Before Verses
Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Cinco
Nārada Muni É Amaldiçoado pelo Prajāpati Dakṣa
Este capítulo conta como todos os filhos de Dakṣa foram libertos das garras da energia material ao seguirem o conselho de Nārada, que, entretanto, foi amaldiçoado por Dakṣa.
Influenciado pela energia externa do Senhor Viṣṇu, o prajāpati Dakṣa gerou dez mil filhos no ventre de sua esposa, Pāñcajanī. Esses filhos, que tinham o mesmo caráter e mentalidade, eram conhecidos como Haryaśvas. Recebendo de seu pai ordens para formarem uma população cada vez maior, os Haryaśvas rumaram para o Ocidente, e se estabeleceram na região onde o rio Sindhu (atualmente, o Indo) desemboca no Mar Arábico. Naqueles dias, era essa a localização de um lago santo chamado Nārāyaṇa-saras, onde havia muitas pessoas santas. Os Haryaśvas começaram a praticar austeridades, penitências e meditação, que são as características da conceituada ordem de vida renunciada. Contudo, ao ver que esses rapazes se ocupavam nessas meritórias austeridades simplesmente para procriação material, Śrīla Nārada Muni julgou que seria melhor os livrar dessa tendência. Nārada Muni descreveu aos rapazes a meta última da vida e os aconselhou a não se tornarem simples karmīs que geram filhos. Então, todos os filhos de Dakṣa se iluminaram e partiram, para nunca mais voltarem.
O prajāpati Dakṣa, que ficou muito consternado com a perda de seus filhos, gerou no ventre de sua esposa Pāñcajanī outros mil filhos, e lhes ordenou que gerassem progênie. Esses filhos, chamados Savalāśvas, com o propósito de gerar filhos, também se ocuparam em adorar o Senhor Viṣṇu, mas Nārada Muni os convenceu a se tornarem mendicantes e relegarem a atividade de gerar filhos. Tendo sido duas vezes frustrado em suas tentativas de aumentar a população, o prajāpati Dakṣa ficou muito furioso com Nārada Muni e o amaldiçoou, dizendo que, no futuro, não conseguiria permanecer em parte alguma. Como era plenamente qualificado e muito tolerante, Nārada Muni aceitou a maldição de Dakṣa.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
तस्यां स पाञ्चजन्यां वै विष्णुमायोपबृंहित: ।
हर्यश्वसंज्ञानयुतं पुत्रानजनयद्विभु: ॥ १ ॥
तस्यां स पाञ्चजन्यां वै विष्णुमायोपबृंहित: ।
हर्यश्वसंज्ञानयुतं पुत्रानजनयद्विभु: ॥ १ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
tasyāṁ sa pāñcajanyāṁ vai
viṣṇu-māyopabṛṁhitaḥ
haryaśva-saṁjñān ayutaṁ
putrān ajanayad vibhuḥ
tasyāṁ sa pāñcajanyāṁ vai
viṣṇu-māyopabṛṁhitaḥ
haryaśva-saṁjñān ayutaṁ
putrān ajanayad vibhuḥ
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; tasyām — nela; saḥ — o prajāpati Dakṣa; pāñcajanyām — sua esposa chamada Pāñcajanī; vai — na verdade; viṣṇu-māyā-upabṛṁhitaḥ — tendo sido capacitado pela energia ilusória do Senhor Viṣṇu; haryaśva-saṁjñān — chamados de Haryaśvas; ayutam — dez mil; putrān — filhos; ajanayat — gerou; vibhuḥ — sendo poderoso.
Translation
Śrīla Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Impelido pela energia ilusória do Senhor Viṣṇu, o prajāpati Dakṣa gerou dez mil filhos no ventre de Pāñcajanī [Asiknī]. Meu querido rei, esses filhos eram chamados Haryaśvas.
Devanagari
अपृथग्धर्मशीलास्ते सर्वे दाक्षायणा नृप ।
पित्रा प्रोक्ता: प्रजासर्गे प्रतीचीं प्रययुर्दिशम् ॥ २ ॥
पित्रा प्रोक्ता: प्रजासर्गे प्रतीचीं प्रययुर्दिशम् ॥ २ ॥
Verse text
apṛthag-dharma-śīlās te
sarve dākṣāyaṇā nṛpa
pitrā proktāḥ prajā-sarge
pratīcīṁ prayayur diśam
sarve dākṣāyaṇā nṛpa
pitrā proktāḥ prajā-sarge
pratīcīṁ prayayur diśam
Synonyms
Translation
Meu querido rei, no que se refere ao fato de serem corteses e de obedecerem às ordens de seu pai, todos os filhos do prajāpati Dakṣa tinham muito em comum. Ao receberem dele a ordem de que gerassem filhos, todos se dirigiram para o Oeste.
Devanagari
तत्र नारायणसरस्तीर्थं सिन्धुसमुद्रयो: ।
सङ्गमो यत्र सुमहन्मुनिसिद्धनिषेवितम् ॥ ३ ॥
सङ्गमो यत्र सुमहन्मुनिसिद्धनिषेवितम् ॥ ३ ॥
Verse text
tatra nārāyaṇa-saras
tīrthaṁ sindhu-samudrayoḥ
saṅgamo yatra sumahan
muni-siddha-niṣevitam
tīrthaṁ sindhu-samudrayoḥ
saṅgamo yatra sumahan
muni-siddha-niṣevitam
Synonyms
Translation
No Oeste, onde o rio Sindhu desemboca no mar, existe um grande lugar de peregrinação conhecido como Nārāyaṇa-saras, no qual vivem muitos sábios e outras pessoas avançadas em consciência espiritual.
Devanagari
तदुपस्पर्शनादेव विनिर्धूतमलाशया: ।
धर्मे पारमहंस्ये च प्रोत्पन्नमतयोऽप्युत ॥ ४ ॥
तेपिरे तप एवोग्रं पित्रादेशेन यन्त्रिता: ।
प्रजाविवृद्धये यत्तान् देवर्षिस्तान् ददर्श ह ॥ ५ ॥
धर्मे पारमहंस्ये च प्रोत्पन्नमतयोऽप्युत ॥ ४ ॥
तेपिरे तप एवोग्रं पित्रादेशेन यन्त्रिता: ।
प्रजाविवृद्धये यत्तान् देवर्षिस्तान् ददर्श ह ॥ ५ ॥
Verse text
tad-upasparśanād eva
vinirdhūta-malāśayāḥ
dharme pāramahaṁsye ca
protpanna-matayo ’py uta
vinirdhūta-malāśayāḥ
dharme pāramahaṁsye ca
protpanna-matayo ’py uta
tepire tapa evograṁ
pitrādeśena yantritāḥ
prajā-vivṛddhaye yattān
devarṣis tān dadarśa ha
pitrādeśena yantritāḥ
prajā-vivṛddhaye yattān
devarṣis tān dadarśa ha
Synonyms
tat — desse lugar sagrado; upasparśanāt — de se banharem naquela água ou tocá-la; eva — apenas; vinirdhūta — afastados por completo; mala-āśayāḥ — cujos desejos impuros; dharme — às práticas; pāramahaṁsye — executadas pela mais elevada classe de sannyāsīs; ca — também; protpanna — altamente inclinadas; matayaḥ — cujas mentes; api uta — embora; tepire — eles executaram; tapaḥ — penitências; eva — com certeza; ugram — rigorosas; pitṛ-ādeśena — devido à ordem do pai; yantritāḥ — ocupados; prajā-vivṛddhaye — com o propósito de aumentar a população; yattān — prontamente; devarṣiḥ — o grande sábio Nārada; tān — a eles; dadarśa — visitou; ha — na verdade.
Translation
Nesse lugar sagrado, os Haryaśvas passaram a tocar as águas do lago e a se banharem nelas com regularidade. Ficando sempre mais purificados, desenvolveram tendências de agir como paramahaṁsas. Entretanto, porque seu pai lhes havia ordenado que aumentassem a população, executaram severas austeridades a fim de atender o desejo dele. Um dia, ao ver que, para o simples propósito de aumentar a população, esses rapazes executavam austeridades tão sofisticadas, o grande sábio Nārada se aproximou deles.
Devanagari
उवाच चाथ हर्यश्वा: कथं स्रक्ष्यथ वै प्रजा: ।
अदृष्ट्वान्तं भुवो यूयं बालिशा बत पालका: ॥ ६ ॥
तथैकपुरुषं राष्ट्रं बिलं चादृष्टनिर्गमम् ।
बहुरूपां स्त्रियं चापि पुमांसं पुंश्चलीपतिम् ॥ ७ ॥
नदीमुभयतो वाहां पञ्चपञ्चाद्भुतं गृहम् ।
क्वचिद्धंसं चित्रकथं क्षौरपव्यं स्वयं भ्रमि ॥ ८ ॥
अदृष्ट्वान्तं भुवो यूयं बालिशा बत पालका: ॥ ६ ॥
तथैकपुरुषं राष्ट्रं बिलं चादृष्टनिर्गमम् ।
बहुरूपां स्त्रियं चापि पुमांसं पुंश्चलीपतिम् ॥ ७ ॥
नदीमुभयतो वाहां पञ्चपञ्चाद्भुतं गृहम् ।
क्वचिद्धंसं चित्रकथं क्षौरपव्यं स्वयं भ्रमि ॥ ८ ॥
Verse text
uvāca cātha haryaśvāḥ
kathaṁ srakṣyatha vai prajāḥ
adṛṣṭvāntaṁ bhuvo yūyaṁ
bāliśā bata pālakāḥ
kathaṁ srakṣyatha vai prajāḥ
adṛṣṭvāntaṁ bhuvo yūyaṁ
bāliśā bata pālakāḥ
tathaika-puruṣaṁ rāṣṭraṁ
bilaṁ cādṛṣṭa-nirgamam
bahu-rūpāṁ striyaṁ cāpi
pumāṁsaṁ puṁścalī-patim
bilaṁ cādṛṣṭa-nirgamam
bahu-rūpāṁ striyaṁ cāpi
pumāṁsaṁ puṁścalī-patim
nadīm ubhayato vāhāṁ
pañca-pañcādbhutaṁ gṛham
kvacid dhaṁsaṁ citra-kathaṁ
kṣaura-pavyaṁ svayaṁ bhrami
pañca-pañcādbhutaṁ gṛham
kvacid dhaṁsaṁ citra-kathaṁ
kṣaura-pavyaṁ svayaṁ bhrami
Synonyms
uvāca — ele disse; ca — também; atha — assim; haryaśvāḥ — ó Haryaśvas, filhos do prajāpati Dakṣa; katham — por que; srakṣyatha — gerareis; vai — na verdade; prajāḥ — progênie; adṛṣṭvā — não tendo visto; antam — o fim; bhuvaḥ — desta Terra; yūyam — todos vós; bāliśāḥ — inexperientes; bata — oh!; pālakāḥ — embora sejais príncipes governantes; tathā — assim também; eka — um; puruṣam — homem; rāṣṭram — reino; bilam — o buraco; ca — também; adṛṣṭa-nirgamam — do qual não há como sair; bahu-rūpām — assumindo muitas formas; striyam — a mulher; ca — e; api — mesmo; pumāṁsam — o homem; puṁścalī-patim — o esposo de uma prostituta; nadīm — um rio; ubhayataḥ — em ambas as direções; vāhām — que flui; pañca-pañca — de cinco vezes cinco (vinte e cinco); adbhutam — uma maravilha; gṛham — a casa; kvacit — em alguma parte; haṁsam — um cisne; citra-katham — cuja história é maravilhosa; kṣaura-pavyam — feito de lâminas afiadas e raios; svayam — ele próprio; bhrami — girando.
Translation
O grande sábio Nārada disse: Meus queridos Haryaśvas, ainda não vistes os confins da Terra. Existe ali um reino onde vive apenas um homem e onde há um buraco do qual ninguém sai depois de ter entrado nele. Existe ali uma mulher extremamente incasta, que se enfeita com várias roupas atrativas, e esse homem é seu esposo. Nesse reino, existe um rio que corre em ambas as direções, um maravilhoso lar feito de vinte e cinco elementos, um cisne que vibra sons variados e um objeto que gira automaticamente e que é feito de lâminas afiadas e de raios. Ainda não vistes nada disso e, portanto, sois rapazes inexperientes, sem conhecimento avançado. Como, então, poderíeis constituir prole?
Purport
SIGNIFICADO—Nārada Muni percebeu que, como viviam naquele lugar sagrado, os rapazes conhecidos como Haryaśvas já se haviam purificado e praticamente estavam prontos para a liberação. Por que deveriam, então, ser encorajados a se enredar na vida familiar, a qual é tão escura que, tendo entrado nela, ninguém jamais consegue deixá-la? Através dessa analogia, Nārada Muni pediu-lhes que ponderassem se deveriam seguir a ordem de seu pai e se enredarem na vida familiar. Indiretamente, pediu-lhes que descobrissem no âmago de seus corações a presença da Superalma, que é o Senhor Viṣṇu, dado que, somente então, eles realmente seriam experientes. Em outras palavras, aquele que está demasiadamente absorto em seu envolvimento material e que não olha para o âmago de seu coração fica cada vez mais enredado na energia ilusória. O propósito de Nārada Muni era fazer os filhos do prajāpati Dakṣa concentrarem sua atenção na percepção espiritual, em vez de se envolverem nos afazeres comuns, porém complicados, de povoar o mundo. Prahlāda Mahārāja deu a seu pai esse mesmo conselho:
tat sādhu manye ’sura-varya dehināṁ
sadā samudvigna-dhiyām asad-grahāt
hitvātma-pātaṁ gṛham andha-kūpaṁ
vanaṁ gato yad dharim āśrayeta
sadā samudvigna-dhiyām asad-grahāt
hitvātma-pātaṁ gṛham andha-kūpaṁ
vanaṁ gato yad dharim āśrayeta
No poço escuro da vida familiar, tendo aceitado um corpo temporário, a pessoa está sempre cheia de ansiedades. Quem deseja se livrar dessa ansiedade deve imediatamente deixar a vida familiar e se refugiar na Suprema Personalidade de Deus, em Vṛndāvana. Nārada Muni aconselhou os Haryaśvas a não entrarem na vida familiar. Uma vez que eles já eram avançados em conhecimento espiritual, por que se dar ao contratempo de se envolverem com isso?
Devanagari
कथं स्वपितुरादेशमविद्वांसो विपश्चित: ।
अनुरूपमविज्ञाय अहो सर्गं करिष्यथ ॥ ९ ॥
अनुरूपमविज्ञाय अहो सर्गं करिष्यथ ॥ ९ ॥
Verse text
kathaṁ sva-pitur ādeśam
avidvāṁso vipaścitaḥ
anurūpam avijñāya
aho sargaṁ kariṣyatha
avidvāṁso vipaścitaḥ
anurūpam avijñāya
aho sargaṁ kariṣyatha
Synonyms
katham — como; sva-pituḥ — do vosso próprio pai; ādeśam — a ordem; avidvāṁsaḥ — ignorando; vipaścitaḥ — onisciente; anurūpam — adequada para vós; avijñāya — sem conhecer; aho — oh; sargam — a criação; kariṣyatha — realizareis.
Translation
Oh! Vosso pai é onisciente, mas não conheceis sua verdadeira ordem. Sem conhecer o verdadeiro propósito que existe em vosso pai, como constituireis progênie?
Devanagari
श्रीशुक उवाच
तन्निशम्याथ हर्यश्वा औत्पत्तिकमनीषया ।
वाच: कूटं तु देवर्षे: स्वयं विममृशुर्धिया ॥ १० ॥
तन्निशम्याथ हर्यश्वा औत्पत्तिकमनीषया ।
वाच: कूटं तु देवर्षे: स्वयं विममृशुर्धिया ॥ १० ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
tan niśamyātha haryaśvā
autpattika-manīṣayā
vācaḥ kūṭaṁ tu devarṣeḥ
svayaṁ vimamṛśur dhiyā
tan niśamyātha haryaśvā
autpattika-manīṣayā
vācaḥ kūṭaṁ tu devarṣeḥ
svayaṁ vimamṛśur dhiyā
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; tat — isto; niśamya — ouvindo; atha — em seguida; haryaśvāḥ — todos os filhos do prajāpati Dakṣa; autpattika — naturalmente despertos; manīṣayā — por serem introspectivos; vācaḥ — da fala; kūṭam — o enigma; tu — mas; devarṣeḥ — de Nārada Muni; svayam — eles próprios; vimamṛśuḥ — refletiram em; dhiyā — com plena inteligência.
Translation
Śrī Śukadeva Gosvāmī disse: Ouvindo essas enigmáticas palavras de Nārada Muni, os Haryaśvas, sem ajuda alheia, analisaram-nas com sua própria inteligência.
Devanagari
भू: क्षेत्रं जीवसंज्ञं यदनादि निजबन्धनम् ।
अदृष्ट्वा तस्य निर्वाणं किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ ११ ॥
अदृष्ट्वा तस्य निर्वाणं किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ ११ ॥
Verse text
bhūḥ kṣetraṁ jīva-saṁjñaṁ yad
anādi nija-bandhanam
adṛṣṭvā tasya nirvāṇaṁ
kim asat-karmabhir bhavet
anādi nija-bandhanam
adṛṣṭvā tasya nirvāṇaṁ
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
bhūḥ — a Terra; kṣetram — o campo de atividades; jīva-saṁjñam — a designação do ser vivo espiritual que fica atado a diversos resultados de atividades; yat — as quais; anādi — existindo desde tempos imemoriais; nija-bandhanam — causando seu próprio cativeiro; adṛṣṭvā — sem ver; tasya — disso; nirvāṇam — a cessação; kim — que benefício; asat-karmabhiḥ — com atividades fruitivas temporárias; bhavet — pode haver.
Translation
[Os Haryaśvas entenderam da seguinte maneira o significado das palavras de Nārada.] A palavra “bhūḥ” [“a Terra”] refere-se ao campo de atividades. O corpo material, que é o resultado das ações executadas pelo ser vivo, é o seu campo de atividades, e lhe confere falsas designações. Desde tempos imemoriais, ele tem recebido várias espécies de corpos materiais, que são as raízes que o deixam preso ao mundo material. Se alguém tolamente se ocupa em atividades fruitivas temporárias e não busca findar esse cativeiro, que proveito haverá em suas ações?
Purport
SIGNIFICADO—Nārada Muni falou aos Haryaśvas, os filhos do prajāpati Dakṣa, mencionando dez temas alegóricos – o rei, o reino, o rio, a casa, os elementos físicos e assim por diante. Após ponderarem acerca disso, os Haryaśvas concluíram que a entidade viva aprisionada em seu corpo busca a felicidade, mas não se interessa em descobrir o método para se livrar de seu aprisionamento. Esse verso é muito importante, uma vez que todas as entidades vivas no mundo material são muito ativas e obtiveram determinadas espécies de corpos. Um homem trabalha dia e noite em busca de gozo dos sentidos, e, na tentativa de obter o gozo dos sentidos, animais como porcos e cães também trabalham dia e noite. Sem conhecer a condição da alma engaiolada dentro do corpo, os pássaros, as feras e todas as outras entidades vivas condicionadas se ocupam em várias atividades. Especialmente quem obteve um corpo humano tem o dever de agir de maneira tal que possa libertar-se desse seu aprisionamento, mas, sem buscar as instruções de Nārada ou do seu representante na sucessão discipular, as pessoas se ocupam cegamente em atividades corpóreas para desfrutar de māyā-sukha – da felicidade inconstante e temporária. Não sabem como se livrar do seu aprisionamento material. Ṛṣabhadeva, portanto, disse que semelhantes atividades não são recomendáveis, uma vez que encarceram repetidas vezes a alma em um corpo sujeito às três classes de sofrimento da existência material.
Os Haryaśvas, os filhos do prajāpati Dakṣa, puderam logo compreender o significado das instruções de Nārada. Nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa se destina especialmente a dar essa iluminação. Estamos tentando iluminar a humanidade para que as pessoas possam compreender que, praticando tapasya, devem trabalhar arduamente para atingir a autorrealização e conseguir libertar-se do contínuo cativeiro de nascimentos, mortes, velhice e doença a que se submetem em sucessivos corpos. Māyā, contudo, é muito forte; ela é muito hábil em colocar impedimentos no caminho que conduz a essa compreensão. Às vezes, portanto, alguém vem ao movimento da consciência de Kṛṣṇa, mas novamente cai nas garras de māyā, não compreendendo a importância deste movimento.
Devanagari
एक एवेश्वरस्तुर्यो भगवान् स्वाश्रय: पर: ।
तमदृष्ट्वाभवं पुंस: किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १२ ॥
तमदृष्ट्वाभवं पुंस: किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १२ ॥
Verse text
eka eveśvaras turyo
bhagavān svāśrayaḥ paraḥ
tam adṛṣṭvābhavaṁ puṁsaḥ
kim asat-karmabhir bhavet
bhagavān svāśrayaḥ paraḥ
tam adṛṣṭvābhavaṁ puṁsaḥ
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
ekaḥ — um; eva — na verdade; īśvaraḥ — controlador supremo; turyaḥ — a quarta categoria transcendental; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; sva-āśrayaḥ — independente, sendo Seu próprio refúgio; paraḥ — transcendental a esta criação material; tam — a Ele; adṛṣṭvā — não vendo; abhavam — que é não-nascido e não-criado; puṁsaḥ — de um homem; kim — que benefício; asat-karmabhiḥ — com atividades fruitivas temporárias; bhavet — poderá haver.
Translation
[Nārada Muni dissera haver um reino formado apenas de um homem. Os Haryaśvas compreenderam o significado desta afirmação.] O único desfrutador é a Suprema Personalidade de Deus, que observa tudo o que ocorre em toda parte. Pleno de seis opulências, Ele independe de quem quer que seja. Ele nunca está sujeito aos três modos da natureza material, pois é sempre transcendental a esta criação material. Se, mediante o seu avanço em conhecimento e suas atividades, os membros da sociedade humana não compreendem o Supremo, mas parecem apenas cães e gatos e, dia e noite, trabalham muito arduamente tentando obter felicidade temporária, qual será o benefício dessas suas atividades?
Purport
SIGNIFICADO—Nārada Muni mencionara um reino onde existe apenas um rei que não tem competidores. O mundo espiritual, em toda a sua extensão, e, especificamente, a manifestação cósmica, tem apenas um proprietário e desfrutador – a Suprema Personalidade de Deus, que transcende esta manifestação material. O Senhor, portanto, é descrito como turya, existindo na quarta plataforma. Ele também é descrito como abhava. A palavra bhava, que significa “nasce”, vem da palavra bhū, “ser”. Como se afirma na Bhagavad-gītā (8.19), bhūtvā bhūtvā pralīyate: as entidades vivas no mundo material devem nascer e perecer repetidas vezes. A Suprema Personalidade de Deus, entretanto, não é bhūtvā nem pralīyate; Ele é eterno. Em outras palavras, diferentemente dos seres humanos e dos animais que, devido ao fato de desconhecerem a alma, submetem-se a repetidos nascimentos e mortes, Ele não é obrigado a nascer. Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, não Se sujeita a essas mudanças de corpo, e quem pensa o contrário pode ser considerado um tolo (avajānanti māṁ mūḍhā mānuṣīṁ tanum āśritam). Nārada Muni aconselha os seres humanos a não desperdiçarem o seu tempo simplesmente pulando como cães e macacos, sem verdadeiro benefício. Cabe ao ser humano compreender a Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
पुमान्नैवैति यद्गत्वा बिलस्वर्गं गतो यथा ।
प्रत्यग्धामाविद इह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १३ ॥
प्रत्यग्धामाविद इह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १३ ॥
Verse text
pumān naivaiti yad gatvā
bila-svargaṁ gato yathā
pratyag-dhāmāvida iha
kim asat-karmabhir bhavet
bila-svargaṁ gato yathā
pratyag-dhāmāvida iha
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
pumān — o ser humano; na — não; eva — na verdade; eti — volta; yat — à qual; gatvā — tendo ido; bila-svargam — à região do sistema planetário inferior conhecida como Pātāla; gataḥ — ido; yathā — como; pratyak-dhāma — o refulgente mundo espiritual; avidaḥ — do homem sem inteligência; iha — neste mundo material; kim — que benefício; asat-karmabhiḥ — com atividades fruitivas temporárias; bhavet — poderá haver.
Translation
[Nārada Muni descrevera a existência de um bila, um buraco, no qual, tendo alguém entrado, jamais retorna de lá. Os Haryaśvas entenderam o significado dessa alegoria]. É muito difícil ver regressar alguém que tenha entrado no sistema planetário inferior chamado Pātāla. Do mesmo modo, se alguém entra em Vaikuṇṭha-dhāma [pratyag-dhāma], não retorna a este mundo material. Se existe esse lugar do qual, uma vez alcançado, ninguém retorna a esta condição dolorosa, por que agir como macacos e ficar pulando no mundo material temporário, deixando de ver ou compreender semelhante lugar? De que adianta isso?
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma na Bhagavad-gītā (15.6), yad gatvā na nivartante tad dhāma paramaṁ mama: existe uma região da qual, chegando ali, a pessoa não retorna ao mundo material. Essa região tem sido descrita muitas e muitas vezes. Em outra passagem da Bhagavad-gītā (4.9), Kṛṣṇa diz:
janma karma ca me divyam
evaṁ yo vetti tattvataḥ
tyaktvā dehaṁ punar janma
naiti mām eti so ’rjuna
evaṁ yo vetti tattvataḥ
tyaktvā dehaṁ punar janma
naiti mām eti so ’rjuna
“Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.”
Se alguém entende devidamente Kṛṣṇa, que é descrito como o Rei Supremo, não retorna a este lugar após abandonar seu corpo material. Este verso do Śrīmad-Bhāgavatam descreve esse fato. Pumān naivaiti yad gatvā: ele não volta a este mundo material, senão que volta ao lar, volta ao Supremo, para levar uma vida eterna, bem-aventurada e plena de conhecimento. Por que as pessoas não se importam com isso? Qual o benefício de voltar a nascer neste mundo material, ora como ser humano, ora como semideus, ora como gato ou cão? Qual o benefício de desperdiçar o tempo dessa maneira? Kṛṣṇa afirma definitivamente na Bhagavad-gītā (8.15):
mām upetya punar janma
duḥkhālayam aśāśvatam
nāpnuvanti mahātmānaḥ
saṁsiddhiṁ paramāṁ gatāḥ
duḥkhālayam aśāśvatam
nāpnuvanti mahātmānaḥ
saṁsiddhiṁ paramāṁ gatāḥ
“Após Me alcançarem, as grandes almas, que são yogīs em devoção, jamais retornam a este mundo temporário e cheio de misérias, porque eles obtiveram a perfeição máxima.” Nosso verdadeiro interesse deve consistir em livrarmo-nos da repetição de nascimentos e mortes e alcançarmos a perfeição máxima da vida, vivendo no mundo espiritual com o Rei Supremo. Nestes versos, os filhos de Dakṣa dizem repetidas vezes que kim asat-karmabhir bhavet: “De que adiantam atividades fruitivas impermanentes?”
Devanagari
नानारूपात्मनो बुद्धि: स्वैरिणीव गुणान्विता ।
तन्निष्ठामगतस्येह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १४ ॥
तन्निष्ठामगतस्येह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १४ ॥
Verse text
nānā-rūpātmano buddhiḥ
svairiṇīva guṇānvitā
tan-niṣṭhām agatasyeha
kim asat-karmabhir bhavet
svairiṇīva guṇānvitā
tan-niṣṭhām agatasyeha
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
nānā — várias; rūpā — que tem formas ou vestes; ātmanaḥ — da entidade viva; buddhiḥ — a inteligência; svairiṇī — uma prostituta que se enfeita livremente com variadas espécies de roupas e adornos; iva — como; guṇa-anvitā — dotada com o modo da paixão e assim por diante; tat-niṣṭhām — a interrupção disso; agatasya — de alguém que não obteve; iha — neste mundo material; kim asat-karmabhiḥ bhavet — qual a utilidade de executar atividades fruitivas temporárias.
Translation
[Nārada Muni descrevera uma mulher que é prostituta profissional. Os Haryaśvas compreenderam a identidade dessa mulher]. Misturada com o modo da paixão, a instável inteligência de toda entidade viva é como uma prostituta que muda de roupa só para atrair a atenção dos outros. Se alguém se ocupa plenamente em atividades fruitivas temporárias e não compreende como isso está acontecendo, o que ele realmente tem a lucrar?
Purport
SIGNIFICADO—Uma mulher que não tem marido se declara independente, o que significa dizer que ela se torna uma prostituta. Querendo que os homens prestem atenção na parte inferior de seu corpo, uma prostituta geralmente tem vários estilos de se vestir. Hoje em dia, tem-se tornado moda a mulher andar praticamente nua, deixando a parte inferior do seu corpo bem descoberta, a fim de que os homens dirijam a atenção para suas partes íntimas e corram em busca do gozo sexual. Aplicar a inteligência em atrair a atenção do homem para a parte inferior do corpo é típico da inteligência de uma prostituta profissional. Igualmente, a inteligência da entidade viva que não encaminha sua atenção a Kṛṣṇa, ou ao movimento da consciência de Kṛṣṇa, simplesmente muda de roupa, tal qual uma prostituta. Qual o benefício dessa inteligência tola? As pessoas devem ser inteligentes e conscientes de maneira tal que não precisem continuar mudando de um corpo a outro.
Os karmīs mudam de profissão a todo momento, mas a pessoa consciente de Kṛṣṇa não muda de profissão, pois sua única ocupação é atrair a atenção de Kṛṣṇa, cantando o mantra Hare Kṛṣṇa e levando uma vida muito simples, sem precisar submeter-se a mudanças diárias impostas pelo modismo. Em nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa, as pessoas que gostam de andar na moda aprendem a adotar uma única moda – a veste de vaiṣṇava, com tilaka e cabeça raspada. A fim de se tornarem fixas em consciência de Kṛṣṇa, aprendem a sempre manter a mente, as vestes e a alimentação limpas. Qual a vantagem de mudar a aparência, usando ora cabelo comprido e barba grande, ora apresentando outro semblante? Isso não é bom. Ninguém deve desperdiçar seu tempo com essas atividades frívolas. Todos devem sempre se fixar em consciência de Kṛṣṇa e, com determinação resoluta, aceitar o tratamento ministrado sob a forma do serviço devocional.
Devanagari
तत्सङ्गभ्रंशितैश्वर्यं संसरन्तं कुभार्यवत् ।
तद्गतीरबुधस्येह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १५ ॥
तद्गतीरबुधस्येह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १५ ॥
Verse text
tat-saṅga-bhraṁśitaiśvaryaṁ
saṁsarantaṁ kubhāryavat
tad-gatīr abudhasyeha
kim asat-karmabhir bhavet
saṁsarantaṁ kubhāryavat
tad-gatīr abudhasyeha
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
tat-saṅga — mediante a associação com a prostituta da inteligência; bhraṁśita — extirpada; aiśvaryam — a opulência da independência; saṁsarantam — submetendo-se ao modo de vida material; ku-bhārya-vat — tal qual alguém que possui uma esposa poluída; tat-gatīḥ — os impulsos da inteligência poluída; abudhasya — daquele que desconhece; iha — neste mundo; kim asat-karmabhiḥ bhavet — qual pode ser o benefício de executar atividades fruitivas temporárias.
Translation
[Nārada Muni também aludira a um homem que é o esposo da prostituta. Os Haryaśvas compreenderam isso da seguinte maneira]. Se alguém se torna o esposo de uma prostituta, perde toda a independência. Igualmente, se a entidade viva tem uma inteligência poluída, ela prolonga sua vida materialista. Frustrada pela natureza material, ela tem que seguir os impulsos da inteligência, a qual produz várias condições de felicidade ou aflição. Se alguém realiza atividades fruitivas em tais condições, qual será o benefício?
Purport
SIGNIFICADO—A inteligência poluída é comparada a uma prostituta. Quem não purificou sua inteligência fica sob o controle exercido por essa prostituta. Como se afirma na Bhagavad-gītā (2.41), vyavasāyātmikā buddhir ekeha kuru-nandana: aqueles que são realmente sérios se deixam conduzir por uma espécie de inteligência, a saber, a inteligência em consciência de Kṛṣṇa. Bahu-śākhā hy anantāś ca buddhayo ’vyavasāyinām: quem não está fixo na inteligência adequada inventa muitos modos de vida. Ficando, assim, envolvido em atividades materiais, expõe-se aos diversos modos da natureza material e se sujeita às vicissitudes da presumível felicidade e aflição. O homem que se torna esposo de uma prostituta não pode ser feliz. Do mesmo modo, alguém que segue os ditames da inteligência material e da consciência material jamais será feliz.
Devemos entender de maneira prudente as atividades da natureza material. Como se declara na Bhagavad-gītā (3.27):
prakṛteḥ kriyamāṇāni
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
“Confusa, a alma espiritual que está sob a influência do falso ego julga-se a autora das atividades que, de fato, são executadas pelos três modos da natureza material.” Embora alguém siga os ditames da natureza material, em um arroubo de felicidade, ele se julga o dono e o esposo da natureza material. Os cientistas, por exemplo, vida após vida tentam ser os donos da natureza material, não se importando em compreender a Pessoa Suprema, sob cuja direção tudo o que existe dentro deste mundo material está se movendo. Tentando ser os senhores da natureza material, são deuses de imitação que declaram ao público que o avanço científico um dia será capaz de evitar o controle presumivelmente exercido por Deus. O fato, entretanto, é que o ser vivo, incapaz de controlar as leis de Deus, é forçado a se associar com a prostituta que se lhe apresenta sob a forma da inteligência poluída e, em consequência disso, aceitar vários corpos materiais. Como se declara na Bhagavad-gītā (13.22):
puruṣaḥ prakṛti-stho hi
bhuṅkte prakṛti-jān guṇān
kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya
sad-asad-yoni-janmasu
bhuṅkte prakṛti-jān guṇān
kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya
sad-asad-yoni-janmasu
“Dessa forma, a entidade viva dentro da natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza. Isso decorre de sua associação com essa natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de vida.” Caso alguém se ocupe totalmente em atividades fruitivas temporárias e não solucione seu verdadeiro problema, como se beneficiará com isso?
Devanagari
सृष्ट्यप्ययकरीं मायां वेलाकूलान्तवेगिताम् ।
मत्तस्य तामविज्ञस्य किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १६ ॥
मत्तस्य तामविज्ञस्य किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १६ ॥
Verse text
sṛṣṭy-apyaya-karīṁ māyāṁ
velā-kūlānta-vegitām
mattasya tām avijñasya
kim asat-karmabhir bhavet
velā-kūlānta-vegitām
mattasya tām avijñasya
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
sṛṣṭi — criação; apyaya — dissolução; karīm — aquele que causa; māyām — a energia ilusória; velā-kūla-anta — perto das margens; vegitām — sendo muito rápida; mattasya — de alguém que está louco; tām — essa natureza material; avijñasya — que não conhece; kim asat-karmabhiḥ bhavet — que benefício pode haver em executar atividades fruitivas temporárias.
Translation
[Nārada Muni afirmara existir um rio que corre em ambas as direções. Os Haryaśvas entenderam o significado dessa afirmação]. A natureza material funciona de duas maneiras – através da criação e da dissolução. Assim, o rio da natureza material flui nas duas direções. A entidade viva que, sem se dar conta, cai nesse rio, submerge em sua correnteza e, uma vez que a correnteza é mais impetuosa nas proximidades das margens do rio, ela é incapaz de escapar. Que benefício há em alguém executar atividades fruitivas nesse rio de māyā?
Purport
SIGNIFICADO—Alguém pode estar submerso nas correntezas do rio de māyā, mas também pode livrar-se da correnteza dirigindo-se às ribanceiras do conhecimento e da austeridade. Entretanto, a correnteza é muito forte perto dessas margens. Se alguém não entende que está sendo fustigado pela correnteza, mas simplesmente se ocupa em atividades fruitivas temporárias, que benefício obterá?
Na Brahma-saṁhitā (5.44), existe esta afirmação:
sṛṣṭi-sthiti-pralaya-sādhana-śaktir ekā
chāyeva yasya bhuvanāni bibharti durgā
chāyeva yasya bhuvanāni bibharti durgā
Māyā-śakti, Durgā, está encarregada de sṛṣṭi-sthiti-pralaya, criação e dissolução, e ela age sob a direção do Senhor Supremo (mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ sūyate sa-carācaram). Quando alguém cai no rio da ignorância, a correnteza sempre o arremessa para vários lugares, mas essa mesma māyā também o pode salvar quando ele se rende a Kṛṣṇa ou se torna consciente de Kṛṣṇa. Consciência de Kṛṣṇa é conhecimento e austeridade. Quem é consciente de Kṛṣṇa busca conhecimento na literatura védica e, ao mesmo tempo, pratica austeridades.
Quem deseja libertar-se da vida material deve adotar a consciência de Kṛṣṇa. Caso contrário, se ele assiduamente se ocupa no suposto avanço da ciência, que benefício obterá? Se alguém é arrastado pelas ondas da natureza, de que adianta ser grande cientista ou filósofo? A ciência e filosofia mundanas também são criações materiais. Todos devem entender como māyā funciona e como podem libertar-se das caudalosas correntezas do rio da ignorância. Essa é a nossa primeira obrigação.
Devanagari
पञ्चविंशतितत्त्वानां पुरुषोऽद्भुतदर्पण: ।
अध्यात्ममबुधस्येह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १७ ॥
अध्यात्ममबुधस्येह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १७ ॥
Verse text
pañca-viṁśati-tattvānāṁ
puruṣo ’dbhuta-darpaṇaḥ
adhyātmam abudhasyeha
kim asat-karmabhir bhavet
puruṣo ’dbhuta-darpaṇaḥ
adhyātmam abudhasyeha
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
pañca-viṁśati — vinte e cinco; tattvānām — dos elementos; puruṣaḥ — a Suprema Personalidade de Deus; adbhuta-darpaṇaḥ — que manifesta maravilhosamente; adhyātmam — o supervisor de todas as causas e efeitos; abudhasya — aquele que desconhece; iha — neste mundo; kim asat-karmabhiḥ bhavet — qual pode ser o benefício de se ocupar em atividades fruitivas temporárias.
Translation
[Nārada Muni dissera existir uma casa feita de vinte e cinco elementos. Os Haryaśvas entenderam essa analogia]. O Senhor Supremo é o reservatório dos vinte e cinco elementos, e, como o Ser Supremo, o responsável da causa e efeito, Ele os induz a se manifestarem. Se alguém, desconhecendo essa Pessoa Suprema, ocupa-se em atividades fruitivas temporárias, que benefício obterá?
Purport
SIGNIFICADO—Os filósofos e cientistas realizam pesquisas acadêmicas para descobrir a causa original, mas devem executá-las cientificamente, e não caprichosamente, nem através de teorias fantasiosas. A ciência da causa primordial é explicada em vários textos védicos. Athāto brahma jijñāsā/janmādy asya yataḥ. O Vedānta-sūtra explica que se deve indagar acerca da Alma Suprema. Tal indagação sobre o Supremo se chama brahma-jijñāsā. A Verdade Absoluta, tattva, é explicada no Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.11):
vadanti tat tattva-vidas
tattvaṁ yaj jñānam advayam
brahmeti paramātmeti
bhagavān iti śabdyate
tattvaṁ yaj jñānam advayam
brahmeti paramātmeti
bhagavān iti śabdyate
“Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta chamam essa substância não-dual de Brahman, Paramātmā ou Bhagavān.” A Verdade Absoluta aparece para os neófitos como o Brahman impessoal e, para os yogīs místicos avançados, aparece como Paramātmā, a Superalma, mas os devotos, cujo avanço é maior, compreendem a Verdade Absoluta como o Senhor Supremo, Viṣṇu.
Esta manifestação cósmica material é uma expansão da energia do Senhor Kṛṣṇa, Viṣṇu.
eka-deśa-sthitasyāgner
jyotsnā vistāriṇī yathā
parasya brahmaṇaḥ śaktis
tathedam akhilaṁ jagat
jyotsnā vistāriṇī yathā
parasya brahmaṇaḥ śaktis
tathedam akhilaṁ jagat
“Tudo o que vemos neste mundo é uma mera expansão de várias energias da Suprema Personalidade de Deus, que é como um fogo que, embora situado em um único lugar, ilumina a uma longa distância.” (Viṣṇu Purāṇa) Toda a manifestação cósmica é uma expansão do Senhor Supremo. Portanto, se alguém não realiza pesquisas para descobrir a causa suprema, mas, em vez disso, falsamente se ocupa em frívolas atividades temporárias, qual a vantagem de ele exigir ser reconhecido como um importante cientista ou filósofo? Se alguém não conhece a causa definitiva, de que adianta sua pesquisa científica e filosófica?
O puruṣa, a pessoa original – Bhagavān, Viṣṇu –, pode ser compreendido apenas através do serviço devocional. Bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ: somente através do serviço devocional é que alguém pode entender a Pessoa Suprema, que está por trás de tudo. Deve-se tentar entender que os elementos materiais são a energia inferior do Senhor, a qual é separada, e que a entidade viva é a energia espiritual do Senhor. Tudo o que experimentamos, inclusive a matéria e a alma espiritual, a força viva, é uma mera combinação de duas energias do Senhor Viṣṇu – a energia inferior e a energia superior. Devem-se estudar seriamente os fatos concernentes à criação, manutenção e devastação, bem como o lugar permanente do qual nunca se precisa retornar (yad gatvā na nivartante). A sociedade humana deve estudar isso, mas, em vez de cultivar esse conhecimento, as pessoas se sentem atraídas pela felicidade temporária e pelo gozo dos sentidos, que culminam em paixões incoerentes. Não há benefício nessas atividades, daí todos deverem ocupar-se no movimento da consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
ऐश्वरं शास्त्रमुत्सृज्य बन्धमोक्षानुदर्शनम् ।
विविक्तपदमज्ञाय किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १८ ॥
विविक्तपदमज्ञाय किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १८ ॥
Verse text
aiśvaraṁ śāstram utsṛjya
bandha-mokṣānudarśanam
vivikta-padam ajñāya
kim asat-karmabhir bhavet
bandha-mokṣānudarśanam
vivikta-padam ajñāya
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
aiśvaram — trazendo compreensão acerca de Deus, ou da consciência de Kṛṣṇa; śāstram — a literatura védica; utsṛjya — abandonando; bandha — do cativeiro; mokṣa — e da liberação; anudarśanam — informando sobre os caminhos; vivikta-padam — distinguindo entre espírito e matéria; ajñāya — desconhecendo; kim asat-karmabhiḥ bhavet — qual pode ser o valor das atividades fruitivas temporárias.
Translation
[Nārada Muni falara de um cisne. Esse cisne é explicado neste verso]. Os textos védicos [śāstras] descrevem vividamente como se pode compreender o Senhor Supremo, a fonte de toda a energia material e espiritual. Na verdade, eles se detêm a explicar essas duas energias. O cisne [haṁsa] é aquele que sabe o que é matéria e o que é espírito, que aceita a essência de tudo, e que explica os meios de cativeiro e os meios de liberação. As palavras das escrituras consistem em vibrações variadas. Se um patife tolo rejeita o estudo desses śāstras e se ocupa em atividades temporárias, de que adiantará?
Purport
SIGNIFICADO—O movimento da consciência de Kṛṣṇa tem o intenso desejo de verter a literatura védica para a linguagem moderna, especialmente para as línguas ocidentais, como o inglês, o francês e o alemão. Os líderes do mundo ocidental, a saber, os americanos e os europeus, tornaram-se os ídolos da civilização moderna porque a população ocidental é muito sofisticada em atividades temporárias que trazem o avanço da civilização material. Um homem sóbrio, entretanto, vê que todas essas grandes atividades, embora talvez sejam muito importantes para a vida temporária, nada têm a ver com a vida eterna. O mundo inteiro está imitando a civilização materialista do Ocidente, e, portanto, o movimento da consciência de Kṛṣṇa está muito interessado em transmitir conhecimento à população ocidental, traduzindo para as línguas ocidentais a original literatura védica na língua sânscrita.
A palavra vivikta-padam se refere ao processo de argumentos lógicos concernentes à meta da vida. Se alguém não discute aquilo que é importante na vida, é posto na escuridão e tem que lutar pela existência. Qual é, então, o benefício desse avanço em conhecimento? Apesar dos requintados arranjos para a educação universitária, a população do Ocidente está vendo seus estudantes se tornarem hippies. Entretanto, o movimento da consciência de Kṛṣṇa está tentando converter ao serviço de Kṛṣṇa os desnorteados estudantes que se tornaram dependentes das drogas e os ocupar nas melhores atividades de bem-estar para a sociedade humana.
Devanagari
कालचक्रं भ्रमि तीक्ष्णं सर्वं निष्कर्षयज्जगत् ।
स्वतन्त्रमबुधस्येह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १९ ॥
स्वतन्त्रमबुधस्येह किमसत्कर्मभिर्भवेत् ॥ १९ ॥
Verse text
kāla-cakraṁ bhrami tīkṣṇaṁ
sarvaṁ niṣkarṣayaj jagat
svatantram abudhasyeha
kim asat-karmabhir bhavet
sarvaṁ niṣkarṣayaj jagat
svatantram abudhasyeha
kim asat-karmabhir bhavet
Synonyms
kāla-cakram — a roda do tempo eterno; bhrami — girando automaticamente; tīkṣṇam — muito agudo; sarvam — tudo; niṣkarṣayat — impulsionando; jagat — o mundo; sva-tantram — independente, não se importando com os assim chamados cientistas e filósofos; abudhasya — de alguém que não conheça (o princípio tempo); iha — neste mundo material; kim asat-karmabhiḥ bhavet — qual a utilidade de se ocupar em atividades fruitivas temporárias.
Translation
[Nārada Muni se referira a um objeto físico feito de lâminas afiadas e raios. Os Haryaśvas compreenderam essa alegoria da seguinte maneira]. O tempo eterno se move muito agudamente, como se fosse feito de lâminas e raios. Ininterrupto e plenamente independente, ele impulsiona as atividades do mundo inteiro. Se alguém não tenta estudar o eterno elemento do tempo, que benefício pode obter ao executar atividades materiais temporárias?
Purport
SIGNIFICADO—Este verso explica as palavras kṣaura-pavyaṁ svayaṁ bhrami, que se referem especialmente à órbita do tempo eterno. Afirma-se que o tempo e a maré não esperam por ninguém. De acordo com as instruções morais do grande político Cāṇakya Paṇḍita:
āyuṣaḥ kṣaṇa eko ’pi
na labhyaḥ svarṇa-koṭibhiḥ
na cen nirarthakaṁ nītiḥ
kā ca hānis tato ’dhikā
na labhyaḥ svarṇa-koṭibhiḥ
na cen nirarthakaṁ nītiḥ
kā ca hānis tato ’dhikā
Nem mesmo um único momento de nossa vida pode ser recuperado mesmo às custas de milhões de dólares. Portanto, deve-se considerar a enorme perda que sofre quem desperdiça mesmo que um momento de sua vida. Vivendo como um animal e não compreendendo a meta da vida, há quem pense tolamente que não há eternidade e que seus cinquenta, sessenta ou, no máximo, cem anos, são tudo o que existe. Essa é a maior tolice. O tempo é eterno, e, no mundo material, o indivíduo passa por diferentes fases de sua vida eterna. Aqui, o tempo é comparado a uma lâmina afiada. A lâmina se destina a cortar a barba, mas, se não for manuseada cuidadosamente, a lâmina causará um desastre. Aconselha-se que ninguém cause um desastre inutilizando sua vida. Todos devem ter o máximo cuidado de utilizar a sua vida a fim de obter a compreensão espiritual, ou a consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
शास्त्रस्य पितुरादेशं यो न वेद निवर्तकम् ।
कथं तदनुरूपाय गुणविस्रम्भ्युपक्रमेत् ॥ २० ॥
कथं तदनुरूपाय गुणविस्रम्भ्युपक्रमेत् ॥ २० ॥
Verse text
śāstrasya pitur ādeśaṁ
yo na veda nivartakam
kathaṁ tad-anurūpāya
guṇa-visrambhy upakramet
yo na veda nivartakam
kathaṁ tad-anurūpāya
guṇa-visrambhy upakramet
Synonyms
śāstrasya — das escrituras; pituḥ — do pai; ādeśam — as instruções; yaḥ — aquele que; na — não; veda — entende; nivartakam — que provoca a interrupção do modo de vida material; katham — como; tat-anurūpāya — para seguir as instruções dos śāstras; guṇa-visrambhī — uma pessoa enredada nos três modos da natureza material; upakramet — pode ocupar-se em procriar.
Translation
[Nārada Muni perguntara como é que alguém, ignorantemente, poderia desafiar seu próprio pai. Os Haryaśvas entenderam o significado dessa pergunta]. Devem-se aceitar as instruções contidas originalmente nos śāstras. De acordo com a civilização védica, como evidência do segundo nascimento, a pessoa recebe um cordão sagrado. Nasce pela segunda vez graças a ter recebido instruções dos śāstras transmitidas pelo mestre espiritual fidedigno. Portanto, os śāstras, as escrituras, são o verdadeiro pai. Todos os śāstras ensinam que as pessoas devem encerrar seu modo de vida material. Quem não conhece o propósito das ordens do pai, isto é, dos śāstras, é um ignorante. As palavras de um pai material que se esforça por ocupar seu filho em atividades materiais não são as verdadeiras instruções paternas.
Purport
SIGNIFICADO—A Bhagavad-gītā (16.7) diz que pravṛttiṁ ca nivṛttiṁ ca janā na vidur āsurāḥ: os demônios, que são inferiores aos seres humanos, mas que não são incluídos entre os animais, não conhecem o significado de pravṛtti e nivṛtti, trabalho que deve ser realizado e trabalho que não deve ser realizado. No mundo material, toda entidade viva tem o desejo insaciável de assenhorear-se do mundo material. Isso se chama pravṛtti-marga. Entretanto, todos os śāstras aconselham nivṛtti-marga, ou que todos devem libertar-se do modo de vida materialista. Assim como os śāstras da civilização védica, que é a mais antiga do mundo, outros śāstras concordam com esse ponto. Por exemplo, nos śāstras budistas, o senhor Buddha recomenda que as pessoas alcancem o nirvāṇa, abandonando o modo de vida materialista. Na Bíblia, que também é śāstra, prevalece o mesmo conselho: deve-se acabar com a vida materialista e regressar ao reino de Deus. Qualquer śāstra que examinemos, especialmente o śāstra védico, confere o mesmo conselho: todos devem abandonar sua vida materialista e retornar à sua original vida espiritual. Śaṅkarācārya também apresenta a mesma conclusão. Brahma satyaṁ jagan mithyā: este mundo material, ou a vida materialista, é uma mera ilusão, de modo que todos devem cessar suas atividades ilusórias e chegar à plataforma de Brahman.
A palavra śāstra se refere às escrituras, particularmente aos livros de conhecimento védico. Os Vedas – Sāma, Yajur, Ṛg e Atharva – e quaisquer outros livros cujo conhecimento provém desses Vedas, são considerados textos védicos. A Bhagavad-gītā é a essência de todo o conhecimento védico e, portanto, é a escritura cujas instruções devem ser especialmente aceitas. Nessa essência de todos os śāstras, o próprio Kṛṣṇa aconselha que a pessoa abandone todos os outros deveres e se renda a Ele (sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja).
As pessoas devem aprender a seguir os princípios dos śāstras. Ao oferecer iniciação, nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa pede que as pessoas cheguem à conclusão dos śāstras, aceitando o conselho dado pelo supremo orador dos śāstras, Kṛṣṇa, e se esquecendo dos princípios do modo de vida materialista. Portanto, os princípios que aconselhamos são: não fazer sexo ilícito, não se intoxicar, não participar de jogos de azar e não comer carne. Quem é inteligente e foge dessas quatro classes de atividades pode livrar-se da vida materialista e regressar ao lar, regressar ao Supremo.
Em relação às instruções do pai e da mãe, pode-se dizer que toda entidade viva, incluindo os insignificantes cães, gatos e serpentes, têm pai e mãe. Portanto, ter pai e mãe materiais não é um privilégio. Em toda forma de vida, nascimento após nascimento, a entidade viva ganha um pai e uma mãe. Na sociedade humana, contudo, se alguém fica satisfeito com seu pai e mãe materiais e com as instruções desses e não dá continuidade ao seu progresso e deixa de aceitar um mestre espiritual para se educar de acordo com os śāstras, decerto permanecerá na escuridão. Pai e mãe materiais são importantes apenas se eles estiverem interessados em educar seu filho para que ele se livre das garras da morte. Como ensina Ṛṣabhadeva: pitā na sa syāj jananī na sā syāt/ na mocayed yaḥ samupeta-mṛtyum. (Śrīmad-Bhāgavatam 5.5.18) Ninguém deve se esforçar para se tornar pai ou mãe se não pode salvar seu filho do perigo da morte iminente. Os pais que não sabem como salvar seu filho não têm valor algum, pois semelhantes pais podem ser obtidos em qualquer forma de vida, mesmo entre gatos, cães e assim por diante. Apenas pai e mãe que possam elevar seu filho à plataforma espiritual são pais autênticos. Portanto, de acordo com o sistema védico, afirma-se que janmanā jāyate śūdraḥ: ao nascer de pai e mãe materiais, a pessoa é um śūdra. O propósito de sua vida, entretanto, é se tornar um brāhmaṇa, um homem de primeira classe.
Um homem inteligente de primeira classe é chamado brāhmaṇa porque conhece o Brahman Supremo, a Verdade Absoluta. Segundo as instruções védicas, tad-vijñānārthaṁ sa gurum evābhigacchet: para conhecer essa ciência, a pessoa deve aproximar-se de um guru fidedigno, de um mestre espiritual que iniciará o discípulo com o cordão sagrado para que este possa entender o conhecimento védico. Janmanā jāyate śūdraḥ saṁskārād dhi bhaved dvijaḥ. Tornar-se brāhmaṇa através do empenho de um mestre espiritual autêntico se chama saṁskāra. Após a iniciação, a pessoa ocupa-se em estudar os śāstras, que ensinam o discípulo a se libertar da vida materialista e voltar ao lar, voltar ao Supremo.
O movimento da consciência de Kṛṣṇa está ensinando este conhecimento superior através do qual se abandona a vida materialista para se voltar ao Supremo, mas, infelizmente, muitos pais não estão nem um pouco satisfeitos com este movimento. Não só os pais de nossos discípulos, mas muitos homens de negócios também estão insatisfeitos, pois ensinamos nossos discípulos a abandonarem a intoxicação, o consumo de carne, o sexo ilícito e os jogos de azar. Se o movimento da consciência de Kṛṣṇa se implantar, os ditos homens de negócios terão que fechar seus matadouros, cervejarias e fábricas de cigarro. Portanto, eles também estão com muito medo. Entretanto, só nos resta ensinar nossos discípulos a se livrarem do modo de vida materialista. De maneira a salvá-los da repetição de nascimentos e mortes, temos que lhes mostrar o oposto da vida material.
Nārada Muni, portanto, aconselhou aos Haryaśvas, os filhos do prajāpati Dakṣa, que, em vez de constituírem prole, seria melhor partirem e alcançarem a perfeição da compreensão espiritual, de acordo com as instruções dos śāstras. A importância dos śāstras é mencionada na Bhagavad-gītā (16.23):
yaḥ śāstra-vidhim utsṛjya
vartate kāma-kārataḥ
na sa siddhim avāpnoti
na sukhaṁ na parāṁ gatim
vartate kāma-kārataḥ
na sa siddhim avāpnoti
na sukhaṁ na parāṁ gatim
“Aquele que põe de lado os preceitos das escrituras e age conforme os próprios caprichos não alcança a perfeição, a felicidade, nem o destino supremo.”
Devanagari
इति व्यवसिता राजन् हर्यश्वा एकचेतस: ।
प्रययुस्तं परिक्रम्य पन्थानमनिवर्तनम् ॥ २१ ॥
प्रययुस्तं परिक्रम्य पन्थानमनिवर्तनम् ॥ २१ ॥
Verse text
iti vyavasitā rājan
haryaśvā eka-cetasaḥ
prayayus taṁ parikramya
panthānam anivartanam
haryaśvā eka-cetasaḥ
prayayus taṁ parikramya
panthānam anivartanam
Synonyms
iti — assim; vyavasitāḥ — estando plenamente convictos das instruções de Nārada Muni; rājan — ó rei; haryaśvāḥ — os filhos do prajāpati Dakṣa; eka-cetasaḥ — sendo todos da mesma opinião; prayayuḥ — partiram; tam — Nārada Muni; parikramya — circungirando; panthānam — no caminho; anivartanam — que não traz ninguém de volta a este mundo material.
Translation
Śukadeva Gosvāmī continuou: Meu querido rei, após ouvirem as instruções de Nārada, os Haryaśvas, os filhos do prajāpati Dakṣa, ficaram firmemente convictos. Todos eles acreditaram em suas instruções e chegaram à mesma conclusão. Aceitando-o como mestre espiritual, eles circungiraram o grande sábio e seguiram pelo caminho do qual ninguém regressa a este mundo.
Purport
SIGNIFICADO—Com este verso, podemos aprender o significado da iniciação e quais são os deveres do discípulo e do mestre espiritual. O mestre espiritual jamais ensina a seu discípulo: “Pegue um mantra de mim, pague-me tanto em dinheiro e, praticando este sistema de yoga, você ficará muito hábil na vida materialista.” Esse dever não é digno do mestre espiritual. Ao contrário, o mestre espiritual ensina ao discípulo como abandonar a vida materialista, e cabe ao discípulo lhe assimilar as instruções e, por fim, seguir o caminho de volta ao lar, de volta ao Supremo, de onde ninguém regressa a este mundo material.
Após ouvirem as instruções de Nārada Muni, os Haryaśvas, os filhos do prajāpati Dakṣa, decidiram não se emaranhar na vida materialista, na qual teriam de gerar centenas de filhos, dos quais, então, cuidariam. Esse seria um compromisso desnecessário. Os Haryaśvas não estavam interessados em atividades piedosas ou impiedosas. Seu pai materialista os instruíra a aumentarem a população, mas, devido às palavras de Nārada Muni, eles não deram atenção àquela instrução. Nārada Muni, como mestre espiritual deles, conferiu-lhes as instruções dos śāstras de que eles deveriam abandonar este mundo material, e, como discípulos fidedignos, eles acataram suas instruções. Ninguém deve esforçar-se em perambular rumo a diferentes sistemas planetários dentro deste universo, pois, mesmo que alguém chegue ao sistema planetário mais elevado, Brahmaloka, tem que retornar (kṣīṇe puṇye martya-lokaṁ viśanti). Os esforços dos karmīs são uma mera perda de tempo. Devemos esforçar-nos para voltar ao lar, voltar ao Supremo. Essa é a perfeição da vida. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (8.16):
ābrahma-bhuvanāl lokāḥ
punar āvartino ’rjuna
mām upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate
punar āvartino ’rjuna
mām upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate
“Partindo do planeta mais elevado no mundo material e descendo ao mais baixo, todos são lugares de sofrimento, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança a Minha morada, ó filho de Kuntī, jamais volta a nascer.”
Devanagari
स्वरब्रह्मणि निर्भातहृषीकेशपदाम्बुजे ।
अखण्डं चित्तमावेश्य लोकाननुचरन्मुनि: ॥ २२ ॥
अखण्डं चित्तमावेश्य लोकाननुचरन्मुनि: ॥ २२ ॥
Verse text
svara-brahmaṇi nirbhāta-
hṛṣīkeśa-padāmbuje
akhaṇḍaṁ cittam āveśya
lokān anucaran muniḥ
hṛṣīkeśa-padāmbuje
akhaṇḍaṁ cittam āveśya
lokān anucaran muniḥ
Synonyms
svara-brahmaṇi — no som espiritual; nirbhāta — pondo com nitidez diante da mente; hṛṣīkeśa — de Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, o senhor dos sentidos; padāmbuje — os pés de lótus; akhaṇḍam — inquebrantável; cittam — consciência; āveśya — ocupando; lokān — todos os sistemas planetários; anucarat — viajou por; muniḥ — o grande sábio Nārada Muni.
Translation
As sete notas musicais – ṣa, ṛ, gā, ma, pa, dha e ni – são usadas nos instrumentos musicais, mas, originalmente, vieram do Sāma Veda. O grande sábio Nārada vibra os sons que descrevem os passatempos do Senhor Supremo. Através dessas vibrações transcendentais, tais como Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, ele fixa a mente nos pés de lótus do Senhor. Logo, de maneira direta, ele percebe Hṛṣīkeśa, o senhor dos sentidos. Após libertar os Haryaśvas, Nārada Muni continuou viajando pelos sistemas planetários, com sua mente sempre fixa nos pés de lótus do Senhor.
Purport
SIGNIFICADO—Nesta passagem, descreve-se a virtude do grande sábio Nārada Muni. Ele sempre canta sobre os passatempos do Senhor e liberta as almas caídas, enviando-as de volta ao Supremo. Com relação a isso, Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura canta:
nārada-muni, bājāya vīṇā,
‘rādhikā-ramaṇa’-nāme
nāma amani, udita haya,
bhakata-gīta-sāme
‘rādhikā-ramaṇa’-nāme
nāma amani, udita haya,
bhakata-gīta-sāme
amiya-dhārā, variṣe ghana,
śravaṇa-yugale giyā
bhakata-jana, saghane nāce,
bhariyā āpana hiyā
śravaṇa-yugale giyā
bhakata-jana, saghane nāce,
bhariyā āpana hiyā
mādhurī-pūra, āsaba paśi’,
mātāya jagata-jane
keha vā kāṅde, keha vā nāce,
keha māte mane mane
mātāya jagata-jane
keha vā kāṅde, keha vā nāce,
keha māte mane mane
pañca-vadana, nārade dhari’,
premera saghana rola
kamalāsana, nāciyā bale,
‘bola bola hari bola’
premera saghana rola
kamalāsana, nāciyā bale,
‘bola bola hari bola’
sahasrānana, parama-sukhe,
‘hari hari’ bali’ gāya
nāma-prabhāve, mātila viśva,
nāma-rasa sabe pāya
‘hari hari’ bali’ gāya
nāma-prabhāve, mātila viśva,
nāma-rasa sabe pāya
śrī-kṛṣṇa-nāma, rasane sphuri’,
purā ’la āmāra āśa
śrī-rūpa-pade, yācaye ihā,
bhakativinoda dāsa
purā ’la āmāra āśa
śrī-rūpa-pade, yācaye ihā,
bhakativinoda dāsa
O significado desta canção é que Nārada Muni, a grande alma, toca um instrumento de corda chamado vīṇā, no qual vibra o som rādhikā-ramaṇa, que é outro nome de Kṛṣṇa. Logo que ele tange as cordas, todos os devotos começam a responder, fazendo uma belíssima vibração. Acompanhado pelo instrumento de corda, o canto parece uma chuva de néctar, e, arrancando até a última gota de prazer, todos os devotos dançam em êxtase. Enquanto dançam, eles parecem loucamente embriagados de êxtase, como se tivessem ingerido a bebida chamada mādhurī-pūra. Alguns choram, outros dançam, e alguns outros, embora incapazes de dançar em público, dançam dentro de seus corações. O senhor Śiva abraça Nārada Muni e começa a falar com uma voz extática, e, vendo o senhor Śiva dançando com Nārada, o senhor Brahmā também se junta a eles, dizendo: “Por favor, todos cantai ‘Haribole! Haribole!’” Indra, o rei dos céus, também decide se juntar com grande satisfação e começa a dançar e cantar “Haribole! Haribole!” Dessa maneira, por influência da vibração transcendental do santo nome de Deus, todo o universo se extasia. Bhaktivinoda Ṭhākura diz: “Quando o universo se torna extático, meu desejo é satisfeito. Portanto, oro aos pés de lótus de Rūpa Gosvāmī para que este canto de harer nāma possa prosseguir sempre assim.”
O senhor Brahmā é o guru de Nārada Muni, que, por sua vez, é o guru de Vyāsadeva, e esse é o guru de Madhvācārya. Assim, o Gauḍīya-Mādhva-sampradāya está na sucessão discipular de Nārada Muni. Os membros desta sucessão discipular – em outras palavras, os membros do movimento da consciência de Kṛṣṇa – devem seguir os passos de Nārada Muni, cantando a vibração transcendental Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Para libertar as almas condicionadas, eles devem ir a toda parte, vibrando o mantra Hare Kṛṣṇa e as instruções da Bhagavad-gītā, Śrīmad-Bhāgavatam e Caitanya-caritāmṛta. Isso satisfará a Suprema Personalidade de Deus. Pode avançar espiritualmente quem realmente segue as instruções de Narada Muni. Se alguém satisfaz Nārada Muni, então, Hṛṣīkeśa, a Suprema Personalidade de Deus, também fica satisfeito (yasya prasādād bhagavat-prasādaḥ). O mestre espiritual imediato é o representante de Nārada Muni; não há diferenças entre as instruções de Nārada Muni e as do atual mestre espiritual. Tanto Nārada Muni quanto o atual mestre espiritual falam os mesmos ensinamentos de Kṛṣṇa, quem, na Bhagavad-gītā (18.65-66), declara:
man-manā bhava mad-bhakto
mad-yājī māṁ namaskuru
mām evaiṣyasi satyaṁ te
pratijāne priyo ’si me
mad-yājī māṁ namaskuru
mām evaiṣyasi satyaṁ te
pratijāne priyo ’si me
sarva-dharmān parityajya
mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja
ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo
mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ
mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja
ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo
mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ
“Pensa sempre em Mim e torna-te Meu devoto. Adora-Me e oferece-Me homenagens. Agindo assim, virás a Mim impreterivelmente. Eu te prometo isso porque és Meu amigo muito querido. Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Eu te libertarei de todas as reações pecaminosas. Não temas.”
Devanagari
नाशं निशम्य पुत्राणां नारदाच्छीलशालिनाम् ।
अन्वतप्यत क: शोचन् सुप्रजस्त्वं शुचां पदम् ॥ २३ ॥
अन्वतप्यत क: शोचन् सुप्रजस्त्वं शुचां पदम् ॥ २३ ॥
Verse text
nāśaṁ niśamya putrāṇāṁ
nāradāc chīla-śālinām
anvatapyata kaḥ śocan
suprajastvaṁ śucāṁ padam
nāradāc chīla-śālinām
anvatapyata kaḥ śocan
suprajastvaṁ śucāṁ padam
Synonyms
nāśam — a perda; niśamya — ouvindo sobre; putrāṇām — dos seus filhos; nāradāt — cantada por Nārada; śīla-śālinām — que eram os melhores entre as pessoas bem comportadas; anvatapyata — sofreu; kaḥ — o prajāpati Dakṣa; śocan — lamentando-se; su-prajastvam — tendo dez mil filhos bem comportados; śucām — de lamentação; padam — posição.
Translation
Os Haryaśvas, os filhos do prajāpati Dakṣa, eram filhos bem comportados e de boa cultura, mas, infelizmente, devido às instruções de Nārada Muni, desviaram-se da ordem de seu pai. Ao ouvir essas notícias, que lhe foram transmitidas por Nārada Muni, Dakṣa começou a se lamentar. Embora fosse pai desses filhos tão bons, ele perdera todos os jovens. Decerto, isso era lastimável.
Purport
SIGNIFICADO—Os Haryaśvas, os filhos do prajāpati Dakṣa, decerto eram bem comportados, eruditos e avançados, e, em obediência à ordem do seu pai, foram executar austeridades para constituir uma família e gerar bons filhos. Nārada Muni, contudo, tirou vantagem desse seu bom comportamento e cultura para os dissuadir de se envolverem com este mundo material e convencê-los a usarem sua cultura e conhecimento para findar seus afazeres materiais. Os Haryaśvas acataram a ordem de Nārada Muni, mas, quando as notícias foram levadas ao prajāpati Dakṣa, o prajāpati, em vez de ficar feliz com as ações de Nārada Muni, ficou extremamente melancólico. Do mesmo modo, em prol de seu benefício último, estamos nos esforçando para trazer para o movimento da consciência de Kṛṣṇa o maior número possível de rapazes, mas os pais desses rapazes que aderem a este movimento, sentindo-se muito pesarosos, estão lamentam-se e fazem propaganda contra o movimento. Evidentemente, o prajāpati Dakṣa não fez propaganda contra Nārada Muni, mas depois, como veremos, Dakṣa amaldiçoou Nārada Muni em decorrência de suas atividades benévolas. A vida materialista funciona nesse contexto. O pai e a mãe materialistas querem que seus filhos se ocupem em gerar filhos, lutem por condições econômicas melhores e apodreçam na vida materialista. Eles não ficam tristes quando seus filhos se tornam cidadãos inúteis e arruinados, mas se lamentam quando eles se unem ao movimento da consciência de Kṛṣṇa para ali alcançarem a meta última da vida. Essa animosidade que os pais nutrem contra o movimento da consciência de Kṛṣṇa existe desde tempos imemoriais. Se mesmo Nārada Muni foi condenado, o que falar, então, de outros? Entretanto, Nārada Muni nunca abandona sua missão. Para libertar o maior número possível de almas caídas, ele continua tocando seu instrumento musical e vibrando o som transcendental de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.
Devanagari
स भूय: पाञ्चजन्यायामजेन परिसान्त्वित: ।
पुत्रानजनयद्दक्ष: सवलाश्वान्सहस्रिण: ॥ २४ ॥
पुत्रानजनयद्दक्ष: सवलाश्वान्सहस्रिण: ॥ २४ ॥
Verse text
sa bhūyaḥ pāñcajanyāyām
ajena parisāntvitaḥ
putrān ajanayad dakṣaḥ
savalāśvān sahasriṇaḥ
ajena parisāntvitaḥ
putrān ajanayad dakṣaḥ
savalāśvān sahasriṇaḥ
Synonyms
saḥ — o prajāpati Dakṣa; bhūyaḥ — novamente; pāñcajanyāyām — no ventre de sua esposa Asiknī, ou Pāñcajanī; ajena — pelo senhor Brahmā; parisāntvitaḥ — sendo apaziguado; putrān — filhos; ajanayat — gerou; dakṣaḥ — o prajāpati Dakṣa; savalāśvān — chamados de Savalāśvas; sahasriṇaḥ — perfazendo mil.
Translation
Vendo que o prajāpati Dakṣa lamentava a perda de seus filhos, o senhor Brahmā o apaziguou com suas instruções, e, depois disso, Dakṣa gerou outros mil filhos no ventre de sua esposa Pāñcajanī. Dessa vez, seus filhos se tornaram conhecidos como Savalāśvas.
Purport
SIGNIFICADO—O prajāpati Dakṣa recebeu este nome porque era muito hábil em gerar filhos. (A palavra dakṣa significa “hábil”.) Primeiramente, ele gerou dez mil filhos no ventre de sua esposa e, quando perdeu esses filhos – quando eles regressaram ao lar, regressaram ao Supremo –, ele gerou outro grupo de filhos, conhecidos como Savalāśvas. O prajāpati Dakṣa era muito hábil em gerar filhos, e Nārada Muni é muito hábil em libertar todas as almas condicionadas, fazendo-as voltar ao lar, voltar ao Supremo. Portanto, quem tem habilidade material não chega a um acordo com Nārada Muni, que tem habilidade espiritual, mas isso não significa que Nārada Muni abandonará sua ocupação de cantar o mantra Hare Kṛṣṇa.
Devanagari
ते च पित्रा समादिष्टा: प्रजासर्गे धृतव्रता: ।
नारायणसरो जग्मुर्यत्र सिद्धा: स्वपूर्वजा: ॥ २५ ॥
नारायणसरो जग्मुर्यत्र सिद्धा: स्वपूर्वजा: ॥ २५ ॥
Verse text
te ca pitrā samādiṣṭāḥ
prajā-sarge dhṛta-vratāḥ
nārāyaṇa-saro jagmur
yatra siddhāḥ sva-pūrvajāḥ
prajā-sarge dhṛta-vratāḥ
nārāyaṇa-saro jagmur
yatra siddhāḥ sva-pūrvajāḥ
Synonyms
te — esses filhos (os Savalāśvas); ca — e; pitrā — pelo pai; samādiṣṭāḥ — sendo mandados; prajā-sarge — de aumentar a progênie ou a população; dhṛta-vratāḥ — aceitaram votos; nārāyaṇa-saraḥ — o lago sagrado chamado Nārāyaṇa-saras; jagmuḥ — foram para; yatra — onde; siddhāḥ — aperfeiçoaram-se; sva-pūrva-jāḥ — seus irmãos mais velhos, que anteriormente haviam ido para lá.
Translation
Em acato à ordem dada por seu pai, segundo a qual deveriam gerar filhos, o segundo grupo de filhos também se dirigiu ao Nārāyaṇa-saras, o mesmo lugar onde seus irmãos haviam alcançado a perfeição ao seguirem as instruções de Nārada. Submetendo-se a grandes votos de austeridade, os Savalāśvas permaneceram nesse lugar sagrado.
Purport
SIGNIFICADO—O prajāpati Dakṣa enviou seu segundo grupo de filhos ao mesmo lugar onde seus outros filhos obtiveram a perfeição. Ele não hesitou em enviar seu segundo grupo de filhos ao mesmo local, embora eles também pudessem tornar-se vítimas das instruções de Nārada. De acordo com a cultura védica, antes de entrar na vida familiar para gerar filhos, a pessoa, como brahmacārī, deve ser treinada na compreensão espiritual. Esse é o sistema védico. Portanto, o prajāpati Dakṣa enviou seu segundo grupo de filhos para obter aperfeiçoamento cultural, apesar do risco de que, devido às instruções de Narada, eles pudessem tornar-se tão inteligentes como seus irmãos mais velhos. Como um pai zeloso, ele não hesitou em permitir que seus filhos recebessem instruções culturais atinentes à perfeição da vida; entregou a eles a decisão de escolher se prefeririam regressar ao lar, regressar ao Supremo, ou, então, neste mundo material, apodrecer em várias espécies de vida. Em todas as circunstâncias, cabe ao pai dar educação aos seus filhos, que mais tarde devem decidir o caminho a seguir. Os pais responsáveis não devem obstruir seus filhos que estão fazendo avanço cultural no convívio do movimento da consciência de Kṛṣṇa. Esse não é o dever do pai. O dever do pai é dar ao seu filho completa liberdade de fazer sua escolha após se tornar espiritualmente avançado, deixando-o seguir as instruções do mestre espiritual.
Devanagari
तदुपस्पर्शनादेव विनिर्धूतमलाशया: ।
जपन्तो ब्रह्म परमं तेपुस्तत्र महत्तप: ॥ २६ ॥
जपन्तो ब्रह्म परमं तेपुस्तत्र महत्तप: ॥ २६ ॥
Verse text
tad-upasparśanād eva
vinirdhūta-malāśayāḥ
japanto brahma paramaṁ
tepus tatra mahat tapaḥ
vinirdhūta-malāśayāḥ
japanto brahma paramaṁ
tepus tatra mahat tapaḥ
Synonyms
tat — daquele lugar sagrado; upasparśanāt — banhando-se regularmente na água; eva — na verdade; vinirdhūta — completamente purificados; mala-āśayāḥ — de toda a sujeira acumulada dentro do coração; japantaḥ — cantando ou murmurando; brahma — mantras, começando com o oṁ (tais como oṁ tad viṣṇoḥ paramaṁ padaṁ sadā paśyanti sūrayaḥ); paramam — a meta última; tepuḥ — executavam; tatra — ali; mahat — grandes; tapaḥ — penitências.
Translation
Em Nārāyaṇa-saras, o segundo grupo de filhos executou penitências da mesma maneira que o primeiro. Eles se banharam na água sagrada, e, através do contato com ela, tiraram de seus corações toda a sujeira presente sob a forma de desejos materiais. Eles murmuravam mantras, começando com o oṁkāra, e se submetiam a um severo esquema de austeridades.
Purport
SIGNIFICADO—Todo mantra védico se chama brahma porque cada mantra é precedido pelo brahmākṣara (aum ou oṁkāra). Por exemplo, oṁ namo bhagavate vāsudevāya. Na Bhagavad-gītā (7.8), o Senhor Kṛṣṇa diz que praṇavaḥ sarva-vedeṣu: “Em todos os mantras védicos, Eu sou representado pelo praṇava, ou oṁkāra.” Logo, cantar mantras védicos que começam com o oṁkāra é cantar diretamente o nome de Kṛṣṇa. Não há diferença alguma. Quer alguém cante o oṁkāra, quer se dirija ao Senhor como “Kṛṣṇa”, o significado é o mesmo, mas Śrī Caitanya Mahāprabhu recomenda que, nesta era, todos cantem o mantra Hare Kṛṣṇa (harer nāma eva kevalam). Embora não haja diferença entre Hare Kṛṣṇa e os mantras védicos que começam com o oṁkāra, Śrī Caitanya Mahāprabhu, o líder do movimento espiritual desta era, recomenda que se cante Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.
Devanagari
अब्भक्षा: कतिचिन्मासान् कतिचिद्वायुभोजना: ।
आराधयन् मन्त्रमिममभ्यस्यन्त इडस्पतिम् ॥ २७ ॥
ॐ नमो नारायणाय पुरुषाय महात्मने ।
विशुद्धसत्त्वधिष्ण्याय महाहंसाय धीमहि ॥ २८ ॥
आराधयन् मन्त्रमिममभ्यस्यन्त इडस्पतिम् ॥ २७ ॥
ॐ नमो नारायणाय पुरुषाय महात्मने ।
विशुद्धसत्त्वधिष्ण्याय महाहंसाय धीमहि ॥ २८ ॥
Verse text
ab-bhakṣāḥ katicin māsān
katicid vāyu-bhojanāḥ
ārādhayan mantram imam
abhyasyanta iḍaspatim
katicid vāyu-bhojanāḥ
ārādhayan mantram imam
abhyasyanta iḍaspatim
oṁ namo nārāyaṇāya
puruṣāya mahātmane
viśuddha-sattva-dhiṣṇyāya
mahā-haṁsāya dhīmahi
puruṣāya mahātmane
viśuddha-sattva-dhiṣṇyāya
mahā-haṁsāya dhīmahi
Synonyms
ap-bhakṣāḥ — bebendo apenas água; katicit māsān — por alguns meses; katicit — por alguns; vāyu-bhojanāḥ — meramente respirando, ou comendo ar; ārādhayan — adoravam; mantram imam — este mantra, que não é diferente de Nārāyaṇa; abhyasyantaḥ — praticando; iḍaḥ-patim — o mestre de todos os mantras, o Senhor Viṣṇu; oṁ — ó Senhor; namaḥ — respeitosas reverências; nārāyaṇāya — ao Senhor Nārāyaṇa; puruṣāya — a Pessoa Suprema; mahā-ātmane — a excelsa Superalma; viśuddha-sattva-dhiṣṇyāya — que está sempre situado na morada transcendental; mahā-haṁsāya — a grande Personalidade de Deus, que é como um cisne; dhīmahi — sempre oferecemos.
Translation
Por alguns meses, os filhos do prajāpati Dakṣa beberam apenas água e comeram apenas ar. Então, submetendo-se a grandes austeridades, eles recitaram este mantra: “Ofereçamos nossas respeitosas reverências a Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus, que sempre está situado em Sua morada transcendental. Como Ele é a Pessoa Suprema [paramahaṁsa], ofertemos a Ele nossas respeitosas reverências.”
Purport
SIGNIFICADO—Através destes versos, fica evidente que o canto do mahā-mantra ou dos mantras védicos deve ser acompanhado de rigorosas austeridades. Em Kali-yuga, as pessoas não podem submeter-se a severas austeridades como aquelas mencionadas aqui – beber apenas água ou comer apenas ar por muitos meses. Ninguém pode imitar esse processo, mas faz bem em ao menos se submeter a alguma austeridade abandonando as quatro práticas indesejáveis, a saber, o sexo ilícito, o consumo de carne, a intoxicação e os jogos de azar. Qualquer pessoa pode facilmente praticar esse tapasya, em consequência do que o canto do mantra Hare Kṛṣṇa não demorará a surtir efeito. Ninguém deve abandonar o processo de austeridade. Se possível, a pessoa deve banhar-se nas águas do Ganges ou do Yamunā, ou, na falta destes, deve banhar-se na água do mar. Esse é um item de austeridade. Portanto, nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa estabeleceu dois centros muito grandes, um em Vṛndāvana e o outro em Māyāpur, Navadvīpa, onde as pessoas podem banhar-se no Ganges ou no Yamunā, cantar o mantra Hare Kṛṣṇa e, dessa maneira, tornarem-se perfeitas e regressar ao lar, regressar ao Supremo.
Devanagari
इति तानपि राजेन्द्र प्रजासर्गधियो मुनि: ।
उपेत्य नारद: प्राह वाच: कूटानि पूर्ववत् ॥ २९ ॥
उपेत्य नारद: प्राह वाच: कूटानि पूर्ववत् ॥ २९ ॥
Verse text
iti tān api rājendra
prajā-sarga-dhiyo muniḥ
upetya nāradaḥ prāha
vācaḥ kūṭāni pūrvavat
prajā-sarga-dhiyo muniḥ
upetya nāradaḥ prāha
vācaḥ kūṭāni pūrvavat
Synonyms
iti — assim; tān — deles (os filhos do prajāpati Dakṣa, conhecidos como Savalāśvas); api — também; rājendra — ó rei Parīkṣit; prajā-sarga-dhiyaḥ — que tinham a impressão de que gerar filhos era o dever mais importante; muniḥ — o grande sábio; upetya — aproximando-se; nāradaḥ — Nārada; prāha — disse; vācaḥ — palavras; kūṭāni — enigmáticas; pūrva-vat — como fizera anteriormente.
Translation
Ó rei Parīkṣit, acercando-se desses filhos do prajāpati Dakṣa, que estavam ocupados em tapasya para gerar filhos, Nārada Muni lhes falou palavras enigmáticas, assim como falara aos seus irmãos mais velhos.
Devanagari
दाक्षायणा: संशृणुत गदतो निगमं मम ।
अन्विच्छतानुपदवीं भ्रातृणां भ्रातृवत्सला: ॥ ३० ॥
अन्विच्छतानुपदवीं भ्रातृणां भ्रातृवत्सला: ॥ ३० ॥
Verse text
dākṣāyaṇāḥ saṁśṛṇuta
gadato nigamaṁ mama
anvicchatānupadavīṁ
bhrātṝṇāṁ bhrātṛ-vatsalāḥ
gadato nigamaṁ mama
anvicchatānupadavīṁ
bhrātṝṇāṁ bhrātṛ-vatsalāḥ
Synonyms
dākṣāyaṇāḥ — ó filhos do prajāpati Dakṣa; saṁśṛṇuta — por favor, escutai com atenção; gadataḥ — que estou falando; nigamam — instrução; mama — minha; anvicchata — segui; anupadavīm — o caminho; bhrātṝṇām — dos vossos irmãos; bhrātṛ-vatsalāḥ — ó vós que tendes muita afeição por vossos irmãos.
Translation
Ó filhos de Dakṣa, por favor, prestai atenção em minhas palavras instrutivas. Todos vós tendes muita afeição por vossos irmãos mais velhos, os Haryaśvas. Portanto, deveis seguir o caminho que eles trilharam.
Purport
SIGNIFICADO—Nārada Muni encorajou o segundo grupo de filhos do prajāpati Dakṣa, despertando-lhes a afinidade natural que eles tinham pelos seus irmãos. Instou-os a seguir seus irmãos mais velhos, caso sentissem alguma afeição por eles. A afeição familiar é muito forte, daí Nārada Muni usar essa tática de fazê-los lembrarem-se de sua relação familiar com os Haryaśvas. Geralmente, a palavra nigama se refere aos Vedas, mas aqui ela se refere às instruções contidas nos Vedas. O Śrīmad-Bhāgavatam diz que nigama-kalpa-taror galitaṁ phalam: as instruções védicas são como uma árvore, da qual o Śrīmad-Bhāgavatam é o fruto maduro. Nārada Muni está ocupado em distribuir esse fruto e, portanto, em benefício da sociedade humana ignorante, ele instruiu Vyāsadeva a escrever este Mahā-purāṇa, o Śrīmad-Bhāgavatam.
anarthopaśamaṁ sākṣād
bhakti-yogam adhokṣaje
lokasyājānato vidvāṁś
cakre sātvata-saṁhitām
bhakti-yogam adhokṣaje
lokasyājānato vidvāṁś
cakre sātvata-saṁhitām
“Os sofrimentos materiais da entidade viva, que são supérfluas para ela, podem ser diretamente mitigadas pelo processo unitivo de serviço devocional. Contudo, a massa popular não sabe disso, em razão do que o erudito Vyāsadeva compilou esta literatura védica, relativa à Verdade Suprema.” (Śrīmad-Bhāgavatam 1.7.6) As pessoas estão sofrendo devido à ignorância e estão seguindo um caminho que não conduz à felicidade. Isso se chama anartha. Com essas atividades materiais, nunca serão felizes, e, portanto, Nārada instruiu Vyāsadeva a registrar as instruções do Śrīmad-Bhāgavatam. Vyāsadeva realmente procedeu conforme Nārada ordenara. O Śrīmad-Bhāgavatam é a instrução védica suprema. Galitaṁ phalam: o fruto maduro dos Vedas é o Śrīmad-Bhāgavatam.
Devanagari
भ्रातृणां प्रायणं भ्राता योऽनुतिष्ठति धर्मवित् ।
स पुण्यबन्धु: पुरुषो मरुद्भि: सह मोदते ॥ ३१ ॥
स पुण्यबन्धु: पुरुषो मरुद्भि: सह मोदते ॥ ३१ ॥
Verse text
bhrātṝṇāṁ prāyaṇaṁ bhrātā
yo ’nutiṣṭhati dharmavit
sa puṇya-bandhuḥ puruṣo
marudbhiḥ saha modate
yo ’nutiṣṭhati dharmavit
sa puṇya-bandhuḥ puruṣo
marudbhiḥ saha modate
Synonyms
bhrātṝṇām — dos irmãos mais velhos; prāyaṇam — o caminho; bhrātā — um irmão fiel; yaḥ — aquele que; anutiṣṭhati — segue; dharma-vit — conhecendo os princípios religiosos; saḥ — esta; puṇya-bandhuḥ — muitíssimo piedosa; puruṣaḥ — pessoa; marudbhiḥ — os semideuses dos ventos; saha — com; modate — goza a vida.
Translation
Um irmão que conhece os princípios da religião segue os passos de seus irmãos mais velhos. Como é muitíssimo elevado, semelhante irmão piedoso obtém a oportunidade de se associar e desfrutar com os semideuses, tais como os Maruts, que são todos afetuosos com seus irmãos.
Purport
SIGNIFICADO—De acordo com a crença que desenvolvem ao estabelecerem várias relações materiais, as pessoas se elevam a diferentes planetas. Aqui se declara que alguém muito fiel a seus irmãos deve seguir um caminho semelhante ao que estes traçaram e, assim, ter a oportunidade de se promover a Marudloka. Nārada Muni aconselhou o segundo grupo dos filhos do prajāpati Dakṣa a seguir os irmãos mais velhos para, então, elevarem-se ao mundo espiritual.
Devanagari
एतावदुक्त्वा प्रययौ नारदोऽमोघदर्शन: ।
तेऽपि चान्वगमन् मार्गं भ्रातृणामेव मारिष ॥ ३२ ॥
तेऽपि चान्वगमन् मार्गं भ्रातृणामेव मारिष ॥ ३२ ॥
Verse text
etāvad uktvā prayayau
nārado ’mogha-darśanaḥ
te ’pi cānvagaman mārgaṁ
bhrātṝṇām eva māriṣa
nārado ’mogha-darśanaḥ
te ’pi cānvagaman mārgaṁ
bhrātṝṇām eva māriṣa
Synonyms
etāvat — esse tanto; uktvā — falando; prayayau — partiu daquele lugar; nāradaḥ — o grande sábio Nārada; amogha-darśanaḥ — cujo olhar é muito auspicioso; te — eles; api — também; ca — e; anvagaman — seguiram; mārgam — o caminho; bhrātṝṇām — dos seus outros irmãos; eva — na verdade; māriṣa — ó grande rei ariano.
Translation
Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Ó melhor entre os arianos avançados, após dizer tudo isso aos filhos do prajāpati Dakṣa, Nārada Muni, cujo olhar misericordioso é infalível, partiu conforme planejara. Os filhos de Dakṣa seguiram o exemplo de seus irmãos mais velhos. Deixando de lado o projeto segundo o qual deveriam gerar filhos, eles se ocuparam em consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
सध्रीचीनं प्रतीचीनं परस्यानुपथं गता: ।
नाद्यापि ते निवर्तन्ते पश्चिमा यामिनीरिव ॥ ३३ ॥
नाद्यापि ते निवर्तन्ते पश्चिमा यामिनीरिव ॥ ३३ ॥
Verse text
sadhrīcīnaṁ pratīcīnaṁ
parasyānupathaṁ gatāḥ
nādyāpi te nivartante
paścimā yāminīr iva
parasyānupathaṁ gatāḥ
nādyāpi te nivartante
paścimā yāminīr iva
Synonyms
sadhrīcīnam — completamente correto; pratīcīnam — acessível por meio de adoção de um modo de vida dirigido para a meta máxima, o serviço devocional; parasya — do Senhor Supremo; anupatham — o caminho; gatāḥ — trilhando; na — não; adya api — mesmo até hoje; te — eles (os filhos do prajāpati Dakṣa); nivartante — voltaram; paścimāḥ — ocidentais (aquelas que passaram); yāminīḥ — noites; iva — como.
Translation
Os Savalāśvas tomaram o caminho correto, que é acessível através de um modo de vida com o qual se alcança o serviço devocional, ou a misericórdia da Suprema Personalidade de Deus. Como noites que rumaram para o Ocidente, eles não voltaram mais.
Devanagari
एतस्मिन् काल उत्पातान् बहून् पश्यन् प्रजापति: ।
पूर्ववन्नारदकृतं पुत्रनाशमुपाशृणोत् ॥ ३४ ॥
पूर्ववन्नारदकृतं पुत्रनाशमुपाशृणोत् ॥ ३४ ॥
Verse text
etasmin kāla utpātān
bahūn paśyan prajāpatiḥ
pūrvavan nārada-kṛtaṁ
putra-nāśam upāśṛṇot
bahūn paśyan prajāpatiḥ
pūrvavan nārada-kṛtaṁ
putra-nāśam upāśṛṇot
Synonyms
Translation
Foi então que o prajāpati Dakṣa observou muitos sinais inauspiciosos e ouviu de várias fontes que seu segundo grupo de filhos, os Savalāśvas, acatando as instruções de Nārada, haviam seguido o caminho dos seus irmãos mais velhos.
Devanagari
चुक्रोध नारदायासौ पुत्रशोकविमूर्च्छित: ।
देवर्षिमुपलभ्याह रोषाद्विस्फुरिताधर: ॥ ३५ ॥
देवर्षिमुपलभ्याह रोषाद्विस्फुरिताधर: ॥ ३५ ॥
Verse text
cukrodha nāradāyāsau
putra-śoka-vimūrcchitaḥ
devarṣim upalabhyāha
roṣād visphuritādharaḥ
putra-śoka-vimūrcchitaḥ
devarṣim upalabhyāha
roṣād visphuritādharaḥ
Synonyms
cukrodha — ficou muito irado; nāradāya — contra o grande sábio Nārada Muni; asau — esse (Dakṣa); putra-śoka — devido à lamentação pela perda de seus filhos; vimūrcchitaḥ — quase desmaiando; devarṣim — o grande sábio Devarṣi Nārada; upalabhya — vendo; āha — ele disse; roṣāt — com muita ira; visphurita — tremendo; adharaḥ — cujos lábios.
Translation
Ao ouvir que os Savalāśvas também haviam partido deste mundo para ocupar no serviço devocional, Dakṣa se irou com Nārada e quase desmaiou devido à lamentação. Quando Dakṣa se deparou com Nārada, os lábios de Dakṣa começaram a tremer de ira, e ele falou o seguinte.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura comenta que Nārada Muni libertara toda a família de Svāyambhuva Manu, começando com Priyavrata e Uttānapāda. Ele havia libertado o filho de Uttānapāda, Dhruva, e havia inclusive libertado Prācīnabarhi, que estava ocupado em atividades fruitivas. Entretanto, não pôde libertar o prajāpati Dakṣa. O prajāpati Dakṣa viu Nārada à sua frente porque Nārada viera libertá-lo pessoalmente. Nārada Muni se aproveitou da oportunidade e se aproximou do prajāpati Dakṣa quando este estava pesaroso, visto que o momento de aflição é uma ocasião propícia para se apreciar o bhakti-yoga. Como se declara na Bhagavad-gītā (7.16), quatro classes de homens – ārta (aquele que está aflito), arthārthī (aquele que precisa de dinheiro), jijñāsu (aquele que é curioso) e jñānī (o estudioso) – tentam compreender o serviço devocional. O prajāpati Dakṣa estava muito aflito devido à perda de seus filhos, e, portanto, Nārada se valeu da oportunidade para instruí-lo sobre como proceder para ficar livre do cativeiro material.
Devanagari
श्रीदक्ष उवाच
अहो असाधो साधूनां साधुलिङ्गेन नस्त्वया ।
असाध्वकार्यर्भकाणां भिक्षोर्मार्ग: प्रदर्शित: ॥ ३६ ॥
अहो असाधो साधूनां साधुलिङ्गेन नस्त्वया ।
असाध्वकार्यर्भकाणां भिक्षोर्मार्ग: प्रदर्शित: ॥ ३६ ॥
Verse text
śrī-dakṣa uvāca
aho asādho sādhūnāṁ
sādhu-liṅgena nas tvayā
asādhv akāry arbhakāṇāṁ
bhikṣor mārgaḥ pradarśitaḥ
aho asādho sādhūnāṁ
sādhu-liṅgena nas tvayā
asādhv akāry arbhakāṇāṁ
bhikṣor mārgaḥ pradarśitaḥ
Synonyms
śrī-dakṣaḥ uvāca — o prajāpati Dakṣa disse; aho asādho — ó não-devoto altamente desonesto; sādhūnām — da sociedade de devotos e de grandes sábios; sādhu-liṅgena — vestindo a roupa de uma pessoa santa; naḥ — a nós; tvayā — por ti; asādhu — uma desonestidade; akāri — foi feita; arbhakāṇām — de pobres rapazes que eram muito inexperientes; bhikṣoḥ mārgaḥ — o caminho de um pedinte ou sannyāsī mendicante; pradarśitaḥ — mostrado.
Translation
O prajāpati Dakṣa disse: Oh! Nārada Muni, tu te vestes de santo, quando de fato não és santo. Na verdade, embora eu esteja agora na vida de gṛhastha, sou uma pessoa santa. Ao mostrares a meus filhos o caminho da renúncia, fizeste-me uma injustiça abominável.
Purport
SIGNIFICADO—Śrī Caitanya Mahāprabhu disse: sannyāsīra alpa chidra sarva-loke gāya. (Caitanya-caritāmṛta, Madhya 12.51) Na sociedade, encontram-se muitos sannyāsīs, vānaprasthas, gṛhasthas e brahmacārīs, mas, se todos eles viverem bem de acordo com seus deveres, serão considerados sādhus. O prajāpati Dakṣa com certeza era um sādhu, haja vista que executara tamanhas austeridades a ponto de o Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus, aparecer diante dele. Entretanto, buscava defeitos nos outros. Ele indevidamente julgou Nārada Muni como sendo um asādhu, ou pessoa não-santa, porque Nārada lhe havia frustrado as intenções. Desejando treinar seus filhos para se tornarem gṛhasthas plenamente dotados de conhecimento, Dakṣa os enviou para executar austeridades em Nārāyaṇa-saras. Nārada Muni, entretanto, aproveitando-se do fato de que eles eram muitíssimo elevados em austeridade, instruiu-os a se tornarem vaiṣṇavas pertencentes à ordem renunciada. Esse é o dever de Nārada Muni e de seus seguidores. Eles devem mostrar a todos o caminho através do qual se renuncia a este mundo material e volta-se ao lar, volta-se ao Supremo. O prajāpati Dakṣa, entretanto, não pôde ver a magnitude dos deveres que Nārada Muni realizou ao iluminar os filhos do prajāpati. Incapaz de valorizar o comportamento de Nārada Muni, Dakṣa o acusou de ser um asādhu.
As palavras bhikṣor mārga, “o caminho da ordem renunciada”, são muito expressivas a esse respeito. O sannyāsī é chamado de tridaṇḍi-bhikṣu porque seu dever é esmolar nos lares dos gṛhasthas e lhes fornecer instruções espirituais. O sannyāsī recebe a permissão de esmolar de porta em porta, mas o gṛhastha não pode agir assim. Os gṛhasthas devem ganhar a vida de acordo com as quatro classes da vida espiritual. Um gṛhastha brāhmaṇa pode ganhar sua vida se tornando um sábio erudito e ensinando as pessoas em geral como adorar a Suprema Personalidade de Deus. Ele também pode incumbir-se da adoração. Portanto, afirma-se que somente os brāhmaṇas podem ocupar-se em adorar a Deidade, e eles podem aceitar como prasāda tudo o que as pessoas oferecem à Deidade. Embora um brāhmaṇa às vezes possa aceitar caridade, essa não visa à sua manutenção pessoal, senão que se destina à adoração à Deidade. Assim, um brāhmaṇa não junta nada para o seu uso futuro. Igualmente, os kṣatriyas podem coletar impostos dos cidadãos, e também devem proteger os cidadãos e impor regras e regulações e manter a lei e a ordem. Os vaiśyas devem sobreviver através da agricultura e da proteção às vacas, e os śūdras devem garantir sua subsistência servindo às três classes superiores. Quem não é brāhmaṇa não pode aceitar sannyāsa. Os sannyāsīs e os brahmacārīs podem esmolar de porta em porta, mas o gṛhastha não pode proceder assim.
O prajāpati Dakṣa condenou Nārada Muni porque Nārada, um brahmacārī que podia esmolar de porta em porta, transformara os filhos de Dakṣa em sannyāsīs, sendo que eles estavam recebendo treinamento para serem gṛhasthas. Dakṣa ficou extremamente irado contra Nārada porque julgava que Nārada lhe havia feito uma grande injustiça. De acordo com a opinião de Dakṣa, Nārada Muni havia desencaminhado os inexperientes filhos de Dakṣa (asādhv akāry arbhakāṇām). Dakṣa considerava seus filhos como rapazes inocentes que haviam sido desencaminhados quando Nārada lhes mostrou a ordem de vida renunciada. Devido a todas essas considerações, o prajāpati Dakṣa alegou que Nārada Muni era um asādhu e que não deveria trajar as vestes de um sādhu.
Às vezes, os gṛhasthas tomam uma atitude de acusação contra uma pessoa santa, especialmente quando ela instrui os jovens filhos deles a aceitarem a consciência de Kṛṣṇa. Geralmente, o gṛhastha pensa que, a menos que alguém entre na vida de gṛhastha, não tem a competência de adotar a ordem renunciada. Se, de acordo com as instruções de Nārada ou de algum membro de sua sucessão discipular, um jovem imediatamente adota o caminho da ordem renunciada, seus pais ficam muito irados. Esse mesmo fenômeno está ocorrendo em nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa porque estamos instruindo todos os jovens nos países ocidentais a seguirem o caminho da renúncia. Permitimos a vida de gṛhastha, mas o gṛhastha também segue o caminho da renúncia. São tantos os maus hábitos que mesmo o gṛhastha deve abandonar que seus pais pensam que sua vida foi praticamente destruída. Não permitimos o consumo de carne, o sexo ilícito, os jogos de azar e a intoxicação, em decorrência do que os pais ficam imaginando: se existem tantos nãos, como é que a vida de alguém pode ser positiva? Com destaque especial nos países ocidentais, essas quatro atividades proibidas constituem praticamente a vida e alma da população moderna. Portanto, os pais às vezes não gostam de nosso movimento, assim como o prajāpati Dakṣa não gostava das atividades de Nārada e o acusou de desonestidade. Entretanto, embora os pais possam voltar sua ira contra nós, devemos executar nosso dever sem hesitação, pois estamos na sucessão discipular de Nārada Muni.
As pessoas entregues à vida familiar ficam espantadas ao verem como alguém pode abandonar o desfrute da vida de gṛhastha, onde se admite o gozo dos sentidos, simplesmente para se tornar um mendicante em consciência de Kṛṣṇa. Não sabem que a permissão do gozo sexual na vida familiar não pode ser regulada a menos que a pessoa aceite a vida de mendicante. A civilização védica, portanto, prescreve que, aos cinquenta anos de idade, deve-se abandonar a vida familiar. Isso é compulsório. Contudo, porque a civilização moderna está desencaminhada, os pais de família querem permanecer na vida familiar até a morte e, em virtude disso, estão sofrendo. Nesses casos, os discípulos de Nārada Muni aconselham todos os membros da geração jovem a se unirem ao movimento da consciência de Kṛṣṇa de imediato. Não há nada de errado nisso.
Devanagari
ऋणैस्त्रिभिरमुक्तानाममीमांसितकर्मणाम् ।
विघात: श्रेयस: पाप लोकयोरुभयो: कृत: ॥ ३७ ॥
विघात: श्रेयस: पाप लोकयोरुभयो: कृत: ॥ ३७ ॥
Verse text
ṛṇais tribhir amuktānām
amīmāṁsita-karmaṇām
vighātaḥ śreyasaḥ pāpa
lokayor ubhayoḥ kṛtaḥ
amīmāṁsita-karmaṇām
vighātaḥ śreyasaḥ pāpa
lokayor ubhayoḥ kṛtaḥ
Synonyms
ṛṇaiḥ — dos débitos; tribhiḥ — três; amuktānām — das pessoas que não estão livres; amīmāṁsita — sem levar em consideração; karmaṇām — o caminho do dever; vighātaḥ — ruína; śreyasaḥ — do caminho da boa fortuna; pāpa — ó pecaminosíssimo (Nārada Muni); lokayoḥ — dos mundos; ubhayoḥ — ambos; kṛtaḥ — consumada.
Translation
O prajāpati Dakṣa disse: Meus filhos não estavam de modo algum livres dos seus três débitos. Na verdade, eles não deram a devida consideração às suas obrigações. Ó Nārada Muni, ó personalidade de ação pecaminosa, obstruíste o progresso deles rumo à boa fortuna neste e no próximo mundo porque eles ainda estão endividados com as pessoas santas, os semideuses e seu pai.
Purport
SIGNIFICADO—Logo que nasce, um brāhmaṇa assume três espécies de débitos – os débitos com os grandes santos, os débitos com os semideuses e os débitos com o seu pai. O filho de um brāhmaṇa deve submeter-se ao celibato (brahmacarya) para saldar seus débitos com as pessoas santas, deve executar cerimônias ritualísticas para saldar seu débito com os semideuses, e deve gerar filhos para saldar seu débito com seu pai. O prajāpati Dakṣa argumentou que, embora se recomende a ordem renunciada como o meio de alguém alcançar a liberação, ninguém pode alcançar a liberação enquanto não cumprir suas obrigações para com os semideuses, os santos e seu pai. Uma vez que os filhos de Dakṣa não haviam se livrado desses três débitos, como é que Nārada Muni podia induzi-los a aceitarem a ordem de vida renunciada? Ao que tudo indica, o prajāpati Dakṣa não conhecia a decisão final dos śāstras. Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (11.5.41):
devarṣi-bhūtāpta-nṛṇāṁ pitṝṇāṁ
na kiṅkaro nāyam ṛṇī ca rājan
sarvātmanā yaḥ śaraṇaṁ śaraṇyaṁ
gato mukundaṁ parihṛtya kartam
na kiṅkaro nāyam ṛṇī ca rājan
sarvātmanā yaḥ śaraṇaṁ śaraṇyaṁ
gato mukundaṁ parihṛtya kartam
Todos estão endividados com os semideuses, com as entidades vivas em geral, com a sua família, com os pitās e assim por diante, mas, se alguém se rende plenamente a Kṛṣṇa, Mukunda, aquele que lhe pode conceder a liberação, mesmo que ele não execute yajña, estará livre de todos os débitos. Mesmo que alguém não consiga quitar seus débitos, estará livre de todos os débitos caso renuncie ao mundo material e fique com a Suprema Personalidade de Deus, cujos pés de lótus são o refúgio de todos. Esse é o veredito dos śāstras. Portanto, Nārada Muni estava completamente certo ao instruir os filhos do prajāpati Dakṣa a renunciarem a este mundo material imediatamente e se abrigarem na Suprema Personalidade de Deus. Infelizmente, o prajāpati Dakṣa, o pai dos Haryaśvas e dos Savalāśvas, não compreendeu o grande serviço prestado por Nārada Muni. Dakṣa, portanto, tratou-o por papa (personalidade de atividades pecaminosas) e asādhu (pessoa não-santa). Como era um grande santo e vaiṣṇava, Nārada Muni tolerou todas as acusações do prajāpati Dakṣa. Tudo o que Nārada fez foi executar seu dever de vaiṣṇava, libertando todos os filhos do prajāpati Dakṣa e os capacitando a voltarem ao lar, voltarem ao Supremo.
Devanagari
एवं त्वं निरनुक्रोशो बालानां मतिभिद्धरे: ।
पार्षदमध्ये चरसि यशोहा निरपत्रप: ॥ ३८ ॥
पार्षदमध्ये चरसि यशोहा निरपत्रप: ॥ ३८ ॥
Verse text
evaṁ tvaṁ niranukrośo
bālānāṁ mati-bhid dhareḥ
pārṣada-madhye carasi
yaśo-hā nirapatrapaḥ
bālānāṁ mati-bhid dhareḥ
pārṣada-madhye carasi
yaśo-hā nirapatrapaḥ
Synonyms
evam — assim; tvam — tu (Nārada); niranukrośaḥ — sem compaixão; bālānām — de rapazes inexperientes e inocentes; mati-bhit — contaminando a consciência; hareḥ — da Suprema Personalidade de Deus; pārṣada-madhye — entre os associados pessoais; carasi — viagem; yaśaḥ-hā — difamando a Suprema Personalidade de Deus; nirapatrapaḥ — (embora não saibas o que estás fazendo, estás executando atividades pecaminosas) sem pudor.
Translation
O prajāpati Dakṣa continuou: Cometendo esse tipo de violência a outras entidades vivas e, mesmo assim, alegando ser um associado do Senhor Viṣṇu, estás difamando a Suprema Personalidade de Deus. Sem necessidade, criaste uma mentalidade de renúncia em rapazes inocentes e, portanto, és um sujeito desavergonhado e destituído de compaixão. Como podes viajar com os associados pessoais do Senhor Supremo?
Purport
SIGNIFICADO—Essa mentalidade do prajāpati Dakṣa perdura até os dias de hoje. Quando os jovens ingressam no movimento da consciência de Kṛṣṇa, seus pais e assim chamados tutores ficam muito irados contra o instrutor do movimento da consciência de Kṛṣṇa porque acham que seus filhos foram desnecessariamente induzidos a se privarem dos gozos materiais de comer, beber e farrear. Os karmīs, trabalhadores fruitivos, pensam que as pessoas devem desfrutar ao máximo de sua atual vida neste mundo material e também executar algumas atividades piedosas para serem promovidas a sistemas planetários superiores, onde poderão continuar desfrutando na próxima vida. O yogī, entretanto, especialmente o bhakti-yogī, mostra-se impassível diante das opiniões deste mundo material. Ele não está interessado em viajar aos sistemas planetários superiores dos semideuses para desfrutar de uma longa vida, em uma civilização materialmente avançada. Como afirma Prabodhānanda Sarasvatī, kaivalyaṁ narakāyate tridaśa-pūr ākāśa-puṣpāyate: para o devoto, imergir na existência do Brahman é algo infernal, e a vida nos sistemas planetários superiores dos semideuses é um fogo-fátuo, uma fantasmagoria sem nenhuma existência palpável. O devoto puro não está interessado na perfeição ióguica, em viagens aos sistemas planetários superiores ou em se tornar uno com o Brahman. Somente lhe interessa prestar serviço à Personalidade de Deus. Como era karmī, o prajāpati Dakṣa não podia apreciar o grande serviço que Nārada Muni prestara aos seus onze mil filhos. Ao contrário, acusou Nārada Muni de ser pecaminoso e o censurou dizendo que, como Nārada Muni estava associado com a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor também seria difamado. Assim, Dakṣa criticou Nārada Muni, julgando-o ofensivo ao Senhor, embora fosse conhecido como um associado do Senhor.
Devanagari
ननु भागवता नित्यं भूतानुग्रहकातरा: ।
ऋते त्वां सौहृदघ्नं वै वैरङ्करमवैरिणाम् ॥ ३९ ॥
ऋते त्वां सौहृदघ्नं वै वैरङ्करमवैरिणाम् ॥ ३९ ॥
Verse text
nanu bhāgavatā nityaṁ
bhūtānugraha-kātarāḥ
ṛte tvāṁ sauhṛda-ghnaṁ vai
vairaṅ-karam avairiṇām
bhūtānugraha-kātarāḥ
ṛte tvāṁ sauhṛda-ghnaṁ vai
vairaṅ-karam avairiṇām
Synonyms
nanu — agora; bhāgavatāḥ — devotos da Suprema Personalidade de Deus; nityam — eternamente; bhūta-anugraha-kātarāḥ — muitíssimo ansiosos por conceder bênçãos às almas condicionadas e caídas; ṛte — exceto; tvām — tu próprio; sauhṛda-ghnam — um rompedor da amizade (portanto, indigno de ser incluído entre os bhāgavatas, ou devotos do Senhor); vai — na verdade; vairam-karam — crias inimizade; avairiṇām — para pessoas que não são inimigas.
Translation
À exceção de ti, todos os devotos do Senhor são muito bondosos com as almas condicionadas e estão ansiosos por beneficiar os outros. Embora te vistas de devoto, crias inimizade com pessoas que não são teus inimigos, ou rompes amizade e crias inimizade entre amigos. Não te envergonhas de te apresentar como devoto ao mesmo tempo em que executas essas ações abomináveis?
Purport
SIGNIFICADO—São essas as críticas a serem toleradas pelos servos de Nārada Muni que estão na sucessão discipular. Através do movimento da consciência de Kṛṣṇa, estamos nos esforçando para treinar os jovens a se tornarem devotos e voltarem ao lar, voltarem ao Supremo, seguindo rígidos princípios reguladores, mas o nosso serviço não é apreciado nem na Índia nem nos países ocidentais, onde procuramos espalhar este movimento da consciência de Kṛṣṇa. Na Índia, os brāhmaṇas de casta se tornaram inimigos do movimento da consciência de Kṛṣṇa porque elevamos à posição de brāhmaṇas os estrangeiros que são tidos como mlecchas e yavanas. Nós os treinamos em austeridades e penitências e os reconhecemos como brāhmaṇas, concedendo-lhes cordões sagrados. Assim, na Índia, os brāhmaṇas de casta ficam muito insatisfeitos com nossas atividades no mundo ocidental. Também no ocidente, os pais dos jovens que ingressam neste movimento também se tornaram nossos inimigos. Não nos interessa criar inimigos, mas o processo é tal que os não-devotos sempre sentirão uma inimizade conosco. Entretanto, como afirmam os śāstras, o devoto deve ser tolerante e misericordioso. Os devotos ocupados em pregar devem estar preparados para sofrer acusações a eles dirigidas pelas pessoas ignorantes e, ainda assim, devem ser muito misericordiosos com as almas caídas e condicionadas. Se alguém puder executar seu dever na sucessão discipular de Nārada Muni, seu serviço será com certeza reconhecido. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (18.68-69):
ya idaṁ paramaṁ guhyaṁ
mad-bhakteṣv abhidhāsyati
bhaktiṁ mayi parāṁ kṛtvā
mām evaiṣyaty asaṁśayaḥ
mad-bhakteṣv abhidhāsyati
bhaktiṁ mayi parāṁ kṛtvā
mām evaiṣyaty asaṁśayaḥ
na ca tasmān manuṣyeṣu
kaścin me priya-kṛttamaḥ
bhavitā na ca me tasmād
anyaḥ priyataro bhuvi
kaścin me priya-kṛttamaḥ
bhavitā na ca me tasmād
anyaḥ priyataro bhuvi
“Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo, o serviço devocional puro está garantido e, no final, ele voltará a Mim. Não há neste mundo servo que Me seja mais querido do que ele, tampouco algum dia haverá alguém mais querido.” Continuemos pregando a mensagem do Senhor Kṛṣṇa e não fiquemos com medo dos inimigos. Nosso único dever é satisfazer o Senhor com esta pregação, e este serviço será aceito pelo Senhor Caitanya e pelo Senhor Kṛṣṇa. Devemos sinceramente servir ao Senhor e não podemos deixar que os aparentes inimigos nos intimidem.
Usa-se neste verso a palavra sauhṛda-ghnam (“aquele que rompe amizades”). Porque Nārada Muni e os membros de sua sucessão discipular destroem amizades e desmancham a vida familiar, às vezes são acusados de sauhṛda-ghnam, criadores de inimizade entre parentes. Na verdade, esses devotos são amigos de todas as entidades vivas (suhṛdaṁ sarva-bhūtānām), mas o que acontece é que são vistos como inimigos. A pregação pode ser uma tarefa difícil e ingrata, mas o pregador deve seguir as ordens do Senhor Supremo e não temer as pessoas materialistas.
Devanagari
नेत्थं पुंसां विराग: स्यात् त्वया केवलिना मृषा ।
मन्यसे यद्युपशमं स्नेहपाशनिकृन्तनम् ॥ ४० ॥
मन्यसे यद्युपशमं स्नेहपाशनिकृन्तनम् ॥ ४० ॥
Verse text
netthaṁ puṁsāṁ virāgaḥ syāt
tvayā kevalinā mṛṣā
manyase yady upaśamaṁ
sneha-pāśa-nikṛntanam
tvayā kevalinā mṛṣā
manyase yady upaśamaṁ
sneha-pāśa-nikṛntanam
Synonyms
Translation
O prajāpati Dakṣa prosseguiu: Se pensas que o simples fato de alguém despertar o sentimento de renúncia o tornará desapegado do mundo material, devo dizer que, enquanto ele não despertar conhecimento pleno, simplesmente trocar de roupa da forma como fizeste, não pode trazer desapego.
Purport
SIGNIFICADO—O prajāpati Dakṣa estava correto ao afirmar que o fato de alguém mudar de roupa não pode torná-lo desapegado deste mundo material. Os sannyāsīs de Kali-yuga que mudam da roupa branca para a roupa açafroada e, então, pensam que podem fazer o que bem quiserem são mais abomináveis do que os gṛhasthas materialistas. Isso não é recomendado em parte alguma. O prajāpati Dakṣa estava certo em apontar esse defeito, mas desconhecia que Nārada Muni havia despertado um espírito de renúncia nos Haryaśvas e Savalāśvas através de completo conhecimento. Tal renúncia iluminada é desejável. Deve-se entrar na ordem renunciada munido de conhecimento pleno (jñāna-vairāgya), pois a perfeição da vida é possível para aquele que renuncia a este mundo material dessa maneira. Essa elevada fase pode ser alcançada muito facilmente, como corroboram as afirmações do Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.7):
vāsudeve bhagavati
bhakti-yogaḥ prayojitaḥ
janayaty āśu vairāgyaṁ
jñānaṁ ca yad ahaitukam
bhakti-yogaḥ prayojitaḥ
janayaty āśu vairāgyaṁ
jñānaṁ ca yad ahaitukam
“Aquele que presta serviço devocional à Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, imediatamente adquire conhecimento sem causa e desapego do mundo.” Se alguém se ocupa seriamente no serviço devocional ao Senhor Vāsudeva, jñāna e vairāgya se manifestam nele automaticamente. Quanto a isso, não há dúvidas. A acusação do prajāpati Dakṣa de que Nārada, na verdade, não elevara seus filhos à plataforma do conhecimento era infundada. Todos os filhos do prajāpati Dakṣa primeiramente foram elevados à plataforma de jñāna e, então, renunciaram a este mundo automaticamente. Em suma, a menos que alguém desperte o seu conhecimento não pode ocorrer a renúncia, pois, sem conhecimento elevado, ninguém pode abandonar o apego ao gozo material.
Devanagari
नानुभूय न जानाति पुमान् विषयतीक्ष्णताम् ।
निर्विद्यते स्वयं तस्मान्न तथा भिन्नधी: परै: ॥ ४१ ॥
निर्विद्यते स्वयं तस्मान्न तथा भिन्नधी: परै: ॥ ४१ ॥
Verse text
nānubhūya na jānāti
pumān viṣaya-tīkṣṇatām
nirvidyate svayaṁ tasmān
na tathā bhinna-dhīḥ paraiḥ
pumān viṣaya-tīkṣṇatām
nirvidyate svayaṁ tasmān
na tathā bhinna-dhīḥ paraiḥ
Synonyms
Translation
O gozo material é de fato a causa de toda a infelicidade, mas somente pode abandoná-lo quem experimentou pessoalmente o sofrimento que ele traz. Portanto, deve-se permitir que a pessoa permaneça no aparente gozo material ao mesmo tempo em que avança em conhecimento para sentir o sofrimento dessa falsa felicidade material. Então, sem ajuda alheia, ela perceberá que o gozo material é detestável. Aquele cuja mente é mudada por outrem não se torna tão renunciado como aquele que tem uma experiência pessoal.
Purport
SIGNIFICADO—Afirma-se que, a menos que fique grávida, uma mulher não pode entender o problema de dar à luz um filho. Bandhyā ki bujhibe prasava-vedanā. A palavra bandhyā se refere a uma mulher estéril. Semelhante mulher não pode dar à luz um filho. Como, então, ela pode conhecer a dor do parto? De acordo com a filosofia do prajāpati Dakṣa, a mulher deve primeiro engravidar e depois saber o que é a dor do parto. Então, se ela for inteligente, não desejará engravidar novamente. Na verdade, entretanto, isso não é um fato. O gozo sexual é tão forte que uma mulher engravida e sofre na hora do parto, mas, apesar de sua experiência, volta a engravidar. De acordo com a filosofia de Dakṣa, a pessoa deve envolver-se com o gozo material para que, após experimentar a aflição decorrente desse gozo, automaticamente renuncie. Entretanto, a natureza material é tão forte que, embora sofra a cada passo, o homem não abandona a tentativa de desfrutar (tṛpyanti neha kṛpaṇā-bahu-duḥkha-bhājaḥ). Nessas circunstâncias, enquanto não obtiver a companhia de um devoto como Nārada Muni ou de um servo dele na sucessão discipular, a pessoa não despertará sua renúncia latente. Não é verdade que, porque o gozo material envolve tantas condições dolorosas, a pessoa automaticamente se desapega. Ela precisa das bênçãos de um devoto grandioso como Nārada Muni. Então, ela pode renunciar ao seu apego ao mundo material. Os rapazes e as moças do movimento da consciência de Kṛṣṇa abandonaram o espírito de gozo material não devido à prática que exercitaram com esse fim, mas pela misericórdia do Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu e de Seus servos.
Devanagari
यन्नस्त्वं कर्मसन्धानां साधूनां गृहमेधिनाम् ।
कृतवानसि दुर्मर्षं विप्रियं तव मर्षितम् ॥ ४२ ॥
कृतवानसि दुर्मर्षं विप्रियं तव मर्षितम् ॥ ४२ ॥
Verse text
yan nas tvaṁ karma-sandhānāṁ
sādhūnāṁ gṛhamedhinām
kṛtavān asi durmarṣaṁ
vipriyaṁ tava marṣitam
sādhūnāṁ gṛhamedhinām
kṛtavān asi durmarṣaṁ
vipriyaṁ tava marṣitam
Synonyms
yat — que; naḥ — a nós; tvam — tu; karma-sandhānām — que seguimos estritamente as cerimônias ritualísticas e fruitivas de acordo com os preceitos védicos; sādhūnām — que somos honestos (porque buscamos honestamente padrões sociais e conforto corpóreo elevados); gṛha-medhinām — embora convivendo com esposa e filhos; kṛtavān asi — criaste; durmarṣam — insuportável; vipriyam — erro; tava — teu; marṣitam — perdoado.
Translation
Embora eu viva na vida familiar com minha esposa e filhos, sigo honestamente os preceitos védicos, ocupando-me em atividades fruitivas para desfrutar da vida e não sofrer reações pecaminosas. Executei toda espécie de yajñas, incluindo o deva-yajña, o ṛṣi-yajña, o pitṛ-yajña e o nṛ-yajña. Porque esses yajñas se chamam vratas [votos], sou conhecido como gṛhavrata. Infelizmente, causaste-me grande mágoa com essa tua inoportuna interferência junto a meus filhos, quando lhes propuseste o caminho da renúncia.
Purport
SIGNIFICADO—O prajāpati Dakṣa queria provar que havia sido muito tolerante por não dizer nada quando Nārada Muni, sem nenhuma razão, induziu os dez mil inocentes filhos do prajāpati a adotarem o caminho da renúncia. Às vezes, os pais de família são acusados de serem gṛhamedhīs, pois, em detrimento do avanço espiritual, os gṛhamedhīs ficam satisfeitos com a vida familiar. Os gṛhasthas, entretanto, são diferentes, pois, embora eles levem a vida familiar com esposas e filhos, preocupam-se com seu avanço espiritual. Querendo provar que fora magnânimo com Nārada Muni, o prajāpati Dakṣa enfatizou que, quando Nārada desencaminhara seus primeiros filhos, Dakṣa não tomou nenhuma atitude de retaliação, senão que fora bondoso e tolerante. Contudo, ficou pesaroso porque Nārada Muni desencaminhara seus outros filhos. Portanto, queria demonstrar que Nārada Muni, embora vestido como um sādhu, não era um sādhu de verdade, enquanto ele próprio, embora fosse um pai de família, era um sādhu mais grandioso do que Nārada Muni.
Devanagari
तन्तुकृन्तन यन्नस्त्वमभद्रमचर: पुन: ।
तस्माल्लोकेषु ते मूढ न भवेद्भ्रमत: पदम् ॥ ४३ ॥
तस्माल्लोकेषु ते मूढ न भवेद्भ्रमत: पदम् ॥ ४३ ॥
Verse text
tantu-kṛntana yan nas tvam
abhadram acaraḥ punaḥ
tasmāl lokeṣu te mūḍha
na bhaved bhramataḥ padam
abhadram acaraḥ punaḥ
tasmāl lokeṣu te mūḍha
na bhaved bhramataḥ padam
Synonyms
tantu-kṛntana — ó desordeiro que, sem misericórdia, separou-me de meus filhos; yat — que; naḥ — a nós; tvam — tu; abhadram — uma desventura; acaraḥ — fizeste; punaḥ — novamente; tasmāt — portanto; lokeṣu — em todos os sistemas planetários dentro do universo; te — de ti; mūḍha — ó patife, que não sabes como agir; na — não; bhavet — possa haver; bhramataḥ — que vagueias; padam — uma morada.
Translation
Houve uma ocasião em que me fizeste perder meus filhos e, agora, voltaste a fazer a mesma desventura. Portanto, és um patife que não sabe como se comportar com os outros. Podes viajar por todo o universo, mas te lanço a maldição de que não fixarás residência em parte alguma.
Purport
SIGNIFICADO—Porque o prajāpati Dakṣa era um gṛhamedhī desejoso de permanecer na vida familiar, achou que, se Nārada Muni não pudesse permanecer em um determinado local, mas tivesse que viajar por todo o universo, Nārada receberia isso como sendo uma grande punição. No entanto, o fato é que essa punição é uma dádiva para um pregador. O pregador é conhecido como parivrājakācārya – um ācārya, ou preceptor, que sempre viaja em benefício da sociedade humana. O prajāpati Dakṣa lançou a Nārada Muni a maldição de que, embora este tivesse a facilidade de viajar por todo o universo, nunca seria capaz de ficar em um único lugar. No sistema paramparā de Nārada Muni, também fui amaldiçoado. Embora eu tenha muitos centros que seriam locais adequados onde fixar residência, não consigo ficar em parte alguma, pois fui amaldiçoado pelos pais de meus jovens discípulos. Desde que o movimento da consciência de Kṛṣṇa teve seu início, tenho viajado por todo o mundo duas ou três vezes por ano e, embora aonde quer que eu vá eu receba alojamentos confortáveis, não posso ficar em lugar algum por mais de três dias ou uma semana. Não me importa essa maldição dos pais de meus discípulos, mas agora é necessário que eu fique em um só local para concluir outra tarefa – a tradução do Śrīmad-Bhāgavatam. Se meus jovens discípulos, especialmente aqueles que aceitaram sannyāsa, encarregarem-se de viajar mundo afora, talvez me seja possível transferir a esses jovens pregadores a maldição outorgada pelos pais. Então, poderei sentar-me convenientemente em um determinado local e me dedicar ao trabalho de tradução.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
प्रतिजग्राह तद्बाढं नारद: साधुसम्मत: ।
एतावान्साधुवादो हि तितिक्षेतेश्वर: स्वयम् ॥ ४४ ॥
प्रतिजग्राह तद्बाढं नारद: साधुसम्मत: ।
एतावान्साधुवादो हि तितिक्षेतेश्वर: स्वयम् ॥ ४४ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
pratijagrāha tad bāḍhaṁ
nāradaḥ sādhu-sammataḥ
etāvān sādhu-vādo hi
titikṣeteśvaraḥ svayam
pratijagrāha tad bāḍhaṁ
nāradaḥ sādhu-sammataḥ
etāvān sādhu-vādo hi
titikṣeteśvaraḥ svayam
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; pratijagrāha — aceitou; tat — isto; bāḍham — que seja assim; nāradaḥ — Nārada Muni; sādhu-sammataḥ — que é um sādhu conceituado; etāvān — esse tanto; sādhu-vādaḥ — apropriado a uma pessoa santa; hi — na verdade; titikṣeta — ele pode tolerar; īśvaraḥ — embora com poderes de amaldiçoar o prajāpati Dakṣa; svayam — ele próprio.
Translation
Śrī Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Meu querido rei, como Nārada Muni é uma pessoa comprovadamente santa, quando o prajāpati Dakṣa o amaldiçoou, ele respondeu que tad bāḍham: “Sim, o que disseste é bom. Aceito essa maldição.” Ele poderia ter revidado o prajāpati Dakṣa, lançando a esse uma maldição, mas, por ser um sādhu tolerante e misericordioso, não tomou nenhuma medida.
Purport
SIGNIFICADO—Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (3.25.21):
titikṣavaḥ kāruṇikāḥ
suhṛdaḥ sarva-dehinām
ajāta-śatravaḥ śāntāḥ
sādhavaḥ sādhu-bhūṣaṇāḥ
suhṛdaḥ sarva-dehinām
ajāta-śatravaḥ śāntāḥ
sādhavaḥ sādhu-bhūṣaṇāḥ
“Os sintomas de um sādhu são que ele é tolerante, misericordioso e amistoso com todas as entidades vivas. Ele não tem inimigos, é pacífico, orienta-se pelas escrituras, e todas as suas características são sublimes.” Porque é um sādhu ou devoto dos mais elevados, Nārada Muni, com o propósito de libertar o prajāpati Dakṣa, tolerou em silêncio a maldição. Śrī Caitanya Mahāprabhu ensinou a todos os Seus devotos este princípio:
tṛṇād api sunīcena
taror api sahiṣṇunā
amāninā mānadena
kīrtanīyaḥ sadā hariḥ
taror api sahiṣṇunā
amāninā mānadena
kīrtanīyaḥ sadā hariḥ
“Ao se cantar o santo nome do Senhor, deve-se estar em um estado de espírito humilde, considerando-se inferior à palha da rua; deve-se ser mais tolerante que uma árvore, livre de todo sentimento de falso prestígio, e deve-se estar pronto a oferecer todo respeito aos demais. Em tal estado de espírito, pode-se cantar o nome do Senhor constantemente.” Seguindo as ordens de Caitanya Mahāprabhu, aquele que prega as glórias do Senhor por todo o mundo ou por todo o universo deve ser mais humilde do que a grama e mais tolerante do que a árvore, pois o pregador não pode ter uma vida descomprometida. Na verdade, o pregador deve enfrentar muitos obstáculos. Ele não apenas é algumas vezes amaldiçoado, como, outras vezes, também precisa sofrer agressões físicas. Por exemplo, quando Nityānanda Prabhu foi pregar a consciência de Kṛṣṇa aos dois irmãos desordeiros Jagāi e Mādhāi, esses O feriram e fizeram com que Sua cabeça sangrasse, mas, mesmo assim, Ele Se mostrou tolerante e libertou os dois irmãos maliciosos, que se tornaram vaiṣṇavas perfeitos. Esse é o dever do pregador. O Senhor Jesus Cristo chegou ao ponto de tolerar a crucificação. Portanto, a maldição contra Nārada não era algo muito espantoso, e ele a tolerou.
Então, talvez alguém pergunte por que Nārada Muni permaneceu diante do prajāpati Dakṣa e tolerou todas as suas acusações e maldições. Será que foi com o propósito de libertar Dakṣa? A resposta é: sim. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura diz que, após ter sido insultado pelo prajāpati Dakṣa, Nārada Muni deveria ter partido imediatamente, mas fez questão de ficar para ouvir todas as palavras ásperas de Dakṣa para que este pudesse desabafar sua ira. O prajāpati Dakṣa não era um homem comum; ele acumulara o resultado de muitas atividades piedosas. Portanto, Nārada Muni esperava que, após lançar sua maldição, Dakṣa, satisfeito e livre da ira, experimentaria arrependimento por sua má conduta e, assim, obteria a oportunidade de se tornar vaiṣṇava e se libertar. Quando Jagāi e Mādhāi ofenderam o Senhor Nityānanda, Ele ficou pacientemente de pé, e, portanto, ambos os irmãos caíram a Seus pés de lótus e se arrependeram. Em consequência disso, mais tarde se tornaram vaiṣṇavas perfeitos.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do sexto canto, quinto capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Nārada Muni É Amaldiçoado pelo Prajāpati Dakṣa”.