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Purport

Capítulo Dez

O Bhāgavatam É a Resposta para Todas as Perguntas

श्रीशुक उवाच
अत्र सर्गो विसर्गश्च स्थानं पोषणमूतय: ।
मन्वन्तरेशानुकथा निरोधो मुक्तिराश्रय: ॥ १ ॥
śrī-śuka uvāca
atra sargo visargaś ca
sthānaṁ poṣaṇam ūtayaḥ
manvantareśānukathā
nirodho muktir āśrayaḥ

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śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; atraneste Śrīmad-Bhāgavatam; sargaḥnarrativa da criação do universo; visargaḥnarrativa da subcriação; catambém; sthānamos sistemas planetários; poṣaṇamproteção; ūtayaḥo impulso criador; manvantaramudanças de Manus; īśa-anukathāḥa ciência de Deus; nirodhaḥregressar ao lar, regressar ao Supremo; muktiḥliberação; āśrayaḥo summum bonum.

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Śrī Śukadeva Gosvāmī disse: No Śrīmad-Bhāgavatam, existem dez divisões elucidativas que tratam do seguinte: a criação do universo, a subcriação, os sistemas planetários, a proteção dada pelo Senhor, o impulso criador, a mudança dos Manus, a ciência de Deus, a volta ao lar, a volta ao Supremo, a liberação e o summum bonum.
दशमस्य विशुद्ध्यर्थं नवानामिह लक्षणम् ।
वर्णयन्ति महात्मान: श्रुतेनार्थेन चाञ्जसा ॥ २ ॥
daśamasya viśuddhy-arthaṁ
navānām iha lakṣaṇam
varṇayanti mahātmānaḥ
śrutenārthena cāñjasā

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daśamasyado summum bonum; viśuddhiisolamento; arthamfinalidade; navānāmdos outros nove; ihaneste Śrīmad-Bhāgavatam; lakṣaṇamsintomas; varṇayantidescrevem; mahā-ātmānaḥos grandes sábios; śrutenapelas evidências védicas; arthenapor explicação direta; cae; añjasāresumidamente.

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Para deixar isolada a transcendência do summum bonum, os sintomas do restante são descritos às vezes por inferência védica, algumas vezes por explicação direta e, outras vezes, por explicações resumidas dadas pelos grandes sábios.
भूतमात्रेन्द्रियधियां जन्म सर्ग उदाहृत: ।
ब्रह्मणो गुणवैषम्याद्विसर्ग: पौरुष: स्मृत: ॥ ३ ॥
bhūta-mātrendriya-dhiyāṁ
janma sarga udāhṛtaḥ
brahmaṇo guṇa-vaiṣamyād
visargaḥ pauruṣaḥ smṛtaḥ

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bhūtaos cinco elementos grosseiros (o céu etc.); mātrāobjetos percebidos pelos sentidos; indriyaos sentidos; dhiyāmda mente; janmacriação; sargaḥmanifestação; udāhṛtaḥchama-se a criação; brahmaṇaḥde Brahmā, o primeiro puruṣa; guṇa-vaiṣamyātpela interação dos três modos da natureza; visargaḥrecriação; pauruṣaḥatividades resultantes; smṛtaḥé assim conhecida.

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A criação elementar dos dezesseis itens materiais – a saber, os cinco elementos [fogo, água, terra, ar e céu], som, forma, sabor, cheiro, tato, e os olhos, ouvidos, nariz, língua, pele e mente – é conhecida como sarga, ao passo que a subsequente interação, resultante dos modos da natureza material, chama-se visarga.

Purport

SIGNIFICADO—Para explicar a divisão em dez sintomas feita no Śrīmad-Bhāgavatam, há sete versos contínuos. O primeiro desses versos se refere às dezesseis manifestações elementares de terra, água etc., com o ego material composto de inteligência e mente materiais. A criação subsequente é o resultado das reações dessas dezesseis energias do primeiro puruṣa, a encarnação Mahā-Viṣṇu de Govinda, conforme a seguinte explicação que Brahmā apresentou em seu tratado, a Brahma-saṁhitā (5.47):
yaḥ kāraṇārṇava-jale bhajati sma yoga-
nidrām ananta-jagadaṇḍa-saroma-kūpaḥ
ādhāra-śaktim avalambya parāṁ sva-mūrtiṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
A primeira encarnação puruṣa de Govinda, o Senhor Kṛṣṇa, conhecida como o Mahā-Viṣṇu, entra em yoga-nidrā, sono místico, e os inumeráveis universos situam-se potencialmente em cada um dos orifícios capilares de Seu corpo transcendental.
Como se mencionou no verso anterior, śrutena (ou, com referência às conclusões védicas), a Suprema Personalidade de Deus torna a criação possível através da manifestação direta de Suas energias específicas. Sem essa referência védica, a criação parece ser um produto da natureza material. Chega a essa conclusão quem tem um pobre fundo de conhecimento. Recorrendo à referência védica, a pessoa conclui que a origem de todas as energias (a saber, interna, externa e marginal) é a Suprema Personalidade de Deus. E como se explicou aqui anteriormente, a conclusão ilusória é que a criação é feita pela natureza material inerte. A conclusão védica é luz transcendental, ao passo que a conclusão não-védica é escuridão material. A potência interna do Senhor Supremo é idêntica ao Senhor Supremo, e a potência externa ganha vida ao entrar em contato com a potência interna. As partes integrantes da potência interna que reagem em contato com a potência externa chamam-se potência marginal, ou entidades vivas.
Assim, a criação original vem diretamente da Suprema Personalidade de Deus, ou Parambrahman, e a criação secundária, como resultado da reação dos ingredientes originais, é feita por Brahmā. Assim, as atividades de todo o universo se iniciam.
स्थितिर्वैकुण्ठविजय: पोषणं तदनुग्रह: ।
मन्वन्तराणि सद्धर्म ऊतय: कर्मवासना: ॥ ४ ॥
sthitir vaikuṇṭha-vijayaḥ
poṣaṇaṁ tad-anugrahaḥ
manvantarāṇi sad-dharma
ūtayaḥ karma-vāsanāḥ

Synonyms

sthitiḥa situação correta; vaikuṇṭha-vijayaḥa vitória do Senhor de Vaikuṇṭha; poṣaṇammanutenção; tat-anugrahaḥSua misericórdia imotivada; manvantarāṇio reinado dos Manus; sat-dharmaḥdever ocupacional perfeito; ūtayaḥimpulso para trabalhar; karma-vāsanāḥdesejo de trabalho fruitivo.

Translation

A situação correta para as entidades vivas é obedecer às leis do Senhor e assim estar em perfeita paz de espírito sob a proteção da Suprema Personalidade de Deus. Os Manus e suas leis se destinam a dar a direção correta na vida. O impulso para a atividade é o desejo de executar trabalho fruitivo.

Purport

SIGNIFICADO—Este mundo material é criado, mantido por algum tempo, e de novo aniquilado pela vontade do Senhor. Os ingredientes para a criação e o criador subordinado, Brahmā, são primeiramente criados pela primeira e segunda encarnações do Senhor Viṣṇu. A primeira encarnação puruṣa é o Mahā-Viṣṇu, e a segunda encarnação puruṣa é o Garbhodakaśāyī Viṣṇu, que cria Brahmā. O terceiro puruṣa-avatāra é o Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, que vive como a Superalma de tudo no universo e mantém a criação gerada por Brahmā. Śiva, um dos muitos filhos de Brahmā, é quem aniquila a criação. Portanto, o criador original do universo é Viṣṇu, e, por Sua misericórdia imotivada, Ele também é o mantenedor dos seres criados. Nesse caso, é dever de todas as almas condicionadas reconhecer a vitória do Senhor e, dessa maneira, tornarem-se devotos puros e viver em paz neste mundo, onde sofrimentos e perigos sempre existem. As almas condicionadas, que aceitam esta criação material como o lugar que serve para satisfazer os sentidos, são iludidas pela energia externa de Viṣṇu e voltam a se sujeitar às leis da natureza material: a criação e a destruição.
Na Bhagavad-gītā, afirma-se que, a começar do planeta mais elevado deste universo e indo até o planeta mais baixo, Pātālaloka, todos são destrutíveis, e, em consequência de suas boas ou más ações, ou por intermédio de espaçonaves modernas, as almas condicionadas podem viajar no espaço, mas é certo que morrerão em toda parte, embora varie a duração da vida nos diferentes planetas. O único meio de alcançar a vida eterna é retornar ao lar, retornar ao Supremo, onde ninguém volta a nascer como nos planetas materiais. As almas condicionadas, desconhecendo este simples fato porque se esqueceram da relação que há entre elas e o Senhor de Vaikuṇṭha, tentam programar uma vida permanente neste mundo material. Iludidas pela energia externa, elas se ocupam, então, em vários tipos de desenvolvimento econômico e religioso, esquecendo-se de que elas devem voltar ao lar, voltar ao Supremo. Devido à influência de māyā, este esquecimento é tão forte que as almas condicionadas não querem de modo algum voltar ao Supremo. Através do gozo dos sentidos, elas caem vítimas de repetidos nascimentos e mortes e, desse modo, desperdiçam as vidas humanas que lhes dão a oportunidade de voltar para Viṣṇu. As diretrizes nas escrituras feitas pelos Manus em diferentes eras e milênios chamam-se sad-dharma, boa orientação para os seres humanos, que devem aproveitar todas as escrituras reveladas para o seu próprio bem, deixando que sua vida tenha um final feliz. A criação não é falsa, mas é uma manifestação temporária, apenas para dar às almas condicionadas a oportunidade de voltar ao Supremo. O desejo de voltar ao Supremo e as atividades que buscam este objetivo formam o caminho do trabalho correto. Quando esse caminho regulador é aceito, o Senhor, por Sua misericórdia imotivada, dá toda a proteção a Seus devotos, enquanto os não-devotos arriscam suas próprias atividades, atando-se a uma corrente de reações fruitivas. A este respeito, a palavra sad-dharma é significativa. Sad-dharma, ou o dever executado para voltar ao Supremo e, assim, tornar-se Seu devoto imaculado, é a única atividade piedosa; todas as outras talvez deem a impressão de que são piedosas, mas, na verdade, não são. É apenas por esta razão que o Senhor aconselha na Bhagavad-gītā que todos abandonem as pretensas atividades religiosas e se ocupem no completo serviço devocional do Senhor para se livrarem de todas as ansiedades inerentes aos perigos vividos na existência material. Agir situado em sad-dharma é a direção correta da vida. A meta da vida deve ser voltar ao lar, voltar ao Supremo, e não ficar sujeito a repetidos nascimentos e mortes no mundo material, obtendo corpos bons ou maus para levar uma existência temporária. Eis onde está a inteligência da vida humana, e a pessoa deve desejar executar na vida essas atividades.
अवतारानुचरितं हरेश्चास्यानुवर्तिनाम् ।
पुंसामीशकथा: प्रोक्ता नानाख्यानोपबृंहिता: ॥ ५ ॥
avatārānucaritaṁ
hareś cāsyānuvartinām
puṁsām īśa-kathāḥ proktā
nānākhyānopabṛṁhitāḥ

Synonyms

avatāraencarnação do Supremo; anucaritamatividades; hareḥda Personalidade de Deus; catambém; asyade Seus; anuvartināmseguidores; puṁsāmdas pessoas; īśa-kathāḥa ciência de Deus; proktāḥestá dito; nānāvárias; ākhyānanarrações; upabṛṁhitāḥdescritas.

Translation

A ciência de Deus descreve as encarnações da Personalidade de Deus e Suas diferentes atividades, juntamente com as atividades de Seus grandes devotos.

Purport

SIGNIFICADO—No decorrer da existência da manifestação cósmica, cria-se a cronologia histórica, que registra as atividades das entidades vivas. As pessoas em geral tendem a aprender a história e as narrações de diferentes homens e tempos, mas, devido à falta de conhecimento na ciência de Deus, elas não estão aptas a estudar a história das encarnações da Personalidade de Deus. É sempre bom lembrar que o mundo material é criado para a salvação das almas condicionadas. O misericordioso Senhor, por Sua misericórdia imotivada, desce a vários planetas no mundo material e, com Suas ações, tenta a salvação das almas condicionadas. É por isso que vale a pena ler sobre a história e as narrações. O Śrīmad-Bhāgavatam apresenta esses tópicos transcendentais relativos ao Senhor e aos grandes devotos. Portanto, os tópicos dos devotos e do Senhor devem ser ouvidos com muito respeito.
निरोधोऽस्यानुशयनमात्मन: सह शक्तिभि: ।
मुक्तिर्हित्वान्यथारूपं स्वरूपेण व्यवस्थिति: ॥ ६ ॥
nirodho ’syānuśayanam
ātmanaḥ saha śaktibhiḥ
muktir hitvānyathā rūpaṁ
sva-rūpeṇa vyavasthitiḥ

Synonyms

nirodhaḥo término da manifestação cósmica; asyadEle; anuśayanamo descanso da encarnação puruṣa Mahā-Viṣṇu em sono místico; ātmanaḥdas entidades vivas; sahajuntamente; śaktibhiḥcom as energias; muktiḥliberação; hitvāabandonando; anyathāde outro modo; rūpamforma; sva-rūpeṇana forma constitucional; vyavasthitiḥsituação permanente.

Translation

A imersão da entidade viva, juntamente com sua tendência à vida condicionada, no repouso místico do Mahā-Viṣṇu chama-se o término da manifestação cósmica. Liberação é a situação permanente da forma da entidade viva depois que ela abandona os mutáveis corpos materiais grosseiro e sutil.

Purport

IGNIFICADO—Como já discutimos várias vezes, há duas espécies de entidades vivas. A maioria delas é sempre liberada, ou nitya-mukta, enquanto algumas delas são sempre condicionadas. As almas sempre condicionadas são inclinadas a desenvolver como mentalidade o exercício do domínio sobre a natureza material, e, por isso, a criação cósmica material é manifesta para dar às almas sempre condicionadas duas espécies de condições favoráveis. Uma delas é que a alma condicionada pode agir segundo sua tendência de assenhorear-se da manifestação cósmica, e a outra proporciona à alma condicionada a oportunidade de voltar ao Supremo. Assim, depois do término da manifestação cósmica, a maioria das almas condicionadas imerge na existência do Mahā-Viṣṇu, a Personalidade de Deus, que repousa em Seu sono místico, para voltarem a ser criadas na próxima criação. Todavia, algumas das almas condicionadas, que seguem o som transcendental sob a forma dos textos védicos e, assim, são capazes de voltar ao Supremo, obtêm corpos espirituais originais após abandonarem os corpos condicionados grosseiro e sutil. Os corpos condicionados materiais se desenvolvem em consequência do fato de as entidades vivas terem esquecido a relação que há entre elas e Deus, e, no decurso da manifestação cósmica, as almas condicionadas recebem a oportunidade de reviver seu estado de vida original com a ajuda das escrituras reveladas, tão misericordiosamente compiladas pelo Senhor em Suas diferentes encarnações. Ler ou ouvir essas escrituras transcendentais ajuda a pessoa a se tornar liberada mesmo no estado da existência material condicionada. A meta de todos os textos védicos é o serviço devocional à Personalidade de Deus, e logo que alguém se fixa neste ponto, livra-se imediatamente da vida condicionada. As formas materiais grosseira e sutil devem-se apenas à ignorância da alma condicionada, e ela se candidata a libertar-se do estado condicionado tão logo se fixa no serviço devocional ao Senhor. Esse serviço devocional é uma atração transcendental pelo Supremo, pois Ele é a fonte de todas as atitudes agradáveis. Todos estão procurando desfrutar de algum sentimento de prazer, mas ninguém conhece a fonte suprema de toda a atração (raso vai saḥ rasaṁ hy evāyaṁ labdhvānandī bhavati). Os hinos védicos informam a todos sobre a fonte suprema de todo o prazer; o manancial ilimitado de todo o prazer é a Personalidade de Deus, e quem for bastante afortunado para obter essa informação em textos transcendentais, como o Śrīmad-Bhāgavatam, libera-se permanentemente para ocupar seu próprio lugar no reino de Deus.
आभासश्च निरोधश्च यतोऽस्त्यध्यवसीयते ।
स आश्रय: परं ब्रह्म परमात्मेति शब्द्यते ॥ ७ ॥
ābhāsaś ca nirodhaś ca
yato ’sty adhyavasīyate
sa āśrayaḥ paraṁ brahma
paramātmeti śabdyate

Synonyms

ābhāsaḥa manifestação cósmica; cae; nirodhaḥe seu término; catambém; yataḥda fonte; astié; adhyavasīyatemanifesta; saḥEle; āśrayaḥreservatório; paramo Supremo; brahmaSer; paramātmāa Superalma; itiassim; śabdyatechamado.

Translation

A pessoa suprema que é celebrada como o Ser Supremo, ou a Alma Suprema, é a fonte suprema da manifestação cósmica bem como seu reservatório e seu término. Assim, Ele é o Manancial Supremo, a Verdade Absoluta.

Purport

SIGNIFICADO—Sinônimos para a fonte suprema de todas as energias, como se explicou logo no início do Śrīmad-Bhāgavatam, são janmādy asya yataḥ, vadanti tat tattva-vidas tattvaṁ yaj jñānam advayam/ brahmeti paramātmeti bhagavān iti śabdyate, chamado Parambrahma, Paramātmā ou Bhagavān. A palavra iti, usada aqui neste verso, completa os sinônimos e indica, então, Bhagavān. Isso continuará sendo explicado nos versos posteriores, mas esse Bhagavān, em última análise, significa o Senhor Kṛṣṇa, pois o Śrīmad-Bhāgavatam já aceitou a Suprema Personalidade de Deus como Kṛṣṇa. Kṛṣṇas tu bhagavān svayam. A fonte original de todas as energias, ou o summum bonum, é a Verdade Absoluta, que é chamada Parambrahma etc., e Bhagavān é a última palavra em Verdade Absoluta. Contudo, mesmo com os sinônimos para Bhagavān, tais como Nārāyaṇa, Viṣṇu e Puruṣa, a última palavra é Kṛṣṇa, como confirma a Bhagavad-gītā: ahaṁ sarvasya prabhavo mattaḥ sarvaṁ pravartate etc. Além disso, o Śrīmad-Bhāgavatam representa o Senhor Kṛṣṇa como uma encarnação sonora do Senhor.
kṛṣṇe sva-dhāmopagate
dharma-jñānādibhiḥ saha
kalau naṣṭa-dṛśām eṣaḥ
purāṇārko ’dhunoditaḥ

(Śrīmad-Bhāgavatam 1.3.43)
Logo, a conclusão geral é que o Senhor Kṛṣṇa é a fonte última de todas as energias, e a palavra Kṛṣṇa tem esse significado. E foi para explicar Kṛṣṇa, ou a ciência de Kṛṣṇa, que se compilou o Śrīmad-Bhāgavatam. No primeiro canto do Śrīmad-Bhāgavatam, indica-se essa verdade nas perguntas e respostas de Sūta Gosvāmī e dos grandes sábios como Śaunaka, e, no primeiro e segundo capítulos do canto, explica-se isso. No terceiro capítulo, este assunto fica mais explícito, e, no quarto capítulo, ainda mais explícito. No segundo canto, a Verdade Absoluta continua sendo enfatizada como a Personalidade de Deus, e a indicação é o Supremo Senhor Kṛṣṇa. O Śrīmad-Bhāgavatam resumido em quatro versos, como já discutimos, torna-se sucinto. Em última análise, Brahmā confirma tal Suprema Personalidade de Deus em sua Brahma-saṁhitā como īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ. Assim se conclui no terceiro canto do Śrīmad-Bhāgavatam. O assunto completo é explicado em pormenores no décimo e décimo primeiro cantos do Śrīmad-Bhāgavatam. Quanto às mudanças dos Manus, ou manvantaras, tais como o manvantara de Svāyambhuva e o manvantara de Cākṣuṣa, como se discutem no terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo cantos do Śrīmad-Bhāgavatam, o Senhor Kṛṣṇa é indicado. No oitavo canto, o manvantara de Vaivasvata explica o mesmo assunto indiretamente, e o nono canto contém o mesmo significado. No décimo segundo canto, continuam as mesmas explicações, com referência específica às diferentes encarnações do Senhor. Logo, estudando todo o Śrīmad-Bhāgavatam, chega-se à conclusão de que o Senhor Śrī Kṛṣṇa é o summum bonum último, ou a fonte derradeira de toda a energia. E conforme os graus de adoradores, as indicações da nomenclatura podem receber diferentes denominações, como Nārāyaṇa, Brahmā, Paramātmā etc.
योऽध्यात्मिकोऽयं पुरुष: सोऽसावेवाधिदैविक: ।
यस्तत्रोभयविच्छेद: पुरुषो ह्याधिभौतिक: ॥ ८ ॥
yo ’dhyātmiko ’yaṁ puruṣaḥ
so ’sāv evādhidaivikaḥ
yas tatrobhaya-vicchedaḥ
puruṣo hy ādhibhautikaḥ

Synonyms

yaḥalguém que; adhyātmikaḥpossui órgãos dos sentidos; ayamesta; puruṣaḥpersonalidade; saḥele; asauaquele; evatambém; adhidaivikaḥdeidade controladora; yaḥaquilo que; tatra; abhayade ambos; vicchedaḥseparação; puruṣaḥpessoa; hipara; ādhibhautikaḥo corpo visível ou a entidade viva corporificada.

Translation

A pessoa individual que possui diferentes instrumentos dos sentidos chama-se a pessoa adhyātmika, e a deidade individual controladora dos sentidos chama-se adhidaivika. A corporificação vista nos globos oculares chama-se a pessoa adhibhautika.

Purport

SIGNIFICADO—O summum bonum que é controlador supremo é a Personalidade de Deus em Sua porção plenária de Paramātmā, ou a manifestação sob a forma de Superalma. Na Bhagavad-gītā (10.42), afirma-se:
athavā bahunaitena
kiṁ jñātena tavārjuna
viṣṭabhyāham idaṁ kṛtsnam
ekāṁśena sthito jagat
Todas as deidades controladoras, como Viṣṇu, Brahmā e Śiva, são diferentes manifestações do aspecto Paramātmā da Suprema Personalidade de Deus Śrī Kṛṣṇa, que apresenta esses aspectos entrando em cada universo gerado a partir dEle. No entanto, aparentemente há divisões de controlador e controlado. Por exemplo, no departamento de controle de alimentos, o controlador do alimento é uma pessoa feita dos mesmos ingredientes que a pessoa que é controlada. De modo semelhante, cada indivíduo no mundo material é controlado pelos semideuses superiores. Por exemplo, somos dotados de sentidos, mas os sentidos são controlados pelas deidades controladoras superiores. Não podemos ver sem luz, e o supremo controlador da luz é o Sol. O deus do Sol está no planeta Sol, e, no que se refere aos nossos olhos, nós, os seres humanos individuais ou qualquer outro ser nesta Terra, somos todos controlados pelo deus do Sol. Do mesmo modo, todos os sentidos que temos são controlados pelos semideuses superiores, que tanto quanto nós também são entidades vivas, mas uma tem poder enquanto a outra é controlada. A entidade viva controlada chama-se a pessoa adhyātmika, e a controladora chama-se a pessoa adhidaivika. Todas essas posições no mundo material se devem a diferentes atividades fruitivas. Executando uma grande intensidade de trabalho piedoso, qualquer ser vivo individual pode tornar-se o deus do Sol ou mesmo Brahmā, ou qualquer outro deus no sistema planetário superior, e, igualmente, quando desenvolve um menor grau de atividades fruitivas, ele se torna controlado pelos semideuses superiores. Logo, cada entidade viva individual está sujeita ao controle supremo de Paramātmā, que põe cada um em diferentes posições como controlador ou controlado.
Aquilo que distingue o controlador e o controlado, isto é, o corpo material, chama-se puruṣa adhibhautiko. Às vezes, o corpo é chamado de puruṣa, como confirma o seguinte hino dos Vedas: sa vā eṣa puruṣo ’nna-rasamayaḥ. Este corpo é chamado a corporificação anna-rasa. Esse corpo depende de alimento. Entretanto, a entidade viva que está corporificada não come nada, visto que, em essência, o proprietário é espírito. Com o uso e desgaste do corpo mecânico, o corpo material precisa repor a matéria. Portanto, a distinção entre a entidade viva individual e as deidades planetárias controladoras está no corpo anna-rasamaya. O Sol pode ter um corpo gigantesco, e o homem pode ter um corpo menor, mas todos esses corpos visíveis são feitos de matéria; no entanto, o deus do Sol e a pessoa individual, que se relacionam como controlador e controlado, são igualmente partes integrantes espirituais do Ser Supremo, e é o Ser Supremo que coloca, em diferentes posições, diferentes partes integrantes. E, assim, a conclusão é que a Pessoa Suprema é o refúgio de todos.
एकमेकतराभावे यदा नोपलभामहे ।
त्रितयं तत्र यो वेद स आत्मा स्वाश्रयाश्रय: ॥ ९ ॥
ekam ekatarābhāve
yadā nopalabhāmahe
tritayaṁ tatra yo veda
sa ātmā svāśrayāśrayaḥ

Synonyms

ekamuma; ekataraoutra; abhāvena ausência de; yadāporque; nanão; upalabhāmaheperceptível; tritayamem três fases; tatra; yaḥa pessoa; vedaque sabe; saḥela; ātmāa Superalma; svapróprio; āśrayarefúgio; āśrayaḥdo refúgio.

Translation

Todas as três fases supracitadas, que caracterizam as diferentes entidades vivas, são interdependentes. Na ausência de uma, não se entende a outra. Mas o Ser Supremo, que vê cada uma delas como o refúgio do refúgio, é independente de todos e, portanto, é o refúgio supremo.

Purport

SIGNIFICADO—Há inúmeras entidades vivas, uma dependente da outra na relação de controlado e controlador. Sem o meio da percepção, entretanto, ninguém pode saber ou compreender quem é o controlado e quem é o controlador. Por exemplo, o Sol controla o nosso poder de visão, podemos ver o Sol porque o Sol tem seu corpo, e a luz solar só é útil porque temos olhos. Sem nossos olhos, a luz solar é inútil, e, sem luz solar, os olhos são inúteis. Assim, eles são interdependentes, e nenhum deles é independente. Portanto, surge naturalmente a pergunta: quem os fez interdependentes? Aquele que criou essa relação de interdependência deve ser, em última análise, completamente independente. Como se diz no início do Śrīmad-Bhāgavatam, a fonte última de todos os objetos interdependentes é o sujeito independente completo. Essa fonte última de toda a interdependência é a Verdade Suprema ou Paramātmā, a Superalma, que não é dependente de nenhuma outra coisa. Ele é svāśrayāśrayaḥ. Ele só depende de Si mesmo, daí Ele ser o refúgio supremo de tudo. Embora Paramātmā e Brahman sejam subordinados a Bhagavān, porque Bhagavān é Puruṣottama, ou a Superpessoa, Ele também é a fonte da Superalma. Na Bhagavad-gītā (15.18), o Senhor Kṛṣṇa diz que Ele é o Puruṣottama, e a fonte de tudo, e assim se conclui que Śrī Kṛṣṇa é a fonte e o refúgio últimos de todas as entidades, incluindo a Superalma e o Brahman Supremo. Mesmo aceitando que não existe diferença entre a Superalma e a alma individual, a alma individual precisa da Superalma para libertar-se da ilusão da energia material. O indivíduo está sob as garras da energia ilusória e, portanto, embora qualitativamente uno com a Superalma, ele está sob o efeito da ilusão que o leva a identificar-se com a matéria. E para perder esse conceito ilusório sobre a vida verdadeira, a alma individual tem de depender da Superalma para ser reconhecida como alguém que é uno com Ela. Nesse sentido também, a Superalma é o refúgio supremo. E não há dúvida alguma quanto a isso.
A entidade viva individual, a jīva, é sempre dependente da Superalma, Paramātmā, porque a alma individual esquece sua identidade espiritual, ao passo que a Superalma, Paramātmā, não esquece Sua posição transcendental. A Bhagavad-gītā menciona especificamente essas diferentes posições da jīva-ātmā e do Paramātmā. No quarto capítulo, Arjuna, a alma jīva, representa a pessoa que se esqueceu de seus incontáveis nascimentos anteriores, mas o Senhor, a Superalma, não Se esqueceu. O Senhor lembra-Se até mesmo da época em que ensinou a Bhagavad-gītā ao deus do Sol há alguns bilhões de anos. O Senhor pode lembrar-Se desses milhões e bilhões de anos, como a Bhagavad-gītā (7.26) afirma com as seguintes palavras:
vedāhaṁ samatītāni
vartamānāni cārjuna
bhaviṣyāṇi ca bhūtāni
māṁ tu veda na kaścana
O Senhor, em Seu eterno e bem-aventurado corpo de conhecimento, sabe perfeitamente tudo o que aconteceu no passado, aquilo que está acontecendo no presente e também o que acontecerá no futuro. Porém, apesar de Ele ser o refúgio do Paramātmā e do Brahman, as pessoas com pobre fundo de conhecimento são incapazes de compreendê-lO como Ele é.
A propaganda segundo a qual a consciência cósmica é idêntica à consciência das entidades vivas individuais é completamente enganosa, pois até mesmo uma pessoa ou alma individual como Arjuna não conseguia lembrar-se de seus feitos passados, embora ele esteja sempre com o Senhor. E o que pode saber sobre seu passado, presente e futuro o minúsculo homem comum, que falsamente alega ser uno com a consciência cósmica?
पुरुषोऽण्डं विनिर्भिद्य यदासौ स विनिर्गत: ।
आत्मनोऽयनमन्विच्छन्नपोऽस्राक्षीच्छुचि: शुची: ॥ १० ॥
puruṣo ’ṇḍaṁ vinirbhidya
yadāsau sa vinirgataḥ
ātmano ’yanam anvicchann
apo ’srākṣīc chuciḥ śucīḥ

Synonyms

puruṣaḥa Pessoa Suprema, Paramātmā; aṇḍamos universos; vinirbhidyatornando cada um deles separadamente situado; yadāquando; asauo mesmo; saḥEle (o Senhor); vinirgataḥsaiu; ātmanaḥde Si mesmo; ayanamdeitado no lugar; anvicchandesejando; apaḥágua; asrākṣītcriada; śuciḥmais pura; śucīḥtranscendental.

Translation

Após separar os diferentes universos, a gigantesca forma universal do Senhor [Mahā-Viṣṇu], que saiu do oceano causal, o lugar do aparecimento do primeiro puruṣa-avatāra, entrou em cada um dos universos separados, desejando deitar-Se na água que era uma criação transcendental [Garbhodaka].

Purport

SIGNIFICADO—Depois de analisar as entidades vivas e o Senhor Supremo, Paramātmā, a independente fonte de todos os outros seres vivos, Śrīla Śukadeva Gosvāmī passa agora a definir como necessidade primordial o serviço devocional ao Senhor, que é a única atividade ocupacional de todas as entidades vivas. O Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa e todas as Suas porções plenárias e extensões de porções plenárias não são diferentes entre si, de modo que a suprema independência está em cada um deles. Para provar isso, Śukadeva Gosvāmī (como prometera ao rei Parīkṣit) descreve neste ensejo a independência do puruṣa-avatāra, a Personalidade de Deus, mesmo no âmbito da criação material. Essas atividades do Senhor também são transcendentais e, por isso, são também līlā, ou passatempos, do Senhor absoluto. Esses passatempos do Senhor contribuem muito para que os ouvintes alcancem a autorrealização no campo do serviço devocional. Alguns podem argumentar: por que não saborear, então, as līlās transcendentais que o Senhor manifestou na terra de Mathurā e Vṛndāvana, que são mais doces do que tudo no mundo? Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura responde dizendo que os passatempos que o Senhor executou em Vṛndāvana devem ser saboreados pelos devotos avançados do Senhor. Os devotos neófitos deturparão essas supremas atividades transcendentais do Senhor, daí os passatempos que o Senhor executa na esfera material e se referem à criação, manutenção e destruição poderem ser muito saboreados pelos prākṛtas, ou devotos mundanos do Senhor. Assim como o sistema de yoga baseado principalmente em exercícios físicos se destina à pessoa que está muito apegada ao conceito de existência corpórea, do mesmo modo, os passatempos do Senhor referentes à criação e destruição do mundo material são para aqueles que estão muito apegados materialmente. Para essas criaturas mundanas, as funções do corpo e as funções do mundo cósmico através das leis físicas relacionadas com o Senhor também servem, portanto, para ajudá-las a compreender o legislador, a Suprema Personalidade de Deus. Os cientistas explicam as funções materiais usando muitos termos técnicos da lei material, mas esses cientistas cegos esquecem o legislador. O Śrīmad-Bhāgavatam aponta o legislador. Ninguém deve se admirar com o arranjo mecânico do complicado motor ou dínamo, mas todos devem louvar o engenheiro que cria essa máquina que funciona de maneira admirável. Essa é a diferença entre o devoto e o não-devoto. Os devotos nunca se cansam de louvar o Senhor, que dirige as leis físicas. Na Bhagavad-gītā (9.10), a maneira como o Senhor dirige a natureza material recebe a seguinte descrição:
mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ
sūyate sacarācaram
hetunānena kaunteya
jagad viparivartate
“A natureza material cheia de leis físicas é uma de Minhas diferentes energias; portanto, ela não é independente nem cega. Como sou transcendentalmente onipotente, pelo simples fato de Eu lançar Meu olhar sobre a natureza material, as leis físicas da natureza funcionam muito admiravelmente. As ações e reações das leis físicas funcionam sob esta condição, e, dessa maneira, o mundo material é criado, mantido e aniquilado repetidas vezes.”
No entanto, homens com um pobre fundo de conhecimento ficam estupefatos com o estudo das leis físicas que governam a compleição do corpo individual e a manifestação cósmica, e tolamente relegam a existência de Deus e garantem que as leis físicas são independentes, sem nenhum controle metafísico. A essa tolice, a Bhagavad-gītā (9.11) responde com as seguintes palavras:
avajānanti māṁ mūḍhā
mānuṣīṁ tanum āśritam
paraṁ bhāvam ajānanto
mama bhūta-maheśvaram
“Os homens tolos [mūḍhāḥ] não conhecem a Personalidade de Deus em Sua forma de eterna bem-aventurança e conhecimento.” O homem tolo pensa que o corpo transcendental do Senhor é parecido com o seu e, por isso, não consegue pensar no ilimitado poder controlador do Senhor, que não é visível ao campo de ação das leis físicas. Para as pessoas em geral, no entanto, o Senhor é visível a olho nu quando Ele desce através de Sua própria potência pessoal. O Senhor Kṛṣṇa encarnou como Ele é e desempenhou papéis muito admiráveis, agindo como o próprio Senhor, e a Bhagavad-gītā trata desse conhecimento e atos maravilhosos. No entanto, homens tolos não querem aceitar o Senhor Kṛṣṇa como o Senhor Supremo. Em geral, consideram os aspectos infinito e infinitesimal do Senhor porque eles próprios são incapazes de se tornarem o infinitesimal ou o infinito, mas é preciso saber que os tamanhos infinito e infinitesimal do Senhor não são Suas glórias máximas. A manifestação mais admirável do poder do Senhor é apresentada quando o Senhor infinito fica visível a nossos olhos como um de nós. Todavia, Suas atividades são diferentes daquelas dos seres finitos. Erguer uma montanha com sete anos de idade e casar-Se com dezesseis mil esposas na flor de Sua juventude são alguns dos exemplos de Sua energia infinita, mas os mūḍhas, depois de ver essas atividades ou ouvir falar sobre elas, relegam-nas como lendárias e consideram o Senhor como um deles. Eles não conseguem compreender que o Senhor Śrī Kṛṣṇa, embora por Sua própria potência assuma a forma de um ser humano, continua sendo o Senhor Supremo com pleno poder como o controlador supremo.
Entretanto, quando através do canal da sucessão discipular os mūḍhas ouvem com submissão as mensagens do Senhor contidas na Śrīmad-Bhagavad-gītā ou no Śrīmad-Bhāgavatam, esses mūḍhas também se tornam devotos do Senhor pela graça de Seus devotos puros. E é somente por essa razão que, tanto na Bhagavad-gītā quanto no Śrīmad-Bhāgavatam, os passatempos que o Senhor executa no mundo material são descritos para o benefício daqueles homens que têm um pobre fundo de conhecimento.
तास्ववात्सीत् स्वसृष्टासु सहस्रंपरिवत्सरान् ।
तेन नारायणो नाम यदाप: पुरुषोद्भवा: ॥ ११ ॥
tāsv avātsīt sva-sṛṣṭāsu
sahasraṁ parivatsarān
tena nārāyaṇo nāma
yad āpaḥ puruṣodbhavāḥ

Synonyms

tāsunaquele; avātsītresidiu; svapróprio; sṛṣṭāsuem matéria de criação; sahasrammil; parivatsarānanos de Sua contagem; tenapor esta razão; nārāyaṇaḥa Personalidade de Deus de nome Nārāyaṇa; nāmanome; yatporque; āpaḥágua; puruṣa-udbhavāḥemanada da Pessoa Suprema.

Translation

Essa Pessoa Suprema não é impessoal e, portanto, é claramente um nara, ou pessoa. Por conseguinte, a água transcendental criada pelo Nara Supremo é conhecida como nāra. E porque Se deita naquela água, Ele é conhecido como Nārāyaṇa.
द्रव्यं कर्म च कालश्च स्वभावो जीव एव च ।
यदनुग्रहत: सन्ति न सन्ति यदुपेक्षया ॥ १२ ॥
dravyaṁ karma ca kālaś ca
svabhāvo jīva eva ca
yad-anugrahataḥ santi
na santi yad-upekṣayā

Synonyms

dravyamelementos físicos; karmaação; cae; kālaḥtempo; catambém; sva-bhāvaḥ jīvaḥas entidades vivas; evadecerto; catambém; yatcuja; anugrahataḥpela misericórdia de; santiexistem; nanão; santiexistem; yat-upekṣayāpor negligência.

Translation

Deve-se saber definitivamente que todos os ingredientes, atividades, tempo e modos materiais, e as entidades vivas que se destinam a desfrutar todos eles, só existem por Sua misericórdia, e tão logo Ele deixa de Se preocupar com eles, tudo se torna inexistente.

Purport

SIGNIFICADO—As entidades vivas são os desfrutadores dos ingredientes, tempo, modos materiais etc., pois querem assenhorear-se da natureza material. O Senhor é o desfrutador supremo, e as entidades vivas destinam-se a ajudar o Senhor em Seu desfrute e, dessa maneira, participar no prazer transcendental de todos. Tanto o desfrutador quanto o desfrutado sentem prazer; porém, enganadas pela energia ilusória, as entidades vivas querem desfrutar como se fossem o Senhor, embora esse tipo de desfrute não esteja reservado a elas. As jīvas, as entidades vivas, são mencionadas na Bhagavad-gītā como a natureza superior do Senhor, ou parā prakṛti, e isso também se menciona no Viṣṇu Purāṇa. Portanto, as entidades vivas nunca são os puruṣas, ou os verdadeiros desfrutadores. Nesse caso, o espírito com que a entidade viva tenta desfrutar no mundo material é falso. No mundo espiritual, as entidades vivas são puras por natureza e, portanto, desfrutam o convívio do Senhor Supremo. No mundo material, o espírito de desfrute que as entidades vivas adquirem por força de suas próprias ações (karma) se enfraquece pouco a pouco, em virtude do que a energia ilusória dita nos ouvidos das almas condicionadas que elas devem tornar-se unas com o Senhor. Essa é a última armadilha da energia ilusória. Quando a última ilusão também é eliminada pela misericórdia do Senhor, a entidade viva volta a restabelecer-se em sua posição original e torna-se, então, de fato liberada. Para que ela consiga libertar-se das garras materiais, o Senhor cria o mundo material, o mantém por algum tempo (mil anos segundo Sua contagem, como afirma o verso anterior), e volta a aniquilá-lo por Sua vontade. Por conseguinte, as entidades vivas são completamente dependentes da misericórdia do Senhor, e todos os desfrutes que elas aparentemente conquistam com o avanço científico são reduzidos a pó tão logo o Senhor deseja.
एको नानात्वमन्विच्छन् योगतल्पात् समुत्थित: ।
वीर्यं हिरण्मयं देवो मायया व्यसृजत् त्रिधा ॥ १३ ॥
eko nānātvam anvicchan
yoga-talpāt samutthitaḥ
vīryaṁ hiraṇmayaṁ devo
māyayā vyasṛjat tridhā

Synonyms

ekaḥEle, apenas um; nānātvamvariedades; anvicchanassim desejando; yoga-talpātdo leito do sono místico; samutthitaḥassim gerou; vīryamo sêmen; hiraṇmayamtonalidade dourada; devaḥo semideus; māyayāatravés da energia externa; vyasṛjatcriou perfeitamente; tridhāem três aspectos.

Translation

O Senhor, enquanto deitado em Seu leito de sono místico, gerou o símbolo seminal, de tonalidade dourada, através da energia externa, pois Ele desejou manifestar apenas dEle próprio muitas variedades de entidades vivas.

Purport

SIGNIFICADO—A Bhagavad-gītā (9.7-8) descreve da seguinte maneira a criação e a aniquilação do mundo material:
sarva-bhūtāni kaunteya
prakṛtiṁ yānti māmikām
kalpa-kṣaye punas tāni
kalpādau visṛjāmy aham
prakṛtiṁ svām avaṣṭabhya
visṛjāmi punaḥ punaḥ
bhūta-grāmam imaṁ kṛtsnam
avaśaṁ prakṛter vaśāt
“No final de cada milênio, as forças criativas, a saber, a natureza material e as entidades vivas que lutam na natureza material, imergem no corpo transcendental do Senhor, após o que, quando o Senhor deseja de novo manifestá-las, todas elas voltam a ser mostradas pelo Senhor. Portanto, a natureza material funciona sob o controle do Senhor. Todas elas, sob a ação da natureza material e sob o controle do Senhor, são assim criadas e aniquiladas repetidas vezes pela vontade do Senhor.”
Nesse caso, antes da criação ou manifestação do mundo material cósmico, o Senhor existe como energia total (mahā-samaṣṭi), e então, desejando difundir-Se em muitos, Ele passa a Se expandir em energia multitotal (samaṣṭi). Da energia multitotal, Ele continua a Se expandir em indivíduos em três dimensões; a saber, adhyātmika, adhidaivika e adhibhautika, como se explicou antes (vyaṣṭi). Nesse caso, a criação total e as energias criadoras são simultaneamente iguais e diferentes. Porque tudo é uma emanação dEle (o Mahā-Viṣṇu, ou Mahā-samaṣṭi), nenhuma das energias cósmicas é diferente dEle; mas todas essas energias expandidas têm funções específicas e se manifestam conforme designa o Senhor e, portanto, são ao mesmo tempo diferentes do Senhor. De modo semelhante, as entidades vivas também são energia (potência marginal) do Senhor, e assim são iguais a Ele e diferentes dEle ao mesmo tempo.
Na fase em que não ocorre manifestação, as energias vivas que permanecem no Senhor não perdem sua potência, e, quando são soltas na manifestação cósmica, elas se apresentam conforme os diferentes desejos cultivados sob os modos da natureza. Essas diferentes manifestações das energias vitais são estados condicionados pelos quais as entidades vivas passam. No entanto, as entidades vivas liberadas, que estão na manifestação sanātana (eterna), são almas que se submetem à rendição incondicional e, por isso, não se subordinam a criação e aniquilação. Assim, esta criação é um produto do olhar que o Senhor lança de Seu leito de sono místico. E, então, todos os universos e o senhor do universo, Brahmā, são repetidas vezes manifestos e aniquilados.
अधिदैवमथाध्यात्ममधिभूतमिति प्रभु: ।
अथैकं पौरुषं वीर्यं त्रिधाभिद्यत तच्छृणु ॥ १४ ॥
adhidaivam athādhyātmam
adhibhūtam iti prabhuḥ
athaikaṁ pauruṣaṁ vīryaṁ
tridhābhidyata tac chṛṇu

Synonyms

adhidaivamas entidades controladoras; athaagora; adhyātmamas entidades controladas; adhibhūtamos corpos materiais; itiassim; prabhuḥo Senhor; athadeste modo; ekamapenas um; pauruṣamde Sua Onipotência; vīryampoder; tridhāem três; abhidyatadividido; tatisto; śṛṇuapenas me ouve.

Translation

Ouve com atenção enquanto te falo como é que o poder de Sua Onipotência divide um em três, chamados as entidades controladoras, as entidades controladas e os corpos materiais, conforme mencionado acima.
अन्त:शरीर आकाशात् पुरुषस्य विचेष्टत: ।
ओज: सहो बलं जज्ञे तत: प्राणो महानसु: ॥ १५ ॥
antaḥ śarīra ākāśāt
puruṣasya viceṣṭataḥ
ojaḥ saho balaṁ jajñe
tataḥ prāṇo mahān asuḥ

Synonyms

antaḥ śarīredentro do corpo; ākāśātdo céu; puruṣasyado Mahā-Viṣṇu; viceṣṭataḥenquanto tentava ou queria isso; ojaḥa energia dos sentidos; sahaḥforça mental; balamforça física; jajñegerada; tataḥem seguida; prāṇaḥa força vital; mahān asuḥo manancial da vida de todos.

Translation

Do céu situado dentro do corpo transcendental do Mahā-Viṣṇu manifesto, a energia sensorial, a força da mente e a força física são todas geradas, bem como o somatório do manancial da força viva total.
अनुप्राणन्ति यं प्राणा: प्राणन्तं सर्वजन्तुषु ।
अपानन्तमपानन्ति नरदेवमिवानुगा: ॥ १६ ॥
anuprāṇanti yaṁ prāṇāḥ
prāṇantaṁ sarva-jantuṣu
apānantam apānanti
nara-devam ivānugāḥ

Synonyms

anuprāṇantios sintomas vitais continuam; yamquem; prāṇāḥsentidos; prāṇantamesforçando-se; sarva-jantuṣuem todas as entidades vivas; apānantamdescontinua os esforços; apānantitodos os outros param; nara-devamum rei; ivacomo; anugāḥos seguidores.

Translation

Assim como os súditos de um rei seguem o seu senhor, do mesmo modo, quando a totalidade da energia está em movimento, todas as outras entidades se movem, e quando a totalidade da energia deixa de se esforçar, todas as outras entidades vivas param as atividades sensuais.

Purport

SIGNIFICADO—As entidades vivas individuais são inteiramente dependentes da totalidade da energia do puruṣa supremo. Ninguém tem existência independente, assim como nenhuma lâmpada elétrica tem refulgência independente. Cada instrumento elétrico está sob inteira dependência de toda a central elétrica, a central elétrica total depende do reservatório de água que gera eletricidade, a água depende das nuvens, as nuvens dependem do Sol, o Sol depende da criação, e a criação depende da atividade da Suprema Personalidade de Deus. Logo, a Suprema Personalidade de Deus é a causa de todas as causas.
प्राणेनाक्षिपता क्षुत् तृडन्तरा जायते विभो: ।
पिपासतो जक्षतश्च प्राङ्‍मुखं निरभिद्यत ॥ १७ ॥
prāṇenākṣipatā kṣut tṛḍ
antarā jāyate vibhoḥ
pipāsato jakṣataś ca
prāṅ mukhaṁ nirabhidyata

Synonyms

prāṇenapela força viva; ākṣipatāsendo agitada; kṣutfome; tṛṭsede; antarāde dentro; jāyategera; vibhoḥdo Supremo; pipāsataḥestando desejoso de matar a sede; jakṣataḥdesejando comer; cae; prāka princípio; mukhama boca; nirabhidyataabriu-se.

Translation

A força viva, sendo agitada pelo virāṭ-puruṣa, gerou fome e sede, e quando Ele desejou beber e comer, a boca se abriu.

Purport

SIGNIFICADO—O processo pelo qual todos os seres vivos que estão no ventre da mãe desenvolvem seus órgãos dos sentidos e as percepções sensoriais parece seguir os mesmos princípios válidos para o virāṭ-puruṣa, o somatório de todas as entidades vivas. Portanto, a causa suprema de toda a geração não é impessoal ou sem desejos. Os desejos acalentados por todas as espécies de percepção sensorial e órgãos dos sentidos existem no Supremo, e eis por que eles acontecem nas pessoas individuais. Este desejo faz parte do ser vivo supremo, a Verdade Absoluta. Como Ele tem a totalidade da soma de todas as bocas, as entidades vivas individuais têm bocas. O mesmo raciocínio é válido para todos os outros sentidos e órgãos dos sentidos. Aqui, a boca é a representação simbólica de todos os órgãos dos sentidos, pois os mesmos princípios também se aplicam aos outros.
मुखतस्तालु निर्भिन्नं जिह्वा तत्रोपजायते ।
ततो नानारसो जज्ञे जिह्वया योऽधिगम्यते ॥ १८ ॥
mukhatas tālu nirbhinnaṁ
jihvā tatropajāyate
tato nānā-raso jajñe
jihvayā yo ’dhigamyate

Synonyms

mukhataḥda boca; tāluo palato; nirbhinnamsendo gerado; jihvāa língua; tatraem seguida; upajāyatetorna-se manifesta; tataḥentão; nānā-rasaḥvários sabores; jajñemanifestaram-se; jihvayāpela língua; yaḥque; adhigamyatepassam a ser saboreados.

Translation

Da boca, manifestou-se o palato, e depois a língua também foi gerada. Depois disso, todos os diferentes sabores passaram a existir para que a língua pudesse degustá-los.

Purport

SIGNIFICADO—Esse processo gradual de evolução serve para explicar a participação das deidades controladoras (adhidaiva) porque Varuṇa é a deidade controladora de todos os sucos saborosos. Portanto, a boca torna-se o lugar de repouso para a língua, que saboreia todos os diferentes sucos, cuja deidade controladora é Varuṇa. Assim sendo, isso sugere que Varuṇa também foi gerado juntamente com o desenvolvimento da língua. Como servem de instrumento, a língua e o palato são adhibhūtam, ou formas de matéria, mas a deidade funcional, que é uma entidade viva, é adhidaiva, ao passo que a pessoa sujeita à função é adhyātma. Assim, quanto a seu nascimento, as três categorias também são explicadas depois que o virāṭ-puruṣa abre a boca. Os quatro princípios mencionados neste verso servem para explicar os três princípios básicos, a saber, o adhyātma, o adhidaiva e o adhibhutam, como foram descritos antes.
विवक्षोर्मुखतो भूम्नो वह्निर्वाग् व्याहृतं तयो: ।
जले चैतस्य सुचिरं निरोध: समजायत ॥ १९ ॥
vivakṣor mukhato bhūmno
vahnir vāg vyāhṛtaṁ tayoḥ
jale caitasya suciraṁ
nirodhaḥ samajāyata

Synonyms

vivakṣoḥquando houve necessidade de falar; mukhataḥda boca; bhūmnaḥdo Supremo; vahniḥfogo ou a deidade controladora do fogo; vākvibração; vyāhṛtampalavras; tayoḥpor ambos; jalena água; caentretanto; etasyade todos estes; suciramum tempo extremamente longo; nirodhaḥsuspensão; samajāyatacontinuou.

Translation

Quando o Supremo desejou falar, as palavras foram vibradas a partir da boca. Então, a deidade controladora, o Fogo, foi gerado da boca. Contudo, quando Ele estava deitado na água, todas essas funções permaneciam suspensas.

Purport

SIGNIFICADO—A peculiaridade do desenvolvimento gradual dos diferentes sentidos recebe apoio simultâneo de suas deidades controladoras. Deve-se compreender, portanto, que as atividades dos órgãos dos sentidos são controladas pela vontade do Supremo. Os sentidos são, por assim dizer, uma concessão às almas condicionadas, que devem usá-los a contento sob o controle da deidade a quem o Senhor Supremo delegou esse controle. Quem viola essas imposições deve receber como punição a degradação a um nível de vida inferior. Consideremos, por exemplo, a língua e sua deidade controladora, Varuṇa. A língua serve para comer, e os homens, animais e aves têm seus gostos específicos por causa de diferentes concessões. O sabor preferido pelo ser humano e o sabor preferido pelo porco não estão no mesmo nível. No entanto, a deidade controladora concede ou aprova um determinado tipo de corpo quando a entidade viva específica desenvolve um paladar baseado nos diferentes modos da natureza. Se o ser humano come indiscriminadamente, tal qual o porco, então a deidade controladora está decerto autorizada a lhe dar um corpo de porco na etapa seguinte. O suíno aceita qualquer espécie de alimento, incluindo fezes, e o ser humano que desenvolveu esse gosto indiscriminado deve estar preparado para levar na próxima vida uma existência degradada. Semelhante vida é também uma graça de Deus, visto que a alma condicionada desejava esse tipo de corpo para saborear perfeitamente uma determinada espécie de alimento. Se um homem recebe um corpo de porco, deve-se considerar isso como uma graça do Senhor, pois o Senhor concede as condições que facilitam a concretização dos desejos. Depois da morte, o corpo seguinte é oferecido por controle superior, e não às cegas. O ser humano, portanto, deve estar atento à espécie de corpo que terá na próxima vida. Uma vida sem responsabilidade e sem discriminação é arriscada, e essa é a declaração de todas as escrituras.
नासिके निरभिद्येतां दोधूयति नभस्वति ।
तत्र वायुर्गन्धवहो घ्राणो नसि जिघृक्षत: ॥ २० ॥
nāsike nirabhidyetāṁ
dodhūyati nabhasvati
tatra vāyur gandha-vaho
ghrāṇo nasi jighṛkṣataḥ

Synonyms

nāsikenas narinas; nirabhidyetāmsendo desenvolvida; dodhūyatisoprando rapidamente; nabhasvatirespiração de ar; tatraem seguida; vāyuḥar; gandha-vahaḥodor agradável; ghrāṇaḥsentido do olfato; nasino nariz; jighṛkṣataḥdesejando cheirar odores.

Translation

Em seguida, quando o supremo puruṣa desejou cheirar odores, foram geradas as narinas e a respiração, e o instrumento nasal e os odores passaram a existir, e a deidade controladora do ar, transportando o cheiro, também se tornou manifesta.

Purport

SIGNIFICADO—O instrumento nasal, o odor, a deidade controladora do ar, o olfato, etc., todos se manifestaram simultaneamente quando o Senhor desejou cheirar. Os mantras védicos confirmam essa declaração nas Upaniṣads, onde se afirma que tudo é primeiramente desejado pelo Supremo e só então pode a entidade viva subordinada exercer a respectiva ação. A entidade viva pode ver apenas quando o Senhor vê, a entidade viva pode cheirar quando o Senhor cheira, e assim por diante. A ideia é que a entidade viva nada pode fazer independentemente. O máximo que ela pode é pensar em fazer algo de forma independente, mas ela não pode agir assim. Pela graça do Senhor, existe esse pensamento independente, e, pela graça do Senhor, o pensamento pode ganhar forma, daí o ditado popular: o homem propõe e Deus dispõe. A explicação toda está na questão da dependência absoluta das entidades vivas e independência absoluta do Senhor Supremo. Pessoas menos inteligentes, que alegam estar no mesmo nível de Deus, primeiro devem provar que são absolutas e independentes, após o que devem confirmar a alegação de que são unas com Deus.
यदात्मनि निरालोकमात्मानं च दिद‍ृक्षत: ।
निर्भिन्ने ह्यक्षिणी तस्य ज्योतिश्चक्षुर्गुणग्रह: ॥ २१ ॥
yadātmani nirālokam
ātmānaṁ ca didṛkṣataḥ
nirbhinne hy akṣiṇī tasya
jyotiś cakṣur guṇa-grahaḥ

Synonyms

yadāenquanto; ātmania Si mesmo; nirālokamsem nenhuma luz; ātmānamSeu próprio corpo transcendental; catambém outras formas corpóreas; didṛkṣataḥdesejou olhar para; nirbhinnedevido ao fato de ter brotado; hipara; akṣiṇīdos olhos; tasyadEle; jyotiḥo Sol; cakṣuḥos olhos; guṇa-grahaḥo poder de ver.

Translation

Assim, quando tudo era escuridão, o Senhor desejou ver a Si mesmo e tudo o que foi criado. Então, os olhos, o iluminante deus Sol, o poder da visão e o objeto da visão todos se manifestaram.

Purport

SIGNIFICADO—Por natureza, o universo é uma densa escuridão, daí a criação total se chamar tamas, ou escuridão. A noite apresenta o verdadeiro aspecto do universo, pois, nesse período, a pessoa não consegue ver nada, incluindo a si mesma. O Senhor, por Sua misericórdia imotivada, primeiro desejou ver a Si mesmo e toda a criação também, e assim o Sol se manifestou, todas as entidades vivas desenvolveram o poder da visão, e os objetos da visão também se manifestaram. Isso quer dizer que todo o mundo fenomenal se tornou visível depois da criação do Sol.
बोध्यमानस्य ऋषिभिरात्मनस्तज्जिघृक्षत: ।
कर्णौ च निरभिद्येतां दिश: श्रोत्रं गुणग्रह: ॥ २२ ॥
bodhyamānasya ṛṣibhir
ātmanas taj jighṛkṣataḥ
karṇau ca nirabhidyetāṁ
diśaḥ śrotraṁ guṇa-grahaḥ

Synonyms

bodhyamānasyadesejando compreender; ṛṣibhiḥpelas autoridades; ātmanaḥdo Ser Supremo; tatisto; jighṛkṣataḥquando Ele desejou adotar; karṇauos ouvidos; catambém; nirabhidyetāmmanifestaram-se; diśaḥa direção ou o deus do ar; śrotramo poder de ouvir; guṇa-grahaḥe os objetos da audição.

Translation

Quando os grandes sábios passaram a desejar a obtenção de conhecimento, os ouvidos, o poder de ouvir, a deidade controladora da audição e os objetos de audição manifestaram-se. Os grandes sábios desejavam ouvir sobre o Eu.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirma na Bhagavad-gītā, com o avanço de conhecimento, a pessoa deve tentar informar-se sobre o Senhor Supremo, o summum bonum de tudo. Conhecimento não significa apenas o conhecimento físico, ou o conhecimento das leis da natureza, que funcionam sob a orientação do Senhor. Os cientistas estão ansiosos por ouvir sobre as leis físicas que agem na natureza material. Eles estão ansiosos por ouvir através do rádio e da televisão sobre fenômenos que acontecem em planetas longínquos, mas é bom eles saberem que o Senhor lhes deu o poder de ouvir e os instrumentos adequados à audição para que eles ouvissem sobre o Eu, ou sobre o Senhor. Infelizmente, o poder de ouvir é mal utilizado em ouvir as vibrações dos assuntos mundanos. Os grandes sábios estavam apenas interessados em ouvir sobre o Senhor através do conhecimento védico. É esse o processo através do qual se passa a receber o conhecimento com os órgãos auditivos.
वस्तुनो मृदुकाठिन्यलघुगुर्वोष्णशीतताम् ।
जिघृक्षतस्त्वङ् निर्भिन्ना तस्यां रोममहीरुहा: ।
तत्र चान्तर्बहिर्वातस्त्वचा लब्धगुणो वृत: ॥ २३ ॥
vastuno mṛdu-kāṭhinya-
laghu-gurv-oṣṇa-śītatām
jighṛkṣatas tvaṅ nirbhinnā
tasyāṁ roma-mahī-ruhāḥ
tatra cāntar bahir vātas
tvacā labdha-guṇo vṛtaḥ

Synonyms

vastunaḥde toda a matéria; mṛdumaciez; kāṭhinyadureza; laghuleveza; gurupeso; oṣṇacalor; śītatāmfrio; jighṛkṣataḥdesejando perceber; tvaka sensação do tato; nirbhinnādistribuída; tasyāmna pele; romapelos do corpo; mahī-ruhāḥbem como as árvores, as deidades controladoras; tatra; catambém; antaḥdentro; bahiḥfora; vātaḥ tvacāo sentido do tato, ou a pele; labdhatendo sido percebido; guṇaḥos objetos da percepção sensorial; vṛtaḥgerados.

Translation

Quando surgiu o desejo de perceber as características físicas da matéria, tais como maciez, dureza, calor, frio, leveza e peso, o fundamento da sensação, a pele, os poros cutâneos, os pelos do corpo e suas deidades controladoras (as árvores) foram gerados. Por dentro e por fora da pele, há uma cobertura de ar através da qual se tornou proeminente a percepção sensorial.

Purport

SIGNIFICADO—As características físicas da matéria, tais como a maciez, são assuntos ligados à percepção sensorial, e assim o conhecimento físico é um tema ligado à sensação tátil. Pode-se medir a temperatura da matéria com um toque de mão e pode-se medir o peso de um objeto levantando-o com a mão e assim calculando seu peso ou leveza. A pele, os poros cutâneos e os pelos do corpo são todos interdependentes com relação à sensação tátil. O ar que sopra dentro e fora da pele é também um objeto de percepção sensorial. Essa percepção sensorial é também uma fonte de conhecimento, e é devido a isso que aqui se sugere que o conhecimento físico, ou fisiológico, está subordinado ao conhecimento do Eu, como se mencionou acima. O conhecimento do Eu pode expandir-se para o conhecimento dos fenômenos, mas o conhecimento físico não pode levar ao conhecimento do Eu.
No entanto, existe uma íntima relação entre os pelos do corpo e a vegetação no corpo da Terra. Os vegetais são nutrição para a pele, tanto como alimento, quanto como remédio, conforme afirma o terceiro canto: tvacam asya vinirbhinnāṁ viviśur dhiṣṇyam oṣadhīḥ.
हस्तौ रुरुहतुस्तस्य नानाकर्मचिकीर्षया ।
तयोस्तु बलवानिन्द्र आदानमुभयाश्रयम् ॥ २४ ॥
hastau ruruhatus tasya
nānā-karma-cikīrṣayā
tayos tu balavān indra
ādānam ubhayāśrayam

Synonyms

hastauas mãos; ruruhatuḥmanifestaram-se; tasyadEle; nānādiversificado; karmatrabalho; cikīrṣayātendo esse desejo; tayoḥdelas; tuentretanto; balavānpara dar força; indraḥo semideus do céu; ādānamatividades da mão; ubhaya-āśrayamdependentes do semideus e da mão.

Translation

Depois disso, quando a Pessoa Suprema desejou executar muitas variedades de trabalho, as duas mãos e sua força controladora, e Indra, o semideus do céu, tornaram-se manifestos, bem como os atos que dependem das mãos e do semideus.

Purport

SIGNIFICADO—Em cada item, podemos notar com proveito que os órgãos sensoriais da entidade viva jamais são independentes em etapa alguma. O Senhor é conhecido como o Senhor dos sentidos (Hṛṣīkeśa). Assim, os órgãos sensoriais das entidades vivas manifestam-se pela vontade do Senhor, e cada órgão é controlado por uma determinada espécie de semideus. Ninguém, portanto, pode reivindicar propriedade sobre os sentidos. A entidade viva é controlada pelos sentidos, os sentidos são controlados pelos semideuses, e os semideuses são servos do Senhor Supremo. Esse é o esquema do sistema da criação. Tudo acaba sendo controlado pelo Senhor Supremo, e não há independência ligada à natureza material nem à entidade viva. A entidade viva iludida que alega ser o dono de seus sentidos está sob as garras da energia externa do Senhor. Enquanto a entidade viva continuar vaidosa de sua frágil existência, deve-se entender que ela está sob o estrito controle da energia externa do Senhor, e fica fora de cogitação que consiga libertar-se das garras da ilusão (māyā), por mais que se declare uma alma liberada.
गतिं जिगीषत: पादौ रुरुहातेऽभिकामिकाम् ।
पद्‍भ्यां यज्ञ: स्वयं हव्यं कर्मभि: क्रियते नृभि: ॥ २५ ॥
gatiṁ jigīṣataḥ pādau
ruruhāte ’bhikāmikām
padbhyāṁ yajñaḥ svayaṁ havyaṁ
karmabhiḥ kriyate nṛbhiḥ

Synonyms

gatimmovimento; jigīṣataḥassim desejando; pādauas pernas; ruruhātemanifestando-se; abhikāmikāmde propósito; padbhyāmdas pernas; yajñaḥo Senhor Viṣṇu; svayamEle pessoalmente; havyamos deveres; karmabhiḥpelo próprio dever ocupacional; kriyatefez com que fossem executados; nṛbhiḥpor diferentes seres humanos.

Translation

Então, porque Ele desejou controlar o movimento, Suas pernas se manifestaram, e das pernas foi gerado Viṣṇu, a deidade controladora. Por meio de Sua supervisão pessoal desse ato, todos os tipos de seres humanos estão atarefados, cumprindo o sacrifício ocupacional.

Purport

SIGNIFICADO—Todo ser humano está entregue a seu dever ocupacional específico, e tais atividades são visíveis à medida que os homens vão de um lado para outro. Isso é muito acentuadamente visível nas grandes cidades do mundo: as pessoas andam por toda a cidade com muita pressa, de um lugar para outro. Esse movimento não se limita apenas às cidades, pois as pessoas também são vistas em diferentes veículos fora das cidades, movimentando-se de um lugar para outro, ou de uma cidade para outra. Os homens usam carros e trens nas estradas, metrôs dentro da terra e avião no céu com o propósito de obter sucesso nos negócios. Em todos esses movimentos, no entanto, o verdadeiro propósito é ganhar dinheiro para poder levar uma vida confortável. Para conseguir essa vida confortável, o cientista se ocupa, o artista se ocupa, o engenheiro se ocupa, o técnico se ocupa, cada um nos diferentes ramos da atividade humana. Mas eles não sabem como dar às atividades um propósito que ajude a cumprir a missão da vida humana. Como não conhecem esse segredo, todas as suas atividades têm como meta o descontrolado gozo dos sentidos, e, em razão disso, com todas essas ocupações, não percebem que estão entrando nas profundas regiões da escuridão.
Como se deixaram cativar pela energia externa do Senhor Supremo, eles se esqueceram por completo de Viṣṇu, o Senhor Supremo, e chegaram definitivamente à conclusão de que esta vida, como atualmente se manifesta sob as condições da natureza material, serve apenas para desfrutar a maior quantidade de gozo dos sentidos. Contudo, esta maneira errônea como a vida é encarada, não pode dar a ninguém a desejada paz de espírito, e assim, apesar de todo o avanço em conhecimento através do uso dos recursos da natureza, ninguém é feliz nesta civilização material. O segredo é que, a cada passo, eles devem tentar executar sacrifícios que promovam a paz mundial. Nos seguintes versos, a Bhagavad-gītā (18.45-46) também conta o mesmo segredo:
sve sve karmaṇy abhirataḥ
saṁsiddhiṁ labhate naraḥ
sva-karma-nirataḥ siddhiṁ
yathā vindati tac chṛṇu
yataḥ pravṛttir bhūtānāṁ
yena sarvam idaṁ tatam
sva-karmaṇā tam abhyarcya
siddhiṁ vindati mānavaḥ
O Senhor disse a Arjuna: “Apenas ouve enquanto falo como é que alguém pode atingir a maior perfeição da vida pelo simples cumprimento do seu próprio dever ocupacional específico. O homem pode alcançar a máxima perfeição da vida, adorando ao Senhor Supremo e executando sacrifícios para agradar o Supremo Senhor Viṣṇu, que é onipenetrante e por cujo controle todo ser vivo adquire as condições favoráveis por ele desejadas segundo sua propensão pessoal.”
Não há mal algum em ter diferentes propensões na vida, pois todo ser humano tem relativa independência para planejar em sua vida a conquista de diferentes ocupações, mas todos devem se determinar a conhecer perfeitamente bem o ponto de que ninguém tem independência absoluta. Com certeza, todos estão sob o controle do Senhor Supremo e sob diferentes agentes. Sabendo disso, a pessoa deve fazer questão de executar seu trabalho e, com o resultado de seu esforço, servir o Senhor Supremo como prescrevem as autoridades entendidas no transcendental serviço amoroso ao Supremo Senhor Viṣṇu. Para executar esses deveres ocupacionais da vida, a perna é o instrumento mais importante do corpo, dado que, sem a ajuda das pernas, ninguém pode locomover-se de um lugar para outro, daí o Senhor ter controle especial sobre as pernas de todos os seres humanos, que se destinam a executar yajñas.
निरभिद्यत शिश्नो वै प्रजानन्दामृतार्थिन: ।
उपस्थ आसीत् कामानां प्रियं तदुभयाश्रयम् ॥ २६ ॥
nirabhidyata śiśno vai
prajānandāmṛtārthinaḥ
upastha āsīt kāmānāṁ
priyaṁ tad-ubhayāśrayam

Synonyms

nirabhidyatasurgiram; śiśnaḥos órgãos genitais; vaidecerto; prajā-ānandao prazer sexual; amṛta-arthinaḥdesejando saborear o néctar; upasthaḥos órgãos masculino ou feminino; āsītpassaram a existir; kāmānāmdos luxuriosos; priyammuito querido; tatisso; ubhaya-āśrayamrefúgio para ambos.

Translation

Em seguida, para o prazer sexual, para gerar prole e para saborear o néctar celestial, o Senhor desenvolveu os órgãos genitais, e assim existem o órgão genital e sua deidade controladora, o Prajāpati. O objeto do prazer sexual e a deidade controladora estão sob o controle dos órgãos genitais do Senhor.

Purport

SIGNIFICADO—Para as almas condicionadas, o prazer celestial é o prazer sexual, e esse prazer é saboreado pelos órgãos genitais. A mulher é o objeto do prazer sexual, e tanto a percepção sensorial do prazer sexual quanto a mulher são controladas pelo Prajāpati, que está sob o controle dos órgãos genitais do Senhor. Através deste verso, o impersonalista deve tomar conhecimento de que o Senhor não é impessoal, pois Ele tem Seus órgãos genitais, dos quais dependem todos os objetos de prazer sexual. Ninguém se daria ao trabalho de criar filhos se faltasse no intercurso sexual o sabor do néctar celestial. Este mundo material é criado para dar às almas condicionadas a oportunidade de rejuvenescimento para voltar ao lar, voltar ao Supremo, de maneira que produzir seres vivos é necessário para manter o propósito da criação. O prazer sexual é um impulso para essa ação, e, nesse caso, é possível servir o Senhor mesmo agindo com esse prazer sexual. O serviço é levado em conta quando os filhos nascidos desse prazer sexual recebem adequado treinamento em consciência de Deus. Toda a ideia em torno da criação material é que a entidade viva consiga reviver a sua adormecida consciência de Deus. Em outras formas de vida que não são formas humanas, o prazer sexual, embora proeminente, não contém nenhum motivo de serviço à missão do Senhor. Todavia, na forma de vida humana, a alma condicionada pode prestar serviço ao Senhor, criando progênie que tem condições de alcançar a salvação. A pessoa pode gerar centenas de filhos e desfrutar o prazer celestial da relação sexual, contanto que consiga treinar os filhos na consciência de Deus. Do contrário, o gerar filhos é agir igual aos suínos. Aliás, o suíno é mais beneficiado do que o ser humano porque o porco pode gerar uma dúzia de filhotes de uma só vez, ao passo que o ser humano só pode dar à luz um filho de cada vez. Logo, a pessoa deve lembrar sempre que os órgãos genitais, o prazer sexual, a mulher e a prole se relacionam todos no serviço ao Senhor, e quem esquece essa relação existente no serviço ao Senhor Supremo fica sujeito às três espécies de sofrimentos da existência material impostas pelas leis da natureza. A percepção do prazer sexual existe até mesmo no corpo do cão, mas ele não tem a percepção da consciência de Deus. A forma de vida humana é distinta da forma do cão por causa da percepção da consciência de Deus.
उत्सिसृक्षोर्धातुमलं निरभिद्यत वै गुदम् ।
तत: पायुस्ततो मित्र उत्सर्ग उभयाश्रय: ॥ २७ ॥
utsisṛkṣor dhātu-malaṁ
nirabhidyata vai gudam
tataḥ pāyus tato mitra
utsarga ubhayāśrayaḥ

Synonyms

utsisṛkṣoḥdesejando evacuar; dhātu-malamrefugo dos alimentos; nirabhidyataabriu-se; vaidecerto; gudamo orifício para evacuação; tataḥdepois disso; pāyuḥo órgão sensorial da evacuação; tataḥem seguida; mitraḥo semideus controlador; utsargaḥa substância evacuada; ubhayaambos; āśrayaḥrefúgio.

Translation

Depois disso, quando Ele desejou evacuar o refugo dos alimentos, o orifício da evacuação, o ânus, e o órgão sensorial relacionado a ele, desenvolveram juntamente com a deidade controladora, Mitra. O órgão sensorial e a substância evacuada estão sob o refúgio da deidade controladora.

Purport

SIGNIFICADO—Se até mesmo no caso da eliminação de fezes, o refugo é controlado, como a entidade viva pode alegar que é independente?
आसिसृप्सो: पुर: पुर्या नाभिद्वारमपानत: ।
तत्रापानस्ततो मृत्यु: पृथक्त्वमुभयाश्रयम् ॥ २८ ॥
āsisṛpsoḥ puraḥ puryā
nābhi-dvāram apānataḥ
tatrāpānas tato mṛtyuḥ
pṛthaktvam ubhayāśrayam

Synonyms

āsisṛpsoḥdesejando ir a toda parte; puraḥem diferentes corpos; puryāḥde um corpo; nābhi-dvāramo umbigo ou a depressão abdominal; apānataḥmanifestou-se; tatraem seguida; apānaḥcessação da força vital; tataḥdepois disso; mṛtyuḥmorte; pṛthaktvamseparadamente; ubhayaambos; āśrayamrefúgio.

Translation

Em seguida, quando Ele desejou ir de um corpo para outro, o umbigo e a partida do ar vital e a morte foram criados em conjunto. O umbigo é refúgio para ambos, a saber, para a morte e para a força separadora.

Purport

SIGNIFICADO—O prāṇa-vāyu continua a vida, e o apāna-vāyu interrompe a força vital. Ambas as vibrações são geradas do orifício abdominal, o umbigo. Esse umbigo é o elo de um corpo a outro. O senhor Brahmā nasceu do orifício abdominal do Garbhodakaśāyī Viṣṇu como um corpo separado, e o mesmo princípio é seguido até mesmo no nascimento de um corpo comum. O corpo da criança se desenvolve do corpo da mãe, e, para a criança ficar separada do corpo da mãe, é preciso cortar o cordão umbilical. E foi deste modo que o Senhor Supremo Se manifestou como muitas entidades separadas. As entidades vivas são, portanto, partes separadas e, por conseguinte, não têm independência alguma.
आदित्सोरन्नपानानामासन् कुक्ष्यन्त्रनाडय: ।
नद्य: समुद्राश्च तयोस्तुष्टि: पुष्टिस्तदाश्रये ॥ २९ ॥
āditsor anna-pānānām
āsan kukṣy-antra-nāḍayaḥ
nadyaḥ samudrāś ca tayos
tuṣṭiḥ puṣṭis tad-āśraye

Synonyms

āditsoḥdesejando ter; anna-pānānāmde comida e bebida; āsantornou-se; kukṣio abdômen; antraos intestinos; nāḍayaḥe as artérias; nadyaḥos rios; samudrāḥmares; catambém; tayoḥdeles; tuṣṭiḥsustento; puṣṭiḥmetabolismo; tatdeles; āśrayea fonte.

Translation

Quando apareceu o desejo de comer e beber, o abdômen e os intestinos, e também as artérias, manifestaram-se. Os rios e os mares são a fonte de seu sustento e metabolismo.

Purport

SIGNIFICADO—As deidades controladoras dos intestinos são os rios, e das artérias, os mares. Encher a barriga com comida e bebida é a causa do sustento, e o metabolismo da comida e da bebida supre o desgaste das energias físicas. Portanto, a saúde do corpo depende das ações saudáveis dos intestinos e das artérias. Os rios e os mares, sendo as deidades controladoras dos dois, mantêm os intestinos e as artérias em condição saudável.
निदिध्यासोरात्ममायां हृदयं निरभिद्यत ।
ततो मनश्चन्द्र इति सङ्कल्प: काम एव च ॥ ३० ॥
nididhyāsor ātma-māyāṁ
hṛdayaṁ nirabhidyata
tato manaś candra iti
saṅkalpaḥ kāma eva ca

Synonyms

nididhyāsoḥdesejando conhecer; ātma-māyāma própria energia; hṛdayama localização da mente; nirabhidyatamanifestou-se; tataḥem seguida; manaḥa mente; candraḥa deidade controladora da mente, a Lua; itiassim; saṅkalpaḥdeterminação; kāmaḥdesejo; evatanto quanto; catambém.

Translation

Quando houve o desejo de pensar nas atividades de Sua própria energia, então o coração (a sede da mente), a mente, a Lua, a determinação e todos os desejos tornaram-se manifestos.

Purport

SIGNIFICADO—O coração de cada entidade viva é a sede da Superalma, Paramātmā, uma expansão plenária da Suprema Personalidade de Deus. Sem Sua presença, a entidade viva não pode adquirir a energia que funciona conforme suas ações passadas. As entidades vivas que estão condicionadas no mundo material manifestam-se na criação de acordo com as respectivas inclinações que lhes são inerentes, e o necessário corpo material é oferecido a cada uma delas pela energia material, que age sob a direção da Superalma. Explica isso a Bhagavad-gītā (9.10). Portanto, quando a Superalma está situada no coração da alma condicionada, a mente de que ela precisa se manifesta na alma condicionada, e ela se torna consciente de sua ocupação, assim como alguém fica consciente de seu dever após despertar de um sono. Por conseguinte, a mente material da entidade viva se desenvolve quando a Superalma situa-Se em seu coração, e, depois disso, surgem a mente, a deidade controladora (a Lua) e, em seguida, todas as atividades da mente (isto é, pensar, sentir e desejar). As atividades da mente não podem começar sem a manifestação do coração, e o coração se manifesta quando o Senhor deseja ver as atividades que acontecem na criação material.
त्वक्‍चर्ममांसरुधिरमेदोमज्जास्थिधातव: ।
भूम्यप्तेजोमया: सप्त प्राणो व्योमाम्बुवायुभि: ॥ ३१ ॥
tvak-carma-māṁsa-rudhira-
medo-majjāsthi-dhātavaḥ
bhūmy-ap-tejomayāḥ sapta
prāṇo vyomāmbu-vāyubhiḥ

Synonyms

tvaka fina camada sobre a pele; carmapele; māṁsacarne; rudhirasangue; medaḥgordura; majjāmedula; asthiosso; dhātavaḥelementos; bhūmiterra; apágua; tejaḥfogo; mayāḥpredominantes; saptasete; prāṇaḥar vital; vyomacéu; ambuágua; vāyubhiḥpelo ar.

Translation

Os sete elementos do corpo, a saber, a delgada camada sobre a pele, a própria pele, a carne, o sangue, a gordura, a medula e o osso, são todos feitos de terra, água e fogo, ao passo que o ar vital é formado de céu, água e ar.

Purport

SIGNIFICADO—A construção de todo o mundo material se faz com o predomínio de três elementos, a saber, terra, água e fogo. Mas a força vital é constituída de céu, ar e água. Logo, a água é o elemento comum nas formas grosseiras e sutis de toda a criação material, e aqui se deve notar que, devido à necessidade, a água, sendo muito proeminente na criação material, é o principal elemento entre todos os cinco. Este corpo material é então uma corporificação dos cinco elementos, e a manifestação grosseira é percebida por causa de três elementos, a saber, terra, água e fogo. As sensações táteis são percebidas devido à fina camada sobre a pele, e o osso está no mesmo nível da pedra bruta. O ar vital é produzido de céu, ar e água, e, por causa disso, o ar livre, banhos regulares e viver em ambiente espaçoso são favoráveis a uma vida saudável. Produtos frescos da terra, como grãos e legumes, bem como água fresca e calor, são bons para a manutenção do corpo grosseiro.
गुणात्मकानीन्द्रियाणि भूतादिप्रभवा गुणा: ।
मन: सर्वविकारात्मा बुद्धिर्विज्ञानरूपिणी ॥ ३२ ॥
guṇātmakānīndriyāṇi
bhūtādi-prabhavā guṇāḥ
manaḥ sarva-vikārātmā
buddhir vijñāna-rūpiṇī

Synonyms

guṇa-ātmakāniligados às qualidades; indriyāṇios sentidos; bhūta-ādiego material; prabhavāḥinfluenciados por; guṇāḥos modos da natureza material; manaḥa mente; sarvatoda; vikāraafeição (felicidade e aflição); ātmāforma; buddhiḥinteligência; vijñānadeliberação; rūpiṇīaspecto.

Translation

Os órgãos dos sentidos estão ligados aos modos da natureza material, e os modos da natureza material são produtos do falso ego. A mente está sujeita a todas as espécies de experiências materiais (felicidade e aflição), e a inteligência é o aspecto que a mente assume quando faz deliberações.

Purport

SIGNIFICADO—Iludida pela natureza material, a entidade viva se identifica com o falso ego. Mais claramente, ao tornar-se prisioneira do corpo material, a entidade viva logo se identifica com os laços corpóreos, esquecendo sua própria identidade como alma espiritual. Este falso ego se associa com diferentes modos da natureza material, e, dessa maneira, os sentidos ficam ligados aos modos da natureza material. A mente é o instrumento com o qual é possível sentir diferentes experiências materiais, mas a inteligência é deliberativa e pode mudar tudo para melhor. A pessoa inteligente, portanto, pode salvar-se da ilusão da existência material, fazendo uso apropriado da inteligência. A pessoa inteligente pode perceber que a existência material é uma situação adversa e, assim, ela passa a indagar sobre o que ela é, por que está sujeita a diferentes espécies de sofrimentos, e procura saber como livrar-se de todos os tormentos, e assim, através da boa associação, uma pessoa inteligente e avançada pode adotar uma vida melhor, a autorrealização. Aconselha-se, portanto, que a pessoa inteligente se associe com os grandes sábios e santos que estão trilhando o caminho da salvação. Com essa companhia, a pessoa pode receber instruções capazes de eliminar da alma condicionada o apego à matéria, e assim o homem inteligente aos poucos se livra da ilusão da matéria e do falso ego e é promovido à verdadeira vida de eternidade, conhecimento e bem-aventurança.
एतद्भगवतो रूपं स्थूलं ते व्याहृतं मया ।
मह्यादिभिश्चावरणैरष्टभिर्बहिरावृतम् ॥ ३३ ॥
etad bhagavato rūpaṁ
sthūlaṁ te vyāhṛtaṁ mayā
mahy-ādibhiś cāvaraṇair
aṣṭabhir bahir āvṛtam

Synonyms

etattudo isto; bhagavataḥda Personalidade de Deus; rūpamforma; sthūlamgrosseira; tea ti; vyāhṛtamexplicado; mayāpor mim; mahīos planetas; ādibhiḥe assim por diante; cailimitadamente; avaraṇaiḥpor coberturas; aṣṭabhiḥpor oito; bahiḥexternas; āvṛtamencoberto.

Translation

Assim, por meio de tudo isso, o aspecto externo da Personalidade de Deus está coberto por formas grosseiras, tais como as formas dos planetas, as quais te expliquei.

Purport

SIGNIFICADO—Como se explica na Bhagavad-gītā (7.4), a Personalidade de Deus tem a Sua energia material separada, a qual é encoberta por oito espécies de coberturas materiais: terra, água, fogo, ar, céu, mente, inteligência e falso ego. Todos esses são emanações da Personalidade de Deus como Sua energia externa. Essas coberturas são assim como nuvens que cobrem o Sol. A nuvem é uma criação do Sol, mas ela de fato encobre os olhos, impedindo que alguém veja o Sol. O Sol não pode ser coberto pelas nuvens. A nuvem pode no máximo estender-se por algumas centenas de quilômetros no céu, mas o Sol é muito maior do que milhões de quilômetros. Logo, cobrir cem quilômetros não é o mesmo que encobrir milhões de quilômetros. Portanto, é óbvio que uma das várias energias da Suprema Personalidade de Deus não pode cobrir o Senhor. Mas Ele cria essas coberturas para cobrir os olhos das almas condicionadas que querem assenhorear-se da natureza material. Na verdade, as almas condicionadas estão cobertas pela nuvem material, que cria a ilusão, e o Senhor Se reserva o direito de não Se expor aos olhos delas. Porque não têm olhos com uma visão transcendental e porque não podem ver a Personalidade de Deus, elas negam a existência do Senhor e a forma transcendental do Senhor. Essa cobertura, o gigantesco aspecto material, é aceita por esses homens que têm um pobre fundo de conhecimento, e o próximo verso explica como isso acontece.
अत: परं सूक्ष्मतममव्यक्तं निर्विशेषणम् ।
अनादिमध्यनिधनं नित्यं वाङ्‍मनस: परम् ॥ ३४ ॥
ataḥ paraṁ sūkṣmatamam
avyaktaṁ nirviśeṣaṇam
anādi-madhya-nidhanaṁ
nityaṁ vāṅ-manasaḥ param

Synonyms

ataḥportanto; paramtranscendental; sūkṣmatamammais refinada do que o mais refinado; avyaktamimanifesta; nirviśeṣaṇamsem características materiais; anādisem princípio; madhyasem uma fase intermediária; nidhanamsem fim; nityameterna; vākpalavras; manasaḥda mente; paramtranscendental.

Translation

Portanto, além desta [manifestação grosseira], encontra-se uma manifestação transcendental mais refinada que a forma mais refinada. Ela não tem princípio, fase intermediária ou fim; portanto, está além dos limites da expressão ou da especulação mental e é distinta da concepção material.

Purport

SIGNIFICADO—O corpo externo grosseiro do Supremo manifesta-se a certos intervalos, de modo que o aspecto externo ou a forma externa da Suprema Personalidade de Deus não é a forma eterna do Senhor, que não tem princípio, nem fase intermediária, nem fim. Tudo o que tem início, meio e fim chama-se material. O mundo material começou do Senhor, e assim a forma do Senhor, existente antes do início do mundo material, é sem dúvidas transcendental ao mais refinado, ou o conceito material mais refinado. No mundo material, o éter é considerado o mais refinado. Mais refinados que o éter são a mente, a inteligência e o falso ego. Mas todas as oito coberturas externas são explicadas como coberturas externas da Verdade Absoluta. Portanto, a Verdade Absoluta está além da expressão e da especulação da concepção material. Ele com certeza é transcendental a todas as concepções materiais. Isso se chama nirviśeṣaṇam. Entretanto, ninguém deve confundir nirviśeṣaṇam como sendo sem nenhuma qualificação transcendental. Viśeṣaṇam significa qualidades. Portanto, quando se lhe acrescenta nir, significa dizer que não existem qualidades ou variedades materiais. Essa expressão anuladora se descreve como quatro qualificações transcendentais, a saber, imanifesto, transcendental, eterno e além da concepção da mente ou das palavras. Além dos limites das palavras quer dizer negação da concepção material. Enquanto alguém não estiver numa posição transcendental, não lhe será possível conhecer a forma transcendental do Senhor.
अमुनी भगवद्रूपे मया ते ह्यनुवर्णिते ।
उभे अपि न गृह्णन्ति मायासृष्टे विपश्चित: ॥ ३५ ॥
amunī bhagavad-rūpe
mayā te hy anuvarṇite
ubhe api na gṛhṇanti
māyā-sṛṣṭe vipaścitaḥ

Synonyms

amunītodas estas; bhagavatà Suprema Personalidade de Deus; rūpenas formas; mayāpor mim; tepara ti; hidecerto; anuvarṇitedescritas respectivamente; ubheambas; apitambém; nanunca; gṛhṇantiaceitam; māyāexternas; sṛṣṭeestando assim manifestas; vipaḥ-citaḥos eruditos que sabem.

Translation

Nenhuma dessas formas do Senhor, que acabam de ser descritas para ti tomando como referência uma visão material, é aceita pelos devotos puros do Senhor que O conhecem muito bem.

Purport

SIGNIFICADO—Os impersonalistas têm sobre a Absoluta Personalidade de Deus duas concepções diferentes, como se mencionou acima. Por um lado, eles adoram o Senhor em Seu viśva-rūpa, ou a onipenetrante forma universal, e, por outro lado, pensam na forma imanifesta indescritível e sutil do Senhor. As teorias do panteísmo e do monismo aplicam-se respectivamente a essas duas concepções acerca do Supremo como grosseira e sutil, mas ambas são rejeitadas pelos eruditos devotos puros do Senhor porque eles conhecem a verdadeira posição. Menciona isso com muita clareza o décimo primeiro capítulo da Bhagavad-gītā, que registra a experiência que o viśva-rūpa do Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa produziu em Arjuna:
adṛṣṭa-pūrvaṁ hṛṣito ’smi dṛṣṭvā
bhayena ca pravyathitaṁ mano me
tad eva me darśaya deva rūpaṁ
prasīda deveśa jagan-nivāsa

(Bhagavad-gītā 11.45)
Arjuna, como devoto puro do Senhor, nunca antes contemplara a forma universal do Senhor (viśva-rūpa), mas, quando ele a viu, sua curiosidade ficou satisfeita. Mas ele não estava feliz em ver essa forma do Senhor, pois seu apego era de um devoto puro. Ele estava receoso de ver a gigantesca forma do Senhor. Portanto, ele orou para que o Senhor assumisse Sua forma de Nārāyaṇa que tem quatro braços, ou a forma de Kṛṣṇa, as únicas que poderiam satisfazer Arjuna. Sem dúvida, o Senhor tem suprema potência para Se manifestar em múltiplas formas, mas os devotos puros do Senhor estão interessados nas formas eternas que Ele manifesta em Sua morada, conhecida como tripād-vibhūti, ou o reino de Deus. Em Sua morada tripād-vibhūti, o Senhor manifesta-Se sob duas formas, de quatro braços ou de dois braços. O viśva-rūpa que se apresenta na manifestação material tem braços ilimitados, dimensões ilimitadas e tudo ilimitado. Os devotos puros do Senhor adoram-nO em Suas formas de Vaikuṇṭha como Nārāyaṇa ou Kṛṣṇa. Algumas vezes, as mesmas formas que o Senhor apresenta em Vaikuṇṭha estão também no mundo material por Sua graça, como Śrī Rāma, Śrī Kṛṣṇa, Śrī Narasiṁhadeva etc., e os devotos puros também as adoram. Em geral, as características mostradas no mundo material não existem nos planetas Vaikuṇṭha, daí os devotos puros não as aceitarem. O que os devotos puros adoram antes de mais nada são as formas eternas do Senhor que existem nos planetas Vaikuṇṭha. Os impersonalistas não-devotos imaginam as formas materiais do Senhor, e acabam imergindo no brahmajyoti impessoal do Senhor, ao passo que os devotos puros do Senhor são adoradores do Senhor logo no início e também na fase perfeita da salvação, eternamente. A adoração prestada pelo devoto puro jamais acaba, ao passo que a adoração prestada pelo impersonalista é descontinuada depois que ele alcança a salvação, quando se funde na forma impessoal do Senhor conhecida como brahmajyoti. Portanto, os devotos puros do Senhor são aqui descritos como vipaścita, ou os eruditos que têm perfeito conhecimento sobre o Senhor.
स वाच्यवाचकतया भगवान् ब्रह्मरूपधृक् ।
नामरूपक्रिया धत्ते सकर्माकर्मक: पर: ॥ ३६ ॥
sa vācya-vācakatayā
bhagavān brahma-rūpa-dhṛk
nāma-rūpa-kriyā dhatte
sakarmākarmakaḥ paraḥ

Synonyms

saḥEle; vācyapor Suas formas e atividades; vācakatayāpor Suas qualidades e séquito transcendentais; bhagavāna Personalidade de Deus; brahmaabsoluto; rūpa-dhṛkaceitando formas visíveis; nāmanome; rūpaforma; kriyāpassatempos; dhatteaceita; sa-karmaocupado em trabalho; akarmakaḥsem ser afetado; paraḥtranscendência.

Translation

Ele, a Personalidade de Deus, manifesta-Se em uma forma transcendental, sendo Ele o objeto de Seu nome, qualidade, passatempos, séquito e variedade transcendentais. Embora não seja afetado por essas atividades, Ele parece estar ocupado nelas.

Purport

SIGNIFICADO—Sempre que há necessidade de criação material, a transcendental Personalidade de Deus aceita formas no mundo material para cuidar da criação, manutenção e destruição. É preciso ter inteligência suficiente para conhecer de verdade Suas atividades e não ficar predisposto a concluir que Ele desce ao mundo material, aceitando uma forma criada pela natureza material. Qualquer forma aceita da natureza material é afetada por tudo o que se faz no mundo material. A alma condicionada que aceita uma forma material para passar por um certo período de atividades materiais está sujeita às leis da matéria. Aqui neste verso, entretanto, afirma-se claramente que, embora as formas e atividades do Senhor pareçam ser as mesmas de uma alma condicionada, elas são sobrenaturais e impossíveis para a alma condicionada. Ele, a Suprema Personalidade de Deus, jamais é afetado por essas atividades. Na Bhagavad-gītā (4.14), o Senhor diz:
na māṁ karmāṇi limpanti
na me karma-phale spṛhā
iti māṁ yo ’bhijānāti
karmabhir na sa badhyate
O Senhor nunca é afetado pelas atividades que Ele aparentemente executa por intermédio de Suas diferentes encarnações e personalidades, tampouco Ele tem algum desejo de conseguir sucesso com atividades fruitivas. O Senhor apresenta em plenitude Suas diferentes potências de riqueza, força, fama, beleza, conhecimento e renúncia, e assim Ele não precisa executar esforço físico como a alma condicionada. Portanto, a pessoa inteligente que consegue distinguir entre as atividades transcendentais do Senhor e as atividades das almas condicionadas também não fica atada às reações das atividades. O Senhor, como Viṣṇu, Brahmā e Śiva, conduz os três modos da natureza material. De Viṣṇu nasce Brahmā, e de Brahmā nasce Śiva. Às vezes, Brahmā é uma parte distinta de Viṣṇu, e outras vezes Brahmā é o próprio Viṣṇu. Assim, Brahmā cria as diferentes espécies de vida em todo o universo, e isso significa que o Senhor cria toda a manifestação, ora sozinho, ora com a participação de Seus agentes autorizados.
प्रजापतीन्मनून् देवानृषीन् पितृगणान् पृथक् ।
सिद्धचारणगन्धर्वान् विद्याध्रासुरगुह्यकान् ॥ ३७ ॥
किन्नराप्सरसो नागान् सर्पान् किम्पुरुषान्नरान् ।
मातृ रक्ष:पिशाचांश्च प्रेतभूतविनायकान् ॥ ३८ ॥
कूष्माण्डोन्मादवेतालान् यातुधानान् ग्रहानपि ।
खगान्मृगान् पशून् वृक्षान् गिरीन्नृप सरीसृपान् ॥ ३९ ॥
द्विविधाश्चतुर्विधा येऽन्ये जलस्थलनभौकस: ।
कुशलाकुशला मिश्रा: कर्मणां गतयस्त्विमा: ॥ ४० ॥
prajā-patīn manūn devān
ṛṣīn pitṛ-gaṇān pṛthak
siddha-cāraṇa-gandharvān
vidyādhrāsura-guhyakān
kinnarāpsaraso nāgān
sarpān kimpuruṣān narān
mātṝ rakṣaḥ-piśācāṁś ca
preta-bhūta-vināyakān
kūṣmāṇḍonmāda-vetālān
yātudhānān grahān api
khagān mṛgān paśūn vṛkṣān
girīn nṛpa sarīsṛpān
dvi-vidhāś catur-vidhā ye ’nye
jala-sthala-nabhaukasaḥ
kuśalākuśalā miśrāḥ
karmaṇāṁ gatayas tv imāḥ

Synonyms

prajā-patīnBrahmā e seus filhos, como Dakṣa e outros; manūnos chefes periódicos, como Vaivasvata Manu; devāncomo Indra, Candra e Varuṇa; ṛṣīncomo Bhṛgu e Vasiṣṭha; pitṛ-gaṇānos habitantes dos planetas Pitā; pṛthakseparadamente; siddhaos habitantes do planeta Siddha; cāraṇaos habitantes do planeta Cāraṇa; gandharvānos habitantes dos planetas Gandharva; vidyādhraos habitantes do planeta Vidyādhara; asuraos ateístas; guhyakānos habitantes do planeta Yakṣa; kinnaraos habitantes do planeta Kinnara; apsarasaḥos belos anjos do planeta Apsarā; nāgānos habitantes serpentiformes de Nāgaloka; sarpānos habitantes de Sarpaloka (serpentes); kimpuruṣānos habitantes do planeta Kimpuruṣa, que possuem forma de macaco; narānos habitantes da Terra; mātṝos habitantes de Mātṛloka; rakṣaḥos habitantes do planeta demoníaco; piśācānos habitantes de Piśācaloka; catambém; pretaos habitantes de Pretaloka; bhūtaos maus espíritos; vināyakānos duendes; kūṣmāṇḍafogo-fátuo; unmādalunáticos; vetālānos gênios; yātudhānānuma determinada espécie de mau espírito; grahānas estrelas boas e más; apitambém; khagānas aves; mṛgānos animais selvagens; paśūnos animais domésticos; vṛkṣānos fantasmas; girīnas montanhas; nṛpaó rei; sarīsṛpānrépteis; dvi-vidhāḥas entidades vivas móveis e inertes; catuḥ-vidhāḥentidades vivas nascidas de embriões, ovos, transpiração e sementes; yeoutros; anyetodos; jalaágua; sthalaterra; nabha-okasaḥpássaros; kuśalana felicidade; akuśalāḥna aflição; miśrāḥna mistura de felicidade e aflição; karmaṇāmsegundo suas próprias ações passadas; gatayaḥcomo resultado de; tumas; imāḥtodas elas.

Translation

Ó rei, informo-te que todas as entidades vivas são criadas pelo Senhor Supremo conforme suas ações passadas. Isso inclui Brahmā e seus filhos, como Dakṣa; os chefes periódicos, como Vaivasvata Manu; os semideuses, como Indra, Candra e Varuṇa; os grandes sábios, como Bhṛgu, Vyāsa e Vasiṣṭha; os habitantes de Pitṛloka e Siddhaloka; os Cāraṇas, os Gandharvas, os Vidyādharas, os Asuras, os Yakṣas, os Kinnaras e os anjos; os entes serpentiformes, os simiescos Kimpuruṣas, os seres humanos, os habitantes de Mātṛloka, os demônios, as Piśācas, os fantasmas, os espíritos, os lunáticos e os espíritos malignos; as boas e más estrelas, os gnomos, os animais da floresta, as aves, os animais domésticos, os répteis, as montanhas, as entidades vivas móveis e inertes, as entidades vivas nascidas de embriões, ovos, transpiração e sementes, e todas as outras, quer estejam na água, na terra ou no céu, sintam felicidade, aflição ou uma mistura de ambas. Todas elas, conforme suas ações passadas, são criadas pelo Senhor Supremo.

Purport

SIGNIFICADO—As diferentes variedades de entidades vivas são mencionadas nesta lista, e sem nenhuma exceção, do planeta mais alto até o planeta mais baixo do universo, todas elas, nas diversas espécies de vida, são criadas por Viṣṇu, o Pai Todo-Poderoso. Por conseguinte, ninguém é independente da Suprema Personalidade de Deus. No seguinte verso da Bhagavad-gītā (14.4), o Senhor, portanto, classifica todas as entidades vivas como Sua progênie:
sarva-yoniṣu kaunteya
mūrtayaḥ sambhavanti yāḥ
tāsāṁ brahma mahad yonir
ahaṁ bīja-pradaḥ pitā
A natureza material compara-se à mãe. Embora se saiba que cada ser vivo sai do corpo da mãe, é um fato que a mãe não é a causa última desse nascimento. O pai é a causa última do nascimento. Sem a semente do pai, nenhuma mãe pode dar à luz um filho. Portanto, as entidades vivas, nas diferentes variedades de formas e posições dentro dos inumeráveis universos, todas nascem das sementes do Pai Todo-Poderoso, a Personalidade de Deus, e só o homem com um pobre fundo de conhecimento tem a impressão de que elas nascem da natureza material. Estando sob a energia material do Senhor Supremo, todas as entidades vivas, a começar de Brahmā e indo até a insignificante formiga, manifestam-se em diferentes corpos conforme seus feitos passados.
A natureza material é uma das energias do Senhor (Bhagavad-gītā 7.4). A natureza material é inferior em comparação com as entidades vivas, a natureza superior. As naturezas superior e inferior do Senhor combinam-se para manifestar todos os afazeres universais.
Em melhores condições de vida, algumas das entidades vivas são relativamente felizes, ao passo que outras vivem em aflição. Na verdade, entretanto, nenhuma delas é verdadeiramente feliz na vida material condicionada. Ninguém pode estar feliz com a vida na prisão, embora alguém seja um prisioneiro de primeira classe e outrem seja um prisioneiro de terceira classe. A pessoa inteligente não deve tentar ser promovida da prisão de terceira classe para a prisão de primeira classe, senão que deve tentar livrar-se definitivamente da prisão. Alguém pode ser promovido a prisioneiro de primeira classe, mas, na etapa seguinte, o mesmo prisioneiro de primeira classe é outra vez degradado a prisioneiro de terceira classe. Todos devem tentar livrar-se da vida na prisão e voltar ao lar, voltar ao Supremo. Essa é a verdadeira meta para todas as espécies de entidades vivas.
सत्त्वं रजस्तम इति तिस्र: सुरनृनारका: ।
तत्राप्येकैकशो राजन् भिद्यन्ते गतयस्त्रिधा ।
यदैकैकतरोऽन्याभ्यां स्वभाव उपहन्यते ॥ ४१ ॥
sattvaṁ rajas tama iti
tisraḥ sura-nṛ-nārakāḥ
tatrāpy ekaikaśo rājan
bhidyante gatayas tridhā
yadaikaikataro ’nyābhyāṁ
sva-bhāva upahanyate

Synonyms

sattvamo modo da bondade; rajaḥo modo da paixão; tamaḥmodo da escuridão; itiassim; tisraḥos três; surasemideus; nṝser humano; nārakāḥquem está sofrendo condições infernais; tatra apiaté mesmo lá; ekaikaśaḥoutro; rājanó rei; bhidyantedividem em; gatayaḥmovimentos; tridhātrês; yadānaquele momento; ekaikataraḥum em relação ao outro; anyābhyāmdo outro; sva-bhāvaḥpeculiaridade; upahanyatedesenvolve.

Translation

Segundo os diferentes modos da natureza material – o modo da bondade, o modo da paixão e o modo da escuridão –, há diferentes criaturas vivas, que são conhecidas como semideuses, seres humanos e entidades vivas infernais. Ó rei, até mesmo um modo específico da natureza, sendo misturado com os outros dois, divide-se em três, e assim cada espécie de criatura viva é influenciada pelos outros modos e também adquire as peculiaridades próprias a esses modos.

Purport

SIGNIFICADO—As entidades vivas são individualmente conduzidas por um determinado modo da natureza, mas, ao mesmo tempo, há muita probabilidade de serem influenciadas pelos outros dois. Em geral, todas as almas condicionadas que estão na prisão material recebem influência do modo da paixão, pois cada uma delas está tentando assenhorear-se da natureza material para satisfazer seu desejo individual. Porém, apesar da participação individual do modo da paixão, há sempre a possibilidade de que os outros modos da natureza estejam associados e exerçam sua influência. Se alguém está em boa companhia, pode desenvolver o modo da bondade, e, em má companhia, pode desenvolver o modo da escuridão, ou ignorância. Nada é estereotipado. É possível mudar os hábitos cultivando boa ou má associação, e é preciso tornar-se bastante inteligente para discriminar entre o que é bom e o que é mau. A melhor associação é o serviço aos devotos do Senhor, e, pela graça dos devotos puros do Senhor, a pessoa pode, com essa associação, tornar-se o homem de qualidades mais elevadas. Como já vimos na vida de Śrīla Nārada Muni, ele se tornou o principal devoto do Senhor através da simples companhia dos devotos puros do Senhor. Ele nasceu como filho de uma criada e não sabia quem era seu pai e não tinha educação acadêmica, nem mesmo rudimentar. Porém, pelo simples fato de associar-se com os devotos e comer os restos do alimento que eles deixavam, desenvolveu, aos poucos, as qualidades transcendentais dos devotos. Por meio dessa associação, ficou evidente seu gosto por cantar e ouvir as glórias transcendentais do Senhor, e porque as glórias do Senhor não são diferentes do Senhor, ele passou a associar-se diretamente com o Senhor através da representação sonora. De modo semelhante, existe a vida de Ajāmila (Sexto Canto), que era filho de um brāhmaṇa e recebeu a necessária educação e treinamento para saber cumprir os deveres de um brāhmaṇa, mas que, apesar de tudo isso, como entrou em contato com uma prostituta, por causa da má companhia passou a viver como um caṇḍāla da mais baixa qualidade, que é a última posição reservada a um ser humano. Portanto, o Bhāgavatam sempre recomenda a associação do mahat, uma grande alma, para abrir as portas da salvação. Associar-se com pessoas interessadas em assenhorear-se do mundo material significa entrar na região mais escura do inferno. Todos devem tentar elevar-se buscando a companhia de uma grande alma. Esse é o caminho para a perfeição da vida.
स एवेदं जगद्धाता भगवान् धर्मरूपधृक् ।
पुष्णाति स्थापयन् विश्वं तिर्यङ्‍नरसुरादिभि: ॥ ४२ ॥
sa evedaṁ jagad-dhātā
bhagavān dharma-rūpa-dhṛk
puṣṇāti sthāpayan viśvaṁ
tiryaṅ-nara-surādibhiḥ

Synonyms

saḥEle; evadecerto; idameste; jagat-dhātāo mantenedor do universo inteiro; bhagavāna Personalidade de Deus; dharma-rūpa-dhṛkassumindo a forma dos princípios religiosos; puṣṇātimantém; sthāpayanapós estabelecer; viśvamos universos; tiryakentidades vivas inferiores aos seres humanos; naraos seres humanos; sura-ādibhiḥpelas encarnações dos semideuses.

Translation

Ele, a Personalidade de Deus, como o mantenedor de todos no universo, aparece em diferentes encarnações após estabelecer a criação e, dessa maneira, recupera todas as espécies de almas condicionadas entre os seres humanos, os seres que não são humanos e os semideuses.

Purport

SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, encarna em diferentes sociedades de entidades vivas para tirá-las das garras da ilusão, e essas atividades do Senhor não se limitam apenas à sociedade humana. Ele encarna até mesmo como peixe, javali, árvore e muitas outras formas, mas as pessoas menos inteligentes que O desconhecem zombam dEle, embora Ele esteja na sociedade humana como um ser humano. O Senhor, portanto, diz na Bhagavad-gītā (9.11):
avajānanti māṁ mūḍhā
mānuṣīṁ tanum āśritam
paraṁ bhāvam ajānanto
mama bhūta-maheśvaram
Conforme já discutimos nos versos anteriores, conclui-se que o Senhor nunca é um produto da criação material. Sua posição transcendental é sempre imutável. Ele é a forma de conhecimento e bem-aventurança eternos, e executa Sua vontade onipotente através de Suas diferentes energias. Nesse caso, Ele jamais está sujeito às reações de algum de Seus atos. Ele é transcendental a todos esses conceitos de ações e reações. Mesmo que seja visível no mundo material, isso é apenas uma manifestação de Sua energia interna, pois Ele está acima dos conceitos bons e maus deste mundo material. No mundo material, o peixe ou o javali podem ser considerados inferiores ao homem, mas, quando aparece como um peixe ou um javali, o Senhor não está envolvido com o conceito material que os caracteriza. É por Sua misericórdia imotivada que Ele aparece em toda sociedade ou espécie de vida, mas jamais deve ser considerado um deles. Conceitos existentes no mundo material, tais como bom e mau, inferior e superior, importante e insignificante, são avaliações da energia material, e o Senhor Supremo é transcendental a todos esses conceitos. As palavras paraṁ bhāvam, ou natureza transcendental, jamais podem ser comparadas ao conceito material. Não nos devemos esquecer de que as potências do Senhor Onipotente são sempre as mesmas e não diminuem quando o Senhor assume a forma de um animal inferior. Não há diferença entre o Senhor Śrī Rāma, o Senhor Śrī Kṛṣṇa e Suas encarnações como um peixe ou um javali. Ele é onipenetrante e Se localiza ao mesmo tempo em todo e qualquer lugar. Mas a pessoa tola, com um pobre fundo de conhecimento e que carece de tal paraṁ bhāvam do Senhor, não pode compreender como o Senhor Supremo pode assumir a forma de um homem ou de um peixe. Todos fazem comparações tomando como ponto de referência o seu próprio padrão de conhecimento, assim como o sapo que está no poço e considera que o mar é parecido com o poço. O sapo no poço não pode nem mesmo imaginar como é o mar, e quando lhe falam a respeito da vastidão do mar, o sapo adota para si o conceito de que o mar é um pouco maior do que o poço. Dessa maneira, o tolo que não conhece a ciência transcendental do Senhor achará difícil compreender como o Senhor Viṣṇu pode manifestar-Se igualmente em cada sociedade de entidades vivas.
तत: कालाग्निरुद्रात्मा यत्सृष्टमिदमात्मन: ।
संनियच्छति तत् काले घनानीकमिवानिल: ॥ ४३ ॥
tataḥ kālāgni-rudrātmā
yat sṛṣṭam idam ātmanaḥ
sanniyacchati tat kāle
ghanānīkam ivānilaḥ

Synonyms

tataḥdepois disso, no fim; kāladestruição; agnifogo; rudra-ātmāsob a forma de Rudra; yattudo o que; sṛṣṭamcriado; idamtudo isto; ātmanaḥde Si próprio; samcompletamente; niyacchatianiquila; tat kāleno final do milênio; ghana-anīkamgrupos de nuvens; ivacomo aquele do; anilaḥar.

Translation

Depois disso, no final do milênio, o próprio Senhor, sob a forma de Rudra, o destruidor, aniquilará toda a criação assim como o vento dispersa as nuvens.

Purport

SIGNIFICADO—Esta criação é muito apropriadamente comparada a nuvens. As nuvens são criadas ou se situam no céu, e quando se dispersam, elas permanecem imanifestas no mesmo céu. De modo semelhante, a criação inteira é feita pela Suprema Personalidade de Deus quando assume Sua forma de Brahmā, é mantida por Ele ao assumir a forma de Viṣṇu, e é destruída por Ele ao assumir a forma de Rudra, ou Śiva, tudo no devido tempo. Esta criação, manutenção e destruição recebem na Bhagavad-gītā (8.19-20) a seguinte explicação primorosa:
bhūta-grāmaḥ sa evāyaṁ
bhūtvā bhūtvā pralīyate
rātry-āgame ’vaśaḥ pārtha
prabhavaty ahar-āgame
paras tasmāt tu bhāvo ’nyo
’vyakto ’vyaktāt sanātanaḥ
yaḥ sa sarveṣu bhūteṣu
naśyatsu na vinaśyati
A natureza do mundo material é que primeiramente ele é criado com muito esmero, então ele apresenta um ótimo desenvolvimento e dura uma grande quantidade de anos (superando inclusive o cálculo elaborado pelo maior matemático), mas, depois disso, ele volta a ser destruído durante a noite de Brahmā, sem nenhuma resistência, e, no fim da noite de Brahmā, ele passa a se manifestar como uma criação, sujeitando-se aos mesmos princípios de manutenção e destruição.
A alma condicionada tola, que aceita este mundo temporário como uma acomodação permanente, deve aprender com inteligência por que essa criação e destruição acontecem. Os trabalhadores fruitivos no mundo material têm muito entusiasmo em relação a criarem grandes empreendimentos, grandes casas, grandes impérios, grandes indústrias e muitas coisas muito grandiosas, utilizando a energia e os ingredientes supridos pelo agente material do Senhor Supremo. Com esses recursos, e às custas de preciosa energia, a alma condicionada cria e satisfaz seus caprichos, mas, mesmo contra a sua vontade, ela tem de separar-se de todas as suas criações e entrar em outra fase de vida para criar vezes e mais vezes. Para dar esperança a essas tolas almas condicionadas que desperdiçam sua energia neste mundo material temporário, o Senhor informa que existe outra natureza, que tem existência eterna e não passa por criações ou destruições periodicamente, e que a alma condicionada pode compreender o que ela deve fazer, dando à sua valiosa energia um uso adequado. Em vez de gastar sua energia na matéria, que com certeza será destruída no devido tempo pela vontade suprema, a alma condicionada deve utilizar sua energia no serviço devocional ao Senhor para que ela possa ser transferida para outra natureza, que é eterna e onde não há nascimento, nem morte, nem criação, nem destruição, mas, ao invés disso, existe vida permanente, plena de conhecimento e bem-aventurança ilimitada. A criação temporária, então, manifesta-se e é destruída somente para dar informações à alma condicionada que está apegada às coisas temporárias. Também serve para lhe dar a oportunidade de alcançar a autorrealização, e não de entregar-se ao gozo dos sentidos, que é a principal meta dos trabalhadores fruitivos.
इत्थंभावेन कथितो भगवान् भगवत्तम: ।
नेत्थंभावेन हि परं द्रष्टुमर्हन्ति सूरय: ॥ ४४ ॥
ittham-bhāvena kathito
bhagavān bhagavattamaḥ
nettham-bhāvena hi paraṁ
draṣṭum arhanti sūrayaḥ

Synonyms

itthamnestas características; bhāvenaa questão da criação e da destruição; kathitaḥdescrita; bhagavāna Personalidade de Deus; bhagavat-tamaḥpelos grandes transcendentalistas; nanão; itthamnisto; bhāvenaaspectos; hisomente; parammuito gloriosos; draṣṭumver; arhantimerecem; sūrayaḥgrandes devotos.

Translation

Os grandes transcendentalistas fazem essa descrição sobre as atividades da Suprema Personalidade de Deus, mas os devotos puros merecem ver fenômenos mais gloriosos na transcendência, os quais ultrapassam esses aspectos.

Purport

SIGNIFICADO—O Senhor não é apenas o criador e destruidor das manifestações materiais de Suas diferentes energias. Ele é mais do que um mero criador e destruidor, pois existe Seu aspecto de ānanda, ou Seu aspecto de prazer. Apenas os devotos puros, e não as outras pessoas, compreendem esse aspecto em que o Senhor age manifestando o prazer. O impersonalista fica satisfeito com a simples compreensão da influência onipenetrante do Senhor. Isso se chama percepção Brahman. Superior ao impersonalista é o místico que vê o Senhor situado em seu coração como Paramātmā, a representação parcial do Senhor. Mas existem devotos puros que, através da verdadeira reciprocidade no serviço amoroso, participam diretamente na potência ānanda do Senhor, Sua potência de prazer. Em Sua morada chamada os planetas Vaikuṇṭha, que são manifestações eternas, o Senhor sempre permanece com Seus associados e desfruta os transcendentais serviços amorosos que Seus devotos puros oferecem em diferentes atitudes transcendentais. Assim, durante a manifestação da criação, os devotos puros do Senhor se submetem a uma prática desse serviço devocional ao Senhor e tiram pleno proveito da manifestação, qualificando-se a entrar no reino de Deus. A Bhagavad-gītā (18.55) confirma isso:
bhaktyā mām abhijānāti
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad anantaram
Pelo desenvolvimento do serviço devocional puro, a pessoa pode de fato conhecer o Senhor como Ele é e, assim, ser treinado no genuíno serviço ao Senhor e receber a permissão de entrar em diferentes graus de associação direta com o Senhor. A associação mais elevada e gloriosa com o Senhor torna-se possível no planeta Goloka Vṛndāvana, onde o Senhor Kṛṣṇa Se diverte com as gopīs e Seus animais prediletos, as vacas surabhis. Uma descrição desta terra transcendental de Kṛṣṇa é dada na Brahma-saṁhitā, que o Senhor Caitanya considera o texto mais autêntico a esse respeito.
नास्य कर्मणि जन्मादौ परस्यानुविधीयते ।
कर्तृत्वप्रतिषेधार्थं माययारोपितं हि तत् ॥ ४५ ॥
nāsya karmaṇi janmādau
parasyānuvidhīyate
kartṛtva-pratiṣedhārthaṁ
māyayāropitaṁ hi tat

Synonyms

nanunca; asyada criação; karmaṇiquando se trata de; janma-ādaucriação e destruição; parasyado Supremo; anuvidhīyateassim descrito; kartṛtvaparticipando; pratiṣedha-arthamneutralização; māyayāpela energia externa; āropitamé manifesta; hipara; tato criador.

Translation

Não há participação direta do Senhor na criação e destruição do mundo material. O que se descreve nos Vedas sobre Sua interferência direta é apenas para neutralizar a ideia de que a natureza material é o criador.

Purport

SIGNIFICADO—Esta é a maneira como os Vedas tratam da criação, manutenção e destruição do mundo material: yato vā imāni bhūtāni jāyante; yena jātāni jīvanti; yat prayanty abhisaṁviśanti, isto é, tudo é criado pelo Brahman, depois da criação tudo é mantido pelo Brahman, e, depois da aniquilação, tudo é conservado no Brahman. Os materialistas grosseiros, sem nenhum conhecimento acerca de Brahman, Paramātmā ou Bhagavān, concluem que a natureza material é a causa última da manifestação material, e o cientista moderno também compartilha dessa opinião de que a natureza material é a causa última de todas as manifestações do mundo material. Essa noção é refutada por toda a literatura védica. A filosofia vedānta menciona que o Brahman é a fonte de toda a criação, manutenção e destruição, e o Śrīmad-Bhāgavatam, o comentário natural sobre a filosofia vedānta, diz que janmādy asya yato ’nvayād itarataś cārtheṣv abhijñaḥ svarāṭ etc.
A matéria inerte é, sem dúvida, uma energia com potencial para interagir, mas ela não tem iniciativa própria. Portanto, o Śrīmad-Bhāgavatam comenta o aforismo janmādy asya dizendo abhijñaḥ e svarāṭ, isto é, o Brahman Supremo não é energia inerte, senão que é consciência suprema e é independente. Por conseguinte, a matéria inerte não pode ser a causa última da criação, manutenção e destruição do mundo material. Superficialmente, a natureza material parece ser a causa da criação, manutenção e destruição, mas o supremo ser consciente, a Personalidade de Deus, põe a natureza material em ação para que ela possa criar. Ele é o fundamento de toda a criação, manutenção e destruição, e confirma isso a Bhagavad-gītā (9.10):
mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ
sūyate sa-carācaram
hetunānena kaunteya
jagad viparivartate
A natureza material é uma das energias do Senhor, e ela pode agir sob a direção do Senhor (adhyakṣeṇa). Quando o Senhor lança Seu olhar transcendental sobre a natureza material, só então a natureza material pode agir, assim como um pai entra em contato com a mãe, que então é capaz de conceber um filho. Embora pareça ao leigo que a mãe gera a criança, o homem experiente sabe que é o pai que gera a criança. A natureza material, portanto, produz as manifestações móveis e inertes do mundo material depois do contato do pai supremo, e não independentemente. Considerar a natureza material como a causa da criação, manutenção, etc. chama-se “a lógica das tetas no pescoço do bode”. O Caitanya-caritāmṛta, de Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī, descreve esta lógica de ajā-gala-stana-nyāya como segue (conforme explicação de Sua Divina Graça Śrī Śrīmad Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Mahārāja): “A natureza material, como causa material, é conhecida como pradhāna, e como causa eficiente é conhecida como māyā. Mas como é matéria inerte, ela não é a causa remota da criação.” Kavirāja Gosvāmī faz a seguinte afirmação:
ataeva kṛṣṇa mūla-jagat-kāraṇa
prakṛti — kāraṇa yaiche ajā-gala-stana

(Caitanya-caritāmṛta, Ādi 5.61)
Porque Kāraṇārṇavaśāyī Viṣṇu é uma expansão plenária de Kṛṣṇa, é Ele que eletrifica a matéria para colocá-la em movimento. O exemplo da eletrificação é muito apropriado. Um pedaço de ferro na certa não é fogo, mas, quando está em brasa, o ferro decerto tem a qualidade do fogo através de sua capacidade de queimar. A matéria é comparada ao pedaço de ferro, e ela é eletrificada ou incandescida pelo olhar de Viṣṇu ou pelo manuseio exercido pela Sua consciência suprema. É só por essa eletrificação que a energia da matéria se manifesta em várias ações e reações. Portanto, a matéria inerte não é o fator eficiente nem é a causa material da manifestação cósmica. Śrī Kapiladeva disse:
yatholmukād visphuliṅgād
dhūmād vāpi sva-sambhavāt
apy ātmatvenābhimatād
yathāgniḥ pṛthag ulmukāt

(Śrīmad-Bhāgavatam 3.28.40)
O fogo original, sua chama, suas fagulhas e sua fumaça, todos são a mesma coisa, pois o fogo continua sendo fogo, embora seja diferente da chama, a chama seja diferente das fagulhas, e as fagulhas sejam diferentes da fumaça. Em cada uma delas, a saber, nas chamas, nas fagulhas e na fumaça, a integridade do fogo está presente, mas todas elas apresentam diferentes situações com diferentes gradações. A manifestação cósmica é comparada à fumaça porque, quando a fumaça passa sobre o céu, aparecem muitas formas, semelhantes a muitas manifestações conhecidas e desconhecidas. As fagulhas são comparadas às entidades vivas, e as chamas são comparadas à natureza material (pradhāna). Deve-se saber que cada uma delas é eficiente devido ao simples fato de que tem qualidade igual ao fogo original. Portanto, todas elas, a saber, a natureza material, a manifestação cósmica e as entidades vivas, não passam de diferentes energias do Senhor (o fogo). Portanto, aqueles que aceitam a natureza material como a causa original da manifestação cósmica (prakṛti, a causa da criação segundo a filosofia sāṅkhya) não chegaram à conclusão correta. A natureza material não tem existência autônoma sem o Senhor. Logo, preterir o Senhor Supremo como a causa de todas as causas é a lógica de ajā-gala-stana-nyāya, ou tentar tirar leite nas tetas do pescoço do bode. As tetas no pescoço do bode podem parecer fontes de leite, mas tentar tirar leite dessas tetas será tolice.
अयं तु ब्रह्मण: कल्प: सविकल्प उदाहृत: ।
विधि: साधारणो यत्र सर्गा: प्राकृतवैकृता: ॥ ४६ ॥
ayaṁ tu brahmaṇaḥ kalpaḥ
savikalpa udāhṛtaḥ
vidhiḥ sādhāraṇo yatra
sargāḥ prākṛta-vaikṛtāḥ

Synonyms

ayameste processo de criação e aniquilação; tumas; brahmaṇaḥde Brahmā; kalpaḥum dia seu; sa-vikalpaḥjuntamente com a duração dos universos; udāhṛtaḥexemplificado; vidhiḥprincípios reguladores; sādhāraṇaḥem resumo; yatraonde; sargāḥcriação; prākṛtano caso da natureza material; vaikṛtāḥdispersão.

Translation

Este processo de criação e aniquilação descrito em resumo nesta passagem é o princípio regulador vigente enquanto dura um dia de Brahmā. É também o princípio regulador vigente na criação do mahat, no qual a natureza material se dispersa.

Purport

SIGNIFICADO—Existem três diferentes espécies de criação, chamadas mahā-kalpa, vikalpa e kalpa. No mahā-kalpa, o Senhor assume a primeira encarnação puruṣa, o Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu, com todas as potências do mahat-tattva e os dezesseis princípios dos instrumentos e da matéria criadora. Os instrumentos criadores são onze, os ingredientes são cinco, e todos eles são produtos do mahat, ou o ego materialista. Essas criações que o Senhor realiza em Seu aspecto de Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu chamam-se mahā-kalpa. A criação de Brahmā e a dispersão dos ingredientes materiais chamam-se vikalpa, e a criação que Brahmā executa em cada dia de sua vida chama-se kalpa. Portanto, cada dia de Brahmā chama-se uma kalpa, e, em termos de dias de Brahmā, existem trinta kalpas. Quanto a isso, a Bhagavad-gītā (8.17) apresenta também a seguinte confirmação:
sahasra-yuga-paryantam
ahar yad brahmaṇo viduḥ
rātriṁ yuga-sahasrāntāṁ
te ’ho-rātra-vido janāḥ
No sistema planetário superior, a duração de um dia e uma noite completos é igual a um ano inteiro desta Terra. Isso é aceito até mesmo pelo cientista moderno e confirmado pelos astronautas. De modo semelhante, na região dos sistemas planetários ainda mais elevados, a duração do dia e da noite é maior do que nos planetas celestiais. Calculam-se os quatro yugas em termos dos calendários celestiais, e, nesse aspecto, existem doze mil anos em termos dos planetas celestiais. Isso se chama divya-yuga, e mil divya-yugas perfazem um dia de Brahmā. A criação durante o dia de Brahmā chama-se kalpa, e a criação de Brahmā chama-se vikalpa. Quando a respiração de Mahā-Viṣṇu produz os vikalpas, isso se chama um mahā-kalpa. Existem ciclos regulares e sistemáticos desses mahā-kalpas, vikalpas e kalpas. Para a pergunta que Mahārāja Parīkṣit fez a respeito delas, Śukadeva Gosvāmī formula a resposta no Prabhāsa-khaṇḍa do Skanda Purāṇa. Elas são as seguintes:
prathamaḥ śveta-kalpaś ca
dvitīyo nīla-lohitaḥ
vāmadevas tṛtīyas tu
tato gāthāntaro ’paraḥ
rauravaḥ pañcamaḥ proktaḥ
ṣaṣṭhaḥ prāṇa iti smṛtaḥ
saptamo ’tha bṛhat-kalpaḥ
kandarpo ’ṣṭama ucyate
sadyotha navamaḥ kalpa
īśāno daśamaḥ smṛtaḥ
dhyāna ekādaśaḥ proktas
tathā sārasvato ’paraḥ
trayodaśa udānas tu
garuḍo ’tha caturdaśaḥ
kaurmaḥ pañcadaśo jñeyaḥ
paurṇamāsī prajāpateḥ
ṣoḍaśo nārasiṁhas tu
samādhis tu tato ’paraḥ
āgneyo viṣṇujaḥ sauraḥ
soma-kalpas tato ’paraḥ
dvāviṁśo bhāvanaḥ proktaḥ
supumān iti cāparaḥ
vaikuṇṭhaś cārṣṭiṣas tadvad
valī-kalpas tato ’paraḥ
saptaviṁśo ’tha vairājo
gaurī-kalpas tathāparaḥ
māheśvaras tathā proktas
tripuro yatra ghātitaḥ
pitṛ-kalpas tathā cānte
yaḥ kuhūr brahmaṇaḥ smṛtā
Portanto, os trinta kalpas de Brahmā são: (1) Śveta-kalpa, (2) Nīlalohita, (3) Vāmadeva, (4) Gāthāntara, (5) Raurava, (6) Prāṇa, (7) Bṛhat-kalpa, (8) Kandarpa, (9) Sadyotha, (10) Īśāna, (11) Dhyāna, (12) Sārasvata, (13) Udāna, (14) Garuḍa, (15) Kaurma, (16) Nārasiṁha, (17) Samādhi, (18) Āgneya, (19) Viṣṇuja, (20) Saura, (21) Soma-kalpa, (22) Bhāvana, (23) Supuma, (24) Vaikuṇṭha, (25) Arciṣa, (26) Valī-kalpa, (27) Vairāja, (28) Gaurī-kalpa, (29) Māheśvara, (30) Paitṛ-kalpa.
Esses são apenas os dias de Brahmā, e ele tem de viver meses e anos até completar cem anos. Assim sendo, podemos apenas imaginar quantas criações existem só nos kalpas. E, em seguida, ainda há os vikalpas, que são gerados pela respiração do Mahā-Viṣṇu, como afirma a Brahma-saṁhitā (yasyaika-niśvasita-kālam athāvalambya jīvanti loma-vilajā jagadaṇḍa-nāthāḥ). Os Brahmās vivem apenas durante o período da respiração de Mahā-Viṣṇu. Assim, a exalação e a inalação de Viṣṇu são mahā-kalpas, e todas essas se devem à Suprema Personalidade de Deus, pois nenhuma outra pessoa é o senhor de todas as criações.
परिमाणं च कालस्य कल्पलक्षणविग्रहम् ।
यथा पुरस्ताद्व्याख्यास्ये पाद्मं कल्पमथो श‍ृणु ॥ ४७ ॥
parimāṇaṁ ca kālasya
kalpa-lakṣaṇa-vigraham
yathā purastād vyākhyāsye
pādmaṁ kalpam atho śṛṇu

Synonyms

parimāṇammedida; catambém; kālasyado tempo; kalpaum dia de Brahmā; lakṣaṇasintomas; vigrahamforma; yathātanto quanto; purastādfuturamente; vyākhyāsyeserá explicada; pādmamchamada Pādma; kalpama duração de um dia; athoassim; śṛṇuapenas ouve.

Translation

Ó rei, oportunamente explicarei a medida do tempo em seus aspectos grosseiro e sutil com os sintomas específicos de cada um, mas, por enquanto, deixa-me explicar-te o Pādma-kalpa.

Purport

SIGNIFICADO—A atual duração do kalpa de Brahmā chama-se Varāha-kalpa, ou Śvetavarāha-kalpa, porque a encarnação do Senhor como Varāha aconteceu durante a criação do Brahmā que nasceu do lótus que brotou do abdômen de Viṣṇu. Portanto, este Varāha-kalpa é também chamado de Pādma-kalpa, e comprovam isso ācāryas como Jīva Gosvāmī bem como Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, seguindo a mesma linha do primeiro comentador, Svāmī Śrīdhara. Logo, não existe contradição entre o Varāha e o Pādma-kalpa de Brahmā.
शौनक उवाच
यदाह नो भवान् सूत क्षत्ता भागवतोत्तम: ।
चचार तीर्थानि भुवस्त्यक्त्वा बन्धून् सुदुस्त्यजान् ॥ ४८ ॥
śaunaka uvāca
yad āha no bhavān sūta
kṣattā bhāgavatottamaḥ
cacāra tīrthāni bhuvas
tyaktvā bandhūn sudustyajān

Synonyms

śaunakaḥ uvācaŚrī Śaunaka Muni disse; yatcomo; āhadisseste; naḥpara nós; bhavāntu mesmo; sūtaó Sūta; kṣattāVidura; bhāgavata-uttamaḥum dos principais devotos do Senhor; cacārapraticou; tīrthānilugares de peregrinação; bhuvaḥna Terra; tyaktvādeixando de lado; bandhūntodos os parentes; su-dustyajānmuito difícil de abandonar.

Translation

Śaunaka Ṛṣi, depois de ouvir tudo sobre a criação, dirigiu a Sūta Gosvāmī perguntas a respeito de Vidura, pois Sūta Gosvāmī já o havia informado como Vidura saíra do lar, deixando de lado todos os seus parentes, que dificilmente podiam ser abandonados.

Purport

SIGNIFICADO—Os ṛṣis encabeçados por Śaunaka estavam mais ansiosos para saber a respeito de Vidura, que se encontrou com Maitreya Ṛṣi enquanto viajava para os lugares de peregrinação do mundo.
क्षत्तु: कौशारवेस्तस्य संवादोऽध्यात्मसंश्रित: ।
यद्वा स भगवांस्तस्मै पृष्टस्तत्त्वमुवाच ह ॥ ४९ ॥
ब्रूहि नस्तदिदं सौम्य विदुरस्य विचेष्टितम् ।
बन्धुत्यागनिमित्तं च यथैवागतवान् पुन: ॥ ५० ॥
kṣattuḥ kauśāraves tasya
saṁvādo ’dhyātma-saṁśritaḥ
yad vā sa bhagavāṁs tasmai
pṛṣṭas tattvam uvāca ha
brūhi nas tad idaṁ saumya
vidurasya viceṣṭitam
bandhu-tyāga-nimittaṁ ca
yathaivāgatavān punaḥ

Synonyms

kṣattuḥde Vidura; kauśāraveḥbem como de Maitreya; tasyadeles; saṁvādaḥnotícias; adhyātmacom referência ao conhecimento transcendental; saṁśritaḥcheio de; yatque; tudo o mais; saḥele; bhagavānSua Graça; tasmaia ele; pṛṣṭaḥperguntou; tattvama verdade; uvācarespondeu; hano passado; brūhipor favor, dize; naḥa nós; tatesses assuntos; idamaqui; saumyaó pessoa gentil; vidurasyade Vidura; viceṣṭitamatividades; bandhu-tyāgarenunciando aos amigos; nimittama causa de; catambém; yathācomo; evatambém; āgatavānvoltou; punaḥoutra vez (para casa).

Translation

Śaunaka Ṛṣi disse: Por favor, compartilha conosco os assuntos que foram comentados entre Vidura e Maitreya, que falaram de temas transcendentais, e as perguntas de Vidura respondidas por Maitreya. Por favor, informa-nos a razão pela qual Vidura abandonou os laços com os membros de sua família e por que retornou para casa. Divide conosco também as atividades de Vidura quando ele esteve nos lugares de peregrinação.

Purport

SIGNIFICADO—Śrī Sūta Gosvāmī estava narrando os tópicos da criação e da destruição do mundo material, mas parece que os ṛṣis, encabeçados por Śaunaka, estavam mais inclinados a ouvir assuntos transcendentais, que são superiores ao nível físico. Existem duas classes de homens, a saber, aqueles muito afeitos ao corpo grosseiro e ao mundo material, e outros, no nível superior, que estão mais interessados no conhecimento transcendental. O Śrīmad-Bhāgavatam facilita a vida de todos, tanto do materialista quanto do transcendentalista. Ouvindo o Śrīmad-Bhāgavatam descrever as gloriosas atividades do Senhor no mundo material e no mundo transcendental, os homens podem conseguir o mesmo benefício. Os materialistas estão mais interessados nas leis físicas e nos processos que regem o seu funcionamento, e veem maravilhas nesses encantos. Às vezes, por causa dos encantos físicos, eles se esquecem das glórias do Senhor. Eles devem saber definitivamente que as atividades físicas e suas maravilhas são todas iniciadas pelo Senhor. Não é através de uma lei física cega que a rosa no jardim vai tomando sua forma e cor para se tornar bela e doce, embora alguém possa ter essa impressão. Por trás dessa lei física, está o comando exercido pela consciência completa, o Senhor Supremo; caso contrário, as coisas não poderiam tomar forma tão sistematicamente. O artista desenha uma rosa com muito primor e com toda a atenção e senso artístico, apesar do que o desenho não sai tão perfeito como a rosa verdadeira. Se é esse o fato, como podemos dizer que a rosa verdadeira tomou sua forma sem que uma inteligência estivesse por trás da beleza? Essa espécie de conclusão se deve a um pobre fundo de conhecimento. Através desta descrição da criação e da aniquilação, todos devem tomar conhecimento de a consciência suprema, sendo onipresente, pode cuidar de tudo com perfeita atenção. Essa é uma prova da onipresença do Senhor Supremo. Entretanto, certas pessoas, ainda mais tolas que os materialistas grosseiros, alegam serem transcendentalistas e alegam ter essa consciência suprema e onipenetrante, mas não apresentam nenhuma prova. Essas pessoas tolas não podem saber o que se passa atrás da parede vizinha, mas estão falsamente orgulhosas achando que possuem a consciência cósmica onipenetrante da Pessoa Suprema. Para elas também, ouvir o Śrīmad-Bhāgavatam é de grande ajuda. Isso abrirá seus olhos para que possam ver que a pessoa não fica supremamente consciente com a simples alegação de ter consciência suprema. Ela precisa provar no mundo físico que tem essa consciência suprema. Entretanto, os ṛṣis de Naimiṣāraṇya estavam acima dos materialistas grosseiros e dos falsos transcendentalistas, em virtude do que estavam sempre ansiosos para de fato conhecer a verdade nos tópicos transcendentais, como comentados pelas autoridades.
सूत उवाच
राज्ञा परीक्षिता पृष्टो यदवोचन्महामुनि: ।
तद्वोऽभिधास्ये श‍ृणुत राज्ञ: प्रश्नानुसारत: ॥ ५१ ॥
यच्च व्रजन्त्यनिमिषामृषभानुवृत्त्या
दूरेयमा ह्युपरि न: स्पृहणीयशीला: ।
भर्तुर्मिथ: सुयशस: कथनानुराग-
वैक्लव्यबाष्पकलया पुलकीकृताङ्गा: ॥
sūta uvāca
rājñā parīkṣitā pṛṣṭo
yad avocan mahā-muniḥ
tad vo ’bhidhāsye śṛṇuta
rājñaḥ praśnānusārataḥ

Synonyms

sūtaḥ uvācaŚrī Sūta Gosvāmī respondeu; rājñāpelo rei; parīkṣitāpor Parīkṣit; pṛṣṭaḥconforme indagado; yatque; avocatfalou; mahā-muniḥo grande sábio; tata mesma coisa; vaḥpara vós; abhidhāsyeexplicarei; śṛṇutapor favor, escutai; rājñaḥpelo rei; praśnapergunta; anusārataḥde acordo com.

Translation

Śrī Sūta Gosvāmī explicou: Passarei agora a explicar-vos os mesmos assuntos que o grande sábio explicou enquanto respondia às perguntas do rei Parīkṣit. Por favor, escutai-os com atenção.

Purport

SIGNIFICADO—Qualquer questão apresentada deve ser respondida citando a autoridade, e isso satisfaz o grupo mais sensato. Esse é o sistema usado também no tribunal de justiça. O melhor advogado se baseia nas evidências de julgamentos passados ocorridos no tribunal sem se preocupar muito em estabelecer seu caso. Isso se chama o sistema paramparā, e as autoridades eruditas o seguem sem inventar interpretações imprestáveis.
īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ
sac-cid-ānanda-vigrahaḥ
anādir ādir govindaḥ
sarva-kāraṇa-kāraṇam

(Brahma-saṁhitā 5.1)
Obedeçamos todos ao Senhor Supremo, cuja mão está em tudo, sem exceção.
Neste ponto, encerram-se os significados Bhaktivedanta do segundo canto, décimo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “O Bhāgavatam É a Resposta para Todas as Perguntas”.
FIM DO SEGUNDO CANTO