ŚB 10.2.22
Devanagari
स एष जीवन् खलु सम्परेतोवर्तेत योऽत्यन्तनृशंसितेन । देहे मृते तं मनुजा: शपन्तिगन्ता तमोऽन्धं तनुमानिनो ध्रुवम् ॥ २२ ॥
Verse text
sa eṣa jīvan khalu sampareto
varteta yo ’tyanta-nṛśaṁsitena
dehe mṛte taṁ manujāḥ śapanti
gantā tamo ’ndhaṁ tanu-mānino dhruvam
varteta yo ’tyanta-nṛśaṁsitena
dehe mṛte taṁ manujāḥ śapanti
gantā tamo ’ndhaṁ tanu-mānino dhruvam
Synonyms
saḥ — ela; eṣaḥ — aquela pessoa invejosa; jīvan — enquanto viva; khalu — mesmo; samparetaḥ — está morta; varteta — continua a viver; yaḥ — qualquer pessoa que; atyanta — muito; nṛśaṁsitena — executando atividades cruéis; dehe — quando o corpo; mṛte — se acaba; tam — a ela; manujāḥ — todos os seres humanos; śapanti — condenam; gantā — ela irá; tamaḥ andham — à vida infernal; tanu-māninaḥ — de alguém no conceito de vida corporal; dhruvam — sem dúvida alguma.
Translation
Aquele que é muito cruel é tido como morto, mesmo em vida, pois, enquanto está vivo ou após sua morte, todos o condenam. E depois que morre, alguém que está no conceito de vida corpóreo é certamente transferido ao inferno conhecido como Andhatama.
Purport
SIGNIFICADO—Kaṁsa considerou que, se matasse sua irmã, seria condenado por todos enquanto vivesse e, após a morte, iria à mais escura região da vida infernal devido à sua crueldade. Afirma-se que uma pessoa cruel, como um açougueiro, é aconselhada a não viver e a não morrer também. Enquanto vive, uma pessoa cruel cria uma condição infernal para seu próximo nascimento, de modo que ela não deve viver; mas também é aconselhada a não morrer, porque, após a morte, ela tem de ir à mais escura região infernal. Logo, em qualquer circunstância, ela está condenada. Kaṁsa, portanto, tendo bom senso no que diz respeito à ciência da transmigração da alma, optou por não matar Devakī.
Neste verso, as palavras gantā tamo ’ndhaṁ tanu-mānino dhruvam são muito importantes e deve-se compreendê-las bem. Śrīla Jīva Gosvāmī, em seu Vaiṣṇava-toṣaṇī-ṭīkā, diz: tatra tanu-māninaḥ pāpina iti dehātma-buddhyaiva pāpābhiniveśo bhavati: “Aquele que está sempre no conceito corpóreo, pensando: ‘Eu sou este corpo’, envolve-se, pela própria natureza dessa concepção, em uma vida de atividades pecaminosas. Todo aquele que adote essa concepção deve ser tido como apto para o inferno.”
adānta-gobhir viśatāṁ tamisraṁ
punaḥ punaś carvita-carvaṇānām
punaḥ punaś carvita-carvaṇānām
(Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.30)
Aquele que está no conceito de vida corpóreo não consegue exercer controle sobre o gozo dos sentidos. Semelhante pessoa pode cometer qualquer atividade pecaminosa para conseguir comer, beber, alegrar-se e desfrutar de uma vida de gozo dos sentidos, pois desconhece que a alma transmigra de um corpo a outro. Essa pessoa faz o que quer, tudo o que pensa, de modo que, subordinada às leis da natureza, sofre terrivelmente, repetidamente aceitando diferentes corpos materiais.
yāvat kriyās tāvad idaṁ mano vai
karmātmakaṁ yena śarīra-bandhaḥ
karmātmakaṁ yena śarīra-bandhaḥ
(Śrīmad-Bhāgavatam 5.5.5)
A pessoa situada no conceito de vida corpórea é karmānubandha, ou condicionada ao karma, e enquanto a mente estiver absorta em karma, devem-se aceitar corpos materiais. Śarīra-bandha, o cativeiro ao corpo material, é uma fonte de sofrimento (kleśa-da).
na sādhu manye yata ātmano ’yam
asann api kleśada āsa dehaḥ
asann api kleśada āsa dehaḥ
(Śrīmad-Bhāgavatam 5.5.4)
Embora seja temporário, o corpo sempre nos causa vários tipos de problemas, mas a atual civilização humana, infelizmente, baseia-se em tanu-mānī, o conceito de vida corpóreo, através do qual se pensa: “Eu pertenço a esta nação”, “Eu pertenço a este grupo”, “Eu pertenço àquele grupo” e assim por diante. Cada um de nós tem suas próprias ideias, e, individual, social, comunitária e nacionalmente, estamos cada vez mais nos envolvendo nas complexidades de karmānubandha, atividades pecaminosas. Para manter o corpo, os homens estão matando muitos outros corpos e implicando-se em karmānubandha. Portanto, Śrīla Jīva Gosvāmī diz que tanu-mānī, aqueles que estão no conceito de vida corpóreo, são pāpī, pecaminosos. Para essas pessoas pecaminosas, o destino final é a mais escura região da vida infernal (gantā tamo ’ndham). Em particular, aquele que busca manter seu corpo matando animais é muito pecaminoso e não pode entender o valor da vida espiritual. Na Bhagavad-gītā (16.19-20), o Senhor diz:
tān ahaṁ dviṣataḥ krūrān
saṁsāreṣu narādhamān
kṣipāmy ajasram aśubhān
āsurīṣv eva yoniṣu
saṁsāreṣu narādhamān
kṣipāmy ajasram aśubhān
āsurīṣv eva yoniṣu
āsurīṁ yonim āpannā
mūḍhā janmani janmani
mām aprāpyaiva kaunteya
tato yānty adhamāṁ gatim
mūḍhā janmani janmani
mām aprāpyaiva kaunteya
tato yānty adhamāṁ gatim
“Aqueles que são invejosos e maliciosos, os mais baixos entre os homens, Eu os lanço perpetuamente no oceano da existência material, em várias espécies de vida demoníaca. Submetendo-se a repetidos nascimentos entre as espécies de vida demoníaca, ó filho de Kuntī, tais pessoas jamais conseguem aproximar-se de Mim. Aos poucos, elas se afundam na mais abominável condição de existência.” O ser humano destina-se a entender o valor da vida humana, que é uma dádiva obtida após muitos e muitos nascimentos. Portanto, todos devem livrar-se de tanu-mānī, o conceito de vida corpóreo, e compreender a Suprema Personalidade de Deus.