Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Trinta
As Atividades dos Pracetās
Devanagari
विदुर उवाच
ये त्वयाभिहिता ब्रह्मन् सुता: प्राचीनबर्हिष: ।
ते रुद्रगीतेन हरिं सिद्धिमापु: प्रतोष्य काम् ॥ १ ॥
ये त्वयाभिहिता ब्रह्मन् सुता: प्राचीनबर्हिष: ।
ते रुद्रगीतेन हरिं सिद्धिमापु: प्रतोष्य काम् ॥ १ ॥
Verse text
vidura uvāca
ye tvayābhihitā brahman
sutāḥ prācīnabarhiṣaḥ
te rudra-gītena hariṁ
siddhim āpuḥ pratoṣya kām
ye tvayābhihitā brahman
sutāḥ prācīnabarhiṣaḥ
te rudra-gītena hariṁ
siddhim āpuḥ pratoṣya kām
Synonyms
viduraḥ uvāca — Vidura disse; ye — aqueles que; tvayā — por ti; abhihitāḥ — falaste sobre eles; brahman — ó brāhmaṇa; sutāḥ — filhos; prācīnabarhiṣaḥ — do rei Prācīnabarhi; te — todos eles; rudra-gītena — pela canção composta pelo senhor Śiva; harim — o Senhor; siddhim — sucesso; āpuḥ — alcançaram; pratoṣya — tendo satisfeito; kām — o que.
Translation
Vidura perguntou a Maitreya: Ó brāhmaṇa, anteriormente falaste sobre os filhos de Prācīnabarhi e me informaste que eles satisfizeram a Suprema Personalidade de Deus, cantando uma canção composta pelo senhor Śiva. O que eles obtiveram dessa maneira?
Purport
SIGNIFICADO—A princípio, Maitreya Ṛṣi narrou as atividades dos filhos de Prācīnabarhi. Esses filhos foram para as margens de um grande lago, que era como um oceano, e, tendo a fortuna de se encontrarem com o senhor Śiva, aprenderam como satisfazer a Suprema Personalidade de Deus, cantando as canções compostas pelo senhor Śiva. Entretanto, Nārada desaprovou o apego do pai deles às atividades fruitivas e, portanto, bondosamente instruiu Prācīnabarhi contando-lhe a história alegórica de Purañjana. Agora, Vidura novamente pede para ouvir sobre os filhos de Prācīnabarhi, estando especialmente curioso por saber o que eles alcançaram ao satisfazerem a Suprema Personalidade de Deus. Nesta passagem, as palavras siddhim āpuḥ, ou “perfeição alcançada”, são muito importantes. O Senhor Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā (7.3) que manuṣyāṇāṁ sahasreṣu kaścid yatati siddhaye: entre muitos e muitos milhões de pessoas, pode ser que uma se interesse por aprender como ter sucesso em assuntos espirituais. O êxito supremo é mencionado também na Bhagavad-gītā (8.15):
mām upetya punar janma
duḥkhālayam aśāśvatam
nāpnuvanti mahātmānaḥ
saṁsiddhiṁ paramāṁ gatāḥ
duḥkhālayam aśāśvatam
nāpnuvanti mahātmānaḥ
saṁsiddhiṁ paramāṁ gatāḥ
“Após Me alcançarem, as grandes almas, que são yogīs em devoção, jamais retornam a este mundo temporário, que é cheio de sofrimentos, porque eles obtiveram a perfeição máxima.” E qual é essa perfeição máxima? Isso também consta neste verso. A perfeição máxima é voltar ao lar, voltar ao Supremo, de modo que não precisemos retornar a este mundo material e transmigrar de um corpo a outro no sonho da existência material. Pela graça do senhor Śiva, os Pracetās realmente alcançaram a perfeição e voltaram ao lar, voltaram ao Supremo, após gozarem ao máximo dos recursos materiais. Agora Maitreya narrará isso a Vidura.
Devanagari
किं बार्हस्पत्येह परत्र वाथ
कैवल्यनाथप्रियपार्श्ववर्तिन: ।
आसाद्य देवं गिरिशं यदृच्छया
प्रापु: परं नूनमथ प्रचेतस: ॥ २ ॥
कैवल्यनाथप्रियपार्श्ववर्तिन: ।
आसाद्य देवं गिरिशं यदृच्छया
प्रापु: परं नूनमथ प्रचेतस: ॥ २ ॥
Verse text
kiṁ bārhaspatyeha paratra vātha
kaivalya-nātha-priya-pārśva-vartinaḥ
āsādya devaṁ giriśaṁ yadṛcchayā
prāpuḥ paraṁ nūnam atha pracetasaḥ
kaivalya-nātha-priya-pārśva-vartinaḥ
āsādya devaṁ giriśaṁ yadṛcchayā
prāpuḥ paraṁ nūnam atha pracetasaḥ
Synonyms
kim — o que; bārhaspatya — ó discípulo de Bṛhaspati; iha — aqui; paratra — em diferentes planetas; vā — ou; atha — como tal; kaivalya-nātha — pelo outorgador da liberação; priya — querido; pārśva-vartinaḥ — associando-se com; āsādya — depois de se encontrarem com; devam — o grande semideus; giri-śam — o senhor da colina Kailāsa, yadṛcchayā — pela providência; prāpuḥ — alcançaram; param — o Supremo; nūnam — com certeza; atha — portanto; pracetasaḥ — os filhos de Barhiṣat.
Translation
Meu querido Bārhaspatya, o que os filhos do rei Barhiṣat, conhecidos como os Pracetās, obtiveram depois de se encontrarem com o senhor Śiva, que é muito querido pela Suprema Personalidade de Deus, o outorgador da liberação? É certo que foram transferidos para o mundo espiritual, mas, além disso, o que obtiveram dentro deste mundo material, quer nesta vida, quer em outras vidas?
Purport
SIGNIFICADO—Toda espécie de felicidade material é obtida nesta vida ou em vidas posteriores, neste planeta ou em outro. A entidade viva divaga dentro deste universo material em muitas espécies de vida e em muitos sistemas planetários. A aflição e a felicidade obtidas no transcurso desta vida chamam-se iha, e a aflição e a felicidade obtidas na próxima vida chamam-se paratra.
Na verdade, o senhor Mahādeva (Śiva) é um dos grandes semideuses dentro deste mundo material. De um modo geral, as bênçãos que ele outorga às pessoas comuns dizem respeito à felicidade material. A deidade predominante deste mundo material, Durgā, está sob o controle do senhor Mahādeva, Giriśa. Assim, o senhor Mahādeva pode oferecer qualquer espécie de felicidade material a qualquer pessoa. De uma maneira geral, as pessoas preferem tornar-se devotas do senhor Giriśa para obterem a felicidade material, mas os Pracetās encontraram-se com o senhor Mahādeva por arranjo da providência. O senhor Mahādeva instruiu-os a adorarem a Suprema Personalidade de Deus, ensinando-lhes pessoalmente a oferecer uma oração. Como se afirmou no verso antecedente (rudra-gītena), pelo simples fato de cantarem as orações que o senhor Śiva ofereceu a Viṣṇu, os Pracetās foram transferidos ao mundo espiritual. Às vezes, há devotos que também desejam gozar de felicidade material; portanto, por arranjo da Suprema Personalidade de Deus, o devoto recebe a oportunidade de gozar do mundo material antes de ingressar definitivamente no mundo espiritual. Algumas vezes, um devoto é transferido a um planeta celestial – a Janaloka, Maharloka, Tapoloka, Siddhaloka e assim por diante. Contudo, o devoto puro jamais aspira a qualquer espécie de felicidade material. Em consequência disso, o devoto puro é transferido diretamente a Vaikuṇṭhaloka, descrito aqui como param. Neste verso, Vidura indaga de Maitreya, o discípulo de Bṛhaspati, acerca das diferentes conquistas dos Pracetās.
Devanagari
मैत्रेय उवाच
प्रचेतसोऽन्तरुदधौ पितुरादेशकारिण: ।
जपयज्ञेन तपसा पुरञ्जनमतोषयन् ॥ ३ ॥
प्रचेतसोऽन्तरुदधौ पितुरादेशकारिण: ।
जपयज्ञेन तपसा पुरञ्जनमतोषयन् ॥ ३ ॥
Verse text
maitreya uvāca
pracetaso ’ntar udadhau
pitur ādeśa-kāriṇaḥ
japa-yajñena tapasā
purañjanam atoṣayan
pracetaso ’ntar udadhau
pitur ādeśa-kāriṇaḥ
japa-yajñena tapasā
purañjanam atoṣayan
Synonyms
Translation
O grande sábio Maitreya disse: Os filhos do rei Prācīnabarhi, conhecidos como os Pracetās, praticaram rigorosas austeridades dentro da água do mar para cumprirem a ordem de seu pai. Cantando e repetindo os mantras dados pelo senhor Śiva, eles foram capazes de satisfazer o Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus.
Purport
SIGNIFICADO—Podemos oferecer orações à Suprema Personalidade de Deus diretamente, mas, se repetirmos as orações oferecidas por grandes devotos, como o senhor Śiva e o senhor Brahmā, ou se seguirmos os passos de grandes personalidades, poderemos satisfazer a Suprema Personalidade de Deus com muita facilidade. Por exemplo, nós às vezes cantamos este mantra da Brahma-saṁhitā (5.29):
cintāmaṇi-prakara-sadmasu kalpa-vṛkṣa-
lakṣāvṛteṣu surabhīr abhipālayantam
lakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
lakṣāvṛteṣu surabhīr abhipālayantam
lakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
“Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, o primeiro progenitor, que apascenta as vacas, satisfazendo todos os desejos, em moradas construídas com pedras preciosas espirituais e cercadas por milhões de árvores-dos-desejos. Ele é servido sempre, com grande reverência e afeição, por centenas de milhares de lakṣmīs, ou gopīs.” Como foi o senhor Brahmā quem ofereceu esta oração, nós seguimos seus passos recitando-a. Esta é a maneira mais fácil de satisfazer a Suprema Personalidade de Deus. O devoto puro nunca tenta alcançar o Senhor Supremo diretamente. A forma mais importante de adorar o Senhor é fazendo-o através da sucessão discipular de devotos. As orações oferecidas pelo senhor Śiva à Suprema Personalidade de Deus, portanto, foram assim repetidas pelos Pracetās. Deste modo, eles tiveram muito sucesso em satisfazer o Senhor Supremo.
Descreve-se aqui a Suprema Personalidade de Deus como purañjana. Segundo Madhvācārya, a entidade viva chama-se purañjana por ter-se tornado habitante deste mundo material, e, sob a influência dos três modos da natureza material, ela é forçada a viver dentro dele. A Suprema Personalidade de Deus cria este mundo material (pura), e também entra nele. Aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-stham: o Senhor entra no íntimo do coração da entidade viva e no átomo; portanto, tanto a entidade viva quanto o Senhor chamam-se purañjana. Um purañjana, a entidade viva, é subordinado ao purañjana supremo; portanto, o dever do purañjana subordinado é satisfazer o purañjana supremo. Isso é serviço devocional. O senhor Rudra, ou senhor Śiva, é o ācārya original do sampradāya vaiṣṇava chamado Rudra-sampradāya. Rudra-gītena indica que, sob a sucessão discipular do senhor Rudra, os Pracetās obtiveram o sucesso espiritual.
Devanagari
दशवर्षसहस्रान्ते पुरुषस्तु सनातन: ।
तेषामाविरभूत्कृच्छ्रं शान्तेन शमयन् रुचा ॥ ४ ॥
तेषामाविरभूत्कृच्छ्रं शान्तेन शमयन् रुचा ॥ ४ ॥
Verse text
daśa-varṣa-sahasrānte
puruṣas tu sanātanaḥ
teṣām āvirabhūt kṛcchraṁ
śāntena śamayan rucā
puruṣas tu sanātanaḥ
teṣām āvirabhūt kṛcchraṁ
śāntena śamayan rucā
Synonyms
Translation
Ao fim de dez mil anos de rigorosas austeridades praticadas pelos Pracetās, a Suprema Personalidade de Deus, em recompensa por suas austeridades, apareceu diante deles sob Sua forma tão prazerosa. Isso satisfez os Pracetās e compensou o esforço extenuante de suas austeridades.
Purport
SIGNIFICADO—Praticar dez mil anos de rigorosas austeridades não parece um empenho muito feliz. Todavia, os devotos, os estudantes sérios da vida espiritual, submetem-se a tais austeridades para obter o favor da Suprema Personalidade de Deus. Naquela época, quando era muito longa a duração de vida, as pessoas podiam praticar rigorosas austeridades por milhares de anos. Dizem que Vālmīki, o autor do Rāmāyaṇa, praticou austeridades de meditação por sessenta mil anos. A Suprema Personalidade de Deus apreciou as austeridades praticadas pelos Pracetās e, por fim, apareceu diante deles em uma forma aprazível. Assim, todos eles ficaram satisfeitos e esqueceram as austeridades que haviam praticado. No mundo material, se alguém obtém algum sucesso após trabalhar arduamente, ele fica muito satisfeito. De modo similar, o devoto esquece todos os seus esforços e austeridades assim que entra em contato com a Suprema Personalidade de Deus. Embora Dhruva Mahārāja fosse apenas um menino de cinco anos, submeteu-se a rigorosas austeridades comendo meras folhas secas, bebendo apenas água ou não comendo nada. Dessa maneira, depois de seis meses, ele foi capaz de ver a Suprema Personalidade de Deus face a face. Quando ele viu o Senhor, esqueceu-se de todas as suas austeridades e disse: svāmin kṛtārtho ’smi. “Meu querido Senhor, estou muito satisfeito.”
Evidentemente, essas austeridades foram praticadas em Satya-yuga, Dvāpara-yuga e Tretā-yuga, mas não nesta era de Kali. Nesta Kali-yuga, podem-se alcançar os mesmos resultados simplesmente cantando o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa. Como as pessoas desta era são caídas, o Senhor faz a gentileza de lhes entregar o método mais fácil. Pelo simples fato de cantar o mantra Hare Kṛṣṇa, podem-se alcançar os mesmos resultados. Contudo, como ressalta o Senhor Caitanya Mahāprabhu, somos tão desafortunados que nem mesmo sentimos atração pelo cantar do mahā-mantra – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.
Devanagari
सुपर्णस्कन्धमारूढो मेरुशृङ्गमिवाम्बुद: ।
पीतवासा मणिग्रीव: कुर्वन्वितिमिरा दिश: ॥ ५ ॥
पीतवासा मणिग्रीव: कुर्वन्वितिमिरा दिश: ॥ ५ ॥
Verse text
suparṇa-skandham ārūḍho
meru-śṛṅgam ivāmbudaḥ
pīta-vāsā maṇi-grīvaḥ
kurvan vitimirā diśaḥ
meru-śṛṅgam ivāmbudaḥ
pīta-vāsā maṇi-grīvaḥ
kurvan vitimirā diśaḥ
Synonyms
suparṇa — de Garuḍa, o transportador do Senhor Viṣṇu; skandham — o ombro; ārūḍhaḥ — sentado sobre; meru — da montanha chamada Meru; śṛṅgam — no topo; iva — como; ambudaḥ — uma nuvem; pīta-vāsāḥ — usando roupas amarelas; maṇi-grīvaḥ — Seu pescoço enfeitado com a joia Kaustubha; kurvan — fazendo; vitimirāḥ — livres da escuridão; diśaḥ — todas as direções.
Translation
A Personalidade de Deus, aparecendo sobre os ombros de Garuḍa, parecia uma nuvem repousando no topo da montanha conhecida como Meru. O corpo transcendental da Personalidade de Deus trajava roupas amarelas e atrativas, e Seu pescoço estava enfeitado com a joia conhecida como Kaustubha-maṇi. O brilho do corpo do Senhor dissipou toda a escuridão do universo.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma no Caitanya-caritāmṛta (Madhya 22.31):
kṛṣṇa — sūrya-sama; māyā haya andhakāra
yāhāṅ kṛṣṇa, tāhāṅ nāhi māyāra adhikāra
yāhāṅ kṛṣṇa, tāhāṅ nāhi māyāra adhikāra
O Senhor é como o Sol refulgente. Em consequência disso, sempre que a Suprema Personalidade de Deus está presente, não é possível que haja escuridão ou ignorância. Na verdade, este escuro universo é iluminado pelo Sol, mas o Sol e a Lua simplesmente refletem a refulgência corpórea do Senhor Supremo. Na Bhagavad-gītā (7.8), o Senhor diz que prabhāsmi śaśi-sūryayoḥ: “Eu sou a energia luminosa do Sol e da Lua.” Em conclusão, a origem de toda a vida é a refulgência corpórea da Suprema Personalidade de Deus. A Brahma-saṁhitā também confirma isto: yasya prabhā prabhavato jagad-aṇḍa-koṭi. Ao ser iluminado pela refulgência corpórea da Suprema Personalidade de Deus, tudo fica livre de toda a escuridão.
Devanagari
काशिष्णुना कनकवर्णविभूषणेन
भ्राजत्कपोलवदनो विलसत्किरीट: ।
अष्टायुधैरनुचरैर्मुनिभि: सुरेन्द्रै-
रासेवितो गरुडकिन्नरगीतकीर्ति: ॥ ६ ॥
भ्राजत्कपोलवदनो विलसत्किरीट: ।
अष्टायुधैरनुचरैर्मुनिभि: सुरेन्द्रै-
रासेवितो गरुडकिन्नरगीतकीर्ति: ॥ ६ ॥
Verse text
kāśiṣṇunā kanaka-varṇa-vibhūṣaṇena
bhrājat-kapola-vadano vilasat-kirīṭaḥ
aṣṭāyudhair anucarair munibhiḥ surendrair
āsevito garuḍa-kinnara-gīta-kīrtiḥ
bhrājat-kapola-vadano vilasat-kirīṭaḥ
aṣṭāyudhair anucarair munibhiḥ surendrair
āsevito garuḍa-kinnara-gīta-kīrtiḥ
Synonyms
kāśiṣṇunā — brilhando; kanaka — ouro; varṇa — coloridos; vibhūṣaṇena — com ornamentos; bhrājat — brilhante; kapola — testa; vadanaḥ — Seu rosto; vilasat — cintilante; kirīṭaḥ — Seu elmo; aṣṭa — oito; āyudhaiḥ — com armas; anucaraiḥ — por seguidores; munibhiḥ — por grandes sábios; sura-indraiḥ — por semideuses; āsevitaḥ — servido; garuḍa — por Garuḍa; kinnara — habitante do planeta Kinnara; gīta — cantava; kīrtiḥ — Suas glórias.
Translation
O rosto do Senhor era muito belo, e Sua cabeça estava enfeitada com um elmo brilhante e ornamentos dourados. O elmo era cintilante e estava muito belamente repousado sobre Sua cabeça. O Senhor tinha oito braços, cada um portando uma arma específica. O Senhor estava cercado por semideuses, grandes sábios e outros associados. Todos eles estavam ocupados a serviço dEle. Garuḍa, o transportador do Senhor, glorificava o Senhor com hinos védicos, batendo suas asas. Garuḍa parecia um habitante do planeta conhecido como Kinnara-loka.
Purport
SIGNIFICADO—De um modo geral, a forma de Viṣṇu manifesta-se com quatro mãos portando quatro objetos (búzio, disco, maça e flor de lótus). Contudo, aqui se descreve o Senhor Viṣṇu com oito braços e oito espécies de armas. Segundo Vīrarāghava Ācārya, o búzio e a flor de lótus também são aceitos como armas. Uma vez que o Senhor é o controlador supremo, qualquer coisa em Sua mão pode ser considerada uma arma. Quatro mãos portam quatro espécies de armas, e as quatro mãos extras portam uma flecha, um arco, um tridente e uma serpente. Śrī Vīrarāghava Ācārya enumera as oito armas como śaṅkha, cakra, gadā, padma, śārṅga, śara etc.
Um rei sempre está acompanhado por seus ministros, secretários e comandantes, e o Senhor Viṣṇu também Se faz acompanhar por Seus seguidores – os semideuses, grandes sábios, pessoas santas e assim por diante. Ele nunca está sozinho. Em consequência disso, não há possibilidade de o Senhor ser impessoal. Ele é sempre Ele mesmo, a Suprema Personalidade de Deus, e Seus associados também são pessoas. Pela descrição dada neste verso, Garuḍa parece pertencer ao planeta Kinnara. Os habitantes do planeta Kinnara têm as mesmas características de Garuḍa. Apesar de suas características corpóreas serem semelhantes às de um ser humano, eles têm asas. A palavra gīta-kīrtiḥ indica que os habitantes de Kinnara-loka são exímios recitadores das glórias do Senhor. A Brahma-saṁhitā diz que jagad-aṇḍa-koṭi-koṭiṣv aśeṣa-vasudhādi-vibhūti-bhinnam: em todo e cada universo, há várias classes de planetas, e cada planeta tem aspectos característicos. Com base nesse verso, podemos entender que, em Kinnara-loka, os habitantes podem voar com suas asas. Também existe um planeta, conhecido como Siddhaloka, onde os habitantes podem voar até mesmo sem asas. Assim, cada um dos planetas tem algum recurso característico. Essa é a beleza da criação variada da Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
पीनायताष्टभुजमण्डलमध्यलक्ष्म्या
स्पर्धच्छ्रिया परिवृतो वनमालयाद्य: ।
बर्हिष्मत: पुरुष आह सुतान् प्रपन्नान्
पर्जन्यनादरुतया सघृणावलोक: ॥ ७ ॥
स्पर्धच्छ्रिया परिवृतो वनमालयाद्य: ।
बर्हिष्मत: पुरुष आह सुतान् प्रपन्नान्
पर्जन्यनादरुतया सघृणावलोक: ॥ ७ ॥
Verse text
pīnāyatāṣṭa-bhuja-maṇḍala-madhya-lakṣmyā
spardhac-chriyā parivṛto vana-mālayādyaḥ
barhiṣmataḥ puruṣa āha sutān prapannān
parjanya-nāda-rutayā saghṛṇāvalokaḥ
spardhac-chriyā parivṛto vana-mālayādyaḥ
barhiṣmataḥ puruṣa āha sutān prapannān
parjanya-nāda-rutayā saghṛṇāvalokaḥ
Synonyms
pīna — fortes; āyata — longos; aṣṭa — oito; bhuja — braços; maṇḍala — envolvimento; madhya — no meio de; lakṣmyā — com a deusa da fortuna; spardhat — competindo; śriyā — cuja beleza; parivṛtaḥ — circundado; vana-mālayā — por uma guirlanda de flores; ādyaḥ — a original Personalidade de Deus; barhiṣmataḥ — do rei Prācīnabarhi; puruṣaḥ — a Suprema Personalidade de Deus; āha — dirigiu-Se; sutān — os filhos; prapannān — rendidos; parjanya — como uma nuvem; nāda — cujo som; rutayā — por uma voz; sa-ghṛṇa — com misericórdia; avalokaḥ — Seu olhar.
Translation
Em volta do pescoço da Personalidade de Deus, pendia uma guirlanda de flores que alcançava Seus joelhos. Seus oito braços fortes e alongados estavam decorados com aquela guirlanda, a qual desafiava a beleza da deusa da fortuna. Com um olhar misericordioso e uma voz igual ao trovão, o Senhor dirigiu-Se aos filhos do rei Prācīnabarhiṣat, que eram muitíssimo rendidos a Ele.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra ādyaḥ é muito significativa. A Suprema Personalidade de Deus é a origem inclusive do Paramātmā e do Brahman. Como se confirma na Bhagavad-gītā (14.27), brahmaṇo hi pratiṣṭhāham: a Verdade Absoluta não começa com o Brahman impessoal, mas sim com a original Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Ao compreender a grandeza de Kṛṣṇa, Arjuna dirigiu-se a Ele da seguinte maneira:
paraṁ brahma paraṁ dhāma
pavitraṁ paramaṁ bhavān
puruṣaṁ śāśvataṁ divyam
ādi-devam ajaṁ vibhum
pavitraṁ paramaṁ bhavān
puruṣaṁ śāśvataṁ divyam
ādi-devam ajaṁ vibhum
“És o Brahman Supremo, o derradeiro, a morada suprema e o purificador, a Verdade Absoluta e a pessoa eterna e divina. És o Deus primordial, transcendental e original, e és a beleza onipenetrante e não-nascida.” (Bhagavad-gītā 10.12)
A Brahma-saṁhitā também diz que anādir ādir govindaḥ sarva-kāraṇa-kāraṇam: “O Senhor Supremo não é causado por nada [anādi], senão que é a causa de todas as causas.” O Vedānta-sūtra diz que janmādy asya yataḥ: “A Verdade Absoluta é aquela da qual tudo emana.” Descreve-se a Verdade Absoluta como ādi-puruṣa. A Verdade Absoluta é uma pessoa, e não algo impessoal.
Devanagari
श्रीभगवानुवाच
वरं वृणीध्वं भद्रं वो यूयं मे नृपनन्दना: ।
सौहार्देनापृथग्धर्मास्तुष्टोऽहं सौहृदेन व: ॥ ८ ॥
वरं वृणीध्वं भद्रं वो यूयं मे नृपनन्दना: ।
सौहार्देनापृथग्धर्मास्तुष्टोऽहं सौहृदेन व: ॥ ८ ॥
Verse text
śrī-bhagavān uvāca
varaṁ vṛṇīdhvaṁ bhadraṁ vo
yūyaṁ me nṛpa-nandanāḥ
sauhārdenāpṛthag-dharmās
tuṣṭo ’haṁ sauhṛdena vaḥ
varaṁ vṛṇīdhvaṁ bhadraṁ vo
yūyaṁ me nṛpa-nandanāḥ
sauhārdenāpṛthag-dharmās
tuṣṭo ’haṁ sauhṛdena vaḥ
Synonyms
śrī-bhagavān uvāca — a Suprema Personalidade de Deus disse; varam — bênção; vṛṇīdhvam — pedir; bhadram — boa fortuna; vaḥ — vossa; yūyam — vós; me — a Mim; nṛpa-nandanāḥ — ó filhos do rei; sauhārdena — com a amizade; apṛthak — não diferente; dharmāḥ — ocupação; tuṣṭaḥ — satisfeito; aham — Eu; sauhṛdena — com a amizade; vaḥ — vossa.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus disse: Meus queridos filhos do rei, estou muito satisfeito com as relações amistosas entre vós. Estais todos empenhados em uma só ocupação – o serviço devocional. Estou tão agradado com vossa amizade mútua que vos desejo toda a boa fortuna. Agora podeis pedir-Me qualquer bênção.
Purport
SIGNIFICADO—Uma vez que os filhos do rei Prācīnabarhiṣat eram todos unidos em consciência de Kṛṣṇa, o Senhor estava muito satisfeito com eles. Cada um dos filhos do rei Prācīnabarhiṣat era uma alma individual, mas, unidos, eles ofereciam transcendental serviço ao Senhor. Verdadeira unidade é a unidade das almas individuais que tentam satisfazer o Senhor Supremo ou prestar serviço ao Senhor. No mundo material, tal unidade não é possível. Mesmo que as pessoas se unam oficialmente, todas têm diferentes interesses. Nas Nações Unidas, por exemplo, todas as nações têm suas ambições nacionais específicas, em consequência do que não podem unir-se. A desunião entre almas individuais é tão forte neste mundo material que, mesmo em uma sociedade da consciência de Kṛṣṇa, seus membros, algumas vezes, parecem desunidos, devido a terem diferentes opiniões e a sentirem-se inclinados a coisas materiais. Na verdade, não pode haver duas opiniões em consciência de Kṛṣṇa. Existe apenas uma meta: servir a Kṛṣṇa ao máximo de nossa capacidade. Se, às vezes, há algum desacordo sobre o serviço, semelhante desacordo deve ser tido como espiritual. Aqueles que estão realmente ocupados a serviço da Suprema Personalidade de Deus não podem se desunir em nenhuma circunstância. Isso deixa a Suprema Personalidade de Deus muito feliz e desejosa de conceder toda espécie de bênçãos a Seus devotos, como se indica neste verso. Podemos observar que o Senhor está disposto a conceder de imediato todas as bênçãos aos filhos do rei Prācīnabarhiṣat.
Devanagari
योऽनुस्मरति सन्ध्यायां युष्माननुदिनं नर: ।
तस्य भ्रातृष्वात्मसाम्यं तथा भूतेषु सौहृदम् ॥ ९ ॥
तस्य भ्रातृष्वात्मसाम्यं तथा भूतेषु सौहृदम् ॥ ९ ॥
Verse text
yo ’nusmarati sandhyāyāṁ
yuṣmān anudinaṁ naraḥ
tasya bhrātṛṣv ātma-sāmyaṁ
tathā bhūteṣu sauhṛdam
yuṣmān anudinaṁ naraḥ
tasya bhrātṛṣv ātma-sāmyaṁ
tathā bhūteṣu sauhṛdam
Synonyms
Translation
O Senhor prosseguiu: Aqueles que se lembrarem de vós todas as noites de todos os dias se tornarão amigáveis com seus irmãos e com todas as demais entidades vivas.
Devanagari
ये तु मां रुद्रगीतेन सायं प्रात: समाहिता: ।
स्तुवन्त्यहं कामवरान्दास्ये प्रज्ञां च शोभनाम् ॥ १० ॥
स्तुवन्त्यहं कामवरान्दास्ये प्रज्ञां च शोभनाम् ॥ १० ॥
Verse text
ye tu māṁ rudra-gītena
sāyaṁ prātaḥ samāhitāḥ
stuvanty ahaṁ kāma-varān
dāsye prajñāṁ ca śobhanām
sāyaṁ prātaḥ samāhitāḥ
stuvanty ahaṁ kāma-varān
dāsye prajñāṁ ca śobhanām
Synonyms
ye — as pessoas que; tu — mas; mām — a Mim; rudra-gītena — pela canção entoada pelo senhor Śiva; sāyam — à noite; prātaḥ — de manhã; samāhitāḥ — estando atentas; stuvanti — oferecerem orações; aham — Eu; kāma-varān — todas as bênçãos para satisfazer os desejos; dāsye — concederei; prajñām — inteligência; ca — também; śobhanām — transcendental.
Translation
Aqueles que Me oferecerem as orações compostas pelo senhor Śiva, tanto de manhã quanto à noite, receberão Minhas bênçãos. Dessa maneira, eles poderão tanto satisfazer seus desejos, quanto alcançar boa inteligência.
Purport
SIGNIFICADO—Boa inteligência significa voltar ao lar, voltar ao Supremo. Confirma-se isso na Bhagavad-gītā (10.10):
teṣāṁ satata-yuktānāṁ
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
“Àqueles que estão constantemente devotados a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim.”
Quem oferece orações ao Senhor para satisfazer seus diferentes desejos precisa saber que a mais elevada e perfeita satisfação de desejos é voltar ao lar, voltar ao Supremo. Neste verso, indica-se que quem recordar as atividades dos Pracetās, os filhos do rei Prācīnabarhiṣat, será liberado e abençoado. O que dizer, então, dos filhos do rei Prācīnabarhiṣat, que estão diretamente ligados à Suprema Personalidade de Deus? Assim é o sistema paramparā. Se seguirmos os ācāryas, alcançaremos o mesmo benefício que nossos antecessores. Se alguém adota as decisões de Arjuna, deve-se considerar que ele ouve a Bhagavad-gītā diretamente da Suprema Personalidade de Deus. Não há diferença entre ouvir a Bhagavad-gītā diretamente do Senhor Supremo e seguir uma personalidade como Arjuna, que outrora ouviu a Bhagavad-gītā diretamente do Senhor. Às vezes, certos tolos argumentam que, como Kṛṣṇa não está presente no momento, não se pode receber instruções diretas dEle. Tais tolos não sabem que não há diferença entre ouvir diretamente a Bhagavad-gītā e lê-la, contanto que se aceite a Bhagavad-gītā como ela é falada pelo Senhor. Contudo, se alguém quiser entender a Bhagavad-gītā através de suas interpretações imperfeitas, não lhe será possível entender os mistérios da Bhagavad-gītā, mesmo que seja um grande erudito segundo os cálculos mundanos.
Devanagari
यद्यूयं पितुरादेशमग्रहीष्ट मुदान्विता: ।
अथो व उशती कीर्तिर्लोकाननु भविष्यति ॥ ११ ॥
अथो व उशती कीर्तिर्लोकाननु भविष्यति ॥ ११ ॥
Verse text
yad yūyaṁ pitur ādeśam
agrahīṣṭa mudānvitāḥ
atho va uśatī kīrtir
lokān anu bhaviṣyati
agrahīṣṭa mudānvitāḥ
atho va uśatī kīrtir
lokān anu bhaviṣyati
Synonyms
Translation
Como aceitastes com prazer dentro de vosso coração as ordens de vosso pai e cumpristes essas ordens muito fielmente, vossas qualidades atrativas serão celebradas em todo o mundo.
Purport
SIGNIFICADO—Uma vez que cada entidade viva é parte integrante da Suprema Personalidade de Deus, ela tem uma pequena independência. Às vezes, homens sem inteligência perguntam por que alguém é posto em uma condição dolorosa, muito embora todos estejam sob o controle da Suprema Personalidade de Deus. Devido à sua independência diminuta, a entidade viva pode obedecer ou desobedecer às ordens do Senhor Supremo. Se ela obedece às ordens do Senhor Supremo, torna-se feliz. Se não o faz, torna-se infeliz. Portanto, a entidade viva cria sua própria felicidade ou infelicidade. O Senhor Supremo não impõe essas coisas a ninguém. O Senhor Supremo louvou os Pracetās porque todos eles obedeceram fielmente às ordens de seu pai. Portanto, o Senhor abençoou os filhos do rei Prācīnabarhiṣat por eles terem obedecido às ordens de seu pai.
Devanagari
भविता विश्रुत: पुत्रोऽनवमो ब्रह्मणो गुणै: ।
य एतामात्मवीर्येण त्रिलोकीं पूरयिष्यति ॥ १२ ॥
य एतामात्मवीर्येण त्रिलोकीं पूरयिष्यति ॥ १२ ॥
Verse text
bhavitā viśrutaḥ putro
’navamo brahmaṇo guṇaiḥ
ya etām ātma-vīryeṇa
tri-lokīṁ pūrayiṣyati
’navamo brahmaṇo guṇaiḥ
ya etām ātma-vīryeṇa
tri-lokīṁ pūrayiṣyati
Synonyms
Translation
Vós tereis um belo filho, que não será de modo algum inferior ao senhor Brahmā. Em consequência disso, ele será muito famoso em todo o universo, e os filhos e netos gerados por ele encherão os três mundos.
Purport
SIGNIFICADO—Como se explicará no verso seguinte, os Pracetās se casarão com a filha do grande sábio Kaṇḍu. Aqui se sugere que o nome desse filho será Viśruta e que ele glorificará tanto seu pai quanto sua mãe devido a seu bom caráter. De fato, ele será superior inclusive ao senhor Brahmā. O grande político Cānakya dizia que, havendo uma boa árvore dentro de um jardim ou de uma floresta, suas flores encherão a floresta com sua fragrância. Analogamente, um bom filho em uma família faz toda a família famosa no mundo todo. Kṛṣṇa nasceu na família dos Yadus, em consequência do que a dinastia Yadu é famosa no mundo inteiro.
Devanagari
कण्डो: प्रम्लोचया लब्धा कन्या कमललोचना ।
तां चापविद्धां जगृहुर्भूरुहा नृपनन्दना: ॥ १३ ॥
तां चापविद्धां जगृहुर्भूरुहा नृपनन्दना: ॥ १३ ॥
Verse text
kaṇḍoḥ pramlocayā labdhā
kanyā kamala-locanā
tāṁ cāpaviddhāṁ jagṛhur
bhūruhā nṛpa-nandanāḥ
kanyā kamala-locanā
tāṁ cāpaviddhāṁ jagṛhur
bhūruhā nṛpa-nandanāḥ
Synonyms
kaṇḍoḥ — do sábio Kaṇḍu; pramlocayā — com uma moça da sociedade celestial chamada Pramlocā; labdhā — obtida; kanyā — filha; kamala-locanā — de olhos de lótus; tām — a ela; ca — também; apaviddhām — abandonada; jagṛhuḥ — aceitaram; bhūruhāḥ — as árvores; nṛpa-nandanāḥ — ó filhos do rei Prācīnabarhiṣat.
Translation
Ó filhos do rei Prācīnabarhiṣat, a moça da sociedade celestial chamada Pramlocā deixou a filha de Kaṇḍu, de olhos de lótus, aos cuidados das árvores da floresta. Então, ela regressou ao planeta celestial. Essa filha nasceu da cópula da Apsarā chamada Pramlocā com o sábio Kaṇḍu.
Purport
SIGNIFICADO—Sempre que um grande sábio pratica rigorosas austeridades em troca de poder material, o rei do céu, Indra, fica muito invejoso. Todos os semideuses têm atribuições de responsabilidade na administração dos afazeres universais e são muito altamente qualificados com atividades piedosas. Apesar de serem entidades vivas comuns, eles são capazes de alcançar postos de alta responsabilidade, como os do senhor Brahmā, de Indra, de Candra e de Varuṇa. Conforme é da natureza deste mundo material, o rei do céu, Indra, fica muito ansioso se um grande sábio pratica rigorosas austeridades. Todo o mundo material está tão cheio de semelhante inveja que todos temem o próximo. Todos os homens de negócio temem seus sócios porque este mundo material é o campo de atividades para toda espécie de pessoas invejosas, as quais vieram aqui para competir com a opulência da Suprema Personalidade de Deus. Assim, Indra ficou com muito medo das rigorosas austeridades praticadas pelo grande sábio Kaṇḍu, e enviou Pramlocā para quebrar seus votos e interromper suas austeridades. Um incidente semelhante ocorreu no caso de Viśvāmitra. Levando-se em conta outros incidentes relatados nos śāstras, parece que Indra sempre foi invejoso. Quando o rei Pṛthu estava celebrando vários sacrifícios, superando Indra, este ficou muito invejoso, e perturbou o sacrifício do rei Pṛthu. Isso já foi relatado em capítulos anteriores. O rei Indra teve sucesso em quebrar o voto do grande sábio Kaṇḍu, que se sentiu atraído pela beleza da moça da sociedade celestial chamada Pramlocā e gerou nela uma menina. Descreve-se nesta passagem que essa criança tinha olhos de lótus e era muito bela. Sendo assim exitosa em sua missão, Pramlocā regressou aos planetas celestiais, deixando a criança recém-nascida aos cuidados das árvores. Felizmente, as árvores aceitaram a criança e concordaram em criá-la.
Devanagari
क्षुत्क्षामाया मुखे राजा सोम: पीयूषवर्षिणीम् ।
देशिनीं रोदमानाया निदधे स दयान्वित: ॥ १४ ॥
देशिनीं रोदमानाया निदधे स दयान्वित: ॥ १४ ॥
Verse text
kṣut-kṣāmāyā mukhe rājā
somaḥ pīyūṣa-varṣiṇīm
deśinīṁ rodamānāyā
nidadhe sa dayānvitaḥ
somaḥ pīyūṣa-varṣiṇīm
deśinīṁ rodamānāyā
nidadhe sa dayānvitaḥ
Synonyms
Translation
Depois disso, a criança, que fora deixada aos cuidados das árvores, começou a chorar de fome. Nesse momento, o rei da floresta, a saber, o rei do planeta Lua, por compaixão colocou seu dedo, do qual fluía néctar, dentro da boca da criança. Assim, a criança foi criada pela misericórdia do rei da Lua.
Purport
SIGNIFICADO—Embora a Apsarā tivesse deixado sua filha aos cuidados das árvores, as árvores não podiam cuidar dela adequadamente. Portanto, as árvores entregaram a criança ao rei da Lua. Assim, Candra, o soberano da Lua, colocou seu dedo dentro da boca da menina para aplacar sua fome.
Devanagari
प्रजाविसर्ग आदिष्टा: पित्रा मामनुवर्तता ।
तत्र कन्यां वरारोहां तामुद्वहत मा चिरम् ॥ १५ ॥
तत्र कन्यां वरारोहां तामुद्वहत मा चिरम् ॥ १५ ॥
Verse text
prajā-visarga ādiṣṭāḥ
pitrā mām anuvartatā
tatra kanyāṁ varārohāṁ
tām udvahata mā ciram
pitrā mām anuvartatā
tatra kanyāṁ varārohāṁ
tām udvahata mā ciram
Synonyms
Translation
Uma vez que todos vós sois muito obedientes às Minhas ordens, peço-vos que vos caseis imediatamente com essa moça, que é tão bem dotada de beleza e boas qualidades. Seguindo a ordem de vosso pai, criai progênie através dela.
Purport
SIGNIFICADO—Os Pracetās eram não apenas grandes devotos da Suprema Personalidade de Deus, mas também eram muito obedientes às ordens de seu pai. Portanto, o Senhor pediu-lhes que se casassem com a filha de Pramlocā.
Devanagari
अपृथग्धर्मशीलानां सर्वेषां व: सुमध्यमा ।
अपृथग्धर्मशीलेयं भूयात्पत्न्यर्पिताशया ॥ १६ ॥
अपृथग्धर्मशीलेयं भूयात्पत्न्यर्पिताशया ॥ १६ ॥
Verse text
apṛthag-dharma-śīlānāṁ
sarveṣāṁ vaḥ sumadhyamā
apṛthag-dharma-śīleyaṁ
bhūyāt patny arpitāśayā
sarveṣāṁ vaḥ sumadhyamā
apṛthag-dharma-śīleyaṁ
bhūyāt patny arpitāśayā
Synonyms
apṛthak — sem diferenças; dharma — ocupação; śīlānām — cujo caráter; sarveṣām — todos; vaḥ — vós; su-madhyamā — uma moça cuja cintura é delgada; apṛthak — sem diferenças; dharma — ocupação; śīlā — bem-comportada; iyam — esta; bhūyāt — que ela se torne; patnī — esposa; arpita-āśayā — plenamente rendida.
Translation
Todos vós, irmãos, sois da mesma natureza, sendo devotos e filhos obedientes de vosso pai. Do mesmo modo, esta moça também é da mesma classe e é dedicada a todos vós. Assim, tanto a moça quanto vós, os filhos do rei Prācīnabarhiṣat, estais na mesma plataforma, unidos em nome de um princípio comum.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo os princípios védicos, uma mulher não pode ter muitos esposos, embora um homem possa ter muitas esposas. Em casos especiais, contudo, observa-se que uma mulher tem mais de um esposo. Draupadī, por exemplo, casou-se com todos os cinco irmãos Pāṇḍavas. De forma semelhante, a Suprema Personalidade de Deus ordenou a todos os filhos de Prācīnabarhiṣat que desposassem a única filha do grande sábio Kaṇḍu e de Pramlocā. Em casos especiais, uma moça tem permissão de casar-se com mais de um homem, contanto que seja capaz de tratar seus esposos igualmente. Isso não é possível para uma mulher comum. Só a uma mulher especialmente qualificada pode-se permitir casar-se com mais de um esposo. Nesta era de Kali, é muito difícil encontrar uma mulher equânime dessa maneira. Logo, de acordo com a escritura, kalau pañca vivarjayet. Nesta era, proíbe-se a uma mulher que se case com o irmão de seu esposo. Esse costume ainda é observado em algumas regiões montanhosas da Índia. O Senhor diz que apṛthag-dharmaśīleyaṁ bhūyāt patny arpitāśayā. Com as bênçãos do Senhor, tudo é possível. O Senhor abençoou especialmente a moça a render-se igualmente a todos os irmãos. Apṛthag-dharma, significando “dever ocupacional sem diferença de propósitos”, é ensinado na Bhagavad-gītā. A Bhagavad-gītā divide-se em três seções básicas – karma-yoga, jñāna-yoga e bhakti-yoga. A palavra yoga significa “atuar em nome da Suprema Personalidade de Deus”. Como se confirma na Bhagavad-gītā (3.9):
yajñārthāt karmaṇo ’nyatra
loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ
tad-arthaṁ karma kaunteya
mukta-saṅgaḥ samācara
loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ
tad-arthaṁ karma kaunteya
mukta-saṅgaḥ samācara
“Deve-se realizar o trabalho como um sacrifício a Viṣṇu; caso contrário, o trabalho produz cativeiro neste mundo material. Portanto, ó filho de Kuntī, executa teus deveres prescritos para a satisfação dEle e, desta forma, sempre permanecerás livre do cativeiro.”
Alguém poderá agir de acordo com seu próprio dever ocupacional simplesmente para satisfazer o yajña-puruṣa, a Suprema Personalidade de Deus. Isso se chama apṛthag-dharma. Diferentes membros do corpo podem agir de diferentes maneiras, mas o objetivo básico de todos eles é manter todo o corpo. De modo semelhante, se trabalharmos para a satisfação da Suprema Personalidade de Deus, observaremos que tudo estará resolvido. Devemos seguir os passos dos Pracetās, cujo único objetivo era satisfazer o Senhor Supremo. Isso se chama apṛthag-dharma. Segundo a Bhagavad-gītā (18.66), sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja: “Abandona toda variedade de religiões e simplesmente rende-te a Mim.” Esse é o conselho do Senhor Kṛṣṇa. Nossa única meta deve ser agir em consciência de Kṛṣṇa, para a satisfação do Senhor. Isso é unidade, ou apṛthag-dharma.
Devanagari
दिव्यवर्षसहस्राणां सहस्रमहतौजस: ।
भौमान् भोक्ष्यथ भोगान् वै दिव्यांश्चानुग्रहान्मम ॥ १७ ॥
भौमान् भोक्ष्यथ भोगान् वै दिव्यांश्चानुग्रहान्मम ॥ १७ ॥
Verse text
divya-varṣa-sahasrāṇāṁ
sahasram ahataujasaḥ
bhaumān bhokṣyatha bhogān vai
divyāṁś cānugrahān mama
sahasram ahataujasaḥ
bhaumān bhokṣyatha bhogān vai
divyāṁś cānugrahān mama
Synonyms
divya — dos planetas celestiais; varṣa — anos; sahasrāṇām — de milhares; sahasram — mil; ahata — sem ser derrotado; ojasaḥ — vosso poder; bhaumān — deste mundo; bhokṣyatha — gozareis; bhogān — prazeres; vai — decerto; divyān — do mundo celestial; ca — também; anugrahāt — por misericórdia; mama — Minha.
Translation
Então, o Senhor abençoou todos os Pracetās dizendo-lhes: Meus queridos príncipes, por Minha misericórdia, podeis gozar de todos os recursos deste mundo, bem como do mundo celestial. Na verdade, podeis desfrutar de tudo isso sem obstáculos e com pleno vigor por um milhão de anos celestiais.
Purport
SIGNIFICADO—A duração de vida prescrita para os Pracetās pela Suprema Personalidade de Deus é calculada segundo as medidas de tempo dos sistemas planetários superiores. Afirma-se que seis meses terrestres equivalem a doze horas nos sistemas planetários superiores. Trinta dias equivalem a um mês, e doze meses equivalem a um ano. Dessa maneira, por um milhão de anos, de acordo com os cálculos do sistema planetário superior, os Pracetās tiveram permissão de gozar de toda espécie de recursos materiais. Embora essa duração de vida fosse tão longa, os Pracetās receberam pleno vigor corpóreo pela graça do Senhor. No mundo material, se alguém quer viver por muitos anos, é obrigado a suportar as dificuldades da velhice, da invalidez e de muitas outras condições lastimáveis. Os Pracetās, entretanto, receberam pleno vigor corpóreo para gozar dos recursos materiais. Os Pracetās receberam essa oportunidade especial para que pudessem continuar prestando pleno serviço devocional. Isso será explicado no verso seguinte.
Devanagari
अथ मय्यनपायिन्या भक्त्या पक्वगुणाशया: ।
उपयास्यथ मद्धाम निर्विद्य निरयादत: ॥ १८ ॥
उपयास्यथ मद्धाम निर्विद्य निरयादत: ॥ १८ ॥
Verse text
atha mayy anapāyinyā
bhaktyā pakva-guṇāśayāḥ
upayāsyatha mad-dhāma
nirvidya nirayād ataḥ
bhaktyā pakva-guṇāśayāḥ
upayāsyatha mad-dhāma
nirvidya nirayād ataḥ
Synonyms
atha — portanto; mayi — a Mim; anapāyinyā — sem qualquer desvio; bhaktyā — através do serviço devocional; pakva-guṇa — livres de contaminação material; āśayāḥ — vossa mente; upayāsyatha — alcançareis; mat-dhāma — Minha morada; nirvidya — estando inteiramente desapegados; nirayāt — da existência material; ataḥ — assim.
Translation
Depois disso, desenvolvereis serviço devocional imaculado a Mim e vos libertareis de toda a contaminação material. Nesse momento, estando inteiramente desapegados do gozo material nos ditos planetas celestiais, bem como nos planetas infernais, retornareis ao lar, de volta ao Supremo.
Purport
SIGNIFICADO—Pela graça do Senhor, os Pracetās receberam oportunidades especiais. Apesar de poderem viver milhões de anos para gozar dos recursos materiais, não se desviariam do transcendental serviço amoroso ao Senhor. Deste modo, estando plenamente ocupados, os Pracetās se livrariam por completo de todo o apego material. O apego material é muito forte. Durante toda uma vida, o materialista se dedica a adquirir terras, dinheiro, companheiros, sociedade, amizade, amor e assim por diante. Ele também quer desfrutar dos planetas celestiais após a aniquilação do corpo. Se uma pessoa se ocupa em serviço devocional, entretanto, ela se desapega de toda espécie de gozo e sofrimento materiais. No mundo material, supõe-se que pessoas elevadas a sistemas planetários superiores gozam de todos os recursos materiais, ao passo que pessoas degradadas a sistemas planetários inferiores vivem em condições infernais. O devoto, contudo, é transcendental tanto às condições celestiais quanto às infernais. Segundo a Bhagavad-gītā (14.26), a posição do devoto é descrita desta maneira:
māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
“Quem se ocupa em pleno serviço devocional, não caindo em nenhuma circunstância, transcende de imediato os modos da natureza material e, assim, chega ao nível de Brahman.”
O devoto está sempre situado na plataforma Brahman. Ele não possui qualquer ligação com a felicidade ou a aflição materiais. Quando alguém está fortemente fixo em serviço devocional e livre de todo o apego material, sem a contaminação dos modos materiais da natureza, ele se torna apto a voltar ao lar, voltar ao Supremo. Embora, através de uma bênção especial, os Pracetās fossem gozar dos recursos materiais por milhões de anos, eles não se apegariam a eles. Assim, ao fim de seu gozo material, eles seriam promovidos ao mundo espiritual e regressariam ao Supremo.
A palavra pakva-guṇāśayāḥ tem importância especial, pois significa que, através do serviço devocional, é possível abandonar a influência dos três modos da natureza material. Enquanto estivermos influenciados pelos modos da natureza material, não poderemos voltar ao Supremo. Aqui se explica claramente que todos os planetas no mundo material – desde Brahmaloka até os planetas infernais – são lugares impróprios para um devoto. Padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām. Um lugar onde há perigo a cada passo certamente não é um lugar confortável. Portanto, o Senhor diz na Bhagavad-gītā (8.16):
ābrahma-bhuvanāl lokāḥ
punar āvartino ’rjuna
mām upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate
punar āvartino ’rjuna
mām upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate
“Partindo do planeta mais elevado no mundo material e descendo ao mais baixo, todos são lugares de sofrimento, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança a Minha morada, ó filho de Kuntī, jamais volta a nascer.”
Assim, não há ganho algum mesmo caso se alcance a promoção a Brahmaloka, o planeta mais elevado no universo material. Contudo, se uma pessoa, de alguma forma, for promovida à morada do Senhor, jamais retornará ao mundo material.
Devanagari
गृहेष्वाविशतां चापि पुंसां कुशलकर्मणाम् ।
मद्वार्तायातयामानां न बन्धाय गृहा मता: ॥ १९ ॥
मद्वार्तायातयामानां न बन्धाय गृहा मता: ॥ १९ ॥
Verse text
gṛheṣv āviśatāṁ cāpi
puṁsāṁ kuśala-karmaṇām
mad-vārtā-yāta-yāmānāṁ
na bandhāya gṛhā matāḥ
puṁsāṁ kuśala-karmaṇām
mad-vārtā-yāta-yāmānāṁ
na bandhāya gṛhā matāḥ
Synonyms
gṛheṣu — na vida familiar; āviśatām — que ingressaram; ca — também; api — mesmo; puṁsām — de pessoas; kuśala-karmaṇām — dedicadas a atividades auspiciosas; mat-vārtā — em tópicos sobre Mim; yāta — é gasto; yāmānām — cada momento de quem; na — não; bandhāya — para o cativeiro; gṛhāḥ — vida familiar; matāḥ — considerada.
Translation
Aqueles que se dedicam a atividades auspiciosas de serviço devocional decerto compreendem que o desfrutador ou beneficiário último de todas as atividades é a Suprema Personalidade de Deus. Assim, ao agirem, eles oferecem os resultados à Suprema Persona Personalidade de Deus e passam a vida sempre absortos em tópicos sobre o Senhor. Mesmo que tais pessoas estejam participando da vido familiar, elas não são afetadas pelos resultados de suas ações.
Purport
SIGNIFICADO—De um modo geral, uma pessoa que vive em família torna-se demasiadamente apegada a atividades fruitivas. Em outras palavras, ela tenta gozar dos resultados de suas atividades. O devoto, entretanto, sabe que Kṛṣṇa é o desfrutador supremo e o proprietário supremo (bhoktāraṁ yajña-tapasāṁ sarva-loka-maheśvaraṁ). Em consequência disso, o devoto não se considera o proprietário de nenhuma ocupação. O devoto sempre pensa na Suprema Personalidade de Deus como o proprietário, motivo pelo qual ele oferece ao Senhor Supremo os resultados de suas atividades. Quem vive assim no mundo material com sua família e filhos nunca se deixa afetar pelas contaminações do mundo material. Confirma-se isso na Bhagavad-gītā (3.9):
yajñārthāt karmaṇo ’nyatra
loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ
tad-arthaṁ karma kaunteya
mukta-saṅgaḥ samācara
loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ
tad-arthaṁ karma kaunteya
mukta-saṅgaḥ samācara
Aquele que tenta gozar dos resultados de suas atividades é atado por esses mesmos resultados. Quem oferece seus resultados ou ganhos à Suprema Personalidade de Deus, contudo, não se enreda nos resultados. Esse é o segredo do sucesso. De um modo geral, as pessoas aceitam sannyāsa para se livrarem das reações das atividades fruitivas. Aquele que não fica com os resultados de suas ações, mas, ao contrário, oferece-os à Suprema Personalidade de Deus, com certeza permanece em uma condição liberada. No Bhakti-rasāmṛta-sindhu, Śrī Rūpa Gosvāmī confirma isso:
īhā yasya harer dāsye
karmaṇā manasā girā
nikhilāsv apy avasthāsu
jīvan-muktaḥ sa ucyate
karmaṇā manasā girā
nikhilāsv apy avasthāsu
jīvan-muktaḥ sa ucyate
Se alguém se ocupar a serviço do Senhor através de sua vida, riqueza, palavras, inteligência e tudo que possui, será sempre liberado em qualquer condição. Uma pessoa assim se chama jīvan-mukta, ou seja, liberada durante esta mesma vida. Desprovidos de consciência de Kṛṣṇa, aqueles que se ocupam em atividades materiais não fazem nada além de se enredarem cada vez mais no cativeiro material. São obrigados a sofrer e desfrutar das ações e reações de todas as atividades. Portanto, este movimento para a consciência de Kṛṣṇa é a maior dádiva para a humanidade porque nos mantém sempre ocupados a serviço de Kṛṣṇa. Os devotos pensam em Kṛṣṇa, agem para Kṛṣṇa, comem para Kṛṣṇa, dormem para Kṛṣṇa e trabalham para Kṛṣṇa. Assim, ocupam tudo a serviço de Kṛṣṇa. Uma vida total em consciência de Kṛṣṇa nos salva da contaminação material. Afirma isso Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Mahārāja:
kṛṣṇa-bhajane yāhā haya anukūla
viṣaya baliyā tyāge tāhā haya bhūla
viṣaya baliyā tyāge tāhā haya bhūla
“Se alguém é hábil o bastante para conectar ou ocupar tudo a serviço do Senhor, a ideia de renunciar ao mundo material se torna algo sem sentido.” Deve-se aprender a vincular tudo no serviço ao Senhor, pois tudo possui um vínculo com Kṛṣṇa. Esse é o verdadeiro objetivo da vida e o segredo do sucesso, como se reitera no terceiro capítulo da Bhagavad-gītā (3.19):
tasmād asaktaḥ satataṁ
kāryaṁ karma samācara
asakto hy ācaran karma
param āpnoti pūruṣaḥ
kāryaṁ karma samācara
asakto hy ācaran karma
param āpnoti pūruṣaḥ
“Portanto, sem se apegar aos frutos das atividades, deve-se agir por uma questão de dever, pois, trabalhando sem apego, alcança-se o Supremo.”
O terceiro capítulo da Bhagavad-gītā analisa especificamente as atividades materiais com o propósito de gozo dos sentidos e atividades materiais com o propósito de satisfazer ao Senhor Supremo. Em conclusão, essas duas classes de atividade não são iguais. Atividades materiais em busca de gozo dos sentidos constituem a causa do cativeiro material, ao passo que as mesmíssimas atividades, quando visam à satisfação de Kṛṣṇa, constituem a causa da liberação. Como a mesma atividade pode ser causa de cativeiro e liberação é algo que se pode explicar da seguinte maneira: pode ser que alguém fique com indigestão por comer muitas preparações lácteas – leite condensado, arroz-doce e assim por diante. Contudo, ainda que o indivíduo sofra de indigestão ou diarreia, outra preparação láctea – iogurte misturado com pimenta do reino e sal – imediatamente curará esses males. Em outras palavras, uma preparação láctea pode causar indigestão e diarreia, e outra preparação láctea pode curá-las.
Se alguém se vê dotado de opulência material devido à misericórdia especial da Suprema Personalidade de Deus, ele não deve considerar essa opulência como causadora de cativeiro. Quando um devoto puro é abençoado com opulência material, ele não é afetado adversamente, pois sabe como empregar a opulência material a serviço do Senhor. Há muitos exemplos disso na história do mundo – reis como Pṛthu Mahārāja, Prahlāda Mahārāja, Janaka, Dhruva, Vaivasvata Manu e Mahārāja lkṣvāku. Todos eles foram grandes reis e receberam favor especial da Suprema Personalidade de Deus. Se um devoto não for maduro, o Senhor Supremo tomará toda a opulência dele. Esse princípio é declarado pela Suprema Personalidade de Deus, yasyāham anugṛhṇāmi hariṣye tad-dhanaṁ śanaiḥ: “A primeira misericórdia que mostro para Meu devoto é retirar toda a sua opulência material.” O Senhor Supremo tira qualquer opulência material que prejudique o serviço devocional, ao passo que uma pessoa madura em serviço devocional recebe dEle todos os recursos materiais.
Devanagari
नव्यवद्धृदये यज्ज्ञो ब्रह्मैतद्ब्रह्मवादिभि: ।
न मुह्यन्ति न शोचन्ति न हृष्यन्ति यतो गता: ॥ २० ॥
न मुह्यन्ति न शोचन्ति न हृष्यन्ति यतो गता: ॥ २० ॥
Verse text
navyavad dhṛdaye yaj jño
brahmaitad brahma-vādibhiḥ
na muhyanti na śocanti
na hṛṣyanti yato gatāḥ
brahmaitad brahma-vādibhiḥ
na muhyanti na śocanti
na hṛṣyanti yato gatāḥ
Synonyms
navya-vat — cada vez mais viçoso; hṛdaye — no coração; yat — como; jñaḥ — o conhecedor supremo, Paramātmā; brahma — Brahman; etat — isto; brahma-vādibhiḥ — pelos advogados da Verdade Absoluta; na — nunca; muhyanti — ficam confusos; na — nunca; śocanti — se lamentam; na — jamais; hṛṣyanti — são jubilosos; yataḥ — quando; gatāḥ — tiverem alcançado.
Translation
Ocupando-se sempre em atividades de serviço devocional, os devotos se sentem cada vez mais viçosos e renovados em todas as suas atividades. O ser onisciente, a Superalma dentro do coração do devoto, faz com que tudo se revigore cada vez mais. Os defensores da Verdade Absoluta conhecem isso como a posição Brahman. Nessa fase liberada [brahma-bhūta], ninguém fica confuso, em tempo algum. Tampouco se lamenta ou se torna desnecessariamente jubiloso. Isso se deve à situação brahma-bhūta.
Purport
SIGNIFICADO—O devoto é inspirado pela Superalma dentro do coração a avançar em serviço devocional de várias maneiras. O devoto não se sente trivial ou estereotipado, nem sente estar em uma posição estagnada. No mundo material, se alguém se põe a cantar um nome material, sente-se cansado após cantá-lo algumas vezes. Contudo, podemos cantar o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa o dia todo e a noite toda e jamais nos sentiremos cansados. Quanto mais se canta, mais o canto se renova. Śrīla Rūpa Gosvāmī dizia que, se pudesse, de alguma forma, ter milhões de ouvidos e línguas, ele poderia saborear, então, a bem-aventurança espiritual do cantar do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa. Na verdade, não há nada desestimulador para um devoto altamente avançado. Na Bhagavad-gītā, o Senhor diz estar situado no coração de todos, ajudando a entidade viva a esquecer e a lembrar. É pela graça do Senhor que o devoto obtém inspiração.
teṣāṁ satata-yuktānāṁ
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
“Aos que se dedicam constantemente a Mim e Me adoram com amor, Eu dou a compreensão com a qual eles podem vir a Mim.” (Bhagavad-gītā 10.10)
Como se afirma (kuśala-karmaṇām), aqueles que se dedicam a atividades piedosas de serviço devocional são orientados pela Superalma, descrita neste verso como jña, ou seja, a conhecedora de tudo, no passado, no presente e no futuro. A Superalma dá instruções ao devoto sincero e imaculado sobre como ele pode progredir cada vez mais no processo de aproximar-se da Suprema Personalidade de Deus. A esse respeito, Śrīla Jīva Gosvāmī diz que a Superalma, a expansão plenária da Suprema Personalidade de Deus, existe no coração de todos, mas, no coração do devoto, Ele Se revela como cada vez mais viçoso. Sendo inspirado por Ele, o devoto experimenta crescente bem-aventurança transcendental no cumprimento de seu serviço devocional.
Devanagari
मैत्रेय उवाच
एवं ब्रुवाणं पुरुषार्थभाजनं
जनार्दनं प्राञ्जलय: प्रचेतस: ।
तद्दर्शनध्वस्ततमोरजोमला
गिरागृणन् गद्गदया सुहृत्तमम् ॥ २१ ॥
एवं ब्रुवाणं पुरुषार्थभाजनं
जनार्दनं प्राञ्जलय: प्रचेतस: ।
तद्दर्शनध्वस्ततमोरजोमला
गिरागृणन् गद्गदया सुहृत्तमम् ॥ २१ ॥
Verse text
maitreya uvāca
evaṁ bruvāṇaṁ puruṣārtha-bhājanaṁ
janārdanaṁ prāñjalayaḥ pracetasaḥ
tad-darśana-dhvasta-tamo-rajo-malā
girāgṛṇan gadgadayā suhṛttamam
evaṁ bruvāṇaṁ puruṣārtha-bhājanaṁ
janārdanaṁ prāñjalayaḥ pracetasaḥ
tad-darśana-dhvasta-tamo-rajo-malā
girāgṛṇan gadgadayā suhṛttamam
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — Maitreya disse; evam — assim; bruvāṇam — falando; puruṣa-artha — da meta última da vida; bhājanam — o outorgador; jana-ardanam — que elimina todas as desvantagens do devoto; prāñjalayaḥ — de mãos postas; pracetasaḥ — os irmãos Pracetās; tat — a Ele; darśana — vendo; dhvasta — dissipada; tamaḥ — de escuridão; rajaḥ — de paixão; malāḥ — cuja contaminação; girā — com a voz; agṛṇan — ofereceram orações; gadgadayā — embargada; suhṛt-tamam — ao maior de todos os amigos.
Translation
O grande sábio Maitreya disse: Depois que a Personalidade de Deus falou assim, os Pracetās puseram-se a oferecer-Lhe orações. O Senhor é o outorgador de todo sucesso na vida e o benfeitor supremo. Ele também é o amigo supremo, que elimina todas as condições dolorosas experimentadas por um devoto. Com a voz embargada, devido ao êxtase, os Pracetās começaram a oferecer orações. Eles estavam purificados pela presença do Senhor, o qual Se encontrava pessoalmente perante eles.
Purport
SIGNIFICADO—Nesta passagem, descreve-se o Senhor como puruṣārtha-bhājanam (o outorgador da meta última da vida). Qualquer sucesso que desejemos na vida, podemos alcançar pela misericórdia do Senhor. Como os Pracetās já haviam recebido a misericórdia do Senhor, eles não estavam mais sujeitos à contaminação dos modos materiais. Os modos materiais dissiparam-se para eles assim como a escuridão da noite desaparece tão logo o Sol nasça. Como o Senhor apareceu perante eles, naturalmente todas as contaminações das qualidades materiais de rajas e tamas dissiparam-se por completo. De forma semelhante, quando o devoto imaculado canta o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa, ele também se purifica de toda a contaminação material porque o nome do Senhor e o Senhor são idênticos. Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.17):
śṛṇvatāṁ sva-kathāḥ kṛṣṇaḥ
puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ
hṛdy antaḥ-stho hy abhadrāṇi
vidhunoti suhṛt satām
puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ
hṛdy antaḥ-stho hy abhadrāṇi
vidhunoti suhṛt satām
“Śrī Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus, que é o Paramātmā [Superalma] no coração de todos e o benfeitor do devoto veraz, limpa o desejo de gozo material do coração do devoto que tenha desenvolvido o anseio de ouvir Suas mensagens, que são por si só eficazes quando ouvidas e cantadas apropriadamente.”
O santo nome do Senhor é o próprio Senhor. Se alguém o canta e o ouve, purifica-se. Aos poucos, toda a contaminação material desaparece. Os Pracetās já estavam purificados devido à presença do Senhor perante eles, de modo que puderam oferecer orações adequadas de mãos postas. Em outras palavras, tão logo os devotos se ocupem em serviço devocional, eles se tornam transcendentais a toda a contaminação material, como se confirma na Bhagavad-gītā, sa guṇān samatītyaitān brahma-bhūyāya kalpate. Às vezes, os devotos ficam descontentes por não verem a Suprema Personalidade de Deus pessoalmente. Quando os Pracetās viram o Senhor Supremo presente em pessoa, sua infelicidade desvaneceu-se.
Devanagari
Verse text
pracetasa ūcuḥ
namo namaḥ kleśa-vināśanāya
nirūpitodāra-guṇāhvayāya
mano-vaco-vega-puro-javāya
sarvākṣa-mārgair agatādhvane namaḥ
namo namaḥ kleśa-vināśanāya
nirūpitodāra-guṇāhvayāya
mano-vaco-vega-puro-javāya
sarvākṣa-mārgair agatādhvane namaḥ
Synonyms
pracetasaḥ ūcuḥ — os Pracetās disseram; namaḥ — reverências; namaḥ — reverências; kleśa — aflição material; vināśanāya — àquele que destrói; nirūpita — peremptória; udāra — magnânimas; guṇa — qualidades; āhvayāya — cujo nome; manaḥ — da mente; vacaḥ — das palavras; vega — a velocidade; puraḥ — antes; javāya — cuja velocidade; sarva-akṣa — de todos os sentidos materiais; mārgaiḥ — pelos caminhos; agata — não perceptível; adhvane — cujo curso; namaḥ — prestamos nossos respeitos.
Translation
Os Pracetās falaram da seguinte maneira: Querido Senhor, Vós nos aliviais de toda espécie de aflições materiais. Vossas magnânimas qualidades transcendentais e Vosso santo nome são plenamente auspiciosos. Esta conclusão já é em estabelecida. Sua velocidade supera àquela da mente e das palavras. Não podeis ser percebido pelos sentidos materiais. Portanto, nós Vos oferecemos repetidamente nossas respeitosas reverências.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra nirūpita, significando “bem estabelecida”, é muito significativa neste verso. Ninguém precisa realizar trabalho de pesquisa para encontrar Deus ou avançar em conhecimento espiritual. Tudo já existe decisivamente nos Vedas. Portanto, o Senhor diz na Bhagavad-gītā (15.15) que vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ: compreender a Suprema Personalidade de Deus através do processo dos Vedas é perfeito e categórico. Os Vedas afirmam que ataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi na bhaved grāhyam indriyaiḥ: os nomes, as formas, as qualidades, a parafernália e os passatempos transcendentais do Senhor não podem ser compreendidos por nossos sentidos materiais grosseiros. Sevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ: quando um devoto ocupa seus sentidos favoravelmente em serviço devocional, o Senhor, através de Sua imotivada misericórdia, revela-Se ao devoto. Esse é o processo védico conclusivo. Os Vedas também indicam que, pelo simples fato de cantar os santos nomes do Senhor, podemos, sem dúvida, tornarmo-nos espiritualmente avançados. Não nos é possível nos aproximarmos da Suprema Personalidade de Deus com a velocidade da mente ou das palavras, mas, se nos mantivermos fixos em serviço devocional, seremos capazes de nos aproximar dEle com rapidez e facilidade. Em outras palavras, o Senhor Supremo sente-Se atraído pelo serviço devocional, podendo aproximar-Se de nós mais rapidamente do que nós podemos aproximar-nos dEle com nossa especulação mental. O Senhor declara estar além do alcance da especulação mental e da velocidade do pensamento, mas, por Sua misericórdia imotivada, é possível que nos aproximemos dEle facilmente. Assim, só é possível alcançá-lO por meio de Sua misericórdia imotivada. Outros métodos não serão eficientes.
Devanagari
शुद्धाय शान्ताय नम: स्वनिष्ठया
मनस्यपार्थं विलसद्द्वयाय ।
नमो जगत्स्थानलयोदयेषु
गृहीतमायागुणविग्रहाय ॥ २३ ॥
मनस्यपार्थं विलसद्द्वयाय ।
नमो जगत्स्थानलयोदयेषु
गृहीतमायागुणविग्रहाय ॥ २३ ॥
Verse text
śuddhāya śāntāya namaḥ sva-niṣṭhayā
manasy apārthaṁ vilasad-dvayāya
namo jagat-sthāna-layodayeṣu
gṛhīta-māyā-guṇa-vigrahāya
manasy apārthaṁ vilasad-dvayāya
namo jagat-sthāna-layodayeṣu
gṛhīta-māyā-guṇa-vigrahāya
Synonyms
śuddhāya — àquele livre de adulteração; śāntāya — ao mais pacífico; namaḥ — oferecemos nossas reverências; sva-niṣṭhayā — estando situado em sua posição; manasi — na mente; apārtham — sem qualquer sentido; vilasat — aparecendo; dvayāya — em quem o mundo dual; namaḥ — reverências; jagat — da manifestação cósmica; sthāna — manutenção; laya — aniquilação; udayeṣu — e para criação; gṛhīta — aceitas; māyā — material; guṇa — dos modos da natureza; vigrahāya — as formas.
Translation
Querido Senhor, aceite, por favor, nossas reverências. Quando a mente está fixa em Vós, o mundo de dualidade, apesar de ser um lugar feito para o gozo material, parece insignificante. Vossa forma transcendental é plena de bem-aventurança transcendental. Portanto, nós Vos prestamos nossos respeitos. Vossos aparecimentos como o senhor Brahmā, o Senhor Viṣṇu e o senhor Śiva destinam-se ao propósito de criar, manter e aniquilar esta manifestação cósmica.
Purport
SIGNIFICADO—Um devoto puro, cuja mente está sempre ocupada em servir ao Senhor, certamente pode apreciar a temporariedade deste mundo material. Ainda que tal devoto se dedique a executar atividades materiais, essa fase se chama anāsakti. Como explica Śrīla Rūpa Gosvāmī, anāsaktasya viṣayān yathārham upayuñjataḥ. O devoto está sempre desapegado das atividades materiais porque, na fase liberada, sua mente está sempre fixa nos pés de lótus do Senhor.
Este mundo material se chama dvaita, o mundo de dualidade. O devoto sabe muito bem que tudo neste mundo material nada mais é do que a manifestação da energia do Senhor Supremo. Para manter os três modos da natureza material, o Senhor assume três formas diferentes, a saber, o senhor Brahmā, o Senhor Viṣṇu e o senhor Śiva. Sem ser afetado pelos modos da natureza material, o Senhor assume formas diferentes para criar, manter e aniquilar esta manifestação cósmica. Em conclusão, embora o devoto puro pareça ocupar-se em atividades materiais enquanto serve ao Senhor, Ele sabe muito bem que o gozo material para a satisfação dos sentidos não tem nenhuma utilidade.
Devanagari
नमो विशुद्धसत्त्वाय हरये हरिमेधसे ।
वासुदेवाय कृष्णाय प्रभवे सर्वसात्वताम् ॥ २४ ॥
वासुदेवाय कृष्णाय प्रभवे सर्वसात्वताम् ॥ २४ ॥
Verse text
namo viśuddha-sattvāya
haraye hari-medhase
vāsudevāya kṛṣṇāya
prabhave sarva-sātvatām
haraye hari-medhase
vāsudevāya kṛṣṇāya
prabhave sarva-sātvatām
Synonyms
namaḥ — reverências; viśuddha-sattvāya — a Vós, cuja existência é isenta de toda influência material; haraye — que afasta todas as condições dolorosas dos devotos; hari-medhase — cujo cérebro trabalha somente em prol da salvação da alma condicionada; vāsudevāya — a onipenetrante Suprema Personalidade de Deus; kṛṣṇāya — a Kṛṣṇa; prabhave — que aumenta o prestígio; sarva-sātvatām — de todas as classes de devotos.
Translation
Querido Senhor, nós Vos oferecemos nossas respeitosas reverências porque Vossa existência é inteiramente independente de todas as influências materiais. Vossa Onipotência sempre afasta as condições dolorosas do devoto, pois Vosso cérebro planeja como fazê-lo. Viveis em toda parte como Paramātmā; portanto, sois conhecido como Vāsudeva. Além disso, aceitais Vāsudeva como Vosso pai, e sois célebre pelo nome Kṛṣṇa. Sois tão bondoso que sempre aumentais o prestígio de todos os Vossos devotos.
Purport
SIGNIFICADO—No verso anterior, afirmou-se (gṛhīta-māyā-guṇa-vigrahāya) que o Senhor aceita três espécies de corpos (Viṣṇu, Brahmā e Śiva) para os propósitos de criar, manter e aniquilar a manifestação cósmica. As três deidades predominantes do universo material (Brahmā, Viṣṇu e Śiva) chamam-se guṇa-avatāras. Existem muitas espécies de encarnações da Suprema Personalidade de Deus, sendo que as primeiras encarnações dentro deste mundo material são Brahmā, Viṣṇu e Maheśvara (Śiva). Entre elas, o senhor Brahmā e o senhor Śiva aceitam corpos materiais, mas o Senhor Viṣṇu não aceita um corpo material. Logo, o Senhor Viṣṇu é conhecido como viśuddha-sattva. Sua existência é inteiramente isenta da contaminação dos modos materiais da natureza. Ninguém deve pensar, portanto, que o Senhor Viṣṇu está na mesma categoria que o senhor Brahmā e o senhor Śiva. Os śāstras nos proíbem de pensar dessa maneira.
yas tu nārāyaṇaṁ devaṁ
brahma-rudrādi-daivataiḥ
samatvenaiva vīkṣeta
sa pāṣaṇḍī bhaved dhruvam
brahma-rudrādi-daivataiḥ
samatvenaiva vīkṣeta
sa pāṣaṇḍī bhaved dhruvam
Alguém que pensa que o Senhor Viṣṇu está na mesma categoria que devas como o senhor Brahmā ou o senhor Śiva, ou que pensa que o senhor Brahmā e Śiva são iguais ao Senhor Viṣṇu, deve ser considerado um pāṣaṇḍī, um descrente infiel. Portanto, neste verso, distingue-se o Senhor Viṣṇu pelo uso das palavras namo viśuddha-sattvāya. Apesar de ser uma entidade viva como nós, o senhor Brahmā é elevado devido às suas atividades piedosas; portanto, ele recebe o alto posto de Brahmā. O senhor Śiva não é realmente uma simples entidade viva, mas ele não é a Suprema Personalidade de Deus. Sua posição está entre a de Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus, e a de Brahmā, a entidade viva. Portanto, a Brahma-saṁhitā (5.45) explica a posição do senhor Śiva da seguinte maneira:
kṣīraṁ yathā dadhi vikāra-viśeṣa-yogāt
sañjāyate na hi tataḥ pṛthag asti hetoḥ
yaḥ śambhutām api tathā samupaiti kāryād
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
sañjāyate na hi tataḥ pṛthag asti hetoḥ
yaḥ śambhutām api tathā samupaiti kāryād
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
O senhor Śiva é comparado ao iogurte (dadhi). O iogurte nada mais é que leite transformado; todavia, o iogurte não pode ser aceito como leite. Analogamente, o senhor Śiva tem quase todos os poderes do Senhor Viṣṇu, e ele também está acima das qualidades da entidade viva, mas não é exatamente como Viṣṇu, assim como o iogurte, apesar de ser leite transformado, não é exatamente como o leite.
Nesta passagem, também se descreve a Suprema Personalidade de Deus como vāsudevāya kṛṣṇāya. Kṛṣṇa é a original Suprema Personalidade de Deus, e todas as expansões de Viṣṇu são Suas porções plenárias ou porções de Suas porções plenárias (conhecidas como svāṁśa e kalā). A expansão svāṁśa, ou expansão direta, também se chama aṁśa. Todos os viṣṇu-tattvas são svāṁśa, partes integrantes diretas da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é conhecido como Vāsudeva por ter aparecido neste mundo material como o filho de Vasudeva. De modo semelhante, Ele é conhecido como Devakī-nandana, Yaśodā-nandana, Nandanandana e assim por diante.
O Senhor está sempre e cada vez mais interessado em aumentar o prestígio de Seus devotos. Portanto, Ele é descrito aqui como prabhave sarva-sātvatām. A comunidade sātvata é uma comunidade de vaiṣṇavas, devotos puros do Senhor. A Suprema Personalidade de Deus tem poderes ilimitados, e Ele quer cuidar para que Seus devotos também recebam poderes sem limites. Logo, o devoto do Senhor é sempre distinto de todas as demais entidades vivas.
A palavra hari significa “aquele que afasta todas as condições dolorosas”, e hari-medhase quer dizer que o Senhor vive planejando maneiras de salvar a alma condicionada das garras de māyā. O Senhor é tão bondoso que encarna pessoalmente para libertar as almas condicionadas, e, sempre que vem, Ele faz Seus planos.
paritrāṇāya sādhūnāṁ
vināśāya ca duṣkṛtām
dharma-saṁsthāpanārthāya
sambhavāmi yuge yuge
vināśāya ca duṣkṛtām
dharma-saṁsthāpanārthāya
sambhavāmi yuge yuge
“Para libertar os piedosos e aniquilar os canalhas, bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu mesmo venho, milênio após milênio.” (Bhagavad-gītā 4.8)
Uma vez que o Senhor liberta todas as almas condicionadas das garras de māyā, Ele é conhecido como hari-medhas. Na lista de encarnações, Kṛṣṇa é descrito como a suprema e original Personalidade de Deus.
ete cāṁśa-kalāḥ puṁsaḥ
kṛṣṇas tu bhagavān svayam
indrāri-vyākulaṁ lokaṁ
mṛḍayanti yuge yuge
kṛṣṇas tu bhagavān svayam
indrāri-vyākulaṁ lokaṁ
mṛḍayanti yuge yuge
(Bhāg. 1.3.28)
Kṛṣṇa, a original Personalidade de Deus, aparece neste mundo material quando os semideuses, que são devotos do Senhor, são perturbados pelos demônios.
Devanagari
नम: कमलनाभाय नम: कमलमालिने ।
नम: कमलपादाय नमस्ते कमलेक्षण ॥ २५ ॥
नम: कमलपादाय नमस्ते कमलेक्षण ॥ २५ ॥
Verse text
namaḥ kamala-nābhāya
namaḥ kamala-māline
namaḥ kamala-pādāya
namas te kamalekṣaṇa
namaḥ kamala-māline
namaḥ kamala-pādāya
namas te kamalekṣaṇa
Synonyms
namaḥ — nós Vos oferecemos nossas respeitosas reverências; kamala-nābhāya — à Suprema Personalidade de Deus, de cujo abdômen origina-se a flor de lótus original; namaḥ — reverências; kamala-māline — que está sempre enfeitado com uma guirlanda de flores de lótus; namaḥ — reverências; kamala-pādāya — cujos pés são belos e fragrantes como a flor de lótus; namaḥ te — reverências a Vós; kamala-īkṣaṇa — cujos olhos são exatamente como as pétalas da flor de lótus.
Translation
Querido Senhor, nós Vos oferecemos nossas respeitosas reverências porque, de Vosso abdômen, brota a flor de lótus, a origem de todas as entidades vivas. Estais sempre enfeitado com uma guirlanda de lótus, e Vossos pés assemelham-se à flor de lótus, com toda a sua fragrância. Vossos olhos são como as pétalas de uma flor de lótus. Portanto, nós Vos oferecemos sempre nossas respeitosas reverências.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra kamala-nābhāya indica que o Senhor Viṣṇu é a origem da criação material. Do abdômen de Garbhodakaśāyī Viṣṇu, brota uma flor de lótus. O senhor Brahmā, a primeira criatura do universo, nasce dessa flor de lótus, e, em seguida, o senhor Brahmā cria todo o universo. A origem de toda a criação, portanto, é o Senhor Viṣṇu, e a origem de todos os viṣṇu-tattvas é o Senhor Kṛṣṇa. Logo, Kṛṣṇa é a origem de tudo. Confirma-se isso, também, na Bhagavad-gītā (10.8):
ahaṁ sarvasya prabhavo
mattaḥ sarvaṁ pravartate
iti matvā bhajante māṁ
budhā bhāva-samanvitāḥ
mattaḥ sarvaṁ pravartate
iti matvā bhajante māṁ
budhā bhāva-samanvitāḥ
“Eu sou a fonte de todos os mundos materiais e espirituais. Tudo emana de Mim. Os sábios que conhecem isso perfeitamente ocupam-se no Meu serviço devocional e adoram-Me de todo o coração.” O Senhor Kṛṣṇa diz: “Eu sou a origem de tudo.” Portanto, qualquer coisa que vejamos emana dEle. Confirma-se isso, também, no Vedānta-sūtra. Janmādy asya yataḥ: “A Verdade Absoluta é aquele de quem tudo emana.”
Devanagari
नम: कमलकिञ्जल्कपिशङ्गामलवाससे ।
सर्वभूतनिवासाय नमोऽयुङ्क्ष्महि साक्षिणे ॥ २६ ॥
सर्वभूतनिवासाय नमोऽयुङ्क्ष्महि साक्षिणे ॥ २६ ॥
Verse text
namaḥ kamala-kiñjalka-
piśaṅgāmala-vāsase
sarva-bhūta-nivāsāya
namo ’yuṅkṣmahi sākṣiṇe
piśaṅgāmala-vāsase
sarva-bhūta-nivāsāya
namo ’yuṅkṣmahi sākṣiṇe
Synonyms
Translation
Querido Senhor, a roupa que usais é amarelada, como o açafrão de uma flor de lótus, mas ela não é feita de nada material. Como viveis no coração de todos, sois a testemunha direta de todas as atividades de todas as entidades vivas. Nós Vos oferecemos repetidamente nossas respeitosas reverências.
Purport
SIGNIFICADO—Descrevem-se neste verso a roupa da Suprema Personalidade de Deus e Sua natureza onipenetrante. O Senhor usa uma roupa amarela, mas essa roupa jamais deve ser considerada material. As roupas do Senhor também são o Senhor. Não são diferentes do Senhor por serem de natureza espiritual.
A expressão sarva-bhūta-nivāsāya esclarece melhor como o Senhor Viṣṇu reside no coração de todos e age como a testemunha direta de todas as atividades da alma condicionada. Neste mundo material, a alma condicionada tem desejos e age de acordo com esses desejos. A Suprema Personalidade de Deus observa todos esses atos. Confirma-se isso, também, na Bhagavad-gītā (15.15):
sarvasya cāhaṁ hṛdi sanniviṣṭo
mattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca
mattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca
“Estou situado nos corações de todos, e é de Mim que vêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento.” O Senhor está presente no coração de todos, e é Ele quem concede inteligência à entidade viva. Conforme os desejos da entidade viva, o Senhor faz com que ela se lembre ou se esqueça. Se a entidade viva é demoníaca e quer se esquecer da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor lhe confere inteligência para ela ser capaz de esquecer o Senhor Supremo para sempre. Do mesmo modo, quando um devoto deseja servir ao Senhor Supremo, o Senhor, como Paramātmā, concede inteligência ao devoto para que este progrida em serviço devocional. O Senhor testemunha diretamente nossas atividades e experimenta nossos desejos. O Senhor Supremo nos propicia os recursos para agirmos da maneira que desejamos.
Devanagari
रूपं भगवता त्वेतदशेषक्लेशसङ्क्षयम् ।
आविष्कृतं न: क्लिष्टानां किमन्यदनुकम्पितम् ॥ २७ ॥
आविष्कृतं न: क्लिष्टानां किमन्यदनुकम्पितम् ॥ २७ ॥
Verse text
rūpaṁ bhagavatā tv etad
aśeṣa-kleśa-saṅkṣayam
āviṣkṛtaṁ naḥ kliṣṭānāṁ
kim anyad anukampitam
aśeṣa-kleśa-saṅkṣayam
āviṣkṛtaṁ naḥ kliṣṭānāṁ
kim anyad anukampitam
Synonyms
rūpam — forma; bhagavatā — por Vossa Onipotência; tu — mas; etat — isto; aśeṣa — ilimitadas; kleśa — sofrimentos; saṅkṣayam — que dissipa; āviṣkṛtam — revelada; naḥ — entre nós; kliṣṭānām — que estão padecendo de condições materiais; kim anyat — o que dizer de; anukampitam — aqueles pelos quais Vós sempre sentis inclinação favorável.
Translation
Querido Senhor, nós almas condicionadas estamos sempre encobertos pela ignorância no conceito corpóreo de vida. Portanto, preferimos sempre as condições dolorosas da existência material. A fim de libertar-nos dessas condições lastimáveis, aparecestes sob esta forma transcendental. Isso comprova a Vossa misericórdia ilimitada e imotivada para com aqueles entre nós que estão sofrendo dessa maneira. O que dizer, então, dos devotos, pelos quais sempre sentis uma inclinação favorável?
Purport
SIGNIFICADO—Ao aparecer sob Sua forma original, o Senhor age para libertar os piedosos e aniquilar os canalhas. (Bhagavad-gītā 4.8) Apesar de Ele aniquilar os demônios, Ele os beneficia. Afirma-se que todas as entidades vivas que morreram no campo de batalha de Kurukṣetra alcançaram sua posição constitucional original (svarūpa) por terem tido a oportunidade de ver Kṛṣṇa, face a face, dirigindo a quadriga de Arjuna. No campo de batalha de Kurukṣetra, superficialmente, duas coisas aconteciam – os demônios estavam sendo mortos, e o devoto, Arjuna, estava sendo protegido. Contudo, os resultados foram os mesmos para todos. Assim, afirma-se que o aparecimento do Senhor diminui todas as espécies de condições dolorosas causadas pela existência material.
Este verso afirma claramente que essa forma (aśeṣa-kleśa-saṅkṣayam) destina-se a diminuir todas as condições dolorosas experimentadas na vida, não só pelos devotos, mas também por todos os demais. Āviṣkṛtaṁ naḥ kliṣṭānām: Os Pracetās identificaram-se como homens comuns. Kim anyad anukampitam. Os devotos são sempre aceitos favoravelmente pelo Senhor. O Senhor mostra toda misericórdia, não apenas às almas condicionadas, como também aos devotos, que já estão liberados devido a seu serviço devocional.
A forma do Senhor adorada nos templos chama-se arcā-vigraha ou arcāvatāra, a forma adorável, a encarnação como Deidade. Essa facilidade é oferecida aos devotos neófitos para que eles possam ver a verdadeira forma do Senhor, face a face, e prestar suas respeitosas reverências e sacrifícios à forma da arcā. Aproveitando-se de tal oportunidade, os neófitos gradualmente evocam sua consciência de Kṛṣṇa original. A adoração à Deidade na forma da adoração no templo é a bênção mais preciosa que o Senhor confere aos iniciantes. Portanto, todos os neófitos devem ocupar-se na adoração ao Senhor, mantendo o arcā-vigraha (arcāvatāra) em casa ou no templo.
Devanagari
एतावत्त्वं हि विभुभिर्भाव्यं दीनेषु वत्सलै: ।
यदनुस्मर्यते काले स्वबुद्ध्याभद्ररन्धन ॥ २८ ॥
यदनुस्मर्यते काले स्वबुद्ध्याभद्ररन्धन ॥ २८ ॥
Verse text
etāvat tvaṁ hi vibhubhir
bhāvyaṁ dīneṣu vatsalaiḥ
yad anusmaryate kāle
sva-buddhyābhadra-randhana
bhāvyaṁ dīneṣu vatsalaiḥ
yad anusmaryate kāle
sva-buddhyābhadra-randhana
Synonyms
etāvat — assim; tvam — Vossa Onipotência; hi — com certeza; vibhubhiḥ — por expansões; bhāvyam — ser concebido; dīneṣu — para com os devotos humildes; vatsalaiḥ — compassivo; yat — que; anusmaryate — é sempre lembrado; kāle — com o transcurso do tempo; sva-buddhyā — através do serviço devocional de cada um; abhadra-randhana — ó exterminador de toda a inauspiciosidade.
Translation
Querido Senhor, sois o exterminador de tudo que é inauspicioso. Sois compassivo para com Vossos pobres devotos através da expansão de Vosso arcā-vigraha. Certamente pensais em nós como Vossos servos eternos.
Purport
SIGNIFICADO—A forma do Senhor conhecida como arcā-vigraha é uma expansão de Suas potências ilimitadas. À medida que o Senhor Se satisfaz com o serviço de um devoto, com o transcorrer do tempo, Ele aceita tal devoto como um de Seus muitos servos imaculados. Por natureza, o Senhor é muito compassivo, daí Ele aceitar o serviço de devotos neófitos. Como se confirma na Bhagavad-gītā (9.26):
patraṁ puṣpaṁ phalaṁ toyaṁ
yo me bhaktyā prayacchati
tad ahaṁ bhakty-upahṛtam
aśnāmi prayatātmanaḥ
yo me bhaktyā prayacchati
tad ahaṁ bhakty-upahṛtam
aśnāmi prayatātmanaḥ
“Se alguém Me oferecer, com amor e devoção, uma folha, uma flor, frutas ou água, Eu as aceitarei.” Os devotos oferecem alimentos, sob a forma de legumes, frutas, folhas e água, ao arcā-vigraha. O Senhor, sendo bhakta-vatsala, compassivo com Seus devotos, aceita essas oferendas. Pode ser que os ateístas achem que os devotos são idólatras, mas a verdade é outra. Janārdana, o Senhor Supremo, aceita bhāva, a atitude de serviço. O devoto neófito ocupado na adoração ao Senhor pode não entender o valor de semelhante adoração, mas o Senhor Supremo, sendo bhakta-vatsala, aceita Seu devoto e, em tempo oportuno, leva-o de volta ao lar.
A esse respeito, conta-se a história de um brāhmaṇa que mentalmente oferecia arroz-doce ao Senhor. O brāhmaṇa não tinha dinheiro nem meios para adorar a Deidade, mas, mentalmente, ele organizava toda a adoração muito bem. Ele tinha potes dourados, nos quais carregava água dos rios sagrados para banhar a Deidade, e oferecia à Deidade alimentos muito suntuosos, incluindo arroz-doce. Certa vez, antes de oferecer o arroz-doce, ele julgou que esse poderia estar muito quente, e pensou: “Ah! Deixa-me experimentá-lo. Essa não! Está muito quente!” Ao colocar seu dedo no arroz-doce para experimentá-lo, o dedo se queimou, e isso interrompeu sua meditação. Muito embora ele estivesse oferecendo alimento ao Senhor apenas mentalmente, o Senhor o aceitou. Em consequência disso, em Vaikuṇṭha, o Senhor imediatamente enviou uma quadriga para buscar o brāhmaṇa de volta ao lar, de volta ao Supremo. Assim, é dever de todo devoto sincero aceitar o arcā-vigraha em casa ou no templo e adorar a forma do Senhor, seguindo o conselho das escrituras autorizadas e a orientação do mestre espiritual.
Devanagari
येनोपशान्तिर्भूतानां क्षुल्लकानामपीहताम् । अन्तर्हितोऽन्तर्हृदये कस्मान्नो वेद नाशिष: ॥ २९ ॥
Verse text
yenopaśāntir bhūtānāṁ
kṣullakānām apīhatām
antarhito ’ntar-hṛdaye
kasmān no veda nāśiṣaḥ
kṣullakānām apīhatām
antarhito ’ntar-hṛdaye
kasmān no veda nāśiṣaḥ
Synonyms
yena — processo pelo qual; upaśāntiḥ — satisfação de todos os desejos; bhūtānām — das entidades vivas; kṣullakānām — muito caídas; api — embora; īhatām — desejando muitas coisas; antarhitaḥ — escondidas; antaḥ-hṛdaye — no âmago do coração; kasmāt — por qual motivo; naḥ — nossos; veda — Ele conhece; na — não; āśiṣaḥ — desejos.
Translation
Quando o Senhor, por Sua compaixão natural, pensa em Seu devoto, é somente esse processo que proporciona a satisfação de todos os desejos do devoto neófito. O Senhor encontra-Se no coração de cada entidade viva, mesmo que seja uma entidade viva muito insignificante. O Senhor conhece tudo sobre a entidade viva, incluindo todos os seus desejos. Muito embora sejamos muito insignificantes, por que o Senhor desconheceria nossos desejos?
Purport
SIGNIFICADO—Um devoto muito avançado não se julga como tal. Ele é sempre muito humilde. A Suprema Personalidade de Deus, em Sua expansão plenária como o Paramātmā, ou a Superalma, encontra-Se no coração de todos e pode entender as atitudes e desejos de Seus devotos. O Senhor também concede oportunidade aos não-devotos de satisfazerem seus desejos, como confirma a Bhagavad-gītā (mattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca).
Qualquer coisa que uma entidade viva deseje, por mais insignificante que seja, é registrada pelo Senhor, que lhe concede a oportunidade de satisfazer seus desejos. Se até os desejos dos não-devotos são satisfeitos, por que não seriam satisfeitos os desejos do devoto? O devoto puro quer apenas ocupar-se a serviço do Senhor, sem desejo material, e, caso ele deseje isso no âmago de seu coração, onde Se encontra o Senhor, e caso não tenha motivações secretas, por que o Senhor não o ouviria? Se um devoto sincero presta serviço ao Senhor ou ao arcā-vigraha, a forma do Senhor, todas as suas atividades se tornam exitosas, pois o Senhor está presente em seu coração e percebe sua sinceridade. Assim, se um devoto, com toda a confiança, continuar desempenhando os deveres prescritos do serviço devocional, ele terá sucesso ao final.
Devanagari
असावेव वरोऽस्माकमीप्सितो जगत: पते ।
प्रसन्नो भगवान् येषामपवर्गगुरुर्गति: ॥ ३० ॥
प्रसन्नो भगवान् येषामपवर्गगुरुर्गति: ॥ ३० ॥
Verse text
asāv eva varo ’smākam
īpsito jagataḥ pate
prasanno bhagavān yeṣām
apavarga-gurur gatiḥ
īpsito jagataḥ pate
prasanno bhagavān yeṣām
apavarga-gurur gatiḥ
Synonyms
asau — esta; eva — decerto; varaḥ — bênção; asmākam — nossa; īpsitaḥ — desejada; jagataḥ — do universo; pate — ó Senhor; prasannaḥ — satisfeito; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; yeṣām — com quem; apavarga — do transcendental serviço amoroso; guruḥ — o mestre; gatiḥ — a meta última da vida.
Translation
Ó Senhor do universo, sois o verdadeiro mestre da ciência do serviço devocional. Estamos satisfeitos de que Vossa Onipotência seja a meta última de nossas vidas, e oramos que sempre fiqueis satisfeito conosco. Por favor, dai-nos esta bênção. Não desejamos nada além de Vossa plena satisfação.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, as palavras apavarga-gurur gatiḥ são muito significativas. Segundo o Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.11), o Senhor Supremo é a realidade fundamental da Verdade Absoluta. Brahmeti paramātmeti bhagavān iti śabdyate: a Verdade Absoluta é percebida sob três aspectos – o Brahman impessoal, o Paramātmā localizado e, finalmente, a Suprema Personalidade de Deus, Bhagavān. A palavra apavarga significa “liberação”. Pavarga significa “existência material”. A entidade viva na existência material trabalha sempre muito arduamente, mas acaba se frustrando. Depois, ela morre e é obrigada a aceitar outro corpo para trabalhar arduamente mais uma vez. Esse é o ciclo da existência material. Apavarga significa justamente o oposto. Em vez de trabalhar arduamente como cães e gatos, volta-se ao lar, volta-se ao Supremo. A liberação começa com o fundir-se na refulgência Brahman do Senhor Supremo. Esse é o conceito do jñānī-sampradāya, a escola de especuladores filosóficos, mas a compreensão da Suprema Personalidade de Deus é o conceito superior. Quando um devoto entende que o Senhor está satisfeito, a liberação, ou o fundir-se na refulgência do Senhor, não é muito difícil. É preciso aproximar-se da Suprema Personalidade de Deus através da refulgência do Brahman impessoal assim como é preciso aproximar-se do Sol através do brilho do Sol. Para quem tenha satisfeito a Suprema Personalidade de Deus, não é muito difícil imergir na refulgência impessoal do Senhor, o Brahman.
Devanagari
वरं वृणीमहेऽथापि नाथ त्वत्परत: परात् ।
न ह्यन्तस्त्वद्विभूतीनां सोऽनन्त इति गीयसे ॥ ३१ ॥
न ह्यन्तस्त्वद्विभूतीनां सोऽनन्त इति गीयसे ॥ ३१ ॥
Verse text
varaṁ vṛṇīmahe ’thāpi
nātha tvat parataḥ parāt
na hy antas tvad-vibhūtīnāṁ
so ’nanta iti gīyase
nātha tvat parataḥ parāt
na hy antas tvad-vibhūtīnāṁ
so ’nanta iti gīyase
Synonyms
Translation
Querido Senhor, portanto, queremos implorar Vossa bênção porque sois o Supremo, além de toda a transcendência, e porque são infinitas as Vossas opulências. Em consequência disso, sois célebre pelo nome de Ananta.
Purport
SIGNIFICADO—Não havia necessidade de os Pracetās pedirem qualquer bênção ao Senhor Supremo porque a presença da Suprema Personalidade de Deus é suficiente para satisfazer os devotos. Dhruva Mahārāja praticou rigorosas austeridades e penitências para ver o Senhor Supremo, e sua intenção era pedir uma bênção ao Senhor. Ele queria obter o trono de seu pai – ou mesmo alcançar uma posição melhor –, mas, ao se ver realmente na presença do Senhor Supremo, esqueceu-se de tudo. Ele disse: “Meu querido Senhor, não desejo pedir-Vos nenhuma bênção.” Essa é a verdadeira posição do devoto. Tudo que o devoto deseja é estar na presença do Senhor Supremo – quer neste mundo, quer no próximo – e ocupar-se em Seu serviço. Essa é a meta e bênção última almejada pelos devotos.
Tendo o Senhor solicitado aos Pracetās que Lhe pedissem alguma bênção, eles Lhe disseram: “Que tipo de bênção devemos pedir? O Senhor é ilimitado e há bênçãos ilimitadas.” Isso quer dizer que, se alguém deve pedir uma bênção, deve pedir uma bênção ilimitada. As palavras tvat parataḥ são muito significativas neste verso. A Suprema Personalidade de Deus é parataḥ parāt. A palavra para significa “transcendental, além deste mundo material”. A refulgência do Brahman impessoal está além deste mundo material, e fundir-se nela chama-se paraṁ padam. Āruhya kṛcchreṇa paraṁ padam. (Śrīmad-Bhāgavatam 10.2.32) Fundir-se na refulgência impessoal do Senhor chama-se paraṁ padam, mas há uma posição transcendental superior, a saber, a associação com a Suprema Personalidade de Deus. Brahmeti paramātmeti bhagavān iti śabdyate. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.11) A princípio, percebe-se a Verdade Absoluta como o Brahman impessoal, depois como Paramātmā e, enfim, como Bhagavān. Assim, a Personalidade de Deus, Bhagavān, é parataḥ parāt, além das percepções de Brahman e de Paramātmā. A esse respeito, Śrīla Jīva Gosvāmī ressalta que parataḥ parāt significa “melhor que o melhor”. O melhor é o mundo espiritual, que é conhecido como Brahman. A Suprema Personalidade de Deus, entretanto, é conhecida como Parabrahman. Portanto, parataḥ parāt significa “melhor do que a compreensão Brahman”.
Como se explicará nos versos seguintes, os Pracetās planejaram pedir ao Senhor algo que não tivesse limite. Os passatempos, qualidades, formas e nomes do Senhor são todos ilimitados. Não há limite para Seu nome, formas, passatempos, criação e parafernália. A entidade viva não pode conceber a natureza ilimitada do ilimitado. Contudo, se as entidades vivas se dedicarem a ouvir sobre as potências ilimitadas do Senhor Supremo, não há dúvidas de que elas estarão diretamente ligadas ao ilimitado. Ouvindo e cantando, nossa compreensão do ilimitado torna-se ilimitada.
Devanagari
पारिजातेऽञ्जसा लब्धे सारङ्गोऽन्यन्न सेवते ।
त्वदङ्घ्रिमूलमासाद्य साक्षात्किं किं वृणीमहि ॥ ३२ ॥
त्वदङ्घ्रिमूलमासाद्य साक्षात्किं किं वृणीमहि ॥ ३२ ॥
Verse text
pārijāte ’ñjasā labdhe
sāraṅgo ’nyan na sevate
tvad-aṅghri-mūlam āsādya
sākṣāt kiṁ kiṁ vṛṇīmahi
sāraṅgo ’nyan na sevate
tvad-aṅghri-mūlam āsādya
sākṣāt kiṁ kiṁ vṛṇīmahi
Synonyms
pārijāte — a árvore celestial conhecida como pārijāta; añjasā — completamente; labdhe — tendo alcançado; sāraṅgaḥ — uma abelha; anyat — outra; na sevate — não recorre a; tvat-aṅghri — Vossos pés de lótus; mūlam — a raiz de tudo; āsādya — tendo nos aproximado; sākṣāt — diretamente; kim — qual; kim — qual; vṛṇīmahi — podemos pedir.
Translation
Querido Senhor, quando a abelha se aproxima da árvore celestial chamada pārijāta, ela certamente não deixa a árvore, porque não necessita fazê-lo. De forma semelhante, agora que nos aproximamos de Vossos pés de lótus e nos refugiamos neles, que outra bênção podemos pedir-Vos?
Purport
SIGNIFICADO—Quando um devoto está realmente ocupado a serviço dos pés de lótus do Senhor, sua ocupação por si mesma é tão perfeita que não há necessidade de pedir qualquer outra bênção. Ao aproximar-se da árvore pārijāta, a abelha obtém ilimitado suprimento de mel. Não há necessidade de ela recorrer a outra árvore. Quem está fixo no serviço aos pés de lótus do Senhor experimenta ilimitada bem-aventurança transcendental, de modo que não há necessidade de pedir qualquer outra bênção. Não é comum encontrar uma árvore pārijāta neste mundo material. A árvore pārijāta também é conhecida como kalpa-vṛkṣa, ou a árvore que satisfaz todos os desejos. Uma pessoa pode obter qualquer coisa que deseje dessa árvore. No mundo material, pode-se colher laranjas de uma laranjeira ou mangas de uma mangueira, mas não é possível colher laranjas de uma mangueira ou vice-versa. Contudo, podemos obter qualquer coisa que queiramos da árvore pārijāta: laranjas, mangas, bananas e assim por diante. Essa árvore se encontra no mundo espiritual (cintāmaṇi-prakara-sadmasu kalpa-vṛkṣa-lakṣāvṛteṣu). O mundo espiritual, cintāmaṇi-dhāma, é cheio dessas árvores kalpa-vṛkṣa, mas a árvore pārijāta também se encontra no reino de Indra, isto é, no planeta celestial de Indra. Kṛṣṇa trouxe essa árvore pārijāta para agradar Satyabhāmā, uma de Suas rainhas, e ela foi plantada nas mansões de Dvārakā construídas para as rainhas. Os pés de lótus do Senhor são exatamente como as pārijātas, ou árvores-dos-desejos, e os devotos são como abelhas. Eles sempre se sentem atraídos pelos pés de lótus do Senhor.
Devanagari
यावत्ते मायया स्पृष्टा भ्रमाम इह कर्मभि: ।
तावद्भवत्प्रसङ्गानां सङ्ग: स्यान्नो भवे भवे ॥ ३३ ॥
तावद्भवत्प्रसङ्गानां सङ्ग: स्यान्नो भवे भवे ॥ ३३ ॥
Verse text
yāvat te māyayā spṛṣṭā
bhramāma iha karmabhiḥ
tāvad bhavat-prasaṅgānāṁ
saṅgaḥ syān no bhave bhave
bhramāma iha karmabhiḥ
tāvad bhavat-prasaṅgānāṁ
saṅgaḥ syān no bhave bhave
Synonyms
yāvat — enquanto; te — Vossa; māyayā — pela energia ilusória; spṛṣṭāḥ — contaminados; bhramāmaḥ — vagarmos; iha — neste mundo material; karmabhiḥ — pela reação de atividades fruitivas; tāvat — enquanto; bhavat-prasaṅgānām — de Vossos devotos amorosos; saṅgaḥ — companhia; syāt — que haja; naḥ — nossa; bhave bhave — em cada espécie de vida.
Translation
Querido Senhor, enquanto tivermos que permanecer dentro deste mundo material devido à nossa contaminação material e tivermos que vagar de uma espécie de corpo a outra e de um planeta a outro, oramos que nos deis a oportunidade de nos associarmos com aqueles que se dedicam a conversar sobre Vossos passatempos. Oramos por essa bênção vida após vida, em diferentes formas corpóreas e em diferentes planetas.
Purport
SIGNIFICADO—Esta é a melhor bênção que o devoto pode pedir ao Senhor Supremo. Śrī Caitanya Mahāprabhu também confirma isso: sthāne sthitāḥ śruti-gatāṁ tanu-vāṅ-manobhiḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.3) Podemos estar nesta ou naquela posição de acordo com nosso destino, mas, de qualquer modo, devemos continuar a ouvir acerca das atividades e passatempos do Senhor Supremo, independentemente das circunstâncias. O devoto puro não ora por liberação ou cessação do ciclo de nascimentos e mortes por não considerar isso importante. A coisa mais importante para o devoto é ter a oportunidade de ouvir acerca dos passatempos e glórias do Senhor. Os devotos que se ocuparem a serviço do Senhor neste mundo terão a mesma oportunidade também no mundo espiritual. Assim, para o devoto, tudo está no mundo espiritual, pois, enquanto ele puder ouvir acerca dos passatempos do Senhor, ou onde quer que ele puder cantar, o Senhor estará presente pessoalmente (yatra gāyanti mad-bhaktāḥ tatra tiṣṭhāmi nārada). Quando os devotos puros se reúnem para cantar, ouvir e falar sobre a Suprema Personalidade de Deus, o lugar onde eles se reúnem transforma-se em Vaikuṇṭha. Portanto, o devoto não tem necessidade de orar ao Senhor pedindo que o transfira ao mundo Vaikuṇṭha. O devoto puro pode criar Vaikuṇṭha ou Vṛndāvana em qualquer lugar pelo simples fato de cantar as glórias do Senhor sem cometer ofensas.
Os Pracetās oram por uma oportunidade de ouvir acerca das glórias do Senhor em toda forma de vida (bhave bhave). Uma entidade viva transmigra de um corpo a outro. O devoto não está particularmente preocupado em suspender esse processo. Caitanya Mahāprabhu ora, mama janmani janmanīśvare bhavatād bhaktir ahaitukī tvayi: “Meu querido Senhor, vida após vida, que Eu possa fixar-Me em Teu serviço devocional puro.” Por humildade, o devoto considera-se incapaz de ser transferido ao mundo espiritual. Ele sempre se julga contaminado pelos modos da natureza material. Tampouco há qualquer necessidade de um devoto pedir para ser liberto dos modos da natureza material. O serviço devocional, em si, está na posição transcendental; portanto, não há por que pedir essa vantagem em especial. Em conclusão, o devoto puro não se sente ansioso por suspender a repetição de nascimentos e mortes, senão que está sempre ansioso por associar-se com outros devotos que estejam ocupados em cantar e ouvir acerca das glórias do Senhor.
Devanagari
तुलयाम लवेनापि न स्वर्गं नापुनर्भवम् ।
भगवत्सङ्गिसङ्गस्य मर्त्यानां किमुताशिष: ॥ ३४ ॥
भगवत्सङ्गिसङ्गस्य मर्त्यानां किमुताशिष: ॥ ३४ ॥
Verse text
tulayāma lavenāpi
na svargaṁ nāpunar-bhavam
bhagavat-saṅgi-saṅgasya
martyānāṁ kim utāśiṣaḥ
na svargaṁ nāpunar-bhavam
bhagavat-saṅgi-saṅgasya
martyānāṁ kim utāśiṣaḥ
Synonyms
tulayāma — nós comparamos; lavena — com um segundo; api — mesmo; na — não; svargam — elevar-se aos planetas celestiais; na — não; apunaḥ-bhavam — fundir-se na refulgência Brahman; bhagavat — da Suprema Personalidade de Deus; saṅgi — com associados; saṅgasya — da associação; martyānām — de pessoas destinadas a morrer; kim uta — muito menos; āśiṣaḥ — bênçãos.
Translation
Não se pode comparar nem mesmo um segundo de associação com um devoto puro com a transferência a planetas celestiais ou com a imersão na refulgência Brahman em completa liberação. Para entidades vivas destinadas a abandonar o corpo e morrer, a associação com devotos puros é a bênção mais elevada.
Purport
SIGNIFICADO—O grande santo Prabodhānanda Sarasvatī, um devoto do Senhor Caitanya, afirma: kaivalyaṁ narakāyate tridaśa-pūr ākāśa-puṣpāyate. Para o devoto puro, kaivalya, fundir-se na existência do Brahman, a refulgência Brahman, não é melhor do que viver no inferno. Do mesmo modo, ele considera a promoção a planetas celestiais (tridaśa-pūr) apenas outra espécie de fantasmagoria. Em outras palavras, o devoto puro não dá muito valor ao destino dos karmīs (os planetas celestiais) ou ao destino dos jñānīs (fundir-se na refulgência Brahman). O devoto puro considera um segundo de associação com outro devoto puro como sendo superior a residir em planetas celestiais ou a imergir na refulgência Brahman. A bênção máxima para aqueles que vivem neste mundo material e estão sujeitos à repetição de nascimentos e mortes (transmigração) é a associação com devotos puros. Devemos procurar semelhantes devotos puros e permanecer com eles. Isso nos fará inteiramente felizes, ainda que vivamos no mundo material. Este movimento para a consciência de Kṛṣṇa foi inaugurado com esse propósito. Uma pessoa demasiadamente afetada pela matéria pode tirar proveito deste movimento e se associar intimamente com ele. Dessa maneira, os confusos e frustrados habitantes deste mundo material poderão encontrar a felicidade máxima na companhia dos devotos.
Devanagari
यत्रेड्यन्ते कथा मृष्टास्तृष्णाया: प्रशमो यत: ।
निर्वैरं यत्र भूतेषु नोद्वेगो यत्र कश्चन ॥ ३५ ॥
निर्वैरं यत्र भूतेषु नोद्वेगो यत्र कश्चन ॥ ३५ ॥
Verse text
yatreḍyante kathā mṛṣṭās
tṛṣṇāyāḥ praśamo yataḥ
nirvairaṁ yatra bhūteṣu
nodvego yatra kaścana
tṛṣṇāyāḥ praśamo yataḥ
nirvairaṁ yatra bhūteṣu
nodvego yatra kaścana
Synonyms
yatra — onde; īḍyante — são adoradas ou comentadas; kathāḥ — palavras; mṛṣṭāḥ — puras; tṛṣṇāyāḥ — de anseios materiais; praśamaḥ — satisfação; yataḥ — pela qual; nirvairam — ausência de inveja; yatra — onde; bhūteṣu — entre as entidades vivas; na — não; udvegaḥ — temor; yatra — onde; kaścana — qualquer.
Translation
Sempre que os tópicos puros do mundo transcendental são discutidos, os membros da audiência se esquecem de toda espécie de anseios materiais, ao menos durante esse tempo. Não apenas isso, mas eles não sentem mais inveja uns dos outros, nem sofrem de ansiedade ou temor.
Purport
SIGNIFICADO—Vaikuṇṭha significa “sem ansiedade”, e mundo material significa “um lugar cheio de ansiedades”. Como afirma Prahlāda Mahārāja, sadā samudvigna-dhiyām asad-grahāt: as entidades vivas que aceitaram este mundo material como sua residência estão sempre cheias de ansiedade. Um lugar torna-se imediatamente Vaikuṇṭha sempre que tópicos sagrados da Personalidade de Deus são comentados por devotos puros. Esse é o processo de śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ, cantar e ouvir sobre o Supremo Senhor Viṣṇu. Como o próprio Senhor Supremo confirma:
nāhaṁ tiṣṭhāmi vaikuṇṭhe
yogināṁ hṛdayeṣu vā
tatra tiṣṭhāmi nārada
yatra gāyanti mad-bhaktāḥ
yogināṁ hṛdayeṣu vā
tatra tiṣṭhāmi nārada
yatra gāyanti mad-bhaktāḥ
“Meu querido Nārada, na verdade, Eu não resido em Minha morada, Vaikuṇṭha, nem resido nos corações dos yogīs, senão que resido no lugar onde Meus devotos puros cantam Meu santo nome e conversam sobre Minha forma, passatempos e qualidades.” Devido à presença do Senhor sob a forma da vibração transcendental, a atmosfera de Vaikuṇṭha é evocada. Essa atmosfera é isenta de temor e ansiedade. Uma entidade viva não teme a outra. Ouvindo os santos nomes e as glórias do Senhor, executamos atividades piedosas: śṛṇvatāṁ sva-kathāḥ kṛṣṇaḥ puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.17) Assim, nossos anseios materiais cessam de imediato. Este movimento de saṅkīrtana, iniciado pela Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, destina-se a criar Vaikuṇṭha, o mundo transcendental isento de ansiedade, mesmo neste mundo material. O método é a propagação do processo de śravaṇaṁ kīrtanam no mundo inteiro. No mundo material, todos têm inveja de seus semelhantes. Essa inveja animalesca existirá na sociedade humana enquanto não houver realização de saṅkīrtana-yajña, o cantar dos santos nomes – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Os Pracetās, portanto, decidiram permanecer sempre na sociedade de devotos, considerando isso como a mais elevada bênção possível de se obter na vida humana.
Devanagari
यत्र नारायण: साक्षाद्भगवान्न्यासिनां गति: ।
संस्तूयते सत्कथासु मुक्तसङ्गै: पुन: पुन: ॥ ३६ ॥
संस्तूयते सत्कथासु मुक्तसङ्गै: पुन: पुन: ॥ ३६ ॥
Verse text
yatra nārāyaṇaḥ sākṣād
bhagavān nyāsināṁ gatiḥ
saṁstūyate sat-kathāsu
mukta-saṅgaiḥ punaḥ punaḥ
bhagavān nyāsināṁ gatiḥ
saṁstūyate sat-kathāsu
mukta-saṅgaiḥ punaḥ punaḥ
Synonyms
yatra — onde; nārāyaṇaḥ — Senhor Nārāyaṇa; sākṣāt — diretamente; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; nyāsinām — de pessoas na ordem de vida renunciada; gatiḥ — a meta última; saṁstūyate — é adorado; sat-kathāsu — proferindo a vibração transcendental; mukta-saṅgaiḥ — por aqueles que estão libertos da contaminação material; punaḥ punaḥ — repetidamente.
Translation
O Senhor Supremo, Nārāyaṇa, está presente entre devotos ocupados em ouvir e cantar o santo nome da Suprema Personalidade de Deus. O Senhor Nārāyaṇa é a meta última dos sannyāsīs, os membros da ordem de vida renunciada, e Nārāyaṇa é adorado através deste movimento de saṅkīrtana por aqueles que estão libertos da contaminação material. Na verdade, eles recitam o santo nome repetidamente.
Purport
SIGNIFICADO—Os sannyāsīs māyāvādīs não percebem a verdadeira presença de Nārāyaṇa. Isso porque eles falsamente afirmam serem o próprio Nārāyaṇa. De acordo com a etiqueta costumeira dos sannyāsīs māyāvādīs, eles chamam uns aos outros de Nārāyaṇa. Dizer que todos nós somos templos de Nārāyaṇa é correto, mas aceitar outro ser humano como Nārāyaṇa é uma grande ofensa. O conceito de daridra-nārāyaṇa (Nārāyaṇa pobre), uma tentativa de identificar os pobres com Nārāyaṇa, também é uma grande ofensa. Até mesmo identificar Nārāyaṇa com semideuses como o senhor Brahmā e o senhor Śiva é uma ofensa.
yas tu nārāyaṇaṁ devaṁ
brahma-rudrādi-daivataiḥ
samatvenaiva vīkṣeta
sa pāṣaṇḍī bhaved dhruvam
brahma-rudrādi-daivataiḥ
samatvenaiva vīkṣeta
sa pāṣaṇḍī bhaved dhruvam
“Aquele que considera o Senhor Nārāyaṇa em nível de igualdade com grandes semideuses, como o senhor Brahmā e o senhor Śiva, é imediatamente categorizado entre os descrentes.” Contudo, é verdade que, executando saṅkīrtana-yajña, podemos imediatamente satisfazer a Suprema Personalidade de Deus. Então, o próprio Nārāyaṇa desce e apresenta-Se de imediato. Nesta era de Kali, Nārāyaṇa apresenta-Se de imediato na forma do Senhor Caitanya. Com relação ao Senhor Caitanya, o Śrīmad-Bhāgavatam (11.5.32) afirma:
kṛṣṇa-varṇaṁ tviṣākṛṣṇaṁ
sāṅgopāṅgāstra-pārṣadam
yajñaiḥ saṅkīrtana-prāyair
yajanti hi sumedhasaḥ
sāṅgopāṅgāstra-pārṣadam
yajñaiḥ saṅkīrtana-prāyair
yajanti hi sumedhasaḥ
“Na era de Kali, as pessoas inteligentes executam o canto congregacional para adorar a encarnação de Deus que canta constantemente o nome de Kṛṣṇa. Apesar de Sua tez não ser negra, Ele é o próprio Kṛṣṇa. Ele vem acompanhado de Seus associados, servos, armas e companheiros íntimos.” Afinal, a vida humana destina-se a satisfazer Nārāyaṇa, o que pode ser feito facilmente realizando-se o saṅkīrtana-yajña. Sempre que executam o canto congregacional dos santos nomes do Senhor, Gaura Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus em Sua encarnação como Senhor Caitanya, aparece de imediato e é adorado através do saṅkīrtana-yajña.
Neste verso, afirma-se que Nārāyaṇa é nyāsināṁ gatiḥ, a meta última dos sannyāsīs. A meta de quem renunciou ao mundo material é alcançar Nārāyaṇa. Um sannyāsī vaiṣṇava, portanto, dedica sua vida a servir Nārāyaṇa; ele não afirma falsamente que ele mesmo é Nārāyaṇa. Em vez de tornar-se um nirvaira (não-invejoso de outras entidades vivas), quem tenta tornar-se Nārāyaṇa torna-se invejoso do Senhor Supremo. Portanto, a tentativa de se tornar Nārāyaṇa constitui a maior ofensa. Na verdade, cantando ou comentando as atividades transcendentais do Senhor, imediatamente nos livramos da inveja.Neste mundo material, todos têm inveja dos demais, mas quem vibra ou comenta o santo nome do Senhor se liberta da inveja e dos anseios materiais. Devido à nossa inveja da Suprema Personalidade de Deus, passamos a ter inveja de todas as demais entidades vivas. Quando deixarmos de ter inveja da Suprema Personalidade de Deus, haverá paz, unidade e fraternidade verdadeiras na sociedade humana. Sem Nārāyaṇa ou saṅkīrtana-yajña, não pode haver paz neste mundo material.
Devanagari
तेषां विचरतां पद्भ्यां तीर्थानां पावनेच्छया ।
भीतस्य किं न रोचेत तावकानां समागम: ॥ ३७ ॥
भीतस्य किं न रोचेत तावकानां समागम: ॥ ३७ ॥
Verse text
teṣāṁ vicaratāṁ padbhyāṁ
tīrthānāṁ pāvanecchayā
bhītasya kiṁ na roceta
tāvakānāṁ samāgamaḥ
tīrthānāṁ pāvanecchayā
bhītasya kiṁ na roceta
tāvakānāṁ samāgamaḥ
Synonyms
teṣām — deles; vicaratām — que viajam; padbhyām — com seus pés; tīrthānām — os lugares sagrados; pāvana-icchayā — com desejo de purificar; bhītasya — para o materialista que está sempre com medo; kim — por que; na — não; roceta — torna-se agradável; tāvakānām — de Vossos devotos; samāgamaḥ — encontro.
Translation
Querido Senhor, Vossos associados pessoais, os devotos, vagueiam pelo mundo inteiro para purificar inclusive os lugares sagrados de peregrinação. Essa atividade não será agradável àqueles que realmente temem a existência material?
Purport
SIGNIFICADO—Existem duas classes de devotos: a classe dos goṣṭhyānandīs e a classe dos bhajanānandīs. A palavra bhajanānandī refere-se ao devoto que não se locomove, mas permanece em um só lugar. Esse devoto está sempre ocupado em serviço devocional ao Senhor. Ele canta o mahā-mantra como ensinam muitos ācāryas e, às vezes, sai de modo a pregar. O goṣṭhyānandī é aquele que deseja aumentar o número de devotos em todo o mundo. Ele viaja pelo mundo inteiro simplesmente para purificar o mundo e as pessoas que o habitam. Caitanya Mahāprabhu aconselhou:
pṛthivīte āche yata nagarādi grāma
sarvatra pracāra haibe mora nāma
sarvatra pracāra haibe mora nāma
O Senhor Caitanya Mahāprabhu queria que Seus seguidores viajassem por todo o mundo para pregar em todas as cidades e vilas. No Caitanya-sampradāya, aqueles que seguem estritamente os princípios do Senhor Caitanya devem viajar pelo mundo todo a fim de pregar a mensagem do Senhor Caitanya, o que é o mesmo que pregar as palavras de Kṛṣṇa, a Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam. Quanto mais os devotos pregarem os princípios de kṛṣṇa-kathā, mais as pessoas no mundo inteiro se beneficiarão.
Devotos como o grande sábio Nārada, que viajam por toda parte para pregar, chamam-se goṣṭhyānandīs. Nārada Muni está sempre perambulando pelo universo simplesmente para criar diferentes classes de devotos. Nārada transformou inclusive um caçador em devoto. Ele também transformou Dhruva Mahārāja e Prahlāda em devotos. Na verdade, todos os devotos estão endividados com o grande sábio Nārada, pois ele viaja tanto pelo céu quanto pelo inferno. O devoto do Senhor não tem medo nem mesmo do inferno. Ele viaja pregando as glórias do Senhor por toda parte – mesmo no inferno – porque não há distinção entre céu e inferno para o devoto.
nārāyaṇa-parāḥ sarve
na kutaścana bibhyati
svargāpavarga-narakeṣv
api tulyārtha-darśinaḥ
na kutaścana bibhyati
svargāpavarga-narakeṣv
api tulyārtha-darśinaḥ
“O devoto puro de Nārāyaṇa nunca teme ir a parte alguma. Para ele, céu e inferno são a mesma coisa.” (Śrīmad-Bhāgavatam 6.17.28) Semelhantes devotos, vagando pelo mundo inteiro, liberam aqueles que realmente temem a existência material. Algumas pessoas já estão desgostosas com a existência material, estando confusas e frustradas com o gozo material, e outras, que são inteligentes, estão interessadas em entender o Senhor Supremo. Ambas podem tirar proveito do devoto puro que viaja pelo mundo todo.
Quando um devoto puro vai a um lugar de peregrinação, ele deseja purificar aquele lugar sagrado de peregrinação. Muitos homens pecaminosos banham-se nas águas sagradas dos lugares de peregrinação. Eles se banham nas águas do Ganges e do Yamunā em lugares tais como Prayāga, Vṛndāvana e Mathurā. Dessa maneira, os homens pecaminosos purificam-se, mas suas ações e reações pecaminosas permanecem nos lugares sagrados de peregrinação. Ao ir tomar seu banho nesses lugares de peregrinação, o devoto neutraliza as reações pecaminosas deixadas pelos homens pecaminosos. Tīrthī-kurvanti tīrthāni svāntaḥ-sthena gadā-bhṛtā (Śrīmad-Bhāgavatam 1.13.10): como o devoto sempre carrega a Suprema Personalidade de Deus dentro de seu coração, onde quer que ele vá se torna um lugar de peregrinação, um lugar santo, propício para se compreender a Suprema Personalidade de Deus. Portanto, é dever de todos associarem-se com um devoto puro e, assim, conseguir libertar-se da contaminação material. Todos devem tirar proveito dos devotos peregrinos, cujo único interesse é libertar as almas condicionadas das garras de māyā.
Devanagari
वयं तु साक्षाद्भगवन् भवस्य
प्रियस्य सख्यु: क्षणसङ्गमेन ।
सुदुश्चिकित्स्यस्य भवस्य मृत्यो-
र्भिषक्तमं त्वाद्य गतिं गता: स्म ॥ ३८ ॥
प्रियस्य सख्यु: क्षणसङ्गमेन ।
सुदुश्चिकित्स्यस्य भवस्य मृत्यो-
र्भिषक्तमं त्वाद्य गतिं गता: स्म ॥ ३८ ॥
Verse text
vayaṁ tu sākṣād bhagavan bhavasya
priyasya sakhyuḥ kṣaṇa-saṅgamena
suduścikitsyasya bhavasya mṛtyor
bhiṣaktamaṁ tvādya gatiṁ gatāḥ sma
priyasya sakhyuḥ kṣaṇa-saṅgamena
suduścikitsyasya bhavasya mṛtyor
bhiṣaktamaṁ tvādya gatiṁ gatāḥ sma
Synonyms
vayam — nós; tu — então; sākṣāt — diretamente; bhagavan — ó Senhor; bhavasya — do senhor Śiva; priyasya — muito querido; sakhyuḥ — Vosso amigo; kṣaṇa — por um momento; saṅgamena — pela associação; suduścikitsyasya — muito difícil de curar; bhavasya — da existência material; mṛtyoḥ — da morte; bhiṣak-tamam — o médico mais hábil; tvā — Vós; adya — hoje; gatim — destino; gatāḥ — alcançamos; sma — com certeza.
Translation
Querido Senhor, em virtude de um momento de associação com o senhor Śiva, que Vos é muito querido e que é Vosso amigo muito íntimo, tivemos a fortuna de Vos alcançar. Vós sois o médico mais hábil, capaz de tratar da doença incurável da existência material. Por nossa grande fortuna, somos capazes de nos refugiar a Vossos pés de lótus.
Purport
SIGNIFICADO—Declarou-se que hariṁ vinā na mṛtiṁ taranti. Sem refugiar-se aos pés de lótus da Personalidade de Deus, ninguém pode libertar-se das garras de māyā, da repetição de nascimento, velhice, doença e morte. Os Pracetās obtiveram o abrigo da Suprema Personalidade de Deus pela graça do senhor Śiva. O senhor Śiva é o devoto supremo do Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus. Vaiṣṇavānāṁ yathā śambhuḥ: o vaiṣṇava mais elevado é o senhor Śiva, e aqueles que realmente são devotos do senhor Śiva seguem o conselho do senhor Śiva e refugiam-se aos pés de lótus do Senhor Viṣṇu. Os ditos devotos do senhor Śiva, pseudodevotos cujo único interesse é a prosperidade material, de certo modo são enganados pelo senhor Śiva. Na verdade, ele não os engana, porque o senhor Śiva não tem interesse em enganar ninguém, mas, como os pretensos devotos do senhor Śiva querem ser enganados, o senhor Śiva, que fica satisfeito facilmente, outorga-lhes toda espécie de bênçãos materiais. Tais bênçãos podem, ironicamente, resultar na destruição dos pretensos devotos. Por exemplo, Rāvaṇa recebeu toda bênção material do senhor Śiva, mas o resultado foi que ele, por fim, foi destruído juntamente com sua família, reino e tudo mais, porque abusou da bênção do senhor Śiva. Devido a seu poder material, ele se tornou tão orgulhoso e arrogante que ousou raptar a esposa do Senhor Rāmacandra. Dessa maneira, ele se arruinou. Não é difícil obter bênçãos materiais do senhor Śiva, mas, na verdade, isso não é uma bênção. Os Pracetās foram abençoados pelo senhor Śiva, e, como resultado disso, obtiveram o abrigo dos pés de lótus do Senhor Viṣṇu. Essa é a verdadeira bênção. As gopīs também adoraram o senhor Śiva em Vṛndāvana, e o senhor Śiva ainda se encontra ali como Gopīśvara. As gopīs, contudo, pediram ao senhor Śiva que as abençoasse dando-lhes o Senhor Kṛṣṇa como esposo. Não há mal em adorar os semideuses, contanto que o objetivo da adoração seja voltar ao lar, voltar ao Supremo. De um modo geral, as pessoas recorrem aos semideuses em busca de benefícios materiais, como se indica na Bhagavad-gītā (7.20):
kāmais tais tair hṛta-jñānāḥ
prapadyante ’nya-devatāḥ
taṁ taṁ niyamam āsthāya
prakṛtyā niyatāḥ svayā
prapadyante ’nya-devatāḥ
taṁ taṁ niyamam āsthāya
prakṛtyā niyatāḥ svayā
“Aqueles cuja inteligência foi roubada pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses e prestam adoração através de determinadas regras e regulações que se coadunam com suas próprias naturezas.” Aquele que fica enamorado de benefícios materiais chama-se hṛta-jñāna, “aquele que perdeu sua inteligência”. A esse respeito, observe-se que as escrituras reveladas às vezes descrevem o senhor Śiva como não-diferente da Suprema Personalidade de Deus. A ideia é que o senhor Śiva e o Senhor Viṣṇu têm uma conexão tão íntima que não têm diferença de opinião. O fato verdadeiro é que ekale īśvara kṛṣṇa, āra saba bhṛtya: “O único amo supremo é Kṛṣṇa, e todos os demais são Seus devotos ou servos.” (Cc. Ādi 5.142) Esse é o fato verdadeiro, não havendo diferença de opinião entre o senhor Śiva e o Senhor Viṣṇu a esse respeito. Em nenhuma parte nas escrituras reveladas, o senhor Śiva afirma ser igual ao Senhor Viṣṇu. Isso é mera invenção de assim chamados devotos do senhor Śiva, os quais afirmam que o senhor Śiva e o Senhor Viṣṇu são iguais. Proíbe-se isso estritamente no vaiṣṇava-tantra: yas tu nārāyaṇaṁ devam. O Senhor Viṣṇu, o senhor Śiva e o senhor Brahmā estão intimamente unidos como amo e servos. Śiva-viriñci-nutam. Viṣṇu é honrado e reverenciado pelo senhor Śiva e pelo senhor Brahmā. Considerá-los iguais é uma grande ofensa. Eles são iguais no sentido de que o Senhor Viṣṇu é a Suprema Personalidade de Deus e todos os demais são Seus servos eternos.
Devanagari
यन्न: स्वधीतं गुरव: प्रसादिता
विप्राश्च वृद्धाश्च सदानुवृत्त्या ।
आर्या नता: सुहृदो भ्रातरश्च
सर्वाणि भूतान्यनसूययैव ॥ ३९ ॥
यन्न: सुतप्तं तप एतदीश
निरन्धसां कालमदभ्रमप्सु ।
सर्वं तदेतत्पुरुषस्य भूम्नो
वृणीमहे ते परितोषणाय ॥ ४० ॥
विप्राश्च वृद्धाश्च सदानुवृत्त्या ।
आर्या नता: सुहृदो भ्रातरश्च
सर्वाणि भूतान्यनसूययैव ॥ ३९ ॥
यन्न: सुतप्तं तप एतदीश
निरन्धसां कालमदभ्रमप्सु ।
सर्वं तदेतत्पुरुषस्य भूम्नो
वृणीमहे ते परितोषणाय ॥ ४० ॥
Verse text
yan naḥ svadhītaṁ guravaḥ prasāditā
viprāś ca vṛddhāś ca sad-ānuvṛttyā
āryā natāḥ suhṛdo bhrātaraś ca
sarvāṇi bhūtāny anasūyayaiva
viprāś ca vṛddhāś ca sad-ānuvṛttyā
āryā natāḥ suhṛdo bhrātaraś ca
sarvāṇi bhūtāny anasūyayaiva
yan naḥ sutaptaṁ tapa etad īśa
nirandhasāṁ kālam adabhram apsu
sarvaṁ tad etat puruṣasya bhūmno
vṛṇīmahe te paritoṣaṇāya
nirandhasāṁ kālam adabhram apsu
sarvaṁ tad etat puruṣasya bhūmno
vṛṇīmahe te paritoṣaṇāya
Synonyms
yat — que; naḥ — por nós; svadhītam — estudados; guravaḥ — pessoas superiores, mestres espirituais; prasāditāḥ — satisfeitos; viprāḥ — os brāhmaṇas; ca — e; vṛddhāḥ — aqueles que são idosos; ca — e; sat-ānuvṛttyā — com nosso comportamento gentil; āryāḥ — aqueles que são avançados em conhecimento espiritual; natāḥ — lhes reverenciamos; su-hṛdaḥ — amigos; bhrātaraḥ — irmãos; ca — e; sarvāṇi — todas; bhūtāni — entidades vivas; anasūyayā — sem inveja; eva — decerto; yat — que; naḥ — nossa; su-taptam — rigorosa; tapaḥ — penitência; etat — esta; īśa — ó Senhor; nirandhasām — sem comer nada; kālam — tempo; adabhram — por uma longa duração; apsu — dentro da água; sarvam — tudo; tat — isso; etat — isto; puruṣasya — da Suprema Personalidade de Deus; bhūmnaḥ — o mais elevado; vṛṇīmahe — queremos esta bênção; te — de Vós; paritoṣaṇāya — para a satisfação.
Translation
Querido Senhor, temos estudado os Vedas, aceitado um mestre espiritual e prestado respeitos a brāhmaṇas, devotos avançados e pessoas idosas que são espiritualmente muito avançadas. Temos prestado nossos respeitos a todos eles, sem invejar nenhum irmão, amigo ou qualquer outra pessoa. Além disso, temos praticado rigorosas austeridades dentro da água e há muito tempo não nos alimentamos. Oferecemos todos esses nossos bens espirituais para a Vossa satisfação. Oramos unicamente por essa bênção e nada mais.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam, saṁsiddhir hari-toṣaṇam: a verdadeira perfeição da vida é satisfazer a Suprema Personalidade de Deus. Vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ: para compreender os Vedas, é preciso compreender a Suprema Personalidade de Deus. Alguém que realmente O tenha compreendido rende-se a Ele após muitos e muitos nascimentos. Encontramos todas essas qualificações nos Pracetās. Eles praticaram rigorosas austeridades e penitências dentro da água, sem comer nada por um longo tempo. Eles praticaram essas austeridades não em busca de bênçãos materiais, mas para satisfazer o Senhor Supremo. Podemos ocupar-nos em qualquer atividade – material ou espiritual –, mas nosso propósito deve ser a satisfação da Suprema Personalidade de Deus. Este verso apresenta um retrato perfeito da civilização védica. Aqueles que estão se treinando para se tornarem devotos devem ser respeitosos, não só com a Suprema Personalidade de Deus, mas também com todos aqueles que são adiantados em conhecimento, que são arianos e verdadeiros devotos do Senhor. Ariano é aquele que não se vangloria de si mesmo, senão que é um verdadeiro devoto do Senhor. Ariano significa “avançado”. Antigamente, quem afirmava ser ariano era necessariamente devoto do Senhor. Por exemplo, na Bhagavad-gītā (2.2), Kṛṣṇa repreendeu Arjuna, dizendo que ele falava como um não-ariano.
śrī-bhagavān uvāca
kutas tvā kaśmalam idaṁ
viṣame samupasthitam
anārya-juṣṭam asvargyam
akīrti-karam arjuna
kutas tvā kaśmalam idaṁ
viṣame samupasthitam
anārya-juṣṭam asvargyam
akīrti-karam arjuna
“A Pessoa Suprema [Bhagavān] disse: Meu querido Arjuna, como foi que tais impurezas desenvolveram-se em ti? Elas não condizem com um homem que conhece o valor progressivo da vida. Elas não conduzem aos planetas superiores, mas à infâmia.” Arjuna, o kṣatriya, recusava-se a lutar apesar de receber ordem diretamente do Senhor Supremo. Assim, o Senhor repreendeu-o, dizendo que ele pertencia a uma família não-ariana. Qualquer pessoa avançada em serviço devocional ao Senhor com certeza conhece seu dever. Não importa se o seu dever é violento ou não-violento. Se é um dever aprovado e prescrito pelo Senhor Supremo, precisa ser cumprido. Um ariano cumpre o seu dever, mas nem por isso os arianos são desnecessariamente hostis contra as entidades vivas. Os arianos nunca mantêm matadouros, jamais sendo inimigos dos pobres animais. Os Pracetās praticaram rigorosas austeridades por muitos e muitos anos, mesmo dentro d’água. Aceitar austeridades e penitências é a função reconhecida daqueles interessados em civilização avançada.
A palavra nirandhasām significa “sem alimentos”. Comer voraz e desnecessariamente não é a conduta de um ariano. Ao contrário, deve-se restringir o processo de comer na medida do possível. Ao comerem, os arianos comem apenas alimentos prescritos. A esse respeito, o Senhor diz na Bhagavad-gītā (9.26):
patraṁ puṣpaṁ phalaṁ toyaṁ
yo me bhaktyā prayacchati
tad ahaṁ bhakty-upahṛtam
aśnāmi prayatātmanaḥ
yo me bhaktyā prayacchati
tad ahaṁ bhakty-upahṛtam
aśnāmi prayatātmanaḥ
“Se alguém Me oferecer, com amor e devoção, uma folha, uma flor, frutas ou água, Eu os aceitarei.” Portanto, os arianos avançados observam restrições. Embora o Senhor pessoalmente possa comer qualquer coisa, Ele Se limita a comer legumes, frutas, leite e assim por diante. Este verso descreve assim as atividades daqueles que afirmam ser arianos.
Devanagari
मनु: स्वयम्भूर्भगवान् भवश्च
येऽन्ये तपोज्ञानविशुद्धसत्त्वा: ।
अदृष्टपारा अपि यन्महिम्न:
स्तुवन्त्यथो त्वात्मसमं गृणीम: ॥ ४१ ॥
येऽन्ये तपोज्ञानविशुद्धसत्त्वा: ।
अदृष्टपारा अपि यन्महिम्न:
स्तुवन्त्यथो त्वात्मसमं गृणीम: ॥ ४१ ॥
Verse text
manuḥ svayambhūr bhagavān bhavaś ca
ye ’nye tapo-jñāna-viśuddha-sattvāḥ
adṛṣṭa-pārā api yan-mahimnaḥ
stuvanty atho tvātma-samaṁ gṛṇīmaḥ
ye ’nye tapo-jñāna-viśuddha-sattvāḥ
adṛṣṭa-pārā api yan-mahimnaḥ
stuvanty atho tvātma-samaṁ gṛṇīmaḥ
Synonyms
manuḥ — Svāyambhuva Manu; svayambhūḥ — senhor Brahmā; bhagavān — o poderosíssimo; bhavaḥ — senhor Śiva; ca — também; ye — que; anye — outros; tapaḥ — mediante austeridades; jñāna — mediante conhecimento; viśuddha — pura; sattvāḥ — cuja existência; adṛṣṭa pārāḥ — que não podem ver o fim; api — embora; yat — Vossas; mahimnaḥ — das glórias; stuvanti — eles oferecem orações; atho — portanto; tvā — a Vós; ātma-samam — de acordo com a capacidade; gṛṇīmaḥ — oferecemos orações.
Translation
Querido Senhor, mesmo grandes yogīs e místicos que são muito avançados, em virtude de austeridades e de conhecimento, e que se situaram plenamente em existência pura, bem como personalidades notáveis como Manu, o senhor Brahmā e o senhor Śiva, não podem alcançar o limite de Vossas glórias e potências. Todavia, eles oferecem suas orações de acordo com suas próprias capacidades. Da mesma maneira, nós, embora muito inferiores a essas personalidades, também oferecemos nossas orações de acordo com nossa própria capacidade.
Purport
SIGNIFICADO—O senhor Brahmā, o senhor Śiva, Manu (o pai da humanidade), grandes pessoas santas e também grandes sábios que se elevaram à plataforma transcendental através de austeridades e penitências, bem como através do serviço devocional, são imperfeitos em conhecimento quando comparados à Suprema Personalidade de Deus. Isso se aplica a qualquer pessoa neste mundo material. Ninguém pode ser igual ao Senhor Supremo em nada, muito menos em conhecimento. Em consequência disso, qualquer adoração oferecida à Suprema Personalidade de Deus jamais será completa. Não é possível alcançar os limites de todas as glórias do Senhor Supremo, que é ilimitado. Mesmo o próprio Senhor, sob Sua encarnação como Ananta, ou Śeṣa, não consegue descrever Suas próprias glórias. Embora Ananta tenha muitos milhares de rostos e esteja glorificando o Senhor há muitos e muitos anos, Ele não consegue alcançar os limites das glórias do Senhor. Assim, não é possível avaliar as glórias e potências do Senhor Supremo em sua plenitude.
Todavia, todos os que se ocupam em serviço devocional podem oferecer orações significativas ao Senhor. Todos estão situados em posições relativas, e ninguém é perfeito na glorificação ao Senhor. Começando com o senhor Brahmā e o senhor Śiva e descendo até nós, todos somos servos do Senhor Supremo. Estamos todos situados em posições relativas de acordo com o nosso próprio karma. Todavia, cada um de nós pode oferecer orações de coração e alma na medida em que pudermos apreciar as glórias do Senhor. Esta é a nossa perfeição. Mesmo quando alguém está na mais escura região da existência, ele pode oferecer orações ao Senhor de acordo com sua própria capacidade. O Senhor, portanto, diz na Bhagavad-gītā (9.32):
māṁ hi pārtha vyapāśritya
ye ’pi syuḥ pāpa-yonayaḥ
striyo vaiśyās tathā śūdrās
te ’pi yānti parāṁ gatim
ye ’pi syuḥ pāpa-yonayaḥ
striyo vaiśyās tathā śūdrās
te ’pi yānti parāṁ gatim
“Ó filho de Pṛthā, todos os que se refugiam em Mim, mesmo que sejam de nascimento inferior – mulheres, vaiśyas [comerciantes], bem como śūdras [operários] – podem aproximar-se do destino supremo.”
Quem aceita seriamente os pés de lótus do Senhor purifica-se pela graça do Senhor e pela graça do servo do Senhor. Śukadeva Gosvāmī confirma esse fato: ye ’nye ca pāpā yad-apāśrayāśrayāḥ śudhyanti tasmai prabhaviṣṇave namaḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 2.4.18) Quem é levado até os pés de lótus do Senhor pelo esforço do servo do Senhor, o mestre espiritual, com certeza se purifica de imediato, por mais baixo que seja seu nascimento. Ele se qualifica a voltar ao lar, a voltar ao Supremo.
Devanagari
नम: समाय शुद्धाय पुरुषाय पराय च ।
वासुदेवाय सत्त्वाय तुभ्यं भगवते नम: ॥ ४२ ॥
वासुदेवाय सत्त्वाय तुभ्यं भगवते नम: ॥ ४२ ॥
Verse text
namaḥ samāya śuddhāya
puruṣāya parāya ca
vāsudevāya sattvāya
tubhyaṁ bhagavate namaḥ
puruṣāya parāya ca
vāsudevāya sattvāya
tubhyaṁ bhagavate namaḥ
Synonyms
namaḥ — oferecemos nossas respeitosas reverências; samāya — que é igual para com todos; śuddhāya — que nunca Se deixa contaminar por atividades pecaminosas; puruṣāya — à Pessoa Suprema; parāya — transcendental; ca — também; vāsudevāya — vivendo em toda parte; sattvāya — que Se encontra em posição transcendental; tubhyam — a Vós; bhagavate — a Suprema Personalidade de Deus; namaḥ — reverências.
Translation
Querido Senhor, Vós não tendes inimigos nem amigos. Portanto, sois igual para com todos. Não podeis ser contaminado por atividades pecaminosas, e Vossa forma transcendental está sempre além da criação material. Sois a Suprema Personalidade de Deus porque permaneceis em toda parte dentro de toda a existência. Logo, sois conhecido como Vāsudeva. Nós Vos oferecemos nossas respeitosas reverências.
Purport
SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus é conhecida como Vāsudeva porque vive em toda parte. A palavra vas significa “viver”. Como se afirma na Brahma-saṁhitā, eko ’py asau racayituṁ jagad-aṇḍa-koṭim: o Senhor, através de Sua porção plenária, entra em cada um dos universos para criar a manifestação material. Ele também entra no coração de cada entidade viva e também em cada átomo (paramāṇu-cayāntara-stham). Como o Senhor Supremo vive em toda parte, Ele é conhecido como Vāsudeva. Apesar de viver em toda parte dentro do mundo material, Ele não é contaminado pelos modos da natureza. Portanto, a Īśopaniṣad descreve o Senhor como apāpa-viddham: Ele jamais é contaminado pelos modos da natureza material. Ao descer a este planeta, o Senhor age de várias maneiras. Ele mata demônios e executa atos não sancionados pelos princípios védicos, isto é, atos considerados pecaminosos. Muito embora aja dessa maneira, Suas ações jamais O contaminam. Portanto, Ele é descrito nesta passagem como śuddha, significando “sempre livre de contaminação”. O Senhor também é sama, igual para com todos. A esse respeito, Ele afirma na Bhagavad-gītā (9.29) que samo ’haṁ sarva-bhūteṣu na me dveṣyo ’sti na priyaḥ: o Senhor não considera ninguém Seu amigo ou inimigo, sendo igual para com todos.
A palavra sattvāya indica que a forma do Senhor não é material. Ela é sac-cid-ānanda-vigrahaḥ. Īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ. Seu corpo é diferente de nossos corpos materiais. Não devemos pensar que a Suprema Personalidade de Deus tem um corpo material, como o nosso.
Devanagari
मैत्रेय उवाच
इति प्रचेतोभिरभिष्टुतो हरि:
प्रीतस्तथेत्याह शरण्यवत्सल: ।
अनिच्छतां यानमतृप्तचक्षुषां
ययौ स्वधामानपवर्गवीर्य: ॥ ४३ ॥
इति प्रचेतोभिरभिष्टुतो हरि:
प्रीतस्तथेत्याह शरण्यवत्सल: ।
अनिच्छतां यानमतृप्तचक्षुषां
ययौ स्वधामानपवर्गवीर्य: ॥ ४३ ॥
Verse text
maitreya uvāca
iti pracetobhir abhiṣṭuto hariḥ
prītas tathety āha śaraṇya-vatsalaḥ
anicchatāṁ yānam atṛpta-cakṣuṣāṁ
yayau sva-dhāmānapavarga-vīryaḥ
iti pracetobhir abhiṣṭuto hariḥ
prītas tathety āha śaraṇya-vatsalaḥ
anicchatāṁ yānam atṛpta-cakṣuṣāṁ
yayau sva-dhāmānapavarga-vīryaḥ
Synonyms
maitreyaḥ uvāca — Maitreya disse; iti — assim; pracetobhiḥ — pelos Pracetās; abhiṣṭutaḥ — sendo louvado; hariḥ — a Suprema Personalidade de Deus; prītaḥ — estando satisfeito; tathā — então; iti — assim; āha — disse; śaraṇya — com as almas rendidas; vatsalaḥ — afetuoso; anicchatām — não desejando; yānam — Sua partida; atṛpta — insatisfeitos; cakṣuṣām — seus olhos; yayau — Ele partiu; sva-dhāma — para Sua própria morada; anapavarga-vīryaḥ — cujo poder é invencível.
Translation
O grande sábio Maitreya prosseguiu: Meu querido Vidura, a Suprema Personalidade de Deus, que protege as almas rendidas, tendo assim ouvido os Pracetās e tendo sido adorado por eles, respondeu: “Que se cumpra tudo segundo vós orastes.” Após dizer isso, a Suprema Personalidade de Deus, cujo poder é invencível, partiu. Os Pracetās não desejavam separar-se dEle porque não O haviam visto para sua completa satisfação.
Purport
SIGNIFICADO—A expressão anapavarga-vīrya é significativa neste verso. A palavra ana significa “sem”, pavarga significa “o modo de vida materialista”, e vīrya significa “poder”. O poder da Suprema Personalidade de Deus sempre contém seis opulências básicas, uma das quais é a renúncia. Embora os Pracetās desejassem ver o Senhor para sua completa satisfação, o Senhor partiu. Segundo Śrīla Jīva Gosvāmī, essa é uma demonstração de Sua bondade para com inúmeros outros devotos. Muito embora Se sentisse atraído pelos Pracetās, Ele partiu. Esse é um exemplo de Sua renúncia. O Senhor Caitanya Mahāprabhu também demonstrou essa renúncia ao hospedar-Se com Advaita Prabhu após aceitar sannyāsa. Todos os devotos ali queriam que Ele permanecesse mais alguns dias, mas o Senhor Caitanya partiu sem hesitação. Em conclusão, embora o Senhor Supremo tenha bondade ilimitada para com Seus devotos, Ele não está apegado a ninguém. Ele é igualmente bondoso com Seus inúmeros devotos em toda a criação.
Devanagari
अथ निर्याय सलिलात्प्रचेतस उदन्वत: ।
वीक्ष्याकुप्यन्द्रुमैश्छन्नां गां गां रोद्धुमिवोच्छ्रितै: ॥ ४४ ॥
वीक्ष्याकुप्यन्द्रुमैश्छन्नां गां गां रोद्धुमिवोच्छ्रितै: ॥ ४४ ॥
Verse text
atha niryāya salilāt
pracetasa udanvataḥ
vīkṣyākupyan drumaiś channāṁ
gāṁ gāṁ roddhum ivocchritaiḥ
pracetasa udanvataḥ
vīkṣyākupyan drumaiś channāṁ
gāṁ gāṁ roddhum ivocchritaiḥ
Synonyms
atha — depois disso, niryāya — após emergirem; salilāt — da água; pracetasaḥ — todos os Pracetās; udanvataḥ — do mar; vīkṣya — tendo observado; akupyan — ficaram muito irados; drumaiḥ — por árvores; channām — coberto; gām — o mundo; gām — os planetas celestiais; roddhum — para obstruir; iva — como se; ucchritaiḥ — muito altas.
Translation
Depois disso, todos os Pracetās emergiram das águas do mar. Então, eles viram que todas as árvores em terra firme haviam crescido muito, como se quisessem obstruir o caminho para os planetas celestiais. Essas árvores haviam coberto toda a superfície do mundo. Nesse momento, os Pracetās ficaram muito irados.
Purport
SIGNIFICADO—O rei Prācīnabarhiṣat deixou seu reino antes que seus filhos chegassem de sua prática de penitências e austeridades. Os filhos, os Pracetās, receberam ordem da Suprema Personalidade de Deus de emergirem da água e dirigirem-se ao reino de seu pai a fim de cuidar daquele reino. Contudo, ao saírem, eles viram que tudo tinha sido negligenciado devido à ausência do rei. Primeiramente, observaram que não estavam produzindo grãos alimentícios e que não havia atividades agrícolas. Na verdade, a superfície do mundo estava praticamente coberta por árvores altíssimas. Parecia que as árvores estavam determinadas a impedir as pessoas de ir ao espaço exterior para alcançar os reinos celestiais. Os Pracetās ficaram muito irados ao verem a superfície do globo coberta daquela maneira. Eles desejaram que a terra fosse limpa e plantada.
Não é verdade que selvas e árvores atraem nuvens e chuvas, porque observamos chuva mesmo sobre o mar. Os seres humanos podem habitar qualquer lugar na superfície da Terra, fazendo clareiras nas selvas e preparando a terra para fins agrícolas. Todos podem cuidar de vacas e, assim, todos os problemas econômicos podem ser resolvidos. Basta trabalhar para produzir grãos e cuidar das vacas. A madeira encontrada nas selvas pode ser usada para construir casas. Dessa maneira, pode-se resolver o problema econômico da humanidade. No momento atual, há muita terra sem cultivar no mundo inteiro, e, se utilizarem essa terra devidamente, não haverá escassez de alimentos. Quanto à chuva, é executando yajña que se atrai a chuva. Como se afirma na Bhagavad-gītā (3.14):
annād bhavanti bhūtāni
parjanyād anna-sambhavaḥ
yajñād bhavati parjanyo
yajñaḥ karma-samudbhavaḥ
parjanyād anna-sambhavaḥ
yajñād bhavati parjanyo
yajñaḥ karma-samudbhavaḥ
“Todos os corpos vivos subsistem de grãos alimentícios, que são produzidos através das chuvas. As chuvas são produzidas pela execução de yajña [sacrifício], e yajña nasce dos deveres prescritos.” Realizando sacrifícios, o homem terá chuva e colheitas suficientes.
Devanagari
ततोऽग्निमारुतौ राजन्नमुञ्चन्मुखतो रुषा ।
महीं निर्वीरुधं कर्तुं संवर्तक इवात्यये ॥ ४५ ॥
महीं निर्वीरुधं कर्तुं संवर्तक इवात्यये ॥ ४५ ॥
Verse text
tato ’gni-mārutau rājann
amuñcan mukhato ruṣā
mahīṁ nirvīrudhaṁ kartuṁ
saṁvartaka ivātyaye
amuñcan mukhato ruṣā
mahīṁ nirvīrudhaṁ kartuṁ
saṁvartaka ivātyaye
Synonyms
Translation
Meu querido rei, no momento da devastação, o senhor Śiva emite fogo e ar de sua boca, devido à ira. Para deixar a superfície da Terra completamente sem árvores, os Pracetās também emitiram fogo e ar de suas bocas.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, Vidura é chamado de rājan, que significa “ó rei”. A esse respeito, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta que o dhīra nunca fica irado por estar sempre situado em serviço devocional. Os devotos avançados podem controlar seus sentidos; portanto, um devoto pode ser chamado de rājan. O rei controla e governa de diferentes maneiras os cidadãos; de modo semelhante, quem pode controlar os sentidos é o rei de seus sentidos. Ele é svāmī ou gosvāmī. Logo, os svāmīs e gosvāmīs às vezes são chamados de mahārāja, ou rei.
Devanagari
भस्मसात्क्रियमाणांस्तान् द्रुमान्वीक्ष्य पितामह: ।
आगत: शमयामास पुत्रान् बर्हिष्मतो नयै: ॥ ४६ ॥
आगत: शमयामास पुत्रान् बर्हिष्मतो नयै: ॥ ४६ ॥
Verse text
bhasmasāt kriyamāṇāṁs tān
drumān vīkṣya pitāmahaḥ
āgataḥ śamayām āsa
putrān barhiṣmato nayaiḥ
drumān vīkṣya pitāmahaḥ
āgataḥ śamayām āsa
putrān barhiṣmato nayaiḥ
Synonyms
Translation
Após ver todas as árvores na superfície da Terra sendo reduzidas a cinzas, o senhor Brahmā imediatamente foi ter com os filhos do rei Barhiṣmān e os apaziguou com palavras cheias de lógica.
Purport
SIGNIFICADO—Sempre que há alguma ocorrência incomum em qualquer planeta, o senhor Brahmā, sendo encarregado de todo o universo, aparece imediatamente para controlar a situação. O senhor Brahmā também apareceu quando Hiraṇyakaśipu, através de sua rigorosa prática de penitências e austeridades, fez todo o universo tremer. O responsável por qualquer estabelecimento está sempre alerta para manter a paz e a harmonia dentro de tal estabelecimento. Analogamente, o senhor Brahmā também tem autorização de manter a paz e a harmonia dentro deste universo. Logo, ele apaziguou os filhos do rei Barhiṣmān com bons argumentos.
Devanagari
तत्रावशिष्टा ये वृक्षा भीता दुहितरं तदा ।
उज्जह्रुस्ते प्रचेतोभ्य उपदिष्टा: स्वयम्भुवा ॥ ४७ ॥
उज्जह्रुस्ते प्रचेतोभ्य उपदिष्टा: स्वयम्भुवा ॥ ४७ ॥
Verse text
tatrāvaśiṣṭā ye vṛkṣā
bhītā duhitaraṁ tadā
ujjahrus te pracetobhya
upadiṣṭāḥ svayambhuvā
bhītā duhitaraṁ tadā
ujjahrus te pracetobhya
upadiṣṭāḥ svayambhuvā
Synonyms
Translation
As árvores restantes, sentindo muito medo dos Pracetās, foram aconselhadas pelo senhor Brahmā a imediatamente entregar sua filha aos Pracetās.
Purport
SIGNIFICADO—A filha das árvores, mencionada no verso 13 deste capítulo, nascera de Kaṇḍu e Pramlocā. A garota da sociedade, Pramlocā, após dar à luz a criança, imediatamente partiu para o reino celestial. Enquanto a criança chorava, o rei da Lua sentiu compaixão dela e salvou-a, pondo seu dedo em sua boca. Essa criança estava ao cuidado das árvores, e, ao crescer, pela ordem do senhor Brahmā, foi entregue aos Pracetās como esposa deles. Como explicará o verso seguinte, o nome da moça era Māriṣā. Foi a deidade predominante das árvores que entregou a filha aos Pracetās. A esse respeito, Śrīla Jīva Gosvāmī Prabhupāda afirma que vṛkṣāḥ tad-adhiṣṭhātṛ-devatāḥ: “Neste caso, ‘árvores’ significa a deidade controladora daquelas árvores.” Nos textos védicos, observamos que há uma deidade controladora das águas; do mesmo modo, outra deidade controla as árvores. Os Pracetās estavam absortos em reduzir todas as árvores a cinzas, considerando-as suas inimigas. Para apaziguar os Pracetās, a deidade predominante das árvores, a conselho do senhor Brahmā, deu-lhes a filha Māriṣā.
Devanagari
ते च ब्रह्मण आदेशान्मारिषामुपयेमिरे ।
यस्यां महदवज्ञानादजन्यजनयोनिज: ॥ ४८ ॥
यस्यां महदवज्ञानादजन्यजनयोनिज: ॥ ४८ ॥
Verse text
te ca brahmaṇa ādeśān
māriṣām upayemire
yasyāṁ mahad-avajñānād
ajany ajana-yonijaḥ
māriṣām upayemire
yasyāṁ mahad-avajñānād
ajany ajana-yonijaḥ
Synonyms
Translation
Seguindo a ordem do senhor Brahmā, todos os Pracetās aceitaram a jovem como sua esposa. Do ventre dessa mocinha, nasceu o filho do senhor Brahmā chamado Dakṣa. Dakṣa teve que nascer do ventre de Māriṣā por ter desobedecido e desrespeitado o senhor Mahādeva [Śiva]. Em consequência disso, ele foi obrigado a abandonar seu corpo duas vezes.
Purport
SIGNIFICADO—A este respeito, a expressão mahad-avajñānāt é muito significativa. O rei Dakṣa era filho do senhor Brahmā; portanto, em um nascimento anterior, ele era um brāhmaṇa, mas, por ter-se comportado como um não-brāhmaṇa (abrāhmaṇa), insultando ou desrespeitando o Senhor Mahādeva, ele teve que nascer dentro do sêmen de um kṣatriya. Isto é, ele se tornou o filho dos Pracetās. Não apenas isso, mas, por ter desrespeitado o senhor Śiva, ele foi obrigado a submeter-se à tribulação de nascer do ventre de uma mulher. Na arena de Dakṣa-yajña, ele foi morto uma vez por Vīrabhadra, o servo do senhor Śiva. Como isso ainda não era suficiente, ele nasceu outra vez, do ventre de Māriṣā. Ao final do Dakṣa-yajña e dos desastrosos incidentes ali ocorridos, Dakṣa ofereceu sua oração ao senhor Śiva. Apesar de ter que abandonar seu corpo e nascer do ventre de uma mulher fecundada pelo sêmen de um kṣatriya, ele recebeu toda opulência pela graça do senhor Śiva. Essas são as leis sutis da natureza material. Infelizmente, as pessoas nesta era moderna não sabem como funcionam essas leis. Não tendo conhecimento da eternidade da alma espiritual e de sua transmigração, a população da era atual está na mais densa ignorância. Por causa disso, o Bhāgavatam (1.1.10) diz que mandāḥ sumanda-matayo manda-bhāgyā hy upadrutāḥ: toda a população nesta era de Kali-yuga é muito perversa, preguiçosa, desventurada e perturbada pelas condições materiais.
Devanagari
चाक्षुषे त्वन्तरे प्राप्ते प्राक्सर्गे कालविद्रुते ।
य: ससर्ज प्रजा इष्टा: स दक्षो दैवचोदित: ॥ ४९ ॥
य: ससर्ज प्रजा इष्टा: स दक्षो दैवचोदित: ॥ ४९ ॥
Verse text
cākṣuṣe tv antare prāpte
prāk-sarge kāla-vidrute
yaḥ sasarja prajā iṣṭāḥ
sa dakṣo daiva-coditaḥ
prāk-sarge kāla-vidrute
yaḥ sasarja prajā iṣṭāḥ
sa dakṣo daiva-coditaḥ
Synonyms
cākṣuṣe — chamado Cākṣuṣa; tu — mas; antare — o manvantara; prāpte — quando aconteceu; prāk — anterior; sarge — criação; kāla-vidrute — destruída com o transcorrer do tempo; yaḥ — aquele que; sasarja — criou; prajāḥ — entidades vivas; iṣṭāḥ — desejáveis; saḥ — ele; dakṣaḥ — Dakṣa; daiva — pela Suprema Personalidade de Deus; coditaḥ — inspirado.
Translation
Seu corpo anterior fora destruído, mas ele, o mesmo Dakṣa, inspirado pela vontade suprema, criou todas as entidades vivas desejadas no manvantara Cākṣuṣa.
Purport
SIGNIFICADO—Como afirma a Bhagavad-gītā (8.17):
sahasra-yuga-paryantam
ahar yad brahmaṇo viduḥ
rātriṁ yuga-sahasrāntāṁ
te ’ho-rātra-vido janāḥ
ahar yad brahmaṇo viduḥ
rātriṁ yuga-sahasrāntāṁ
te ’ho-rātra-vido janāḥ
“Pelo cálculo humano, quando se soma um total de mil eras, obtém-se a duração de um dia de Brahmā. E esta é também a duração de sua noite.” Um dia de Brahmā consiste em mil ciclos dos quatro yugas – Satya, Tretā, Dvāpara e Kali. Em cada um desses dias, existem quatorze manvantaras, dentre os quais o manvantara Cākṣuṣa é o sexto. Os vários Manus existentes em um dia de Brahmā são os seguintes: (1) Svāyambhuva, (2) Svārociṣa, (3) Uttama, (4) Tāmasa, (5) Raivata, (6) Cākṣuṣa, (7) Vaivasvata, (8) Sāvarṇi, (9) Dakṣa-sāvarṇi, (10) Brahma-sāvarṇi, (11) Dharma-sāvarṇi, (12) Rudra-sāvarṇi, (13) Deva-sāvarṇi e (14) Indra-sāvarṇi.
Assim, há quatorze Manus em um dia de Brahmā. Em um ano, há 5.040 Manus. Brahmā vive cem anos; consequentemente, o total de Manus que aparecem e desaparecem durante a vida de um Brahmā é 504.000. Esse é o cálculo para um universo, e existem inúmeros universos. Todos esses Manus vêm e vão simplesmente pelo processo respiratório de Mahā-Viṣṇu. Como se afirma na Brahma-saṁhitā:
yasyaika-niśvasita-kālam athāvalambya
jīvanti loma-vilajā jagad-aṇḍa-nāthāḥ
viṣṇur mahān sa iha yasya kalā-viśeṣo
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
jīvanti loma-vilajā jagad-aṇḍa-nāthāḥ
viṣṇur mahān sa iha yasya kalā-viśeṣo
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
A expressão jagad-aṇḍa-nātha significa senhor Brahmā. São inúmeros os jagad-aṇḍa-nātha Brahmās, e assim podemos calcular os muitos Manus. A era atual está sob o controle de Vaivasvata Manu. Cada Manu vive 4.320.000 anos multiplicados por 71. O Manu atual já viveu 4.320.000 anos multiplicados por 28. Todas essas longas durações de vida são finalmente encerradas pelas leis da natureza material. A controvérsia do Dakṣa-yajña ocorreu no período do manvantara Svāyambhuva. Como resultado disso, Dakṣa foi castigado pelo senhor Śiva, mas, em virtude de suas orações ao senhor Śiva, ele mereceu recuperar sua opulência anterior. Segundo Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, Dakṣa praticou rigorosas penitências até o quinto manvantara. Assim, no início do sexto manvantara, conhecido como manvantara Cākṣuṣa, Dakṣa recuperou sua opulência anterior pelas bênçãos do senhor Śiva.
Devanagari
यो जायमान: सर्वेषां तेजस्तेजस्विनां रुचा ।
स्वयोपादत्त दाक्ष्याच्च कर्मणां दक्षमब्रुवन् ॥ ५० ॥
तं प्रजासर्गरक्षायामनादिरभिषिच्य च ।
युयोज युयुजेऽन्यांश्च स वै सर्वप्रजापतीन् ॥ ५१ ॥
स्वयोपादत्त दाक्ष्याच्च कर्मणां दक्षमब्रुवन् ॥ ५० ॥
तं प्रजासर्गरक्षायामनादिरभिषिच्य च ।
युयोज युयुजेऽन्यांश्च स वै सर्वप्रजापतीन् ॥ ५१ ॥
Verse text
yo jāyamānaḥ sarveṣāṁ
tejas tejasvināṁ rucā
svayopādatta dākṣyāc ca
karmaṇāṁ dakṣam abruvan
tejas tejasvināṁ rucā
svayopādatta dākṣyāc ca
karmaṇāṁ dakṣam abruvan
taṁ prajā-sarga-rakṣāyām
anādir abhiṣicya ca
yuyoja yuyuje ’nyāṁś ca
sa vai sarva-prajāpatīn
anādir abhiṣicya ca
yuyoja yuyuje ’nyāṁś ca
sa vai sarva-prajāpatīn
Synonyms
yaḥ — aquele que; jāyamānaḥ — logo após seu nascimento; sarveṣām — de todos; tejaḥ — o brilho; tejasvinām — brilhante; rucā — pela refulgência; svayā — sua; upādatta — encoberto; dākṣyāt — por ser perito; ca — e; karmaṇām — em atividades fruitivas; dakṣam — Dakṣa; abruvan — foi chamado; tam — a ele; prajā — seres vivos; sarga — gerando; rakṣāyām — quanto à manutenção; anādiḥ — o primogênito, senhor Brahmā; abhiṣicya — tendo apontado; ca — também; yuyoja — ocupou; yuyuje — ocupados; anyān — outros; ca — e; saḥ — ele; vai — decerto; sarva — todos; prajā-patīn — progenitores de entidades vivas.
Translation
Após nascer, Dakṣa, pela excelência extraordinária do brilho de seu corpo, encobriu a opulência corpórea de todos os demais. Por ser muito perito em realizar atividades fruitivas, foi chamado de Dakṣa, que significa “muito perito”. O senhor Brahmā, portanto, conferiu a Dakṣa a tarefa de gerar entidades vivas e mantê-las. Com o transcurso do tempo, Dakṣa também ocupou outros Prajāpatis [progenitores] no processo de geração e manutenção.
Purport
SIGNIFICADO—Dakṣa tornou-se quase tão poderoso como o senhor Brahmā. Em consequência disso, o senhor Brahmā o ocupou em gerar população. Dakṣa era muito influente e rico. Por iniciativa própria, Dakṣa ocupou outros Prajāpatis, liderados por Marīci, na mesma atividade. Dessa maneira, a população do universo aumentou.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do quarto canto, trigésimo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “As Atividades dos Pracetās”.