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Devanagari
Verse Text
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Translation
Purport
CAPÍTULO DEZ
O Debate entre Jaḍa Bharata e Mahārāja Rahūgaṇa
Neste capítulo, Bharata Mahārāja, agora Jaḍa Bharata, foi exitosamente aceito pelo rei Rahūgaṇa, soberano dos Estados conhecidos como Sindhu e Sauvīra. O rei forçou Jaḍa Bharata a carregar seu palanquim e o castigou por não o carregar devidamente. Precisava-se de alguém para carregar o palanquim do rei Rahūgaṇa, e, para preencher essa demanda, os carregadores principais viram em Jaḍa Bharata a pessoa mais adequada para prestar o serviço. Então, ele foi forçado a carregar o palanquim. Jaḍa Bharata, contudo, não se rebelou contra essa ordem arrogante, senão que aceitou humildemente a tarefa e carregou o rei. Todavia, enquanto o transportava, ele tinha muito cuidado para não pisar nas formigas e, sempre que via uma formiga, ficava parado até que ela passasse. Por causa disso, ele não era capaz de acompanhar o ritmo dos outros carregadores. Dentro do palanquim, o rei ficou muito irritado e, com palavras ofensivas, repreendeu Jaḍa Bharata, mas, como estava inteiramente livre do conceito corpóreo, Jaḍa Bharata não protestou; ele continuou carregando o palanquim. Ao ver que ele não mudara de comportamento, o rei ameaçou puni-lo, e, recebendo essa ameaça do rei, Jaḍa Bharata decidiu falar. Ele protestou contra a linguagem chula usada pelo rei quando este o repreendia, e o rei, ouvindo as instruções de Jaḍa Bharata, despertou-se para o verdadeiro conhecimento. Quando recobrou sua consciência, o rei compreendeu que havia ofendido uma personalidade grandiosa, santa e erudita. Foi então que, com muita humildade e respeito, ele orou a Jaḍa Bharata. Desta vez, queria entender o profundo significado das palavras filosóficas escolhidas por Jaḍa Bharata e, cheio de sinceridade, implorou seu perdão. Admitiu que o ofensor aos pés de lótus de um devoto puro com certeza será punido pelo tridente do senhor Śiva
Devanagari
श्रीशुक उवाच
अथ सिन्धुसौवीरपते रहूगणस्य व्रजत इक्षुमत्यास्तटे तत्कुलपतिना शिबिकावाहपुरुषान्वेषणसमये दैवेनोपसादित: स द्विजवर उपलब्ध एष पीवा युवा संहननाङ्गो गोखरवद्धुरं वोढुमलमिति पूर्वविष्टिगृहीतै: सह गृहीत: प्रसभमतदर्ह उवाह शिबिकां स महानुभाव: ॥ १ ॥
अथ सिन्धुसौवीरपते रहूगणस्य व्रजत इक्षुमत्यास्तटे तत्कुलपतिना शिबिकावाहपुरुषान्वेषणसमये दैवेनोपसादित: स द्विजवर उपलब्ध एष पीवा युवा संहननाङ्गो गोखरवद्धुरं वोढुमलमिति पूर्वविष्टिगृहीतै: सह गृहीत: प्रसभमतदर्ह उवाह शिबिकां स महानुभाव: ॥ १ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
atha sindhu-sauvīra-pate rahūgaṇasya vrajata ikṣumatyās taṭe tat-kula-patinā śibikā-vāha-puruṣānveṣaṇa-samaye daivenopasāditaḥ sa dvija-vara upalabdha eṣa pīvā yuvā saṁhananāṅgo go-kharavad dhuraṁ voḍhum alam iti pūrva-viṣṭi-gṛhītaiḥ saha gṛhītaḥ prasabham atad-arha uvāha śibikāṁ sa mahānubhāvaḥ.
atha sindhu-sauvīra-pate rahūgaṇasya vrajata ikṣumatyās taṭe tat-kula-patinā śibikā-vāha-puruṣānveṣaṇa-samaye daivenopasāditaḥ sa dvija-vara upalabdha eṣa pīvā yuvā saṁhananāṅgo go-kharavad dhuraṁ voḍhum alam iti pūrva-viṣṭi-gṛhītaiḥ saha gṛhītaḥ prasabham atad-arha uvāha śibikāṁ sa mahānubhāvaḥ.
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śukadeva Gosvāmī continuou a falar; atha — assim; sindhu-sauvīra-pateḥ — do soberano dos Estados conhecidos como Sindhu e Sauvīra; rahū-gaṇasya — o rei conhecido como Rahūgaṇa; vrajataḥ — enquanto ia (ao āśrama de Kapila); ikṣu-matyāḥ taṭe — na margem do rio conhecido como Ikṣumatī; tat-kula-patinā — pelo líder dos carregadores de palanquim; śibikā-vāha — para se tornar um carregador de palanquim; puruṣa-anveṣaṇa-samaye — por ocasião de buscar um homem; daivena — por acaso; upasāditaḥ — chegaram perto de; saḥ — este; dvija-varaḥ — Jaḍa Bharata, o filho de um brāhmaṇa; upalabdhaḥ — obtiveram; eṣaḥ — este homem; pīvā — muito forte e robusto; yuvā — jovem; saṁhanana-aṅgaḥ — tendo membros muito vigorosos; go-khara-vat — como uma vaca ou um asno; dhuram — uma carga; voḍhum — de transportar; alam — capaz; iti — pensando assim; pūrva-viṣṭi-gṛhītaiḥ — outros que antes eram forçados a realizar a tarefa; saha — com; gṛhītaḥ — sendo levado; prasabham — à força; a-tat-arhaḥ — embora incapaz de carregar o palanquim; uvāha — carregou; śibikām — o palanquim; saḥ — ele; mahā-anubhāvaḥ — uma grande alma.
Translation
Śukadeva Gosvāmī continuou: Meu querido rei, depois disso, o rei Rahūgaṇa, soberano dos Estados conhecidos como Sindhu e Sauvīra, dirigia-se a Kapilāśrama. Quando os principais carregadores do palanquim do rei alcançaram as margens do rio Ikṣumatī, eles precisaram de outro carregador. Começaram, então, a procurar alguém, e por acaso encontraram Jaḍa Bharata. Consideraram o fato de que Jaḍa Bharata era muito jovem e forte e tinha membros vigorosos. Como as vacas e os asnos, ele estava em ótimas condições para transportar fardos. Pensando dessa maneira, embora semelhante trabalho não fosse digno da grande alma Jaḍa Bharata, eles, sem hesitar, forçaram-no a carregar o palanquim.
Devanagari
यदा हि द्विजवरस्येषुमात्रावलोकानुगतेर्न समाहिता पुरुषगतिस्तदा विषमगतां स्वशिबिकां रहूगण उपधार्य पुरुषानधिवहत आह हे वोढार: साध्वतिक्रमत किमिति विषममुह्यते यानमिति ॥ २ ॥
Verse text
yadā hi dvija-varasyeṣu-mātrāvalokānugater na samāhitā puruṣa-gatis tadā viṣama-gatāṁ sva-śibikāṁ rahūgaṇa upadhārya puruṣān adhivahata āha he voḍhāraḥ sādhv atikramata kim iti viṣamam uhyate yānam iti.
Synonyms
yadā — quando; hi — decerto; dvija-varasya — de Jaḍa Bharata; iṣu-mātra — a medida de uma flecha (um metro) adiante; avaloka-anugateḥ — de mover-se somente após olhar; na samāhitā — em desacordo; puruṣa-gatiḥ — o movimento dos carregadores; tadā — naquele momento; viṣama-gatām — tornando-se desconexo; sva-śibikām — seu próprio palanquim; rahūgaṇaḥ — rei Rahūgaṇa; upadhārya — compreendendo; puruṣān — aos homens; adhivahataḥ — que estavam transportando o palanquim; āha — disse; he — ó; voḍhāraḥ — transporta o palanquim; sādhu atikramata — por favor, caminhai regularmente para que não haja solavancos; kim iti — por que razão; viṣamam — discorde; uhyate — está sendo carregado; yānam — o palanquim; iti — assim.
Translation
Contudo, devido ao seu senso de não-violência, Jaḍa Bharata carregava o palanquim de maneira muito irregular. À medida que avançava, metro após metro, ele parava para se certificar de que não estava prestes a pisar em alguma formiga. Em consequência disso, ele não conseguia acompanhar o ritmo dos outros carregadores. Como o palanquim balançava, o rei Rahūgaṇa imediatamente perguntou aos carregadores: “Por que estais carregando este palanquim sem o equilibrar devidamente? Melhor carregardes direito.”
Purport
SIGNIFICADO—Embora forçado a carregar o palanquim, Jaḍa Bharata não abandonou seus sentimentos misericordiosos para com as pobres formigas que passavam pelo caminho. Mesmo quando está na condição mais aflitiva, o devoto do Senhor não se esquece de seu serviço devocional e outras atividades favoráveis. Jaḍa Bharata era um brāhmaṇa qualificado, altamente avançado em conhecimento espiritual, mas foi forçado a carregar o palanquim. Ele não se importou com isso, mas, enquanto caminhava pela estrada, não esquecia o seu dever de evitar que mesmo uma formiga fosse morta. O vaiṣṇava jamais sente inveja e tampouco comete violência sem necessidade. Havia muitas formigas no caminho, mas, atento, Jaḍa Bharata olhava o que se passava a cada metro à sua frente. Quando as formigas não mais lhe impediam a passagem, ele colocava o pé no terreno. No âmago de seu coração, o vaiṣṇava é sempre muito bondoso com todas as entidades vivas. Em Seu sāṅkhya-yoga, o Senhor Kapiladeva explica que suhṛdaḥ sarva-dehinām. As entidades vivas assumem diversas formas corpóreas. Aqueles que não são vaiṣṇavas consideram apenas a sociedade humana como digna de sua misericórdia, mas Kṛṣṇa proclama ser o pai supremo de todas as formas de vida. Por conseguinte, o vaiṣṇava tem o máximo cuidado para não destruir precoce ou desnecessariamente alguma forma de vida. Todas as entidades vivas devem cumprir uma certa duração de encarceramento em uma determinada espécie de corpo material. Antes de serem promovidas para evoluir em outro corpo, elas têm que concluir o período a elas reservado em um corpo específico. Matar um animal ou qualquer outro ser vivo simplesmente põe um obstáculo a que ele cumpra o seu termo de aprisionamento em determinado corpo. Portanto, ninguém deve tirar vidas para meramente satisfazer os sentidos, pois quem faz isso incorre em uma atividade pecaminosa.
Devanagari
अथ त ईश्वरवच: सोपालम्भमुपाकर्ण्योपायतुरीयाच्छङ्कितमनसस्तं विज्ञापयांबभूवु: ॥ ३ ॥
Verse text
atha ta īśvara-vacaḥ sopālambham upākarṇyopāya-turīyāc chaṅkita-manasas taṁ vijñāpayāṁ babhūvuḥ.
Synonyms
atha — assim; te — eles (os carregadores do palanquim); īśvara-vacaḥ — as palavras do amo, o rei Rahūgaṇa; sa-upālambham — em tom de reprimenda; upākarṇya — ouvindo; upāya — os meios; turīyāt — da quarta pessoa; śaṅkita-manasaḥ — cujas mentes estavam temerosas; tam — a ele (o rei); vijñāpayām babhūvuḥ — informaram.
Translation
Ao ouvirem as repreensões de Mahārāja Rahūgaṇa, os carregadores do palanquim ficaram muito temerosos de serem punidos e começaram a falar-lhe o seguinte.
Purport
SIGNIFICADO—De acordo com a ciência política, o rei ora tenta apaziguar seus subordinados, ora os castiga, ora os repreende, ora os recompensa. Dessa maneira, o rei governa seus subordinados. Os carregadores do palanquim sentiram que o rei estava furioso e iria castigá-los.
Devanagari
न वयं नरदेव प्रमत्ता भवन्नियमानुपथा: साध्वेव वहाम: । अयमधुनैव नियुक्तोऽपि न द्रुतं व्रजति नानेन सह वोढुमु ह वयं पारयाम इति ॥ ४ ॥
Verse text
na vayaṁ nara-deva pramattā bhavan-niyamānupathāḥ sādhv eva vahāmaḥ. ayam adhunaiva niyukto ’pi na drutaṁ vrajati nānena saha voḍhum u ha vayaṁ pārayāma iti.
Synonyms
na — não; vayam — nós; nara-deva — ó senhor entre os seres humanos (o rei é tido como representante de deva, a Suprema Personalidade de Deus); pramattāḥ — negligentes em nossos deveres; bhavat-niyama-anupathāḥ — que sempre obedecemos à tua ordem; sādhu — devidamente; eva — certamente; vahāmaḥ — estamos carregando; ayam — este homem; adhunā — muito recentemente; eva — na verdade; niyuktaḥ — estando ocupado em trabalhar conosco; api — embora; na — não; drutam — com muita rapidez; vrajati — trabalha; na — não; anena — ele; saha — com; voḍhum — de carregar; u ha — ó; vayam — nós; pārayāmaḥ — somos capazes; iti — assim.
Translation
Ó senhor, por favor, nota que não somos, de modo algum, negligentes no desempenho de nossos deveres. Temos fielmente carregado este palanquim de acordo com teu desejo, mas esse homem, que recentemente passou a trabalhar conosco, não consegue caminhar muito rápido. Portanto, ele nos impede de carregar o palanquim.
Purport
SIGNIFICADO—Os outros carregadores do palanquim eram śūdras, ao passo que Jaḍa Bharata era não apenas um brāhmaṇa de alta estirpe, mas também um grande devoto. Os śūdras não têm misericórdia de outros seres vivos, mas o vaiṣṇava não consegue agir como um śūdra. Sempre que um śūdra e um vaiṣṇava brāhmaṇa entram em contato, por certo haverá incompatibilidade na execução dos deveres. Os śūdras caminhavam com o palanquim e nem mesmo se importavam com as formigas no caminho, ao passo que Jaḍa Bharata não conseguia agir como um śūdra, daí o impasse que se deu.
Devanagari
सांसर्गिको दोष एव नूनमेकस्यापि सर्वेषां सांसर्गिकाणां भवितुमर्हतीति निश्चित्य निशम्य कृपणवचो राजा रहूगण उपासितवृद्धोऽपि निसर्गेण बलात्कृत ईषदुत्थितमन्युरविस्पष्टब्रह्मतेजसं जातवेदसमिव रजसाऽऽवृतमतिराह ॥ ५ ॥
Verse text
sāṁsargiko doṣa eva nūnam ekasyāpi sarveṣāṁ sāṁsargikāṇāṁ bhavitum arhatīti niścitya niśamya kṛpaṇa-vaco rājā rahūgaṇa upāsita-vṛddho ’pi nisargeṇa balāt kṛta īṣad-utthita-manyur avispaṣṭa-brahma-tejasaṁ jāta-vedasam iva rajasāvṛta-matir āha.
Synonyms
saṁsargikaḥ — resultando da associação íntima; doṣaḥ — a culpa; eva — na verdade; nūnam — decerto; ekasya — de um; api — embora; sarveṣām — de todas as outras; sāṁsargikāṇām — pessoas associadas com ele; bhavitum — de se tornar; arhati — é capaz; iti — assim; niścitya — verificação; niśamya — ouvindo; kṛpaṇa-vacaḥ — as palavras dos pobres servos, que estavam com muito medo de serem punidos; rājā — o rei; rahūgaṇaḥ — Rahūgaṇa; upāsita-vṛddhaḥ — tendo servido e ouvido muitos sábios mais maduros; api — apesar de; nisargeṇa — por sua natureza pessoal de kṣatriya; balāt — à força; kṛtaḥ — fez; īṣat — um pouco; utthita — despertada; manyuḥ — cuja ira; avispaṣṭa — não sendo distintamente visível; brahma-tejasam — sua (de Jaḍa Bharata) refulgência espiritual; jāta-vedasam — um fogo coberto pelas cinzas nas cerimônias ritualísticas védicas; iva — como; rajasā āvṛta — coberta pelo modo da paixão; matiḥ — cuja mente; āha — afirma-se.
Translation
O rei Rahūgaṇa entendeu as palavras dos carregadores, e viu que eles temiam ser punidos. Entendeu também que, pela simples culpa de uma pessoa, o palanquim não estava sendo devidamente carregado. Sabendo perfeitamente bem disso e ouvindo-lhes a súplica, ficou um pouco irado, embora fosse muito avançado em ciência política e muito experiente. Sua ira surgiu devido à sua natureza inata de rei. Com efeito, a mente do rei Rahūgaṇa estava coberta pelo modo da paixão, em decorrência do que ele dirigiu as seguintes palavras a Jaḍa Bharata, cuja refulgência Brahman, tal qual um fogo coberto de cinzas, não era claramente visível.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, explica-se a distinção entre rajo-guṇa e sattva-guṇa. Muito embora fosse muito equilibrado e avançado em ciência política e administração governamental, o rei estava no modo da paixão e, portanto, devido a uma pequena agitação, ficou irado. Jaḍa Bharata, apesar de toda espécie de injustiças a ele infligidas somente porque se comportava como um surdo-mudo, permanecia calado por força de seu avanço espiritual. No entanto, seu brahma-tejaḥ, ou refulgência Brahman, era quase imperceptível.
Devanagari
अहो कष्टं भ्रातर्व्यक्तमुरुपरिश्रान्तो दीर्घमध्वानमेक एव ऊहिवान् सुचिरं नातिपीवा न संहननाङ्गो जरसा चोपद्रुतो भवान् सखे नो एवापर एते सङ्घट्टिन इति बहुविप्रलब्धोऽप्यविद्यया रचितद्रव्यगुणकर्माशयस्वचरमकलेवरेऽवस्तुनि संस्थानविशेषेऽहं ममेत्यनध्यारोपितमिथ्याप्रत्ययो ब्रह्मभूतस्तूष्णीं शिबिकां पूर्ववदुवाह ॥ ६ ॥
Verse text
aho kaṣṭaṁ bhrātar vyaktam uru-pariśrānto dīrgham adhvānam eka eva ūhivān suciraṁ nāti-pīvā na saṁhananāṅgo jarasā copadruto bhavān sakhe no evāpara ete saṅghaṭṭina iti bahu-vipralabdho ’py avidyayā racita-dravya-guṇa-karmāśaya-sva-carama-kalevare ’vastuni saṁsthāna-viśeṣe ’haṁ mamety anadhyāropita-mithyā-pratyayo brahma-bhūtas tūṣṇīṁ śibikāṁ pūrvavad uvāha.
Synonyms
aho — ai de mim; kaṣṭam — quão trabalhoso é isso; bhrātaḥ — meu querido irmão; vyaktam — visivelmente; uru — muitíssimo; pariśrāntaḥ — fatigado; dīrgham — um longo; adhvānam — caminho; ekaḥ — sozinho; eva — com certeza; ūhivān — carregaste; su-ciram — por um longo tempo; na — não; ati-pīvā — muito forte e vigoroso; na — não; saṁhanana-aṅgaḥ — tendo um corpo firme e ágil; jarasā — pela velhice; ca — também; upadrutaḥ — perturbado; bhavān — tu; sakhe — meu amigo; no eva — certamente não; apare — o outro; ete — todos esses; saṅghaṭṭinaḥ — colegas de trabalho; iti — assim; bahu — muitíssimo; vipralabdhaḥ — criticado sarcasticamente; api — embora; avidyayā — por ignorância; racita — manufaturado; dravya-guṇa-karma-āśaya — em uma combinação de elementos materiais, qualidades materiais e os resultados das atividades e desejos prévios; sva-carama-kalevare — no corpo, que é impulsionado por elementos sutis (mente, inteligência e ego); avastuni — nessas coisas físicas; saṁsthāna-viśeṣe — tendo uma disposição específica; aham mama — eu e meu; iti — dessa maneira; anadhyāropita — não interposta; mithyā — falsa; pratyayaḥ — crença; brahma-bhūtaḥ — que era autorrealizado, situado na plataforma Brahman; tūṣṇīm — estando silencioso; śibikām — o palanquim; pūrva-vat — como antes; uvāha — carregou.
Translation
O rei Rahūgaṇa disse a Jaḍa Bharata: “Quão trabalhoso é isso, meu querido irmão. Certamente pareces muito fatigado porque, sem ajuda, carregaste sozinho este palanquim durante muito tempo e por uma longa distância. Além disso, devido à tua idade avançada, enfrentaste grandes obstáculos. Meu querido amigo, vejo que não és muito firme, nem muito forte e vigoroso. Será que teus colegas carregadores não cooperam contigo?”
Purport
Dessa maneira, valendo-se de palavras sarcásticas, o rei criticou Jaḍa Bharata, quem, apesar de ter recebido semelhante crítica, não se envolvia com os conceitos corpóreos da situação. Sabia que não era o corpo, pois alcançara sua identidade espiritual. Ele não era gordo nem magro, nem franzino, tampouco tinha algo a ver com um monte de matéria, uma mera combinação de cinco elementos grosseiros e três elementos sutis. Ele não tinha qualquer conexão com o corpo material e suas duas mãos e pernas. Em outras palavras, ele havia compreendido na íntegra a sua identidade espiritual [ahaṁ brahmāsmi]. Portanto, ele não se sentia afetado pelas críticas sarcásticas do rei. Sem dizer nada, continuou a carregar o palanquim como antes.
SIGNIFICADO—Jaḍa Bharata era perfeitamente liberado. Ele nem mesmo se preocupou quando os assaltantes tentaram matar o seu corpo; ele sabia, com absoluta certeza, que não era o corpo. Mesmo que lhe tivessem matado o corpo, ele não teria se importado, pois estava inteiramente convicto da proposição encontrada na Bhagavad-gītā (2.20): na hanyate hanyamāne śarīre. Sabia que não poderia ser morto, mesmo que seu corpo fosse morto. Embora ele não protestasse, a Suprema Personalidade de Deus, por intermédio de Seu agente, não podia tolerar a injustiça perpetrada pelos assaltantes; portanto, ele foi salvo pela misericórdia de Kṛṣṇa, e os salteadores foram mortos. Aqui também, enquanto carregava o palanquim, ele sabia que não era o corpo. Seu corpo era muito forte e vigoroso, em boas condições e bem apto para carregar o palanquim. Como estava livre do conceito corpóreo, as palavras sarcásticas do rei não o ofenderam em absoluto. O corpo é criado de acordo com o karma individual, e a natureza material fornece os ingredientes necessários ao desenvolvimento de uma determinada espécie de corpo. A alma que o corpo reveste é diferente da estrutura corpórea; portanto, qualquer coisa favorável ou prejudicial visando ao corpo não afeta a alma espiritual. O preceito védico é que asaṅgo hy ayaṁ puruṣaḥ: a alma espiritual jamais é afetada por arranjos materiais.
Devanagari
अथ पुन: स्वशिबिकायां विषमगतायां प्रकुपित उवाच रहूगण: किमिदमरे त्वं जीवन्मृतो मां कदर्थीकृत्य भर्तृशासनमतिचरसि प्रमत्तस्य च ते करोमि चिकित्सां दण्डपाणिरिव जनताया यथा प्रकृतिं स्वां भजिष्यस इति ॥ ७ ॥
Verse text
atha punaḥ sva-śibikāyāṁ viṣama-gatāyāṁ prakupita uvāca rahūgaṇaḥ kim idam are tvaṁ jīvan-mṛto māṁ kadarthī-kṛtya bhartṛ-śāsanam aticarasi pramattasya ca te karomi cikitsāṁ daṇḍa-pāṇir iva janatāyā yathā prakṛtiṁ svāṁ bhajiṣyasa iti.
Synonyms
atha — depois disso; punaḥ — novamente; sva-śibikāyām — em seu próprio palanquim; viṣama-gatāyām — sendo carregado irregularmente porque Jaḍa Bharata não caminhava direito; prakupitaḥ — ficando muito irado; uvāca — disse; rahūgaṇaḥ — rei Rahūgaṇa; kim idam — que absurdo é este; are — ó tolos; tvam — vós; jīvat — vivos; mṛtaḥ — mortos; mām — a mim; kat-arthī-kṛtya — negligenciando; bhartṛ-śāsanam — punição aplicada pelo mestre; aticarasi — estais ultrapassando; pramattasya — que sois quase loucos; ca — também; te — a vós; karomi — farei; cikitsām — tratamento adequado; daṇḍa-pāṇiḥ iva — como Yamarāja; janatāyāḥ — das pessoas em geral; yathā — para que; prakṛtim — posição natural; svām — vossa própria; bhajiṣyase — vós vos estabeleçais em; iti — assim.
Translation
Depois disso, ao ver que seu palanquim continuava recebendo solavancos dos carregadores, o rei ficou muito irado e disse: Patifes, o que estais fazendo? Será que, embora haja vida em vossos corpos, morrestes? Não sabeis que sou vosso mestre? Estais me desrespeitando e, por isso, deixais de cumprir minha ordem. Em vista disso, eu vos punirei assim como Yamarāja, o superintendente da morte, pune as pessoas pecaminosas. Eu vos darei o tratamento adequado para que volteis à razão e façais as coisas corretamente.
Devanagari
एवं बह्वबद्धमपि भाषमाणं नरदेवाभिमानं रजसा तमसानुविद्धेन मदेन तिरस्कृताशेषभगवत्प्रियनिकेतं पण्डितमानिनं स भगवान् ब्राह्मणो ब्रह्मभूतसर्वभूतसुहृदात्मा योगेश्वरचर्यायां नातिव्युत्पन्नमतिं स्मयमान इव विगतस्मय इदमाह ॥ ८ ॥
Verse text
evaṁ bahv abaddham api bhāṣamāṇaṁ nara-devābhimānaṁ rajasā tamasānuviddhena madena tiraskṛtāśeṣa-bhagavat-priya-niketaṁ paṇḍita-māninaṁ sa bhagavān brāhmaṇo brahma-bhūta-sarva-bhūta-suhṛd-ātmā yogeśvara-caryāyāṁ nāti-vyutpanna-matiṁ smayamāna iva vigata-smaya idam āha.
Synonyms
evam — dessa maneira; bahu — muito; abaddham — despropositada; api — embora; bhāṣamāṇam — fala; nara-deva-abhimānam — rei Rahūgaṇa, que se julgava o soberano; rajasā — pelo modo material da paixão; tamasā — bem como pelo modo da ignorância; anuviddhena — sendo aumentados; madena — pela loucura; tiraskṛta — que repreendeu; aśeṣa — inúmeros; bhagavat-priya-niketam — devotos do Senhor; paṇḍita-māninam — considerando-se um estudioso muito erudito; saḥ — esse; bhagavān — espiritualmente poderosíssimo (Jaḍa Bharata); brāhmaṇaḥ — um brāhmaṇa plenamente qualificado; brahma-bhūta — inteiramente autorrealizado; sarva-bhūta-suḥrt-ātmā — que era, portanto, amigo de todas as entidades vivas; yoga-īśvara — dos yogīs místicos mais avançados; caryāyām — no comportamento; na ativyutpanna-matim — ao rei Rahūgaṇa, que era desprovido de verdadeira experiência; smayamānaḥ — sorrindo com discrição; iva — como; vigata-smayaḥ — que estava livre de todo o orgulho material; idam — isto; āha — falou.
Translation
Julgando-se um monarca, o rei Rahūgaṇa estava situado no conceito corpóreo e deixava-se influenciar pelos modos materiais de paixão e ignorância. Devido à loucura, ele castigou Jaḍa Bharata com palavras descabidas e contraditórias. Jaḍa Bharata era um devoto elevadíssimo e a querida morada da Suprema Personalidade de Deus. Embora se considerasse muito erudito, o rei ignorava a posição de um devoto avançado e fixo em serviço devocional; tampouco conhecia as suas características. Jaḍa Bharata era a residência da Suprema Personalidade de Deus e sempre levava dentro do seu coração a forma do Senhor. Ele era o querido amigo de todos os seres vivos, e não alimentava qualquer concepção corpórea. Portanto, com um sorriso nos lábios, falou as seguintes palavras.
Purport
SIGNIFICADO—A distinção entre uma pessoa no conceito corpóreo e uma pessoa situada além do conceito corpóreo é apresentada neste verso. No conceito corpóreo, o rei Rahūgaṇa julgava-se um monarca e castigou Jaḍa Bharata de muitas maneiras inadequadas. Sendo autorrealizado, Jaḍa Bharata, que estava plenamente situado na plataforma transcendental, não ficou nem um pouco irado; ao contrário, ele sorriu e começou a dar seus ensinamentos ao rei Rahūgaṇa. Um devoto vaiṣṇava altamente avançado é amigo de todas as entidades vivas e, por conseguinte, também é amigo de seus inimigos. De fato, ele não considera ninguém como inimigo. Suhṛdaḥ sarva-dehinām. (Śrīmad-Bhāgavatam 3.25.21) Às vezes, o vaiṣṇava fica aparentemente irado contra um não-devoto, mas isso é para o bem do não-devoto. Temos diversos exemplos disso na literatura védica. Certa vez, Nārada ficou irado contra os dois filhos de Kuvera, Nalakūvara e Maṇigrīva, e castigou-os transformando-os em árvores. O resultado foi que, mais tarde, eles foram liberados pelo Senhor Śrī Kṛṣṇa. O devoto está situado na plataforma absoluta, e não faz diferença entre ele estar irado ou satisfeito, pois, em qualquer um dos casos, ele concede suas bênçãos.
Devanagari
ब्राह्मण उवाच
त्वयोदितं व्यक्तमविप्रलब्धं
भर्तु: स मे स्याद्यदि वीर भार: ।
गन्तुर्यदि स्यादधिगम्यमध्वा
पीवेति राशौ न विदां प्रवाद: ॥ ९ ॥
त्वयोदितं व्यक्तमविप्रलब्धं
भर्तु: स मे स्याद्यदि वीर भार: ।
गन्तुर्यदि स्यादधिगम्यमध्वा
पीवेति राशौ न विदां प्रवाद: ॥ ९ ॥
Verse text
brāhmaṇa uvāca
tvayoditaṁ vyaktam avipralabdhaṁ
bhartuḥ sa me syād yadi vīra bhāraḥ
gantur yadi syād adhigamyam adhvā
pīveti rāśau na vidāṁ pravādaḥ
tvayoditaṁ vyaktam avipralabdhaṁ
bhartuḥ sa me syād yadi vīra bhāraḥ
gantur yadi syād adhigamyam adhvā
pīveti rāśau na vidāṁ pravādaḥ
Synonyms
brāhmaṇaḥ uvāca — o brāhmaṇa erudito (Jaḍa Bharata) falou; tvayā — por ti; uditam — explicado; vyaktam — muito claramente; avipralabdham — sem contradições; bhartuḥ — do veículo, o corpo; saḥ — este; me — meu; syāt — teria sido; yadi — se; vīra — ó grande herói (Mahārāja Rahūgaṇa); bhāraḥ — uma carga; gantuḥ — do agente, também o corpo; yadi — se; syāt — tivesse sido; adhigamyam — o objeto a ser alcançado; adhvā — o caminho; pīvā — muito forte e vigoroso; iti — assim; rāśau — no corpo; na — não; vidām — das pessoas autorrealizadas; pravādaḥ — assunto de discussão.
Translation
O grande brāhmaṇa Jaḍa Bharata disse: Meu querido rei e herói, tudo o que falaste sarcasticamente é verdade, sem dúvida alguma. De fato, essas não são simples palavras de repreensão, pois o corpo é o transportador. A carga levada pelo corpo não me pertence, pois sou a alma espiritual. Não há contradição em tuas afirmações porque sou diferente do corpo. Eu não sou o carregador do palanquim; o corpo é o carregador. Decerto, como propuseste, não me empenhei em carregar o palanquim, pois estou desapegado do corpo. Disseste que não sou forte e vigoroso, e essas palavras caem muito bem em alguém que ignora a distinção entre o corpo e a alma. Talvez o corpo seja gordo ou magro, mas nenhum homem erudito usaria esses termos ao referir-se à alma espiritual. Quanto à alma espiritual, não sou nem gordo nem macilento; portanto, estás correto ao dizer que não sou muito robusto. Também, se o objetivo desta viagem e o caminho que leva a ele fossem meus, haveria muitos problemas para mim, mas, como eles não se relacionam comigo, mas com meu corpo, não existe problema algum.
Purport
SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā, afirma-se que a pessoa avançada em conhecimento espiritual não se deixa perturbar pelas dores e prazeres do corpo material. O corpo material está inteiramente à parte da alma espiritual, e as dores e prazeres do corpo são apenas aparentes. A prática de austeridades e penitências destina-se a fazer com que se compreenda a distinção entre o corpo e a alma e como a alma não se deixa afetar pelos prazeres e dores do corpo. Jaḍa Bharata, na verdade, estava situado na plataforma de autorrealização. Ele estava completamente alheio à concepção corpórea; portanto, imediatamente assumiu essa posição e convenceu o rei de que todas as coisas contraditórias que o rei disse ao referir-se a seu corpo realmente não se aplicavam a ele como alma espiritual.
Devanagari
स्थौल्यं कार्श्यं व्याधय आधयश्च
क्षुत्तृड् भयं कलिरिच्छा जरा च ।
निद्रा रतिर्मन्युरहंमद: शुचो
देहेन जातस्य हि मे न सन्ति ॥ १० ॥
क्षुत्तृड् भयं कलिरिच्छा जरा च ।
निद्रा रतिर्मन्युरहंमद: शुचो
देहेन जातस्य हि मे न सन्ति ॥ १० ॥
Verse text
sthaulyaṁ kārśyaṁ vyādhaya ādhayaś ca
kṣut tṛḍ bhayaṁ kalir icchā jarā ca
nidrā ratir manyur ahaṁ madaḥ śuco
dehena jātasya hi me na santi
kṣut tṛḍ bhayaṁ kalir icchā jarā ca
nidrā ratir manyur ahaṁ madaḥ śuco
dehena jātasya hi me na santi
Synonyms
sthaulyam — sendo muito forte e vigoroso; kārśyam — sendo esquálido e fraco; vyādhayaḥ — as dores do corpo, tais como a doença; ādhayaḥ — as dores da mente; ca — e; kṣut tṛṭ bhayam — fome, sede e medo; kaliḥ — desavenças entre duas pessoas; icchā — desejos; jarā — velhice; ca — e; nidrā — sono; ratiḥ — apego ao gozo dos sentidos; manyuḥ — ira; aham — falsa identificação (no conceito de vida corpórea); madaḥ — ilusão; śucaḥ — lamentação; dehena — com este corpo; jātasya — de alguém que nasceu; hi — decerto; me — de mim; na — não; santi — existem.
Translation
Obesidade, magreza, aflição corpórea ou mental, sede, fome, medo, discórdia, desejos de felicidade material, velhice, sono, apego a posses materiais, ira, lamentação, ilusão e identificar o eu com o corpo são transformações pelas quais passa o revestimento material da alma espiritual. A pessoa absorta no conceito corpóreo material deixa-se envolver com essas coisas, mas estou livre de todas as concepções corpóreas. Em consequência disso, não sou nem gordo nem magro, nem nada que tenhas mencionado.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura canta: deha-smṛti nāhi yāra, saṁsāra-bandhana kāhāṅ tāra. Quem é avançado espiritualmente não tem vínculos com o corpo nem com as ações e reações corpóreas. Quando alguém entende que não é o corpo e, portanto, não é gordo nem magro, alcança então o nível mais elevado de compreensão espiritual. Quem não é iluminado espiritualmente, fica enredado no mundo material através do conceito corpóreo. No momento atual, toda a sociedade humana está às voltas com o conceito corpóreo; portanto, as pessoas desta era são mencionadas nos śāstras como dvipada-paśu, animais bípedes. Ninguém pode ser feliz em uma civilização conduzida por semelhantes animais. Nosso movimento para a consciência de Kṛṣṇa está tentando elevar ao estado de compreensão espiritual a sociedade humana caída. Não é possível que todos se tornem imediatamente autorrealizados como Jaḍa Bharata. Contudo, como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.18), naṣṭa-prāyeṣv abhadreṣu nityaṁ bhāgavata-sevayā. Difundindo os princípios bhāgavata, podemos elevar a sociedade humana à plataforma de perfeição. Quem não é afetado pelas concepções corpóreas pode avançar rumo ao serviço devocional ao Senhor.
naṣṭa-prāyeṣv abhadreṣu
nityaṁ bhāgavata-sevayā
bhagavaty uttamaśloke
bhaktir bhavati naiṣṭhikī
nityaṁ bhāgavata-sevayā
bhagavaty uttamaśloke
bhaktir bhavati naiṣṭhikī
Quanto mais estivermos livres do conceito corpóreo, mais nos estabeleceremos em serviço devocional, e seremos ainda mais felizes e pacíficos. A esse respeito, Śrīla Madhvācārya diz que aqueles que se envolvem em excesso com a matéria continuam na concepção corpórea. Essas pessoas estão interessadas nas diversas manifestações corpóreas, ao passo que quem está livre das concepções corpóreas vive sem o corpo mesmo nas condições materiais.
Devanagari
जीवन्मृतत्वं नियमेन राजन्
आद्यन्तवद्यद्विकृतस्य दृष्टम् ।
स्वस्वाम्यभावो ध्रुव ईड्य यत्र
तर्ह्युच्यतेऽसौ विधिकृत्ययोग: ॥ ११ ॥
आद्यन्तवद्यद्विकृतस्य दृष्टम् ।
स्वस्वाम्यभावो ध्रुव ईड्य यत्र
तर्ह्युच्यतेऽसौ विधिकृत्ययोग: ॥ ११ ॥
Verse text
jīvan-mṛtatvaṁ niyamena rājan
ādyantavad yad vikṛtasya dṛṣṭam
sva-svāmya-bhāvo dhruva īḍya yatra
tarhy ucyate ’sau vidhikṛtya-yogaḥ
ādyantavad yad vikṛtasya dṛṣṭam
sva-svāmya-bhāvo dhruva īḍya yatra
tarhy ucyate ’sau vidhikṛtya-yogaḥ
Synonyms
jīvat-mṛtatvam — a qualidade de estar morto enquanto vivo; niyamena — pelas leis da natureza; rājan — ó rei; ādi-anta-vat — qualquer coisa material tem um começo e um fim; yat — porque; vikṛtasya — das coisas que sofrem transformações, tais como o corpo; dṛṣṭam — é notada; sva-svāmya-bhāvaḥ — a condição de serviço e soberania; dhruvaḥ — imutável; īḍya — ó tu que és adorado; yatra — onde; tarhi — então; ucyate — afirma-se; asau — isto; vidhi-kṛtya-yogaḥ — aptidão de ordem e de dever.
Translation
Meu querido rei, acusaste-me desnecessariamente de estar morto apesar de vivo. Quanto a isso, posso apenas dizer que se verifica esse fenômeno em toda parte porque todas as coisas materiais têm seu começo e seu fim. Quanto ao fato de julgares ser o rei e amo e, dessa maneira, tentares me dar ordens, isso também é incorreto, haja vista que essas posições são temporárias. Hoje és o rei e eu te presto serviço, mas amanhã essa posição pode mudar, e podes ser meu servo e eu o teu mestre. Essas são circunstâncias temporárias, criadas pela providência.
Purport
SIGNIFICADO—A concepção corpórea é o princípio básico do sofrimento na existência material. Especialmente em Kali-yuga, as pessoas são tão rudes que nem mesmo conseguem entender que o corpo está mudando a cada momento e que a mudança final se chama morte. Nesta vida, a pessoa pode ser um rei, e, de acordo com o karma, pode vir a ser um cachorro na próxima vida. A alma espiritual está em um sono profundo causado pela potência da natureza material. Ela é posta em uma espécie de condições e, em seguida, passa para outra condição. Sem autorrealização e conhecimento, a vida condicionada continua, e o indivíduo tem a falsa convicção de ser rei, servo, gato ou cachorro. Essas são simplesmente diferentes transformações provocadas pelo arranjo supremo. Ninguém deve se deixar levar por essas concepções corpóreas temporárias. Na verdade, ninguém é amo dentro do mundo material, pois todos estão sob o controle da natureza material, que, por sua vez, está sob o controle da Suprema Personalidade de Deus. Portanto, Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, é o mestre definitivo. Como explica o Caitanya-caritāmṛta, ekale īśvara kṛṣṇa, āra saba bhṛtya: o único amo é Kṛṣṇa, e todos os demais são Seus servos. Esquecermo-nos de nossa relação com o Senhor Supremo redunda em nosso sofrimento no mundo material.
Devanagari
विशेषबुद्धेर्विवरं मनाक् च
पश्याम यन्न व्यवहारतोऽन्यत् ।
क ईश्वरस्तत्र किमीशितव्यं
तथापि राजन् करवाम किं ते ॥ १२ ॥
पश्याम यन्न व्यवहारतोऽन्यत् ।
क ईश्वरस्तत्र किमीशितव्यं
तथापि राजन् करवाम किं ते ॥ १२ ॥
Verse text
viśeṣa-buddher vivaraṁ manāk ca
paśyāma yan na vyavahārato ’nyat
ka īśvaras tatra kim īśitavyaṁ
tathāpi rājan karavāma kiṁ te
paśyāma yan na vyavahārato ’nyat
ka īśvaras tatra kim īśitavyaṁ
tathāpi rājan karavāma kiṁ te
Synonyms
viśeṣa-buddheḥ — do conceito de distinção entre amo e servo; vivaram — a meta; manāk — um pouco; ca — também; paśyāmaḥ — vejo; yat — a qual; na — não; vyavahārataḥ — do que o uso temporário ou convenção; anyat — outra; kaḥ — quem; īśvaraḥ — o amo; tatra — nisto; kim — quem; īśitavyam — deve ser controlado; tathāpi — todavia; rājan — ó rei (se ainda julgas que és amo e que sou servo); karavāma — posso fazer; kim — que; te — por ti.
Translation
Meu querido rei, se ainda pensas que és o soberano e que sou teu servo, deves dar-me ordens, e eu deverei segui-las. Posso então dizer que essa distinção é temporária, e que persiste apenas graças ao uso ou à convenção. Não vejo nenhuma outra causa. Sendo assim, quem é o amo, e quem é o servo? Todos estão sendo forçados pelas leis da natureza material; portanto, ninguém é amo e ninguém é servo. Entretanto, se pensas que és o amo e que sou o servo, aceitarei isso. Por favor, ordena-me. O que posso fazer por ti?
Purport
SIGNIFICADO—No Śrīmad-Bhāgavatam, afirma-se que ahaṁ mameti, o indivíduo pensa: “Eu sou este corpo, e, nessa relação corpórea, ele é meu amo, ele é meu servo, ela é minha esposa e ele é meu filho.” Devido à mudança inevitável do corpo e ao desígnio da natureza material, todas essas concepções têm um caráter temporário. Unimo-nos como palhas que flutuam nas ondas de um oceano, palhas que são inevitavelmente separadas pelas leis das ondas. Neste mundo material, todos estão flutuando sobre as ondas do oceano da ignorância. Como descreve Bhaktivinoda Ṭhākura:
(miche) māyāra vaśe, yāccha bhese’,
khāccha hābuḍubu, bhāi
(jīva) kṛṣṇa-dāsa, ei viśvāsa,
karle ta’ āra duḥkha nāi
Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura afirma que todos os homens e mulheres estão flutuando como palhas sobre as ondas da natureza material. Se entendem que são servos eternos de Kṛṣṇa, findarão esta condição flutuante. Como afirma a Bhagavad-gītā (3.37): kāma eṣa krodha eṣa rajo-guṇa-samudbhavaḥ. Em virtude do modo da paixão, desejamos muitas coisas, e, de acordo com nossos desejos ou anseios, e conforme a ordem do Senhor Supremo, a natureza material nos proporciona certa espécie de corpo. Por algum tempo, desempenhamos o papel de patrão ou servo, assim como os atores trabalham no palco sob a direção de outrem. Na forma humana, devemos findar essa desvairada representação teatral. Devemos estabelecer-nos em nossa posição constitucional original, conhecida como consciência de Kṛṣṇa. Nas atuais circunstâncias, o verdadeiro amo é a natureza material. Daivī hy eṣā guṇa-mayī mama māyā duratyayā. (Bhagavad-gītā 7.14) Sob o encanto da natureza material, estamos nos tornando servos e patrões, mas se concordarmos em sermos controlados pela Suprema Personalidade de Deus e Seus servos eternos, essa condição temporária deixará de existir.
Devanagari
उन्मत्तमत्तजडवत्स्वसंस्थां
गतस्य मे वीर चिकित्सितेन ।
अर्थ: कियान् भवता शिक्षितेन
स्तब्धप्रमत्तस्य च पिष्टपेष: ॥ १३ ॥
गतस्य मे वीर चिकित्सितेन ।
अर्थ: कियान् भवता शिक्षितेन
स्तब्धप्रमत्तस्य च पिष्टपेष: ॥ १३ ॥
Verse text
unmatta-matta-jaḍavat sva-saṁsthāṁ
gatasya me vīra cikitsitena
arthaḥ kiyān bhavatā śikṣitena
stabdha-pramattasya ca piṣṭapeṣaḥ
gatasya me vīra cikitsitena
arthaḥ kiyān bhavatā śikṣitena
stabdha-pramattasya ca piṣṭapeṣaḥ
Synonyms
unmatta — loucura; matta — um bêbado; jaḍa-vat — como um estúpido; sva-saṁsthām — situação em minha posição constitucional original; gatasya — de uma pessoa que obteve; me — de mim; vīra — ó rei; cikitsitena — mediante teu castigo; arthaḥ — o significado ou propósito; kiyān — que; bhavatā — por ti; śikṣitena — sendo instruído; stabdha — obtuso; pramattasya — de um homem louco; ca — também; piṣṭa-peṣaḥ — como moer farinha.
Translation
Meu querido rei, tu disseste: “Patife, estúpido, sujeito insano! Eu te castigarei e, então, voltarás à razão.” Quanto a isso, permite-me dizer que, embora eu viva como um tolo, surdo e mudo, na verdade, sou uma pessoa autorrealizada. O que ganharás punindo a minha pessoa? Se teu julgamento é verdadeiro, e eu sou louco, então tua punição equivaleria a bater em um cavalo morto. De nada isso adiantará. Quando um louco é punido, ele não se cura de sua loucura.
Purport
SIGNIFICADO—Todos neste mundo material estão trabalhando como loucos sob certas impressões falsamente adquiridas ao longo das condições materiais. Por exemplo, um ladrão que sabe que roubar não é bom e que sabe que, para o roubo, há punições do rei ou de Deus, e que já viu ladrões serem presos e punidos pela polícia, não descontinua suas atividades ligadas a roubos, apesar disso tudo. Ele está obcecado pela ideia de que, roubando, será feliz. Esse é um sinal de loucura. Apesar de repetidas punições, o ladrão não consegue abandonar seu hábito de roubar, daí a punição ser inútil.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
एतावदनुवादपरिभाषया प्रत्युदीर्य मुनिवर उपशमशील उपरतानात्म्यनिमित्त उपभोगेन कर्मारब्धं व्यपनयन् राजयानमपि तथोवाह ॥ १४ ॥
एतावदनुवादपरिभाषया प्रत्युदीर्य मुनिवर उपशमशील उपरतानात्म्यनिमित्त उपभोगेन कर्मारब्धं व्यपनयन् राजयानमपि तथोवाह ॥ १४ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
etāvad anuvāda-paribhāṣayā pratyudīrya muni-vara upaśama-śīla uparatānātmya-nimitta upabhogena karmārabdhaṁ vyapanayan rāja-yānam api tathovāha.
etāvad anuvāda-paribhāṣayā pratyudīrya muni-vara upaśama-śīla uparatānātmya-nimitta upabhogena karmārabdhaṁ vyapanayan rāja-yānam api tathovāha.
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śukadeva Gosvāmī continuou a falar; etāvat — tanto; anuvāda-paribhāṣayā — pela repetição elucidativa das palavras que o rei falara; pratyudīrya — dando respostas consecutivas; muni-varaḥ — grande sábio Jaḍa Bharata; upaśama-śīlaḥ — que era calmo e de caráter pacífico; uparata — cessou; anātmya — coisas não relacionadas com a alma; nimittaḥ — cuja causa (ignorância) para a identificação com coisas não relacionadas com a alma; upabhogena — aceitando as consequências de seu karma; karma-ārabdham — a ação resultante agora alcançada; vyapanayan — terminando; rāja-yānam — o palanquim do rei; api — novamente; tathā — como antes; uvāha — continuou a carregar.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Ó Mahārāja Parīkṣit, quando o rei Rahūgaṇa castigou com palavras ásperas o grandioso devoto Jaḍa Bharata, este, que era santo e pacífico, tolerou tudo e respondeu adequadamente. A ignorância decorre do conceito corpóreo, e Jaḍa Bharata não era afetado por essa falsa concepção. Por sua humildade natural, ele nunca se julgava um grande devoto, e concordava em sofrer os resultados de seu karma passado. Como um homem comum, ele pensava que, carregando o palanquim, estava destruindo as reações de seus erros anteriores. Pensando dessa maneira, ele começou a carregar o palanquim como antes.
Purport
SIGNIFICADO—Um elevado devoto do Senhor jamais pensa que é um paramahaṁsa ou uma pessoa liberada. Ele sempre permanece como um servo humilde do Senhor. Em todas as condições adversas, ele concorda em sofrer as consequências de sua vida passada. Ele nunca alega que o Senhor o colocou em situações aflitivas. Isso caracteriza um grande devoto. Tat te ’nukampāṁ susamīkṣyamāṇaḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 10.14.8) Quando é posto em condições adversas, o devoto sempre as considera uma benevolência do Senhor. Ele nunca fica irado contra seu mestre; ele sempre está satisfeito com a posição que seu mestre oferece. Em qualquer caso, ele continua executando seu dever em serviço devocional. Semelhante pessoa garante sua ascensão de volta ao lar, de volta ao Supremo. Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (10.14.8):
tat te ’nukampāṁ susamīkṣamāṇo
bhuñjāna evātma-kṛtaṁ vipākam
hṛd-vāg-vapurbhir vidadhan namas te
jīveta yo mukti-pade sa dāya-bhāk
bhuñjāna evātma-kṛtaṁ vipākam
hṛd-vāg-vapurbhir vidadhan namas te
jīveta yo mukti-pade sa dāya-bhāk
“Meu querido Senhor, aquele que vive à espera de Vossa misericórdia imotivada e continua sofrendo as reações de seus erros passados, oferecendo-Vos respeitosas reverências no recôndito do seu coração, com certeza se qualifica a obter a liberação, a qual ele passa a ter todo o direito de exigir.”
Devanagari
स चापि पाण्डवेय सिन्धुसौवीरपतिस्तत्त्वजिज्ञासायां सम्यक्श्रद्धयाधिकृताधिकारस्तद्धृदयग्रन्थिमोचनं द्विजवच आश्रुत्य बहुयोगग्रन्थसम्मतं त्वरयावरुह्य शिरसा पादमूलमुपसृत: क्षमापयन् विगतनृपदेवस्मय उवाच ॥ १५ ॥
Verse text
sa cāpi pāṇḍaveya sindhu-sauvīra-patis tattva-jijñāsāyāṁ samyak-śraddhayādhikṛtādhikāras tad dhṛdaya-granthi-mocanaṁ dvija-vaca āśrutya bahu-yoga-grantha-sammataṁ tvarayāvaruhya śirasā pāda-mūlam upasṛtaḥ kṣamāpayan vigata-nṛpa-deva-smaya uvāca.
Synonyms
saḥ — ele (Mahārāja Rahūgaṇa); ca — também; api — na verdade; pāṇḍaveya — ó melhor da dinastia Pāṇḍu (Mahārāja Parīkṣit); sindhu-sauvīra-patiḥ — o rei dos Estados conhecidos como Sindhu e Sauvīra; tattva-jijñāsāyām — no tema das perguntas a respeito da Verdade Absoluta; samyak-śraddhayā — pela fé que consiste no controle pleno dos sentidos e da mente; adhikṛta-adhikāraḥ — que alcançou a devida qualificação; tat — isto; hṛdaya-granthi — o nó das falsas concepções dentro do coração; mocanam — que desfaz; dvija-vacaḥ — as palavras do brāhmaṇa (Jaḍa Bharata); āśrutya — ouvindo; bahu-yoga-grantha-sammatam — aprovadas por todos os processos de yoga e suas escrituras; tvarayā — bem depressa; avaruhya — descendo (do palanquim); śirasā — com sua cabeça; pāda-mūlam — aos pés de lótus; upasṛtaḥ — caindo esticado para oferecer reverências; kṣamāpayan — obtendo perdão de sua ofensa; vigata-nṛpa-deva-smayaḥ — abandonando o falso orgulho de ser o rei e, portanto, de ser adorável; uvāca — disse.
Translation
Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Ó melhor da dinastia Pāṇḍu [Mahārāja Parīkṣit], o rei dos Estados de Sindhu e Sauvīra [Mahārāja Rahūgaṇa] depositava muita fé nas declarações referentes à Verdade Absoluta. Foi com essa qualificação que ele ouviu de Jaḍa Bharata essa apresentação filosófica que, aprovada por todas as escrituras voltadas para os processos do yoga místico, afrouxa o nó no coração. Sua concepção material de julgar-se rei foi assim destruída. Imediatamente, ele desceu do palanquim e, caindo esticado sobre o solo, colocou sua cabeça aos pés de lótus de Jaḍa Bharata, candidatando-se a receber o perdão de suas palavras insultuosas ao grande brāhmaṇa. Então, ele fez a seguinte oração.
Purport
SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (4.2), o Senhor Kṛṣṇa diz:
evaṁ paramparā-prāptam
imaṁ rājarṣayo viduḥ
sa kāleneha mahatā
yogo naṣṭaḥ parantapa
imaṁ rājarṣayo viduḥ
sa kāleneha mahatā
yogo naṣṭaḥ parantapa
“Esta ciência suprema foi assim recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na desta maneira. Porém, com o passar do tempo, a sucessão foi interrompida, e, portanto, a ciência como ela é parece ter-se perdido.”
Através da sucessão discipular, a ordem real estava na mesma plataforma dos grandes santos (rāja-ṛṣis). Outrora, ela entendia a filosofia da vida e sabia como treinar os cidadãos para atingirem esse mesmo resultado. Em outras palavras, sabia como libertar do cativeiro de nascimentos e mortes os cidadãos. Na época em que Mahārāja Daśaratha governava Ayodhyā, o grande sábio Viśvāmitra certa vez foi ter com ele para levar o Senhor Rāmacandra e Lakṣmaṇa à floresta a fim de matar um demônio. Quando a pessoa santa Viśvāmitra chegou à corte de Mahārāja Daśaratha, o rei, com o propósito de receber aquele santo, perguntou-lhe: aihiṣṭaṁ yat tat punar janma jayāya. Ele perguntou ao sábio se tudo estava indo bem em seu esforço para superar a repetição de nascimentos e mortes. Todo o processo da civilização védica se baseia neste ponto. Devemos aprender a superar a repetição de nascimentos e mortes. Mahārāja Rahūgaṇa também conhecia o propósito da vida; portanto, quando Jaḍa Bharata apresentou-lhe a filosofia da vida, ele imediatamente a valorizou. Essa é a base da sociedade védica. Os estudiosos eruditos, os brāhmaṇas, as pessoas santas e os sábios dotados de pleno entendimento do objetivo védico aconselhavam a ordem real sobre como beneficiarem a massa em geral, e, mediante essa contribuição, as pessoas comuns eram favorecidas. Portanto, tudo era exitoso. Mahārāja Rahūgaṇa alcançara esta perfeição de compreender o valor da vida humana; por isso, lamentou as palavras injuriosas que proferira contra Jaḍa Bharata, e imediatamente desceu do palanquim e caiu aos pés de Jaḍa Bharata para poder então ser perdoado e para continuar ouvindo-o falar sobre os valores da vida conhecidos como brahma jijñāsā (perguntas sobre a Verdade Absoluta). No momento atual, as altas esferas governamentais ignoram os valores da vida, e quando as pessoas santas buscam difundir o conhecimento védico, os ditos executivos não lhes oferecem respeitosas reverências, senão que tentam impedir a mensagem espiritual. Assim, pode-se dizer que o antigo governo monárquico era como o céu e que o governo atual é como o inferno.
Devanagari
कस्त्वं निगूढश्चरसि द्विजानां
बिभर्षि सूत्रं कतमोऽवधूत: ।
कस्यासि कुत्रत्य इहापि कस्मात्
क्षेमाय नश्चेदसि नोत शुक्ल: ॥ १६ ॥
बिभर्षि सूत्रं कतमोऽवधूत: ।
कस्यासि कुत्रत्य इहापि कस्मात्
क्षेमाय नश्चेदसि नोत शुक्ल: ॥ १६ ॥
Verse text
kas tvaṁ nigūḍhaś carasi dvijānāṁ
bibharṣi sūtraṁ katamo ’vadhūtaḥ
kasyāsi kutratya ihāpi kasmāt
kṣemāya naś ced asi nota śuklaḥ
bibharṣi sūtraṁ katamo ’vadhūtaḥ
kasyāsi kutratya ihāpi kasmāt
kṣemāya naś ced asi nota śuklaḥ
Synonyms
kaḥ tvam — quem és; nigūḍhaḥ — muito encoberto; carasi — andas dentro deste mundo; dvijānām — entre os brāhmaṇas ou pessoas santas; bibharṣi — também usas; sūtram — o cordão sagrado pertencente aos brāhmaṇas de primeira classe; katamaḥ — que; avadhūtaḥ — pessoa altamente elevada; kasya asi — qual a tua procedência (de quem és discípulo ou filho); kutratyaḥ — de onde; iha api — aqui neste lugar; kasmāt — com que propósito; kṣemāya — para o benefício; naḥ — de nós; cet — se; asi — és; na uta — ou não; śuklaḥ — a personalidade do modo da bondade pura (Kapiladeva).
Translation
O rei Rahūgaṇa disse: Ó brāhmaṇa, parece que, movimentando-te neste mundo, estás completamente encoberto e passas desapercebido para os outros. Quem és tu? És um brāhmaṇa erudito e uma pessoa santa? Vejo que estás usando um cordão sagrado. És um daqueles santos exímios e liberados, tais como Dattātreya e outros estudiosos eruditos altamente avançados? Permite-me perguntar de quem és discípulo. Onde vives? Por que vieste a este lugar? Tua missão ao vir aqui é nos beneficiar? Por favor, dize-me quem és.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Rahūgaṇa estava muito ansioso por continuar a receber esclarecimentos acerca do conhecimento védico porque podia entender que, tanto por sucessão discipular, quanto por nascimento em uma dinastia brāhmaṇa, Jaḍa Bharata pertencia a uma família brāhmaṇa. Como afirmam os Vedas, tad vijñānārthaṁ sa gurum evābhigacchet. Rahūgaṇa estava aceitando Jaḍa Bharata como guru, mas o guru precisa comprovar sua posição não apenas usando um cordão sagrado, mas através de avançado conhecimento em vida espiritual. Também é significativo que Rahūgaṇa tenha perguntado a Jaḍa Bharata sobre a família a que esse pertencia. Existem duas classes de família – uma, de acordo com a dinastia, e a outra, de acordo com a sucessão discipular. É possível se esclarecer a partir de ambas. A palavra śuklaḥ se refere àquele que está no modo da bondade. Se alguém deseja receber conhecimento espiritual, deve aproximar-se de um brāhmaṇa-guru fidedigno, quer integrante da sucessão discipular, quer pertencente a uma família de brāhmaṇas eruditos.
Devanagari
नाहं विशङ्के सुरराजवज्रा-
न्न त्र्यक्षशूलान्न यमस्य दण्डात् ।
नाग्न्यर्कसोमानिलवित्तपास्त्रा-
च्छङ्के भृशं ब्रह्मकुलावमानात् ॥ १७ ॥
न्न त्र्यक्षशूलान्न यमस्य दण्डात् ।
नाग्न्यर्कसोमानिलवित्तपास्त्रा-
च्छङ्के भृशं ब्रह्मकुलावमानात् ॥ १७ ॥
Verse text
nāhaṁ viśaṅke sura-rāja-vajrān
na tryakṣa-śūlān na yamasya daṇḍāt
nāgny-arka-somānila-vittapāstrāc
chaṅke bhṛśaṁ brahma-kulāvamānāt
na tryakṣa-śūlān na yamasya daṇḍāt
nāgny-arka-somānila-vittapāstrāc
chaṅke bhṛśaṁ brahma-kulāvamānāt
Synonyms
na — não; aham — eu; viśaṅke — tenho medo; sura-rāja-vajrāt — do raio de Indra, o rei dos céus; na — nem; tryakṣa-śūlāt — do tridente despedaçador do senhor Śiva; na — nem; yamasya — de Yamarāja, o superintendente da morte; daṇḍāt — da punição; na — nem; agni — do fogo; arka — do calor escaldante do Sol; soma — da Lua; anila — do vento; vitta-pa — do proprietário de riquezas, Kuvera, o tesoureiro dos planetas celestiais; astrāt — das armas; śaṅke — tenho medo; bhṛśam — muito; brahma-kula — o grupo dos brāhmaṇas; avamānāt — de ofender.
Translation
Meu querido senhor, não tenho medo algum do raio do rei Indra, tampouco me assusta o tridente serpentino e despedaçador do senhor Śiva. Não me importo com a punição de Yamarāja, o superintendente da morte, nem tenho medo do fogo, do Sol escaldante, da Lua, do vento ou das armas de Kuvera. Todavia, temo ofender um brāhmaṇa. Isso me causa imenso temor.
Purport
SIGNIFICADO—Quando Śrī Caitanya Mahāprabhu estava instruindo Rūpa Gosvāmī no Daśāśvamedha-ghāṭa, em Prayāga, Ele assinalou com muita clareza a gravidade da ofensa a um vaiṣṇava. Ele comparou o vaiṣṇava-aparādha a hātī mātā, um elefante louco. Ao entrar em um jardim, um elefante louco destrói todas as frutas e flores. Do mesmo modo, quem ofende um vaiṣṇava destrói todas as suas riquezas espirituais. Ofender um brāhmaṇa é algo muito perigoso, e Mahārāja Rahūgaṇa sabia disso. Portanto, ele não hesitou em reconhecer o seu erro. Existem muitas coisas perigosas – raios, fogo, a punição de Yamarāja, o castigo do tridente do senhor Śiva e assim por diante –, mas nenhuma é considerada tão séria como ofender um brāhmaṇa do quilate de Jaḍa Bharata. Portanto, apenas para ser perdoado, Mahārāja Rahūgaṇa imediatamente desceu do palanquim e caiu diante dos pés de lótus do brāhmaṇa Jaḍa Bharata com seu corpo esticado como uma vara.
Devanagari
तद्ब्रूह्यसङ्गो जडवन्निगूढ-
विज्ञानवीर्यो विचरस्यपार: ।
वचांसि योगग्रथितानि साधो
न न: क्षमन्ते मनसापि भेत्तुम् ॥ १८ ॥
विज्ञानवीर्यो विचरस्यपार: ।
वचांसि योगग्रथितानि साधो
न न: क्षमन्ते मनसापि भेत्तुम् ॥ १८ ॥
Verse text
tad brūhy asaṅgo jaḍavan nigūḍha-
vijñāna-vīryo vicarasy apāraḥ
vacāṁsi yoga-grathitāni sādho
na naḥ kṣamante manasāpi bhettum
vijñāna-vīryo vicarasy apāraḥ
vacāṁsi yoga-grathitāni sādho
na naḥ kṣamante manasāpi bhettum
Synonyms
tat — portanto; brūhi — por favor, fala; asaṅgaḥ — que não tem associação com o mundo material; jaḍa-vat — parecendo um surdo-mudo; nigūḍha — completamente encoberto; vijñāna-vīryaḥ — que tem pleno conhecimento da ciência espiritual e, assim, é muito poderoso; vicarasi — estás te movimentando; apāraḥ — que possui ilimitadas glórias espirituais; vacāṁsi — as palavras proferidas por ti; yoga-grathitāni — portando o significado completo do yoga místico; sādho — ó grandiosa pessoa santa; na — não; naḥ — de nós; kṣamante — somos capazes; manasā api — nem mesmo mentalmente; bhettum — de entender através do estudo analítico.
Translation
Meu querido senhor, parece que a influência de teu grande conhecimento espiritual está oculta. De fato, estás desprovido de toda a associação material e sempre absorves os teus pensamentos no Supremo. Por conseguinte, és ilimitadamente avançado em conhecimento espiritual. Por favor, dize-me por que estás vagando como um tolo. Ó grande pessoa santa, falaste palavras concordantes com os processos ióguicos, mas, para nós, é-nos impossível entender o que disseste. Portanto, faze o obséquio de explicar-nos tudo isso.
Purport
SIGNIFICADO—Santos como Jaḍa Bharata não falam palavras comuns. Tudo o que eles dizem é aprovado pelos grandes yogīs e por pessoas avançadas na vida espiritual. Essa é a diferença entre as pessoas comuns e as pessoas santas. Para entender as palavras dessas pessoas sublimes e avançadas na esfera espiritual, como Jaḍa Bharata, o ouvinte também tem que ser avançado. A Bhagavad-gītā foi falada a Arjuna, não a outros. O Senhor Kṛṣṇa escolheu especificamente Arjuna para receber instruções acerca do conhecimento espiritual porque Arjuna era um grande devoto e Seu amigo íntimo. Do mesmo modo, grandes personalidades também falam àqueles que são avançados, e não para os śūdras, os vaiśyas, as mulheres ou os homens ininteligentes. Às vezes, é muito arriscado dar grandes instruções filosóficas a pessoas comuns, mas, visando ao benefício das almas caídas que vivem em Kali-yuga, Śrī Caitanya Mahāprabhu nos deu um ótimo instrumento, o cantar do mantra Hare Kṛṣṇa. A massa popular em geral, embora seja constituída de śūdras ou de pessoas de categoria inferior a isso, pode purificar-se cantando este mantra Hare Kṛṣṇa. Então, ela poderá entender as sublimes afirmações filosóficas da Bhagavād-gītā e do Śrīmad-Bhāgavatam. Nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa recomenda, portanto, que o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa seja cantado pelas pessoas em geral. Com a purificação gradativa, as pessoas receberão instruções acerca da Bhagavad-gītā e do Śrīmad-Bhāgavatam. Materialistas como strī, śūdra e dvija-bandhu não conseguem entender as palavras de avanço espiritual, mas todos podem refugiar-se nos vaiṣṇavas, que conhecem a arte de iluminar inclusive os śūdras, capacitando-os a receber o apuradíssimo tema contido na Bhagavad-gītā e no Śrīmad-Bhāgavatam.
Devanagari
अहं च योगेश्वरमात्मतत्त्व-
विदां मुनीनां परमं गुरुं वै ।
प्रष्टुं प्रवृत्त: किमिहारणं तत्
साक्षाद्धरिं ज्ञानकलावतीर्णम् ॥ १९ ॥
विदां मुनीनां परमं गुरुं वै ।
प्रष्टुं प्रवृत्त: किमिहारणं तत्
साक्षाद्धरिं ज्ञानकलावतीर्णम् ॥ १९ ॥
Verse text
ahaṁ ca yogeśvaram ātma-tattva-
vidāṁ munīnāṁ paramaṁ guruṁ vai
praṣṭuṁ pravṛttaḥ kim ihāraṇaṁ tat
sākṣād dhariṁ jñāna-kalāvatīrṇam
vidāṁ munīnāṁ paramaṁ guruṁ vai
praṣṭuṁ pravṛttaḥ kim ihāraṇaṁ tat
sākṣād dhariṁ jñāna-kalāvatīrṇam
Synonyms
aham — eu; ca — e; yoga-īśvaram — o mestre de todo o poder místico; ātma-tattva-vidām — dos estudiosos eruditos que são cientes do conhecimento espiritual; munīnām — dessas pessoas santas; paramam — o melhor; gurum — o preceptor; vai — na verdade; praṣṭum — em perguntar; pravṛttaḥ — ocupado; kim — que; iha — neste mundo; araṇam — o refúgio mais seguro; tat — aquele que; sākṣāt harim — diretamente a Suprema Personalidade de Deus; jñāna-kalā-avatīrṇam — que, sob Sua porção plenária conhecida como Kapiladeva, adveio como a encarnação do conhecimento completo.
Translation
Considero-te o mais elevado mestre do poder místico. Conheces a ciência espiritual perfeitamente bem. És o mais elevado de todos os sábios eruditos, e desceste para o benefício de toda a sociedade humana. Vieste para dar conhecimento espiritual, e és um representante direto de Kapiladeva, a encarnação de Deus e porção plenária do conhecimento. Portanto, eu te pergunto, ó mestre espiritual: Qual é o refúgio mais seguro neste mundo?
Purport
SIGNIFICADO—Como Kṛṣṇa confirma na Bhagavad-gītā (6.47):
yoginām api sarveṣāṁ
mad-gatenāntarātmanā
śraddhāvān bhajate yo māṁ
sa me yuktatamo mataḥ
mad-gatenāntarātmanā
śraddhāvān bhajate yo māṁ
sa me yuktatamo mataḥ
“De todos os yogīs, aquele que se refugia em Mim com muita fé, adorando-Me com serviço transcendental amoroso, está muito intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos.”
Jaḍa Bharata era um yogī perfeito. Anteriormente, ele fora o imperador Bharata Mahārāja, e agora era a pessoa mais elevada entre os sábios e eruditos e o mestre de todos os poderes místicos. Embora fosse uma entidade viva comum, Jaḍa Bharata herdara todo o conhecimento dado por Kapiladeva, a Suprema Personalidade de Deus. Portanto, podia-se aceitá-lo como sendo a própria Suprema Personalidade de Deus. Como confirma Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura em suas estrofes dedicadas ao mestre espiritual, sākṣād-dharitvena samasta-śāstraiḥ. Porque representa plenamente o Senhor, dando conhecimento aos outros, uma personalidade elevada como Jaḍa Bharata está no mesmo nível que a Suprema Personalidade de Deus. Nesta passagem, Jaḍa Bharata é aceito como o representante direto da Suprema Personalidade de Deus, pois estava outorgando conhecimento em nome do Senhor Supremo. Portanto, Mahārāja Rahūgaṇa concluiu que era oportuno perguntar-lhe sobre ātma-tattva, a ciência espiritual. Tad-vijñānārthaṁ sa gurum evābhigacchet. Aqui também se confirma esse preceito védico. Quem possui algum interesse em conhecer a ciência espiritual (brahma jijñāsā), deve aproximar-se de um guru como Jaḍa Bharata.
Devanagari
स वै भवाँल्लोकनिरीक्षणार्थ-
मव्यक्तलिङ्गो विचरत्यपिस्वित् ।
योगेश्वराणां गतिमन्धबुद्धि:
कथं विचक्षीत गृहानुबन्ध: ॥ २० ॥
मव्यक्तलिङ्गो विचरत्यपिस्वित् ।
योगेश्वराणां गतिमन्धबुद्धि:
कथं विचक्षीत गृहानुबन्ध: ॥ २० ॥
Verse text
sa vai bhavāḻ loka-nirīkṣaṇārtham
avyakta-liṅgo vicaraty api svit
yogeśvarāṇāṁ gatim andha-buddhiḥ
kathaṁ vicakṣīta gṛhānubandhaḥ
avyakta-liṅgo vicaraty api svit
yogeśvarāṇāṁ gatim andha-buddhiḥ
kathaṁ vicakṣīta gṛhānubandhaḥ
Synonyms
saḥ — essa Suprema Personalidade de Deus ou Sua encarnação Kapiladeva; vai — na verdade; bhavān — tu; loka-nirīkṣaṇa-artham — simplesmente para estudar as características das pessoas deste mundo; avyakta-liṅgaḥ — sem manifestar tua verdadeira identidade; vicarati — estás viajando por este mundo; api svit — se; yoga-īśvarāṇām — de todos os yogīs avançados; gatim — as características ou verdadeiro comportamento; andha-buddhiḥ — que estão iludidos e ficaram cegos no que diz respeito ao conhecimento espiritual; katham — como; vicakṣīta — posso saber; gṛha-anubandhaḥ — eu que estou atado ao apego à vida familiar, ou vida mundana.
Translation
Não é verdade que és o representante direto de Kapiladeva, a encarnação da Suprema Personalidade de Deus? Para analisar as pessoas e ver quem realmente é humano e quem não o é, te apresentaste como surdo-mudo. Não é com esse intuito que percorres a superfície do mundo? Quanto a mim, sou muito apegado à vida familiar e às atividades mundanas, e sou cego no que diz respeito ao conhecimento espiritual. No entanto, eis-me aqui diante de ti, desejoso de que me ilumines. Como posso avançar na vida espiritual?
Purport
SIGNIFICADO—Embora Mahārāja Rahūgaṇa estivesse representando o papel de um rei, Jaḍa Bharata lhe informou que ele não era um rei, nem Jaḍa Bharata era um surdo-mudo. Semelhantes designações eram meras coberturas da alma espiritual. Todos devem chegar a este conhecimento. Como se confirma na Bhagavad-gītā (2.13): dehino ’smin yathā dehe. Todos estão engaiolados dentro do corpo. Como o corpo jamais é idêntico à alma, as atividades corpóreas são simplesmente ilusórias. Ao se associar com um sādhu como Jaḍa Bharata, Mahārāja Rahūgaṇa se conscientizou de que suas atividades como uma autoridade eram fenômenos meramente ilusórios. Por conseguinte, concordou em receber conhecimento de Jaḍa Bharata, e esse foi o início de sua perfeição. Tad-vijñānārthaṁ sa gurum evābhigacchet. Alguém como Mahārāja Rahūgaṇa, que era muito curioso de conhecer o valor da vida e a ciência espiritual, deve aproximar-se de uma pessoa como Jaḍa Bharata. Tasmād guruṁ prapadyeta jijñāsuḥ śreya uttamam. (Śrīmad-Bhāgavatam 11.3.21) A pessoa deve aproximar-se de um guru como Jaḍa Bharata, um representante da Suprema Personalidade de Deus, a fim de perguntar sobre a meta da vida humana.
Devanagari
दृष्ट: श्रम: कर्मत आत्मनो वै
भर्तुर्गन्तुर्भवतश्चानुमन्ये ।
यथासतोदानयनाद्यभावात्
समूल इष्टो व्यवहारमार्ग: ॥ २१ ॥
भर्तुर्गन्तुर्भवतश्चानुमन्ये ।
यथासतोदानयनाद्यभावात्
समूल इष्टो व्यवहारमार्ग: ॥ २१ ॥
Verse text
dṛṣṭaḥ śramaḥ karmata ātmano vai
bhartur gantur bhavataś cānumanye
yathāsatodānayanādy-abhāvāt
samūla iṣṭo vyavahāra-mārgaḥ
bhartur gantur bhavataś cānumanye
yathāsatodānayanādy-abhāvāt
samūla iṣṭo vyavahāra-mārgaḥ
Synonyms
dṛṣṭaḥ — é experimentada por todos; śramaḥ — fadiga; karmataḥ — de agir de alguma maneira; ātmanaḥ — da alma; vai — na verdade; bhartuḥ — de uma pessoa que está carregando o palanquim; gantuḥ — de uma pessoa que está se movimentando; bhavataḥ — de ti próprio; ca — e; anumanye — imagino assim; yathā — tanto quanto; asatā — com algo que não é fato; uda — de água; ānayana-ādi — do carregar e outras tarefas semelhantes; abhāvāt — da ausência; sa-mūlaḥ — baseado na evidência; iṣṭaḥ — respeitado; vyavahāra-mārgaḥ — fenômeno.
Translation
Tu disseste: “O trabalho não me cansa.” Embora a alma seja diferente do corpo, existe fadiga devido ao trabalho corporal, o que parece ser a fadiga da alma. Quando estás carregando o palanquim, decerto há trabalho para a alma. Esta é a minha suposição. Também disseste que o comportamento externo observado entre o mestre e o servo não é real, mas, embora no mundo fenomenal ele não seja real, os produtos do mundo fenomenal podem efetivamente afetar algo. Isso é visível e experimentado. Desse modo, embora as atividades materiais não sejam permanentes, elas não podem ser tidas como falsas.
Purport
SIGNIFICADO—Esta discussão refere-se à filosofia impersonalista māyāvāda em confronto com a filosofia prática dos vaiṣṇavas. A filosofia māyāvāda afirma que este mundo fenomenal é falso, mas os filósofos vaiṣṇavas não concordam com isso. Eles sabem que, embora não seja falso, este mundo fenomenal é uma manifestação temporária. Por certo que o sonho que temos à noite é falso, mas um sonho horrível com certeza afeta a pessoa que o vê. A fadiga da alma não é real, mas, enquanto a pessoa está imersa na concepção corpórea e ilusória, ela é afetada por esses sonhos falsos. Quando sonhamos, não podemos evitar a verdade dos fatos, mas a alma condicionada é obrigada a sofrer devido a seu sonho. Um pote de água é feito de barro e é temporário. Na verdade, não existe pote de água; simplesmente existe o barro. Contudo, enquanto o pote for capaz de conter água, podemos usá-lo com esse propósito. Não se pode dizer que ele é completamente falso.
Devanagari
स्थाल्यग्नितापात्पयसोऽभिताप-
स्तत्तापतस्तण्डुलगर्भरन्धि: ।
देहेन्द्रियास्वाशयसन्निकर्षात्
तत्संसृति: पुरुषस्यानुरोधात् ॥ २२ ॥
स्तत्तापतस्तण्डुलगर्भरन्धि: ।
देहेन्द्रियास्वाशयसन्निकर्षात्
तत्संसृति: पुरुषस्यानुरोधात् ॥ २२ ॥
Verse text
sthāly-agni-tāpāt payaso ’bhitāpas
tat-tāpatas taṇḍula-garbha-randhiḥ
dehendriyāsvāśaya-sannikarṣāt
tat-saṁsṛtiḥ puruṣasyānurodhāt
tat-tāpatas taṇḍula-garbha-randhiḥ
dehendriyāsvāśaya-sannikarṣāt
tat-saṁsṛtiḥ puruṣasyānurodhāt
Synonyms
sthāli — na panela de cozinhar; agni-tāpāt — por causa do calor do fogo; payasaḥ — o leite colocado no pote; abhitāpaḥ — aquece-se; tattāpataḥ — devido ao aquecimento do leite; taṇḍula-garbha-randhiḥ — o punhado de arroz dentro do leite fica cozido; deha-indriya-asvāśaya — os sentidos corpóreos; sannikarṣāt — de ter relações com; tat-saṁsṛtiḥ — a experiência de fadiga e outros sofrimentos; puruṣasya — da alma; anurodhāt — da sujeição de estar grosseiramente apegado ao corpo, aos sentidos e à mente.
Translation
O rei Rahūgaṇa prosseguiu: Meu querido senhor, disseste que denominações como obesidade e magreza corpóreas não são características da alma. Isso é incorreto porque denominações como dor e prazer certamente são sentidas pela alma. Caso coloques uma panela de leite e arroz dentro do fogo, o arroz e o leite naturalmente submetem-se ao aquecimento sucessivo. Do mesmo modo, devido às dores e aos prazeres corpóreos, os sentidos, a mente e a alma são afetados. A alma não pode ficar inteiramente livre desse condicionamento.
Purport
SIGNIFICADO—Do ponto de vista prático, este argumento apresentado por Mahārāja Rahūgaṇa é correto, mas decorre do apego à concepção corpórea. Pode-se dizer que, sentada em seu carro, a pessoa com certeza é diferente deste, mas, se o carro sofrer danos, o proprietário, estando demasiadamente apegado ao carro, sentirá dor. De fato, o dano feito ao carro nada tem a ver com o proprietário do carro, mas, como o proprietário se coloca na posição de salvaguardar o carro, ele sente prazer e dor em relação ao veículo. Ao desaparecer o apego ao carro, evita-se esse estado condicionado. Então, o proprietário não sentirá prazer ou dor se o carro sofrer alguma avaria ou acontecer qualquer outra coisa. Do mesmo modo, a alma nada tem a ver com o corpo e os sentidos, mas, devido à ignorância, ela se identifica com o corpo e sente prazer e dor devido ao prazer e à dor de natureza física.
Devanagari
शास्ताभिगोप्ता नृपति: प्रजानांय: किङ्करो वै न पिनष्टि पिष्टम् । स्वधर्ममाराधनमच्युतस्ययदीहमानो विजहात्यघौघम् ॥ २३ ॥
Verse text
śāstābhigoptā nṛpatiḥ prajānāṁ
yaḥ kiṅkaro vai na pinaṣṭi piṣṭam
sva-dharmam ārādhanam acyutasya
yad īhamāno vijahāty aghaugham
yaḥ kiṅkaro vai na pinaṣṭi piṣṭam
sva-dharmam ārādhanam acyutasya
yad īhamāno vijahāty aghaugham
Synonyms
śāstā — o governador; abhigoptā — um benquerente dos cidadãos, assim como o pai é o benquerente de seus filhos; nṛ-patiḥ — o rei; prajānām — dos cidadãos; yaḥ — aquele que; kiṅkaraḥ — cumpridor de ordens; vai — na verdade; na — não; pinaṣṭi piṣṭam — mói aquilo que já está moído; sva-dharmam — o seu próprio dever ocupacional; ārādhanam — adoração; acyutasya — à Suprema Personalidade de Deus; yat — a qual; īhamānaḥ — executando; vijahāti — eles se libertam de; agha-ogham — toda classe de atividades pecaminosas e ações erradas.
Translation
Meu querido senhor, disseste que as relações entre o rei e seu súdito ou entre o amo e seu servo não são eternas, mas, embora essas relações sejam temporárias, quando alguém assume a posição de rei, seu dever é governar os cidadãos e punir aqueles que desobedecem às leis. Ao puni-los, ele ensina os cidadãos a obedecerem às leis do Estado. Também disseste que punir um surdo-mudo é como mastigar o mastigado ou moer uma pasta, isto é, não há benefício algum nisso. Contudo, se alguém está absorto em seu próprio dever ocupacional designado pelo Senhor Supremo, suas atividades pecaminosas certamente são reduzidas. Assim sendo, se alguém se ocupa à força em seu dever, ele se beneficia, pois lhe é possível, dessa maneira, aniquilar todas as atividades pecaminosas.
Purport
SIGNIFICADO—Este argumento oferecido por Mahārāja Rahūgaṇa decerto é muito eficaz. Em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu (1.2.4), Śrīla Rūpa Gosvāmī diz que tasmāt kenāpy upāyena manaḥ kṛṣṇe niveśayet: de alguma forma, devemos ocupar-nos em consciência de Kṛṣṇa. Na verdade, todo ser vivo é um servo eterno de Kṛṣṇa, mas, devido ao esquecimento, a entidade viva ocupa-se como serva eterna de māyā. Enquanto alguém estiver ocupado a serviço de māyā, não poderá ser feliz. Nosso movimento da consciência de Kṛṣṇa busca ocupar as pessoas a serviço do Senhor Kṛṣṇa. Isso ajudará a libertá-las de toda a contaminação material e das atividades pecaminosas. A Bhagavad-gītā (4.10) confirma isso: vīta-rāga-bhaya-krodhāḥ. Ao desapegarmo-nos das atividades materiais, nós nos libertaremos do medo e da ira. Através da austeridade, a pessoa se purifica e se capacita a voltar ao lar, voltar ao Supremo. Cabe ao rei governar seus cidadãos de maneira tal que eles possam tornar-se conscientes de Kṛṣṇa. Isso será muito benéfico a todos. Infelizmente, o rei ou o presidente, ao invés de dar às pessoas a oportunidade de servir ao Senhor, ocupam-nas em atividades de gozo dos sentidos, e essas atividades certamente não beneficiam ninguém. O rei Rahūgaṇa tentou ocupar Jaḍa Bharata em carregar o palanquim, o que seria, para o rei, uma forma de gozo dos sentidos. Contudo, se alguém está ocupado como carregador de palanquim a serviço do Senhor, por certo que isso é benéfico. Nesta civilização ímpia, se um presidente pudesse, de alguma maneira, ocupar a população em prestar serviço devocional, ou ajudá-la a despertar a consciência de Kṛṣṇa, ele prestaria um ótimo serviço aos cidadãos.
Devanagari
तन्मे भवान्नरदेवाभिमान-मदेन तुच्छीकृतसत्तमस्य । कृषीष्ट मैत्रीदृशमार्तबन्धोयथा तरे सदवध्यानमंह: ॥ २४ ॥
Verse text
tan me bhavān nara-devābhimāna-
madena tucchīkṛta-sattamasya
kṛṣīṣṭa maitrī-dṛśam ārta-bandho
yathā tare sad-avadhyānam aṁhaḥ
madena tucchīkṛta-sattamasya
kṛṣīṣṭa maitrī-dṛśam ārta-bandho
yathā tare sad-avadhyānam aṁhaḥ
Synonyms
tat — portanto; me — a mim; bhavān — tu; nara-deva-abhimāna-madena — pela loucura decorrente do fato de possuir um corpo de rei e, dessa maneira, orgulhar-me dele; tucchīkṛta — que insultei; sat-tamasya — a ti, que és o melhor entre os seres humanos; kṛṣīṣṭa — por favor, mostra-me; maitrī-dṛśam — como amigo, tua misericórdia imotivada; ārta-bandho — ó amigo de todas as pessoas aflitas; yathā — então; tare — posso aliviar-me de; sat-avadhyānam — fazer pouco caso de uma grande personalidade como tu; aṁhaḥ — o pecado.
Translation
Tudo o que falaste parece-me contraditório. Ó melhor amigo dos aflitos, cometi uma grande ofensa insultando-te. Pelo simples fato de possuir um corpo de rei, estava envaidecido pelo falso prestígio. Por causa disso, é certo que me tornei um ofensor. Portanto, oro que, por favor, me olhes com tua misericórdia imotivada. Se assim o fizeres, poderei libertar-me das atividades pecaminosas em que incorri ao insultar tua pessoa.
Purport
SIGNIFICADO—Śrī Caitanya Mahāprabhu disse que quem ofende um vaiṣṇava encerra todas as suas atividades espirituais. Ofender um vaiṣṇava é considerado a ofensa do elefante louco. Um elefante ensandecido pode destruir todo um jardim que foi plantado com muito esforço. Uma pessoa pode alcançar a plataforma mais elevada de serviço devocional, mas, se comete alguma ofensa a um vaiṣṇava, toda a estrutura entrará em colapso. Sem o saber, o rei Rahūgaṇa ofendera Jaḍa Bharata, mas, devido ao seu bom senso, pediu perdão. Esse é o processo pelo qual a pessoa pode expiar um vaiṣṇava-aparādha. Kṛṣṇa é sempre muito simples e de natureza misericordiosa. Quando alguém comete uma ofensa aos pés de um vaiṣṇava, ele deve imediatamente pedir desculpas a essa personalidade para que seu avanço espiritual não seja impedido.
Devanagari
न विक्रिया विश्वसुहृत्सखस्यसाम्येन वीताभिमतेस्तवापि । महद्विमानात् स्वकृताद्धि मादृङ्नङ्क्ष्यत्यदूरादपि शूलपाणि: ॥ २५ ॥
Verse text
na vikriyā viśva-suhṛt-sakhasya
sāmyena vītābhimates tavāpi
mahad-vimānāt sva-kṛtād dhi mādṛṅ
naṅkṣyaty adūrād api śūlapāṇiḥ
sāmyena vītābhimates tavāpi
mahad-vimānāt sva-kṛtād dhi mādṛṅ
naṅkṣyaty adūrād api śūlapāṇiḥ
Synonyms
na — não; vikriyā — transformação material; viśva-suhṛt — da Suprema Personalidade de Deus, que é amigo de todos; sakhasya — de ti, o amigo; sāmyena — devido ao teu equilíbrio mental; vīta-abhimateḥ — que eliminaste por completo o conceito de vida corpórea; tava — teu; api — na verdade; mahat-vimānāt — do insulto a um grande devoto; sva-kṛtāt — de minha própria atividade; hi — decerto; mādṛk — uma pessoa como eu; naṅkṣyati — será destruída; adūrāt — muito em breve; api — com certeza; śūla-pāṇiḥ — muito embora seja tão poderoso como o senhor Śiva (Śūlapāṇi).
Translation
Ó meu querido senhor, és amigo da Suprema Personalidade de Deus, quem, por Sua vez, é amigo de todas as entidades vivas. Portanto, és equânime para com todos, e estás livre da concepção corpórea. Embora eu tenha cometido uma ofensa ao insultar-te, sei que nada ganharás e nada perderás com o meu insulto. Estás fixo em tua determinação, mas cometi uma ofensa. Devido a isso, mesmo que eu fosse tão forte como o senhor Śiva, serei aniquilado imediatamente em razão de minha ofensa aos pés de lótus de um vaiṣṇava.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Rahūgaṇa era muito inteligente e conhecia os efeitos inauspiciosos decorrentes do insulto a um vaiṣṇava. Portanto, ele estava muito ansioso por ser perdoado por Jaḍa Bharata. Seguindo os passos de Mahārāja Rahūgaṇa, todos devem tomar cuidado para não cometer ofensas aos pés de lótus de um vaiṣṇava. No Caitanya-bhāgavata (Madhya 13), Śrīla Vṛndāvana Dāsa Ṭhākura diz:
śūlapāṇi-sama yadi bhakta-nindā kare
bhāgavata pramāṇa — tathāpi śīghra mare
hena vaiṣṇavere ninde sarvajña ha-i
se janera adhaḥ-pāta sarva-śāstre ka-i
bhāgavata pramāṇa — tathāpi śīghra mare
hena vaiṣṇavere ninde sarvajña ha-i
se janera adhaḥ-pāta sarva-śāstre ka-i
“Mesmo que alguém seja tão forte como o senhor Śiva, o qual carrega um tridente em sua mão, ainda assim, cairá de sua posição espiritual ao insultar um vaiṣṇava. Esse é o veredicto de todas as escrituras védicas.” Ele também diz isso no Caitanya-bhāgavata (Madhya 22).
vaiṣṇavera nindā karibeka yāra gaṇa
tāra rakṣā sāmarthya nāhika kona jana
śūlapāṇi-sama yadi vaiṣṇavere ninde
tathāpiha nāśa yāya — kahe śāstra-vṛnde
ihā nā māniyā ye sujana nindā kare
janme janme se pāpiṣṭha daiva-doṣe mare
tāra rakṣā sāmarthya nāhika kona jana
śūlapāṇi-sama yadi vaiṣṇavere ninde
tathāpiha nāśa yāya — kahe śāstra-vṛnde
ihā nā māniyā ye sujana nindā kare
janme janme se pāpiṣṭha daiva-doṣe mare
“Aquele que blasfema contra um vaiṣṇava não pode ser protegido por ninguém. Mesmo que alguém seja tão forte como o senhor Śiva, se ele blasfemar um vaiṣṇava, é certo que será destruído. Esse é o veredicto de todos os śāstras. Se alguém não se importa com o veredito dos śāstras e ousa blasfemar um vaiṣṇava, ele sofrerá vida após vida por causa disso.”
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do quinto canto, décimo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “O Debate entre Jaḍa Bharata e Mahārāja Rahūgaṇa”.