Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Vinte e Um
Conversa entre Manu e Kardama
Devanagari
विदुर उवाच
स्वायम्भुवस्य च मनोर्वंश: परमसम्मत: ।
कथ्यतां भगवन् यत्र मैथुनेनैधिरे प्रजा: ॥ १ ॥
स्वायम्भुवस्य च मनोर्वंश: परमसम्मत: ।
कथ्यतां भगवन् यत्र मैथुनेनैधिरे प्रजा: ॥ १ ॥
Verse text
vidura uvāca
svāyambhuvasya ca manor
vaṁśaḥ parama-sammataḥ
kathyatāṁ bhagavan yatra
maithunenaidhire prajāḥ
svāyambhuvasya ca manor
vaṁśaḥ parama-sammataḥ
kathyatāṁ bhagavan yatra
maithunenaidhire prajāḥ
Synonyms
viduraḥ uvāca — Vidura disse; svāyambhuvasya — de Svāyambhuva; ca — e; manoḥ — de Manu; vaṁśaḥ — a dinastia; parama — muito; sammataḥ — estimada; kathyatām — por favor, descreve; bhagavan — ó adorável sábio; yatra — na qual; maithunena — através do intercurso sexual; edhire — multiplicou-se; prajāḥ — a progênie.
Translation
Vidura disse: A linhagem de Svāyambhuva Manu era muito estimada. Ó sábio adorável, peço-te a bondade de me relatar acerca dessa dinastia, cuja progênie multiplicou-se através do intercurso sexual.
Purport
A vida sexual regulada para gerar boa população é digna de ser aceita. Na realidade, Vidura não estava interessado em ouvir a história de pessoas que meramente se ocupavam em vida sexual, mas estava interessado na progênie de Svāyambhuva Manu porque, naquela dinastia, apareceram bons reis devotos que protegeram seus súditos muito cuidadosamente com conhecimento espiritual. Por isso, ouvindo a história de suas atividades, a pessoa se torna mais iluminada. Uma expressão importante usada a esse respeito é parama-sammataḥ, que indica que a progênie criada por Svāyambhuva Manu e seus filhos foi aprovada por grandes autoridades. Em outras palavras, a vida sexual para criar população exemplar é aceitável por todos os sábios e autoridades das escrituras védicas.
Devanagari
प्रियव्रतोत्तानपादौ सुतौ स्वायम्भुवस्य वै ।
यथाधर्मं जुगुपतु: सप्तद्वीपवतीं महीम् ॥ २ ॥
यथाधर्मं जुगुपतु: सप्तद्वीपवतीं महीम् ॥ २ ॥
Verse text
priyavratottānapādau
sutau svāyambhuvasya vai
yathā-dharmaṁ jugupatuḥ
sapta-dvīpavatīṁ mahīm
sutau svāyambhuvasya vai
yathā-dharmaṁ jugupatuḥ
sapta-dvīpavatīṁ mahīm
Synonyms
priyavrata — Mahārāja Priyavrata; uttānapādau — e Mahārāja Uttānapāda; sutau — os dois filhos; svāyambhuvasya — de Svāyambhuva Manu; vai — na realidade; yathā — de acordo com; dharmam — princípios religiosos; jugupatuḥ — governaram; sapta-dvīpa-vatīm — constituído de sete ilhas; mahīm — o mundo.
Translation
Os dois grandes filhos de Svāyambhuva Manu – Priyavrata e Uttānapāda – governaram o mundo, constituído de sete ilhas, exatamente de acordo com os princípios religiosos.
Purport
O Śrīmad-Bhāgavatam também é a história dos grandes governantes de diferentes partes do universo. Neste verso, mencionam-se os nomes de Priyavrata e Uttānapāda, filhos de Svāyambhuva. Eles governaram esta Terra, que é dividida em sete ilhas. Estas sete ilhas ainda existem sob a forma de Ásia, Europa, África, América, Austrália e os Polos Norte e Sul. Não há história cronológica de todos os reis indianos no Śrīmad-Bhāgavatam, mas os feitos dos reis mais importantes, tais como Priyavrata e Uttānapāda, e muitos outros, como o Senhor Rāmacandra e Mahārāja Yudhiṣṭhira, estão registrados porque as atividades desses reis piedosos são dignas de serem ouvidas: as pessoas poderão beneficiar-se estudando suas histórias.
Devanagari
तस्य वै दुहिता ब्रह्मन्देवहूतीति विश्रुता ।
पत्नी प्रजापतेरुक्ता कर्दमस्य त्वयानघ ॥ ३ ॥
पत्नी प्रजापतेरुक्ता कर्दमस्य त्वयानघ ॥ ३ ॥
Verse text
tasya vai duhitā brahman
devahūtīti viśrutā
patnī prajāpater uktā
kardamasya tvayānagha
devahūtīti viśrutā
patnī prajāpater uktā
kardamasya tvayānagha
Synonyms
tasya — daquele Manu; vai — na realidade; duhitā — a filha; brahman — ó brāhmaṇa santo; devahūti — chamada Devahūti; iti — assim; viśrutā — era conhecida; patnī — esposa; prajāpateḥ — do senhor das criaturas; uktā — falou-se acerca de; kardamasya — de Kardama Muni; tvayā — por ti; anagha — ó impecável.
Translation
Ó brāhmaṇa santo, ó impecável, tu falaste que a filha dele, conhecida pelo nome de Devahūti, era esposa do sábio Kardama, o senhor dos seres criados.
Purport
Aqui estamos falando de Svāyambhuva Manu, mas, na Bhagavad-gītā, ouvimos falar de Vaivasvata Manu. A era atual pertence a Vaivasvata Manu. Svāyambhuva Manu governava anteriormente, e sua história começa a partir da era de Varāha, ou o milênio em que o Senhor apareceu como o javali. Existem catorze Manus em cada dia da vida de Brahmā, e, na vida de cada Manu, há incidentes particulares. O Vaivasvata Manu da Bhagavad-gītā é diferente de Svāyambhuva Manu.
Devanagari
तस्यां स वै महायोगी युक्तायां योगलक्षणै: ।
ससर्ज कतिधा वीर्यं तन्मे शुश्रूषवे वद ॥ ४ ॥
ससर्ज कतिधा वीर्यं तन्मे शुश्रूषवे वद ॥ ४ ॥
Verse text
tasyāṁ sa vai mahā-yogī
yuktāyāṁ yoga-lakṣaṇaiḥ
sasarja katidhā vīryaṁ
tan me śuśrūṣave vada
yuktāyāṁ yoga-lakṣaṇaiḥ
sasarja katidhā vīryaṁ
tan me śuśrūṣave vada
Synonyms
tasyām — nela; saḥ — Kardama Muni; vai — de fato; mahā-yogī — grande yogī místico; yuktāvām — dotada; yoga-lakṣaṇaiḥ — com os oito sintomas de perfeição ióguica; sasarja — propagou; katidha — quantas vezes; vīryam — progênie; tat — esta narração; me — a mim; śuśrūṣave — que estou ansioso por ouvir; vada — conta.
Translation
Quantos filhos teve aquele grande yogī com a princesa, que era dotada das oito perfeições nos princípios do yoga? Oh! Por favor, conta-me esta história, pois estou ansioso por ouvi-la.
Purport
Vidura indaga aqui acerca de Kardama Muni e sua esposa, Devahūti, e acerca de seus filhos. Descreve-se neste verso que Devahūti era muito avançada na prática do yoga óctuplo. As oito divisões da prática de yoga são descritas como (1) controle dos sentidos, (2) estrita observância das regras e regulações, (3) prática de diferentes posturas sentadas, (4) controle da respiração, (5) afastamento dos sentidos dos objetos dos sentidos, (6) concentração mental, (7) meditação e (8) autorrealização. Após a autorrealização, há oito fases perfectivas posteriores, chamadas yoga-siddhis. O esposo e a esposa, Kardama e Devahūti, eram avançados na prática do yoga; o esposo era mahā-yogī, grande místico, e a esposa era yoga-lakṣaṇa, ou seja, uma pessoa avançada em yoga. Eles se uniram e produziram filhos. Antigamente, após aperfeiçoarem suas vidas, grandes sábios e pessoas santas costumavam gerar filhos; de outro modo, observavam estritamente as regras e regulações do celibato. O brahmacarya (observância das regras e regulações do celibato) é necessária para a perfeição da autorrealização e do poder místico. Não há recomendação nas escrituras védicas de que alguém pode continuar desfrutando do gozo material dos sentidos conforme seus caprichos, como bem entenda e, ao mesmo tempo, tornar-se um grande meditador pagando algum dinheiro a um patife.
Devanagari
रुचिर्यो भगवान् ब्रह्मन्दक्षो वा ब्रह्मण: सुत: ।
यथा ससर्ज भूतानि लब्ध्वा भार्यां च मानवीम् ॥ ५ ॥
यथा ससर्ज भूतानि लब्ध्वा भार्यां च मानवीम् ॥ ५ ॥
Verse text
rucir yo bhagavān brahman
dakṣo vā brahmaṇaḥ sutaḥ
yathā sasarja bhūtāni
labdhvā bhāryāṁ ca mānavīm
dakṣo vā brahmaṇaḥ sutaḥ
yathā sasarja bhūtāni
labdhvā bhāryāṁ ca mānavīm
Synonyms
ruciḥ — Ruci; yaḥ — quem; bhagavān — adoráveis; brahman — ó santo sábio; dakṣaḥ — Dakṣa; vā — e; brahmaṇaḥ — do senhor Brahmā; sutaḥ — o filho; yathā — de que maneira; sasarja — geraram; bhūtāni — progênie; labdhvā — após obterem; bhāryām — como suas esposas; ca — e; mānavīm — as filhas de Svāyambhuva Manu.
Translation
Ó sábio divino, conta-me como os adoráveis Ruci e Dakṣa, o filho de Brahmā, geraram filhos após obterem como esposas as duas outras filhas de Svāyambhuva Manu.
Purport
Todas as grandes personalidades que aumentaram a população no início da criação chamam-se Prajāpatis. Brahmā também é conhecido como Prajāpati, assim como o foram alguns de seus filhos posteriores. Svāyambhuva Manu também é conhecido como Prajāpati, assim como acontece com Dakṣa, outro filho de Brahmā. Além de Devahūti, Svāyambhuva teve duas filhas, Ākūti e Prasūti. O Prajāpati Ruci casou-se com Ākūti, e Dakṣa desposou Prasūti. Esses casais e seus filhos produziram imenso número de filhos para povoar todo o universo. A pergunta de Vidura foi: “Como eles geraram a população no começo?”
Devanagari
मैत्रेय उवाच
प्रजा: सृजेति भगवान् कर्दमो ब्रह्मणोदित: ।
सरस्वत्यां तपस्तेपे सहस्राणां समा दश ॥ ६ ॥
प्रजा: सृजेति भगवान् कर्दमो ब्रह्मणोदित: ।
सरस्वत्यां तपस्तेपे सहस्राणां समा दश ॥ ६ ॥
Verse text
maitreya uvāca
prajāḥ sṛjeti bhagavān
kardamo brahmaṇoditaḥ
sarasvatyāṁ tapas tepe
sahasrāṇāṁ samā daśa
prajāḥ sṛjeti bhagavān
kardamo brahmaṇoditaḥ
sarasvatyāṁ tapas tepe
sahasrāṇāṁ samā daśa
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — o grande sábio Maitreya disse; prajāḥ — filhos; sṛja — gerar; iti — assim; bhagavān — o adorável; kardamaḥ — Kardama Muni; brahmanā — pelo senhor Brahmā; uditaḥ — tendo recebido ordem; sarasvatyām — às margens do rio Sarasvati; tapaḥ — penitência; tepe — praticou; sahasrāṇām — de milhares; samāḥ — anos; daśa — dez.
Translation
O grande sábio Maitreya respondeu: Tendo recebido a ordem do senhor Brahmā de gerar filhos nos mundos, o adorável Kardama Muni praticou penitências às margens do rio Sarasvatī por um período de dez mil anos.
Purport
Subentende-se nesta passagem que Kardama Muni meditou em yoga por dez mil anos antes de atingir a perfeição. De modo similar, temos a informação de que Vālmīki Muni também praticou meditação ióguica por sessenta mil anos antes de alcançar a perfeição. Portanto, a prática do yoga pode ser exitosamente realizada por pessoas que tenham uma duração de vida muito longa, como de cem mil anos: dessa maneira é possível obter a perfeição no yoga. Caso contrário, não há possibilidade de atingir a real perfeição. Seguir as regulações, controlar os sentidos e praticar as diferentes posturas sentadas não passam de meras práticas preliminares. Não sabemos como as pessoas podem se deixar cativar pelo falso sistema de yoga no qual se afirma que, simplesmente meditando quinze minutos por dia, pode-se alcançar a perfeição de tornar-se uno com Deus. Esta era (Kali-yuga) é a era de trapaças e desavenças. Na verdade, não há possibilidade de alcançar a perfeição do yoga através de tais propostas mesquinhas. A literatura védica, por questão de ênfase, claramente afirma três vezes que, nesta era de Kali – kalau nāsty eva nāsty eva nāsty eva –, não existe alternativa, não existe alternativa, não existe alternativa ao harer nāma, o cantar do santo nome do Senhor.
Devanagari
तत: समाधियुक्तेन क्रियायोगेन कर्दम: ।
सम्प्रपेदे हरिं भक्त्या प्रपन्नवरदाशुषम् ॥ ७ ॥
सम्प्रपेदे हरिं भक्त्या प्रपन्नवरदाशुषम् ॥ ७ ॥
Verse text
tataḥ samādhi-yuktena
kriyā-yogena kardamaḥ
samprapede hariṁ bhaktyā
prapanna-varadāśuṣam
kriyā-yogena kardamaḥ
samprapede hariṁ bhaktyā
prapanna-varadāśuṣam
Synonyms
tataḥ — então, naquela penitência; samādhi-yuktena — em transe; kriyā-yogena — pela adoração em bhakti-yoga; kardamaḥ — o sábio Kardama; samprapede — serviu; harim — a Personalidade de Deus; bhaktyā — em serviço devocional; prapanna — para as almas rendidas; varadāśuṣam — o outorgador de todas as bênçãos.
Translation
Durante esse período de penitência, o sábio Kardama, mediante a adoração através do serviço devocional em transe, satisfez a Personalidade de Deus, que é o pronto outorgador de todas as bênçãos para aqueles que recorrem à Sua proteção.
Purport
Aqui se descreve a importância da meditação. Kardama Muni praticou a meditação do yoga místico por dez mil anos simplesmente para agradar a Suprema Personalidade de Deus, Hari. Portanto, quer pratiquemos yoga, quer especulemos e façamos pesquisas para encontrar Deus, nossos esforços devem ser misturados com o processo de devoção. Sem devoção, nada pode ser perfeito. O alvo da perfeição e da realização é a Suprema Personalidade de Deus. No sexto capítulo da Bhagavad-gītā, afirma-se claramente que quem se ocupa constantemente em consciência de Kṛṣṇa é o yogī mais elevado. A Personalidade de Deus, Hari, também satisfaz os desejos de Seu devoto rendido. É preciso render-se aos pés de lótus da Personalidade de Deus, Hari, ou Kṛṣṇa, para alcançar verdadeiro sucesso. O serviço devocional, ou a ocupação em consciência de Kṛṣṇa, é o método direto, e todos os demais métodos, embora recomendados, são indiretos. Nesta era de Kali, o método direto é especialmente mais praticável que o indireto, porque as pessoas vivem pouco, sua inteligência é escassa, são paupérrimas e incomodadas por muitas perturbações intensas. O Senhor Caitanya, portanto, trouxe a maior dádiva: nesta era, basta cantar o santo nome de Deus para se alcançar a perfeição na vida espiritual.
As palavras samprapede harim significam que Kardama Muni satisfez, de várias maneiras, a Suprema Personalidade de Deus, Hari, através de seu serviço devocional. O serviço devocional também é expresso pela palavra kriyā-yogena. Kardama Muni não somente meditou, mas também se ocupou em serviço devocional: para alcançar a perfeição na prática de yoga ou meditação, deve-se agir em serviço devocional, ouvindo, cantando, lembrando etc. Lembrar também é meditação. Mas quem deve ser lembrado? Devemos nos lembrar da Suprema Personalidade de Deus. Não apenas devemos nos lembrar da Pessoa Suprema, como também devemos ouvir sobre as atividades do Senhor e cantar Suas glórias. Essa informação encontra-se nas escrituras autorizadas. Após dedicar-se por dez mil anos à execução de diferentes tipos de serviço devocional, Kardama Muni alcançou a perfeição da meditação. Mas isso não é possível nesta era de Kali, na qual é muito difícil viver por mais de cem anos. Atualmente, quem terá sucesso na rígida prática das muitas regras e regulações do yoga? Além disso, somente aqueles que são almas rendidas é que alcançam a perfeição. Onde não se faz menção à Personalidade de Deus, onde está a rendição? E onde não há meditação na Personalidade de Deus, onde está a prática de yoga? Infelizmente, as pessoas nesta era, especialmente as de natureza demoníaca, querem ser enganadas. Assim, a Suprema Personalidade de Deus envia grandes trapaceiros, que as desencaminham em nome do yoga e tornam suas vidas inúteis e fracassadas. Na Bhagavad-gītā, portanto, afirma-se claramente, no décimo sexto capítulo, verso 17, que os patifes de autoridade autoconcedida, vangloriando-se pelo dinheiro arrecadado ilegalmente, praticam yoga sem seguir os livros autorizados. Eles têm muito orgulho do dinheiro que roubaram das pessoas inocentes que queriam ser enganadas.
Devanagari
तावत्प्रसन्नो भगवान् पुष्कराक्ष: कृते युगे ।
दर्शयामास तं क्षत्त: शाब्दं ब्रह्म दधद्वपु: ॥ ८ ॥
दर्शयामास तं क्षत्त: शाब्दं ब्रह्म दधद्वपु: ॥ ८ ॥
Verse text
tāvat prasanno bhagavān
puṣkarākṣaḥ kṛte yuge
darśayām āsa taṁ kṣattaḥ
śābdaṁ brahma dadhad vapuḥ
puṣkarākṣaḥ kṛte yuge
darśayām āsa taṁ kṣattaḥ
śābdaṁ brahma dadhad vapuḥ
Synonyms
tāvat — então; prasannaḥ — estando satisfeito; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; puṣkara-akṣaḥ — de olhos de lótus; kṛte yuge — em Satya-yuga; darśayām āsa — mostrou; tam — a este Kardama Muni; kṣattaḥ — ó Vidura; śābdam — que só pode ser compreendida através dos Vedas; brahma — a Verdade Absoluta; dadhat — manifestando; vapuḥ — Seu corpo transcendental.
Translation
Então, em Satya-yuga, a Suprema Personalidade de Deus de olhos de lótus, estando satisfeito, mostrou-Se a esse Kardama Muni, manifestando Sua forma transcendental, que só pode ser compreendida através dos Vedas.
Purport
Aqui há dois pontos muito significativos. O primeiro é que Kardama Muni obteve sucesso pela prática de yoga no início de Satya-yuga, quando as pessoas costumavam viver por cem mil anos. Kardama Muni alcançou o sucesso, e o Senhor, estando satisfeito com ele, mostrou-lhe Sua forma, que não é imaginária. Às vezes, os impersonalistas recomendam que podemos concentrar de forma arbitrária a nossa mente em alguma forma que imaginemos ou que nos agrade. Porém, aqui se diz bem claramente que a forma revelada pelo Senhor a Kardama Muni, por Sua divina graça, está descrita na literatura védica. Śābdaṁ brahma: as formas do Senhor são claramente indicadas na literatura védica. Kardama Muni não descobriu alguma forma imaginária do Senhor, como alegam os patifes. Na verdade, ele viu a eterna, bem-aventurada e transcendental forma do Senhor.
Devanagari
स तं विरजमर्काभं सितपद्मोत्पलस्रजम् ।
स्निग्धनीलालकव्रातवक्त्राब्जं विरजोऽम्बरम् ॥ ९ ॥
स्निग्धनीलालकव्रातवक्त्राब्जं विरजोऽम्बरम् ॥ ९ ॥
Verse text
sa taṁ virajam arkābhaṁ
sita-padmotpala-srajam
snigdha-nīlālaka-vrāta-
vaktrābjaṁ virajo ’mbaram
sita-padmotpala-srajam
snigdha-nīlālaka-vrāta-
vaktrābjaṁ virajo ’mbaram
Synonyms
saḥ — este Kardama Muni; tam — a Ele; virajam — sem contaminação; arka-ābham — refulgente como o Sol; sita — brancos; padma — lótus; utpala — lírios d’água; srajam — guirlanda; snigdha — lisos; nīla — azul marinho; alaka — de cachos de cabelo; vrāta — uma abundância; vaktra — rosto; abjam — semelhante ao lótus; virajaḥ — pura; ambaram — roupa.
Translation
Kardama Muni viu a Suprema Personalidade de Deus, que está livre da contaminação material, sob Sua forma eterna, refulgente como o Sol, usando uma guirlanda de lótus brancos e lírios d’água. O Senhor estava vestido com pura seda amarela, e Seu rosto de lótus estava emoldurado com cachos de cabelo ondulado, liso e escuro.
Devanagari
किरीटिनं कुण्डलिनं शङ्खचक्रगदाधरम् ।
श्वेतोत्पलक्रीडनकं मन:स्पर्शस्मितेक्षणम् ॥ १० ॥
श्वेतोत्पलक्रीडनकं मन:स्पर्शस्मितेक्षणम् ॥ १० ॥
Verse text
kirīṭinaṁ kuṇḍalinaṁ
śaṅkha-cakra-gadā-dharam
śvetotpala-krīḍanakaṁ
manaḥ-sparśa-smitekṣaṇam
śaṅkha-cakra-gadā-dharam
śvetotpala-krīḍanakaṁ
manaḥ-sparśa-smitekṣaṇam
Synonyms
Translation
Adornado com uma coroa e com brincos, Ele portava Seus característicos búzio, disco e maça em três de Suas mãos, mais um lírio branco na quarta. Ele olhava em volta num estado de espírito alegre e sorridente, cuja visão cativa o coração de todos os devotos.
Devanagari
विन्यस्तचरणाम्भोजमंसदेशे गरुत्मत: ।
दृष्ट्वा खेऽवस्थितं वक्ष:श्रियं कौस्तुभकन्धरम् ॥ ११ ॥
दृष्ट्वा खेऽवस्थितं वक्ष:श्रियं कौस्तुभकन्धरम् ॥ ११ ॥
Verse text
vinyasta-caraṇāmbhojam
aṁsa-deśe garutmataḥ
dṛṣṭvā khe ’vasthitaṁ vakṣaḥ-
śriyaṁ kaustubha-kandharam
aṁsa-deśe garutmataḥ
dṛṣṭvā khe ’vasthitaṁ vakṣaḥ-
śriyaṁ kaustubha-kandharam
Synonyms
Translation
Com uma faixa dourada sobre Seu peito e a famosa pedra preciosa Kaustubha pendurada em Seu pescoço, Ele permanecia no ar com Seus pés de lótus sobre os ombros de Garuḍa.
Purport
As descrições nos versos de 9 a 11 do Senhor em Sua forma eterna e transcendental são tidas como descrições da versão védica autorizada. Essas descrições certamente não são a imaginação de Kardama Muni. Os adornos do Senhor estão além da concepção material, como é admitido mesmo por impersonalistas como Śaṅkarācārya: Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus, nada tem a ver com a criação material. As variedades do Senhor transcendental – Seu corpo, Sua forma, Sua roupa, Suas instruções, Suas palavras – não são fabricadas pela energia material, mas são todas confirmadas na literatura védica. Através da prática de yoga, Kardama Muni viu realmente o Senhor Supremo como Ele é. Não teria sentido ver uma forma imaginada de Deus após praticar yoga por dez mil anos. A perfeição do yoga, portanto, não culmina no niilismo ou no impersonalismo; pelo contrário, a perfeição do yoga é atingida quando se vê realmente a Personalidade de Deus sob Sua forma eterna. O processo da consciência de Kṛṣṇa consiste em apresentar diretamente a forma de Kṛṣṇa. A forma de Kṛṣṇa é descrita na literatura védica autorizada chamada Brahmā-saṁhitā: Sua morada é feita de pedra cintāmaṇi, e o Senhor brinca ali como um vaqueirinho e é servido por milhares e milhares de gopīs. Essas descrições são autorizadas, e uma pessoa consciente de Kṛṣṇa as aceita diretamente, age com base nelas, prega as mesmas e pratica serviço devocional como prescrito nas escrituras autorizadas.
Devanagari
जातहर्षोऽपतन्मूर्ध्ना क्षितौ लब्धमनोरथ: ।
गीर्भिस्त्वभ्यगृणात्प्रीतिस्वभावात्मा कृताञ्जलि: ॥ १२ ॥
गीर्भिस्त्वभ्यगृणात्प्रीतिस्वभावात्मा कृताञ्जलि: ॥ १२ ॥
Verse text
jāta-harṣo ’patan mūrdhnā
kṣitau labdha-manorathaḥ
gīrbhis tv abhyagṛṇāt prīti-
svabhāvātmā kṛtāñjaliḥ
kṣitau labdha-manorathaḥ
gīrbhis tv abhyagṛṇāt prīti-
svabhāvātmā kṛtāñjaliḥ
Synonyms
jāta-harṣaḥ — naturalmente jubilante; apatat — ele caiu; mūrdhnā — com sua cabeça; kṣitau — no solo; labdha — tendo sido alcançado; manaḥ-rathaḥ — seu desejo; gīrbhiḥ — com orações; tu — e; abhyagṛṇāt — ele agradou; prīti-svabhāva-ātmā — cujo coração é por natureza sempre cheio de amor; kṛta-añjaliḥ — de mãos postas.
Translation
Quando realmente percebeu a Suprema Personalidade de Deus em pessoa, Kardama Muni ficou muito satisfeito por seu desejo transcendental ter sido satisfeito. Ele caiu ao solo com a cabeça prostrada para oferecer reverências aos pés de lótus do Senhor. Com seu coração naturalmente cheio de amor por Deus, ele agradou o Senhor oferecendo-Lhe orações de mãos postas.
Purport
A percepção da forma pessoal do Senhor é a fase perfectiva mais elevada do yoga. No sexto capítulo da Bhagavad-gītā, onde se descreve a prática do yoga, chama-se essa percepção da forma pessoal do Senhor de a perfeição do yoga. Após praticar as posturas sentadas e outros princípios reguladores do sistema, alcança-se, por fim, a fase de samādhi – absorção no Supremo. Na fase de samādhi, pode-se ver a Suprema Personalidade de Deus em Sua forma parcial como Paramātmā, ou seja, como Ele é. Nas escrituras autorizadas do yoga, tais como os Patañjali-sūtras, descreve-se que samādhi é um prazer transcendental. O sistema de yoga exposto nos livros de Patañjali é autorizado, e os pretensos yogīs modernos, que têm inventado seus próprios métodos, sem consultar as autoridades, são simplesmente ridículos. O sistema de yoga de Patañjali chama-se aṣṭāṅga-yoga. Algumas vezes, os impersonalistas corrompem o sistema de yoga de Patañjali por serem monistas. Patañjali descreve que a alma fica transcendentalmente satisfeita quando se encontra com a Superalma e A vê. Admitindo-se a existência da Superalma e da alma individual, anula-se a teoria impersonalista do monismo. Portanto, alguns impersonalistas e filósofos do vazio distorcem o sistema de Patañjali a seu próprio modo e corrompem todo o processo de yoga.
Segundo Patañjali, quando nos livramos de todos os desejos materiais, alcançamos nossa verdadeira situação transcendental, e a percepção dessa fase chama-se poder espiritual. As pessoas que executam atividades materiais envolvem-se nos modos da natureza material. As aspirações dessas pessoas são: (1) tornar-se religiosas, (2) enriquecer-se economicamente, (3) capacitar-se a satisfazer os sentidos e, por fim, (4) tornarem-se unas com o Supremo. Segundo os monistas, quando um yogī torna-se uno com o Supremo e perde sua existência individual, ele alcança a fase máxima, chamada kaivalya. Mas, na realidade, a fase de percepção da Personalidade de Deus que é, sim, kaivalya. A unidade de entendimento de que o Senhor Supremo é plenamente espiritual e de que, em compreensão espiritual plena, pode-se saber o que Ele é – a Suprema Personalidade de Deus – chama-se kaivalya, ou, na linguagem de Patañjali, percepção do poder espiritual. Sua proposta é que, quando alguém se livra dos desejos materiais e se fixa em compreensão espiritual do eu e do Super-eu, isso se chama cit-śakti. Em compreensão espiritual plena, há uma percepção de felicidade espiritual, a qual a Bhagavad-gītā descreve como felicidade suprema e que está além dos sentidos materiais. O transe é descrito como sendo de dois tipos, samprajñāta e asamprajñāta, ou seja, especulação mental e autorrealização. Em samādhi, ou asamprajñāta, pode-se perceber, com os sentidos espirituais, a forma espiritual do Senhor. Essa é a meta última da compreensão espiritual.
Segundo Patañjali, aquele que está fixo em constante percepção da forma suprema do Senhor alcança a fase perfectiva, como aconteceu com Kardama Muni. A não ser que se alcance essa fase de perfeição – além da perfeição das partes preliminares do sistema de yoga –, não há compreensão final. Há oito tipos de perfeição no sistema de aṣṭāṅga-yoga. Quem os alcança pode tornar-se mais leve que o mais leve e maior que o maior, e pode obter qualquer coisa que deseje. Todavia, nem mesmo a obtenção de semelhante sucesso material no yoga chega a ser a perfeição, ou a meta última. A meta última é descrita aqui: Kardama Muni viu a Suprema Personalidade de Deus em Sua forma eterna. O serviço devocional começa a partir da relação da alma individual com a Alma Suprema, ou seja, Kṛṣṇa e os devotos de Kṛṣṇa, e quem chega a este ponto não cai mais. Se, através do sistema de yoga, alguém quiser alcançar a fase de ver a Suprema Personalidade de Deus face a face, mas, no entanto, sentir atração por alcançar algum poder material, será impedido de prosseguir. O gozo material, conforme é encorajado por yogīs farsantes, nada tem a ver com a percepção transcendental de felicidade espiritual. Os verdadeiros devotos que praticam bhakti-yoga aceitam somente as necessidades materiais da vida absolutamente necessárias para manterem-se vivos; eles se abstêm totalmente de todo o exagerado gozo material dos sentidos. Eles estão dispostos a submeter-se a todos os tipos de tribulações, desde que possam progredir na compreensão da Personalidade de Deus.
Devanagari
ऋषिरुवाच
जुष्टं बताद्याखिलसत्त्वराशे:
सांसिद्ध्यमक्ष्णोस्तव दर्शनान्न: ।
यद्दर्शनं जन्मभिरीड्य सद्भि-
राशासते योगिनो रूढयोगा: ॥ १३ ॥
जुष्टं बताद्याखिलसत्त्वराशे:
सांसिद्ध्यमक्ष्णोस्तव दर्शनान्न: ।
यद्दर्शनं जन्मभिरीड्य सद्भि-
राशासते योगिनो रूढयोगा: ॥ १३ ॥
Verse text
ṛṣir uvāca
juṣṭaṁ batādyākhila-sattva-rāśeḥ
sāṁsiddhyam akṣṇos tava darśanān naḥ
yad-darśanaṁ janmabhir īḍya sadbhir
āśāsate yogino rūḍha-yogāḥ
juṣṭaṁ batādyākhila-sattva-rāśeḥ
sāṁsiddhyam akṣṇos tava darśanān naḥ
yad-darśanaṁ janmabhir īḍya sadbhir
āśāsate yogino rūḍha-yogāḥ
Synonyms
ṛṣiḥ uvāca — o grande sábio disse; juṣṭam — é alcançada; bata — ah!; adya — agora; akhila — toda; sattva — da bondade; rāśeḥ — que sois o reservatório; sāṁsiddhyam — o sucesso completo; akṣṇoḥ — dos dois olhos; tava — de Vós; darśanāt — da visão; naḥ — por nós; yat — de quem; darśanam — visão; janmabhiḥ — através de nascimentos; īḍya — ó Senhor adorável; sadbhiḥ — gradualmente elevado em posição; āśāsate — aspiram; yoginaḥ — yogīs; rūḍha-yogāḥ — tendo obtido a perfeição no yoga.
Translation
O grande sábio Kardama disse: Ó supremo e adorável Senhor, agora satisfiz minha capacidade de ver ao alcançar a perfeição máxima de ver a Vós, que sois o reservatório de todas as existências. Através de muitos e sucessivos nascimentos de profunda meditação, yogīs avançados aspiram a ver Vossa forma transcendental.
Purport
A Suprema Personalidade de Deus é descrita aqui como o reservatório de toda a bondade e de todo o prazer. A menos que estejamos situados no modo da bondade, não podemos experimentar prazer verdadeiro. Portanto, ao colocarmos corpo, mente e atividades a serviço do Senhor, estamos na mais elevada fase perfectiva de bondade. Kardama Muni diz: “Vossa Onipotência é o reservatório de tudo o que pode ser entendido dentro da nomenclatura da bondade, e, por experimentar-Vos face a face, olho a olho, acabo de atingir a perfeição da visão.” Essas afirmações estabelecem a situação devocional pura; para um devoto, a perfeição dos sentidos é ocupá-los no serviço ao Senhor. O sentido da visão, quando empregado para ver a beleza do Senhor, aperfeiçoa-se; a capacidade de ouvir, quando empregada para ouvir as glórias do Senhor, aperfeiçoa-se; a capacidade de saborear, quando alguém se compraz comendo prasāda, aperfeiçoa-se. A perfeição de alguém cujos sentidos ocupam-se em relação com a Personalidade de Deus é tecnicamente chamada de bhakti-yoga, que implica em desligar os sentidos da satisfação material e vinculá-los ao serviço do Senhor. Quando nos livramos de toda a vida condicional designada e nos ocupamos plenamente a serviço do Senhor, nosso serviço chama-se bhakti-yoga. Kardama Muni admite que ver o Senhor pessoalmente em bhakti-yoga é a perfeição da visão. A elevada perfeição de ver o Senhor não está sendo exagerada por Kardama Muni. Ele apresenta evidências de que aqueles que são realmente elevados em yoga aspiram a ver essa forma da Personalidade de Deus, vida após vida. Ele não era um yogī fictício. Aqueles que estão realmente no caminho avançado aspiram apenas a ver a forma eterna do Senhor.
Devanagari
ये मायया ते हतमेधसस्त्वत्-
पादारविन्दं भवसिन्धुपोतम् ।
उपासते कामलवाय तेषां
रासीश कामान्निरयेऽपि ये स्यु: ॥ १४ ॥
पादारविन्दं भवसिन्धुपोतम् ।
उपासते कामलवाय तेषां
रासीश कामान्निरयेऽपि ये स्यु: ॥ १४ ॥
Verse text
ye māyayā te hata-medhasas tvat-
pādāravindaṁ bhava-sindhu-potam
upāsate kāma-lavāya teṣāṁ
rāsīśa kāmān niraye ’pi ye syuḥ
pādāravindaṁ bhava-sindhu-potam
upāsate kāma-lavāya teṣāṁ
rāsīśa kāmān niraye ’pi ye syuḥ
Synonyms
ye — as pessoas; māyayā — pela energia ilusória; te — de Vós; hata — tem sido perdida; medhasaḥ — cuja inteligência; tvat — Vossos; pāda-aravindam — pés de lótus; bhava — de existência mundana; sindhu — o oceano; potam — o barco para cruzar; upāsate — adoram; kāma-lavāya — para obter prazeres triviais; teṣām — delas; rāsi — Vós concedeis; īśa — ó Senhor; kāmān — desejos; niraye — no inferno; api — mesmo; ye — desejos esses; syuḥ — podem ser disponíveis.
Translation
Vossos pés de lótus são o navio que realmente nos ajuda a atravessar o oceano de mundana ignorância. Somente as pessoas que perderam a inteligência pelo feitiço da energia ilusória é que adorarão esses pés com vistas a alcançar os prazeres dos sentidos, que são triviais, momentâneos e obteníveis até mesmo por pessoas que estão apodrecendo no inferno. Contudo, ó meu Senhor, sois tão bondoso que até a elas concedeis Vossa misericórdia.
Purport
Como se afirma na Bhagavad-gītā, sétimo capítulo, há dois tipos de devotos – aqueles que desejam prazeres materiais e aqueles que nada desejam além do serviço ao Senhor. Mesmo cães e porcos, cuja condição de vida é infernal, podem obter prazeres materiais. O porco também come, dorme e goza de vida sexual ao máximo, e também está muito satisfeito com esse gozo infernal da existência material. Os yogīs modernos aconselham que, como temos sentidos, devemos desfrutar ao máximo, como cães e gatos, ao mesmo tempo que podemos continuar praticando yoga. Isso é condenado aqui por Kardama Muni: ele diz que esses prazeres materiais são disponíveis para cães e gatos em condições infernais. O Senhor é tão bondoso que, se os pretensos yogīs satisfazem-se com prazeres infernais, Ele lhes pode dar facilidades para obter todos os prazeres materiais que eles desejem, mas não poderão alcançar a fase perfectiva atingida por Kardama Muni.
Pessoas infernais e demoníacas não sabem realmente qual é a conquista final da perfeição, em virtude do que elas acham que o gozo dos sentidos é a meta máxima da vida. Anunciam que se pode satisfazer os sentidos e, ao mesmo tempo, recitando algum mantra e fazendo algum exercício, pode-se, de maneira barata, aspirar à perfeição. Descreve-se aqui essas pessoas como hata-medhasaḥ, que significa “aqueles cujos cérebros estão arruinados”. Aspiram ao gozo material através da perfeição do yoga ou da meditação. Na Bhagavad-gītā, o Senhor afirma que a inteligência daqueles que adoram os semideuses está arruinada. Da mesma forma, aqui também Kardama Muni afirma que quem aspira ao gozo material através da prática do yoga estraga sua massa cinzenta e é o tolo número um. Na realidade, o praticante inteligente de yoga a nada deve aspirar, exceto a cruzar o oceano da ignorância, adorando a Personalidade de Deus, e a ver os pés de lótus do Senhor. No entanto, o Senhor é tão bondoso que, mesmo hoje em dia, pessoas cuja massa cinzenta está estragada recebem a bênção de se tornar gatos, cães ou porcos e extrair felicidade material da vida sexual e do gozo dos sentidos. O Senhor confirma essa bênção na Bhagavad-gītā: “Tudo o que uma pessoa aspire a receber de Mim, Eu lhe ofereço conforme ela deseje.”
Devanagari
तथा स चाहं परिवोढुकाम:
समानशीलां गृहमेधधेनुम् ।
उपेयिवान्मूलमशेषमूलं
दुराशय: कामदुघाङ्घ्रिपस्य ॥ १५ ॥
समानशीलां गृहमेधधेनुम् ।
उपेयिवान्मूलमशेषमूलं
दुराशय: कामदुघाङ्घ्रिपस्य ॥ १५ ॥
Verse text
tathā sa cāhaṁ parivoḍhu-kāmaḥ
samāna-śīlāṁ gṛhamedha-dhenum
upeyivān mūlam aśeṣa-mūlaṁ
durāśayaḥ kāma-dughāṅghripasya
samāna-śīlāṁ gṛhamedha-dhenum
upeyivān mūlam aśeṣa-mūlaṁ
durāśayaḥ kāma-dughāṅghripasya
Synonyms
tathā — semelhantemente; saḥ — eu mesmo; ca — também; aham — eu; parivoḍhu-kāmaḥ — desejando casar-me; samāna-śīlām — uma moça de disposição semelhante; gṛha-medha — na vida conjugal; dhenum — uma vaca de leite abundante; upeyivān — tenho me aproximado; mūlam — a raiz (pés de lótus); aśeṣa — de tudo; mūlam — a fonte; durāśayaḥ — com desejo luxurioso; kāma-dugha — satisfazendo todos os desejos; aṅghripasya — (de Vós) que sois a árvore.
Translation
Portanto, desejando casar-me com uma moça de disposição semelhante à minha e que mostre ser uma autêntica vaca de leite abundante em minha vida conjugal, para satisfazer meu desejo luxurioso eu também busquei o abrigo de Vossos pés de lótus, que são a fonte de tudo, pois Vós sois como uma árvore-dos-desejos.
Purport
A despeito de ele condenar as pessoas que se aproximam do Senhor em busca de vantagens materiais, Kardama Muni expressou sua incapacidade e desejos materiais ante o Senhor, dizendo: “Embora eu saiba que não se deve pedir nada de material a Vós, não obstante desejo casar-me com uma moça de disposição semelhante à minha.” A frase “disposição semelhante” é muito significativa. Antigamente, casavam-se rapazes e moças de índole semelhante: as índoles semelhantes do rapaz e da moça eram unidas para fazê-los felizes. Há não mais de vinte e cinco anos, e talvez isso ainda seja comum, os pais na Índia costumavam consultar o horóscopo do rapaz e da moça para ver se haveria verdadeira unidade em suas condições psicológicas. Essas considerações são muito importantes. Hoje em dia, os casamentos acontecem sem tal consulta, e, portanto, logo após o casamento, há divórcio e separação. Antigamente, esposo e esposa viviam juntos pacificamente por toda a sua vida, mas, hoje em dia, essa é uma tarefa muito difícil.
Kardama Muni queria ter uma esposa de disposição semelhante à sua porque a esposa é necessária para ajudar no avanço material e espiritual. Afirma-se que uma esposa proporciona a satisfação de todos os desejos em termos de religião, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos. O homem que tem uma boa esposa é considerado muito afortunado. Em astrologia, o homem que tem grande riqueza, ótimos filhos ou ótima esposa é considerado afortunado. Desses três, aquele que tem uma ótima esposa é considerado o mais venturoso. Antes do casamento, devemos escolher uma esposa de disposição semelhante à nossa, e não ficar enamorados da dita beleza ou de outros aspectos atrativos para o gozo dos sentidos. No Bhāgavatam, décimo segundo canto, afirma-se que, em Kali-yuga, o casamento se baseará na consideração da vida sexual: tão logo haja deficiência na vida sexual, surgirá a questão do divórcio.
Kardama Muni poderia ter pedido sua bênção a Umā, pois se recomenda nas escrituras que quem deseja uma boa esposa deve adorar Umā. Mas ele preferiu adorar a Suprema Personalidade de Deus porque o Bhāgavatam recomenda que todas as pessoas, sejam elas cheias de desejos, isentas de desejos ou desejosas de obter a liberação, devem adorar o Senhor Supremo. Entre essas três classes de homens, uma tenta ser feliz através da satisfação de desejos materiais, outra quer ser feliz tornando-se una com o Supremo, e outra, o homem perfeito, é o devoto. Ele não deseja recompensa alguma da Personalidade de Deus: quer somente prestar-Lhe transcendental serviço amoroso. Em qualquer caso, todos devem adorar a Suprema Personalidade de Deus, pois Ele satisfará o desejo de todos. A vantagem de se adorar a Pessoa Suprema está em que, mesmo se a pessoa tiver desejos de gozo material, caso adore Kṛṣṇa, gradualmente se tornará um devoto puro e não terá mais anseios materiais.
Devanagari
प्रजापतेस्ते वचसाधीश तन्त्या
लोक: किलायं कामहतोऽनुबद्ध: ।
अहं च लोकानुगतो वहामि
बलिं च शुक्लानिमिषाय तुभ्यम् ॥ १६ ॥
लोक: किलायं कामहतोऽनुबद्ध: ।
अहं च लोकानुगतो वहामि
बलिं च शुक्लानिमिषाय तुभ्यम् ॥ १६ ॥
Verse text
prajāpates te vacasādhīśa tantyā
lokaḥ kilāyaṁ kāma-hato ’nubaddhaḥ
ahaṁ ca lokānugato vahāmi
baliṁ ca śuklānimiṣāya tubhyam
lokaḥ kilāyaṁ kāma-hato ’nubaddhaḥ
ahaṁ ca lokānugato vahāmi
baliṁ ca śuklānimiṣāya tubhyam
Synonyms
prajāpateḥ — que sois o senhor de todas as entidades vivas; te — de Vós; vacasā — sob a direção; adhīśa — ó meu Senhor; tantyā — por uma corda; lokaḥ — almas condicionadas; kila — na realidade; ayam — estas; kāma-hataḥ — dominadas por desejos luxuriosos; anubaddhaḥ — estão atadas; aham — eu; ca — e; loka-anugataḥ — seguindo as almas condicionadas; vahāmi — ofereço; balim — oblações; ca — e; śukla — ó corporificação da religião; animiṣāya — existindo como o tempo eterno; tubhyam — a Vós.
Translation
Ó meu Senhor, sois o mestre e líder de todas as entidades vivas. Sob Vossa direção, todas as almas condicionadas, como se atadas por uma corda, estão constantemente ocupadas em satisfazer seus desejos. Seguindo-as, ó corporificação da religião, eu também faço oblações a Vós, que sois o tempo eterno.
Purport
Na Kaṭha Upaniṣad, afirma-se que o Senhor Supremo é o líder de todas as entidades vivas. Ele é seu sustentador e o outorgante de todas as suas necessidades e desejos. Nenhuma entidade viva é independente: todas dependem da misericórdia do Senhor Supremo. Portanto, a instrução védica é que devemos gozar da vida sob a orientação do líder supremo, a Personalidade de Deus. Textos védicos como a Īśopaniṣad orientam que, como tudo pertence à Suprema Personalidade de Deus, ninguém deve usurpar a propriedade alheia, senão que deve desfrutar de seu quinhão individual. O melhor programa para toda entidade viva é deixar se orientar pelo Senhor Supremo ao desfrutar da vida material ou da espiritual.
Pode ser que se levante a seguinte questão: uma vez que Kardama Muni era avançado na vida espiritual, por que, então, não pediu a liberação ao Senhor? Por que quis gozar da vida material apesar de ter visto e experimentado pessoalmente o Senhor Supremo? A resposta é que nem todos são competentes para serem libertos do cativeiro material. É dever de todos, portanto, desfrutar de acordo com sua posição atual, mas sob a orientação do Senhor ou dos Vedas. Os Vedas são considerados como as palavras diretas do Senhor. O Senhor nos dá a oportunidade de gozar da vida material como quisermos e, ao mesmo tempo, Ele oferece orientações sobre os modos e processos de viver segundo os preceitos dos Vedas para que gradualmente possamos ser elevados à liberação do cativeiro material. As almas condicionadas que vieram ao mundo material para satisfazer seus desejos de se assenhorearem da natureza material estão atadas pelas leis da natureza. O melhor que temos a fazer é guiarmo-nos pelas leis védicas: isso nos ajudará a sermos gradualmente elevados à liberação.
Kardama Muni chama o Senhor de śuka, que significa “o líder da religião”. Quem é piedoso deve seguir as leis da religião, pois essas leis são prescritas pelo próprio Senhor. Ninguém pode fabricar ou inventar uma religião; “religião” refere-se aos preceitos ou leis do Senhor. Na Bhagavad-gītā, o Senhor diz que religião significa render-se a Ele. Portanto, devemos seguir as regulações védicas e nos rendermos ao Senhor Supremo porque esta é a meta última de perfeição na vida humana. Uma pessoa deve viver uma vida de piedade, seguir as regras e regulações religiosas, casar-se e viver pacificamente, visando à elevação ao status mais elevado de compreensão espiritual.
Devanagari
लोकांश्च लोकानुगतान् पशूंश्च
हित्वा श्रितास्ते चरणातपत्रम् ।
परस्परं त्वद्गुणवादसीधु-
पीयूषनिर्यापितदेहधर्मा: ॥ १७ ॥
हित्वा श्रितास्ते चरणातपत्रम् ।
परस्परं त्वद्गुणवादसीधु-
पीयूषनिर्यापितदेहधर्मा: ॥ १७ ॥
Verse text
lokāṁś ca lokānugatān paśūṁś ca
hitvā śritās te caraṇātapatram
parasparaṁ tvad-guṇa-vāda-sīdhu-
pīyūṣa-niryāpita-deha-dharmāḥ
hitvā śritās te caraṇātapatram
parasparaṁ tvad-guṇa-vāda-sīdhu-
pīyūṣa-niryāpita-deha-dharmāḥ
Synonyms
lokān — afazeres mundanos; ca — e; loka-anugatān — os seguidores dos afazeres mundanos; paśūn — bestiais; ca — e; hitvā — tendo abandonado; śritāḥ — abrigado; te — Vossos; caraṇa — dos pés de lótus; ātapatram — o guarda-sol; parasparam — mútuas; tvat — Vossas; guṇa — as qualidades; vāda — através do diálogo; sīdhu — inebriante; pīyūṣa — pelo néctar; niryāpita — extintas; deha-dharmāḥ — as necessidades primárias do corpo.
Translation
Entretanto, as pessoas que abandonam os estereotipados afazeres mundanos e os seguidores bestiais desses afazeres, e que se abrigam no guarda-sol de Vossos pés de lótus, bebendo o néctar inebriante de Vossas qualidades e atividades em diálogos amigáveis, podem livrar-se das necessidades primárias do corpo material.
Purport
Após descrever a necessidade da vida conjugal, Kardama Muni afirma que o casamento e outros afazeres sociais são regulações estereotipadas para pessoas viciadas no gozo material dos sentidos. Os princípios de vida animal – comer, dormir, acasalar-se e defender-se – são realmente necessidades do corpo, mas aqueles que se ocupam em consciência de Kṛṣṇa transcendental, abandonando todas as atividades estereotipadas deste mundo material, livram-se das convenções sociais. As almas condicionadas estão sob o feitiço da energia material, ou do tempo eterno – passado, presente e futuro –, mas, tão logo alguém se ocupe em consciência de Kṛṣṇa, transcende os limites de passado e presente e situa-se nas atividades eternas da alma. É preciso agir em termos dos preceitos védicos para gozar da vida material, mas aqueles que adotam o serviço devocional ao Senhor não temem as regulações deste mundo material. Tais devotos não se importam com as convenções de atividades materiais: eles recorrem audaciosamente àquele abrigo que é como um guarda-sol contra o sol de repetidos nascimentos e mortes.
A constante transmigração da alma de um corpo a outro é a causa do sofrimento na existência material. Esta vida condicional na existência material chama-se saṁsāra. Pode ser que alguém execute bom trabalho e nasça em ótima condição material, mas o processo sob o qual ocorrem o nascimento e a morte é como um fogo terrível. Śrī Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, em sua oração ao mestre espiritual, descreve isso. Saṁsāra, ou a repetição de nascimento e morte, é comparada a um incêndio florestal. Incêndios florestais ocorrem automaticamente, sem o esforço de ninguém, pela fricção de madeira seca, e nenhum corpo de bombeiros ou pessoa solidária pode extingui-los. O furioso incêndio florestal só pode ser apagado quando há constante queda de chuva a partir de uma nuvem. A nuvem é comparada à misericórdia do mestre espiritual. Pela graça do mestre espiritual, introduz-se a nuvem da misericórdia da Personalidade de Deus, e somente então, quando caem as chuvas de consciência de Kṛṣṇa, é que se pode extinguir o fogo da existência material. Também se explica isso aqui. Para chegarmos a libertar-nos da vida condicional estereotipada de existência material, precisamos abrigar-nos aos pés de lótus do Senhor, não à maneira dos impersonalistas, mas em serviço devocional, cantando e ouvindo sobre as atividades do Senhor. Somente então poderemos livrar-nos das ações e reações da existência material. Recomenda-se aqui que devemos abandonar a vida condicionada deste mundo material e a companhia de ditos seres humanos civilizados que estão simplesmente seguindo, de maneira polida, os mesmos princípios estereotipados de comer, dormir, defender-se e acasalar-se. O método de cantar e ouvir as glórias do Senhor é descrito aqui como tvad-guṇa-vāda-sīdhu. É somente bebendo o néctar de cantar e ouvir os passatempos do Senhor que podemos nos esquecer da intoxicação da existência material.
Devanagari
न तेऽजराक्षभ्रमिरायुरेषां
त्रयोदशारं त्रिशतं षष्टिपर्व ।
षण्नेम्यनन्तच्छदि यत्त्रिणाभि
करालस्रोतो जगदाच्छिद्य धावत् ॥ १८ ॥
त्रयोदशारं त्रिशतं षष्टिपर्व ।
षण्नेम्यनन्तच्छदि यत्त्रिणाभि
करालस्रोतो जगदाच्छिद्य धावत् ॥ १८ ॥
Verse text
na te ’jarākṣa-bhramir āyur eṣāṁ
trayodaśāraṁ tri-śataṁ ṣaṣṭi-parva
ṣaṇ-nemy ananta-cchadi yat tri-ṇābhi
karāla-sroto jagad ācchidya dhāvat
trayodaśāraṁ tri-śataṁ ṣaṣṭi-parva
ṣaṇ-nemy ananta-cchadi yat tri-ṇābhi
karāla-sroto jagad ācchidya dhāvat
Synonyms
na — não; te — Vossa; ajara — do Brahman imperecível; akṣa — no eixo; bhramiḥ — girando; āyuḥ — duração de vida; eṣām — dos devotos; trayodaśa — treze; aram — raios; tri-śatam — trezentas; ṣaṣṭi — sessenta; parva — funções; ṣaṭ — seis; nemi — cambotas; ananta — inúmeras; chadi — folhas; yat — a qual; tri — três; nābhi — cubos; karāla-srotaḥ — com tremenda velocidade; jagat — o universo; ācchidya — reduzindo; dhāvat — correndo.
Translation
Vossa roda, que tem três cubos, gira em torno do eixo do Brahman imperecível. Ela tem treze raios, trezentos e sessenta juntas, seis cambotas e inúmeras folhas nela entalhadas. Embora sua rotação reduza a duração de vida de toda a criação, essa roda de tremenda velocidade não pode tocar a duração de vida dos devotos do Senhor.
Purport
O fator tempo não pode afetar a duração de vida dos devotos. A Bhagavad-gītā afirma que uma pequena execução de serviço devocional salva qualquer pessoa do maior perigo. O maior perigo é a transmigração da alma de um corpo para outro, e somente o serviço devocional ao Senhor pode parar esse processo. Afirma-se nos textos védicos que hariṁ vinā na sṛtiṁ taranti: sem a misericórdia do Senhor, ninguém pode parar o ciclo de nascimento e morte. Na Bhagavad-gītā, declara-se que somente compreendendo a natureza transcendental do Senhor e Suas atividades, Seu aparecimento e desaparecimento, é que se pode parar o ciclo da morte e voltar a Ele. O fator tempo divide-se em muitas frações de segundos, horas, meses, anos, períodos, estações etc. Todas as divisões apresentadas neste verso são determinadas segundo os cálculos astronômicos da literatura védica. Existem seis estações, chamadas ṛtus, e há o período de quatro meses chamado cāturmāsya. Três períodos de quatro meses completam um ano. Segundo os cálculos astronômicos védicos, há treze meses. O décimo terceiro mês chama-se adhi-māsa, ou mala-māsa, sendo acrescentado a cada três anos. O fator tempo, contudo, não pode afetar a duração de vida dos devotos. Em outro verso, afirma-se que, quando o Sol nasce e se põe, ele rouba a vida de todas as entidades vivas, mas ele não pode roubar a vida daqueles que estão ocupados em serviço devocional. Aqui o tempo é comparado a uma grande roda que tem trezentos e sessenta juntas, seis cambotas sob a forma das estações, e inúmeras folhas sob a forma dos segundos. Ela gira na existência eterna, o Brahman.
Devanagari
एक: स्वयं सञ्जगत: सिसृक्षया-
द्वितीययात्मन्नधियोगमायया ।
सृजस्यद: पासि पुनर्ग्रसिष्यसे
यथोर्णनाभिर्भगवन् स्वशक्तिभि: ॥ १९ ॥
द्वितीययात्मन्नधियोगमायया ।
सृजस्यद: पासि पुनर्ग्रसिष्यसे
यथोर्णनाभिर्भगवन् स्वशक्तिभि: ॥ १९ ॥
Verse text
ekaḥ svayaṁ sañ jagataḥ sisṛkṣayā-
dvitīyayātmann adhi-yogamāyayā
sṛjasy adaḥ pāsi punar grasiṣyase
yathorṇa-nābhir bhagavan sva-śaktibhiḥ
dvitīyayātmann adhi-yogamāyayā
sṛjasy adaḥ pāsi punar grasiṣyase
yathorṇa-nābhir bhagavan sva-śaktibhiḥ
Synonyms
ekaḥ — sozinho; svayam — Vós próprio; san — estando; jagataḥ — os universos; sisṛkṣayā — com desejo de criar; advitīyayā — com uma segunda; ātman — em Vós; adhi — controlando; yoga-māyayā — yoga-māyā; sṛjasi — Vós criais; adaḥ — esses universos; pāsi — Vós mantendes; punaḥ — novamente; grasiṣyase — Vós aniquilareis; yathā — como; ūrṇa-nābhiḥ — uma aranha; bhagavan — ó Senhor; sva-śaktibhiḥ — por sua própria energia.
Translation
Meu querido Senhor, sozinho criais o universo. Ó Personalidade de Deus, desejando criar estes universos, Vós os criais, os mantendes e novamente os aniquilais através de Vossas próprias energias, que estão sob o controle de Vossa segunda energia, chamada yoga-māyā, assim como uma aranha cria uma teia através de sua própria energia e novamente a aniquila.
Purport
Neste verso, duas palavras importantes anulam a teoria impersonalista de que tudo é Deus. Aqui, Kardama diz: “Ó Personalidade de Deus, sois único, mas tendes várias energias.” O exemplo da aranha também é muito significativo. A aranha é uma entidade viva individual, e, através de sua energia, ela cria uma teia e brinca com ela, e, sempre que deseja, ela destrói a teia, acabando assim com a brincadeira. Quando a teia é fabricada pela saliva da aranha, a aranha não se torna impessoal. Analogamente, a criação e a manifestação das energias material e espiritual não tornam o criador impessoal. Aqui, a própria oração sugere que Deus é senciente e pode ouvir as orações e satisfazer os desejos do devoto. Portanto, Ele é sac-cid-ānanda-vigraha, a forma de bem-aventurança, conhecimento e eternidade.
Devanagari
नैतद्बताधीश पदं तवेप्सितं
यन्मायया नस्तनुषे भूतसूक्ष्मम् ।
अनुग्रहायास्त्वपि यर्ही मायया
लसत्तुलस्या भगवान् विलक्षित: ॥ २० ॥
यन्मायया नस्तनुषे भूतसूक्ष्मम् ।
अनुग्रहायास्त्वपि यर्ही मायया
लसत्तुलस्या भगवान् विलक्षित: ॥ २० ॥
Verse text
naitad batādhīśa padaṁ tavepsitaṁ
yan māyayā nas tanuṣe bhūta-sūkṣmam
anugrahāyāstv api yarhi māyayā
lasat-tulasyā bhagavān vilakṣitaḥ
yan māyayā nas tanuṣe bhūta-sūkṣmam
anugrahāyāstv api yarhi māyayā
lasat-tulasyā bhagavān vilakṣitaḥ
Synonyms
na — não; etat — esta; bata — na verdade; adhīśa — ó Senhor; padam — mundo material; tava — Vosso; īpsitam — desejo; yat — o qual; māyayā — por Vossa energia externa; naḥ — para nós; tanuṣe — Vós manifestais; bhūta-sūkṣmam — os elementos grosseiros e sutis; anugrahāya — para conceder misericórdia; astu — que haja; api — também; yurhi — quando; māyayā — através de Vossa misericórdia imotivada; lasat — esplêndida; tulasyā — com uma guirlanda de folhas de tulasī; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; vilakṣitaḥ — é percebida.
Translation
Meu querido Senhor, embora não seja Vosso desejo, manifestais esta criação de elementos grosseiros e sutis simplesmente para nossa satisfação sensorial. Que Vossa misericórdia imotivada esteja conosco, pois aparecestes ante nós sob Vossa forma eterna, adornada com uma esplêndida guirlanda de folhas de tulasī.
Purport
Aqui se afirma claramente que o mundo material não é criado pelo desejo pessoal do Senhor Supremo: ele é criado por Sua energia externa porque as entidades vivas querem desfrutá-lo. Este mundo material não foi criado para aqueles que não querem desfrutar do gozo dos sentidos, os quais permanecem constantemente em transcendental serviço amoroso e que são eternamente conscientes de Kṛṣṇa. Para eles, o mundo espiritual existe eternamente, e ali eles desfrutam. Em outro trecho do Śrīmad-Bhāgavatam, afirma-se que, para aqueles que têm se abrigado aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, este mundo material é inútil: uma vez que este mundo material é cheio de perigos a cada passo, ele não se destina aos devotos, mas às entidades vivas que querem assenhorear-se da energia material a seu próprio risco. Kṛṣṇa é tão bondoso que concede às entidades vivas desfrutadoras dos sentidos um mundo separado, criado por Ele para que desfrutem como desejarem. Mas, ao mesmo tempo, Ele aparece em Sua forma pessoal. O Senhor cria este mundo material contra Sua vontade, mas desce em Sua forma pessoal, ou envia um de Seus filhos fidedignos, ou um servo ou um autor fidedigno como Vyāsadeva, para dar instruções. Ele também instrui pessoalmente em Suas palavras da Bhagavad-gītā. Este trabalho de propaganda desenrola-se lado a lado com a criação para convencer as entidades vivas desorientadas que estão apodrecendo neste mundo material a voltarem a Ele e renderem-se a Ele. Portanto, a instrução final da Bhagavad-gītā é esta: “Abandona tuas ocupações inventadas no mundo material e simplesmente rende-te a Mim. Eu te protegerei de todas as reações pecaminosas.”
Devanagari
तं त्वानुभूत्योपरतक्रियार्थं
स्वमायया वर्तितलोकतन्त्रम् ।
नमाम्यभीक्ष्णं नमनीयपाद-
सरोजमल्पीयसि कामवर्षम् ॥ २१ ॥
स्वमायया वर्तितलोकतन्त्रम् ।
नमाम्यभीक्ष्णं नमनीयपाद-
सरोजमल्पीयसि कामवर्षम् ॥ २१ ॥
Verse text
taṁ tvānubhūtyoparata-kriyārthaṁ
sva-māyayā vartita-loka-tantram
namāmy abhīkṣṇaṁ namanīya-pāda-
sarojam alpīyasi kāma-varṣam
sva-māyayā vartita-loka-tantram
namāmy abhīkṣṇaṁ namanīya-pāda-
sarojam alpīyasi kāma-varṣam
Synonyms
tam — isto; tvā — Vós; anubhūtyā — por compreender; uparata — desconsiderado; kriyā — desfrute das atividades fruitivas; artham — a fim de que; sva-māyayā — através de Vossa própria energia; vartita — ocasionados; loka-tantram — os mundos materiais; namāmi — ofereço reverências; abhīkṣṇam — continuamente; namanīya — adoráveis; pāda-sarojam — pés de lótus; alpīyasi — sobre os insignificantes; kāma — desejos; varṣam — derramando.
Translation
Ofereço continuamente minhas respeitosas reverências a Vossos pés de lótus, que são dignos de nosso abrigo, pois derramais todas as bênçãos sobre os insignificantes. Para dar a todas as entidades vivas o desapego da atividade fruitiva mediante a compreensão de Vós, Vós expandis estes mundos materiais através de Vossa própria energia.
Purport
Todos, portanto, quer desejem gozo material, liberação ou o transcendental serviço amoroso ao Senhor, devem dedicar-se a oferecer reverências ao Senhor Supremo, pois o Senhor pode conceder a todos as bênçãos por eles desejadas. Na Bhagavad-gītā, o Senhor afirma que ye yathā māṁ prapadyante: qualquer pessoa que deseje ser um desfrutador exitoso neste mundo material recebe esta bênção do Senhor, qualquer pessoa que queira libertar-se do enredamento deste mundo material recebe do Senhor a liberação, e qualquer pessoa que deseje ocupar-se constantemente em Seu serviço, em plena consciência de Kṛṣṇa, recebe esta bênção do Senhor. Para o gozo material, Ele prescreve muitas execuções ritualísticas sacrificatórias nos Vedas, e assim as pessoas podem aproveitar-se dessas instruções e gozar da vida material em planetas superiores ou numa nobre família aristocrática. Esses processos são mencionados nos Vedas, e deles podemos tirar proveito. O mesmo acontece com aqueles que querem libertar-se deste mundo material.
A menos que estejamos desgostosos com o gozo deste mundo material, não podemos aspirar à liberação. A liberação é para quem está desgostoso com o desfrute material. O Vedānta-sūtra, portanto, diz, athāto brahma-jijñāsā: aqueles que abandonam a tentativa de serem felizes neste mundo material podem indagar sobre a Verdade Absoluta. Para quem quer conhecer a Verdade Absoluta, o Vedānta-sūtra está disponível, bem como o Śrīmad-Bhāgavatam, a verdadeira explicação do Vedānta-sūtra. Uma vez que a Bhagavad-gītā também é Vedānta-sūtra, pode-se obter conhecimento verdadeiro mediante a compreensão do Śrīmad-Bhāgavatam, do Vedānta-sūtra ou da Bhagavad-gītā. Quando alguém obtém conhecimento verdadeiro, torna-se teoricamente uno com o Supremo, e quando realmente passa a servir ao Brahman, ou seja, adota a consciência de Kṛṣṇa, não somente se liberta, mas também se situa em sua vida espiritual. De modo semelhante, para quem quer assenhorear-se da natureza material, há muitos gêneros de gozo material: o conhecimento material e a ciência material estão disponíveis, e o Senhor os supre às pessoas que querem desfrutá-los. A conclusão é que se deve adorar a Suprema Personalidade de Deus em troca de qualquer bênção. A palavra kāma-varṣam é muito significativa, pois indica que Ele satisfaz os desejos de quem quer que dEle se aproxime. Mas alguém que ama a Kṛṣṇa sinceramente e, ao mesmo tempo, deseja gozo material fica perplexo. Kṛṣṇa, sendo muito bondoso com tal pessoa, proporciona-lhe uma oportunidade de ocupar-se no transcendental serviço amoroso ao Senhor, e, dessa maneira, ela gradualmente se esquece da alucinação.
Devanagari
ऋषिरुवाच
इत्यव्यलीकं प्रणुतोऽब्जनाभ-
स्तमाबभाषे वचसामृतेन ।
सुपर्णपक्षोपरि रोचमान:
प्रेमस्मितोद्वीक्षणविभ्रमद्भ्रू: ॥ २२ ॥
इत्यव्यलीकं प्रणुतोऽब्जनाभ-
स्तमाबभाषे वचसामृतेन ।
सुपर्णपक्षोपरि रोचमान:
प्रेमस्मितोद्वीक्षणविभ्रमद्भ्रू: ॥ २२ ॥
Verse text
ṛṣir uvāca
ity avyalīkaṁ praṇuto ’bja-nābhas
tam ābabhāṣe vacasāmṛtena
suparṇa-pakṣopari rocamānaḥ
prema-smitodvīkṣaṇa-vibhramad-bhrūḥ
ity avyalīkaṁ praṇuto ’bja-nābhas
tam ābabhāṣe vacasāmṛtena
suparṇa-pakṣopari rocamānaḥ
prema-smitodvīkṣaṇa-vibhramad-bhrūḥ
Synonyms
ṛṣiḥ uvāca — o grande sábio Maitreya disse; iti — assim; avyalīkam — sinceramente; praṇutaḥ — tendo sido louvado; abja-nābhaḥ — Senhor Viṣṇu; tam — a Kardama Muni; ābabhāṣe — respondeu; vacasā — com palavras; amṛtena — doces como néctar; suparṇa — de Garuḍa; pakṣa — os ombros; upari — sobre; rocamānaḥ — brilhando; prema — de afeição; smita — com um sorriso; udvīkṣaṇa — olhando; vibhramat — mexendo-se graciosamente; bhrūḥ — sobrancelhas.
Translation
Maitreya retomou sua fala: Sinceramente enaltecido com estas palavras, o Senhor Viṣṇu, brilhando com imensa beleza sobre os ombros de Garuḍa, respondeu com palavras doces como néctar. Suas sobrancelhas mexiam-se graciosamente enquanto Ele olhava para o sábio com um sorriso cheio de afeição.
Purport
A palavra vacasāmṛtena é significativa. Sempre que o Senhor fala, Ele o faz do mundo transcendental, e não do mundo material. Uma vez que Ele é transcendental, Suas palavras também são transcendentais, assim como o são Suas atividades: tudo em relação a Ele é transcendental. A palavra amṛta refere-se àquele que não está sujeito à morte. As palavras e atividades do Senhor não se sujeitam à morte; portanto, não são uma invenção deste mundo material. O som deste mundo material e o do mundo espiritual são inteiramente diferentes. O som do mundo espiritual é nectáreo e eterno, ao passo que o som do mundo material é banal e sujeito ao fim. O som do santo nome – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare – aumenta duradouramente o entusiasmo de quem o canta. Se alguém repetir monótonas palavras materiais, ficará cansado, mas, se cantar Hare Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, jamais se sentirá exausto; pelo contrário, ele se sentirá encorajado a continuar cantando cada vez mais. A respeito de quando o Senhor respondeu ao sábio Kardama, menciona-se especificamente a palavra vacasāmṛtena, uma vez que Ele falou a partir do mundo transcendental. Ele respondeu com palavras transcendentais, e, ao falar, Suas sobrancelhas mexeram-se com grande afeição. Quando um devoto louva as glórias do Senhor, o Senhor fica muito satisfeito e concede Sua bênção transcendental ao devoto, sem reservas, porque Ele é sempre imotivadamente misericordioso com Seu devoto.
Devanagari
श्रीभगवानुवाच
विदित्वा तव चैत्यं मे पुरैव समयोजि तत् ।
यदर्थमात्मनियमैस्त्वयैवाहं समर्चित: ॥ २३ ॥
विदित्वा तव चैत्यं मे पुरैव समयोजि तत् ।
यदर्थमात्मनियमैस्त्वयैवाहं समर्चित: ॥ २३ ॥
Verse text
śrī-bhagavān uvāca
viditvā tava caityaṁ me
puraiva samayoji tat
yad-artham ātma-niyamais
tvayaivāhaṁ samarcitaḥ
viditvā tava caityaṁ me
puraiva samayoji tat
yad-artham ātma-niyamais
tvayaivāhaṁ samarcitaḥ
Synonyms
śrī-bhagavān uvāca — o Senhor Supremo disse; viditvā — entendendo; tava — tua; caityam — condição mental; me — por Mim; purā — anteriormente; eva — certamente; samayoji — foi providenciado; tat — aquilo; yat-artham — em troca do que; ātma — da mente e dos sentidos; niyamaiḥ — através da disciplina; tvayā — por ti; eva — somente; aham — Eu; samarcitaḥ — tenho sido adorado.
Translation
O Senhor Supremo disse: Tomando conhecimento do que se passava em tua mente, já providenciei aquilo em troca do que Me adoraste tão bem através de tua disciplina mental e sensória.
Purport
A Suprema Personalidade de Deus, em Seu aspecto Paramātmā, situa-Se no coração de todos. Ele conhece, portanto, o passado, o presente e o futuro de todas as pessoas individuais, bem como seus desejos, atividades e tudo mais sobre elas. Na Bhagavad-gītā, afirma-se que Ele está sentado no coração como uma testemunha. A Personalidade de Deus conhecia o desejo do coração de Kardama Muni, e já havia providenciado a satisfação de seus desejos. Ele nunca desaponta um devoto sincero, independentemente do que este deseje, mas Ele nunca concede nada que venha a ser prejudicial ao serviço devocional do indivíduo.
Devanagari
न वै जातु मृषैव स्यात्प्रजाध्यक्ष मदर्हणम् ।
भवद्विधेष्वतितरां मयि संगृभितात्मनाम् ॥ २४ ॥
भवद्विधेष्वतितरां मयि संगृभितात्मनाम् ॥ २४ ॥
Verse text
na vai jātu mṛṣaiva syāt
prajādhyakṣa mad-arhaṇam
bhavad-vidheṣv atitarāṁ
mayi saṅgṛbhitātmanām
prajādhyakṣa mad-arhaṇam
bhavad-vidheṣv atitarāṁ
mayi saṅgṛbhitātmanām
Synonyms
na — não; vai — na verdade; jātu — jamais; mṛṣā — inútil; eva — somente; syāt — pode ser; prajā — das entidades vivas; adhyakṣa — ó líder; mat-arhaṇam — adoração a Mim; bhavat-vidheṣu — a pessoas como tu; atitarām — inteiramente; mayi — em Mim; saṅgṛbhita — estão fixas; ātmanām — daqueles cuja mente.
Translation
O Senhor continuou: Meu querido ṛṣi, ó líder das entidades vivas, para aqueles que Me servem com devoção, adorando-Me – especialmente pessoas como tu, que entregaram tudo a Mim –, jamais há possibilidade de frustração.
Purport
Mesmo que tenha alguns desejos, a pessoa que está ocupada a serviço do Senhor nunca se frustra. Aqueles que estão ocupados a serviço dEle chamam-se sakāma e akāma. Aqueles que se aproximam da Suprema Personalidade de Deus com desejos de gozo material chamam-se sakāma, e os devotos que não têm desejos materiais de gozo dos sentidos, senão que servem ao Senhor Supremo por amor espontâneo por Ele, chamam-se akāma. Os devotos sakāma dividem-se em quatro classes – os aflitos, os necessitados de dinheiro, os curiosos e os sábios. Alguém adora o Senhor Supremo devido a aflições corpóreas ou mentais, outrem adora o Senhor Supremo porque precisa de dinheiro, outrem adora o Senhor devido à curiosidade de conhecê-lO como Ele é, e outrem quer conhecer o Senhor da maneira como um filósofo pode conhecê-lO, através do trabalho de pesquisa de sua sabedoria. Não há frustração para nenhuma dessas quatro classes de homens: cada uma delas recebe o resultado desejado de sua adoração.
Devanagari
प्रजापतिसुत: सम्राण्मनुर्विख्यातमङ्गल: ।
ब्रह्मावर्तं योऽधिवसन् शास्ति सप्तार्णवां महीम् ॥ २५ ॥
ब्रह्मावर्तं योऽधिवसन् शास्ति सप्तार्णवां महीम् ॥ २५ ॥
Verse text
prajāpati-sutaḥ samrāṇ
manur vikhyāta-maṅgalaḥ
brahmāvartaṁ yo ’dhivasan
śāsti saptārṇavāṁ mahīm
manur vikhyāta-maṅgalaḥ
brahmāvartaṁ yo ’dhivasan
śāsti saptārṇavāṁ mahīm
Synonyms
Translation
O imperador Svāyambhuva Manu, filho do senhor Brahmā, que é famoso por seus atos justos, tem seu trono em Brahmāvarta e governa a Terra com seus sete oceanos.
Purport
Às vezes, afirma-se que Brahmāvarta é uma parte de Kurukṣetra, ou que o próprio Kurukṣetra está situado em Brahmāvarta, porque os semideuses são aconselhados a executar cerimônias espirituais ritualísticas em Kurukṣetra. Todavia, na opinião de outros, Brahmāvarta é um lugar em Brahmaloka, onde Svāyambhuva governava. Há muitos lugares na superfície desta Terra que são conhecidos nos sistemas planetários superiores. Temos lugares neste planeta como Vṛndāvana, Dvārakā e Mathurā, mas eles também estão eternamente situados em Kṛṣṇaloka. Há muitos nomes semelhantes na superfície da Terra, e pode ser que, na era do Javali, Svāyambhuva Manu tenha governado este planeta, como aqui se afirma. A palavra maṅgalaḥ é significativa. Maṅgala significa uma pessoa que é elevada sob todos os aspectos nas opulências de realizações religiosas, poder de governança, limpeza e todas as demais boas qualidades. Vikhyāta significa “célebre”. Svāyambhuva Manu foi célebre por todas as suas boas qualidades e opulências.
Devanagari
स चेह विप्र राजर्षिर्महिष्या शतरूपया ।
आयास्यति दिदृक्षुस्त्वां परश्वो धर्मकोविद: ॥ २६ ॥
आयास्यति दिदृक्षुस्त्वां परश्वो धर्मकोविद: ॥ २६ ॥
Verse text
sa ceha vipra rājarṣir
mahiṣyā śatarūpayā
āyāsyati didṛkṣus tvāṁ
paraśvo dharma-kovidaḥ
mahiṣyā śatarūpayā
āyāsyati didṛkṣus tvāṁ
paraśvo dharma-kovidaḥ
Synonyms
Translation
Depois de amanhã, ó brāhmaṇa, aquele célebre imperador, que é hábil em atividades religiosas, virá aqui com sua rainha, Śatarūpā, desejoso de ver-te.
Devanagari
आत्मजामसितापाङ्गीं वय:शीलगुणान्विताम् ।
मृगयन्तीं पतिं दास्यत्यनुरूपाय ते प्रभो ॥ २७ ॥
मृगयन्तीं पतिं दास्यत्यनुरूपाय ते प्रभो ॥ २७ ॥
Verse text
ātmajām asitāpāṅgīṁ
vayaḥ-śīla-guṇānvitām
mṛgayantīṁ patiṁ dāsyaty
anurūpāya te prabho
vayaḥ-śīla-guṇānvitām
mṛgayantīṁ patiṁ dāsyaty
anurūpāya te prabho
Synonyms
Translation
Ele tem uma filha adulta cujos olhos são negros. Ela está pronta para o casamento, tem bom caráter e todas as boas qualidades. Ela também está à procura de um bom esposo. Meu querido senhor, os pais dela virão conhecer-te, porque és precisamente adequado para ela, simplesmente a fim de dar-te a filha em casamento.
Purport
A escolha de um bom esposo para uma boa moça sempre era confiada aos pais. Aqui se declara nitidamente que Manu e sua esposa viriam ver Kardama Muni para oferecer-lhe sua filha, visto que a filha era bem qualificada e os pais estavam procurando um homem igualmente qualificado. Esse é o dever dos pais. As moças nunca são atiradas nas vias públicas para procurar seus esposos, pois, quando as moças são adultas e estão procurando um rapaz, elas se esquecem de considerar se o rapaz escolhido é realmente adequado para elas. Por causa do impulso do desejo sexual, uma moça poderá aceitar qualquer homem, mas, se o esposo for escolhido pelos pais, estes poderão considerar quem deve ser escolhido e quem não. Segundo o sistema védico, portanto, são os pais que dão a moça em casamento a um rapaz adequado; ela nunca tem permissão de escolher seu próprio esposo de forma independente.
Devanagari
समाहितं ते हृदयं यत्रेमान् परिवत्सरान् ।
सा त्वां ब्रह्मन्नृपवधू: काममाशु भजिष्यति ॥ २८ ॥
सा त्वां ब्रह्मन्नृपवधू: काममाशु भजिष्यति ॥ २८ ॥
Verse text
samāhitaṁ te hṛdayaṁ
yatremān parivatsarān
sā tvāṁ brahman nṛpa-vadhūḥ
kāmam āśu bhajiṣyati
yatremān parivatsarān
sā tvāṁ brahman nṛpa-vadhūḥ
kāmam āśu bhajiṣyati
Synonyms
Translation
Esta princesa, ó sábio divino, será justamente o tipo em que tens pensado dentro de teu coração por todos esses longos anos. Ela logo será tua e te servirá, deixando-te plenamente satisfeito.
Purport
Como o Senhor concede todas as bênçãos conforme o desejo do coração do devoto, Ele informou a Kardama Muni: “A moça que aí vem para casar-se contigo é uma princesa, a filha do imperador Svāyambhuva, e, de tal modo, é justamente adequada para teu propósito.” É somente pela graça de Deus que alguém pode obter a boa esposa que deseja. Da mesma forma, é somente pela graça de Deus que uma moça obtém o esposo adequado ao seu coração. Por isso se diz que, se orarmos ao Senhor Supremo em todas as circunstâncias de nossa existência material, tudo será bem feito e justamente adequado ao desejo de nosso coração. Em outras palavras, devemos refugiar-nos na Suprema Personalidade de Deus em todas as circunstâncias e depender inteiramente de Sua decisão. O homem propõe e Deus dispõe. A satisfação dos desejos, portanto, deve ser confiada à Suprema Personalidade de Deus: eis a melhor solução. Kardama Muni apenas desejou uma esposa, mas, como ele era devoto do Senhor, o Senhor escolheu para ele uma esposa que era filha do imperador, uma princesa. Assim, Kardama Muni obteve uma esposa além de suas expectativas. Se dependermos da escolha da Suprema Personalidade de Deus, receberemos bênçãos em maior opulência do que desejamos.
Aqui também se nota significativamente que Kardama Muni era um brāhmaṇa, ao passo que o imperador Svāyambhuva era um kṣatriya. Portanto, o casamento entre castas era comum mesmo naquela época. O sistema era que um brāhmaṇa podia desposar a filha de um kṣatriya, mas um kṣatriya não podia desposar a filha de um brāhmaṇa. A história da era védica dá-nos evidências de que Śukrācārya ofereceu sua filha a Mahārāja Yayāti, mas o rei teve que recusar a mão da filha do brāhmaṇa: somente com a permissão especial do brāhmaṇa é que eles puderam se casar. O casamento entre castas, portanto, não era proibido outrora, há muitos milhões de anos, mas havia um sistema regular de comportamento social.
Devanagari
या त आत्मभृतं वीर्यं नवधा प्रसविष्यति ।
वीर्ये त्वदीये ऋषय आधास्यन्त्यञ्जसात्मन: ॥ २९ ॥
वीर्ये त्वदीये ऋषय आधास्यन्त्यञ्जसात्मन: ॥ २९ ॥
Verse text
yā ta ātma-bhṛtaṁ vīryaṁ
navadhā prasaviṣyati
vīrye tvadīye ṛṣaya
ādhāsyanty añjasātmanaḥ
navadhā prasaviṣyati
vīrye tvadīye ṛṣaya
ādhāsyanty añjasātmanaḥ
Synonyms
Translation
Ela dará à luz nove filhas através da semente nela plantada por ti, e, através das filhas que gerares, os sábios procriarão filhos devidamente.
Devanagari
त्वं च सम्यगनुष्ठाय निदेशं म उशत्तम: ।
मयि तीर्थीकृताशेषक्रियार्थो मां प्रपत्स्यसे ॥ ३० ॥
मयि तीर्थीकृताशेषक्रियार्थो मां प्रपत्स्यसे ॥ ३० ॥
Verse text
tvaṁ ca samyag anuṣṭhāya
nideśaṁ ma uśattamaḥ
mayi tīrthī-kṛtāśeṣa-
kriyārtho māṁ prapatsyase
nideśaṁ ma uśattamaḥ
mayi tīrthī-kṛtāśeṣa-
kriyārtho māṁ prapatsyase
Synonyms
Translation
Após purificares teu coração, cumprindo adequadamente Minhas ordens, consagrando-Me os frutos de todos os teus atos, tu finalmente Me alcançarás.
Purport
As palavras tīrthī-kṛtāśeṣa-kriyārthaḥ aqui mencionadas são significativas. Tīrtha significa um lugar santificado onde se faz caridade. As pessoas costumavam ir a lugares de peregrinação e fazer caridade com grande munificência. Esse sistema ainda está em voga. Portanto, o Senhor diz: “Para santificar tuas atividades e os resultados de tuas ações, oferecerás tudo a Mim.” Isso também é confirmado na Bhagavad-gītā: “Tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que sacrificares – deverás dar o resultado de tudo isso unicamente a Mim.” Em outra passagem da Bhagavad-gītā, o Senhor disse: “Eu sou o desfrutador de todos os sacrifícios, de todas as penitências e de tudo que se faz para o bem-estar da humanidade ou da sociedade.” Todas as atividades, portanto, sejam elas para o bem-estar da família, da sociedade, do país ou da humanidade em geral, devem ser executadas em consciência de Kṛṣṇa. Essa é a instrução dada pelo Senhor a Kardama Muni. Mahārāja Yudhiṣṭhira deu as boas-vindas a Nārada Muni com estas palavras: “Onde quer que estejas presente, o lugar torna-se santo porque o próprio Senhor está sempre sentado em teu coração.” Do mesmo modo, se agimos em consciência de Kṛṣṇa, sob a orientação do Senhor e de Seu representante, tudo se torna santo. Essa é a indicação dada a Kardama Muni, que agiu baseado nela e por isso recebeu a esposa e o filho mais excelentes, como será revelado em versos posteriores.
Devanagari
कृत्वा दयां च जीवेषु दत्त्वा चाभयमात्मवान् ।
मय्यात्मानं सह जगद् द्रक्ष्यस्यात्मनि चापि माम् ॥ ३१ ॥
मय्यात्मानं सह जगद् द्रक्ष्यस्यात्मनि चापि माम् ॥ ३१ ॥
Verse text
kṛtvā dayāṁ ca jīveṣu
dattvā cābhayam ātmavān
mayy ātmānaṁ saha jagad
drakṣyasy ātmani cāpi mām
dattvā cābhayam ātmavān
mayy ātmānaṁ saha jagad
drakṣyasy ātmani cāpi mām
Synonyms
kṛtvā — tendo mostrado; dayām — compaixão; ca — e; jīveṣu — para com os seres vivos; dattvā — tendo dado; ca — e; abhayam — garantia de segurança; ātma-vān — autorrealizado; mayi — em Mim; ātmānam — tu próprio; saha jagat — juntamente com o universo; drakṣyasi — tu perceberás; ātmani — em ti mesmo; ca — e; api — também; mām — Me.
Translation
Mostrando compaixão para com todas as entidades vivas, alcançarás a autorrealização. Dando garantia de segurança a todos, perceberás teu próprio eu bem como todos os universos em Mim, e Eu em ti.
Purport
Aqui se descreve o simples processo de autorrealização para todas as entidades vivas. O primeiro princípio a ser compreendido é que este mundo é um produto da vontade suprema. Há uma identidade deste mundo com o Senhor Supremo. Tal identidade os impersonalistas aceitam de maneira errônea. Eles dizem que a Suprema Verdade Absoluta, transformando-Se no universo, perde Sua existência separada. Assim, eles aceitam o mundo e tudo que nele existe como sendo o Senhor. Isso é panteísmo, em que se considera tudo como sendo o Senhor. Essa é a visão do impersonalista. Mas aqueles que são devotos pessoais do Senhor veem tudo como propriedade do Senhor Supremo. Tudo, qualquer coisa que vejamos, é manifestação do Senhor Supremo, de maneira que tudo deve ser ocupado no serviço ao Senhor. Isso é unidade. A diferença entre o impersonalista e o personalista é que o impersonalista não aceita a existência separada do Senhor, mas o personalista aceita o Senhor, entendendo que, embora o Senhor Se distribua de tantas maneiras, Ele tem Sua existência pessoal separada. Isto é descrito na Bhagavad-gītā: “Eu estou espalhado por todo o universo em Minha forma impessoal. Tudo repousa em Mim, mas Eu não estou presente.” Há um ótimo exemplo a respeito do Sol e do brilho do Sol. O Sol, através de seu brilho, espalha-se por todo o universo, e todos os planetas repousam no brilho do Sol. Contudo, todos os planetas são diferentes do planeta Sol; ninguém pode dizer que, por repousarem no brilho do Sol, esses planetas também são o Sol. Analogamente, o ponto de vista impessoal, ou panteísta, de que tudo é Deus, não é uma proposta muito inteligente. A posição verdadeira, como o próprio Senhor a explica, é que, embora nada possa existir sem Ele, não é um fato que tudo seja Ele. Ele é diferente de tudo. Assim, aqui o Senhor também diz: “Tu verás que nada no mundo é diferente de Mim.” Isso significa que tudo deve ser considerado um produto da energia do Senhor e, por isso, tudo deve ser empregado a serviço do Senhor. Nossa energia deve ser utilizada para o nosso próprio interesse. Essa é a perfeição da energia.
Essa energia poderá ser utilizada para o nosso verdadeiro interesse se formos compassivos. Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa, devota do Senhor, é sempre compassiva. Ela não se contenta de ser devota sozinha, senão que tenta distribuir o conhecimento do serviço devocional para todos. Muitos devotos do Senhor enfrentaram muitos riscos na difusão do serviço devocional ao Senhor entre as pessoas em geral. É preciso fazer isso.
Também se diz que uma pessoa que vai ao templo do Senhor e O adora com muita devoção, mas que não demonstra simpatia pelas pessoas em geral nem respeita os outros devotos, é considerada um devoto de terceira classe. O devoto de segunda classe é aquele que é misericordioso e compassivo com as almas caídas. O devoto de segunda classe é sempre consciente de sua posição como servo eterno do Senhor; portanto, ele faz amizade com os devotos do Senhor, age compassivamente com o público em geral, ensinando-lhes o serviço devocional, e nega-se a cooperar ou associar-se com não-devotos. Enquanto uma pessoa não seja compassiva com as pessoas em geral em seu serviço devocional ao Senhor, ela é um devoto de terceira classe. O devoto de primeira classe garante a todos os seres vivos que não há por que temer esta existência material: “Vivamos em consciência de Kṛṣṇa e conquistemos a ignorância da existência material.”
Aqui se indica que o Senhor orientou Kardama Muni a que fosse muito compassivo e liberal em sua vida familiar e desse segurança às pessoas em sua vida renunciada. O sannyāsī, aquele que está na ordem de vida renunciada, destina-se a proporcionar a iluminação às pessoas. Ele deve viajar, indo de lar em lar para iluminar as pessoas. O chefe de família, pelo feitiço de māyā, absorve-se em afazeres familiares e se esquece de sua relação com Kṛṣṇa. Se ele morre no esquecimento, como os cães e os gatos, então arruína sua vida. É dever do sannyāsī, portanto, sair a acordar as almas esquecidas, esclarecendo-as sobre sua relação eterna com o Senhor e ocupando-as em serviço devocional. O devoto deve mostrar misericórdia para com as almas caídas e também lhes dar a garantia do destemor. Assim que alguém se torna devoto do Senhor, fica convencido de que o Senhor o protege. Se o próprio medo teme o Senhor, o que o devoto tem a ver com o temor?
Conceder destemor ao homem comum é o maior ato de caridade. O sannyāsī, ou aquele que está na ordem de vida renunciada, deve perambular de porta em porta, de vila em vila, de cidade em cidade e de país em país, por todo o mundo, na medida em que seja capaz de viajar e esclarecer os chefes de família sobre a consciência de Kṛṣṇa. Quem é chefe de família, mas é iniciado por um sannyāsī, tem o dever de propagar a consciência de Kṛṣṇa em casa; na medida do possível, ele deve convidar seus amigos e vizinhos a sua casa e dar aulas sobre a consciência de Kṛṣṇa. Dar aula significa cantar o santo nome de Kṛṣṇa e falar com base na Bhagavad-gītā ou no Śrīmad-Bhāgavatam. Há uma imensidão de literaturas próprias para espalhar a consciência de Kṛṣṇa, e é dever de todo chefe de família aprender sobre Kṛṣṇa com seu mestre espiritual sannyāsī. Há uma divisão de trabalho no serviço ao Senhor. O dever do chefe de família é ganhar dinheiro porque o sannyāsī não se destina a ganhar dinheiro, senão que é inteiramente dependente do chefe de família. O chefe de família deve ganhar dinheiro fazendo negócios ou através de sua profissão e gastar pelo menos cinquenta por cento de sua renda na difusão da consciência de Kṛṣṇa; vinte e cinco por cento ele pode gastar com sua família, e vinte e cinco por cento deve poupar para enfrentar emergências. Esse exemplo foi dado por Rūpa Gosvāmī, de modo que os devotos devem segui-lo.
Na realidade, ser uno com o Senhor Supremo significa ser uno com o interesse do Senhor. Tornar-se uno com o Senhor Supremo não implica em tornar-se tão grande como o Senhor Supremo. Isso é impossível. A parte nunca é igual ao todo. A entidade viva será sempre uma parte diminuta. Portanto, sua unidade com o Senhor consiste em seu interesse pelo interesse do Senhor. O Senhor quer que toda entidade viva pense sempre nEle, seja Seu devoto e sempre O adore. Afirma-se isto claramente na Bhagavad-gītā: man-manā bhava mad-bhaktaḥ. Kṛṣṇa quer que todos pensem sempre nEle. Essa é a vontade do Senhor Supremo, e os devotos devem tentar satisfazer Seu desejo. Uma vez que o Senhor é ilimitado, Seu desejo também é ilimitado. Não há interrupção, daí o serviço do devoto também ser ilimitado. No mundo transcendental, há competição ilimitada entre o Senhor e o servo. O Senhor deseja satisfazer Seus desejos ilimitadamente, e o devoto também O serve a fim de satisfazer Seus ilimitados desejos. Há uma ilimitada unidade de interesse entre o Senhor e Seu devoto.
Devanagari
सहाहं स्वांशकलया त्वद्वीर्येण महामुने ।
तव क्षेत्रे देवहूत्यां प्रणेष्ये तत्त्वसंहिताम् ॥ ३२ ॥
तव क्षेत्रे देवहूत्यां प्रणेष्ये तत्त्वसंहिताम् ॥ ३२ ॥
Verse text
sahāhaṁ svāṁśa-kalayā
tvad-vīryeṇa mahā-mune
tava kṣetre devahūtyāṁ
praṇeṣye tattva-saṁhitām
tvad-vīryeṇa mahā-mune
tava kṣetre devahūtyāṁ
praṇeṣye tattva-saṁhitām
Synonyms
Translation
Ó grande sábio, manifestarei Minha própria porção plenária através de tua esposa, Devahūti, juntamente com tuas nove filhas, e a ensinarei o sistema de filosofia que trata dos princípios, ou categorias, fundamentais.
Purport
Nesta passagem, a expressão svāṁśa-kalayā indica que o Senhor apareceria como o filho de Devahūti e Kardama Muni, como Kapiladeva, o primeiro expositor da filosofia Sāṅkhya, que aqui é mencionada como tattva-saṁhitā. O Senhor predisse a Kardama Muni que Ele apareceria sob Sua encarnação como Kapiladeva e propagaria a filosofia Sāṅkhya. A filosofia Sāṅkhya é muito famosa no mundo, porém propagada por outro Kapiladeva, mas essa filosofia Sāṅkhya é diferente do Sāṅkhya que foi exposto pelo próprio Senhor. Há dois tipos de filosofia Sāṅkhya: uma é a filosofia Sāṅkhya ateísta, e a outra é a filosofia Sāṅkhya teísta. O Sāṅkhya propagado por Kapiladeva, filho de Devahūti, é filosofia teísta.
Existem diferentes manifestações do Senhor. Ele é apenas um, mas transforma-Se em muitos. Ele Se divide em duas expansões diferentes, uma chamada kalā, e a outra, vibhinnāṁśa. As entidades vivas comuns chamam-se expansões vibhinnāṁśa, e as ilimitadas expansões de viṣṇu-tattva, tais como Vāmana, Govinda, Nārāyaṇa, Pradyumna, Vāsudeva e Ananta, chamam-se svāṁśa-kalā. Svāṁśa refere-se a uma expansão direta, e kalā denota uma expansão da expansão do Senhor original. Baladeva é uma expansão de Kṛṣṇa, e a expansão seguinte à de Baladeva é Saṅkarṣaṇa; assim, Saṅkarṣaṇa é kalā, mas Baladeva é svāṁśa. Não há, entretanto, diferença entre Eles. Isto é muito bem explicado na Brahma-saṁhitā (5.46): dīpārcir eva hi daśāntaram abhyupetya. Com uma vela, pode-se acender uma segunda vela; com a segunda, uma terceira e, depois, uma quarta, e pode-se acender milhares de velas dessa maneira, sendo que nenhuma vela é inferior à outra quanto à distribuição de luz. Todas as velas têm pleno potencial iluminador, mas, mesmo assim, distingue-se a vela que é a primeira, que é a segunda, que é a terceira e que é a quarta. Analogamente, não há diferença entre a expansão imediata do Senhor e Sua expansão secundária. Os nomes do Senhor são considerados exatamente da mesma maneira: como o Senhor é absoluto, Seu nome, Sua forma, Seus passatempos, Sua parafernália e Sua qualidade têm todos a mesma potência. No mundo absoluto, o nome Kṛṣṇa é a representação sonora transcendental do Senhor. Não há diferença potencial entre Sua qualidade, nome, forma etc. Se cantamos o nome do Senhor, Hare Kṛṣṇa, isso tem tanta potência quanto o próprio Senhor. Não há diferença potencial entre a forma do Senhor a quem adoramos e a forma do Senhor no templo. Não se deve pensar que alguém está adorando um boneco ou estátua do Senhor, mesmo que outros a considerem uma estátua. Por não haver diferença de potencial, obtém-se o mesmo resultado adorando a estátua do Senhor ou o próprio Senhor. Essa é a ciência da consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
मैत्रेय उवाच
एवं तमनुभाष्याथ भगवान् प्रत्यगक्षज: ।
जगाम बिन्दुसरस: सरस्वत्या परिश्रितात् ॥ ३३ ॥
एवं तमनुभाष्याथ भगवान् प्रत्यगक्षज: ।
जगाम बिन्दुसरस: सरस्वत्या परिश्रितात् ॥ ३३ ॥
Verse text
maitreya uvāca
evaṁ tam anubhāṣyātha
bhagavān pratyag-akṣajaḥ
jagāma bindusarasaḥ
sarasvatyā pariśritāt
evaṁ tam anubhāṣyātha
bhagavān pratyag-akṣajaḥ
jagāma bindusarasaḥ
sarasvatyā pariśritāt
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — o grande sábio Maitreya disse; evam — assim; tam — a ele; anubhāṣya — tendo falado; atha — então; bhagavān — o Senhor; pratyak — diretamente; akṣa — pelos sentidos; jaḥ — que é percebido; jagāma — partiu; bindu-sarasaḥ — do lago Bindu-sarovara; sarasvatyā — pelo rio Sarasvatī; pariśritāt — rodeado.
Translation
Maitreya continuou: Tendo assim falado com Kardama Muni, o Senhor, que Se revela somente quando os sentidos estão em consciência de Kṛṣṇa, partiu daquele lago chamado Bindu-sarovara, que era rodeado pelo rio Sarasvatī.
Purport
Neste verso, há uma palavra muito significativa. Aqui se afirma que o Senhor é pratyag-akṣaja. Ele é imperceptível aos sentidos materiais, mas, mesmo assim, pode ser visto. Isso parece contraditório. Se nós temos sentidos materiais, como podemos ver o Senhor Supremo? Ele é chamado de adhokṣaja, que significa que não se pode vê-lO com os sentidos materiais. Akṣaja significa “conhecimento percebido pelos sentidos materiais”. Como o Senhor não é um objeto que possa ser percebido pela especulação com nossos sentidos materiais, Ele também é chamado de ajita: Ele pode conquistar, mas ninguém pode conquistá-lO. O que significa, então, dizer que, ainda assim, pode-se vê-lO? Explica-se que ninguém pode ouvir o nome transcendental de Kṛṣṇa, ninguém pode entender Sua forma transcendental e ninguém pode assimilar Seus passatempos transcendentais. Isso não é possível. Como, então, é possível que Ele possa ser visto e compreendido? Quando uma pessoa é treinada em serviço devocional e presta-Lhe serviço, gradualmente os seus sentidos purificam-se da contaminação material. Com os sentidos de tal modo purificados, ela pode ver, pode entender, pode ouvir e assim por diante. A purificação dos sentidos materiais e a percepção da forma, nome e qualidade transcendentais de Kṛṣṇa combinam-se numa palavra, pratyag-akṣaja, que é usada aqui.
Devanagari
निरीक्षतस्तस्य ययावशेष-
सिद्धेश्वराभिष्टुतसिद्धमार्ग: ।
आकर्णयन् पत्ररथेन्द्रपक्षै-
रुच्चारितं स्तोममुदीर्णसाम ॥ ३४ ॥
सिद्धेश्वराभिष्टुतसिद्धमार्ग: ।
आकर्णयन् पत्ररथेन्द्रपक्षै-
रुच्चारितं स्तोममुदीर्णसाम ॥ ३४ ॥
Verse text
nirīkṣatas tasya yayāv aśeṣa-
siddheśvarābhiṣṭuta-siddha-mārgaḥ
ākarṇayan patra-rathendra-pakṣair
uccāritaṁ stomam udīrṇa-sāma
siddheśvarābhiṣṭuta-siddha-mārgaḥ
ākarṇayan patra-rathendra-pakṣair
uccāritaṁ stomam udīrṇa-sāma
Synonyms
nirīkṣataḥ tasya — enquanto ele observava; yayau — Ele partiu; aśeṣa — todas; siddha-īśvara — por almas liberadas; abhiṣṭuta — é louvado; siddha-mārgaḥ — o caminho para o mundo espiritual; ākarṇayan — escutando; patra-ratha-indra — de Garuḍa (rei dos pássaros); pakṣaiḥ — pelas asas; uccāritam — vibrados; stomam — hinos; udīrṇa-sāma — formando o Sāma Veda.
Translation
Enquanto o sábio permanecia observando, o Senhor partiu pelo caminho que leva a Vaikuṇṭha, um caminho enaltecido por todas as grandes almas liberadas. O sábio permaneceu escutando enquanto o ruflar de asas de Garuḍa, o carregador do Senhor, vibrava os hinos que formam a base do Sāma Veda.
Purport
Na literatura védica, afirma-se que as duas asas do transcendental pássaro Garuḍa, que carrega o Senhor por toda parte, são as duas divisões do Sāma Veda conhecidas como bṛhat e rathāntara. Garuḍa atua como o transportador do Senhor e, por isso, é considerado o príncipe transcendental de todos os carregadores. Com suas duas asas, Garuḍa começou a vibrar o Sāma Veda, que é cantado por grandes sábios para apaziguar o Senhor. O Senhor é adorado por Brahmā, pelo senhor Śiva, por Garuḍa e outros semideuses com poemas seletos, e grandes sábios O adoram com os hinos de textos védicos, tais como as Upaniṣads e o Sāma Veda. Essas entoações do Sāma Veda são automaticamente ouvidas pelo devoto quando outro grande devoto do Senhor, Garuḍa, bate suas asas.
Aqui se declara nitidamente que o sábio Kardama colocou-se a olhar para o caminho pelo qual o Senhor estava sendo carregado até Vaikuṇṭha. Desse modo, confirma-se que o Senhor desce de Sua morada, Vaikuṇṭha, no céu espiritual e é transportado por Garuḍa. O caminho que leva até Vaikuṇṭha não é adorado pela classe comum de transcendentalistas. Somente aqueles que já estão liberados do cativeiro material podem tornar-se devotos do Senhor. Os que não estão liberados do cativeiro material não podem entender o serviço devocional transcendental. Na Bhagavad-gītā, afirma-se claramente que yatatām api siddhānām. Há muitas pessoas que estão tentando atingir a perfeição, esforçando-se por libertar-se do cativeiro material, e aqueles que são realmente liberados chamam-se brahma-bhūta, ou siddha. Somente os siddhas, ou seja, as pessoas liberadas do cativeiro material, podem tornar-se devotos. Na Bhagavad-gītā, também se confirma isto: qualquer pessoa ocupada em consciência de Kṛṣṇa, ou serviço devocional, já está liberta da influência dos modos da natureza material. Aqui também se confirma que o caminho do serviço devocional é adorado por pessoas liberadas, e não pelas almas condicionadas. A alma condicionada não pode entender o serviço devocional ao Senhor. Kardama Muni foi uma alma liberada que viu o Senhor Supremo em pessoa, face a face. Não havia dúvidas de que ele era liberado, e assim ele pôde ver Garuḍa transportando o Senhor a caminho de Vaikuṇṭha e pôde escutar o ruflar de suas asas vibrando o som de Hare Kṛṣṇa, a essência do Sāma Veda.
Devanagari
अथ सम्प्रस्थिते शुक्ले कर्दमो भगवानृषि: ।
आस्ते स्म बिन्दुसरसि तं कालं प्रतिपालयन् ॥ ३५ ॥
आस्ते स्म बिन्दुसरसि तं कालं प्रतिपालयन् ॥ ३५ ॥
Verse text
atha samprasthite śukle
kardamo bhagavān ṛṣiḥ
āste sma bindusarasi
taṁ kālaṁ pratipālayan
kardamo bhagavān ṛṣiḥ
āste sma bindusarasi
taṁ kālaṁ pratipālayan
Synonyms
Translation
Então, após a partida do Senhor, o adorável sábio Kardama permaneceu às margens do Bindu-sarovara, esperando o momento do qual o Senhor havia falado.
Devanagari
मनु: स्यन्दनमास्थाय शातकौम्भपरिच्छदम् ।
आरोप्य स्वां दुहितरं सभार्य: पर्यटन्महीम् ॥ ३६ ॥
आरोप्य स्वां दुहितरं सभार्य: पर्यटन्महीम् ॥ ३६ ॥
Verse text
manuḥ syandanam āsthāya
śātakaumbha-paricchadam
āropya svāṁ duhitaraṁ
sa-bhāryaḥ paryaṭan mahīm
śātakaumbha-paricchadam
āropya svāṁ duhitaraṁ
sa-bhāryaḥ paryaṭan mahīm
Synonyms
Translation
Svāyambhuva Manu, com sua esposa, montou em sua quadriga, que era decorada com ornamentos dourados. Colocando sua filha juntamente com eles na quadriga, ele começou a viajar por toda a Terra.
Purport
O imperador Manu, como o grande governante do mundo, poderia ter ocupado um agente para encontrar um esposo adequado para sua filha. Contudo, porque ele a amava como só um pai pode fazer, ele próprio deixou seu estado numa quadriga dourada, somente com sua esposa, para encontrar um esposo adequado para sua filha.
Devanagari
तस्मिन् सुधन्वन्नहनि भगवान् यत्समादिशत् ।
उपायादाश्रमपदं मुने: शान्तव्रतस्य तत् ॥ ३७ ॥
उपायादाश्रमपदं मुने: शान्तव्रतस्य तत् ॥ ३७ ॥
Verse text
tasmin sudhanvann ahani
bhagavān yat samādiśat
upāyād āśrama-padaṁ
muneḥ śānta-vratasya tat
bhagavān yat samādiśat
upāyād āśrama-padaṁ
muneḥ śānta-vratasya tat
Synonyms
Translation
Ó Vidura, então eles chegaram ao eremitério do sábio, que acabara de cumprir seus votos de austeridade, no mesmo dia predito pelo Senhor.
Devanagari
यस्मिन् भगवतो नेत्रान्न्यपतन्नश्रुबिन्दव: ।
कृपया सम्परीतस्य प्रपन्नेऽर्पितया भृशम् ॥ ३८ ॥
तद्वै बिन्दुसरो नाम सरस्वत्या परिप्लुतम् ।
पुण्यं शिवामृतजलं महर्षिगणसेवितम् ॥ ३९ ॥
कृपया सम्परीतस्य प्रपन्नेऽर्पितया भृशम् ॥ ३८ ॥
तद्वै बिन्दुसरो नाम सरस्वत्या परिप्लुतम् ।
पुण्यं शिवामृतजलं महर्षिगणसेवितम् ॥ ३९ ॥
Verse text
yasmin bhagavato netrān
nyapatann aśru-bindavaḥ
kṛpayā samparītasya
prapanne ’rpitayā bhṛśam
nyapatann aśru-bindavaḥ
kṛpayā samparītasya
prapanne ’rpitayā bhṛśam
tad vai bindusaro nāma
sarasvatyā pariplutam
puṇyaṁ śivāmṛta-jalaṁ
maharṣi-gaṇa-sevitam
sarasvatyā pariplutam
puṇyaṁ śivāmṛta-jalaṁ
maharṣi-gaṇa-sevitam
Synonyms
yasmin — no qual; bhagavataḥ — do Senhor; netrāt — do olho; nyapatan — caíram; aśru-bindavaḥ — gotas de lágrimas; kṛpayā — por compaixão; samparītasya — que estava dominado; prapanne — pela alma rendida (Kardama); arpitayā — depositada em; bhṛśam — extremamente; tat — isto; vai — na verdade; bindu-saraḥ — lago de lágrimas; nāma — chamado; sarasvatyā — pelo rio Sarasvatī; pariplutam — inundado; puṇyam — santa; śiva — auspiciosa; amṛta — néctar; jalam — água; mahā-ṛṣi — de grandes sábios; gaṇa — por hostes; sevitam — servido.
Translation
O lago sagrado Bindu-sarovara, inundado pelas águas do rio Sarasvatī, era frequentado por hostes de sábios eminentes. Sua água santa não era somente auspiciosa, mas também doce como néctar. Chamava-se Bindu-sarovara porque ali haviam caído gotas de lágrimas dos olhos do Senhor, que estava dominado por extrema compaixão pelo sábio que buscara Sua proteção.
Purport
Kardama submeteu-se a austeridades para conquistar a misericórdia imotivada do Senhor, e, ao chegar ali, o Senhor encheu-Se de tamanha compaixão que verteu lágrimas de prazer, que se converteram no Bindu-sarovara. Por isso, o Bindu-sarovara é adorado por grandes sábios e estudiosos eruditos porque, segundo a filosofia da Verdade Absoluta, o Senhor não é diferente das lágrimas de Seus olhos. Assim como as gotas de transpiração que caíram do dedão dos pés de lótus do Senhor converteram-se no sagrado Ganges, da mesma forma, as gotas de lágrimas dos olhos transcendentais do Senhor converteram-se no Bindu-sarovara. Ambos são entidades transcendentais que são adoradas por grandes sábios e eruditos. Aqui se descreve a água do Bindu-sarovara como śivāmṛta jala. Śiva significa “que cura”. Qualquer pessoa que beba a água do Bindu-sarovara cura-se de todas as doenças materiais; analogamente, qualquer pessoa que se banhe no Ganges alivia-se também de todas as doenças materiais. Essas afirmações são aceitas por grandes eruditos e autoridades e ainda estão em vigor mesmo nesta caída era de Kali.
Devanagari
पुण्यद्रुमलताजालै: कूजत्पुण्यमृगद्विजै: ।
सर्वर्तुफलपुष्पाढ्यं वनराजिश्रियान्वितम् ॥ ४० ॥
सर्वर्तुफलपुष्पाढ्यं वनराजिश्रियान्वितम् ॥ ४० ॥
Verse text
puṇya-druma-latā-jālaiḥ
kūjat-puṇya-mṛga-dvijaiḥ
sarvartu-phala-puṣpāḍhyaṁ
vana-rāji-śriyānvitam
kūjat-puṇya-mṛga-dvijaiḥ
sarvartu-phala-puṣpāḍhyaṁ
vana-rāji-śriyānvitam
Synonyms
puṇya — piedosas; druma — de árvores; latā — de trepadeiras; jālaiḥ — com grupos; kūjat — entoando cantos; puṇya — piedosos; mṛga — animais; dvijaiḥ — com pássaros; sarva — em todas; ṛtu — estações; phala — em frutos; puṣpa — em flores; āḍhyam — ricas; vana-rāji — de bosques de árvores; śriyā — pela beleza; anvitam — adornada.
Translation
A margem do lago estava rodeada por grupos de árvores e trepadeiras piedosas, ricas em frutos e flores de todas as estações, que davam abrigo a animais e pássaros piedosos, os quais entoavam diversos cantos. Estava adornada pela beleza de bosques de árvores silvestres.
Purport
Aqui se afirma que o Bindu-sarovara era rodeado por árvores e pássaros piedosos. Assim como há diferentes classes de homens na sociedade humana, alguns piedosos e virtuosos, e outros ímpios e pecaminosos, da mesma forma, entre as árvores e os pássaros há os piedosos e os ímpios. As árvores que não dão bons frutos ou flores são consideradas ímpias, e os pássaros que são muito sórdidos, como os corvos, são considerados ímpios. Na região que circunda o Bindu-sarovara, não havia sequer um pássaro ou árvore impiedosos. Todas as árvores davam frutos e flores, e todos os pássaros cantavam as glórias do Senhor – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.
Devanagari
मत्तद्विजगणैर्घुष्टं मत्तभ्रमरविभ्रमम् ।
मत्तबर्हिनटाटोपमाह्वयन्मत्तकोकिलम् ॥ ४१ ॥
मत्तबर्हिनटाटोपमाह्वयन्मत्तकोकिलम् ॥ ४१ ॥
Verse text
matta-dvija-gaṇair ghuṣṭaṁ
matta-bhramara-vibhramam
matta-barhi-naṭāṭopam
āhvayan-matta-kokilam
matta-bhramara-vibhramam
matta-barhi-naṭāṭopam
āhvayan-matta-kokilam
Synonyms
matta — cheios de alegria; dvija — de pássaros; gaṇaiḥ — por bandos; ghuṣṭaṁ — ressoava; matta — embriagadas; bhramara — de abelhas; vibhramam — vagando; matta — enlouquecidos; barhi — de pavões; naṭa — de dançarinos; āṭopam — orgulho; āhvayat — chamando-se uns aos outros; matta — alegres; kokilam — cucos.
Translation
A área ressoava com as notas musicais de pássaros cheios de alegria. Abelhas embriagadas vagavam por ali, pavões enlouquecidos dançavam orgulhosamente, e alegres cucos chamavam-se uns aos outros.
Purport
Descreve-se aqui a beleza dos agradáveis sons ouvidos na área adjacente ao lago Bindu-sarovara. Após beber mel, as abelhas negras enlouqueciam, e zumbiam embriagadas. Alegres pavões dançavam tal qual atores e atrizes, e cucos jubilosos chamavam seus pares com muito encanto.
Devanagari
कदम्बचम्पकाशोककरञ्जबकुलासनै: ।
कुन्दमन्दारकुटजैश्चूतपोतैरलङ्कृतम् ॥ ४२ ॥
कारण्डवै: प्लवैर्हंसै: कुररैर्जलकुक्कुटै: ।
सारसैश्चक्रवाकैश्च चकोरैर्वल्गु कूजितम् ॥ ४३ ॥
कुन्दमन्दारकुटजैश्चूतपोतैरलङ्कृतम् ॥ ४२ ॥
कारण्डवै: प्लवैर्हंसै: कुररैर्जलकुक्कुटै: ।
सारसैश्चक्रवाकैश्च चकोरैर्वल्गु कूजितम् ॥ ४३ ॥
Verse text
kadamba-campakāśoka-
karañja-bakulāsanaiḥ
kunda-mandāra-kuṭajaiś
cūta-potair alaṅkṛtam
karañja-bakulāsanaiḥ
kunda-mandāra-kuṭajaiś
cūta-potair alaṅkṛtam
kāraṇḍavaiḥ plavair haṁsaiḥ
kurarair jala-kukkuṭaiḥ
sārasaiś cakravākaiś ca
cakorair valgu kūjitam
kurarair jala-kukkuṭaiḥ
sārasaiś cakravākaiś ca
cakorair valgu kūjitam
Synonyms
kadamba — flores kadamba; campaka — flores campaka; aśoka — flores aśoka; karañja — flores karañja; bakula — flores bakula; āsanaiḥ — por árvores āsana; kunda — kunda; mandāra — mandāra; kuṭajaiḥ — e por árvores kuṭaja; cūta potaiḥ — por mangueiras jovens; alaṅkṛtam — adornado; kāraṇḍavaiḥ — por patos kāraṇḍava; plavaiḥ — por plavas; haṁsaiḥ — por cisnes; kuraraiḥ — por águias-marinhas; jala-kukkuṭaiḥ — por gansos; sārasaiḥ — por grous; cakravākaiḥ — por pássaros cakravāka; ca — e; cakoraiḥ — por pássaros cakora; valgu — agradáveis; kūjitam — vibração dos sons dos pássaros.
Translation
O lago Bindu-sarovara adornava-se de árvores floridas, tais como kadamba, campaka, aśoka, karañja, bakula, āsana, kunda, mandāra, kuṭaja e mangueiras jovens. O ar estava repleto das agradáveis notas musicais de patos kāraṇḍava, chapins-azuis, cisnes, águias-marinhas, gansos, grous, cakravākas e cakoras.
Purport
Não podemos encontrar sinônimos em português para a maioria das árvores, flores, frutos e pássaros aqui mencionados que circundavam o lago Bindu-sarovara. Todas as árvores mencionadas são muito piedosas pelo fato de produzirem ótimas flores aromáticas, tais como as flores campaka, kadamba e bakula. Os doces sons das aves aquáticas e dos grous faziam a área adjacente a mais agradável possível e criavam uma adequadíssima atmosfera espiritual.
Devanagari
तथैव हरिणै: क्रोडै: श्वाविद्गवयकुञ्जरै: ।
गोपुच्छैर्हरिभिर्मर्कैर्नकुलैर्नाभिभिर्वृतम् ॥ ४४ ॥
गोपुच्छैर्हरिभिर्मर्कैर्नकुलैर्नाभिभिर्वृतम् ॥ ४४ ॥
Verse text
tathaiva hariṇaiḥ kroḍaiḥ
śvāvid-gavaya-kuñjaraiḥ
gopucchair haribhir markair
nakulair nābhibhir vṛtam
śvāvid-gavaya-kuñjaraiḥ
gopucchair haribhir markair
nakulair nābhibhir vṛtam
Synonyms
tathā eva — também; hariṇaiḥ — por veados; kroḍaiḥ — por javalis; śvāvit — porcos-espinhos; gavaya — animal selvagem bastante parecido com a vaca; kuñjaraiḥ — por elefantes; gopucchaiḥ — por babuínos; haribhiḥ — por leões; markaiḥ — por macacos; nakulaiḥ — por mangustos; nābhibhiḥ — por almiscareiros; vṛtam — rodeadas.
Translation
Suas margens abundavam em veados, javalis, porcos-espinhos, gavayas, elefantes, babuínos, leões, macacos, mangustos e almiscareiros.
Purport
Os almiscareiros não são encontrados em todas as florestas, mas somente em lugares como o Bindu-sarovara. Eles andam sempre embriagados com o aroma de almíscar segregado de seus umbigos. As gavayas, a espécie de vaca aqui mencionada, têm um tufo de pelo no fim de suas caudas. Esse tufo de pelo é usado na adoração dos templos para abanar as Deidades. As gavayas às vezes são chamadas de camarīs, sendo consideradas muito sagradas. Na Índia, ainda há ciganos ou mercadores de florestas que prosperam comercializando kastūrī, ou almíscar, e os tufos de pelo das camarīs. Esses artigos são sempre muito procurados pelas classes superiores da população hindu, e esse tipo de negócio ainda continua nas grandes cidades e vilas da Índia.
Devanagari
प्रविश्य तत्तीर्थवरमादिराज: सहात्मज: ।
ददर्श मुनिमासीनं तस्मिन् हुतहुताशनम् ॥ ४५ ॥
विद्योतमानं वपुषा तपस्युग्रयुजा चिरम् ।
नातिक्षामं भगवत: स्निग्धापाङ्गावलोकनात् ।
त द्वयहृतामृतकलापीयूषश्रवणेन च ॥ ४६ ॥
प्रांशुं पद्मपलाशाक्षं जटिलं चीरवाससम् ।
उपसंश्रित्य मलिनं यथार्हणमसंस्कृतम् ॥ ४७ ॥
ददर्श मुनिमासीनं तस्मिन् हुतहुताशनम् ॥ ४५ ॥
विद्योतमानं वपुषा तपस्युग्रयुजा चिरम् ।
नातिक्षामं भगवत: स्निग्धापाङ्गावलोकनात् ।
त द्वयहृतामृतकलापीयूषश्रवणेन च ॥ ४६ ॥
प्रांशुं पद्मपलाशाक्षं जटिलं चीरवाससम् ।
उपसंश्रित्य मलिनं यथार्हणमसंस्कृतम् ॥ ४७ ॥
Verse text
praviśya tat tīrtha-varam
ādi-rājaḥ sahātmajaḥ
dadarśa munim āsīnaṁ
tasmin huta-hutāśanam
ādi-rājaḥ sahātmajaḥ
dadarśa munim āsīnaṁ
tasmin huta-hutāśanam
vidyotamānaṁ vapuṣā
tapasy ugra-yujā ciram
nātikṣāmaṁ bhagavataḥ
snigdhāpāṅgāvalokanāt
tapasy ugra-yujā ciram
nātikṣāmaṁ bhagavataḥ
snigdhāpāṅgāvalokanāt
tad-vyāhṛtāmṛta-kalā-
pīyūṣa-śravaṇena ca
prāṁśuṁ padma-palāśākṣaṁ
jaṭilaṁ cīra-vāsasam
upasaṁśritya malinaṁ
yathārhaṇam asaṁskṛtam
pīyūṣa-śravaṇena ca
prāṁśuṁ padma-palāśākṣaṁ
jaṭilaṁ cīra-vāsasam
upasaṁśritya malinaṁ
yathārhaṇam asaṁskṛtam
Synonyms
praviśya — entrando; tat — aquele; tīrtha-varam — melhor dos lugares sagrados; ādi-rājaḥ — o primeiro monarca (Svāyambhuva Manu); saha-ātmajaḥ — juntamente com sua filha; dadarśa — viu; munim — o sábio; āsīnam — sentado; tasmin — no eremitério; huta — tendo oferecido oblações; huta-aśanam — o fogo sagrado; vidyotamānam — reluzindo com muito brilho; vapuṣā — por seu corpo; tapasi — em penitência; ugra — terrivelmente; yujā — ocupado em yoga; ciram — por um longo tempo; na — não; atikṣāmam — muito emaciado; bhagavataḥ — do Senhor; snigdha — afetuoso; apāṅga — penetrante; avalokanāt — do olhar; tat — dEle; vyāhṛta — das palavras; amṛta-kalā — semelhante à lua; pīyūṣa — o néctar; śravaṇena — ouvindo; ca — e; prāṁśum — alto; padma — flor de lótus; palāśa — pétala; akṣam — olhos; jaṭilam — coques; cīra-vāsasam — vestia roupas esfarrapadas; upasaṁśritya — tendo-se aproximado; malinam — sujo; yathā — como; arhaṇam — pedra preciosa; asaṁskṛtam — não polida.
Translation
Entrando naquele sacratíssimo local com sua filha e aproximando-se do sábio, Svāyambhuva Manu, o primeiro monarca, viu sentado no eremitério o sábio, que acabava de satisfazer o fogo sagrado, alimentando-o com oblações. Seu corpo reluzia com muito brilho. Embora tivesse se ocupado em austera e longa penitência, ele não estava emaciado, pois o Senhor havia lançado sobre ele o Seu afetuoso e penetrante olhar e ele também tinha ouvido fluir o néctar das palavras do Senhor, as quais são refrescantes como a Lua. O sábio era alto, seus olhos largos como pétalas de lótus, e tinha um coque em sua cabeça. Vestia roupas esfarrapadas. Svāyambhuva Manu aproximou-se e observou que ele estava um tanto sujo, assim como uma pedra preciosa não polida.
Purport
Eis aqui algumas descrições de um brahmacārī-yogī. Pela manhã, o primeiro dever do brahmacārī que busca elevação espiritual é huta-hutāśana, oferecer oblações sacrificatórias ao Senhor Supremo. Quem aceita o voto de brahmacarya não pode dormir até sete ou nove horas da manhã. Deve levantar-se de madrugada, pelo menos uma hora e meia antes da alvorada, e oferecer oblações, ou, nesta era, cantar o santo nome do Senhor, Hare Kṛṣṇa. Como citou o Senhor Caitanya, kalau nāsty eva nāsty eva nāsty eva gatir anyathā: não existe alternativa, não existe alternativa, não existe alternativa nesta era, além de cantar o santo nome do Senhor. O brahmacārī deve levantar-se de manhã cedinho e, depois de se arrumar, deve cantar o santo nome do Senhor. Pelas próprias características do sábio, parecia que ele havia se submetido a grandes austeridades: esse é o sinal de alguém que observa brahmacarya, ou voto de celibato. Se alguém viver de outro modo, isso se manifestará na luxúria visível em seu rosto e em seu corpo. O termo vidyotamānam indica que a característica de brahmacārī mostrava-se em seu corpo. Esta é a prova de que ele se submetera a grandes austeridades em yoga. Bêbados, fumantes ou viciados em sexo jamais são qualificados para praticar yoga. Geralmente, os yogīs parecem muito esquálidos por não estarem confortavelmente situados, mas Kardama Muni não estava emaciado porque tinha visto a Suprema Personalidade de Deus face a face. Aqui, a expressão snigdhāpāṅgāvalokanāt significa que ele teve a fortuna de ver o Senhor Supremo face a face. Ele parecia saudável porque tinha recebido as nectáreas vibrações sonoras diretamente dos lábios de lótus da Personalidade de Deus. De forma semelhante, quem ouve a vibração sonora transcendental do santo nome do Senhor, Hare Kṛṣṇa, também melhora de saúde. Temos realmente visto que muitos brahmacārīs e gṛhasthas ligados à Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna melhoraram de saúde, além de ter surgido um brilho em seus rostos. É essencial que um brahmacārī ocupado em avanço espiritual tenha aparência muito saudável e refulgente. A comparação do sábio a uma gema não polida é muito apropriada. Mesmo que uma gema recém-tirada da jazida pareça impolida, o brilho da gema não pode ser ofuscado. Analogamente, embora Kardama não estivesse adequadamente vestido e seu corpo não estivesse apropriadamente limpo, todo o seu aspecto era como o de uma gema.
Devanagari
अथोटजमुपायातं नृदेवं प्रणतं पुर: ।
सपर्यया पर्यगृह्णात्प्रतिनन्द्यानुरूपया ॥ ४८ ॥
सपर्यया पर्यगृह्णात्प्रतिनन्द्यानुरूपया ॥ ४८ ॥
Verse text
athoṭajam upāyātaṁ
nṛdevaṁ praṇataṁ puraḥ
saparyayā paryagṛhṇāt
pratinandyānurūpayā
nṛdevaṁ praṇataṁ puraḥ
saparyayā paryagṛhṇāt
pratinandyānurūpayā
Synonyms
atha — então; uṭajam — o eremitério; upāyātam — aproximado; nṛdevam — o monarca; praṇatam — prostrado; puraḥ — em frente; saparyayā — com honra; paryagṛhṇāt — recebeu-o; pratinandya — saudando-o; anurūpayā — digna da posição do rei.
Translation
Vendo que o monarca viera a seu eremitério e estava prostrando-se diante dele, o sábio o saudou com uma bênção e o recebeu com a devida honra.
Purport
O imperador Svāyambhuva Manu não apenas se aproximou da cabana de folhas secas pertencente ao eremita Kardama, como também lhe prestou respeitosas reverências. Do mesmo modo, era dever do eremita abençoar os reis que costumavam aproximar-se de seu eremitério na floresta.
Devanagari
गृहीतार्हणमासीनं संयतं प्रीणयन्मुनि: ।
स्मरन् भगवदादेशमित्याह श्लक्ष्णया गिरा ॥ ४९ ॥
स्मरन् भगवदादेशमित्याह श्लक्ष्णया गिरा ॥ ४९ ॥
Verse text
gṛhītārhaṇam āsīnaṁ
saṁyataṁ prīṇayan muniḥ
smaran bhagavad-ādeśam
ity āha ślakṣṇayā girā
saṁyataṁ prīṇayan muniḥ
smaran bhagavad-ādeśam
ity āha ślakṣṇayā girā
Synonyms
Translation
Após receber a atenção do sábio, o rei se sentou e ficou silencioso. Recordando-se das instruções do Senhor, Kardama, então, falou ao rei da seguinte maneira, deleitando-o com sua doce voz.
Devanagari
नूनं चङ्क्रमणं देव सतां संरक्षणाय ते ।
वधाय चासतां यस्त्वं हरे: शक्तिर्हि पालिनी ॥ ५० ॥
वधाय चासतां यस्त्वं हरे: शक्तिर्हि पालिनी ॥ ५० ॥
Verse text
nūnaṁ caṅkramaṇaṁ deva
satāṁ saṁrakṣaṇāya te
vadhāya cāsatāṁ yas tvaṁ
hareḥ śaktir hi pālinī
satāṁ saṁrakṣaṇāya te
vadhāya cāsatāṁ yas tvaṁ
hareḥ śaktir hi pālinī
Synonyms
nūnam — decerto; caṅkramaṇam — a viagem; deva — ó senhor; satām — dos virtuosos; saṁrakṣaṇāya — para a proteção; te — tua; vadhāya — para matar; ca — e; asatām — dos demônios; yaḥ — a pessoa que; tvam — tu; hareḥ — da Suprema Personalidade de Deus; śaktiḥ — a energia; hi — uma vez que; pālinī — protetora.
Translation
A viagem que empreendeste, ó senhor, decerto destina-se a proteger os virtuosos e matar os demônios, uma vez que personificas a energia protetora de Śrī Hari.
Purport
Muitos textos védicos, especialmente histórias como o Śrīmad-Bhāgavatam e os Purāṇas, indicam que os reis piedosos de outrora costumavam viajar por seus reinos para proteger os cidadãos piedosos e castigar ou matar os ímpios. Algumas vezes, eles tiravam a vida de animais na floresta para praticar a arte de matar, porque, sem tal prática, eles não seriam capazes de matar elementos indesejáveis. Os kṣatriyas têm permissão de cometer violência desta maneira porque a violência para uma boa causa faz parte do dever deles. Aqui, dois termos são claramente mencionados: vadhāya, “com o propósito de matar”, e asatām, “aqueles que são indesejáveis”. A energia protetora do rei é supostamente a energia do Senhor Supremo. Na Bhagavad-gītā (4.8), o Senhor diz que paritrāṇāya sādhūnāṁ vināśāya ca duṣkṛtām. O Senhor desce para proteger os piedosos e matar os demônios. Portanto, a potência de proteger os piedosos e matar os demônios ou pessoas indesejáveis é diretamente uma energia do Senhor Supremo, e supõe-se que o rei ou líder executivo do estado tenha essa energia. Nesta era, é muito difícil encontrar semelhante chefe de estado que seja hábil em matar os indesejáveis. Os modernos chefes de estado sentam-se confortavelmente em seus palácios e tentam, sem razão, matar pessoas inocentes.
Devanagari
योऽर्केन्द्वग्नीन्द्रवायूनां यमधर्मप्रचेतसाम् ।
रूपाणि स्थान आधत्से तस्मै शुक्लाय ते नम: ॥ ५१ ॥
रूपाणि स्थान आधत्से तस्मै शुक्लाय ते नम: ॥ ५१ ॥
Verse text
yo ’rkendv-agnīndra-vāyūnāṁ
yama-dharma-pracetasām
rūpāṇi sthāna ādhatse
tasmai śuklāya te namaḥ
yama-dharma-pracetasām
rūpāṇi sthāna ādhatse
tasmai śuklāya te namaḥ
Synonyms
yaḥ — tu que; arka — do Sol; indu — da Lua; agni — de Agni, o deus do fogo; indra — de Indra, o senhor do céu; vāyūnām — de Vāyu, o deus do vento; yama — de Yama, o deus da punição; dharma — de Dharma, o deus da piedade; pracetasām — e de Varuṇa, o deus das águas; rūpāṇi — as formas; sthāne — quando necessário; ādhatse — assumes; tasmai — a Ele; śuklāya — ao Senhor Viṣṇu; te — a ti; namaḥ — reverências.
Translation
Quando necessário, assumes o papel do deus do Sol; do deus da Lua; de Agni, o deus do fogo; de Indra, o senhor do paraíso; de Vāyu, o deus do vento; de Yama, o deus da punição; de Dharma, o deus da piedade, e de Varuṇa, o deus que preside as águas. Todas as reverências a ti, que não és diferente do Senhor Viṣṇu!
Purport
Uma vez que o sábio Kardama era um brāhmaṇa e Svāyambhuva era um kṣatriya, o sábio não tinha que oferecer reverências ao rei porque, socialmente, sua posição era superior à do rei. No entanto, ele ofereceu suas reverências a Svāyambhuva Manu porque, como Manu, rei e imperador, ele era o representante do Senhor Supremo. O Senhor Supremo sempre é adorável, independentemente de ser brāhmaṇa, kṣatriya ou śūdra. Como representante do Senhor Supremo, o rei merecia respeitosas reverências de todos.
Devanagari
न यदा रथमास्थाय जैत्रं मणिगणार्पितम् ।
विस्फूर्जच्चण्डकोदण्डो रथेन त्रासयन्नघान् ॥ ५२ ॥
स्वसैन्यचरणक्षुण्णं वेपयन्मण्डलं भुव: ।
विकर्षन् बृहतीं सेनां पर्यटस्यंशुमानिव ॥ ५३ ॥
तदैव सेतव: सर्वे वर्णाश्रमनिबन्धना: ।
भगवद्रचिता राजन् भिद्येरन् बत दस्युभि: ॥ ५४ ॥
विस्फूर्जच्चण्डकोदण्डो रथेन त्रासयन्नघान् ॥ ५२ ॥
स्वसैन्यचरणक्षुण्णं वेपयन्मण्डलं भुव: ।
विकर्षन् बृहतीं सेनां पर्यटस्यंशुमानिव ॥ ५३ ॥
तदैव सेतव: सर्वे वर्णाश्रमनिबन्धना: ।
भगवद्रचिता राजन् भिद्येरन् बत दस्युभि: ॥ ५४ ॥
Verse text
na yadā ratham āsthāya
jaitraṁ maṇi-gaṇārpitam
visphūrjac-caṇḍa-kodaṇḍo
rathena trāsayann aghān
jaitraṁ maṇi-gaṇārpitam
visphūrjac-caṇḍa-kodaṇḍo
rathena trāsayann aghān
sva-sainya-caraṇa-kṣuṇṇaṁ
vepayan maṇḍalaṁ bhuvaḥ
vikarṣan bṛhatīṁ senāṁ
paryaṭasy aṁśumān iva
vepayan maṇḍalaṁ bhuvaḥ
vikarṣan bṛhatīṁ senāṁ
paryaṭasy aṁśumān iva
tadaiva setavaḥ sarve
varṇāśrama-nibandhanāḥ
bhagavad-racitā rājan
bhidyeran bata dasyubhiḥ
varṇāśrama-nibandhanāḥ
bhagavad-racitā rājan
bhidyeran bata dasyubhiḥ
Synonyms
na — não; yadā — quando; ratham — a quadriga; āsthāya — tendo montado; jaitram — vitoriosa; maṇi — de joias; gaṇa — com feixes; arpitam — decorada; visphūrjat — vibrante; caṇḍa — um som medonho simplesmente para punir os criminosos; kodaṇḍaḥ — arco; rathena — pela presença de tal quadriga; trāsayan — ameaçadora; aghān — todos os criminosos; sva-sainya — de teus soldados; caraṇa — pelos pés; kṣuṇṇam — batidas; vepayan — fazendo tremer; maṇḍalam — o globo; bhuvaḥ — da Terra; vikarṣan — liderando; bṛhatīm — imenso; senām — exército; paryaṭasi — tu vagas; aṁśumān — o Sol brilhante; iva — como; tadā — então; eva — certamente; setavaḥ — códigos religiosos; sarve — todos; varṇa — dos varṇas; āśrama — dos āśramas; nibandhanāḥ — obrigações; bhagavat — pelo Senhor; racitāḥ — criados; rājan — ó rei; bhidyeran — seriam violados; bata — ai de mim; dasyubhiḥ — por canalhas.
Translation
Se não montasses tua vitoriosa quadriga coberta de joias, cuja mera presença ameaça os criminosos, se não produzisses furiosos sons com a vibração de teu arco e se não vagasses pelo mundo como o Sol brilhante, liderando um imenso exército cuja marcha faz o globo da Terra tremer, então todas as leis morais que governam os varṇas e āśramas criados pelo próprio Senhor seriam violadas por canalhas desprezíveis.
Purport
É dever de um rei responsável proteger as ordens sociais e espirituais na sociedade humana. As ordens espirituais dividem-se em quatro āśramas – brahmacarya, gṛhastha, vānaprastha e sannyāsa – e as ordens sociais, de acordo com o trabalho e a qualificação, são formadas de brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras. Essas ordens sociais, segundo os diferentes graus de trabalho e qualificação, são descritas na Bhagavad-gītā. Infelizmente, por falta de proteção adequada da parte de reis responsáveis, o sistema de ordens sociais e espirituais tornou-se agora um sistema de castas hereditário. Porém, esse não é o verdadeiro sistema. A expressão “sociedade humana” denota a sociedade que está progredindo rumo à compreensão espiritual. A sociedade humana mais avançada era conhecida como ārya; ārya refere-se àqueles que estão avançando. Assim, a questão é: “Que sociedade está avançando?” Avanço não significa criar “necessidades” materiais desnecessariamente e assim desperdiçar a energia humana no melhoramento dos ditos confortos materiais. Verdadeiro avanço é o avanço rumo à compreensão espiritual, e a comunidade que agia visando esse fim era conhecida como civilização ariana. Os homens inteligentes, os brāhmaṇas, como foi exemplificado por Kardama Muni, ocupavam-se em promover a causa espiritual, e os kṣatriyas, como o imperador Svāyambhuva, costumavam governar o país e garantir a devida provisão de todas as facilidades para a compreensão espiritual. É dever do rei viajar por todo o país e se certificar de que tudo esteja em ordem. A civilização indiana baseada nos quatro varṇas e quatro āśramas deteriorou-se por causa de sua dependência dos estrangeiros, ou daqueles que não seguiam a civilização de varṇāśrama. Assim, o sistema de varṇāśrama está agora se degradando, tendo-se transformado no sistema de castas.
Confirma-se nesta passagem que a instituição de quatro varṇas e quatro āśramas é bhagavad-racita, que significa “designada pela Suprema Personalidade de Deus”. Na Bhagavad-gītā, também se confirma isto: cātur-varṇyaṁ mayā sṛṣṭam. O Senhor diz que a instituição de quatro varṇas e quatro āśramas “foi criada por Mim”. Nada que o Senhor cria pode ser extinto ou coberto. Essa divisão de varṇas e āśramas continuará a existir, seja sob sua forma original, seja sob uma forma degradada, mas, por ter sido criada pelo Senhor, a Suprema Personalidade de Deus, não pode ser extinta. Ela é como o Sol, uma criação de Deus, e por isso perdurará. Quer coberto pelas nuvens, quer visível no céu claro, o Sol continuará a existir. Analogamente, quando o sistema de varṇāśrama se degrada, ele aparece como um sistema de castas hereditário, mas, em toda a sociedade, há uma classe inteligente de homens, uma classe marcial, uma classe mercantil e uma classe trabalhadora. Quando elas são reguladas para a cooperação entre as comunidades, de acordo com os princípios védicos, então há paz e avanço espiritual. Porém, quando há ódio, abuso e desconfiança mútua no sistema de castas, todo o sistema se degrada, e, como se afirma aqui, isso cria um estado deplorável. Atualmente, o mundo inteiro está nessa condição deplorável por dar direitos a tantos interesses. Isso se deve à degradação das quatro castas de varṇas e āśramas.
Devanagari
अधर्मश्च समेधेत लोलुपैर्व्यङ्कुशैर्नृभि: ।
शयाने त्वयि लोकोऽयं दस्युग्रस्तो विनङ्क्ष्यति ॥ ५५ ॥
शयाने त्वयि लोकोऽयं दस्युग्रस्तो विनङ्क्ष्यति ॥ ५५ ॥
Verse text
adharmaś ca samedheta
lolupair vyaṅkuśair nṛbhiḥ
śayāne tvayi loko ’yaṁ
dasyu-grasto vinaṅkṣyati
lolupair vyaṅkuśair nṛbhiḥ
śayāne tvayi loko ’yaṁ
dasyu-grasto vinaṅkṣyati
Synonyms
Translation
Se deixasses de te preocupar com a situação mundial, a injustiça floresceria, pois os homens que anseiam somente por dinheiro não encontrariam oposição. Esses canalhas atacariam e o mundo pereceria.
Purport
Como atualmente a divisão científica de quatro varṇas e quatro āśramas está extinguindo-se, o mundo inteiro está sendo governado por homens indesejáveis que não são treinados em religião, política ou ordem social, e está numa condição muito deplorável. Na instituição de quatro varṇas e quatro āśramas, há princípios regulares de treinamento para as diferentes classes de homens. Assim como, na era moderna, há necessidade de engenheiros, médicos e eletricistas, e eles são devidamente treinados em diferentes instituições científicas, da mesma forma, nos tempos antigos, as ordens sociais superiores – a saber, a classe inteligente (os brāhmaṇas), a classe governante (os kṣatriyas) e a classe mercantil (os vaiśyas) – eram devidamente treinadas. A Bhagavad-gītā descreve os deveres dos brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras. Quando não há semelhante treinamento, as pessoas simplesmente alegam que, por terem nascido em famílias de brāhmaṇas ou kṣatriyas, são automaticamente brāhmaṇas ou kṣatriyas, muito embora executem os deveres dos śūdras. Essas indevidas reivindicações ao direito de ser um homem de classe superior transformam o científico sistema de ordens sociais num sistema de castas, degradando completamente o sistema original. De tal modo, agora a sociedade está tomada pelo caos, não havendo nem paz nem prosperidade. Afirma-se claramente nesta passagem que, não havendo a vigilância de um rei forte, homens desqualificados e impiedosos reivindicarão determinado status na sociedade, o que fará com que pereça a ordem social.
Devanagari
अथापि पृच्छे त्वां वीर यदर्थं त्वमिहागत: ।
तद्वयं निर्व्यलीकेन प्रतिपद्यामहे हृदा ॥ ५६ ॥
तद्वयं निर्व्यलीकेन प्रतिपद्यामहे हृदा ॥ ५६ ॥
Verse text
athāpi pṛcche tvāṁ vīra
yad-arthaṁ tvam ihāgataḥ
tad vayaṁ nirvyalīkena
pratipadyāmahe hṛdā
yad-arthaṁ tvam ihāgataḥ
tad vayaṁ nirvyalīkena
pratipadyāmahe hṛdā
Synonyms
Translation
Apesar de tudo isso, ó rei valente, peço que me reveles com que propósito vieste aqui. O que quer que seja, nós o cumpriremos sem reservas.
Purport
Quando um visitante vai à casa de um amigo, subentende-se que o faz com algum propósito especial. Kardama Muni pôde entender que um rei tão grandioso como Svāyambhuva, embora viajando para inspecionar as condições de seu reino, devia ter algum propósito especial ao vir a seu eremitério. Assim, ele se preparou para satisfazer o desejo do rei. Antigamente, era habitual os sábios visitarem os reis e os reis visitarem os sábios em seus eremitérios. Cada um tinha prazer em atender os pedidos do outro. Essa relação recíproca se chama bhakti-kārya. Há um excelente verso que descreve a relação de benéfico interesse mútuo entre o brāhmaṇa e o kṣatriya (kṣatraṁ dvijatvam). Kṣatram significa “a ordem real”, e dvijatvam significa “a ordem bramânica”. As duas destinavam-se ao interesse mútuo. A ordem real protegia os brāhmaṇas para o cultivo de avanço espiritual na sociedade, e os brāhmaṇas davam suas valiosas instruções à ordem real, sobre como o estado e os cidadãos podem ser gradualmente elevados em perfeição espiritual.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do terceiro canto, vigésimo primeiro capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Conversa entre Manu e Kardama”.