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Devanagari
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Purport
CAPÍTULO DOIS
Os Semideuses Oram ao Senhor Kṛṣṇa no Ventre Materno
Como se descreve neste capítulo, quando a Suprema Personalidade de Deus entrou no ventre de Devakī para depois matar Kaṁsa, todos os semideuses compreenderam que o Senhor estava no ventre de Devakī e, portanto, com veneração, ofereceram-Lhe as orações Garbha-stuti.
Kaṁsa, sob a proteção de seu sogro, Jarāsandha, e com a ajuda de seus amigos demoníacos, tais como Pralamba, Baka, Cāṇūra, Tṛṇāvarta, Aghāsura, Muṣṭika, Bāṇa e Bhaumāsura, começou a oprimir os membros da dinastia Yadu. Portanto, os membros da dinastia Yadu deixaram seus lares e buscaram refúgio em Estados tais como Kuru, Pañcāla, Kekaya, Śālva e Vidarbha. Somente alguns permaneceram com Kaṁsa, de quem se tornaram amigos por mera formalidade.
Depois que Kaṁsa matou consecutivamente os ṣaḍ-garbhas, os seis filhos de Devakī, Anantadeva entrou no ventre de Devakī e foi transferido ao ventre de Rohiṇī pela ação de Yogamāyā, que seguia a ordem da Suprema Personalidade de Deus. O próprio Senhor, que logo apareceria como o oitavo filho de Devakī, ordenou a Yogamāyā que nascesse do ventre de Yaśodādevī. Porque Kṛṣṇa e Sua potência, Yogamāyā, apareceram simultaneamente como irmão e irmã, o mundo encheu-se de vaiṣṇavas e śāktas, e decerto houve rivalidade entre eles. Os vaiṣṇavas adoram o Senhor Supremo, ao passo que os śāktas, de acordo com seus desejos, adoram Yogamāyā em formas como Durgā, Bhadrakālī ou Caṇḍikā. Cumprindo as ordens da Suprema Personalidade de Deus, Yogamāyā transferiu Baladeva, Saṅkarṣaṇa, o sétimo filho de Devakī, do ventre de Devakī para o ventre de Rohiṇī. Como aparece para estimular o amor a Kṛṣṇa, Saṅkarṣaṇa é conhecido como Baladeva. Através dEle, a pessoa pode receber força auspiciosa para tornar-se devoto do Senhor, e, portanto, Ele também é conhecido como Balabhadra.
Depois que Yogamāyā transferiu para o ventre de Rohiṇī o sétimo filho de Devakī, a Suprema Personalidade de Deus apareceu no coração de Vasudeva e transferiu-Se para o coração de Devakī. Visto que o Senhor estava presente em seu coração, Devakī, à medida que sua gravidez prosseguia, parecia refulgente. Ao ver essa refulgência, Kaṁsa ficou cheio de ansiedade, mas não podia maltratar Devakī devido à relação familiar que havia entre eles. Assim, de maneira indireta, ele começou a pensar em Kṛṣṇa e tornou-se plenamente consciente de Kṛṣṇa.
Enquanto isso, devido à presença do Senhor no ventre de Devakī, todos os semideuses vieram oferecer suas orações ao Senhor. A Suprema Personalidade de Deus, disseram eles, é eternamente a Verdade Absoluta. A alma espiritual é mais importante do que o corpo grosseiro, e a Superalma, Paramātmā, é ainda mais importante do que a alma. A Divindade Suprema goza de independência absoluta, e Suas encarnações são transcendentais. As orações dos semideuses glorificam e enaltecem os devotos e revelam o destino das pessoas que levianamente se consideram liberadas das condições impostas pela natureza material. O devoto está sempre em segurança. Ao render-se por completo aos pés de lótus do Senhor, o devoto fica inteiramente livre do temor da existência material. Ao explicar o motivo pelo qual a Suprema Personalidade de Deus desce, as orações dos semideuses confirmam claramente a afirmação que o Senhor faz na Bhagavad-gītā (4.7):
yadā yadā hi dharmasya
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
“Sempre e onde quer que haja um declínio nas práticas religiosas, ó descendente de Bharata, e o aumento predominante da irreligião – nesse momento, Eu próprio desço.”
Devanagari
श्रीशुक उवाच
प्रलम्बबकचाणूरतृणावर्तमहाशनै: । मुष्टिकारिष्टद्विविदपूतनाकेशीधेनुकै: ॥ १ ॥ अन्यैश्चासुरभूपालैर्बाणभौमादिभिर्युत: । यदूनां कदनं चक्रे बली मागधसंश्रय: ॥ २ ॥
प्रलम्बबकचाणूरतृणावर्तमहाशनै: । मुष्टिकारिष्टद्विविदपूतनाकेशीधेनुकै: ॥ १ ॥ अन्यैश्चासुरभूपालैर्बाणभौमादिभिर्युत: । यदूनां कदनं चक्रे बली मागधसंश्रय: ॥ २ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
pralamba-baka-cāṇūra-
tṛṇāvarta-mahāśanaiḥ
muṣṭikāriṣṭa-dvivida-
pūtanā-keśī-dhenukaiḥ
pralamba-baka-cāṇūra-
tṛṇāvarta-mahāśanaiḥ
muṣṭikāriṣṭa-dvivida-
pūtanā-keśī-dhenukaiḥ
anyaiś cāsura-bhūpālair
bāṇa-bhaumādibhir yutaḥ
yadūnāṁ kadanaṁ cakre
balī māgadha-saṁśrayaḥ
bāṇa-bhaumādibhir yutaḥ
yadūnāṁ kadanaṁ cakre
balī māgadha-saṁśrayaḥ
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; pralamba — pelo asura chamado Pralamba; baka — pelo asura chamado Baka; cāṇūra — pelo asura chamado Cāṇūra; tṛṇāvarta — pelo asura chamado Tṛṇāvarta; mahāśanaiḥ — por Aghāsura; muṣṭika — pelo asura chamado Muṣṭika; ariṣṭa — pelo asura Ariṣṭa; dvivida — pelo asura chamado Dvivida; pūtanā — por Pūtanā; keśi — por Keśi; dhenukaiḥ — por Dhenuka; anyaiḥ ca — e por muitos outros; asura-bhūpālaiḥ — pelos reis demoníacos existentes na superfície do globo; bāṇa — pelo rei Bāṇa; bhauma — por Bhaumāsura; ādibhiḥ — e por outros também; yutaḥ — sendo auxiliado; yadūnām — dos reis da dinastia Yadu; kadanam — perseguição; cakre — realizou regularmente; balī — muito poderoso; māgadha-saṁśrayaḥ — sob a proteção de Jarāsandha, o rei de Magadha.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Protegido por Magadharāja, Jarāsandha, o poderoso Kaṁsa começou a perseguir os reis da dinastia Yadu. Para isso, ele dispunha da cooperação de demônios como Pralamba, Baka, Cāṇūra, Tṛṇāvarta, Aghāsura, Muṣṭika, Ariṣṭa, Dvivida, Pūtanā, Keśī, Dhenuka, Bāṇāsura, Narakāsura e muitos outros reis demoníacos presentes na superfície da Terra.
Purport
SIGNIFICADO—Este verso apoia a seguinte afirmação feita pelo Senhor na Bhagavad-gītā (4.7-8):
yadā yadā hi dharmasya
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
paritrāṇāya sādhūnāṁ
vināśāya ca duṣkṛtām
dharma-saṁsthāpanārthāya
sambhavāmi yuge yuge
vināśāya ca duṣkṛtām
dharma-saṁsthāpanārthāya
sambhavāmi yuge yuge
“Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante de irreligião – aí então Eu próprio desço. Para libertar os piedosos e aniquilar os canalhas, bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu mesmo venho, milênio após milênio.”
O propósito de o Senhor manter este mundo material é que Ele quer dar a todos a oportunidade de voltar ao lar, voltar ao Supremo, mas os reis e líderes políticos, infelizmente, tentam impedir a realização do propósito do Senhor, e, portanto, o Senhor aparece, quer pessoalmente, quer através de Suas porções plenárias, para ordenar o mundo. Portanto, afirma-se:
garbhaṁ sañcārya rohiṇyāṁ
devakyā yogamāyayā
tasyāḥ kukṣiṁ gataḥ kṛṣṇo
dvitīyo vibudhaiḥ stutaḥ
devakyā yogamāyayā
tasyāḥ kukṣiṁ gataḥ kṛṣṇo
dvitīyo vibudhaiḥ stutaḥ
“Kṛṣṇa apareceu no ventre de Devakī após transferir Baladeva ao ventre de Rohiṇī pelo poder de yogamāyā.” Yadubhiḥ sa vyarudhyata. Os reis da dinastia Yadu eram todos devotos, mas havia muitos demônios poderosos, tais como Śālva, que começaram a persegui-los. Naquela época, Jarāsandha, o sogro de Kaṁsa, era extremamente poderoso, e por isso, na perseguição aos reis da dinastia Yadu, Kaṁsa tirou proveito da proteção por ele oferecida e da ajuda prestada pelos demônios. Os demônios pareciam então mais poderosos do que os semideuses, mas, no final, devido à ajuda recebida da Suprema Personalidade de Deus, os demônios foram derrotados e os semideuses saíram vitoriosos.
Devanagari
ते पीडिता निविविशु: कुरुपञ्चालकेकयान् । शाल्वान् विदर्भान् निषधान् विदेहान् कोशलानपि ॥ ३ ॥
Verse text
te pīḍitā niviviśuḥ
kuru-pañcāla-kekayān
śālvān vidarbhān niṣadhān
videhān kośalān api
kuru-pañcāla-kekayān
śālvān vidarbhān niṣadhān
videhān kośalān api
Synonyms
te — eles (os reis da dinastia Yadu); pīḍitāḥ — sendo perseguidos; niviviśuḥ — refugiaram-se ou entraram (nos reinos); kuru-pañcāla — as regiões ocupadas pelos Kurus e Pañcālas; kekayān — as regiões dos Kekayas; śālvan — as regiões ocupadas pelos Śālvas; vidarbhān — as regiões ocupadas pelos Vidarbhas; niṣadhān — as regiões ocupadas pelos Niṣadhas; videhān — a região de Videha; kośalān api — bem como as regiões ocupadas pelos Kośalas.
Translation
Perseguidos pelos reis demoníacos, os Yadavas deixaram seu próprio reino e foram-se a vários outros, tais como o dos Kurus, Pañcālas, Kekayas, Śālvas, Vidarbhas, Niṣadhas, Videhas e Kośalas.
Devanagari
एके तमनुरुन्धाना ज्ञातय: पर्युपासते । हतेषु षट्सु बालेषु देवक्या औग्रसेनिना ॥ ४ ॥ सप्तमो वैष्णवं धाम यमनन्तं प्रचक्षते । गर्भो बभूव देवक्या हर्षशोकविवर्धन: ॥ ५ ॥
Verse text
eke tam anurundhānā
jñātayaḥ paryupāsate
hateṣu ṣaṭsu bāleṣu
devakyā augraseninā
jñātayaḥ paryupāsate
hateṣu ṣaṭsu bāleṣu
devakyā augraseninā
saptamo vaiṣṇavaṁ dhāma
yam anantaṁ pracakṣate
garbho babhūva devakyā
harṣa-śoka-vivardhanaḥ
yam anantaṁ pracakṣate
garbho babhūva devakyā
harṣa-śoka-vivardhanaḥ
Synonyms
eke — alguns deles; tam — a Kaṁsa; anurundhānāḥ — seguindo exatamente sua política; jñātayaḥ — parentes; paryupāsate — começaram a aceitá-lo; hateṣu — tendo sido mortos; ṣaṭsu — seis; bāleṣu — filhos; devakyāḥ — nascidos de Devakī; augraseninā — pelo filho de Ugrasena (Kaṁsa); saptamaḥ — o sétimo; vaiṣṇavam — do Senhor Viṣṇu; dhāma — uma expansão plenária; yam — a quem; anantam — pelo nome Ananta; pracakṣate — é saudado; garbhaḥ — embrião; babhūva — houve; devakyāḥ — de Devakī; harṣa-śoka-vivardhanaḥ — simultaneamente causando prazer e lamentação.
Translation
Alguns de seus parentes, entretanto, começaram a seguir os princípios de Kaṁsa e a agir a seu serviço. Depois que Kaṁsa, o filho de Ugrasena, matou os seis filhos de Devakī, uma porção plenária de Kṛṣṇa entrou no ventre dela como seu sétimo filho, causando-lhe prazer e lamentação. Essa porção plenária é saudada pelos grandes sábios como Ananta, que pertence à segunda expansão quádrupla de Kṛṣṇa.
Purport
SIGNIFICADO—Alguns dos principais devotos, tais como Akrūra, permaneceram com Kaṁsa para satisfazê-lo. Eles tomaram essa atitude devido ao fato de que tinham em mente vários propósitos. Todos esperavam que a Suprema Personalidade de Deus aparecesse como o oitavo filho logo que os outros filhos de Devakī fossem mortos por Kaṁsa, e estavam na ansiosa expectativa de Ele aparecer. Permanecendo na companhia de Kaṁsa, eles seriam capazes de ver a Suprema Personalidade de Deus nascer e depois manifestar Seus passatempos infantis, e Akrūra mais tarde poderia ir a Vṛndāvana para trazer Kṛṣṇa e Balarāma a Mathurā. A palavra paryupāsate é significativa porque indica que alguns devotos preferiram permanecer perto de Kaṁsa para ver todos esses passatempos do Senhor. Os seis filhos mortos por Kaṁsa anteriormente eram filhos de Marīci, mas, por terem sido amaldiçoados por um brāhmaṇa, foram obrigados a nascer como netos de Hiraṇyakaśipu. Kaṁsa havia nascido como Kālanemi, e agora era impelido a matar seus próprios filhos. Isso era um mistério.
Logo que fossem mortos, os filhos de Devakī retornariam à sua morada original. Os devotos também queriam ver isso. Falando em termos genéricos, ninguém mata seus próprios sobrinhos, mas Kaṁsa era tão cruel que não hesitou nesse seu procedimento. Ananta, Saṅkarṣaṇa, pertence ao segundo catur-vyūha, ou expansão quádrupla. Essa é a opinião de comentadores competentes.
Logo que fossem mortos, os filhos de Devakī retornariam à sua morada original. Os devotos também queriam ver isso. Falando em termos genéricos, ninguém mata seus próprios sobrinhos, mas Kaṁsa era tão cruel que não hesitou nesse seu procedimento. Ananta, Saṅkarṣaṇa, pertence ao segundo catur-vyūha, ou expansão quádrupla. Essa é a opinião de comentadores competentes.
Devanagari
भगवानपि विश्वात्मा विदित्वा कंसजं भयम् । यदूनां निजनाथानां योगमायां समादिशत् ॥ ६ ॥
Verse text
bhagavān api viśvātmā
viditvā kaṁsajaṁ bhayam
yadūnāṁ nija-nāthānāṁ
yoga-māyāṁ samādiśat
viditvā kaṁsajaṁ bhayam
yadūnāṁ nija-nāthānāṁ
yoga-māyāṁ samādiśat
Synonyms
bhagavān — Śrī Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus; api — também; viśvātmā — que é a Superalma de todos; viditvā — entendendo a situação dos Yadus e de Seus outros devotos; kaṁsa-jam — por causa de Kaṁsa; bhayam — medo; yadūnām — dos Yadus; nija-nāthānām — que aceitaram a Ele, o Senhor Supremo, como seu refúgio supremo; yogamāyām — a Yogamāyā, a potência espiritual de Kṛṣṇa; samādiśat — ordenou o seguinte.
Translation
Para proteger os Yadus, Seus devotos pessoais, livrando-os do ataque de Kaṁsa, a Personalidade de Deus, Viśvātmā, a Alma Suprema de todos, deu a Yogamāyā a seguinte ordem.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Sanātana Gosvāmī faz seu comentário a respeito das palavras bhagavān api viśvātmā viditvā kaṁsajaṁ bhayam. Bhagavān svayam é Kṛṣṇa (kṛṣṇas tu bhagavān svayam). Ele é Viśvātmā, a Superalma original de todos, porque Sua porção plenária expande-Se como a Superalma. Confirma isso a Bhagavad-gītā (13.3): kṣetra-jñaṁ cāpi māṁ viddhi sarva-kṣetreṣu bhārata. O Senhor Kṛṣṇa é o kṣetra-jña, ou a Superalma, de todas as entidades vivas. Ele é a fonte da qual se originam todas as expansões da Personalidade de Deus. Existem centenas e milhares de expansões plenárias de Viṣṇu, tais como Saṅkarṣaṇa, Pradyumna, Aniruddha e Vāsudeva, mas aqui neste mundo material, o Viśvātmā, a Superalma de todas as entidades vivas, é Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu. Como se afirma na Bhagavad-gītā (18.61), īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati: “O Senhor Supremo está situado no coração de todas as entidades vivas, ó Arjuna.” Kṛṣṇa, através de Sua expansão plenária como viṣṇu-tattva, é realmente Viśvātmā, mas, devido à Sua afeição por Seus devotos, Ele age como a Superalma para orientá-los (sarvasya cāhaṁ hṛdi sanniviṣṭo mattaḥ smṛtir jñānam apohanaṁ ca).
Os afazeres da Superalma estão relacionados com Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, mas Kṛṣṇa sentiu compaixão de Devakī, Sua devota, porque entendeu seu medo de ser perseguida por Kaṁsa. O devoto puro sempre teme a existência material. Ninguém sabe o que acontecerá em seguida, pois tem-se de mudar de corpo a qualquer momento (tathā dehāntara-prāptiḥ). Sabendo desse fato, o devoto puro age de modo a não desperdiçar sua vida, evitando assim aceitar outro corpo e submeter-se às tribulações da existência material. Isso é bhayam, ou medo. Bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ syāt (Śrīmad-Bhāgavatam 11.2.37). Esse medo se deve à existência material. Devidamente falando, todos sempre devem estar alertas e temerosos da existência material, mas, embora todos estejam inclinados a se deixarem afetar pela ignorância da existência material, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, sempre está atento em proteger Seus devotos. Kṛṣṇa é tão bondoso e afetuoso com Seus devotos que os ajuda dando-lhes a inteligência com a qual eles possam viver neste mundo material sem se esquecerem dEle nem mesmo por um momento. O Senhor diz:
teṣām evānukampārtham
aham ajñāna-jaṁ tamaḥ
nāśayāmy ātma-bhāvastho
jñāna-dīpena bhāsvatā
aham ajñāna-jaṁ tamaḥ
nāśayāmy ātma-bhāvastho
jñāna-dīpena bhāsvatā
“Para lhes mostrar misericórdia especial, Eu, residindo em seus corações, destruo com a luz brilhante do conhecimento a escuridão nascida da ignorância.” (Bhagavad-gītā 10.11)
A palavra yoga significa “ligação”. Todo sistema de yoga é uma tentativa de refazer nossa relação com a Suprema Personalidade de Deus, relação esta que foi rompida. Existem diferentes tipos de yoga, dos quais o bhakti-yoga é o melhor. Em outros sistemas de yoga, a pessoa deve submeter-se a vários processos antes de alcançar a perfeição, mas o bhakti-yoga surte efeito imediato. O Senhor diz na Bhagavad-gītā (6.47):
yoginām api sarveṣāṁ
mad-gatenāntarātmanā
śraddhāvān bhajate yo māṁ
sa me yuktatamo mataḥ
mad-gatenāntarātmanā
śraddhāvān bhajate yo māṁ
sa me yuktatamo mataḥ
“De todos os yogīs, aquele que sempre se refugia em Mim com muita fé, adorando-Me em transcendental serviço amoroso, é o mais intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos.” Para o bhakti-yogī, um corpo humano está garantido em sua próxima existência, como o Senhor Kṛṣṇa afirma (śucīnāṁ śrīmatāṁ gehe yoga-bhraṣṭo ’bhijāyate). Yogamāyā é a potência espiritual do Senhor. Por afeição pelos Seus devotos, o Senhor sempre permanece em contato espiritual com eles, embora, de outro modo, Sua potência māyā seja tão forte que confunde até mesmo semideuses grandiosos como Brahmā. Portanto, a potência do Senhor chama-se yogamāyā. Uma vez que o Senhor é Viśvātmā, Ele imediatamente ordenou a Yogamāyā que protegesse Devakī.
Devanagari
गच्छ देवि व्रजं भद्रे गोपगोभिरलङ्कृतम् । रोहिणी वसुदेवस्य भार्यास्ते नन्दगोकुले । अन्याश्च कंससंविग्ना विवरेषु वसन्ति हि ॥ ७ ॥
Verse text
gaccha devi vrajaṁ bhadre
gopa-gobhir alaṅkṛtam
rohiṇī vasudevasya
bhāryāste nanda-gokule
anyāś ca kaṁsa-saṁvignā
vivareṣu vasanti hi
gopa-gobhir alaṅkṛtam
rohiṇī vasudevasya
bhāryāste nanda-gokule
anyāś ca kaṁsa-saṁvignā
vivareṣu vasanti hi
Synonyms
gaccha — agora vai; devi — ó tu que és adorável em todo o mundo; vrajam — à terra de Vraja; bhadre — ó tu que és auspiciosa para todas as entidades vivas; gopa-gobhiḥ — com vaqueiros e vacas; alaṅkṛtam — decorada; rohiṇī — chamada Rohiṇī; vasudevasya — de Vasudeva, o pai de Kṛṣṇa; bhāryā — uma das esposas; āste — está vivendo; nanda-gokule — no Estado de Nanda Mahārāja conhecido como Gokula, onde se mantêm centenas e milhares de vacas; anyāḥ ca — e outras esposas; kaṁsa-saṁvignāḥ — temendo Kaṁsa; vivareṣu — em lugares escondidos; vasanti — vivem; hi — na verdade.
Translation
O Senhor ordenou a Yogamāyā: Ó minha potência, ó tu que és adorável em todo o mundo e cuja natureza é conceder boa fortuna a todas as entidades vivas, vai até Vraja, onde muitos vaqueiros vivem com suas esposas. Naquela belíssima terra, onde residem muitas vacas, Rohiṇī, a esposa de Vasudeva, vive no lar de Nanda Mahārāja. Com medo de Kaṁsa, outras esposas de Vasudeva também vivem ali, incógnitas. Por favor, vai até lá.
Purport
SIGNIFICADO—Nanda-gokula, a residência do rei Nanda, era por si só muito bela, e quando Yogamāyā recebeu ordens de ir até lá e incutir nos devotos o destemor, ela se tornou ainda mais bela e segura. Porque Yogamāyā tinha a habilidade de criar essa atmosfera, o Senhor ordenou-lhe que fosse a Nanda-gokula.
Devanagari
देवक्या जठरे गभन शेषाख्यं धाम मामकम् । तत् सन्निकृष्य रोहिण्या उदरे सन्निवेशय ॥ ८ ॥
Verse text
devakyā jaṭhare garbhaṁ
śeṣākhyaṁ dhāma māmakam
tat sannikṛṣya rohiṇyā
udare sanniveśaya
śeṣākhyaṁ dhāma māmakam
tat sannikṛṣya rohiṇyā
udare sanniveśaya
Synonyms
devakyāḥ — de Devakī; jaṭhare — dentro do ventre; garbham — o embrião; śeṣa-ākhyam — conhecido como Śeṣa, a expansão plenária de Kṛṣṇa; dhāma — a expansão plenária; māmakam — Minha; tat — a Ele; sannikṛṣya — atraindo; rohiṇyāḥ — de Rohiṇī; udare — para dentro do ventre; sanniveśaya — transfere facilmente.
Translation
Dentro do ventre de Devakī, encontra-se Minha expansão plenária parcial, conhecida como Saṅkarṣaṇa ou Śeṣa. Sem dificuldade, transfere-O para o ventre de Rohiṇī.
Purport
SIGNIFICADO—A primeira expansão plenária de Kṛṣṇa é Baladeva, também conhecido como Śeṣa. A encarnação da Suprema Personalidade de Deus manifesta sob a forma de Śeṣa sustenta todo o universo, e a mãe eterna dessa encarnação é mãe Rohiṇī. “Porque estou indo para o ventre de Devakī”, disse o Senhor a Yogamāyā, “a encarnação Śeṣa já Se estabeleceu ali e fez arranjos adequados para que Eu possa viver no ventre. Agora, Ele deve entrar no ventre de Rohiṇī, Sua mãe eterna.”
Com relação a isso, pode-se perguntar como a Suprema Personalidade de Deus, que sempre está situado transcendentalmente, pôde entrar no ventre de Devakī, que antes abrigara seis asuras, os ṣaḍ-garbhas. Isso significa que os corpos dos ṣad-garbhāsuras e da transcendental Suprema Personalidade de Deus eram iguais? Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura apresenta-nos a seguinte resposta.
Toda a criação, bem como suas partes individuais, são uma expansão da energia da Suprema Personalidade de Deus. Portanto, muito embora entre no mundo material, o Senhor, ao mesmo tempo, não entra. Isso é explicado pelo próprio Senhor na Bhagavad-gītā (9.45):
mayā tatam idaṁ sarvaṁ
jagad avyakta-mūrtinā
mat-sthāni sarva-bhūtāni
na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ
jagad avyakta-mūrtinā
mat-sthāni sarva-bhūtāni
na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ
na ca mat-sthāni bhūtāni
paśya me yogam aiśvaram
bhūta-bhṛn na ca bhūta-stho
mamātmā bhūta-bhāvanaḥ
paśya me yogam aiśvaram
bhūta-bhṛn na ca bhūta-stho
mamātmā bhūta-bhāvanaḥ
“Sob Minha forma imanifesta, Eu penetro este universo inteiro. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles. E, mesmo assim, os elementos criados não repousam em Mim. Observa Minha opulência mística! Embora Eu seja o mantenedor de todas as entidades vivas e embora esteja em toda parte, não faço parte desta manifestação cósmica, pois Meu eu é a própria fonte da criação.” Sarvaṁ khalv idaṁ brahma. Tudo é uma expansão do Brahman, a Suprema Personalidade de Deus, mas tudo o que existe não é a Divindade Suprema, e Ele não está em toda parte. Tudo repousa nEle e, apesar disso, não repousa nEle. Isso pode ser explicado apenas através da filosofia acintya-bhedābheda. Entretanto, essas verdades só podem ser entendidas pelos devotos puros, pois o Senhor diz na Bhagavad-gītā (18.55), bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ: “É unicamente através do serviço devocional que alguém pode entender a Suprema Personalidade como Ele é.” Muito embora o Senhor não possa ser entendido por pessoas comuns, pode-se aprender este princípio nos śāstras.
O devoto puro sempre está transcendentalmente situado porque executa nove diferentes processos de bhakti-yoga (śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaranaṁ pāda-sevanam/ arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ sakhyam ātma-nivedanam). Situado nesse serviço devocional, o devoto, embora no mundo material, não está no mundo material. No entanto, ele sempre teme: “Porque estou associado com o mundo material, há tantas contaminações que me afetam!” Em vista disso, sentindo temor, ele sempre está em alerta, de modo que ele aos poucos diminui sua associação material.
Simbolicamente, o fato de mãe Devakī viver em um estado de constante medo de Kaṁsa estava purificando-a. O devoto puro deve sempre temer a associação material, e, dessa maneira, todos os asuras que se manifestam como a associação material serão mortos, do mesmo modo que os ṣaḍ-garbhāsuras foram mortos por Kaṁsa. Afirma-se que Marīci surge da mente. Em outras palavras, Marīci é uma encarnação da mente. Marīci tem seis filhos: Kāma, Krodha, Lobha, Moha, Mada e Mātsarya (luxúria, ira, cobiça, ilusão, loucura e inveja). A Suprema Personalidade de Deus aparece através do serviço devocional puro. Confirma-se isso nos Vedas: bhaktir evainaṁ darśayati. Somente bhakti pode colocar alguém em contato com a Suprema Personalidade de Deus. A Suprema Personalidade de Deus veio do ventre de Devakī, e, portanto, Devakī é uma representação simbólica de bhakti, e Kaṁsa representa, simbolicamente, o medo material. Quando o devoto puro sempre teme a associação material, sua verdadeira posição de bhakti manifesta-se, e ele naturalmente perde o interesse pelo gozo material. Quando os seis filhos de Marīci morrem sob a ação desse medo e a pessoa livra-se da contaminação material, a Suprema Personalidade de Deus aparece no ventre de bhakti. Logo, a sétima gravidez de Devakī significa o aparecimento da Suprema Personalidade de Deus. Depois que os seis filhos Kāma, Krodha, Lobha, Moha, Mada e Mātsarya são mortos, a encarnação Śeṣa cria uma situação adequada para o aparecimento da Suprema Personalidade de Deus. Em outras palavras, quando a pessoa naturalmente desperta sua consciência de Kṛṣṇa, o Senhor Kṛṣṇa aparece. Essa é a explicação dada por Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura.
Devanagari
अथाहमंशभागेन देवक्या: पुत्रतां शुभे । प्राप्स्यामि त्वं यशोदायां नन्दपत्न्यां भविष्यसि ॥ ९ ॥
Verse text
athāham aṁśa-bhāgena
devakyāḥ putratāṁ śubhe
prāpsyāmi tvaṁ yaśodāyāṁ
nanda-patnyāṁ bhaviṣyasi
devakyāḥ putratāṁ śubhe
prāpsyāmi tvaṁ yaśodāyāṁ
nanda-patnyāṁ bhaviṣyasi
Synonyms
atha — portanto; aham — Eu; aṁśa-bhāgena — através de Minha expansão plenária; devakyāḥ — de Devakī; putratām — o filho; śubhe — ó auspiciosíssima Yogamāyā; prāpsyāmi — Eu Me tornarei; tvam — tu; yaśodāyām — no ventre de mãe Yaśodā; nanda-patnyām — na esposa de Mahārāja Nanda; bhaviṣyasi — também aparecerás.
Translation
Ó auspiciosíssima Yogamāyā, então, repleto de Minhas seis opulências, aparecerei como filho de Devakī, e tu aparecerás como filha de mãe Yaśodā, a rainha de Mahārāja Nanda.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra aṁśa-bhāgena é importante. Na Bhagavad-gītā (10.42), o Senhor diz:
athavā bahunaitena
kiṁ jñātena tavārjuna
viṣṭabhyāham idaṁ kṛtsnam
ekāṁśena sthito jagat
kiṁ jñātena tavārjuna
viṣṭabhyāham idaṁ kṛtsnam
ekāṁśena sthito jagat
“Mas qual a necessidade, Arjuna, de todo esse conhecimento minucioso? Com um simples fragmento de Mim mesmo, Eu penetro e sustento todo este universo.” Tudo constitui uma parte da potência do Senhor Supremo. Com relação ao fato de o Senhor Kṛṣṇa aparecer no ventre de Devakī, Brahmā também desempenhou seu papel porque, à margem do oceano de leite, ele pediu que a Suprema Personalidade de Deus aparecesse. Outro papel valioso foi também representado por Baladeva, a primeira expansão do Supremo. Igualmente, Yogamāyā, que apareceu como a filha de mãe Yaśodā, desempenhou seu papel. Logo, jīva-tattva, viṣṇu-tattva e śakti-tattva existem todos na Suprema Personalidade de Deus, e, ao aparecer, Kṛṣṇa vem com todas as partes que O integram. Como se explica nos versos anteriores, Yogamāyā foi solicitada a transferir Saṅkarṣaṇa, Baladeva, do ventre de Devakī para o ventre de Rohiṇī, e essa tarefa lhe foi muito árdua. Yogamāyā naturalmente não podia ver como lhe seria possível transferir Saṅkarṣaṇa. Portanto, Kṛṣṇa dirigiu-Se a ela como śubhe, auspiciosa, e disse: “Sê abençoada. Recebe de Mim o poder, e serás exitosa neste teu empreendimento.” Por graça da Suprema Personalidade de Deus, qualquer um pode executar qualquer tarefa, pois o Senhor está presente em tudo, e tudo o que existe são Suas partes integrantes (aṁśa-bhāgena), que aumenta ou decresce de acordo com Sua vontade suprema. Balarāma era apenas quinze dias mais velho do que Kṛṣṇa. Pelas bênçãos de Kṛṣṇa, Yogamāyā tornou-se filha de mãe Yaśodā, mas, pela vontade suprema, ela não pôde desfrutar do amor de seu pai e de sua mãe. Kṛṣṇa, entretanto, embora não tivesse realmente nascido do ventre de mãe Yaśodā, desfrutou do amor parental de mãe Yaśodā e Nanda. Pelas bênçãos de Kṛṣṇa, Yogamāyā pôde alcançar a reputação de ser filha de mãe Yaśodā, que também se tornou famosa devido às bênçãos de Kṛṣṇa. Yaśodā significa “aquela que traz fama”.
Devanagari
अर्चिष्यन्ति मनुष्यास्त्वां सर्वकामवरेश्वरीम् । धूपोपहारबलिभि: सर्वकामवरप्रदाम् ॥ १० ॥
Verse text
arciṣyanti manuṣyās tvāṁ
sarva-kāma-vareśvarīm
dhūpopahāra-balibhiḥ
sarva-kāma-vara-pradām
sarva-kāma-vareśvarīm
dhūpopahāra-balibhiḥ
sarva-kāma-vara-pradām
Synonyms
arciṣyanti — adorará; manuṣyāḥ — sociedade humana; tvām — a ti; sarva-kāma-vara-īśvarīm — porque és a melhor entre os semideuses que podem satisfazer todos os desejos materiais; dhūpa — com incenso; upahāra — com oferendas; balibhiḥ — com diferentes classes de adoração através de sacrifício; sarva-kāma — de todos os desejos materiais; vara — as bênçãos; pradām — alguém que pode conceder.
Translation
Através do sacrifício de animais, os seres humanos comuns te adorarão com várias parafernálias suntuosas, porque satisfazes com supremacia os desejos materiais de todos.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma na Bhagavad-gītā (7.20), kāmais tais tair hṛta jñānāḥ prapadyante ’nya-devatāḥ: “Aqueles cujas mentes são distorcidas pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses.” Portanto, a palavra manuṣya, significando “ser humano”, refere-se aqui à pessoa que não conhece a verdadeira meta da vida. Tal pessoa quer desfrutar do mundo material, nascendo em família altamente privilegiada em educação, beleza e imensa riqueza, coisas que neste mundo material são tão desejadas. Aquele que se esqueceu da verdadeira meta da vida pode beneficiar-se em adorar a deusa Durgā, māyā-śakti, sob vários nomes, com diferentes propósitos e em diferentes lugares. Assim como há muitos lugares sagrados para adorar Kṛṣṇa, também existem muitos lugares sagrados na Índia para se prestar adoração a Durgādevī, ou Māyādevī, que nasceu como filha de Yaśodā. Após enganar Kaṁsa, Māyādevī dispersou-se por vários lugares, especialmente em Vindhyācala, para aceitar a adoração regular prestada por homens comuns. O ser humano deve realmente interessar-se em compreender ātma-tattva, a verdade referente ao ātmā, a alma espiritual, e Paramātmā, a alma suprema. Aqueles que estão interessados em ātma-tattva adoram a Suprema Personalidade de Deus (yasmin vijñāte sarvam evaṁ vijñātaṁ bhavati). Entretanto, como se explica no próximo verso deste capítulo, aqueles que não podem entender ātma-tattva (apaśyatām ātma-tattvam) adoram diferentes aspectos de Yogamāyā. Portanto, o Śrīmad-Bhāgavatam (2.1.2) diz:
śrotavyādīni rājendra
nṛṇāṁ santi sahasraśaḥ
apaśyatām ātma-tattvaṁ
gṛheṣu gṛha-medhinām
nṛṇāṁ santi sahasraśaḥ
apaśyatām ātma-tattvaṁ
gṛheṣu gṛha-medhinām
“Aquelas pessoas materialmente absortas, cegas ao conhecimento sobre a verdade última, ouvem muitos temas comentados na sociedade humana, ó imperador.” Aqueles que estão interessados em permanecer neste mundo material e não se preocupam com a salvação espiritual têm muitos deveres, mas, para alguém que está interessado em salvação espiritual, o único dever é render-se plenamente a Kṛṣṇa (sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja). Tal pessoa não está interessada no gozo material.
Devanagari
नामधेयानि कुर्वन्ति स्थानानि च नरा भुवि । दुर्गेति भद्रकालीति विजया वैष्णवीति च ॥ ११ ॥ कुमुदा चण्डिका कृष्णा माधवी कन्यकेति च । माया नारायणीशानी शारदेत्यम्बिकेति च ॥ १२ ॥
Verse text
nāmadheyāni kurvanti
sthānāni ca narā bhuvi
durgeti bhadrakālīti
vijayā vaiṣṇavīti ca
sthānāni ca narā bhuvi
durgeti bhadrakālīti
vijayā vaiṣṇavīti ca
kumudā caṇḍikā kṛṣṇā
mādhavī kanyaketi ca
māyā nārāyaṇīśānī
śāradety ambiketi ca
mādhavī kanyaketi ca
māyā nārāyaṇīśānī
śāradety ambiketi ca
Synonyms
nāmadheyāni — diferentes nomes; kurvanti — darão; sthānāni — em diferentes lugares; ca — também; narāḥ — pessoas interessadas no gozo material; bhuvi — na superfície do globo; durgā iti — o nome Durgā; bhadrakālī iti — o nome Bhadrakālī; vijayā — o nome Vijayā; vaiṣṇavī iti — o nome Vaiṣṇavī; ca — também; kumudā — o nome Kumudā; caṇḍikā — o nome Caṇḍikā; kṛṣṇā — o nome Kṛṣṇā; mādhavī — o nome Mādhavī; kanyakā iti — o nome Kanyakā ou Kanyā-kumārī; ca — também; māyā — o nome Māyā; nārāyaṇī — o nome Nārāyaṇī; īśānī — o nome Īśānī; śāradā — o nome Śāradā; iti — assim; ambikā — o nome Ambikā; iti — também; ca — e.
Translation
O Senhor Kṛṣṇa abençoou Māyādevī, dizendo: Em diferentes lugares da superfície da Terra, as pessoas lhe darão diferentes nomes, tais como Durgā, Bhadrakālī, Vijayā, Vaiṣṇavī, Kumudā, Caṇḍikā, Kṛṣṇā, Mādhavī, Kanyakā, Māyā, Nārāyaṇī, Īśānī, Śāradā e Ambikā.
Purport
SIGNIFICADO—Porque Kṛṣṇa e Sua energia apareceram simultaneamente, de um modo geral, as pessoas formaram dois grupos – os śāktas e os vaiṣṇavas –, e às vezes há rivalidade entre eles. Essencialmente, aqueles que estão interessados no gozo material são śāktas, e aqueles interessados em salvação espiritual e em alcançar o reino espiritual são vaiṣṇavas. Como, de um modo geral, estão interessadas no gozo material, as pessoas procuram adorar Māyādevī, a energia da Suprema Personalidade de Deus. Os vaiṣṇavas, entretanto, são śuddha-śāktas, ou bhaktas puros, porque o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa indica adoração à energia do Senhor Supremo, Harā. O vaiṣṇava pede à energia do Senhor a oportunidade de servir ao Senhor e à Sua energia espiritual. Assim, os vaiṣṇavas adoram Deidades tais como Rādhā-Kṛṣṇa, Sītā-Rāma, Lakṣmī-Nārāyaṇa e Rukmiṇī-Dvārakādhīśa, ao passo que os durgā-śāktas adoram a energia material sob diferentes nomes.
Os nomes pelos quais Māyādevī é conhecida em diferentes lugares foram listados por Vallabhācārya da seguinte maneira. Em Vārāṇasī, ela é conhecida como Durgā; em Avantī, como Bhadrakālī; em Orissa, como Vijayā, e em Kulahāpura, como Vaiṣṇavī ou Mahālakṣmī. (As formas representativas de Mahālakṣmī e Ambikā estão presentes em Bombaim.) Na região de Kāmarūpa, ela é conhecida como Caṇḍikā; na Índia setentrional, como Śārada; e no Cabo Comorin, como Kanyakā. Assim, de acordo com vários nomes, ela se espalha por vários lugares.
Em seu Pada-ratnāvalī-ṭīkā, Śrīla Vijayadhvaja Tīrthapāda explica os significados das diferentes representações. Māyā é conhecida como Durgā porque o processo pelo qual alguém se aproxima dela é muito laborioso, é conhecida como Bhadrā porque ela é auspiciosa, e é conhecida como Kālī porque sua tonalidade é fortemente azul. Como é a energia mais poderosa, ela é conhecida como Vijayā; como é uma das diferentes energias de Viṣṇu, ela é conhecida como Vaiṣṇavī; e porque desfruta neste mundo material e propicia o gozo material, ela é conhecida como Kumudā. Como é muito severa com seus inimigos, os asuras, ela é conhecida como Caṇḍikā, e como dá toda classe de facilidades materiais, ela se chama Kṛṣṇā. Eis como a energia material recebe diferentes denominações e se situa em diferentes lugares da superfície do globo.
Devanagari
गर्भसङ्कर्षणात् तं वै प्राहु: सङ्कर्षणं भुवि । रामेति लोकरमणाद् बलभद्रं बलोच्छ्रयात् ॥ १३ ॥
Verse text
garbha-saṅkarṣaṇāt taṁ vai
prāhuḥ saṅkarṣaṇaṁ bhuvi
rāmeti loka-ramaṇād
balabhadraṁ balocchrayāt
prāhuḥ saṅkarṣaṇaṁ bhuvi
rāmeti loka-ramaṇād
balabhadraṁ balocchrayāt
Synonyms
garbha-saṅkarṣaṇāt — porque será levado do ventre de Devakī para o de Rohiṇī; tam — a Ele (Rohiṇī-nandana, o filho de Rohiṇī); vai — na verdade; prāhuḥ — as pessoas chamarão; saṅkarṣaṇam — pelo nome Saṅkarṣaṇa; bhuvi — no mundo; rāma iti — Ele também será chamado Rāma; loka-rāmaṇāt — devido à Sua misericórdia especial que capacita as pessoas em geral a tornarem-se devotos; balabhadram — Ele também será chamado Balabhadra; bala-ucchrayāt — devido à intensa força física.
Translation
Por ser enviado do ventre de Devakī para o ventre de Rohiṇī, o filho de Rohiṇī também será célebre como Saṅkarṣaṇa. Ele Se chamará Rāma devido à Sua habilidade de satisfazer todos os habitantes de Gokula, e será conhecido como Balabhadra devido à Sua intensa força física.
Purport
SIGNIFICADO—Essas são algumas das razões pelas quais Balarāma é conhecido como Saṅkarṣaṇa, Balarāma ou, às vezes, Rāma. No mahā-mantra – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare –, as pessoas às vezes se opõem quando Rāma é aceito como Balarāma. Porém, embora possam objetar, os devotos do Senhor Rāma devem ficar sabendo que não há diferença entre Balarāma e o Senhor Rāma. Aqui, o Śrīmad-Bhāgavatam afirma claramente que Balarāma também é conhecido como Rāma (rāmeti). Portanto, não é artificial falarmos que o Senhor Balarāma é o Senhor Rāma. Jayadeva Gosvāmī também menciona três Rāmas: Paraśurāma, Raghupati Rāma e Balarāma. Todos eles são Rāmas.
Devanagari
सन्दिष्टैवं भगवता तथेत्योमिति तद्वच: । प्रतिगृह्य परिक्रम्य गां गता तत् तथाकरोत् ॥ १४ ॥
Verse text
sandiṣṭaivaṁ bhagavatā
tathety om iti tad-vacaḥ
pratigṛhya parikramya
gāṁ gatā tat tathākarot
tathety om iti tad-vacaḥ
pratigṛhya parikramya
gāṁ gatā tat tathākarot
Synonyms
sandiṣṭā — tendo sido ordenada; evam — assim; bhagavatā — pela Suprema Personalidade de Deus; tathā iti — que seja assim; om — afirmação através do mantra oṁ; iti — assim; tat-vacaḥ — Suas palavras; pratigṛhya — aceitando a ordem; parikramya — após circungirá-lO; gām — à superfície do globo; gatā — ela foi imediatamente; tat — a ordem, como foi dada pela Suprema Personalidade de Deus; tathā — exatamente assim; akarot — executou.
Translation
Tendo recebido estas instruções da Suprema Personalidade de Deus, Yogamāyā imediatamente concordou. Proferindo o mantra védico oṁ, ela confirmou que cumpriria o pedido dEle. Tendo então aceito a ordem da Suprema Personalidade de Deus, ela O circundou e partiu rumo ao lugar da Terra conhecido como Nanda-gokula. Ali, fez tudo que lhe fora instruído.
Purport
SIGNIFICADO—Após receber as ordens da Suprema Personalidade de Deus, Yogamāyā confirmou duas vezes que as aceitaria, dizendo: “Sim, Senhor, cumprirei Vossa ordem”, e depois falando oṁ. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta que o oṁ significa uma confirmação védica. Assim, Yogamāyā recebeu muito fielmente a ordem do Senhor como um preceito védico. O fato é que tudo o que a Suprema Personalidade de Deus fala caracteriza-se como sendo um preceito védico, o que, portanto, não pode ser negligenciado por ninguém. Nos preceitos védicos, não há erros, ilusões, enganos ou imperfeições. A menos que alguém compreenda a autoridade da versão védica, não há valor em ele citar o śāstra. Ninguém deve violar os preceitos védicos. Em vez disso, todos devem executar estritamente as ordens dadas nos Vedas. Como se afirma na Bhagavad-gītā (16.24):
tasmāc chāstraṁ pramāṇaṁ te
kāryākārya-vyavasthitau
jñātvā śāstra-vidhānoktaṁ
karma kartum ihārhasi
kāryākārya-vyavasthitau
jñātvā śāstra-vidhānoktaṁ
karma kartum ihārhasi
“É através das normas dadas nas escrituras que se deve entender o que é dever e o que não é dever. Conhecendo essas regras e regulações, todos devem agir de modo a elevarem-se gradualmente.”
Devanagari
गर्भे प्रणीते देवक्या रोहिणीं योगनिद्रया । अहो विस्रंसितो गर्भ इति पौरा विचुक्रुशु: ॥ १५ ॥
Verse text
garbhe praṇīte devakyā
rohiṇīṁ yoga-nidrayā
aho visraṁsito garbha
iti paurā vicukruśuḥ
rohiṇīṁ yoga-nidrayā
aho visraṁsito garbha
iti paurā vicukruśuḥ
Synonyms
garbhe — quando o embrião; praṇīte — foi carregado do ventre; devakyāḥ — de Devakī; rohiṇīm — ao ventre de Rohiṇī; yoga-nidrayā — pela energia espiritual chamada Yogamāyā; aho — oh!; visraṁsitaḥ — perdeu-se; garbhaḥ — o embrião; iti — assim; paurāḥ — todos os habitantes da casa; vicukruśuḥ — lamentaram-se.
Translation
Quando o filho de Devakī foi atraído e transferido para o ventre de Rohiṇī por Yogamāyā, Devakī pareceu ter sofrido um aborto. Por isso, todos os habitantes do palácio lamentaram bem alto: “Oh! Devakī perdeu seu filho!”
Purport
SIGNIFICADO—“Todos os habitantes do palácio” refere-se também a Kaṁsa. Quando todos se lamentaram, Kaṁsa, juntamente com eles, mostrou-se compassivo, pensando que, devido a drogas ou outros meios externos, Devakī sofrera esse aborto. A verdadeira história do que aconteceu depois que Yogamāyā transferiu o filho de Devakī para o ventre de Rohiṇī quando Rohiṇī estava grávida de sete meses é descrita da seguinte maneira no Hari-vaṁśa. À meia-noite, enquanto dormia profundamente, Rohiṇī teve a sensação de que, como se estivesse sonhando, sofrera um aborto. Após algum tempo, ao despertar, ela viu que isso realmente acontecera, e ela ficou muito ansiosa. Contudo, Yogamāyā informou-lhe, então: “Ó dama auspiciosa, teu filho está sendo trocado agora. Estou atraindo uma criança a partir do ventre de Devakī, e, portanto, teu filho será conhecido como Saṅkarṣaṇa.”
A palavra yoga-nidrā é significativa. Quando, através da autorrealização, alguém volta a ter vida espiritual, ele considera sua vida material como um sonho que passou. Como se afirma na Bhagavad-gītā (2.69):
yā niśā sarva-bhūtānāṁ
tasyāṁ jāgarti saṁyamī
yasyāṁ jāgrati bhūtāni
sā niśā paśyato muneḥ
tasyāṁ jāgarti saṁyamī
yasyāṁ jāgrati bhūtāni
sā niśā paśyato muneḥ
“Aquilo que é noite para todos os seres é a hora de despertar para o autocontrolado; e aquilo que é hora de despertar para todos os seres é noite para o sábio introspectivo.” A fase de autorrealização chama-se yoga-nidrā. Todas as atividades materiais parecem ser um sonho quando estamos espiritualmente acordado. Logo, pode-se explicar yoga-nidrā como sendo Yogamāyā.
Devanagari
भगवानपि विश्वात्मा भक्तानामभयङ्कर: । आविवेशांशभागेन मन आनकदुन्दुभे: ॥ १६ ॥
Verse text
bhagavān api viśvātmā
bhaktānām abhayaṅkaraḥ
āviveśāṁśa-bhāgena
mana ānakadundubheḥ
bhaktānām abhayaṅkaraḥ
āviveśāṁśa-bhāgena
mana ānakadundubheḥ
Synonyms
bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; api — também; viśvātmā — a Superalma de todas as entidades vivas; bhaktānām — dos Seus devotos; abhayam-karaḥ — sempre eliminando as causas do temor; āviveśa — entrou; aṁśa-bhāgena — com todas as Suas poderosas opulências (ṣaḍ-aiśvarya-pūrṇa); manaḥ — na mente; ānakadundubheḥ — de Vasudeva.
Translation
Assim, a Suprema Personalidade de Deus, que é a Superalma de todas as entidades vivas e que elimina de Seus devotos todo o temor, entrou na mente de Vasudeva com toda a opulência.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra viśvātmā refere-se àquele que está situado no coração de todos (īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati). Outro significado de viśvātmā é “o único objeto digno de ser amado por todos”. Devido ao fato de terem-se esquecido dessa pessoa louvável, todos estão sofrendo neste mundo material, mas, se alguém tem a grande fortuna de reviver sua antiga consciência de amor a Kṛṣṇa e ligar-se a Viśvātmā, ele se torna perfeito. O Senhor é descrito no terceiro canto (3.2.15) da seguinte maneira: parāvareśo mahad-aṁśa-yukto hy ajo ’pi jāto bhagavān. Embora não-nascido, o Senhor, o mestre de tudo, aparece como uma criança nascida, entrando na mente de um devoto. O Senhor já está dentro da mente e, por conseguinte, não é espantoso que Ele apareça como se tivesse nascido do corpo de um devoto. A palavra āviveśa significa que o Senhor apareceu na mente de Vasudeva. Não foi preciso que se ejaculasse sêmen. Esta é a opinião de Śrīpāda Śrīdhara Svāmī e de Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura. No Vaiṣṇava-toṣaṇī, Śrīla Sanātana Gosvāmī diz que a consciência despertou na mente de Vasudeva. Śrīla Vīrarāghava Ācārya também afirma que Vasudeva era um dos semideuses e que a Suprema Personalidade de Deus surgiu dentro de sua mente como um despertar de consciência.
Devanagari
स बिभ्रत् पौरुषं धाम भ्राजमानो यथा रवि: । दुरासदोऽतिदुर्धर्षो भूतानां सम्बभूव ह ॥ १७ ॥
Verse text
sa bibhrat pauruṣaṁ dhāma
bhrājamāno yathā raviḥ
durāsado ’tidurdharṣo
bhūtānāṁ sambabhūva ha
bhrājamāno yathā raviḥ
durāsado ’tidurdharṣo
bhūtānāṁ sambabhūva ha
Synonyms
saḥ — ele (Vasudeva); bibhrat — ostentava; pauruṣam — referente à Pessoa Suprema; dhāma — a refulgência espiritual; bhrājamānaḥ — iluminadora; yathā — como; raviḥ — o brilho solar; durāsadaḥ — muito difícil mesmo de se olhar, difícil de ser entendido pela percepção sensorial; ati-durdharṣaḥ — acessível com muita dificuldade; bhūtānām — a todas as entidades vivas; sambabhūva — assim ele se tornou; ha — positivamente.
Translation
Enquanto carregava a forma da Suprema Personalidade de Deus no âmago de seu coração, Vasudeva ostentava a transcendentalmente iluminadora refulgência do Senhor e, dessa maneira, tornou-se tão brilhante como o Sol. Portanto, era muito difícil aproximar-se dele ou vê-lo através da percepção sensorial. Na verdade, ele era inacessível e imperceptível até mesmo a homens tão formidáveis como Kaṁsa – e não apenas a Kaṁsa, mas a todas as entidades vivas.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra dhāma é significativa. Dhāma refere-se ao lugar onde a Suprema Personalidade de Deus reside. No começo do Śrīmad-Bhāgavatam (1.1.1), afirma-se que dhāmnā svena sadā nirasta-kuhakaṁ satyaṁ paraṁ dhīmahi. Na residência da Suprema Personalidade de Deus, a energia material não exerce influência alguma (dhāmnā svena sadā nirasta-kuhakam). Todo lugar onde a Suprema Personalidade de Deus esteja presente através de Seu nome, forma, qualidades ou parafernália imediatamente se torna um dhāma. Por exemplo, falamos de Vṛndāvana-dhāma, Dvārakā-dhāma e Mathurā-dhāma porque, nesses lugares, o nome, a fama, as qualidades e a parafernália da Divindade Suprema estão sempre presentes. De modo semelhante, se alguém recebe da Suprema Personalidade de Deus o poder para fazer algo, o âmago de seu coração se torna um dhāma, e assim ele fica tão extraordinariamente poderoso que não apenas seus inimigos, mas também as pessoas em geral, admiram-se de ver suas atividades. Como ele é inacessível, seus inimigos simplesmente ficam atônitos, como se explica aqui através das palavras durāsado ’tidurdharsaḥ.
As palavras pauruṣaṁ dhāma foram explicadas por vários ācāryas. Śrī Vīrarāghava Ācārya diz que essas palavras se referem à refulgência da Suprema Personalidade de Deus. Vijayadhvaja diz que significam viṣṇu-tejas, e Śukadeva as utiliza na acepção de bhagavat-svarūpa. O Vaiṣṇava-toṣaṇī afirma que essas palavras indicam a influência da refulgência do Senhor Supremo, e Viśvanātha Cakravartī Ṭhakura diz que elas denotam o aparecimento da Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
ततो जगन्मङ्गलमच्युतांशंसमाहितं शूरसुतेन देवी । दधार सर्वात्मकमात्मभूतंकाष्ठा यथानन्दकरं मनस्त: ॥ १८ ॥
Verse text
tato jagan-maṅgalam acyutāṁśaṁ
samāhitaṁ śūra-sutena devī
dadhāra sarvātmakam ātma-bhūtaṁ
kāṣṭhā yathānanda-karaṁ manastaḥ
samāhitaṁ śūra-sutena devī
dadhāra sarvātmakam ātma-bhūtaṁ
kāṣṭhā yathānanda-karaṁ manastaḥ
Synonyms
tataḥ — em seguida; jagat-maṅgalam — ventura para todas as entidades vivas em todos os universos da criação; acyuta-aṁśam — a Suprema Personalidade de Deus, que nunca está desprovido das seis opulências, todas as quais estão presentes em todas as Suas expansões plenárias; samāhitam — transferido com toda a plenitude; śūra-sutena — por Vasudeva, o filho de Śūrasena; devī — Devakī-devī; dadhāra — carregava; sarva-ātmakam — a Alma Suprema de todos; ātma-bhūtam — a causa de todas as causas; kāṣṭhā — o Oriente; yathā — assim como; ānanda-karam — a bem-aventurada (a Lua); manastaḥ — estando situado na mente.
Translation
Em seguida, acompanhado pelas expansões plenárias, a opulentíssima Suprema Personalidade de Deus, que é muito auspicioso para o universo inteiro, foi transferido da mente de Vasudeva para a mente de Devakī. Devakī, sendo assim iniciada por Vasudeva, tornou-se bela ao carregar no âmago de seu coração o Senhor Kṛṣṇa, a consciência original de todos, a causa de todas as causas, assim como o Oriente se torna belo por abrigar a lua nascente.
Purport
SIGNIFICADO—Como indica aqui a palavra manastaḥ, a Suprema Personalidade de Deus foi transferida de dentro da mente ou do coração de Vasudeva para dentro do coração de Devakī. Devemos atentar para o fato de que o Senhor não foi transferido a Devakī através do processo humano comum, senão que isso se deu através de dīkṣā, iniciação. Menciona-se aqui, portanto, a importância da iniciação. A menos que alguém seja iniciado pela pessoa certa, que sempre conserva em seu coração a Suprema Personalidade de Deus, ele não adquire o poder de carregar a Divindade Suprema no âmago do seu próprio coração.
A palavra acyutāṁśam é usada porque a Suprema Personalidade de Deus é ṣaḍ-aiśvarya-pūrṇa, pleno das seguintes opulências: riqueza, força, fama, conhecimento, beleza e renúncia. A Divindade Suprema nunca Se separa de Suas opulências pessoais. Como se afirma na Brahma-saṁhitā (5.39), rāmādi-mūrtiṣu kalā-niyamena tiṣṭhan: o Senhor sempre Se apresenta com todas as Suas expansões plenárias, tais como Rāma, Nṛsiṁha e Varāha. Portanto, a palavra acyutāṁśam é especificamente usada aqui, significando que o Senhor sempre está presente com Suas expansões plenárias e com Suas opulências. Ao contrário do que fazem os yogīs, não há necessidade de pensar artificialmente no Senhor. Dhyānāvasthita-tad-gatena manasā paśyanti yaṁ yoginaḥ (Śrīmad-Bhāgavatam 12.13.1). Em suas mentes, os yogīs meditam na Pessoa Suprema. Para o devoto, entretanto, o Senhor está presente, e Sua presença precisa apenas ser despertada através da iniciação concedida pelo mestre espiritual genuíno. O Senhor não precisava viver no ventre de Devakī, pois estando presente no âmago do coração dela, bastava isso para ela levá-lO consigo. Jamais se deve pensar que Vasudeva gerou Kṛṣṇa no ventre de Devakī e que ela levava a criança em seu ventre.
Ao conservar a forma da Suprema Personalidade de Deus em seu coração, Vasudeva parecia o refulgente Sol, cujos raios brilhantes sempre são insuportáveis e abrasadores para o homem comum. A forma do Senhor situada no coração puro e imaculado de Vasudeva não é diferente da forma original de Kṛṣṇa. O aparecimento da forma de Kṛṣṇa em qualquer parte, e especificamente no coração, chama-se dhāma. Dhāma refere-se não apenas à forma de Kṛṣṇa, mas ao Seu nome, Sua forma, Sua qualidade e Sua parafernália. Tudo se manifesta simultaneamente.
Portanto, a forma eterna da Suprema Personalidade de Deus, a qual tinha potências plenas, foi transferida da mente de Vasudeva para a mente de Devakī, assim como os raios do sol poente são transferidos para a lua cheia que surge no Oriente.
Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, veio do corpo de Vasudeva e entrou no corpo de Devakī. Suas condições são bem diferentes daquelas em que está situada a entidade viva comum. Quando Kṛṣṇa está presente, é bom que se saiba que todas as Suas expansões plenárias, tais como Nārāyaṇa, e encarnações como Nṛsiṁha e Varāha, estão com Ele, e elas não estão sujeitas às condições da existência material. Dessa maneira, Devakī tornou-se a residência da Suprema Personalidade de Deus, que, único e inigualável, é a causa de toda a criação. Devakī se tornou a residência da Verdade Absoluta, mas, como estava na casa de Kaṁsa, ela parecia um fogo abafado, ou o conhecimento mal utilizado. Quando o fogo é coberto pelas paredes de um pote ou é mantido em uma jarra, os raios iluminantes do fogo não são muito valorizados. Igualmente, o conhecimento mal utilizado, que não beneficia as pessoas em geral, não é muito apreciado. Assim, Devakī foi mantida entre as paredes da prisão do palácio de Kaṁsa, e ninguém podia ver sua beleza transcendental, resultante do fato de ela ter concebido a Suprema Personalidade de Deus.
Comentando este verso, Śrī Vīrarāghava Ācārya escreve: vasudeva-devakī jaṭharayor hṛdayayor bhagavataḥ sambandhaḥ. O episódio em que o Senhor Supremo vem do coração de Vasudeva e entra no ventre de Devakī foi um relacionamento de coração para coração.
Devanagari
सा देवकी सर्वजगन्निवास-निवासभूता नितरां न रेजे । भोजेन्द्रगेहेऽग्निशिखेव रुद्धासरस्वती ज्ञानखले यथा सती ॥ १९ ॥
Verse text
sā devakī sarva-jagan-nivāsa-
nivāsa-bhūtā nitarāṁ na reje
bhojendra-gehe ’gni-śikheva ruddhā
sarasvatī jñāna-khale yathā satī
nivāsa-bhūtā nitarāṁ na reje
bhojendra-gehe ’gni-śikheva ruddhā
sarasvatī jñāna-khale yathā satī
Synonyms
sā devakī — esta Devakīdevī; sarva-jagat-nivāsa — da Suprema Personalidade de Deus, aquele que sustenta todos os universos (mat-sthāni sarva-bhūtāni); nivāsa-bhūtā — o ventre de Devakī agora se tornou a residência; nitarām — amplamente; na — não; reje — tornou-se iluminada; bhojendra-gehe — dentro dos limites da casa de Kaṁsa; agni-śikhā iva — como as chamas de um fogo; ruddhā — coberto; sarasvatī — conhecimento; jñāna-khale — em uma pessoa conhecida como jñāna-khala, alguém que possui conhecimento mas não pode distribuí-lo; yathā — ou assim como; satī — sendo assim.
Translation
Devakī mantinha então dentro de si a Suprema Personalidade de Deus, a causa de todas as causas, o alicerce de todo o cosmo, mas, como estava aprisionada na casa de Kaṁsa, ela era como a chama de um fogo coberto pelas paredes de um pote, ou como uma pessoa que tem conhecimento mas não pode distribuí-lo ao mundo para poder beneficiar a sociedade humana.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra jñāna-khala é muito expressiva. O conhecimento serve para ser distribuído. Embora já exista muito conhecimento científico, sempre que despertam para uma determinada espécie de conhecimento, os cientistas ou filósofos tentam distribuí-lo em todo o mundo, pois, de outro modo, o conhecimento aos poucos se esvai e ninguém se beneficia com ele. A Índia tem o conhecimento da Bhagavad-gītā, mas, infelizmente, por alguma razão ou outra, esse sublime conhecimento da ciência de Deus não foi espalhado pelo mundo, embora ele se destine a toda a sociedade humana. Portanto, o próprio Kṛṣṇa apareceu como Śrī Caitanya Mahāprabhu e ordenou que todos os indianos aceitassem a tarefa de distribuir o conhecimento da Bhagavad-gītā em todo o mundo.
yāre dekha, tāre kaha ‘kṛṣṇa’-upadeśa
āmāra ājñāya guru hañā tāra’ ei deśa
āmāra ājñāya guru hañā tāra’ ei deśa
“Ensinai todos a seguirem as ordens do Senhor Śrī Kṛṣṇa como são dadas na Bhagavad-gītā e no Śrīmad-Bhāgavatam. Dessa maneira, tornai-vos mestres espirituais e tentai libertar todos aqueles que vivem nesta terra.” (Caitanya-caritāmṛta, Madhya 7.128) Embora a Índia tenha o conhecimento sublime da Bhagavad-gītā, os indianos não cumpriram seu importante dever de distribuí-lo. Agora, portanto, o movimento da consciência de Kṛṣṇa formou-se para distribuir este conhecimento como ele é, sem distorções. Embora tenham-se realizado tentativas anteriores de distribuir o conhecimento da Bhagavad-gītā, essas tentativas envolviam distorções e compromisso com o conhecimento mundano. Agora, entretanto, o movimento da consciência de Kṛṣṇa está distribuindo, sem comprometimentos mundanos, a Bhagavad-gītā como ela é, e as pessoas estão obtendo os benefícios de despertarem para a consciência de Kṛṣṇa e tornarem-se devotos do Senhor Kṛṣṇa. Portanto, deu-se início à distribuição adequada do conhecimento através do qual não apenas o mundo inteiro se beneficiará, mas a glória da Índia será engrandecida na sociedade humana. Kaṁsa tentou prender a consciência de Kṛṣṇa dentro de sua casa (bhojendra-gehe), com o resultado de que Kaṁsa, com todas as suas opulências, mais tarde foi aniquilado. Igualmente, o verdadeiro conhecimento da Bhagavad-gītā estava sendo sufocado por líderes indianos inescrupulosos, com o resultado de que a cultura da Índia, bem como o conhecimento acerca do Supremo, estavam se desfazendo. Agora, entretanto, como a consciência de Kṛṣṇa está se espalhando, o uso adequado da Bhagavad-gītā está sendo implantado.
Devanagari
तां वीक्ष्य कंस: प्रभयाजितान्तरांविरोचयन्तीं भवनं शुचिस्मिताम् । आहैष मे प्राणहरो हरिर्गुहांध्रुवं श्रितो यन्न पुरेयमीदृशी ॥ २० ॥
Verse text
tāṁ vīkṣya kaṁsaḥ prabhayājitāntarāṁ
virocayantīṁ bhavanaṁ śuci-smitām
āhaiṣa me prāṇa-haro harir guhāṁ
dhruvaṁ śrito yan na pureyam īdṛśī
virocayantīṁ bhavanaṁ śuci-smitām
āhaiṣa me prāṇa-haro harir guhāṁ
dhruvaṁ śrito yan na pureyam īdṛśī
Synonyms
tām — a ela (Devakī); vīkṣya — após ver; kaṁsaḥ — seu irmão Kaṁsa; prabhayā — com o esplendor de sua beleza e encanto; ajita-antarām — por manter Ajita, a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, dentro de si; virocayantīm — iluminando; bhavanam — toda a atmosfera da casa; śuci-smitām — sorridente e brilhante; āha — disse de si para si; eṣaḥ — esta (Pessoa Suprema); me — meu; prāṇa-haraḥ — que vai me matar; hariḥ — o Senhor Viṣṇu; guhām — no ventre de Devakī; dhruvam — decerto; śritaḥ — refugiou-Se; yat — porque; na — não era; purā — anteriormente; iyam — Devakī; īdṛśī — assim.
Translation
Porque a Suprema Personalidade de Deus estava em seu ventre, Devakī iluminava toda a atmosfera do lugar onde estava confinada. Vendo-a jubilosa, pura e sorridente, Kaṁsa pensou: “A Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, que agora está dentro dela, ceifará a minha vida. Afinal, Devakī nunca pareceu tão brilhante e alegre.”
Purport
SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (4.7), o Senhor diz:
yadā yadā hi dharmasya
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
“Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante de irreligião – aí então Eu próprio desço.” Nesta era, no momento atual, há múltiplas falhas no cumprimento dos deveres humanos. A vida humana destina-se a que se compreenda Deus, mas, infelizmente, a civilização materialista quer apenas satisfazer o corpo, pois não entende a força vital que está dentro do corpo. Como se afirma claramente na Bhagavad-gītā (dehino ’smin yathā dehe): dentro do corpo, está o proprietário do corpo, a força vital, que, entre os dois, é a mais importante. Mas a sociedade humana tornou-se tão degradada que, em vez de procurar entender a força vital encontrada dentro do corpo, as pessoas se ocupam em atividades externas. Isso é o mesmo que fugir dos deveres humanos. Portanto, Kṛṣṇa nasceu ou refugiou-Se no ventre do movimento da consciência de Kṛṣṇa. Os homens da classe de Kaṁsa, portanto, têm muito medo e estão atarefados em tentar acabar com este movimento, especialmente nos países ocidentais. Um político comentou que o movimento da consciência de Kṛṣṇa está se espalhando como uma epidemia e que, se não for imediatamente contido, dentro de dez anos poderá assumir o poder governamental. Existe, é claro, essa potência no movimento da consciência de Kṛṣṇa. Como afirmam as autoridades (Caitanya-caritāmṛta, Ādi 17.22), kali-kāle nāma-rūpe kṛṣṇa-avatāra: nesta era, Kṛṣṇa apareceu no mahā-mantra Hare Kṛṣṇa. O movimento da consciência de Kṛṣṇa está se espalhando ampla e rapidamente por todo o mundo, e continuará agindo assim. Os homens que são como Kaṁsa têm muito medo do progresso do movimento e de sua aceitação pela geração mais jovem, mas, assim como Kṛṣṇa não pôde ser morto por Kaṁsa, este movimento não poderá ser debelado por homens da classe de Kaṁsa. O movimento sempre continuará crescendo, contanto que os líderes do movimento permaneçam firmemente conscientes de Kṛṣṇa, seguindo os princípios reguladores e a atividade principal de cantar com regularidade o mantra Hare Kṛṣṇa.
Devanagari
किमद्य तस्मिन् करणीयमाशु मेयदर्थतन्त्रो न विहन्ति विक्रमम् । स्त्रिया: स्वसुर्गुरुमत्या वधोऽयंयश: श्रियं हन्त्यनुकालमायु: ॥ २१ ॥
Verse text
kim adya tasmin karaṇīyam āśu me
yad artha-tantro na vihanti vikramam
striyāḥ svasur gurumatyā vadho ’yaṁ
yaśaḥ śriyaṁ hanty anukālam āyuḥ
yad artha-tantro na vihanti vikramam
striyāḥ svasur gurumatyā vadho ’yaṁ
yaśaḥ śriyaṁ hanty anukālam āyuḥ
Synonyms
kim — o que; adya — agora, imediatamente; tasmin — nesta situação; karaṇīyam — deve ser feito; āśu — sem demora; me — meu dever; yat — porque; artha-tantraḥ — a Suprema Personalidade de Deus, que sempre está determinado a proteger os sādhus e matar os asādhus; na — não; vihanti — abandona; vikramam — Seu poder; striyāḥ — de uma mulher; svasuḥ — de minha irmã; guru-matyāḥ — especialmente porque ela está grávida; vadhaḥ ayam — a aniquilação; yaśaḥ — fama; śriyam — opulência; hanti — se minarão; anukālam — para sempre; āyuḥ — e a duração de vida.
Translation
Kaṁsa pensou: Qual é o meu dever agora? O Senhor Supremo, que conhece Seu propósito, não abdicará de Seu poder. Devakī é uma mulher, é minha irmã, e, além disso, agora está grávida. Se eu tirar a sua vida, minha reputação, opulência e duração de vida decerto se minarão.
Purport
SIGNIFICADO—De acordo com os princípios védicos, nunca se deve matar uma mulher, um brāhmaṇa, um ancião, uma criança e uma vaca. Parece que Kaṁsa, embora um grande inimigo da Suprema Personalidade de Deus, conhecia a cultura védica e estava devidamente informado acerca do fato de que a alma transmigra de um corpo a outro e de que, na vida seguinte, todos sofrem o karma desta vida. Portanto, ele temia matar Devakī, pois ela era uma mulher, era sua irmã, e estava grávida. Um kṣatriya torna-se famoso realizando atos heroicos. Contudo, o que haveria de heroico em matar uma mulher que, confinada sob sua custódia, estava sob seu abrigo? Portanto, ele não queria tomar uma medida drástica, matando Devakī. O inimigo de Kaṁsa estava no ventre de Devakī, mas matar o inimigo em tal estado indefeso não seria uma exibição de poder. De acordo com as regras kṣatriyas, deve-se combater o inimigo face a face e com armas adequadas. Então, se o inimigo for morto, o vencedor se tornará famoso. Com ponderação, Kaṁsa deliberou sobre esse fato e, portanto, absteve-se de matar Devakī, embora não lhe restasse nenhuma dúvida de que seu inimigo já havia aparecido no ventre dela.
Devanagari
स एष जीवन् खलु सम्परेतोवर्तेत योऽत्यन्तनृशंसितेन । देहे मृते तं मनुजा: शपन्तिगन्ता तमोऽन्धं तनुमानिनो ध्रुवम् ॥ २२ ॥
Verse text
sa eṣa jīvan khalu sampareto
varteta yo ’tyanta-nṛśaṁsitena
dehe mṛte taṁ manujāḥ śapanti
gantā tamo ’ndhaṁ tanu-mānino dhruvam
varteta yo ’tyanta-nṛśaṁsitena
dehe mṛte taṁ manujāḥ śapanti
gantā tamo ’ndhaṁ tanu-mānino dhruvam
Synonyms
saḥ — ela; eṣaḥ — aquela pessoa invejosa; jīvan — enquanto viva; khalu — mesmo; samparetaḥ — está morta; varteta — continua a viver; yaḥ — qualquer pessoa que; atyanta — muito; nṛśaṁsitena — executando atividades cruéis; dehe — quando o corpo; mṛte — se acaba; tam — a ela; manujāḥ — todos os seres humanos; śapanti — condenam; gantā — ela irá; tamaḥ andham — à vida infernal; tanu-māninaḥ — de alguém no conceito de vida corporal; dhruvam — sem dúvida alguma.
Translation
Aquele que é muito cruel é tido como morto, mesmo em vida, pois, enquanto está vivo ou após sua morte, todos o condenam. E depois que morre, alguém que está no conceito de vida corpóreo é certamente transferido ao inferno conhecido como Andhatama.
Purport
SIGNIFICADO—Kaṁsa considerou que, se matasse sua irmã, seria condenado por todos enquanto vivesse e, após a morte, iria à mais escura região da vida infernal devido à sua crueldade. Afirma-se que uma pessoa cruel, como um açougueiro, é aconselhada a não viver e a não morrer também. Enquanto vive, uma pessoa cruel cria uma condição infernal para seu próximo nascimento, de modo que ela não deve viver; mas também é aconselhada a não morrer, porque, após a morte, ela tem de ir à mais escura região infernal. Logo, em qualquer circunstância, ela está condenada. Kaṁsa, portanto, tendo bom senso no que diz respeito à ciência da transmigração da alma, optou por não matar Devakī.
Neste verso, as palavras gantā tamo ’ndhaṁ tanu-mānino dhruvam são muito importantes e deve-se compreendê-las bem. Śrīla Jīva Gosvāmī, em seu Vaiṣṇava-toṣaṇī-ṭīkā, diz: tatra tanu-māninaḥ pāpina iti dehātma-buddhyaiva pāpābhiniveśo bhavati: “Aquele que está sempre no conceito corpóreo, pensando: ‘Eu sou este corpo’, envolve-se, pela própria natureza dessa concepção, em uma vida de atividades pecaminosas. Todo aquele que adote essa concepção deve ser tido como apto para o inferno.”
adānta-gobhir viśatāṁ tamisraṁ
punaḥ punaś carvita-carvaṇānām
punaḥ punaś carvita-carvaṇānām
(Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.30)
Aquele que está no conceito de vida corpóreo não consegue exercer controle sobre o gozo dos sentidos. Semelhante pessoa pode cometer qualquer atividade pecaminosa para conseguir comer, beber, alegrar-se e desfrutar de uma vida de gozo dos sentidos, pois desconhece que a alma transmigra de um corpo a outro. Essa pessoa faz o que quer, tudo o que pensa, de modo que, subordinada às leis da natureza, sofre terrivelmente, repetidamente aceitando diferentes corpos materiais.
yāvat kriyās tāvad idaṁ mano vai
karmātmakaṁ yena śarīra-bandhaḥ
karmātmakaṁ yena śarīra-bandhaḥ
(Śrīmad-Bhāgavatam 5.5.5)
A pessoa situada no conceito de vida corpórea é karmānubandha, ou condicionada ao karma, e enquanto a mente estiver absorta em karma, devem-se aceitar corpos materiais. Śarīra-bandha, o cativeiro ao corpo material, é uma fonte de sofrimento (kleśa-da).
na sādhu manye yata ātmano ’yam
asann api kleśada āsa dehaḥ
asann api kleśada āsa dehaḥ
(Śrīmad-Bhāgavatam 5.5.4)
Embora seja temporário, o corpo sempre nos causa vários tipos de problemas, mas a atual civilização humana, infelizmente, baseia-se em tanu-mānī, o conceito de vida corpóreo, através do qual se pensa: “Eu pertenço a esta nação”, “Eu pertenço a este grupo”, “Eu pertenço àquele grupo” e assim por diante. Cada um de nós tem suas próprias ideias, e, individual, social, comunitária e nacionalmente, estamos cada vez mais nos envolvendo nas complexidades de karmānubandha, atividades pecaminosas. Para manter o corpo, os homens estão matando muitos outros corpos e implicando-se em karmānubandha. Portanto, Śrīla Jīva Gosvāmī diz que tanu-mānī, aqueles que estão no conceito de vida corpóreo, são pāpī, pecaminosos. Para essas pessoas pecaminosas, o destino final é a mais escura região da vida infernal (gantā tamo ’ndham). Em particular, aquele que busca manter seu corpo matando animais é muito pecaminoso e não pode entender o valor da vida espiritual. Na Bhagavad-gītā (16.19-20), o Senhor diz:
tān ahaṁ dviṣataḥ krūrān
saṁsāreṣu narādhamān
kṣipāmy ajasram aśubhān
āsurīṣv eva yoniṣu
saṁsāreṣu narādhamān
kṣipāmy ajasram aśubhān
āsurīṣv eva yoniṣu
āsurīṁ yonim āpannā
mūḍhā janmani janmani
mām aprāpyaiva kaunteya
tato yānty adhamāṁ gatim
mūḍhā janmani janmani
mām aprāpyaiva kaunteya
tato yānty adhamāṁ gatim
“Aqueles que são invejosos e maliciosos, os mais baixos entre os homens, Eu os lanço perpetuamente no oceano da existência material, em várias espécies de vida demoníaca. Submetendo-se a repetidos nascimentos entre as espécies de vida demoníaca, ó filho de Kuntī, tais pessoas jamais conseguem aproximar-se de Mim. Aos poucos, elas se afundam na mais abominável condição de existência.” O ser humano destina-se a entender o valor da vida humana, que é uma dádiva obtida após muitos e muitos nascimentos. Portanto, todos devem livrar-se de tanu-mānī, o conceito de vida corpóreo, e compreender a Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
इति घोरतमाद् भावात् सन्निवृत्त: स्वयं प्रभु: । आस्ते प्रतीक्षंस्तज्जन्म हरेर्वैरानुबन्धकृत् ॥ २३ ॥
Verse text
iti ghoratamād bhāvāt
sannivṛttaḥ svayaṁ prabhuḥ
āste pratīkṣaṁs taj-janma
harer vairānubandha-kṛt
sannivṛttaḥ svayaṁ prabhuḥ
āste pratīkṣaṁs taj-janma
harer vairānubandha-kṛt
Synonyms
iti — assim (pensando da maneira acima mencionada); ghora-tamāt bhāvāt — do hediondo plano de matar sua irmã; sannivṛttaḥ — absteve-se; svayam — pessoalmente deliberando; prabhuḥ — aquele que tinha pleno conhecimento (Kaṁsa); āste — permaneceu; pratīkṣan — esperando o momento; tat-janma — até o nascimento dEle; hareḥ — da Suprema Personalidade de Deus, Hari; vaira-anubandha-kṛt — determinado a continuar cultivando tal inimizade.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Fazendo essa deliberação, Kaṁsa, embora determinado a continuar cultivando inimizade contra a Suprema Personalidade de Deus, absteve-se de cometer o desonroso extermínio de sua irmã. Ele decidiu esperar até que o Senhor nascesse e então tomar as medidas cabíveis.
Devanagari
आसीन: संविशंस्तिष्ठन् भुञ्जान: पर्यटन् महीम् । चिन्तयानो हृषीकेशमपश्यत् तन्मयं जगत् ॥ २४ ॥
Verse text
āsīnaḥ saṁviśaṁs tiṣṭhan
bhuñjānaḥ paryaṭan mahīm
cintayāno hṛṣīkeśam
apaśyat tanmayaṁ jagat
bhuñjānaḥ paryaṭan mahīm
cintayāno hṛṣīkeśam
apaśyat tanmayaṁ jagat
Synonyms
āsīnaḥ — ao sentar-se confortavelmente em sua sala de estar ou no trono; saṁviśan — ou ao deitar-se na cama; tiṣṭhan — ou onde quer que estivesse; bhuñjānaḥ — enquanto comia; paryaṭan — enquanto caminhava ou locomovia-se; mahīm — no solo, indo de uma a outra parte; cintayānaḥ — sempre pensando inamistosamente em; hṛṣīkeśam — a Suprema Personalidade de Deus, o controlador de tudo; apaśyat — observava; tat-mayam — consistindo nEle (Kṛṣṇa), e em nada mais; jagat — o mundo inteiro.
Translation
Ao sentar-se em seu trono ou em sua sala de estar, ao deitar-se na cama, ou, na verdade, onde quer que estivesse, e enquanto comia, dormia ou caminhava, Kaṁsa via apenas seu inimigo, o Senhor Supremo, Hṛṣīkeśa. Em outras palavras, pensando em seu inimigo onipenetrante, Kaṁsa tornou-se desfavoravelmente consciente de Kṛṣṇa.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Rūpa Gosvāmī descreve o mais refinado padrão de serviço devocional como ānukūlyena kṛṣṇānuśīlanam, ou cultivar a consciência de Kṛṣṇa favoravelmente. Kaṁsa, é claro, também era consciente de Kṛṣṇa, mas, como tratava Kṛṣṇa por seu inimigo, muito embora estivesse absorto em plena consciência de Kṛṣṇa, sua consciência de Kṛṣṇa não era favorável à sua existência. A consciência de Kṛṣṇa, favoravelmente cultivada, torna alguém felicíssimo, tanto que a pessoa consciente de Kṛṣṇa não considera kaivalya-sukham, ou imergir na existência de Kṛṣṇa, como um grande ganho. Kaivalyaṁ narakāyate. Para aquele que é consciente de Kṛṣṇa, até mesmo imergir na existência de Kṛṣṇa, ou atingir o Brahman, como almejam os impersonalistas, é algo desagradável. Kaivalyaṁ narakāyate tridaśa-pūr ākāśa-puṣpāyate. Os karmīs desejam ser promovidos aos planetas celestiais, mas a pessoa consciente de Kṛṣṇa considera essa promoção um fogo-fátuo, que não possui utilidade alguma. Durdāntendriya-kāla-sarpa-paṭalī protkhāta-daṁṣṭrāyate. Os yogīs tentam controlar seus sentidos e, dessa maneira, tornarem-se felizes, mas a pessoa consciente de Kṛṣṇa não se importa com os métodos de yoga. Ela não se preocupa nem mesmo com o maior dos inimigos, os sentidos, que são comparados a serpentes. Para alguém consciente de Kṛṣṇa e que cultiva favoravelmente a consciência de Kṛṣṇa, a felicidade concebida pelos karmīs, jñānīs e yogīs é de importância inferior. Kaṁsa, entretanto, devido ao fato de cultivar a consciência de Kṛṣṇa de outra maneira – isto é, inamistosamente – sentia-se mal em todos os afazeres de sua vida; sentado, dormindo, caminhando ou comendo, ele sempre estava em perigo. Essa é a diferença entre o devoto e o não-devoto. O não-devoto ou ateísta também cultiva a consciência de Deus – tentando evitar Deus em tudo. Por exemplo, os supostos cientistas que querem criar a vida através de uma combinação de elementos químicos consideram os elementos materiais externos como supremos. Esses cientistas não gostam da ideia de que a vida é parte integrante do Senhor Supremo. Como se afirma claramente na Bhagavad-gītā (mamaivāṁśo jīva-loke jīva-bhūtaḥ), as entidades vivas não surgem de uma combinação de elementos materiais, tais como terra, água, ar e fogo, senão que são porções separadas da Suprema Personalidade de Deus. Se alguém pode entender a posição da entidade viva como uma porção separada da Suprema Personalidade de Deus, estudando a natureza da entidade viva, poderá entender a natureza da Divindade Suprema, uma vez que a entidade viva é uma amostra fragmentária da Divindade. Porém, como não estão interessados em consciência de Deus, os ateístas tentam ser felizes cultivando a consciência de Kṛṣṇa de várias maneiras desfavoráveis.
Embora estivesse sempre absorto em pensar em Hari, a Suprema Personalidade de Deus, Kaṁsa não se sentia feliz. O devoto, entretanto, quer sentado em um trono, quer debaixo de uma árvore, sempre é feliz. Śrīla Rūpa Gosvāmī renunciou ao gabinete de ministro do governo para sentar-se sob uma árvore, mas ele era feliz. Tyaktvā tūrṇam aśeṣa-maṇḍalapati-śreṇīṁ sadā tucchavat (Ṣaḍ-gosvāmy-aṣṭaka 4). Ele não se importava com sua confortável posição de ministro; em Vṛndāvana, ele se sentia feliz mesmo debaixo de uma árvore, servindo favoravelmente à Suprema Personalidade de Deus. Essa é a diferença entre o devoto e o não-devoto. Para o não-devoto, o mundo está cheio de problemas, ao passo que, para o devoto, o mundo inteiro transborda de felicidade.
viśvaṁ pūrṇa-sukhāyate vidhi-mahendrādiś ca kīṭāyate
yat-kāruṇya-kaṭākṣa-vaibhavavatāṁ taṁ gauram eva stumaḥ
yat-kāruṇya-kaṭākṣa-vaibhavavatāṁ taṁ gauram eva stumaḥ
(Caitanya-candrāmṛta 95)
Essa posição confortável do devoto pode ser alcançada pela misericórdia do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Yasmin sthito na duḥkhena guruṇāpi vicālyate (Bhagavad-gītā 6.22). Mesmo quando é aparentemente posto em grande dificuldade, o devoto jamais se perturba.
Devanagari
ब्रह्मा भवश्च तत्रैत्य मुनिभिर्नारदादिभि: । देवै: सानुचरै: साकं गीर्भिर्वृषणमैडयन् ॥ २५ ॥
Verse text
brahmā bhavaś ca tatraitya
munibhir nāradādibhiḥ
devaiḥ sānucaraiḥ sākaṁ
gīrbhir vṛṣaṇam aiḍayan
munibhir nāradādibhiḥ
devaiḥ sānucaraiḥ sākaṁ
gīrbhir vṛṣaṇam aiḍayan
Synonyms
brahmā — o supremo semideus de quatro cabeças; bhavaḥ ca — e o senhor Śiva; tatra — lá; etya — chegando; munibhiḥ — acompanhados por grandes sábios; nārada-ādibhiḥ — por Nārada e outros; devaiḥ — e por semideuses como Indra, Candra e Varuṇa; sa-anucaraiḥ — com seus seguidores; sākam — todos juntos; gīrbhiḥ — com suas orações transcendentais; vṛṣaṇam — a Suprema Personalidade de Deus, que pode conceder bênçãos a todos; aiḍayan — satisfizeram.
Translation
O senhor Brahmā e o senhor Śiva, acompanhados por grandes sábios, como Nārada, Devala e Vyāsa, e por outros semideuses, como Indra, Candra e Varuṇa, aproximaram-se invisivelmente dos aposentos de Devakī, onde todos eles se juntaram em oferecer suas respeitosas reverências e orações para satisfazer a Suprema Personalidade de Deus, que pode abençoar a todos.
Purport
SIGNIFICADO—Dvau bhūta-sargau loke ’smin daiva āsura eva ca (Padma Purāṇa). Existem duas classes de homens – os daivas e os asuras – e há uma grande diferença entre eles. Kaṁsa, sendo um asura, estava sempre planejando matar a Suprema Personalidade de Deus ou Sua mãe, Devakī. Logo, ele também era consciente de Kṛṣṇa. Mas os devotos são conscientes de Kṛṣṇa favoravelmente (viṣṇu-bhaktaḥ smṛto daivaḥ). Brahmā é tão poderoso que fica encarregado de criar um universo inteiro, apesar do que ele pessoalmente veio recepcionar a Suprema Personalidade de Deus. Bhava, o senhor Śiva, sempre se alegra cantando o santo nome do Senhor. E o que dizer de Nārada? Nārada-muni, bājāya vīṇā, rādhikā-ramaṇa-nāme. Nārada Muni está sempre cantando as glórias do Senhor, e sua ocupação é viajar por todo o universo para falar com devotos ou transformar alguém em devoto. Mesmo um caçador se fez devoto pela graça de Nārada. Śrīla Sanātana Gosvāmī, em seu Toṣaṇī, afirma que a palavra nārada-ādibhiḥ denota que Nārada e os semideuses estavam acompanhados de outras pessoas santas, como Sanaka e Sanātana, todos os quais vieram cumprimentar ou acolher a Suprema Personalidade de Deus. Muito embora planejasse matar Devakī, Kaṁsa também aguardava a chegada da Suprema Personalidade de Deus (pratīkṣaṁs taj-janma).
Devanagari
सत्यव्रतं सत्यपरं त्रिसत्यंसत्यस्य योनिं निहितं च सत्ये । सत्यस्य सत्यमृतसत्यनेत्रंसत्यात्मकं त्वां शरणं प्रपन्ना: ॥ २६ ॥
Verse text
satya-vrataṁ satya-paraṁ tri-satyaṁ
satyasya yoniṁ nihitaṁ ca satye
satyasya satyam ṛta-satya-netraṁ
satyātmakaṁ tvāṁ śaraṇaṁ prapannāḥ
satyasya yoniṁ nihitaṁ ca satye
satyasya satyam ṛta-satya-netraṁ
satyātmakaṁ tvāṁ śaraṇaṁ prapannāḥ
Synonyms
satya-vratam — a Personalidade de Deus, que nunca Se desvia de Seu voto[1]; satya-param — que é a Verdade Absoluta (como se afirma no começo do Śrīmad-Bhāgavatam, satyaṁ paraṁ dhīmahi); tri-satyam — antes da criação desta manifestação cósmica, durante sua manutenção, e inclusive após sua aniquilação, Ele sempre está presente como a Verdade Absoluta; satyasya — de todas as verdades relativas, que emanam da Verdade Absoluta, Kṛṣṇa; yonim — a causa; nihitam — entrou[2]; ca — e; satye — nos fatores que criam este mundo material (a saber, os cinco elementos terra, água, fogo, ar e éter); satyasya — de tudo o que é aceito como verdade; satyam — o Senhor é a verdade original; ṛta-satya-netram — Ele é a origem de toda verdade que é agradável (sunetram); satya-ātmakam — tudo relacionado com o Senhor é verdade (sac-cid-ānanda: Seu corpo é verdade, Seu conhecimento é verdade, e Seu prazer é verdade); tvām — a Vós, ó Senhor; śaraṇam — oferecendo nossa rendição plena; prapannāḥ — estamos sob Vossa completa proteção. [1] O Senhor faz o seguinte voto: yadā yadā hi dharmasya glānir bhavati bhārata/ abhyutthānam adharmasya tadātmānaṁ sṛjāmy aham (Bhagavad-gītā 4.7) Para honrar este voto, o Senhor apareceu. [2] O Senhor entra em tudo, inclusive no átomo: aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-stham. (Brahma-saṁhitā 5.44).
Translation
Os semideuses oraram: Ó Senhor, nunca Vos desviais de Vosso voto, que sempre é perfeito porque tudo o que decidis é inteiramente correto e não pode ser revogado por ninguém. Estando presente nas três fazes da manifestação cósmica – criação, manutenção e aniquilação –, sois a Verdade suprema. De fato, a menos que seja completamente veraz, uma pessoa não pode obter o Vosso favor, o que, portanto, não pode ser obtido pelos hipócritas. Sois o princípio ativo, a verdade pura, presente em todos os ingredientes da criação, e, portanto, sois conhecido por antaryāmī, a força interior. Sois igual com todos, por todo o tempo. Sois onde começa toda a verdade. Portanto, oferecendo nossas reverências, rendemo-nos a Vós. Por favor, protegei-nos.
Purport
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SIGNIFICADO—Os semideuses ou devotos sabem perfeitamente bem que a Suprema Personalidade de Deus é de fato a essência tanto deste mundo material quanto do mundo espiritual. Portanto, o Śrīmad-Bhāgavatam começa com as palavras oṁ namo bhagavate vāsudevāya [...] satyaṁ paraṁ dhīmahi. Vāsudeva, Kṛṣṇa, é o paraṁ satyam, a Verdade Suprema. Como declara a Verdade Suprema: bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ (Bhagavad-gītā 18.55), pode-se abordar ou entender a Verdade Suprema pelo método supremo. Bhakti, o serviço devocional, é o único caminho para se entender a Verdade Absoluta. Em busca de proteção, portanto, os semideuses rendem-se à Verdade Suprema, e não à verdade relativa. Existem pessoas que adoram vários semideuses, mas, na Bhagavad-gītā (7.23), a Verdade Suprema, Kṛṣṇa, declara que antavat tu phalaṁ teṣāṁ tad bhavaty alpa-medhasām: “Os homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários.” A adoração aos semideuses pode ser útil por um tempo limitado, mas o resultado é antavat, perecível. Este mundo material é passageiro, os semideuses são passageiros, e as bênçãos obtidas dos semideuses também são passageiras, mas a entidade viva é eterna (nityo nityānāṁ cetanaś cetanānām, Kaṭha Upaniṣad 2.2.13). Toda entidade viva, portanto, deve buscar a felicidade eterna, e não a felicidade temporária. As palavras satyaṁ paraṁ dhīmahi mostram que se deve buscar a Verdade Absoluta, e não a verdade relativa.
Enquanto oferecia orações à Suprema Personalidade de Deus Nṛsiṁhadeva, Prahlāda Mahārāja disse:
bālasya neha śaraṇaṁ pitarau nṛsiṁha
nārtasya cāgadam udanvati majjato nauḥ
nārtasya cāgadam udanvati majjato nauḥ
De um modo geral, entende-se que os protetores de uma criança são seus pais, mas isso não é exatamente a verdade. O real protetor é a Suprema Personalidade de Deus.
taptasya tat-pratividhir ya ihāñjaseṣṭas
tāvad vibho tanu-bhṛtāṁ tvad-upekṣitānām
tāvad vibho tanu-bhṛtāṁ tvad-upekṣitānām
(Śrīmad-Bhāgavatam 7.9.19)
Se não receber a atenção da Suprema Personalidade de Deus, um filho, apesar da presença de seus pais, sofrerá, e alguém doente, mesmo recebendo toda a ajuda médica, morrerá. Neste mundo material, onde se luta pela existência, os homens inventaram muitos meios de proteção, mas esses são inúteis se a Suprema Personalidade de Deus não os apoia. Portanto, os semideuses propositalmente dizem que satyātmakaṁ tvāṁ śaraṇaṁ prapannāḥ: “A verdadeira proteção pode ser obtida de Vós, o Senhor, de modo que nos rendemos a Vós.”
O Senhor exige que todos se rendam a Ele (sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja), e diz também:
sakṛd eva prapanno yas
tavāsmīti ca yācate
abhayaṁ sarvadā tasmai
dadāmy etad vrataṁ mama
tavāsmīti ca yācate
abhayaṁ sarvadā tasmai
dadāmy etad vrataṁ mama
“Se alguém se rende a Mim com sinceridade, dizendo: ‘Meu Senhor, a partir deste dia, estou plenamente rendido a Vós’, sempre lhe darei proteção. Eu fiz este voto.” (Rāmāyaṇa, Yuddha-kāṇḍa 18.33) Os semideuses ofereceram orações à Suprema Personalidade de Deus porque Ele acabava de aparecer no ventre de Sua devota Devakī, para proteger todos os devotos afligidos por Kaṁsa e seus comparsas. Logo, o Senhor age como satyavrata. A proteção dada pelos semideuses nem se pode comparar à proteção dada pela Suprema Personalidade de Deus. Afirma-se que Rāvaṇa era um grande devoto do senhor Śiva, mas, quando o Senhor Rāmacandra foi matá-lo, o senhor Śiva não pôde protegê-lo.
O senhor Brahmā e o senhor Śiva, acompanhados por grandes sábios como Nārada, e seguidos por muitos outros semideuses, acabavam de aparecer invisivelmente na casa de Kaṁsa. Eles começaram a orar à Suprema Personalidade de Deus com orações seletas que tanto agradam aos devotos e que satisfazem os desejos devocionais. As primeiras palavras que falaram declaravam que o Senhor cumpre Seu voto. Como se afirma na Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa desce a este mundo material simplesmente para proteger as pessoas piedosas e destruir os ímpios. Esse é o Seu voto. Os semideuses puderam entender que o Senhor estabelecera Sua residência no ventre de Devakī para cumprir esse voto. Eles ficaram muito alegres com o fato de que o Senhor estava aparecendo para executar Sua missão, e chamaram-no de satyaṁ param, ou a Suprema Verdade Absoluta.
Todos estão em busca da verdade. Esse é o processo da vida filosófica. Os semideuses informam-nos que a Suprema Verdade Absoluta é Kṛṣṇa. Alguém que se torna plenamente consciente de Kṛṣṇa pode atingir a Verdade Absoluta. Kṛṣṇa é a Verdade Absoluta. A verdade relativa não é encontrada em todas as três fases do tempo eterno. Divide-se o tempo em passado, presente e futuro. Kṛṣṇa é sempre Verdade, no passado, no presente e no futuro. No mundo material, tudo está sob o controle do tempo supremo, sujeitando-se a passado, presente e futuro. Porém, antes da criação, Kṛṣṇa existia, e, quando ocorre a criação, tudo repousa em Kṛṣṇa, e quando esta criação se acaba, Kṛṣṇa permanece. Portanto, em todas as circunstâncias, Ele é a Verdade Absoluta. E toda verdade que existe neste mundo material emana da Verdade Suprema, Kṛṣṇa. Se existe alguma opulência neste mundo material, a causa da opulência é Kṛṣṇa. Se existe alguma reputação neste mundo material, a causa da reputação é Kṛṣṇa. Se existe alguma força neste mundo material, a causa de tal força é Kṛṣṇa. Se existe alguma sabedoria e conhecimento dentro deste mundo material, sua causa é Kṛṣṇa. Logo, Kṛṣṇa é a fonte de todas as verdades relativas.
Por conseguinte, os devotos, seguindo os passos do senhor Brahmā, oram: govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi, adorando o ādi-puruṣa, a verdade suprema, Govinda. Em toda parte, tudo é executado em termos de três princípios: jñāna-bala-kriyā, isto é, conhecimento, força e atividade. Em todo setor da vida, se não houver conhecimento, força e atividade em plenitude, o esforço nunca será exitoso. Portanto, se alguém deseja sucesso em tudo, deve apoiar-se nesses três princípios. Nos Vedas (Śvetāśvatara Upaniṣad 6.8), encontramos a seguinte declaração sobre a Suprema Personalidade de Deus:
na tasya kāryaṁ karaṇaṁ ca vidyate
na tat samaś cābhyadhikaś ca dṛśyate
parāsya śaktir vividhaiva śrūyate
svābhāvikī jñāna-bala-kriyā ca
na tat samaś cābhyadhikaś ca dṛśyate
parāsya śaktir vividhaiva śrūyate
svābhāvikī jñāna-bala-kriyā ca
A Suprema Personalidade de Deus nada necessita fazer pessoalmente, pois Suas potências são tais que, tudo o que Ele deseje que se faça, será perfeitamente executado através do controle da natureza material (svābhāvikī jñāna-bala-kriyā ca). De modo semelhante, aqueles que estão ocupados em servir ao Senhor não precisam lutar pela existência. Os devotos que estão plenamente ocupados em difundir o movimento da consciência de Kṛṣṇa, mais de dez mil homens e mulheres em todo o mundo, não têm uma ocupação fixa ou permanente, mas vemos de fato que eles são mantidos com muita opulência. Na Bhagavad-gītā (9.22), o Senhor diz:
ananyāś cintayanto māṁ
ye janāḥ paryupāsate
teṣāṁ nityābhiyuktānāṁ
yoga-kṣemaṁ vahāmy aham
ye janāḥ paryupāsate
teṣāṁ nityābhiyuktānāṁ
yoga-kṣemaṁ vahāmy aham
“Àqueles que Me adoram com devoção, meditando em Minha forma transcendental, Eu trago o que lhes falta e preservo o que têm.” Os devotos não ficam ansiosos querendo saber o que lhes acontecerá amanhã, onde poderão acomodar-se ou o que comerão, pois tudo será mantido e suprido pela Suprema Personalidade de Deus, que prometeu que kaunteya pratijānīhi na me bhaktaḥ praṇaśyati: “Ó filho de Kuntī, declara ousadamente que Meu devoto jamais perece.” (Bhagavad-gītā 9.31) Portanto, de todos os pontos de vista, se em todas as circunstâncias alguém se rende plenamente à Suprema Personalidade de Deus, fica fora de cogitação que ele tenha de lutar pela existência. A esse respeito, o comentário de Śrīpāda Madhvācārya, citando o Tantra-bhāgavata, é muito significativo:
sac-chadba uttamaṁ brūyād
ānandantīti vai vadet
yetijñānaṁ samuddiṣṭaṁ
pūrṇānanda-dṛśis tataḥ
ānandantīti vai vadet
yetijñānaṁ samuddiṣṭaṁ
pūrṇānanda-dṛśis tataḥ
…
attṛtvāc ca tadā dānāt
satyāttya cocyate vibhuḥ
satyāttya cocyate vibhuḥ
Explicando as palavras satyasya yonim, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura diz que Kṛṣṇa é o avatārī, a origem de todas as encarnações. Todas as encarnações são a Verdade Absoluta, apesar do que Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, é a origem de todas as encarnações. Dīpārcir eva hi daśāntaram abhyupetya dīpāyate. (Brahma-saṁhitā 5.46) Mesmo que haja muitas lamparinas, todas com poder igual, ainda existe a primeira, a segunda, a terceira lamparinas e assim por diante. De modo similar, existem muitas encarnações, que são comparadas a lamparinas, mas a primeira lamparina, a Personalidade de Deus original, é Kṛṣṇa. Govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi.
Os semideuses devem submissamente oferecer adoração à Suprema Personalidade de Deus, mas pode-se argumentar que, como estava dentro do ventre de Devakī, a Divindade Suprema também vinha em um corpo material. Por que, então, Ele deveria ser adorado? Por que se deveria fazer distinção entre uma entidade viva comum e a Suprema Personalidade de Deus? Essas perguntas são respondidas nos versos seguintes.
Devanagari
एकायनोऽसौ द्विफलस्त्रिमूल-श्चतूरस: पञ्चविध: षडात्मा । सप्तत्वगष्टविटपो नवाक्षोदशच्छदी द्विखगो ह्यादिवृक्ष: ॥ २७ ॥
Verse text
ekāyano ’sau dvi-phalas tri-mūlaś
catū-rasaḥ pañca-vidhaḥ ṣaḍ-ātmā
sapta-tvag aṣṭa-viṭapo navākṣo
daśa-cchadī dvi-khago hy ādi-vṛkṣaḥ
catū-rasaḥ pañca-vidhaḥ ṣaḍ-ātmā
sapta-tvag aṣṭa-viṭapo navākṣo
daśa-cchadī dvi-khago hy ādi-vṛkṣaḥ
Synonyms
eka-ayanaḥ — o corpo de um ser vivo comum depende por completo dos elementos materiais; asau — isto; dvi-phalaḥ — neste corpo, nós nos sujeitamos à felicidade e ao sofrimento materiais, os quais resultam do karma; tri-mūlaḥ — tendo três raízes, os três modos da natureza (bondade, paixão e ignorância), com base nos quais o corpo é criado; catuḥ-rasaḥ — quatro rasas, ou sabores[1]; pañca-vidhaḥ — que consistem em cinco sentidos com os quais se adquire conhecimento (os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua e o tato); ṣaṭ-ātmā — seis circunstâncias (lamentação, ilusão, velhice, morte, fome e sede); sapta-tvak — que tem sete coberturas (pele, sangue, músculo, gordura, osso, medula e sêmen); aṣṭa-viṭapaḥ — oito galhos (os cinco elementos grosseiros, ou seja, terra, água, fogo, ar e éter, bem como mente, inteligência e ego); nava-akṣaḥ — nove orifícios; daśa-chadī — dez espécies de ar vital, que se assemelham às folhas de uma árvore; dvi-khagaḥ — dois pássaros (a alma individual e a Superalma); hi — na verdade; ādi-vṛkṣaḥ — esta é a árvore, ou construção, original do corpo material, quer individual, quer universal. [1] Assim como a raiz de uma árvore bebe água (rasa) da terra, o corpo saboreia dharma, artha, kāma e mokṣa – religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e liberação. Essas são quatro classes de rasas, ou sabores.
Translation
O corpo [o corpo total e o corpo individual têm a mesma composição] pode ser chamado figurativamente de “a árvore original”. A partir dessa árvore, cujo solo que a mantém é a natureza material, surgem duas espécies de frutos – o gozo trazido pela felicidade e o sofrimento produzido pelo infortúnio. A causa da árvore, formando três raízes, é a associação com os três modos da natureza material – bondade, paixão e ignorância. Os frutos da felicidade corpórea têm quatro sabores – religiosidade, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e liberação –, que são experimentados através dos cinco sentidos com os quais se adquire conhecimento em meio a seis circunstâncias: lamentação, ilusão, velhice, morte, fome e sede. As sete camadas de casca que cobrem a árvore são pele, sangue, músculo, gordura, osso, medula e sêmen, e os oito galhos da árvore são os cinco elementos grosseiros e os três elementos sutis, isto é, terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e falso ego. A árvore do corpo tem nove orifícios – os olhos, os ouvidos, as narinas, a boca, o reto e os órgãos genitais –, bem como dez folhas, que são os dez ares que passam através do corpo. Nesta árvore do corpo, pousam dois pássaros: um é a alma individual, e o outro, a Superalma.
Purport
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SIGNIFICADO—Este mundo material é composto de cinco elementos principais – terra, água, fogo, ar e éter –, todos os quais emanam de Kṛṣṇa. Embora os cientistas materialistas talvez aceitem esses cinco elementos primários como a causa da manifestação material, os estados grosseiro e sutil desses elementos são produzidos por Kṛṣṇa, cuja potência marginal também dá origem às entidades vivas que atuam neste mundo material. O sétimo capítulo da Bhagavad-gītā afirma claramente que toda a manifestação cósmica é uma combinação de duas energias de Kṛṣṇa – a energia superior e a energia inferior. As entidades vivas são Sua energia superior, e os elementos materiais inanimados são Sua energia inferior. Na fase inativa, tudo repousa em Kṛṣṇa.
Os cientistas materialistas não podem fazer essa análise completa da estrutura do corpo material. A análise dos cientistas materialistas refere-se apenas à matéria inanimada, mas isso é inadequado, pois a entidade viva é inteiramente distinta da estrutura corpórea material. Na Bhagavad-gītā (7.5), o Senhor diz:
apareyam itas tv anyāṁ
prakṛtiṁ viddhi me parām
jīva-bhūtāṁ mahā-bāho
yayedaṁ dhāryate jagat
prakṛtiṁ viddhi me parām
jīva-bhūtāṁ mahā-bāho
yayedaṁ dhāryate jagat
“Além desta natureza inferior, ó Arjuna de braços poderosos, existe Minha energia superior, que consiste em todas as entidades vivas que estão lutando com a natureza material e sustentam o universo.” Embora emanem de Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, os elementos materiais são elementos separados e são mantidos pelos elementos vivos.
Como se indica através da palavra dvi-khagaḥ, os elementos vivos deste corpo assemelham-se a dois pássaros pousados em uma árvore. Kha significa “céu”, e ga, “aquele que voa”. Logo, a palavra dvi-khagaḥ refere-se a pássaros. Na árvore do corpo, existem dois pássaros, ou dois elementos vivos, e eles são sempre distintos. Na Bhagavad-gītā (13.3), o Senhor diz que kṣetra-jñaṁ cāpi māṁ viddhi sarva-kṣetreṣu bhārata: “Ó descendente de Bharata, deves entender que, em todos os corpos, também sou o conhecedor.” O kṣetra-jña, o proprietário do corpo, também se chama khaga, a entidade viva.
Dentro do corpo, há dois kṣetra-jñas – a alma individual e a Superalma. A alma individual é proprietária do seu corpo individual, mas a Superalma está presente no corpo de todas as entidades vivas. Semelhante análise e compreensão completa da estrutura corpórea pode ser obtida apenas na literatura védica.
Quando dois pássaros adentram a copa de uma árvore, pode-se considerar tolamente que os pássaros se tornaram unos com a árvore ou fundiram-se nela, mas não é isso o que realmente ocorre. Em vez disso, cada pássaro mantém sua identidade individual. De modo semelhante, a alma individual e a Superalma não se tornam unas, nem se fundem na matéria. A entidade viva está em íntimo contato com a matéria, mas isso não quer dizer que ela se funde nela ou mistura-se com ela (asaṅgo hy ayaṁ puruṣaḥ), embora os cientistas materialistas considerem erroneamente que o orgânico e o inorgânico, ou o animado e o inanimado, estejam integrados um ao outro.
Quando dois pássaros adentram a copa de uma árvore, pode-se considerar tolamente que os pássaros se tornaram unos com a árvore ou fundiram-se nela, mas não é isso o que realmente ocorre. Em vez disso, cada pássaro mantém sua identidade individual. De modo semelhante, a alma individual e a Superalma não se tornam unas, nem se fundem na matéria. A entidade viva está em íntimo contato com a matéria, mas isso não quer dizer que ela se funde nela ou mistura-se com ela (asaṅgo hy ayaṁ puruṣaḥ), embora os cientistas materialistas considerem erroneamente que o orgânico e o inorgânico, ou o animado e o inanimado, estejam integrados um ao outro.
O conhecimento védico tem sido mantido confinado ou escondido, mas todo ser humano precisa realmente compreendê-lo. A moderna civilização baseada na ignorância está ocupada em analisar apenas o corpo, o que leva à conclusão errada de que a força viva dentro do corpo é gerada sob certas condições materiais. As pessoas não têm informação acerca da alma, mas este verso fornece a explicação perfeita de que existem duas forças vivas (dvi-khaga): a alma individual e a Superalma. A Superalma está presente em todos os corpos (īśvaraḥ sarva-bhūtānāṁ hṛd-deśe ’rjuna tiṣṭhati), ao passo que a alma individual se situa apenas em seu próprio corpo (dehī) e transmigra de um corpo a outro.
Devanagari
त्वमेक एवास्य सत: प्रसूति-स्त्वं सन्निधानं त्वमनुग्रहश्च । त्वन्मायया संवृतचेतसस्त्वांपश्यन्ति नाना न विपश्चितो ये ॥ २८ ॥
Verse text
tvam eka evāsya sataḥ prasūtis
tvaṁ sannidhānaṁ tvam anugrahaś ca
tvan-māyayā saṁvṛta-cetasas tvāṁ
paśyanti nānā na vipaścito ye
tvaṁ sannidhānaṁ tvam anugrahaś ca
tvan-māyayā saṁvṛta-cetasas tvāṁ
paśyanti nānā na vipaścito ye
Synonyms
tvam — Vós (ó Senhor); ekaḥ — sendo único e inigualável, sois tudo; eva — na verdade; asya sataḥ — desta manifestação cósmica agora visível; prasūtiḥ — a fonte original; tvam — Vossa Onipotência; sannidhānam — a conservação de todas essas energias quando tudo é aniquilado; tvam — Vossa Onipotência; anugrahaḥ ca — e o mantenedor; tvat-māyayā — através de Vossa energia ilusória externa; saṁvṛta-cetasaḥ — aqueles cuja inteligência está coberta por essa energia ilusória; tvām — a Vós; paśyanti — observam; nānā — muitas variedades; na — não; vipaścitaḥ — sábios ou devotos eruditos; ye — que são.
Translation
A causa eficiente deste mundo material, que em suas muitas variedades manifesta-se como a árvore original, sois Vós, ó Senhor. Sois também o mantenedor deste mundo material e, após a aniquilação, tudo é conservado em Vós. Aqueles que estão cobertos por Vossa energia externa não Vos podem ver agindo por trás desta manifestação, mas quem compartilha dessa visão não é um devoto erudito.
Purport
SIGNIFICADO—Os diversos semideuses, a começar pelo senhor Brahmā, pelo senhor Śiva e mesmo por Viṣṇu, são tidos como o criador, mantenedor e aniquilador deste mundo material, mas, na verdade, eles não o são. O fato é que tudo é a Suprema Personalidade de Deus, manifesto em muitas variedades de energias. Ekam evādvitīyaṁ brahma. Não há uma segunda existência. Os verdadeiros sábios, vipaścit, são aqueles que alcançaram a plataforma em que se compreende e se percebe a Suprema Personalidade de Deus em qualquer condição de vida. Premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti. (Brahma-saṁhitā 5.38) Os devotos eruditos aceitam mesmo as condições de sofrimento como representantes da presença do Senhor Supremo. Quando está em aflição, o devoto vê que o Senhor apareceu como a aflição apenas para aliviar ou purificar o devoto, livrando-o da contaminação do mundo material. Enquanto alguém está dentro deste mundo material, sujeita-se a várias condições, e, portanto, o devoto vê que as condições aflitivas são apenas outra característica do Senhor. Tat te ’nukampāṁ susamīkṣamāṇaḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.8) Por conseguinte, o devoto considera a aflição como um grande favor do Senhor porque compreende que está sendo limpo da contaminação. Teṣām ahaṁ samuddhartā mṛtyu-saṁsāra-sāgarāt. (Bhagavad-gītā 12.7) O aparecimento da aflição é um processo negativo que serve para o devoto aliviar-se deste mundo material, o qual se chama mṛtyu-saṁsāra, ou a repetição de constantes nascimentos e mortes. A fim de impedir que a alma rendida se submeta a repetidos nascimentos e mortes, o Senhor purifica-a da contaminação, oferecendo-lhe um pouco de aflição. O não-devoto não pode compreender isso, mas o devoto tem essa visão porque ele é vipaścit, ou erudito. O não-devoto, portanto, perturba-se com a aflição, mas o devoto acolhe a aflição como outra característica do Senhor. Sarvaṁ khalv idaṁ brahma. O devoto pode realmente ver que existe apenas a Suprema Personalidade de Deus, e nenhuma outra entidade. Ekam evādvitīyam. Existe apenas o Senhor, que Se apresenta sob diferentes energias.
Quem não tem verdadeiro conhecimento acha que Brahmā é o criador, Viṣṇu é o mantenedor e Śiva é o aniquilador e que os diversos semideuses se prestam a satisfazer diversos propósitos. Assim, criam-se diversos propósitos e adoram-se vários semideuses para que esses propósitos se realizem (kāmais tais tair hṛta jñānāḥ prapadyante ’nya-devatāḥ). Todavia, o devoto sabe que esses vários semideuses são apenas diferentes partes da Suprema Personalidade de Deus e que essas partes não precisam ser adoradas. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (9.23):
ye ’py anya-devatā bhaktā
yajante śraddhayānvitāḥ
te ’pi mām eva kaunteya
yajanty avidhi-pūrvakam
yajante śraddhayānvitāḥ
te ’pi mām eva kaunteya
yajanty avidhi-pūrvakam
“Tudo o que um homem acaso sacrifique a outros deuses, ó filho de Kuntī, na realidade destina-se apenas a Mim, mas é oferecido sem verdadeiro conhecimento.” Não é preciso adorar os semideuses, pois isso é avidhi, não prescrito. Pelo simples fato de render-se aos pés de lótus de Kṛṣṇa, a pessoa pode executar todos os seus deveres; não há necessidade de ela adorar várias deidades ou semideuses. Esses vários rituais são observados pelos mūḍhas, tolos, que estão desorientados pelos três modos da natureza material (tribhir guṇamayair bhāvair ebhiḥ sarvam idaṁ jagat). Semelhantes tolos não conseguem compreender que a verdadeira fonte de tudo é a Suprema Personalidade de Deus (mohitaṁ nābhijānāti mām ebhyaḥ param avyayam). Sem se deixar perturbar com os diversos aspectos do Senhor, a pessoa deve concentrar-se na adoração ao Senhor Supremo (mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja). Essa deve ser a orientação principal na vida das pessoas.
Devanagari
बिभर्षि रूपाण्यवबोध आत्माक्षेमाय लोकस्य चराचरस्य । सत्त्वोपपन्नानि सुखावहानिसतामभद्राणि मुहु: खलानाम् ॥ २९ ॥
Verse text
bibharṣi rūpāṇy avabodha ātmā
kṣemāya lokasya carācarasya
sattvopapannāni sukhāvahāni
satām abhadrāṇi muhuḥ khalānām
kṣemāya lokasya carācarasya
sattvopapannāni sukhāvahāni
satām abhadrāṇi muhuḥ khalānām
Synonyms
bibharṣi — aceitais; rūpāṇi — muitas variedades de formas, tais como Matsya, Kūrma, Varāha, Rāma e Nṛsiṁha; avabodhaḥ ātmā — apesar de terdes diferentes encarnações, permaneceis o Supremo, pleno de conhecimento; kṣemāya — para o benefício de todos, e em especial dos devotos; lokasya — de todas as entidades vivas; cara-acarasya — móveis e inertes; sattva-upapannāni — todas essas encarnações são transcendentais (śuddha-sattva); sukha-avahāni — plenas de bem-aventurança transcendental; satām — dos devotos; abhadrāṇi — toda desventura ou aniquilação; muhuḥ — repetidas vezes; khalānām — dos não-devotos.
Translation
Ó Senhor, estais sempre em conhecimento pleno e, para trazer toda a boa fortuna a todas as entidades vivas, apareceis sob diferentes encarnações, e todas elas transcendem a criação material. Ao aparecerdes nessas encarnações, mostrais benevolência aos devotos piedosos e religiosos – todavia, para os não-devotos, sois o aniquilador.
Purport
SIGNIFICADO—Este verso explica por que motivo a Suprema Personalidade de Deus aparece repetidas vezes como uma encarnação. Todas as encarnações da Suprema Personalidade de Deus têm diferentes funções, mas o propósito principal é paritrāṇāya sādhūnāṁ vināśāya ca duṣkṛtām — proteger os devotos e aniquilar os canalhas. Todavia, embora os duṣkṛtīs, ou canalhas, sejam aniquilados, isso é bom para eles em última análise.
Devanagari
त्वय्यम्बुजाक्षाखिलसत्त्वधाम्निसमाधिनावेशितचेतसैके । त्वत्पादपोतेन महत्कृतेनकुर्वन्ति गोवत्सपदं भवाब्धिम् ॥ ३० ॥
Verse text
tvayy ambujākṣākhila-sattva-dhāmni
samādhināveśita-cetasaike
tvat-pāda-potena mahat-kṛtena
kurvanti govatsa-padaṁ bhavābdhim
samādhināveśita-cetasaike
tvat-pāda-potena mahat-kṛtena
kurvanti govatsa-padaṁ bhavābdhim
Synonyms
tvayi — em Vós; ambuja-akṣa — ó Senhor de olhos de lótus; akhila-sattva-dhāmni — que sois a causa que origina toda a existência, a pessoa da qual tudo emana e na qual todas as potências residem; samādhinā — através da meditação constante e absorção completa (em pensar em Vós, a Suprema Personalidade de Deus); āveśita — plenamente absortos, plenamente ocupados; cetasā — mas mediante essa mentalização; eke — o processo de pensar sempre e unicamente em Vossos pés de lótus; tvat-pāda-potena — subindo a bordo de semelhante barco, que são Vossos pés de lótus; mahat-kṛtena — mediante esta ação que é considerada a existência original mais poderosa ou que é executada pelos mahājanas; kurvanti — eles fazem; govatsa-padam — como a pegada de um bezerro; bhava-abdhim — o grande oceano de ignorância.
Translation
Ó Senhor de olhos de lótus, concentrando-se em meditar em Vossos pés de lótus, os quais são o reservatório de toda a existência, e aceitando esses pés de lótus como o barco no qual se pode cruzar o oceano da ignorância, seguem-se os passos dos mahājanas (santos, sábios e devotos grandiosos). Mediante esse simples processo, pode-se cruzar o oceano de ignorância tão facilmente como se pode pular sobre a pegada de um bezerro.
Purport
SIGNIFICADO—O verdadeiro objetivo da vida é cruzar o oceano da ignorância, no qual há repetidos nascimentos e mortes. Todavia, aqueles que habitam na escuridão da ignorância não conhecem esse objetivo. Em vez disso, sendo arrastados pelas ondas da natureza material (prakṛteḥ kriyamāṇāni guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ), submetem-se às tribulações de mṛtyu-saṁsāra-vartmani, repetidos nascimentos e mortes. Mas as pessoas que, através da associação com os devotos, alcançaram o conhecimento, seguem os mahājanas (mahat-kṛtena). Semelhante pessoa sempre concentra sua mente nos pés de lótus do Senhor e executa pelo menos uma das nove variedades de serviço devocional (śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam). Mediante esse simples processo, pode-se cruzar o intransponível oceano da ignorância.
Qualquer forma de serviço devocional é poderosa. Śrī-viṣṇoḥ śravaṇe parīkṣid abhavad vaiyāsakiḥ kīrtane. (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.2.265) De acordo com este verso, Mahārāja Parīkṣit libertou-se, concentrando toda a sua mente em ouvir o santo nome, os atributos e os passatempos do Senhor. De modo semelhante, Śukadeva Gosvāmī fixou-se em glorificar o Senhor e, narrando assuntos concernentes a Kṛṣṇa, os quais formam todo o Śrīmad-Bhāgavatam, ele também se libertou. Também é possível libertar-se simplesmente através de sakhya, ter um comportamento amigável com o Senhor. Esse é o poder do serviço devocional, como aprendemos com os exemplos estabelecidos por muitos devotos puros do Senhor.
svayambhūr nāradaḥ śambhuḥ
kumāraḥ kapilo manuḥ
prahlādo janako bhīṣmo
balir vaiyāsakir vayam
kumāraḥ kapilo manuḥ
prahlādo janako bhīṣmo
balir vaiyāsakir vayam
(Śrīmad-Bhāgavatam 6.3.20)
Temos de seguir os passos desses devotos, pois, através desse processo simples, pode-se cruzar o grande oceano da ignorância, assim como alguém pode saltar uma pequena pegada criada pelo casco de um bezerro.
Aqui, o Senhor é descrito como ambujākṣa, ou pessoa de olhos de lótus. Vendo os olhos do Senhor, os quais são comparados a flores de lótus, a pessoa torna-se tão satisfeita que não quer dirigir seus olhos a nenhuma outra parte. Pelo simples fato de ver a forma transcendental do Senhor, o devoto logo se absorve por completo no Senhor dentro de seu coração. Essa absorção se chama samādhi. Dhyānāvasthita-tad-gatena manasā paśyanti yaṁ yoginaḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 12.13.1) O yogī absorve-se plenamente em pensar na Suprema Personalidade de Deus, pois ele se ocupa apenas em pensar no Senhor dentro do coração. Afirma-se também:
samāśritā ye pada-pallava-plavaṁ
mahat-padaṁ puṇya-yaśo murāreḥ
bhavāmbudhir vatsa-padaṁ paraṁ padaṁ
padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām
mahat-padaṁ puṇya-yaśo murāreḥ
bhavāmbudhir vatsa-padaṁ paraṁ padaṁ
padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām
“Para quem aceitou como seu barco os pés de lótus do Senhor, o qual é o refúgio da manifestação cósmica e é famoso como Murāri, o inimigo do demônio Mura, o oceano do mundo material é como a água contida na pegada de um bezerro. Sua meta é paraṁ padam, ou Vaikuṇṭha, o lugar onde não há sofrimentos materiais, e não o lugar onde há perigo a cada passo.” (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.58) Esse processo é aqui recomendado por autoridades como o senhor Brahmā e o senhor Śiva (svayambhūr nāradaḥ śambhuḥ), e, portanto, devemos aceitar esse processo para transcendermos a ignorância. Isso é muito fácil, mas devemos seguir os passos das grandes personalidades, e, então, o sucesso será possível.
Com referência à palavra mahat-kṛtena, também é significativo que o processo seguido pelos grandes devotos serve não apenas para eles, mas também para os demais. Se as condições se tornam fáceis, devem favorecer a pessoa que as tornou fáceis e também os outros que seguem os mesmos princípios. O processo encontrado neste verso que ensina como cruzar o oceano da ignorância é fácil não apenas para o devoto, mas também para as pessoas comuns que seguem o devoto (mahājano yena gataḥ sa panthāḥ).
Devanagari
स्वयं समुत्तीर्य सुदुस्तरं द्युमन्
भवार्णवं भीममदभ्रसौहृदा: ।
भवत्पदाम्भोरुहनावमत्र ते
निधाय याता: सदनुग्रहो भवान् ॥ ३१ ॥
भवार्णवं भीममदभ्रसौहृदा: ।
भवत्पदाम्भोरुहनावमत्र ते
निधाय याता: सदनुग्रहो भवान् ॥ ३१ ॥
Verse text
svayaṁ samuttīrya sudustaraṁ dyuman
bhavārṇavaṁ bhīmam adabhra-sauhṛdāḥ
bhavat-padāmbhoruha-nāvam atra te
nidhāya yātāḥ sad-anugraho bhavān
bhavārṇavaṁ bhīmam adabhra-sauhṛdāḥ
bhavat-padāmbhoruha-nāvam atra te
nidhāya yātāḥ sad-anugraho bhavān
Synonyms
svayam — pessoalmente; samuttīrya — cruzando perfeitamente; su-dustaram — que é muito difícil de cruzar; dyuman — ó Senhor, que Vos pareceis exatamente com o Sol, iluminando a escuridão deste mundo de ignorância; bhava-arṇavam — o oceano de ignorância; bhīmam — que é extremamente turbulento; adabhra-sauhṛdāḥ — devotos que são sempre amigos das almas caídas; bhavat-pada-ambhoruha — Vossos pés de lótus; nāvam — o barco destinado a cruzar; atra — neste mundo; te — eles (os vaiṣṇavas); nidhāya — deixando após sua partida; yātāḥ — rumo ao destino último, Vaikuṇṭha; sat-anugrahaḥ — que sois sempre bondoso e misericordioso para com os devotos; bhavān — Vós.
Translation
Ó Senhor, que Vos assemelhais ao reluzente Sol, estais sempre disposto a realizar o desejo de Vosso devoto e, portanto, sois conhecido como a árvore-dos-desejos (vāñchā-kalpataru). Ao refugiarem-se inteiramente em Vossos pés de lótus a fim de cruzarem o turbulento oceano da ignorância, os ācāryas deixam na Terra o método que os ajudou nessa conquista, e como sois muito misericordioso com Vossos outros devotos, aceitais esse método para ajudá-los.
Purport
SIGNIFICADO—Esta declaração revela como, juntos, os misericordiosos ācāryas e a misericordiosa Suprema Personalidade de Deus ajudam o devoto sério que deseja retornar ao lar, retornar ao Supremo. Śrī Caitanya Mahāprabhu, em Seus ensinamentos a Rūpa Gosvāmī, disse:
brahmāṇḍa bhramite kona bhāgyavān jīva
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
(Caitanya-caritāmṛta, Madhya 19.151)
Pode-se alcançar a semente de bhakti-latā, o serviço devocional, através da misericórdia do guru e de Kṛṣṇa. O dever do guru é, de acordo com o tempo, circunstâncias e candidato, encontrar os meios mediante os quais alguém possa interessar-se em prestar serviço devocional, o qual Kṛṣṇa aceita do candidato que se esforça para conseguir voltar ao lar, voltar ao Supremo. Após vagar por todo o universo, alguém que, dentro deste mundo material, é afortunado, busca refúgio em semelhante guru, ou ācārya, que então o treina de maneira adequada a prestar serviço de acordo com as circunstâncias a fim de que a Suprema Personalidade de Deus aceite esse serviço. Isso facilita ao candidato alcançar o destino último. Portanto, é dever do ācārya encontrar os meios pelos quais os devotos possam prestar serviço com base nas recomendações dos śāstras. Rūpa Gosvāmī, por exemplo, a fim de ajudar os futuros devotos, publicou livros devocionais, tais como o Bhakti-rasāmṛta-sindhu. Logo, é dever do ācārya publicar livros que ajudem os futuros candidatos a aprenderem a servir e, recebendo a misericórdia do Senhor, qualifiquem-se a retornar ao lar, retornar ao Supremo. Em nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa, esse mesmo caminho está sendo prescrito e seguido. Por isso, aconselha-se que os devotos evitem quatro atividades pecaminosas – sexo ilícito, intoxicação, consumo de carne e jogos de azar – e cantem dezesseis voltas diárias. Essas são instruções autênticas. Como, nos países ocidentais, o cantar constante não é possível, ninguém deve artificialmente tentar imitar Haridāsa Ṭhākura, senão que todos devem seguir o método aqui exposto. Kṛṣṇa aceitará o devoto que segue à risca os princípios reguladores e o método prescrito nos vários livros e textos publicados pelas autoridades. O ācārya apresenta o método adequado para alguém cruzar o oceano da ignorância, aceitando o barco dos pés de lótus do Senhor, e se esse método for seguido à risca, os seguidores, pela graça do Senhor, enfim chegarão ao seu destino. Esse método chama-se ācārya-sampradāya. Portanto, declara-se que sampradāya-vihīnā ye mantrās te niṣphalā matāḥ. (Padma Purāṇa) O ācārya-sampradāya é estritamente genuíno. Por conseguinte, deve-se aceitar o ācārya-sampradāya; caso contrário, todo esforço será em vão. Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura, portanto, canta:
tāṅdera caraṇa sevi bhakta sane vāsa
janame janame haya, ei abhilāṣa
janame janame haya, ei abhilāṣa
Devem-se adorar os pés de lótus do ācārya e deve-se viver na sociedade de devotos. Então, o esforço que se empreende para livrar-se da ignorância decerto será exitoso.
Devanagari
येऽन्येऽरविन्दाक्ष विमुक्तमानिन-
स्त्वय्यस्तभावादविशुद्धबुद्धय: ।
आरुह्य कृच्छ्रेण परं पदं तत:
पतन्त्यधोऽनादृतयुष्मदङ्घ्रय: ॥ ३२ ॥
स्त्वय्यस्तभावादविशुद्धबुद्धय: ।
आरुह्य कृच्छ्रेण परं पदं तत:
पतन्त्यधोऽनादृतयुष्मदङ्घ्रय: ॥ ३२ ॥
Verse text
ye ’nye ’ravindākṣa vimukta-māninas
tvayy asta-bhāvād aviśuddha-buddhayaḥ
āruhya kṛcchreṇa paraṁ padaṁ tataḥ
patanty adho ’nādṛta-yuṣmad-aṅghrayaḥ
tvayy asta-bhāvād aviśuddha-buddhayaḥ
āruhya kṛcchreṇa paraṁ padaṁ tataḥ
patanty adho ’nādṛta-yuṣmad-aṅghrayaḥ
Synonyms
ye anye — qualquer um, ou todos os outros; aravinda-akṣa — ó pessoa de olhos de lótus; vimukta-māninaḥ — falsamente considerando-se livres do cativeiro da contaminação material; tvayi — acerca de Vós; asta-bhāvāt — especulando de várias maneiras, embora não conheçam ou desejem informações precisas sobre Vossos pés de lótus; aviśuddha-buddhayaḥ — cuja inteligência ainda não está purificada e que não conhecem a meta da vida; āruhya — muito embora atingindo; kṛcchreṇa — submetendo-se a rigorosas austeridades, penitências e trabalho árduo; param padam — a posição mais elevada (de acordo com a imaginação e especulação deles); tataḥ — dessa posição; patanti — caem; adhaḥ — de volta à existência material; anādṛta — negligenciando a devoção a; yuṣmat — Vossos; aṅghrayaḥ — pés de lótus.
Translation
[Alguém pode dizer que, além dos devotos, que sempre buscam o refúgio dos pés de lutas do Senhor, existem aqueles que, não sendo devotos, aceitaram diferentes processos para atingir a salvação. O que lhes acontece? Em resposta a essa pergunta, o senhor Brahmā e os outros semideuses disseram]: Ó Senhor de olhos de lótus, embora os não-devotos que aceitaram rigorosas austeridades e penitências para atingir a posição mais elevada possam julgar-se liberados, a inteligência deles é impura. Eles caem de suas posições aparentemente superiores, pois não dão importância alguma a Vossos pés de lótus.
Purport
SIGNIFICADO—Além dos devotos, existem muitos outros, os não-devotos, conhecidos como karmīs, jñānīs ou yogīs, filantropos, altruístas, políticos, impersonalistas e niilistas. Há muitas classes de não-devotos que aceitam seus respectivos métodos de liberação, mas, como simplesmente desconhecem o refúgio dos pés de lótus do Senhor, embora falsamente julguem terem se libertado ou elevado à mais excelsa posição, voltam a cair. Como o próprio Senhor afirma claramente na Bhagavad-gītā (9.3):
aśraddadhānāḥ puruṣā
dharmasyāsya parantapa
aprāpya māṁ nivartante
mṛtyu-saṁsāra-vartmani
dharmasyāsya parantapa
aprāpya māṁ nivartante
mṛtyu-saṁsāra-vartmani
“Aqueles que não são fiéis neste serviço devocional não podem Me alcançar, ó subjugador dos inimigos. Por isso, eles voltam a trilhar o caminho de nascimentos e mortes neste mundo material.” Não importa o fato de alguém ser karmī, jñānī, yogī, filantropo, político ou o que quer que seja; se não tem amor pelos pés de lótus do Senhor, ele cai. É esse o veredito que o senhor Brahmā apresenta neste verso.
Existem pessoas que advogam a aceitação de qualquer processo e que dizem que qualquer processo que se aceite levará à mesma meta, mas refuta-se isso neste verso, no qual se definem tais pessoas como vimukta-māninaḥ, o que quer dizer que, embora julguem ter atingido a perfeição mais elevada, não a atingiram de fato. Nos dias atuais, em toda parte do mundo, eminentes políticos creem que, através de estratagemas, podem ocupar os mais elevados cargos políticos de presidente ou primeiro-ministro, mas vemos na realidade que, mesmo nesta vida, esses importantes primeiros-ministros, presidentes e demais políticos, devido ao fato de serem não-devotos, caem (patanty adhaḥ). Tornar-se presidente ou primeiro-ministro não é uma tarefa fácil; deve-se trabalhar arduamente (āruhya kṛcchreṇa) para se alcançar tais cargos. E muito embora alguém possa alcançar sua meta, pode ser chutado pela natureza material a qualquer momento. Na sociedade humana, há muitos exemplos nos quais grandes e renomados políticos caíram do posto de governantes e ficaram excluídos da história. A causa disso é aviśuddha-buddhayaḥ: a inteligência deles era impura. Os śāstras dizem que na te viduḥ svārtha-gatiṁ hi viṣṇum (Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.31). Atinge a perfeição da vida quem se torna devoto de Viṣṇu, mas as pessoas não sabem disso. Portanto, como se declara na Bhagavad-gītā (12.5), kleśo ’dhikataras teṣām avyaktāsakta-cetasām. As pessoas que, em última análise, não aceitam a Suprema Personalidade de Deus nem adotam o serviço devocional, mas que, em vez disso, apegam-se ao impersonalismo e ao niilismo, têm de se submeter a grandes esforços para alcançarem suas metas.
śreyaḥ-sṛtiṁ bhaktim udasya te vibho
kliśyanti ye kevala-bodha-labdhaye
kliśyanti ye kevala-bodha-labdhaye
(Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.4)
Para atingir a compreensão, semelhantes pessoas trabalham muito arduamente e submetem-se a rigorosas austeridades, mas o trabalho árduo e as austeridades são suas únicas conquistas, pois eles, na realidade, não alcançam a verdadeira meta da vida.
A princípio, Dhruva Mahārāja quis obter o maior reino material e mais posses materiais do que seu pai, mas, ao ser realmente favorecido pelo Senhor, que apareceu diante dele para lhe conferir a bênção por ele desejada, Dhruva Mahārāja recusou a mesma, dizendo que svāmin kṛtārtho ’smi varaṁ na yāce: “Agora, estou inteiramente satisfeito. Não desejo nenhuma bênção material.” (Hari-bhakti-sudhodaya 7.28) Essa é a perfeição da vida. Yaṁ labdhvā cāparaṁ lābhaṁ manyate nādhikaṁ tataḥ. (Bhagavad-gītā 6.22) Se alguém alcança o refúgio dos pés de lótus do Senhor, fica plenamente satisfeito e não precisa pedir nenhuma bênção material.
À noite, ninguém pode ver um lótus, pois as flores de lótus desabrocham apenas durante o dia. Portanto, a palavra aravindākṣa é significativa. Alguém que não fica cativado pelos olhos de lótus ou forma transcendental do Senhor Supremo está na escuridão, exatamente como a pessoa que não pode ver um lótus. Alguém que não chegou à plataforma na qual se veem os olhos de lótus e a forma transcendental de Śyāmasundara é um fracassado. Premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti. Aqueles que se apegam amorosamente à Suprema Personalidade de Deus sempre veem os olhos e pés de lótus do Senhor, ao passo que os outros não conseguem ver a beleza do Senhor e, em razão disso, são classificados como anādṛta-yuṣmad-aṅghrayaḥ, ou pessoas que negligenciam a forma pessoal do Senhor. Aqueles que negligenciam a forma do Senhor são um verdadeiro fiasco em todos os caminhos da vida, mas, se alguém desenvolve mesmo um pouco de amor pela Suprema Personalidade de Deus, liberta-se sem dificuldade alguma (svalpam apy asya dharmasya trāyate mahato bhayāt). Portanto, na Bhagavad-gītā (9.34), a Suprema Personalidade de Deus recomenda que man-manā bhava mad-bhakto mad-yājī māṁ namaskuru: “Simplesmente pensa em Mim, torna-te Meu devoto, adora-Me e oferece-Me alguma homenagem singela.” Através desse simples processo, fica garantido que a pessoa retorna ao lar, retorna ao Supremo, e, dessa maneira, alcança a perfeição mais elevada. Continuando, o Senhor afirma na Bhagavad-gītā (18.54-55):
brahma-bhūtaḥ prasannātmā
na śocati na kāṅkṣati
samaḥ sarveṣu bhūteṣu
mad-bhaktiṁ labhate parām
na śocati na kāṅkṣati
samaḥ sarveṣu bhūteṣu
mad-bhaktiṁ labhate parām
bhaktyā mām abhijānāti
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad-anantaram
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad-anantaram
“Aquele que está situado nessa posição transcendental compreende de imediato o Brahman Supremo e torna-se completamente feliz. Ele nunca se lamenta nem deseja ter nada, e é equânime para com todas as entidades vivas. Nesse estado, ele passa a Me prestar serviço devocional puro. É unicamente através do serviço devocional que alguém pode compreender-Me como sou, como a Suprema Personalidade de Deus. E quando, mediante tal devoção, ele se absorve em plena consciência de Mim, ele pode entrar no reino de Deus.”
Devanagari
तथा न ते माधव तावका: क्वचिद्
भ्रश्यन्ति मार्गात्त्वयि बद्धसौहृदा: ।
त्वयाभिगुप्ता विचरन्ति निर्भया
विनायकानीकपमूर्धसु प्रभो ॥ ३३ ॥
भ्रश्यन्ति मार्गात्त्वयि बद्धसौहृदा: ।
त्वयाभिगुप्ता विचरन्ति निर्भया
विनायकानीकपमूर्धसु प्रभो ॥ ३३ ॥
Verse text
tathā na te mādhava tāvakāḥ kvacid
bhraśyanti mārgāt tvayi baddha-sauhṛdāḥ
tvayābhiguptā vicaranti nirbhayā
vināyakānīkapa-mūrdhasu prabho
bhraśyanti mārgāt tvayi baddha-sauhṛdāḥ
tvayābhiguptā vicaranti nirbhayā
vināyakānīkapa-mūrdhasu prabho
Synonyms
tathā — como eles (os não-devotos); na — não; te — eles (os devotos); mādhava — ó Senhor, esposo da deusa da fortuna; tāvakāḥ — os seguidores do caminho devocional, os devotos; kvacit — em algumas circunstâncias; bhraśyanti — caem; mārgāt — da trilha do serviço devocional; tvayi — a Vós; baddha-sauhṛdāḥ — devido ao fato de estarem plenamente apegados a Vossos pés de lótus; tvayā — por Vós; abhiguptāḥ — sempre protegidos de todos os perigos; vicaranti — locomovem-se; nirbhayāḥ — sem temor; vināyaka-anīkapa — os inimigos que mantêm uma parafernália para fazerem oposição ao culto de bhakti; mūrdhasu — sobre suas cabeças; prabho — ó Senhor.
Translation
Ó Mādhava, ó Suprema Personalidade de Deus, Senhor da deusa da fortuna, se os devotos que Vos amam fervorosamente caem às vezes do caminho da devoção, eles não caem como os não-devotos, pois continuais protegendo-os. Assim, eles destemidamente passam sobre as cabeças de seus oponentes e continuam a progredir no serviço devocional.
Purport
SIGNIFICADO—Em geral, os devotos não caem, mas, se caírem circunstancialmente, o Senhor, devido ao forte apego que têm por Ele, protege-os em todas as circunstâncias. Logo, mesmo que caiam, os devotos continuam assaz fortes para pisar vitoriosos sobre as cabeças de seus inimigos. Vemos de fato que nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa tem muitos oponentes, tais como os “desprogramadores”, que instituíram contra os devotos um enérgico caso judicial. Em um momento, acreditamos que apenas depois de muito tempo é que esse caso seria encerrado, mas, porque os devotos têm a proteção da Suprema Personalidade de Deus, inesperadamente ganhamos o caso em um dia. Assim, um caso que esperávamos que continuasse por anos foi decidido em um dia devido à proteção dada pela Suprema Personalidade de Deus, que, na Bhagavad-gītā (9.31), prometeu que kaunteya pratijānīhi na me bhaktaḥ praṇaśyati: “Ó filho de Kuntī, declara ousadamente que Meu devoto jamais perece.” Na história, existem muitos exemplos de devotos, tais como Citraketu, Indradyumna e Mahārāja Bharata, que acidentalmente caíram, mas continuaram sendo protegidos. Mahārāja Bharata, por exemplo, devido ao seu apego a um veado, pensou no veado na hora da morte e, portanto, em sua próxima vida, tornou-se um veado (yaṁ yaṁ vāpi smaran bhāvaṁ tyajaty ante kalevaram). Devido à proteção dada pela Suprema Personalidade de Deus, todavia, o veado lembrou-se de sua relação com o Senhor e, em seguida, nasceu em boa família bramânica e executou serviço devocional (śucīnāṁ śrīmatāṁ gehe yoga-bhraṣṭo ’bhijāyate). De modo semelhante, Citraketu caiu e tornou-se o demônio Vṛtrāsura, mas também foi protegido. Logo, mesmo que alguém caia do caminho de bhakti-yoga, ele é salvo ao final. Se o devoto se situa fortemente em serviço devocional, a Suprema Personalidade de Deus promete protegê-lo (kaunteya pratijānīhi na me bhaktaḥ praṇaśyati). Porém, mesmo que, por alguma circunstância, o devoto caia, Mādhava o protege.
A palavra Mādhava é significativa. Mā, mãe Lakṣmī, a mãe de todas as opulências, está sempre com a Suprema Personalidade de Deus, e se o devoto está em contato com a Suprema Personalidade de Deus, todas as opulências do Senhor estão prontas para ajudá-lo.
yatra yogeśvaraḥ kṛṣṇo
yatra pārtho dhanur-dharaḥ
tatra śrīr vijayo bhūtir
dhruvā nītir matir mama
yatra pārtho dhanur-dharaḥ
tatra śrīr vijayo bhūtir
dhruvā nītir matir mama
(Bhagavad-gītā 18.78)
Onde quer que esteja a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, e Seu devoto Arjuna, Pārtha, haverá vitória, opulência, moralidade e poder extraordinário. As opulências do devoto não são o resultado de karma-kāṇḍa-vicāra. O devoto é sempre protegido por todas as opulências do Senhor Supremo, das quais ninguém pode privá-lo (teṣāṁ nityābhiyuktānāṁ yoga-kṣemaṁ vahāmy aham). Logo, oponente algum pode derrotar o devoto. Por conseguinte, o devoto não deve afastar-se deliberadamente do caminho da devoção. A Suprema Personalidade de Deus assegura toda proteção ao devoto fiel.
Devanagari
सत्त्वं विशुद्धं श्रयते भवान् स्थितौ
शरीरिणां श्रेयउपायनं वपु: ।
वेदक्रियायोगतप:समाधिभि-
स्तवार्हणं येन जन: समीहते ॥ ३४ ॥
शरीरिणां श्रेयउपायनं वपु: ।
वेदक्रियायोगतप:समाधिभि-
स्तवार्हणं येन जन: समीहते ॥ ३४ ॥
Verse text
sattvaṁ viśuddhaṁ śrayate bhavān sthitau
śarīriṇāṁ śreya-upāyanaṁ vapuḥ
veda-kriyā-yoga-tapaḥ-samādhibhis
tavārhaṇaṁ yena janaḥ samīhate
śarīriṇāṁ śreya-upāyanaṁ vapuḥ
veda-kriyā-yoga-tapaḥ-samādhibhis
tavārhaṇaṁ yena janaḥ samīhate
Synonyms
sattvam — existência; viśuddham — transcendental, além dos três modos da natureza material; śrayate — aceita; bhavān — Vossa Onipotência; sthitau — durante a manutenção deste mundo material; śarīriṇām — de todas as entidades vivas; śreyaḥ — da fortuna suprema; upāyanam — para o benefício; vapuḥ — uma forma ou corpo transcendental; veda-kriyā — mediante cerimônias ritualísticas de acordo com as instruções dos Vedas; yoga — mediante a prática da devoção; tapaḥ — mediante austeridades; samādhibhiḥ — absorvendo-se na existência transcendental; tava — Vossa; arhaṇam — adoração; yena — por meio de semelhantes atividades; janaḥ — sociedade humana; samīhate — oferece (seu compromisso para conVosco).
Translation
Ó Senhor, durante o período de manutenção, manifestais várias encarnações, todas elas com corpos transcendentais, situados além dos modos da natureza material. Ao aparecerdes dessa maneira, concedeis toda boa fortuna às entidades vivas, ensinando-as a executar atividades védicas, tais como as cerimônias ritualísticas, o yoga místico, austeridades, penitências e, por fim, samādhi, absorção extática em pensamentos referentes a Vós. Assim, sois adorado de acordo com os princípios védicos.
Purport
SIGNIFICADO—Como se declara na Bhagavad-gītā (18.3), yajña-dāna-tapaḥ-karma na tyājyam: nunca se devem deixar de realizar as cerimônias ritualísticas védicas, caridade, austeridade e nenhum desses deveres prescritos. Yajño dānaṁ tapaś caiva pāvanāni manīṣiṇām (18.5): mesmo quem é muitíssimo avançado em compreensão espiritual deve continuar seguindo os princípios védicos. Inclusive na fase inferior, aconselha-se que os karmīs trabalhem em prol do Senhor.
yajñārthāt karmaṇo ’nyatra
loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ
loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ
“Deve-se realizar o trabalho como um sacrifício a Viṣṇu; caso contrário, o trabalho produz cativeiro neste mundo material.” (Bhagavad-gītā 3.9) As palavras yajñārthāt karmaṇaḥ indicam que, enquanto executa todas as classes de deveres, é bom que a pessoa se lembre de que se devem executá-los para satisfazer o Senhor Supremo (sva-karmaṇā tam abhyarcya). De acordo com os princípios védicos, a sociedade humana deve dividir-se em classes (cātur-varṇyaṁ mayā sṛṣṭam). É preciso haver brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras, e a todos compete aprender a adorar a Suprema Personalidade de Deus (tam abhyarcya). Isso é a verdadeira sociedade humana, e, sem esse sistema, resta-nos apenas uma sociedade animal.
No Śrīmad-Bhāgavatam, descrevem-se as atividades modernas da sociedade humana como atividades de go-khara, vacas e asnos (sa eva go-kharaḥ). Agindo sob o conceito de vida corpórea, baseados em sociedade, amizade e amor, todos buscam o aprimoramento das condições econômicas e políticas, motivo pelo qual todas as atividades são efetuadas em ignorância. Por conseguinte, a Personalidade Suprema vem para ensinar-nos a agirmos de acordo com os princípios védicos. Nesta era de Kali, a Suprema Personalidade de Deus apareceu como Śrī Caitanya Mahāprabhu e pregou que, nesta era, as atividades védicas não podem ser executadas sistematicamente porque as pessoas são muito caídas. Ele forneceu esta recomendação, encontrada nos śāstras:
harer nāma harer nāma
harer nāmaiva kevalam
kalau nāsty eva nāsty eva
nāsty eva gatir anyathā
harer nāmaiva kevalam
kalau nāsty eva nāsty eva
nāsty eva gatir anyathā
“Nesta era de desavenças e hipocrisia, o único meio de liberação é cantar o santo nome do Senhor. Não há outra maneira. Não há outra maneira. Não há outra maneira.” Portanto, em toda parte do mundo, o movimento da consciência de Kṛṣṇa está ensinando às pessoas como cantar o mantra Hare Kṛṣṇa, e isso se mostrou muito eficaz em todos os lugares e em todas as ocasiões. A Suprema Personalidade de Deus aparece para ensinar os princípios védicos que nos ajudam a compreendê-lO (vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ). Devemos sempre estar atentos para o fato de que, ao aparecerem, Kṛṣṇa e o Senhor Caitanya vieram em corpos śuddha-sattva. Ninguém deve confundir o corpo de Kṛṣṇa ou Caitanya Mahāprabhu com corpos materiais iguais aos nossos, pois Kṛṣṇa e Caitanya Mahāprabhu apareceram como necessário para beneficiar toda a sociedade humana. Por misericórdia imotivada, em diferentes eras, o Senhor aparece em Seu transcendental corpo śuddha-sattva original, para elevar a sociedade humana à plataforma espiritual, na qual ela possa de fato beneficiar-se. Infelizmente, os políticos e outros líderes modernos enfatizam os confortos da vida corpórea (yasyātma-buddhiḥ kuṇape tri-dhātuke) e concentram-se nas atividades referentes a esse “ismo” ou àquele “ismo”, que eles descrevem em diferentes categorias de linguagem florida. Em essência, tais atividades são atividades de animais (sa eva go-kharaḥ). Devemos aprender a agir de acordo com as instruções da Bhagavad-gītā, que explica tudo o que é necessário para a obtenção de uma compreensão humana. Logo, mesmo nesta era de Kali, podemos tornar-nos felizes.
Devanagari
सत्त्वं न चेद्धातरिदं निजं भवेद्
विज्ञानमज्ञानभिदापमार्जनम् ।
गुणप्रकाशैरनुमीयते भवान्
प्रकाशते यस्य च येन वा गुण: ॥ ३५ ॥
विज्ञानमज्ञानभिदापमार्जनम् ।
गुणप्रकाशैरनुमीयते भवान्
प्रकाशते यस्य च येन वा गुण: ॥ ३५ ॥
Verse text
sattvaṁ na ced dhātar idaṁ nijaṁ bhaved
vijñānam ajñāna-bhidāpamārjanam
guṇa-prakāśair anumīyate bhavān
prakāśate yasya ca yena vā guṇaḥ
vijñānam ajñāna-bhidāpamārjanam
guṇa-prakāśair anumīyate bhavān
prakāśate yasya ca yena vā guṇaḥ
Synonyms
sattvam — śuddha-sattva, transcendental; na — não; cet — se; dhātaḥ — ó reservatório de todas as energias, causa de todas as causas; idam — isto; nijam — pessoal, espiritual; bhavet — poderia ter sido; vijñānam — conhecimento transcendental; ajñāna-bhidā — que repele a ignorância existente nos modos materiais; apamārjanam — inteiramente subjugado; guṇa-prakāśaiḥ — pelo despertar desse conhecimento transcendental; anumīyate — manifesta-se; bhavān — Vossa Onipotência; prakāśate — exibe; yasya — cuja; ca — e; yena — pela qual; vā — ou; guṇaḥ — qualidade ou inteligência.
Translation
Ó Senhor, ó causa de todas as causas, se Vosso corpo transcendental não estivesse além dos modos da natureza material, não se poderia compreender a diferença entre matéria e transcendência. Somente através de Vossa presença é que alguém pode compreender a natureza transcendental de Vossa Onipotência, o controlador da natureza material. Aquele que não está sob o influxo da presença de Vossa forma transcendental terá muita dificuldade de compreender Vossa natureza transcendental.
Purport
SIGNIFICADO—Afirma-se que traiguṇya-viṣayā vedā nistraiguṇyo bhavārjuna. Quem não está situado em transcendência não pode compreender a natureza transcendental do Senhor. Como consta no Śrīmad-Bhāgavatam (10.14.29):
athāpi te deva padāmbuja-dvaya-
prasāda-leśānugṛhīta eva hi
jānāti tattvaṁ bhagavan-mahimno
na cānya eko ’pi ciraṁ vicinvan
prasāda-leśānugṛhīta eva hi
jānāti tattvaṁ bhagavan-mahimno
na cānya eko ’pi ciraṁ vicinvan
É apenas mediante a misericórdia da Suprema Personalidade de Deus que se pode compreendê-lO. Aqueles que estão sob o influxo dos modos da natureza material, embora especulem por milhares de anos, não conseguem compreendê-lO. O Senhor tem inúmeras formas (rāmādi-mūrtiṣu kalā-niyamena tiṣṭhan), e se essas formas, tais como Senhor Rāmacandra, Nṛsiṁhadeva, Kṛṣṇa e Balarāma, não fossem transcendentais, como poderiam continuar sendo adoradas pelos devotos desde tempos imemoriais? Bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ. (Bhagavad-gītā 18.55) Os devotos que despertam sua natureza transcendental na presença do Senhor e que seguem as regras e regulações do serviço devocional podem compreender o Senhor Kṛṣṇa, o Senhor Rāmacandra e outras encarnações, que não são deste mundo material, mas vêm do mundo espiritual para o benefício das pessoas em geral. Se alguém não aceita esse processo, baseia-se em qualidades materiais para imaginar ou fabricar formas de Deus, e nunca pode chegar a uma compreensão verdadeira acerca da Suprema Personalidade de Deus. As palavras bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ denotam que, a menos que alguém adore o Senhor de acordo com os princípios devocionais reguladores, não poderá alcançar a natureza transcendental. A adoração à Deidade, mesmo que não se perceba a presença da Suprema Personalidade de Deus, desperta no devoto a sua natureza transcendental, e ele então apega-se cada vez mais aos pés de lótus do Senhor.
O aparecimento de Kṛṣṇa responde categoricamente a todas as imaginações iconográficas atinentes à Suprema Personalidade de Deus. De acordo com o modo da natureza material que exerce influência sobre a pessoa, cada qual imagina uma forma para a Suprema Personalidade de Deus. A Brahma-saṁhitā diz que o Senhor é a pessoa mais velha. Logo, uma classe de religiosos imagina que Deus deve ser muito velho, em razão do que retrata a forma do Senhor como um velhinho. Porém, a mesma Brahma-saṁhitā contradiz isso, declarando que, embora seja a mais velha de todas as entidades vivas, Ele tem a forma eterna de um jovem viçoso. No Śrīmad-Bhāgavatam, usam-se exatamente as palavras vijñānam ajñāna-bhidāpamārjanam a esse respeito. Vijñāna significa conhecimento transcendental acerca da Personalidade Suprema; vijñāna também significa conhecimento prático. Deve-se aceitar o conhecimento transcendental através do processo descendente, como o da sucessão discipular em que Brahmā apresenta na Brahma-saṁhitā o conhecimento sobre Kṛṣṇa. A Brahma-saṁhitā é o vijñāna vivenciado por Brahmā através da experiência transcendental, e, dessa maneira, ele apresentou a forma e os passatempos de Kṛṣṇa em Sua morada transcendental. Ajñāna-bhidā significa “aquilo que pode comparar-se a todas as espécies de especulação”. Em ignorância, as pessoas imaginam a forma do Senhor; às vezes, Ele não tem forma e, outras vezes, Ele tem forma, de acordo com as diferentes imaginações de cada um. Porém, a maneira de a Brahma-saṁhitā apresentar Kṛṣṇa é vijñāna – conhecimento científico e vivido na prática, o qual é fornecido pelo senhor Brahmā e aceito pelo Senhor Caitanya. Não há dúvidas sobre isso. A forma de Śrī Kṛṣṇa, a flauta de Śrī Kṛṣṇa, a cor de Kṛṣṇa – tudo é realidade. Aqui, afirma-se que vijñānam sempre derrota todas as espécies de conhecimento especulativo. “Portanto”, oraram os semideuses, “caso não aparecêsseis como o Kṛṣṇa original, nem ajñāna-bhidā (a ignorância sob a forma de conhecimento especulativo) nem vijñānam seriam compreendidos. Ajñāna-bhidāpamārjanam – mediante Vosso aparecimento, o conhecimento especulativo decorrente da ignorância será derrotado, e o conhecimento verdadeiro e vivenciado por autoridades como o senhor Brahmā, será estabelecido. Homens influenciados pelos três modos da natureza material imaginam seu próprio Deus de acordo com os modos da natureza material. Dessa maneira, apresentam Deus de várias maneiras, mas Vosso aparecimento determinará a verdadeira forma de Deus.”
O maior erro cometido pelo impersonalista é pensar que, quando a encarnação de Deus vem, Ele aceita uma forma material no modo da bondade. Na verdade, a forma de Kṛṣṇa ou Nārāyaṇa é transcendental a qualquer ideia material. Até mesmo o maior impersonalista, Śaṅkarācārya, admitiu que nārāyaṇaḥ paro ’vyaktāt: a criação material é causada pelo avyakta, a manifestação impessoal da matéria ou a totalidade do reservatório de matéria não-fenomenal, e Kṛṣṇa é transcendental a esse conceito material. A isso, o Śrīmad-Bhāgavatam chama śuddha-sattva, ou transcendental. O Senhor não pertence ao modo da bondade material, pois Ele está situado acima da posição de bondade material. Ele pertence à eterna esfera transcendental de bem-aventurança e conhecimento.
“Querido Senhor”, os semideuses oraram, “ao aparecerdes sob Vossas diferentes encarnações, assumis diferentes nomes e formas de acordo com as diferentes situações. Senhor Kṛṣṇa é Vosso nome porque sois todo-atrativo; Vós Vos chamais Śyāmasundara devido à Vossa beleza transcendental. Śyāma significa escuro, mas dizem que sois mais belo do que milhares de Cupidos. Kandarpa-koṭi-kamanīya. Embora apareçais com uma tez comparada à cor de uma nuvem negra, sois o Absoluto transcendental, e, portanto, Vossa beleza é muitíssimas vezes mais atraente do que o delicado corpo de Cupido. Às vezes, sois chamado Giridhārī porque erguestes a colina conhecida como Govardhana. Às vezes, sois chamado Nanda-nandana ou Vāsudeva ou Devakī-nandana porque apareceis como o filho de Mahārāja Nanda, Devakī ou Vasudeva. Os impersonalistas pensam que Vossos muitos nomes ou formas Vos são atribuídos de acordo com uma determinada classe de trabalho e qualidade porque Vos aceitam através de seu ângulo de visão material.”
“Querido Senhor nosso, não é estudando Vossa natureza, forma e atividades absolutas através da especulação mental que alguém Vos compreenderá. Todos devem ocupar-se em serviço devocional; então, pode-se entender Vossa natureza absoluta e Vossa forma, nome e qualidades transcendentais. Na verdade, somente alguém que sinta algum gosto em servir aos Vossos pés de lótus poderá entender Vossa natureza ou forma e qualidades transcendentais. Outros talvez continuem especulando por milhões de anos, mas não será possível que vislumbrem nem mesmo um pouco de Vossa verdadeira posição.” Em outras palavras, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, não pode ser compreendido pelos não-devotos porque existe uma cortina de yogamāyā que cobre os verdadeiros aspectos de Kṛṣṇa. Como se confirma na Bhagavad-gītā (7.25), nāhaṁ prakāśaḥ sarvasya. O Senhor diz: “Não Me exponho a toda e qualquer pessoa.” Quando veio, Kṛṣṇa realmente esteve presente no campo de batalha de Kurukṣetra, e todos O viram. Mas nem todos puderam entender que Ele era a Suprema Personalidade de Deus. Mesmo assim, todos aqueles que morreram em Sua presença libertaram-se por completo do cativeiro material e foram transferidos para o mundo espiritual.
Como não despertam sua natureza espiritual, os mūḍhas, os tolos, não entendem Kṛṣṇa ou Rāma (avajānanti māṁ mūḍhā mānuṣīṁ tanum āśritam). Até mesmo grandes estudiosos eruditos, não levando em consideração os esforços empreendidos pelos ācāryas que, em muitos comentários e notas elaboradas, recomendaram o serviço devocional, pensam que Kṛṣṇa é fictício. Isso se deve à falta de conhecimento transcendental e ao fato de que não é despertada a consciência de Kṛṣṇa. Deve-se ter o bom senso de perguntar, se Kṛṣṇa ou Rāma são fictícios, por que eruditos notáveis, tais como Śrīdhara Svāmī, Rūpa Gosvāmī, Sanātana Gosvāmī, Vīrarāghava, Vijayadhvaja, Vallabhācārya e muitos outros ācāryas conceituados gastariam tanto tempo escrevendo a respeito de Kṛṣṇa, em anotações e comentários sobre o Śrīmad-Bhāgavatam.
Devanagari
न नामरूपे गुणजन्मकर्मभि-
र्निरूपितव्ये तव तस्य साक्षिण: ।
मनोवचोभ्यामनुमेयवर्त्मनो
देव क्रियायां प्रतियन्त्यथापि हि ॥ ३६ ॥
र्निरूपितव्ये तव तस्य साक्षिण: ।
मनोवचोभ्यामनुमेयवर्त्मनो
देव क्रियायां प्रतियन्त्यथापि हि ॥ ३६ ॥
Verse text
na nāma-rūpe guṇa-janma-karmabhir
nirūpitavye tava tasya sākṣiṇaḥ
mano-vacobhyām anumeya-vartmano
deva kriyāyāṁ pratiyanty athāpi hi
nirūpitavye tava tasya sākṣiṇaḥ
mano-vacobhyām anumeya-vartmano
deva kriyāyāṁ pratiyanty athāpi hi
Synonyms
na — não; nāma-rūpe — o nome e a forma; guṇa — com atributos; janma — aparecimento; karmabhiḥ — atividades ou passatempos; nirūpitavye — não são possíveis de serem verificados; tava — Vossos; tasya — dEle; sākṣiṇaḥ — que é o observador direto; manaḥ — da mente; vacobhyām — palavras; anumeya — hipótese; vartmanaḥ — o caminho; deva — ó Senhor; kriyāyām — em atividades devocionais; pratiyanti — eles compreendem; atha api — mesmo assim; hi — na verdade (podeis ser compreendido pelos devotos).
Translation
Ó Senhor, Vosso nome e forma transcendentais não podem ser verificados por aqueles que especulam no mero caminho da imaginação. Vosso nome, forma e atributos podem ser averiguados apenas através do serviço devocional.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma no Padma Purāṇa:
ataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi
na bhaved grāhyam indriyaiḥ
sevonmukhe hi jihvādau
svayam eva sphuraty adaḥ
na bhaved grāhyam indriyaiḥ
sevonmukhe hi jihvādau
svayam eva sphuraty adaḥ
“Através dos sentidos materialmente contaminados, ninguém pode compreender a natureza transcendental do nome, forma, qualidade e passatempos de Śrī Kṛṣṇa. Só quando alguém se torna espiritualmente impregnado com o serviço transcendental ao Senhor, é que o nome, a forma, a qualidade e os passatempos transcendentais do Senhor lhe são revelados.” Uma vez que Kṛṣṇa e Seu nome, forma e atividades transcendentais são todos da mesma natureza transcendental, as pessoas comuns, ou aqueles que são apenas um pouco avançados, não podem entendê-los. Mesmo grandes eruditos que não são devotos pensam que Kṛṣṇa é fictício. Todavia, embora não acreditem que Kṛṣṇa realmente foi uma pessoa histórica cuja presença no campo de batalha de Kurukṣetra é registrada nos relatos do Mahābhārata, os supostos eruditos e comentadores sentem-se impelidos a escrever comentários sobre a Bhagavad-gītā e outros registros históricos. Sevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ: o nome, a forma, os atributos e as atividades transcendentais de Kṛṣṇa podem ser revelados somente quando alguém se ocupa em servi-lO com plena consciência. Isso confirma as próprias palavras que Kṛṣṇa fala na Bhagavad-gītā (18.55):
bhaktyā mām abhijānāti
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad-anantaram
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad-anantaram
“Unicamente através do serviço devocional é que se pode entender a Suprema Personalidade de Deus como Ele é. E quando, através dessa devoção, alguém se situa em plena consciência do Senhor Supremo, pode ingressar no reino de Deus.” Somente através de sevonmukha, ocupando-se a serviço do Senhor, pode alguém compreender o nome, a forma e as qualidades da Suprema Personalidade de Deus.
“Ó Senhor”, disseram os semideuses, “os impersonalistas, que não são devotos, não podem entender que Vosso nome é idêntico à Vossa forma.” Como o Senhor é absoluto, não há diferença entre Seu nome e Sua verdadeira forma. No mundo material, há diferença entre forma e nome. A fruta manga é diferente do nome manga. Não se pode saborear a manga simplesmente cantando: “Manga, manga, manga.” Mas o devoto, sabendo não haver diferença entre o nome e a forma do Senhor, canta Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, e compreende que sempre está na companhia de Kṛṣṇa.
Para as pessoas que não são muito avançadas no conhecimento absoluto acerca do Supremo, o Senhor Kṛṣṇa manifesta Seus passatempos transcendentais. Basta que elas pensem nos passatempos do Senhor para obterem todo o benefício. Como não há diferença entre o nome e a forma transcendentais do Senhor, não há diferença entre os passatempos e a forma transcendentais do Senhor. Para aqueles que são menos inteligentes (como as mulheres, os trabalhadores braçais ou a classe mercantil), o grande sábio Vyāsadeva escreveu o Mahābhārata. No Mahābhārata, Kṛṣṇa está presente em Suas diferentes atividades. O Mahābhārata é história, e, pelo simples fato de estudar, ouvir e memorizar as atividades transcendentais de Kṛṣṇa, os menos inteligentes também podem aos poucos elevar-se ao padrão de devotos puros.
Os devotos puros, que vivem absortos em pensar nos transcendentais pés de lótus de Kṛṣṇa e vivem ocupados em executar serviço devocional com plena consciência de Kṛṣṇa, jamais devem ser considerados como estando no mundo material. Śrīla Rūpa Gosvāmī explica que aqueles que, com corpo, mente e atividades, estão sempre ocupados em consciência de Kṛṣṇa devem ser tidos como liberados, mesmo enquanto estão dentro deste seu corpo atual. A Bhagavad-gītā também confirma isto: aqueles que estão ocupados no serviço devocional ao Senhor já transcenderam a posição material.
Kṛṣṇa aparece para dar aos devotos e não-devotos a oportunidade de entenderem a meta última da vida. Os devotos obtêm a oportunidade de vê-lO e adorá-lO diretamente. Aqueles que não estão nessa plataforma ficam com condições de conhecer Suas atividades e, dessa maneira, elevarem-se à mesma posição.
A Brahma-saṁhitā (5.38) diz:
premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena
santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti
yaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
santaḥ sadaiva hṛdayeṣu vilokayanti
yaṁ śyāmasundaram acintya-guṇa-svarūpaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Embora a forma transcendental de Kṛṣṇa apresente-se como negra, os devotos que amam a Suprema Personalidade de Deus apreciam-nO como o Senhor Śyāmasundara, o qual possui uma belíssima forma negra. A forma do Senhor é tão bela que a Brahma-saṁhitā (5.30) também afirma:
veṇuṁ kvaṇantam aravinda-dalāyatākṣaṁ
barhāvataṁsam asitāmbuda-sundarāṅgam
kandarpa-koṭi-kamanīya-viśeṣa-śobhaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
barhāvataṁsam asitāmbuda-sundarāṅgam
kandarpa-koṭi-kamanīya-viśeṣa-śobhaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
“Adoro Govinda, o Senhor primordial, que toca Sua flauta transcendental. Seus olhos são como flores de lótus, Ele está decorado com penas de pavão e Sua tez corpórea assemelha-se à cor de uma nuvem negra recém-formada, embora Seus traços físicos suplantem a beleza de milhões de Cupidos.” Essa beleza do Senhor Supremo pode ser vista pelos devotos que Se encantaram com Ele, devotos cujos olhos estão ungidos com o amor a Deus (premāñjana-cchurita-bhakti-vilocanena).
O Senhor também é conhecido como Giridhārī ou Girivara-dhārī. Visto que Kṛṣṇa, em prol de Seus devotos, ergueu a colina Govardhana, os devotos apreciam a força inconcebível do Senhor – os não-devotos, entretanto, apesar de presenciarem diretamente a inconcebível força e poder do Senhor, consideram as atividades do Senhor como fictícias. Essa é a diferença entre o devoto e o não-devoto. Os não-devotos não conseguem dar nenhum epíteto à Suprema Personalidade de Deus, mas o Senhor é conhecido como Śyāmasundara e Giridhārī. Igualmente, o Senhor é conhecido como Devakī-nandana e Yaśodā-nandana porque aceitou o papel de filho de mãe Devakī e mãe Yaśodā, e Ele é conhecido como Gopāla porque desfrutou da diversão de manter as vacas e bezerros. Portanto, embora não tenha nenhum nome mundano, os devotos chamam-nO de Devakī-nandana, Yaśodā-nandana, Gopāla e Śyāmasundara. Todos esses são nomes transcendentais, apreciados somente pelos devotos, e não pelos não-devotos.
A história da vida de Kṛṣṇa foi vista por todos, mas apenas aqueles que amam a Suprema Personalidade de Deus podem apreciar essa história, ao passo que os não-devotos, não tendo desenvolvido suas qualidades amorosas, pensam que as atividades, forma e atributos da Suprema Personalidade de Deus são fictícios. Portanto, este verso explica que na nāma-rūpe guṇa janma-karmabhir nirūpitavye tava tasya sākṣiṇaḥ. Com relação a isso, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura apresenta o exemplo das pessoas que sofrem de icterícia e que não podem saborear a doçura do açúcar-cande, embora todos saibam que o açúcar-cande é doce. Igualmente, devido à doença material, os não-devotos não podem entender o nome, a forma, os atributos e as atividades transcendentais da Suprema Personalidade de Deus, embora realmente vejam as atividades do Senhor, seja através das autoridades, seja através da história. Os Purāṇas são antigas histórias autênticas, mas os não-devotos não podem entendê-los, especialmente o Śrīmad-Bhāgavatam, que é a essência do conhecimento védico. Os não-devotos não conseguem nem mesmo entender o estudo preliminar do conhecimento transcendental, a Bhagavad-gītā. Eles simplesmente especulam e apresentam comentários com distorções absurdas. Em conclusão, a menos que alguém se eleve à plataforma transcendental, praticando bhakti-yoga, não pode entender a Suprema Personalidade de Deus ou Seu nome, forma, atributos ou atividades. Mas se por acaso alguém, através da associação com os devotos, realmente consegue entender o Senhor e Seus diversos aspectos, imediatamente se torna liberado. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (4.9):
janma karma ca me divyam
evaṁ yo vetti tattvataḥ
tyaktvā dehaṁ punar janma
naiti mām eti so ’rjuna
evaṁ yo vetti tattvataḥ
tyaktvā dehaṁ punar janma
naiti mām eti so ’rjuna
“Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.”
Portanto, Śrīla Rūpa Gosvāmī disse que, com afeição e amor à Suprema Personalidade de Deus, os devotos podem, com suas palavras, manifestar sua mente a Ele. Outros, entretanto, não têm este privilégio, como se confirma na Bhagavad-gītā (bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ).
Devanagari
शृण्वन् गृणन् संस्मरयंश्च चिन्तयन्
नामानि रूपाणि च मङ्गलानि ते ।
क्रियासु यस्त्वच्चरणारविन्दयो-
राविष्टचेता न भवाय कल्पते ॥ ३७ ॥
नामानि रूपाणि च मङ्गलानि ते ।
क्रियासु यस्त्वच्चरणारविन्दयो-
राविष्टचेता न भवाय कल्पते ॥ ३७ ॥
Verse text
śṛṇvan gṛṇan saṁsmarayaṁś ca cintayan
nāmāni rūpāṇi ca maṅgalāni te
kriyāsu yas tvac-caraṇāravindayor
āviṣṭa-cetā na bhavāya kalpate
nāmāni rūpāṇi ca maṅgalāni te
kriyāsu yas tvac-caraṇāravindayor
āviṣṭa-cetā na bhavāya kalpate
Synonyms
śṛṇvan — constantemente ouvindo sobre o Senhor (śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ); gṛṇan — cantando ou recitando (o santo nome do Senhor e Suas atividades); saṁsmarayan — lembrando (pensando constantemente nos pés de lótus do Senhor e em Sua forma); ca — e; cintayan — contemplando (as atividades transcendentais do Senhor); nāmāni — Seus nomes transcendentais; rūpāṇi — Suas formas transcendentais; ca — também; maṅgalāni — que são todos transcendentais e, portanto, auspiciosos; te — de Vossa Onipotência; kriyāsu — em ocupar-se no serviço devocional; yaḥ — aquele que; tvat-caraṇa-aravindayoḥ — aos Vossos pés de lótus; āviṣṭa-cetāḥ — o devoto que está inteiramente absorto (em tais atividades); na — não; bhavāya — para a plataforma material; kalpate — se qualifica.
Translation
Mesmo enquanto se ocupam em várias atividades, os devotos cujas mentes absorvem-se apenas em Vossos pés de lótus, e que sempre ouvem, cantam e contemplam Vossos nomes e formas transcendentais, e que induzem os outros a lembrarem-se desses nomes e formas, vivem no plano transcendental e, dessa maneira, podem entender a Suprema Personalidade de Deus.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, temos a explicação de como se pode praticar o bhakti-yoga. Śrīla Rūpa Gosvāmī disse que todo aquele que dedicou sua vida a serviço do Senhor (īhā yasya harer dāsye) através de suas atividades, mente e palavras (karmaṇā manasā girā), em qualquer posição de vida que esteja (nikhilāsv apy avasthāsu), deixou de ser condicionado, pois já é liberado (jīvan-muktaḥ sa ucyate). Muito embora esteja em um corpo material, esse devoto nada tem a ver com esse corpo, pois está situado transcendentalmente. Nārāyaṇa-parāḥ sarve na kutaścana bibhyati: como se ocupa em atividades transcendentais, o devoto não teme estar materialmente corporificado. (Śrīmad-Bhāgavatam 6.17.28) Ilustrando essa posição liberada, Śrī Caitanya Mahāprabhu orou que mama janmani janmanīśvare bhavatād bhaktir ahaitukī tvayi: “Tudo o que desejo em Minha vida é Vosso serviço devocional imotivado, nascimento após nascimento.” (Śikṣāṣṭaka 4) Mesmo que um devoto, pela vontade suprema do Senhor, nasça neste mundo material, ele continua seu serviço devocional. Quando o rei Bharata cometeu um erro e, em sua vida seguinte, tornou-se um veado, seu serviço devocional não foi descontinuado, embora tenha recebido um castigo suave devido à sua negligência. Nārada Muni diz que mesmo que alguém caia da plataforma de serviço devocional, ele não está perdido, ao passo que os não-devotos estão inteiramente perdidos porque não se ocupam em prestar serviço. A Bhagavad-gītā (9.14), portanto, recomenda que todos sempre se ocupem pelo menos em cantar o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa:
satataṁ kīrtayanto māṁ
yatantaś ca dṛḍha-vratāḥ
namasyantaś ca māṁ bhaktyā
nitya-yuktā upāsate
yatantaś ca dṛḍha-vratāḥ
namasyantaś ca māṁ bhaktyā
nitya-yuktā upāsate
“Sempre cantando Minhas glórias, esforçando-se com muita determinação, prostrando-se diante de Mim, as grandes almas adoram-Me perpetuamente com devoção.”
Ninguém deve abandonar o processo de serviço devocional, que é realizado de nove diferentes maneiras (śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam etc.). O processo mais importante é ouvir (śravaṇam) o guru, os sādhus e os śāstras – o mestre espiritual, os ācāryas santos e a literatura védica. Sādhu-śāstra-guru-vākya, cittete kariyā aikya. Não devemos ouvir os comentários e explicações dos não-devotos, pois isso é estritamente proibido por Śrīla Sanātana Gosvāmī, que cita o Padma Purāṇa:
avaiṣṇava-mukhodgīrṇaṁ
pūtaṁ hari-kathāmṛtam
śravaṇaṁ naiva kartavyaṁ
sarpocchiṣṭaṁ yathā payaḥ
pūtaṁ hari-kathāmṛtam
śravaṇaṁ naiva kartavyaṁ
sarpocchiṣṭaṁ yathā payaḥ
Devemos seguir à risca esse preceito e nunca procurar ouvir os māyāvādīs, os impersonalistas, os niilistas, os políticos ou os falsos eruditos. Evitando estritamente semelhante associação inauspiciosa, devemos apenas ouvir os devotos puros. Śrīla Rūpa Gosvāmī, portanto, recomenda que śrī-guru-padāśrayaḥ: deve-se buscar refúgio nos pés de lótus de um devoto puro que saiba agir como guru. Caitanya Mahāprabhu aconselha que guru é aquele que segue estritamente as instruções da Bhagavad-gītā: yare dekha tare kaha ‘kṛṣṇa’-upadeśa. (Caitanya-caritāmṛta, Madhya 7.128) Um ilusionista, um mágico ou aquele que segue a carreira acadêmica apenas para falar tolices não são gurus. Em vez disso, guru é aquele que apresenta a Bhagavad-gītā, as instruções de Kṛṣṇa, como elas são. Śravaṇa é muito importante; deve-se ouvir o sādhu, o guru e os śāstras que sejam vaiṣṇavas.
Neste verso, a palavra kriyāsu, que significa “através do trabalho manual”, ou “através do trabalho”, é importante. Todos devem ocupar-se em prestar serviço prático ao Senhor. Em nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa, todas as nossas atividades concentram-se em distribuir a literatura de Kṛṣṇa. Isso é muito importante. Podemos aproximar-nos de qualquer pessoa e estimulá-la a ler publicações sobre Kṛṣṇa para que, no futuro, ela também possa tornar-se um devoto. Tais atividades são recomendadas neste verso. Kriyāsu yas tvac-caraṇāravindayoḥ. Tais atividades sempre farão os devotos lembrarem-se dos pés de lótus do Senhor. Concentrando-se plenamente em distribuir livros para servir a Kṛṣṇa, as pessoas podem absorver-se em Kṛṣṇa. Isso se chama samādhi.
Devanagari
दिष्टया हरेऽस्या भवत: पदो भुवो
भारोऽपनीतस्तव जन्मनेशितु: ।
दिष्टयाङ्कितां त्वत्पदकै: सुशोभनै-
र्द्रक्ष्याम गां द्यां च तवानुकम्पिताम् ॥ ३८ ॥
भारोऽपनीतस्तव जन्मनेशितु: ।
दिष्टयाङ्कितां त्वत्पदकै: सुशोभनै-
र्द्रक्ष्याम गां द्यां च तवानुकम्पिताम् ॥ ३८ ॥
Verse text
diṣṭyā hare ’syā bhavataḥ pado bhuvo
bhāro ’panītas tava janmaneśituḥ
diṣṭyāṅkitāṁ tvat-padakaiḥ suśobhanair
drakṣyāma gāṁ dyāṁ ca tavānukampitām
bhāro ’panītas tava janmaneśituḥ
diṣṭyāṅkitāṁ tvat-padakaiḥ suśobhanair
drakṣyāma gāṁ dyāṁ ca tavānukampitām
Synonyms
diṣṭyā — pela fortuna; hare — ó Senhor; asyāḥ — deste (mundo); bhavataḥ — de Vossa Onipotência; padaḥ — do lugar; bhuvaḥ — sobre esta Terra; bhāraḥ — a opressão criada pelos demônios; apanītaḥ — agora removida; tava — de Vossa Onipotência; janmanā — pelo aparecimento como uma encarnação; īśituḥ — Vós, o controlador de tudo; diṣṭyā — e pela fortuna; aṅkitām — marcados; tvat-padakaiḥ — por vossos pés de lótus; su-śobhanaiḥ — que estão transcendentalmente decorados com as marcas do búzio, do disco, do lótus e da maça; drakṣyāma — com certeza observaremos; gām — nesta Terra; dyām ca — no céu também; tava anukampitām — devido à Vossa imotivada misericórdia para conosco.
Translation
Ó Senhor, somos afortunados porque a forte opressão que os demônios infligem a esta Terra é imediatamente eliminada com o Vosso aparecimento. Com efeito, somos muito afortunados, pois nos tornaremos capazes de ver, nesta Terra e nos planetas celestiais, as marcas do lótus, do búzio, da maça e do disco que adornam Vossos pés de lótus.
Purport
SIGNIFICADO—As solas dos pés de lótus do Senhor são marcadas com śaṅkha-cakra-gadā-padma – búzio, disco, maça e lótus – e também por uma bandeira e um raio. Quando Kṛṣṇa caminha nesta Terra ou nos planetas celestiais, essas marcas são visíveis onde quer que Ele pise. Vṛndāvana-dhāma é um lugar transcendental porque Kṛṣṇa locomove-Se frequentemente nesse solo. Os habitantes de Vṛndāvana tinham a fortuna de ver essas marcas espalhadas em vários lugares. Quando Akrūra foi a Vṛndāvana para buscar Kṛṣṇa e Balarāma e levá-lOs para o festival promovido por Kaṁsa, ele caiu ao chão e começou a suspirar ao ver as marcas dos pés de lótus do Senhor desenhadas no solo de Vṛndāvana. Essas marcas são visíveis aos devotos que recebem a imotivada misericórdia da Suprema Personalidade de Deus (tavānukampitām). Os semideuses se alegraram não apenas porque o aparecimento do Senhor Supremo findaria os problemas causados pelos demônios opressores, mas também porque conseguiriam ver no solo as marcas transcendentais das solas dos pés de lótus do Senhor. As gopīs sempre pensavam nos pés de lótus do Senhor quando Ele caminhava nos campos de pastagens, e, como se descreve no verso anterior, pelo simples fato de pensar nos pés de lótus do Senhor, as gopīs sentiam-se plenamente absortas em transcendência (āviṣṭa-cetā na bhavāya kalpate). A exemplo das gopīs, aquele que vive absorto em pensar no Senhor ultrapassa a plataforma material e não permanecerá neste mundo material. É nosso dever, portanto, sempre ouvir, cantar e pensar nos pés de lótus do Senhor, como de fato fazem os vaiṣṇavas que decidiram viver sempre em Vṛndāvana e pensar nos pés de lótus do Senhor vinte e quatro horas por dia.
Devanagari
न तेऽभवस्येश भवस्य कारणं
विना विनोदं बत तर्कयामहे ।
भवो निरोध: स्थितिरप्यविद्यया
कृता यतस्त्वय्यभयाश्रयात्मनि ॥ ३९ ॥
विना विनोदं बत तर्कयामहे ।
भवो निरोध: स्थितिरप्यविद्यया
कृता यतस्त्वय्यभयाश्रयात्मनि ॥ ३९ ॥
Verse text
na te ’bhavasyeśa bhavasya kāraṇaṁ
vinā vinodaṁ bata tarkayāmahe
bhavo nirodhaḥ sthitir apy avidyayā
kṛtā yatas tvayy abhayāśrayātmani
vinā vinodaṁ bata tarkayāmahe
bhavo nirodhaḥ sthitir apy avidyayā
kṛtā yatas tvayy abhayāśrayātmani
Synonyms
na — não; te — de Vossa Onipotência; abhavasya — que, diferentemente do ser vivo comum, não Se submete a nascimento, morte ou manutenção; īśa — ó Senhor Supremo; bhavasya — de Vosso aparecimento, Vosso nascimento; kāraṇam — a causa; vinā — sem; vinodam — os passatempos (apesar do que se diz, causa alguma Vos força a vir a este mundo); bata — entretanto; tarkayāmahe — não podemos argumentar (mas devemos simplesmente entender que estes são Vossos passatempos); bhavaḥ — nascimento; nirodhaḥ — morte; sthitiḥ — manutenção; api — também; avidyayā — pela energia ilusória externa; kṛtāḥ — feitos; yataḥ — porque; tvayi — a Vós; abhaya-āśraya — ó destemido refúgio de todos; ātmani — da entidade viva comum.
Translation
Ó Senhor Supremo, não sois uma entidade viva ordinária, que aparece neste mundo material como resultado de atividades fruitivas. Portanto, Vosso aparecimento ou nascimento neste mundo tem como causa apenas Vossa potência de prazer. Igualmente, as entidades vivas, que são partes de Vós, não precisam submeter-se a sofrimentos, tais como nascimento, morte e velhice, exceto quando elas são conduzidas por Vossa energia externa.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma na Bhagavad-gītā (15.7), mamaivāṁśo jīva-loke jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ: as entidades vivas são partes integrantes do Senhor Supremo e, em razão disso, são qualitativamente unas com o Senhor. Podemos entender que, quando o Senhor Supremo aparece ou desaparece como encarnação, a única causa é Sua potência de prazer. Não podemos forçar a Suprema Personalidade de Deus a aparecer. Como Ele diz na Bhagavad-gītā (4.7):
yadā yadā hi dharmasya
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
glānir bhavati bhārata
abhyutthānam adharmasya
tadātmānaṁ sṛjāmy aham
“Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, ou o predominante aumento da irreligião – nesse momento, Eu próprio desço.” Quando há necessidade de diminuir a opressão criada pelos demônios, a Divindade Suprema pode recorrer a vários métodos para conseguir isso, pois tem energias multifárias. Não há necessidade de Ele vir como uma encarnação, uma vez que, diferentemente das entidades vivas, Ele não é forçado a fazer nada. As entidades vivas vêm a este mundo material com o espírito de gozo, mas, como querem desfrutar sem Kṛṣṇa (kṛṣṇa-bahirmukha haiyā bhoja-vāñchā), elas se submetem a nascimento, morte, velhice e doença, sob o controle da energia ilusória. Todavia, quando a Suprema Personalidade de Deus aparece, nenhuma dessas causas está envolvida; Seu advento é propiciado pela Sua potência de prazer. Devemos sempre atentar para essa diferença entre o Senhor e a entidade viva comum e, assim, poderemos evitar o inútil argumento de que o Senhor não pode vir. Existem filósofos que, não acreditando na encarnação do Senhor, perguntam: “Por que o Senhor Supremo deveria vir?” Mas a resposta é: “Por que Ele não deveria vir? Por que Ele deveria deixar-Se controlar pelo desejo da entidade viva?” O Senhor é livre para fazer o que bem quiser. Logo, este verso diz que vinā vinodaṁ bata tarkayāmahe. É somente por Seu prazer que Ele vem, embora não precise vir.
Ao virem a este mundo para tentarem obter gozo material, as entidades vivas enredam-se em karma e karma-phala através da energia ilusória do Senhor. Contudo, se alguém busca refúgio nos pés de lótus do Senhor, volta a situar-se em seu estado liberado original. Como se afirma aqui, kṛtā yatas tvayy abhayāśrayātmani: Aquele que busca abrigo nos pés de lótus do Senhor é sempre destemido. Porque dependemos da Suprema Personalidade de Deus, devemos abandonar a ideia de que, sem Kṛṣṇa, podemos desfrutar livremente neste mundo material. Essa ideia é a razão pela qual ficamos enredados. Portanto, é nosso dever novamente buscarmos refúgio nos pés de lótus do Senhor. Esse refúgio é conhecido como abhaya, ou onde não existe o temor. Uma vez que Kṛṣṇa não Se sujeita a nascimento, morte, velhice ou doença, e como somos partes integrantes de Kṛṣṇa, também não estamos sujeitos a nascimento, morte, velhice e doença, mas passamos a nos sujeitar a esses problemas ilusórios devido ao fato de nos termos esquecido de Kṛṣṇa e de nossa posição como Seus servos eternos (jīvera ‘svarūpa’ haya-kṛṣṇera ‘nitya-dāsa’). Logo, se praticarmos o serviço devocional, pensando sempre no Senhor, sempre glorificando-O e sempre falando a respeito dEle, como se descreve no verso 37 (śṛṇvan gṛṇan saṁsmarayaṁś ca cintayan), ganharemos acesso à nossa posição constitucional original e, assim, seremos salvos. Os semideuses, portanto, encorajaram Devakī a não temer Kaṁsa, mas a pensar na Suprema Personalidade de Deus, que já estava dentro de seu ventre.
Devanagari
मत्स्याश्वकच्छपनृसिंहवराहहंस-
राजन्यविप्रविबुधेषु कृतावतार: ।
त्वं पासि नस्त्रिभुवनं च यथाधुनेश
भारं भुवो हर यदूत्तम वन्दनं ते ॥ ४० ॥
राजन्यविप्रविबुधेषु कृतावतार: ।
त्वं पासि नस्त्रिभुवनं च यथाधुनेश
भारं भुवो हर यदूत्तम वन्दनं ते ॥ ४० ॥
Verse text
matsyāśva-kacchapa-nṛsiṁha-varāha-haṁsa-
rājanya-vipra-vibudheṣu kṛtāvatāraḥ
tvaṁ pāsi nas tri-bhuvanaṁ ca yathādhuneśa
bhāraṁ bhuvo hara yadūttama vandanaṁ te
rājanya-vipra-vibudheṣu kṛtāvatāraḥ
tvaṁ pāsi nas tri-bhuvanaṁ ca yathādhuneśa
bhāraṁ bhuvo hara yadūttama vandanaṁ te
Synonyms
matsya — a encarnação de peixe; aśva — a encarnação de cavalo; kacchapa — a encarnação de tartaruga; nṛsiṁha — a encarnação Narasiṁha; varāha — a encarnação Varāha; haṁsa — a encarnação de cisne; rājanya — encarnações como o Senhor Rāmacandra e como outros kṣatriyas; vipra — encarnações de brāhmaṇas, tais como Vāmanadeva; vibudheṣu — entre os semideuses; kṛta-avatāraḥ — apareceu como encarnações; tvam — Vossa Onipotência; pāsi — por favor, salvai; naḥ — a nós; tri-bhuvanam ca — e os três mundos; yathā — bem como; adhunā — agora; īśa — ó Senhor Supremo; bhāram — opressão; bhuvaḥ — da Terra; hara — por favor, diminui; yadu-uttama — ó Senhor Kṛṣṇa, ó melhor dos Yadus; vandanam te — nós Vos oferecemos nossas orações.
Translation
Ó controlador supremo, Vossa Onipotência anteriormente aceitou encarnações, tais como de peixe, cavalo, tartaruga, Narasiṁhadeva, javali, cisne, Senhor Rāmacandra, Paraśurāma e, entre os semideuses, Vāmanadeva, para proteger o mundo inteiro com Vossa misericórdia. Portanto, por favor, protegei-nos novamente com Vossa misericórdia, diminuindo as perturbações deste mundo. Ó Kṛṣṇa, ó melhor dos Yadus, oferecemos-Vos nossas respeitosas reverências.
Purport
SIGNIFICADO—Em toda encarnação, a Suprema Personalidade de Deus tem uma missão específica a cumprir, e isso também se aplicava ao caso em que Ele apareceu como filho de Devakī, na família dos Yadus. Assim, todos os semideuses ofereceram suas orações ao Senhor, prostrando-se diante dEle, e pediram que o Senhor tomasse as medidas cabíveis. Não podemos ordenar a Suprema Personalidade de Deus a tomar alguma atitude por nós. Tudo o que podemos fazer é oferecer-Lhe nossas reverências, como aconselha a Bhagavad-gītā (man-manā bhava mad-bhakto mad-yājī māṁ namaskuru), e orar para que Ele elimine os perigos.
Devanagari
दिष्टयाम्ब ते कुक्षिगत: पर: पुमा-
नंशेन साक्षाद् भगवान् भवाय न: ।
माभूद् भयं भोजपतेर्मुमूर्षो-
र्गोप्ता यदूनां भविता तवात्मज: ॥ ४१ ॥
नंशेन साक्षाद् भगवान् भवाय न: ।
माभूद् भयं भोजपतेर्मुमूर्षो-
र्गोप्ता यदूनां भविता तवात्मज: ॥ ४१ ॥
Verse text
diṣṭyāmba te kukṣi-gataḥ paraḥ pumān
aṁśena sākṣād bhagavān bhavāya naḥ
mābhūd bhayaṁ bhoja-pater mumūrṣor
goptā yadūnāṁ bhavitā tavātmajaḥ
aṁśena sākṣād bhagavān bhavāya naḥ
mābhūd bhayaṁ bhoja-pater mumūrṣor
goptā yadūnāṁ bhavitā tavātmajaḥ
Synonyms
diṣṭyā — pela fortuna; amba — ó mãe; te — tua; kukṣi-gataḥ — no ventre; paraḥ — a Suprema; pumān — Personalidade de Deus; aṁśena — com todas as Suas energias, Suas partes integrantes; sākṣāt — diretamente; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; bhavāya — para a prosperidade; naḥ — de todos nós; mā abhūt — nunca fiques; bhayam — com medo; bhoja-pateḥ — de Kaṁsa, o rei da dinastia Bhoja; mumūrṣoḥ — que escolheu ser morto pelo Senhor; goptā — o protetor; yadūnām — da dinastia Yadu; bhavitā — Ele Se tornará; tava ātmajaḥ — teu filho.
Translation
Ó mãe Devakī, por tua e nossa boa fortuna, a própria Suprema Personalidade de Deus, com todas as Suas porções plenárias, tais como Baladeva, agora está dentro de teu ventre. Logo, não precisas temer Kaṁsa, que escolheu ser morto pelo Senhor. Teu filho eterno, Kṛṣṇa, protegerá toda a dinastia Yadu.
Purport
SIGNIFICADO—As palavras paraḥ pumān aṁśena significam que Kṛṣṇa é a Personalidade de Deus original. Esse é o veredito dos śāstras (kṛṣṇas tu bhagavān svayam). Por isso, os semideuses asseguraram a Devakī: “Teu filho é a Suprema Personalidade de Deus, e está aparecendo com Baladeva, Sua porção plenária. Ele te dará toda a proteção e matará Kaṁsa, que decidiu continuar sendo inimigo do Senhor e, por conseguinte, optou por morrer nas mãos dEle.”
Devanagari
श्रीशुक उवाच
इत्यभिष्टूय पुरुषं यद्रूपमनिदं यथा ।
ब्रह्मेशानौ पुरोधाय देवा: प्रतिययुर्दिवम् ॥ ४२ ॥
इत्यभिष्टूय पुरुषं यद्रूपमनिदं यथा ।
ब्रह्मेशानौ पुरोधाय देवा: प्रतिययुर्दिवम् ॥ ४२ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
ity abhiṣṭūya puruṣaṁ
yad-rūpam anidaṁ yathā
brahmeśānau purodhāya
devāḥ pratiyayur divam
ity abhiṣṭūya puruṣaṁ
yad-rūpam anidaṁ yathā
brahmeśānau purodhāya
devāḥ pratiyayur divam
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; iti — dessa maneira; abhiṣṭūya — oferecendo orações; puruṣam — à Personalidade Suprema; yat-rūpam — cuja forma; anidam — transcendental; yathā — como; brahma — o senhor Brahmā; īśānau — e o senhor Śiva; purodhāya — mantendo-os na frente; devāḥ — todos os semideuses; pratiyayuḥ — retornaram; divam — aos seus lares celestiais.
Translation
Após oferecerem essas orações à Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Viṣṇu, a Transcendência, todos os semideuses, tendo à sua frente o senhor Brahmā e o senhor Śiva, retornaram aos seus lares, que ficam nos planetas celestiais.
Purport
SIGNIFICADO—Declara-se:
adyāpiha caitanya ei saba līlā kare
yāṅ’ra bhāgye thāke, se dekhaye nirantare
yāṅ’ra bhāgye thāke, se dekhaye nirantare
(Caitanya-bhāgavata, Madhya 23.513)
As encarnações da Suprema Personalidade de Deus aparecem continuamente, como as ondas de um rio ou de um oceano. As ilimitadas encarnações do Senhor podem ser percebidas apenas pelos devotos afortunados. Os devatās, os semideuses, afortunadamente reconheceram a encarnação da Suprema Personalidade de Deus e, em virtude disso, ofereceram suas orações. Então, o senhor Śiva e o senhor Brahmā instruíram os semideuses a retornarem aos seus lares.
A palavra kukṣi-gataḥ, que significa “dentro do ventre de Devakī”, foi discutida por Śrī Jīva Gosvāmī em seu comentário Krama-sandarbha. Uma vez que se diz que, a princípio, Kṛṣṇa estava presente no coração de Vasudeva e foi transferido ao coração de Devakī, escreve Śrī Jīva Gosvāmī, como é que Kṛṣṇa agora estava no ventre? Ele responde que não há contradição. Do coração, o Senhor pode ir para o ventre, ou, do ventre, Ele pode ir para o coração. Na verdade, Ele pode ir a qualquer parte e ficar onde quer que seja. Como se confirma na Brahma-saṁhitā (5.35), aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-sthaṁ govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi. O Senhor pode permanecer onde quer que deseje. Devakī, portanto, de acordo com o desejo de sua vida anterior, agora tinha a oportunidade de receber a bênção de ter a Suprema Personalidade de Deus como seu filho, Devakī-nandana.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do décimo canto, segundo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Os Semideuses Oram ao Senhor Kṛṣṇa no Ventre Materno”.