Before Verses
Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
Adoração da Colina Govardhana
Neste capítulo, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, para esmagar o orgulho de Indra, proíbe um sacrifício em homenagem a este e, em seu lugar, inicia um sacrifício em adoração à colina Govardhana.
Ao ver os vaqueiros atarefados na preparação de um sacrifício a Indra, Śrī Kṛṣṇa perguntou ao rei deles, Nanda, o propósito daquilo. Nanda explicou que a chuva dada por Indra possibilita que todas as entidades vivas mantenham suas vidas, em razão do que se executaria esse sacrifício para satisfazer-lhe. Kṛṣṇa respondeu que é somente por causa do karma que as entidades vivas nascem em certo corpo, experimentam variedades de felicidade e sofrimento nesse corpo e, depois, abandonam o mesmo quando o karma que lhe cabe se esgota. Logo, é apenas o karma que é nosso inimigo, nosso amigo, nosso guru e nosso amo, e Indra nada pode fazer para alterar a felicidade ou a infelicidade de alguém, pois todos estão fortemente atados por suas reações kármicas. Os modos materiais da bondade, paixão e ignorância causam a criação, manutenção e destruição deste mundo. As nuvens lançam chuva quando são impelidas pelo modo da paixão, e os vaqueiros prosperam por protegerem as vacas. Além disso, a residência adequada dos vaqueiros fica na floresta e nas colinas. Eles, portanto, deviam oferecer adoração às vacas, aos brāhmaṇas e à colina Govardhana.
Depois de ter falado assim, Kṛṣṇa fez os arranjos para que os vaqueiros adorassem Govardhana com a parafernália reunida para o sacrifício a Indra. Então, Ele assumiu uma enorme e extraordinária forma transcendental e devorou toda a comida e outras oferendas presenteadas a Govardhana. Enquanto fazia isso, Ele proclamou à comunidade dos vaqueiros que, embora eles tivessem adorado Indra por tanto tempo, este jamais aparecera em pessoa, ao passo que a própria Govardhana acabara de se manifestar diante de seus olhos e comera suas oferendas de alimento. Portanto, agora todos deviam oferecer reverências à colina Govardhana. Então, o Senhor Kṛṣṇa juntou-Se aos vaqueiros para oferecer reverências à Sua própria forma recém-assumida.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
भगवानपि तत्रैव बलदेवेन संयुत: । अपश्यन्निवसन्गोपानिन्द्रयागकृतोद्यमान् ॥ १ ॥
भगवानपि तत्रैव बलदेवेन संयुत: । अपश्यन्निवसन्गोपानिन्द्रयागकृतोद्यमान् ॥ १ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
bhagavān api tatraiva
baladevena saṁyutaḥ
apaśyan nivasan gopān
indra-yāga-kṛtodyamān
bhagavān api tatraiva
baladevena saṁyutaḥ
apaśyan nivasan gopān
indra-yāga-kṛtodyamān
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; api — também; tatra eva — naquele mesmo lugar; baladevena — pelo Senhor Balarāma; saṁyutaḥ — acompanhado; apaśyat — viu; nivasan — ficando; gopān — os vaqueiros; indra — a Indra, o rei dos céus; yāga — por causa de um sacrifício; kṛta — fazendo; udyamān — grandes esforços.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Enquanto estava naquele mesmo lugar com Seu irmão Baladeva, aconteceu que o Senhor Kṛṣṇa viu os vaqueiros atarefados nos preparativos para um sacrifício a Indra.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo Śrīla Śrīdhara Svāmī e outros ācāryas, as palavras tatra eva neste verso indicam que o Senhor Kṛṣṇa permaneceu na vila dos brāhmaṇas cujas esposas O haviam satisfeito com sua devoção. Desse modo, Ele concedeu misericórdia àqueles brāhmaṇas, bem como a suas castas esposas, que não tinham com quem se associar exceto seus maridos. Naquele lugar, os vaqueiros, liderados pelo pai de Kṛṣṇa, Nanda Mahārāja, estavam de um modo ou de outro preparando um elaborado sacrifício a Indra, e o Senhor Kṛṣṇa reagiu a isso da seguinte maneira.
Devanagari
तदभिज्ञोऽपि भगवान् सर्वात्मा सर्वदर्शन: । प्रश्रयावनतोऽपृच्छद् वृद्धान् नन्दपुरोगमान् ॥ २ ॥
Verse text
tad-abhijño ’pi bhagavān
sarvātmā sarva-darśanaḥ
praśrayāvanato ’pṛcchad
vṛddhān nanda-purogamān
sarvātmā sarva-darśanaḥ
praśrayāvanato ’pṛcchad
vṛddhān nanda-purogamān
Synonyms
tat-abhijñaḥ — tivesse pleno conhecimento sobre aquilo; api — embora; bhagavān — o Senhor Supremo; sarva-ātmā — a Superalma dentro do coração de todos; sarva-darśanaḥ — a onisciente Personalidade de Deus; praśraya-avanataḥ — curvando-se humildemente; apṛcchat — indagou; vṛddhān — dos mais velhos; nanda-puraḥ-gamān — liderados por Mahārāja Nanda.
Translation
Por ser a onisciente Superalma, o Supremo Senhor Kṛṣṇa já entendera a situação, apesar do que Ele humildemente indagou dos mais velhos, liderados por Seu pai, Nanda Mahārāja, o seguinte.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor Kṛṣṇa ansiava por encenar Seu passatempo de erguer a colina Govardhana e derrotar o falso orgulho de Indra; por isso, com astúcia, perguntou a Seu pai o propósito daquele sacrifício iminente.
Devanagari
कथ्यतां मे पित: कोऽयं सम्भ्रमो व उपागत: । किं फलं कस्य वोद्देश: केन वा साध्यते मख: ॥ ३ ॥
Verse text
kathyatāṁ me pitaḥ ko ’yaṁ
sambhramo va upāgataḥ
kiṁ phalaṁ kasya voddeśaḥ
kena vā sādhyate makhaḥ
sambhramo va upāgataḥ
kiṁ phalaṁ kasya voddeśaḥ
kena vā sādhyate makhaḥ
Synonyms
kathyatām — que seja explicado; me — a Mim; pitaḥ — Meu querido pai; kaḥ — o que; ayam — este; sambhramaḥ — tumulto decorrente de atividades; vaḥ — sobre vós; upāgataḥ — vindo; kim — o que; phalam — a consequência; kasya — por cuja; vā — e; uddeśaḥ — causa; kena — de que maneira; vā — e; sādhyate — deve ser efetuado; makhaḥ — este sacrifício.
Translation
[O Senhor Kṛṣṇa disse:] Meu querido pai, tem a bondade de Me explicar o que é este grande empenho teu. O que ele visa obter? Se é um sacrifício ritualístico, então se destina a satisfazer a quem? E de que maneira será executado?
Devanagari
एतद् ब्रूहि महान् कामो मह्यं शुश्रूषवे पित: । न हि गोप्यं हि साधूनां कृत्यं सर्वात्मनामिह । अस्त्यस्वपरदृष्टीनाममित्रोदास्तविद्विषाम् ॥ ४ ॥
Verse text
etad brūhi mahān kāmo
mahyaṁ śuśrūṣave pitaḥ
na hi gopyaṁ hi sadhūnāṁ
kṛtyaṁ sarvātmanām iha
asty asva-para-dṛṣṭīnām
amitrodāsta-vidviṣām
mahyaṁ śuśrūṣave pitaḥ
na hi gopyaṁ hi sadhūnāṁ
kṛtyaṁ sarvātmanām iha
asty asva-para-dṛṣṭīnām
amitrodāsta-vidviṣām
Synonyms
etat — isso; brūhi — por favor, fala; mahān — grande; kāmaḥ — desejo; mahyam — para Mim; śuśrūṣave — que estou pronto a ouvir fielmente; pitaḥ — ó pai; na — não; hi — de fato; gopyam — devem ser mantidas em segredo; hi — decerto; sādhūnām — das pessoas santas; kṛtyam — as atividades; sarva-ātmanām — que veem todos como iguais a eles; iha — neste mundo; asti — há; asva-para-dṛṣṭīnām — que não fazem distinção entre o que é deles e o que é alheio; amitra-udāsta-vidviṣām — que não fazem distinção entre amigos, pessoas neutras e inimigos.
Translation
Por favor, explica-Me tudo isso, ó pai. Tenho enorme desejo de saber e estou pronto para ouvir de boa fé. Decerto, nenhum segredo devem ter as pessoas santas, que veem todos como iguais a si mesmas, que estão livres do conceito de “meu” ou “alheio” e que não consideram quem é amigo, quem é inimigo e quem é neutro.
Purport
SIGNIFICADO—O pai do Senhor Kṛṣṇa poderia pensar que seu filho era apenas uma criança e, portanto, não podia levantar questões apropriadas sobre a validade de um sacrifício védico. Entretanto, esta hábil declaração do Senhor decerto teria convencido Nanda de que Śrī Kṛṣṇa fazia uma indagação séria, e não caprichosa, e de que se deveria dar uma resposta séria, portanto.
Devanagari
उदासीनोऽरिवद् वर्ज्य आत्मवत् सुहृदुच्यते ॥ ५ ॥
Verse text
udāsīno ’ri-vad varjya
ātma-vat suhṛd ucyate
ātma-vat suhṛd ucyate
Synonyms
Translation
Quem é neutro pode ser evitado tal qual um inimigo, mas um amigo deve ser considerado como o próprio eu.
Purport
SIGNIFICADO—Mesmo que Nanda Mahārāja não visse amigos, inimigos e pessoas neutras como inteiramente iguais, o Senhor Kṛṣṇa, sendo filho de Nanda Mahārāja, era com certeza um amigo muito digno de confiança e, portanto, não devia ser excluído de discussões íntimas. Em outras palavras, Nanda Mahārāja talvez achasse que, como pai de família, não podia agir na plataforma da mais alta santidade, motivo pelo qual o Senhor Kṛṣṇa apresentou razões adicionais por que Seu pai devia confiar nEle e revelar toda a finalidade do sacrifício.
Segundo Śrīla Jīva Gosvāmī, Nanda Mahārāja ficou em silêncio, duvidando de sua posição de superioridade parental, visto que Garga Muni predissera que aquele filho seria “igual a Nārāyaṇa em Suas qualidades” e visto que o menino já vencera e matara muitos demônios poderosos.
Devanagari
ज्ञात्वाज्ञात्वा च कर्माणि जनोऽयमनुतिष्ठति । विदुष: कर्मसिद्धि: स्याद् यथा नाविदुषो भवेत् ॥ ६ ॥
Verse text
jñatvājñātvā ca karmāṇi
jano ’yam anutiṣṭhati
viduṣaḥ karma-siddhiḥ syād
yathā nāviduṣo bhavet
jano ’yam anutiṣṭhati
viduṣaḥ karma-siddhiḥ syād
yathā nāviduṣo bhavet
Synonyms
jñātvā — compreendendo; ajñātvā — não compreendendo; ca — também; karmāṇi — atividades; janaḥ — as pessoas comuns; ayam — estas; anutiṣṭhati — executam; viduṣaḥ — para quem é sábio; karma-siddhiḥ — obtenção da almejada meta da atividade; syāt — surge; yathā — como; na — não; aviduṣaḥ — para quem é tolo; bhavet — acontece.
Translation
Quando as pessoas neste mundo realizam atividades, por vezes compreendem o que estão fazendo, por vezes não compreendem. Aqueles que sabem o que estão fazendo alcançam sucesso em seu trabalho, ao passo que os ignorantes não têm o mesmo resultado.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor informa a Seu pai neste verso que se deve executar uma cerimônia ou atividade específica apenas depois de compreendê-la por completo mediante discussão com os amigos. Não devemos ser seguidores cegos da tradição. Se alguém nem mesmo sabe o que está fazendo, como poderá ter sucesso em seu empenho? Este é, em essência, o argumento do Senhor nesta passagem. Visto que seria natural esperar que Śrī Kṛṣṇa, como jovem filho de Nanda, mostrasse entusiasmo pelas atividades religiosas de Seu pai, era dever deste dar-Lhe uma explicação completa da cerimônia.
Devanagari
तत्र तावत् क्रियायोगो भवतां किं विचारित: । अथवा लौकिकस्तन्मे पृच्छत: साधु भण्यताम् ॥ ७ ॥
Verse text
tatra tāvat kriyā-yogo
bhavatāṁ kiṁ vicāritaḥ
atha vā laukikas tan me
pṛcchataḥ sādhu bhaṇyatām
bhavatāṁ kiṁ vicāritaḥ
atha vā laukikas tan me
pṛcchataḥ sādhu bhaṇyatām
Synonyms
Translation
Sendo este o caso, mereço uma explicação clara sobre este vosso esforço ritualístico. É uma cerimônia baseada nos preceitos das escrituras ou apenas um costume popular?
Devanagari
श्रीनन्द उवाच
पर्जन्यो भगवानिन्द्रो मेघास्तस्यात्ममूर्तय: । तेऽभिवर्षन्ति भूतानां प्रीणनं जीवनं पय: ॥ ८ ॥
पर्जन्यो भगवानिन्द्रो मेघास्तस्यात्ममूर्तय: । तेऽभिवर्षन्ति भूतानां प्रीणनं जीवनं पय: ॥ ८ ॥
Verse text
śrī-nanda uvāca
parjanyo bhagavān indro
meghās tasyātma-mūrtayaḥ
te ’bhivarṣanti bhūtānāṁ
prīṇanaṁ jīvanaṁ payaḥ
parjanyo bhagavān indro
meghās tasyātma-mūrtayaḥ
te ’bhivarṣanti bhūtānāṁ
prīṇanaṁ jīvanaṁ payaḥ
Synonyms
śrī-nandaḥ uvāca — Śrī Nanda Mahārāja disse; parjanyaḥ — a chuva; bhagavān — o grande amo; indraḥ — Indra; meghāḥ — as nuvens; tasya — dele; ātma-mūrtayaḥ — representantes pessoais; te — elas; abhivarṣanti — proporcionam chuva diretamente; bhūtānām — para todas as entidades vivas; prīṇanam — o prazer; jīvanam — a força vivificante; payaḥ — (como) o leite.
Translation
Nanda Mahārāja respondeu: O grande senhor Indra é o controlador da chuva. As nuvens são seus representantes pessoais e fornecem diretamente a água da chuva, que outorga felicidade e sustento a todas as criaturas.
Purport
SIGNIFICADO—Sem água de chuva limpa, a terra não poderia prover alimento nem bebida para ninguém, tampouco poderia haver limpeza. Logo, seria difícil superestimar o valor da chuva.
Devanagari
तं तात वयमन्ये च वार्मुचां पतिमीश्वरम् । द्रव्यैस्तद्रेतसा सिद्धैर्यजन्ते क्रतुभिर्नरा: ॥ ९ ॥
Verse text
taṁ tāta vayam anye ca
vārmucāṁ patim īśvaram
dravyais tad-retasā siddhair
yajante kratubhir narāḥ
vārmucāṁ patim īśvaram
dravyais tad-retasā siddhair
yajante kratubhir narāḥ
Synonyms
tam — a ele; tāta — meu querido filho; vayam — nós; anye — outros; ca — também; vāḥ-mucām — das nuvens; patim — o mestre; īśvaram — ó poderoso controlador; dravyaiḥ — com vários artigos; tat-retasā — por sua emissão líquida; siddhaiḥ — produzidos; yajante — adoram; kratubhiḥ — com sacrifícios de fogo; narāḥ — os homens.
Translation
Não só nós, meu querido filho, mas também muitos outros homens adoram Indra, o senhor e mestre das nuvens que dão chuva. Oferecemos-lhe cereais e outros artigos de adoração produzidos através de sua própria descarga sob a forma de chuva.
Purport
SIGNIFICADO—Nanda Mahārāja tentou pacientemente explicar os “fatos da vida” a seu jovem filho, Śrī Kṛṣṇa, mas de fato Nanda e todos os residentes de Vṛndāvana aprenderam uma lição surpreendente, como se narrará neste capítulo.
Devanagari
तच्छेषेणोपजीवन्ति त्रिवर्गफलहेतवे । पुंसां पुरुषकाराणां पर्जन्य: फलभावन: ॥ १० ॥
Verse text
tac-cheṣeṇopajīvanti
tri-varga-phala-hetave
puṁsāṁ puruṣa-kārāṇāṁ
parjanyaḥ phala-bhāvanaḥ
tri-varga-phala-hetave
puṁsāṁ puruṣa-kārāṇāṁ
parjanyaḥ phala-bhāvanaḥ
Synonyms
tat — deste sacrifício; śeṣeṇa — pelos remanentes; upajīvanti — sustentam suas vidas; tri-varga — que consiste nas três metas da vida humana (religiosidade, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos); phala-hetave — para conseguir fruto; puṁsām — para pessoas; puruṣa-kārāṇām — ocupadas em esforço humano; parjanyaḥ — o senhor Indra; phala-bhāvanaḥ — o meio de efetuar as metas pretendidas.
Translation
Mediante a aceitação dos remanentes dos sacrifícios executados para Indra, as pessoas sustentam suas vidas e alcançam as três metas da vida, a saber, religiosidade, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos. Dessa maneira, o senhor Indra é o agente responsável pelo sucesso fruitivo das pessoas diligentes.
Purport
SIGNIFICADO—Pode-se argumentar que as pessoas se sustentam através da agricultura, indústria e assim por diante. Porém, como se mencionou antes, todo esforço humano e não-humano depende de comida e bebida, que não podem ser produzidos sem chuva abundante. Com o termo tri-varga, Nanda assinala ainda que a prosperidade alcançada através do sacrifício a Indra destina-se não apenas ao gozo dos sentidos, mas também à religiosidade e ao desenvolvimento econômico. A não ser que as pessoas estejam bem alimentadas, é difícil que elas executem seus deveres, e sem o cumprimento do dever, é muito difícil ser religioso.
Devanagari
य एनं विसृजेद् धर्मं परम्पर्यागतं नर: । कामाद् द्वेषाद्भयाल्लोभात्स वै नाप्नोति शोभनम् ॥ ११ ॥
Verse text
ya enaṁ visṛjed dharmaṁ
paramparyāgataṁ naraḥ
kāmād dveṣād bhayāl lobhāt
sa vai nāpnoti śobhanam
paramparyāgataṁ naraḥ
kāmād dveṣād bhayāl lobhāt
sa vai nāpnoti śobhanam
Synonyms
yaḥ — qualquer um que; enam — este; visṛjet — rejeita; dharmam — o princípio religioso; paramparya — da autoridade tradicional; āgatam — recebido; naraḥ — uma pessoa; kāmāt — por causa de desejos descontrolados; dveṣāt — por causa da inimizade; bhayāt — por causa do medo; lobhāt — ou por causa da cobiça; saḥ — ele; vai — decerto; na āpnoti — não pode lograr; śobhanam — auspiciosidade.
Translation
Este princípio religioso baseia-se em uma tradição sólida. Qualquer um que o rejeite por desejos descontrolados, inimizade, medo ou cobiça decerto deixará de lograr boa fortuna.
Purport
SIGNIFICADO—Se alguém negligencia seus deveres religiosos por causa de desejos descontrolados, inveja, medo ou cobiça, sua vida jamais será ilustre ou perfeita.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
वचो निशम्य नन्दस्य तथान्येषां व्रजौकसाम् । इन्द्राय मन्युं जनयन् पितरं प्राह केशव: ॥ १२ ॥
वचो निशम्य नन्दस्य तथान्येषां व्रजौकसाम् । इन्द्राय मन्युं जनयन् पितरं प्राह केशव: ॥ १२ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
vaco niśamya nandasya
tathānyeṣāṁ vrajaukasām
indrāya manyuṁ janayan
pitaraṁ prāha keśavaḥ
vaco niśamya nandasya
tathānyeṣāṁ vrajaukasām
indrāya manyuṁ janayan
pitaraṁ prāha keśavaḥ
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; vacaḥ — as palavras; niśamya — ouvindo; nandasya — de Mahārāja Nanda; tathā — e também; anyeṣām — dos outros; vraja-okasām — os residentes de Vraja; indrāya — do senhor Indra; manyum — ira; janayan — gerando; pitaram — a Seu pai; prāha — falou; keśavaḥ — o Senhor Keśava.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Ao ouvir as explicações de Seu pai, Nanda, e de outros residentes mais velhos de Vraja, o Senhor Keśava [Kṛṣṇa], a fim de despertar a ira no senhor Indra, dirigiu a Seu pai as seguintes palavras.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Śrīdhara Svāmī explica que a intenção do Senhor Kṛṣṇa era não só insultar um semideus, mas sim desmoronar a grande montanha de falso orgulho que surgira dentro de Seu diminuto servo, que tinha por obrigação representá-lO como Indra. Erguendo a colina Govardhana, o Senhor Kṛṣṇa iniciaria deste modo um bem-aventurado festival anual chamado Govardhana-pūjā e ainda desfrutaria o agradável passatempo de morar durante vários dias debaixo da colina com todos os Seus amorosos devotos.
Devanagari
श्रीभगवानुवाच
कर्मणा जायते जन्तु: कर्मणैव प्रलीयते । सुखं दु:खं भयं क्षेमं कर्मणैवाभिपद्यते ॥ १३ ॥
कर्मणा जायते जन्तु: कर्मणैव प्रलीयते । सुखं दु:खं भयं क्षेमं कर्मणैवाभिपद्यते ॥ १३ ॥
Verse text
śrī-bhagavān uvāca
karmaṇā jāyate jantuḥ
karmaṇaiva pralīyate
sukhaṁ duḥkhaṁ bhayaṁ kṣemaṁ
karmaṇaivābhipadyate
karmaṇā jāyate jantuḥ
karmaṇaiva pralīyate
sukhaṁ duḥkhaṁ bhayaṁ kṣemaṁ
karmaṇaivābhipadyate
Synonyms
śrī-bhagavān uvāca — a Suprema Personalidade de Deus disse; karmaṇā — em virtude da força do karma; jāyate — nasce; jantuḥ — a entidade viva; karmaṇā — pelo karma; eva — somente; pralīyate — ela se depara com a destruição; sukham — felicidade; duḥkham — infelicidade; bhayam — medo; kṣemam — segurança; karmaṇā eva — apenas pelo karma; abhipadyate — obtêm-se.
Translation
O Senhor Kṛṣṇa disse: É em virtude da força do karma que uma entidade viva nasce, e é somente pelo karma que ela se depara com a destruição. Sua felicidade, sofrimento, medo e sentido de segurança surgem todos como efeitos do karma.
Purport
SIGNIFICADO—Defendendo a filosofia conhecida como karma-vāda ou karma-mīmāṁsā, a qual, basicamente, não passa de ateísmo com uma crença na reencarnação, o Senhor Kṛṣṇa minimizou a importância dos semideuses. Segundo essa filosofia, existem leis sutis da natureza que nos recompensam ou punem conforme nossas ações: “Cada um colhe o que semeou.” Em uma vida futura, colhe-se o fruto da atividade atual, e essa é a essência da realidade. O Senhor Kṛṣṇa, sendo o próprio Deus, dificilmente poderia ser um proponente sério dessa filosofia medíocre. No papel de um menino, Ele pregou isso apenas para incitar Seus devotos puros.
Śrīla Jīva Gosvāmī salienta que o Senhor Kṛṣṇa pensou: “Por que estes Meus companheiros eternos, que aparecem como Meu pai e outros parentes e amigos, estão assim tão enredados nesta adoração a Indra?” Assim, embora o principal propósito do Senhor fosse arrebatar o falso orgulho de Indra, Ele também queria fazer Seus devotos eternos se lembrarem de que eles não precisavam desviar a atenção para outros deuses, deuses falsos, já que de fato Seus devotos já estavam vivendo com a Suprema Verdade Absoluta, o próprio Senhor onipotente.
Devanagari
अस्ति चेदीश्वर: कश्चित्फलरूप्यन्यकर्मणाम् । कर्तारं भजते सोऽपि न ह्यकर्तु: प्रभुर्हि स: ॥ १४ ॥
Verse text
asti ced īśvaraḥ kaścit
phala-rūpy anya-karmaṇām
kartāraṁ bhajate so ’pi
na hy akartuḥ prabhur hi saḥ
phala-rūpy anya-karmaṇām
kartāraṁ bhajate so ’pi
na hy akartuḥ prabhur hi saḥ
Synonyms
asti — houver; cet — se, por hipótese; īśvaraḥ — um controlador supremo; kaścit — alguém; phala-rūpī — que sirva para conceder resultados fruitivos; anya-karmaṇām — das atividades de outras pessoas; kartāram — o executor da atividade; bhajate — depende de; saḥ — Ele; api — mesmo; na — não; hi — afinal; akartuḥ — de quem não executa atividade alguma; prabhuḥ — o mestre; hi — decerto; saḥ — Ele.
Translation
Mesmo que exista algum controlador supremo que conceda ao mundo inteiro os resultados de suas atividades, Ele também deve depender de um executante que se ocupe em atividades. Afinal, fica afastada qualquer hipótese de haver um outorgador dos resultados fruitivos a não ser que de fato se executem atividades fruitivas.
Purport
SIGNIFICADO—Nesta passagem, o Senhor Kṛṣṇa argumenta que, se há um controlador supremo, Ele deve depender de um executor de atividade ao qual corresponder e, portanto, também deve estar sujeito às leis do karma, sendo obrigado a conceder felicidade e sofrimento às almas condicionadas segundo as leis do bem e do mal.
Este argumento superficial despreza o ponto óbvio de que as leis da natureza que prescrevem os bons e maus resultados dos atos piedosos ou ímpios são elas próprias criações do boníssimo Senhor Supremo. Por ser o criador e sustentador dessas leis, o Senhor não está sujeito a elas. Além disso, o Senhor não depende das atividades das almas condicionadas, já que Ele é satisfeito e completo dentro de Si mesmo. Devido a Sua natureza todo-misericordiosa, Ele concede os resultados apropriados a nossas atividades. Aquilo que chamamos de destino, sorte ou karma não passa de um sistema elaborado e sutil de recompensas e castigos com o fim de incentivar gradualmente as almas condicionadas a evoluírem até o nível de consciência perfeita, que é sua natureza constitucional original.
A Suprema Personalidade de Deus formulou e aplicou com tamanha destreza as leis da natureza material que governam o castigo e a recompensa pelo comportamento humano, que o ser vivo é desestimulado de pecar e estimulado a agir piamente sem sofrer nenhuma interferência significativa em seu livre-arbítrio como alma eterna.
Em contraste com a natureza material, o Senhor exibe Sua natureza essencial no mundo espiritual, onde Ele corresponde ao amor eterno de Seus devotos puros. Tais aventuras amorosas fundamentam-se por completo na liberdade mútua do Senhor e de Seus devotos, e não em uma reciprocidade mecânica de interesses egoístas coincidentes. O Senhor Supremo, auxiliado por Seus devotos puros, oferece às almas condicionadas deste mundo repetidas oportunidades para que elas abandonem sua bizarra tentativa de explorar o universo material e voltem ao lar, voltem ao Supremo, onde desfrutarão uma vida eterna de bem-aventurança e conhecimento. Considerando todos estes pontos, os argumentos ateístas aqui apresentados com palavras jocosas pelo Senhor Kṛṣṇa não devem ser levados a sério.
Devanagari
किमिन्द्रेणेह भूतानां स्वस्वकर्मानुवर्तिनाम् । अनीशेनान्यथा कर्तुं स्वभावविहितं नृणाम् ॥ १५ ॥
Verse text
kim indreṇeha bhūtānāṁ
sva-sva-karmānuvartinām
anīśenānyathā kartuṁ
svabhāva-vihitaṁ nṛṇām
sva-sva-karmānuvartinām
anīśenānyathā kartuṁ
svabhāva-vihitaṁ nṛṇām
Synonyms
kim — o que; indreṇa — com Indra; iha — aqui; bhūtānām — para as entidades vivas; sva-sva — cada uma sua própria; karma — da ação fruitiva; anuvartinām — que estão experimentando as consequências; anīśena — (Indra) que é incapaz; anyathā — de outro modo; kartum — de fazer; svabhāva — por suas naturezas condicionadas; vihitam — aquilo que é ordenado; nṛṇām — para os homens.
Translation
Os seres vivos neste mundo são forçados a experimentar as consequências de sua própria atividade anterior. Como o senhor Indra não pode mudar de maneira alguma o destino dos seres humanos, o qual nasce da própria natureza deles, por que se deveria adorá-lo?
Purport
SIGNIFICADO—O argumento do Senhor Kṛṣṇa aqui não é uma negação do livre-arbítrio. Se aceitarmos a existência do karma como um sistema de leis que outorga reações para nossas atividades presentes, então nós mesmos, segundo nossa natureza, decidiremos o nosso futuro. Nossa felicidade e sofrimento nesta vida já foram determinados e fixados conforme nossas atividades anteriores, e nem mesmo os semideuses podem modificar isso. Eles têm de conceder-nos a prosperidade ou pobreza, doença ou saúde, felicidade ou sofrimento que nos cabem como resultado de nossos atos passados. Contudo, ainda conservamos a liberdade de escolher um modo piedoso ou ímpio de agir nesta vida, e a escolha que fizermos determinará nosso futuro sofrimento ou prazer.
Por exemplo, se fui piedoso em minha última vida, os semideuses podem conceder-me grande riqueza material nesta vida presente. Entretanto, sou livre para gastar minha riqueza em propósitos bons ou negativos, e minha escolha determinará minha vida futura. Logo, embora ninguém possa mudar os resultados kármicos que tem para receber nesta vida, todos ainda conservam o livre-arbítrio, pelo qual determinam qual será sua situação futura. O argumento do Senhor Kṛṣṇa neste verso é bastante interessante; todavia, ele despreza a consideração mais importante: a de que somos todos servos eternos de Deus e devemos satisfazê-lO mediante todos os nossos atos.
Devanagari
स्वभावतन्त्रो हि जन: स्वभावमनुवर्तते । स्वभावस्थमिदं सर्वं सदेवासुरमानुषम् ॥ १६ ॥
Verse text
svabhāva-tantro hi janaḥ
svabhāvam anuvartate
svabhāva-stham idaṁ sarvaṁ
sa-devāsura-mānuṣam
svabhāvam anuvartate
svabhāva-stham idaṁ sarvaṁ
sa-devāsura-mānuṣam
Synonyms
svabhāva — de sua natureza condicionada; tantraḥ — sob o controle; hi — de fato; janaḥ — uma pessoa; svabhāvam — sua natureza; anuvartate — segue; svabhāva-stham — baseado em propensões condicionadas; idam — este mundo; sarvam — inteiro; sa — junto com; deva — os semideuses; asura — os demônios; mānuṣam — e a humanidade.
Translation
Todo indivíduo está sob o controle de sua própria natureza condicionada e, por isso, deve seguir essa natureza. Este universo inteiro, com todos os seus semideuses, demônios e seres humanos, sustenta-se na natureza condicionada das entidades vivas.
Purport
SIGNIFICADO—Aqui o Senhor Kṛṣṇa desenvolve o argumento dado no verso precedente. Já que tudo depende de svabhāva, ou a natureza condicionada da pessoa, por que se dar ao trabalho de adorar Deus ou os semideuses? Esse argumento seria sublime caso svabhāva, ou a natureza condicionada, fosse onipotente. Infelizmente, contudo, não é o caso. Existe um controlador supremo e devemos adorá-lO, como o Senhor Kṛṣṇa revelará enfaticamente neste capítulo do Śrīmad-Bhāgavatam. No momento, porém, Ele está contente em fazer troça com Seus parentes.
Devanagari
देहानुच्चावचाञ्जन्तु: प्राप्योत्सृजति कर्मणा । शत्रुर्मित्रमुदासीन: कर्मैव गुरुरीश्वर: ॥ १७ ॥
Verse text
dehān uccāvacāñ jantuḥ
prāpyotsṛjati karmaṇā
śatrur mitram udāsīnaḥ
karmaiva gurur īśvaraḥ
prāpyotsṛjati karmaṇā
śatrur mitram udāsīnaḥ
karmaiva gurur īśvaraḥ
Synonyms
dehān — corpos materiais; ucca-avacān — de categoria superior ou inferior; jantuḥ — a entidade viva condicionada; prāpya — obtendo; utsṛjati — abandona; karmaṇā — pelas reações de suas atividades materiais; śatruḥ — seu inimigo; mitram — amigo; udāsīnaḥ — e pessoa neutra; karma — trabalho material; eva — apenas; guruḥ — seu mestre espiritual; īśvaraḥ — seu senhor.
Translation
Porque é o karma que faz com que a entidade viva condicionada aceite e depois abandone diferentes corpos materiais de categoria superior ou inferior, esse karma é seu inimigo, amigo e testemunha neutra, seu mestre espiritual e senhor controlador.
Purport
SIGNIFICADO—Até mesmo os semideuses estão atados e limitados pelas leis do karma. Que o próprio Indra é subordinado às leis do karma está explicitamente afirmado na Brahma-saṁhitā (5.54): yas tv indra-gopam atha vendram aho sva-karma-bandhānurūpa-phala-bhājanam ātanoti. O Senhor Supremo, Govinda, concede a todas as criaturas os resultados apropriados de seu trabalho. Isso é tão verdadeiro para o poderoso Indra, o senhor dos céus materiais, como o é para o germe chamado indra-gopa. A Bhagavad-gītā (7.20) também declara que kāmais tais tair hṛta-jñānāḥ prapadyante ’nya-devatāḥ. Somente aqueles que perderam sua inteligência por causa de vários desejos materiais rendem-se aos semideuses em vez de adorar o Senhor Supremo. De fato, os semideuses não podem conceder benefícios a ninguém de forma independente, como o afirma o Senhor Kṛṣṇa na Gītā: mayaiva vihitān hi tān. Em última análise, todos os benefícios provêm do próprio Senhor.
Portanto, não é de todo incorreto dizer que a adoração aos semideuses é inútil, pois mesmo os semideuses estão sob as leis do karma. De fato, é esse o caso. Mas o Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Verdade Absoluta, não está subordinado à lei do karma; ao contrário, Ele tem independência para oferecer ou retirar Seu favor. Isso se confirma no verso da Brahma-saṁhitā citado acima, cuja terceira linha é karmāṇi nirdahati kintu ca bhakti-bhājām: “O Senhor Supremo queima todo o karma acumulado daqueles que se ocupam em Seu serviço amoroso.” O Senhor Kṛṣṇa não apenas está acima das leis da ação e reação materiais, como Ele também pode dissolver de imediato essas leis para qualquer um que O satisfaça mediante o serviço amoroso. Dessa maneira, o Deus Onipotente é supremo em liberdade absoluta, e, através de nossa rendição a Ele, podemos escapar dos grilhões do karma e deixar de aceitar seu triste domínio como supremo.
Devanagari
तस्मात्सम्पूजयेत्कर्म स्वभावस्थ: स्वकर्मकृत् । अञ्जसा येन वर्तेत तदेवास्य हि दैवतम् ॥ १८ ॥
Verse text
tasmāt sampūjayet karma
svabhāva-sthaḥ sva-karma-kṛt
anjasā yena varteta
tad evāsya hi daivatam
svabhāva-sthaḥ sva-karma-kṛt
anjasā yena varteta
tad evāsya hi daivatam
Synonyms
tasmāt — portanto; sampūjayet — deve-se adorar totalmente; karma — sua atividade prescrita; svabhāva — na posição correspondente a sua própria natureza condicionada; sthaḥ — permanecendo; sva-karma — seu próprio dever prescrito; kṛt — executando; añjasā — sem dificuldade; yena — pelo qual; varteta — vive-se; tat — isto; eva — decerto; asya — dele; hi — de fato; daivatam — deidade adorável.
Translation
Portanto, todos devem adorar seriamente o trabalho em si. Devem permanecer na posição correspondente à sua natureza e devem executar o próprio dever. De fato, aquilo por meio do qual podemos viver bem é, na realidade, nossa deidade adorável.
Purport
SIGNIFICADO—Aqui o Senhor Kṛṣṇa propõe a filosofia moderna, porém absurda, de que nosso trabalho ou ocupação é, na verdade, Deus e de que devemos, portanto, apenas adorar nosso trabalho. Mediante um exame minucioso, observamos que nosso trabalho não passa da interação do corpo material com a natureza material, como o próprio Senhor Kṛṣṇa afirma, em uma atitude mais séria, na Bhagavad-gītā (3.28): guṇā guṇeṣu vartanta. A filosofia karma-mīmāṁsā aceita que a execução de boas atividades nesta vida nos dará uma próxima vida melhor. Se isso é verdade, deve existir alguma espécie de alma consciente distinta do corpo. E se é esse o caso, por que uma alma transcendental deve adorar a interação do corpo temporário com a natureza material? Se as palavras sampūjayet karma aqui significam que se devem adorar as leis do karma que regem nossas atividades, então é possível perguntar astutamente o que quer dizer adorar as leis e, de fato, qual poderia ser a origem de tais leis e quem as está mantendo. Dizer que as leis criaram ou estão mantendo o mundo é uma proposição sem sentido, pois não há nada sobre a natureza de uma lei que indique que ela poderia gerar a situação existencial que se supõe que ela governe. De fato, a adoração destina-se ao próprio Kṛṣṇa, e essa conclusão verdadeira será revelada claramente neste capítulo.
Devanagari
आजीव्यैकतरं भावं यस्त्वन्यमुपजीवति । न तस्माद् विन्दते क्षेमं जारान् नार्यसती यथा ॥ १९ ॥
Verse text
ājīvyaikataraṁ bhāvaṁ
yas tv anyam upajīvati
na tasmād vindate kṣemaṁ
jārān nāry asatī yathā
yas tv anyam upajīvati
na tasmād vindate kṣemaṁ
jārān nāry asatī yathā
Synonyms
Translation
Se algo de fato está sustentando nossa vida, mas nos abrigamos em outra coisa, como podemos conseguir algum benefício verdadeiro? Seríamos como uma mulher infiel, que jamais pode obter algum benefício real por entregar-se a seu amante.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra kṣemam significa prosperidade real, e não o mero acúmulo de dinheiro. Nesta passagem, o Senhor Kṛṣṇa argumenta ousadamente que assim como uma mulher jamais pode obter verdadeira dignidade ou iluminação com um amante ilícito, os residentes de Vṛndāvana jamais serão felizes desprezando a verdadeira fonte de sua prosperidade e adorando Indra em Seu lugar. Segundo Śrīla Jīva Gosvāmī, deve-se entender a audácia que o menino Kṛṣṇa exibiu diante de Seu pai e de outras pessoas mais velhas como uma exibição de ira transcendental despertada quando Ele viu Seus devotos eternos adorando um semideus insignificante.
Devanagari
वर्तेत ब्रह्मणा विप्रो राजन्यो रक्षया भुव: । वैश्यस्तु वार्तया जीवेच्छूद्रस्तु द्विजसेवया ॥ २० ॥
Verse text
varteta brahmaṇā vipro
rājanyo rakṣayā bhuvaḥ
vaiśyas tu vārtayā jīvec
chūdras tu dvija-sevayā
rājanyo rakṣayā bhuvaḥ
vaiśyas tu vārtayā jīvec
chūdras tu dvija-sevayā
Synonyms
varteta — vive; brahmaṇā — pelos Vedas; vipraḥ — o brāhmaṇa; rājanyaḥ — o membro da classe governante; rakṣayā — pela proteção; bhuvaḥ — da terra; vaiśyaḥ — o vaiśya; tu — por outro lado; vārtayā — pelo comércio; jīvet — vive; śudraḥ — o śūdra; tu — e; dvija-sevayā — por servir os brāhmaṇas, kṣatriyas e vaiśyas duas vezes nascidos.
Translation
O brāhmaṇa se mantém através do estudo e ensino dos Vedas; o membro da ordem real, através da proteção da terra; o vaiśya, através do comércio, e o śūdra, através do serviço às classes superiores dos duas vezes nascidos.
Purport
SIGNIFICADO—Depois de glorificar o karma, ou trabalho, o Senhor Kṛṣṇa agora explica o que Ele quer dizer com deveres prescritos nascidos da natureza da pessoa. Ele não se referia a nenhuma atividade caprichosa, mas sim aos deveres religiosos prescritos no varṇāśrama, ou sistema social védico.
Devanagari
कृषिवाणिज्यगोरक्षा कुसीदं तूर्यमुच्यते । वार्ता चतुर्विधा तत्र वयं गोवृत्तयोऽनिशम् ॥ २१ ॥
Verse text
kṛṣi-vāṇijya-go-rakṣā
kusīdaṁ tūryam ucyate
vārtā catur-vidhā tatra
vayaṁ go-vṛttayo ’niśam
kusīdaṁ tūryam ucyate
vārtā catur-vidhā tatra
vayaṁ go-vṛttayo ’niśam
Synonyms
Translation
Os deveres ocupacionais dos vaiśyas dividem-se em quatro: agricultura, comércio, proteção às vacas e empréstimo de dinheiro. Fora isso, nós, como comunidade, sempre nos ocupamos em proteção às vacas.
Devanagari
सत्त्वं रजस्तम इति स्थित्युत्पत्त्यन्तहेतव: । रजसोत्पद्यते विश्वमन्योन्यं विविधं जगत् ॥ २२ ॥
Verse text
sattvaṁ rajas tama iti
sthity-utpatty-anta-hetavaḥ
rajasotpadyate viśvam
anyonyaṁ vividhaṁ jagat
sthity-utpatty-anta-hetavaḥ
rajasotpadyate viśvam
anyonyaṁ vividhaṁ jagat
Synonyms
sattvam — bondade; rajan — paixão; tamaḥ — e ignorância; iti — assim; sthiti — da manutenção; utpatti — criação; anta — e destruição; hetavaḥ — as causas; rajasā — pelo modo da paixão; utpadyate — é gerado; viśvam — este universo; anyonyam — pela combinação de macho e fêmea; vividham — torna-se variado; jagat — o mundo.
Translation
As causas da criação, manutenção e destruição são os três modos da natureza – a saber, bondade, paixão e ignorância. Em particular, o modo da paixão cria este universo e, através da combinação sexual, faz com que ele se encha de variedade.
Purport
SIGNIFICADO—Antecipando a possível objeção de que manter a vida baseando-se nas vacas sem dúvida depende do senhor Indra, que fornece chuva, o Senhor Kṛṣṇa aqui introduz a teoria mecanicista da existência conhecida como sāṅkhya ateísta. A tendência a atribuir exclusiva causalidade às funções aparentemente mecanicistas da natureza é de fato uma tendência antiga. Há cinco mil anos, o Senhor Kṛṣṇa já fazia referência a uma doutrina bem conhecida na sociedade humana.
Devanagari
रजसा चोदिता मेघा वर्षन्त्यम्बूनि सर्वत: । प्रजास्तैरेव सिध्यन्ति महेन्द्र: किं करिष्यति ॥ २३ ॥
Verse text
rajasā coditā meghā
varṣanty ambūni sarvataḥ
prajās tair eva sidhyanti
mahendraḥ kiṁ kariṣyati
varṣanty ambūni sarvataḥ
prajās tair eva sidhyanti
mahendraḥ kiṁ kariṣyati
Synonyms
Translation
Impelidas pelo modo material da paixão, as nuvens derramam suas águas em toda parte, e, com essa chuva, todas as criaturas subsistem. O que o grande Indra tem a ver com este arranjo?
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor Kṛṣṇa, na continuação de Sua explicação mecanicista da existência, conclui que mahendraḥ kiṁ kariṣyati: “Quem precisa do grande Indra, já que a chuva, mandada pelas nuvens, que por sua vez são impelidas pelo modo da paixão, de fato produz o alimento do mundo inteiro?” A palavra sarvataḥ indica que as nuvens enviam sua chuva magnânima até mesmo sobre o oceano, rochas e terras áridas, onde aparentemente não há necessidade dessa água doce.
Devanagari
न न: पुरो जनपदा न ग्रामा न गृहा वयम् । वनौकसस्तात नित्यं वनशैलनिवासिन: ॥ २४ ॥
Verse text
na naḥ purojanapadā
na grāmā na gṛhā vayam
vanaukasas tāta nityaṁ
vana-śaila-nivāsinaḥ
na grāmā na gṛhā vayam
vanaukasas tāta nityaṁ
vana-śaila-nivāsinaḥ
Synonyms
na — não; naḥ — para nós; puraḥ — as cidades; jana-padāḥ — área habitada desenvolvida; na — não; grāmāḥ — vilas; na — não; gṛhāḥ — morando em casas permanentes; vayam — nós; vana-okasaḥ — morando nas florestas; tāta — Meu querido pai; nityam — sempre; vana — nas florestas; śaila — e nas colinas; nivāsinaḥ — vivendo.
Translation
Meu querido pai, nosso lar não fica nas cidades grandes, nem nas vilas. Por sermos habitantes da floresta, sempre moramos na floresta e nas colinas.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, o Senhor Kṛṣṇa ressalta que os residentes de Vṛndāvana devem reconhecer sua relação com a colina Govardhana e com as florestas de Vṛndāvana, e não se preocupar com um semideus distante como Indra. Tendo concluído Seu argumento, o Senhor Kṛṣṇa faz uma proposta radical no verso seguinte.
Devanagari
तस्माद् गवां ब्राह्मणानामद्रेश्चारभ्यतां मख: । य इन्द्रयागसम्भारास्तैरयं साध्यतां मख: ॥ २५ ॥
Verse text
tasmād gavāṁ brāhmaṇānām
adreś cārabhyatāṁ makhaḥ
ya indra-yāga-sambhārās
tair ayaṁ sādhyatāṁ makhaḥ
adreś cārabhyatāṁ makhaḥ
ya indra-yāga-sambhārās
tair ayaṁ sādhyatāṁ makhaḥ
Synonyms
tasmāt — portanto; gavām — das vacas; brāhmaṇānām — dos brāhmaṇas; adreḥ — e da colina (Govardhana); ca — também; ārabhyatām — que comece; makhaḥ — o sacrifício; ye — que; indra-yāga — para o sacrifício a Indra; sambhārāḥ — os ingredientes; taiḥ — com eles; ayam — este; sādhyatām — que seja executado; makhaḥ — o sacrifício.
Translation
Portanto, que se dê início a um sacrifício para o prazer das vacas, dos brāhmaṇas e da colina Govardhana! Com toda a parafernália reunida para adorar Indra, que se faça em seu lugar este sacrifício.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor Kṛṣṇa é famoso como go-brāhmaṇa-hita, o amigo benquerente das vacas e dos brāhmaṇas. O Senhor Kṛṣṇa incluiu especificamente os brāhmaṇas locais em Sua proposta porque Ele é sempre devotado àqueles que se dedicam à piedosa cultura védica.
Devanagari
पच्यन्तां विविधा: पाका: सूपान्ता: पायसादय: । संयावापूपशष्कुल्य: सर्वदोहश्च गृह्यताम् ॥ २६ ॥
Verse text
pacyantāṁ vividhāḥ pākāḥ
sūpāntāḥ pāyasādayaḥ
saṁyāvāpūpa-śaṣkulyaḥ
sarva-dohaś ca gṛhyatām
sūpāntāḥ pāyasādayaḥ
saṁyāvāpūpa-śaṣkulyaḥ
sarva-dohaś ca gṛhyatām
Synonyms
pacyantām — que se cozinhem; vividhāḥ — muitas variedades; pākāḥ — de alimentos cozidos; sūpa-antāḥ — terminando com sopas de legumes sem pedaços; pāyasa-ādayaḥ — começando com arroz-doce; saṁyāva-āpūpa — bolos fritos e assados; śaṣkulyaḥ — grandes bolos redondos de farinha de arroz; sarva — tudo; dohaḥ — o que se obtém ordenhando as vacas; ca — e; gṛhyatām — que se tome.
Translation
Que se cozinhem muitas espécies diferentes de preparações, de arroz-doce a sopas de legumes! Devem-se preparar muitas espécies de bolos finos, tanto assados como fritos. E devem-se usar neste sacrifício todos os laticínios disponíveis.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra sūpa indica caldo de grãos e também sopa de legumes sem pedaços. Portanto, para celebrar o Govardhana-pūjā, o Senhor Kṛṣṇa pediu preparações quentes como sopa, preparações frias como arroz-doce e todos os tipos de produtos lácteos.
Devanagari
हूयन्तामग्नय: सम्यग्ब्राह्मणैर्ब्रह्मवादिभि: । अन्नं बहुगुणं तेभ्यो देयं वो धेनुदक्षिणा: ॥ २७ ॥
Verse text
hūyantām agnayaḥ samyag
brāhmaṇair brahma-vādibhiḥ
annaṁ bahu-guṇaṁ tebhyo
deyaṁ vo dhenu-dakṣiṇāḥ
brāhmaṇair brahma-vādibhiḥ
annaṁ bahu-guṇaṁ tebhyo
deyaṁ vo dhenu-dakṣiṇāḥ
Synonyms
hūyantām — devem-se invocar; agnayaḥ — os fogos de sacrifício; samyak — da maneira apropriada; brāhmaṇaiḥ — pelos brāhmaṇas; brahma-vādibhiḥ — que são versados nos Vedas; annam — comida; bahu-guṇam — bem preparada; tebhyaḥ — a eles; deyam — deve-se dar; vaḥ — por vós; dhenu-dakṣiṇāḥ — vacas e outros presentes como remuneração.
Translation
Os brāhmaṇas que são versados nos mantras védicos devem invocar corretamente os fogos de sacrifício. Em seguida, deveis servir aos sacerdotes alimentos bem preparados e retribuí-los com vacas e outros presentes.
Purport
SIGNIFICADO—De acordo com Śrīla Śrīdhara Svāmī, o Senhor Śrī Kṛṣṇa instruiu Seu pai e os outros residentes de Vṛndāvana sobre os detalhes técnicos deste sacrifício védico para assegurar a qualidade do sacrifício e também para inspirar em Nanda e nos outros a fé no conceito de tal sacrifício. Dessa forma, o Senhor mencionou que deve haver brāhmaṇas ortodoxos, sacrifícios de fogo regulares e adequada distribuição de caridade. E deve-se fazer tudo isso na ordem dada pelo Senhor.
Devanagari
अन्येभ्यश्चाश्वचाण्डालपतितेभ्यो यथार्हत: । यवसं च गवां दत्त्वा गिरये दीयतां बलि: ॥ २८ ॥
Verse text
anyebhyaś cāśva-cāṇḍāla-
patitebhyo yathārhataḥ
yavasaṁ ca gavāṁ dattvā
giraye dīyatāṁ baliḥ
patitebhyo yathārhataḥ
yavasaṁ ca gavāṁ dattvā
giraye dīyatāṁ baliḥ
Synonyms
anyebhyaḥ — aos outros; ca — também; ā-śva-cāṇḍāla — descendo até os cães e comedores de cães; patitebhyaḥ — a tais pessoas caídas; yathā — como; arhataḥ — é apropriado em cada caso; yavasam — grama; ca — e; gavām — às vacas; dattvā — tendo dado; giraye — à montanha chamada Govardhana; dīyatām — devem ser presenteadas; baliḥ — oferendas respeitosas.
Translation
Depois de fornecer alimentos de modo conveniente a cada um dos presentes, inclusive os comedores de cães, os cães e outras pessoas caídas, deveis dar grama às vacas e, então, apresentar vossas respeitosas oferendas à colina Govardhana.
Devanagari
स्वलङ्कृता भुक्तवन्त: स्वनुलिप्ता: सुवासस: । प्रदक्षिणां च कुरुत गोविप्रानलपर्वतान् ॥ २९ ॥
Verse text
sv-alaṅkṛtā bhuktavantaḥ
sv-anuliptāḥ su-vāsasaḥ
pradakṣiṇāṁ ca kuruta
go-viprānala-parvatān
sv-anuliptāḥ su-vāsasaḥ
pradakṣiṇāṁ ca kuruta
go-viprānala-parvatān
Synonyms
su-alaṅkṛtāḥ — belamente adornados; bhuktavantaḥ — tendo comido até vos fartardes; su-anuliptāḥ — ungidos com auspiciosa polpa de sândalo; su-vāsasaḥ — usando roupas finas; pradakṣiṇām — o ato de circungirar; ca — e; kuruta — deveis executar; go — das vacas; vipra — os brāhmaṇas; anala — os fogos de sacrifício; parvatān — e a colina, Govardhana.
Translation
Depois que todos estiverem satisfeitos, deveis vos vestir e enfeitar belamente, ungir vossos corpos com pasta de sândalo e, então, circungirar as vacas, os brāhmaṇas, os fogos do sacrifício e a colina Govardhana.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor Kṛṣṇa queria que todos os seres humanos e até os animais comessem saborosa bhagavat-prasāda, alimentos santificados oferecidos ao Senhor. Para entusiasmar Seus parentes com um humor festivo, Ele pediu que se vestissem com roupas e ornamentos belos e elegantes e refrescassem o corpo com a fina pasta de sândalo. A atividade essencial, todavia, era circungirar os brāhmaṇas santos, as vacas, os fogos do sacrifício e sobretudo a colina Govardhana.
Devanagari
एतन्मम मतं तात क्रियतां यदि रोचते । अयं गोब्राह्मणाद्रीणां मह्यं च दयितो मख: ॥ ३० ॥
Verse text
etan mama mataṁ tāta
kriyatāṁ yadi rocate
ayaṁ go-brāhmaṇādrīṇāṁ
mahyaṁ ca dayito makhaḥ
kriyatāṁ yadi rocate
ayaṁ go-brāhmaṇādrīṇāṁ
mahyaṁ ca dayito makhaḥ
Synonyms
Translation
Esta é Minha ideia, ó pai, e podeis executá-la se vos agradar. Tal sacrifício será muito querido para as vacas, os brāhmaṇas e a colina Govardhana, e também para Mim.
Purport
SIGNIFICADO—Tudo o que agrade aos brāhmaṇas, às vacas e ao próprio Senhor Supremo é auspicioso e benéfico para o mundo todo. As pessoas “modernas”, espiritualmente cegas, não entendem esse ponto e, em vez disso, adotam uma maneira “científica” de encarar a vida, que está destruindo rapidamente a Terra inteira.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
कालात्मना भगवता शक्रदर्प जिघांसया । प्रोक्तं निशम्य नन्दाद्या: साध्वगृह्णन्त तद्वच: ॥ ३१ ॥
कालात्मना भगवता शक्रदर्प जिघांसया । प्रोक्तं निशम्य नन्दाद्या: साध्वगृह्णन्त तद्वच: ॥ ३१ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
kālātmanā bhagavatā
śakra-darpa-jighāṁsayā
proktaṁ niśamya nandādyāḥ
sādhv agṛhṇanta tad-vacaḥ
kālātmanā bhagavatā
śakra-darpa-jighāṁsayā
proktaṁ niśamya nandādyāḥ
sādhv agṛhṇanta tad-vacaḥ
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; kāla-ātmanā — que Se manifesta como a força do tempo; bhagavatā — pela Suprema Personalidade de Deus; śakra — de Indra; darpa — o orgulho; jighāṁsayā — com desejo de destruir; proktam — o que foi dito; niśamya — ouvindo; nanda-ādyāḥ — Nanda e os outros vaqueiros mais velhos; sādhu — como excelentes; agṛhṇanta — aceitaram; tat-vacaḥ — Suas palavras.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: O Senhor Kṛṣṇa, que é Ele mesmo o poderoso tempo, desejava destruir o falso orgulho do senhor Indra. Quando Nanda e os outros homens mais velhos de Vṛndāvana ouviram a exposição de Śrī Kṛṣṇa, aceitaram Suas palavras como convenientes.
Devanagari
तथा च व्यदधु: सर्वं यथाह मधुसूदन: । वाचयित्वा स्वस्त्ययनं तद्द्रव्येण गिरिद्विजान् ॥ ३२ ॥ उपहृत्य बलीन् सम्यगादृता यवसं गवाम् । गोधनानि पुरस्कृत्य गिरिं चक्रु: प्रदक्षिणम् ॥ ३३ ॥
Verse text
tathā ca vyadadhuḥ sarvaṁ
yathāha madhusūdanaḥ
vācayitvā svasty-ayanaṁ
tad-dravyeṇa giri-dvijān
yathāha madhusūdanaḥ
vācayitvā svasty-ayanaṁ
tad-dravyeṇa giri-dvijān
upahṛtya balīn samyag
ādṛtā yavasaṁ gavām
go-dhanāni puraskṛtya
giriṁ cakruḥ pradakṣiṇam
ādṛtā yavasaṁ gavām
go-dhanāni puraskṛtya
giriṁ cakruḥ pradakṣiṇam
Synonyms
tathā — assim; ca — e; vyadadhuḥ — executaram; sarvam — tudo; yathā — como; āha — falou; madhusūdanaḥ — o Senhor Kṛṣṇa; vācayitvā — fazendo (os brāhmaṇas) recitarem; svasti-ayanam — os cantos auspiciosos; tat-dravyeṇa — com a parafernália destinada ao sacrifício a Indra; giri — à colina; dvijān — e aos brāhmaṇas; upahṛtya — oferecendo; balīn — as apresentações de tributo; samyak — todos juntos; ādṛtāḥ — respeitosamente; yavasam — capim; gavām — às vacas; go-dhanāni — os touros, vacas e bezerros; puraskṛtya — colocando na frente; girim — da colina; cakruḥ — executaram; pradakṣiṇam — o circungirar.
Translation
A comunidade dos vaqueiros fez então tudo o que Madhusūdana sugerira. Providenciaram para que os brāhmaṇas recitassem os mantras védicos auspiciosos e, usando a parafernália que se destinava para o sacrifício a Indra, apresentaram oferendas à colina Govardhana e aos brāhmaṇas com respeito reverencial. Além disso, deram capim às vacas. Então, colocando as vacas, touros e bezerros diante deles, circungiraram Govardhana.
Purport
SIGNIFICADO—Os residentes de Vṛndāvana eram simplesmente devotados ao Senhor Kṛṣṇa; esta era a essência de sua existência. Por serem companheiros eternos do Senhor, eles não estavam, em última análise, preocupados com o senhor Indra nem com o sacrifício ritualístico, e com certeza não se interessavam pela filosofia mecanicista que Kṛṣṇa acabara de expor. Eles apenas amavam Kṛṣṇa e, devido à intensa afeição, fizeram exatamente o que Ele havia pedido.
A mentalidade simples e amorosa deles não decorria de uma visão de mundo estreita ou ignorante, pois eles eram devotados à Suprema Verdade Absoluta, que contém em Si toda a existência. Portanto, os residentes de Vṛndāvana experimentavam constantemente a verdade essencial mais elevada que fundamenta todas as outras verdades – e esta é o próprio Śrī Kṛṣṇa, a causa de todas as causas e o que sustenta a existência de tudo o que existe. Os residentes de Vṛndāvana viviam imersos no serviço amoroso àquela Suprema Verdade Absoluta; por isso eram os mais afortunados, mais inteligentes e mais pragmáticos de todos os seres vivos.
Devanagari
अनांस्यनडुद्युक्तानि ते चारुह्य स्वलङ्कृता: । गोप्यश्च कृष्णवीर्याणि गायन्त्य: सद्विजाशिष: ॥ ३४ ॥
Verse text
anāṁsy anaḍud-yuktāni
te cāruhya sv-alaṅkṛtāḥ
gopyaś ca kṛṣṇa-vīryāṇi
gāyantyaḥ sa-dvijāśiṣaḥ
te cāruhya sv-alaṅkṛtāḥ
gopyaś ca kṛṣṇa-vīryāṇi
gāyantyaḥ sa-dvijāśiṣaḥ
Synonyms
Translation
Enquanto seguiam pelo caminho, sentadas em carroças puxadas por bois, as vaqueiras muito bem enfeitadas cantavam as glórias do Senhor Kṛṣṇa, e seus cantos se misturavam com o canto de bênçãos dos brāhmaṇas.
Devanagari
कृष्णस्त्वन्यतमं रूपं गोपविश्रम्भणं गत: । शैलोऽस्मीति ब्रुवन् भूरि बलिमादद् बृहद्वपु: ॥ ३५ ॥
Verse text
kṛṣṇas tv anyatamaṁ rūpaṁ
gopa-viśrambhaṇaṁ gataḥ
śailo ’smīti bruvan bhūri
balim ādad bṛhad-vapuḥ
gopa-viśrambhaṇaṁ gataḥ
śailo ’smīti bruvan bhūri
balim ādad bṛhad-vapuḥ
Synonyms
kṛṣṇaḥ — o Senhor Kṛṣṇa; tu — e então; anyataman — outra; rūpam — forma transcendental; gopa-viśrambhaṇam — para incutir fé nos vaqueiros; gataḥ — assumiu; śailaḥ — a montanha; asmi — sou; iti — estas palavras; bruvan — dizendo; bhūri — abundantes; balim — as oferendas; ādat — devorou; bṛhat-vapuḥ — sob Sua imensa forma.
Translation
Para incutir fé nos vaqueiros, Kṛṣṇa então assumiu uma forma imensa, sem precedentes. Declarando “Eu sou a montanha Govardhana!”, Ele comeu as abundantes oferendas.
Purport
SIGNIFICADO—No capítulo vinte e quatro de Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, Śrīla Prabhupāda escreve: “Quando tudo estava completo, Kṛṣṇa, para convencer os devotos de que a colina Govardhana e Ele próprio são idênticos, assumiu uma grande forma transcendental e declarou aos habitantes de Vṛndāvana que Ele mesmo era a colina Govardhana. Então, Kṛṣṇa começou a comer toda a comida oferecida ali. A identidade de Kṛṣṇa e da colina Govardhana ainda é honrada, e grandes devotos pegam rochas da colina Govardhana e as adoram da mesma maneira como adoram a Deidade de Kṛṣṇa nos templos. Os devotos, portanto, recolhem pequenas rochas ou seixos da colina Govardhana e as adoram em casa, porque essa adoração equivale à adoração à Deidade.”
O Senhor Kṛṣṇa induzira os residentes de Vṛndāvana a assumir um risco significativo por causa dEle. Ele os convenceu a desprezar um sacrifício destinado, afinal, ao poderoso governo do universo e, em vez disso, adorar uma colina chamada Govardhana. A comunidade dos vaqueiros fez tudo isso apenas por amor a Kṛṣṇa, e agora, para convencê-los de que a decisão deles era correta, o Senhor Kṛṣṇa apareceu sob uma enorme e extraordinária forma transcendental e demonstrou que Ele mesmo era a colina Govardhana.
Devanagari
तस्मै नमो व्रजजनै: सह चक्र आत्मनात्मने । अहो पश्यत शैलोऽसौ रूपी नोऽनुग्रहं व्यधात् ॥ ३६ ॥
Verse text
tasmai namo vraja-janaiḥ
saha cakra ātmanātmane
aho paśyata śailo ’sau
rūpī no ’nugrahaṁ vyadhāt
saha cakra ātmanātmane
aho paśyata śailo ’sau
rūpī no ’nugrahaṁ vyadhāt
Synonyms
tasmai — a Ele; namaḥ — reverências; vraja-janaiḥ — com o povo de Vraja; saha — juntamente; cakre — Ele fez; ātmanā — por Si mesmo; ātmane — a Si mesmo; aho — ah; paśyata — vede só; śailaḥ — colina; asau — esta; rūpī — manifesta em pessoa; naḥ — para nós; anugraham — misericórdia; vyadhāt — concedeu.
Translation
Junto com o povo de Vraja, o Senhor prostrou-Se diante dessa forma da colina Govardhana e assim de fato ofereceu reverências a Si mesmo. Então, Ele disse: “Vede só como esta colina apareceu em pessoa e nos concedeu misericórdia!”
Purport
SIGNIFICADO—Fica evidente através deste verso que o Senhor Kṛṣṇa Se expandira e estava aparecendo sob Sua forma normal entre os participantes do festival de Vṛndāvana e, ao mesmo tempo, manifestando-Se como a grande forma da colina Govardhana. Dessa maneira, sob Sua forma de menino, Kṛṣṇa liderou os residentes de Vṛndāvana no ato de prostrarem-se diante de Sua nova encarnação como a colina Govardhana e salientou a todos a grande misericórdia concedida por essa divina forma de Govardhana. As surpreendentes atividades transcendentais do Senhor Kṛṣṇa decerto estavam em harmonia com a atmosfera festiva.
Devanagari
एषोऽवजानतो मर्त्यान् कामरूपी वनौकस: । हन्ति ह्यस्मै नमस्याम: शर्मणे आत्मनो गवाम् ॥ ३७ ॥
Verse text
eṣo ’vajānato martyān
kāma-rūpī vanaukasaḥ
hanti hy asmai namasyāmaḥ
śarmaṇe ātmano gavām
kāma-rūpī vanaukasaḥ
hanti hy asmai namasyāmaḥ
śarmaṇe ātmano gavām
Synonyms
eṣaḥ — esta; avajānataḥ — aqueles que desprezam; martyān — mortais; kāma-rūpī — assumindo qualquer forma livremente (tal como a das cobras que vivem sobre a colina); vana-okasaḥ — residentes da floresta; hanti — matará; hi — decerto; asmai — a ela; namasyāmaḥ — prestemos reverências; śarmaṇe — para a proteção; ātmanaḥ — nossa; gavām — e das vacas.
Translation
“Esta colina Govardhana, assumindo qualquer forma que desejar, matará quaisquer residentes da floresta que a despreze. Portanto, prestemos-lhe reverências para garantir nossa segurança e a de nossas vacas.”
Purport
SIGNIFICADO—Kāma-rūpī indica que a forma de Govardhana pode manifestar-se como cobras venenosas, animais selvagens, avalanche de pedras e assim por diante, todos os quais são capazes de matar um ser humano.
Segundo Śrīla Śrīdhara Svāmī, o Senhor apresentou seis pontos teóricos neste capítulo: 1) que só o karma é suficiente para determinar nosso destino, 2) que nossa natureza condicionada é o controlador supremo, 3) que os modos da natureza são o controlador supremo, 4) que o Senhor Supremo é apenas um aspecto dependente do karma, 5) que Ele está sob o controle do karma, e 6) que nossa ocupação é a verdadeira deidade adorável.
O Senhor apresentou esses argumentos não por acreditar neles, mas sim porque queria impedir o iminente sacrifício a Indra e desviá-lo para Si sob a forma da colina Govardhana. Dessa maneira, o Senhor desejava agitar aquele semideus falsamente orgulhoso.
Devanagari
इत्यद्रिगोद्विजमखं वासुदेवप्रचोदिता: । यथा विधाय ते गोपा सहकृष्णा व्रजं ययु: ॥ ३८ ॥
Verse text
ity adri-go-dvija-makhaṁ
vāsudeva-pracoditāḥ
yathā vidhāya te gopā
saha-kṛṣṇā vrajaṁ yayuḥ
vāsudeva-pracoditāḥ
yathā vidhāya te gopā
saha-kṛṣṇā vrajaṁ yayuḥ
Synonyms
iti — dessa maneira; adri — à colina Govardhana; go — às vacas; dvija — e aos brāhmaṇas; makham — o grande sacrifício; vāsudeva — pelo Senhor Kṛṣṇa; pracoditāḥ — incentivados; yathā — de modo adequado; vidhāya — executando; te — eles; gopāḥ — os vaqueiros; saha-kṛṣṇāḥ — junto com o Senhor Kṛṣṇa; vrajam — a Vraja; yayuḥ — foram.
Translation
Os membros da comunidade pastoril, tendo sido assim inspirados pelo Senhor Vāsudeva a executar bem o sacrifício à colina Govardhana, às vacas e aos brāhmaṇas, retornaram com o Senhor Kṛṣṇa à vila de Vraja.
Purport
SIGNIFICADO—Embora o Govardhana-pūjā tenha sido executado de modo bem-aventurado e com sucesso, o assunto ainda não se acabara. O senhor Indra é, afinal, tremendamente poderoso e recebeu a notícia do sacrifício a Govardhana com grande ira. O que se seguiu será descrito no próximo capítulo.
Neste ponto, encerram-se os significados apresentados pelos humildes servos de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupāda referentes ao décimo canto, vigésimo quarto capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Adoração da Colina Govardhana”.