Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Quinze
Os Pāṇḍavas se Retiram no Momento Oportuno
Devanagari
सूत उवाच
एवं कृष्णसख: कृष्णो भ्रात्रा राज्ञा विकल्पित: ।
नानाशङ्कास्पदं रूपं कृष्णविश्लेषकर्शित: ॥ १ ॥
एवं कृष्णसख: कृष्णो भ्रात्रा राज्ञा विकल्पित: ।
नानाशङ्कास्पदं रूपं कृष्णविश्लेषकर्शित: ॥ १ ॥
Verse text
sūta uvāca
evaṁ kṛṣṇa-sakhaḥ kṛṣṇo
bhrātrā rājñā vikalpitaḥ
nānā-śaṅkāspadaṁ rūpaṁ
kṛṣṇa-viśleṣa-karśitaḥ
evaṁ kṛṣṇa-sakhaḥ kṛṣṇo
bhrātrā rājñā vikalpitaḥ
nānā-śaṅkāspadaṁ rūpaṁ
kṛṣṇa-viśleṣa-karśitaḥ
Synonyms
sūtaḥ uvāca — Sūta Gosvāmī disse; evam — assim; kṛṣṇa-sakhaḥ — o célebre amigo de Kṛṣṇa; kṛṣṇaḥ — Arjuna; bhrātrā — por seu irmão mais velho; rājñā — rei Yudhiṣṭhira; vikalpitaḥ — especuladas; nānā — várias; śaṅka-āspadam — baseado em muitas dúvidas; rūpam — formas; kṛṣṇa — Senhor Śrī Kṛṣṇa; viśleṣa — sentimentos de separação; karśitaḥ — ficou muito pesaroso.
Translation
Sūta Gosvāmī disse: Arjuna, o célebre amigo do Senhor Kṛṣṇa, estava ferido de pesar por causa de seu forte sentimento de separação de Kṛṣṇa, além de todas as perguntas especulativas de Mahārāja Yudhiṣṭhira.
Purport
SIGNIFICADO—Estando muitíssimo aflito, Arjuna ficou praticamente em estado de choque, de modo que não lhe foi possível responder adequadamente às várias perguntas especulativas de Mahārāja Yudhiṣṭhira.
Devanagari
शोकेन शुष्यद्वदनहृत्सरोजो हतप्रभ: ।
विभुं तमेवानुस्मरन्नाशक्नोत्प्रतिभाषितुम् ॥ २ ॥
विभुं तमेवानुस्मरन्नाशक्नोत्प्रतिभाषितुम् ॥ २ ॥
Verse text
śokena śuṣyad-vadana-
hṛt-sarojo hata-prabhaḥ
vibhuṁ tam evānusmaran
nāśaknot pratibhāṣitum
hṛt-sarojo hata-prabhaḥ
vibhuṁ tam evānusmaran
nāśaknot pratibhāṣitum
Synonyms
śokena — devido ao pesar; śuṣyad-vadana — ressecamento da boca; hṛt-sarojaḥ — coração semelhante ao lótus; hata — perdeu; prabhaḥ — brilho corporal; vibhum — o Supremo; tam — ao Senhor Kṛṣṇa; eva — certamente; anusmaran — pensando dentro de si; na — não podia; aśaknot — ser capaz; pratibhāṣitum — respondendo adequadamente.
Translation
Devido ao pesar, a boca de Arjuna e seu coração semelhante ao lótus secaram. Assim, seu corpo perdeu todo o brilho. Agora, relembrando o Senhor Supremo, ele mal podia proferir uma palavra em resposta.
Devanagari
कृच्छ्रेण संस्तभ्य शुच: पाणिनामृज्य नेत्रयो: ।
परोक्षेण समुन्नद्धप्रणयौत्कण्ठ्यकातर: ॥ ३ ॥
परोक्षेण समुन्नद्धप्रणयौत्कण्ठ्यकातर: ॥ ३ ॥
Verse text
kṛcchreṇa saṁstabhya śucaḥ
pāṇināmṛjya netrayoḥ
parokṣeṇa samunnaddha-
praṇayautkaṇṭhya-kātaraḥ
pāṇināmṛjya netrayoḥ
parokṣeṇa samunnaddha-
praṇayautkaṇṭhya-kātaraḥ
Synonyms
kṛcchreṇa — com grande dificuldade; saṁstabhya — por deter à força; śucaḥ — de desorientação; pāṇinā — com suas mãos; āmṛjya — esfregando; netrayoḥ — os olhos; parokṣeṇa — devido a estar além do alcance da visão; samunnaddha — de maneira crescente; praṇaya-autkaṇṭhya — pensando avidamente na afeição; kātaraḥ — em aflição.
Translation
Com grande dificuldade, ele estancou as lágrimas de pesar que untavam seus olhos. Ele estava muito aflito porque o Senhor Kṛṣṇa não estava ao alcance de seus olhos, e sentia cada vez mais afeição por Ele.
Devanagari
सख्यं मैत्रीं सौहृदं च सारथ्यादिषु संस्मरन् ।
नृपमग्रजमित्याह बाष्पगद्गदया गिरा ॥ ४ ॥
नृपमग्रजमित्याह बाष्पगद्गदया गिरा ॥ ४ ॥
Verse text
sakhyaṁ maitrīṁ sauhṛdaṁ ca
sārathyādiṣu saṁsmaran
nṛpam agrajam ity āha
bāṣpa-gadgadayā girā
sārathyādiṣu saṁsmaran
nṛpam agrajam ity āha
bāṣpa-gadgadayā girā
Synonyms
sakhyam — fazendo bons votos; maitrīm — bênção; sauhṛdam — intimamente relacionado; ca — também; sārathya-ādiṣu — ao tornar-se o quadrigário; saṁsmaran — relembrando tudo isso; nṛpam — ao rei; agrajam — o irmão mais velho; iti — então; āha — disse; bāṣpa — respirando pesadamente; gadgadayā — constrangidamente; girā — pelas palavras.
Translation
Relembrando o Senhor Kṛṣṇa e Seus bons votos, benefícios, relações familiares íntimas e Seu dirigir de quadriga, Arjuna, constrangido e respirando pesadamente, começou a falar.
Purport
SIGNIFICADO—O Ser Vivo Supremo é perfeito em todas as relações com Seu devoto puro. Śrī Arjuna é um dos típicos devotos puros do Senhor, reciprocando na relação de fraternidade, e os tratos do Senhor com Arjuna são demonstrações de amizade da mais elevada e perfeita ordem. Ele era não somente um benquerente de Arjuna, mas, na verdade, um benfeitor, e, para fazer isso ainda mais perfeito, o Senhor o atou em uma relação familiar, arranjando o casamento de Subhadrā com ele. E, acima de tudo, o Senhor concordou em Se tornar quadrigário de Arjuna para proteger Seu amigo dos riscos da guerra, e o Senhor ficou realmente feliz quando estabeleceu os Pāṇḍavas no governo de todo o mundo. Arjuna relembrou todas essas coisas, uma após a outra, e ficou comovido com tais pensamentos.
Devanagari
अर्जुन उवाच
वञ्चितोऽहं महाराज हरिणा बन्धुरूपिणा ।
येन मेऽपहृतं तेजो देवविस्मापनं महत् ॥ ५ ॥
वञ्चितोऽहं महाराज हरिणा बन्धुरूपिणा ।
येन मेऽपहृतं तेजो देवविस्मापनं महत् ॥ ५ ॥
Verse text
arjuna uvāca
vañcito ’haṁ mahā-rāja
hariṇā bandhu-rūpiṇā
yena me ’pahṛtaṁ tejo
deva-vismāpanaṁ mahat
vañcito ’haṁ mahā-rāja
hariṇā bandhu-rūpiṇā
yena me ’pahṛtaṁ tejo
deva-vismāpanaṁ mahat
Synonyms
arjunaḥ uvāca — Arjuna disse; vañcitaḥ — deixado por Ele; aham — eu mesmo; mahā-rāja — ó rei; hariṇā — pela Personalidade de Deus; bandhu-rūpiṇā — como se fosse um amigo íntimo; yena — por quem; me — meu; apahṛtam — eu estou destituído; tejaḥ — poder; deva — os semideuses; vismāpanam — surpreendente; mahat — assustador.
Translation
Arjuna disse: Ó rei! A Suprema Personalidade de Deus, Hari, que me tratou exatamente como um amigo íntimo, deixou-me sozinho. Desse modo, meu poder surpreendente, que pasmava até mesmo os semideuses, já não está comigo.
Purport
SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (10.41), o Senhor diz: “Qualquer pessoa especificamente poderosa e opulenta em riqueza, força, beleza, conhecimento e tudo que é materialmente desejável deve ser considerada como nada mais que um produto de uma porção insignificante da totalidade de Minha energia.” Portanto, ninguém pode ser independentemente poderoso, em nenhuma medida, sem ser dotado de poder pelo Senhor. Quando o Senhor desce à Terra, juntamente com Seus associados sempre liberados, Ele não somente mostra a energia divina que Ele mesmo possui, mas também dota de poder Seus devotos associados, com a energia necessária para executar Sua missão de encarnação. Na Bhagavad-gītā (4.5), também se afirma que o Senhor e Seus associados eternos descem à Terra muitas vezes, mas o Senhor Se recorda de todos os Seus diferentes papéis de encarnações, ao passo que os associados, por Sua vontade suprema, os esquecem. De forma similar, o Senhor leva conSigo todos os Seus associados quando desaparece da Terra. O poder e a energia que foram concedidos a Arjuna eram necessários para o cumprimento da missão do Senhor, mas, quando Sua missão estava cumprida, os poderes de emergência foram retirados de Arjuna, pois os poderes assustadores de Arjuna, que eram surpreendentes até mesmo para os cidadãos do céu, já não eram necessários e não auxiliavam a voltar ao lar, voltar ao Supremo. Se a concessão de poderes e a retirada de poderes por parte do Senhor são possíveis mesmo para um grande devoto como Arjuna, ou mesmo para os semideuses no céu, o que dizer, então, dos seres vivos ordinários, que são apenas formigas em comparação a tais grandes almas? A lição, portanto, é que ninguém deve ser presunçoso por seus poderes tomados emprestados do Senhor. O homem sóbrio deve, ao contrário, sentir-se obrigado ao Senhor por tais benefícios e deve utilizar tal poder para o serviço ao Senhor. Esse poder pode ser retirado a qualquer momento pelo Senhor; assim, o melhor uso desse poder e opulência é ocupá-los no serviço ao Senhor.
Devanagari
यस्य क्षणवियोगेन लोको ह्यप्रियदर्शन: ।
उक्थेन रहितो ह्येष मृतक: प्रोच्यते यथा ॥ ६ ॥
उक्थेन रहितो ह्येष मृतक: प्रोच्यते यथा ॥ ६ ॥
Verse text
yasya kṣaṇa-viyogena
loko hy apriya-darśanaḥ
ukthena rahito hy eṣa
mṛtakaḥ procyate yathā
loko hy apriya-darśanaḥ
ukthena rahito hy eṣa
mṛtakaḥ procyate yathā
Synonyms
yasya — cuja; kṣaṇa — um momento; viyogena — pela separação; lokaḥ — todos os universos; hi — certamente; apriya-darśanaḥ — tudo parece desfavorável; ukthena — pela vida; rahitaḥ — sendo desprovido de; hi — certamente; eṣaḥ — todos esses corpos; mṛtakaḥ — corpos mortos; procyate — são designados; yathā — por assim dizer.
Translation
Eu acabo de perdê-lO, aquele cuja separação por um momento faria todos os universos desfavoráveis e vazios, como corpos sem vida.
Purport
SIGNIFICADO—De fato, não há ninguém mais querido para um ser vivo do que o Senhor. O Senhor expande-Se através de inúmeras partes integrantes como svāṁśa e vibhinnāṁśa. O Paramātmā é a parte svāṁśa do Senhor, ao passo que as partes vibhinnāṁśa são os seres vivos. Assim como o ser vivo é o fator importante no corpo material, dado que, sem o ser vivo, o corpo material não tem valor, de forma semelhante, sem o Paramātmā, o ser vivo não tem status quo. Da mesma maneira, Brahman ou Paramātmā não têm locus standi sem o Supremo Senhor Kṛṣṇa. Isso é completamente explicado na Bhagavad-gītā. Todos esses fatores são interligados um com o outro, ou interdependentes; assim, em última análise, o Senhor é o summum bonum e, portanto, o princípio vital de tudo.
Devanagari
यत्संश्रयाद् द्रुपदगेहमुपागतानां
राज्ञां स्वयंवरमुखे स्मरदुर्मदानाम् ।
तेजो हृतं खलु मयाभिहतश्च मत्स्य:
सज्जीकृतेन धनुषाधिगता च कृष्णा ॥ ७ ॥
राज्ञां स्वयंवरमुखे स्मरदुर्मदानाम् ।
तेजो हृतं खलु मयाभिहतश्च मत्स्य:
सज्जीकृतेन धनुषाधिगता च कृष्णा ॥ ७ ॥
Verse text
yat-saṁśrayād drupada-geham upāgatānāṁ
rājñāṁ svayaṁvara-mukhe smara-durmadānām
tejo hṛtaṁ khalu mayābhihataś ca matsyaḥ
sajjīkṛtena dhanuṣādhigatā ca kṛṣṇā
rājñāṁ svayaṁvara-mukhe smara-durmadānām
tejo hṛtaṁ khalu mayābhihataś ca matsyaḥ
sajjīkṛtena dhanuṣādhigatā ca kṛṣṇā
Synonyms
yat — por cuja misericordiosa; saṁśrayāt — pela força; drupada-geham — no palácio do rei Drupada; upāgatānām — todos aqueles reunidos; rājñām — dos príncipes; svayaṁvara-mukhe — na ocasião da escolha do noivo; smara-durmadānām — todos luxuriosos nos pensamentos; tejaḥ — poder; hṛtam — derrotados; khalu — por assim dizer, mayā — por mim; abhihataḥ — trespassado; ca — também; matsyaḥ — o peixe alvo; sajjī-kṛtena — equipando o arco; dhanuṣā — também por aquele arco; adhigatā — obtida; ca — também; kṛṣṇā — Draupadī.
Translation
Unicamente por Sua força misericordiosa fui capaz de derrotar todos os príncipes luxuriosos reunidos no palácio do rei Drupada para a escolha do noivo. Com meu arco e flecha, pude trespassar o peixe que servia como alvo e, desse modo, obter a mão de Draupadī.
Purport
SIGNIFICADO—Draupadī era a filha mais bela do rei Drupada, e, quando era uma mocinha, quase todos os príncipes desejavam sua mão. Porém, Drupada Mahārāja decidiu dar a mão de sua filha somente a Arjuna e, portanto, arquitetou uma maneira peculiar. Havia um peixe pendurado no teto da casa, sob a proteção de uma roda. A condição era que, entre a ordem principesca, o candidato deveria ser capaz de trespassar os olhos do peixe através da roda de proteção, e ninguém teria permissão de olhar para o alvo. No chão, havia um pote de água no qual o alvo e a roda estavam refletidos, e o candidato teria que fixar a mira no alvo olhando para a água tremulante no pote. Mahārāja Drupada sabia bem que somente Arjuna, ou, alternativamente, Karṇa, poderiam executar o plano com sucesso. Mas, mesmo assim, ele queria dar a mão de sua filha a Arjuna. E, na assembleia da ordem principesca, quando Dhṛṣṭadyumna, o irmão de Draupadī, apresentou todos os príncipes a sua irmã crescida, Karṇa também esteve presente na competição. Mas Draupadī, com muito tato, evitou Karṇa como rival de Arjuna, e expressou seus desejos através de seu irmão Dhṛṣṭadyumna, de que ela seria incapaz de aceitar alguém que fosse menos que um kṣatriya. Os vaiśyas e śūdras são menos importantes do que os kṣatriyas. Karṇa era conhecido como o filho de um carpinteiro, um śūdra. Assim, Draupadī evitou Karṇa através desta alegação. Quando Arjuna, vestido como um pobre brāhmaṇa, trespassou o difícil alvo, todos ficaram atônitos, e todos eles, especialmente Karṇa, desafiaram Arjuna para uma luta formal, mas, como de costume, pela graça do Senhor Kṛṣṇa, ele foi capaz de se sair muito bem-sucedido na luta principesca e, desse modo, obter a preciosa mão de Kṛṣṇa, ou Draupadī. Arjuna está entre lamentos relembrando o incidente na ausência do Senhor, cuja força era o único motivo de ele ser tão poderoso.
Devanagari
यत्सन्निधावहमु खांडवमग्नयेऽदा-
मिन्द्रं च सामरगणं तरसा विजित्य ।
लब्धा सभा मयकृताद्भुतशिल्पमाया
दिग्भ्योऽहरन्नृपतयो बलिमध्वरे ते ॥ ८ ॥
मिन्द्रं च सामरगणं तरसा विजित्य ।
लब्धा सभा मयकृताद्भुतशिल्पमाया
दिग्भ्योऽहरन्नृपतयो बलिमध्वरे ते ॥ ८ ॥
Verse text
yat-sannidhāv aham u khāṇḍavam agnaye ’dām
indraṁ ca sāmara-gaṇaṁ tarasā vijitya
labdhā sabhā maya-kṛtādbhuta-śilpa-māyā
digbhyo ’haran nṛpatayo balim adhvare te
indraṁ ca sāmara-gaṇaṁ tarasā vijitya
labdhā sabhā maya-kṛtādbhuta-śilpa-māyā
digbhyo ’haran nṛpatayo balim adhvare te
Synonyms
yat — cuja; sannidhau — estando próximo; aham — eu mesmo; u — sinal de espanto; khāṇḍavam — a protegida floresta de Indra, rei do céu; agnaye — ao deus do fogo; adām — liberou; indram — Indra; ca — também; sa — juntamente com; amara-gaṇam — os semideuses; tarasā — com toda a habilidade; vijitya — tendo conquistado; labdhā — tendo obtido; sabhā — casa de assembleia; maya-kṛtā — construída por Maya; adbhuta — muito maravilhosa; śilpa — arte e manufatura; māyā — potência; digbhyaḥ — de todas as direções; aharan — arrecadou; nṛpatayaḥ — todos os príncipes; balim — presentes; adhvare — trouxeram; te — teu.
Translation
Porque Ele estava perto de mim, foi-me possível conquistar, com grande habilidade, o poderoso rei do céu, Indradeva, juntamente com seus associados semideuses, e, desse modo, capacitar o deus do fogo a devastar a floresta Khāṇḍava. E, somente por Sua graça, o demônio chamado Maya foi salvo do incêndio da floresta Khāṇḍava, e, desse modo, pudemos construir nossa casa de assembleia de maravilhosa manufatura arquitetural, onde todos os príncipes se reuniram durante a execução do Rājasūya-yajña e te pagaram tributos.
Purport
SIGNIFICADO—O demônio Maya Dānava era um habitante da floresta Khāṇḍava e, quando a floresta Khāṇḍava foi incendiada, ele pediu proteção a Arjuna. Arjuna salvou sua vida, e, como resultado disso, o demônio se sentiu agradecido. Ele retribuiu construindo uma maravilhosa casa de assembleia para os Pāṇḍavas, que atraía a atenção extraordinária de todos os príncipes do estado. Eles sentiram o poder sobrenatural dos Pāṇḍavas e, assim, sem ressentimento, todos eles se submeteram e pagaram tributos ao imperador. Os demônios possuem poderes maravilhosos e sobrenaturais para criar maravilhas materiais. Eles, porém, são sempre elementos perturbadores da sociedade. Os demônios modernos são os nocivos cientistas materiais que criam algumas maravilhas materiais para o distúrbio na sociedade. Por exemplo, a criação de armas nucleares tem causado pânico na sociedade humana. Maya também era um desses materialistas, e ele conhecia a arte de criar essas coisas maravilhosas. E, apesar disso, o Senhor Kṛṣṇa queria matá-lo. Quando foi acossado tanto pelo fogo quanto pela roda do Senhor Kṛṣṇa, ele se refugiou nesse grandioso devoto Arjuna, que o salvou da ira do fogo do Senhor Śrī Kṛṣṇa. Portanto, os devotos são mais misericordiosos que o Senhor, e, no serviço devocional, a misericórdia de um devoto é mais valiosa do que a misericórdia do Senhor. Tanto o fogo quanto o Senhor pararam de perseguir o demônio quando ambos viram que o demônio recebera o refúgio de um devoto tal como Arjuna. Esse demônio, sentindo-se obrigado a Arjuna, quis prestar-lhe algum serviço para mostrar sua gratidão, mas Arjuna se recusou a aceitar dele qualquer coisa em troca. O Senhor Śrī Kṛṣṇa, contudo, estando satisfeito com Maya pelo fato de ele ter-se refugiado num devoto, pediu-lhe que prestasse serviço ao rei Yudhiṣṭhira, através da construção de uma maravilhosa casa de assembleia. O processo é que, pela graça do devoto, obtém-se a misericórdia do Senhor, e, pela misericórdia do Senhor, obtém-se uma oportunidade de servir o devoto. A maça de Bhīmasena também foi um presente de Maya Dānava.
Devanagari
यत्तेजसा नृपशिरोऽङ्घ्रिमहन्मखार्थम्
आर्योऽनुजस्तव गजायुतसत्त्ववीर्य: ।
तेनाहृता: प्रमथनाथमखाय भूपा
यन्मोचितास्तदनयन्बलिमध्वरे ते ॥ ९ ॥
आर्योऽनुजस्तव गजायुतसत्त्ववीर्य: ।
तेनाहृता: प्रमथनाथमखाय भूपा
यन्मोचितास्तदनयन्बलिमध्वरे ते ॥ ९ ॥
Verse text
yat-tejasā nṛpa-śiro-’ṅghrim ahan makhārtham
āryo ’nujas tava gajāyuta-sattva-vīryaḥ
tenāhṛtāḥ pramatha-nātha-makhāya bhūpā
yan-mocitās tad-anayan balim adhvare te
āryo ’nujas tava gajāyuta-sattva-vīryaḥ
tenāhṛtāḥ pramatha-nātha-makhāya bhūpā
yan-mocitās tad-anayan balim adhvare te
Synonyms
yat — cujo; tejasā — pela influência; nṛpa-śiraḥ-aṅghrim — aquele cujos pés são adorados pelas cabeças dos reis; ahan — matou; makha-artham — para o sacrifício; āryaḥ — respeitável; anujaḥ — irmão mais novo; tava — teu; gaja-ayuta — dez mil elefantes; sattva-vīryaḥ — existência poderosa; tena — por ele; āhṛtāḥ — arrecadados; pramatha-nātha — o senhor dos fantasmas (Mahābhairava); makhāya — para sacrifício; bhūpāḥ — reis; yat-mocitāḥ — por quem eles foram soltos; tat-anayan — todos eles trazidos; balim — taxas; adhvare — presentearam; te — vossa.
Translation
Teu respeitável irmão mais novo, que possui a força de dez mil elefantes, matou, por Sua graça, Jarāsandha, cujos pés eram adorados por muitos reis. Esses reis tinham sido trazidos para sacrifício no Mahābhairava-yajña, de Jarāsandha, mas, então, foram libertos. Mais tarde, eles pagaram tributo a Vossa Majestade.
Purport
SIGNIFICADO—Jarāsandha era um rei muito poderoso de Magadha, e a história de seu nascimento e atividades também é muito interessante. Seu pai, o rei Bṛhadratha, também era um próspero e poderoso rei de Magadha, mas ele não tinha filhos, embora tivesse se casado com duas filhas do rei de Kāśī. Estando desapontado por não ter filho de nenhuma das duas rainhas, o rei, juntamente com suas esposas, deixou o lar e foi viver na floresta para praticar austeridades, mas, na floresta, ele foi abençoado por um grande ṛṣi a ter um filho. O ṛṣi deu-lhe uma manga a ser comida pelas rainhas, as rainhas o fizeram e muito prontamente ficaram grávidas. O rei ficou muito feliz de ver as rainhas gerando filhos, mas, quando o tempo adequado se aproximou, as rainhas deram à luz uma criança em duas partes, cada uma do ventre de cada rainha. As duas partes foram atiradas na floresta, onde vivia uma grande demônia, a qual ficou contente por ter alguma carne tenra e sangue de uma criança recém-nascida. Por curiosidade, ela juntou as duas partes, e a criança ficou completa e recobrou a vida. A demônia era conhecida como Jarā, e, sentindo compaixão do rei sem filhos, ela foi até o rei e o presenteou com a bela criança. O rei ficou muito satisfeito com a demônia e quis recompensá-la de acordo com o desejo dela. A demônia expressou o desejo de que a criança recebesse um nome associado ao seu, daí a criança ter sido denominada Jarāsandha, ou aquele que foi juntado por Jarā, a demônia. De fato, esse Jarāsandha nasceu como uma das partes integrantes do demônio Vipracitti. O santo por cujas bênçãos as rainhas conceberam a criança chamava-se Candra Kauśika, que predisse sobre a criança diante de seu pai Bṛhadratha.
Como Jarāsandha possuía qualidades demoníacas desde o nascimento, naturalmente ele se tornou um grande devoto do senhor Śiva, que é o senhor de todos os homens fantasmagóricos e demoníacos. Rāvaṇa era grande devoto do senhor Śiva, e o rei Jarāsandha também o era. Ele costumava sacrificar todos os reis capturados diante do senhor Mahābhairava (Śiva), e, através de seu poder militar, ele derrotou muitos reis pequenos e os prendeu para esquartejá-los diante de Mahābhairava. Há muitos devotos do senhor Mahābhairava, ou Kālabhairava, na província de Bihar, anteriormente chamada de Magadha. Jarāsandha era um parente de Kaṁsa, o tio materno de Kṛṣṇa, e, por causa disso, após a morte de Kaṁsa, o rei Jarāsandha tornou-se um grande inimigo de Kṛṣṇa, e houve muitas lutas entre Jarāsandha e Kṛṣṇa. O Senhor Kṛṣṇa queria matá-lo, mas Ele também quis que aqueles que serviam a Jarāsandha como militares não fossem mortos. Portanto, adotou-se um plano para matá-lo. Kṛṣṇa, Bhīma e Arjuna foram juntos até Jarāsandha, vestidos de brāhmaṇas pobres, e pediram caridade ao rei Jarāsandha. Jarāsandha nunca se recusava a dar caridade a nenhum brāhmaṇa, e ele também executava muitos sacrifícios; todavia, ele não estava a par do serviço devocional. O Senhor Kṛṣṇa, Bhīma e Arjuna pediram a Jarāsandha a facilidade de lutarem com ele, e ficou estabelecido que Jarāsandha lutaria somente com Bhīma. Desse modo, todos eles foram tanto visitantes quanto combatentes de Jarāsandha, e Bhīma e Jarāsandha lutaram o dia todo por vários dias. Bhīma ficou desapontado, mas Kṛṣṇa deu-lhe indicações sobre o fato de Jarāsandha ter sido juntado em sua infância, e Bhīma, então, separou-o novamente, matando-o desse modo. Todos os reis que estavam detidos no campo de concentração para serem mortos diante de Mahābhairava foram, então, libertos por Bhīma. Sentindo-se endividados com os Pāṇḍavas, eles pagaram tributo ao rei Yudhiṣṭhira.
Devanagari
पत्न्यास्तवाधिमखक्लृप्तमहाभिषेक-
श्लाघिष्ठचारुकबरं कितवै: सभायाम् ।
स्पृष्टं विकीर्य पदयो: पतिताश्रुमुख्या
यस्तत्स्त्रियोऽकृतहतेशविमुक्तकेशा: ॥ १० ॥
श्लाघिष्ठचारुकबरं कितवै: सभायाम् ।
स्पृष्टं विकीर्य पदयो: पतिताश्रुमुख्या
यस्तत्स्त्रियोऽकृतहतेशविमुक्तकेशा: ॥ १० ॥
Verse text
patnyās tavādhimakha-kḷpta-mahābhiṣeka-
ślāghiṣṭha-cāru-kabaraṁ kitavaiḥ sabhāyām
spṛṣṭaṁ vikīrya padayoḥ patitāśru-mukhyā
yas tat-striyo ’kṛta-hateśa-vimukta-keśāḥ
ślāghiṣṭha-cāru-kabaraṁ kitavaiḥ sabhāyām
spṛṣṭaṁ vikīrya padayoḥ patitāśru-mukhyā
yas tat-striyo ’kṛta-hateśa-vimukta-keśāḥ
Synonyms
patnyāḥ — da esposa; tava — tua; adhimakha — durante a grande cerimônia de sacrifício; kḷpta — adornado; mahā-abhiṣeka — muito santificado; ślāghiṣṭha — assim glorificado; cāru — belo; kabaram — cabelo cacheado; kitavaiḥ — pelos canalhas; sabhāyām — na grande assembleia; spṛṣṭam — sendo pega; vikīrya — sendo solto; padayoḥ — aos pés; patita-aśru-mukhyāḥ — daquela que caiu com lágrimas nos olhos; yaḥ — Ele; tat — suas; striyaḥ — esposas; akṛta — tornaram-se; hata-īśa — desprovidas de esposos; vimukta-keśāḥ — cabelo solto.
Translation
Foi unicamente Ele quem soltou o cabelo de todas as esposas dos canalhas que ousaram soltar o cacho de cabelo de tua rainha, que tinha sido belamente adornado e santificado para a grande cerimônia do sacrifício Rājasūya. Naquele momento, ela caiu aos pés do Senhor Kṛṣṇa, com lágrimas nos olhos.
Purport
SIGNIFICADO—A rainha Draupadī tinha um belo cacho de cabelo que foi santificado na função cerimonial do Rājasūya-yajña. Porém, quando ela foi perdida numa aposta, Duḥśāsana tocou seu glorificado cabelo para insultá-la. Então, Draupadī prostrou-se aos pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa, e o Senhor Kṛṣṇa decidiu que todas as esposas de Duḥśāsana e companhia deveriam ter seus cabelos soltos como resultado da Guerra de Kurukṣetra. Assim, após a Guerra de Kurukṣetra, depois que todos os filhos e netos de Dhṛtarāṣṭra morreram em combate, todas as esposas da família foram obrigadas a soltar seus cabelos como viúvas. Em outras palavras, todas as esposas da família Kuru se tornaram viúvas por causa do insulto de Duḥśāsana a uma grande devota do Senhor. O Senhor pode tolerar insultos contra Si mesmo por parte de qualquer canalha, porque o pai tolera mesmo os insultos do filho. Ele, porém, nunca tolera insultos contra Seus devotos. Por insultar uma grande alma, uma pessoa tem que abrir mão de todos os resultados de atos piedosos e também de bênçãos.
Devanagari
यो नो जुगोप वन एत्य दुरन्तकृच्छ्राद्
दुर्वाससोऽरिरचितादयुताग्रभुग् य: ।
शाकान्नशिष्टमुपयुज्य यतस्त्रिलोकीं
तृप्ताममंस्त सलिले विनिमग्नसङ्घ: ॥ ११ ॥
दुर्वाससोऽरिरचितादयुताग्रभुग् य: ।
शाकान्नशिष्टमुपयुज्य यतस्त्रिलोकीं
तृप्ताममंस्त सलिले विनिमग्नसङ्घ: ॥ ११ ॥
Verse text
yo no jugopa vana etya duranta-kṛcchrād
durvāsaso ’ri-racitād ayutāgra-bhug yaḥ
śākānna-śiṣṭam upayujya yatas tri-lokīṁ
tṛptām amaṁsta salile vinimagna-saṅghaḥ
durvāsaso ’ri-racitād ayutāgra-bhug yaḥ
śākānna-śiṣṭam upayujya yatas tri-lokīṁ
tṛptām amaṁsta salile vinimagna-saṅghaḥ
Synonyms
yaḥ — aquele que; naḥ — nos; jugopa — deu proteção; vane — floresta; etya — entrando na; duranta — perigosamente; kṛcchrāt — apuro; durvāsasaḥ — de Durvāsā Muni; ari — inimigo; racitāt — fabricado por; ayuta — dez mil; agra-bhuk — aquele que come antes; yaḥ — essa pessoa; śāka-anna-śiṣṭam — sobras de comida; upayujya — tendo aceitado; yataḥ — porque; tri-lokīm — todos os três mundos; tṛptām — satisfeitos; amaṁsta — pensamento dentro da mente; salile — enquanto na água; vinimagna-saṅghaḥ — todos mergulhados na água.
Translation
Durante nosso exílio, Durvāsā Muni, que come com seus dez mil discípulos, fez uma intriga junto a nossos inimigos para colocar-nos em perigoso apuro. Naquele momento, Ele [o Senhor Kṛṣṇa] nos salvou simplesmente por aceitar as sobras de comida. Por Ele ter aceitado comida dessa maneira, a assembleia de munis, enquanto se banhava no rio, sentiu-se suntuosamente alimentada. E todos os três mundos também ficaram satisfeitos.
Purport
SIGNIFICADO—Durvāsā Muni: Um poderoso brāhmaṇa místico, determinado a observar os princípios da religião com grandes votos e sob estritas austeridades. Seu nome está ligado a muitos eventos históricos, e parece que o grande místico podia ser tanto facilmente satisfeito quanto facilmente aborrecido, como o senhor Śiva. Quando ele ficava satisfeito, podia fazer um bem enorme para o servidor, mas, se ficava insatisfeito, podia provocar a maior das calamidades. Kumārī Kuntī, na casa de seu pai, costumava ministrar todos os tipos de serviços a todos os grandes brāhmaṇas, e, estando satisfeito com sua boa recepção, Durvāsā Muni a abençoou com o poder de chamar qualquer semideus que desejasse. Compreende-se que ele era uma encarnação plenária do senhor Śiva, e, assim sendo, ele podia ser ou facilmente satisfeito, ou facilmente aborrecido. Ele era um grande devoto do senhor Śiva, e, por ordem do senhor Śiva, aceitou o sacerdócio do rei Śvetaketu, por causa da execução de sacrifícios por parte do rei durante cem anos. Às vezes, ele costumava visitar a assembleia parlamentar do reino celestial de Indradeva. Ele podia viajar no espaço através de seus grandes poderes místicos, e se compreende que ele viajava a grandes distâncias através do espaço, mesmo até os planetas Vaikuṇṭha, além do espaço material. Ele viajou por todas essas longas distâncias dentro de um ano, durante sua desavença com o rei Ambarīṣa, grande devoto e Imperador do mundo.
Ele tinha cerca de dez mil discípulos, e onde quer que visitasse e se tornasse hóspede dos grandes reis kṣatriyas, ele era acompanhado por grande número de seguidores. Certa vez, ele visitou a casa de Duryodhana, o primo inimigo de Mahārāja Yudhiṣṭhira. Duryodhana foi assaz inteligente para satisfazer o brāhmaṇa de todos os modos, e o grande ṛṣi quis dar alguma bênção a Duryodhana. Duryodhana conhecia seus poderes místicos e também sabia que aquele brāhmaṇa místico, caso insatisfeito, podia causar grande estrago, em virtude do que planejou ocupar o brāhmaṇa em mostrar sua ira contra seus primos inimigos, os Pāṇḍavas. Quando o ṛṣi quis conceder alguma bênção a Duryodhana, este quis que ele visitasse a casa de Mahārāja Yudhiṣṭhira, que era o mais velho e principal entre todos os seus primos. Porém, a seu pedido, Durvāsā Muni iria até Mahārāja Yudhiṣṭhira depois que ele tivesse terminado sua refeição com sua rainha, Draupadī. Duryodhana sabia que, após o jantar de Draupadī, seria impossível para Mahārāja Yudhiṣṭhira receber tamanho número de visitantes brāhmaṇas, em virtude do que o ṛṣi ficaria aborrecido e criaria algum problema para seu .primo Mahārāja Yudhiṣṭhira. Esse era o plano de Duryodhana. Durvāsā Muni concordou com essa proposta e se aproximou do rei exilado, de acordo com o plano de Duryodhana, depois que o rei e Draupadī haviam acabado suas refeições.
Com sua chegada à porta de Mahārāja Yudhiṣṭhira, ele foi bem recebido de imediato, e o rei solicitou-lhe que terminasse seus ritos religiosos do meio-dia no rio, pois, por aquela hora, a comida estaria pronta. Durvāsā Muni, juntamente com seu grande número de discípulos, foi banhar-se no rio, e Mahārāja Yudhiṣṭhira estava em grande ansiedade por causa dos hóspedes. Enquanto Draupadī não tivesse tomado sua refeição, a comida poderia ser servida a qualquer número de hóspedes, mas o ṛṣi, de acordo com o plano de Duryodhana, chegou ali depois que Draupadī havia terminado sua refeição.
Quando os devotos são postos em dificuldade, eles têm uma oportunidade de recordar o Senhor com concentrada atenção. Assim, Draupadī estava pensando no Senhor Kṛṣṇa naquela situação perigosa, e o Senhor onipenetrante pôde de imediato saber do perigo em que se encontravam Seus devotos. Portanto, Ele apareceu em cena e pediu a Draupadī que entregasse qualquer comida que ela tivesse em seu estoque. Ao ser assim interpelada pelo Senhor, Draupadī ficou pesarosa, pois o Senhor Supremo pediu-lhe um pouco de comida e ela não podia suprir naquele momento. Ela disse ao Senhor que a misteriosa travessa que recebera do deus Sol podia suprir qualquer quantidade de comida se ela própria ainda não tivesse comido. Mas, naquele dia, ela já havia feito suas refeições, de modo que eles estavam em perigo. Ao expressar suas dificuldades, ela começou a chorar diante do Senhor como somente uma mulher faria em tal posição. O Senhor, contudo, mandou que Draupadī trouxesse as panelas para ver se havia algum pedacinho de alimento de sobra, e, quando Draupadī o fez, o Senhor encontrou um pedacinho de verdura grudado na panela. O Senhor imediatamente o pegou e comeu. Após fazer isso, o Senhor mandou que Draupadī chamasse seus visitantes, a comitiva de Durvāsā.
Bhīma foi enviado para chamá-los no rio. Bhīma disse: “Por que vos demorais, senhores? Vinde. A comida está à vossa disposição.” Mas os brāhmaṇas, devido a que o Senhor Kṛṣṇa aceitara uma pequena partícula de comida, sentiam-se suntuosamente alimentados, mesmo enquanto estavam na água. Eles acharam que, uma vez que Mahārāja Yudhiṣṭhira devia ter preparado muitas preciosas guloseimas para eles, e uma vez que eles não estavam com fome e não poderiam comer, o rei se entristeceria imensamente, e, assim, era melhor não ir até lá. Eles, então, decidiram ir embora.
Este incidente prova que o Senhor é o maior dos místicos, daí Ele ser conhecido como Yogeśvara. Outra instrução é que todo chefe de família deve oferecer alimento ao Senhor, e o resultado será que todos, mesmo uma companhia de dez mil hóspedes, ficarão satisfeitos devido ao Senhor estar satisfeito. Eis o caminho do serviço devocional.
Devanagari
यत्तेजसाथ भगवान् युधि शूलपाणि-
र्विस्मापित: सगिरिजोऽस्त्रमदान्निजं मे ।
अन्येऽपि चाहममुनैव कलेवरेण
प्राप्तो महेन्द्रभवने महदासनार्धम् ॥ १२ ॥
र्विस्मापित: सगिरिजोऽस्त्रमदान्निजं मे ।
अन्येऽपि चाहममुनैव कलेवरेण
प्राप्तो महेन्द्रभवने महदासनार्धम् ॥ १२ ॥
Verse text
yat-tejasātha bhagavān yudhi śūla-pāṇir
vismāpitaḥ sagirijo ’stram adān nijaṁ me
anye ’pi cāham amunaiva kalevareṇa
prāpto mahendra-bhavane mahad-āsanārdham
vismāpitaḥ sagirijo ’stram adān nijaṁ me
anye ’pi cāham amunaiva kalevareṇa
prāpto mahendra-bhavane mahad-āsanārdham
Synonyms
yat — por cuja; tejasā — pela influência; atha — certa vez; bhagavān — a personalidade de deus (senhor Śiva); yudhi — na batalha; śūla-pāṇiḥ — aquele que tem um tridente em sua mão; vismāpitaḥ — atônito; sa-girijaḥ — juntamente com a filha das montanhas Himālayas; astram — arma; adāt — concedeu; nijam — sua própria; me — a mim; anye api — assim também os outros; ca — e; aham — eu próprio; amunā — por este; eva — certamente; kalevareṇa — pelo corpo; prāptaḥ — obtido; mahā-indra-bhavane — na casa de Indradeva; mahat — grande; āsana-ardham — assento semielevado.
Translation
Foi unicamente devido à Sua influência que, numa luta, fui capaz de deixar atônita a personalidade de deus senhor Śiva e sua esposa, a filha do monte Himālaya. Então, ele [o senhor Śiva] ficou satisfeito comigo e concedeu-me sua própria arma. Outros semideuses também me entregaram suas respectivas armas e, além disso, fui capaz de alcançar os planetas celestiais neste corpo atual e recebi um assento semielevado.
Purport
SIGNIFICADO—Pela graça da Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, todos os semideuses, incluindo o senhor Śiva, estavam satisfeitos com Arjuna. A ideia é que alguém que seja favorecido pelo senhor Śiva ou qualquer outro semideus pode não ser necessariamente favorecido pelo Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa. Rāvaṇa era certamente grande devoto do senhor Śiva, mas não pôde ser salvo da ira da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Rāmacandra. E há muitos exemplos como esse nas histórias dos Purāṇas. Porém, eis aqui um exemplo onde podemos ver que o senhor Śiva ficou satisfeito mesmo na luta contra Arjuna. Os devotos do Senhor Supremo sabem como respeitar os semideuses, mas os devotos dos semideuses às vezes pensam tolamente que a Suprema Personalidade de Deus não é superior aos semideuses. Com tal concepção, a pessoa torna-se um ofensor e, afinal, encontra o mesmo fim que Rāvaṇa e outros. Os exemplos descritos por Arjuna durante seus tratos amigáveis com o Senhor Śrī Kṛṣṇa são instrutivos para todos que estejam convencidos pelas lições de que uma pessoa pode alcançar todos os favores simplesmente por satisfazer o Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa, ao passo que os devotos ou adoradores de semideuses podem alcançar somente benefícios parciais, os quais também são perecíveis, assim como os próprios semideuses o são.
Outro aspecto importante deste verso é que Arjuna, pela graça do Senhor Śrī Kṛṣṇa, foi capaz de alcançar o planeta celestial mesmo com o próprio corpo e foi honrado pelo semideus celestial Indradeva, recebendo um assento semielevado junto a ele. Podem-se alcançar os planetas celestiais através dos atos piedosos recomendados nos śāstras, na categoria de atividades fruitivas. E, como se afirma na Bhagavad-gītā (9.21), quando se expiram as reações desses atos piedosos, o desfrutador é novamente degradado a este planeta terrestre. A Lua também está no nível dos planetas celestiais, e somente pessoas que executaram unicamente virtudes – realizando sacrifícios, dando caridade e submetendo-se a austeridades rigorosas – podem ter permissão de entrar nos planetas celestiais após a duração da vida do corpo. Arjuna teve permissão de entrar nos planetas celestiais com o mesmíssimo corpo, simplesmente pela graça do Senhor; de outro modo, não é possível fazê-lo. As tentativas atuais de se entrar nos planetas celestiais, feitas pelos cientistas modernos, certamente se revelarão infrutíferas, dado que esses cientistas não estão no mesmo nível de Arjuna. Eles são seres humanos comuns, sem qualquer cabedal de sacrifício, caridade ou austeridades. O corpo material é influenciado pelos três modos da natureza material, a saber, bondade, paixão e ignorância. A população atual está mais ou menos influenciada pelos modos de paixão e ignorância, e os sintomas de tal influência exibem-se no fato de elas se tornarem muito luxuriosas e cobiçosas. Esses indivíduos degradados dificilmente podem aproximar-se dos sistemas planetários superiores. Acima dos planetas celestiais, também há muitos outros planetas, os quais apenas aqueles que são influenciados pela bondade podem alcançar. Nos planetas celestiais e outros dentro do universo, todos os habitantes são altamente inteligentes, muitíssimas vezes mais que os seres humanos, e todos eles são piedosos, no superior e elevadíssimo modo da bondade. Todos eles são devotos do Senhor e, embora sua bondade não seja inadulterada, ainda assim eles são conhecidos como semideuses possuidores da quantidade máxima de boas qualidades possíveis dentro do mundo material.
Devanagari
तत्रैव मे विहरतो भुजदण्डयुग्मं
गाण्डीवलक्षणमरातिवधाय देवा: ।
सेन्द्रा: श्रिता यदनुभावितमाजमीढ
तेनाहमद्य मुषित: पुरुषेण भूम्ना ॥ १३ ॥
गाण्डीवलक्षणमरातिवधाय देवा: ।
सेन्द्रा: श्रिता यदनुभावितमाजमीढ
तेनाहमद्य मुषित: पुरुषेण भूम्ना ॥ १३ ॥
Verse text
tatraiva me viharato bhuja-daṇḍa-yugmaṁ
gāṇḍīva-lakṣaṇam arāti-vadhāya devāḥ
sendrāḥ śritā yad-anubhāvitam ājamīḍha
tenāham adya muṣitaḥ puruṣeṇa bhūmnā
gāṇḍīva-lakṣaṇam arāti-vadhāya devāḥ
sendrāḥ śritā yad-anubhāvitam ājamīḍha
tenāham adya muṣitaḥ puruṣeṇa bhūmnā
Synonyms
tatra — naquele planeta celestial; eva — certamente; me — eu próprio; viharataḥ — enquanto permaneci como hóspede; bhuja-daṇḍa-yugmam — ambos os meus braços; gāṇḍīva — o arco chamado Gāṇḍīva; lakṣaṇa — marca; arāti — um demônio chamado Nivātakavaca; vadhāya — para matar; devāḥ — todos os semideuses; sa — juntamente com; indrāḥ — o rei celestial, Indra; śritāḥ — refugiados em; yat — por cuja; anubhāvitam — possibilitou que eu fosse poderoso; ājamīḍha — ó descendente do rei Ajamīḍha; tena — por Ele; aham — eu próprio; adya — no presente momento; muṣitaḥ — privado de; puruṣeṇa — a personalidade; bhūmnā — suprema.
Translation
Quando permaneci por alguns dias como hóspede nos planetas celestiais, todos os semideuses celestiais, inclusive o rei Indradeva, refugiaram-se em meus braços, que estavam marcados com o arco Gāṇḍīva, para matar o demônio chamado Nivātakavaca. Ó rei, descendente de Ajamīḍha, no presente momento estou privado da Suprema Personalidade de Deus, por cuja influência eu era tão poderoso.
Purport
SIGNIFICADO—Os semideuses celestiais são certamente mais inteligentes, poderosos e belos, apesar do que eles tiveram que pedir ajuda a Arjuna por causa de seu arco Gāṇḍīva, o qual fora dotado de poder pela graça do Senhor Śrī Kṛṣṇa. O Senhor é todo-poderoso, e, por Sua graça, Seu devoto puro pode ser tão poderoso quanto Ele deseje, e não há limite para isso. E quando o Senhor retira Seu poder de alguém, tal pessoa fica destituída de poder devido à vontade do Senhor.
Devanagari
यद्बान्धव: कुरुबलाब्धिमनन्तपार-
मेको रथेन ततरेऽहमतीर्यसत्त्वम् ।
प्रत्याहृतं बहु धनं च मया परेषां
तेजास्पदं मणिमयं च हृतं शिरोभ्य: ॥ १४ ॥
मेको रथेन ततरेऽहमतीर्यसत्त्वम् ।
प्रत्याहृतं बहु धनं च मया परेषां
तेजास्पदं मणिमयं च हृतं शिरोभ्य: ॥ १४ ॥
Verse text
yad-bāndhavaḥ kuru-balābdhim ananta-pāram
eko rathena tatare ’ham atīrya-sattvam
pratyāhṛtaṁ bahu dhanaṁ ca mayā pareṣāṁ
tejās-padaṁ maṇimayaṁ ca hṛtaṁ śirobhyaḥ
eko rathena tatare ’ham atīrya-sattvam
pratyāhṛtaṁ bahu dhanaṁ ca mayā pareṣāṁ
tejās-padaṁ maṇimayaṁ ca hṛtaṁ śirobhyaḥ
Synonyms
yat-bāndhavaḥ — por cuja amizade somente; kuru-bala-abdhim — o oceano da força militar dos Kurus; ananta-pāram — que era insuperável; ekaḥ — sozinho; rathena — estando sentado na quadriga; tatare — fui capaz de atravessar; aham — eu próprio; atīrya — invencível; sattvam — existência; pratyāhṛtam — retirei; bahu — quantidade muito grande; dhanam — riqueza; ca — também; mayā — por minha; pareṣām — do inimigo; tejaḥ-padam — fonte de brilho; maṇi-mayam — adornados com joias; ca — também; hṛtam — tomados à força; śirobhyaḥ — de suas cabeças.
Translation
A força militar dos Kauravas era como um oceano no qual habitavam muitas existências invencíveis e, desse modo, ela era insuperável. No entanto, devido à amizade dEle, eu, sentado na quadriga, fui capaz de atravessá-lo. E, somente por Sua graça, fui capaz de recuperar as vacas e também coletar à força muitos elmos dos reis, que estavam adornados com joias que eram fontes de todo o brilho.
Purport
SIGNIFICADO—No lado dos Kauravas, havia muitos comandantes vigorosos, como Bhīṣma, Droṇa, Kṛpa e Karṇa, e sua força militar era tão insuperável como o grande oceano. E, ainda assim, foi devido à graça do Senhor Kṛṣṇa que Arjuna, sentado na quadriga, pôde encarregar-se sozinho de exterminá-los um após o outro, sem dificuldade. Houve muitas mudanças de comandantes no outro lado, mas, no lado dos Pāṇḍavas, unicamente Arjuna, na quadriga dirigida pelo Senhor Kṛṣṇa, pôde encarregar-se de toda a responsabilidade da grande guerra. De modo semelhante, quando os Pāṇḍavas viviam incógnitos no palácio de Virāṭa, os Kauravas provocaram uma desavença com o rei Virāṭa e decidiram arrebatar seu grande número de vacas. Enquanto eles estavam arrebatando as vacas, Arjuna lutou com eles incógnito e foi capaz de recuperar as vacas, juntamente com espólios tomados à força – as joias dispostas nos turbantes da ordem real. Arjuna relembrou que tudo isso foi possível pela graça do Senhor.
Devanagari
यो भीष्मकर्णगुरुशल्यचमूष्वदभ्र-
राजन्यवर्यरथमण्डलमण्डितासु ।
अग्रेचरो मम विभो रथयूथपाना-
मायुर्मनांसि च दृशा सह ओज आर्च्छत् ॥ १५ ॥
राजन्यवर्यरथमण्डलमण्डितासु ।
अग्रेचरो मम विभो रथयूथपाना-
मायुर्मनांसि च दृशा सह ओज आर्च्छत् ॥ १५ ॥
Verse text
yo bhīṣma-karṇa-guru-śalya-camūṣv adabhra-
rājanya-varya-ratha-maṇḍala-maṇḍitāsu
agrecaro mama vibho ratha-yūthapānām
āyur manāṁsi ca dṛśā saha oja ārcchat
rājanya-varya-ratha-maṇḍala-maṇḍitāsu
agrecaro mama vibho ratha-yūthapānām
āyur manāṁsi ca dṛśā saha oja ārcchat
Synonyms
yaḥ — foi unicamente Ele; bhīṣma — Bhīṣma; karṇa — Karṇa; guru — Droṇācārya; śalya — Śalya; camūṣu — no meio da falange militar; adabhra — imensa; rājanya-varya — grandes príncipes reais; ratha-maṇḍala — corrente de quadrigas; maṇḍitāsu — estando decoradas com; agecaraḥ — avançando; mama — da minha; vibho — ó grande rei; ratha-yūtha-pānām — todos os quadrigários; āyuḥ — duração de vida ou atividades fruitivas; manāṁsi — arroubos mentais; ca — também; dṛśā — pelo olhar; sahaḥ — poder; ojaḥ — força; ārcchat — retirou.
Translation
Foi unicamente Ele quem retirou a duração de vida de todos e que, no campo de batalha, retirou o poder especulativo e a força de entusiasmo da grande falange militar feita pelos Kauravas, encabeçados por Bhīṣma, Karṇa, Droṇa, Śalya etc. O arranjo deles era hábil e mais que adequado, mas Ele [o Senhor Śrī Kṛṣṇa] desfez tudo isso enquanto avançava.
Purport
SIGNIFICADO—A Absoluta Personalidade de Deus, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, expande-Se através de Sua porção plenária Paramātmā no coração de todos e, desse modo, orienta todos em relação a lembrança, esquecimento, conhecimento, ausência de inteligência e todas as atividades psicológicas (Bhagavad-gītā 15.15). Como o Senhor Supremo, Ele pode aumentar ou diminuir a duração de vida de um ser vivo. Desse modo, o Senhor conduziu a Guerra de Kurukṣetra de acordo com Seu próprio plano. Ele queria que aquela batalha estabelecesse Yudhiṣṭhira como o Imperador deste planeta e, para facilitar esse assunto transcendental, Ele matou todos que estavam no grupo oposto, através de Sua vontade onipotente. O outro grupo estava equipado com toda a força militar, apoiada por grandes generais como Bhīṣma, Droṇa e Śalya, e teria sido fisicamente impossível para Arjuna vencer a batalha caso o Senhor não o tivesse ajudado através de todos os tipos de táticas. Tais táticas geralmente são seguidas por todo homem de estado, mesmo na guerra moderna, mas todas elas são feitas materialmente, através de poderosas espionagens, táticas militares e manobras diplomáticas. Todavia, porque Arjuna era o afetuoso devoto do Senhor, o Senhor fez tudo isso pessoalmente, sem ansiedade pessoal da parte de Arjuna. Esse é o processo do serviço devocional ao Senhor.
Devanagari
यद्दो:षु मा प्रणिहितं गुरुभीष्मकर्ण-
नप्तृत्रिगर्तशल्यसैन्धवबाह्लिकाद्यै: ।
अस्त्राण्यमोघमहिमानि निरूपितानि
नोपस्पृशुर्नृहरिदासमिवासुराणि ॥ १६ ॥
नप्तृत्रिगर्तशल्यसैन्धवबाह्लिकाद्यै: ।
अस्त्राण्यमोघमहिमानि निरूपितानि
नोपस्पृशुर्नृहरिदासमिवासुराणि ॥ १६ ॥
Verse text
yad-doḥṣu mā praṇihitaṁ guru-bhīṣma-karṇa-
naptṛ-trigarta-śalya-saindhava-bāhlikādyaiḥ
astrāṇy amogha-mahimāni nirūpitāni
nopaspṛśur nṛhari-dāsam ivāsurāṇi
naptṛ-trigarta-śalya-saindhava-bāhlikādyaiḥ
astrāṇy amogha-mahimāni nirūpitāni
nopaspṛśur nṛhari-dāsam ivāsurāṇi
Synonyms
yat — sob cuja; doḥṣu — proteção dos braços; mā praṇihitam — estando eu próprio situado; guru — Droṇācārya; bhīṣma — Bhīṣma; karṇa — Karṇa; naptṛ — Bhūriśravā; trigarta — rei Suśarmā; śalya — Śalya; saindhava — rei Jayadratha; bāhlika — irmão de Mahārāja Śāntanu (pai de Bhiṣma) ādyaiḥ — etc.; astrāṇi — armas; amogha — invencíveis; mahimāni — muito poderosas; nirūpitāni — aplicaram; na — não; upaspṛśuḥ — tocaram; nṛhari-dāsam — servidor de Nṛsiṁhadeva (Prahlāda); iva — como; asurāṇi — armas usadas pelos demônios.
Translation
Grandes generais, como Bhīṣma, Droṇa, Karṇa, Bhūriśravā, Suśarmā, Śalya, Jayadratha e Bāhlika, todos apontaram suas armas invencíveis contra mim. Porém, por Sua [do Senhor Kṛṣṇa] graça, eles nem mesmo puderam tocar em um fio de meu cabelo. De modo semelhante, Prahlāda Mahārāja, o devoto supremo do Senhor Nṛsiṁhadeva, não foi afetado pelas armas que os demônios usaram contra ele.
Purport
SIGNIFICADO—A história de Prahlāda Mahārāja, o grande devoto de Nṛsiṁhadeva, é narrada no sétimo canto do Śrīmad-Bhāgavatam. Prahlāda Mahārāja, uma criancinha de apenas cinco anos, tornou-se o objeto de inveja para seu grande pai, Hiraṇyakaśipu, unicamente por ter-se convertido em um devoto puro do Senhor. O pai demônio empregou todas as suas armas para matar o filho devoto, Prahlāda, mas, pela graça do Senhor, ele foi salvo de todas as espécies de ações perigosas por parte de seu pai. Ele foi atirado no fogo, no óleo fervente, do topo de uma montanha, sob as pernas de um elefante e lhe foi administrado veneno. Por fim, o próprio pai pegou um cutelo para matar seu filho, após o que Nṛsiṁhadeva apareceu e matou o pai atroz na presença do filho. Assim, ninguém pode matar o devoto do Senhor. De forma semelhante, Arjuna também foi salvo pelo Senhor, embora todas as armas perigosas fossem empregadas por seus grandes oponentes, como Bhīṣma.
Karṇa: Nascido de Kuntī com o deus do Sol, antes do casamento dela com Mahārāja Pāṇḍu. Karṇa nasceu com braceletes e brincos, sinais extraordinários para um herói intrépido. No início, seu nome era Vasusena, mas, quando ele cresceu, presenteou Indradeva com seus braceletes e brincos naturais e, daí em diante, tornou-se conhecido como Vaikartana. Após seu nascimento da solteira Kuntī, ele foi atirado ao Ganges. Mais tarde, foi retirado dali por Adhiratha, o qual, juntamente com sua esposa Rādhā, criou-o como seu próprio descendente. Karṇa era muito caridoso, especialmente com os brāhmaṇas. Não havia nada que ele não pudesse ceder a um brāhmaṇa. Com o mesmo espírito caritativo, ele deu em caridade seus braceletes e brincos naturais a Indradeva, que, estando muito satisfeito com ele, deu-lhe em troca uma grande arma chamada Śakti. Ele foi admitido como um dos estudantes de Droṇācārya, e, desde o começo, havia alguma rivalidade entre ele e Arjuna. Vendo sua constante rivalidade com Arjuna, Duryodhana o tornou seu companheiro, e isso gradualmente evoluiu até uma intimidade maior. Também esteve presente na grande assembleia da cerimônia svayaṁvara de Draupadī, e, quando tentou exibir seu talento naquela reunião, o irmão de Draupadī declarou que Karṇa não poderia participar da competição por ser filho de um carpinteiro śūdra. Embora rejeitado na competição, ainda assim, quando Arjuna foi bem-sucedido em trespassar o peixe alvo situado no teto e Draupadī concedeu sua guirlanda a Arjuna, Karṇa e os outros príncipes desapontados ofereceram um bloqueio pouco usual a Arjuna, enquanto ele partia com Draupadī. Especificamente, Karṇa lutou contra ele com grande bravura, mas todos foram derrotados por Arjuna. Duryodhana estava muito satisfeito com Karṇa por causa de sua constante rivalidade contra Arjuna e, quando estava no poder, ele entronou Karṇa no estado de Aṅga. Tendo sido frustrado em sua tentativa de ganhar Draupadī, Karṇa aconselhou Duryodhana a atacar o rei Drupada, visto que, após derrotá-lo, tanto Arjuna quanto Draupadī poderiam ser presos. Mas Droṇācārya os censurou por essa conspiração, e eles desistiram da ação. Karṇa foi derrotado muitas vezes, não apenas por Arjuna, mas também por Bhīmasena. Ele era o rei do reino de Bengala, Orissa e Madras combinados. Mais tarde, participou ativamente do sacrifício Rājasūya de Mahārāja Yudhiṣṭhira, e, quando houve um jogo entre os irmãos rivais, designado por Śakuni, Karṇa participou do jogo e ficou muito satisfeito quando Draupadī foi oferecida como um objeto de aposta no jogo. Isso alimentou seu velho rancor. Quando Draupadī estava em jogo, ele ficou muito entusiasta por declarar a notícia, e foi ele que ordenou a Duḥśāsana que tirasse as roupas tanto dos Pāṇḍavas quanto de Draupadī. Ele mandou que Draupadī escolhesse outro esposo, porque, tendo sido perdida pelos Pāṇḍavas, ela se tornara escrava dos Kurus. Ele sempre foi um inimigo dos Pāṇḍavas e, sempre que havia uma oportunidade, ele tentava oprimi-los de todos os modos. Durante a Guerra de Kurukṣetra, ele previu o resultado conclusivo, e expressou sua opinião de que, devido ao Senhor Kṛṣṇa ser o quadrigário de Arjuna, a batalha deveria ser vencida por Arjuna. Ele sempre divergia de Bhīṣma e, algumas vezes, era tão orgulhoso que dizia que, dentro de cinco dias, poderia exterminar os Pāṇḍavas, se Bhīṣma não interferisse em seu plano de ação. Contudo, ficou muito aflito quando Bhīṣma morreu. Ele matou Ghaṭotkaca com a arma Śakti obtida de Indradeva. Seu filho, Vṛṣasena, foi morto por Arjuna. Ele matou o maior número de soldados Pāṇḍavas. Finalmente, houve uma severa luta contra Arjuna, e somente ele foi capaz de derrubar o elmo de Arjuna. No entanto, aconteceu de a roda de sua quadriga atolar na lama do campo de batalha, e, quando ele desceu para arrumar a roda, Arjuna aproveitou a oportunidade e o matou, embora ele tivesse pedido a Arjuna que não o fizesse.
Naptā, ou Bhūriśravā: Bhūriśravā era filho de Somadatta, um membro da família Kuru. Seu outro irmão era Śalya. Ambos os irmãos e o pai assistiram à cerimônia svayaṁvara de Draupadī. Todos eles apreciavam a maravilhosa força de Arjuna por este ser devoto amigo do Senhor, e, desse modo, Bhūriśravā aconselhou os filhos de Dhṛtarāṣṭra a não provocarem uma desavença ou confronto físico com eles. Todos eles também participaram do Rājasūya-yajña de Mahārāja Yudhiṣṭhira. Bhūriśravā possuía um poderio akṣauhinī de infantaria, cavalaria, elefantes e quadrigas, e tudo isso foi empregado na Batalha de Kurukṣetra, a favor do grupo de Duryodhana. Ele era considerado por Bhīṣma como um dos yūtha-patis. Na Batalha de Kurukṣetra, ele lutou especialmente contra Sātyaki e matou dez filhos de Sātyaki. Mais tarde, Arjuna cortou-lhe as mãos, e, finalmente, ele foi morto por Sātyaki. Após sua morte, ele se fundiu na existência de Viśvadeva.
Trigarta, ou Suśarmā: Filho de Mahārāja Vṛddhakṣetra, ele era o rei de Trigartadeśa e também esteve presente na cerimônia svayaṁvara de Draupadī. Era um dos aliados de Duryodhana e aconselhou Duryodhana a atacar Matsyadeśa (Darbhaṅga). Durante o tempo do roubo de vacas em Virāṭa-nāgara, ele conseguiu prender Mahārāja Virāṭa, mas, posteriormente, Mahārāja Virāṭa foi libertado por Bhīma. Na Guerra de Kurukṣetra, ele também lutou com grande valentia, mas acabou sendo morto por Arjuna.
Jayadratha: Outro filho de Mahārāja Vṛddhakṣetra. Era o rei de Sindhudeśa (atual Sind Paquistão). O nome de sua esposa era Duḥśalā. Também esteve presente na cerimônia svayaṁvara de Draupadī e desejou muito fortemente ter sua mão, mas fracassou na disputa. Desde então, porém, ele sempre procurava uma oportunidade para entrar em contato com Draupadī. Enquanto rumava para Śalyadeśa para se casar, aconteceu de, a caminho de Kāmyavana, ele se reencontrar com Draupadī e ficar muito atraído por ela. Naquela época, os Pāṇḍavas e Draupadī estavam exilados, após terem perdido seu império no jogo, e Jayadratha pensou que seria sensato enviar notícias a Draupadī de maneira ilícita, através de Koṭiśaṣya, um de seus associados. Draupadī, de imediato e com veemência, rejeitou a proposta de Jayadratha, mas, estando muito atraído pela beleza de Draupadī, ele tentou repetidamente. Todas as vezes, ele foi rejeitado por Draupadī. Ele tentou levá-la à força em sua quadriga, e, de início, Draupadī lhe deu um bom golpe surpresa, e ele caiu como uma árvore cortada pela raiz. Porém, ele não se desanimou e conseguiu forçar Draupadī a se sentar na quadriga. Esse incidente foi visto por Dhaumya Muni, o qual protestou energicamente contra a ação de Jayadratha. Ele também seguiu a quadriga, e, através de Dhātreyikā, o assunto foi levado ao conhecimento de Mahārāja Yudhiṣṭhira. Então, os Pāṇḍavas atacaram os soldados de Jayadratha e mataram todos, e, por fim, Bhīma capturou Jayadratha e o espancou severamente, quase até a morte. Em seguida, todos os fios de cabelo, menos cinco, foram cortados de sua cabeça, e ele foi levado perante todos os reis e apresentado como escravo de Mahārāja Yudhiṣṭhira. Ele foi forçado a admitir que era escravo de Mahārāja Yudhiṣṭhira diante de toda a ordem principesca e, na mesma condição, ele foi levado diante de Mahārāja Yudhiṣṭhira. Mahārāja Yudhiṣṭhira foi muito bondoso, a ponto de ordenar que o soltassem, e, quando Jayadratha admitiu ser um príncipe tributário sob Mahārāja Yudhiṣṭhira, a rainha Draupadī também desejou sua liberdade. Após esse incidente, ele recebeu permissão de regressar à sua terra. Tendo sido insultado dessa maneira, ele foi até Gaṅgotri, nos Himālayas, onde se submeteu a um rigoroso tipo de penitência para satisfazer o senhor Śiva. Jayadratha pediu ao senhor Śiva que o abençoasse para derrotar todos os Pāṇḍavas, pelo menos um por vez. Então, a Guerra de Kurukṣetra começou, e ele tomou o partido de Duryodhana. No combate do primeiro dia, ele se defrontou com Mahārāja Drupada, então com Virāṭa e, em seguida, com Abhimanyu. Enquanto Abhimanyu estava sendo morto, cercado impiedosamente por sete grandes generais, os Pāṇḍavas foram em seu auxílio, mas Jayadratha, pela misericórdia do Senhor Śiva, repeliu-os com grande habilidade. Diante disso, Arjuna fez uma promessa de que o mataria, e, ao ouvir isso, Jayadratha quis deixar o campo de batalha e pediu permissão aos Kauravas para essa ação covarde. Ele, entretanto, não recebeu permissão para o fazer. Ao contrário, foi obrigado a lutar contra Arjuna, e, enquanto a luta prosseguia, o Senhor Kṛṣṇa lembrou a Arjuna de que a bênção de Śiva para Jayadratha era que qualquer pessoa que fizesse sua cabeça cair ao chão morreria imediatamente. Portanto, Ele aconselhou Arjuna a atirar a cabeça de Jayadratha diretamente ao colo de seu pai, que estava ocupado em penitências na peregrinação a Samanta-pañcaka. Foi isso o que Arjuna de fato fez. O pai de Jayadratha ficou surpreso de ver uma cabeça decepada sobre seu colo e a jogou ao chão prontamente. O pai morreu de imediato, com sua fronte se rachando em sete pedaços.
Devanagari
सौत्ये वृत: कुमतिनात्मद ईश्वरो मे
यत्पादपद्ममभवाय भजन्ति भव्या: ।
मां श्रान्तवाहमरयो रथिनो भुविष्ठं
न प्राहरन् यदनुभावनिरस्तचित्ता: ॥ १७ ॥
यत्पादपद्ममभवाय भजन्ति भव्या: ।
मां श्रान्तवाहमरयो रथिनो भुविष्ठं
न प्राहरन् यदनुभावनिरस्तचित्ता: ॥ १७ ॥
Verse text
sautye vṛtaḥ kumatinātmada īśvaro me
yat-pāda-padmam abhavāya bhajanti bhavyāḥ
māṁ śrānta-vāham arayo rathino bhuvi-ṣṭhaṁ
na prāharan yad-anubhāva-nirasta-cittāḥ
yat-pāda-padmam abhavāya bhajanti bhavyāḥ
māṁ śrānta-vāham arayo rathino bhuvi-ṣṭhaṁ
na prāharan yad-anubhāva-nirasta-cittāḥ
Synonyms
sautye — em relação a um quadrigário; vṛtaḥ — ocupado; kumatinā — pela má consciência; ātma-daḥ — aquele que libera; īśvaraḥ — o Senhor Supremo; me — meus; yat — cujos; pāda-padmam — pés de lótus; abhavāya — quanto à salvação; bhajanti — prestam serviço; bhavyāḥ — a classe inteligente de homens; mām — a mim; śrānta — sedentos; vāham — meus cavalos; arayaḥ — os inimigos; rathinaḥ — um grande general; bhuvi-ṣṭham — enquanto permanecia no chão; na — não; prāharan — atacaram: yat — cuja; anubhāva — misericórdia; nirasta — estando ausente; cittāḥ — mente.
Translation
Foi unicamente por Sua misericórdia que meus inimigos deixaram de me matar quando desci de minha quadriga a fim de conseguir água para meus cavalos sedentos. E foi apenas devido à minha falta de estima por meu Senhor que ousei ocupá-lO como meu quadrigário, pois os melhores homens O adoram e O servem para alcançarem a salvação.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, é o objeto de adoração tanto dos impersonalistas quanto dos devotos do Senhor. Os impersonalistas adoram Sua refulgência brilhante, que emana de Seu corpo transcendental, o qual possui forma, bem-aventurança e conhecimento eternos, e os devotos adoram-nO como a Suprema Personalidade de Deus. Aqueles que estão abaixo mesmo dos impersonalistas consideram-nO como sendo uma das grandes personalidades históricas. O Senhor, contudo, desce para atrair a todos através de Seus passatempos transcendentais específicos e, desse modo, Ele representa o papel do mais perfeito senhor, amigo, filho e amante. Sua relação transcendental com Arjuna era de amizade, e, por isso, o Senhor desempenhou o papel perfeitamente, como o fez com Seus pais, amantes e esposas. Enquanto está atuando nessa relação transcendental perfeita, o devoto esquece, por intermédio da potência interna do Senhor, que seu amigo ou filho é a Suprema Personalidade de Deus, embora, algumas vezes, o devoto se confunda com os atos do Senhor. Após a partida do Senhor, Arjuna estava consciente de seu grande amigo, mas não houve erro da parte de Arjuna, tampouco qualquer subestimação do Senhor. Os homens inteligentes sentem-se atraídos pela atuação transcendental do Senhor com um devoto puro e imaculado como Arjuna.
No campo de guerra, a escassez de água é um fato bem conhecido. Ali, a água é muito rara, e tanto os animais quanto os homens, trabalhando vigorosamente no campo de batalha, precisam constantemente de água para matar sua sede. Especialmente os soldados e generais feridos sentem muita sede na hora da morte, e por vezes ocorre que, apenas por falta de água, alguém tem inevitavelmente de morrer. Mas essa escassez de água era resolvida na Batalha de Kurukṣetra por meio da perfuração do solo. Pela graça de Deus, a água pode ser facilmente obtida de qualquer lugar se houver facilidade de perfurar o solo. O sistema moderno funciona sob o mesmo princípio de perfuração do solo, mas os engenheiros modernos ainda são incapazes de escavar imediatamente onde quer que seja necessário. Parece, contudo, com base na história de muito tempo atrás, nos dias dos Pāṇḍavas, que grandes generais como Arjuna podiam imediatamente suprir água mesmo para os cavalos, para não falar dos homens, extraindo água debaixo do chão duro, simplesmente atingindo o subsolo com uma flecha afiada, um método ainda desconhecido pelos cientistas modernos.
Devanagari
नर्माण्युदाररुचिरस्मितशोभितानि हे पार्थ हेऽर्जुन सखे कुरुनन्दनेति ।
सञ्जल्पितानि नरदेव हृदिस्पृशानि स्मर्तुर्लुठन्ति हृदयं मम माधवस्य ॥ १८ ॥
सञ्जल्पितानि नरदेव हृदिस्पृशानि स्मर्तुर्लुठन्ति हृदयं मम माधवस्य ॥ १८ ॥
Verse text
narmāṇy udāra-rucira-smita-śobhitāni
he pārtha he ’rjuna sakhe kuru-nandaneti
sañjalpitāni nara-deva hṛdi-spṛśāni
smartur luṭhanti hṛdayaṁ mama mādhavasya
he pārtha he ’rjuna sakhe kuru-nandaneti
sañjalpitāni nara-deva hṛdi-spṛśāni
smartur luṭhanti hṛdayaṁ mama mādhavasya
Synonyms
narmāṇi — conversa com brincadeiras; udāra — falava muito francamente; rucira — agradáveis; smita-śobhitāni — decoradas com um rosto sorridente; he — um vocativo; pārtha — ó filho de Pṛthā; he — um vocativo; arjuna — Arjuna; sakhe — amigo; kuru-nandana — filho da dinastia Kuru; iti — e assim por diante; sañjalpitāni — tal conversa; nara-deva — ó rei; hṛdi — coração; spṛśāni — tocando; smartuḥ — por recordá-las; luṭhanti — oprime; hṛdayam — coração e alma; mama — meu; mādhavasya — de Mādhava (Kṛṣṇa).
Translation
Ó rei, Suas brincadeiras e conversas francas eram agradáveis e belamente decoradas com sorrisos. Sua maneira de tratar-me como “ó filho de Pṛthā, ó amigo, ó filho da dinastia Kuru”, e todas essas cordialidades agora me vêm à lembrança, em razão do que me sinto arrasado.
Devanagari
शय्यासनाटनविकत्थनभोजनादि ष्वैक्याद्वयस्य ऋतवानिति विप्रलब्ध: ।
सख्यु: सखेव पितृवत्तनयस्य सर्वं सेहे महान्महितया कुमतेरघं मे ॥ १९ ॥
सख्यु: सखेव पितृवत्तनयस्य सर्वं सेहे महान्महितया कुमतेरघं मे ॥ १९ ॥
Verse text
śayyāsanāṭana-vikatthana-bhojanādiṣv
aikyād vayasya ṛtavān iti vipralabdhaḥ
sakhyuḥ sakheva pitṛvat tanayasya sarvaṁ
sehe mahān mahitayā kumater aghaṁ me
aikyād vayasya ṛtavān iti vipralabdhaḥ
sakhyuḥ sakheva pitṛvat tanayasya sarvaṁ
sehe mahān mahitayā kumater aghaṁ me
Synonyms
śayya — dormindo em uma só cama; āsana — sentando-se em um assento; aṭana — caminhando juntos; vikatthana — adoração de Si mesmo; bhojana — jantando juntos; ādiṣu — em todos esses relacionamentos; aikyāt — por causa da unidade; vayasya — ó meu amigo; ṛtavān — veraz; iti — assim; vipralabdhaḥ — mal comportado; sakhyuḥ — ao amigo; sakhā iva — assim como um amigo; pitṛvat — assim como um pai; tanayasya — de um filho; sarvam — todos; sehe — tolerava; mahān — grande; mahitayā — pelas glórias; kumateḥ — daquele que é de mentalidade baixa; agham — ofensa; me — minha.
Translation
Geralmente, nós dois costumávamos viver juntos e dormir, ficar sentados e caminhar juntos. E, nos momentos de falar dos próprios atos de bravura, às vezes, se havia alguma irregularidade, eu costumava censurá-lO, dizendo: “Meu amigo, Tu és muito sincero.” Mesmo nessas horas em que Seu valor era minimizado, Ele, sendo a Alma Suprema, costumava tolerar todos aqueles meus pronunciamentos, perdoando-me exatamente como um verdadeiro amigo perdoa a seu verdadeiro amigo, ou um pai perdoa a seu filho.
Purport
SIGNIFICADO—Uma vez que o Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa é todo-perfeito, Seus passatempos transcendentais com Seus devotos puros jamais carecem de nada sob nenhum aspecto, seja como amigo, filho ou amante. O Senhor saboreia as repreensões de amigos, pais ou noivas mais do que os hinos védicos oferecidos a Ele por grandes estudiosos eruditos e religiosos num estilo oficial.
Devanagari
सोऽहं नृपेन्द्र रहित: पुरुषोत्तमेन
सख्या प्रियेण सुहृदा हृदयेन शून्य: ।
अध्वन्युरुक्रमपरिग्रहमङ्ग रक्षन्
गोपैरसद्भिरबलेव विनिर्जितोऽस्मि ॥ २० ॥
सख्या प्रियेण सुहृदा हृदयेन शून्य: ।
अध्वन्युरुक्रमपरिग्रहमङ्ग रक्षन्
गोपैरसद्भिरबलेव विनिर्जितोऽस्मि ॥ २० ॥
Verse text
so ’haṁ nṛpendra rahitaḥ puruṣottamena
sakhyā priyeṇa suhṛdā hṛdayena śūnyaḥ
adhvany urukrama-parigraham aṅga rakṣan
gopair asadbhir abaleva vinirjito ’smi
sakhyā priyeṇa suhṛdā hṛdayena śūnyaḥ
adhvany urukrama-parigraham aṅga rakṣan
gopair asadbhir abaleva vinirjito ’smi
Synonyms
saḥ — este; aham — eu mesmo; nṛpa-indra — ó imperador; rahitaḥ — privado de; puruṣa-uttamena — pelo Senhor Supremo; sakhyā — por meu amigo; priyeṇa — por meu queridíssimo; suhṛdā — pelo benquerente; hṛdayena — pelo coração e alma; śūnyaḥ — vazio; adhvani — recentemente; urukrama-parigraham — as esposas do todo-poderoso; aṅga — corpos; rakṣan — enquanto protegia; gopaiḥ — pelos vaqueiros; asadbhiḥ — pelos infiéis; abalā iva — como uma mulher fraca; vinirjitaḥ asmi — eu fui derrotado.
Translation
Ó imperador, agora estou separado de meu amigo e mais querido benquerente, a Suprema Personalidade de Deus, e, devido a isso, meu coração parece estar completamente vazio. Em Sua ausência, fui derrotado por um grupo de vaqueiros infiéis, enquanto eu protegia os corpos de todas as esposas de Kṛṣṇa.
Purport
SIGNIFICADO—O ponto importante neste verso é como foi possível que Arjuna pudesse ser derrotado por uma gangue de vaqueiros ignóbeis e como tais vaqueiros mundanos puderam tocar os corpos das esposas do Senhor Kṛṣṇa, que estavam sob a proteção de Arjuna. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura justificou a contradição através de uma investigação no Viṣṇu Purāṇa e Brahma Purāṇa. Nesses Purāṇas, afirma-se que, certa vez, as belas habitantes do céu satisfizeram Aṣṭāvakra Muni com seu serviço e foram abençoadas pelo muni a terem o Senhor Supremo como seu esposo. Aṣṭāvakra Muni era entrevado em oito articulações de seu corpo e, dessa maneira, ele costumava mover-se curvado de uma maneira peculiar. As filhas dos semideuses não puderam conter seu riso ao verem os movimentos do muni, e o muni, irritando-se com elas, amaldiçoou-as a serem raptadas por salteadores, mesmo que obtivessem o Senhor como esposo. Mais tarde, as moças novamente satisfizeram o muni com suas orações, e o muni as abençoou a recuperarem seu esposo mesmo após serem raptadas pelos salteadores. Assim, para manter as palavras do grande muni, o próprio Senhor raptou Suas esposas da proteção de Arjuna, pois, de outra forma, elas teriam desaparecido de cena imediatamente, tão logo fossem tocadas pelos salteadores. Além disso, algumas das gopīs, que oraram para se tornarem esposas do Senhor, regressaram a suas respectivas posições depois que seu desejo foi satisfeito. Após a partida do Senhor Kṛṣṇa, Ele quis que todo o Seu séquito voltasse ao Supremo, e eles foram chamados de volta, embora sob diferentes condições.
Devanagari
तद्वै धनुस्त इषव: स रथो हयास्ते
सोऽहं रथी नृपतयो यत आनमन्ति ।
सर्वं क्षणेन तदभूदसदीशरिक्तं
भस्मन्हुतं कुहकराद्धमिवोप्तमूष्याम् ॥ २१ ॥
सोऽहं रथी नृपतयो यत आनमन्ति ।
सर्वं क्षणेन तदभूदसदीशरिक्तं
भस्मन्हुतं कुहकराद्धमिवोप्तमूष्याम् ॥ २१ ॥
Verse text
tad vai dhanus ta iṣavaḥ sa ratho hayās te
so ’haṁ rathī nṛpatayo yata ānamanti
sarvaṁ kṣaṇena tad abhūd asad īśa-riktaṁ
bhasman hutaṁ kuhaka-rāddham ivoptam ūṣyām
so ’haṁ rathī nṛpatayo yata ānamanti
sarvaṁ kṣaṇena tad abhūd asad īśa-riktaṁ
bhasman hutaṁ kuhaka-rāddham ivoptam ūṣyām
Synonyms
tat — o mesmo; vai — certamente; dhanuḥ te — o mesmo arco; iṣavaḥ — flechas; saḥ — a mesmíssima; rathaḥ — quadriga; hayāḥ te — os mesmíssimos cavalos; saḥ aham — eu sou o mesmo Arjuna; rathī — o lutador de quadriga; nṛpatayaḥ — todos os reis; yataḥ — os quais; ānamanti — ofereciam seus respeitos; sarvam — todos; kṣaṇena — de um momento para outro; tat — todos aqueles; abhūt — tornaram-se; asat — inúteis; īśa — por causa do Senhor; riktam — estando vazios; bhasman — cinzas; hutam — oferecer manteiga; kuhaka-rāddham — dinheiro criado por façanhas mágicas; iva — assim; uptam — plantadas; ūṣyām — em terra árida.
Translation
Tenho o mesmo arco Gāṇḍiva, as mesmas flechas, a mesma quadriga puxada pelos mesmos cavalos, e os uso sendo eu o mesmo Arjuna a quem todos os reis ofereciam seus devidos respeitos. Porém, na ausência do Senhor Kṛṣṇa, todos eles, de um momento para outro, tornaram-se inúteis e vazios. Isso é exatamente como oferecer manteiga clarificada sobre cinzas, acumular dinheiro com uma varinha mágica ou plantar sementes em terra árida.
Purport
SIGNIFICADO—Como já discutimos mais de uma vez, não devemos ter orgulho de galardões emprestados. Todas as energias e todos os poderes são derivados da fonte suprema, o Senhor Kṛṣṇa, e agem enquanto Ele deseja e deixam de funcionar logo que Ele os retira. Todas as energias elétricas são recebidas da central elétrica, e tão logo a central elétrica pare de suprir energia, as lâmpadas não têm utilidade. De um momento para outro, essas energias podem ser geradas ou retiradas pela vontade suprema do Senhor. A civilização material sem a bênção do Senhor não passa de uma brincadeira infantil. Enquanto os pais permitem ao filhinho que brinque, tudo está bem. Tão logo os pais proíbam, a criança tem de parar. A civilização humana e todas as suas atividades devem ser ajustadas à bênção suprema do Senhor, e, sem essa bênção, todo o avanço da civilização humana é como a decoração de um corpo morto. Aqui se diz que uma civilização morta e suas atividades são em algo semelhantes à manteiga clarificada sobre as cinzas, o acúmulo de dinheiro através de uma varinha mágica e a plantação de sementes em terra árida.
Devanagari
राजंस्त्वयानुपृष्टानां सुहृदां न: सुहृत्पुरे ।
विप्रशापविमूढानां निघ्नतां मुष्टिभिर्मिथ: ॥ २२ ॥
वारुणीं मदिरां पीत्वा मदोन्मथितचेतसाम् ।
अजानतामिवान्योन्यं चतु:पञ्चावशेषिता: ॥ २३ ॥
विप्रशापविमूढानां निघ्नतां मुष्टिभिर्मिथ: ॥ २२ ॥
वारुणीं मदिरां पीत्वा मदोन्मथितचेतसाम् ।
अजानतामिवान्योन्यं चतु:पञ्चावशेषिता: ॥ २३ ॥
Verse text
rājaṁs tvayānupṛṣṭānāṁ
suhṛdāṁ naḥ suhṛt-pure
vipra-śāpa-vimūḍhānāṁ
nighnatāṁ muṣṭibhir mithaḥ
suhṛdāṁ naḥ suhṛt-pure
vipra-śāpa-vimūḍhānāṁ
nighnatāṁ muṣṭibhir mithaḥ
vāruṇīṁ madirāṁ pītvā
madonmathita-cetasām
ajānatām ivānyonyaṁ
catuḥ-pañcāvaśeṣitāḥ
madonmathita-cetasām
ajānatām ivānyonyaṁ
catuḥ-pañcāvaśeṣitāḥ
Synonyms
rājan — ó rei; tvayā — por ti; anupṛṣṭānām — como perguntaste; suhṛdām — dos amigos e parentes; naḥ — nossos; suhṛt-pure — na cidade de Dvārakā; vipra — os brāhmaṇas; śāpa — pela maldição de; vimūḍhānām — dos enganados; nighnatām — dos mortos; muṣṭibhiḥ — com feixes de varas; mithaḥ — entre si; vāruṇīm — arroz fermentado; madirām — vinho; pītvā — tendo bebido; mada-unmathita — embriagando-se; cetasām — daquela situação mental; ajānatām — sem se reconhecerem; iva — como; anyonyam — uns aos outros; catuḥ — quatro; pañca — cinco; avaśeṣitāḥ — agora restando.
Translation
Ó rei, uma vez que me perguntaste sobre nossos amigos e parentes na cidade de Dvārakā, devo informar-te que todos eles foram amaldiçoados pelos brāhmaṇas e, como resultado, todos eles se embriagaram com vinho feito de arroz fermentado e lutaram entre si com varas, nem mesmo se reconhecendo uns aos outros. Agora, com exceção de quatro ou cinco, todos estão mortos e acabados.
Devanagari
प्रायेणैतद् भगवत ईश्वरस्य विचेष्टितम् ।
मिथो निघ्नन्ति भूतानि भावयन्ति च यन्मिथ: ॥ २४ ॥
मिथो निघ्नन्ति भूतानि भावयन्ति च यन्मिथ: ॥ २४ ॥
Verse text
prāyeṇaitad bhagavata
īśvarasya viceṣṭitam
mitho nighnanti bhūtāni
bhāvayanti ca yan mithaḥ
īśvarasya viceṣṭitam
mitho nighnanti bhūtāni
bhāvayanti ca yan mithaḥ
Synonyms
prāyeṇa etat — isso é quase pela; bhagavataḥ — da Personalidade de Deus; īśvarasya — do Senhor; viceṣṭitam — pela vontade de; mithaḥ — umas às outras; nighnanti — matam-se; bhūtāni — os seres vivos; bhāvayanti — como também se protegem; ca — também; yat — de quem; mithaḥ — umas às outras.
Translation
De fato, tudo isso se deve à vontade suprema do Senhor, a Personalidade de Deus. Algumas vezes, as pessoas matam-se umas às outras e, outras vezes, elas se protegem umas às outras.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo os antropólogos, há uma lei natural de luta pela vida e sobrevivência do mais capaz. Eles, porém, não sabem que, por trás da lei da natureza, está a direção suprema da Suprema Personalidade de Deus. Na Bhagavad-gītā, confirma-se que a lei da natureza é executada sob a direção do Senhor. Portanto, sempre que há paz no mundo, deve-se entender que isso se deve à boa vontade do Senhor. E sempre que há revolta no mundo, isso também se deve à vontade suprema do Senhor. Nem mesmo uma folha de grama se move sem a vontade do Senhor. Portanto, sempre que há desobediência das regras estabelecidas, decretadas pelo Senhor, há guerra entre homens e nações. O caminho mais seguro para a paz, portanto, é relacionar tudo à lei estabelecida pelo Senhor. A lei estabelecida é que tudo que fizermos, tudo que comermos, tudo que sacrificarmos ou tudo que dermos em caridade – tudo deve ser feito para a plena satisfação do Senhor. Ninguém deve fazer nada, comer nada, sacrificar nada nem dar nada em caridade contra a vontade do Senhor. No discernimento está a melhor parte da coragem, e devemos aprender como discriminar entre as ações que podem ser agradáveis ao Senhor e as que podem ser desagradáveis ao Senhor. Desse modo, uma ação é julgada de acordo com o prazer ou desprazer do Senhor. Não há lugar para desejos pessoais; devemos sempre ser guiados pelo prazer do Senhor. Tal ação chama-se yogaḥ karmasu kauśalam, ou ações executadas que estão ligadas ao Senhor Supremo. Essa é a arte de fazer algo perfeitamente.
Devanagari
जलौकसां जले यद्वन्महान्तोऽदन्त्यणीयस: ।
दुर्बलान्बलिनो राजन्महान्तो बलिनो मिथ: ॥ २५ ॥
एवं बलिष्ठैर्यदुभिर्महद्भिरितरान् विभु: ।
यदून्यदुभिरन्योन्यं भूभारान् सञ्जहार ह ॥ २६ ॥
दुर्बलान्बलिनो राजन्महान्तो बलिनो मिथ: ॥ २५ ॥
एवं बलिष्ठैर्यदुभिर्महद्भिरितरान् विभु: ।
यदून्यदुभिरन्योन्यं भूभारान् सञ्जहार ह ॥ २६ ॥
Verse text
jalaukasāṁ jale yadvan
mahānto ’danty aṇīyasaḥ
durbalān balino rājan
mahānto balino mithaḥ
mahānto ’danty aṇīyasaḥ
durbalān balino rājan
mahānto balino mithaḥ
evaṁ baliṣṭhair yadubhir
mahadbhir itarān vibhuḥ
yadūn yadubhir anyonyaṁ
bhū-bhārān sañjahāra ha
mahadbhir itarān vibhuḥ
yadūn yadubhir anyonyaṁ
bhū-bhārān sañjahāra ha
Synonyms
jalaukasām — dos seres aquáticos; jale — na água; yadvat — como é; mahāntaḥ — os maiores; adanti — engolem; aṇīyasaḥ — os menores; durbalān — o fraco; balinaḥ — o mais forte; rājan — o rei; mahāntaḥ — o mais forte; balinaḥ — menos forte; mithaḥ — num duelo; evam — assim; baliṣṭhaiḥ — pelo mais forte; yadubhiḥ — pelos descendentes de Yadu; mahadbhiḥ — aquele que tem maior força; itarān — os comuns; vibhuḥ — Suprema Personalidade de Deus; yadūn — todos os Yadus; yadubhiḥ — os Yadus; anyonyam — entre si; bhū-bhārān — a carga do mundo; sañjahāra — descarregou; ha — no passado.
Translation
Ó rei, assim como, no oceano, os seres aquáticos maiores e mais fortes engolem os menores e mais fracos, do mesmo modo, a Suprema Personalidade de Deus, para tornar mais leve a carga da Terra, também ocupou o Yadu mais forte em matar o mais fraco, Yadu maior em matar o menor.
Purport
SIGNIFICADO—No mundo material, a luta pela vida e a sobrevivência do mais capaz são leis, pois, no mundo material, há disparidade entre as almas condicionadas, devido ao desejo de todos de assenhorearem-se dos recursos materiais. Essa mesma mentalidade de domínio sobre a natureza material é a causa fundamental da vida condicionada. E, para dar facilidades a esses senhores de imitação, a energia ilusória do Senhor cria uma disparidade entre os seres vivos condicionados, criando o mais forte e o mais fraco em todas as espécies de vida. A mentalidade de domínio sobre a natureza material e a criação naturalmente origina uma disparidade e, portanto, uma lei de luta pela vida. No mundo espiritual, não há semelhante disparidade, nem semelhante luta pela vida. No mundo espiritual, não há luta pela vida porque ali todos existem eternamente. Não há disparidade porque todos querem prestar serviço ao Senhor Supremo, e ninguém quer imitar o Senhor em tornar-se o beneficiário. O Senhor, sendo o criador de tudo, inclusive dos seres vivos, é de fato o proprietário e desfrutador de tudo que existe, mas, no mundo material, através do encanto de māyā, ou ilusão, essa relação eterna com a Suprema Personalidade de Deus é esquecida, e, desse modo, o ser vivo é condicionado sob a lei da luta pela vida e sobrevivência do mais capaz.
Devanagari
देशकालार्थयुक्तानि हृत्तापोपशमानि च ।
हरन्ति स्मरतश्चित्तं गोविन्दाभिहितानि मे ॥ २७ ॥
हरन्ति स्मरतश्चित्तं गोविन्दाभिहितानि मे ॥ २७ ॥
Verse text
deśa-kālārtha-yuktāni
hṛt-tāpopaśamāni ca
haranti smarataś cittaṁ
govindābhihitāni me
hṛt-tāpopaśamāni ca
haranti smarataś cittaṁ
govindābhihitāni me
Synonyms
Translation
Sinto-me atraído agora por aquelas instruções transmitidas a mim pela Personalidade de Deus [Govinda] porque elas estão impregnadas com instruções para aliviar o coração ardente em todas as circunstâncias de tempo e espaço.
Purport
SIGNIFICADO—Aqui, Arjuna refere-se à instrução da Bhagavad-gītā, que lhe foi transmitida pelo Senhor no Campo de Batalha de Kurukṣetra. O Senhor deixou as instruções da Bhagavad-gītā não somente para o benefício de Arjuna, mas também para todas as épocas em todas as terras. A Bhagavad-gītā, tendo sido proferida pela Suprema Personalidade de Deus, é a essência de toda a sabedoria védica. É muito bem apresentado pelo próprio Senhor para todos que têm pouquíssimo tempo para pesquisar as vastas literaturas védicas, como as Upaniṣads, os Purāṇas e os Vedānta-sūtras. Ele está colocado dentro do estudo da grande epopeia histórica Mahābhārata, que foi especialmente preparada para as classes menos inteligentes, a saber, as mulheres, os trabalhadores e aqueles que são descendentes indignos dos brāhmaṇas, kṣatriyas e seções superiores dos vaiśyas. O problema que surgiu no coração de Arjuna no Campo de Batalha de Kurukṣetra foi resolvido pelos ensinamentos da Bhagavad-gītā. Novamente, após a partida do Senhor da vista das pessoas terrestres, quando Arjuna estava face a face com a extinção de seu poder e proeminência adquiridos, ele quis mais uma vez recordar os grandes ensinamentos da Bhagavad-gītā simplesmente para ensinar a todos os interessados que a Bhagavad-gītā pode ser consultada em todos os momentos críticos, não apenas para consolo de todas as espécies de agonias mentais, mas também como solução para as grandes perplexidades que possam desconcertar alguém em horas críticas.
O Senhor misericordioso deixou os grandes ensinamentos da Bhagavad-gītā para que possamos receber as instruções do Senhor mesmo quando Ele fica invisível ao campo de visão material. Os sentidos materiais não podem de maneira alguma apreciar o Senhor Supremo, mas, através de Seu poder inconcebível, o Senhor pode encarnar-Se de modo apropriado à percepção sensorial das almas condicionadas, por intermédio da matéria, que também é outra forma da energia manifestada do Senhor. Assim, a Bhagavad-gītā, ou qualquer outra representação escritural, sonora e autêntica do Senhor, também é uma encarnação do Senhor. Não há diferença entre a representação sonora do Senhor e o próprio Senhor. Uma pessoa pode obter o mesmo benefício da Bhagavad-gītā obtido por Arjuna na presença pessoal do Senhor.
O ser humano fiel, que deseja ser liberto das garras da existência material, pode muito facilmente tirar proveito da Bhagavad-gītā, e, tendo isso em vista, o Senhor instruiu Arjuna como se Arjuna estivesse necessitado disso. Na Bhagavad-gītā, cinco fatores importantes de conhecimento são delineados, pertinentes (1) ao Senhor Supremo, (2) ao ser vivo, (3) à natureza, (4) ao tempo e espaço e (5) ao processo de atividade. Dentre esses, o Senhor Supremo e o ser vivo são qualitativamente unos. A diferença entre os dois tem sido analisada como a diferença entre o todo e a parte integrante. A natureza é a matéria inerte exibindo a interação de três modos diferentes, e o tempo eterno e o espaço ilimitado são considerados como estando além da existência da natureza material. As atividades do ser vivo são diferentes variedades de aptidões que podem enredar ou liberar o ser vivo dentro e fora da natureza material. Todos esses assuntos são concisamente discutidos na Bhagavad-gītā, e, mais tarde, os temas são elaborados no Śrīmad-Bhāgavatam para posterior iluminação. Dentre os cinco temas, o Senhor Supremo, a entidade viva, a natureza, o tempo e o espaço são eternos, mas a entidade viva, a natureza e o tempo estão sob a direção do Senhor Supremo, que é absoluto e completamente independente de qualquer outro controle. O Senhor Supremo é o controlador supremo. A atividade material do ser vivo não tem início, mas pode ser retificada pela transferência à qualidade espiritual. Então, ela pode cessar suas reações materiais qualitativas. Tanto o Senhor quanto a entidade viva são conscientes, e ambos têm o sentido de identificação, de serem conscientes como uma força viva. Mas o ser vivo sob o condicionamento da natureza material, chamada mahat-tattva, identifica-se erroneamente como sendo diferente do Senhor. Todo o esquema da sabedoria védica é voltado para a meta de erradicar essa falsa concepção e, desse modo, libertar o ser vivo da ilusão da identificação material. Quando essa ilusão é erradicada pelo conhecimento e pela renúncia, os seres vivos são atores responsáveis e também desfrutadores. O sentido de gozo no Senhor é real, mas esse sentido no ser vivo não passa de uma espécie de desejo fantasioso. Essa diferença na consciência é a distinção entre as duas identidades, a saber, o Senhor e o ser vivo. De outro modo, não haveria diferença entre o Senhor e o ser vivo. Portanto, o ser vivo é eternamente uno e diferente, simultaneamente. Toda a instrução da Bhagavad-gītā repousa sobre esse princípio.
Na Bhagavad-gītā, o Senhor e os seres vivos são ambos descritos como sanātana, ou eternos, e a morada do Senhor, que está muito além do céu material, também é descrita como sanātana. O ser vivo é convidado a viver na existência sanātana do Senhor, e o processo que pode ajudar um ser vivo a aproximar-se da morada do Senhor, onde se manifesta a atividade liberada da alma, chama-se sanātana-dharma. Não podemos, entretanto, alcançar a morada eterna do Senhor sem estarmos livres da falsa concepção da identificação material, e a Bhagavad-gītā nos dá a chave de como alcançar essa fase de perfeição. O processo de libertar-se da falsa concepção da identificação material chama-se, em diferentes fases, atividade fruitiva, filosofia empírica e serviço devocional, até a compreensão transcendental. Essa compreensão transcendental se torna possível ajustando-se todos os itens acima em relação com o Senhor. Os deveres prescritos do ser humano, segundo a orientação dos Vedas, podem gradualmente purificar a mente pecaminosa da alma condicionada e elevá-la até a fase de conhecimento. A fase purificada de aquisição de conhecimento torna-se a base do serviço devocional ao Senhor. Enquanto uma pessoa está ocupada em pesquisar a solução dos problemas da vida, seu conhecimento chama-se jñāna, ou conhecimento purificado, mas, ao compreender a verdadeira solução da vida, a pessoa situa-se no serviço devocional ao Senhor. A Bhagavad-gītā começa encarando os problemas da vida, discriminando a alma dos elementos da matéria, e prova, por meio de todo raciocínio lógico e argumentos, que a alma é indestrutível em qualquer circunstância e que a cobertura exterior da matéria, o corpo e a mente, mudam-se para outro período de existência material, a qual é cheia de misérias. Portanto, a Bhagavad-gītā se destina a colocar fim a todas as diferentes espécies de misérias, e Arjuna refugiou-se nesse grande conhecimento, que tinha sido transmitido a ele durante a Guerra de Kurukṣetra.
Devanagari
सूत उवाच
एवं चिन्तयतो जिष्णो: कृष्णपादसरोरुहम् ।
सौहार्देनातिगाढेन शान्तासीद्विमला मति: ॥ २८ ॥
एवं चिन्तयतो जिष्णो: कृष्णपादसरोरुहम् ।
सौहार्देनातिगाढेन शान्तासीद्विमला मति: ॥ २८ ॥
Verse text
sūta uvāca
evaṁ cintayato jiṣṇoḥ
kṛṣṇa-pāda-saroruham
sauhārdenātigāḍhena
śāntāsīd vimalā matiḥ
evaṁ cintayato jiṣṇoḥ
kṛṣṇa-pāda-saroruham
sauhārdenātigāḍhena
śāntāsīd vimalā matiḥ
Synonyms
sūtaḥ uvāca — Sūta Gosvāmī disse; evam — assim; cintayataḥ — enquanto pensava nas instruções; jiṣṇoḥ — da Suprema Personalidade de Deus; kṛṣṇa-pāda — os pés de Kṛṣṇa; saroruham — assemelhando-se ao lótus; sauhārdena — pela profunda amizade; ati-gāḍhena — em intimidade; śāntā — apaziguada; āsīt — tornou-se assim; vimalā — nenhuma mácula de contaminação material; matiḥ — mente.
Translation
Sūta Gosvāmī disse: Estando assim profundamente absorta em pensar nas instruções do Senhor, que foram transmitidas na grande intimidade da amizade, e em pensar em Seus pés de lótus, a mente de Arjuna apaziguou-se e livrou-se de toda a contaminação material.
Purport
SIGNIFICADO—Uma vez que o Senhor é Absoluto, a meditação profunda nEle é tão boa como o transe ióguico. O Senhor não é diferente de Seu nome, forma, qualidade, passatempos, séquito e ações específicas. Arjuna começou a pensar nas instruções do Senhor dadas a ele no Campo de Batalha de Kurukṣetra. Somente essas instruções é que começaram a eliminar as máculas de contaminação material na mente de Arjuna. O Senhor é como o Sol; o aparecimento do Sol significa a dissipação imediata da escuridão, ou ignorância, e o aparecimento do Senhor dentro da mente do devoto pode de imediato afastar os desconfortáveis efeitos materiais. O Senhor Caitanya recomenda, portanto, o cantar constante do nome do Senhor para a proteção contra todas as espécies de contaminações do mundo material. O sentimento de saudade do Senhor é indubitavelmente doloroso para o devoto, mas, por estar relacionado ao Senhor, tem um efeito transcendental específico que apazigua o coração. Os sentimentos de saudade também são fontes de bem-aventurança transcendental, não sendo de modo algum comparáveis aos contaminados sentimentos materiais de saudade.
Devanagari
वासुदेवाङ्घ्र्यनुध्यानपरिबृंहितरंहसा ।
भक्त्या निर्मथिताशेषकषायधिषणोऽर्जुन: ॥ २९ ॥
भक्त्या निर्मथिताशेषकषायधिषणोऽर्जुन: ॥ २९ ॥
Verse text
vāsudevāṅghry-anudhyāna-
paribṛṁhita-raṁhasā
bhaktyā nirmathitāśeṣa-
kaṣāya-dhiṣaṇo ’rjunaḥ
paribṛṁhita-raṁhasā
bhaktyā nirmathitāśeṣa-
kaṣāya-dhiṣaṇo ’rjunaḥ
Synonyms
Translation
A lembrança constante dos pés de lótus do Senhor Śrī Kṛṣṇa por parte de Arjuna rapidamente aumentou sua devoção, e, como resultado, tudo de ruim em seus pensamentos veio a ceder.
Purport
SIGNIFICADO—Os desejos materiais na mente constituem tudo de ruim da contaminação material. Por essa contaminação, o ser vivo defronta-se com tantas coisas compatíveis e incompatíveis que desencorajam a própria existência da identidade espiritual. Nascimento após nascimento, a alma condicionada enreda-se em tantos elementos agradáveis e desagradáveis, os quais são todos falsos e temporários. Eles se acumulam devido às reações dos desejos materiais, mas, quando entramos em contato com o Senhor transcendental em Suas variadas energias, através do serviço devocional, manifestam-se as formas nuas de todos os desejos materiais, e a inteligência do ser vivo se apazigua manifestando seu verdadeiro caráter. Logo que Arjuna voltou sua atenção para as instruções do Senhor, como estão inculcadas na Bhagavad-gītā, seu verdadeiro caráter de associação eterna com o Senhor manifestou-se, e, desse modo, ele se sentiu livre de todas as contaminações materiais.
Devanagari
गीतं भगवता ज्ञानं यत् तत् सङ्ग्राममूर्धनि ।
कालकर्मतमोरुद्धं पुनरध्यगमत् प्रभु: ॥ ३० ॥
कालकर्मतमोरुद्धं पुनरध्यगमत् प्रभु: ॥ ३० ॥
Verse text
gītaṁ bhagavatā jñānaṁ
yat tat saṅgrāma-mūrdhani
kāla-karma-tamo-ruddhaṁ
punar adhyagamat prabhuḥ
yat tat saṅgrāma-mūrdhani
kāla-karma-tamo-ruddhaṁ
punar adhyagamat prabhuḥ
Synonyms
gītam — transmitidas; bhagavatā — pela Personalidade de Deus; jñānam — conhecimento transcendental; yat — que; tat — este; saṅgrāma-mūrdhani — no meio da batalha; kāla-karma — tempo e ações; tamaḥ-ruddham — envolvido por tal escuridão; punaḥ adhyagamat — reviveu-as novamente; prabhuḥ — o senhor de seus sentidos.
Translation
Por causa dos passatempos e das atividades do Senhor e devido à Sua ausência, parecia que Arjuna se esquecera das instruções deixadas pela Personalidade de Deus. Mas, de fato, esse não era o caso, e novamente ele se tornou senhor de seus sentidos.
Purport
SIGNIFICADO—Uma alma condicionada envolve-se em suas atividades fruitivas por força do tempo eterno. Porém, o Senhor Supremo, ao encarnar sobre a Terra, não é influenciado por kāla, ou a concepção material de passado, presente e futuro. As atividades do Senhor são eternas e são manifestações de Sua ātma-māyā, ou potência interna. Todos os passatempos ou atividades do Senhor são de natureza espiritual, mas, para os leigos, eles parecem estar no mesmo nível das atividades materiais. Parecia que Arjuna e o Senhor estavam ocupados na Guerra de Kurukṣetra assim como o outro grupo estava ocupado, mas, de fato, o Senhor estava executando Sua missão de encarnação e associação com Seu amigo eterno, Arjuna. Portanto, essas atividades aparentemente materiais de Arjuna não o afastaram de sua posição transcendental, mas, ao contrário, reviveram sua consciência das canções do Senhor como Ele as cantara pessoalmente. Esse reviver de consciência é garantido pelo Senhor na Bhagavad-gītā (18.65) da seguinte maneira:
man-manā bhava mad-bhakto
mad-yājī māṁ namaskuru
mām evaiṣyasi satyaṁ te
pratijāne priyo ’si me
mad-yājī māṁ namaskuru
mām evaiṣyasi satyaṁ te
pratijāne priyo ’si me
Devemos pensar sempre no Senhor; a mente não deve esquecê-lO. Devemos tornar-nos devotos do Senhor e oferecer-Lhe reverências. Alguém que vive deste modo torna-se, sem dúvida, dotado de todas as bênçãos do Senhor, alcançando o abrigo de Seus pés de lótus. Não há nada que duvidar dessa verdade eterna. Por Arjuna ser Seu amigo confidencial, o segredo lhe foi revelado.
Arjuna não tinha desejo de lutar com seus parentes, mas ele lutou para cumprir a missão do Senhor. Ele sempre estava ocupado unicamente na execução da missão dEle e, portanto, após a partida do Senhor, ele permaneceu na mesma posição transcendental, muito embora parecesse que ele se esquecera de todas as instruções da Bhagavad-gītā. Deve-se, portanto, ajustar as atividades da vida ao ritmo da missão do Senhor, e, por fazê-lo, garante-se o regresso ao lar, de volta ao Supremo. Essa é a perfeição máxima da vida.
Devanagari
विशोको ब्रह्मसम्पत्त्या सञ्छिन्नद्वैतसंशय: ।
लीनप्रकृतिनैर्गुण्यादलिङ्गत्वादसम्भव: ॥ ३१ ॥
लीनप्रकृतिनैर्गुण्यादलिङ्गत्वादसम्भव: ॥ ३१ ॥
Verse text
viśoko brahma-sampattyā
sañchinna-dvaita-saṁśayaḥ
līna-prakṛti-nairguṇyād
aliṅgatvād asambhavaḥ
sañchinna-dvaita-saṁśayaḥ
līna-prakṛti-nairguṇyād
aliṅgatvād asambhavaḥ
Synonyms
viśokaḥ — livre do pesar; brahma-sampattyā — pela posse de cabedal espiritual; sañchinna — sendo completamente cortadas; dvaita-saṁśayaḥ — das dúvidas da relatividade; līna — fundiram-se em; prakṛti — natureza material; nairguṇyāt — devido a estar em transcendência; aliṅgatvāt — por estar desprovido de corpo material; asambhavaḥ — livre de nascimentos e mortes.
Translation
Porque ele possuía cabedal espiritual, as dúvidas da dualidade foram completamente cortadas. Assim, ele se livrou dos três modos da natureza material e situou-se em transcendência. Não havia mais nenhuma possibilidade de ele se enredar em nascimentos e mortes, pois estava livre da forma material.
Purport
SIGNIFICADO—As dúvidas da dualidade começam a partir da falsa concepção do corpo material, que é aceito como o eu por pessoas menos inteligentes. A parte mais tola de nossa ignorância consiste em identificar este corpo material como sendo o eu. Tudo que tem relação com o corpo é ignorantemente aceito como nossa propriedade. As dúvidas decorrentes das falsas concepções de “eu” e “meu”, em outras palavras, “meu corpo”, “meus parentes”, “minha propriedade”, “minha esposa”, “meus filhos”, “minha riqueza”, “meu país”, “minha comunidade” e centenas e milhares de contemplações ilusórias semelhantes – desnorteiam a alma condicionada. Por assimilar as instruções da Bhagavad-gītā, uma pessoa se liberta com toda a certeza desse desnorteamento porque o conhecimento real é o conhecimento de que a Suprema Personalidade de Deus, Vāsudeva, o Senhor Kṛṣṇa, é tudo, incluindo nosso próprio eu. Tudo é parte integrante da manifestação de Sua potência. A potência e o potente não são diferentes; desse modo, a concepção de dualidade é imediatamente mitigada pela obtenção de conhecimento perfeito. Logo que Arjuna aceitou a instrução da Bhagavad-gītā, hábil como era, pôde imediatamente erradicar a concepção material do Senhor Kṛṣṇa, seu amigo eterno. Ele pôde compreender que o Senhor ainda estava presente diante dele através de Sua instrução, de Sua forma, de Seus passatempos, de Suas qualidades e de todas as outras coisas relacionadas a Ele. Ele pôde compreender que o Senhor Kṛṣṇa, seu amigo, ainda estava presente diante dele por meio de Sua presença transcendental em diferentes energias não-duais, e não havia possibilidade de alcançar a companhia do Senhor através de outra mudança do corpo, sob a influência do tempo e espaço. Com a aquisição de conhecimento absoluto, uma pessoa pode estar constantemente na companhia do Senhor, mesmo na vida atual, simplesmente por ouvir, cantar, pensar no Senhor Supremo e adorá-lO. Podemos vê-lO, podemos sentir Sua presença mesmo na vida atual simplesmente por entender Senhor advaya-jñāna, ou o Senhor Absoluto, através do processo de serviço devocional, que começa com ouvir sobre Ele. O Senhor Caitanya diz que simplesmente por cantar o santo nome do Senhor podemos imediatamente limpar a poeira sobre o espelho da consciência pura tão logo a poeira seja removida, livramo-nos imediatamente de todas as condições materiais. Livrar-se das condições materiais significa liberar a alma. Portanto, tão logo nos situemos em conhecimento absoluto, nossa concepção material de vida é removida, ou emergimos de uma falsa concepção de vida. Assim, a função da alma pura é revivida em compreensão espiritual. Essa compreensão prática do ser vivo torna-se possível devido à sua libertação da reação dos três modos da natureza material, a saber, bondade, paixão e ignorância. Pela graça do Senhor, um devoto puro é imediatamente elevado ao lugar Absoluto, e não há possibilidade de o devoto se tornar outra vez materialmente enredado na vida condicionada. Uma pessoa não é capaz de sentir a presença do Senhor em todas as circunstâncias até que esteja dotada da necessária visão transcendental, que se torna possível através do serviço devocional prescrito nas escrituras reveladas. Arjuna há muito tinha atingido esse estágio, no Campo de Batalha de Kurukṣetra, e, quando aparentemente sentiu a ausência do Senhor, ele imediatamente se refugiou nas instruções da Bhagavad-gītā e, dessa maneira, foi recolocado em sua posição original. Essa é a posição de viśoka, ou a fase de quem está livre de todo pesar e de toda ansiedade.
Devanagari
निशम्य भगवन्मार्गं संस्थां यदुकुलस्य च ।
स्व:पथाय मतिं चक्रे निभृतात्मा युधिष्ठिर: ॥ ३२ ॥
स्व:पथाय मतिं चक्रे निभृतात्मा युधिष्ठिर: ॥ ३२ ॥
Verse text
niśamya bhagavan-mārgaṁ
saṁsthāṁ yadu-kulasya ca
svaḥ-pathāya matiṁ cakre
nibhṛtātmā yudhiṣṭhiraḥ
saṁsthāṁ yadu-kulasya ca
svaḥ-pathāya matiṁ cakre
nibhṛtātmā yudhiṣṭhiraḥ
Synonyms
niśamya — deliberando; bhagavat — a respeito do Senhor; mārgama — as maneiras de Seu aparecimento e desaparecimento; saṁsthām — fim; yadu-kulasya — da dinastia do rei Yadu; ca — também; svaḥ — a morada do Senhor; pathāya — a caminho de; matim — desejo; cakre — prestou atenção; nibhṛta-ātmā — solitariamente e sozinho; yudhiṣṭhiraḥ — rei Yudhiṣṭhira.
Translation
Ao ouvir sobre o regresso do Senhor Kṛṣṇa à Sua morada, e ao entender que se findara a manifestação terrestre da dinastia Yadu, Mahārāja Yudhiṣṭhira decidiu voltar ao lar, voltar ao Supremo.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Yudhiṣṭhira também voltou sua atenção para as instruções da Bhagavad-gītā após ouvir sobre a partida do Senhor longe da vista das pessoas terrestres. Ele começou a deliberar sobre como acontecem o aparecimento e o desaparecimento do Senhor. A missão do aparecimento e desaparecimento do Senhor no universo mortal é completamente dependente de Sua vontade suprema. Ele não é forçado por alguma energia superior a aparecer ou desaparecer, ao contrário dos seres vivos que aparecem e desaparecem por serem forçados pelas leis da natureza. Sempre que o Senhor queira, Ele pode aparece em qualquer e toda parte sem perturbar Seu aparecimento e desaparecimento em qualquer outro lugar. Ele é como o Sol. O Sol aparece e desaparece por sua própria conta em qualquer lugar sem perturbar sua presença em outros lugares. O Sol aparece de manhã na Índia, sem desaparecer do Hemisfério Ocidental. O Sol está presente em todo e qualquer lugar em todo o sistema solar, mas parece que, num lugar em particular, o Sol aparece de manhã e também desaparece em algum momento fixo à tarde. Se mesmo a limitação de tempo do Sol não é de nenhum interesse, o que falar, então, do Senhor Supremo, que é o criador e controlador do Sol? Portanto, afirma-se na Bhagavad-gītā que qualquer pessoa que compreenda, de fato, o aparecimento e desaparecimento transcendentais do Senhor, através de Sua energia inconcebível, libera-se das leis de nascimento e morte e situa-se no céu espiritual eterno, onde estão os planetas Vaikuṇṭha. Ali, tais pessoas liberadas podem viver eternamente sem as dores de nascimento, morte, velhice e doença. No céu espiritual, o Senhor e aqueles que estão eternamente ocupados em transcendental serviço amoroso ao Senhor são todos eternamente jovens, porque não há velhice nem doença nem morte. Por não haver morte, não há nascimento. Conclui-se, portanto, que, simplesmente por entender de verdade o aparecimento e desaparecimento do Senhor, uma pessoa pode alcançar o estágio perfectivo de vida eterna. Portanto, Mahārāja Yudhiṣṭhira também começou a levar em consideração sua volta ao Supremo. O Senhor aparece sobre a Terra ou sobre qualquer outro planeta mortal juntamente com Seus associados que vivem eternamente com Ele, e os membros da família Yadu que estavam ocupados em suplementar os passatempos do Senhor não são ninguém menos do que Seus associados eternos, e o mesmo é verdade em relação a Mahārāja Yudhiṣṭhira e seus irmãos, mãe etc. Uma vez que o aparecimento e desaparecimento do Senhor e Seus associados eternos são transcendentais, não devemos nos deixar confundir pelos aspectos externos do aparecimento e desaparecimento.
Devanagari
पृथाप्यनुश्रुत्य धनञ्जयोदितं
नाशं यदूनां भगवद्गतिं च ताम् ।
एकान्तभक्त्या भगवत्यधोक्षजे
निवेशितात्मोपरराम संसृते: ॥ ३३ ॥
नाशं यदूनां भगवद्गतिं च ताम् ।
एकान्तभक्त्या भगवत्यधोक्षजे
निवेशितात्मोपरराम संसृते: ॥ ३३ ॥
Verse text
pṛthāpy anuśrutya dhanañjayoditaṁ
nāśaṁ yadūnāṁ bhagavad-gatiṁ ca tām
ekānta-bhaktyā bhagavaty adhokṣaje
niveśitātmopararāma saṁsṛteḥ
nāśaṁ yadūnāṁ bhagavad-gatiṁ ca tām
ekānta-bhaktyā bhagavaty adhokṣaje
niveśitātmopararāma saṁsṛteḥ
Synonyms
pṛthā — Kuntī; api — também; anuśrutya — ouvindo exaustivamente; dhanañjaya — Arjuna; uditam — proferidos por; nāśam — fim; yadūnām — da dinastia Yadu; bhagavat — da Personalidade de Deus; gatim — desaparecimento; ca — também; tām — todos aqueles; eka-anta — imaculada; bhaktyā — devoção; bhagavati — ao Senhor Supremo, Śrī Kṛṣṇa; adhokṣaje — transcendência; niveśita-ātmā — com plena atenção; upararāma — libertou-se de; saṁsṛteḥ — existência material.
Translation
Kuntī, tendo ouvido de longe enquanto Arjuna falava sobre o fim da dinastia Yadu e sobre o desaparecimento do Senhor Kṛṣṇa, ocupou-se no serviço devocional à transcendental Personalidade de Deus com plena atenção e, assim, libertou-se do curso da existência material.
Purport
SIGNIFICADO—O pôr do sol não significa o fim do Sol. Ele significa que o Sol está fora de nossa visão. Analogamente, o fim da missão do Senhor em um planeta ou universo em particular significa apenas que Ele está fora de nossa visão. O fim da dinastia Yadu também não significa que ela foi aniquilada. Ela desaparece, juntamente com o Senhor, para longe de nossa visão. Assim como Mahārāja Yudhiṣṭhira desejou preparar-se para voltar ao Supremo, Kuntī tomou essa mesma decisão e, assim, ela se ocupou plenamente no transcendental serviço amoroso ao Senhor, que nos garante o passaporte para voltar ao Supremo após abandonar este presente corpo material. O começo do serviço devocional ao Senhor é o começo da espiritualização do corpo atual, e, assim, um devoto imaculado do Senhor perde todo o contato material com o corpo presente. A morada do Senhor não é um mito, como pensam os descrentes ou as pessoas ignorantes, mas não se pode chegar ali simplesmente por meios materiais, como um esputinique ou cápsula espacial. Mas certamente podemos chegar ali após deixar este corpo atual, e devemos preparar-nos para voltar ao Supremo através da prática do serviço devocional. Isso garante o passaporte para voltar ao Supremo, e Kuntī o adotou.
Devanagari
ययाहरद् भुवो भारं तां तनुं विजहावज: ।
कण्टकं कण्टकेनेव द्वयं चापीशितु: समम् ॥ ३४ ॥
कण्टकं कण्टकेनेव द्वयं चापीशितु: समम् ॥ ३४ ॥
Verse text
yayāharad bhuvo bhāraṁ
tāṁ tanuṁ vijahāv ajaḥ
kaṇṭakaṁ kaṇṭakeneva
dvayaṁ cāpīśituḥ samam
tāṁ tanuṁ vijahāv ajaḥ
kaṇṭakaṁ kaṇṭakeneva
dvayaṁ cāpīśituḥ samam
Synonyms
Translation
O supremo não-nascido, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, fez com que os membros da dinastia Yadu abandonassem seus corpos e, dessa forma, Ele aliviou o fardo do mundo. Essa ação foi como retirar um espinho com outro espinho, embora ambos sejam a mesma coisa para o controlador.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura sugere que os ṛṣis, como Śaunaka e outros que estavam ouvindo o Śrīmad-Bhāgavatam da parte de Sūta Gosvāmī, em Naimiṣāraṇya, não ficaram felizes de ouvir sobre a morte dos Yadus na loucura da embriaguez. Para aliviá-los dessa agonia mental, Sūta Gosvāmī assegurou-lhes que o Senhor fez com que os membros da dinastia Yadu abandonassem seus corpos, pelos quais eles tinham que remover o fardo do mundo. O Senhor e Seus associados eternos apareceram sobre a Terra para auxiliar os semideuses administrativos a erradicar o fardo do mundo. Portanto, Ele chamou alguns dos semideuses confidenciais para aparecerem na família Yadu e servi-lO em Sua grande missão. Depois que a missão estava cumprida, os semideuses, pela vontade do Senhor, desvencilharam-se de seus corpos lutando entre si na loucura da embriaguez. Os semideuses estão habituados a tomar a bebida soma-rasa, de modo que o beber do vinho e a intoxicação não são desconhecidos para eles. Às vezes, eles eram postos em apuros por se permitirem a embriaguez. Certa vez, os filhos de Kuvera provocaram a ira de Nārada por estarem embriagados, porém, mais tarde, eles recuperaram suas formas originais pela graça do Senhor Śrī Kṛṣṇa. Encontraremos essa história no décimo canto. Para o Senhor Supremo, tanto os asuras quanto os semideuses são iguais, mas os semideuses são obedientes ao Senhor, ao passo que os asuras não o são. Portanto, o exemplo de tirar um espinho com outro espinho é inteiramente apropriado. Um espinho, que belisca a perna do Senhor, é certamente perturbador para o Senhor, e o outro espinho, que extrai os elementos perturbadores, certamente presta serviço ao Senhor. Assim, embora todo ser vivo seja parte integrante do Senhor, ainda assim alguém que seja um espinho para o Senhor é chamado de asura, e alguém que seja servo voluntário do Senhor é chamado de devatā, ou semideus. No mundo material, os devatās e asuras estão sempre em luta, e os devatās sempre são salvos das mãos dos asuras pelo Senhor. Ambos estão sob o controle do Senhor. O mundo está repleto dos dois tipos de seres vivos, e a missão do Senhor é de sempre proteger os devatās e destruir os asuras, sempre que haja tal necessidade no mundo, e para benefício de ambos.
Devanagari
यथा मत्स्यादिरूपाणि धत्ते जह्याद् यथा नट: ।
भूभार: क्षपितो येन जहौ तच्च कलेवरम् ॥ ३५ ॥
भूभार: क्षपितो येन जहौ तच्च कलेवरम् ॥ ३५ ॥
Verse text
yathā matsyādi-rūpāṇi
dhatte jahyād yathā naṭaḥ
bhū-bhāraḥ kṣapito yena
jahau tac ca kalevaram
dhatte jahyād yathā naṭaḥ
bhū-bhāraḥ kṣapito yena
jahau tac ca kalevaram
Synonyms
yathā — assim como; matsya-ādi — encarnação como peixe etc.; rūpāṇi — formas; dhatte — aceita eternamente; jahyāt — aparentemente abandona; yathā — exatamente como; naṭaḥ — mágico; bhū-bhāraḥ — carga do mundo; kṣapitaḥ — aliviou; yena — pela qual; jahau — deixou; tat — este; ca — também; kalevaram — corpo.
Translation
O Senhor Supremo abandonou o corpo que Ele manifestara para diminuir o fardo da Terra. Assim como um mágico, Ele abandona um corpo para aceitar outros diferentes, tais como a encarnação do peixe e outras.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, não é impessoal nem sem forma, mas Seu corpo não é diferente dEle, daí Ele ser conhecido como a corporificação da eternidade, do conhecimento e da bem-aventurança. No Bṛhad-vaiṣṇava Tantra, menciona-se claramente que qualquer pessoa que considere a forma do Senhor Kṛṣṇa como feita da energia material deve ser colocada no ostracismo por todos os meios. E se, por acaso, o rosto desse infiel for visto por alguém, essa pessoa deve lavar-se, mergulhando no rio com suas roupas. O Senhor é descrito como amṛta, ou imortal, porque Ele não tem corpo material. Sob tais circunstâncias, a morte, ou abandono de corpo por parte do Senhor, é como a prestidigitação de um mágico. O mágico mostra, através de seus truques, que ele é cortado em pedaços, reduzido a cinzas ou feito inconsciente por influências hipnóticas, mas todas essas coisas são apenas ilusionismo. Na verdade, o próprio mágico não é reduzido a cinzas nem cortado em pedaços, tampouco é morto ou fica inconsciente em algum estágio de sua demonstração de mágica. Analogamente, o Senhor tem Suas formas eternas de variedade ilimitada, das quais a encarnação de peixe, como foi exibida dentro deste universo, é uma delas. Porque há inúmeros universos, em algum lugar a encarnação de peixe deve estar manifestando Seus passatempos sem cessar. Neste verso, é usada a palavra específica dhatte (“eternamente aceito”, e não a palavra dhitvā, “aceito para a ocasião”). A ideia é que o Senhor não cria a encarnação de peixe; Ele tem essa forma eternamente, e o aparecimento e desaparecimento de tal encarnação serve a propósitos específicos. Na Bhagavad-gītā (7.24-25), o Senhor diz: “Os impersonalistas pensam que Eu não tenho forma, que sou amorfo, mas que, por agora, aceitei uma forma para servir a um propósito e agora sou manifesto. Mas esses especuladores são, na verdade, desprovidos de inteligência aguçada. Embora possam ser bons estudiosos das literaturas védicas, são praticamente ignorantes de Minhas energias inconcebíveis e de Minhas formas eternas de personalidade. A razão é que Eu Me reservo o poder de não Me expor aos não-devotos, através de Minha cortina mística. Os tolos menos inteligentes, portanto, não têm conhecimento de Minha forma eterna, que nunca se destina a ser aniquilada e que é não-nascida.” No Padma Purāṇa, afirma-se que aqueles que são invejosos e sempre irados com o Senhor são inaptos para conhecer a verdadeira e eterna forma do Senhor. No Bhāgavatam, também se diz que o Senhor parecia um raio para aqueles que se mostravam provocadores. Śisupāla, no momento de ser morto pelo Senhor, não pôde vê-lO como Kṛṣṇa, sendo ofuscado pelo fulgor do brahmajyoti. Portanto, a manifestação temporária do Senhor como um raio para os combatentes contratados por Kaṁsa, ou o aparecimento esplendoroso do Senhor diante de Śisupāla, foram abandonados pelo Senhor, mas o Senhor, como um mágico, existe eternamente e nunca é aniquilado em nenhuma circunstância. Essas formas são temporariamente exibidas apenas para os asuras, e, quando tais exibições são recolhidas, os asuras pensam que o Senhor não existe mais, assim como a plateia tola pensa que o mágico foi reduzido a cinzas ou cortado em pedaços. A conclusão é que o Senhor não tem corpo material, daí Ele nunca estar sujeito a ser morto ou mudar Seu corpo transcendental.
Devanagari
यदा मुकुन्दो भगवानिमां महीं
जहौ स्वतन्वा श्रवणीयसत्कथ: ।
तदाहरेवाप्रतिबुद्धचेतसा-
मभद्रहेतु: कलिरन्ववर्तत ॥ ३६ ॥
जहौ स्वतन्वा श्रवणीयसत्कथ: ।
तदाहरेवाप्रतिबुद्धचेतसा-
मभद्रहेतु: कलिरन्ववर्तत ॥ ३६ ॥
Verse text
yadā mukundo bhagavān imāṁ mahīṁ
jahau sva-tanvā śravaṇīya-sat-kathaḥ
tadāhar evāpratibuddha-cetasām
abhadra-hetuḥ kalir anvavartata
jahau sva-tanvā śravaṇīya-sat-kathaḥ
tadāhar evāpratibuddha-cetasām
abhadra-hetuḥ kalir anvavartata
Synonyms
yadā — quando; mukundaḥ — Senhor Kṛṣṇa; bhagavān — a Personalidade de Deus; imām — esta; mahīm — Terra; jahau — deixou; sva-tanvā — com o próprio corpo; śravaṇīya-sat-kathaḥ — vale a pena ouvir sobre Ele; tadā — naquele momento; ahaḥ eva — desde o próprio dia; aprati-buddha-cetasām — daqueles cujas mentes não estão suficientemente desenvolvidas; abhadra-hetuḥ — causa de toda má fortuna; kaliḥ anvavartata — Kali manifestou-se plenamente.
Translation
Quando a Personalidade de Deus, o Senhor Kṛṣṇa, deixou este planeta Terra com Sua própria forma; desde aquele mesmo dia, Kali, que já havia aparecido parcialmente, manifestou-se em plenitude para criar condições inauspiciosas para aqueles que são dotados de pobre fundo de conhecimento.
Purport
SIGNIFICADO—A influência de Kali pode impor-se somente àqueles que não estão plenamente desenvolvidos em consciência de Deus. Podem-se neutralizar os efeitos de Kali mantendo-se inteiramente sob o cuidado supremo da Personalidade de Deus. A era de Kali sucedeu logo após a Guerra de Kurukṣetra, mas não pôde exercer sua influência por causa da presença do Senhor. O Senhor, contudo, deixou este planeta Terra em Seu próprio corpo transcendental, e, logo que Ele partiu, os sintomas da Kali-yuga, como foram previstos por Mahārāja Yudhiṣṭhira antes de Arjuna chegar de Dvārakā, começaram a manifestar-se. Mahārāja Yudhiṣṭhira conjeturou corretamente sobre a partida de Senhor da Terra. Como já explicamos, o Senhor retirou-Se de nossa vista assim como o Sol, quando se põe, fica fora de nosso campo visual.
Devanagari
युधिष्ठिरस्तत्परिसर्पणं बुध:
पुरे च राष्ट्रे च गृहे तथात्मनि ।
विभाव्य लोभानृतजिह्महिंसना-
द्यधर्मचक्रं गमनाय पर्यधात् ॥ ३७ ॥
पुरे च राष्ट्रे च गृहे तथात्मनि ।
विभाव्य लोभानृतजिह्महिंसना-
द्यधर्मचक्रं गमनाय पर्यधात् ॥ ३७ ॥
Verse text
yudhiṣṭhiras tat parisarpaṇaṁ budhaḥ
pure ca rāṣṭre ca gṛhe tathātmani
vibhāvya lobhānṛta-jihma-hiṁsanādy-
adharma-cakraṁ gamanāya paryadhāt
pure ca rāṣṭre ca gṛhe tathātmani
vibhāvya lobhānṛta-jihma-hiṁsanādy-
adharma-cakraṁ gamanāya paryadhāt
Synonyms
yudhiṣṭhiraḥ — Mahārāja Yudhiṣṭhira; tat — esta; parisarpaṇam — expansão; budhaḥ — experimentou completamente; pure — na capital; ca — como também; rāṣṭre — no estado; ca — e; gṛhe — no lar; tathā — como também; ātmani — em pessoa; vibhāvya — observando; lobha — avaresa; anṛta — falsidade; jihma — diplomacia; hiṁsana-ādi — violência, inveja; adharma — irreligião; cakram — um círculo vicioso; gamanāya — para a partida; paryadhāt — vestiu-se de acordo.
Translation
Mahārāja Yudhiṣṭhira foi inteligente o bastante para entender a influência da era de Kali, caracterizada pelo aumento da avareza, falsidade, fraude e violência em toda a capital, no estado, no lar e entre indivíduos. Assim, sabiamente, ele se preparou para deixar o lar e se vestiu de acordo.
Purport
SIGNIFICADO—A era atual é influenciada pelas qualidades específicas de Kali. Desde os dias da Guerra de Kurukṣetra, há cerca de cinco mil anos, a influência da era de Kali começou a manifestar-se, e, a partir de escrituras autênticas, aprende-se que a era de Kali ainda há de perdurar por mais 427.000 anos. Os sintomas de Kali-yuga, como mencionados acima, a saber, avareza, falsidade, diplomacia, fraudulência, despotismo, violência e todo defeito desse tipo, já estão em voga, e ninguém pode imaginar o que vai acontecer gradualmente, com o posterior aumento da influência de Kali até o dia da aniquilação. Já fomos informados de que a influência da era de Kali destina-se ao homem sem Deus e dito civilizado; aqueles que estão sob a proteção do Senhor nada têm a temer desta era horrenda. Mahārāja Yudhiṣṭhira era um grande devoto do Senhor, e não havia necessidade de se atemorizar pela era de Kali, mas ele preferiu retirar-se da vida doméstica ativa e preparar-se para voltar ao lar, voltar ao Supremo. Os Pāṇḍavas são companheiros eternos do Senhor e, portanto, estão mais interessados na companhia do Senhor do que em qualquer outra coisa. Além disso, sendo um rei ideal, Mahārāja Yudhiṣṭhira queria retirar-se simplesmente para estabelecer um exemplo para os outros. Tão logo haja algum jovem para cuidar dos afazeres domésticos, a pessoa deve imediatamente se retirar da vida familiar para se elevar à compreensão espiritual. Não devemos apodrecer no poço escuro da vida doméstica até sermos arrastados pela vontade de Yamarāja. Os políticos modernos devem aprender a lição de Mahārāja Yudhiṣṭhira sobre a retirada voluntária da vida ativa e devem dar vez à geração mais jovem. Também os idosos honrados que se aposentaram devem aprender com ele e deixar o lar para buscar a compreensão espiritual antes que sejam arrastados à força ao encontro da morte.
Devanagari
स्वराट् पौत्रं विनयिनमात्मन: सुसमं गुणै: ।
तोयनीव्या: पतिं भूमेरभ्यषिञ्चद्गजाह्वये ॥ ३८ ॥
तोयनीव्या: पतिं भूमेरभ्यषिञ्चद्गजाह्वये ॥ ३८ ॥
Verse text
sva-rāṭ pautraṁ vinayinam
ātmanaḥ susamaṁ guṇaiḥ
toya-nīvyāḥ patiṁ bhūmer
abhyaṣiñcad gajāhvaye
ātmanaḥ susamaṁ guṇaiḥ
toya-nīvyāḥ patiṁ bhūmer
abhyaṣiñcad gajāhvaye
Synonyms
Translation
Depois disso, na capital de Hastināpura, ele entronou seu neto, que foi treinado e era igualmente qualificado, como o imperador e senhor de toda a terra cercada pelos mares.
Purport
SIGNIFICADO—Toda a extensão de terra cercada pelos mares estava sob a jurisdição do rei de Hastināpura. Mahārāja Yudhiṣṭhira treinara seu neto, Mahārāja Parīkṣit, que era igualmente qualificado, na administração do estado em termos de obrigações do rei para com os cidadãos. Então, Parīkṣit foi entronado no assento de Mahārāja Yudhiṣṭhira, antes de sua partida de volta ao Supremo. A respeito de Mahārāja Parīkṣit, a palavra específica usada, vinayinam, é significativa. Por que o rei de Hastināpura, pelo menos até o tempo de Mahārāja Parīkṣit, era aceito como o imperador do mundo? A única razão é que as pessoas do mundo eram felizes por causa da boa administração do imperador. A felicidade dos cidadãos se devia à ampla produção de produtos naturais, como cereais, frutas, leite, ervas, pedras preciosas, minerais e tudo de que a população precisava. Eles eram até mesmo livres de todas as dores corpóreas, ansiedades mentais e perturbações causadas por fenômenos naturais e outros seres vivos. Porque todos eram felizes sob todos os aspectos, não havia ressentimentos, embora, às vezes, houvesse batalhas entre os reis do estado por razões políticas e por razões de supremacia. Todos eram treinados para alcançar a meta máxima da vida, e, portanto, as pessoas também eram instruídas o bastante para não brigarem por coisas triviais. A influência da era de Kali infiltrou-se gradualmente nas boas qualidades tanto dos reis quanto dos cidadãos, de modo que uma situação tensa se desenvolveu entre governante e governados, mas, mesmo nesta era de disparidade entre governante e governados, pode haver progresso espiritual e consciência de Deus. Essa é uma prerrogativa especial.
Devanagari
मथुरायां तथा वज्रं शूरसेनपतिं तत: ।
प्राजापत्यां निरूप्येष्टिमग्नीनपिबदीश्वर: ॥ ३९ ॥
प्राजापत्यां निरूप्येष्टिमग्नीनपिबदीश्वर: ॥ ३९ ॥
Verse text
mathurāyāṁ tathā vajraṁ
śūrasena-patiṁ tataḥ
prājāpatyāṁ nirūpyeṣṭim
agnīn apibad īśvaraḥ
śūrasena-patiṁ tataḥ
prājāpatyāṁ nirūpyeṣṭim
agnīn apibad īśvaraḥ
Synonyms
Translation
Então, ele empossou Vajra, o filho de Aniruddha [neto do Senhor Kṛṣṇa], em Mathurā, como o rei de Śūrasena. Depois disso, Mahārāja Yudhiṣṭhira executou um sacrifício Prājāpatya e colocou o fogo em si mesmo para abandonar a vida familiar.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Yudhiṣṭhira, após colocar Mahārāja Parīkṣit no trono imperial de Hastināpura, e após empossar Vajra, o bisneto do Senhor Kṛṣṇa, como o rei de Mathurā, aceitou a ordem de vida renunciada. O sistema de quatro ordens de vida e quatro castas, de acordo com a qualidade e trabalho, conhecido como varṇāśrama-dharma, é o começo da verdadeira vida humana, e Mahārāja Yudhiṣṭhira, como o protetor desse sistema de atividades humanas, retirou-se oportunamente da vida ativa como um sannyāsī, passando o encargo da administração para um príncipe treinado, Mahārāja Parīkṣit. O sistema científico de varṇāśrama-dharma divide a vida humana em quatro classes de ocupações e quatro ordens de vida. As quatro ordens de vida como brahmācārya, gṛhastha, vānaprastha e sannyāsa devem ser seguidas por todos, a despeito da divisão ocupacional. Os políticos modernos não querem se retirar da vida ativa, mesmo quando ficam bastante velhos, mas Yudhiṣṭhira Mahārāja, como um rei ideal, retirou-se voluntariamente da vida ativa na administração a fim de se preparar para a próxima vida. A vida de todos deve ser planejada de tal forma que a última fase da vida, quer dizer, pelo menos os últimos quinze a vinte anos antes da morte, possam ser absolutamente dedicados ao serviço devocional ao Senhor para se alcançar a perfeição máxima da vida. É realmente tolice ocupar-se todos os dias da vida em gozo material e atividades fruitivas, pois, enquanto a mente permanecer absorta no trabalho fruitivo para o gozo material, não haverá possibilidade de escapar da vida condicionada, ou cativeiro material. Ninguém deve seguir a política suicida de negligenciar sua tarefa suprema de alcançar a perfeição máxima da vida, a saber, voltar ao lar, voltar ao Supremo.
Devanagari
विसृज्य तत्र तत् सर्वं दुकूलवलयादिकम् ।
निर्ममो निरहङ्कार: सञ्छिन्नाशेषबन्धन: ॥ ४० ॥
निर्ममो निरहङ्कार: सञ्छिन्नाशेषबन्धन: ॥ ४० ॥
Verse text
visṛjya tatra tat sarvaṁ
dukūla-valayādikam
nirmamo nirahaṅkāraḥ
sañchinnāśeṣa-bandhanaḥ
dukūla-valayādikam
nirmamo nirahaṅkāraḥ
sañchinnāśeṣa-bandhanaḥ
Synonyms
Translation
Mahārāja Yudhiṣṭhira abandonou de imediato todas suas roupas, cinturão e ornamentos da ordem real e tornou-se completamente desinteressado e desapegado de tudo.
Purport
SIGNIFICADO—Purificar-se da contaminação material é a qualificação necessária para converter-se num dos associados do Senhor. Ninguém pode tornar-se um associado do Senhor ou voltar ao Supremo sem tal purificação. Mahārāja Yudhiṣṭhira, portanto, a fim de se tornar espiritualmente puro, abandonou de imediato sua opulência real, deixando suas vestes e insígnias reais. O kaṣāya, ou a tanga açafroada do sannyāsī, indica liberdade de todas as atrativas vestes materiais, e, assim, ele mudou sua roupa adequadamente. Tornou-se desinteressado de seu reino e família e, deste modo, livrou-se de toda a contaminação material, ou designação material. Geralmente, as pessoas são apegadas a vários tipos de designações – as designações de família, sociedade, país, ocupação, riqueza, posição e muitas outras. Enquanto a pessoa está apegada a essas designações, ela é considerada materialmente impura. Os ditos líderes dos homens na era moderna são apegados à consciência nacional, mas eles não sabem que essa falsa consciência é outra designação da alma materialmente condicionada; temos de abandonar tais designações para que depois possamos tornar-nos aptos a voltar ao Supremo. As pessoas tolas adoram esses homens que morrem em consciência nacional, mas aqui está o exemplo de Mahārāja Yudhiṣṭhira, um rei majestoso que se preparou para deixar este mundo sem essa consciência nacional. E, todavia, ele é lembrado ainda hoje porque foi um grande rei piedoso, quase no mesmo nível que a Personalidade de Deus Śrī Rāma. E porque as pessoas do mundo eram dominadas por tais reis piedosos, elas eram felizes sob todos os aspectos, e governar o mundo era completamente possível para esses grandes imperadores.
Devanagari
वाचं जुहाव मनसि तत्प्राण इतरे च तम् ।
मृत्यावपानं सोत्सर्गं तं पञ्चत्वे ह्यजोहवीत् ॥ ४१ ॥
मृत्यावपानं सोत्सर्गं तं पञ्चत्वे ह्यजोहवीत् ॥ ४१ ॥
Verse text
vācaṁ juhāva manasi
tat prāṇa itare ca tam
mṛtyāv apānaṁ sotsargaṁ
taṁ pañcatve hy ajohavīt
tat prāṇa itare ca tam
mṛtyāv apānaṁ sotsargaṁ
taṁ pañcatve hy ajohavīt
Synonyms
vācam — palavras; juhāva — abandonou; manasi — com a mente; tat prāṇe — mente com a respiração; itare ca — outros sentidos também; tam — naquilo; mṛtyau — com a morte; apānam — respiração; sa-utsargam — com toda a dedicação; tam — isso; pañcatve — com o corpo feito de cinco elementos; hi — certamente; ajohavīt — amalgamou-o.
Translation
Então, ele amalgamou todos os órgãos dos sentidos com a mente, depois a mente com a vida, a vida com a respiração, sua existência total com a corporificação dos cinco elementos, e seu corpo com a morte. Então, como eu puro, libertou-se da concepção material da vida.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Yudhiṣṭhira, como seu irmão Arjuna, começou a concentrar-se e, gradualmente, livrou-se de todo o cativeiro material. Primeiramente, ele concentrou todas as ações dos sentidos, amalgamou-os com a mente, ou, em outras palavras, ele voltou sua mente para o transcendental serviço ao Senhor. Uma vez que todas as atividades materiais são executadas pela mente, em termos de ações e reações dos sentidos materiais, e uma vez que ele estava indo de volta ao Supremo, ele orou para que a mente encerrasse suas atividades materiais e se voltasse para o transcendental serviço ao Senhor. Já não havia necessidade de atividades materiais. Na verdade, as atividades da mente não podem ser paradas, pois elas são o reflexo da alma eterna, mas a qualidade das atividades pode ser convertida da matéria ao transcendental serviço ao Senhor. A cor material da mente é mudada quando a pessoa a limpa das contaminações da respiração vital e, por esse meio, livra-se da contaminação de repetidos nascimentos e mortes e a situa em vida espiritual pura. Tudo é manifestado pela corporificação temporária do corpo material, que é um produto da mente na hora da morte, e se a mente está purificada pela prática do transcendental serviço amoroso ao Senhor e está constantemente ocupada no serviço aos pés de lótus do Senhor, não há mais possibilidade de a mente produzir outro corpo material após a morte. Ela se livrará da absorção na contaminação material. A alma pura será capaz de regressar ao lar, de voltar ao Supremo.
Devanagari
त्रित्वे हुत्वा च पञ्चत्वं तच्चैकत्वेऽजुहोन्मुनि: ।
सर्वमात्मन्यजुहवीद्ब्रह्मण्यात्मानमव्यये ॥ ४२ ॥
सर्वमात्मन्यजुहवीद्ब्रह्मण्यात्मानमव्यये ॥ ४२ ॥
Verse text
tritve hutvā ca pañcatvaṁ
tac caikatve ’juhon muniḥ
sarvam ātmany ajuhavīd
brahmaṇy ātmānam avyaye
tac caikatve ’juhon muniḥ
sarvam ātmany ajuhavīd
brahmaṇy ātmānam avyaye
Synonyms
tritve — com as três qualidades; hutvā — tendo oferecido; ca — também, pañcatvam — cinco elementos; tat — isso; ca — também; ekatve — em uma só necedade; ajuhot — amalgamou; muniḥ — o pensativo; sarvam — a soma total; ātmani — na alma; ajuhavīt — fixou; brahmaṇi — no espírito; ātmānam — a alma; avyaye — no inesgotável.
Translation
Assim aniquilando o corpo grosseiro de cinco elementos com os três modos qualitativos da natureza material, ele os fundiu em uma só necedade e, então, amalgamou essa necedade no eu, o Brahman, que é inesgotável em todas as circunstâncias.
Purport
SIGNIFICADO—Tudo que é manifesto no mundo material é produto do mahat-tattva-avyakta, e as coisas que são visíveis à nossa visão material nada mais são do que combinações e permutações desses variados produtos materiais. A entidade viva, porém, é diferente desses produtos materiais. É devido ao esquecimento de sua natureza eterna como servidor eterno do Senhor e à sua falsa concepção de ser o suposto senhor da natureza material que a entidade viva é obrigada a entrar na existência do falso gozo dos sentidos. Assim, uma geração concomitante de energias materiais é a causa principal de a mente ficar materialmente afetada. Desse modo, o corpo grosseiro de cinco elementos é produzido. Mahārāja Yudhiṣṭhira reverteu a ação e fundiu os cinco elementos do corpo nos três modos da natureza material. A distinção qualitativa do corpo como sendo bom, mau ou medíocre extingue-se, e novamente as manifestações qualitativas se fundem na energia material, que é causada pela falsa concepção do ser vivo puro. Quando alguém tem essa propensão a se associar com o Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, em um dos inúmeros planetas do céu espiritual, especialmente em Goloka Vṛndāvana, ele tem que pensar sempre que é diferente da energia material; ele nada tem a ver com tal energia, e tem de compreender-se como espírito puro, Brahman, qualitativamente igual ao Brahman Supremo (Parameśvara). Mahārāja Yudhiṣṭhira, após distribuir seu reino entre Parīkṣit e Vajra, não se julgou imperador do mundo ou líder da dinastia Kuru. Esse sentido de libertação das relações materiais, bem como de libertação do engaiolamento material no invólucro grosseiro e sutil, faz a pessoa livre para agir como servidor do Senhor, mesmo que ela esteja no mundo material. Essa fase se chama estágio jīvan-mukta, ou estágio liberado, mesmo no mundo material. Esse é o processo de acabar com a existência material. A pessoa deve não apenas pensar que é Brahman, mas também tem que agir como Brahman. Aquele que somente julga-se Brahman é impersonalista. E aquele que age como Brahman é devoto puro.
Devanagari
चीरवासा निराहारो बद्धवाङ्मुक्तमूर्धज: ।
दर्शयन्नात्मनो रूपं जडोन्मत्तपिशाचवत् ।
अनवेक्षमाणो निरगादशृण्वन्बधिरो यथा ॥ ४३ ॥
दर्शयन्नात्मनो रूपं जडोन्मत्तपिशाचवत् ।
अनवेक्षमाणो निरगादशृण्वन्बधिरो यथा ॥ ४३ ॥
Verse text
cīra-vāsā nirāhāro
baddha-vāṅ mukta-mūrdhajaḥ
darśayann ātmano rūpaṁ
jaḍonmatta-piśācavat
anavekṣamāṇo niragād
aśṛṇvan badhiro yathā
baddha-vāṅ mukta-mūrdhajaḥ
darśayann ātmano rūpaṁ
jaḍonmatta-piśācavat
anavekṣamāṇo niragād
aśṛṇvan badhiro yathā
Synonyms
cīra-vāsāḥ — aceitou farrapos; nirāhāraḥ — abandonou todo tipo de alimento sólido; baddha-vāk — parou de falar; mukta-mūrdhajaḥ — soltou seu cabelo; darśayan — começou a mostrar; ātmanaḥ — de si mesmo; rūpam — características corpóreas; jaḍa — inerte; unmatta — loucos; piśāca-vat — tal qual um maltrapilho; anavekṣamāṇaḥ — sem esperar por; niragāt — situou-se; aśṛṇvan — sem ouvir; badhiraḥ — tal qual um surdo; yathā — como se.
Translation
Depois disso, Mahārāja Yudhiṣṭhira se vestiu de farrapos, deixou de comer qualquer alimento sólido, tornou-se voluntariamente mudo e deixou seu cabelo solto. A combinação disso tudo o fez semelhante a um maltrapilho ou louco sem nenhuma ocupação. Ele não dependia de seus irmãos para nada. E, assim como um homem surdo, ele não ouvia nada.
Purport
SIGNIFICADO—Livrando-se, assim, de todos os afazeres externos, ele nada tinha a ver com a vida imperial ou com o prestígio familiar, e, para todos os fins práticos, ele se fazia passar exatamente por maltrapilho louco e inerte e não falava de afazeres materiais. Ele não tinha dependência alguma de seus irmãos, que sempre o ajudaram. Esse estágio de completa independência de tudo também é chamado de o estágio purificado de destemor.
Devanagari
उदीचीं प्रविवेशाशां गतपूर्वां महात्मभि: ।
हृदि ब्रह्म परं ध्यायन्नावर्तेत यतो गत: ॥ ४४ ॥
हृदि ब्रह्म परं ध्यायन्नावर्तेत यतो गत: ॥ ४४ ॥
Verse text
udīcīṁ praviveśāśāṁ
gata-pūrvāṁ mahātmabhiḥ
hṛdi brahma paraṁ dhyāyan
nāvarteta yato gataḥ
gata-pūrvāṁ mahātmabhiḥ
hṛdi brahma paraṁ dhyāyan
nāvarteta yato gataḥ
Synonyms
udīcīm — o lado setentrional; praviveśa-āśām — aqueles que quiseram entrar ali; gata-pūrvām — o caminho aceito por seus antepassados; mahā-ātmabhiḥ — pelos tolerantes; hṛdi — dentro do coração; brahma — o Supremo; param — Deus; dhyāyan — pensando constantemente em; na āvarteta — passou seus dias; yataḥ — onde quer que; gataḥ — fosse.
Translation
Então, ele partiu em direção ao norte, trilhando o caminho aceito por seus antepassados e grandes homens, para dedicar-se completamente a pensar na Suprema Personalidade de Deus. E ele vivia assim para onde quer que fosse.
Purport
SIGNIFICADO—Entende-se a partir deste verso que Mahārāja Yudhiṣṭhira seguiu os passos de seus antepassados e dos grandes devotos do Senhor. Já discutimos muitas vezes antes que o sistema de varṇāśrama-dharma, como era seguido estritamente pelos habitantes do mundo, especificamente por aqueles que habitavam a província Āryāvarta do mundo, enfatiza a importância de deixar todas as ligações familiares numa determinada fase da vida. O treinamento e a educação eram transmitidos dessa maneira, de modo que uma pessoa respeitável como Mahārāja Yudhiṣṭhira tinha que deixar todo o relacionamento familiar em favor da autorrealização e da volta ao Supremo. Nenhum rei ou cavalheiro respeitável continuaria a vida familiar até o fim, porque isso era considerado um gesto suicida e contrário ao interesse da perfeição da vida humana. A fim de livrar-se de todos os estorvos familiares e dedicar-se cem por cento ao serviço devocional ao Senhor Kṛṣṇa, esse sistema é sempre recomendado para todos, pois ele é o caminho autorizado. O Senhor instrui na Bhagavad-gītā (18.62) que a pessoa deve tornar-se um devoto do Senhor pelo menos na última fase de sua vida. Toda alma sincera com o Senhor, como Mahārāja Yudhiṣṭhira, tem de submeter-se a essa instrução do Senhor, para seu próprio interesse.
As palavras específicas brahma param indicam o Senhor Śrī Kṛṣṇa. Isso é corroborado por Arjuna na Bhagavad-gītā (10.13), com referência a grandes autoridades como Asita, Devala, Nārada e Vyāsa. Desse modo, Mahārāja Yudhiṣṭhira, enquanto deixava o lar, rumo ao norte, lembrava-se constantemente do Senhor Śrī Kṛṣṇa dentro de si mesmo, seguindo os passos de seus antepassados, bem como dos grandes devotos de todos os tempos.
Devanagari
सर्वे तमनुनिर्जग्मुर्भ्रातर: कृतनिश्चया: ।
कलिनाधर्ममित्रेण दृष्ट्वा स्पृष्टा: प्रजा भुवि ॥ ४५ ॥
कलिनाधर्ममित्रेण दृष्ट्वा स्पृष्टा: प्रजा भुवि ॥ ४५ ॥
Verse text
sarve tam anunirjagmur
bhrātaraḥ kṛta-niścayāḥ
kalinādharma-mitreṇa
dṛṣṭvā spṛṣṭāḥ prajā bhuvi
bhrātaraḥ kṛta-niścayāḥ
kalinādharma-mitreṇa
dṛṣṭvā spṛṣṭāḥ prajā bhuvi
Synonyms
sarve — todos os seus irmãos mais novos; tam — lhe; anunirjagmuḥ — deixaram o lar, seguindo o mais velho; bhrātaraḥ — irmãos; kṛta-niścayāḥ — decididamente; kalinā — pela era de Kali; adharma — princípio de irreligião; mitreṇa — pelo amigo; dṛṣṭvā — observando; spṛṣṭāḥ — tendo dominado; prajāḥ — todos os cidadãos; bhuvi — sobre a Terra.
Translation
Os irmãos mais novos de Mahārāja Yudhiṣṭhira observaram que a era de Kali já havia chegado em todo o mundo e que os cidadãos do reino já estavam afetados pela prática irreligiosa. Portanto, eles decidiram seguir os passos de seu irmão mais velho.
Purport
SIGNIFICADO—Os irmãos mais novos de Mahārāja Yudhiṣṭhira já eram seguidores obedientes do grande imperador, e tinham sido suficientemente treinados para conhecer a meta última da vida. Portanto, eles seguiram decididamente seu irmão mais velho na prestação de serviço devocional ao Senhor Śrī Kṛṣṇa. De acordo com os princípios de sanātana-dharma, é preciso retirar-se da vida familiar depois de terminada metade da duração da vida, e ocupar-se em autorrealização. Mas a questão de como se ocupar nem sempre é decidida. Às vezes, os homens, ao se retirarem, tornam-se confusos sobre a maneira de se ocuparem nos últimos dias da vida. Temos aqui uma decisão de autoridades do nível dos Pāṇḍavas. Todos eles se ocuparam em cultivar favoravelmente o serviço devocional ao Senhor Śrī Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus. Segundo Svāmī Śrīdhara, dharma, artha, kāma e mokṣa, ou atividades fruitivas, especulações filosóficas e salvação, como são concebidas por diversas pessoas, não são a meta última da vida. Elas são mais ou menos praticadas por pessoas que não têm informações acerca da meta última da vida. A meta última da vida já está indicada pelo próprio Senhor na Bhagavad-gītā (18.64), e os Pāṇḍavas foram inteligentes o bastante para segui-la sem hesitação.
Devanagari
ते साधुकृतसर्वार्था ज्ञात्वात्यन्तिकमात्मन: ।
मनसा धारयामासुर्वैकुण्ठचरणाम्बुजम् ॥ ४६ ॥
मनसा धारयामासुर्वैकुण्ठचरणाम्बुजम् ॥ ४६ ॥
Verse text
te sādhu-kṛta-sarvārthā
jñātvātyantikam ātmanaḥ
manasā dhārayām āsur
vaikuṇṭha-caraṇāmbujam
jñātvātyantikam ātmanaḥ
manasā dhārayām āsur
vaikuṇṭha-caraṇāmbujam
Synonyms
te — todos eles; sādhu-kṛta — tendo executado tudo que é digno de um santo; sarva-arthāḥ — aquilo que inclui tudo que é digno; jñātvā — sabendo bem disso; ātyantikam — a última; ātmanaḥ — do ser vivo; manasā — dentro da mente; dhārayām āsuḥ — sustentaram; vaikuṇṭha — o Senhor do céu espiritual; caraṇa-ambujam — os pés de lótus.
Translation
Todos eles executaram todos os princípios da religião e, como resultado, decidiram corretamente que os pés de lótus do Senhor Śrī Kṛṣṇa são a meta suprema de tudo. Portanto, eles meditaram em Seus pés sem interrupção.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor diz na Bhagavad-gītā (7.28) que somente aqueles que fizeram atos piedosos em vidas anteriores e que se livraram dos resultados de todos os atos impiedosos podem se concentrar nos pés de lótus do Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa. Os Pāṇḍavas, não apenas nesta vida, mas também em suas vidas anteriores, tinham sempre executado o trabalho piedoso supremo, e assim eles estão sempre livres de todas as reações do trabalho impiedoso. É completamente razoável, portanto, que eles concentrassem suas mentes nos pés de lótus do Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa. Segundo Śrī Viśvanātha Cakravartī, os princípios dharma, artha, kāma e mokṣa são aceitos por pessoas que não estão livres dos resultados da ação impiedosa. Essas pessoas, afetadas pelas contaminações dos quatro princípios acima, não podem aceitar de imediato os pés de lótus do Senhor no céu espiritual. O mundo Vaikuṇṭha está situado muito além do céu material. O céu material está sob a direção de Durgā Devī, ou a energia material do Senhor, mas o mundo Vaikuṇṭha é dirigido pela energia pessoal do Senhor.
Devanagari
तद्ध्यानोद्रिक्तया भक्त्या विशुद्धधिषणा: परे ।
तस्मिन् नारायणपदे एकान्तमतयो गतिम् ॥ ४७ ॥
अवापुर्दुरवापां ते असद्भिर्विषयात्मभि: ।
विधूतकल्मषा स्थानं विरजेनात्मनैव हि ॥ ४८ ॥
तस्मिन् नारायणपदे एकान्तमतयो गतिम् ॥ ४७ ॥
अवापुर्दुरवापां ते असद्भिर्विषयात्मभि: ।
विधूतकल्मषा स्थानं विरजेनात्मनैव हि ॥ ४८ ॥
Verse text
tad-dhyānodriktayā bhaktyā
viśuddha-dhiṣaṇāḥ pare
tasmin nārāyaṇa-pade
ekānta-matayo gatim
viśuddha-dhiṣaṇāḥ pare
tasmin nārāyaṇa-pade
ekānta-matayo gatim
avāpur duravāpāṁ te
asadbhir viṣayātmabhiḥ
vidhūta-kalmaṣā sthānaṁ
virajenātmanaiva hi
asadbhir viṣayātmabhiḥ
vidhūta-kalmaṣā sthānaṁ
virajenātmanaiva hi
Synonyms
tat — esta; dhyāna — meditação positiva; utriktayā — estando livres da; bhaktyā — por uma atitude devocional; viśuddha — purificada; dhiṣaṇāḥ — pela inteligência; pare — na Transcendência; tasmin — naquela; nārāyaṇa — a Personalidade de Deus Śrī Kṛṣṇa; pade — aos pés de lótus; ekānta-matayaḥ — daqueles que estão fixos no Supremo, que é único; gatim — destino; avāpuḥ — alcançaram; duravāpām — muito difícil de obter; te — por eles; asadbhiḥ — pelos materialistas; viṣaya-ātmabhiḥ — absortos em necessidades materiais; vidhūta — limpos; kalmaṣāḥ — contaminações materiais; sthānam — morada; virajena — sem paixão material; ātmanā eva — pelo mesmíssimo corpo; hi — certamente.
Translation
Assim, através de consciência pura, decorrente da constante lembrança devocional, eles alcançaram o céu espiritual, que é governado pelo Nārāyaṇa Supremo, o Senhor Kṛṣṇa. Isso alcançam somente aqueles que meditam no único Senhor Supremo, sem desvios. Essa morada do Senhor Śrī Kṛṣṇa, conhecida como Goloka Vṛndāvana, não pode ser atingida pelas pessoas que estão absortas na concepção material da vida. Mas os Pāṇḍavas, estando completamente limpos de toda a contaminação material, alcançaram essa morada em seus mesmíssimos corpos.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo Śrīla Jīva Gosvāmī, uma pessoa livre dos três modos das qualidades materiais, a saber, bondade, paixão e ignorância, e situada em transcendência pode atingir a perfeição máxima da vida sem mudança de corpo. Śrīla Sanātana Gosvāmī, em seu Hari-bhakti-vilāsa, diz que uma pessoa, seja lá quem for, pode atingir a perfeição de um brāhmaṇa duas vezes nascido por submeter-se a ações espirituais disciplinares, sob a orientação de um mestre espiritual fidedigno, exatamente como um químico pode converter o cobre em ouro através de manipulação química. A orientação verdadeira, portanto, é o que importa no processo de tornar-se um brāhmaṇa, mesmo sem mudança de corpo, ou no processo de voltar ao Supremo sem mudança de corpo. Śrīla Jīva Gosvāmī salienta que a palavra hi, usada a esse respeito, afirma positivamente esta verdade, e não há dúvida sobre essa verdadeira posição. A Bhagavad-gītā (14.26) também confirma essa afirmação de Śrīla Jīva Gosvāmī quando o Senhor diz que qualquer pessoa que execute serviço devocional sistematicamente, sem desvios, pode alcançar a perfeição do Brahman, ultrapassando a contaminação dos três modos da natureza material, e, quando a perfeição Brahman é ainda mais avançada pela própria execução de serviço devocional, não há absolutamente nenhuma dúvida de que se pode alcançar o planeta espiritual supremo, Goloka Vṛndāvana, sem mudança de corpo, como já discutimos a respeito do regresso do Senhor à Sua morada sem mudança alguma de corpo.
Devanagari
विदुरोऽपि परित्यज्य प्रभासे देहमात्मन: ।
कृष्णावेशेन तच्चित्त: पितृभि: स्वक्षयं ययौ ॥ ४९ ॥
कृष्णावेशेन तच्चित्त: पितृभि: स्वक्षयं ययौ ॥ ४९ ॥
Verse text
viduro ’pi parityajya
prabhāse deham ātmanaḥ
kṛṣṇāveśena tac-cittaḥ
pitṛbhiḥ sva-kṣayaṁ yayau
prabhāse deham ātmanaḥ
kṛṣṇāveśena tac-cittaḥ
pitṛbhiḥ sva-kṣayaṁ yayau
Synonyms
viduraḥ — Vidura (o tio de Mahārāja Yudhiṣṭhira); api — também; parityajya — após deixar o corpo; prabhāse — no lugar de peregrinação em Prabhāsa; deham ātmanaḥ — seu corpo; kṛṣṇa — a Personalidade de Deus; āveśena — estando absorto naquele pensamento; tat — seus; cittaḥ — pensamentos e ações; pitṛbhiḥ — juntamente com os habitantes de Pitṛloka; sva-kṣayam — sua própria morada; yayau — partiu.
Translation
Enquanto peregrinava, Vidura abandonou seu corpo em Prabhāsa. Porque estava absorto em pensar no Senhor Kṛṣṇa, foi recebido pelos cidadãos do planeta Pitṛloka, onde retornou a seu posto original.
Purport
SIGNIFICADO—A diferença entre os Pāṇḍavas e Vidura é que os Pāṇḍavas são associados eternos do Senhor, a Personalidade de Deus, ao passo que Vidura é um dos semideuses administrativos encarregados do planeta Pitṛloka, e lá é conhecido como Yamarāja. Os homens têm medo de Yamarāja porque é unicamente ele quem confere punição aos canalhas do mundo material, mas aqueles que são devotos do Senhor nada têm a temer de sua parte. Ele é um amigo cordial para com os devotos, mas, para os não-devotos, ele é o medo personificado. Como já discutimos, sabe-se que Yamarāja foi amaldiçoado por Maṇḍūka Muni a ser degradado à posição de śūdra, e, portanto, Vidura era uma encarnação de Yamarāja. Como servidor eterno do Senhor, ele manifestou suas atividades devocionais muito fervorosamente e viveu uma vida de homem piedoso, tanto que um homem materialista como Dhṛtarāṣṭra também obteve a salvação através de suas instruções. Assim, por meio de suas atividades piedosas no serviço devocional ao Senhor, ele era capaz de lembrar-se sempre dos pés de lótus do Senhor, de modo que se limpou de toda a contaminação da vida em que nascera como śūdra. Por fim, ele foi recebido novamente pelos cidadãos de Pitṛloka e situado em sua posição original. Os semideuses também são associados do Senhor sem contato pessoal, ao passo que os associados diretos do Senhor estão em constante contato pessoal com Ele. O Senhor e Seus associados pessoais encarnam-se em muitos universos, sem interrupção. O Senhor lembra-Se de todas as encarnações, ao passo que os associados as esquecem devido a serem partes integrantes muito diminutas do Senhor; eles são propensos a esquecer tais incidentes por serem infinitesimais. A Bhagavad-gītā (4.5) corrobora isso.
Devanagari
द्रौपदी च तदाज्ञाय पतीनामनपेक्षताम् ।
वासुदेवे भगवति ह्येकान्तमतिराप तम् ॥ ५० ॥
वासुदेवे भगवति ह्येकान्तमतिराप तम् ॥ ५० ॥
Verse text
draupadī ca tadājñāya
patīnām anapekṣatām
vāsudeve bhagavati
hy ekānta-matir āpa tam
patīnām anapekṣatām
vāsudeve bhagavati
hy ekānta-matir āpa tam
Synonyms
draupadī — Draupadī (a esposa dos Pāṇḍavas); ca — e; tadā — naquele momento; ājñāya — conhecendo perfeitamente o Senhor Kṛṣṇa; patīnām — dos esposos; anapekṣatām — que não se importaram com ela; vāsudeve — no Senhor Vāsudeva (Kṛṣṇa); bhagavati — a Personalidade de Deus; hi — exatamente; eka-anta — absolutamente; matiḥ — concentração; āpa — obtiveram; tam — a Ele (o Senhor).
Translation
Draupadī também viu que seus esposos, sem ligar para ela, estavam deixando o lar. Ela conhecia bem o Senhor Vāsudeva, Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus. Tanto ela quanto Subhadrā se absorveram em pensar em Kṛṣṇa e alcançaram os mesmos resultados que seus esposos.
Purport
SIGNIFICADO—Enquanto voa em uma aeronave, a pessoa não pode cuidar de outras aeronaves. Todos têm de cuidar de sua própria aeronave, e, se há algum perigo, nenhuma outra aeronave pode ajudar outra naquelas condições. Analogamente, no fim da vida, quando temos de voltar ao lar, voltar ao Supremo, cada indivíduo tem de cuidar de si mesmo, sem poder ser auxiliado por outrem. No entanto, a ajuda é oferecida no chão, antes do voo no espaço. Da mesma forma, o mestre espiritual, o pai, a mãe, os parentes, o esposo e outros podem prestar ajuda durante a vida de uma pessoa, mas, quando cruza o oceano, ela tem de cuidar de si mesma e utilizar as instruções anteriormente recebidas. Draupadī tinha cinco esposos, e nenhum deles pediu a Draupadī para acompanhá-lo; Draupadī teve de cuidar de si mesma, sem esperar por seus grandes esposos. E porque já estava treinada, ela pôde concentrar-se imediatamente nos pés de lótus do Senhor Vāsudeva, Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus. As esposas também obtiveram o mesmo resultado que seus esposos, da mesma maneira; isso quer dizer que, sem mudarem seus corpos, elas atingiram o destino do Supremo. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura sugere que tanto Draupadī quanto Subhadrā, embora seu nome não seja mencionado aqui, obtiveram o mesmo resultado. Nenhuma delas teve que deixar o corpo.
Devanagari
य: श्रद्धयैतद् भगवत्प्रियाणां
पाण्डो: सुतानामिति सम्प्रयाणम् ।
शृणोत्यलं स्वस्त्ययनं पवित्रं
लब्ध्वा हरौ भक्तिमुपैति सिद्धिम् ॥ ५१ ॥
पाण्डो: सुतानामिति सम्प्रयाणम् ।
शृणोत्यलं स्वस्त्ययनं पवित्रं
लब्ध्वा हरौ भक्तिमुपैति सिद्धिम् ॥ ५१ ॥
Verse text
yaḥ śraddhayaitad bhagavat-priyāṇāṁ
pāṇḍoḥ sutānām iti samprayāṇam
śṛṇoty alaṁ svastyayanaṁ pavitraṁ
labdhvā harau bhaktim upaiti siddhim
pāṇḍoḥ sutānām iti samprayāṇam
śṛṇoty alaṁ svastyayanaṁ pavitraṁ
labdhvā harau bhaktim upaiti siddhim
Synonyms
yaḥ — qualquer pessoa que; śraddhayā — com devoção; etat — esta; bhagavat-priyāṇām — daqueles que são muito queridos pela Personalidade de Deus; pāṇḍoḥ — de Pāṇḍu; sutānām — dos filhos; iti — assim; samprayāṇam — partida para a meta última; śṛṇoti — ouça; alam — somente; svastyayanam — boa fortuna; pavitram — perfeitamente puro: labdhvā — obtendo; harau — ao Senhor Supremo; bhaktim — serviço devocional; upaiti — obtém; siddhim — perfeição..
Translation
O assunto da partida dos filhos de Pāṇḍu para a meta última da vida, de volta ao Supremo, é completamente auspicioso e perfeitamente puro. Portanto, qualquer pessoa que ouça esta narração com fé devocional obtém certamente o serviço devocional ao Senhor, a perfeição máxima da vida.
Purport
SIGNIFICADO—O Śrīmad-Bhāgavatam é a narração a respeito da Personalidade de Deus e dos devotos do Senhor, como os Pāṇḍavas. A narração sobre a Personalidade de Deus e Seus devotos é absoluta em si mesma, e, desse modo, ouvi-la em atitude devocional é associar-se com o Senhor e com os companheiros constantes do Senhor. Através do processo de ouvir o Śrīmad-Bhāgavatam, pode-se alcançar a perfeição máxima da vida, a saber, voltar ao lar, voltar ao Supremo, sem falha.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do primeiro canto, décimo quinto capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Os Pāṇḍavas se Retiram no Momento Oportuno”.