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CAPÍTULO VINTE E QUATRO

Adoração da Colina Govardhana

Neste capítulo, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, para esmagar o orgulho de Indra, proíbe um sacrifício em homenagem a este e, em seu lugar, inicia um sacrifício em adoração à colina Govardhana.
Ao ver os vaqueiros atarefados na preparação de um sacrifício a Indra, Śrī Kṛṣṇa perguntou ao rei deles, Nanda, o propósito daquilo. Nanda explicou que a chuva dada por Indra possibilita que todas as entidades vivas mantenham suas vidas, em razão do que se executaria esse sacrifício para satisfazer-lhe. Kṛṣṇa respondeu que é somente por causa do karma que as entidades vivas nascem em certo corpo, experimentam variedades de felicidade e sofrimento nesse corpo e, depois, abandonam o mesmo quando o karma que lhe cabe se esgota. Logo, é apenas o karma que é nosso inimigo, nosso amigo, nosso guru e nosso amo, e Indra nada pode fazer para alterar a felicidade ou a infelicidade de alguém, pois todos estão fortemente atados por suas reações kármicas. Os modos materiais da bondade, paixão e ignorância causam a cria­ção, manutenção e destruição deste mundo. As nuvens lançam chuva quando são impelidas pelo modo da paixão, e os vaqueiros prospe­ram por protegerem as vacas. Além disso, a residência adequada dos vaqueiros fica na floresta e nas colinas. Eles, portanto, deviam ofe­recer adoração às vacas, aos brāhmaṇas e à colina Govardhana.
Depois de ter falado assim, Kṛṣṇa fez os arranjos para que os vaqueiros adorassem Govardhana com a parafernália reunida para o sacrifício a Indra. Então, Ele assumiu uma enorme e extraordinária forma transcendental e devorou toda a comida e outras oferendas presentea­das a Govardhana. Enquanto fazia isso, Ele proclamou à comunidade dos vaqueiros que, embora eles tivessem adorado Indra por tanto tempo, este jamais aparecera em pessoa, ao passo que a própria Go­vardhana acabara de se manifestar diante de seus olhos e comera suas oferendas de alimento. Portanto, agora todos deviam oferecer reverên­cias à colina Govardhana. Então, o Senhor Kṛṣṇa juntou-Se aos va­queiros para oferecer reverências à Sua própria forma recém-assumida.
श्रीशुक उवाच
भगवानपि तत्रैव बलदेवेन संयुत: । अपश्यन्निवसन्गोपानिन्द्रयागकृतोद्यमान् ॥ १ ॥
śrī-śuka uvāca
bhagavān api tatraiva
baladevena saṁyutaḥ
apaśyan nivasan gopān
indra-yāga-kṛtodyamān

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; bhagavān a Suprema Personalidade de Deus; apitambém; tatra evanaque­le mesmo lugar; baladevenapelo Senhor Balarāma; saṁyutaḥ acompanhado; apaśyatviu; nivasanficando; gopānos vaquei­ros; indraa Indra, o rei dos céus; yāgapor causa de um sacrifí­cio; kṛta fazendo; udyamāngrandes esforços.

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Śukadeva Gosvāmī disse: Enquanto estava naquele mesmo lugar com Seu irmão Baladeva, aconteceu que o Senhor Kṛṣṇa viu os vaqueiros atarefados nos preparativos para um sacrifício a Indra.

Purport

SIGNIFICADOSegundo Śrīla Śrīdhara Svāmī e outros ācāryas, as palavras tatra eva neste verso indicam que o Senhor Kṛṣṇa permaneceu na vila dos brāhmaṇas cujas esposas O haviam satisfeito com sua devoção. Desse modo, Ele concedeu misericórdia àqueles brāhmaṇas, bem como a suas castas esposas, que não tinham com quem se associar exceto seus maridos. Naquele lugar, os vaqueiros, liderados pelo pai de Kṛṣṇa, Nanda Mahārāja, estavam de um modo ou de outro preparando um elaborado sacrifício a Indra, e o Senhor Kṛṣṇa reagiu a isso da seguinte maneira.
तदभिज्ञोऽपि भगवान् सर्वात्मा सर्वदर्शन: । प्रश्रयावनतोऽपृच्छद् वृद्धान् नन्दपुरोगमान् ॥ २ ॥
tad-abhijño ’pi bhagavān
sarvātmā sarva-darśanaḥ
praśrayāvanato ’pṛcchad
vṛddhān nanda-purogamān

Synonyms

tat-abhijñaḥtivesse pleno conhecimento sobre aquilo; api embora; bhagavāno Senhor Supremo; sarva-ātmā a Superalma dentro do coração de todos; sarva-darśanaḥa onisciente Personalidade de Deus; praśraya-avanataḥcurvando-se humildemente; apṛcchatin­dagou; vṛddhāndos mais velhos; nanda-puraḥ-gamānliderados por Mahārāja Nanda.

Translation

Por ser a onisciente Superalma, o Supremo Senhor Kṛṣṇa já entendera a situação, apesar do que Ele humildemente indagou dos mais velhos, liderados por Seu pai, Nanda Mahārāja, o seguinte.

Purport

SIGNIFICADOO Senhor Kṛṣṇa ansiava por encenar Seu passatempo de erguer a colina Govardhana e derrotar o falso orgulho de Indra; por isso, com astúcia, perguntou a Seu pai o propósito daquele sacrifício iminente.
कथ्यतां मे पित: कोऽयं सम्भ्रमो व उपागत: । किं फलं कस्य वोद्देश: केन वा साध्यते मख: ॥ ३ ॥
kathyatāṁ me pitaḥ ko ’yaṁ
sambhramo va upāgataḥ
kiṁ phalaṁ kasya voddeśaḥ
kena vā sādhyate makhaḥ

Synonyms

kathyatāmque seja explicado; mea Mim; pitaḥMeu querido pai; kaḥo que; ayameste; sambhramaḥtumulto decorrente de atividades; vaḥsobre vós; upāgataḥ vindo; kimo que; phalama consequência; kasyapor cuja; e; uddeśaḥcausa; kenade que maneira; e; sādhyatedeve ser efetuado; makhaḥ este sacrifício.

Translation

[O Senhor Kṛṣṇa disse:] Meu querido pai, tem a bondade de Me explicar o que é este grande empenho teu. O que ele visa obter? Se é um sacrifício ritualístico, então se destina a satisfazer a quem? E de que manei­ra será executado?
एतद् ब्रूहि महान् कामो मह्यं शुश्रूषवे पित: । न हि गोप्यं हि साधूनां कृत्यं सर्वात्मनामिह । अस्त्यस्वपरद‍ृष्टीनाममित्रोदास्तविद्विषाम् ॥ ४ ॥
etad brūhi mahān kāmo
mahyaṁ śuśrūṣave pitaḥ
na hi gopyaṁ hi sadhūnāṁ
kṛtyaṁ sarvātmanām iha
asty asva-para-dṛṣṭīnām
amitrodāsta-vidviṣām

Synonyms

etat isso; brūhipor favor, fala; mahāngrande; kāmaḥdesejo; mahyam para Mim; śuśrūṣave que estou pronto a ouvir fielmente; pitaḥó pai; nanão; hi de fato; gopyamdevem ser mantidas em segredo; hidecerto; sādhūnāmdas pessoas santas; kṛtyamas atividades; sarva-ātmanāmque veem todos como iguais a eles; ihaneste mundo; asti; asva-para-dṛṣṭīnāmque não fazem distinção entre o que é deles e o que é alheio; amitra-udāsta-vidviṣāmque não fazem distinção entre amigos, pessoas neutras e inimigos.

Translation

Por favor, explica-Me tudo isso, ó pai. Tenho enorme desejo de saber e estou pronto para ouvir de boa fé. Decerto, nenhum segredo devem ter as pessoas santas, que veem todos como iguais a si mesmas, que estão livres do conceito de “meu” ou “alheio” e que não consideram quem é amigo, quem é inimigo e quem é neutro.

Purport

SIGNIFICADOO pai do Senhor Kṛṣṇa poderia pensar que seu filho era apenas uma criança e, portanto, não podia levantar questões apropriadas sobre a validade de um sacrifício védico. Entretanto, esta hábil declaração do Senhor decerto teria convencido Nanda de que Śrī Kṛṣṇa fazia uma indagação séria, e não caprichosa, e de que se deveria dar uma resposta séria, portanto.
उदासीनोऽरिवद् वर्ज्य आत्मवत् सुहृदुच्यते ॥ ५ ॥
udāsīno ’ri-vad varjya
ātma-vat suhṛd ucyate

Synonyms

udāsīnaḥalguém que é indiferente; ari-vatassim como um inimigo; varjyaḥdeve ser evitado; ātma-vatcomo o próprio eu; suḥrtum amigo; ucyate afirma-se que é.

Translation

Quem é neutro pode ser evitado tal qual um inimigo, mas um amigo deve ser considerado como o próprio eu.

Purport

SIGNIFICADOMesmo que Nanda Mahārāja não visse amigos, inimigos e pessoas neutras como inteiramente iguais, o Senhor Kṛṣṇa, sendo filho de Nanda Mahārāja, era com certeza um amigo muito digno de confian­ça e, portanto, não devia ser excluído de discussões íntimas. Em outras palavras, Nanda Mahārāja talvez achasse que, como pai de família, não podia agir na plataforma da mais alta santidade, motivo pelo qual o Senhor Kṛṣṇa apresentou razões adicionais por que Seu pai devia confiar nEle e revelar toda a finalidade do sacrifício.
Segundo Śrīla Jīva Gosvāmī, Nanda Mahārāja ficou em silêncio, duvidando de sua posição de superioridade parental, visto que Garga Muni predissera que aquele filho seria “igual a Nārāyaṇa em Suas qualidades” e visto que o menino já vencera e matara muitos demô­nios poderosos.
ज्ञात्वाज्ञात्वा च कर्माणि जनोऽयमनुतिष्ठति । विदुष: कर्मसिद्धि: स्याद् यथा नाविदुषो भवेत् ॥ ६ ॥
jñatvājñātvā ca karmāṇi
jano ’yam anutiṣṭhati
viduṣaḥ karma-siddhiḥ syād
yathā nāviduṣo bhavet

Synonyms

jñātvā compreendendo; ajñātvā não compreendendo; catambém; karmāṇiatividades; janaḥas pessoas comuns; ayam estas; anutiṣṭhati executam; viduṣaḥpara quem é sábio; karma-siddhiḥobtenção da almejada meta da atividade; syāt surge; yathā como; na não; aviduṣaḥpara quem é tolo; bhavet acontece.

Translation

Quando as pessoas neste mundo realizam atividades, por vezes compreendem o que estão fazendo, por vezes não compreendem. Aqueles que sabem o que estão fazendo alcançam sucesso em seu traba­lho, ao passo que os ignorantes não têm o mesmo resultado.

Purport

SIGNIFICADOO Senhor informa a Seu pai neste verso que se deve executar uma cerimônia ou atividade específica apenas depois de compreendê-la por completo mediante discussão com os amigos. Não devemos ser seguido­res cegos da tradição. Se alguém nem mesmo sabe o que está fazendo, como poderá ter sucesso em seu empenho? Este é, em essência, o argumento do Senhor nesta passagem. Visto que seria natural esperar que Śrī Kṛṣṇa, como jovem filho de Nanda, mostrasse entusiasmo pelas atividades religiosas de Seu pai, era dever deste dar-Lhe uma explicação completa da cerimônia.
तत्र तावत् क्रियायोगो भवतां किं विचारित: । अथवा लौकिकस्तन्मे पृच्छत: साधु भण्यताम् ॥ ७ ॥
tatra tāvat kriyā-yogo
bhavatāṁ kiṁ vicāritaḥ
atha vā laukikas tan me
pṛcchataḥ sādhu bhaṇyatām

Synonyms

tatra tāvatsendo este o caso; kriyā-yogaḥeste esforço fruitivo; bhavatāmde vós; kimse; vicāritaḥaprendido das escrituras; atha ou então; laukikaḥde costume ordinário; tatisto; mea Mim; pṛcchataḥque estou indagando; sādhuclaramente; bhaṇyatām deve ser explicado.

Translation

Sendo este o caso, mereço uma explicação clara sobre este vosso esforço ritualístico. É uma cerimônia baseada nos precei­tos das escrituras ou apenas um costume popular?
श्रीनन्द उवाच
पर्जन्यो भगवानिन्द्रो मेघास्तस्यात्ममूर्तय: । तेऽभिवर्षन्ति भूतानां प्रीणनं जीवनं पय: ॥ ८ ॥
śrī-nanda uvāca
parjanyo bhagavān indro
meghās tasyātma-mūrtayaḥ
te ’bhivarṣanti bhūtānāṁ
prīṇanaṁ jīvanaṁ payaḥ

Synonyms

śrī-nandaḥ uvācaŚrī Nanda Mahārāja disse; parjanyaḥa chuva; bhagavāno grande amo; indraḥIndra; meghāḥas nuvens; tasyadele; ātma-mūrtayaḥ representantes pessoais; teelas; abhi­varṣantiproporcionam chuva diretamente; bhūtānāmpara todas as entidades vivas; prīṇanam o prazer; jīvanama força vivificante; payaḥ(como) o leite.

Translation

Nanda Mahārāja respondeu: O grande senhor Indra é o controlador da chuva. As nuvens são seus representantes pessoais e fornecem diretamente a água da chuva, que outorga felicidade e sustento a todas as criaturas.

Purport

SIGNIFICADOSem água de chuva limpa, a terra não poderia prover alimento nem bebida para ninguém, tampouco poderia haver limpeza. Logo, seria difícil superestimar o valor da chuva.
तं तात वयमन्ये च वार्मुचां पतिमीश्वरम् । द्रव्यैस्तद्रेतसा सिद्धैर्यजन्ते क्रतुभिर्नरा: ॥ ९ ॥
taṁ tāta vayam anye ca
vārmucāṁ patim īśvaram
dravyais tad-retasā siddhair
yajante kratubhir narāḥ

Synonyms

tama ele; tāta meu querido filho; vayamnós; anyeoutros; catambém; vāḥ-mucāmdas nuvens; patimo mestre; īśvaramó poderoso controlador; dravyaiḥcom vários artigos; tat-retasā por sua emissão líquida; siddhaiḥproduzidos; yajanteadoram; kratubhiḥcom sacrifícios de fogo; narāḥos homens.

Translation

Não só nós, meu querido filho, mas também muitos outros homens adoram Indra, o senhor e mestre das nuvens que dão chuva. Oferecemos-lhe cereais e outros artigos de adoração pro­duzidos através de sua própria descarga sob a forma de chuva.

Purport

SIGNIFICADONanda Mahārāja tentou pacientemente explicar os “fatos da vida”­ a seu jovem filho, Śrī Kṛṣṇa, mas de fato Nanda e todos os residentes de Vṛndāvana aprenderam uma lição surpreendente, como se narrará neste capítulo.
तच्छेषेणोपजीवन्ति त्रिवर्गफलहेतवे । पुंसां पुरुषकाराणां पर्जन्य: फलभावन: ॥ १० ॥
tac-cheṣeṇopajīvanti
tri-varga-phala-hetave
puṁsāṁ puruṣa-kārāṇāṁ
parjanyaḥ phala-bhāvanaḥ

Synonyms

tatdeste sacrifício; śeṣeṇapelos remanentes; upajīvantisustentam suas vidas; tri-vargaque consiste nas três metas da vida huma­na (religiosidade, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos); phala-hetavepara conseguir fruto; puṁsām para pessoas; puruṣa­-kārāṇām ocupadas em esforço humano; parjanyaḥ o senhor Indra; phala-bhāvanaḥo meio de efetuar as metas pretendidas.

Translation

Mediante a aceitação dos remanentes dos sacrifícios executados para Indra, as pessoas sustentam suas vidas e alcançam as três metas da vida, a saber, religiosidade, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos. Dessa maneira, o senhor Indra é o agente responsável pelo sucesso fruitivo das pessoas diligentes.

Purport

SIGNIFICADOPode-se argumentar que as pessoas se sustentam através da agricultura, indústria e assim por diante. Porém, como se mencionou antes, todo esforço humano e não-humano depende de comida e bebida, que não podem ser produzidos sem chuva abundante. Com o termo tri-varga, Nanda assinala ainda que a prosperidade alcançada através do sacrifício a Indra destina-se não apenas ao gozo dos sentidos, mas também à religiosidade e ao desenvolvimento econômico. A não ser que as pessoas estejam bem alimentadas, é difícil que elas executem seus deveres, e sem o cumprimento do dever, é muito difícil ser re­ligioso.
य एनं विसृजेद् धर्मं परम्पर्यागतं नर: । कामाद् द्वेषाद्भ‍याल्लोभात्स वै नाप्नोति शोभनम् ॥ ११ ॥
ya enaṁ visṛjed dharmaṁ
paramparyāgataṁ naraḥ
kāmād dveṣād bhayāl lobhāt
sa vai nāpnoti śobhanam

Synonyms

yaḥ qualquer um que; enameste; visṛjetrejeita; dharmamo princípio religioso; paramparya da autoridade tradicional; āgatamrecebido; naraḥuma pessoa; kāmātpor causa de desejos descontrolados; dveṣātpor causa da inimizade; bhayātpor causa do medo; lobhāt ou por causa da cobiça; saḥele; vaidecerto; na āpnotinão pode lograr; śobhanamauspiciosidade.

Translation

Este princípio religioso baseia-se em uma tradição sólida. Qualquer um que o rejeite por desejos descontrolados, inimizade, medo ou cobiça decerto deixará de lograr boa fortuna.

Purport

SIGNIFICADOSe alguém negligencia seus deveres religiosos por causa de desejos descontrolados, inveja, medo ou cobiça, sua vida jamais será ilustre ou perfeita.
श्रीशुक उवाच
वचो निशम्य नन्दस्य तथान्येषां व्रजौकसाम् । इन्द्राय मन्युं जनयन् पितरं प्राह केशव: ॥ १२ ॥
śrī-śuka uvāca
vaco niśamya nandasya
tathānyeṣāṁ vrajaukasām
indrāya manyuṁ janayan
pitaraṁ prāha keśavaḥ

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; vacaḥ as pala­vras; niśamyaouvindo; nandasya de Mahārāja Nanda; tathāe também; anyeṣāmdos outros; vraja-okasām os residentes de Vraja; indrāyado senhor Indra; manyumira; janayangerando; pita­rama Seu pai; prāhafalou; keśavaḥo Senhor Keśava.

Translation

Śukadeva Gosvāmī disse: Ao ouvir as explicações de Seu pai, Nanda, e de outros residentes mais velhos de Vraja, o Senhor Keśava [Kṛṣṇa], a fim de despertar a ira no senhor Indra, dirigiu a Seu pai as seguintes palavras.

Purport

SIGNIFICADOŚrīla Śrīdhara Svāmī explica que a intenção do Senhor Kṛṣṇa era não só insultar um semideus, mas sim desmoronar a grande montanha de falso orgulho que surgira dentro de Seu diminuto servo, que tinha por obrigação representá-lO como Indra. Erguen­do a colina Govardhana, o Senhor Kṛṣṇa iniciaria deste modo um bem-aventurado festival anual chamado Govardhana-pūjā e ainda desfrutaria o agradável passatempo de morar durante vários dias debaixo da colina com todos os Seus amorosos devotos.
श्रीभगवानुवाच
कर्मणा जायते जन्तु: कर्मणैव प्रलीयते । सुखं दु:खं भयं क्षेमं कर्मणैवाभिपद्यते ॥ १३ ॥
śrī-bhagavān uvāca
karmaṇā jāyate jantuḥ
karmaṇaiva pralīyate
sukhaṁ duḥkhaṁ bhayaṁ kṣemaṁ
karmaṇaivābhipadyate

Synonyms

śrī-bhagavān uvācaa Suprema Personalidade de Deus disse; karmaṇāem virtude da força do karma; jāyatenasce; jantuḥa entidade viva; karmaṇā pelo karma; eva somente; pralīyateela se depara com a destruição; sukhamfelicidade; duḥkhaminfelicidade; bhayammedo; kṣemam segurança; karmaṇā eva apenas pelo karma; abhipadyateobtêm-se.

Translation

O Senhor Kṛṣṇa disse: É em virtude da força do karma que uma entidade viva nasce, e é somente pelo karma que ela se depara com a destruição. Sua felicidade, sofrimento, medo e sentido de segurança surgem todos como efeitos do karma.

Purport

SIGNIFICADODefendendo a filosofia conhecida como karma-vāda ou karma-mīmāṁsā, a qual, basicamente, não passa de ateísmo com uma crença na reencarnação, o Senhor Kṛṣṇa minimizou a importância dos semi­deuses. Segundo essa filosofia, existem leis sutis da natureza que nos recompensam ou punem conforme nossas ações: “Cada um colhe o que semeou.” Em uma vida futura, colhe-se o fruto da atividade atual, e essa é a essência da realidade. O Senhor Kṛṣṇa, sendo o próprio Deus, dificilmente poderia ser um proponente sério dessa filosofia medíocre. No papel de um menino, Ele pregou isso apenas para incitar Seus devotos puros.
Śrīla Jīva Gosvāmī salienta que o Senhor Kṛṣṇa pensou: “Por que estes Meus companheiros eternos, que aparecem como Meu pai e outros parentes e amigos, estão assim tão enredados nesta adoração a Indra?” Assim, embora o principal propósito do Senhor fosse arrebatar o falso orgulho de Indra, Ele também queria fazer Seus devotos eternos se lembrarem de que eles não precisavam desviar a atenção para outros deuses, deuses falsos, já que de fato Seus devotos já estavam vivendo com a Suprema Verdade Absoluta, o próprio Senhor onipotente.
अस्ति चेदीश्वर: कश्चित्फलरूप्यन्यकर्मणाम् । कर्तारं भजते सोऽपि न ह्यकर्तु: प्रभुर्हि स: ॥ १४ ॥
asti ced īśvaraḥ kaścit
phala-rūpy anya-karmaṇām
kartāraṁ bhajate so ’pi
na hy akartuḥ prabhur hi saḥ

Synonyms

astihouver; cetse, por hipótese; īśvaraḥ um controlador supremo; kaścit alguém; phala-rūpī que sirva para conceder resultados fruitivos; anya-karmaṇāmdas atividades de outras pessoas; kartāramo executor da atividade; bhajatedepende de; saḥ Ele; api mesmo; na não; hi afinal; akartuḥ de quem não executa atividade alguma; prabhuḥo mestre; hi decerto; saḥEle.

Translation

Mesmo que exista algum controlador supremo que conceda ao mundo inteiro os resultados de suas atividades, Ele também deve depender de um executante que se ocupe em atividades. Afinal, fica afastada qualquer hipótese de haver um outorgador dos re­sultados fruitivos a não ser que de fato se executem atividades fruitivas.

Purport

SIGNIFICADONesta passagem, o Senhor Kṛṣṇa argumenta que, se há um contro­lador supremo, Ele deve depender de um executor de atividade ao qual corresponder e, portanto, também deve estar sujeito às leis do karma, sendo obrigado a conceder felicidade e sofrimento às almas condicionadas segundo as leis do bem e do mal.
Este argumento superficial despreza o ponto óbvio de que as leis da natureza que prescrevem os bons e maus resultados dos atos pie­dosos ou ímpios são elas próprias criações do boníssimo Senhor Su­premo. Por ser o criador e sustentador dessas leis, o Senhor não está sujeito a elas. Além disso, o Senhor não depende das atividades das almas condicionadas, já que Ele é satisfeito e completo dentro de Si mesmo. Devido a Sua natureza todo-misericordiosa, Ele concede os resultados apropriados a nossas atividades. Aquilo que chamamos de destino, sorte ou karma não passa de um sistema elaborado e sutil de recompensas e castigos com o fim de incentivar gradualmente as almas condicionadas a evoluírem até o nível de consciência perfeita, que é sua natureza constitucional original.
A Suprema Personalidade de Deus formulou e aplicou com tama­nha destreza as leis da natureza material que governam o castigo e a recompensa pelo comportamento humano, que o ser vivo é desesti­mulado de pecar e estimulado a agir piamente sem sofrer nenhuma interferência significativa em seu livre-arbítrio como alma eterna.
Em contraste com a natureza material, o Senhor exibe Sua natu­reza essencial no mundo espiritual, onde Ele corresponde ao amor eterno de Seus devotos puros. Tais aventuras amorosas fundamentam­-se por completo na liberdade mútua do Senhor e de Seus devotos, e não em uma reciprocidade mecânica de interesses egoístas coinciden­tes. O Senhor Supremo, auxiliado por Seus devotos puros, oferece às almas condicionadas deste mundo repetidas oportunidades para que elas abandonem sua bizarra tentativa de explorar o universo material e voltem ao lar, voltem ao Supremo, onde desfrutarão uma vida eter­na de bem-aventurança e conhecimento. Considerando todos estes pontos, os argumentos ateístas aqui apresentados com palavras joco­sas pelo Senhor Kṛṣṇa não devem ser levados a sério.
किमिन्द्रेणेह भूतानां स्वस्वकर्मानुवर्तिनाम् । अनीशेनान्यथा कर्तुं स्वभावविहितं नृणाम् ॥ १५ ॥
kim indreṇeha bhūtānāṁ
sva-sva-karmānuvartinām
anīśenānyathā kartuṁ
svabhāva-vihitaṁ nṛṇām

Synonyms

kimo que; indreṇacom Indra; ihaaqui; bhūtānāmpara as entidades vivas; sva-svacada uma sua própria; karmada ação fruiti­va; anuvartināmque estão experimentando as consequências; anī­śena (Indra) que é incapaz; anyathā de outro modo; kartum de fazer; svabhāvapor suas naturezas condicionadas; vihitamaquilo que é ordenado; nṛṇāmpara os homens.

Translation

Os seres vivos neste mundo são forçados a experimentar as consequências de sua própria atividade anterior. Como o senhor Indra não pode mudar de maneira alguma o destino dos seres hu­manos, o qual nasce da própria natureza deles, por que se deveria adorá-lo?

Purport

SIGNIFICADOO argumento do Senhor Kṛṣṇa aqui não é uma negação do livre-arbítrio. Se aceitarmos a existência do karma como um sistema de leis que outorga reações para nossas atividades presentes, então nós mesmos, segundo nossa natureza, decidiremos o nosso futuro. Nossa felicidade e sofrimento nesta vida já foram determinados e fixados conforme nossas atividades anteriores, e nem mesmo os semideuses podem modificar isso. Eles têm de conceder-nos a prosperidade ou pobreza, doença ou saúde, felicidade ou sofrimento que nos cabem como resultado de nossos atos passados. Contudo, ainda conserva­mos a liberdade de escolher um modo piedoso ou ímpio de agir nesta vida, e a escolha que fizermos determinará nosso futuro sofrimento ou prazer.
Por exemplo, se fui piedoso em minha última vida, os semideuses podem conceder-me grande riqueza material nesta vida presente. Entretanto, sou livre para gastar minha riqueza em propósitos bons ou negativos, e minha escolha determinará minha vida futura. Logo, embora ninguém possa mudar os resultados kármicos que tem para receber nesta vida, todos ainda conservam o livre-arbítrio, pelo qual determinam qual será sua situação futura. O argumento do Senhor Kṛṣṇa neste verso é bastante interessante; todavia, ele despreza a consideração mais importante: a de que somos todos servos eternos de Deus e devemos satisfazê-lO mediante todos os nossos atos.
स्वभावतन्त्रो हि जन: स्वभावमनुवर्तते । स्वभावस्थमिदं सर्वं सदेवासुरमानुषम् ॥ १६ ॥
svabhāva-tantro hi janaḥ
svabhāvam anuvartate
svabhāva-stham idaṁ sarvaṁ
sa-devāsura-mānuṣam

Synonyms

svabhāvade sua natureza condicionada; tantraḥsob o controle; hide fato; janaḥuma pessoa; svabhāvamsua natureza; anuvartatesegue; svabhāva-sthambaseado em propensões condiciona­das; idameste mundo; sarvam inteiro; sajunto com; devaos semideuses; asuraos demônios; mānuṣame a humanidade.

Translation

Todo indivíduo está sob o controle de sua própria natureza condicionada e, por isso, deve seguir essa natureza. Este universo inteiro, com todos os seus semideuses, demônios e seres humanos, sustenta-se na natureza condicionada das entidades vivas.

Purport

SIGNIFICADOAqui o Senhor Kṛṣṇa desenvolve o argumento dado no verso pre­cedente. Já que tudo depende de svabhāva, ou a natureza condicio­nada da pessoa, por que se dar ao trabalho de adorar Deus ou os semideuses? Esse argumento seria sublime caso svabhāva, ou a natureza condicionada, fosse onipotente. Infelizmente, contudo, não é o caso. Existe um controlador supremo e devemos adorá-lO, como o Senhor Kṛṣṇa revelará enfaticamente neste capítulo do Śrīmad-Bhāgavatam. No momento, porém, Ele está contente em fazer troça com Seus parentes.
देहानुच्चावचाञ्जन्तु: प्राप्योत्सृजति कर्मणा । शत्रुर्मित्रमुदासीन: कर्मैव गुरुरीश्वर: ॥ १७ ॥
dehān uccāvacāñ jantuḥ
prāpyotsṛjati karmaṇā
śatrur mitram udāsīnaḥ
karmaiva gurur īśvaraḥ

Synonyms

dehāncorpos materiais; ucca-avacānde categoria superior ou inferior; jantuḥa entidade viva condicionada; prāpyaobtendo; utsṛjatiabandona; karmaṇāpelas reações de suas atividades materiais; śatruḥ seu inimigo; mitramamigo; udāsīnaḥe pessoa neutra; karma trabalho material; evaapenas; guruḥseu mestre espiritual; īśvaraḥ seu senhor.

Translation

Porque é o karma que faz com que a entidade viva condicio­nada aceite e depois abandone diferentes corpos materiais de ca­tegoria superior ou inferior, esse karma é seu inimigo, amigo e testemunha neutra, seu mestre espiritual e senhor controlador.

Purport

SIGNIFICADOAté mesmo os semideuses estão atados e limitados pelas leis do karma. Que o próprio Indra é subordinado às leis do karma está ex­plicitamente afirmado na Brahma-saṁhitā (5.54): yas tv indra-gopam atha vendram aho sva-karma-bandhānurūpa-phala-bhājanam ātanoti. O Senhor Supremo, Govinda, concede a todas as criaturas os re­sultados apropriados de seu trabalho. Isso é tão verdadeiro para o poderoso Indra, o senhor dos céus materiais, como o é para o germe chamado indra-gopa. A Bhagavad-gītā (7.20) também declara que kāmais tais tair hṛta-jñānāḥ prapadyante ’nya-devatāḥ. Somente aqueles que perderam sua inteligência por causa de vários desejos materiais rendem-se aos semideuses em vez de adorar o Senhor Supremo. De fato, os semideuses não podem conceder benefícios a ninguém de forma independente, como o afirma o Senhor Kṛṣṇa na Gītā: mayaiva vihitān hi tān. Em última análise, todos os benefícios provêm do próprio Senhor.
Portanto, não é de todo incorreto dizer que a adoração aos se­mideuses é inútil, pois mesmo os semideuses estão sob as leis do karma. De fato, é esse o caso. Mas o Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Verdade Absoluta, não está subordinado à lei do karma; ao contrário, Ele tem independência para oferecer ou retirar Seu favor. Isso se confirma no verso da Brahma-saṁhitā citado acima, cuja terceira linha é karmāṇi nirdahati kintu ca bhakti-bhājām: “O Senhor Supre­mo queima todo o karma acumulado daqueles que se ocupam em Seu serviço amoroso.” O Senhor Kṛṣṇa não apenas está acima das leis da ação e reação materiais, como Ele também pode dissolver de ime­diato essas leis para qualquer um que O satisfaça mediante o serviço amoroso. Dessa maneira, o Deus Onipotente é supremo em liberdade absoluta, e, através de nossa rendição a Ele, podemos escapar dos grilhões do karma e deixar de aceitar seu triste domínio como su­premo.
तस्मात्सम्पूजयेत्कर्म स्वभावस्थ: स्वकर्मकृत् । अञ्जसा येन वर्तेत तदेवास्य हि दैवतम् ॥ १८ ॥
tasmāt sampūjayet karma
svabhāva-sthaḥ sva-karma-kṛt
anjasā yena varteta
tad evāsya hi daivatam

Synonyms

tasmātportanto; sampūjayetdeve-se adorar totalmente; karma sua atividade prescrita; svabhāvana posição correspondente a sua própria natureza condicionada; sthaḥ permanecendo; sva-karmaseu próprio dever prescrito; kṛtexecutando; añjasāsem dificul­dade; yenapelo qual; vartetavive-se; tatisto; eva decerto; asyadele; hide fato; daivatamdeidade adorável.

Translation

Portanto, todos devem adorar seriamente o trabalho em si. Devem permanecer na posição correspondente à sua natureza e devem executar o próprio dever. De fato, aquilo por meio do qual podemos viver bem é, na realidade, nossa deidade adorável.

Purport

SIGNIFICADOAqui o Senhor Kṛṣṇa propõe a filosofia moderna, porém absurda, de que nosso trabalho ou ocupação é, na verdade, Deus e de que de­vemos, portanto, apenas adorar nosso trabalho. Mediante um exame minucioso, observamos que nosso trabalho não passa da interação do corpo material com a natureza material, como o próprio Senhor Kṛṣṇa afirma, em uma atitude mais séria, na Bhagavad-gītā (3.28): guṇā guṇeṣu vartanta. A filosofia karma-mīmāṁsā aceita que a execução de boas atividades nesta vida nos dará uma próxima vida melhor. Se isso é verdade, deve existir alguma espécie de alma consciente distinta do corpo. E se é esse o caso, por que uma alma transcendental deve adorar a interação do corpo temporário com a natureza material? Se as palavras sampūjayet karma aqui significam que se devem adorar as leis do karma que regem nossas atividades, então é possível pergun­tar astutamente o que quer dizer adorar as leis e, de fato, qual poderia ser a origem de tais leis e quem as está mantendo. Dizer que as leis criaram ou estão mantendo o mundo é uma proposição sem sentido, pois não há nada sobre a natureza de uma lei que indique que ela poderia gerar a situação existencial que se supõe que ela governe. De fato, a adoração destina-se ao próprio Kṛṣṇa, e essa conclusão verdadeira será revelada claramente neste capítulo.
आजीव्यैकतरं भावं यस्त्वन्यमुपजीवति । न तस्माद् विन्दते क्षेमं जारान् नार्यसती यथा ॥ १९ ॥
ājīvyaikataraṁ bhāvaṁ
yas tv anyam upajīvati
na tasmād vindate kṣemaṁ
jārān nāry asatī yathā

Synonyms

ājīvyasustentando sua vida; ekataram uma; bhāvamentida­de; yaḥquem; tumas; anyamoutra; upajīvatirecorre a; nanão; tasmāt daquela primeira; vindate ganha; kṣemam benefí­cio verdadeiro; jārāt de um amante; nārī uma mulher; asatīque não é casta; yathācomo.

Translation

Se algo de fato está sustentando nossa vida, mas nos abrigamos em outra coisa, como podemos conseguir algum benefício verdadeiro? Seríamos como uma mulher infiel, que jamais pode obter algum benefício real por entregar-se a seu amante.

Purport

SIGNIFICADOA palavra kṣemam significa prosperidade real, e não o mero acúmulo de dinheiro. Nesta passagem, o Senhor Kṛṣṇa argumenta ou­sadamente que assim como uma mulher jamais pode obter verdadeira dignidade ou iluminação com um amante ilícito, os resi­dentes de Vṛndāvana jamais serão felizes desprezando a verdadeira fonte de sua prosperidade e adorando Indra em Seu lugar. Segundo Śrīla Jīva Gosvāmī, deve-se entender a audácia que o menino Kṛṣṇa exibiu diante de Seu pai e de outras pessoas mais velhas como uma exibição de ira transcendental despertada quando Ele viu Seus devo­tos eternos adorando um semideus insignificante.
वर्तेत ब्रह्मणा विप्रो राजन्यो रक्षया भुव: । वैश्यस्तु वार्तया जीवेच्छूद्रस्तु द्विजसेवया ॥ २० ॥
varteta brahmaṇā vipro
rājanyo rakṣayā bhuvaḥ
vaiśyas tu vārtayā jīvec
chūdras tu dvija-sevayā

Synonyms

varteta vive; brahmaṇāpelos Vedas; vipraḥo brāhmaṇa; rā­janyaḥo membro da classe governante; rakṣayāpela proteção; bhuvaḥda terra; vaiśyaḥo vaiśya; tu por outro lado; vārtayā pelo comércio; jīvet vive; śudraḥ o śūdra; tu e; dvija-sevayā por servir os brāhmaṇas, kṣatriyas e vaiśyas duas vezes nascidos.

Translation

O brāhmaṇa se mantém através do estudo e ensino dos Vedas; o membro da ordem real, através da proteção da terra; o vaiśya, através do comércio, e o śūdra, através do serviço às classes su­periores dos duas vezes nascidos.

Purport

SIGNIFICADODepois de glorificar o karma, ou trabalho, o Senhor Kṛṣṇa agora explica o que Ele quer dizer com deveres prescritos nascidos da natureza da pessoa. Ele não se referia a nenhuma atividade caprichosa, mas sim aos deveres religiosos prescritos no varṇāśrama, ou siste­ma social védico.
कृषिवाणिज्यगोरक्षा कुसीदं तूर्यमुच्यते । वार्ता चतुर्विधा तत्र वयं गोवृत्तयोऽनिशम् ॥ २१ ॥
kṛṣi-vāṇijya-go-rakṣā
kusīdaṁ tūryam ucyate
vārtā catur-vidhā tatra
vayaṁ go-vṛttayo ’niśam

Synonyms

kṛṣi agricultura; vāṇijya comércio; go-rakṣā e proteção às vacas; kusīdamatividade bancária; tūryama quarta; ucyateafirma-se; vārtā o dever ocupacional; catuḥ-vidhā quádruplo; tatraentre estes; vayam nós; go-vṛttayaḥ ocupados em proteger as vacas; aniśamsem cessar.

Translation

Os deveres ocupacionais dos vaiśyas dividem-se em quatro: agricultura, comércio, proteção às vacas e empréstimo de dinhei­ro. Fora isso, nós, como comunidade, sempre nos ocupamos em proteção às vacas.
सत्त्वं रजस्तम इति स्थित्युत्पत्त्यन्तहेतव: । रजसोत्पद्यते विश्वमन्योन्यं विविधं जगत् ॥ २२ ॥
sattvaṁ rajas tama iti
sthity-utpatty-anta-hetavaḥ
rajasotpadyate viśvam
anyonyaṁ vividhaṁ jagat

Synonyms

sattvambondade; rajanpaixão; tamaḥe ignorância; itiassim; sthiti da manutenção; utpatti criação; antae destruição; heta­vaḥ as causas; rajasā pelo modo da paixão; utpadyateé gera­do; viśvam este universo; anyonyampela combinação de macho e fêmea; vividhamtorna-se variado; jagato mundo.

Translation

As causas da criação, manutenção e destruição são os três modos da natureza – a saber, bondade, paixão e ignorância. Em particular, o modo da paixão cria este universo e, através da combinação sexual, faz com que ele se encha de variedade.

Purport

SIGNIFICADOAntecipando a possível objeção de que manter a vida baseando-se nas vacas sem dúvida depende do senhor Indra, que fornece chuva, o Senhor Kṛṣṇa aqui introduz a teoria mecanicista da existência conhecida como sāṅkhya ateísta. A tendência a atribuir exclusiva causalidade às funções aparentemente mecanicistas da natureza é de fato uma tendência antiga. Há cinco mil anos, o Senhor Kṛṣṇa já fazia re­ferência a uma doutrina bem conhecida na sociedade humana.
रजसा चोदिता मेघा वर्षन्त्यम्बूनि सर्वत: । प्रजास्तैरेव सिध्यन्ति महेन्द्र: किं करिष्यति ॥ २३ ॥
rajasā coditā meghā
varṣanty ambūni sarvataḥ
prajās tair eva sidhyanti
mahendraḥ kiṁ kariṣyati

Synonyms

rajasā pela paixão; coditāḥimpelidas; meghāḥ as nuvens; var­ṣantiderramam; ambūni suas águas; sarvataḥ em toda parte; prajāḥ a população; taiḥ com aquela água; evasimplesmente; sidhyantimantêm sua existência; mahā-indraḥo grande Indra; kim o que; kariṣyati pode fazer.

Translation

Impelidas pelo modo material da paixão, as nuvens derramam suas águas em toda parte, e, com essa chuva, todas as criaturas subsistem. O que o grande Indra tem a ver com este arranjo?

Purport

SIGNIFICADOO Senhor Kṛṣṇa, na continuação de Sua explicação mecanicista da existência, conclui que mahendraḥ kiṁ kariṣyati: “Quem precisa do grande Indra, já que a chuva, mandada pelas nuvens, que por sua vez são impelidas pelo modo da paixão, de fato produz o alimento do mundo inteiro?” A palavra sarvataḥ indica que as nuvens enviam sua chuva magnânima até mesmo sobre o oceano, rochas e terras áridas, onde aparentemente não há necessidade dessa água doce.
न न: पुरो जनपदा न ग्रामा न गृहा वयम् । वनौकसस्तात नित्यं वनशैलनिवासिन: ॥ २४ ॥
na naḥ purojanapadā
na grāmā na gṛhā vayam
vanaukasas tāta nityaṁ
vana-śaila-nivāsinaḥ

Synonyms

na não; naḥ para nós; puraḥas cidades; jana-padāḥárea habitada desenvolvida; nanão; grāmāḥvilas; nanão; gṛhāḥ morando em casas permanentes; vayamnós; vana-okasaḥmorando nas florestas; tātaMeu querido pai; nityamsempre; vananas florestas; śaila e nas colinas; nivāsinaḥvivendo.

Translation

Meu querido pai, nosso lar não fica nas cidades grandes, nem nas vilas. Por sermos habitantes da floresta, sempre moramos na floresta e nas colinas.

Purport

SIGNIFICADONeste verso, o Senhor Kṛṣṇa ressalta que os residentes de Vṛndāvana devem reconhecer sua relação com a colina Govardhana e com as florestas de Vṛndāvana, e não se preocupar com um semideus distante como Indra. Tendo concluído Seu argumento, o Senhor Kṛṣṇa faz uma proposta radical no verso seguinte.
तस्माद् गवां ब्राह्मणानामद्रेश्चारभ्यतां मख: । य इन्द्रयागसम्भारास्तैरयं साध्यतां मख: ॥ २५ ॥
tasmād gavāṁ brāhmaṇānām
adreś cārabhyatāṁ makhaḥ
ya indra-yāga-sambhārās
tair ayaṁ sādhyatāṁ makhaḥ

Synonyms

tasmātportanto; gavāmdas vacas; brāhmaṇānāmdos brāhmaṇas; adreḥ e da colina (Govardhana); ca também; ārabhyatāmque comece; makhaḥo sacrifício; ye que; indra-yāga para o sacrifício a Indra; sambhārāḥos ingredientes; taiḥcom eles; ayameste; sādhyatām que seja executado; makhaḥo sacrifício.

Translation

Portanto, que se dê início a um sacrifício para o prazer das vacas, dos brāhmaṇas e da colina Govardhana! Com toda a parafernália reunida para adorar Indra, que se faça em seu lugar este sacrifício.

Purport

SIGNIFICADOO Senhor Kṛṣṇa é famoso como go-brāhmaṇa-hita, o amigo ben­querente das vacas e dos brāhmaṇas. O Senhor Kṛṣṇa incluiu especi­ficamente os brāhmaṇas locais em Sua proposta porque Ele é sempre devotado àqueles que se dedicam à piedosa cultura védica.
पच्यन्तां विविधा: पाका: सूपान्ता: पायसादय: । संयावापूपशष्कुल्य: सर्वदोहश्च गृह्यताम् ॥ २६ ॥
pacyantāṁ vividhāḥ pākāḥ
sūpāntāḥ pāyasādayaḥ
saṁyāvāpūpa-śaṣkulyaḥ
sarva-dohaś ca gṛhyatām

Synonyms

pacyantāmque se cozinhem; vividhāḥmuitas variedades; pākāḥde alimentos cozidos; sūpa-antāḥterminando com sopas de legumes sem pedaços; pāyasa-ādayaḥ começando com arroz-doce; saṁyāva-āpūpabolos fritos e assados; śaṣkulyaḥgrandes bolos redondos de farinha de arroz; sarvatudo; dohaḥo que se obtém ordenhando as vacas; cae; gṛhyatāmque se tome.

Translation

Que se cozinhem muitas espécies diferentes de preparações, de arroz-doce a sopas de legumes! Devem-se preparar muitas espé­cies de bolos finos, tanto assados como fritos. E devem-se usar neste sacrifício todos os laticínios disponíveis.

Purport

SIGNIFICADOA palavra sūpa indica caldo de grãos e também sopa de legumes sem pedaços. Portanto, para celebrar o Govardhana-pūjā, o Senhor Kṛṣṇa pediu preparações quentes como sopa, preparações frias como arroz-doce e todos os tipos de produtos lácteos.
हूयन्तामग्नय: सम्यग्ब्राह्मणैर्ब्रह्मवादिभि: । अन्नं बहुगुणं तेभ्यो देयं वो धेनुदक्षिणा: ॥ २७ ॥
hūyantām agnayaḥ samyag
brāhmaṇair brahma-vādibhiḥ
annaṁ bahu-guṇaṁ tebhyo
deyaṁ vo dhenu-dakṣiṇāḥ

Synonyms

hūyantāmdevem-se invocar; agnayaḥos fogos de sacrifício; samyakda maneira apropriada; brāhmaṇaiḥpelos brāhmaṇas; brahma-vādibhiḥ que são versados nos Vedas; annamcomida; bahu-guṇambem preparada; tebhyaḥa eles; deyamdeve-se dar; vaḥ por vós; dhenu-dakṣiṇāḥvacas e outros presentes como remuneração.

Translation

Os brāhmaṇas que são versados nos mantras védicos devem invocar corretamente os fogos de sacrifício. Em seguida, deveis servir aos sacerdotes alimentos bem preparados e retribuí-los com vacas e outros presentes.

Purport

SIGNIFICADODe acordo com Śrīla Śrīdhara Svāmī, o Senhor Śrī Kṛṣṇa instruiu Seu pai e os outros residentes de Vṛndāvana sobre os detalhes técni­cos deste sacrifício védico para assegurar a qualidade do sacrifício e também para inspirar em Nanda e nos outros a fé no conceito de tal sacrifício. Dessa forma, o Senhor mencionou que deve haver brāhmaṇas ortodoxos, sacrifícios de fogo regulares e adequada distribuição de caridade. E deve-se fazer tudo isso na ordem dada pelo Senhor.
अन्येभ्यश्चाश्वचाण्डालपतितेभ्यो यथार्हत: । यवसं च गवां दत्त्वा गिरये दीयतां बलि: ॥ २८ ॥
anyebhyaś cāśva-cāṇḍāla-
patitebhyo yathārhataḥ
yavasaṁ ca gavāṁ dattvā
giraye dīyatāṁ baliḥ

Synonyms

anyebhyaḥ aos outros; catambém; ā-śva-cāṇḍāladescendo até os cães e comedores de cães; patitebhyaḥa tais pessoas caídas; yathācomo; arhataḥé apropriado em cada caso; yavasamgrama; ca e; gavāmàs vacas; dattvātendo dado; giraye à montanha chamada Govardhana; dīyatāmdevem ser presenteadas; baliḥ oferendas respeitosas.

Translation

Depois de fornecer alimentos de modo conveniente a cada um dos presentes, inclusive os comedores de cães, os cães e outras pessoas caídas, deveis dar grama às vacas e, então, apresentar vossas respeitosas oferendas à colina Govardhana.
स्वलङ्कृता भुक्तवन्त: स्वनुलिप्ता: सुवासस: । प्रदक्षिणां च कुरुत गोविप्रानलपर्वतान् ॥ २९ ॥
sv-alaṅkṛtā bhuktavantaḥ
sv-anuliptāḥ su-vāsasaḥ
pradakṣiṇāṁ ca kuruta
go-viprānala-parvatān

Synonyms

su-alaṅkṛtāḥbelamente adornados; bhuktavantaḥtendo comi­do até vos fartardes; su-anuliptāḥungidos com auspiciosa polpa de sândalo; su-vāsasaḥusando roupas finas; pradakṣiṇāmo ato de circungirar; cae; kuruta deveis executar; godas vacas; vipraos brāhmaṇas; anala os fogos de sacrifício; parvatāne a colina, Govardhana.

Translation

Depois que todos estiverem satisfeitos, deveis vos vestir e enfeitar belamente, ungir vossos corpos com pasta de sândalo e, então, circungirar as vacas, os brāhmaṇas, os fogos do sacrifício e a colina Govardhana.

Purport

SIGNIFICADOO Senhor Kṛṣṇa queria que todos os seres humanos e até os ani­mais comessem saborosa bhagavat-prasāda, alimentos santificados oferecidos ao Senhor. Para entusiasmar Seus parentes com um humor festivo, Ele pediu que se vestissem com roupas e ornamentos belos e elegantes e refrescassem o corpo com a fina pasta de sândalo. A atividade essencial, todavia, era circungirar os brāhmaṇas santos, as vacas, os fogos do sacrifício e sobretudo a colina Govardhana.
एतन्मम मतं तात क्रियतां यदि रोचते । अयं गोब्राह्मणाद्रीणां मह्यं च दयितो मख: ॥ ३० ॥
etan mama mataṁ tāta
kriyatāṁ yadi rocate
ayaṁ go-brāhmaṇādrīṇāṁ
mahyaṁ ca dayito makhaḥ

Synonyms

etatesta; mamaMinha; matam ideia; tāta ó pai; kriyatām que seja executada; yadise; rocate for agradável; ayam este; go-brāhmaṇa-adrīṇāmpara as vacas, brāhmaṇas e a colina Govardhana; mahyam para Mim; catambém; dayitaḥapreciado; makhaḥsacrifício.

Translation

Esta é Minha ideia, ó pai, e podeis executá-la se vos agradar. Tal sacrifício será muito querido para as vacas, os brāhmaṇas e a colina Govardhana, e também para Mim.

Purport

SIGNIFICADOTudo o que agrade aos brāhmaṇas, às vacas e ao próprio Senhor Supremo é auspicioso e benéfico para o mundo todo. As pessoas “modernas”, espiritualmente cegas, não entendem esse ponto e, em vez disso, adotam uma maneira “científica” de encarar a vida, que está destruindo rapidamente a Terra inteira.
श्रीशुक उवाच
कालात्मना भगवता शक्रदर्प जिघांसया । प्रोक्तं निशम्य नन्दाद्या: साध्वगृह्णन्त तद्वच: ॥ ३१ ॥
śrī-śuka uvāca
kālātmanā bhagavatā
śakra-darpa-jighāṁsayā
proktaṁ niśamya nandādyāḥ
sādhv agṛhṇanta tad-vacaḥ

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; kāla-ātmanā que Se manifesta como a força do tempo; bhagavatāpela Suprema Personalidade de Deus; śakrade Indra; darpao orgulho; jighāṁ­sayācom desejo de destruir; proktamo que foi dito; niśamya ouvindo; nanda-ādyāḥ Nanda e os outros vaqueiros mais velhos; sādhucomo excelentes; agṛhṇanta aceitaram; tat-vacaḥSuas palavras.

Translation

Śukadeva Gosvāmī disse: O Senhor Kṛṣṇa, que é Ele mesmo o poderoso tempo, desejava destruir o falso orgulho do senhor Indra. Quando Nanda e os outros homens mais velhos de Vṛndāvana ouviram a exposição de Śrī Kṛṣṇa, aceitaram Suas palavras como convenientes.
तथा च व्यदधु: सर्वं यथाह मधुसूदन: । वाचयित्वा स्वस्त्ययनं तद्‌‌द्रव्येण गिरिद्विजान् ॥ ३२ ॥ उपहृत्य बलीन् सम्यगाद‍ृता यवसं गवाम् । गोधनानि पुरस्कृत्य गिरिं चक्रु: प्रदक्षिणम् ॥ ३३ ॥
tathā ca vyadadhuḥ sarvaṁ
yathāha madhusūdanaḥ
vācayitvā svasty-ayanaṁ
tad-dravyeṇa giri-dvijān
upahṛtya balīn samyag
ādṛtā yavasaṁ gavām
go-dhanāni puraskṛtya
giriṁ cakruḥ pradakṣiṇam

Synonyms

tathā assim; cae; vyadadhuḥexecutaram; sarvam tudo; yathācomo; āhafalou; madhusūdanaḥ o Senhor Kṛṣṇa; vācayitvāfazendo (os brāhmaṇas) recitarem; svasti-ayanamos cantos auspiciosos; tat-dravyeṇacom a parafernália destinada ao sacrifício a Indra; girià colina; dvijān e aos brāhmaṇas; upahṛtya oferecendo; balīn as apresentações de tributo; samyak todos juntos; ādṛtāḥ respeitosamente; yavasamcapim; gavāmàs vacas; go­-dhanāni os touros, vacas e bezerros; puraskṛtya colocando na frente; girim da colina; cakruḥ executaram; pradakṣiṇamo circungirar.

Translation

A comunidade dos vaqueiros fez então tudo o que Madhusū­dana sugerira. Providenciaram para que os brāhmaṇas recitas­sem os mantras védicos auspiciosos e, usando a parafernália que se destinava para o sacrifício a Indra, apresentaram oferendas à colina Govardhana e aos brāhmaṇas com respeito reverencial. Além disso, deram capim às vacas. Então, colocando as vacas, touros e bezerros diante deles, circungiraram Govardhana.

Purport

SIGNIFICADOOs residentes de Vṛndāvana eram simplesmente devotados ao Senhor Kṛṣṇa; esta era a essência de sua existência. Por serem companheiros eternos do Senhor, eles não estavam, em última análise, preocupados com o senhor Indra nem com o sacrifício ritualístico, e com certeza não se interessavam pela filosofia mecanicista que Kṛṣṇa acabara de expor. Eles apenas amavam Kṛṣṇa e, devido à in­tensa afeição, fizeram exatamente o que Ele havia pedido.
A mentalidade simples e amorosa deles não decorria de uma visão de mundo estreita ou ignorante, pois eles eram devotados à Suprema Verdade Absoluta, que contém em Si toda a existência. Portanto, os residentes de Vṛndāvana experimentavam constantemente a verdade essencial mais elevada que fundamenta todas as outras verdades – e esta é o próprio Śrī Kṛṣṇa, a causa de todas as causas e o que sustenta a existência de tudo o que existe. Os residentes de Vṛndāvana viviam imersos no serviço amoroso àquela Suprema Verdade Absoluta; por isso eram os mais afortunados, mais inteligentes e mais pragmáticos de todos os seres vivos.
अनांस्यनडुद्युक्तानि ते चारुह्य स्वलङ्कृता: । गोप्यश्च कृष्णवीर्याणि गायन्त्य: सद्विजाशिष: ॥ ३४ ॥
anāṁsy anaḍud-yuktāni
te cāruhya sv-alaṅkṛtāḥ
gopyaś ca kṛṣṇa-vīryāṇi
gāyantyaḥ sa-dvijāśiṣaḥ

Synonyms

anāṁsiem carroças; anaḍut-yuktānicom bois atrelados; te elas; ca e; āruhyamontando; su-alaṅkṛtāḥbelamente ornamentadas; gopyaḥ as vaqueiras; cae; kṛṣṇa-vīryāṇias glórias do Senhor Kṛṣṇa; gāyantyaḥcantando; sajunto de; dvijados brāhmaṇas; āśiṣaḥas bênçãos.

Translation

Enquanto seguiam pelo caminho, sentadas em carroças puxa­das por bois, as vaqueiras muito bem enfeitadas cantavam as glórias do Senhor Kṛṣṇa, e seus cantos se misturavam com o canto de bênçãos dos brāhmaṇas.
कृष्णस्त्वन्यतमं रूपं गोपविश्रम्भणं गत: । शैलोऽस्मीति ब्रुवन् भूरि बलिमादद् बृहद्वपु: ॥ ३५ ॥
kṛṣṇas tv anyatamaṁ rūpaṁ
gopa-viśrambhaṇaṁ gataḥ
śailo ’smīti bruvan bhūri
balim ādad bṛhad-vapuḥ

Synonyms

kṛṣṇaḥo Senhor Kṛṣṇa; tu e então; anyatamanoutra; rūpamforma transcendental; gopa-viśrambhaṇampara incutir fé nos vaqueiros; gataḥ assumiu; śailaḥa montanha; asmi sou; iti estas palavras; bruvandizendo; bhūriabundantes; balimas oferen­das; ādatdevorou; bṛhat-vapuḥsob Sua imensa forma.

Translation

Para incutir fé nos vaqueiros, Kṛṣṇa então assumiu uma forma imensa, sem precedentes. Declarando “Eu sou a montanha Govardhana!”, Ele comeu as abundantes oferendas.

Purport

SIGNIFICADONo capítulo vinte e quatro de Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, Śrīla Prabhupāda escreve: “Quando tudo estava completo, Kṛṣṇa, para convencer os devotos de que a colina Govardhana e Ele próprio são idênticos, assumiu uma grande forma transcendental e declarou aos habitantes de Vṛndāvana que Ele mesmo era a colina Govardhana. Então, Kṛṣṇa começou a comer toda a comida oferecida ali. A identidade de Kṛṣṇa e da colina Govardhana ainda é honrada, e grandes devotos pegam rochas da colina Govardhana e as adoram da mesma maneira como adoram a Deidade de Kṛṣṇa nos templos. Os devotos, portanto, recolhem pequenas rochas ou seixos da colina Govardhana e as adoram em casa, porque essa adoração equivale à adoração à Deidade.”
O Senhor Kṛṣṇa induzira os residentes de Vṛndāvana a assumir um risco significativo por causa dEle. Ele os convenceu a desprezar um sacrifício destinado, afinal, ao poderoso governo do universo e, em vez disso, adorar uma colina chamada Govardhana. A comunidade dos vaqueiros fez tudo isso apenas por amor a Kṛṣṇa, e agora, para convencê-los de que a decisão deles era correta, o Senhor Kṛṣṇa apareceu sob uma enorme e extraordinária forma transcendental e demonstrou que Ele mesmo era a colina Govardhana.
तस्मै नमो व्रजजनै: सह चक्र आत्मनात्मने । अहो पश्यत शैलोऽसौ रूपी नोऽनुग्रहं व्यधात् ॥ ३६ ॥
tasmai namo vraja-janaiḥ
saha cakra ātmanātmane
aho paśyata śailo ’sau
rūpī no ’nugrahaṁ vyadhāt

Synonyms

tasmaia Ele; namaḥreverências; vraja-janaiḥcom o povo de Vraja; saha juntamente; cakreEle fez; ātmanā por Si mesmo; ātmanea Si mesmo; ahoah; paśyata vede só; śailaḥcoli­na; asauesta; rūpīmanifesta em pessoa; naḥ para nós; anugraham misericórdia; vyadhātconcedeu.

Translation

Junto com o povo de Vraja, o Senhor prostrou-Se diante dessa forma da colina Govardhana e assim de fato ofereceu reverências a Si mesmo. Então, Ele disse: “Vede só como esta colina apa­receu em pessoa e nos concedeu misericórdia!”

Purport

SIGNIFICADOFica evidente através deste verso que o Senhor Kṛṣṇa Se expandira e estava aparecendo sob Sua forma normal entre os participantes do festival de Vṛndāvana e, ao mesmo tempo, manifestando-Se como a grande forma da colina Govardhana. Dessa maneira, sob Sua forma de menino, Kṛṣṇa liderou os residentes de Vṛndāvana no ato de prostrarem-se diante de Sua nova encarnação como a colina Govardhana e salientou a todos a grande misericórdia concedida por essa divina forma de Govardhana. As surpreendentes atividades transcendentais do Senhor Kṛṣṇa decerto estavam em harmonia com a atmosfera festiva.
एषोऽवजानतो मर्त्यान् कामरूपी वनौकस: । हन्ति ह्यस्मै नमस्याम: शर्मणे आत्मनो गवाम् ॥ ३७ ॥
eṣo ’vajānato martyān
kāma-rūpī vanaukasaḥ
hanti hy asmai namasyāmaḥ
śarmaṇe ātmano gavām

Synonyms

eṣaḥesta; avajānataḥaqueles que desprezam; martyānmortais; kāma-rūpī assumindo qualquer forma livremente (tal como a das cobras que vivem sobre a colina); vana-okasaḥresidentes da floresta; hantimatará; hidecerto; asmaia ela; namasyāmaḥprestemos reverências; śarmaṇepara a proteção; ātmanaḥnossa; ga­vāme das vacas.

Translation

“Esta colina Govardhana, assumindo qualquer forma que desejar, matará quaisquer residentes da floresta que a despreze. Portanto, prestemos-lhe reverências para garantir nossa seguran­ça e a de nossas vacas.”

Purport

SIGNIFICADOKāma-rūpī indica que a forma de Govardhana pode manifestar-se como cobras venenosas, animais selvagens, avalanche de pedras e assim por diante, todos os quais são capazes de matar um ser humano.
Segundo Śrīla Śrīdhara Svāmī, o Senhor apresentou seis pontos teóricos neste capítulo: 1) que só o karma é suficiente para determi­nar nosso destino, 2) que nossa natureza condicionada é o controlador supremo, 3) que os modos da natureza são o controlador supremo, 4) que o Senhor Supremo é apenas um aspecto dependente do karma, 5) que Ele está sob o controle do karma, e 6) que nossa ocupação é a verdadeira deidade adorável.
O Senhor apresentou esses argumentos não por acreditar neles, mas sim porque queria impedir o iminente sacrifício a Indra e desviá-­lo para Si sob a forma da colina Govardhana. Dessa maneira, o Senhor desejava agitar aquele semideus falsamente orgulhoso.
इत्यद्रिगोद्विजमखं वासुदेवप्रचोदिता: । यथा विधाय ते गोपा सहकृष्णा व्रजं ययु: ॥ ३८ ॥
ity adri-go-dvija-makhaṁ
vāsudeva-pracoditāḥ
yathā vidhāya te gopā
saha-kṛṣṇā vrajaṁ yayuḥ

Synonyms

itidessa maneira; adri à colina Govardhana; goàs vacas; dvija e aos brāhmaṇas; makhamo grande sacrifício; vāsudevapelo Senhor Kṛṣṇa; pracoditāḥincentivados; yathāde modo adequado; vidhāyaexecutando; teeles; gopāḥ os vaqueiros; saha­-kṛṣṇāḥjunto com o Senhor Kṛṣṇa; vrajama Vraja; yayuḥforam.

Translation

Os membros da comunidade pastoril, tendo sido assim inspirados pelo Senhor Vāsudeva a executar bem o sacrifício à colina Govardhana, às vacas e aos brāhmaṇas, retornaram com o Senhor Kṛṣṇa à vila de Vraja.

Purport

SIGNIFICADOEmbora o Govardhana-pūjā tenha sido executado de modo bem­-aventurado e com sucesso, o assunto ainda não se acabara. O senhor Indra é, afinal, tremendamente poderoso e recebeu a notícia do sacrifício a Govardhana com grande ira. O que se seguiu será descrito no próximo capítulo.
Neste ponto, encerram-se os significados apresentados pelos humildes servos de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhu­pāda referentes ao décimo canto, vigésimo quarto capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Adoração da Colina Govardhana”.