles eram impersonalistas, porém, mais tarde, desenvolveram atividades devocionais; portanto, eles são os melhores dos transcendentalistas. Os devotos são representantes da Suprema Personalidade de Deus, e, a fim de elevar as almas condicionadas à sua consciência original, eles viajam por todos os universos para iluminar as almas condicio­nadas sobre a consciência de Kṛṣṇa. Os melhores devotos são ātma­vat, ou seja, têm plena compreensão da Alma Suprema. A Suprema Personalidade de Deus, como Paramātmā, encontra-Se no coração de todos, tentando elevá-los à plataforma de consciência de Kṛṣṇa. Por isso, Ele é chamado de ātma-bhāvana. A Suprema Personalidade de Deus sempre busca conceder à alma individual a inteli­gência para compreendê-lO. Ele sempre acompanha o indivíduo, assim como um amigo sentado ao lado de um amigo, e confere oportuni­dades a todas as entidades vivas de acordo com os desejos que elas têm.
A palavra ātmavatām é significativa neste verso. Há três diferentes classes de devotos, a saber, kaniṣṭha-adhikārī, madhyama-adhikārī e uttama-adhikārī: o neófito, o pregador e o mahā-bhāgavata, ou o devoto altamente avançado. O devoto altamente avançado é aquele que, tendo pleno conhecimento da conclusão dos Vedas, torna-se um devoto. Na verdade, ele não apenas está pessoalmente convencido, como também pode convencer os outros por intermédio da evidência védica. O devoto avançado também pode ver todas as demais entidades vivas como partes integrantes do Senhor Supremo, sem discriminação. O madhyama-adhikārī (pregador) também é bem versado nos śāstras e também pode con­vencer os outros, mas discrimina entre os favoráveis e os desfavo­ráveis. Em outras palavras, o madhyama-adhikārī não se importa com as entidades vivas demoníacas, e o neófito kaniṣṭha-adhikārī não tem muito conhecimento dos śāstras, mas tem plena fé na Suprema Personalidade de Deus. Os Kumāras, entretanto, eram mahā-bhāgavatas, dado que, após estudarem minuciosamente a Ver­dade Absoluta, tornaram-se devotos. Em outras palavras, eles tinham pleno conhecimento da conclusão védica. O Senhor con­firma na Bhagavad-gītā que existem muitos devotos, mas um devoto plenamente versado nas conclusões védicas Lhe é muito querido. Todos estão tentando elevar-se à posição suprema de acordo com sua mentalidade. Os karmīs, cujo conceito de vida é corpóreo, tentam desfrutar de gozo dos sentidos ao máximo. A ideia dos jñānīs é que a posição suprema é fundir-se na refulgência do Senhor. Porém, a posição suprema do devoto está em pregar as glórias da Suprema Personalidade de Deus no mundo inteiro. Por­tanto, os devotos são verdadeiros representantes do Senhor Su­premo e, sendo assim, viajam por todo o mundo diretamente, como Nārāyaṇa, pois levam Nārāyaṇa dentro de seus corações e pregam Suas glórias. O representante de Nārāyaṇa é como Nārāyaṇa, mas ele não deve concluir, como fazem os māyāvādīs, que se tornou Nārāyaṇa. De um modo geral, os māyāvādīs chamam um sannyāsī de Nārāyaṇa. A ideia deles é que, pelo simples fato de receber sannyāsa, a pessoa se torna igual a Nārāyaṇa ou se torna o próprio Nārāyaṇa. A conclusão vaiṣṇava é diferente, como afirma Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura:
sākṣād-dharitvena samasta-śāstrair
uktas tathā bhāvyata eva sadbhiḥ
kintu prabhor yaḥ priya eva tasya
vande guroḥ śrī-caraṇāravindam
Segundo a filosofia vaiṣṇava, o devoto é como Nārāyaṇa, não por se tornar Nārāyaṇa, mas por se tornar o servo mais íntimo de Nārāyaṇa. Grandes personalidades desse gênero agem como mestres espirituais para o benefício das pessoas em geral, e, de tal modo, um mestre espiritual que esteja pregando as glórias de Nārāyaṇa deve ser aceito como Nārāyaṇa e deve-se prestar-lhe todos os respeitos prestados a Nārāyaṇa.
मैत्रेय उवाच
पृथोस्तत्सूक्तमाकर्ण्य सारं सुष्ठु मितं मधु ।
स्मयमान इव प्रीत्या कुमार: प्रत्युवाच ह ॥ १७ ॥
maitreya uvāca
pṛthos tat sūktam ākarṇya
sāraṁ suṣṭhu mitaṁ madhu
smayamāna iva prītyā
kumāraḥ pratyuvāca ha

Synonyms

maitreyaḥ uvācao grande sábio Maitreya continuou a falar; pṛthoḥdo rei Pṛthu; tatesta; sūktamconclusão védica; ākarṇyaouvindo; sārammuito substancial; suṣṭhuapropriado; mitam­resumido; madhudoce de se ouvir; smayamānaḥsorrindo; ivacomo; prītyāpor grande satisfação; kumāraḥcelibatário; praty­uvācarespondeu; haassim.

Translation

O grande sábio Maitreya continuou: Assim, Sanat-kumāra, o melhor dos celibatários, após ouvir o discurso de Pṛthu Mahārāja, que era significativo, apropriado, repleto de palavras precisas e muito doce de se ouvir, sorriu com plena satisfação e começou a falar o seguinte.

Purport

SIGNIFICADO—As palavras de Pṛthu Mahārāja perante os Kumāras eram muito louváveis devido a diversas qualificações. Um discurso deve ser composto com palavras seletas, muito doces de se ouvir e adequa­das à situação. Afirma-se que um discurso assim é significativo. Todas essas boas qualificações estão presentes no discurso de Pṛthu Mahā­rāja por ele ser um devoto perfeito. Afirma-se que yasyāsti bhaktir bhagavaty akiñcanā sarvair guṇais tatra samāsate surāḥ: “Todas as boas qualidades se manifestam na pessoa que tem fé devocional inquebrantável na Suprema Personalidade de Deus e se ocupa em Seu serviço.” (Śrīmad-Bhāgavatam 5.18.12) Assim, os Kumāras estavam muito satisfeitos, e Sanat-kumāra começou a falar da seguinte maneira.
सनत्कुमार उवाच
साधु पृष्टं महाराज सर्वभूतहितात्मना ।
भवता विदुषा चापि साधूनां मतिरीद‍ृशी ॥ १८ ॥
sanat-kumāra uvāca
sādhu pṛṣṭaṁ mahārāja
sarva-bhūta-hitātmanā
bhavatā viduṣā cāpi
sādhūnāṁ matir īdṛśī

Synonyms

sanat-kumāraḥ uvācaSanat-kumāra disse; sādhusanta; pṛṣṭampergunta; mahārājameu querido rei; sarva-bhūtatodas as entidades vivas; hita-ātmanāpor quem deseja o bem de todos; bhavatāpor ti; viduṣāmuito erudito; cae; apiembora; sādhūnāmdas pessoas santas; matiḥinteligência; īdṛśīassim.

Translation

Sanat-kumāra disse: Meu querido rei Pṛthu, são ótimas as perguntas que dirigiste a mim. Tais perguntas são benéficas para todas as entidades vivas, especialmente porque foram levantadas por ti, que sempre pensas no bem dos demais. Embora saibas de tudo, fazes semelhantes perguntas porque assim se comportam as pessoas santas. Tal inteligência é digna de tua posição.

Purport

SIGNIFICADO—Mahārāja Pṛthu era bem versado na ciência transcendental, mas se apresentou ante os Kumāras como se a ignorasse. A ideia é que, mesmo que uma pessoa seja muito elevada e saiba de tudo, ela deve fazer perguntas perante seu superior. Por exemplo, apesar de conhecer toda a ciência transcendental, Arjuna fez perguntas a Kṛṣṇa como se nada conhecesse. Do mesmo modo, Pṛthu Mahārāja sabia de tudo, mas se apresentou diante dos Kumāras como se nada soubesse. A ideia é que as perguntas feitas por pessoas elevadas à Suprema Personalidade de Deus ou a Seus devotos destinam-se ao benefício das pessoas em geral. Algumas vezes, portanto, grandes personalidades se põem nessa posição e indagam de uma autoridade superior porque sempre pensam no benefício alheio.
सङ्गम: खलु साधूनामुभयेषां च सम्मत: ।
यत्सम्भाषणसम्प्रश्न: सर्वेषां वितनोति शम् ॥ १९ ॥
saṅgamaḥ khalu sādhūnām
ubhayeṣāṁ ca sammataḥ
yat-sambhāṣaṇa-sampraśnaḥ
sarveṣāṁ vitanoti śam

Synonyms

saṅgamaḥassociação; khaludecerto; sādhūnām­de devotos; ubhayeṣāmpara ambos; catambém; sammataḥconclusivos; yatque; sambhāṣaṇadebate; sampraśnaḥ­perguntas e respostas; sarveṣāmde todos; vitanotise expande; śamverdadeira felicidade.

Translation

Quando existe uma congregação de devotos, seus debates, perguntas e respostas tornam-se conclusivos tanto para o orador quanto para a audiência. Assim, tal encontro é benéfico para a verdadeira felicidade de todos.

Purport

SIGNIFICADO—Ouvir colóquios entre os devotos é o único meio de receber a poderosa mensagem da Suprema Personalidade de Deus. Por exemplo, a Bhagavad-gītā é muito famosa em todo o mundo há muito tempo, especialmente no mundo ocidental, mas, como seu tema não era discutido entre devotos, não havia efeito. Nem mesmo uma pessoa no Ocidente se tornou consciente de Kṛṣṇa antes que o movimento para a consciência de Kṛṣṇa fosse fundado. Porém, quando a mesma Bhagavad-gītā foi apresentada como ela é, através da sucessão discipular, o efeito da realização espiritual se manifestou de imediato.
Sanat-kumāra, um dos Kumāras, informou a Pṛthu Mahārāja que seu encontro com os Kumāras beneficiou não somente Mahā­rāja Pṛthu, mas também os Kumāras. Ao ser interrogado por Nārada Muni sobre a Suprema Personalidade de Deus, o senhor Brahmā agradeceu a Nārada Muni por lhe propiciar a oportunidade de falar sobre o Senhor Supremo. Portanto, as perguntas feitas por uma pessoa santa a outra pessoa santa sobre a Suprema Personali­dade de Deus ou sobre a meta última da vida energizam espiritualmente tudo e todos e ao máximo. Quem quer que tire proveito de tais colóquios se beneficia tanto nesta vida quanto na próxima.
Pode-se descrever a palavra ubhayeṣām de muitas maneiras. De um modo geral, há duas classes de homens, o materialista e o transcendentalista. Ouvindo colóquios entre devotos, tanto o materialista quanto o transcendentalista são beneficiados. O materialista é beneficiado pela associação com os devotos porque sua vida torna-se então regulada, aumentando sua oportunidade de se tornar devoto ou de tornar sua vida atual exitosa, através do entendimento da verdadeira posição da entidade viva. Quem tira pro­veito dessa oportunidade garante uma forma humana de vida no nascimento seguinte, ou talvez se liberte completamente e volte ao lar, volte ao Supremo. Concluindo, quem participa de um colóquio entre devotos é beneficiado tanto material quanto espiritualmente. Tanto o orador quanto a audiência são beneficiados, e os karmīs e jñānīs também se beneficiam. O colóquio sobre temas espirituais entre devotos é benéfico para todos, sem exceção. Consequente­mente, os Kumāras admitiram que não somente o rei fora benefi­ciado com tal encontro, mas também os próprios Kumāras.
अस्त्येव राजन् भवतो मधुद्विष:
पादारविन्दस्य गुणानुवादने ।
रतिर्दुरापा विधुनोति नैष्ठिकी
कामं कषायं मलमन्तरात्मन: ॥ २० ॥
asty eva rājan bhavato madhudviṣaḥ
pādāravindasya guṇānuvādane
ratir durāpā vidhunoti naiṣṭhikī
kāmaṁ kaṣāyaṁ malam antar-ātmanaḥ

Synonyms

astiexiste; evadecerto; rājanó rei; bhavataḥteu; madhu-dviṣaḥdo Senhor; pāda-aravindasyados pés de lótus; guṇa­anuvādanea glorificar; ratiḥapego; durāpāmuito difícil; vidhunotilimpa; naiṣṭhikīinquebrantável; kāmamluxurioso; kaṣāvamo adorno do desejo luxurioso; malamsujo; antaḥ-ātmanaḥdo âmago do coração.

Translation

Sanat-kumāra prosseguiu: Meu querido rei, já tens uma inclinação a glorificar os pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus. Semelhante apego é muito difícil de se alcançar, mas, quando alguém obtém essa fé inquebrantável no Senhor, naturalmente se limpa dos desejos luxuriosos no âmago de seu coração.

Purport

satāṁ prasaṅgān mama vīrya-saṁvido
bhavanti hṛt-karṇa-rasāyanāḥ kathāḥ
taj-joṣaṇād āśv apavarga-vartmani
śraddhā ratir bhaktir anukramiṣyati
(Śrīmad-Bhāgavatam 3.25.25)
Através da associação com os devotos, toda sujeira dentro do coração de um homem materialista é aos poucos eliminada pela graça da Suprema Personalidade de Deus. Assim como a prata torna-se brilhante ao ser polida, o coração de um materialista se limpa de desejos luxuriosos através da boa companhia dos devo­tos. Na verdade, o ser vivo não tem relação com este gozo material nem com os desejos luxuriosos. Ele está simplesmente imaginando ou sonhando, quer acordado, quer adormecido. Porém, ao entrar em contato com os devotos puros, ele desperta, e imediatamente a alma espiritual se situa em sua própria glória, compreendendo sua posi­ção constitucional como serva eterna do Senhor. Pṛthu Mahārāja era uma alma já autorrealizada; portanto, tinha a tendência natural de glorificar as atividades da Suprema Personalidade de Deus, e os Kumāras garantiram-lhe que não havia possibilidade de ele cair vítima da energia ilusória do Senhor Supremo. Em outras palavras, o processo de ouvir e cantar sobre as glórias do Senhor é o único meio de se limpar o coração da contaminação material. Mediante o processo de karma, jñāna e yoga, ninguém terá êxito em afastar a contaminação do coração, mas, uma vez que alguém se refugie aos pés de lótus do Senhor por meio do serviço devocional, todas as coisas sujas em seu coração serão naturalmente eliminadas, sem dificuldade.
शास्त्रेष्वियानेव सुनिश्चितो नृणां
क्षेमस्य सध्र्‌यग्विमृशेषु हेतु: ।
असङ्ग आत्मव्यतिरिक्त आत्मनि
द‍ृढा रतिर्ब्रह्मणि निर्गुणे च या ॥ २१ ॥
śāstreṣv iyān eva suniścito nṛṇāṁ
kṣemasya sadhryag-vimṛśeṣu hetuḥ
asaṅga ātma-vyatirikta ātmani
dṛḍhā ratir brahmaṇi nirguṇe ca yā

Synonyms

śāstreṣunas escrituras; iyān evaapenas isso é; su-niścitaḥpositivamente concluído; nṛṇāmda sociedade humana; kṣema­syado bem-estar último; sadhryakperfeitamente; vimṛśeṣu­após devida consideração; hetuḥcausa; asaṅgaḥdesapego; ātma-vyatirikteo conceito corpóreo da vida; ātmanià Alma Suprema; dṛḍhāforte; ratiḥapego; brahmaṇitranscendência; nirguṇeno Supremo, que está além dos modos materiais; cae; que.

Translation

Segundo a conclusão definitiva das escrituras, após a devida consideração, a meta última para o bem-estar da sociedade humana é o desapego do conceito corpóreo da vida e o crescente e inabalável apego ao Senhor Supremo, que é transcendental, estando além dos modos da natureza material.

Purport

SIGNIFICADO—Todos na sociedade humana dedicam-se a buscar o benefício último da vida, mas aqueles que estão no conceito corpóreo não podem alcançar a meta última, tampouco entendem qual é essa meta. A Bhagavad-gītā (2.59) descreve essa meta última da vida: paraṁ dṛṣṭvā nivartate. Quem descobre a meta suprema da vida se desapega naturalmente do conceito corpóreo. Este verso indica como uma pessoa deve aumentar constantemente seu apego à Transcendência (brahmaṇi). Como se confirma no Vedānta-sūtra (1.1.1), athāto brahma-jijñāsā: sem indagar a respeito do Supremo, ou a Transcendência, não é possível abandonar o apego a este mundo material. O processo evolutivo de oito milhões e quatrocen­tas mil espécies de vida não nos permite entender a meta última da vida, pois, em todas essas espécies de vida, o conceito corpóreo é muito proeminente. Athāto brahmajijñāsā significa que, a fim de escapar do conceito corpóreo, é preciso aumentar o apego ao Brahman ou indagar acerca do Brahman. A partir disso, é possível situar-se em transcendental serviço devocional – śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ. Aumentar o apego ao Brahman significa ocupar-se em ser­viço devocional. Aqueles que são apegados à forma impessoal do Brahman não podem permanecer apegados por muito tempo. Após rejeitarem este mundo como mithyā, ou falso (jagan mithyā), os impersonalistas descem novamente a este jagan mithyā, embora recebam sannyāsa para aumentar seu apego ao Brahman. Do mesmo modo, muitos yogīs que são apegados ao aspecto localizado do Brahman como Paramātmā – grandes sábios, como Viśvāmitra – também caem vítimas de mulheres. Portanto, o apego crescente à Suprema Personalidade de Deus é aconselhado em todos os śāstras. Essa é a única maneira de desapegar-se da existência material. Como explica a Bhagavad-gītā (2.59), paraṁ dṛṣṭvā nivartate: poderemos suspender as atividades materiais quando realmente sentirmos gosto pelo serviço devocional. Śrī Caitanya Mahāprabhu também recomendou o amor a Deus como a meta última da vida (premā pum-artho mahān). Se não aumentarmos nosso amor a Deus, não poderemos alcançar a fase de perfeição na posição transcendental.
सा श्रद्धया भगवद्धर्मचर्यया
जिज्ञासयाध्यात्मिकयोगनिष्ठया ।
योगेश्वरोपासनया च नित्यं
पुण्यश्रव:कथया पुण्यया च ॥ २२ ॥
sā śraddhayā bhagavad-dharma-caryayā
jijñāsayādhyātmika-yoga-niṣṭhayā
yogeśvaropāsanayā ca nityaṁ
puṇya-śravaḥ-kathayā puṇyayā ca

Synonyms

este serviço devocional; śraddhayācom fé e convicção; bhagavat-dharmaserviço devocional; caryayāatravés de colóquios; jijñāsayāatravés de indagações; adhyātmikaespirituais; yoga-niṣṭhayāpela convicção na compreensão espiritual; yoga­-īśvaraa Suprema Personalidade de Deus; upāsanayāadorando-O; cae; nityamregularmente; puṇya-śravaḥpor ouvir o que; kathayāatravés de colóquios; puṇyayāmediante piedosas; ca­também.

Translation

É possível aumentar o apego ao Supremo praticando o serviço devocional, indagando acerca da Suprema Personalidade de Deus, aplicando bhakti-yoga na vida, adorando o Yogeśvara, a Suprema Personalidade de Deus, e ouvindo e cantando as glórias da Suprema Personalidade de Deus. Essas ações são piedosas por si só.

Purport

SIGNIFICADO—Pode-se aplicar a palavra yogeśvara tanto à Suprema Personali­dade de Deus, Kṛṣṇa, quanto a Seus devotos. Na Bhagavad-gītā, essa palavra ocorre em duas passagens. No décimo oitavo capítulo (18.78), Kṛṣṇa é descrito como a Suprema Personalidade de Deus, Hari, que é o mestre de todo o poder místico (yatra yogeśvaraḥ kṛṣṇaḥ). Yogeśvara também é descrito no final do sexto capítulo (6.47): sa me yuktatamo mataḥ. Esse yuktatama indica o mais ele­vado de todos os yogīs – o devoto, que também pode ser chamado de yogeśvara. Neste verso, yogeśvara-upāsanā significa prestar serviço a um devoto puro. Assim, Narottama Dāsa Ṭhākura diz que chāḍiyā vaiṣṇava-sevā nistāra pāyeche kebā: sem servir a um devoto puro, ninguém pode avançar na vida espiritual. Prahlāda Mahārāja também diz:
naiṣāṁ matis tāvad urukramāṅghriṁ
spṛśaty anarthāpagamo yad-arthaḥ
mahīyasāṁ pāda-rajo-’bhiṣekaṁ
niṣkiñcanānāṁ na vṛṇīta yāva
(Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.32)
Todos devem refugiar-se em um devoto puro, que nada tenha a ver com este mundo material, e que simplesmente se ocupe em serviço devocional. Simplesmente por servi-lo, pode-se transcender a condição mate­rial qualitativa. Este verso recomenda (yogeśvara-upāsanayā) que sirvamos aos pés de lótus do yogī mais elevado, ou seja, o devoto. Servir ao devoto mais elevado significa ouvi-lo falar das glórias da Suprema Personalidade de Deus. Ouvir as glórias da Suprema Personalidade de Deus da boca de um devoto puro é adquirir uma vida piedosa. A Bhagavad-gītā (7.28) também diz que quem não é piedoso não pode ocupar-se em serviço devocional.
yeṣāṁ tv anta-gataṁ pāpaṁ
janānāṁ puṇya-karmaṇām
te dvandva-moha-nirmuktā
bhajanti māṁ dṛḍha-vratāḥ
Para fixar-se em serviço devocional, é preciso purificar-se inteiramente da contaminação dos modos materiais da natureza. O primeiro requisito para se trabalhar em serviço devocional é ādau gurv-āśrayam: deve-se aceitar um mestre espiritual fidedigno, e deve-se indagar do mestre espiritual fidedigno acerca dos deveres ocupacionais transcendentais (sad-dharma-pṛcchā) e seguir os passos de grandes pessoas santas, os devotos (sādhu-mārga-anugamanam). São essas as instruções dadas por Rūpa Gosvāmī no Bhakti-rasāmṛta-sindhu.
A conclusão é que, para aumentar o apego à Suprema Persona­lidade de Deus, é preciso aceitar um mestre espiritual fidedigno e aprender com ele os métodos de serviço devocional e ouvir dele a mensagem transcendental e a glorificação da Suprema Personali­dade de Deus. Dessa maneira, todos devem aumentar sua convic­ção em relação ao serviço devocional. Isso tornará muito fácil aumentar o apego que têm pela Suprema Personalidade de Deus.
अर्थेन्द्रियारामसगोष्ठ्यतृष्णया
तत्सम्मतानामपरिग्रहेण च ।
विविक्तरुच्या परितोष आत्मनि
विना हरेर्गुणपीयूषपानात् ॥ २३ ॥
arthendriyārāma-sagoṣṭhy-atṛṣṇayā
tat-sammatānām aparigraheṇa ca
vivikta-rucyā paritoṣa ātmani
vinā harer guṇa-pīyūṣa-pānāt

Synonyms

arthariquezas; indriyasentidos; ārāmagozo; sa-goṣṭhīcom quem as acompanha; atṛṣṇayāpor relutância; tatisto; sammatānāmuma vez que o aprovem; aparigraheṇanão aceitando; catambém; vivikta-rucyāgosto desagradável; paritoṣefelicidade; ātmanieu; vināsem; hareḥda Suprema Personalidade de Deus; guṇaqualidades; pīyūṣanéctar; pānātbebendo.

Translation

Quem quer avançar na vida espiritual deve evitar a companhia de pessoas interessadas apenas em gozo dos sentidos e em fazer dinheiro. Não somente essas pessoas, mas também aqueles que se associam com tais pessoas devem ser evitados. Devemos moldar nossa vida de tal maneira que não possamos viver em paz sem beber o néctar da glorificação da Suprema Personalidade de Deus, Hari. Deste modo, poderemos elevar-nos, tornando-nos avessos ao gosto pelo desfrute dos sentidos.

Purport

SIGNIFICADO—No mundo material, todos estão interessados em dinheiro e gozo dos sentidos. O único objetivo é ganhar tanto dinheiro quanto possível e utilizá-lo para a satisfação dos sentidos. Śrīla Śukadeva Gosvāmī descreve as atividades das pessoas materialistas da seguin­te maneira:
nidrayā hriyate naktaṁ
vyavāyena ca vā vayaḥ
divā cārthehayā rājan
kuṭumba-bharaṇena v
(Śrīmad-Bhāgavatam 2.1.3)
Este é um exemplo típico de pessoas materialistas. À noite, elas desperdiçam seu tempo dormindo mais do que seis horas ou fazendo sexo. Essa é a ocupação delas à noite. De manhã, vão trabalhar no escritório ou fazer negócios, com o único intuito de ganhar dinheiro. Tão logo consigam algum dinheiro, dedicam-se a comprar coisas para os filhos e outras pessoas. Pessoas desse gênero jamais se interes­sam em entender os valores da vida – o que é Deus, o que é a alma individual, qual é sua relação com Deus etc. Atualmente, a degradação é tanta que mesmo os supostamente religiosos também estão interessados apenas em gozo dos sentidos. O número de pessoas materialistas nesta era de Kali tem aumentado mais do que em qualquer outra era; portanto, aqueles interessados em voltar ao lar, voltar ao Supremo, devem não apenas ocupar-se a serviço das almas realizadas, mas também abandonar a companhia de pessoas materialistas, cujo único objetivo é ganhar dinheiro e gastá­-lo para o gozo dos sentidos. Além disso, não devem aceitar os objetivos dos materialistas, a saber, dinheiro e gozo dos sentidos. Por isso se afirma que bhaktiḥ pareśānubhavo viraktir anyatra ca (Śrīmad-Bhāgavatam 11.2.42): para avançar em serviço devocional, devemos desinteressar-nos do modo de vida materialista. Aquilo que é objeto de satisfação para os devotos não interessa aos não-devotos.
Contudo, a simples negação, ou seja, evitar a companhia de pessoas materialistas, não é suficiente. É preciso que nos ocupemos. Às vezes, observa-se que uma pessoa interessada em avanço espi­ritual abandona a companhia da sociedade material e recorre a um lugar isolado, o que é recomendado especialmente para os yogīs, mas isso também não a ajudará no avanço espiritual, pois, em muitos casos, esses yogīs também caem. Quanto aos jñānīs, geralmente eles caem sem se refugiarem aos pés de lótus do Senhor. Tudo o que os impersonalistas ou niilistas podem fazer é evitar a associação mate­rial positiva; não é possível eles permanecerem fixos na transcendên­cia sem se ocuparem em serviço devocional. O serviço devocional começa por se ouvir as glórias da Suprema Personalidade de Deus. Isso é recomendado neste verso: vinā harer guṇa-pīyūṣa-pānāt. É preciso beber o néctar das glórias da Suprema Personalidade de Deus, e isso significa que é preciso estar sempre ouvindo e can­tando as glórias do Senhor. Esse é o método fundamental para o avanço na vida espiritual. O Senhor Caitanya Mahāprabhu também recomenda isso no Caitanya-caritāmṛta. Se alguém desejar avançar na vida espiritual, poderá ter a grande fortuna de encontrar um mestre espiritual fidedigno e com ele aprender sobre Kṛṣṇa. Ser­vindo tanto ao mestre espiritual quanto a Kṛṣṇa, receberá a semente do serviço devocional (bhakti-latā-bīja), e, caso plante a semente dentro de seu coração e a regue, ouvindo e cantando, a semente se transformará em uma exuberante bhakti-latā, ou trepa­deira de bhakti. Essa trepadeira é tão forte que penetra a cobertura do universo e atinge o mundo espiritual, continuando a crescer cada vez mais até alcançar os pés de lótus de Kṛṣṇa e refugiar-se neles, assim como uma trepadeira comum também cresce continuamente até se refugiar solidamente em um telhado; ela, então, cresce muito estavelmente e produz o fruto necessário. A verdadeira causa do crescimento de semelhante fruto, aqui chamado de o néctar de ouvir as glórias da Suprema Personalidade de Deus, é o regar da trepadeira do serviço devocional mediante os processos de ouvir e cantar. Isso significa que não podemos viver fora da sociedade dos devotos; é preciso viver na companhia dos devotos, onde constantemente se cantam e se ouvem as glórias do Senhor. O movimento para a cons­ciência de Kṛṣṇa foi iniciado com este propósito, para que centenas de centros da ISKCON proporcionem às pessoas a oportunidade de ouvir e cantar, de aceitar o mestre espiritual e de evitar pessoas com inte­resses materialistas, pois, dessa maneira, pode-se avançar solida­mente no caminho de volta ao lar, de volta ao Supremo.
अहिंसया पारमहंस्यचर्यया
स्मृत्या मुकुन्दाचरिताग्र्यसीधुना ।
यमैरकामैर्नियमैश्चाप्यनिन्दया
निरीहया द्वन्द्वतितिक्षया च ॥ २४ ॥
ahiṁsayā pāramahaṁsya-caryayā
smṛtyā mukundācaritāgrya-sīdhunā
yamair akāmair niyamaiś cāpy anindayā
nirīhayā dvandva-titikṣayā ca

Synonyms

ahiṁsayāpela não-violência; pāramahaṁsya-caryayāseguindo os passos de grandes ācāryas; smṛtyālembrando-se; mukundaa Suprema Personalidade de Deus; ācarita-agryasimplesmente pregando Suas atividades; sīdhunāpelo néctar; yamaiḥseguindo princípios reguladores; akāmaiḥsem desejos materiais; niyamaiḥseguindo estritamente as regras e regulações; catambém; apidecerto; anindayāsem blasfemar; nirīhayālevando uma vida simples; dvandvadualidade; titikṣayāpela tolerância; cae.

Translation

Um candidato ao avanço espiritual deve ser não-violento, deve seguir os passos de grandes ācāryas, deve lembrar-se sempre do néctar dos passatempos da Suprema Personalidade de Deus, deve seguir os princípios reguladores sem desejos materiais e, enquanto segue os princípios reguladores, deve evitar blasfemar os outros. O devoto deve levar uma vida muito simples e não se deixar perturbar pela dualidade de elementos opostos. Ele deve aprender a tolerá-los.

Purport

SIGNIFICADO—Os devotos são pessoas realmente santas, ou sādhus. A primeira qualificação de um sādhu, ou devoto, é ahiṁsā, ou não-violência. As pessoas interessadas no caminho do serviço devocional, ou na volta ao lar, na volta ao Supremo, devem primeiro praticar ahiṁsā, ou não-violência. O sādhu é descrito como titikṣavaḥ kāruṇikāḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 3.25.21) O devoto deve ser tolerante e deve ser muito com­passivo com os outros. Por exemplo, se ele sofre uma injúria pessoal, deve tolerá-la, mas, se outra pessoa é a vítima de injúria, o devoto não pre­cisa tolerar tal coisa. O mundo inteiro está cheio de violência, e a principal função do devoto é descontinuar essa violência, incluindo a matança desnecessária de animais. O devoto é amigo, não só da sociedade humana, mas também de todas as entidades vivas, pois ele vê todas as entidades vivas como filhos da Suprema Personali­dade de Deus. Ele não afirma ser o único filho de Deus nem per­mite que todos os demais sejam mortos, pensando que eles não têm alma. O devoto puro do Senhor nunca defende esse tipo de filoso­fia. Suhṛdaḥ sarva-dehinām: o verdadeiro devoto é amigo de todas as entidades vivas. Na Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa afirma ser o pai de toda espécie de entidades vivas; consequentemente, o devoto de Kṛṣṇa é sempre amigo de todos. Isso se chama ahiṁsā. Essa não-­violência só pode ser praticada quando seguimos os passos de grandes ācāryas. Portanto, segundo nossa filosofa vaiṣṇava, temos que seguir os grandes ācāryas dos quatro sampradāyas, ou suces­sões discipulares.
Tentar avançar na vida espiritual fora da sucessão discipular é simplesmente ridículo. É dito, portanto, que ācāryavān puruṣo veda: quem segue a sucessão discipular de ācāryas conhece as coisas como elas são. (Chāndogya Upaniṣad 6.14.2) Tad-vijñānārthaṁ sa gurum evābhigacchet: a fim de entender a ciência transcendental, é preciso aproximar-se do mestre espiritual fidedigno. (Muṇḍaka Upaniṣad 1.2.12) A palavra smṛtyā também é muito importante na vida espiritual. Smṛtyā significa lembrar-se sempre de Kṛṣṇa. Devemos moldar nossa vida de tal forma que não possamos permanecer sozinhos sem pensar em Kṛṣṇa. Devemos viver em Kṛṣṇa, de modo que, enquanto estivermos comendo, dormindo, caminhando e traba­lhando, permaneçamos apenas em Kṛṣṇa. Nossa sociedade para a consciência de Kṛṣṇa recomenda que ajustemos nossa vida de tal modo que possamos nos lembrar de Kṛṣṇa. Em nossa sociedade de devotos, a ISKCON, enquanto nos dedicamos a fazer os incensos Spiritual Sky, também ouvimos sobre as glórias de Kṛṣṇa ou Seus devotos. Os śāstras recomendam que smartavyaḥ satataṁ viṣṇuḥ: devemos sempre nos lembrar do Senhor Viṣṇu, constantemente. Vismartavyo na jātucit: Viṣṇu nunca deve ser esquecido. Assim é a vida espiritual: smṛtyā. Essa lembrança do Senhor pode ser contínua caso ouça­mos constantemente sobre Ele. Portanto, este verso recomenda: mukundācaritāgrya-sīdhunā. Sīdhu significa “néctar”. Ouvir sobre Kṛṣṇa a partir do Śrīmad-Bhāgavatam ou a partir da Bhagavad-gītā ou de qualquer literatura autêntica semelhante é viver em consciência de Kṛṣṇa. Podem alcançar semelhante concentração em consciência de Kṛṣṇa as pessoas que seguem estritamente as regras e os princípios reguladores. Recomendamos em nosso movimento para a consciência de Kṛṣṇa que cada devoto cante dezesseis voltas em suas contas diariamente e siga os princípios reguladores. Isso ajudará o devoto a firmar seu avanço na vida espiritual.
Afirma-se também neste verso que é possível avançar através do controle dos sentidos (yamaiḥ). Controlando os sentidos, podemos tornar-nos svāmīs, ou gosvāmīs. Portanto, quem desfruta deste título magnífico, svāmī ou gosvāmī, deve ser muito estrito no controle de seus sentidos. Na verdade, deve ser o senhor de seus sentidos. Isso é possível para quem não deseja gozo material dos sentidos. Se, por acaso, os sentidos desejam agir independentemente, ele os deve controlar. Caso, pela prática, simplesmente evitarmos o gozo material dos sentidos, naturalmente alcançaremos o controle dos sentidos.
Outro ponto importante mencionado a este respeito é anindayā – não devemos criticar os métodos de religião alheios. Existem diferentes espécies de sistemas religiosos operando sob diferentes qualidades da natureza material. Os sistemas influenciados pelos modos de ignorância e paixão não podem ser tão perfeitos quanto o sistema no modo da bondade. A Bhagavad-gītā divide tudo em três categorias qualitativas; portanto, os sistemas religiosos são semelhantemente categorizados. Para pessoas basicamente influen­ciadas pelos modos de paixão e ignorância, o sistema de religião será da mesma qualidade. Ao invés de criticar semelhantes siste­mas, o devoto incentivará os seguidores a manterem-se fiéis a seus princípios para que, aos poucos, possam chegar à plataforma de religião em bondade. Se simplesmente criticar, o devoto ficará com a mente agitada. Deste modo, o devoto deve tolerar e aprender a descontinuar a agitação.
Outro aspecto do devoto é nirīhayā, vida simples. Nirīhā signi­fica “amável”, “manso” ou “simples”. O devoto não deve viver muito luxuosamente e imitar as pessoas materialistas. Vida simples e pensamento elevado são recomendados para um devoto. Ele deve aceitar apenas o necessário para manter o corpo material capaz de executar serviço devocional. Ele não deve comer ou dormir mais do que o necessário. Simplesmente comer para viver, e não viver para comer, e dormir apenas de seis a sete horas por dia são princípios a serem seguidos pelos devotos. Enquanto existir, o corpo estará sujeito à influência de mudanças climáticas, doenças e distúrbios naturais, as três espécies de sofrimentos da existência material. Não podemos evitá-las. Às vezes, recebemos cartas de devotos neófitos perguntando-nos por que eles adoecem, embora pratiquem a cons­ciência de Kṛṣṇa. Eles devem aprender com este verso que devem tornar-se tolerantes (dvandva-titikṣayā). Este é o mundo das duali­dades. Ninguém deve pensar que, pelo fato de ter adoecido, caiu da consciência de Kṛṣṇa. A consciência de Kṛṣṇa pode continuar sem que qualquer oposição material a estorve. Portanto, o Senhor Śrī Kṛṣṇa aconselha na Bhagavad-gītā (2.14) que tāṁs titikṣasva bhārata: “Meu querido Arjuna, por favor, esforça-te para tolerar todas essas perturbações. Fixa-te em tuas atividades conscientes de Kṛṣṇa.”
हरेर्मुहुस्तत्परकर्णपूर
गुणाभिधानेन विजृम्भमाणया ।
भक्त्या ह्यसङ्ग: सदसत्यनात्मनि
स्यान्निर्गुणे ब्रह्मणि चाञ्जसा रति: ॥ २५ ॥
harer muhus tatpara-karṇa-pūra-
guṇābhidhānena vijṛmbhamāṇayā
bhaktyā hy asaṅgaḥ sad-asaty anātmani
syān nirguṇe brahmaṇi cāñjasā ratiḥ

Synonyms

hareḥda Suprema Personalidade de Deus; muhuḥconstantemente; tat-paraem relação com a Suprema Personalidade de Deus; karṇa-pūradecoração do ouvido; guṇa-abhidhānenacomentando sobre as qualidades transcendentais; vijṛmbhamāṇayāaumentando a consciência de Kṛṣṇa; bhaktyāpela devoção; hidecerto; asaṅgaḥincontaminado; sat-asatio mundo material; anātmanioposto à compreensão espiritual; syātdeve ser; nirguṇeem transcendência; brahmaṇino Senhor Supremo; cae; añjasāfacilmente; ratiḥatração.

Translation

O devoto deve, aos poucos, aumentar o cultivo de serviço devocional, ouvindo constantemente as qualidades transcendentais da Suprema Personalidade de Deus. Esses passatempos são como decorações ornamentais nos ouvidos dos devotos. Prestando serviço devocional e transcendendo as qualidades materiais, é possível fixar-se facilmente em transcendência na Suprema Personalidade de Deus.

Purport

SIGNIFICADO—Este verso é mencionado especialmente para mostrar o valor do processo devocional de ouvir um determinado tema. O devoto não gosta de ouvir qualquer coisa, senão que gosta de ouvir apenas assuntos relacionados com as atividades espirituais, ou os passatempos da Suprema Per­sonalidade de Deus. Podemos aumentar nossa propensão para o serviço devocional ouvindo a Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam de almas realizadas. Quanto mais ouvimos de almas realizadas, mais avançamos em nossa vida devocional. Quanto mais avançamos na vida devocional, mais nos desapegamos do mundo material. Quanto mais nos desapegamos do mundo mate­rial, como aconselha o Senhor Caitanya Mahāprabhu, mais aumentamos o apego à Suprema Personalidade de Deus. Portanto, o devoto que realmente deseja progredir em serviço devocional e voltar ao lar, voltar ao Supremo, deve perder o interesse pelo gozo dos sentidos e pela associação com pessoas que andam atrás de dinheiro e gozo dos sentidos. Este é o conselho do Senhor Caitanya Mahāprabhu:
niṣkiñcanasya bhagavad-bhajanonmukhasya
pāraṁ paraṁ jigamiṣor bhava-sāgarasya
sandarśanaṁ viṣayiṇām atha yoṣitāṁ ca
hā hanta hanta viṣa-bhakṣaṇato ’py asādh
(Cc. Madhya 11.8)
A palavra brahmaṇi usada neste verso é comentada pelos impersonalistas ou recitadores profissionais do Bhāgavatam, que são principalmente advogados do sistema de castas, baseado no demoníaco direito hereditário. Eles dizem que brahmaṇi significa o Brahman impessoal. No entanto, eles não podem concluir isso com referência ao contexto das palavras bhaktyā e guṇābhidhānena. Segundo os impersonalistas, não há qualidades transcendentais no Brahman impessoal; portanto, devemos entender que brahmaṇi significa “na Suprema Personalidade de Deus”. Kṛṣṇa é a Suprema Personali­dade de Deus, como admite Arjuna na Bhagavad-gītā: portanto, onde quer que se use a palavra brahma, ela se refere a Kṛṣṇa, e não à refulgência do Brahman impessoal. Brahmeti paramātmeti bhagavān iti śabdyate. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.11) Brahman, Paramātmā e Bha­gavān podem ser todos considerados, no todo, como Brahman, mas, quando se faz referência à palavra bhakti, ou à lembrança das qua­lidades transcendentais, isso indica a Suprema Personalidade de Deus, e não o Brahman impessoal.
यदा रतिर्ब्रह्मणि नैष्ठिकी पुमा-
नाचार्यवान् ज्ञानविरागरंहसा ।
दहत्यवीर्यं हृदयं जीवकोशं
पञ्चात्मकं योनिमिवोत्थितोऽग्नि: ॥ २६ ॥
yadā ratir brahmaṇi naiṣṭhikī pumān
ācāryavān jñāna-virāga-raṁhasā
dahaty avīryaṁ hṛdayaṁ jīva-kośaṁ
pañcātmakaṁ yonim ivotthito ’gniḥ

Synonyms

yadāquando; ratiḥapego; brahmaṇina Suprema Personalidade de Deus; naiṣṭhikīfixa; pumāna pessoa; ācāryavāninteiramente rendida ao mestre espiritual; jñānaconhecimento; virāgadesapego; raṁhasāpela força de; dahatiqueima; avī­ryamimpotente; hṛdayamdentro do coração; jīva-kośama cobertura da alma espiritual; pañca-ātmakamcinco elementos; yonimfonte de nascimento; ivacomo; utthitaḥemanando; agniḥfogo.

Translation

Ao se fixar em seu apego à Suprema Personalidade de Deus pela graça do mestre espiritual e pelo despertar de conhecimento e desapego, a entidade viva, situada dentro do coração do corpo e coberta pelos cinco elementos, queima seus envolvimentos materiais exatamente como o fogo que surge da madeira e queima a própria madeira.

Purport

SIGNIFICADO—Afirma-se que tanto o jivātmā, a alma individual, quanto o Paramātmā vivem juntos dentro do coração. A versão védica estabelece que hṛdi hy ayam ātmā: tanto a alma quanto a Super­alma vivem dentro do coração. A alma individual se liberta ao sair do coração material ou ao limpar o coração para espiritualizá-lo. O exemplo dado aqui é muito apropriado: yonim ivotthito ’gniḥ. Agni, ou o fogo, surge da madeira, e ele próprio destrói a madeira completamente. Do mesmo modo, a entidade viva que aumenta seu apego à Suprema Personalidade de Deus deve ser considerada como o fogo. O fogo aceso é visível pelas exibições de seu calor e sua luz; da mesma forma, quando a entidade viva dentro do coração se ilumina com pleno conhecimento espiritual e desapega­-se do mundo material, ela elimina sua cobertura material de cinco elementos – terra, água, fogo, ar e éter – e se livra das cinco classes de apegos materiais, a saber, ignorância, falso egoísmo, apego ao mundo material, inveja e absorção em consciência mate­rial. Portanto, pañcātmakam, como se menciona neste verso, refere­-se ou aos cinco elementos, ou às cinco coberturas de contaminação material. Quando tudo isso é reduzido a cinzas pelo fogo ardente de conhecimento e desapego, fixamo-nos firmemente em serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus. A menos que a entidade viva se refugie em um mestre espiritual fidedigno e aumente sua atração por Kṛṣṇa através das instruções do mestre espiritual, suas cinco coberturas não podem ser removidas do coração mate­rial. A entidade viva concentra-se dentro do coração, e tirá-la dali é liberá-la. Esse é o processo. Devemos refugiar-nos em um mestre espiritual fidedigno e, mediante suas instruções, aumentar nosso conhecimento em serviço devocional, desapegar-nos do mundo material e, deste modo, libertar-nos. O devoto avançado, portanto, não vive dentro do corpo material, mas sim dentro de seu corpo espiritual, assim como um coco seco vive desapegado da casca do coco, muito embora esteja dentro da casca. Por isso, o corpo do devoto puro se chama cin-maya-śarīra, “corpo espiritualizado”. Em outras palavras, o corpo do devoto não está ligado a atividades materiais, motivo pelo qual o devoto é sempre liberado (brahma-­bhūyāya kalpate), como se afirma na Bhagavad-gītā (14.26). Śrīla Rūpa Gosvāmī também confirma isso:
īhā yasya harer dāsye
karmaṇā manasā girā
nikhilāsv apy avasthāsu
jīvan-muktaḥ sa ucyate
“Qualquer que seja a condição em que alguém esteja, se está plenamente ocupado com o corpo, a mente e as palavras a serviço do Senhor, está liberado, ainda que dentro deste corpo.”
दग्धाशयो मुक्तसमस्ततद्गुणो
नैवात्मनो बहिरन्तर्विचष्टे ।
परात्मनोर्यद्वय‍वधानं पुरस्तात्
स्वप्ने यथा पुरुषस्तद्विनाशे ॥ २७ ॥
dagdhāśayo mukta-samasta-tad-guṇo
naivātmano bahir antar vicaṣṭe
parātmanor yad-vyavadhānaṁ purastāt
svapne yathā puruṣas tad-vināśe

Synonyms

dagdha-āśayaḥtodos os desejos materiais sendo queimados; muktaliberto; samastatodas; tat-guṇaḥqualidades ligadas à matéria; nanão; evadecerto; ātmanaḥa alma ou a Super­alma; bahiḥexterno; antaḥinterno; vicaṣṭeagindo; para­-ātmanoḥda Superalma; yatesta; vyavadhānamdiferença; purastātcomo era no início; svapneem sonho; yathācomo; puruṣaḥuma pessoa; tatisto; vināśesendo eliminado.

Translation

Quem se despoja de todos os desejos materiais e se liberta de todas as qualidades materiais transcende as distinções entre ações realizadas externa e internamente. Nesse momento, a diferença entre a alma e a Superalma, que existia antes da autorrealização, extingue­-se. Quando um sonho acaba, não há mais distinção entre o sonho e o sonhador.

Purport

SIGNIFICADO—Como descreve Śrīla Rūpa Gosvāmī (anyābhilāṣitā-śūnyam), é preciso se despojar de todos os desejos materiais. Quando alguém se livra de todos os desejos materiais, não há mais necessidade de conhecimento especulativo ou de atividades fruitivas. Alguém que esteja nessa condição é considerado livre do corpo material. O exemplo já foi dado anteriormente – um coco seco solta-se da casca externa. Assim é a fase de liberação. Como se diz no Śrīmad­-Bhāgavatam (2.10.6), mukti (liberação) significa svarūpeṇa vyavas­thitiḥ – situar-se na própria posição constitucional. Todos os desejos materiais estarão presentes enquanto mantivermos o conceito corpóreo de vida, mas, ao compreendermos que somos servos eternos de Kṛṣṇa, nossos desejos deixam de ser materiais. O devoto age com essa consciência. Em outras palavras, a verdadeira liberação ocorre quando se acabam os desejos materiais ligados ao corpo.
Aquele que se liberta das qualidades materiais nada faz em troca de seu próprio gozo dos sentidos. Nesse momento, todas as atividades realizadas por ele são absolutas. No estado condicionado, há duas classes de atividades. Ao mesmo tempo que agimos para nos libertar­mos, agimos em benefício do corpo. Ao se livrar inteiramente de todos os desejos materiais ou de todas as qualidades materiais, o devoto transcende a dualidade da ação para o corpo e da ação para a alma. Então, o conceito corpóreo de vida extingue-se por com­pleto. Portanto, Śrīla Rūpa Gosvāmī diz:
īhā yasya harer dāsye
karmaṇā manasā girā
nikhilāsv apy avasthāsu
jīvan-muktaḥ sa ucyate
Alguém que se fixa inteiramente em serviço ao Senhor é uma pessoa liberada em qualquer condição de vida. Tal pessoa se chama jīvan-muktaḥ, liberada mesmo dentro deste corpo. Em semelhante condição liberada, não há distinção entre ações para o gozo dos sentidos e ações para a liberação. Quando nos libertamos dos dese­jos de gozo dos sentidos, não temos mais que sofrer as reações de lamentação ou ilusão. Atividades realizadas pelos karmīs e jñānīs estão sujeitas à lamentação e à ilusão, mas uma pessoa liberada, autorrealizada, agindo somente para a Suprema Personalidade de Deus, não experimenta nada disso. Essa é a fase de unidade, ou imersão na existência da Suprema Personalidade de Deus. Isso significa que a alma individual, apesar de manter sua individuali­dade, não tem mais interesses à parte. Ela se ocupa plenamente a serviço do Senhor, e nada tem a fazer em troca de seu próprio gozo dos sentidos; portanto, ela vê apenas a Suprema Personalidade de Deus, e não a si mesma. Seu interesse pessoal se desvanece por completo. Quando uma pessoa acorda de um sonho, o sonho se acaba. Durante o sonho, talvez ela se considere um rei e veja a parafernália real, seus soldados etc., mas, quando o sonho se acaba, ela não vê nada além de si mesma. Analogamente, uma pessoa liberada entende que é parte integrante do Senhor Supremo agindo de acordo com o desejo do Senhor Supremo, em consequência do que desaparece a distinção entre ela mesma e o Senhor Supremo, embora ambos retenham sua individualidade (nityo nityānāṁ ceta­naś cetanānām). Esta é a concepção perfeita de unidade em relação à Superalma e à alma.
आत्मानमिन्द्रियार्थं च परं यदुभयोरपि ।
सत्याशय उपाधौ वै पुमान् पश्यति नान्यदा ॥ २८ ॥
ātmānam indriyārthaṁ ca
paraṁ yad ubhayor api
saty āśaya upādhau vai
pumān paśyati nānyadā

Synonyms

ātmānama alma; indriya-arthampara o gozo dos sentidos; cae; paramtranscendental; yatisto; ubhayoḥambos; api­decerto; satiestando situada; āśayedesejos materiais; upādhau­designação; vaidecerto; pumāna pessoa; paśyati; na anyadāe não de outro modo.

Translation

Quando a alma existe para o gozo dos sentidos, ela cria diferentes desejos, razão pela qual se sujeita a designações. Porém, quando está na posição transcendental, já não se interessa por nada exceto a satisfação dos desejos do Senhor.

Purport

SIGNIFICADO—Uma alma espiritual encoberta por desejos materiais também é considerada como estando encoberta por designações pertencentes a uma espécie de corpo em particular. Assim, ela se considera animal, homem, semideus, pássaro etc. De muitas maneiras, ela é influen­ciada pela falsa identificação causada pelo falso egoísmo e, estando coberta de desejos materiais ilusórios, faz distinções entre matéria e espírito. Para alguém livre de semelhantes distinções, a dife­rença entre matéria e espírito deixa de existir. Nesse momento, o espírito é o único fator predominante. Enquanto permanecermos encobertos por desejos materiais, nós nos consideraremos os senhores ou desfrutadores. Assim, agimos em troca de gozo dos sentidos e sujeitamo-nos às dores materiais, felicidade e aflição. Porém, ao libertarmo-nos de semelhante conceito de vida, deixamos de estar sujeitos a desig­nações e encaramos tudo como espiritual, como tendo relação com o Senhor Supremo. Śrīla Rūpa Gosvāmī explica em seu Bhakti-rasāmṛta­-sindhu (1.2.255):
anāsaktasya viṣayān
yathārham upayuñjataḥ
nirbandhaḥ kṛṣṇa-sambandhe
yuktaṁ vairāgyam ucyate
A pessoa liberada não tem apego a nada material, tampouco tem apego ao gozo dos sentidos. Ela entende que tudo tem uma relação com a Suprema Personalidade de Deus e que se deve ocupar tudo a ser­viço do Senhor. Portanto, ela não abandona nada. Está fora de cogitação renunciar a algo porque o paramahaṁsa sabe como ocupar tudo a serviço do Senhor. Originalmente, tudo é espiritual; nada é material. O Caitanya-caritāmṛta (Madhya 8.274) também explica que o mahā-bhāgavata, o devoto altamente avançado, não tem uma visão material:
sthāvara-jaṅgama dekhe, nā dekhe tāra mūrti
sarvatra haya nija iṣṭa-deva-sphūrti
Apesar de ver árvores, montanhas e outras entidades vivas movendo-­se de um lado a outro, ele vê tudo como criação do Senhor Supremo e, com referência a esse contexto, vê apenas o criador, e não o criado. Em outras palavras, ele deixa de distinguir entre o criado e o criador. Ele vê apenas a Suprema Personalidade de Deus em tudo. Ele vê Kṛṣṇa em tudo e tudo em Kṛṣṇa. Isto é unidade.
निमित्ते सति सर्वत्र जलादावपि पूरुष: ।
आत्मनश्च परस्यापि भिदां पश्यति नान्यदा ॥ २९ ॥
nimitte sati sarvatra
jalādāv api pūruṣaḥ
ātmanaś ca parasyāpi
bhidāṁ paśyati nānyadā

Synonyms

nimittedevido às causas; satiestando; sarvatraem toda parte; jala-ādau apiágua e outros meios reflexivos; pūruṣaḥa pessoa; ātmanaḥela própria; cae; parasya apio eu alheio; bhidāmdiversificação; paśyati; na anyadānão há outra razão.

Translation

É apenas devido a diferentes causas que alguém vê diferença entre ele próprio e os outros, assim como alguém vê o reflexo de um corpo aparecendo diversamente manifestado na água, no óleo ou em um espelho.

Purport

SIGNIFICADO—A alma espiritual é apenas uma, a Suprema Personalidade de Deus. Ela se manifesta em expansões svāṁśa e vibhinnāṁśa. As jīvas são expansões vibhinnāṁśa. As diferentes encarnações da Suprema Personalidade de Deus são expansões svāṁśa. Assim, há diferentes potências do Senhor Supremo, e há diferentes expansões das dife­rentes potências. Dessa maneira, por diferentes razões, existem diferentes expansões do mesmo princípio, a Suprema Personali­dade de Deus. Essa compreensão é um conhecimento verdadeiro, mas, quando a entidade viva está coberta pelo upādhi, ou o corpo desig­nado, ela vê diferenças, exatamente como alguém vê diferenças nos reflexos dele mesmo na água, no óleo ou em um espelho. Quando algo se reflete na água, parece se mover com ela. Quando se reflete no gelo, parece fixo. Quando se reflete no óleo, parece indistinto. O abjeto é um só, mas, sob diferentes condições, assume aparências diferentes. Quando se elimina o fator qualificativo, o todo parece ser uno. Em outras palavras, atingindo a fase paramahaṁsa, ou a fase perfectiva da vida, mediante a prática de bhakti-yoga, a pessoa vê apenas Kṛṣṇa em toda parte. Para ela, não há outro objetivo.
Concluindo, devido a diferentes causas, a entidade viva aparece sob formas diversas: como animal, ser humano, semideus, árvore etc. Na verdade, cada entidade viva é a potência marginal do Senhor Supremo. Na Bhagavad-gītā (5.18), portanto, explica-se que quem realmente vê a alma espiritual não distingue entre um brāhmaṇa erudito e um cão, um elefante ou uma vaca. Paṇḍitāḥ sama-darśinaḥ. O verdadeiro erudito vê somente a entidade viva, e não a cobertura externa. Logo, a diferenciação é resultado de diferentes karmas, ou atividades fruitivas, e, ao suspendermos essas atividades fruitivas, transformando-as em atos de devoção, podemos entender que não somos diferentes de ninguém, independentemente das formas. Isso é possível apenas em consciência de Kṛṣṇa. Neste movi­mento, participam diferentes raças de homens de todas as partes do mundo, mas, como eles se consideram servos da Suprema Personalidade de Deus, não diferenciam entre branco e negro, amarelo e vermelho. O movimento para a consciência de Kṛṣṇa é, portanto, o único meio para se livrar as entidades vivas de todas as designações.
इन्द्रियैर्विषयाकृष्टैराक्षिप्तं ध्यायतां मन: ।
चेतनां हरते बुद्धे: स्तम्बस्तोयमिव ह्रदात् ॥ ३० ॥
indriyair viṣayākṛṣṭair
ākṣiptaṁ dhyāyatāṁ manaḥ
cetanāṁ harate buddheḥ
stambas toyam iva hradāt

Synonyms

indriyaiḥpelos sentidos; viṣayaos objetos dos sentidos; ākṛṣṭaiḥsendo atraídos; ākṣiptamagitada; dhyāyatāmsempre pensando em; manaḥmente; cetanāmconsciência; haratese perde; buddheḥde inteligência; stambaḥgrama crescida; toyamágua; ivacomo; hradātdo lago.

Translation

Quando a mente e os sentidos de alguém se atraem por objetos dos sentidos em busca de gozo, a mente se agita. Como resultado de pensar continuamente em objetos dos sentidos, sua verdadeira consciência quase se perde, assim como a água de um lago que é sugada pouco a pouco pela grama crescida em suas margens.

Purport

SIGNIFICADO—Este verso explica muito bem como a nossa consciência de Kṛṣṇa original se polui e, pouco a pouco, quase nos esquecemos de nossa relação com o Senhor Supremo. O verso anterior recomenda que devemos nos manter sempre em contato com o serviço devocional ao Senhor para que o fogo ardente do serviço devocional possa gradualmente reduzir a cinzas os desejos materiais e possamos libertar-nos da repetição de nascimentos e mortes. Esta é também a forma pela qual podemos manter indiretamente nossa fé inque­brantável nos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus. Quando permitimos à mente que pense continuamente em gozo dos sentidos, ela se torna a causa de nosso cativeiro material. Se tudo o que existe em nossa mente é gozo dos sentidos, mesmo que deseje­mos a consciência de Kṛṣṇa, pela prática contínua não conseguire­mos nos esquecer dos objetos de gozo dos sentidos. Se alguém adotar a ordem de vida de sannyāsa, mas não for capaz de contro­lar a mente, pensará nos objetos de gozo dos sentidos – a saber, família, sociedade, casa de luxo etc. Mesmo que vá aos Himalaias ou à floresta, sua mente continuará pensando nos obje­tos de gozo dos sentidos. Dessa maneira, aos poucos, sua inteligência será afetada. Quando nossa inteligência é afetada, perdemos nosso gosto original pela consciência de Kṛṣṇa.
O exemplo dado aqui é muito apropriado. Se um grande lago é coberto por todos os lados por grama kuśa, da altura de colunas, a água seca. Da mesma forma, quando as grandes colunas de desejo material aumentam, a água limpa da consciência seca. Portanto, essas colunas de grama kuśa devem ser cortadas ou jogadas fora desde o início. Śrī Caitanya Mahāprabhu nos ensina que se, desde o começo, não cuidarmos do mato indesejável nos arrozais, os agentes fertilizantes ou a água serão consumidos pelo mato, e o arroz definhará. O desejo material de gozo dos sentidos é a causa de nossa queda neste mundo material, e assim sofremos das três espécies de sofrimentos e da repetição de nascimento, morte, velhice e doença. Contudo, se voltarmos nossos desejos para o transcen­dental serviço amoroso ao Senhor, nossos desejos se purificarão. Não podemos eliminar os desejos. Precisamos purificá-los das dife­rentes designações. Se pensamos constantemente em ser membros de uma nação, sociedade ou família em particular e meditamos nessas coisas, ficamos fortemente enredados na vida condicionada de nas­cimentos e mortes. Todavia, se nossos desejos se dirigem ao serviço do Senhor, eles se purificam e, dessa maneira, livramo-nos de imediato da contaminação material.
भ्रश्यत्यनुस्मृतिश्चित्तं ज्ञानभ्रंश: स्मृतिक्षये ।
तद्रोधं कवय: प्राहुरात्मापह्नवमात्मन: ॥ ३१ ॥
bhraśyaty anusmṛtiś cittaṁ
jñāna-bhraṁśaḥ smṛti-kṣaye
tad-rodhaṁ kavayaḥ prāhur
ātmāpahnavam ātmanaḥ

Synonyms

bhraśyatidestrói-se; anusmṛtiḥpensando constantemente; cittamconsciência; jñāna-bhraṁśaḥdesprovido de conhecimento verdadeiro; smṛti-kṣayepela destruição da lembrança; tat­-rodhamsuspendendo este processo; kavayaḥgrandes estudiosos eruditos; prāhuḥopinam; ātmada alma; apahnavamdestrui­ção; ātmanaḥda alma.

Translation

Aquele que se desvia de sua consciência original perde a capacidade de lembrar-se de sua posição anterior ou de reconhecer sua posição atual. Perdida a lembrança, todo o conhecimento adqui­rido se baseia em um alicerce falso. Quando isso acontece, os estudiosos eruditos consideram que a alma está perdida.

Purport

SIGNIFICADO—A entidade viva, ou a alma, é sempre existente e eterna. Embora ela não possa perder-se, os estudiosos eruditos dizem que ela se perde quando o verdadeiro conhecimento deixa de funcionar. Essa é a diferença entre os animais e os seres humanos. Segundo filóso­fos menos inteligentes, os animais não têm alma. Mas, na verdade, os animais têm alma. Entretanto, devido à ignorância grosseira dos animais, parece que eles perderam suas almas. Sem a alma, o corpo não pode mover-se. Essa é a diferença entre um corpo vivo e um corpo morto. Quando a alma está fora do corpo, afirma-se que o corpo está morto. A alma é considerada perdida quando não demonstra conhecimento apropriado. Nossa consciência original é a consciência de Kṛṣṇa, visto que somos partes integrantes de Kṛṣṇa. Quando desviamos essa consciência e caímos na atmosfera mate­rial, que polui nossa consciência original, julgamos ser produtos dos elementos materiais. Assim, perdemos nossa verdadeira lem­brança de nossa posição como partes integrantes da Suprema Perso­nalidade de Deus, assim como um homem adormecido se esquece de si mesmo. Dessa maneira, quando se reprime as atividades da consciência apropriada, todas as atividades da alma perdida são realizadas sobre um alicerce falso. No momento atual, a civilização humana está agindo sobre uma falsa plataforma de identificação corpórea; portanto, pode-se dizer que as pessoas da era atual per­deram suas almas e, nesse sentido, não passam de animais.
नात: परतरो लोके पुंस: स्वार्थव्यतिक्रम: ।
यदध्यन्यस्य प्रेयस्त्वमात्मन: स्वव्यतिक्रमात् ॥ ३२ ॥
nātaḥ parataro loke
puṁsaḥ svārtha-vyatikramaḥ
yad-adhy anyasya preyastvam
ātmanaḥ sva-vyatikramāt

Synonyms

nanão; ataḥdepois disso; parataraḥmaior; lokeneste mundo; puṁsaḥdas entidades vivas; sva-arthainteresse; vyatikramaḥobstáculo; yat-adhialém deste; anyasyade outros; preyastvamser mais interessantes; ātmanaḥpara o eu; sva­próprio; vyatikramātpelo obstáculo.

Translation

Não há obstáculo mais forte ao nosso interesse pessoal do que pensar haver outros assuntos mais proveitosos do que nossa autorrealização.

Purport

SIGNIFICADO—A vida humana destina-se especialmente à autorrealização. “Eu” refere-se ao Supereu e ao eu individual, a Suprema Personalidade de Deus e a entidade viva. Quando, contudo, alguém se interessa mais pelo corpo e pelo gozo sensorial corpóreo, cria para si mesmo obstáculos no caminho da autorrealização. A influência de māyā o faz ter mais interesse pelo gozo dos sentidos, o qual é proibido neste mundo para aqueles cujo interesse é a auto­rrealização. Ao invés de interessarmo-nos pelo gozo dos sentidos, devemos desviar nossas atividades para a satisfação dos sentidos da Alma Suprema. Qualquer coisa que realizemos contra esse princí­pio é decerto contrária ao nosso interesse pessoal.
अर्थेन्द्रियार्थाभिध्यानं सर्वार्थापह्नवो नृणाम् ।
भ्रंशितो ज्ञानविज्ञानाद्येनाविशति मुख्यताम् ॥ ३३ ॥
arthendriyārthābhidhyānaṁ
sarvārthāpahnavo nṛṇām
bhraṁśito jñāna-vijñānād
yenāviśati mukhyatām

Synonyms

arthariquezas; indriya-arthapara a satisfação dos sentidos; abhidhyānampensando constantemente em; sarva-arthaquatro espécies de conquistas; apahnavaḥdestrutivas; nṛṇāmda socie­dade humana; bhraṁśitaḥestando desprovido de; jñānaconhe­cimento; vijñānātserviço devocional; yenapor tudo isso; āviśati­entra; mukhyatāmvida imóvel.

Translation

Para a sociedade humana, pensar constantemente em como obter dinheiro e aplicá-lo para o gozo dos sentidos provoca a destruição dos interesses de todos. Aquele que se torna desprovido de conhecimento e serviço devocional entra em espécies de vida tais como as árvores e as pedras.

Purport

SIGNIFICADO—Jñāna, ou conhecimento, significa entender nossa posição consti­tucional, e vijñāna refere-se à aplicação prática deste conhecimento na vida. Sob a forma humana de vida, deve-se chegar à posição de jñāna e vijñāna, mas, apesar dessa grande oportunidade, se alguém deixar de desenvolver conhecimento e a aplicação prática do conhe­cimento, por intermédio da ajuda de um mestre espiritual e dos śāstras – em outras palavras, se abusar dessa oportunidade –, então, na próxima vida, é certo que nascerá em uma espécie entre as entidades vivas imóveis. Na categoria de entidades vivas imóveis, enquadram-se as colinas, as montanhas, as árvores, as plantas etc. Essa fase de vida se chama puṇyatām ou mukhyatām, ou seja, redução de todas as atividades a zero. Os filósofos que apoiam a cessação de todas as atividades chamam-se śūnyavādīs. Pelo próprio arranjo da natureza, nossas atividades destinam-se a voltarem-se pouco a pouco ao serviço devocional. Porém, há filósofos que, ao invés de purificarem suas atividades, tentam reduzir tudo a zero, ou mergulhar todas as atividades em um vazio. Essa falta de atividade é representada pelas árvores e pelas colinas. Essa é uma das punições impostas pelas leis da natureza. Se não cumprirmos adequada­mente nossa missão de autorrealização na vida, a punição da natureza nos deixará inativos, pondo-nos sob a forma de árvores e colinas. Portanto, as atividades voltadas ao gozo dos sentidos são condenadas nesta passagem. Quem pensa constantemente em atividades para obter dinheiro e satisfazer os sentidos está trilhando um caminho suicida. Na verdade, toda a sociedade humana está trilhando esse caminho. De alguma forma, as pessoas estão deter­minadas a conseguir dinheiro, esmolando, fazendo empréstimos ou roubando, e usando isso para o gozo dos sentidos. Uma civilização assim é o maior obstáculo no caminho da autorrealização.
न कुर्यात्कर्हिचित्सङ्गं तमस्तीव्रं तितीरिषु: ।
धर्मार्थकाममोक्षाणां यदत्यन्तविघातकम् ॥ ३४ ॥
na kuryāt karhicit saṅgaṁ
tamas tīvraṁ titīriṣuḥ
dharmārtha-kāma-mokṣāṇāṁ
yad atyanta-vighātakam

Synonyms

nanão; kuryātagem; karhicitem tempo algum; saṅgamcontato; tamaḥignorância; tīvramcom muita velocidade; titīriṣuḥpessoas que desejam transpor a ignorância; dharma­religião; arthadesenvolvimento econômico; kāmagozo dos sentidos; mokṣāṇāmda salvação; yataquilo que; atyantamuito; vighātakamobstrução ou obstáculo.

Translation

Aqueles que desejam fortemente cruzar o oceano de ignorância devem evitar o contato com os modos da ignorância, pois as atividades hedonistas são os maiores obstáculos à compreensão dos princípios religiosos, ao desenvolvimento econômico, ao gozo regulado dos sentidos e, finalmente, à liberação.

Purport

SIGNIFICADO—Os quatro princípios da vida permitem-nos viver de acordo com os princípios religiosos, ganhar dinheiro de acordo com nossa posição na sociedade, deixar os sentidos desfrutarem de seus obje­tos segundo certas normas e avançar no caminho que nos liberta deste apego material. Enquanto existir o corpo, não será possível nos livrarmos inteiramente de todos esses interesses materiais. Não se recomenda, no entanto, que ajamos apenas em nome do gozo dos sentidos e ganhemos dinheiro tendo isso em vista e sacrificando todos os princípios religiosos. A civilização humana atual não se importa com os princípios religiosos. Entretanto, está bastante interessada em desenvolvimento econômico sem princípios religio­sos. Por exemplo, é certo que os açougueiros de um matadouro ganham dinheiro com facilidade, mas semelhante atividade não se baseia em princípios religiosos. Do mesmo modo, existem muitas boates para o gozo dos sentidos e bordéis para sexo. Eviden­temente, o sexo é permitido na vida conjugal, mas a prostituição é proibida porque, em última análise, todas as nossas atividades visam à liberação, visam a nos livrarmos das garras da existência material. De modo semelhante, embora o governo possa autorizar casas de bebidas, isso não significa que se devam abrir casas de bebidas irrestritamente e que se possa contrabandear bebidas ilícitas. Concedem-­se licenças para se impor restrições. Ninguém precisa tirar licença para comprar açúcar, trigo ou leite, pois não há necessidade de restringir essas coisas. Em outras palavras, somos aconselhados a não agir de alguma maneira que obstrua o processo regular de avanço na vida espiritual e na liberação. Portanto, o processo védico de gozo dos sentidos é planejado de tal maneira que cada um possa desenvolver-se economicamente, desfrutar de gozo dos senti­dos e, ainda assim, alcançar a liberação ao final. A civilização védica oferece-nos todo o conhecimento nos śāstras, e, se levarmos uma vida regulada, sob a orientação dos śāstras e do guru, todos os nossos desejos materiais serão satisfeitos e, ao mesmo tempo, sere­mos capazes de avançar rumo à liberação.
तत्रापि मोक्ष एवार्थ आत्यन्तिकतयेष्यते ।
त्रैवर्ग्योऽर्थो यतो नित्यं कृतान्तभयसंयुत: ॥ ३५ ॥
tatrāpi mokṣa evārtha
ātyantikatayeṣyate
traivargyo ’rtho yato nityaṁ
kṛtānta-bhaya-saṁyutaḥ

Synonyms

tatraali; apitambém; mokṣaḥliberação; evadecerto; arthequanto a; ātyantikatayāmuito importante; iṣyateconsiderada dessa maneira; trai-vargyaḥos outros três, a saber, religião, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos; arthaḥinteresse; yataḥ­de onde; nityamregularmente; kṛta-antamorte; bhayamedo; saṁyutaḥapegado.

Translation

Dentre os quatro princípios – a saber, religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e liberação – a liberação deve ser levada muito a sério. Os outros três estão sujeitos a serem destruídos pela morte, a estrita lei da natureza.

Purport

SIGNIFICADO—Mokṣa, ou a liberação, deve ser levada muito a sério, mesmo que seja necessário sacrificar os outros três itens. Como aconselha Sūta Gosvāmī no início do Śrīmad-Bhāgavatam, os princípios religiosos não se baseiam no sucesso do desenvolvimento econômico. Por estarmos muito apegados ao gozo dos sentidos, dirigimo-nos a Deus, aos templos ou às igrejas por alguma razão econômica. De modo semelhante, desenvolvimento econômico não significa gozo dos sentidos. Devemos ajustar tudo de tal maneira que possamos alcançar a liberação. Portanto, este verso enfatiza a liberação, mokṣa. Os outros três itens são materiais e, portanto, sujeitos à des­truição. Mesmo que, de alguma forma, acumulemos um grande saldo bancário nesta vida e tenhamos muitas coisas materiais, tudo terminará com a morte. A Bhagavad-gītā diz que a morte é a Suprema Personalidade de Deus, que, no final, tira da pessoa materialista tudo aquilo que ela adquiriu. É por tolice que não nos importamos com isso. Tolamente, não tememos a morte, tampouco consideramos que a morte nos privará de tudo o que adquirimos mediante o processo de dharma, artha e kāma. Através de dharma, ou atividades piedosas, pode ser que nos elevemos aos planetas celestiais, mas isso não quer dizer que nos libertamos das garras de nascimento, morte, velhice e doença. Isso significa que podemos sacrificar nossos interesses em traivargya – princípios religiosos, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos –, mas não podemos sacrificar a causa da liberação. Com respeito à liberação, afirma-se na Bhagavad-gītā (4.9), tyaktvā dehaṁ punar janma naiti: liberação significa não ter de aceitar outro corpo material após abandonar este corpo. Para os impersonalistas, a liberação sig­nifica fundir-se na existência do Brahman impessoal. Na verdade, porém, isso não é mokṣa, porque quem atinge a posição impessoal tem de cair novamente neste mundo material. Portanto, devemos buscar o abrigo da Suprema Personalidade de Deus e ocupar-nos em Seu serviço devocional. Isso é verdadeira liberação. Concluindo, não devemos enfatizar atividades piedosas, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos, senão que devemos interessar-nos em apro­ximarmo-nos do Senhor Viṣṇu em Seus planetas espirituais, entre os quais o mais elevado é Goloka Vṛndāvana, onde vive o Senhor Kṛṣṇa. Portanto, este movimento para a consciência de Kṛṣṇa é a dádiva mais valiosa para as pessoas que realmente desejam a liberação.
परेऽवरे च ये भावा गुणव्यतिकरादनु ।
न तेषां विद्यते क्षेममीशविध्वंसिताशिषाम् ॥ ३६ ॥
pare ’vare ca ye bhāvā
guṇa-vyatikarād anu
na teṣāṁ vidyate kṣemam
īśa-vidhvaṁsitāśiṣām

Synonyms

pareno status superior de vida; avareno status inferior de vida; cae; yetodos esses; bhāvāḥconceitos; guṇaqualidades materiais; vyatikarātpor interação; anuseguindo; nanunca; teṣāmdeles; vidyateexistem; kṣemamcorreção; īśao Senhor Supremo; vidhvaṁsitadestruídas; āśiṣāmdas bênçãos.

Translation

Aceitamos como bênçãos os diferentes estados de vida superior, distinguindo-os dos estados inferiores de vida, mas devemos entender que semelhantes distinções existem apenas em relação ao inter­câmbio dos modos da natureza material. Na verdade, esses estados de vida não têm existência permanente, pois todos eles serão des­truídos pelo controlador supremo.

Purport

SIGNIFICADO—Em nossa existência material, aceitamos uma forma de vida superior como bênção e uma forma inferior como maldição. Essa distinção de “superior” e “inferior” existe apenas enquanto as dife­rentes qualidades materiais (guṇas) interagem. Em outras palavras, através de nossas boas ações, somos elevados aos sistemas planetá­rios superiores ou a um padrão de vida superior (boa educação, beleza física etc.). Esses são os resultados de atividades piedosas. De modo semelhante, devido às atividades ímpias, permanecemos analfabetos, obtemos corpos feios, um padrão de vida pobre etc. Porém, todos esses diferentes estados de vida estão sob a influência das leis da natureza material através da interação das qualidades de bondade, paixão e ignorância. Entretanto, todas essas qualidades deixarão de agir no momento da destruição de toda a manifestação cósmica. Portanto, o Senhor diz na Bhagavad-gītā (8.16):
ābrahma-bhuvanāl lokāḥ
punar āvartino ’rjuna
mām upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate
Mesmo que nos elevemos a sistemas planetários superiores através do avanço científico de conhecimento ou através dos princípios da vida religiosa – grandes sacrifícios e atividades fruitivas –, no momento da dissolução, esses sistemas planetários superiores e a vida neles serão destruídos. Neste verso, as palavras īśa-vidhvaṁsitāśiṣām indicam que todas essas bênçãos serão destruídas pelo controlador supremo. Nada nos protegerá. Nossos corpos, seja neste planeta, seja em outro planeta, serão destruídos, e novamente teremos que permanecer por milhões de anos em um estado incons­ciente dentro do corpo de Mahā-Viṣṇu. E outra vez, quando a criação se manifestar, teremos que nascer em diferentes espécies de vida e recomeçar nossas atividades. Portanto, não devemos con­tentar-nos simplesmente com uma promoção aos sistemas planetá­rios superiores. Devemos tentar escapar da manifestação cósmica material, ir ao mundo espiritual e abrigar-nos na Suprema Persona­lidade de Deus. Essa será nossa conquista máxima. Não devemos nos deixar atrair por algo material, superior ou inferior, senão que deve­mos encarar tudo no mesmo nível. O que devemos fazer realmente é indagar acerca do verdadeiro propósito da vida e prestar serviço devocional ao Senhor. Assim, seremos eternamente abençoados em nossas atividades espirituais, plenas de conhecimento e bem-aventurança.
A civilização humana regulada promove dharma, artha, kāma e mokṣa. É preciso haver religião na sociedade humana. Sem religião, a sociedade humana não passa de sociedade animal. O desenvolvi­mento econômico e o gozo dos sentidos devem basear-se em princí­pios religiosos. Ao conciliarmos a religião, o desenvolvimento econômico e o gozo dos sentidos, temos garantida a liberação das tribulações materiais de nascimento, morte, velhice e doença. Na atual era de Kali, entretanto, ninguém pensa em religião e libe­ração. Todos se interessam apenas em desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos. Portanto, apesar do suficiente desenvolvimento econômico em todo o mundo, os relacionamentos na sociedade humana têm se tornado quase animalescos. Quando tudo se torna grosseiramente animalesco, ocorre a dissolução. Deve-se admitir que esta dissolução é īśa-vidhvaṁsitāśiṣām. As ditas bênçãos de desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos oferecidas pelo Senhor serão definitivamente dissolvidas pela destruição. No final deste Kali-yuga, o Senhor, aparecendo como a encarnação de Kalki, terá como única ocupação matar todos os seres humanos na superfície do globo. Após essa matança, começará outra era dou­rada. Portanto, devemos entender que nossas atividades materiais são como brincadeiras infantis. Enquanto as crianças brincarem na praia, o pai se sentará e observará suas brincadeiras infantis – construção de castelos de areia, construção de muros e tantas coisas –, mas, ao final, o pai pedirá às crianças que voltem para casa. Então, tudo será destruído. Pessoas demasiadamente viciadas nas atividades infantis de construir castelos de desenvolvimento econô­mico e gozo dos sentidos, às vezes são favorecidas especialmente pelo Senhor quando Ele destrói suas construções.
O Senhor diz: yasyāham anugṛhṇāmi hariṣye tad-dhanaṁ śanaiḥ. O Senhor disse a Yudhiṣṭhira Mahārāja que mostra Seu favor especial a Seu devoto tirando-lhe todas as opulências materiais. De um modo geral, portanto, verifica-se que os vaiṣṇavas não são muito opulentos no sentido material. Quando um vaiṣṇava, um devoto puro, procura ser materialmente opulento e, ao mesmo tempo, deseja servir o Senhor Supremo, seu serviço devocional é interrompido. O Senhor, a fim de mostrar-lhe um favor especial, destrói seu dito desenvolvimento econômico e suas opulências materiais. Deste modo, o devoto, frustrando-se em suas repetidas tentativas de desenvolvimento econômico, por fim refugia-se soli­damente aos pés de lótus do Senhor. Essa espécie de ação também pode ser considerada īśa-vidhvaṁsitāśiṣām, através da qual o Senhor destrói as opulências materiais de alguém, mas o enriquece com compreensão espiritual. No decurso do nosso trabalho de pregação, às vezes verificamos que certos materialistas vêm até nós e nos oferecem suas reverências com o intuito de receber bênçãos, o que significa que eles desejam mais e mais opulências materiais. Se perdem essas opulências materiais, semelhantes pessoas não se inte­ressam mais em reverenciar os devotos. Esses materialistas estão sempre preocupados com seu desenvolvimento econômico.
Eles prestam reverências às pessoas santas ou ao Senhor Supremo e dão algo em caridade para o trabalho de pregação com vistas a serem recompensados com mais desenvolvimento econômico. Entretanto, no caso de um devoto sincero em seu serviço devo­cional, o Senhor o força a abandonar seu desenvolvimento mate­rial e render-se inteiramente a Ele. Como o Senhor não concede bênçãos de opulência material a Seus devotos, as pessoas temem adorar o Senhor Viṣṇu, pois veem que os vaiṣṇavas, que são adoradores do Senhor Viṣṇu, carecem de opulências materiais superficiais. Tais materialistas, contudo, obtêm imensa oportuni­dade de desenvolvimento econômico adorando o senhor Śiva, pois o senhor Śiva é o esposo da deusa Durgā, a proprietária deste universo. Pela graça do senhor Śiva, um devoto obtém a oportu­nidade de ser abençoado pela deusa Durgā. Rāvaṇa, por exemplo, era um grande adorador e devoto do senhor Śiva e, em troca, ele obteve todas as bênçãos da deusa Durgā, a ponto de que todo o seu reino era construído com edifícios de ouro. No Brasil, na era atual, foram encontradas imensas quantidades de ouro, e, a partir de referências históricas nos Purāṇas, podemos deduzir com segurança que esse era o reino de Rāvaṇa. Esse reino, contudo, foi destruído pelo Senhor Rāmacandra.
Estudando esses incidentes, podemos entender o significado pleno de īśa-vidhvaṁ­sitāśiṣām. O Senhor não concede bênçãos mate­riais aos devotos, pois talvez eles se enredem novamente neste mundo material através de contínuos nascimentos, mortes, velhice e doença. Devido a opulências materialistas, pessoas como Rāvaṇa tornam-se arrogantes em busca de gozo dos sentidos. Rāvaṇa ousou inclusive raptar Sītā, que era tanto a esposa do Senhor Rāmacandra quanto a deusa da fortuna, pensando que seria capaz de gozar da potência de prazer do Senhor. Mas, na verdade, ao fazer isso, Rāvaṇa tornou-se vidhvaṁsita, ou arruinado. Atual­mente, a civilização humana está demasiadamente apegada ao desenvolvimento econômico e ao gozo dos sentidos e, portanto, aproxima-se do caminho da ruína.
तत्त्वं नरेन्द्र जगतामथ तस्थूषां च
देहेन्द्रियासुधिषणात्मभिरावृतानाम् ।
य: क्षेत्रवित्तपतया हृदि विश्वगावि:
प्रत्यक् चकास्ति भगवांस्तमवेहि सोऽस्मि ॥ ३७ ॥
tat tvaṁ narendra jagatām atha tasthūṣāṁ ca
dehendriyāsu-dhiṣaṇātmabhir āvṛtānām
yaḥ kṣetravit-tapatayā hṛdi viśvag āviḥ
pratyak cakāsti bhagavāṁs tam avehi so ’smi

Synonyms

tatportanto; tvamtu; nara-indraó melhor dos reis; jaga­tāmdos móveis; athaportanto; tasthūṣāmos imóveis; ca­também; dehacorpo; indriyasentidos; asuar vital; dhiṣaṇā­por consideração; ātmabhiḥautorrealização; āvṛtānāmaqueles que estão cobertos dessa maneira; yaḥaquele que; kṣetra-vit­conhecedor do campo; tapatayācontrolando; hṛdino coração; viśvakem toda a parte; āviḥmanifesto; pratyakem cada poro capilar; cakāstibrilhando; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; tama Ele; avehitenta compreender; saḥ asmieu sou isso.

Translation

Sanat-kumāra aconselhou o rei: Portanto, meu querido rei Pṛthu, esforça-te para entender a Suprema Personalidade de Deus, que vive no coração de todos junto com a alma individual, dentro de todos e de cada um dos corpos, quer móveis, quer imóveis. As almas individuais estão totalmente cobertas pelo corpo material grosseiro e pelo corpo sutil composto de ar vital e inteligência.

Purport

SIGNIFICADO—Este verso aconselha especificamente que, ao invés de perder tempo sob a forma humana de vida, esforçando-se para obter desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos, todos devem esforçar-se para cultivar valores espirituais, entendendo a Suprema Personalidade de Deus que vive no coração de todos junto com a alma individual. A alma individual e a Suprema Personalidade de Deus sob Seu aspecto Paramātmā encontram-se ambas dentro deste corpo, que está coberto por elementos grosseiros e sutis. Entender isso é alcançar a verdadeira cultura espiritual. Há duas maneiras de avançar na cultura espiritual – pelo método dos filóso­fos impersonalistas e mediante o serviço devocional. O impersona­lista chega à conclusão de que ele e o Espírito Supremo são a mesma coisa, ao passo que os devotos, ou personalistas, experimen­tam a Verdade Absoluta entendendo que, visto que a Verdade Absoluta é o predominador supremo e nós, entidades vivas, somos predominados, nosso dever é servi-lO. Os preceitos védicos dizem que tat tvam asi, “Vós sois a mesma coisa”, e que so ’ham, “eu sou a mesma coisa”. O conceito impersonalista desses mantras é que o Senhor Supremo, ou a Verdade Absoluta, e a entidade viva são a mesma coisa, mas, segundo o ponto de vista do devoto, esses mantras afirmam que tanto o Senhor Supremo quanto nós somos da mesma qualidade. Tat tvam asi, ayam ātmā brahma. Tanto o Senhor Supremo quanto a entidade viva são espíritos. Compreender isso é autorrealização. Nosso objetivo sob a forma humana de vida é entender o Senhor Supremo e a nós mesmos através do cultivo de conhecimento espiritual. Não devemos desper­diçar nossa preciosa vida ocupando-nos apenas em desenvolvi­mento econômico e em gozo dos sentidos.
Neste verso, a palavra kṣetra-vit também é importante. Essa palavra é explicada na Bhagavad-gītā (13.2): idaṁ śarīraṁ kaunteya kṣetram ity abhidhīyate. Este corpo se chama kṣetra (o campo de atividades), e os proprietários do corpo (a alma individual e a Superalma presentes dentro do corpo) são ambos chamados kṣetra-vit. Porém, há uma diferença entre as duas espécies de kṣetra-vit. Um kṣetra-vit, ou conhecedor do corpo, a saber, o Paramātmā, ou Superalma, orienta a alma individual. Quando seguimos correta­mente a orientação da Superalma, nossa vida se torna exitosa. A Superalma nos orienta interna e externamente. A partir do nosso interior, Ele nos orienta como o caitya-guru, ou seja, o mestre espiritual que se encontra dentro do coração. Indiretamente, Ele também ajuda a entidade viva manifestando-Se externamente como o mestre espiritual. De ambas as maneiras, o Senhor apresenta orientações à entidade viva para que ela possa encerrar suas atividades materiais e voltar ao lar, voltar ao Supremo. Qualquer pessoa pode perceber a pre­sença da Alma Suprema e da alma individual dentro do corpo, já que, enquanto a alma individual e a Superalma vivem ambas dentro do corpo, o corpo é sempre brilhante e viçoso. Contudo, quando a Superalma e a alma individual abandonam a posse do corpo grosseiro, este se decompõe de imediato. Aquele que é avançado espiritualmente pode entender assim a verdadeira diferença entre um corpo morto e um corpo vivo. Concluindo, não devemos perder nosso tempo com os ditos desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos, senão que devemos cultivar conhecimento espi­ritual a fim de entender a Superalma e a alma individual e a relação entre elas. Dessa maneira, através do avanço de conhecimento, pode-se alcançar a liberação e a meta última da vida. Afirma-se que quem adota o caminho da liberação, rejeitando inclusive seus supostos deveres no mundo material, não perde nada, de modo algum. Porém, quem não adota o caminho da liberação e, todavia, exe­cuta com cuidado o desenvolvimento econômico e o gozo dos sentidos perde tudo. Uma das afirmações de Nārada perante Vyāsa­deva é apropriada a este respeito:
tyaktvā sva-dharmaṁ caraṇāmbujaṁ harer
bhajann apakvo ’tha patet tato yadi
yatra kva vābhadram abhūd amuṣya kiṁ
ko vārtha āpto ’bhajatāṁ sva-dharmata
(Śrīmad-Bhāgavatam 1.5.17)
Se uma pessoa, por sentimento ou por alguma outra razão, refugia­-se aos pés de lótus do Senhor, mas, no decurso do tempo, fracassa no intento de alcançar a meta última da vida ou cai devido à falta de experiência, ela nada perde. Em contraste, quem não adota o serviço devocional, mesmo que cumpra seus deveres materiais muito bem, não tem nenhum proveito.
यस्मिन्निदं सदसदात्मतया विभाति
माया विवेकविधुति स्रजि वाहिबुद्धि: ।
तं नित्यमुक्तपरिशुद्धविशुद्धतत्त्वं
प्रत्यूढकर्मकलिलप्रकृतिं प्रपद्ये ॥ ३८ ॥
yasminn idaṁ sad-asad-ātmatayā vibhāti
māyā viveka-vidhuti sraji vāhi-buddhiḥ
taṁ nitya-mukta-pariśuddha-viśuddha-tattvaṁ
pratyūḍha-karma-kalila-prakṛtiṁ prapadye

Synonyms

yasminna qual; idamesta; sat-asato Senhor Supremo e Suas diferentes energias; ātmatayāsendo a raiz de todas as causas e efeitos; vibhātimanifesta; māyāilusão; viveka-vidhutilibe­rado mediante cautelosa reflexão; srajisobre a corda; ou; ahiserpente; buddhiḥinteligência; tama Ele; nityaeterna­mente; muktaliberado; pariśuddhaincontaminado; viśuddha­pura; tattvamverdade; pratyūḍhatranscendental; karmaati­vidades fruitivas; kalilaimpurezas; prakṛtimsituado em energia espiritual; prapadyerende-te.

Translation

A Suprema Personalidade de Deus manifesta-Se como a raiz de todas as causas e efeitos dentro deste corpo, mas quem transcende a energia ilusória mediante cautelosa reflexão, a qual escla­rece o equívoco de confundir uma cobra com uma corda, pode entender que o Paramātmā é eternamente transcendental à criação material, estando situado em energia interna pura. Assim, o Senhor é transcendental a toda a contaminação material. É apenas a Ele que devemos nos render.

Purport

SIGNIFICADO—A afirmação deste verso destina-se especificamente a desfazer a conclusão māyāvāda de unidade sem diferenciação entre a alma individual e a Superalma. A conclusão māyāvāda é que a entidade viva e a Superalma são a mesma coisa: não há diferença entre elas. Os māyāvādīs proclamam que não há existência separada fora do Brahman impessoal e que o sentimento de separação é māyā, ou uma ilusão, a qual nos faz confundir uma corda com uma cobra. O argumento da corda e da cobra é utilizado geralmente pelos filóso­fos māyāvādīs. Portanto, essas palavras, que representam vivarta-­vāda, são especificamente mencionadas nesta passagem. Na verdade, o Paramātmā, a Superalma, é a Suprema Personalidade de Deus, e é eternamente liberado. Em outras palavras, a Suprema Personali­dade de Deus vive dentro deste corpo junto com a alma individual, e isso é confirmado nos Vedas. A Superalma e a alma individual são comparadas a dois pássaros amigos, pousados na mesma árvore. Todavia, o Paramātmā está acima da energia ilusória. A energia ilusória se chama bahiraṅgā śakti, ou energia externa, e a entidade viva chama-se taṭasthā śākti, ou potência marginal. Como se afirma na Bhagavad-gītā, tanto a energia material, representada como terra, água, ar, fogo, éter etc., quanto a energia espiritual, a entidade viva, são energias do Senhor Supremo. Muito embora as energias e o energético sejam idênticos, a entidade viva, a alma individual, estando sujeita à influência da energia externa, consi­dera a Suprema Personalidade de Deus igual a ela mesma.
A palavra prapadye também é significativa neste verso, pois se refere à conclusão da Bhagavad-gītā (18.66): sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja. Em outra passagem, o Senhor diz: bahūnāṁ janmanām ante jñānavān māṁ prapadyate. (Bhagavad-gītā 7.19) Este prapadye ou śaraṇaṁ vraja se refere à rendição do indivíduo à Superalma. Ao se render, a alma individual pode entender que a Suprema Personalidade de Deus, embora situada dentro do coração da alma individual, é superior à alma individual. O Senhor é sempre transcendental à manifestação material, muito embora pareça que o Senhor e a manifestação material sejam a mesma coisa. Segundo a filosofia vaiṣṇava, Ele é uno e diferente simultaneamente. A energia material é uma manifestação de Sua potência externa, e, como a potência é idêntica ao potente, parece que o Senhor e a alma individual são iguais, mas, na verdade, a alma individual está sob a influência da energia material, e o Senhor é sempre transcendental a ela. A menos que o Senhor seja superior à alma individual, não há possibilidade de prapadye, ou rendição a Ele. Esta palavra, prapadye, refere-se ao processo de serviço devocional. A mera especulação não-devocional sobre a corda e a cobra não nos permite aproximarmo-nos da Verdade Absoluta. Portanto, enfatiza-se que o serviço devocional é mais importante do que a deliberação ou especulação mental com o intuito de entender a Verdade Absoluta.
यत्पादपङ्कजपलाशविलासभक्त्या
कर्माशयं ग्रथितमुद्ग्रथयन्ति सन्त: ।
तद्वन्न रिक्तमतयो यतयोऽपि रुद्ध
स्रोतोगणास्तमरणं भज वासुदेवम् ॥ ३९ ॥
yat-pāda-paṅkaja-palāśa-vilāsa-bhaktyā
karmāśayaṁ grathitam udgrathayanti santaḥ
tadvan na rikta-matayo yatayo ’pi ruddha-
sroto-gaṇās tam araṇaṁ bhaja vāsudevam

Synonyms

yatcujos; pādapés; paṅkajalótus; palāśapétalas ou dedos dos pés; vilāsagozo; bhaktyāmediante o serviço devocional; karmaatividades fruitivas; āśayamdesejo; grathitamnó apertado; udgrathayantiarrancam pela raiz; santaḥdevotos; tat­isto; vatcomo; nanunca; rikta-matayaḥpessoas desprovidas de serviço devocional; yatayaḥtentando cada vez mais; api­muito embora; ruddhacontidas; srotaḥ-gaṇāḥas ondas de gozo dos sentidos; tama Ele; araṇamdigno de servir de refúgio; bhajaocupa-te em serviço devocional; vāsudevama Kṛṣṇa, o filho de Vasudeva.

Translation

Os devotos, que estão sempre ocupados a serviço dos dedos dos pés de lótus do Senhor, podem superar muito facilmente os arraigados dese­jos de atividades fruitivas. Como isso é muito difícil, os não-­devotos – os jñānīs e os yogīs –, embora tentem conter as ondas de gozo dos sentidos, não podem fazê-lo. Portanto, aconselho-te a que te ocupes no serviço devocional a Kṛṣṇa, o filho de Vasudeva.

Purport

SIGNIFICADO—Três são as classes de transcendentalistas que tentam superar a influência dos modos da natureza material – os jñānīs, os yogīs e os bhaktas. Todos eles tentam superar a influência dos sentidos, que é comparada às incessantes ondas de um rio. As ondas de um rio fluem incessantemente, e é muito difícil contê-las. Da mesma forma, as ondas dos desejos de gozo material são tão fortes que nenhum processo além da bhakti-yoga pode contê-las. Mediante seu transcendental serviço devocional aos pés de lótus do Senhor, os bhaktas sobrecarregam-se tanto de bem-aventurança transcen­dental que naturalmente seus desejos de gozo material são descontinuados. Os jñānīs e os yogīs, que não estão apegados aos pés de lótus do Senhor, simplesmente lutam contra as ondas do desejo. Este verso os descreve como rikta-matayaḥ, que significa “desprovidos de ser­viço devocional”. Em outras palavras, os jñānīs e os yogīs, embora tentem livrar-se dos desejos de atividades materiais, na verdade se enredam cada vez mais em falsas especulações filosóficas ou em árduas tentativas de parar as atividades dos sentidos. Como se afir­mou anteriormente:
vāsudeve bhagavati
bhakti-yogaḥ prayojitaḥ
janayaty āśu vairāgyaṁ
jñānaṁ ca yad ahaituka
(Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.7)
Aqui também se enfatiza o mesmo ponto. Bhaja vāsudevam indica que quem está ocupado em serviço amoroso a Kṛṣṇa, o filho de Vasudeva, pode muito facilmente conter as ondas de desejos. Enquanto continuarmos tentando conter artificialmente as ondas de desejos, decerto seremos derrotados. Indica-se isso neste verso. Os desejos de atividades fruitivas estão fortemente enraizados, mas as árvores de desejo podem ser desarraigadas inteiramente através do serviço devocional, porque o serviço devocional faz desenvolvermos desejos superiores. É possível abandonar os desejos inferiores absorvendo-nos em desejos superiores. É impossível querer parar os desejos. É preciso que desejemos o Supremo de modo que os dese­jos inferiores não nos enredem. Os jñānīs mantêm um desejo de tornarem-se unos com o Supremo, mas esse desejo também é con­siderado kāma, luxúria. De forma semelhante, os yogīs desejam poder místico, o que também é kāma. Os bhaktas, por sua vez, não desejando qualquer espécie de gozo material, purificam-se. É irreal querer conter os desejos artificialmente. O desejo torna-se uma fonte de gozo espiritual sob a proteção dos dedos dos pés de lótus do Senhor. Nesta passagem, os Kumāras afirmam que os pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa são o reservatório último de todo o prazer. Deve-se, portanto, refugiar-se aos pés de lótus do Senhor ao invés de tentar malogradamente conter os desejos de gozo ma­terial. Enquanto sejamos incapazes de parar os desejos de gozo ma­terial, não há possibilidade de libertar-nos do enredamento na existência material. Pode-se argumentar que as ondas de um rio fluem incessantemente e não é possível contê-las, mas as ondas do rio fluem rumo ao mar. Quando a maré cresce para o lado do rio, ela domina a correnteza do rio, transbordando o próprio rio, e as ondas do mar se tornam mais proeminentes do que as ondas do rio. Analogamente, o devoto inteligente planeja tantas coisas para o serviço ao Senhor em consciência de Kṛṣṇa que os desejos materiais estagnados são inundados pelo desejo de servir ao Senhor. Como confirma Yāmunācārya, desde que ele passou a se ocupar a serviço dos pés de lótus do Senhor, há sempre uma corrente cada vez mais nova de desejos fluindo rumo ao serviço ao Senhor, o que faz com que os desejos estagnados de vida sexual se tornem muito insignificantes. Yāmunācārya diz, inclusive, que cospe nesses desejos. A Bhagavad­-gītā (2.59) também confirma: paraṁ dṛṣṭvā nivartate. A conclusão é que, desenvolvendo um desejo amoroso de servir os pés de lótus do Senhor, subjugamos todos os desejos materiais de gozo dos sentidos.
कृच्छ्रो महानिह भवार्णवमप्लवेशां
षड्‌वर्गनक्रमसुखेन तितीर्षन्ति ।
तत्त्वं हरेर्भगवतो भजनीयमङ्‌घ्रिं
कृत्वोडुपं व्यसनमुत्तर दुस्तरार्णम् ॥ ४० ॥
kṛcchro mahān iha bhavārṇavam aplaveśāṁ
ṣaḍ-varga-nakram asukhena titīrṣanti
tat tvaṁ harer bhagavato bhajanīyam aṅghriṁ
kṛtvoḍupaṁ vyasanam uttara dustarārṇam

Synonyms

kṛcchraḥincômodo; mahānimenso; ihaaqui (nesta vida); bhava-arṇavamoceano de existência material; aplava-īśāmdos não-devotos, que não se refugiam aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus; ṣaṭ-vargaseis sentidos; nakramtuba­rões; asukhenacom muita dificuldade; titīrṣanticruza; tat­portanto; tvamtu; hareḥda Suprema Personalidade de Deus; bhagavataḥdo Supremo; bhajanīyamdigno de adoração; aṅghrimos pés de lótus; kṛtvāfazendo; uḍupambarco; vyasanamtoda espécie de perigos; uttaracruza; dustaramuito difícil; arṇamo oceano.

Translation

O oceano de ignorância é muito difícil de se atravessar porque está infestado de muitos tubarões perigosos. Embora aqueles que são não-devotos submetam-se a rigorosas austeridades e penitências para cruzar esse oceano, recomendamos que tu simplesmente te refugies aos pés de lótus do Senhor, que são como barcos para se cruzar o oceano. Apesar de o oceano ser difícil de transpor, abrigando-te a Seus pés de lótus, superarás todos os perigos.

Purport

SIGNIFICADO—A existência material é comparada neste verso ao grande oceano de ignorância. Outro nome desse oceano é Vaitaraṇī. Nesse oceano Vaitaraṇī, que é o Oceano Causal, existem inúmeros universos flutuando como bolas de futebol. No outro lado do oceano, está o mundo espiritual de Vaikuṇṭha, que a Bhagavad-gītā (8.20) descreve como paras tasmāt tu bhāvo ’nyaḥ. Logo, existe uma natu­reza espiritual eterna que está além desta natureza material. Muito embora todos os universos materiais sejam repetidamente aniquilados no Oceano Causal, os planetas Vaikuṇṭha, que são espirituais, existem eternamente e não estão sujeitos à dissolução. A forma humana de vida confere à entidade viva uma oportunidade de cruzar o oceano de ignorância, que é este universo material, e entrar no céu espiritual. Embora haja muitos métodos ou barcos com os quais alguém possa cruzar o oceano, os Kumāras recomendam que o rei se refugie aos pés de lótus do Senhor, assim como uma pessoa se abrigaria em um bom barco. Os não-devotos, que não se refugiam aos pés de lótus do Senhor, tentam cruzar o oceano de ignorância mediante outros métodos (karma, jñāna e yoga), mas se submetem a muitos incômodos. Na verdade, eles às vezes se absorvem tanto em desfrutar de seus problemas que jamais cruzam o oceano. Não há garantia alguma de que os não-devotos venham a cruzar o oceano, mas, mesmo que consigam fazê-lo, terão de submeter-se a rigorosas austeridades e penitências. Por outro lado, qualquer pessoa que adote o processo do serviço devocional e tenha fé de que os pés de lótus do Senhor são barcos seguros para cruzar esse oceano com certeza o cruzará com grande facilidade e conforto.
Portanto, Pṛthu Mahārāja é aconselhado a embarcar no barco dos pés de lótus do Senhor para transpor facilmente todos os peri­gos. Os elementos perigosos no universo são comparados a tuba­rões no oceano. Mesmo que alguém seja um grande nadador, não terá possibilidade de sobreviver caso seja atacado por tubarões. É fre­quente entre muitos ditos svāmīs e yogīs às vezes se declararem competentes para cruzar o oceano de ignorância e ajudar os outros a cruzá-lo, mas, na verdade, constata-se que eles são meras vítimas de seus próprios sentidos. Ao invés de ajudar seus seguidores a cruzar o oceano de ignorância, semelhantes svāmīs e yogīs são vitimados por māyā, representada pelo belo sexo, a mulher, e assim são devorados pelos tubarões neste oceano.
मैत्रेय उवाच
स एवं ब्रह्मपुत्रेण कुमारेणात्ममेधसा ।
दर्शितात्मगति: सम्यक्प्रशस्योवाच तं नृप: ॥ ४१ ॥
maitreya uvāca
sa evaṁ brahma-putreṇa
kumāreṇātma-medhasā
darśitātma-gatiḥ samyak
praśasyovāca taṁ nṛpaḥ

Synonyms

maitreyaḥ uvācao grande sábio Maitreya disse; saḥo rei; evamassim; brahma-putreṇapelo filho do senhor Brahmā; kumāreṇapor um dos Kumāras; ātma-medhasābem versado em conhecimento espiritual; darśitasendo mostrado; ātma-gatiḥ­avanço espiritual; samyakcompletamente; praśasyaadorando; uvācadisse; tama ele; nṛpaḥo rei.

Translation

O grande sábio Maitreya prosseguiu: Sendo assim iluminado em completo conhecimento espiritual pelo filho de Brahmā – um dos Kumāras, que era pleno de conhecimento espiritual –, o rei os adorou com as seguintes palavras.

Purport

SIGNIFICADO—A expressão ātma-medhasā, que ocorre neste verso, é comentada por Śrīpāda Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, o qual diz que ātmani significa “ao Senhor Kṛṣṇa, paramātmani”. O Senhor Kṛṣṇa é Paramātmā: īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ. (Brahma-saṁhitā 5.1) Por­tanto, aquele cuja mente atua plenamente em consciência de Kṛṣṇa chama-se ātma-medhāḥ. Isso pode ser contrastado com a palavra gṛha-medhī, que se refere àquele cujo cérebro é sempre entorpecido por pensamentos de atividades materiais. O ātma-medhāḥ está sempre pensando nas atividades de Kṛṣṇa em consciência de Kṛṣṇa. Uma vez que Sanat-kumāra, que era filho do senhor Brahmā, era plena­mente consciente de Kṛṣṇa, ele podia mostrar o caminho do avanço espiritual. A palavra ātma-gatiḥ se refere ao caminho de atividades através do qual podemos avançar em nossa compreensão de Kṛṣṇa.
राजोवाच
कृतो मेऽनुग्रह: पूर्वं हरिणार्तानुकम्पिना ।
तमापादयितुं ब्रह्मन् भगवन् यूयमागता: ॥ ४२ ॥
rājovāca
kṛto me ’nugrahaḥ pūrvaṁ
hariṇārtānukampinā
tam āpādayituṁ brahman
bhagavan yūyam āgatāḥ

Synonyms

rājā uvācao rei disse; kṛtaḥfeita; mea mim; anugrahaḥmisericórdia imotivada; pūrvamanteriormente; hariṇāpela Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Viṣṇu; ārta-anukampinācompassivo com as pessoas aflitas; tamisto; āpādayitumpara confirmá-lo; brahmanó brāhmaṇa; bhagavanó poderoso; yūyamtodos vós; āgatāḥchegastes aqui.

Translation

O rei disse: Ó brāhmaṇa, ó poderoso, anteriormente o Senhor Viṣṇu me concedeu Sua misericórdia imotivada, indicando que viríeis à minha casa, e, para confirmar essa bênção, todos vós viestes.

Purport

SIGNIFICADO—Quando o Senhor Viṣṇu apareceu na grande arena de sacrifício no momento em que o rei Pṛthu realizava um grande sacrifício (aśvamedha), Ele predisse que, dentro em breve, os Kumāras viriam e dariam conselhos ao rei. Portanto, Pṛthu Mahārāja lembrou-se da misericórdia imotivada do Senhor e, dessa maneira, deu boas-vindas à chegada dos Kumāras, que estavam cumprindo a predição do Senhor. Em outras palavras, quando o Senhor faz uma predição, Ele cumpre essa predição através de algum de Seus devotos. Do mesmo modo, o Senhor Caitanya Mahāprabhu predisse que tanto Seus gloriosos nomes quanto o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa seriam difundidos em todas as cidades e vilas do mundo. Śrīla Bhakti­vinoda Ṭhākura e Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Prabhupāda desejam cumprir esta grande predição, e nós estamos seguindo seus passos.
Com respeito a Seus devotos, o Senhor Kṛṣṇa disse a Arjuna que kaunteya pratijānīhi na me bhaktaḥ praṇaśyati: “Ó filho de Kuntī, declara audaciosamente que Meu devoto jamais perecerá.” (Bhagavad-gītā 9.31) A ideia é que o próprio Senhor poderia fazer tais declarações, mas era Seu desejo fazê-las através de Arjuna e assim certificar-Se duplamente de que Sua promessa jamais seria quebrada. O próprio Senhor promete, e Seus devotos íntimos cumprem a promessa. O Senhor faz muitas promessas para o benefício da humanidade sofredora. Embora o Senhor seja muito compassivo com a humani­dade sofredora, os seres humanos, de um modo geral, não se revelam muito ansiosos por servi-lO. Podemos comparar essa atitude com a relação que existe entre o pai e o filho; o pai está sempre ansioso acerca do bem-estar do filho, muito embora o filho esqueça ou despreze o pai. A palavra anukampinā é significativa; o Senhor é tão compassivo com as entidades vivas que Ele próprio vem a este mundo para beneficiar as almas caídas.
yadā yadā hi dharmasya
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
“Sempre e onde quer que haja um declínio da prática religiosa, ó descendente de Bharata, e um aumento predominante da irreligião –, nesse momento, Eu próprio desço.” (Bhagavad-gītā 4.7)
Assim, é por compaixão que o Senhor aparece sob Suas dife­rentes formas. O Senhor Śrī Kṛṣṇa apareceu neste planeta por compaixão pelas almas caídas, o senhor Buddha apareceu por compaixão pelos pobres animais que estavam sendo mortos pelos demônios, o Senhor Nṛsiṁhadeva apareceu por compaixão por Prahlāda Mahārāja. Concluindo, o Senhor é tão compassivo com as almas caídas neste mundo material que Ele próprio vem ou envia Seus devotos e Seus servos para cumprir Seu desejo de que todas as almas caídas voltem ao lar, voltem ao Supremo. Deste modo, o Senhor Śrī Kṛṣṇa ensinou a Bhagavad-gītā a Arjuna para o benefício de toda a sociedade humana. Os homens inteligentes devem, portanto, considerar seriamente este movimento para a consciência de Kṛṣṇa e utilizar-se plenamente das instruções da Bhagavad-gī, pregadas sem adulteração por Seus devotos puros.
निष्पादितश्च कार्त्स्‍न्येन भगवद्‌भिर्घृणालुभि: ।
साधूच्छिष्टं हि मे सर्वमात्मना सह किं ददे ॥ ४३ ॥
niṣpāditaś ca kārtsnyena
bhagavadbhir ghṛṇālubhiḥ
sādhūcchiṣṭaṁ hi me sarvam
ātmanā saha kiṁ dade

Synonyms

niṣpāditaḥ catambém a ordem foi devidamente cumprida; kārtsnyenapor completo; bhagavadbhiḥpelos representantes da Suprema Personalidade de Deus; ghṛṇālubhiḥpelos mais compassivos; sādhu-ucchiṣṭamrestos dos alimentos de pessoas santas; hidecerto; memeu; sarvamtudo; ātmanācoração e alma; sahacom; kimo que; dadedarei.

Translation

Meu querido brāhmaṇa, cumpriste a ordem perfeitamente porque também és tão compassivo como o Senhor. É meu dever, portanto, oferecer-te algo. Porém, não possuo nada exceto os restos do ali­mento comido por grandes pessoas santas. O que devo dar-te?

Purport

SIGNIFICADO—A palavra sādhūcchiṣṭam é significativa neste verso. Pṛthu Mahā­rāja obteve seu reino de grandes santos, como Bhṛgu e outros, assim como alguém consegue restos de alimentos. Após a morte do rei Vena, o mundo inteiro ficou sem um governante popular. Ocorriam tantas catástrofes que os grandes santos, liderados por Bhṛgu, criaram o corpo do rei Pṛthu a partir do corpo de seu pai morto, o rei Vena. Uma vez que o rei Pṛthu recebeu o reino em virtude da misericórdia de grandes santos, ele não queria dividir seu reino entre santos como os Kumāras. Quando um pai está comendo, ele pode, por compaixão, oferecer os restos de sua comida ao filho. Mesmo que o alimento já tenha sido mastigado pelo pai, não se pode oferecê-lo novamente ao pai. A posição de Pṛthu Mahārāja era algo assim; tudo o que ele possuía já fora mastigado, de maneira que ele não poderia oferecê-lo aos Kumāras. Indiretamente, contudo, ele ofereceu tudo que possuía aos Kumāras, e, em consequência disso, eles utilizariam as posses do rei da maneira que quisessem. O verso seguinte esclarece este assunto.
प्राणा दारा: सुता ब्रह्मन् गृहाश्च सपरिच्छदा: ।
राज्यं बलं मही कोश इति सर्वं निवेदितम् ॥ ४४ ॥
prāṇā dārāḥ sutā brahman
gṛhāś ca sa-paricchadāḥ
rājyaṁ balaṁ mahī kośa
iti sarvaṁ niveditam

Synonyms

prāṇāḥvida; dārāḥesposa; sutāḥfilhos; brahmanó grande brāhmaṇa; gṛhāḥlar; catambém; sacom; paricchadāḥtoda a parafernália; rājyamreino; balamforça; mahīterra; kośaḥtesouro; itiassim; sarvamtudo; niveditamoferecido.

Translation

O rei continuou: Portanto, meus queridos brāhmaṇas, minha vida, esposa, filhos, lar, móveis e parafernália doméstica, meu reino, força, terra e especialmente meu tesouro – ofereço-vos tudo isso.

Purport

SIGNIFICADO—Em algumas versões, não se usa a palavra dārāḥ, mas sim a palavra rāyaḥ, que significa “riqueza”. Na Índia, ainda existem pessoas ricas que são reconhecidas pelo estado como rāyas. Um grande devoto do Senhor Caitanya Mahāprabhu se chamava Rāmānanda Rāya porque era governador de Madras e muito rico. Ainda existem muitos portadores do título rāya – Rāya Bahadur, Rāya Chaudhuri e assim por diante. Não é permitido oferecer a dārāḥ, ou esposa, aos brāhmaṇas. Pode-se oferecer tudo a pessoas dignas que são capazes de aceitar caridade, mas em nenhuma parte se encontra que se deva oferecer a esposa; portanto, neste caso, ler rāyaḥ é mais acurado do que ler dārāḥ. Além disso, uma vez que Pṛthu Mahārāja ofereceu tudo aos Kumāras, a palavra kośaḥ (“tesouro”) não precisa ser mencionada separadamente. Os reis e imperadores costumavam manter um tesouro em particular, conhecido como ratna-bhāṇḍa. Ratna-bhāṇḍa era um depósito de tesouro especial que continha joias especiais, tais como braceletes, colares e assim por diante, que eram presentes dos cidadãos ao rei. Essas joias eram mantidas separadas da tesouraria regular onde se depo­sitavam todas as receitas coletadas. Assim, Pṛthu Mahārāja ofere­ceu seu estoque de joias particulares aos pés de lótus dos Kumāras. Era do conhecimento geral que toda propriedade do rei pertencia aos brāhmaṇas e que Pṛthu Mahārāja a estava usando para o bene­fício do estado. Se ela realmente pertencia aos brāhmaṇas, como poderia ser oferecida novamente a eles? Com relação a isso, Śrī­pāda Śrīdhara Svāmī explica: essa oferenda é como a de um servo que oferece alimento ao amo. O alimento já pertence ao amo, pois o amo o comprou, mas, ao preparar o alimento, o servo torna-o aceitável ao amo e, assim, oferece-o a ele. Dessa maneira, todos os pertences de Pṛthu Mahārāja foram oferecidos aos Kumāras.
सैनापत्यं च राज्यं च दण्डनेतृत्वमेव च ।
सर्व लोकाधिपत्यं च वेदशास्त्रविदर्हति ॥ ४५ ॥
sainā-patyaṁ ca rājyaṁ ca
daṇḍa-netṛtvam eva ca
sarva lokādhipatyaṁ ca
veda-śāstra-vid arhati

Synonyms

sainā-patyamposto de comandante-em-chefe; cae; rājyam­posto de governante do reino; cae; daṇḍagovernando; netṛtvamliderança; evadecerto; cae; sarvatoda; loka-adhipatyampropriedade sobre o planeta; cae; veda-śāstra-vitaquele que conhece o significado da literatura védica; arhatimerece.

Translation

Uma vez que somente alguém perfeitamente educado segundo os princípios do conhecimento védico merece ser comandante-em-chefe, governante do estado, alguém com poder de castigar e proprietário de todo o planeta, Pṛthu Mahārāja ofereceu tudo aos Kumāras.

Purport

SIGNIFICADO—Este verso afirma muito claramente que o reino, o estado ou o império precisam ser governados sob a orientação de pessoas santas e de brāhmaṇas como os Kumāras. Quando a monarquia dominava o mundo, o monarca era realmente orientado por uma junta de brāhmaṇas e pessoas santas. O rei, como administrador do estado, cumpria seus deveres assumindo a posição de servo dos brāhmaṇas. Não se pense que os reis ou brāhmaṇas eram dita­dores, tampouco eles se consideravam proprietários do estado. Os reis também eram versados nos textos védicos e assim era-lhes familiar o preceito da Śrī Īśopaniṣad: īśāvāsyam idaṁ sarvam – tudo o que existe pertence à Suprema Personalidade de Deus. Na Bhagavad-gītā, também, o Senhor Kṛṣṇa afirma ser proprietário de todos os sistemas planetários (sarva-loka-maheśvaram). Sendo assim, ninguém pode afirmar ser proprietário do estado. O rei, presidente ou líder do estado deve sempre lembrar-se de que não é o proprietário, mas sim servo.
Na era atual, o rei ou presidente esquece que é servo de Deus e se julga servo do povo. O atual regime democrático é considerado um governo do povo, pelo povo e para o povo, mas essa espécie de governo não é sancionada pelos Vedas. Os Vedas afirmam que o reino deve ser governado com o propósito de satisfazer a Suprema Personalidade de Deus, em razão do que deve ser administrado por um representante do Senhor. Não se deve apontar um líder de estado que careça de todo o conhecimento védico. Este verso afirma claramente (veda-śāstra-vid arhati) que todos os altos postos governamentais se destinam especialmente a pessoas versadas nos ensina­mentos dos Vedas. Nos Vedas, há instruções definidas, determinando como um rei, comandante-em-chefe, soldado e cidadão devem comportar-se. Infelizmente, existem muitos pretensos filósofos na era atual que dão instruções sem citar a autoridade, e muitos líderes seguem suas instruções desautorizadas. Consequentemente, as pessoas não são felizes.
A teoria moderna de comunismo dialético, apresentada por Karl Marx e seguida pelos governos comunistas, não é perfeita. Segundo o comunismo védico, ninguém pode passar fome no estado, em tempo algum. Atualmente, há muitas instituições falsas que coletam fundos do público com o objetivo de dar alimento às pessoas famintas, mas esses fundos são invariavelmente desviados. De acordo com as instruções védicas, o governo deve organizar as coisas de tal manei­ra que não haja possibilidade de fome. No Śrīmad-Bhāgavatam, afirma-se que um chefe de família deve cuidar para que mesmo um lagarto ou uma serpente não passem fome. Eles também devem ser alimentados. Na verdade, contudo, não há possibilidade de fome porque tudo é propriedade do Senhor Supremo, e Ele zela para que haja amplo suprimento de alimento para todos. Os Vedas (Kaṭha Upaniṣad 2.2.13) dizem: eko bahūnāṁ yo vidadhāti kāmān. O Senhor Supremo supre as necessidades vitais de todos, não havendo possibilidade de fome. Se alguém passa fome, isso se deve à má administração do dito governante, dirigente ou presidente.
Fica claro, portanto, que uma pessoa que não seja versada nos preceitos védicos (veda-śāstra-vit) não deve candidatar-se à eleição ao posto de presidente, governador etc. Outrora, os reis eram rāja­rṣis, significando que, embora servissem como reis, eles eram como pessoas santas porque não transgrediam nenhum dos preceitos das escrituras védicas e governavam sob a orientação de grandes pessoas santas e brāhmaṇas. De acordo com esse arranjo, os modernos pre­sidentes, governadores e altos funcionários executivos são todos indignos de seus postos porque não são versados no conhecimento administrativo védico e não recebem orientação de grandes pessoas santas e brāhmaṇas. Devido a sua desobediência às ordens dos Vedas e dos brāhmaṇas, o rei Vena, pai de Pṛthu Mahārāja, foi morto pelos brāhmaṇas. Portanto, Pṛthu Mahārāja sabia muito bem que era sua obrigação governar o planeta como servo das pessoas santas e dos brāhmaṇas.
स्वमेव ब्राह्मणो भुङ्क्ते स्वं वस्ते स्वं ददाति च ।
तस्यैवानुग्रहेणान्नं भुञ्जते क्षत्रियादय: ॥ ४६ ॥
svam eva brāhmaṇo bhuṅkte
svaṁ vaste svaṁ dadāti ca
tasyaivānugraheṇānnaṁ
bhuñjate kṣatriyādayaḥ

Synonyms

svampróprias; evadecerto; brāhmaṇaḥo brāhmaṇa; bhuṅktegoza; svampróprias; vasteroupas; svampróprias; dadātifaz caridade; cae; tasyasua; evadecerto; anugraheṇapela misericórdia de; annamgrãos alimentícios; bhuñja­tecome; kṣatriya-ādayaḥoutras classes sociais, lideradas pelos kṣatriyas.

Translation

Os kṣatriyas, vaiśyas e śūdras comem seu alimento em virtude da misericórdia dos brāhmaṇas. São os brāhmaṇas que gozam de suas próprias posses, vestem-se com suas próprias posses e fazem cari­dade com suas próprias posses.

Purport

SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus é adorada com as palavras namo brāhmaṇya-devāya, indicativas de que o Senhor Supremo aceita os brāhmaṇas como deuses adoráveis. Todos adoram o Senhor Supremo; todavia, para ensinar aos outros, Ele adora os brāhmaṇas. Todos devem seguir as instruções dos brāhmaṇas, pois a única ocupação deles é difundir śabda-brahma, ou conhecimento védico, no mundo inteiro. Sempre que há escassez de brāhmaṇas para difundir o conhecimento védico, toda a sociedade humana torna-se caótica. Uma vez que os brāhmaṇas e os vaiṣṇavas são servos diretos da Suprema Personalidade de Deus, eles não depen­dem dos outros. Na realidade, tudo no mundo pertence aos brāhmaṇas, os quais, devido à sua humildade, aceitam caridade dos kṣatriyas, ou reis, e dos vaiśyas, ou comerciantes. Tudo pertence aos brāhmaṇas, mas o governo kṣatriya e a comunidade mercantil mantêm tudo sob custódia, como o fazem os banqueiros, e, sempre que os brāhmaṇas precisam de dinheiro, os kṣatriyas e os vaiśyas devem fornecê-lo. É como se fosse uma poupança cujo dinheiro o depositante possa sacar de acordo com sua vontade. Estando ocu­pados a serviço do Senhor, os brāhmaṇas têm pouquíssimo tempo para administrar as finanças do mundo, daí as riquezas serem guardadas pelos kṣatriyas, ou reis, que devem produzir dinheiro de acordo com as necessidades dos brāhmaṇas. Na verdade, os brāh­maṇas e os vaiṣṇavas não vivem à custa alheia; eles vivem gastando seu próprio dinheiro, embora pareça que estejam coletando esse dinheiro dos outros. Os kṣatriyas e os vaiśyas não têm o direito de fazer caridade, pois tudo o que possuem pertence aos brāhmaṇas. Portanto, os kṣatriyas e os vaiśyas devem fazer caridade sob a orientação dos brāhmaṇas. Infelizmente, no momento atual, há escassez de brāhmaṇas, e, como os ditos kṣatriyas e vaiśyas não executam as ordens dos brāhmaṇas, o mundo está em uma condição caótica.
A segunda linha deste verso indica que os kṣatriyas, os vaiśyas e os śūdras comem apenas em virtude da misericórdia dos brāhmaṇas; em outras palavras, eles não devem comer nada que os brāhmaṇas proíbam. Os brāhmaṇas e os vaiṣṇavas sabem o que comer e, através de seu exemplo pessoal, não comem nada que não tenha sido primeiramente oferecido à Suprema Personalidade de Deus. Eles só comem prasāda, ou os restos dos alimentos oferecidos ao Senhor. Os kṣatriyas, os vaiśyas e os śūdras devem comer apenas kṛṣṇa-prasāda, que lhes é concedida pela misericórdia dos brāhmaṇas. Eles não podem abrir matadouros e comer carne, peixe ou ovos, ou beber bebidas alcoólicas, ou ganhar dinheiro para esse propósito, sem autorização. Na era atual, como a sociedade não se conduz pela instrução bramânica, toda a população está absorta apenas em atividades pecaminosas. Em decorrência disso, todos estão sendo merecidamente punidos pelas leis da natureza. Eis a situação nesta era de Kali.
यैरीद‍ृशी भगवतो गतिरात्मवाद
एकान्ततो निगमिभि: प्रतिपादिता न: ।
तुष्यन्‍त्वदभ्रकरुणा: स्वकृतेन नित्यं
को नाम तत्प्रतिकरोति विनोदपात्रम् ॥ ४७ ॥
yair īdṛśī bhagavato gatir ātma-vāda
ekāntato nigamibhiḥ pratipāditā naḥ
tuṣyantv adabhra-karuṇāḥ sva-kṛtena nityaṁ
ko nāma tat pratikaroti vinoda-pātram

Synonyms

yaiḥpor aquelas; īdṛśīesta espécie de; bhagavataḥda Suprema Personalidade de Deus; gatiḥprogresso; ātma-vādeconsideração espiritual; ekāntataḥem compreensão plena; niga­mibhiḥpor evidências védicas; pratipāditāconclusivamente estabelecidas; naḥconosco; tuṣyantuficai satisfeitos; adabhrailimitada; karuṇāḥmisericórdia; sva-kṛtenapor vossas próprias atividades; nityameternas; kaḥquem; nāmaninguém; tat­isto; pratikarotineutraliza; vināsem; uda-pātramoferenda de água com as mãos juntas em forma de concha.

Translation

Pṛthu Mahārāja prosseguiu: Como tais pessoas, que têm prestado serviço ilimitado, explanando o caminho da autorrealização no tocante à Suprema Personalidade de Deus, e cujas explanações são dadas para nossa iluminação com plena convicção e evidência védica, podem ser retribuídas? Tudo o que podemos fazer é lhes ofertar água, com nossas mãos juntas em forma de conchas, para a satisfação delas. Personalidades grandiosas assim podem satisfazer-se apenas com suas próprias atividades, que elas, por sua misericórdia ilimitada, distribuem na sociedade humana.

Purport

SIGNIFICADO—Grandes personalidades do mundo material anseiam prestar ser­viço beneficente à sociedade humana, mas, na verdade, ninguém pode prestar melhor serviço do que aquele que distribui o conheci­mento da compreensão espiritual em relação com a Suprema Per­sonalidade de Deus. Todas as entidades vivas encontram-se dentro das garras da energia ilusória. Esquecendo-se de sua verdadeira identidade, elas pairam na existência material, transmigrando de um corpo a outro em busca de uma vida pacífica. Uma vez que essas entidades vivas têm pouquíssimo conhecimento da autorrealização, não conseguem nenhum alívio, embora anseiem alcan­çar paz de espírito e alguma felicidade substancial. Pessoas santas, como os Kumāras, Nārada, Prahlāda, Janaka, Śukadeva Gosvāmī e Kapiladeva, bem como os seguidores dessas autoridades, como os ācāryas vaiṣṇavas e seus servos, podem prestar um valioso serviço à humanidade, disseminando conhecimento da relação entre a Suprema Personalidade de Deus e a entidade viva. Tal conheci­mento é a bênção perfeita para a humanidade.
O conhecimento de Kṛṣṇa é uma dádiva tão grande que é impossível retribuir o benfeitor. Portanto, Pṛthu Mahārāja pediu aos Kumāras que se satisfizessem com suas próprias atividades benevolentes de libertar almas das garras de māyā. O rei viu que não havia outro modo de satisfazê-los em retribuição às suas eleva­das atividades. A expressão vinoda-pātram pode ser dividida em duas palavras, vinā e uda-pātram, ou pode ser entendida como uma palavra só, vinoda-pātram, que significa “palhaço”. As ativi­dades do palhaço simplesmente causam riso, e uma pessoa que tenta retribuir o mestre espiritual, ou aquele que ensina a mensa­gem transcendental de Kṛṣṇa, torna-se ridícula como um palhaço, dado que não é possível pagar semelhante dívida. O melhor amigo e benfeitor de todas as pessoas é aquele que desperta a humanidade para a sua consciência de Kṛṣṇa original.
मैत्रेय उवाच
त आत्मयोगपतय आदिराजेन पूजिता: ।
शीलं तदीयं शंसन्त: खेऽभवन्मिषतां नृणाम् ॥ ४८ ॥
maitreya uvāca
ta ātma-yoga-pataya
ādi-rājena pūjitāḥ
śīlaṁ tadīyaṁ śaṁsantaḥ
khe ’bhavan miṣatāṁ nṛṇām

Synonyms

maitreyaḥ uvācao grande sábio Maitreya continuou a falar; teeles; ātma-yoga-patayaḥos mestres da autorrealização atra­vés do serviço devocional; ādi-rājenapelo rei original (Pṛthu); pūjitāḥsendo adorados; śīlamcaráter; tadīyamdo rei; śaṁsan­taḥelogiando; kheno céu; abhavanapareceram; miṣatām­enquanto observavam; nṛṇāmdas pessoas.

Translation

O grande sábio Maitreya continuou: Sendo assim adorados por Mahārāja Pṛthu, os quatro Kumāras, que eram mestres no serviço devocional, ficaram muito satisfeitos. Na verdade, eles apareceram no céu e louvaram o caráter do rei, e todos os presentes os observaram.

Purport

SIGNIFICADO—Afirma-se que os semideuses nunca tocam a superfície da Terra. Eles caminham e viajam somente no espaço. Assim como o grande sábio Nārada, os Kumāras não precisam de máquina alguma para viajar no espaço. Além disso, há residentes de Siddhaloka que podem viajar no espaço sem máquinas. Por poderem ir de um planeta a outro, eles são chamados de siddhas, isto é, eles conquis­taram todos os poderes místicos e ióguicos. Essas grandes pessoas santas que alcançaram completa perfeição em yoga místico não são visíveis nesta era sobre a Terra porque a humanidade não é digna da presença delas. Os Kumāras, contudo, louvaram as caracte­rísticas de Mahārāja Pṛthu e sua grande atitude devocional e humildade. Os Kumāras ficaram satisfeitíssimos com o método de adoração do rei Pṛthu. Foi pela graça de Mahārāja Pṛthu que os cidadãos comuns em seu domínio puderam ver os Kumāras voando no espaço exterior.
वैन्यस्तु धुर्यो महतां संस्थित्याध्यात्मशिक्षया ।
आप्तकाममिवात्मानं मेन आत्मन्यवस्थित: ॥ ४९ ॥
vainyas tu dhuryo mahatāṁ
saṁsthityādhyātma-śikṣayā
āpta-kāmam ivātmānaṁ
mena ātmany avasthitaḥ

Synonyms

vainyaḥo filho de Vena Mahārāja (Pṛthu); tuevidentemen­te; dhuryaḥa principal; mahatāmde grandes personalidades; saṁsthityāsendo inteiramente fixo; ādhyātma-śikṣayāquanto à autorrealização; āptaalcançados; kāmamdesejos; ivacomo; ātmānamna satisfação pessoal; meneconsiderado; ātmanino eu; avasthitaḥsituado.

Translation

Entre as grandes personalidades, Mahārāja Pṛthu era a principal em virtude de sua posição fixa no tocante à iluminação espiri­tual. Ele permanecia satisfeito assim como alguém que obteve todo o sucesso na compreensão espiritual.

Purport

SIGNIFICADO—Quem permanece fixo em serviço devocional obtém o máximo em satisfação pessoal. Na verdade, somente os devotos puros, cujo único desejo é servir à Suprema Personalidade de Deus, podem obter satisfação pessoal. Como nada tem a desejar, a Suprema Personalidade de Deus é plenamente satisfeita conSigo mesma. Do mesmo modo, o devoto cujo único desejo é servir à Suprema Perso­nalidade de Deus sente tanta satisfação pessoal quanto o Senhor Supremo. Todos anseiam atingir paz de espírito e satisfação pessoal, mas apenas quem se torna um devoto puro do Senhor pode conse­guir essas coisas.
As afirmações do rei Pṛthu em versos anteriores, com respeito ao seu vasto conhecimento e serviço devocional perfeito, são justifica­das aqui, pois ele é considerado o melhor entre todos os mahātmās. Na Bhagavad-gītā (9.13), Śrī Kṛṣṇa fala dos mahātmās desta maneira:
mahātmānas tu māṁ pārtha
daivīṁ prakṛtim āśritāḥ
bhajanty ananya-manaso
jñātvā bhūtādim avyayam
“Ó filho de Pṛthā, aqueles que não são iludidos, as grandes almas, estão sob a proteção da natureza divina. Eles se ocupam plena­mente em serviço devocional por saberem que Eu sou a Suprema Personalidade de Deus, original e inexaurível.”
Os mahātmās não estão sob a influência das garras da energia ilusória, mas sim sob a proteção da energia espiritual. Por causa disso, o verdadeiro mahātmā está sempre ocupado em serviço devocional ao Senhor. Pṛthu Mahārāja exibia todos os sintomas de um mahātmā; portanto, este verso menciona que ele é dhuryo mahatām, o melhor dos mahātmās.
कर्माणि च यथाकालं यथादेशं यथाबलम् ।
यथोचितं यथावित्तमकरोद्ब्रह्मसात्कृतम् ॥ ५० ॥
karmāṇi ca yathā-kālaṁ
yathā-deśaṁ yathā-balam
yathocitaṁ yathā-vittam
akarod brahma-sāt-kṛtam

Synonyms

karmāṇiatividades; catambém; yathā-kālamde acordo com o momento e as circunstâncias; yathā-deśamde acordo com o local e a situação; yathā-balamde acordo com sua própria força; yathā-­ucitamna medida do possível; yathā-vittamna medida em que se possa gastar dinheiro a este respeito; akarotrealizava; brahma-­sātna Verdade Absoluta; kṛtamfazia.

Translation

Por estar sempre satisfeito, Mahārāja Pṛthu cumpria seus deveres da maneira mais perfeita possível, de acordo com o momento e com sua situação, força e posição financeira. Seu único objetivo em todas as suas atividades era satisfazer a Verdade Absoluta. Dessa maneira, ele agia devidamente.

Purport

SIGNIFICADO—Mahārāja Pṛthu era um monarca responsável, e tinha que cumprir os deveres de kṣatriya, de rei e de devoto ao mesmo tempo. Sendo perfeito no serviço devocional ao Senhor, ele podia cumprir seus deveres prescritos com perfeição plena, de acordo com o momento e as circunstâncias e com sua capacidade financeira e habilidade pessoal. A esse respeito, a palavra karmāṇi neste verso é significativa. As atividades de Pṛthu Mahārāja não eram comuns, pois estavam relacionadas com a Suprema Personalidade de Deus. Śrīla Rūpa Gosvāmī adverte que os elementos favoráveis ao serviço devocional não devem ser rejeitados, tampouco as atividades favorá­veis ao serviço devocional devem ser consideradas trabalho comum ou atividades fruitivas. Por exemplo, um trabalhador comum conduz seus negócios a fim de ganhar dinheiro para seu gozo dos sentidos. Pode ser que um devoto realize o mesmo trabalho exatamente da mesma maneira, mas seu objetivo é satisfazer o Senhor Supremo. Consequentemente, suas atividades não são comuns.
Portanto, as atividades de Pṛthu Mahārāja não eram comuns, mas sim espirituais e transcendentais, pois sua meta era satisfazer o Senhor. Assim como Arjuna, que era guerreiro, teve que lutar para satisfazer Kṛṣṇa, Pṛthu Mahārāja cumpria seus deveres reais para a satisfação de Kṛṣṇa. De fato, tudo o que ele fez como imperador do mundo inteiro era perfeitamente digno de um devoto puro. Portanto, um poeta vaiṣṇava diz que vaiṣṇavera kriyā-mudrā vijñe nā bujhāya: ninguém pode entender as atividades de um devoto puro. As atividades do devoto puro podem parecer atividades comuns, mas, por trás delas, existe um profundo significado – a satisfação do Senhor. A fim de entender as atividades de um vaiṣṇava, é pre­ciso tornar-se muito perito. Mahārāja Pṛthu não se permitia agir fora da instituição de quatro varṇas e quatro āśramas, embora, como vaiṣṇava, ele fosse um paramahaṁsa, transcendental a todas as atividades materiais. Ele permanecia em sua posição de kṣatriya para governar o mundo e, ao mesmo tempo, mantinha-se transcen­dental a essas atividades, satisfazendo a Suprema Personalidade de Deus. Dissimulando sua condição de devoto puro, externamente ele se manifestava como um rei muito poderoso e atento aos seus deveres. Em outras palavras, nenhuma de suas atividades era executada para seu próprio gozo dos sentidos: tudo o que ele fazia destinava-se à satis­fação dos sentidos do Senhor. Explica-se isso claramente no verso seguinte.
फलं ब्रह्मणि संन्यस्य निर्विषङ्ग: समाहित: ।
कर्माध्यक्षं च मन्वान आत्मानं प्रकृते: परम् ॥ ५१ ॥
phalaṁ brahmaṇi sannyasya
nirviṣaṅgaḥ samāhitaḥ
karmādhyakṣaṁ ca manvāna
ātmānaṁ prakṛteḥ param

Synonyms

phalamresultado; brahmaṇina Verdade Absoluta; sannyasyaabandonando; nirviṣaṅgaḥsem ser contaminado; samāhitaḥcompletamente dedicado; karmaatividade; adhyakṣamsuperintendente; cae; manvānaḥsempre pensando em; ātmānama Superalma; prakṛteḥda natureza material; paramtranscendental.

Translation

Mahārāja Pṛthu dedicava-se completamente a ser um servo eterno da Suprema Personalidade de Deus, transcendental à natureza material. Consequentemente, ele oferecia todos os frutos de suas atividades ao Senhor, e sempre se julgava um servo da Suprema Personalidade de Deus, o proprietário de tudo.

Purport

SIGNIFICADO—Mahārāja Pṛthu vivia e dedicava-se ao transcendental serviço amoroso à Suprema Personalidade de Deus, e isso serve como um bom exemplo de karma-yoga. O termo karma-yoga é usado muitas vezes na Bhagavad-gītā e, nesta passagem, Mahārāja Pṛthu apresenta um exemplo prático do que é realmente karma-yoga. O primeiro requi­sito para a execução adequada de karma-yoga é dado aqui. Phalaṁ brahmaṇi sannyasya (ou vinyasya): é preciso que ofereçamos os frutos de nossas atividades ao Brahman Supremo, Parabrahman, Kṛṣṇa. Por fazê-lo, situamo-nos realmente na ordem de vida renunciada, sannyāsa. A Bhagavad-gītā (18.2) afirma que sannyāsa quer dizer renunciar aos frutos de nossas atividades para oferecê-los à Suprema Personalidade de Deus.
kāmyānāṁ karmaṇāṁ nyāsaṁ
sannyāsaṁ kavayo viduḥ
sarva-karma-phala-tyāgaṁ
prāhus tyāgaṁ vicakṣaṇāḥ
“Segundo os sábios, renúncia [tyāga] significa abandonar os resultados de todas as atividades. Grandes eruditos chamam esse estado de ordem de vida renunciada [sannyāsa].” Embora vivesse como chefe de família, na verdade, Pṛthu Mahārāja estava na ordem de vida renunciada, sannyāsa. Isso ficará mais claro nos versos seguintes.
A palavra nirviṣaṅgaḥ (“não-contaminado”) é muito significativa porque Mahārāja Pṛthu não estava apegado aos resultados de suas atividades. Neste mundo material, uma pessoa sempre pensa em apropriar-se de tudo que acumula ou de tudo pelo que trabalha. Entregando os frutos de nossas atividades a serviço do Senhor, praticamos karma-yoga de verdade. Qualquer pessoa pode praticar karma­-yoga; porém, é algo especialmente fácil para o chefe de família, o qual pode instalar a Deidade do Senhor em casa e adorá-lO con­forme os métodos de bhakti-yoga, que abrangem nove itens: ouvir, cantar, lembrar, servir, adorar a Deidade, orar, cumprir ordens, servir a Kṛṣṇa como amigo e sacrificar tudo para Ele.
śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ
smaraṇaṁ pāda-sevanam
arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ
sakhyam ātma-nivedana
(Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.23)
Estes processos de karma-yoga e bhakti-yoga estão sendo difundidos em todo o mundo pela Sociedade Internacional para a Cons­ciência de Krishna. Qualquer pessoa pode aprender esses processos – basta seguir os exemplos dos membros da Sociedade.
Em nosso lar ou no templo, a Deidade é considerada proprietária de tudo, e todos são considerados servos eternos da Deidade. O Senhor é transcendental, pois não faz parte desta criação material. As palavras prakṛteḥ param são usadas neste verso porque tudo neste mundo material é criado pela energia material externa do Senhor. Porém, o próprio Senhor não é criação desta energia mate­rial. O Senhor é o superintendente supremo de todas as criações materiais, como se confirma na Bhagavad-gītā (9.10):
mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ
sūyate sa-carācaram
hetunānena kaunteya
jagad viparivartate
“Esta natureza material funciona sob Minha orientação, ó filho de Kuntī, produzindo todos os seres móveis e imóveis, e, sob seu comando, esta manifestação é repetidamente criada e aniquilada.”
Todas as transformações e progressos materiais possibilitados pela maravilhosa interação da matéria estão sob a superintendência da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Os eventos no mundo material não ocorrem às cegas. Quem sempre permanece servo de Kṛṣṇa e dedica tudo a Seu serviço é aceito como jīvan-mukta, alma liberada, mesmo durante sua vida no mundo material. De um modo geral, a liberação ocorre depois que abandonamos o corpo, mas quem vive conforme o exemplo de Pṛthu Mahārāja está liberado mesmo nesta vida. Em consciência de Kṛṣṇa, os resultados de nossas atividades dependem da vontade da Pessoa Suprema. De fato, em todos os casos, os resultados não dependem de nossa própria destreza, senão que dependem inteiramente da vontade do Supremo. Este é o verdadeiro significado de phalaṁ brahmaṇi san­nyasya. Uma alma dedicada ao serviço do Senhor jamais deve julgar-se o proprietário pessoal ou o superintendente. O devoto dedicado deve realizar seu trabalho segundo as regras e regulações descritas no serviço devocional. Os resultados de suas atividades dependerão totalmente da vontade suprema do Senhor.
गृहेषु वर्तमानोऽपि स साम्राज्यश्रियान्वित: ।
नासज्जतेन्द्रियार्थेषु निरहंमतिरर्कवत् ॥ ५२ ॥
gṛheṣu vartamāno ’pi
sa sāmrājya-śriyānvitaḥ
nāsajjatendriyārtheṣu
niraham-matir arkavat

Synonyms

gṛheṣuem casa; vartamānaḥestando presente; apiembora; saḥrei Pṛthu; sāmrājyatodo o império; śriyāopulência; anvi­taḥestando absorto em; najamais; asajjatasentiu-se atraído; indriya-artheṣupara o gozo dos sentidos; niḥnem; ahamsou; matiḥconsideração; arkao Sol; yatcomo.

Translation

Mahārāja Pṛthu, que era muito opulento devido à prosperidade de todo o seu império, permanecia em casa como chefe de família. Como jamais se sentiu inclinado a utilizar suas opulências para o gozo de seus sentidos, ele permanecia desapegado, exatamente como o Sol, que não é afetado em nenhuma circunstância.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra gṛheṣu é significativa neste verso. Dentre os quatro āśramas brahmacarya, gṛhastha, vānaprastha e sannyāsa – somente o gṛhastha, ou chefe de família, tem permissão de associar-se com mulheres; portanto, o gṛhastha-āśrama é uma espécie de licença para o gozo dos sentidos dada ao devoto. Pṛthu Mahārāja era especial no sentido de que, embora tivesse licença para perma­necer como chefe de família e embora possuísse imensas opulências em seu reino, não se ocupava jamais em gozo dos sentidos. Este era um sinal especial que indicava ser ele um devoto puro do Senhor. O devoto puro nunca se sente atraído pelo gozo dos sentidos, em virtude do que é liberado. Na vida material, as pessoas envolvem-se com o gozo dos sentidos em busca de sua própria satisfação, mas, na vida devo­cional ou liberada, o objetivo é satisfazer os sentidos do Senhor.
Este verso compara Mahārāja Pṛthu ao Sol (arka-vat). Às vezes, o Sol brilha sobre fezes, urina e tantas outras coisas poluídas, mas, por ser todo-poderoso, o Sol jamais é afetado pelas coisas poluídas com as quais se associa. Ao contrário, o brilho do Sol este­riliza e purifica locais poluídos e sujos. De forma semelhante, um devoto poderá se ocupar em muitas atividades materiais, mas, por ele não desejar gozo dos sentidos, elas jamais o afetarão. Ao con­trário, ele ajustará todas as atividades materiais a serviço do Senhor. Uma vez que o devoto puro sabe como utilizar tudo a ser­viço do Senhor, as atividades materiais nunca o afetam. Em vez disso, através de seus planos transcendentais, ele purifica semelhan­tes atividades. Descreve-se isso no Bhakti-rasāmṛta-sindhu. Sarvo­pādhi-vinirmuktaṁ tat-paratvena nirmalam: sua meta é purificar-se inteiramente no serviço ao Senhor, sem que as designações mate­riais o afetem.
एवमध्यात्मयोगेन कर्माण्यनुसमाचरन् ।
पुत्रानुत्पादयामास पञ्चार्चिष्यात्मसम्मतान् ॥ ५३ ॥
evam adhyātma-yogena
karmāṇy anusamācaran
putrān utpādayām āsa
pañcārciṣy ātma-sammatān

Synonyms

evamassim; adhyātma-yogenapelo processo de bhakti-yoga; karmāṇiatividades; anusempre; samācaranexecutando; putrānfilhos; utpādayām āsagerados; pañcacinco; arciṣicom sua esposa, Arci; ātmapróprio; sammatānde acordo com seu desejo.

Translation

Estando situado na posição liberada de serviço devocional, Pṛthu Mahārāja não somente realizou todas as atividades fruitivas, mas também gerou cinco filhos com sua esposa, Arci. De fato, todos os seus filhos foram gerados de acordo com seu desejo pessoal.

Purport

SIGNIFICADO—Como chefe de família, Pṛthu Mahārāja teve cinco filhos com sua esposa, Arci, e todos esses filhos foram gerados de acordo com seu desejo. Eles não nasceram por capricho ou por acaso. O processo de gerar filhos de acordo com o próprio desejo é praticamente desconhecido na era atual (Kali-yuga). Com relação a isso, o segredo do sucesso depende de que os pais aceitem os diversos métodos purificatórios conhecidos como saṁskāras. O primeiro saṁskāra, o garbhādhāna-saṁskāra, ou o saṁskāra de fecundação, é compulsó­rio, especialmente para as castas superiores, os brāhmaṇas e os kṣatriyas. Como se afirma na Bhagavad-gītā, a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos é o próprio Kṛṣṇa, e, de acordo com os princípios religiosos, quando alguém deseja gerar um filho, precisa realizar o garbhādhāna-saṁskāra antes de ter relações sexuais. O estado mental do pai e da mãe antes do ato sexual decerto afetará a mentalidade da criança a ser gerada. Uma criança gerada por luxúria talvez não venha a ser o que os pais desejam. Como afir­mam os śāstras, yathā yonir yathā bījam. Yathā yoniḥ indica a mãe, e yathā bijam, o pai. Se o estado mental dos pais for preparado antes de eles terem relações sexuais, é certo que a criança que gerarem refletirá sua condição mental. Portanto, as palavras ātma-sammatān indicam que tanto Pṛthu Mahārāja quanto Arci submeteram-se ao processo purificatório garbhādhāna antes de ter filhos e, assim, geraram todos os seus filhos de acordo com seus desejos e com um estado mental puro. Pṛthu Mahārāja não gerou seus filhos por luxúria, tampouco se sentiu atraído por sua esposa com propósitos de gozo dos sentidos. Ele gerou os filhos como um gṛhastha, para a admi­nistração futura de seu governo em todo o mundo.
विजिताश्वं धूम्रकेशं हर्यक्षं द्रविणं
वृकम् ।
सर्वेषां लोकपालानां दधारैक: पृथुर्गुणान् ॥ ५४ ॥
vijitāśvaṁ dhūmrakeśaṁ
haryakṣaṁ draviṇaṁ vṛkam
sarveṣāṁ loka-pālānāṁ
dadhāraikaḥ pṛthur guṇān

Synonyms

vijitāśvamchamado Vijitāśva; dhūmrakeśamchamado Dhūmrakeśa; haryakṣamchamado Haryakṣa; draviṇamchamado Draviṇa; vṛkamchamado Vṛka; sarveṣāmde todos; loka-pālānāmos líderes governamentais de todos os planetas; dadhāraaceitou; ekaḥúnico; pṛthuḥPṛthu Mahārāja; guṇāntodas as qualidades.

Translation

Após gerar cinco filhos, chamados Vijitāśva, Dhūmrakeśa, Harya­kṣa, Draviṇa e Vṛka, Pṛthu Mahārāja continuou a governar o planeta. Ele aceitou todas as qualidades das deidades que governa­vam todos os demais planetas.

Purport

SIGNIFICADO—Cada planeta tem sua deidade predominante. A Bhagavad-gītā nos indica que há uma deidade predominante no Sol, cha­mada Vivasvān. Do mesmo modo, há uma deidade predominante da Lua e dos diversos planetas. Na verdade, as deidades predomi­nantes de todos os outros planetas descendem das deidades predominantes do Sol e da Lua. Neste planeta Terra, há duas dinastias de kṣatriyas, uma descendente da deidade predominante do Sol, e outra descendente da deidade predominante da Lua. Essas dinastias são conhe­cidas como Sūrya-vaṁśa e Candra-vaṁśa respectivamente. Quando a monarquia vigorava neste planeta, o membro principal era um dos membros da dinastia Sūrya, ou Sūrya-vaṁśa, e os reis subordinados pertenciam à Candra-vaṁśa. Entretanto, Mahārāja Pṛthu é tão poderoso que podia manifestar todas as qualidades das deidades predominantes em outros planetas.
Na era moderna, habitantes da Terra têm tentado ir à Lua, mas não conseguiram encontrar ninguém ali, isso para não falar de encontrar-se com a deidade predominante da Lua. A literatura védica, contudo, informa-nos repetidamente que a Lua está repleta de habitantes elevadíssimos, enquadrados na categoria de semideuses. Portanto, estamos sempre em dúvida sobre que espécie de aventura lunar os cientistas modernos deste planeta Terra realizaram.
गोपीथाय जगत्सृष्टे: काले स्वे
स्वेऽच्युतात्मक: ।
मनोवाग्वृत्तिभि: सौम्यैर्गुणै: संरञ्जयन्
प्रजा: ॥ ५५ ॥
gopīthāya jagat-sṛṣṭeḥ
kāle sve sve ’cyutātmakaḥ
mano-vāg-vṛttibhiḥ saumyair
guṇaiḥ saṁrañjayan prajāḥ

Synonyms

gopīthāyapara a proteção de; jagat-sṛṣṭeḥdo criador supre­mo; kālecom o transcorrer do tempo; sve svepróprio; acyuta-­ātmakaḥsendo consciente de Kṛṣṇa; manaḥmente; vākpalavras; vṛttibhiḥpor ocupação; saumyaiḥmuito amável; guṇaiḥpor qualificação; saṁrañjayansatisfazendo; prajāḥos cidadãos.

Translation

Uma vez que Mahārāja Pṛthu era um devoto perfeito da Suprema Personalidade de Deus, ele queria proteger a criação do Senhor satisfazendo os vários cidadãos de acordo com seus vários desejos. Portanto, Pṛthu Mahārāja costumava satisfazê-los, em todos os sentidos, com suas palavras, mentalidade, obras e amabilidade.

Purport

SIGNIFICADO—Como será explicado no verso seguinte, Pṛthu Mahārāja costu­mava satisfazer toda classe de cidadãos com sua capacidade extraordinária de entender a mentalidade alheia. Na verdade, seus relacionamentos eram tão perfeitos que cada um dos cidadãos se sentia bastante satisfeito e vivia em completa paz. A palavra acyutātmakaḥ é significativa neste verso, pois Mahārāja Pṛthu governava este planeta como representante da Suprema Personali­dade de Deus. Ele sabia que era representante do Senhor e que é preciso proteger a criação do Senhor de maneira inteligente. Os ateus não podem entender o objetivo que existe por trás da criação. Muito embora este mundo material seja condenado quando comparado ao mundo espiritual, há um certo objetivo por trás dele. Os cientistas e filósofos modernos não podem entender esse objetivo, tampouco creem na existência de um criador. Eles procu­ram estabelecer tudo mediante sua pesquisa dita científica, mas não concentram nada no criador supremo. O devoto, entre­tanto, pode entender o objetivo da criação, que é dar oportuni­dades às entidades vivas individuais que desejam assenhorear-se da natureza material. Logo, o governante deste planeta deve saber que todos os seus habitantes, especialmente os seres humanos, vieram a este mundo material em busca de gozo dos sentidos. Deste modo, é dever do governante satisfazê-los em seu gozo dos sentidos bem como elevá-los à consciência de Kṛṣṇa para que, por fim, possam voltar ao lar, voltar ao Supremo.
Com essa ideia em mente, o rei ou líder governamental deve administrar o mundo. Dessa maneira, todos ficarão satisfeitos. Como se pode realizar isso? Existem muitos exemplos, como Pṛthu Mahārāja, sendo que a história de sua regência sobre este planeta é elaboradamente descrita no Śrīmad-Bhāgavatam. Mesmo nesta era caída, se os dirigentes, governantes e presidentes tirarem proveito do exemplo de Pṛthu Mahārāja, com certeza haverá um reino de paz e prosperidade em todo o mundo.
राजेत्यधान्नामधेयं सोमराज इवापर: ।
सूर्यवद्विसृजन् गृह्णन् प्रतपंश्च भुवो वसु ॥ ५६ ॥
rājety adhān nāmadheyaṁ
soma-rāja ivāparaḥ
sūryavad visṛjan gṛhṇan
pratapaṁś ca bhuvo vasu

Synonyms

rājāo rei; itiassim; adhātadotou; nāmadheyamchama­do; soma-rājaḥo rei do planeta Lua; ivacomo; aparaḥpor outro lado; sūrya-vatcomo o deus do Sol; visṛjandistribuindo; gṛhṇanrecolhendo; pratapanmediante forte domínio; ca­também; bhuvaḥdo mundo; vasureceita.

Translation

Mahārāja Pṛthu tornou-se um rei tão célebre como Soma-rāja, o rei da Lua. Ele também era poderoso e exigente, tal qual o deus do Sol, que distribui calor e luz e, ao mesmo tempo, recolhe todas as águas planetárias.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, Mahārāja Pṛthu é comparado aos reis da Lua e do Sol. O rei da Lua e o rei do Sol servem como exemplos de como o Senhor deseja que o universo seja governado. O Sol distribui calor e luz e, ao mesmo tempo, recolhe água de todos os planetas. A Lua é muito agradável à noite; quando uma pessoa se cansa após um dia de trabalho ao Sol, pode desfrutar do luar. Assim como o deus do Sol, Pṛthu Mahārāja distribuía seu calor e luz para proteger seu reino, pois ninguém pode existir sem luz e calor. Do mesmo modo, Pṛthu Mahārāja coletava impostos e dava ordens tão enérgicas aos cidadãos e aos membros do governo que ninguém era capaz de desobedecer-lhe. Por outro lado, ele satisfazia a todos, tal qual o luar. Tanto o Sol quanto a Lua têm influências particulares pelas quais mantêm a ordem do universo, e os cientistas e filósofos modernos deveriam familiarizar-se com os planos perfeitos do Senhor Supremo para a manutenção universal.
दुर्धर्षस्तेजसेवाग्निर्महेन्द्र इव दुर्जय: ।
तितिक्षया धरित्रीव द्यौरिवाभीष्टदो नृणाम् ॥ ५७ ॥
durdharṣas tejasevāgnir
mahendra iva durjayaḥ
titikṣayā dharitrīva
dyaur ivābhīṣṭa-do nṛṇām

Synonyms

durdharṣaḥinconquistável; tejasācom bravura; ivacomo; agniḥfogo; mahā-indraḥo rei do céu; ivacomparado; durjayaḥinsuperável; titikṣayācom tolerância; dharitrīa Terra; ivacomo; dyauḥos planetas celestiais; ivacomo; abhīṣṭa-daḥsatisfazendo desejos; nṛṇāmda sociedade humana.

Translation

Mahārāja Pṛthu era tão forte e poderoso que ninguém podia desobedecer às suas ordens, assim como ninguém tentaria conquistar o fogo em pessoa. Tão forte era ele que o comparavam a Indra, o rei do céu, cujo poder é insuperável. Por outro lado, Mahārāja Pṛthu era tolerante como a Terra, e, quanto à satisfação dos vários desejos da sociedade humana, ele era como o próprio céu.

Purport

SIGNIFICADO—É dever do rei proteger os cidadãos e satisfazer-lhes os desejos. Ao mesmo tempo, os cidadãos devem obedecer às leis do estado. Mahārāja Pṛthu mantinha todos os padrões de um bom governo. Ele era tão invencível que ninguém podia desobedecer às suas ordens, assim como ninguém pode impedir o calor e a luz que ema­nam de uma fogueira. Sua força e seu poder eram tão grandes que o comparavam a Indra, o rei do céu. Nesta era, os cientistas modernos têm feito experiências com armas nucleares, e, em uma era anterior, costumavam lançar brahmāstras, mas todas essas brahmāstras e armas nucleares são insignificantes se comparadas ao raio do rei do céu. Quando Indra dispara um raio, mesmo as maiores colinas e montanhas se partem ao meio. Por outro lado, Mahārāja Pṛthu era tão tolerante quanto a própria Terra, e satisfazia todos os desejos de seus cidadãos assim como as torrentes de chuva que caem do céu. Sem chuva, não é possível satisfazer os vários desejos neste planeta. Como se afirma na Bhagavad-gītā (3.14), par­janyād anna-sambhavaḥ: os grãos alimentícios são produzidos somente porque as chuvas caem do céu, e, sem grãos, não se pode satisfazer ninguém na Terra. Consequentemente, uma distribuição ilimitada de misericórdia é comparada à água que cai das nuvens. Mahārāja Pṛthu distribuía sua misericórdia incessantemente, assim como a chuva. Em outras palavras, Mahārāja Pṛthu era mais suave que uma rosa e mais duro que um raio. Dessa maneira, ele gover­nava seu reino.
वर्षति स्म यथाकामं पर्जन्य इव तर्पयन् ।
समुद्र इव दुर्बोध: सत्त्वेनाचलराडिव ॥ ५८ ॥
varṣati sma yathā-kāmaṁ
parjanya iva tarpayan
samudra iva durbodhaḥ
sattvenācala-rāḍ iva

Synonyms

varṣatiderramando; smacostumava; yathā-kāmamtanto quanto se possa desejar; parjanyaḥágua; ivacomo; tarpayanagradável; samudraḥo mar; ivacomparado; durbodhaḥincompreensível; sattvenapela posição existencial; acalaas colinas; rāṭ ivacomo o rei de.

Translation

Assim como a chuva satisfaz os desejos de todos, Mahārāja Pṛthu satisfazia a todos. Ele era como o mar, cujas profundezas ninguém pode entender, e era como Meru, o rei das colinas, em sua firmeza de propósito.

Purport

SIGNIFICADO—Quando Mahārāja Pṛthu distribuía sua misericórdia para a humanidade sofredora, era algo como a chuva após o calor excessivo. O oceano é vasto e profundo, e é muito difícil medir sua lar­gura e comprimento; de modo semelhante, Pṛthu Mahārāja era tão profundo e grave que ninguém podia compreender seus propósitos. A colina chamada Meru está fixa no universo como um pivô uni­versal, e ninguém pode movê-la um centímetro de sua posição; do mesmo modo, ninguém jamais conseguia dissuadir Mahārāja Pṛthu quando ele se determinava a fazer algo.
धर्मराडिव शिक्षायामाश्चर्ये हिमवानिव ।
कुवेर इव कोशाढ्यो गुप्तार्थो वरुणो यथा ॥ ५९ ॥
dharma-rāḍ iva śikṣāyām
āścarye himavān iva
kuvera iva kośāḍhyo
guptārtho varuṇo yathā

Synonyms

dharma-rāṭ ivacomo o rei Yamarāja (o superintendente da morte); śikṣāyāmem educação; āścaryeem opulência; himavān ivacomo as montanhas dos Himalaias; kuveraḥo tesoureiro dos planetas celestiais; ivacomo; kośa-āḍhyaḥquanto à posse de riquezas; gupta-arthaḥsegredo; varuṇaḥo semideus chamado Varuṇa; yathācomo.

Translation

A inteligência e educação de Mahārāja Pṛthu eram exatamente como as de Yamarāja, o superintendente da morte. Sua opulência era comparável às montanhas dos Himalaias, onde todas as joias e metais preciosos são abundantes. Ele possuía grandes riquezas, como Kuvera, o tesoureiro dos planetas celestiais, e ninguém podia revelar seus segredos, pois eles eram como os segredos do semideus Varuṇa.

Purport

SIGNIFICADO—Yamarāja, ou Dharmarāja, sendo o superintendente da morte, tem que julgar as entidades vivas criminosas que cometeram atividades pecaminosas no transcurso de suas vidas. Consequentemente, Yamarāja é tido como o maior perito em assuntos judiciais. Pṛthu Mahārāja também era altamente erudito e excessivamente exato em proferir seu julgamento aos cidadãos. Ninguém podia excedê-lo em opulência, assim como não se pode avaliar a abundância de mine­rais e joias nas montanhas dos Himalaias; portanto, ele é compa­rado a Kuvera, o tesoureiro dos planetas celestiais. Tampouco podia alguém descobrir os segredos de sua vida, assim como não se consegue conhecer os segredos de Varuṇa, o semideus que preside a água, a noite e o céu ocidental. Varuṇa é onisciente e, uma vez que castiga as pessoas pelos pecados que cometeram, ele recebe orações daqueles que buscam perdão. Ele também é aquele que envia doenças e muitas vezes é encontrado na companhia de Mitra e Indra.
मातरिश्वेव सर्वात्मा बलेन महसौजसा ।
अविषह्यतया देवो भगवान् भूतराडिव ॥ ६० ॥
mātariśveva sarvātmā
balena mahasaujasā
aviṣahyatayā devo
bhagavān bhūta-rāḍ iva

Synonyms

mātariśvāo ar; ivacomo; sarva-ātmāonipenetrante; bale­napela força corpórea; mahasā ojasāpor coragem e poder; aviṣahyatayāpor intolerância; devaḥo semideus; bhagavāno poderosíssimo; bhūta-rāṭ ivacomo Rudra, ou Sadāśiva.

Translation

Em sua força corpórea e na força sensorial, Mahārāja Pṛthu era forte como o vento, que pode ir a toda e qualquer parte. Quanto à sua intolerância, ele era como a todo-poderosa expansão Rudra do senhor Śiva, ou Sadāśiva.
कन्दर्प इव सौन्दर्ये मनस्वी मृगराडिव ।
वात्सल्ये मनुवन्नृणां प्रभुत्वे भगवानज: ॥ ६१ ॥
kandarpa iva saundarye
manasvī mṛga-rāḍ iva
vātsalye manuvan nṛṇāṁ
prabhutve bhagavān ajaḥ

Synonyms

kandarpaḥCupido; ivacomo; saundaryeem beleza; manasvīem reflexão; mṛga-rāṭ ivacomo o rei dos animais, o leão; vātsalyeem afeição; manu-vatcomo Svāyambhuva Manu; nṛṇāmda sociedade humana; prabhutvequanto ao controle; bhagavāno senhor; ajaḥBrahmā.

Translation

Em sua beleza corpórea, ele era como o Cupido, e, em sua reflexão, era como um leão. Em sua afeição, era como Svāyambhuva Manu, e, na capacidade de controlar, era como o senhor Brahmā.
बृहस्पतिर्ब्रह्मवादे आत्मवत्त्वे स्वयं हरि: ।
भक्त्या गोगुरुविप्रेषु विष्वक्सेनानुवर्तिषु ।
ह्रिया प्रश्रयशीलाभ्यामात्मतुल्य: परोद्यमे ॥ ६२ ॥
bṛhaspatir brahma-vāde
ātmavattve svayaṁ hariḥ
bhaktyā go-guru-vipreṣu
viṣvaksenānuvartiṣu
hriyā praśraya-śīlābhyām
ātma-tulyaḥ parodyame

Synonyms

bṛhaspatiḥo sacerdote dos planetas celestiais; brahma-vādequanto à compreensão espiritual; ātma-vattvequanto ao autocontrole; svayampessoalmente; hariḥa Suprema Personalidade de Deus; bhaktyāem devoção; govaca; gurumestre espiritual; vipreṣuaos brāhmaṇas; viṣvaksenaa Personalidade de Deus; anuvartiṣuseguidores; hriyāpor recato; praśraya-śīlābhyām­por comportamento muito amável; ātma-tulyaḥexatamente como seu interesse pessoal; para-udyamequanto a obras filantrópicas.

Translation

Em seu comportamento pessoal, Pṛthu Mahārāja manifestava todas as boas qualidades, e, em conhecimento espiritual, ele era exatamente como Bṛhaspati. Em autocontrole, ele era como a própria Suprema Personalidade de Deus. Quanto a seu serviço devocional, ele era um grande seguidor dos devotos apegados à proteção às vacas e à prestação de toda classe de serviços ao mestre espiritual e aos brāhmaṇas. Ele era perfeito em seu recato e em sua amabilidade e, quando se dedicava a alguma atividade filantrópica, agia como se estivesse trabalhando para seu próprio interesse.

Purport

SIGNIFICADO—Ao conversar com Sārvabhauma Bhaṭṭācārya, o Senhor Caitanya o honrou como a encarnação de Bṛhaspati. Bṛhaspati é o principal sacerdote do reino celestial, sendo seguidor da filosofia conhecida como brahma-vāda, ou māyāvāda. Bṛhaspati é, também, um grande lógico. Essa afirmação parece indicar que Mahārāja Pṛthu, apesar de ser um grande devoto constantemente ocupado no serviço amoroso ao Senhor, podia derrotar todas as classes de impersona­listas e māyāvādīs com seu profundo conhecimento das escrituras védicas. Devemos aprender com o exemplo de Mahārāja Pṛthu que um vaiṣṇava, ou devoto, deve não apenas ser fixo no serviço ao Senhor, mas também, se necessário, deve estar preparado para argumentar com os impersonalistas māyāvādīs com toda lógica e filosofia e derrotar a alegação deles de que a Verdade Absoluta é impessoal.
A Suprema Personalidade de Deus é o autocontrolado ou o brahmacārī ideal. Ao elegerem Kṛṣṇa para presidir o yajña Rājasūya realizado por Mahārāja Yudhiṣṭhira, o avô Bhīṣmadeva louvou o Senhor Kṛṣṇa como o maior dos brahmacārīs. Como o avô Bhīṣmadeva era brahmacārī, ele era bastante competente para distinguir um brahmacārī de um vyabhicārī. Muito embora Pṛthu Mahā­rāja fosse chefe de família e pai de cinco filhos, era considerado o mais autocontrolado. Aquele que gera filhos conscientes de Kṛṣṇa para o benefício da humanidade é um brahmacārī de verdade. Quem gera filhos como cães e gatos não é um pai digno. A palavra brahmacārī também se refere àquele que age na plataforma de Brahman, ou seja, em serviço devocional. Na con­cepção do Brahman impessoal, não existe atividade, mas quem realiza atividades em relação com a Suprema Personalidade de Deus deve ser considerado um brahmacārī. Assim, Pṛthu Mahārāja era um brahmacārī ideal e gṛhastha simultaneamente. Viṣvaksenānuvartiṣu refere-se aos devotos que vivem ocupados a serviço do Senhor. Outros devotos devem seguir seus passos. Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura dizia que ei chaya gosāñi yāṅra, muñi tāṅra dāsa: “Estou pronto para me tornar discípulo de qualquer pessoa que siga os passos dos seis Gosvāmīs.”
Além disso, como todos os vaiṣṇavas, Mahārāja Pṛthu era um devo­tado protetor das vacas, dos mestres espirituais e dos brāhmaṇas qualificados. Pṛthu Mahārāja era, também, muito humilde, manso e amável, e sempre que realizava qualquer obra filantrópica ou ativi­dade beneficente para o público em geral, agia exatamente como se estivesse atendendo a suas próprias necessidades pessoais. Em outras palavras, ele não realizava atividades filantrópicas para se exibir, mas sim por uma questão de sentimento e compromisso. Todas as atividades filantrópicas devem ser realizadas dessa maneira.
कीर्त्योर्ध्वगीतया पुम्भिस्त्रैलोक्ये तत्र तत्र ह ।
प्रविष्ट: कर्णरन्ध्रेषु स्त्रीणां राम: सतामिव ॥ ६३ ॥
kīrtyordhva-gītayā pumbhis
trailokye tatra tatra ha
praviṣṭaḥ karṇa-randhreṣu
strīṇāṁ rāmaḥ satām iva

Synonyms

kīrtyāpor reputação; ūrdhva-gītayāpor declaração em voz alta; pumbhiḥpelo público em geral; trai-lokyeem todo o uni­verso; tatra tatraaqui e ali; hadecerto; praviṣṭaḥentrando; karṇa-randhreṣunas cavidades auriculares; strīṇāmdas mulhe­res; rāmaḥSenhor Rāmacandra; satāmdos devotos; ivacomo.

Translation

Em todo o universo – nos sistemas planetários superior, inferior e intermediário –, a reputação de Pṛthu Mahārāja era proclamada em voz alta, e todas as senhoras e pessoas santas ouviam suas gló­rias, as quais eram tão doces quanto as glórias do Senhor Rāma­candra.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, as palavras strīṇām e rāmaḥ são significativas. É costume entre as senhoras ouvir e desfrutar das glorificações de certos heróis. A partir deste verso, parece que a reputação de Pṛthu Mahārāja era tão grande que senhoras de todo o universo costuma­vam ouvir falar dele com muito prazer. Ao mesmo tempo, suas glórias eram ouvidas em todo o universo pelos devotos, e eram tão agradáveis como as glórias do Senhor Rāmacandra. O reino do Senhor Rāmacandra ainda existe, e recentemente se criou um partido político na Índia chamado Rāmarājya, cuja meta era estabe­lecer um reino semelhante ao reino de Rāma. Infelizmente, os políticos modernos querem o reino de Rāma sem o próprio Rāma. Apesar de terem banido a ideia da consciência de Deus, mesmo assim esperam estabelecer o reino de Rāma. Os devotos rejeitam semelhante proposta. As pessoas santas ouviam acerca da reputação de Pṛthu Mahārāja porque ele representava exatamente o Senhor Rāmacandra, o rei ideal.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do quarto canto, vigésimo segundo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitu­lado “O Encontro de Pṛthu Mahārāja com os Quatro Kumāras.