ŚB 10.2.30
Devanagari
त्वय्यम्बुजाक्षाखिलसत्त्वधाम्निसमाधिनावेशितचेतसैके । त्वत्पादपोतेन महत्कृतेनकुर्वन्ति गोवत्सपदं भवाब्धिम् ॥ ३० ॥
Verse text
tvayy ambujākṣākhila-sattva-dhāmni
samādhināveśita-cetasaike
tvat-pāda-potena mahat-kṛtena
kurvanti govatsa-padaṁ bhavābdhim
samādhināveśita-cetasaike
tvat-pāda-potena mahat-kṛtena
kurvanti govatsa-padaṁ bhavābdhim
Synonyms
tvayi — em Vós; ambuja-akṣa — ó Senhor de olhos de lótus; akhila-sattva-dhāmni — que sois a causa que origina toda a existência, a pessoa da qual tudo emana e na qual todas as potências residem; samādhinā — através da meditação constante e absorção completa (em pensar em Vós, a Suprema Personalidade de Deus); āveśita — plenamente absortos, plenamente ocupados; cetasā — mas mediante essa mentalização; eke — o processo de pensar sempre e unicamente em Vossos pés de lótus; tvat-pāda-potena — subindo a bordo de semelhante barco, que são Vossos pés de lótus; mahat-kṛtena — mediante esta ação que é considerada a existência original mais poderosa ou que é executada pelos mahājanas; kurvanti — eles fazem; govatsa-padam — como a pegada de um bezerro; bhava-abdhim — o grande oceano de ignorância.
Translation
Ó Senhor de olhos de lótus, concentrando-se em meditar em Vossos pés de lótus, os quais são o reservatório de toda a existência, e aceitando esses pés de lótus como o barco no qual se pode cruzar o oceano da ignorância, seguem-se os passos dos mahājanas (santos, sábios e devotos grandiosos). Mediante esse simples processo, pode-se cruzar o oceano de ignorância tão facilmente como se pode pular sobre a pegada de um bezerro.
Purport
SIGNIFICADO—O verdadeiro objetivo da vida é cruzar o oceano da ignorância, no qual há repetidos nascimentos e mortes. Todavia, aqueles que habitam na escuridão da ignorância não conhecem esse objetivo. Em vez disso, sendo arrastados pelas ondas da natureza material (prakṛteḥ kriyamāṇāni guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ), submetem-se às tribulações de mṛtyu-saṁsāra-vartmani, repetidos nascimentos e mortes. Mas as pessoas que, através da associação com os devotos, alcançaram o conhecimento, seguem os mahājanas (mahat-kṛtena). Semelhante pessoa sempre concentra sua mente nos pés de lótus do Senhor e executa pelo menos uma das nove variedades de serviço devocional (śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam). Mediante esse simples processo, pode-se cruzar o intransponível oceano da ignorância.
Qualquer forma de serviço devocional é poderosa. Śrī-viṣṇoḥ śravaṇe parīkṣid abhavad vaiyāsakiḥ kīrtane. (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.2.265) De acordo com este verso, Mahārāja Parīkṣit libertou-se, concentrando toda a sua mente em ouvir o santo nome, os atributos e os passatempos do Senhor. De modo semelhante, Śukadeva Gosvāmī fixou-se em glorificar o Senhor e, narrando assuntos concernentes a Kṛṣṇa, os quais formam todo o Śrīmad-Bhāgavatam, ele também se libertou. Também é possível libertar-se simplesmente através de sakhya, ter um comportamento amigável com o Senhor. Esse é o poder do serviço devocional, como aprendemos com os exemplos estabelecidos por muitos devotos puros do Senhor.
svayambhūr nāradaḥ śambhuḥ
kumāraḥ kapilo manuḥ
prahlādo janako bhīṣmo
balir vaiyāsakir vayam
kumāraḥ kapilo manuḥ
prahlādo janako bhīṣmo
balir vaiyāsakir vayam
(Śrīmad-Bhāgavatam 6.3.20)
Temos de seguir os passos desses devotos, pois, através desse processo simples, pode-se cruzar o grande oceano da ignorância, assim como alguém pode saltar uma pequena pegada criada pelo casco de um bezerro.
Aqui, o Senhor é descrito como ambujākṣa, ou pessoa de olhos de lótus. Vendo os olhos do Senhor, os quais são comparados a flores de lótus, a pessoa torna-se tão satisfeita que não quer dirigir seus olhos a nenhuma outra parte. Pelo simples fato de ver a forma transcendental do Senhor, o devoto logo se absorve por completo no Senhor dentro de seu coração. Essa absorção se chama samādhi. Dhyānāvasthita-tad-gatena manasā paśyanti yaṁ yoginaḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 12.13.1) O yogī absorve-se plenamente em pensar na Suprema Personalidade de Deus, pois ele se ocupa apenas em pensar no Senhor dentro do coração. Afirma-se também:
samāśritā ye pada-pallava-plavaṁ
mahat-padaṁ puṇya-yaśo murāreḥ
bhavāmbudhir vatsa-padaṁ paraṁ padaṁ
padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām
mahat-padaṁ puṇya-yaśo murāreḥ
bhavāmbudhir vatsa-padaṁ paraṁ padaṁ
padaṁ padaṁ yad vipadāṁ na teṣām
“Para quem aceitou como seu barco os pés de lótus do Senhor, o qual é o refúgio da manifestação cósmica e é famoso como Murāri, o inimigo do demônio Mura, o oceano do mundo material é como a água contida na pegada de um bezerro. Sua meta é paraṁ padam, ou Vaikuṇṭha, o lugar onde não há sofrimentos materiais, e não o lugar onde há perigo a cada passo.” (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.58) Esse processo é aqui recomendado por autoridades como o senhor Brahmā e o senhor Śiva (svayambhūr nāradaḥ śambhuḥ), e, portanto, devemos aceitar esse processo para transcendermos a ignorância. Isso é muito fácil, mas devemos seguir os passos das grandes personalidades, e, então, o sucesso será possível.
Com referência à palavra mahat-kṛtena, também é significativo que o processo seguido pelos grandes devotos serve não apenas para eles, mas também para os demais. Se as condições se tornam fáceis, devem favorecer a pessoa que as tornou fáceis e também os outros que seguem os mesmos princípios. O processo encontrado neste verso que ensina como cruzar o oceano da ignorância é fácil não apenas para o devoto, mas também para as pessoas comuns que seguem o devoto (mahājano yena gataḥ sa panthāḥ).