Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Vinte e Oito
Instruções de Kapila sobre a Execução do Serviço Devocional
Devanagari
श्रीभगवानुवाच
योगस्य लक्षणं वक्ष्ये सबीजस्य नृपात्मजे ।
मनो येनैव विधिना प्रसन्नं याति सत्पथम् ॥ १ ॥
योगस्य लक्षणं वक्ष्ये सबीजस्य नृपात्मजे ।
मनो येनैव विधिना प्रसन्नं याति सत्पथम् ॥ १ ॥
Verse text
śrī-bhagavān uvāca
yogasya lakṣaṇaṁ vakṣye
sabījasya nṛpātmaje
mano yenaiva vidhinā
prasannaṁ yāti sat-patham
yogasya lakṣaṇaṁ vakṣye
sabījasya nṛpātmaje
mano yenaiva vidhinā
prasannaṁ yāti sat-patham
Synonyms
śrī-bhagavān uvāca — a Personalidade de Deus disse; yogasya — do sistema de yoga; lakṣaṇam — descrição; vakṣye — explicarei; sabījasya — autorizado; nṛpa-ātma je — ó filha do rei; manaḥ — a mente; yena — pelo qual; eva — certamente; vidhinā — pela prática; prasannam — jubiloso; yāti — alcança; sat-patham — o caminho da Verdade Absoluta.
Translation
A Personalidade de Deus disse: Minha querida mãe, ó filha do rei, agora te explicarei o sistema de yoga, cujo objeto é concentrar a mente. Praticando este sistema, é possível tornar-se jubiloso e avançar progressivamente rumo ao caminho da Verdade Absoluta.
Purport
O processo de yoga explicado pelo Senhor Kapiladeva neste capítulo é autorizado e padronizado, de maneira que essas instruções devem ser seguidas com muito cuidado. Para começar, o Senhor diz que, pela prática de yoga, pode-se progredir rumo à compreensão da Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus. No capítulo anterior, afirma-se claramente que o resultado desejado do yoga não é alcançar alguns poderes místicos maravilhosos. Não devemos nos deixar atrair de modo algum por tais poderes místicos, senão que devemos obter realização progressiva no caminho da compreensão da Suprema Personalidade de Deus. Confirma-se isso também na Bhagavad-gītā, que afirma no último verso do sexto capítulo que o maior yogī é aquele que pensa constantemente em Kṛṣṇa dentro de si mesmo, ou aquele que é consciente de Kṛṣṇa.
Afirma-se nesta passagem que, seguindo o sistema de yoga, é possível tornar-se jubiloso. O Senhor Kapila, a Personalidade de Deus, que é a autoridade máxima em yoga, explica aqui o sistema de yoga conhecido como aṣṭāṅga-yoga, que compreende oito práticas diferentes, a saber, yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi. Através de todas essas fases de prática, deve-se compreender o Senhor Viṣṇu, que é o alvo de todo yoga. Existem pretensas práticas de yoga nas quais se concentra a mente no vazio ou no impessoal, mas isso não é aprovado pelo sistema autorizado de yoga, conforme explica Kapiladeva. Até mesmo Patañjali explica que a meta de todo yoga é Viṣṇu. Portanto, o aṣṭāṅga-yoga faz parte da prática vaiṣṇava porque sua meta última é a compreensão de Viṣṇu. A obtenção de sucesso no yoga não é a aquisição de poderes místicos, a qual é condenada no capítulo anterior, mas, antes, é libertar-se de todas as designações materiais e situar-se na própria posição constitucional. É essa a aquisição final na prática de yoga.
Devanagari
स्वधर्माचरणं शक्त्या विधर्माच्च निवर्तनम् ।
दैवाल्लब्धेन सन्तोष आत्मविच्चरणार्चनम् ॥ २ ॥
दैवाल्लब्धेन सन्तोष आत्मविच्चरणार्चनम् ॥ २ ॥
Verse text
sva-dharmācaraṇaṁ śaktyā
vidharmāc ca nivartanam
daivāl labdhena santoṣa
ātmavic-caraṇārcanam
vidharmāc ca nivartanam
daivāl labdhena santoṣa
ātmavic-caraṇārcanam
Synonyms
sva-dharma-ācaraṇam — executando seus deveres prescritos; śaktyā — da melhor maneira possível; vidharmāt — deveres não autorizados; ca — e; nivartanam — evitando; daivāt — pela graça do Senhor; labdhena — com aquilo que é obtido; santoṣaḥ — satisfeito; ātma-vit — da alma autorrealizada; caraṇa — os pés; arcanam — adorando.
Translation
Todos devem executar seus deveres prescritos da melhor maneira possível e evitar executar deveres que não lhes são atribuídos. Devem contentar-se com aquilo que obtiverem pela graça do Senhor, e devem adorar os pés de lótus de um mestre espiritual.
Purport
Neste verso, há muitas palavras importantes que poderiam ser muito elaboradamente explicadas, motivo pelo qual discutiremos brevemente os aspectos importantes de cada uma delas. A afirmação final é ātmavic-caraṇārcanam. Ātma-vit quer dizer alma autorrealizada ou mestre espiritual fidedigno. A menos que alguém seja autorrealizado e saiba qual é sua relação com a Superalma, ele não pode ser um mestre espiritual fidedigno. Aqui se recomenda que devemos procurar um mestre espiritual fidedigno e nos render a ele (arcanam), pois, indagando dele e o adorando, podemos aprender as atividades espirituais.
A primeira recomendação é sva-dharmācaraṇam. Enquanto tivermos este corpo material, vários deveres nos serão prescritos, os quais se dividem dentro de um sistema de quatro ordens sociais: brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya e śudra. Esses deveres específicos são mencionados no śāstra, e particularmente na Bhagavad-gītā. Sva-dharmācaraṇam quer dizer que cada um deve cumprir os deveres prescritos de sua classe social em particular, fielmente e da melhor maneira possível. Ninguém deve aceitar o dever alheio. Se alguém nasce em uma comunidade ou sociedade em particular, deve cumprir os deveres prescritos para aquele núcleo específico. Se, contudo, ele tem a fortuna de transcender a designação de nascimento numa sociedade ou comunidade em particular, ao ser elevado ao padrão de identidade espiritual, então seu sva-dharma, ou dever, é exclusivamente o de servir à Suprema Personalidade de Deus. O verdadeiro dever de quem é avançado em consciência de Kṛṣṇa é servir ao Senhor. Enquanto permanecemos no conceito corpóreo da vida, podemos agir de acordo com os deveres da convenção social, porém, se nos elevamos à plataforma espiritual, precisamos apenas servir ao Senhor Supremo: essa é a verdadeira execução de sva-dharma.
Devanagari
ग्राम्यधर्मनिवृत्तिश्च मोक्षधर्मरतिस्तथा ।
मितमेध्यादनं शश्वद्विविक्तक्षेमसेवनम् ॥ ३ ॥
मितमेध्यादनं शश्वद्विविक्तक्षेमसेवनम् ॥ ३ ॥
Verse text
grāmya-dharma-nivṛttiś ca
mokṣa-dharma-ratis tathā
mita-medhyādanaṁ śaśvad
vivikta-kṣema-sevanam
mokṣa-dharma-ratis tathā
mita-medhyādanaṁ śaśvad
vivikta-kṣema-sevanam
Synonyms
grāmya — convencionais; dharma — práticas religiosas; nivṛttiḥ — parando; ca — e; mokṣa — para a salvação; dharma — práticas religiosas; ratiḥ — deixando-se atrair por; tathā — dessa maneira; mita — pouco; medhya — puras; adanam — comendo; avat — sempre; vivikta — retirada; kema — pacífica; sevanam — residindo.
Translation
A pessoa deva parar de executar práticas religiosas convencionais e deixar-se atrair por aquelas que levem à salvação. Deve comer muito frugalmente e deve sempre permanecer recluso para poder alcançar a perfeição máxima da vida.
Purport
Nesta passagem, recomenda-se evitar práticas religiosas visando a desenvolvimento econômico ou a satisfação de desejos sensoriais. Devem-se executar práticas religiosas apenas para poder libertar-se das garras da natureza material. Afirma-se no começo do Śrīmad- Bhāgavatam que a mais elevada prática religiosa é aquela pela qual se pode atingir o transcendental serviço devocional ao Senhor, sem razão ou causa. Tal prática religiosa não é jamais dificultada por algum obstáculo, e, através de sua execução, ficamos realmente satisfeitos. Recomenda-se isso aqui como mokṣa-dharma, prática religiosa visando a salvação, ou transcendência das garras da contaminação material. De um modo geral, as pessoas executam práticas religiosas visando o desenvolvimento econômico ou o gozo dos sentidos, mas isso não é recomendado para quem queira avançar em yoga,
A próxima frase importante é mita-medhyādanam, que significa que devemos comer muito frugalmente. Os textos védicos recomendam que o yogī coma apenas metade do que deseje conforme sua fome. Se alguém estiver faminto ao ponto de ser capaz de devorar meio quilo de comida, então, em vez de comer meio quilo, deverá consumir somente um quarto de quilo e suplementar isso com cento e vinte mililitros de água; uma quarta parte do estômago deve ser deixada vazia para a passagem do ar no estômago. Quem comer dessa maneira evitará indigestão e doenças. O yogī deve comer dessa maneira, como se recomenda no Śrīmad-Bhāgavatam e em todas as demais escrituras padrão. O yogī deve viver em um lugar afastado, onde sua prática de yoga não seja perturbad
Devanagari
अहिंसा सत्यमस्तेयं यावदर्थपरिग्रह: ।
ब्रह्मचर्यं तप: शौचं स्वाध्याय: पुरुषार्चनम् ॥ ४ ॥
ब्रह्मचर्यं तप: शौचं स्वाध्याय: पुरुषार्चनम् ॥ ४ ॥
Verse text
ahiṁsā satyam asteyaṁ
yāvad-artha-parigrahaḥ
brahmacaryaṁ tapaḥ śaucaṁ
svādhyāyaḥ puruṣārcanam
yāvad-artha-parigrahaḥ
brahmacaryaṁ tapaḥ śaucaṁ
svādhyāyaḥ puruṣārcanam
Synonyms
Translation
Deve-se praticar a não-violência e a veracidade, evitar roubar e contentar-se com a posse de apenas o que seja necessário para a manutenção. Deve-se abster-se da vida sexual, praticar austeridade, ser limpo, estudar os Vedas e adorar a forma suprema da Suprema Personalidade de Deus.
Purport
A palavra puruṣārcanam neste verso significa adorar a Suprema Personalidade de Deus, especialmente a forma do Senhor Kṛṣṇa. Na Bhagavad-gītā, Arjuna confirma que Kṛṣṇa é o puruṣa, ou a Personalidade de Deus original – puruṣaṁ śāśvatam. Portanto, na prática do yoga, devemos não apenas concentrar a mente na pessoa de Kṛṣṇa, como também devemos adorar a forma ou Deidade de Kṛṣṇa diariamente.
O brahmacārī pratica o celibato, controlando sua vida sexual. Não é possível desfrutar irrestritamente de vida sexual e praticar yoga; isso é patifaria. Os pretensos yogīs anunciam que todos podem continuar desfrutando livremente e, ao mesmo tempo, tornarem-se yogīs, mas isso é totalmente desautorizado. Explica-se aqui muito claramente que é preciso fazer celibato. Brahmacaryam significa levar a vida simplesmente em relação com o Brahman, ou seja, em plena consciência de Kṛṣṇa. Aqueles que são excessivamente viciados em vida sexual não podem observar as regulações que os levarão à consciência de Kṛṣṇa. A vida sexual deve se restringir a pessoas casadas. Uma pessoa cuja vida sexual é restringida no casamento também se chama brahmacārī.
A palavra asteyam também é muito importante para o yogī. Asteyam significa “abster-se de roubar”. No sentido mais amplo, todos que acumulam mais do que necessitam são ladrões. Segundo o comunismo espiritual, ninguém pode possuir mais do que necessita para sua manutenção pessoal. Essa é a lei da natureza. Qualquer pessoa que acumule mais dinheiro ou mais posses do que necessita é chamada de ladrão, e quem simplesmente acumula riquezas sem gastá-la em sacrifícios ou em adoração à Suprema Personalidade de Deus é um grande ladrão.
Svādhyāyaḥ significa “ler as escrituras védicas autorizadas”. Mesmo que alguém não seja consciente de Kṛṣṇa e esteja praticando o sistema de yoga, ele precisa ler os textos védicos padrão para entender. A mera prática de yoga não é suficiente. Narottama Dāsa Ṭhākura, grande devoto e ācārya no sampradāya gauḍīya-vaiṣṇava, diz que todas as atividades espirituais devem ser compreendidas a partir de três fontes, a saber, as pessoas santas, as escrituras padrão e o mestre espiritual. Esses três guias são muito importantes para o progresso em vida espiritual. O mestre espiritual prescreve a literatura padrão para a prossecução do yoga do serviço devocional, e ele próprio fala somente com base em referências das escrituras. Portanto, ler escrituras padrão é algo necessário para se praticar yoga. Praticar yoga sem ler as escrituras padrão é mera perda de tempo.
Devanagari
मौनं सदासनजय: स्थैर्यं प्राणजय: शनै: ।
प्रत्याहारश्चेन्द्रियाणां विषयान्मनसा हृदि ॥ ५ ॥
प्रत्याहारश्चेन्द्रियाणां विषयान्मनसा हृदि ॥ ५ ॥
Verse text
maunaṁ sad-āsana-jayaḥ
sthairyaṁ prāṇa-jayaḥ śanaiḥ
pratyāhāraś cendriyāṇāṁ
viṣayān manasā hṛdi
sthairyaṁ prāṇa-jayaḥ śanaiḥ
pratyāhāraś cendriyāṇāṁ
viṣayān manasā hṛdi
Synonyms
maunam — silêncio; sat — boas; āsana — posturas ióguicas; jayaḥ — controlando; sthairyam — equilíbrio; prāṇa-jayaḥ — controlando o ar vital; śanaiḥ — gradualmente; pratyāhāraḥ — afastamento; ca — e; indriyāṇām — dos sentidos; viṣayāt — dos objetos dos sentidos; manasā — com a mente; hṛdi — no coração.
Translation
Deve-se observar silêncio, obter firmeza praticando diversas posturas sentadas, controlar a respiração do ar vital, afastar os sentidos dos objetos dos sentidos e, deste modo, concentrar a mente no coração.
Purport
As práticas ióguicas em geral, e o haṭha-yoga em particular, não são fins em si mesmos; são meios para a finalidade de alcançar a firmeza. Primeiramente, deve-se ser capaz de sentar-se adequadamente, após o que a mente e a atenção se tornarão fixas o bastante para praticar yoga. Gradualmente, deve-se controlar a circulação do ar vital, e, com tal controle, será possível afastar os sentidos dos objetos dos sentidos. No verso anterior, afirma-se que é preciso observar celibato. O aspecto mais importante do controle dos sentidos é o controle da vida sexual. Isso se chama brahmacarya. Praticando as diferentes posturas sentadas e controlando o ar vital, pode-se controlar e abster os sentidos de gozo sensorial irrestrito.
Devanagari
स्वधिष्ण्यानामेकदेशे मनसा प्राणधारणम् ।
वैकुण्ठलीलाभिध्यानं समाधानं तथात्मन: ॥ ६ ॥
वैकुण्ठलीलाभिध्यानं समाधानं तथात्मन: ॥ ६ ॥
Verse text
sva-dhiṣṇyānām eka-deśe
manasā prāṇa-dhāraṇam
vaikuṇṭha-līlābhidhyānaṁ
samādhānaṁ tathātmanaḥ
manasā prāṇa-dhāraṇam
vaikuṇṭha-līlābhidhyānaṁ
samādhānaṁ tathātmanaḥ
Synonyms
sva-dhiṣṇyānām — dentro dos circuitos de ar vital; eka-deśe — num só local; manasā — com a mente; prāṇa — o ar vital; dhāraṇam — fixando; vaikuṇṭha-līlā — nos passatempos da Suprema Personalidade de Deus; abhidhyānam — concentração; samādhānam — samādhi; tathā — assim; ātmanaḥ — da mente.
Translation
O ato de fixar o ar vital e a mente em um dos seis circuitos de circulação de ar vital dentro do corpo, concentrando assim a mente nos passatempos transcendentais da Suprema Personalidade de Deus, é chamado de samādhi, ou samādhāna, da mente.
Purport
Há seis circuitos de circulação de ar vital dentro do corpo. O primeiro circuito está dentro do estômago; o segundo circuito encontra-se na área do coração; o terceiro, na área dos pulmões; o quarto, sobre o palato; o quinto, entre as sobrancelhas, e o mais elevado, o sexto circuito, no alto do cérebro. Tem-se que fixar a mente e a circulação do ar vital e, deste modo, pensar nos passatempos transcendentais do Senhor Supremo. Nunca encontraremos menção de que devemos nos concentrar no impessoal ou no vazio. Afirma-se claramente: vaikuṇṭha-līlā. Līlā significa “passatempos”. Se a Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, não tivesse atividades transcendentais, que possibilidade haveria de se pensar nesses passatempos? É através dos processos de serviço devocional – cantar e ouvir os passatempos da Suprema Personalidade de Deus – que se pode atingir essa concentração. Como se descreve no Śrīmad-Bhāgavatam, o Senhor aparece e desaparece de acordo com Suas relações com diferentes devotos. Os textos védicos contêm muitas narrações dos passatempos do Senhor, incluindo a Guerra de Kurukṣetra e fatos históricos relacionados com a vida e com os preceitos de devotos como Prahlāda Mahārāja, Dhruva Mahārāja e Ambariṣa Mahārāja. É necessário apenas concentrar a mente em uma dessas narrações e absorver-se sempre nesse pensamento. Isso levará ao samādhi. Samādhi não é um estado corpóreo superficial: é o estado atingido quando a mente está virtualmente absorta em pensamentos sobre a Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
एतैरन्यैश्च पथिभिर्मनो दुष्टमसत्पथम् ।
बुद्ध्या युञ्जीत शनकैर्जितप्राणो ह्यतन्द्रित: ॥ ७ ॥
बुद्ध्या युञ्जीत शनकैर्जितप्राणो ह्यतन्द्रित: ॥ ७ ॥
Verse text
etair anyaiś ca pathibhir
mano duṣṭam asat-patham
buddhyā yuñjīta śanakair
jita-prāṇo hy atandritaḥ
mano duṣṭam asat-patham
buddhyā yuñjīta śanakair
jita-prāṇo hy atandritaḥ
Synonyms
etaiḥ — mediante esses; anyaiḥ — mediante outros; ca — e; pathibhiḥ — processos; manaḥ — a mente; duṣṭam — contaminada; asat-patham — no caminho do gozo material; buddhyā — pela inteligência; yuñjīta — deve-se controlar; śanakaiḥ — gradualmente; jita-prānaḥ — fixando-se o ar vital; hi — de fato; atandritaḥ — alerta.
Translation
Mediante esses processos, ou quaisquer outros processos autênticos, deve-se controlar a mente contaminada e desenfreada, que sempre sente atração pelo gozo material, e assim fixar-se em pensar na Suprema Personalidade de Deus.
Purport
Etair anyaiś ca. O processo geral de yoga compreende a observância de regras e regulações, a prática de diferentes posturas sentadas, concentração da mente na circulação vital do ar e, por fim, o pensamento na Suprema Personalidade de Deus, em Seus passatempos de Vaikuṇṭha. É esse o processo geral de yoga. Pode-se atingir a mesma concentração mediante outros processos recomendados, de modo que anyaiś ca, outros métodos, também podem ser aplicados. O ponto essencial é que a mente, que está contaminada pela atração material, precisa ser refreada e concentrada na Suprema Personalidade de Deus. Não é possível fixá-la em algo vazio ou impessoal. Por esse motivo, as assim chamadas práticas ióguicas de niilismo e impersonalismo não são recomendadas em nenhum yoga-śāstra padrão. O verdadeiro yogī é o devoto, visto que sua mente está sempre concentrada nos passatempos do Senhor Kṛṣṇa. Portanto, a consciência de Kṛṣṇa é o mais elevado sistema de yoga.
Devanagari
शुचौ देशे प्रतिष्ठाप्य विजितासन आसनम् ।
तस्मिन्स्वस्ति समासीन ऋजुकाय: समभ्यसेत् ॥ ८ ॥
तस्मिन्स्वस्ति समासीन ऋजुकाय: समभ्यसेत् ॥ ८ ॥
Verse text
śucau deśe pratiṣṭhāpya
vijitāsana āsanam
tasmin svasti samāsīna
ṛju-kāyaḥ samabhyaset
vijitāsana āsanam
tasmin svasti samāsīna
ṛju-kāyaḥ samabhyaset
Synonyms
Translation
Após o controle da mente e das posturas sentadas, deve-se estender um assento em lugar recluso e santificado, sentar-se nele em postura fácil, mantendo o corpo ereto, e praticar o controle da respiração.
Purport
Sentar-se em postura fácil chama-se svasti samāsīnaḥ. A escritura de yoga recomenda que devemos colocar as solas dos pés entre as duas coxas e os tornozelos e sentarmo-nos eretos; essa postura nos ajudará a concentrar a mente na Suprema Personalidade de Deus. Esse mesmo processo também é recomendado na Bhagavad-gītā, sexto capítulo. Além disso, sugere-se que nos sentemos num lugar recluso e santificado. O assento deve consistir em pele de veado e grama kuśa, forrado com algodão.
Devanagari
प्राणस्य शोधयेन्मार्गं पूरकुम्भकरेचकै: ।
प्रतिकूलेन वा चित्तं यथा स्थिरमचञ्चलम् ॥ ९ ॥
प्रतिकूलेन वा चित्तं यथा स्थिरमचञ्चलम् ॥ ९ ॥
Verse text
prāṇasya śodhayen mārgaṁ
pūra-kumbhaka-recakaiḥ
pratikūlena vā cittaṁ
yathā sthiram acañcalam
pūra-kumbhaka-recakaiḥ
pratikūlena vā cittaṁ
yathā sthiram acañcalam
Synonyms
Translation
O yogī deve limpar a passagem do ar vital, respirando da seguinte maneira: primeiro ele deve inalar muito profundamente, depois manter a respiração dentro do corpo e, finalmente, exalar. Ou, invertendo o processo, o yogī pode exalar, depois manter a respiração fora do corpo e, finalmente, inalar. Faz-se isso para que a mente se estabilize e se livre de perturbações externas.
Purport
Esses exercícios respiratórios são praticados para controlar a mente e fixá-la na Suprema Personalidade de Deus. Sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayoḥ: o devoto Ambarīṣa Mahārāja fixava sua mente nos pés de lótus de Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia. O processo da consciência de Kṛṣṇa consiste em cantar Hare Kṛṣṇa e ouvir o som atentamente para que a mente se fixe na vibração transcendental do nome de Kṛṣṇa, que não é diferente da personalidade de Kṛṣṇa. O verdadeiro propósito de controlar a mente por meio do processo prescrito de limpar a passagem do ar vital é atingido de imediato caso se fixe a mente diretamente nos pés de lótus de Kṛṣṇa. O sistema de haṭha-yoga, ou sistema respiratório, é especialmente recomendado para aqueles que estão muito absortos no conceito corpóreo de existência, mas quem pode executar o simples processo de cantar Hare Kṛṣṇa pode fixar a mente com mais facilidade.
Recomendam-se três atividades diferentes para limpar a passagem da respiração: pūraka, kumbhaka e recaka. Inalar a respiração se chama pūraka, retê-la internamente se chama kumbhaka, e, enfim, exalá-la se chama recaka. Esses processos recomendados também podem ser executados em ordem inversa. Após exalar, pode-se manter o ar fora do corpo por algum tempo e, então, inalar. Os nervos através dos quais se efetua a inalação e a exalação são tecnicamente chamados de iḍā e piṅgalā. O propósito final de limpar as passagens iḍā e piṅgalā é desviar a mente do gozo material. Como se afirma na Bhagavad-gītā, a mente pode ser nossa inimiga e nossa amiga também; sua posição varia de acordo com os diferentes procedimentos da entidade viva. Se desviamos nossa mente para pensamentos de gozo material, nossa mente se torna nossa inimiga, mas, se concentramos nossa mente nos pés de lótus de Kṛṣṇa, nossa mente vira nossa amiga. Mediante o sistema de yoga de pūraka, kumbhaka e recaka, ou diretamente fixando a mente na vibração sonora de Kṛṣṇa ou na forma de Kṛṣṇa, cumpre-se o mesmo propósito. A Bhagavad-gītā (8.8) diz que é preciso praticar o exercício respiratório (abhyāsa-yoga-yuktena). Em virtude desses processos de controle, a mente não pode divagar em pensamentos externos (cetasā nānya-gāminā). Assim, pode-se fixar a mente constantemente na Suprema Personalidade de Deus e alcançá-lO (yāti).
Praticar o sistema de yoga de exercício e controle da respiração é muito difícil para uma pessoa nesta era, em virtude do que o Senhor Caitanya recomendava kīrtanīyaḥ sadā hariḥ: deve-se sempre cantar o santo nome do Senhor Supremo, Kṛṣṇa, porque Kṛṣṇa é o nome mais adequado da Suprema Personalidade de Deus. O nome Kṛṣṇa e a Pessoa Suprema Kṛṣṇa não são diferentes. Portanto, se alguém concentra sua mente em ouvir e cantar Hare Kṛṣṇa, alcança o mesmo resultado.
Devanagari
मनोऽचिरात्स्याद्विरजं जितश्वासस्य योगिन: ।
वाय्वग्निभ्यां यथा लोहं ध्मातं त्यजति वै मलम् ॥ १० ॥
वाय्वग्निभ्यां यथा लोहं ध्मातं त्यजति वै मलम् ॥ १० ॥
Verse text
mano ’cirāt syād virajaṁ
jita-śvāsasya yoginaḥ
vāyv-agnibhyāṁ yathā lohaṁ
dhmātaṁ tyajati vai malam
jita-śvāsasya yoginaḥ
vāyv-agnibhyāṁ yathā lohaṁ
dhmātaṁ tyajati vai malam
Synonyms
Translation
Os yogīs que praticam tais exercícios respiratórios se livram rapidamente de todas as perturbações mentais, assim como o ouro, quando posto no fogo e abanado com ar, livra-se de todas as impurezas.
Purport
Este processo de purificar a mente também é recomendado pelo Senhor Caitanya: Ele diz que devemos cantar Hare Kṛṣṇa. Além disso, Ele diz que paraṁ vijayate: “Todas as glórias ao Śrī Kṛṣṇa saṅkīrtana!” Todas as glórias são dadas ao cantar dos santos nomes de Kṛṣṇa porque, logo que alguém comece este processo de cantar, sua mente se purifica. Ceto-darpaṇa-mārjanam: cantando o santo nome de Kṛṣṇa, purificamo-nos da poeira que se acumula na mente. Podemos purificar a mente, ou pelo processo respiratório, ou pelo processo do cantar, assim como se pode purificar o ouro pondo-o num fogo e arejando-o com um fole.
Devanagari
प्राणायामैर्दहेद्दोषान्धारणाभिश्च किल्बिषान् ।
प्रत्याहारेण संसर्गान्ध्यानेनानीश्वरान्गुणान् ॥ ११ ॥
प्रत्याहारेण संसर्गान्ध्यानेनानीश्वरान्गुणान् ॥ ११ ॥
Verse text
prāṇāyāmair dahed doṣān
dhāraṇābhiś ca kilbiṣān
pratyāhāreṇa saṁsargān
dhyānenānīśvarān guṇān
dhāraṇābhiś ca kilbiṣān
pratyāhāreṇa saṁsargān
dhyānenānīśvarān guṇān
Synonyms
prāṇāyāmaiḥ — pela prática de prāṇāyāma; dahet — pode erradicar; doṣān — contaminações; dhāraṇābhiḥ — concentrando a mente; ca — e; kilbiṣān — atividades pecaminosas; pratyāhāreṇa — controlando os sentidos; saṁsargān — contato com a matéria; dhyānena — meditando; anīśvarān guṇān — os modos da natureza material.
Translation
Aquele que pratica o processo de prāṇāyāma pode erradicar a contaminação de sua condição fisiológica e, concentrando a mente, pode livrar-se de todas as atividades pecaminosas. Controlando os sentidos, ele pode livrar-se do contato com a matéria e, meditando na Suprema Personalidade de Deus, pode livrar-se dos três modos do apego material.
Purport
Segundo a ciência médica do āyurveda, os três itens kapha, pitta e vāyu (fleuma, bílis e ar) mantêm a condição fisiológica do corpo. A moderna ciência médica não aceita esta análise fisiológica como válida, mas o antigo processo de tratamento do āyurveda baseia-se nesses itens. O tratamento do āyurveda lida com a causa desses três elementos, que são mencionados em muitas passagens do Bhāgavatam como condições básicas do corpo. Aqui se recomenda que, praticando o processo respiratório de prāṇāyāma, é possível libertar-se da contaminação criada pelos principais elementos fisiológicos; concentrando a mente, é possível livrar-se de atividades pecaminosas, e restringindo os sentidos, é possível livrar-se do contato com a matéria.
Em última análise, precisamos meditar na Suprema Personalidade de Deus a fim de nos elevarmos à posição transcendental em que não seremos mais afetados pelos três modos da natureza material. A Bhagavad-gītā também confirma que quem se ocupa em serviço devocional imaculado transcende de vez os três modos da natureza material e imediatamente compreende sua identificação com o Brahman. Sa guṇān samatītyaitān brahma-bhūyāya kalpate. Para cada item no sistema de yoga, há uma atividade paralela em bhakti-yoga, mas a prática de bhakti-yoga é mais fácil para esta era. O que o Senhor Caitanya introduziu não é uma interpretação nova. Bhakti-yoga é um processo executável que começa com cantar e ouvir. O bhakti-yoga e os demais yogas têm como sua meta última a mesma Personalidade de Deus, mas uma é prática, e as demais são difíceis. Precisamos purificar nossa condição fisiológica mediante a concentração e o controle dos sentidos, após o que poderemos fixar a mente na Suprema Personalidade de Deus. Isso se chama samādhi.
Devanagari
यदा मन: स्वं विरजं योगेन सुसमाहितम् ।
काष्ठां भगवतो ध्यायेत्स्वनासाग्रावलोकन: ॥ १२ ॥
काष्ठां भगवतो ध्यायेत्स्वनासाग्रावलोकन: ॥ १२ ॥
Verse text
yadā manaḥ svaṁ virajaṁ
yogena susamāhitam
kāṣṭhāṁ bhagavato dhyāyet
sva-nāsāgrāvalokanaḥ
yogena susamāhitam
kāṣṭhāṁ bhagavato dhyāyet
sva-nāsāgrāvalokanaḥ
Synonyms
yadā — quando; manaḥ — a mente; svam — própria; virajam — purificada; yogena — mediante a prática de yoga; su-samāhitam — controlada; kāṣṭhām — a expansão plenária; bhagavataḥ — da Suprema Personalidade de Deus; dhyāyet — deve-se meditar em; sva-nāsā-agra — a ponta do nariz; avalokanaḥ — olhando para.
Translation
Ao purificar a mente inteiramente mediante esta prática de yoga, deve-se concentrar-se na ponta do nariz com os olhos semicerrados e ver a forma da Suprema Personalidade de Deus.
Purport
Menciona-se claramente aqui que se deve meditar na expansão de Viṣṇu. A palavra kāṣṭhām refere-se ao Paramātmā, a expansão da expansão de Viṣṇu. Bhagavataḥ refere-se ao Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus. A Personalidade Suprema é Kṛṣṇa; dEle vem a primeira expansão, Baladeva, e de Baladeva vêm Saṅkarṣaṇa, Aniruddha e muitas outras formas, seguidas pelos puruṣa-avatāras. Como se mencionou nos versos anteriores (puruṣārcanam), este puruṣa é representado como o Paramātmā, a Superalma. Os versos seguintes darão uma descrição da Superalma, na qual devemos meditar. Neste verso, afirma-se claramente que se deve meditar fixando a visão na ponta do nariz e concentrando a mente em kalā, ou a expansão plenária, de Viṣṇu.
Devanagari
प्रसन्नवदनाम्भोजं पद्मगर्भारुणेक्षणम् ।
नीलोत्पलदलश्यामं शङ्खचक्रगदाधरम् ॥ १३ ॥
नीलोत्पलदलश्यामं शङ्खचक्रगदाधरम् ॥ १३ ॥
Verse text
prasanna-vadanāmbhojaṁ
padma-garbhāruṇekṣaṇam
nīlotpala-dala-śyāmaṁ
śaṅkha-cakra-gadā-dharam
padma-garbhāruṇekṣaṇam
nīlotpala-dala-śyāmaṁ
śaṅkha-cakra-gadā-dharam
Synonyms
Translation
A Suprema Personalidade de Deus possui um semblante alegre e semelhante ao lótus, com olhos rosados como o interior do lótus e corpo escuro como as pétalas do lótus azul. Ele porta búzio, disco e maça em três de Suas mãos.
Purport
Recomenda-se aqui, decisivamente, que concentremos a mente na forma de Viṣṇu. Há doze diferentes formas de Viṣṇu, que são descritas nos Ensinamentos do Senhor Caitanya. Não é possível concentrar a mente em algo vazio ou impessoal; deve-se fixar a mente na forma pessoal do Senhor, cuja atitude é alegre, como se descreve neste verso. A Bhagavad-gītā declara que a meditação nos aspectos impessoais ou vazios é muito incômoda para o meditador. Aqueles que se vinculam aos aspectos impessoais ou vazios da meditação são obrigados a submeter-se a um processo difícil porque não estamos acostumados a concentrar nossa mente em algo impessoal. Na realidade, tal concentração nem mesmo é possível. A Bhagavad-gītā também confirma que devemos concentrar nossa mente na Personalidade de Deus.
A cor da Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é descrita aqui como nīlotpala-dala, significando que é como a cor de uma flor de lótus com pétalas azuis e brancas. As pessoas sempre perguntam por que Kṛṣṇa é azul. A cor do Senhor não foi imaginada por um artista, senão que é descrita em escrituras autênticas. Também na Brahma-saṁhitā, a cor do corpo de Kṛṣṇa é comparada à cor de uma nuvem azulada. A cor do Senhor não é imaginação poética. Há descrições autorizadas na Brahma-saṁhitā, no Śrīmad-Bhāgavatam, na Bhagavad-gītā e em muitos dos Purāṇas a respeito do corpo do Senhor, Suas armas e todas as Suas demais parafernálias. A aparência do Senhor é descrita aqui como padma-garbhāruṇekṣaṇam. Seus olhos se assemelham ao interior de uma flor de lótus, e, em Suas quatro mãos, Ele porta os quatro símbolos: búzio, disco, maça e lótus.
Devanagari
लसत्पङ्कजकिञ्जल्कपीतकौशेयवाससम् ।
श्रीवत्सवक्षसं भ्राजत्कौस्तुभामुक्तकन्धरम् ॥ १४ ॥
श्रीवत्सवक्षसं भ्राजत्कौस्तुभामुक्तकन्धरम् ॥ १४ ॥
Verse text
lasat-paṅkaja-kiñjalka-
pīta-kauśeya-vāsasam
śrīvatsa-vakṣasaṁ bhrājat
kaustubhāmukta-kandharam
pīta-kauśeya-vāsasam
śrīvatsa-vakṣasaṁ bhrājat
kaustubhāmukta-kandharam
Synonyms
Translation
Ele tem os quadris cobertos por uma veste brilhante, amarelada como os filamentos de um lótus. Traz sobre o peito a marca Śrīvatsa, uma mecha de cabelo branco. A brilhante joia Kaustubha está pendurada em Seu pescoço.
Purport
A cor exata da roupa do Senhor Supremo é descrita como sendo amarelo-açafrão, tal qual o pólen de uma flor de lótus. Também se descreve a joia Kaustubha pendurada sobre Seu peito. Seu pescoço é belamente decorado com joias e pérolas. O Senhor é pleno de seis opulências, uma das quais é a riqueza. Ele Se veste riquissimamente com joias preciosas que não são encontradas dentro deste mundo material.
Devanagari
मत्तद्विरेफकलया परीतं वनमालया ।
परार्ध्यहारवलयकिरीटाङ्गदनूपुरम् ॥ १५ ॥
परार्ध्यहारवलयकिरीटाङ्गदनूपुरम् ॥ १५ ॥
Verse text
matta-dvirepha-kalayā
parītaṁ vana-mālayā
parārdhya-hāra-valaya-
kirīṭāṅgada-nūpuram
parītaṁ vana-mālayā
parārdhya-hāra-valaya-
kirīṭāṅgada-nūpuram
Synonyms
Translation
Além disso, em volta do pescoço, Ele usa uma guirlanda de atrativas flores silvestres, e um enxame de abelhas, inebriadas por sua deliciosa fragrância, zumbem sobre a guirlanda. Ainda traz conSigo um majestoso colar de pérolas, uma coroa e pares de braceletes, pulseiras e argolas de tornozelo.
Purport
Esta descrição indica que a guirlanda de flores da Suprema Personalidade de Deus é fresca. Na verdade, em Vaikuṇṭha, ou o céu espiritual, não há nada além do frescor. Mesmo as flores colhidas das árvores e das plantas permanecem frescas, pois tudo no céu espiritual retém sua originalidade, sem murchar. A fragrância das flores colhidas das árvores e dispostas em guirlandas não desaparece, pois tanto as árvores quanto as flores são espirituais. Quando a flor é tirada da árvore, ela permanece a mesma, sem perder seu aroma. As abelhas se sentem igualmente atraídas pelas flores, estejam elas na guirlanda ou nas árvores. O significado de espiritualidade é que tudo é eterno e inexaurível. Tudo tirado de tudo permanece tudo, ou, como se tem afirmado, no mundo espiritual um menos um é igual a um, e um mais um é igual a um. Em volta das flores frescas, zumbem as abelhas de cujo doce som desfruta o Senhor. Os braceletes, o colar, a coroa e as argolas de tornozelo do Senhor são todos decorados com joias de valor inestimável. Uma vez que as joias e as pérolas são espirituais, seu valor não pode ser calculado materialmente.
Devanagari
काञ्चीगुणोल्लसच्छ्रोणिं हृदयाम्भोजविष्टरम् ।
दर्शनीयतमं शान्तं मनोनयनवर्धनम् ॥ १६ ॥
दर्शनीयतमं शान्तं मनोनयनवर्धनम् ॥ १६ ॥
Verse text
kāñcī-guṇollasac-chroṇiṁ
hṛdayāmbhoja-viṣṭaram
darśanīyatamaṁ śāntaṁ
mano-nayana-vardhanam
hṛdayāmbhoja-viṣṭaram
darśanīyatamaṁ śāntaṁ
mano-nayana-vardhanam
Synonyms
Translation
Com cintura e quadris cingidos por um cinturão, Ele está de pé sobre o lótus do coração de Seu devoto. Ele é muito encantador para o olhar, e Seu aspecto sereno agrada os olhos e a alma dos devotos que O contemplam.
Purport
A palavra darśanīyatamam, usada neste verso, significa que o Senhor é tão belo que o devoto-yogī não deseja ver nada mais. Seu desejo de ver belos objetos é plenamente satisfeito pela visão do Senhor. No mundo material, queremos ver beleza, mas esse desejo nunca é satisfeito. Por causa da contaminação material, nenhuma das propensões que sentimos no mundo material é satisfeita. Porém, ao ligarmos nossos desejos de ver, ouvir, tocar etc. à satisfação da Suprema Personalidade de Deus, eles atingem o nível da perfeição máxima.
Embora a Suprema Personalidade de Deus sob Sua forma eterna seja tão bela e agradável ao coração do devoto, Ele não atrai os impersonalistas, que querem meditar em Seu aspecto impessoal. Tal meditação impessoal é mero esforço infrutífero. Os verdadeiros yogīs, com olhos semicerrados, fixam-se na forma da Suprema Personalidade de Deus, e não em algo vazio ou impessoal.
Devanagari
अपीच्यदर्शनं शश्वत्सर्वलोकनमस्कृतम् ।
सन्तं वयसि कैशोरे भृत्यानुग्रहकातरम् ॥ १७ ॥
सन्तं वयसि कैशोरे भृत्यानुग्रहकातरम् ॥ १७ ॥
Verse text
apīcya-darśanaṁ śaśvat
sarva-loka-namaskṛtam
santaṁ vayasi kaiśore
bhṛtyānugraha-kātaram
sarva-loka-namaskṛtam
santaṁ vayasi kaiśore
bhṛtyānugraha-kātaram
Synonyms
Translation
O Senhor é eternamente belíssimo, e é adorável por todos os habitantes de cada planeta. Ele é sempre jovem e sempre anseia por conceder Sua bênção a Seus devotos.
Purport
A expressão sarva-loka-namaskṛtam significa que Ele é adorável por todos em todos os planetas. Existem inúmeros planetas no mundo material e também inúmeros planetas no mundo espiritual. Em cada planeta, há inúmeros habitantes que adoram o Senhor, pois o Senhor é adorável por todos, menos os impersonalistas. O Senhor Supremo é belíssimo. A palavra śaśvat é significativa. Não é que Ele pareça belo para os devotos, mas, em última análise, seja impessoal. Śaśvat significa “sempre existente”. Essa beleza não é temporária, senão que existe sempre, e Ele é sempre jovem. Na Brahma-saṁhitā (5.33), também se afirma: advaitam acyutam anādim ananta-rūpam ādyaṁ purāṇa-puruṣaṁ nava-yauvanaṁ ca. A pessoa original é única e inigualável, apesar do que nunca parece velha; sempre tem a aparência de uma desabrochante juventude recém-adquirida.
A expressão fácial do Senhor sempre indica que Ele está disposto a mostrar favor e bênção aos devotos; para os não devotos, contudo, Ele é omisso. Como se afirma na Bhagavad-gītā, embora Ele proceda igualmente com relação a todos porque é a Suprema Personalidade de Deus e porque todas as entidades vivas são Seus filhos, Ele Se sente especialmente inclinado àqueles que estão ocupados em serviço devocional. O mesmo fato é confirmado aqui: Ele está sempre ansioso por mostrar favor aos devotos. Assim como os devotos estão sempre ansiosos por prestar serviço à Suprema Personalidade de Deus, da mesma forma, o Senhor está muito ansioso por abençoar os devotos puros.
Devanagari
कीर्तन्यतीर्थयशसं पुण्यश्लोकयशस्करम् ।
ध्यायेद्देवं समग्राङ्गं यावन्न च्यवते मन: ॥ १८ ॥
ध्यायेद्देवं समग्राङ्गं यावन्न च्यवते मन: ॥ १८ ॥
Verse text
kīrtanya-tīrtha-yaśasaṁ
puṇya-śloka-yaśaskaram
dhyāyed devaṁ samagrāṅgaṁ
yāvan na cyavate manaḥ
puṇya-śloka-yaśaskaram
dhyāyed devaṁ samagrāṅgaṁ
yāvan na cyavate manaḥ
Synonyms
Translation
A glória do Senhor é sempre digna de ser cantada, pois Suas glórias ressaltam as glórias de Seus devotos. Portanto, deve-se meditar na Suprema Personalidade de Deus e em Seus devotos. Deve-se meditar na forma eterna do Senhor até que a mente se torne fixa.
Purport
É preciso fixar a mente na Suprema Personalidade de Deus, constantemente. Quem se acostuma a pensar em uma das inúmeras formas do Senhor – Kṛṣṇa, Viṣṇu, Rāma, Nārāyaṇa etc. – alcança a perfeição do yoga. Confirma-se isso na Brahma-saṁhitā: uma pessoa que tenha desenvolvido amor puro por Deus, e cujos olhos estejam untados com o unguento do amoroso intercâmbio transcendental, sempre vê, dentro de seu coração, a Suprema Personalidade de Deus. Os devotos veem especialmente o Senhor na bela forma enegrecida de Śyāmasundara. Essa é a perfeição do yoga. Deve-se continuar com esse sistema de yoga até que a mente não vacile por um instante sequer. Oṁ tad viṣṇoḥ paramaṁ padaṁ sadā paśyanti sūrayaḥ: a forma de Viṣṇu é a individualidade mais elevada e é sempre visível aos sábios e pessoas santas.
O devoto cumpre o mesmo propósito ao adorar a forma do Senhor no templo. Não há diferença entre serviço devocional no templo e meditação na forma do Senhor, visto que a forma do Senhor é a mesma, quer Ele apareça dentro da mente, quer em algum elemento concreto. Existem oito tipos de formas recomendadas para os devotos verem. As formas podem ser feitas de areia, barro, madeira ou pedra, podem ser contempladas dentro da mente ou podem ser feitas de joias, metal ou pinturas coloridas, mas todas as formas têm o mesmo valor. Não é verdade que quem medita na forma dentro da mente vê diferentemente de quem adora a forma no templo. A Suprema Personalidade de Deus é absoluta, de modo que não há diferença entre as duas. Os impersonalistas, que desejam desconsiderar a forma eterna do Senhor, imaginam alguma figura redonda. Eles preferem especialmente o oṁkāra, que também tem forma. Na Bhagavad-gītā, afirma-se que o oṁkāra é a forma em letra do Senhor. De modo semelhante, há formas de estátua e formas pintadas do Senhor.
Another significant word in this verse is puṇya-śloka-yaśaskaram. The devotee is called puṇya-śloka. As one becomes purified by chanting the holy name of the Lord, so one can become purified simply by chanting the name of a holy devotee. The pure devotee of the Lord and the Lord Himself are nondifferent. ItOutra expressão significativa neste verso é puṇya-śloka-yaśaskaram. O devoto é chamado de puṇya-śloka. Assim como nos purificamos cantando o santo nome do Senhor, da mesma forma, podemos nos purificar simplesmente cantando o nome de um devoto santo. O devoto puro do Senhor e o próprio Senhor não são diferentes. Às vezes é possível cantar o nome de um devoto santo. Esse é um processo muito santificado. Certa vez, quando o Senhor Caitanya estava cantando os nomes das gopīs, Seus alunos O criticaram: “Por que estais cantando os nomes das gopīs? Por que não ‘Kṛṣṇa’?” O Senhor Caitanya ficou irritado com a crítica, e assim houve um desentendimento entre Ele e Seus alunos. Ele queria castigá-los por desejarem dar-Lhe instruções sobre o processo transcendental de cantar. is sometimes feasible to chant the name of a holy devotee. This is a very sanctified process. Lord Caitanya was once chanting the holy names of the gopīs when His students criticized Him: “Why are You chanting the names of the gopīs? Why not ‘Kṛṣṇa’?” Lord Caitanya was irritated by the criticism, and so there was some misunderstanding between Him and His students. He wanted to chastise them for desiring to instruct Him on the transcendental process of chanting.
A beleza do Senhor é que os devotos que estão ligados a Suas atividades também são glorificados. Arjuna, Prahlāda, Janaka Mahārāja, Bali Mahārāja e muitos outros devotos não estavam sequer na ordem de vida renunciada, senão que eram chefes de família. Alguns deles, como Prahlāda Mahārāja e Bali Mahārāja, haviam nascido em famílias demoníacas. O pai de Prahlāda Mahārāja era um demônio, e Bali Mahārāja era neto de Prahlāda Mahārāja, mas, ainda assim, tornaram-se famosos por causa de sua associação com o Senhor. A conclusão é que o yogī perfeito deve acostumar-se a sempre ver a forma do Senhor, e, a não ser que a mente esteja fixa dessa maneira, deve continuar praticando yoga.
Devanagari
स्थितं व्रजन्तमासीनं शयानं वा गुहाशयम् ।
प्रेक्षणीयेहितं ध्यायेच्छुद्धभावेन चेतसा ॥ १९ ॥
प्रेक्षणीयेहितं ध्यायेच्छुद्धभावेन चेतसा ॥ १९ ॥
Verse text
sthitaṁ vrajantam āsīnaṁ
śayānaṁ vā guhāśayam
prekṣaṇīyehitaṁ dhyāyec
chuddha-bhāvena cetasā
śayānaṁ vā guhāśayam
prekṣaṇīyehitaṁ dhyāyec
chuddha-bhāvena cetasā
Synonyms
Translation
Assim, sempre imerso em serviço devocional, o yogī visualiza o Senhor de pé, em movimento, deitado ou sentado dentro de si, pois os passatempos do Senhor Supremo são sempre belos e atrativos.
Purport
O processo de meditar internamente na forma da Suprema Personalidade de Deus e o processo de cantar as glórias e passatempos do Senhor são a mesma coisa. A única diferença é que é mais fácil ouvir e fixar a mente nos passatempos do Senhor do que visualizar a forma do Senhor dentro do coração, porque, tão logo se comece a pensar no Senhor, especialmente nesta era, a mente fica perturbada e, devido a tanta agitação, o processo de ver o Senhor internamente é interrompido. Contudo, quando há alguma vibração sonora louvando os passatempos transcendentais do Senhor, somos forçados a ouvir. Esse processo de ouvir entra na mente, e a prática de yoga executa-se automaticamente. Por exemplo, mesmo uma criança pode ouvir e se beneficiar de meditar nos passatempos do Senhor simplesmente ouvindo uma leitura do Bhāgavatam que descreve o Senhor indo para o pasto com Suas vacas e Seus amigos. O ato de ouvir inclui o emprego da mente. Nesta era de Kali-yuga, o Senhor Caitanya recomenda que devemos nos ocupar sempre em cantar e ouvir a Bhagavad-gītā. O Senhor também diz que os mahātmās, ou grandes almas, sempre se ocupam no processo de cantar as glórias do Senhor, e, simplesmente ouvindo-os, outras pessoas obtêm o mesmo benefício. O yoga exige meditação nos passatempos transcendentais do Senhor, quer Ele esteja de pé, em movimento, deitado etc.
Devanagari
तस्मिँल्लब्धपदं चित्तं सर्वावयवसंस्थितम् ।
विलक्ष्यैकत्र संयुज्यादङ्गे भगवतो मुनि: ॥ २० ॥
विलक्ष्यैकत्र संयुज्यादङ्गे भगवतो मुनि: ॥ २० ॥
Verse text
tasmiḻ labdha-padaṁ cittaṁ
sarvāvayava-saṁsthitam
vilakṣyaikatra saṁyujyād
aṅge bhagavato muniḥ
sarvāvayava-saṁsthitam
vilakṣyaikatra saṁyujyād
aṅge bhagavato muniḥ
Synonyms
Translation
Ao fixar sua mente na forma eterna do Senhor, o yogī não deve manter uma visão coletiva de todos os Seus membros, senão que deve fixar a mente em cada membro individual do Senhor.
Purport
A palavra muni é muito significativa. Muni significa aquele que é muito hábil em especulação mental ou em pensar, sentir e querer. Ele não é mencionado aqui como um devoto ou yogī. Aqueles que tentam meditar na forma do Senhor são chamados de munis, ou menos inteligentes, ao passo que aqueles que prestam verdadeiro serviço ao Senhor são chamados de bhakti-yogīs. O processo de pensamento descrito abaixo destina-se à educação do muni. A fim de convencer o yogī de que a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus, não é, em tempo algum, impessoal, os versos seguintes mandam observar o Senhor em Sua forma pessoal, membro após membro. Pensar no Senhor como um todo pode às vezes ser impessoal; portanto, recomenda-se aqui que primeiramente se pense em Seus pés de lótus, depois em Seus tornozelos, depois nas coxas, depois na cintura, depois no peito, depois no pescoço, depois no rosto e assim por diante. Deve-se começar dos pés de lótus e, aos poucos, elevar-se aos membros superiores do corpo transcendental do Senhor.
Devanagari
सञ्चिन्तयेद्भगवतश्चरणारविन्दं
वज्राङ्कुशध्वजसरोरुहलाञ्छनाढ्यम् ।
उत्तुङ्गरक्तविलसन्नखचक्रवाल-
ज्योत्स्नाभिराहतमहद्धृदयान्धकारम् ॥ २१ ॥
वज्राङ्कुशध्वजसरोरुहलाञ्छनाढ्यम् ।
उत्तुङ्गरक्तविलसन्नखचक्रवाल-
ज्योत्स्नाभिराहतमहद्धृदयान्धकारम् ॥ २१ ॥
Verse text
sañcintayed bhagavataś caraṇāravindaṁ
vajrāṅkuśa-dhvaja-saroruha-lāñchanāḍhyam
uttuṅga-rakta-vilasan-nakha-cakravāla-
jyotsnābhir āhata-mahad-dhṛdayāndhakāram
vajrāṅkuśa-dhvaja-saroruha-lāñchanāḍhyam
uttuṅga-rakta-vilasan-nakha-cakravāla-
jyotsnābhir āhata-mahad-dhṛdayāndhakāram
Synonyms
sañcintayet — deve concentrar-se; bhagavataḥ — do Senhor; caraṇa-aravindam — nos pés de lótus; vajra — raio; aṅkuśa — cajado (bastão para conduzir elefantes); dhvaja — bandeira; saroruha — lótus; lāñchana — marcas; āḍhyam — adornado com; uttuṅga — proeminentes; rakta — vermelhas; vilasat — brilhantes; nakha — unhas; cakravāla — o círculo da Lua; jyotsnābhiḥ — com esplendor; āhata — dissipada; mahat — densa; hṛdaya — do coração; andhakāram — escuridão.
Translation
O devoto deve primeiramente concentrar sua mente nos pés de lótus do Senhor, que são adornados com as marcas de um raio, um cajado, uma bandeira e um lótus. O esplendor de suas belas unhas rosadas assemelha-se à órbita da Lua e dissipa a densa escuridão do coração.
Purport
O māyāvādī diz que, por sermos incapazes de fixar a mente na existência impessoal da Verdade Absoluta, podemos imaginar qualquer forma que desejemos e fixar a mente nessa forma imaginária, mas esse processo não é recomendado aqui. Imaginação é sempre imaginação e resulta somente em mais imaginação.
Apresenta-se aqui uma descrição concreta da forma eterna do Senhor. A planta dos pés do Senhor é pintada com traços característicos, semelhantes a um raio, uma bandeira, uma flor de lótus e um cajado. O brilho das unhas de Seus pés, que se destacam por sua refulgência, assemelha-se ao luar. O yogī que contemplar as marcas da planta dos pés do Senhor e o brilho esplêndido de Suas unhas poderá libertar-se da escuridão da ignorância na existência material. A libertação não é alcançada mediante a especulação mental, mas, sim, por se ver a luz que emana das lustrosas unhas dos pés do Senhor. Em outras palavras, primeiramente temos de fixar nossa mente nos pés de lótus do Senhor, caso queiramos livrar-nos da escuridão da ignorância na existência material.
Devanagari
यच्छौचनि:सृतसरित्प्रवरोदकेन
तीर्थेन मूर्ध्न्यधिकृतेन शिव: शिवोऽभूत् ।
ध्यातुर्मन:शमलशैलनिसृष्टवज्रं
ध्यायेच्चिरं भगवतश्चरणारविन्दम् ॥ २२ ॥
तीर्थेन मूर्ध्न्यधिकृतेन शिव: शिवोऽभूत् ।
ध्यातुर्मन:शमलशैलनिसृष्टवज्रं
ध्यायेच्चिरं भगवतश्चरणारविन्दम् ॥ २२ ॥
Verse text
yac-chauca-niḥsṛta-sarit-pravarodakena
tīrthena mūrdhny adhikṛtena śivaḥ śivo ’bhūt
dhyātur manaḥ-śamala-śaila-nisṛṣṭa-vajraṁ
dhyāyec ciraṁ bhagavataś caraṇāravindam
tīrthena mūrdhny adhikṛtena śivaḥ śivo ’bhūt
dhyātur manaḥ-śamala-śaila-nisṛṣṭa-vajraṁ
dhyāyec ciraṁ bhagavataś caraṇāravindam
Synonyms
yat — os pés de lótus do Senhor; śauca — lavando; niḥsṛta — surgida; sarit-pravara — do Ganges; udakena — pela água; tīrthena — sagrada; mūrdhni — sobre sua cabeça; adhikṛtena — sustentada; śivaḥ — senhor Śiva; śivaḥ — auspicioso; abhūt — tornou-se; dhyātuḥ — do meditador; manaḥ — na mente; śamala-śaila — a montanha de pecado; nisṛṣṭa — fulminado; vajram — raio; dhyāyet — deve-se meditar; ciram — por longo tempo; bhagavataḥ — do Senhor; caraṇa-aravindam — nos pés de lótus.
Translation
O abençoado senhor Śiva se torna ainda mais abençoado por carregar sobre sua cabeça as águas sagradas do Ganges, cuja nascente encontra-se na água que lavou os pés de lótus do Senhor. Os pés do Senhor atuam como raios lançados para despedaçar a montanha de pecado acumulada na mente do devoto que medita. Portanto, deve-se meditar nos pés de lótus do Senhor por um longo tempo.
Purport
Neste verso, menciona-se especificamente a posição do senhor Śiva. O impersonalista sugere que a Verdade Absoluta não tem forma e que, por isso, pode-se igualmente imaginar a forma de Viṣṇu, ou do senhor Śiva, ou da deusa Durgā, ou do filho deles, Gaṇeśa. Mas, na verdade, a Suprema Personalidade de Deus é o senhor supremo de todos. No Caitanya-caritāmṛta (Ādi 5.142), declara-se que ekale īśvara kṛṣṇa, ara saba bhṛtya: o Senhor Supremo é Kṛṣṇa, e todos mais, incluindo o senhor Śiva e o senhor Brahmā – para não mencionar outros semideuses – são servos de Kṛṣṇa. O mesmo princípio descreve-se aqui. O senhor Śiva é importante porque carrega sobre sua cabeça a água sagrada do Ganges, cuja origem está no banho dos pés do Senhor Viṣṇu. No Hari-bhakti-vilāsa, de Sanātana Gosvāmī, afirma-se que quem quer que coloque o Senhor Supremo e os semideuses, incluindo o senhor Śiva e o senhor Brahmā, no mesmo nível, torna-se imediatamente um pāṣaṇḍī, ou ateísta. Jamais devemos considerar que o Supremo Senhor Viṣṇu e os semideuses estão em pé de igualdade.
Outro ponto significativo deste verso é que a mente da alma condicionada, por estar em contato com a energia material desde tempos imemoriais, contém montes de sujeira sob a forma de desejos de assenhorear-se da natureza material. Essa sujeira é como uma montanha, mas uma montanha pode ser despedaçada ao ser atingida por um raio. A meditação nos pés de lótus do Senhor atua como um raio sobre a montanha de sujeira na mente do yogī. Se o yogī quiser fulminar a montanha de sujeira que há em sua mente, deverá concentrar-se nos pés de lótus do Senhor, e não imaginar algo vazio ou impessoal. Como a poeira tem-se acumulado como uma sólida montanha, deve-se meditar nos pés de lótus do Senhor por bastante tempo. Para quem está acostumado a pensar nos pés de lótus do Senhor constantemente, no entanto, o assunto é outro. Os devotos são tão fixos nos pés de lótus do Senhor que não pensam em nada mais. Aqueles que praticam o sistema de yoga precisam meditar nos pés de lótus do Senhor por um longo tempo após seguirem os princípios reguladores e, por esse meio, controlar os sentidos.
Menciona-se aqui especificamente que bhagavataś caraṇāravindam: tem-se de meditar nos pés de lótus do Senhor. Os māyāvādīs imaginam que se pode pensar nos pés de lótus do senhor Śiva, ou do senhor Brahmā, ou da deusa Durgā para alcançar a liberação, mas não é assim. Menciona-se especificamente o termo bhagavataḥ, que significa “da Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu”, e de ninguém mais. Outra frase significativa neste verso é śivaḥ śivo ’bhūt. Por sua posição constitucional, o senhor Śiva é sempre grandioso e auspicioso, mas, por ter aceitado sobre sua cabeça a água do Ganges, que emanou dos pés de lótus do Senhor, ele se torna ainda mais auspicioso e importante. Enfatizam-se os pés de lótus do Senhor. Se uma relação com os pés de lótus do Senhor pode aprimorar a importância inclusive do senhor Śiva, o que dizer, então, de outras entidades vivas comuns?
Devanagari
जानुद्वयं जलजलोचनया जनन्या
लक्ष्म्याखिलस्य सुरवन्दितया विधातु: ।
ऊर्वोर्निधाय करपल्लवरोचिषा यत्
संलालितं हृदि विभोरभवस्य कुर्यात् ॥ २३ ॥
लक्ष्म्याखिलस्य सुरवन्दितया विधातु: ।
ऊर्वोर्निधाय करपल्लवरोचिषा यत्
संलालितं हृदि विभोरभवस्य कुर्यात् ॥ २३ ॥
Verse text
jānu-dvayaṁ jalaja-locanayā jananyā
lakṣmyākhilasya sura-vanditayā vidhātuḥ
ūrvor nidhāya kara-pallava-rociṣā yat
saṁlālitaṁ hṛdi vibhor abhavasya kuryāt
lakṣmyākhilasya sura-vanditayā vidhātuḥ
ūrvor nidhāya kara-pallava-rociṣā yat
saṁlālitaṁ hṛdi vibhor abhavasya kuryāt
Synonyms
jānu-dvayam — até os joelhos; jalaja-locanayā — de olhos de lótus; jananyā — mãe; lakṣmyā — por Lakṣmī; akhilasya — de todo o universo; sura-vanditayā — adorada pelos semideuses; vidhātuḥ — de Brahmā; ūrvoḥ — nas coxas; nidhāya — tendo colocado; kara-pallava-rociṣā — com seus dedos brilhantes; yat — os quais; saṁlālitam — massageado; hṛdi — no coração; vibhoḥ — do Senhor; abhavasya — transcendental à existência material; kuryāt — deve-se meditar.
Translation
O yogī deve fixar em seu coração as atividades de Lakṣmī, a deusa da fortuna, que é adorada por todos os semideuses e é a mãe de Brahmā, a pessoa suprema. Pode-se encontrá-la sempre massageando as pernas e as coxas do Senhor Transcendental, servindo-O dessa maneira com muito cuidado.
Purport
Brahmā é o senhor nomeado do universo. Como seu pai é Garbhodakaśāyī Viṣṇu, Lakṣmī, a deusa da fortuna, é automaticamente sua mãe. Lakṣmī é adorada por todos os semideuses e também pelos habitantes de outros planetas. Os seres humanos também anseiam por receber o favor da deusa da fortuna. Lakṣmījī está sempre ocupada em massagear as pernas e coxas da Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa, que está deitado no oceano de Garbha dentro do universo. Brahmā é descrito nesta passagem como o filho da deusa da fortuna, mas, na verdade, ele não nasceu do ventre dela. Brahmā nasce do abdômen do próprio Senhor. Do abdômen de Garbhodakaśāyī Viṣṇu, cresce uma flor de lótus, da qual nasce Brahmā. Portanto, a massagem que Lakṣmījī faz nas coxas do Senhor não deve ser tomada como o comportamento de uma esposa comum. O Senhor é transcendental ao comportamento de macho e fêmea comuns. A palavra abhavasya é muito significativa, pois indica que Ele pôde produzir Brahmā sem a assistência da deusa da fortuna.
Visto que o comportamento transcendental é diferente do comportamento mundano, não se deve considerar que o Senhor recebe serviço de Sua esposa assim como um semideus ou um ser humano receberiam serviço de suas esposas. Este verso aconselha o yogī a sempre manter este quadro em seu coração. O devoto sempre pensa nesta relação entre Lakṣmī e Nārāyaṇa; portanto, ele não medita no plano mental, como o fazem os impersonalistas e niilistas.
Bhava significa “aquele que aceita um corpo material”, e abhava significa “aquele que não aceita um corpo material, senão que desce com o corpo espiritual original”. O Senhor Nārāyaṇa não nasce a partir de algo material. A matéria é gerada a partir da matéria, mas Ele não nasce a partir da matéria. Brahmā nasce após a criação, mas, uma vez que o Senhor existia antes da criação, o Senhor não tem corpo material.
Devanagari
ऊरू सुपर्णभुजयोरधिशोभमानाव्-
ओजोनिधी अतसिकाकुसुमावभासौ ।
व्यालम्बिपीतवरवाससि वर्तमान
काञ्चीकलापपरिरम्भि नितम्बबिम्बम् ॥ २४ ॥
ओजोनिधी अतसिकाकुसुमावभासौ ।
व्यालम्बिपीतवरवाससि वर्तमान
काञ्चीकलापपरिरम्भि नितम्बबिम्बम् ॥ २४ ॥
Verse text
ūrū suparṇa-bhujayor adhi śobhamānāv
ojo-nidhī atasikā-kusumāvabhāsau
vyālambi-pīta-vara-vāsasi vartamāna-
kāñcī-kalāpa-parirambhi nitamba-bimbam
ojo-nidhī atasikā-kusumāvabhāsau
vyālambi-pīta-vara-vāsasi vartamāna-
kāñcī-kalāpa-parirambhi nitamba-bimbam
Synonyms
ūrū — as duas coxas; suparṇa — de Garuḍa; bhujayoḥ — os dois ombros; adhi — sobre; śobhamānau — belas; ojaḥ-nidhī — o reservatório de toda a energia; atasikā-kusuma — da flor de linhaça; avabhāsau — como o brilho; vyālambi — estendendo-se abaixo; pīta — amarela; vara — esplêndida; vāsasi — na roupa; vartamāna — sendo; kāñcī-kalāpa — por um cinturão; parirambhi — cingidos; nitamba-bimbam — Seus quadris arredondados.
Translation
Em seguida, o yogi deve fixar sua mente em meditação nas coxas da Personalidade de Deus, o reservatório de toda energia. As coxas do Senhor são da cor azul esbranquiçada, como o brilho da flor de linhaça, e parecem graciosíssimas quando o Senhor é transportado sobre os ombros de Garuḍa. Além disso, o yogī deve contemplar Seus quadris arredondados, os quais são cingidos por um cinturão que repousa na esplêndida roupa de seda amarela que se estende até Seus tornozelos.
Purport
A Personalidade de Deus é o reservatório de toda a força, e Sua força repousa nas coxas de Seu corpo transcendental. Todo o Seu corpo é pleno de opulências: todas as riquezas, toda a força, toda a fama, toda a beleza, todo o conhecimento e toda a renúncia. O yogī é aconselhado a meditar na forma transcendental do Senhor, começando da planta dos pés e, então, elevando-se gradualmente aos joelhos, às coxas, e chegando, finalmente, ao rosto. O sistema de meditar na Suprema Personalidade de Deus começa a partir de Seus pés.
A descrição da forma transcendental do Senhor está exatamente representada no arcā-vigraha, a estátua nos templos. De um modo geral, a parte inferior do corpo da estátua do Senhor está coberta com seda amarela. Essa é a veste de Vaikuṇṭha, ou seja, a roupa que o Senhor usa no céu espiritual. Essa roupa se estende até os tornozelos do Senhor. Assim, uma vez que o yogī tem tantos objetivos transcendentais em que meditar, não há razão para ele meditar em algo imaginário, como é praxe entre os ditos yogīs cujo objetivo é impessoal.
Devanagari
नाभिह्रदं भुवनकोशगुहोदरस्थं
यत्रात्मयोनिधिषणाखिललोकपद्मम् ।
व्यूढं हरिन्मणिवृषस्तनयोरमुष्य
ध्यायेद्द्वयं विशदहारमयूखगौरम् ॥ २५ ॥
यत्रात्मयोनिधिषणाखिललोकपद्मम् ।
व्यूढं हरिन्मणिवृषस्तनयोरमुष्य
ध्यायेद्द्वयं विशदहारमयूखगौरम् ॥ २५ ॥
Verse text
nābhi-hradaṁ bhuvana-kośa-guhodara-sthaṁ
yatrātma-yoni-dhiṣaṇākhila-loka-padmam
vyūḍhaṁ harin-maṇi-vṛṣa-stanayor amuṣya
dhyāyed dvayaṁ viśada-hāra-mayūkha-gauram
yatrātma-yoni-dhiṣaṇākhila-loka-padmam
vyūḍhaṁ harin-maṇi-vṛṣa-stanayor amuṣya
dhyāyed dvayaṁ viśada-hāra-mayūkha-gauram
Synonyms
nābhi-hradam — o lago umbilical; bhuvana-kośa — de todos os mundos; guhā — o alicerce; udara — sobre o abdômen; stham — situado; yatra — onde; ātma-yoni — de Brahmā; dhiṣaṇa — residência; akhila-loka — contendo todos os sistemas planetários; padmam — lótus; vyūḍham — brotou; harit-maṇi — como esmeraldas; vṛṣa — finíssimas; stanayoḥ — dos mamilos; amuṣya — do Senhor; dhyāyet — deve meditar em; dvayam — o par; viśada — branco; hāra — de colares de pérola; mayūkha — da luz; gauram — brancos.
Translation
O yogī, então, deve meditar em Seu umbigo semelhante à Lua, no centro de Seu abdômen. De Seu umbigo, que é o alicerce de todo o universo, brotou o caule de lótus que contém todos os diferentes sistemas planetários. O lótus é a residência de Brahmā, a primeira criatura. Da mesma maneira, o yogī deve concentrar sua mente nos mamilos do Senhor, que parecem um par de finíssimas esmeraldas e que parecem brancos por causa dos raios dos colares de pérolas da cor do leite que Lhe adornam o peito.
Purport
Continuando, o yogī é aconselhado a meditar no umbigo do Senhor, que é o alicerce de toda a criação material. Assim como uma criança está ligada à sua mãe pelo cordão umbilical, da mesma forma, pela vontade suprema do Senhor, Brahmā, a criatura viva primogênita, está ligado ao Senhor por um caule de lótus. No verso anterior, afirmou-se que a deusa da fortuna, Lakṣmī, a qual se dedica a massagear as pernas, tornozelos e coxas do Senhor, é chamada de mãe de Brahmā, mas, na verdade, Brahmā nasce do abdômen do Senhor, e não do abdômen de sua mãe. Essas são concepções inconcebíveis do Senhor, e não se deve pensar materialmente – “Como o pai pode dar à luz um filho?”
Na Brahma-saṁhitā, explica-se que cada membro do Senhor tem a potência de todos os demais membros; como tudo é espiritual, Seus membros não são condicionados. O Senhor pode ver com Seus ouvidos. O ouvido material pode ouvir, mas não pode ver, mas a Brahma-saṁhitā nos ensina que o Senhor também pode ver com Seus ouvidos e ouvir com Seus olhos. Qualquer órgão do Seu corpo transcendental pode funcionar como qualquer outro órgão. Seu abdômen é o alicerce de todos os sistemas planetários. Brahmā ocupa o posto de criador de todos os sistemas planetários, mas sua energia engendradora é produzida a partir do abdômen do Senhor. Qualquer função criadora no universo sempre tem um elo direto com o Senhor. O colar de pérolas que decora a parte superior do corpo do Senhor também é espiritual, de modo que o yogī é aconselhado a olhar fixamente para o brilho branco das pérolas que decoram Seu peito.
Devanagari
वक्षोऽधिवासमृषभस्य महाविभूते:
पुंसां मनोनयननिर्वृतिमादधानम् ।
कण्ठं च कौस्तुभमणेरधिभूषणार्थं
कुर्यान्मनस्यखिललोकनमस्कृतस्य ॥ २६ ॥
पुंसां मनोनयननिर्वृतिमादधानम् ।
कण्ठं च कौस्तुभमणेरधिभूषणार्थं
कुर्यान्मनस्यखिललोकनमस्कृतस्य ॥ २६ ॥
Verse text
vakṣo ’dhivāsam ṛṣabhasya mahā-vibhūteḥ
puṁsāṁ mano-nayana-nirvṛtim ādadhānam
kaṇṭhaṁ ca kaustubha-maṇer adhibhūṣaṇārthaṁ
kuryān manasy akhila-loka-namaskṛtasya
puṁsāṁ mano-nayana-nirvṛtim ādadhānam
kaṇṭhaṁ ca kaustubha-maṇer adhibhūṣaṇārthaṁ
kuryān manasy akhila-loka-namaskṛtasya
Synonyms
vakṣaḥ — o peito; adhivāsam — a morada; ṛṣabhasya — da Suprema Personalidade de Deus; mahā-vibhūteḥ — de Mahā-Lakṣmī; puṁsām — de pessoas; manaḥ — para a mente; nayana — para os olhos; nirvṛtim — prazer transcendental; ādadhānam — concedendo; kaṇṭham — o pescoço; ca — também; kaustubha-maṇeḥ — da joia Kaustubha; adhibhūṣaṇa-artham — que realça a beleza; kuryāt — deve meditar em; manasi — na mente; akhila-loka — por todo o universo; namaskṛtasya — que é adorada.
Translation
O yogī, em seguida, deve meditar no peito da Suprema Personalidade de Deus, a morada da deusa Mahā-Lakṣmī. O peito do Senhor é a fonte de todo o prazer transcendental para a mente e de plena satisfação para os olhos. O yogī, então, deve imprimir em sua mente o pescoço da Personalidade de Deus, a quem todo o universo adora. O pescoço do Senhor serve para realçar a beleza da joia Kaustubha, que está pendurada sobre Seu peito.
Purport
Nas Upaniṣads, afirma-se que as várias energias do Senhor funcionam para criar, destruir e manter. Essas variedades inconcebíveis de energia estão armazenadas no peito do Senhor. Como as pessoas geralmente dizem, Deus é todo-poderoso. Essa potência é representada por Mahā-Lakṣmī, o reservatório de todas as energias, que se encontra no peito da forma transcendental do Senhor. O yogī que pode meditar perfeitamente naquela parte da forma transcendental do Senhor pode obter muitos poderes materiais, que compreendem as oito perfeições do sistema de yoga.
Afirma-se nesta passagem que a beleza do pescoço do Senhor realça a beleza da joia Kaustubha, ao invés de a joia realçar a beleza do Senhor. A própria joia fica mais bela porque se encontra no pescoço do Senhor. Portanto, recomenda-se que o yogī medite no pescoço do Senhor. Pode-se meditar na forma transcendental do Senhor com a mente, ou pode-se colocá-la num templo sob a forma de estátua e decorá-la de tal maneira que todos possam contemplá-la. A adoração no templo, portanto, destina-se a dar a pessoas que não sejam tão avançadas a possibilidade de meditar na forma do Senhor. Não há diferença entre visitar constantemente o templo e ver diretamente a forma transcendental do Senhor – tanto uma coisa quanto a outra têm o mesmo valor. A posição vantajosa do yogī é que ele pode sentar-se em qualquer parte, num lugar solitário, e meditar na forma do Senhor. Uma pessoa menos avançada, entretanto, tem que ir ao templo, e, se não vai ao templo, não consegue ver a forma do Senhor. Seja por ouvir, ver ou meditar, o objetivo é a forma transcendental do Senhor – o niilismo ou impersonalismo fica fora de cogitação. O Senhor pode conceder as bênçãos de prazer transcendental, ou ao visitante do templo, ou ao yogī meditador, ou a quem ouve de escrituras reveladas como o Śrīmad-Bhāgavatam e a Bhagavad-gītā sobre a forma transcendental do Senhor. Há nove processos para se executar serviço devocional, um dos quais é smaranam, ou meditação. Os yogīs tiram proveito do processo de smaraṇam, ao passo que os bhakti-yogīs tiram proveito especial do processo de ouvir e cantar.
Devanagari
बाहूंश्च मन्दरगिरे: परिवर्तनेन
निर्णिक्तबाहुवलयानधिलोकपालान् ।
सञ्चिन्तयेद्दशशतारमसह्यतेज:
शङ्खं च तत्करसरोरुहराजहंसम् ॥ २७ ॥
निर्णिक्तबाहुवलयानधिलोकपालान् ।
सञ्चिन्तयेद्दशशतारमसह्यतेज:
शङ्खं च तत्करसरोरुहराजहंसम् ॥ २७ ॥
Verse text
bāhūṁś ca mandara-gireḥ parivartanena
nirṇikta-bāhu-valayān adhiloka-pālān
sañcintayed daśa-śatāram asahya-tejaḥ
śaṅkhaṁ ca tat-kara-saroruha-rāja-haṁsam
nirṇikta-bāhu-valayān adhiloka-pālān
sañcintayed daśa-śatāram asahya-tejaḥ
śaṅkhaṁ ca tat-kara-saroruha-rāja-haṁsam
Synonyms
bāhūn — os braços; ca — e; mandara-gireḥ — do monte Mandara; parivartanena — pelo girar; nirṇikta — polidos; bāhu-valayān — os ornamentos dos braços; adhiloka-pālān — a fonte dos controladores do universo; sañcintayet — deve-se meditar em; daśa-śata-aram — o disco Sudarśana (mil raios); asahya-tejaḥ — brilho deslumbrante; śaṅkham — o búzio; ca — também; tat-kara — na mão do Senhor; saroruha — semelhante ao lótus; rāja-haṁsam — como um cisne.
Translation
O yogī deve, em seguida, meditar nos quatro braços do Senhor, que são a fonte de todos os poderes dos semideuses que controlam as diversas funções da natureza material. Então, o yogī deve concentrar-se nos ornamentos polidos, que foram lustrados pelo monte Mandara enquanto este girava. Ele também deve contemplar devidamente o disco do Senhor, o cakra Sudarśana, que contém mil raios e um brilho deslumbrante, bem como o búzio, que parece um cisne na palma de lótus de Sua mão.
Purport
Todas as divisões da lei e da ordem emanam dos braços da Suprema Personalidade de Deus. A lei e a ordem do universo são dirigidas por diferentes semideuses, e aqui se diz que emanam dos braços do Senhor. Menciona-se aqui o monte Mandara porque, quando os demônios bateram o oceano de um lado e os semideuses do outro, o monte Mandara foi usado como batedeira. O Senhor em Sua encarnação como tartaruga tornou-Se o pivô para a batedeira, e assim a rotação do monte Mandara poliu Seus ornamentos. Em outras palavras, os ornamentos nos braços do Senhor são tão brilhantes e lustrosos que parecem ter sido polidos muito recentemente. A roda na mão do Senhor, chamada cakra Sudarśana, tem mil raios. O yogī é aconselhado a meditar em cada um desses raios. Ele deve meditar em toda e cada parte componente da forma transcendental do Senhor.
Devanagari
कौमोदकीं भगवतो दयितां स्मरेत
दिग्धामरातिभटशोणितकर्दमेन ।
मालां मधुव्रतवरूथगिरोपघुष्टां
चैत्यस्य तत्त्वममलं मणिमस्य कण्ठे ॥ २८ ॥
दिग्धामरातिभटशोणितकर्दमेन ।
मालां मधुव्रतवरूथगिरोपघुष्टां
चैत्यस्य तत्त्वममलं मणिमस्य कण्ठे ॥ २८ ॥
Verse text
kaumodakīṁ bhagavato dayitāṁ smareta
digdhām arāti-bhaṭa-śoṇita-kardamena
mālāṁ madhuvrata-varūtha-giropaghuṣṭāṁ
caityasya tattvam amalaṁ maṇim asya kaṇṭhe
digdhām arāti-bhaṭa-śoṇita-kardamena
mālāṁ madhuvrata-varūtha-giropaghuṣṭāṁ
caityasya tattvam amalaṁ maṇim asya kaṇṭhe
Synonyms
kaumodakīm — a maça chamada Kaumodakī; bhagavataḥ — da Personalidade de Deus; dayitām — muito querida; smareta — deve-se lembrar; digdhām — untada; arāti — dos inimigos; bhaṭa — soldados; śoṇita-kardamena — com as manchas de sangue; mālām — a guirlanda; madhuvrata — dos zangões; varūtha — de um enxame; girā — com o som; upaghuṣṭām — rodeada; caityasya — da entidade viva; tattvam — princípio, verdade; amalam — pura; maṇim — o colar de pérola; asya — do Senhor; kaṇṭhe — no pescoço.
Translation
O yogī deve meditar em Sua maça, que se chama Kaumodakī e Lhe é muito querida. Essa maça esmaga os demônios, que sempre são soldados hostis, e é untada com o sangue deles. Deve, também, concentrar-se na bela guirlanda no pescoço do Senhor, que está sempre rodeada por zangões, com seu agradável zumbido, e deve meditar no colar de pérolas no pescoço do Senhor, o qual é considerado representativo das entidades vivas puras que estão sempre ocupadas a Seu serviço.
Purport
O yogī deve contemplar as diferentes partes do corpo transcendental do Senhor. Afirma-se aqui que se deve entender a posição constitucional das entidades vivas. Duas classes de entidades vivas são aqui mencionadas. Uma se chama arāti. Elas são avessas ao entendimento dos passatempos da Suprema Personalidade de Deus. Para elas, o Senhor aparece com Sua mão vibrando a terrível maça, a qual sempre está untada com as manchas de sangue de Sua matança de demônios. Os demônios também são filhos da Suprema Personalidade de Deus. Como se afirma na Bhagavad-gītā, todas as diferentes espécies de entidades vivas são filhos da Suprema Personalidade de Deus. Contudo, há duas classes de entidades vivas, que agem de duas maneiras diferentes. O Senhor Supremo mantém em Seu pescoço aquelas entidades vivas que são puras, assim como alguém protege as joias e pérolas no peito e no pescoço de seu corpo. As entidades vivas em estado de consciência de Kṛṣṇa pura são simbolizadas pelas pérolas em Seu pescoço. Por outro lado, aqueles que são demônios e hostis aos passatempos da Suprema Personalidade de Deus são punidos por Sua maça, que sempre está untada com o sangue dessas entidades vivas caídas. A maça do Senhor é-Lhe muito querida porque Ele usa esse instrumento para esmagar os corpos dos demônios e misturar o sangue deles. Assim como a lama é uma mistura de água e terra, da mesma forma, os corpos terrenos dos inimigos do Senhor, ou seja, os ateístas, são esmagados pela maça do Senhor, que se enlameia com o sangue desses demônios.
Devanagari
भृत्यानुकम्पितधियेह गृहीतमूर्ते:
सञ्चिन्तयेद्भगवतो वदनारविन्दम् ।
यद्विस्फुरन्मकरकुण्डलवल्गितेन
विद्योतितामलकपोलमुदारनासम् ॥ २९ ॥
सञ्चिन्तयेद्भगवतो वदनारविन्दम् ।
यद्विस्फुरन्मकरकुण्डलवल्गितेन
विद्योतितामलकपोलमुदारनासम् ॥ २९ ॥
Verse text
bhṛtyānukampita-dhiyeha gṛhīta-mūrteḥ
sañcintayed bhagavato vadanāravindam
yad visphuran-makara-kuṇḍala-valgitena
vidyotitāmala-kapolam udāra-nāsam
sañcintayed bhagavato vadanāravindam
yad visphuran-makara-kuṇḍala-valgitena
vidyotitāmala-kapolam udāra-nāsam
Synonyms
bhṛtya — pelos devotos; anukampita-dhiyā — por compaixão; iha — neste mundo; gṛhīta-mūrteḥ — que mostra diferentes formas; sañcintayet — deve-se meditar em; bhagavataḥ — da Personalidade de Deus; vadana — semblante; aravindam — semelhante ao lótus; yat — o qual; visphuran — reluzente; makara — em forma de crocodilo; kuṇḍala — de Seus brincos; valgitena — pelo oscilar; vidyotita — iluminadas; amala — cristalinas; kapolam — Suas bochechas; udāra — proeminente; nāsam — Seu nariz.
Translation
Então, o yogī deve meditar no semblante de lótus do Senhor, que apresenta Suas diferentes formas neste mundo por compaixão pelos devotos ansiosos. Seu nariz é proeminente, e Suas bochechas cristalinas são iluminadas pelo oscilar de Seus reluzentes brincos em forma de crocodilo.
Purport
O Senhor desce ao mundo material devido à Sua profunda compaixão por Seus devotos. Há duas razões para o aparecimento ou encarnação do Senhor no mundo material. Sempre que há negligência no desempenho dos princípios religiosos e há preponderância de irreligião, o Senhor desce para proteger os devotos e destruir os não-devotos. Quando Ele aparece, Seu objetivo principal é confortar Seus devotos. Ele não precisa vir pessoalmente para destruir os demônios, pois tem muitos agentes; a própria energia externa, māyā, tem força suficiente para matá-los. Porém, ao vir para mostrar compaixão por Seus devotos, Ele mata os não-devotos com muita naturalidade.
O Senhor aparece sob a forma específica amada por um tipo de devoto em particular. Há milhões de formas do Senhor, mas elas são um só Absoluto. Como se afirma na Brahma-saṁhitā, advaitam acyutam anādim ananta-rūpam: todas as diferentes formas do Senhor são a mesma coisa, mas certos devotos desejam vê-lO na forma de Rādhā e Kṛṣṇa, outros preferem-nO como Sītā e Rāmacandra, outros gostariam de vê-lO como Lakṣmī-Nārāyaṇa, e outros querem vê-lO como Vāsudeva, o Nārāyaṇa de quatro mãos. O Senhor tem inúmeras formas e aparece sob a forma específica da preferência de um tipo particular de devoto. O yogī é aconselhado a meditar nas formas que são aprovadas pelos devotos. O yogī não pode imaginar uma forma para sua meditação. Os pretensos yogīs que inventam uma forma de círculo ou de alvo estão dedicando-se a algo sem sentido. Na verdade, o yogī deve meditar na forma da Suprema Personalidade de Deus que foi experimentada por devotos puros do Senhor. Yogī significa devoto. Os yogīs que não são realmente devotos puros devem seguir os passos dos devotos. Menciona-se aqui especialmente que o yogī deve meditar na forma que é assim aprovada; ele não pode inventar uma forma do Senhor.
Devanagari
यच्छ्रीनिकेतमलिभि: परिसेव्यमानं
भूत्या स्वया कुटिलकुन्तलवृन्दजुष्टम् ।
मीनद्वयाश्रयमधिक्षिपदब्जनेत्रं
ध्यायेन्मनोमयमतन्द्रित उल्लसद्भ्रु ॥ ३० ॥
भूत्या स्वया कुटिलकुन्तलवृन्दजुष्टम् ।
मीनद्वयाश्रयमधिक्षिपदब्जनेत्रं
ध्यायेन्मनोमयमतन्द्रित उल्लसद्भ्रु ॥ ३० ॥
Verse text
yac chrī-niketam alibhiḥ parisevyamānaṁ
bhūtyā svayā kuṭila-kuntala-vṛnda-juṣṭam
mīna-dvayāśrayam adhikṣipad abja-netraṁ
dhyāyen manomayam atandrita ullasad-bhru
bhūtyā svayā kuṭila-kuntala-vṛnda-juṣṭam
mīna-dvayāśrayam adhikṣipad abja-netraṁ
dhyāyen manomayam atandrita ullasad-bhru
Synonyms
yat — o rosto do Senhor que; śrī-niketam — um lótus; alibhiḥ — por abelhas; parisevyamānam — rodeado; bhūtyā — pela elegância; svayā — sua; kuṭila — cacheado; kuntala — de cabelo; vṛnda — por uma multidão; juṣṭam — adornado; mīna — de peixes; dvaya — um par; āśrayam — habitando; adhikṣipat — envergonhando; abja — um lótus; netram — tendo olhos; dhyāyet — deve-se meditar; manaḥ-mayam — formada na mente; atandritaḥ — atrativas; ullasat — dançantes; bhru — tendo sobrancelhas.
Translation
O yogī, então, medita no belo rosto do Senhor, que é adornado com cabelo cacheado e decorado por olhos de lótus e sobrancelhas dançantes. A elegância de Seu rosto envergonharia um lótus rodeado por um enxame de abelhas e um par de peixes nadando.
Purport
Importante afirmação aqui é dhyāyen manomayam. Manomayam não é imaginação. Os impersonalistas pensam que o yogī pode imaginar qualquer forma que deseje, mas, como se afirma aqui, o yogī deve meditar na forma do Senhor que é experimentada pelos devotos. Os devotos nunca imaginam uma forma do Senhor. Eles não se contentam com algo imaginário. O Senhor tem diferentes formas eternas; cada devoto gosta de uma forma específica e, assim, ocupa-se a serviço do Senhor, adorando tal forma. A forma do Senhor é descrita de diferentes maneiras, de acordo com as escrituras. Como já vimos anteriormente, há oito tipos de representações da forma original do Senhor. Essas representações podem ser feitas usando barro, pedra, madeira, pintura, areia etc., dependendo dos recursos do devoto.
Manomayam é uma escultura da forma do Senhor dentro da mente, e está incluída entre uma das oito diferentes esculturas da forma do Senhor. Não se trata de imaginação. Pode ser que a meditação na verdadeira forma do Senhor se manifeste de diferentes maneiras, mas não se deve concluir que é necessário imaginar uma forma. Este verso faz duas comparações: primeiramente, o rosto do Senhor é comparado a um lótus, e depois Seu cabelo negro é comparado a abelhas zumbidoras esvoaçando em torno do lótus, e Seus dois olhos são comparados a dois peixes nadando. Uma flor de lótus na água fica belíssima quando é rodeada por abelhas zumbidoras e peixes. O rosto do Senhor é autossuficiente e completo. Sua beleza desafia a beleza natural de um lótus.
Devanagari
तस्यावलोकमधिकं कृपयातिघोर-
तापत्रयोपशमनाय निसृष्टमक्ष्णो: ।
स्निग्धस्मितानुगुणितं विपुलप्रसादं
ध्यायेच्चिरं विपुलभावनया गुहायाम् ॥ ३१ ॥
तापत्रयोपशमनाय निसृष्टमक्ष्णो: ।
स्निग्धस्मितानुगुणितं विपुलप्रसादं
ध्यायेच्चिरं विपुलभावनया गुहायाम् ॥ ३१ ॥
Verse text
tasyāvalokam adhikaṁ kṛpayātighora-
tāpa-trayopaśamanāya nisṛṣṭam akṣṇoḥ
snigdha-smitānuguṇitaṁ vipula-prasādaṁ
dhyāyec ciraṁ vipula-bhāvanayā guhāyām
tāpa-trayopaśamanāya nisṛṣṭam akṣṇoḥ
snigdha-smitānuguṇitaṁ vipula-prasādaṁ
dhyāyec ciraṁ vipula-bhāvanayā guhāyām
Synonyms
tasya — da Personalidade de Deus; avalokam — olhares; adhikam — frequentemente; kṛpayā — com compaixão; atighora — muito medonhas; tāpa-traya — agonias tríplices; upaśamanāya — abrandando; nisṛṣṭam — lançadas; akṣṇoḥ — de Seus olhos; snigdha — amáveis; smita — sorrisos; anuguṇitam — acompanhados por; vipula — abundante; prasādam — cheios de graça; dhyāyet — deve contemplar; ciram — por longo tempo; vipula — plena; bhāvanayā — com devoção; guhāyām — no coração.
Translation
Os yogīs devem contemplar com plena devoção os compassivos olhares frequentemente lançados pelo Senhor, pois eles abrandam as tão terríveis agonias tríplices de Seus devotos. Seus olhares, acompanhados por amáveis sorrisos, são cheios de abundante graça.
Purport
Enquanto alguém estiver na vida condicionada, no corpo material, é natural que sofra de ansiedades e agonias. Ninguém pode evitar a influência da energia material, mesmo quando está no plano transcendental. Algumas vezes, surgem perturbações, mas as agonias e ansiedades dos devotos são imediatamente mitigadas quando eles pensam na Suprema Personalidade de Deus em Sua bela forma ou no rosto sorridente do Senhor. O Senhor concede inúmeros favores a Seu devoto, e a maior manifestação de Sua graça é Seu rosto sorridente, que é pleno de compaixão por Seus devotos puros.
Devanagari
हासं हरेरवनताखिललोकतीव्र-
शोकाश्रुसागरविशोषणमत्युदारम् ।
सम्मोहनाय रचितं निजमाययास्य
भ्रूमण्डलं मुनिकृते मकरध्वजस्य ॥ ३२ ॥
शोकाश्रुसागरविशोषणमत्युदारम् ।
सम्मोहनाय रचितं निजमाययास्य
भ्रूमण्डलं मुनिकृते मकरध्वजस्य ॥ ३२ ॥
Verse text
hāsaṁ harer avanatākhila-loka-tīvra-
śokāśru-sāgara-viśoṣaṇam atyudāram
sammohanāya racitaṁ nija-māyayāsya
bhrū-maṇḍalaṁ muni-kṛte makara-dhvajasya
śokāśru-sāgara-viśoṣaṇam atyudāram
sammohanāya racitaṁ nija-māyayāsya
bhrū-maṇḍalaṁ muni-kṛte makara-dhvajasya
Synonyms
hāsam — o sorriso; hareḥ — do Senhor Śrī Hari; avanata — prostradas; akhila — todas; loka — para pessoas; tīvra-śoka — provocadas por intenso pesar; aśru-sāgara — o oceano de lágrimas; viśoṣanam — secando; ati-udāram — muito benevolente; sammohanāya — para encantar; racitam — manifestas; nija-māyayā — através de Sua potência interna; asya — Suas; bhrū-maṇḍalam — sobrancelhas arqueadas; muni-kṛte — para o bem dos sábios; makara-dhvajasya — do deus do sexo.
Translation
De modo semelhante, o yoga deve meditar no benevolentíssimo sorriso do Senhor Śrī Hari, sorriso este que, para todos aqueles que se prostram ante Ele, seca o oceano de lágrimas provocadas pelo intenso pesar. O yogī também deve meditar nas sobrancelhas arqueadas do Senhor, que se manifestam através de Sua potência interna a fim de encantar o deus do sexo para o bem dos sábios.
Purport
Todo o universo está cheio de sofrimentos, de modo que os habitantes deste universo material sempre estão vertendo lágrimas devido ao intenso pesar. Existe um grande oceano de água produzida por essas lágrimas, mas, para quem se rende à Suprema Personalidade de Deus, o oceano de lágrimas seca imediatamente. Para tal, basta ver o sorriso encantador do Senhor Supremo. Em outras palavras, a privação da existência material desaparece de imediato quando se vê o sorriso encantador do Senhor.
Afirma-se neste verso que as encantadoras sobrancelhas do Senhor são tão fascinantes que nos fazem esquecer os encantos da atração sensual. As almas condicionadas estão algemadas à existência material porque se sentem cativadas pelos encantos do gozo dos sentidos, especialmente a vida sexual. O deus do sexo chama-se Makara-dhvaja. As encantadoras sobrancelhas da Suprema Personalidade de Deus protegem os sábios e devotos de serem seduzidos pela luxúria material e pela atração sexual. Yāmunācārya, grande ācārya, dizia que, desde que vira os atraentes passatempos do Senhor, os encantos da vida sexual tornaram-se abomináveis para ele, e o mero pensamento de gozo sexual fazia-o cuspir e virar o rosto. Assim, se alguém quiser afastar-se da atração sexual, que veja o sorriso encantador e as fascinantes sobrancelhas da Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
ध्यानायनं प्रहसितं बहुलाधरोष्ठ-
भासारुणायिततनुद्विजकुन्दपङ्क्ति ।
ध्यायेत्स्वदेहकुहरेऽवसितस्य विष्णोर्
भक्त्यार्द्रयार्पितमना न पृथग्दिदृक्षेत् ॥ ३३ ॥
भासारुणायिततनुद्विजकुन्दपङ्क्ति ।
ध्यायेत्स्वदेहकुहरेऽवसितस्य विष्णोर्
भक्त्यार्द्रयार्पितमना न पृथग्दिदृक्षेत् ॥ ३३ ॥
Verse text
dhyānāyanaṁ prahasitaṁ bahulādharoṣṭha-
bhāsāruṇāyita-tanu-dvija-kunda-paṅkti
dhyāyet svadeha-kuhare ’vasitasya viṣṇor
bhaktyārdrayārpita-manā na pṛthag didṛkṣet
bhāsāruṇāyita-tanu-dvija-kunda-paṅkti
dhyāyet svadeha-kuhare ’vasitasya viṣṇor
bhaktyārdrayārpita-manā na pṛthag didṛkṣet
Synonyms
dhyāna-ayanam — que serve facilmente como objeto de meditação; prahasitam — a risada; bahula — abundante; adhara-oṣṭha — de Seus lábios; bhāsa — pelo esplendor; aruṇāyita — matizados de rosa; tanu — pequenos; dvija — dentes; kunda-paṅkti — como um ramalhete de botões de jasmim; dhyāyet — deve meditar em; sva-deha-kuhare — no âmago de seu coração; avasitasya — que reside; viṣṇoḥ — de Viṣṇu; bhaktyā — com devoção; ārdrayā — embebida em amor; arpita-manāḥ — sua mente tendo se fixado; na — não; pṛthak — qualquer outra coisa; didṛkṣet — deve desejar ver.
Translation
Com devoção embebida em amor e afeição, o yogī deve meditar, no âmago de seu coração, na risada do Senhor Viṣṇu. A risada do Senhor Viṣṇu é tão cativante que se pode meditar nela facilmente. Quando o Senhor Supremo ri, pode-se ver Seus pequenos dentes, que parecem botões de jasmim matizados de rosa pelo esplendor de Seus lábios. Uma vez que tenha devotado sua mente a isso, o yogī já não deve desejar ver qualquer outra coisa.
Purport
Recomenda-se que o yogī visualize a risada do Senhor após estudar Seu sorriso muito cuidadosamente. Essas descrições específicas de meditação no sorriso, na risada, no rosto, nos lábios e nos dentes indicam de modo conclusivo que Deus não é impessoal. Este verso descreve como se deve meditar na risada ou no sorriso de Viṣṇu. Não há outra atividade que possa purificar inteiramente o coração do devoto. A beleza excepcional da risada do Senhor Viṣṇu é que, quando Ele sorri, Seus pequenos dentes, que parecem botões de jasmim, ficam imediatamente avermelhados, refletindo Seus lábios rosados. Se o yogī for capaz de colocar o belo rosto do Senhor no âmago do seu coração, ele ficará completamente satisfeito. Em outras palavras, quando nos absorvemos internamente em ver a beleza do Senhor, a atração material já não pode nos perturbar.
Devanagari
एवं हरौ भगवति प्रतिलब्धभावो
भक्त्या द्रवद्धृदय उत्पुलक: प्रमोदात् ।
औत्कण्ठ्यबाष्पकलया मुहुरर्द्यमानस्
तच्चापि चित्तबडिशं शनकैर्वियुङ्क्ते ॥ ३४ ॥
भक्त्या द्रवद्धृदय उत्पुलक: प्रमोदात् ।
औत्कण्ठ्यबाष्पकलया मुहुरर्द्यमानस्
तच्चापि चित्तबडिशं शनकैर्वियुङ्क्ते ॥ ३४ ॥
Verse text
evaṁ harau bhagavati pratilabdha-bhāvo
bhaktyā dravad-dhṛdaya utpulakaḥ pramodāt
autkaṇṭhya-bāṣpa-kalayā muhur ardyamānas
tac cāpi citta-baḍiśaṁ śanakair viyuṅkte
bhaktyā dravad-dhṛdaya utpulakaḥ pramodāt
autkaṇṭhya-bāṣpa-kalayā muhur ardyamānas
tac cāpi citta-baḍiśaṁ śanakair viyuṅkte
Synonyms
evam — assim; harau — em direção ao Senhor Hari; bhagavati — a Personalidade de Deus; pratilabdha — desenvolvido; bhāvaḥ — amor puro; bhaktyā — mediante o serviço devocional; dravat — derretendo; hṛdayaḥ — seu coração; utpulakaḥ — experimentando arrepio dos pelos do corpo; pramodāt — devido ao júbilo excessivo; autkaṇṭḥya — ocasionadas pelo amor intenso; bāṣpa-kalayā — por um rio de lágrimas; muhuḥ — constantemente; ardyamānaḥ — estando aflito; tat — este; ca — e; api — mesmo; citta — a mente; baḍiśam — anzol; śanakaiḥ — gradualmente; viyuṅkte — afasta-se.
Translation
Seguindo este processo, aos poucos o yogī desenvolve amor puro pela Suprema Personalidade de Deus, Hari. No transcurso de seu progresso em serviço devocional, os pelos de seu corpo se arrepiam devido ao júbilo excessivo, e ele banha-se constantemente numa torrente de lágrimas ocasionadas pelo amor intenso. Aos poucos, até mesmo a mente, que ele usava como um meio para atrair o Senhor, assim como um peixe é atraído a um anzol, afasta-se da atividade material.
Purport
Menciona-se aqui claramente que a meditação, que é uma ação da mente, não é a fase perfeita de samādhi, ou absorção. No começo, emprega-se a mente para atrair a forma da Suprema Personalidade de Deus, porém, nas fases superiores, não existe a questão do uso da mente. O devoto se acostuma a servir ao Senhor Supremo mediante a purificação de seus sentidos. Em outras palavras, os princípios de yoga de meditação são necessários enquanto não estejamos situados em serviço devocional puro. Usa-se a mente para purificar os sentidos, mas, quando os sentidos se purificam através da meditação, não há necessidade de sentar-se num lugar específico e tentar meditar na forma do Senhor. A pessoa fica tão habituada que automaticamente se ocupa no serviço pessoal ao Senhor. Quando se absorve a mente à força na forma do Senhor, chama-se isso de nirbīja-yoga, ou yoga sem vida, pois o yogī não se ocupa automaticamente no serviço pessoal ao Senhor. Porém, quando ele vive pensando no Senhor, isso se chama sabīja-yoga, ou yoga viva. É preciso promover-se à plataforma do yoga vivo.
Como se confirma na Brahma-saṁhitā, devemos ocupar-nos a serviço do Senhor vinte e quatro horas por dia. Pode-se alcançar a fase de premāñjana-cchurita desenvolvendo amor pleno. Quem desenvolve plenamente seu amor pela Suprema Personalidade de Deus em serviço devocional sempre vê o Senhor, mesmo sem meditar artificialmente em Sua forma. Sua visão é divina porque ele não tem outra ocupação. Nesta fase de compreensão espiritual, não é necessário ocupar a mente de maneira artificial. Uma vez que a meditação recomendada nas fases inferiores é um meio para chegar à plataforma do serviço devocional, aqueles já ocupados no transcendental serviço amoroso ao Senhor estão acima de tal meditação. Essa fase de perfeição chama-se consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
मुक्ताश्रयं यर्हि निर्विषयं विरक्तं
निर्वाणमृच्छति मन: सहसा यथार्चि: ।
आत्मानमत्र पुरुषोऽव्यवधानमेकम्
अन्वीक्षते प्रतिनिवृत्तगुणप्रवाह: ॥ ३५ ॥
निर्वाणमृच्छति मन: सहसा यथार्चि: ।
आत्मानमत्र पुरुषोऽव्यवधानमेकम्
अन्वीक्षते प्रतिनिवृत्तगुणप्रवाह: ॥ ३५ ॥
Verse text
muktāśrayaṁ yarhi nirviṣayaṁ viraktaṁ
nirvāṇam ṛcchati manaḥ sahasā yathārciḥ
ātmānam atra puruṣo ’vyavadhānam ekam
anvīkṣate pratinivṛtta-guṇa-pravāhaḥ
nirvāṇam ṛcchati manaḥ sahasā yathārciḥ
ātmānam atra puruṣo ’vyavadhānam ekam
anvīkṣate pratinivṛtta-guṇa-pravāhaḥ
Synonyms
mukta-āśrayam — situada na liberação; yarhi — no momento em que; nirviṣayam — desapegada dos objetos dos sentidos; viraktam — indiferente; nirvāṇam — extinção; ṛcchati — obtém; manaḥ — a mente; sahasā — imediatamente; yathā — como; arciḥ — a chama; ātmānam — a mente; atra — nessa altura; puruṣaḥ — uma pessoa; avyavadhānam — sem separação; ekam — una; anvīkṣate — experimenta; pratinivṛtta — livre; guṇa-pravāhaḥ — do fluxo de qualidades materiais.
Translation
Assim, ao livrar-se completamente de toda a contaminação material e desapegar-se dos objetivos materiais, a mente é como a chama de uma lamparina. Nessa altura, a mente vincula-se de fato à mente do Senhor Supremo e tem a experiência de ser una com Ele por estar livre do fluxo interativo das qualidades materiais.
Purport
As atividades da mente no mundo material são aceitação e rejeição. Enquanto a mente estiver em consciência material, deve-se forçosamente treiná-la a aceitar a meditação na Suprema Personalidade de Deus, porém, quando alguém se eleva realmente ao ponto de amar o Senhor Supremo, a mente absorve-se automaticamente em pensar no Senhor. Em tal posição, o yogī não pensa em outra coisa senão em servir ao Senhor. Esse vínculo da mente com os desejos da Suprema Personalidade de Deus chama-se nirvāṇa, ou seja, tornar a mente una com o Senhor Supremo.
O melhor exemplo de nirvāṇa é citado na Bhagavad-gītā. A princípio, a mente de Arjuna divergia da mente de Kṛṣṇa. Kṛṣna queria que Arjuna lutasse, mas Arjuna não queria fazê-lo, de modo que houve desacordo. Porém, após ouvir a Bhagavad-gītā falada pela Suprema Personalidade de Deus, Arjuna vinculou sua mente ao desejo de Kṛṣṇa. Chama-se isso de unidade. Entretanto, essa unidade não fez com que Kṛṣṇa e Arjuna perdessem suas individualidades. Os filósofos māyāvādīs não podem entender isto. Eles acham que unidade exige perda de individualidade. Na verdade, entretanto, encontramos na Bhagavad-gītā que individualidade não se perde. A mente que se purifica inteiramente, embebendo-se em amor a Deus, torna-se a mente da Suprema Personalidade de Deus. Nessa altura, a mente não age de forma independente, nem age sem ser inspirada em satisfazer o desejo do Senhor. A alma individual liberada não tem outra atividade. Pratinivṛtta-guṇa-pravāhaḥ. No estado condicionado, a mente sempre se dedica a atividades, impelida pelos três modos da natureza material, porém, na fase transcendental, os modos materiais não podem perturbar a mente do devoto. O devoto não tem outro interesse senão o de satisfazer os desejos do Senhor. É essa a fase de perfeição máxima, chamada nirvāṇa ou nirvāṇa-mukti. Nessa fase, a mente livra-se por completo do desejo material.
Yathārciḥ. Arciḥ significa “chama”. Quando uma lamparina se quebra ou acaba seu combustível, vemos que a chama da lamparina se apaga. Mas, de acordo com a compreensão científica, a chama não se extingue – ela se conserva. Isso é conservação de energia. Analogamente, a mente que para de funcionar na plataforma material conserva-se nas atividades do Senhor Supremo. O conceito que têm os filósofos māyāvādīs de cessação das funções da mente é explicado aqui: cessação das funções mentais significa cessação de atividades conduzidas sob a influência dos três modos da natureza material.
Devanagari
सोऽप्येतया चरमया मनसो निवृत्त्या
तस्मिन्महिम्न्यवसित: सुखदु:खबाह्ये ।
हेतुत्वमप्यसति कर्तरि दु:खयोर्यत्
स्वात्मन्विधत्त उपलब्धपरात्मकाष्ठ: ॥ ३६ ॥
तस्मिन्महिम्न्यवसित: सुखदु:खबाह्ये ।
हेतुत्वमप्यसति कर्तरि दु:खयोर्यत्
स्वात्मन्विधत्त उपलब्धपरात्मकाष्ठ: ॥ ३६ ॥
Verse text
so ’py etayā caramayā manaso nivṛttyā
tasmin mahimny avasitaḥ sukha-duḥkha-bāhye
hetutvam apy asati kartari duḥkhayor yat
svātman vidhatta upalabdha-parātma-kāṣṭhaḥ
tasmin mahimny avasitaḥ sukha-duḥkha-bāhye
hetutvam apy asati kartari duḥkhayor yat
svātman vidhatta upalabdha-parātma-kāṣṭhaḥ
Synonyms
saḥ — o yogī; api — além disso; etayā — com isto; caramayā — última; manasaḥ — da mente; nivṛttyā — com o cessar da reação material; tasmin — em sua; mahimni — glória final; avasitaḥ — situada; sukha-duḥkha-bāhye — fora da felicidade e da aflição; hetutvam — a causa; api — de fato; asati — produto da ignorância; kartari — no falso ego; duḥkhayoḥ — do prazer e da dor; yat — os quais; sva-ātman — a seu próprio eu; vidhatte — ele atribui; upalabdha — compreendida; para-ātma — da Personalidade de Deus; kāṣṭhaḥ — a verdade máxima.
Translation
Assim situada na fase transcendental mais elevada, a mente descontinua toda a reação material e situa-se em sua própria glória, transcendental a todas as concepções materiais de felicidade e aflição. Nessa altura, o yogī compreende a verdade de sua relação com a Suprema Personalidade de Deus. Ele descobre que o prazer e a dor – bem como suas interações –, os quais ele atribuía a seu próprio eu, são, de fato, devidos ao falso ego, que é produto da ignorância.
Purport
O esquecimento de nossa relação com a Suprema Personalidade de Deus é produto da ignorância. Mediante a prática de yoga, pode-se erradicar essa ignorância de julgar-se independente do Senhor Supremo. Nossa verdadeira relação é eternamente a de amor. A entidade viva destina-se a prestar transcendental serviço amoroso ao Senhor. O esquecimento dessa doce relação se chama ignorância, e, na ignorância, os três modos da natureza material nos impelem a julgar-nos os desfrutadores. Quando a mente do devoto se purifica e ele entende que sua mente precisa ser vinculada aos desejos da Suprema Personalidade de Deus, ele alcança a fase perfectiva transcendental, que está além da percepção de aflição e felicidade materiais.
Enquanto alguém age por sua própria conta, está sujeito a todas as percepções materiais de supostas felicidade e aflição. Na verdade, não existe felicidade. Assim como não há felicidade em nenhuma das atividades de um louco, da mesma forma, no campo das atividades materiais, as invenções mentais de felicidade e aflição são falsas. Na realidade, tudo é aflição.
Aquele cuja mente se adapta a agir de acordo com o desejo do Senhor alcança a fase transcendental. O desejo de assenhorear-se da natureza material é a causa da ignorância, e, quando este desejo é eliminado por completo e os desejos são vinculados àqueles do Senhor Supremo, chega-se à fase da perfeição. Upalabdha-parātma-kāṣṭhaḥ. Upalabdha significa “compreensão”. Compreensão necessariamente indica individualidade. Na fase perfectiva liberada, existe compreensão verdadeira. Nivṛttyā significa que a entidade viva mantém sua individualidade; unidade quer dizer que ela percebe felicidade na felicidade do Senhor Supremo. No Senhor Supremo, não há nada além de felicidade. Ānandamayo ’bhyāsāt: o Senhor é por natureza pleno de felicidade transcendental. Na fase liberada, unidade com o Senhor Supremo quer dizer que não se tem outra compreensão além da felicidade. O indivíduo, porém, ainda existe, caso contrário, esta palavra upalabdha, indicando compreensão individual da felicidade transcendental, não teria sido usada.
Devanagari
देहं च तं न चरम: स्थितमुत्थितं वा
सिद्धो विपश्यति यतोऽध्यगमत्स्वरूपम् ।
दैवादुपेतमथ दैववशादपेतं
वासो यथा परिकृतं मदिरामदान्ध: ॥ ३७ ॥
सिद्धो विपश्यति यतोऽध्यगमत्स्वरूपम् ।
दैवादुपेतमथ दैववशादपेतं
वासो यथा परिकृतं मदिरामदान्ध: ॥ ३७ ॥
Verse text
dehaṁ ca taṁ na caramaḥ sthitam utthitaṁ vā
siddho vipaśyati yato ’dhyagamat svarūpam
daivād upetam atha daiva-vaśād apetaṁ
vāso yathā parikṛtaṁ madirā-madāndhaḥ
siddho vipaśyati yato ’dhyagamat svarūpam
daivād upetam atha daiva-vaśād apetaṁ
vāso yathā parikṛtaṁ madirā-madāndhaḥ
Synonyms
deham — corpo material; ca — e; tam — que; na — não; caramaḥ — último; sthitam — sentando; utthitam — levantando; vā — ou; siddhaḥ — a alma realizada; vipaśyati — pode conceber; yataḥ — porque; adhyagamat — tem alcançado; sva-rūpam — sua verdadeira identidade; daivāt — segundo o destino; upetam — chegada; atha — além disso; daiva-vaśāt — segundo o destino; apetam — partida; vāsaḥ — roupa; yathā — como; parikṛtam — vestida; madirā-mada-andhaḥ — aquele que é cegado pela embriaguez.
Translation
Por ter alcançado sua verdadeira identidade, a alma perfeitamente realizada não faz ideia de como o corpo material se movimenta ou age, assim como uma pessoa embriagada não pode entender se tem ou não roupa em seu corpo.
Purport
Esta fase de vida é explicada por Rūpa Gosvāmī em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu. Uma pessoa cuja mente está completamente harmonizada com o desejo da Suprema Personalidade de Deus, e que se ocupa cem por cento no serviço ao Senhor, esquece-se das exigências de seu corpo material.
Devanagari
देहोऽपि दैववशग: खलु कर्म यावत्
स्वारम्भकं प्रतिसमीक्षत एव सासु: ।
तं सप्रपञ्चमधिरूढसमाधियोग:
स्वाप्नं पुनर्न भजते प्रतिबुद्धवस्तु: ॥ ३८ ॥
स्वारम्भकं प्रतिसमीक्षत एव सासु: ।
तं सप्रपञ्चमधिरूढसमाधियोग:
स्वाप्नं पुनर्न भजते प्रतिबुद्धवस्तु: ॥ ३८ ॥
Verse text
deho ’pi daiva-vaśagaḥ khalu karma yāvat
svārambhakaṁ pratisamīkṣata eva sāsuḥ
taṁ sa-prapañcam adhirūḍha-samādhi-yogaḥ
svāpnaṁ punar na bhajate pratibuddha-vastuḥ
svārambhakaṁ pratisamīkṣata eva sāsuḥ
taṁ sa-prapañcam adhirūḍha-samādhi-yogaḥ
svāpnaṁ punar na bhajate pratibuddha-vastuḥ
Synonyms
dehaḥ — o corpo; api — além disso; daiva-vaśa-gaḥ — sob o controle da Personalidade de Deus; khalu — de fato; karma — atividades; yāvat — tanto quanto; sva-ārambhakam — começadas por ele mesmo; pratisamīkṣate — continua a funcionar; eva — certamente; sa-asuḥ — juntamente com os sentidos; tam — o corpo; sa-prapañcam — com suas expansões; adhirūḍha-samādhi-yogaḥ — estando situado em samādhi pela prática do yoga; svāpnam — nascido num sonho; punaḥ — novamente; na — não; bhajate — ele aceita como sua propriedade; pratibuddha — desperto; vastuḥ — para sua posição constitucional.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus cuida do corpo de tal yogī liberado, juntamente com os sentidos, e ele (o corpo) funciona até que as atividades a ele destinadas se acabem. O devoto liberado, estando desperto para sua posição constitucional e assim situado em samādhi, a mais elevada fase de perfeição do yoga, não aceita os subprodutos do corpo material como sua propriedade. Deste modo, ele considera as atividades de seu corpo como sendo as atividades de um corpo num sonho.
Purport
As seguintes questões podem ser levantadas. Enquanto a alma liberada está em contato com o corpo, por que as atividades corpóreas não a afetam? Será mesmo que ela não se deixa contaminar pelas ações e reações de atividades materiais? Em resposta a essas perguntas, este verso explica que a Suprema Personalidade de Deus cuida do corpo material de uma alma liberada. Ele (o corpo) não age devido à força viva da entidade viva; age simplesmente em reação a atividades passadas. Mesmo após ser desligado, o ventilador elétrico gira por algum tempo. Esse giro não se deve à corrente elétrica, mas é uma continuação do último movimento. Analogamente, embora uma alma liberada pareça estar agindo tal qual um homem comum, suas ações devem ser aceitas como a continuação de atividades passadas. Num sonho, pode ser que alguém veja seu corpo expandir-se em muitos corpos, mas, ao despertar, poderá entender que todos esses corpos eram falsos. Analogamente, mesmo que a alma liberada tenha os subprodutos do corpo – filhos, esposa, lar etc. –, ela não se identifica com aquelas expansões do corpo. Ela sabe que tudo isso são produtos do sonho material. O corpo grosseiro é feito dos elementos grosseiros da matéria, e o corpo sutil é feito de mente, inteligência, ego e consciência contaminada. Se podemos aceitar que o corpo sutil de um sonho é falso, deixando de nos identificar com este corpo, então certamente uma pessoa acordada não precisa identificar-se com o corpo grosseiro. Assim como alguém que está acordado não tem ligação alguma com as atividades do corpo num sonho, da mesma forma, a alma desperta, liberada, não tem ligação com as atividades do corpo atual. Em outras palavras, por estar familiarizada com sua posição constitucional, ela não aceita de modo algum o conceito corpóreo da vida.
Devanagari
यथा पुत्राच्च वित्ताच्च पृथङ्मर्त्य: प्रतीयते ।
अप्यात्मत्वेनाभिमताद्देहादे: पुरुषस्तथा ॥ ३९ ॥
अप्यात्मत्वेनाभिमताद्देहादे: पुरुषस्तथा ॥ ३९ ॥
Verse text
yathā putrāc ca vittāc ca
pṛthaṅ martyaḥ pratīyate
apy ātmatvenābhimatād
dehādeḥ puruṣas tathā
pṛthaṅ martyaḥ pratīyate
apy ātmatvenābhimatād
dehādeḥ puruṣas tathā
Synonyms
yathā — como; putrāt — de um filho; ca — e; vittāt — da riqueza; ca — também; pṛthak — diferentemente; martyaḥ — um homem mortal; pratīyate — compreende-se; api — mesmo; ātmatvena — por natureza; abhimatāt — pelos quais se tem afeição; deha-ādeḥ — de seu corpo material, sentidos e mente; puruṣaḥ — a alma liberada; tathā — de forma semelhante.
Translation
Devido à grande afeição por família e riqueza, há quem aceite filhos e dinheiro como sua propriedade, e, devido à afeição pelo corpo material, há quem pense que ele é seu. Mas, na verdade, assim como uma pessoa pode entender que sua família e riqueza são diferentes dela, a alma liberada pode entender que ela e seu corpo não são a mesma coisa.
Purport
Explica-se neste verso o status de verdadeiro conhecimento. Existem muitas crianças, mas aceitamos algumas crianças como nossos filhos e filhas por causa de nossa afeição por eles, embora saibamos muito bem que essas crianças são diferentes de nós. Analogamente, devido à grande afeição pelo dinheiro, aceitamos que certa quantidade de riqueza do banco nos pertence. Da mesma forma, afirmamos que o corpo é nosso por causa de nossa afeição por ele. Eu digo que este é “meu” corpo. Então, estendo este conceito possessivo e digo: “Minha mão, minha perna”, e depois: “Minha conta bancária, meu filho, minha filha.” Mas, na verdade, sei que o filho e o dinheiro são separados de mim. O mesmo ocorre com o corpo: eu sou distinto de meu corpo. Trata-se de uma questão de compreensão, e a compreensão adequada chama-se pratibuddha. Obtendo conhecimento em serviço devocional, ou consciência de Kṛṣṇa, é possível tornar-se uma alma liberada.
Devanagari
यथोल्मुकाद्विस्फुलिङ्गाद्धूमाद्वापि स्वसम्भवात् ।
अप्यात्मत्वेनाभिमताद्यथाग्नि: पृथगुल्मुकात् ॥ ४० ॥
अप्यात्मत्वेनाभिमताद्यथाग्नि: पृथगुल्मुकात् ॥ ४० ॥
Verse text
yatholmukād visphuliṅgād
dhūmād vāpi sva-sambhavāt
apy ātmatvenābhimatād
yathāgniḥ pṛthag ulmukāt
dhūmād vāpi sva-sambhavāt
apy ātmatvenābhimatād
yathāgniḥ pṛthag ulmukāt
Synonyms
Translation
O fogo abrasador é diferente das chamas, das centelhas e da fumaça, embora todos estejam intimamente ligados por nascerem da mesma madeira incandescente.
Purport
Embora a lenha incandescente, as centelhas, a fumaça e a chama não possam permanecer à parte porque cada uma delas é parte integrante do fogo, mesmo assim, elas são diferentes uma da outra. Uma pessoa menos inteligente aceita a fumaça como fogo, embora o fogo e a fumaça sejam inteiramente diferentes. O calor e a luz do fogo são separados, embora não se possa diferenciar o fogo do calor e da luz.
Devanagari
भूतेन्द्रियान्त:करणात्प्रधानाज्जीवसंज्ञितात् ।
आत्मा तथा पृथग्द्रष्टा भगवान्ब्रह्मसंज्ञित: ॥ ४१ ॥
आत्मा तथा पृथग्द्रष्टा भगवान्ब्रह्मसंज्ञित: ॥ ४१ ॥
Verse text
bhūtendriyāntaḥ-karaṇāt
pradhānāj jīva-saṁjñitāt
ātmā tathā pṛthag draṣṭā
bhagavān brahma-saṁjñitaḥ
pradhānāj jīva-saṁjñitāt
ātmā tathā pṛthag draṣṭā
bhagavān brahma-saṁjñitaḥ
Synonyms
Translation
A Suprema Personalidade de Deus, que é conhecida como paraṁ brahma, é o observador. Ele é diferente da alma jīva, ou seja, a entidade viva individual, que está combinada com os sentidos, com os cinco elementos e com a consciência.
Purport
Nesta passagem, apresenta-se uma nítida concepção do todo completo. A entidade viva é diferente dos elementos materiais, e a entidade viva suprema, a Personalidade de Deus, que cria os elementos materiais, também é diferente da entidade viva individual. Esta filosofia é proposta pelo Senhor Caitanya como acintya-bhedābheda-tattva. Tudo é simultaneamente igual e diferente de tudo o mais. A manifestação cósmica criada pelo Senhor Supremo através de Sua energia material também é simultaneamente diferente e não diferente dEle. A energia material não é diferente do Senhor Supremo, mas, ao mesmo tempo, como esta energia age de maneira diferente, ela é diferente dEle. De forma semelhante, a entidade viva individual é igual ao Senhor Supremo e diferente dEle. Esta filosofia de “igualdade e diferença simultâneas” é a conclusão perfeita da escola bhāgavata, como Kapiladeva confirma aqui.
As entidades vivas são comparadas às centelhas do fogo. Como se afirmou no verso anterior, o fogo, a chama, a fumaça e a lenha se combinam. Aqui se combinam a entidade viva, os elementos materiais e a Suprema Personalidade de Deus. A posição exata das entidades vivas é comparada à das centelhas do fogo; elas fazem parte integrante dele. A energia material é comparada à fumaça. O fogo também é parte integrante do Senhor Supremo. No Viṣṇu Purāṇa, afirma-se que qualquer coisa que vejamos ou experimentemos, seja no mundo material, seja no mundo espiritual, é uma expansão das diferentes energias do Senhor Supremo. Assim como o fogo distribui sua luz e calor a partir de um lugar, a Suprema Personalidade de Deus distribui Suas diferentes energias por toda a Sua criação.
Os quatro princípios da doutrina filosófica vaiṣṇava são śuddha-advaita (unidade purificada), dvaita-advaita (igualdade e diferença simultâneas), viśiṣṭa-advaita e dvaita. Todos os quatro princípios da filosofia vaiṣṇava baseiam-se na tese do Śrīmad-Bhāgavatam, explicada nesses dois versos.
Devanagari
सर्वभूतेषु चात्मानं सर्वभूतानि चात्मनि ।
ईक्षेतानन्यभावेन भूतेष्विव तदात्मताम् ॥ ४२ ॥
ईक्षेतानन्यभावेन भूतेष्विव तदात्मताम् ॥ ४२ ॥
Verse text
sarva-bhūteṣu cātmānaṁ
sarva-bhūtāni cātmani
īkṣetānanya-bhāvena
bhūteṣv iva tad-ātmatām
sarva-bhūtāni cātmani
īkṣetānanya-bhāvena
bhūteṣv iva tad-ātmatām
Synonyms
Translation
O yogī deve ver a mesma alma em todas as manifestações, pois tudo que existe é manifestação de diferentes energias do Supremo. Dessa maneira, o devoto deve ver todas as entidades vivas sem fazer distinções. Isso é compreensão da Alma Suprema.
Purport
Como se afirma na Brahma-saṁhitā, a Alma Suprema entra, não apenas em todo e cada um dos universos, como também nos átomos. A Alma Suprema está presente em toda parte na fase adormecida, e, quando alguém pode ver a presença da Alma Suprema em toda parte, liberta-se das designações materiais.
A expressão sarva-bhūteṣu deve ser entendida da seguinte maneira. Há quatro diferentes divisões de espécie – entidades vivas que afloram da terra, entidades vivas nascidas da fermentação ou germinação, entidades vivas que surgem de ovos e entidades vivas que nascem do embrião. Essas quatro divisões de entidades vivas expandem-se em 8.400.000 espécies de vida. Uma pessoa que se liberta das designações materiais pode ver a mesma qualidade de espírito presente em toda parte ou em toda entidade viva manifesta. Homens menos inteligentes pensam que as plantas e a grama crescem da terra automaticamente, mas quem é realmente inteligente e compreende o eu pode ver que esse crescimento não é automático; a causa é a alma, e as formas aparecem nos corpos materiais sob diferentes condições. Muitos germes nascem através da fermentação em laboratórios, mas isso se deve à presença da alma. O cientista material pensa que os ovos não têm vida, mas isso não é verdade. A partir da escritura védica, podemos compreender que as entidades vivas sob diferentes formas são geradas sob diferentes condições. Os pássaros desenvolvem-se dentro de ovos, e os quadrúpedes e seres humanos nascem de embriões. A visão perfeita do yogī, ou devoto, é que ele vê a presença da entidade viva em toda a parte.
Devanagari
स्वयोनिषु यथा ज्योतिरेकं नाना प्रतीयते ।
योनीनां गुणवैषम्यात्तथात्मा प्रकृतौ स्थित: ॥ ४३ ॥
योनीनां गुणवैषम्यात्तथात्मा प्रकृतौ स्थित: ॥ ४३ ॥
Verse text
sva-yoniṣu yathā jyotir
ekaṁ nānā pratīyate
yonīnāṁ guṇa-vaiṣamyāt
tathātmā prakṛtau sthitaḥ
ekaṁ nānā pratīyate
yonīnāṁ guṇa-vaiṣamyāt
tathātmā prakṛtau sthitaḥ
Synonyms
sva-yoniṣu — em formas de madeira; yathā — assim como; jyotiḥ — fogo; ekam — um; nānā — diferentemente; pratīyate — manifesta-se; yonīnām — de diferentes ventres; guṇa-vaiṣamyāt — das diferentes condições dos modos; tathā — do mesmo modo; ātmā — a alma espiritual; prakṛtau — na natureza material; sthitaḥ — situada.
Translation
Assim como o fogo se manifesta em diferentes formas de madeira, do mesmo modo, sob diferentes condições dos modos da natureza material, a alma espiritual pura manifesta-se em diferentes corpos.
Purport
Deve-se entender que o corpo é designado. Prakṛti é uma interação feita pelos três modos da natureza material, e, de acordo com esses modos, alguém tem corpo pequeno e outrem tem corpo muito grande. Por exemplo, o fogo num grande pedaço de madeira parece muito grande, e, num graveto, parece pequeno. Na verdade, a qualidade do fogo é a mesma em toda parte, mas a manifestação da natureza material é tal que, conforme o combustível, o fogo parece maior ou menor. Analogamente, a alma no corpo universal, embora da mesma qualidade, é diferente da alma em um corpo menor.
As pequenas partículas de alma são como centelhas da alma maior. A alma maior é a Superalma, mas a Superalma é quantitativamente diferente da alma diminuta. Na literatura védica, descreve-se a Superalma como a supridora de todas as necessidades da alma menor (nityo nityānām). Aquele que entende esta distinção entre a Superalma e a alma individual está acima da lamentação e numa posição pacífica. Quando a alma menor julga-se quantitativamente tão grande como a alma maior, ela está sob o encanto de māyā, visto que não é essa a sua posição constitucional. Ninguém pode tornar-se a alma maior simplesmente por especulação mental.
No Varāha Purāṇa, descreve-se a pequenez ou grandeza de diferentes almas como svāṁśa-vibhinnāṁśa. A alma svāṁśa é a Suprema Personalidade de Deus, e as almas vibhinnāṁśa, ou partículas diminutas, são eternamente pequenas partículas, como se confirma na Bhagavad-gītā (mamaivāṁśo jīva-loke jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ). As pequenas entidades vivas são eternamente partes integrantes e, por isso, não lhes é possível ser quantitativamente tão grandes como a Superalma.
Devanagari
तस्मादिमां स्वां प्रकृतिं दैवीं सदसदात्मिकाम् ।
दुर्विभाव्यां पराभाव्य स्वरूपेणावतिष्ठते ॥ ४४ ॥
दुर्विभाव्यां पराभाव्य स्वरूपेणावतिष्ठते ॥ ४४ ॥
Verse text
tasmād imāṁ svāṁ prakṛtiṁ
daivīṁ sad-asad-ātmikām
durvibhāvyāṁ parābhāvya
svarūpeṇāvatiṣṭhate
daivīṁ sad-asad-ātmikām
durvibhāvyāṁ parābhāvya
svarūpeṇāvatiṣṭhate
Synonyms
tasmāt — assim; imām — esta; svām — própria; prakṛtim — energia material; daivīm — divina; sat-asat-ātmikām — consistindo em causa e efeito; durvibhāvyām — difícil de ser entendida; parābhāvya — após conquistar; sva-rūpeṇa — na posição autorrealizada; avatiṣṭhate — permanece.
Translation
Assim, o yogī pode situar-se na posição autorrealizada após conquistar o insuperável encanto de māyā, que se apresenta tanto como a causa quanto como o efeito desta manifestação material e, portanto, é muito difícil de ser entendida.
Purport
Afirma-se na Bhagavad-gītā que o encanto de māyā, que encobre o conhecimento da entidade viva, é insuperável. Contudo, quem se rende a Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, pode superar esse encanto aparentemente insuperável de māyā. Afirma-se aqui também que a daivī prakṛti, ou a energia externa do Senhor Supremo, é durvibhāvyā, muito difícil de ser entendida e muito difícil de ser superada. Deve-se, no entanto, conquistar esse insuperável encanto de māyā, o que é possível pela graça do Senhor, quando Deus Se revela à alma rendida. Outra afirmação feita aqui é svarūpeṇāvatiṣṭhate. Svarūpa quer dizer que precisamos saber que não somos a Alma Suprema, mas, antes, somos partes integrantes da Alma Suprema: isso é autorrealização. Pensar falsamente que somos a Alma Suprema e que somos onipenetrantes não é svarūpa. Isso não é compreensão de nossa verdadeira posição. Nossa verdadeira posição é de partes integrantes. Recomenda-se aqui que permaneçamos nesta posição de verdadeira autorrealização. A Bhagavad-gītā define esta compreensão como compreensão de Brahman.
Após a compreensão de Brahman, podemos nos ocupar em atividades de Brahman. Enquanto não formos autorrealizados, nós nos ocuparemos em atividades baseadas na falsa identificação com o corpo. As atividades da compreensão de Brahman começam quando nos situamos em nosso eu verdadeiro. Os filósofos māyāvādīs dizem que, após a compreensão de Brahman, todas as atividades param, mas, na verdade, não é assim. Se a alma é tão ativa em sua condição anormal, existindo sob a cobertura da matéria, como alguém pode negar sua atividade quando ela está livre? Para ilustrar isso, pode-se citar um exemplo. Se um homem adoentado é muito ativo, como alguém pode imaginar que, quando ele se curar da doença, ele ficará inativo? Naturalmente, a conclusão é que as atividades de quem se cura de todas as doenças são puras. Pode ser que se diga que as atividades da compreensão de Brahman são diferentes daquelas da vida condicional, mas isso não elimina a ideia de atividade. A Bhagavad-gītā (18.54) fornece a seguinte indicação: o serviço devocional começa depois que alguém entende que é Brahman. Mad-bhaktiṁ labhate parām: após a compreensão de Brahman, podemos ocupar-nos no serviço devocional ao Senhor. Portanto, serviço devocional ao Senhor é atividade com compreensão de Brahman.
Para aqueles que se ocupam em serviço devocional, não há encanto de māyā, e sua situação é inteiramente perfeita. O dever da entidade viva, como parte integrante do todo, é prestar serviço devocional ao todo. Essa é a perfeição final da vida.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do terceiro canto, vigésimo oitavo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Instruções de Kapila sobre a Execução do Serviço Devocional".