Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Vinte e Dois
O Casamento de Kardama Muni e Devahūti
Devanagari
मैत्रेय उवाच
एवमाविष्कृताशेषगुणकर्मोदयो मुनिम् ।
सव्रीड इव तं सम्राडुपारतमुवाच ह ॥ १ ॥
एवमाविष्कृताशेषगुणकर्मोदयो मुनिम् ।
सव्रीड इव तं सम्राडुपारतमुवाच ह ॥ १ ॥
Verse text
maitreya uvāca
evam āviṣkṛtāśeṣa-
guṇa-karmodayo munim
savrīḍa iva taṁ samrāḍ
upāratam uvāca ha
evam āviṣkṛtāśeṣa-
guṇa-karmodayo munim
savrīḍa iva taṁ samrāḍ
upāratam uvāca ha
Synonyms
maitreyaḥ — o grande sábio Maitreya; uvāca — disse; evam — assim; āviṣkṛta — tendo sido descritas; aśeṣa — todas; guṇa — das virtudes; karma — das atividades; udayaḥ — a grandeza; munim — o grande sábio; sa-vrīḍaḥ — sentindo-se modesto; iva — como se; tam — a ele (Kardama); samrāṭ — imperador Manu; upāratam — silencioso; uvāca ha — dirigiu-se.
Translation
Śrī Maitreya disse: Após descrever a grandeza das múltiplas qualidades e atividades do imperador, o sábio ficou silencioso, e o imperador, sentindo-se modesto, dirigiu-se a ele da seguinte maneira.
Devanagari
मनुरुवाच
ब्रह्मासृजत्स्वमुखतो युष्मानात्मपरीप्सया ।
छन्दोमयस्तपोविद्यायोगयुक्तानलम्पटान् ॥ २ ॥
ब्रह्मासृजत्स्वमुखतो युष्मानात्मपरीप्सया ।
छन्दोमयस्तपोविद्यायोगयुक्तानलम्पटान् ॥ २ ॥
Verse text
manur uvāca
brahmāsṛjat sva-mukhato
yuṣmān ātma-parīpsayā
chandomayas tapo-vidyā-
yoga-yuktān alampaṭān
brahmāsṛjat sva-mukhato
yuṣmān ātma-parīpsayā
chandomayas tapo-vidyā-
yoga-yuktān alampaṭān
Synonyms
manuḥ — Manu; uvāca — disse; brahmā — senhor Brahmā; asṛjat — criou; sva-mukhataḥ — de seu rosto; yuṣmān — vós (brāhmaṇas); ātma-parīpsayā — para proteger-se, expandindo-se; chandaḥ-mayaḥ — a forma dos Vedas; tapaḥ-vidyā-yoga-yuktān — repletos de austeridade, conhecimento e poder místico; alampaṭān — avessos ao gozo dos sentidos.
Translation
Manu respondeu: Para expandir-se sob a forma do conhecimento védico, o senhor Brahmā, o Veda personificado, criou-vos de seu rosto, ó brāhmaṇas, que sois repletos de austeridade, conhecimento e poder místico e que sois avessos ao gozo dos sentidos.
Purport
O propósito dos Vedas é propagar o conhecimento transcendental da Verdade Absoluta. Os brāhmaṇas foram criados da boca da Pessoa Suprema e, portanto, destinam-se a difundir o conhecimento dos Vedas, a fim de propagar as glórias do Senhor. Na Bhagavad-gītā também, o Senhor Kṛṣṇa diz que o objetivo de todos os Vedas é compreender a Suprema Personalidade de Deus. Nesta passagem, menciona-se em particular que (yoga-yuktān alampaṭān), os brāhmaṇas são plenos de poder místico e são completamente avessos ao gozo dos sentidos. Na realidade, há dois tipos de ocupações. Uma ocupação, no mundo material, é o gozo dos sentidos, e a outra ocupação é a atividade espiritual – para satisfazer o Senhor através de Sua glorificação. Aqueles que se ocupam no gozo dos sentidos chamam-se demônios, e os que difundem a glorificação do Senhor ou satisfazem os sentidos transcendentais do Senhor chamam-se semideuses. Menciona-se aqui, especificamente, que os brāhmaṇas foram criados a partir do rosto da personalidade cósmica, ou virāṭ-puruṣa. De forma semelhante, afirma-se que os kṣatriyas foram criados de Seus braços; os vaiśyas, de Sua cintura, e os śūdras, de Suas pernas. Os brāhmaṇas se destinam especialmente à austeridade, à sabedoria e ao conhecimento, tendo aversão a toda espécie de gozo dos sentidos.
Devanagari
तत्त्राणायासृजच्चास्मान् दो:सहस्रात्सहस्रपात् ।
हृदयं तस्य हि ब्रह्म क्षत्रमङ्गं प्रचक्षते ॥ ३ ॥
हृदयं तस्य हि ब्रह्म क्षत्रमङ्गं प्रचक्षते ॥ ३ ॥
Verse text
tat-trāṇāyāsṛjac cāsmān
doḥ-sahasrāt sahasra-pāt
hṛdayaṁ tasya hi brahma
kṣatram aṅgaṁ pracakṣate
doḥ-sahasrāt sahasra-pāt
hṛdayaṁ tasya hi brahma
kṣatram aṅgaṁ pracakṣate
Synonyms
tat-trāṇāya — para a proteção dos brāhmaṇas; asṛjat — criou; ca — e; asmān — a nós (os kṣatriyas); doḥ-sahasrāt — de Seus milhares de braços; sahasra-pāt — o Ser Supremo de mil pernas (a forma universal); hṛdayam — coração; tasya — Seu; hi — para; brahma — brāhmaṇas; kṣatram — os kṣatriyas; aṅgam — braços; pracakṣate — são tidos como.
Translation
Para a proteção dos brāhmaṇas, o Ser Supremo de mil pernas criou a nós, os kṣatriyas, a partir de Seus mil braços. É por isso que se diz que os brāhmaṇas são Seu coração, e os kṣatriyas, Seus braços.
Purport
A função específica dos kṣatriyas é manter os brāhmaṇas, porque, se os brāhmaṇas estão protegidos, então a cabeça da civilização está protegida. Os brāhmaṇas são considerados a cabeça do corpo social; se a cabeça estiver lúcida, e não louca, então tudo estará na posição correta. O Senhor é descrito da seguinte maneira: namo brahmaṇya-devāya go-brāhmaṇa-hitāya ca. O significado desta oração é que o Senhor protege os brāhmaṇas e as vacas em particular, e depois Ele protege todos os outros membros da sociedade (jagad-dhitāya). É Sua vontade que a assistência social do universo dependa da proteção às vacas e aos brāhmaṇas. Assim, a cultura bramânica e a proteção às vacas são os princípios básicos para a civilização humana. Os kṣatriyas destinam-se especialmente a proteger os brāhmaṇas, conforme a vontade suprema do Senhor: go-brāhmaṇa-hitāya ca. Assim como, dentro do corpo, o coração é uma parte muito importante, da mesma forma, os brāhmaṇas também são o elemento importante na sociedade humana. Os kṣatriyas são mais como todo o corpo; muito embora o corpo inteiro seja maior que o coração, o coração é mais importante.
Devanagari
अतो ह्यन्योन्यमात्मानं ब्रह्म क्षत्रं च रक्षत: ।
रक्षति स्माव्ययो देव: स य: सदसदात्मक: ॥ ४ ॥
रक्षति स्माव्ययो देव: स य: सदसदात्मक: ॥ ४ ॥
Verse text
ato hy anyonyam ātmānaṁ
brahma kṣatraṁ ca rakṣataḥ
rakṣati smāvyayo devaḥ
sa yaḥ sad-asad-ātmakaḥ
brahma kṣatraṁ ca rakṣataḥ
rakṣati smāvyayo devaḥ
sa yaḥ sad-asad-ātmakaḥ
Synonyms
Translation
É por isso que os brāhmaṇas e os kṣatriyas protegem-se uns aos outros, bem como a si mesmos. E o próprio Senhor, que é tanto a causa quanto o efeito e, ao mesmo tempo, é imutável, protege-os um através do outro.
Purport
Toda a estrutura social de varṇa e āśrama é um sistema cooperativo destinado a elevar todos à mais elevada plataforma de compreensão espiritual. Os brāhmaṇas destinam-se a ser protegidos pelos kṣatriyas, que, por sua vez, destinam-se a ser iluminados pelos brāhmaṇas. Quando os brāhmaṇas e os kṣatriyas cooperam bem uns com os outros, as outras divisões subordinadas, os vaiśyas, ou comerciantes, e os śūdras, ou operários, prosperam automaticamente. Todo o elaborado sistema da sociedade védica baseava-se, portanto, na importância dos brāhmaṇas e dos kṣatriyas. O Senhor é o verdadeiro protetor, mas não Se compromete com os afazeres de proteção. Ele criou os brāhmaṇas para a proteção dos kṣatriyas, e os kṣatriyas para a proteção dos brāhmaṇas, mas permanece à parte de todas as atividades; portanto, Ele é chamado de nirvikāra, “sem atividade”. Ele nada tem a fazer. É tão grandioso que não executa nenhuma ação pessoalmente, senão que Suas energias agem por Ele. Os brāhmaṇas e os kṣatriyas, e qualquer coisa que vejamos, são diferentes energias agindo umas sobre as outras.
Embora as almas individuais sejam todas diferentes, o Super-Eu, ou a Superalma, é a Suprema Personalidade de Deus. Individualmente, pode ser que nosso eu seja diferente do de outros em determinadas qualidades e pode ser que se ocupe em diferentes atividades, tais como as de brāhmaṇa, kṣatriya ou vaiśya, porém, quando há plena cooperação entre diferentes almas individuais, a Suprema Personalidade de Deus, como a Superalma, Paramātmā, sendo a mesma em todas as almas individuais, fica satisfeita e lhes dá toda a proteção. Como se afirmou antes, os brāhmaṇas são produzidos a partir da boca do Senhor, e os kṣatriyas, a partir do peito ou dos braços do Senhor. Se as diferentes castas ou camadas sociais, embora aparentemente ocupadas de formas diferentes em diversas atividades, mesmo assim agirem em plena cooperação, o Senhor ficará satisfeito. Essa é a ideia da instituição de quatro varṇas e quatro āśramas. Se os membros de diferentes āśramas e varṇas cooperarem plenamente em consciência de Kṛṣṇa, então a sociedade será bem protegida pelo Senhor, sem dúvida alguma.
Na Bhagavad-gītā, afirma-se que o Senhor é o proprietário de todos os diferentes corpos. A alma individual é a proprietária de seu corpo individual, mas o Senhor afirma claramente: “Meu querido Bhārata, deves saber que eu também sou o kṣetra-jña.” Kṣetra-jña significa “o conhecedor ou proprietário do corpo”. A alma individual é proprietária do corpo individual, mas a Superalma, a Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é o proprietário de todos os corpos em toda parte. Ele é proprietário não somente dos corpos humanos, mas também dos pássaros, quadrúpedes e todos os outros seres, não apenas neste planeta, como também em outros planetas. Ele é o proprietário supremo; por isso, não Se torna dividido ao proteger as diferentes almas individuais. Ele permanece o mesmo. O fato de o Sol aparecer em cima da cabeça de todos quando está no meridiano não quer dizer que o Sol se divida. Uma pessoa acredita que o Sol está somente em cima de sua cabeça, ao passo que, a oito quilômetros de distância, outra pessoa está pensando que o Sol está somente em cima de sua cabeça. Analogamente, a Superalma, a Suprema Personalidade de Deus, é uma só, mas aparece para supervisionar individualmente cada alma individual. Isso não significa que a alma individual e a Superalma são a mesma coisa. Elas são unas em qualidade, como almas espirituais, mas a alma individual e a Superalma são diferentes.
Devanagari
तव सन्दर्शनादेवच्छिन्ना मे सर्वसंशया: ।
यत्स्वयं भगवान् प्रीत्या धर्ममाह रिरक्षिषो: ॥ ५ ॥
यत्स्वयं भगवान् प्रीत्या धर्ममाह रिरक्षिषो: ॥ ५ ॥
Verse text
tava sandarśanād eva
cchinnā me sarva-saṁśayāḥ
yat svayaṁ bhagavān prītyā
dharmam āha rirakṣiṣoḥ
cchinnā me sarva-saṁśayāḥ
yat svayaṁ bhagavān prītyā
dharmam āha rirakṣiṣoḥ
Synonyms
tava — tua; sandarśanāt — pela visão; eva — somente; chinnāḥ — esclarecidas; me — minhas; sarva-saṁśayāḥ — todas as dúvidas; yat — visto que; svayam — pessoalmente; bhagavān — Vossa Onipotência; prītyā — amavelmente; dharmam — dever; āha — explicaste; rirakṣiṣoḥ — de um rei ansioso por proteger seus súditos.
Translation
Acabo de esclarecer todas as minhas dúvidas simplesmente por te encontrar, pois Vossa Onipotência explicou, muito bondosa e claramente, o dever de um rei que deseja proteger seus súditos.
Purport
Manu descreveu neste verso o resultado de se ver uma pessoa muito santa. O Senhor Caitanya diz que devemos sempre tentar associar-nos com pessoas santas porque, se estabelecermos um contato apropriado com uma pessoa santa, mesmo que por um instante, alcançaremos toda a perfeição. De alguma forma, se alguém se encontra com uma pessoa santa e obtém o seu favor, cumpre-se toda a missão de sua vida humana. Em nossa experiência pessoal, temos prova concreta dessa afirmação de Manu. Certa vez, tivemos a oportunidade de nos encontrar com Viṣṇupāda Śrī Śrīmad Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Mahārāja, e, à primeira vista, ele pediu a esta humilde pessoa que pregasse sua mensagem nos países ocidentais. Eu não estava preparado para isso, mas, de alguma forma, ele o desejou, e, por sua graça, agora estamos nos dedicando a cumprir sua ordem, que nos tem dado uma ocupação transcendental e nos tem salvado e libertado da ocupação em atividades materiais. Assim, é realmente um fato que, se alguém se encontra com uma pessoa santa inteiramente ocupada em deveres transcendentais e obtém seu favor, então a missão de sua vida torna-se completa. O que não é possível obter em milhares de vidas pode ser obtido em um instante caso haja a oportunidade de um encontro com uma pessoa santa. Portanto, a literatura védica prescreve que devemos sempre tentar associar-nos com pessoas santas e tentar desassociar-nos dos homens comuns, porque uma só palavra de uma pessoa santa é capaz de nos libertar do enredamento material. Devido a seu avanço espiritual, a pessoa santa tem o poder de conferir imediata liberação à alma condicionada. Aqui, Manu admite que acaba de esclarecer todas as suas dúvidas em razão de Kardama ter bondosamente descrito os diferentes deveres das almas individuais.
Devanagari
दिष्टया मे भगवान् दृष्टो दुर्दर्शो योऽकृतात्मनाम् ।
दिष्टया पादरज: स्पृष्टं शीर्ष्णा मे भवत: शिवम् ॥ ६ ॥
दिष्टया पादरज: स्पृष्टं शीर्ष्णा मे भवत: शिवम् ॥ ६ ॥
Verse text
diṣṭyā me bhagavān dṛṣṭo
durdarśo yo ’kṛtātmanām
diṣṭyā pāda-rajaḥ spṛṣṭaṁ
śīrṣṇā me bhavataḥ śivam
durdarśo yo ’kṛtātmanām
diṣṭyā pāda-rajaḥ spṛṣṭaṁ
śīrṣṇā me bhavataḥ śivam
Synonyms
diṣṭyā — por boa fortuna; me — minha; bhagavān — todo-poderoso; dṛṣṭaḥ — se vê; durdarśaḥ — não visto facilmente; yaḥ — que; akṛta-ātmanām — daqueles que não controlaram a mente e os sentidos; diṣṭyā — por minha boa fortuna; pāda-rajaḥ — a poeira dos pés; spṛṣṭam — foi tocada; śīrṣṇā — pela cabeça; me — minha; bhavataḥ — teus; śivam — produzindo toda auspiciosidade.
Translation
Considero minha boa fortuna eu ter tido a oportunidade de me encontrar contigo, pois, para pessoas que não dominaram a mente ou não controlaram os sentidos, não é fácil ver-te. Tanto mais afortunado sou de ter tocado com minha cabeça a abençoada poeira de teus pés.
Purport
Pode-se atingir a perfeição da vida transcendental simplesmente tocando-se a poeira sagrada dos pés de lótus de um homem santo. O Bhāgavatam diz: mahat-pāda-rajo-’bhiṣekam, que significa ser abençoado pela poeira sagrada dos pés de lótus de um mahat, um grande devoto. Como se declara na Bhagavad-gītā, mahātmānas tu: aqueles que são grandes almas estão sob o encanto da energia espiritual, e o sintoma deles é que se ocupam plenamente em consciência de Kṛṣṇa, a serviço do Senhor. Portanto, são chamados de mahat. A menos que tenhamos a fortuna de receber a poeira dos pés de lótus de um mahātmā sobre nossa cabeça, não há possibilidade de alcançarmos a perfeição na vida espiritual.
O sistema paramparā de sucessão discipular é muito importante como meio de sucesso espiritual. Uma pessoa torna-se mahat pela graça de seu mestre espiritual mahat. Se alguém se refugia aos pés de lótus de uma grande alma, existe toda a possibilidade de ele também se tornar uma grande alma. Quando Mahārāja Rahūgaṇa indagou de Jaḍa Bharata acerca de sua maravilhosa conquista do sucesso espiritual, ele respondeu ao rei que não é possível obter sucesso espiritual simplesmente seguindo os rituais da religião, ou simplesmente convertendo-se em sannyāsī, ou oferecendo os sacrifícios recomendados nas escrituras. Esses métodos são, sem dúvida, úteis para a compreensão espiritual, mas o verdadeiro efeito é provocado pela graça de um mahātmā. Nas oito estrofes da oração ao mestre espiritual, de Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, encontra-se a afirmação clara de que, simplesmente por satisfazer o mestre espiritual, pode-se alcançar o sucesso supremo na vida. Porém, apesar de executar todas as funções ritualísticas, se não pudermos satisfazer o mestre espiritual, não teremos acesso à perfeição espiritual. Aqui, a expressão akṛtātmanām é muito significativa. Ātmā significa “corpo”, “alma” ou “mente”, e akṛtātmā significa o homem comum, que não pode controlar os sentidos ou a mente. Por não ser capaz de controlar os sentidos e a mente, é dever do homem comum buscar o abrigo de uma grande alma ou um grande devoto do Senhor e simplesmente tentar agradá-lo. Isso tornará sua vida perfeita. O homem comum não pode elevar-se à fase máxima de perfeição espiritual simplesmente seguindo os rituais e princípios religiosos. Ele precisa refugiar-se em um mestre espiritual genuíno e trabalhar sob sua orientação fiel e sinceramente; ele, então, torna-se perfeito, sem dúvida alguma.
Devanagari
दिष्टया त्वयानुशिष्टोऽहं कृतश्चानुग्रहो महान् ।
अपावृतै: कर्णरन्ध्रैर्जुष्टा दिष्ट्योशतीर्गिर: ॥ ७ ॥
अपावृतै: कर्णरन्ध्रैर्जुष्टा दिष्ट्योशतीर्गिर: ॥ ७ ॥
Verse text
diṣṭyā tvayānuśiṣṭo ’haṁ
kṛtaś cānugraho mahān
apāvṛtaiḥ karṇa-randhrair
juṣṭā diṣṭyośatīr giraḥ
kṛtaś cānugraho mahān
apāvṛtaiḥ karṇa-randhrair
juṣṭā diṣṭyośatīr giraḥ
Synonyms
Translation
Tive a fortuna de ser instruído por ti, e assim fui agraciado com um grande favor. Agradeço a Deus por ter escutado com ouvidos abertos tuas palavras puras.
Purport
Em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu, Śrīla Rūpa Gosvāmī apresenta orientações sobre como aceitar um mestre espiritual fidedigno e como lidar com ele. Em primeiro lugar, o candidato desejoso deve encontrar um mestre espiritual fidedigno, após o que deve, muito ansiosamente, receber instruções dele e executá-las. Isso é serviço mútuo. O mestre espiritual fidedigno, ou pessoa santa, sempre deseja elevar o homem comum que recorre a ele. Como todos estão sob a ilusão de māyā e esquecidos de seu dever primordial, ou seja, a consciência de Kṛṣṇa, a pessoa santa sempre deseja que todos se tornem pessoas santas. A função da pessoa santa é evocar a consciência de Kṛṣṇa em todos os homens comuns esquecidos.
Manu disse que, como fora aconselhado e instruído por Kardama Muni, sentia-se muito favorecido. Considerou-se afortunado por receber a mensagem mediante recepção auditiva. Aqui se menciona-se, em especial, que devemos ter muita curiosidade por escutar com ouvidos abertos da fonte autorizada do mestre espiritual genuíno. Como se deve receber sua mensagem? Deve-se receber a mensagem transcendental através da recepção auditiva. A expressão karṇa-randhraiḥ significa “através dos orifícios auriculares”. A graça do mestre espiritual não é recebida através de nenhuma outra parte do corpo além dos ouvidos. Isso não significa, entretanto, que o mestre espiritual concede um tipo específico de mantra através dos ouvidos em troca de algum dinheiro, e que, se alguém medita nisso, ele alcança a perfeição e se torna Deus dentro de seis meses. Tal tipo de recepção através dos ouvidos é falsa. O fato concreto é que o mestre espiritual fidedigno conhece a natureza de um homem em particular e que espécie de deveres ele pode executar em consciência de Kṛṣṇa, e ele o instrui dessa maneira. Ele o instrui através do ouvido, não secretamente, mas em público. “És apto para tal e tal trabalho em consciência de Kṛṣṇa. Podes agir dessa maneira.” Uma pessoa é aconselhada a agir em consciência de Kṛṣṇa trabalhando com a adoração às Deidades, outra é aconselhada a agir em consciência de Kṛṣṇa fazendo trabalho editorial, outra é aconselhada a sair e pregar, e outra é aconselhada a executar a consciência de Kṛṣṇa no departamento culinário. Há diferentes ramos de atividade na consciência de Kṛṣṇa, e o mestre espiritual, conhecendo a capacidade específica de cada um de seus discípulos, treina-os de tal maneira que, através de sua tendência a agir, eles se tornem perfeitos. A Bhagavad-gītā deixa claro que uma pessoa pode alcançar a perfeição máxima da vida espiritual simplesmente oferecendo serviços de acordo com sua capacidade, assim como Arjuna serviu a Kṛṣṇa através de sua habilidade na arte militar. Arjuna ofereceu seu serviço plenamente, como um militar, e tornou-se perfeito. Do mesmo modo, um artista poderá alcançar a perfeição simplesmente executando trabalho artístico sob a orientação do mestre espiritual. Quem for literato poderá escrever artigos e poemas a serviço do Senhor, sob a orientação do mestre espiritual. Tem-se que receber a mensagem do mestre espiritual a respeito de como atuar conforme a capacidade individual, pois o mestre espiritual é perito em fornecer tais instruções.
Esta combinação – da instrução do mestre espiritual com a execução fiel dessa instrução por parte do discípulo – torna todo o processo perfeito. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura descreve, em sua explicação do verso vyavasāyātmikā buddhiḥ da Bhagavad-gītā que aquele que deseja estar certo de obter o sucesso espiritual deve pedir ao mestre espiritual orientação sobre qual é sua função em particular. Então, ele deve esforçar-se para executar fielmente a instrução específica do mestre espiritual e deve considerá-la como sua vida e alma. A execução fiel de tal instrução é o único dever do discípulo, e isso lhe trará a perfeição. Com muito cuidado, devemos receber a mensagem do mestre espiritual através dos ouvidos e executá-la fielmente. Isso tornará nossa vida bem-sucedida.
Devanagari
स भवान्दुहितृस्नेहपरिक्लिष्टात्मनो मम ।
श्रोतुमर्हसि दीनस्य श्रावितं कृपया मुने ॥ ८ ॥
श्रोतुमर्हसि दीनस्य श्रावितं कृपया मुने ॥ ८ ॥
Verse text
sa bhavān duhitṛ-sneha-
parikliṣṭātmano mama
śrotum arhasi dīnasya
śrāvitaṁ kṛpayā mune
parikliṣṭātmano mama
śrotum arhasi dīnasya
śrāvitaṁ kṛpayā mune
Synonyms
Translation
Ó grande sábio, por favor, tem a misericórdia de ouvir as orações de minha humilde pessoa, pois estou com a mente perturbada devido à afeição por minha filha.
Purport
Quando o discípulo está em perfeita consonância com o mestre espiritual, tendo recebido sua mensagem e a executado perfeita e sinceramente, ele tem o direito de pedir um favor particular ao mestre espiritual. Geralmente, o devoto puro do Senhor, ou o discípulo puro do mestre espiritual fidedigno, não pede favor algum ao Senhor ou ao mestre espiritual. Porém, mesmo que haja necessidade de pedir um favor a um mestre espiritual, uma pessoa não pode pedir tal favor sem satisfazê-lo plenamente. Svāyambhuva Manu quis revelar seus pensamentos a respeito da cerimônia que ele pretendia executar devido à afeição por sua filha.
Devanagari
प्रियव्रतोत्तानपदो: स्वसेयं दुहिता मम ।
अन्विच्छति पतिं युक्तं वय: शीलगुणादिभि: ॥ ९ ॥
अन्विच्छति पतिं युक्तं वय: शीलगुणादिभि: ॥ ९ ॥
Verse text
priyavratottānapadoḥ
svaseyaṁ duhitā mama
anvicchati patiṁ yuktaṁ
vayaḥ-śīla-guṇādibhiḥ
svaseyaṁ duhitā mama
anvicchati patiṁ yuktaṁ
vayaḥ-śīla-guṇādibhiḥ
Synonyms
priyavrata-uttānapadoḥ — de Priyavrata e Uttānapāda; svasā — irmã; iyam — esta; duhitā — filha; mama — minha; anvicchati — está procurando; patim — esposo; yuktam — conveniente; vayaḥ-śīla-guṇa-ādibhiḥ — por idade, caráter, boas qualidades etc.
Translation
Minha filha é irmã de Priyavrata e Uttānapāda. Ela está procurando um esposo adequado em termos de idade, caráter e boas qualidades.
Purport
Devahūti, a filha crescida de Svāyambhuva Manu, tinha bom caráter e era bem qualificada; por isso, estava procurando um esposo adequado, exatamente conveniente para sua idade, qualidades e caráter. Manu apresentou sua filha como a irmã de Priyavrata e Uttānapāda, dois grandes reis, com o propósito de convencer o sábio de que a moça provinha de uma grande família. Ela era sua filha e, ao mesmo tempo, irmã de kṣatriyas: não provinha de uma família de classe inferior. Manu, portanto, ofereceu-a a Kardama como uma moça exatamente adequada para seu propósito. O verso deixa claro que, embora fosse madura em idade e qualidades, a filha não saiu para encontrar seu esposo independentemente. Ela expressou o desejo de ter um esposo adequado, que correspondesse a seu caráter, idade e qualidade, e o próprio pai, por afeição pela filha, encarregou-se de encontrar semelhante esposo.
Devanagari
यदा तु भवत: शीलश्रुतरूपवयोगुणान् ।
अशृणोन्नारदादेषा त्वय्यासीत्कृतनिश्चया ॥ १० ॥
अशृणोन्नारदादेषा त्वय्यासीत्कृतनिश्चया ॥ १० ॥
Verse text
yadā tu bhavataḥ śīla-
śruta-rūpa-vayo-guṇān
aśṛṇon nāradād eṣā
tvayy āsīt kṛta-niścayā
śruta-rūpa-vayo-guṇān
aśṛṇon nāradād eṣā
tvayy āsīt kṛta-niścayā
Synonyms
Translation
No momento em que ouviu o sábio Nārada falar de teu nobre caráter, sabedoria, bela aparência, juventude e outras virtudes, ela fixou sua mente em ti.
Purport
A moça Devahūti jamais vira Kardama Muni pessoalmente, nem experimentara pessoalmente seu caráter ou qualidades, uma vez que não havia convívio social pelo qual ela pudesse obter tal compreensão. Porém, ela ouvira sobre Kardama Muni da parte da autoridade de Nārada Muni. Ouvir de uma autoridade é uma experiência melhor que lograr compreensão pessoal. Ela ouvira Nārada Muni dizer que Kardama Muni era exatamente adequado para ser seu esposo e, portanto, determinou em seu coração que se casaria com ele, e expressou seu desejo ao pai, que por isso a levou até ele.
Devanagari
तत्प्रतीच्छ द्विजाग्र्येमां श्रद्धयोपहृतां मया ।
सर्वात्मनानुरूपां ते गृहमेधिषु कर्मसु ॥ ११ ॥
सर्वात्मनानुरूपां ते गृहमेधिषु कर्मसु ॥ ११ ॥
Verse text
tat pratīccha dvijāgryemāṁ
śraddhayopahṛtāṁ mayā
sarvātmanānurūpāṁ te
gṛhamedhiṣu karmasu
śraddhayopahṛtāṁ mayā
sarvātmanānurūpāṁ te
gṛhamedhiṣu karmasu
Synonyms
tat — portanto; pratīccha — por favor, aceita; dvija-agrya — ó melhor dos brāhmaṇas; imām — a ela; śraddhayā — com convicção; upahṛtām — oferecida como um presente; mayā — por mim; sarva-ātmanā — sob todos os aspectos; anurūpām — adequada; te — para ti; gṛha-medhiṣu — nos domésticos; karmasu — afazeres.
Translation
Portanto, por favor, aceita-a, ó melhor dos brāhmaṇas, pois eu a ofereço com convicção e ela é, sob todos os aspectos, digna de ser tua esposa e de se encarregar de teus afazeres domésticos.
Purport
As palavras gṛhamedhiṣu karmasu significam “nos afazeres domésticos”. Outra expressão também usada aqui é sarvātmanānurūpām, que significa que a esposa deve não apenas ser igual ao esposo em idade, caráter e qualidades, como também útil para ele em seus afazeres domésticos. O dever do homem como chefe de família não é de satisfazer seu gozo dos sentidos, mas, sim, de permanecer com esposa e filhos e, ao mesmo tempo, avançar na vida espiritual. Quem não faz isso não é chefe de família, mas, sim, gṛhamedhī. Duas palavras são usadas na literatura sânscrita: uma é gṛhastha, e a outra, gṛhamedhī. A diferença entre gṛhamedhī e gṛhastha é que gṛhastha também é um āśrama, ou ordem espiritual, mas, se alguém simplesmente satisfaz seus sentidos como chefe de família, então ele é um gṛhamedhī. Para o gṛhamedhī, aceitar uma esposa significa satisfazer os sentidos, mas, para o gṛhastha, uma esposa qualificada é uma assistente em todos os sentidos para o avanço em atividades espirituais. É dever da esposa encarregar-se dos afazeres domésticos, e não competir com o esposo. A esposa destina-se a ajudar, mas ela não poderá ajudar o esposo a menos que ele seja inteiramente igual a ela em idade, caráter e qualidades.
Devanagari
उद्यतस्य हि कामस्य प्रतिवादो न शस्यते ।
अपि निर्मुक्तसङ्गस्य कामरक्तस्य किं पुन: ॥ १२ ॥
अपि निर्मुक्तसङ्गस्य कामरक्तस्य किं पुन: ॥ १२ ॥
Verse text
udyatasya hi kāmasya
prativādo na śasyate
api nirmukta-saṅgasya
kāma-raktasya kiṁ punaḥ
prativādo na śasyate
api nirmukta-saṅgasya
kāma-raktasya kiṁ punaḥ
Synonyms
Translation
Rejeitar uma oferta que vem por si mesma não é recomendável nem mesmo para quem é absolutamente livre de todo o apego, e muito menos para quem é viciado no prazer sensual.
Purport
Na vida material, todos desejam gozo dos sentidos; portanto, uma pessoa que obtém um objeto de gozo dos sentidos sem esforço não deve recusar-se a aceitá-lo. Kardama Muni não tinha intenção de gozar dos sentidos, mas aspirava a casar-se e orara ao Senhor pedindo-Lhe uma esposa adequada. Como Svāyambhuva Manu sabia disso, ele convenceu Kardama Muni indiretamente: “Tu desejas uma esposa adequada como minha filha, e agora ela está presente diante de ti. Não deves rejeitar o atendimento de tua oração: deves aceitar minha filha.”
Devanagari
य उद्यतमनादृत्य कीनाशमभियाचते ।
क्षीयते तद्यश: स्फीतं मानश्चावज्ञया हत: ॥ १३ ॥
क्षीयते तद्यश: स्फीतं मानश्चावज्ञया हत: ॥ १३ ॥
Verse text
ya udyatam anādṛtya
kīnāśam abhiyācate
kṣīyate tad-yaśaḥ sphītaṁ
mānaś cāvajñayā hataḥ
kīnāśam abhiyācate
kṣīyate tad-yaśaḥ sphītaṁ
mānaś cāvajñayā hataḥ
Synonyms
Translation
Quem rejeita uma oferta que vem por si mesma, mas depois esmola uma dádiva de um avarento perde, dessa maneira, sua ampla reputação, tendo seu orgulho humilhado pelo desprezo dos outros.
Purport
O procedimento geral do matrimônio védico é que o pai oferece sua filha a um rapaz adequado. Esse é um matrimônio muito respeitável. O rapaz não deve ir à casa do pai da moça e pedir a mão de sua filha em casamento. Isso é considerado humilhante para a posição respeitável de alguém. Svāyambhuva Manu quis convencer Kardama Muni, pois tinha conhecimento de que o sábio desejava casar-se com uma moça adequada: “Estou te oferecendo a esposa precisamente adequada. Não rejeites este oferecimento, ou então, como precisas de uma esposa, terás que pedir a outrem, que talvez não se comporte tão bem contigo. Nesse caso, tua situação será humilhante.”
Outro aspecto deste incidente é que, embora Svāyambhuva Manu fosse o imperador, ele foi oferecer sua qualificada filha a um brāhmaṇa pobre. Kardama Muni não tinha posses mundanas – ele era um eremita que vivia na floresta –, mas era avançado em cultura. Portanto, ao se oferecer uma filha a alguém, a cultura e a qualidade são contadas como proeminentes, e não a riqueza ou qualquer outra consideração material.
Devanagari
अहं त्वाशृणवं विद्वन् विवाहार्थं समुद्यतम् ।
अतस्त्वमुपकुर्वाण: प्रत्तां प्रतिगृहाण मे ॥ १४ ॥
अतस्त्वमुपकुर्वाण: प्रत्तां प्रतिगृहाण मे ॥ १४ ॥
Verse text
ahaṁ tvāśṛṇavaṁ vidvan
vivāhārthaṁ samudyatam
atas tvam upakurvāṇaḥ
prattāṁ pratigṛhāṇa me
vivāhārthaṁ samudyatam
atas tvam upakurvāṇaḥ
prattāṁ pratigṛhāṇa me
Synonyms
aham — eu; tvā — tu; aśṛṇavam — ouvi; vidvan — ó sábio; vivāha-artham — para o matrimônio; samudyatam — disposto; ataḥ — por isso; tvam — tu; upakurvāṇaḥ — não fizeste o voto de celibato perpétuo; prattām — oferecida; pratigṛhāṇa — por favor, aceita; me — de mim.
Translation
Svāyambhuva Manu continuou: Ó sábio, disseram-me que estavas disposto a casar-te. Já que estou te oferecendo a mão dela e já que não fizeste o voto de celibato perpétuo, por favor, aceita-a.
Purport
Brahmacarya fundamenta-se no princípio do celibato. Há dois tipos de brahmacārīs. Um se chama naiṣṭhika-brahmacārī, que significa aquele que faz voto de celibato por toda a sua vida, ao passo que o outro, o upakurvāṇa-brahmacārī, é o brahmacārī que faz voto de celibato até certa idade. Por exemplo, ele pode fazer o voto de permanecer celibatário até os vinte e cinco anos de idade; depois, com a permissão de seu mestre espiritual, ele aceita a vida familiar. Brahmacarya é a vida de estudante, o começo da vida nas ordens espirituais, e brahmacarya fundamenta-se no princípio do celibato. Somente o chefe de família pode permitir-se o gozo dos sentidos, ou a vida sexual, e não o brahmacārī. Svāyambhuva Manu pediu a Kardama Muni que aceitasse sua filha, já que Kardama não fizera voto de naiṣṭhika-brahmacarya. Ele desejava casar-se e foi-lhe oferecida a digna filha de uma elevada família real.
Devanagari
ऋषिरुवाच
बाढमुद्वोढुकामोऽहमप्रत्ता च तवात्मजा ।
आवयोरनुरूपोऽसावाद्यो वैवाहिको विधि: ॥ १५ ॥
बाढमुद्वोढुकामोऽहमप्रत्ता च तवात्मजा ।
आवयोरनुरूपोऽसावाद्यो वैवाहिको विधि: ॥ १५ ॥
Verse text
ṛṣir uvāca
bāḍham udvoḍhu-kāmo ’ham
aprattā ca tavātmajā
āvayor anurūpo ’sāv
ādyo vaivāhiko vidhiḥ
bāḍham udvoḍhu-kāmo ’ham
aprattā ca tavātmajā
āvayor anurūpo ’sāv
ādyo vaivāhiko vidhiḥ
Synonyms
ṛṣiḥ — o grande sábio Kardama; uvāca — disse; bāḍham — muito bem; udvoḍhu-kāmaḥ — com desejo de casar-me; aham — eu; aprattā — não prometida a outrem; ca — e; tava — tua; ātma-jā — filha; āvayoḥ — de nós dois; anurūpaḥ — apropriado; asau — isto; ādyaḥ — primeiro; vaivāhikaḥ — de casamento; vidhiḥ — cerimônia ritualística.
Translation
O grande sábio respondeu: Certamente tenho desejo de me casar, e tua filha ainda não se casou nem está prometida a ninguém. Portanto, nosso casamento de acordo com o sistema védico pode ser realizado.
Purport
Kardama Muni teceu muitas considerações antes de aceitar a filha de Svāyambhuva Manu. A mais importante delas era que Devahūti tinha, em primeiro lugar, se decidido a casar-se com ele. Ela não escolheu ter nenhum outro homem como seu esposo. Essa é uma consideração importante porque, segundo dita a psicologia feminina, quando uma mulher oferece seu coração a um homem pela primeira vez, é-lhe muito difícil recolhê-lo. Além disso, ela não havia se casado antes; ela era uma moça virgem. Todas essas considerações convenceram Kardama Muni a aceitá-la. Por isso, ele disse: “Sim, aceitarei tua filha sob as regulações religiosas do matrimônio.” Há diferentes espécies de casamentos, dos quais o casamento de primeira classe é realizado ao se convidar um noivo adequado a aceitar a mão da filha e dá-la em caridade, bem vestida e bem decorada com adornos, juntamente com um dote de acordo com os recursos do pai. Há outros tipos de casamentos, tais como o casamento gāndharva e o casamento por amor, que também são aceitos como matrimônio. Mesmo que alguma jovem seja raptada à força e mais tarde aceita como esposa, isso também é aceito. Porém, Kardama Muni aceitou o processo de casamento de primeira classe, porque o pai da moça assim o desejava e a filha era qualificada. Ela jamais oferecera seu coração a mais ninguém. Todas essas considerações fizeram Kardama Muni concordar em aceitar a filha de Svāyambhuva Manu como sua esposa.
Devanagari
काम: स भूयान्नरदेव तेऽस्या:
पुत्र्या: समाम्नायविधौ प्रतीत: ।
क एव ते तनयां नाद्रियेत
स्वयैव कान्त्या क्षिपतीमिव श्रियम् ॥ १६ ॥
पुत्र्या: समाम्नायविधौ प्रतीत: ।
क एव ते तनयां नाद्रियेत
स्वयैव कान्त्या क्षिपतीमिव श्रियम् ॥ १६ ॥
Verse text
kāmaḥ sa bhūyān naradeva te ’syāḥ
putryāḥ samāmnāya-vidhau pratītaḥ
ka eva te tanayāṁ nādriyeta
svayaiva kāntyā kṣipatīm iva śriyam
putryāḥ samāmnāya-vidhau pratītaḥ
ka eva te tanayāṁ nādriyeta
svayaiva kāntyā kṣipatīm iva śriyam
Synonyms
kāmaḥ — desejo; saḥ — este; bhūyāt — que seja satisfeito; nara-deva — ó rei; te — tua; asyāḥ — esta; putryāḥ — da filha; samāmnāya-vidhau — no processo das escrituras védicas; pratītaḥ — reconhecido; kaḥ — quem; eva — de fato; te — tua; tanayām — filha; na ādriyeta — não adoraria; svayā — por seu próprio; eva — somente; kāntyā — brilho corpóreo; kṣipatīm — superando; iva — como se; śriyam — adornos.
Translation
Que o desejo de casamento de tua filha, que é reconhecido nas escrituras védicas, seja satisfeito. Quem não aceitaria sua mão? Ela é tão bela que o brilho de seu corpo é suficiente para superar a beleza de seus adornos.
Purport
Kardama Muni desejava desposar Devahūti da maneira reconhecida de matrimônio prescrita nas escrituras. Como se afirma nas escrituras védicas, o processo de primeira classe é convidar o noivo à casa da noiva e dar-lhe sua mão em caridade, junto com um dote de adornos, ouro, mobília e outras parafernálias domésticas necessárias. Essa forma de matrimônio prevalece entre hindus de classe superior ainda hoje, e, nos śāstras, declara-se que tal casamento confere grande mérito religioso ao pai da noiva. Dar a filha em caridade a um genro adequado é considerada uma das atividades piedosas do chefe de família. Há oito formas de matrimônio mencionadas na escritura Manu-smṛti, mas somente um processo de casamento, o casamento brāhma ou rājasika, é aceito hoje em dia. Outros tipos de casamento – por amor, por troca de guirlandas ou por rapto da noiva – são proibidos nesta era de Kali. Antigamente, os kṣatriyas costumavam, a seu bel-prazer, raptar uma princesa de outro lar real, e por isso havia luta entre o kṣatriya e a família da moça; então, se o raptor saía vitorioso, a moça lhe era oferecida em casamento. Até Kṛṣṇa Se casou com Rukmiṇī através deste processo, e alguns de Seus filhos e netos também se casaram através do rapto. Os netos de Kṛṣṇa raptaram a filha de Duryodhana, o que provocou uma luta entre as famílias Kuru e Yadu. Depois disso, os membros mais velhos da família Kuru celebraram um acordo. Esses casamentos eram comuns em eras passadas, mas são impossíveis na atualidade porque os princípios estritos da vida de kṣatriya foram praticamente abolidos. Desde que a Índia se tornou dependente de países estrangeiros, as influências específicas de suas ordens sociais se perderam; agora, de acordo com as escrituras, todos são śūdras. Os supostos brāhmaṇas, kṣatriyas e vaiśyas se esqueceram de suas atividades tradicionais, e, devido à ausência dessas atividades, eles são chamados de śūdras. As escrituras dizem que kalau śūdra-sambhavaḥ. Na era de Kali, todos serão como śūdras. Os tradicionais costumes sociais não são seguidos nesta era, embora, no passado, fossem seguidos estritamente.
Devanagari
यां हर्म्यपृष्ठे क्वणदङ्घ्रिशोभां
विक्रीडतीं कन्दुकविह्वलाक्षीम् ।
विश्वावसुर्न्यपतत्स्वाद्विमाना-
द्विलोक्य सम्मोहविमूढचेता: ॥ १७ ॥
विक्रीडतीं कन्दुकविह्वलाक्षीम् ।
विश्वावसुर्न्यपतत्स्वाद्विमाना-
द्विलोक्य सम्मोहविमूढचेता: ॥ १७ ॥
Verse text
yāṁ harmya-pṛṣṭhe kvaṇad-aṅghri-śobhāṁ
vikrīḍatīṁ kanduka-vihvalākṣīm
viśvāvasur nyapatat svād vimānād
vilokya sammoha-vimūḍha-cetāḥ
vikrīḍatīṁ kanduka-vihvalākṣīm
viśvāvasur nyapatat svād vimānād
vilokya sammoha-vimūḍha-cetāḥ
Synonyms
yām — a quem; harmya-pṛṣṭhe — no terraço do palácio; kvaṇat-aṅghri-śobhām — cuja beleza era acentuada pelos adornos tilintantes em seus pés; vikrīḍatīm — brincando; kanduka-vihvala-akṣīm — com olhos desnorteados, seguindo-lhe a bola; viśvāvasuḥ — Viśvāvasu; nyapatat — caiu; svāt — de seu próprio; vimānāt — do aeroplano; vilokya — vendo; sammoha-vimūḍha-cetāḥ — cuja mente estava entorpecida.
Translation
Ouvi dizer que Viśvāvasu, o grande Gandharva, com a mente entorpecida pela paixão, caiu de seu aeroplano após ver tua filha brincando com uma bola no terraço do palácio, pois ela estava realmente linda com seus sinos de tornozelos tilintando e seus olhos movendo-se de um lado a outro.
Purport
Subentende-se que, não somente no momento atual, mas também naqueles dias, havia arranha-céus. Nesta passagem, encontramos a expressão harmya pṛṣṭhe. Harmya significa “uma enorme construção palaciana”. Svād vimānāt significa “de seu próprio aeroplano”. Isso sugere que os aeroplanos ou helicópteros particulares também eram comuns naqueles dias. O Gandharva Viśvāvasu, enquanto voava pelo céu, pôde ver Devahūti brincando com uma bola no terraço do palácio. Brincadeiras com bola também eram comuns, mas as moças aristocráticas não costumavam brincar em lugares públicos. Essa brincadeira e outros prazeres semelhantes não eram para mulheres e moças comuns; somente princesas como Devahūti podiam praticar esses esportes. Aqui se descreve que ela foi vista do aeroplano em voo. Isso indica que o palácio era altíssimo; de outro modo, como alguém poderia vê-la de um aeroplano? Tão nítida era a visão que o Gandharva Viśvāvasu se desorientou com a beleza de Devahūti e com o som de seus sinos de tornozelo. Assim, cativado pelo som e pela beleza, ele caiu. Kardama Muni mencionou o incidente conforme lhe haviam contado.
Devanagari
तां प्रार्थयन्तीं ललनाललाम-
मसेवितश्रीचरणैरदृष्टाम् ।
वत्सां मनोरुच्चपद: स्वसारं
को नानुमन्येत बुधोऽभियाताम् ॥ १८ ॥
मसेवितश्रीचरणैरदृष्टाम् ।
वत्सां मनोरुच्चपद: स्वसारं
को नानुमन्येत बुधोऽभियाताम् ॥ १८ ॥
Verse text
tāṁ prārthayantīṁ lalanā-lalāmam
asevita-śrī-caraṇair adṛṣṭām
vatsāṁ manor uccapadaḥ svasāraṁ
ko nānumanyeta budho ’bhiyātām
asevita-śrī-caraṇair adṛṣṭām
vatsāṁ manor uccapadaḥ svasāraṁ
ko nānumanyeta budho ’bhiyātām
Synonyms
tām — a ela; prārthayantīm — procurando; lalanā-lalāmam — o adorno das mulheres; asevita-śrī-caraṇaiḥ — por aqueles que não adoram os pés de Lakṣmī; adṛṣṭām — não percebida; vatsām — amada filha; manoḥ — de Svāyambhuva Manu; uccapadaḥ — de Uttānapāda; svasāram — irmã; kaḥ — que; na anumanyeta — deixaria de dar boas-vindas; budhaḥ — sábio; abhiyātām — que veio por sua própria vontade.
Translation
Que sábio deixaria de lhe dar as suas boas-vindas, a ela que é o próprio adorno da feminilidade, a amada filha de Svāyambhuva Manu e irmã de Uttānapāda? Aqueles que não adoraram os graciosos pés da deusa da fortuna não podem sequer percebê-la, mas ela veio por sua própria vontade para pedir-me a mão.
Purport
Kardama Muni louvou a beleza e a qualificação de Devahūti de diferentes maneiras. Devahūti era realmente o adorno de todas as belas moças adornadas. Uma moça torna-se bela ao adornar seu corpo, mas Devahūti era mais bela que os adornos: ela era considerada o adorno das belas moças adornadas. Os semideuses e os Gandharvas se sentiram atraídos por sua beleza. Apesar de ser um grande sábio, Kardama Muni não era um cidadão dos planetas celestiais; no verso anterior, porém, menciona-se que Viśvāvasu, que provinha do céu, também se sentiu atraído pela beleza de Devahūti. Além de sua beleza pessoal, ela era filha do imperador Svāyambhuva e irmã do rei Uttānapāda. Quem poderia recusar a mão de tal moça?
Devanagari
अतो भजिष्ये समयेन साध्वीं
यावत्तेजो बिभृयादात्मनो मे ।
अतो धर्मान् पारमहंस्यमुख्यान्
शुक्लप्रोक्तान् बहु मन्येऽविहिंस्रान् ॥ १९ ॥
यावत्तेजो बिभृयादात्मनो मे ।
अतो धर्मान् पारमहंस्यमुख्यान्
शुक्लप्रोक्तान् बहु मन्येऽविहिंस्रान् ॥ १९ ॥
Verse text
ato bhajiṣye samayena sādhvīṁ
yāvat tejo bibhṛyād ātmano me
ato dharmān pāramahaṁsya-mukhyān
śukla-proktān bahu manye ’vihiṁsrān
yāvat tejo bibhṛyād ātmano me
ato dharmān pāramahaṁsya-mukhyān
śukla-proktān bahu manye ’vihiṁsrān
Synonyms
ataḥ — portanto; bhajiṣye — aceitarei; samayena — sob a condição; sādhvīm — a casta moça; yāvat — até; tejaḥ — sêmen; bibhṛyāt — possa dar à luz; ātmanaḥ — de meu corpo; me — meus; ataḥ — depois disso; dharmān — os deveres; pāramahaṁsya-mukhyān — dos melhores dos paramahaṁsas; śukla-proktān — falado pelo Senhor Viṣṇu; bahu — muito; manye — considerarei; avihiṁsrān — isento de inveja.
Translation
Portanto, aceitarei esta casta moça como minha esposa, sob a condição de que, após ela receber o sêmen de meu corpo, eu aceite a vida de serviço devocional que é aceita pelos mais perfeitos seres humanos. Este processo foi descrito pelo Senhor Viṣṇu e é isento de inveja.
Purport
Kardama Muni expressou o desejo de ter uma belíssima esposa ao imperador Svāyambhuva e aceitou a filha do imperador em casamento. Kardama Muni estava no eremitério praticando celibato completo como brahmacārī, e, embora tivesse o desejo de casar-se, ele não queria ser chefe de família por toda a duração de sua vida, pois era versado nos princípios védicos de vida humana. Segundo os princípios védicos, a primeira parte da vida deve ser utilizada em brahmacarya para o desenvolvimento do caráter e das qualidades espirituais. Na parte seguinte da vida, pode-se aceitar uma esposa e gerar filhos, mas não se deve gerar filhos como os cães e os gatos.
Kardama Muni desejava gerar um filho que fosse um raio da Suprema Personalidade de Deus. A pessoa deve gerar filhos que possam executar os deveres de Viṣṇu, ou não há necessidade de produzir filhos. Há dois tipos de filhos nascidos de bons pais: um é educado na consciência de Kṛṣṇa para poder libertar-se das garras de māyā nesta mesma vida, e o outro é um raio da Suprema Personalidade de Deus, que ensina ao mundo a meta última da vida. Como será descrito em capítulos posteriores, Kardama Muni gerou um filho assim – Kapila, a encarnação da Personalidade de Deus que enunciou a filosofia de sāṅkhya. Grandes chefes de família oram a Deus para enviar Seu representante de modo que possa haver um movimento auspicioso na sociedade humana. Essa é uma razão para se gerar um filho. Outra razão é que um pai altamente iluminado possa treinar seu filho em consciência de Kṛṣṇa para que o filho não tenha que retornar a este mundo de sofrimentos. Os pais devem ser zelosos para que os filhos deles nascidos não entrem novamente no ventre de uma mãe. A menos que se possa treinar o filho para alcançar a liberação nesta vida, não há necessidade de casar-se ou produzir filhos. Se a sociedade humana produz filhos como os cães e os gatos, para o distúrbio da ordem social, então o mundo torna-se infernal, como tem-se tornado nesta era de Kali. Nesta era, nem os pais nem os filhos são treinados; tanto uns quanto os outros são animalescos e simplesmente comem, dormem, acasalam-se, defendem-se e gozam de seus sentidos. Esta desordem na vida social não poderá trazer paz à sociedade humana. Kardama Muni explica, de antemão, que jamais aceitaria associar-se com Devahūti por toda a duração de sua vida. Ele promete associar-se com ela apenas até que ela tenha um filho. Em outras palavras, deve-se utilizar a vida sexual apenas para produzir um bom filho, e não para algum outro propósito. O objetivo especial da vida humana é a devoção completa ao serviço do Senhor. Essa é a filosofia do Senhor Caitanya.
Após cumprir com sua responsabilidade de produzir um bom filho, o homem deve aceitar sannyāsa e dedicar-se à fase perfectiva de paramahaṁsa. Paramahaṁsa refere-se à fase perfectiva mais altamente elevada da vida. A vida de sannyāsa tem quatro fases, das quais paramahaṁsa é a ordem mais elevada. O Śrīmad-Bhāgavatam é chamado de paramahaṁsa-saṁhitā, o tratado para a classe mais elevada de seres humanos. O paramahaṁsa está livre da inveja. Em outras fases, mesmo na fase de vida de chefe de família, há competição e inveja, mas, uma vez que as atividades do ser humano na fase paramahaṁsa são inteiramente dedicadas à consciência de Kṛṣṇa, ou serviço devocional, não há campo para a inveja. Da mesma forma que Kardama Muni, Ṭhākura Bhaktivinoda também quis, cerca de cem anos atrás, gerar um filho que pudesse pregar intensamente a filosofia e os ensinamentos do Senhor Caitanya. Através de suas orações ao Senhor, ele teve como filho Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Mahārāja, que atualmente está pregando a filosofia do Senhor Caitanya em todo o mundo através de seus discípulos autênticos.
Devanagari
यतोऽभवद्विश्वमिदं विचित्रं
संस्थास्यते यत्र च वावतिष्ठते ।
प्रजापतीनां पतिरेष मह्यं
परं प्रमाणं भगवाननन्त: ॥ २० ॥
संस्थास्यते यत्र च वावतिष्ठते ।
प्रजापतीनां पतिरेष मह्यं
परं प्रमाणं भगवाननन्त: ॥ २० ॥
Verse text
yato ’bhavad viśvam idaṁ vicitraṁ
saṁsthāsyate yatra ca vāvatiṣṭhate
prajāpatīnāṁ patir eṣa mahyaṁ
paraṁ pramāṇaṁ bhagavān anantaḥ
saṁsthāsyate yatra ca vāvatiṣṭhate
prajāpatīnāṁ patir eṣa mahyaṁ
paraṁ pramāṇaṁ bhagavān anantaḥ
Synonyms
yataḥ — de quem; abhavat — emanada; viśvam — criação; idam — esta; vicitram — maravilhosa; saṁsthāsyate — dissolverá; yatra — em quem; ca — e; vā — ou; avatiṣṭhate — existe atualmente; prajā-patīnām — dos Prajāpatis; patiḥ — o Senhor; eṣaḥ — esta; mahyam — para mim; param — máxima; pramāṇam — autoridade; bhagavān — Senhor Supremo; anantaḥ — ilimitado.
Translation
A autoridade máxima para mim é a ilimitada Suprema Personalidade de Deus, de quem emana esta maravilhosa criação e em quem se apoiam sua manutenção e dissolução. Ele é a origem de todos os Prajāpatis, as personalidades destinadas a produzir entidades vivas neste mundo.
Purport
Prajāpati, pai de Kardama Muni, mandou que ele produzisse filhos. No início da criação, os Prajāpatis foram incumbidos de produzir a grande população que residiria nos planetas do gigantesco universo. Contudo, Kardama Muni disse que, embora seu pai fosse um Prajāpati, que desejava que ele produzisse filhos, na realidade sua origem era a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, porque Viṣṇu é a origem de tudo: Ele é o verdadeiro criador deste universo, Ele é o verdadeiro mantenedor, e, quando tudo é aniquilado, o universo repousa unicamente nele. Esta é a conclusão do Śrīmad-Bhāgavatam. Para a criação, manutenção e aniquilação, há três deidades – Brahmā, Viṣṇu e Maheśvara (Śiva) –, mas Brahmā e Maheśvara são expansões qualitativas de Viṣṇu. Viṣṇu é a figura central. Viṣṇu, portanto, encarrega-Se da manutenção. Ninguém além dEle pode manter toda a criação. Há inúmeras entidades vivas, que fazem inúmeras exigências. Ninguém além de Viṣṇu pode satisfazer as inúmeras exigências de todas as incontáveis entidades vivas. Brahmā recebe a ordem de criar, e Śiva recebe a ordem de aniquilar. A função intermediária, a manutenção, fica a cargo de Viṣṇu. Kardama Muni sabia muito bem, através da potência de sua vida espiritual progressiva, que Viṣṇu, a Personalidade de Deus, era sua Deidade adorável. Qualquer coisa que Viṣṇu desejasse era seu dever, e nada mais. Ele não estava disposto a gerar um grande número de filhos. Ele geraria apenas um filho, que ajudaria na missão de Viṣṇu. Como se afirma na Bhagavad-gītā, sempre que há discrepância no cumprimento dos princípios religiosos, o Senhor desce à superfície da Terra para proteger os princípios religiosos e para aniquilar os canalhas.
Considera-se que quem se casa e gera filhos liquida seu débito com a família em que nasceu. Há muitos débitos que são impostos sobre um filho logo após seu nascimento. Há débitos com a família em que se nasce, débitos com os semideuses, débitos com os Pitās, débitos com os ṛṣis etc. Mas, se alguém se ocupa somente no serviço ao Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, que é realmente adorável, então, mesmo sem se esforçar para liquidar outros débitos, ele se livra de todas as obrigações. Kardama Muni preferia devotar sua vida, como servo do Senhor, ao conhecimento de paramahaṁsa e gerar um filho apenas para aquele propósito, e não gerar inúmeros filhos para preencher as lacunas do universo.
Devanagari
मैत्रेय उवाच
स उग्रधन्वन्नियदेवाबभाषे
आसीच्च तूष्णीमरविन्दनाभम् ।
धियोपगृह्णन् स्मितशोभितेन
मुखेन चेतो लुलुभे देवहूत्या: ॥ २१ ॥
स उग्रधन्वन्नियदेवाबभाषे
आसीच्च तूष्णीमरविन्दनाभम् ।
धियोपगृह्णन् स्मितशोभितेन
मुखेन चेतो लुलुभे देवहूत्या: ॥ २१ ॥
Verse text
maitreya uvāca
sa ugra-dhanvann iyad evābabhāṣe
āsīc ca tūṣṇīm aravinda-nābham
dhiyopagṛhṇan smita-śobhitena
mukhena ceto lulubhe devahūtyāḥ
sa ugra-dhanvann iyad evābabhāṣe
āsīc ca tūṣṇīm aravinda-nābham
dhiyopagṛhṇan smita-śobhitena
mukhena ceto lulubhe devahūtyāḥ
Synonyms
maitreyaḥ — o grande sábio Maitreya; uvāca — disse; saḥ — ele (Kardama); ugra-dhanvan — ó grande guerreiro Vidura; iyat — este tanto; eva — somente; ābabhāṣe — falou; āsīt — ficou; ca — e; tūṣṇīm — silencioso; aravinda-nābham — Senhor Viṣṇu (cujo umbigo é adornado por um lótus); dhiyā — pelo pensamento; upagṛhṇan — dominando; smita-śobhitena — embelezado por seu sorriso; mukhena — por seu rosto; cetaḥ — a mente; lulubhe — foi cativada; devahūtyāḥ — de Devahūti.
Translation
Śrī Maitreya disse: Ó grande guerreiro Vidura, o sábio Kardama falou isso apenas e, então, ficou silencioso, pensando em seu adorável Senhor Viṣṇu, que tem um lótus em Seu umbigo. Enquanto ele sorria silenciosamente, seu rosto cativou a mente de Devahūti, que começou a meditar no grande sábio.
Purport
Parece que Kardama Muni estava plenamente absorto em consciência de Kṛṣṇa, pois, tão logo se calou, começou a pensar no Senhor Viṣṇu. Esse é o processo da consciência de Kṛṣṇa. Os devotos puros estão tão absortos em pensar em Kṛṣṇa que não têm outra ocupação; embora aparentem pensar ou agir de outra forma, eles estão sempre pensando em Kṛṣṇa. O sorriso de uma pessoa assim consciente de Kṛṣṇa é tão atrativo que, com um simples sorriso, ela conquista muitos admiradores, discípulos e seguidores.
Devanagari
सोऽनुज्ञात्वा व्यवसितं महिष्या दुहितु: स्फुटम् ।
तस्मै गुणगणाढ्याय ददौ तुल्यां प्रहर्षित: ॥ २२ ॥
तस्मै गुणगणाढ्याय ददौ तुल्यां प्रहर्षित: ॥ २२ ॥
Verse text
so ’nu jñātvā vyavasitaṁ
mahiṣyā duhituḥ sphuṭam
tasmai guṇa-gaṇāḍhyāya
dadau tulyāṁ praharṣitaḥ
mahiṣyā duhituḥ sphuṭam
tasmai guṇa-gaṇāḍhyāya
dadau tulyāṁ praharṣitaḥ
Synonyms
saḥ — ele (imperador Manu); anu — depois disso; jñātvā — tendo conhecido; vyavasitam — a decisão fixa; mahiṣyāḥ — da rainha; duhituḥ — de sua filha; sphuṭam — claramente; tasmai — a ele; guṇa-gaṇa-āḍhyāya — que era dotado de uma hoste de virtudes; dadau — deu; tulyām — que era igual (em boas qualidades); praharṣitaḥ — extremamente satisfeito.
Translation
Após tomar conhecimento claro da decisão da rainha, bem como da de Devahūti, o imperador entregou com grande prazer sua filha ao sábio, cuja hoste de virtudes se igualava às dela.
Devanagari
शतरूपा महाराज्ञी पारिबर्हान्महाधनान् ।
दम्पत्यो: पर्यदात्प्रीत्या भूषावास: परिच्छदान् ॥ २३ ॥
दम्पत्यो: पर्यदात्प्रीत्या भूषावास: परिच्छदान् ॥ २३ ॥
Verse text
śatarūpā mahā-rājñī
pāribarhān mahā-dhanān
dampatyoḥ paryadāt prītyā
bhūṣā-vāsaḥ paricchadān
pāribarhān mahā-dhanān
dampatyoḥ paryadāt prītyā
bhūṣā-vāsaḥ paricchadān
Synonyms
Translation
A imperatriz Śatarūpā deu afetuosamente presentes valiosíssimos, apropriados para a ocasião, tais como joias, roupas e artigos domésticos, como o dote para a noiva e o noivo.
Purport
Na Índia, ainda é comum o costume de dar a filha em caridade junto com um dote. Os presentes são dados de acordo com a posição do pai da noiva. Pāribarhān mahā-dhanān significa o dote que se deve dar ao noivo na hora do casamento. Aqui, mahā-dhanān significa presentes valiosíssimos, dignos do dote de uma imperatriz. As palavras bhūṣā-vāsaḥ paricchadān também aparecem aqui. Bhūṣā significa “adornos”, vāsaḥ significa “roupas”, e paricchadān, “diversos artigos domésticos”. Todas as coisas dignas da cerimônia de casamento da filha de um imperador foram dadas a Kardama Muni, que até então vinha observando celibato como brahmacārī. A noiva, Devahūti, estava riquissimamente vestida com adornos e roupas.
Dessa forma, Kardama Muni casou-se com grande pompa, com uma esposa qualificada, e foi dotado de toda a parafernália necessária para a vida doméstica. No sistema védico de casamento, semelhante dote ainda é dado ao noivo pelo pai da noiva; mesmo na Índia paupérrima, há casamentos em que se gastam centenas e milhares de rúpias para um dote. O sistema de dote não é ilegal, como alguns tentam provar. O dote é um presente dado à filha pelo pai para demonstrar boa vontade, e é compulsório. Em raros casos, em que o pai é completamente incapaz de dar um dote, prescreve-se que ele deve dar pelo menos uma fruta e uma flor. Como se afirma na Bhagavad-gītā, também se pode satisfazer a Deus com uma simples oferenda de fruta e flor. Em caso de incapacidade financeira e impossibilidade de acumular um dote por outros meios, pode-se dar uma fruta e uma flor para a satisfação do noivo.
Devanagari
प्रत्तां दुहितरं सम्राट् सदृक्षाय गतव्यथ: ।
उपगुह्य च बाहुभ्यामौत्कण्ठ्योन्मथिताशय: ॥ २४ ॥
उपगुह्य च बाहुभ्यामौत्कण्ठ्योन्मथिताशय: ॥ २४ ॥
Verse text
prattāṁ duhitaraṁ samrāṭ
sadṛkṣāya gata-vyathaḥ
upaguhya ca bāhubhyām
autkaṇṭhyonmathitāśayaḥ
sadṛkṣāya gata-vyathaḥ
upaguhya ca bāhubhyām
autkaṇṭhyonmathitāśayaḥ
Synonyms
Translation
Sendo assim aliviado da responsabilidade de dar a mão de sua filha a um homem adequado, Svāyambhuva Manu, com a mente agitada por sentimentos de separação, abraçou sua afetuosa filha com ambos os braços.
Purport
O pai sempre fica em ansiedade até que consiga dar a mão de sua filha a um rapaz adequado. A responsabilidade do pai e da mãe pelos filhos continua até o momento em que os casam com esposos adequados; quando o pai consegue cumprir este dever, ele se alivia de sua responsabilidade.
Devanagari
अशक्नुवंस्तद्विरहं मुञ्चन् बाष्पकलां मुहु: ।
आसिञ्चदम्ब वत्सेति नेत्रोदैर्दुहितु: शिखा: ॥ २५ ॥
आसिञ्चदम्ब वत्सेति नेत्रोदैर्दुहितु: शिखा: ॥ २५ ॥
Verse text
aśaknuvaṁs tad-virahaṁ
muñcan bāṣpa-kalāṁ muhuḥ
āsiñcad amba vatseti
netrodair duhituḥ śikhāḥ
muñcan bāṣpa-kalāṁ muhuḥ
āsiñcad amba vatseti
netrodair duhituḥ śikhāḥ
Synonyms
aśaknuvan — não podendo suportar; tat-viraham — separação dela; muñcan — vertendo; bāṣpa-kalām — lágrimas; muhuḥ — repetidamente; āsiñcat — encharcou; amba — minha querida mãe; vatsa — minha querida filha; iti — assim; netra-udaiḥ — pela água de seus olhos; duhituḥ — de sua filha; śikhāḥ — as mechas de cabelo.
Translation
O imperador não podia suportar a separação de sua filha. Por isso, verteu lágrimas incessantes, encharcando a cabeça de sua filha enquanto chorava e dizia: “Minha querida mãe! Minha querida filha!”
Purport
A palavra amba é significativa. Às vezes, o pai chama a filha afetuosamente de “mãe” e, às vezes, de “minha querida”. O sentimento de separação ocorre porque, até que a filha se case, ela permanece como filha do pai, mas, após seu casamento, ela já não é considerada uma filha na família; ela deve ir para a casa do esposo, visto que, depois do casamento, torna-se propriedade do esposo. Segundo a Manu-saṁhitā, a mulher nunca é independente. Ela deve permanecer como propriedade do pai enquanto é solteira, e deve permanecer como propriedade do esposo até que fique velha e tenha filhos crescidos. Na velhice, quando o esposo aceita sannyāsa e deixa o lar, ela permanece como propriedade dos filhos. A mulher sempre é dependente, seja do pai, do esposo ou dos filhos mais velhos. Isso se demonstrará na vida de Devahūti. O pai de Devahūti passou a responsabilidade sobre ela ao esposo, Kardama Muni, e, da mesma maneira, Kardama Muni também deixou o lar, dando a responsabilidade a seu filho, Kapiladeva. Esta narração descreverá esses eventos, um após outro.
Devanagari
आमन्त्र्य तं मुनिवरमनुज्ञात: सहानुग: ।
प्रतस्थे रथमारुह्य सभार्य: स्वपुरं नृप: ॥ २६ ॥
उभयोऋर्षिकुल्याया: सरस्वत्या: सुरोधसो: ।
ऋषीणामुपशान्तानां पश्यन्नाश्रमसम्पद: ॥ २७ ॥
प्रतस्थे रथमारुह्य सभार्य: स्वपुरं नृप: ॥ २६ ॥
उभयोऋर्षिकुल्याया: सरस्वत्या: सुरोधसो: ।
ऋषीणामुपशान्तानां पश्यन्नाश्रमसम्पद: ॥ २७ ॥
Verse text
āmantrya taṁ muni-varam
anujñātaḥ sahānugaḥ
pratasthe ratham āruhya
sabhāryaḥ sva-puraṁ nṛpaḥ
anujñātaḥ sahānugaḥ
pratasthe ratham āruhya
sabhāryaḥ sva-puraṁ nṛpaḥ
ubhayor ṛṣi-kulyāyāḥ
sarasvatyāḥ surodhasoḥ
ṛṣīṇām upaśāntānāṁ
paśyann āśrama-sampadaḥ
sarasvatyāḥ surodhasoḥ
ṛṣīṇām upaśāntānāṁ
paśyann āśrama-sampadaḥ
Synonyms
āmantrya — obtendo permissão para partir; tam — dele (Kardama); muni-varam — do melhor dos sábios; anujñātaḥ — recebendo permissão de partir; saha-anugaḥ — junto com sua comitiva; pratasthe — procedeu em direção a; ratham āruhya — montando em sua quadriga; sa-bhāryaḥ — junto com a esposa; sva-puram — sua própria capital; nṛpaḥ — o imperador; ubhayoḥ — em ambas; ṛṣi-kulyāyāḥ — do agrado dos sábios; sarasvatyāḥ — do rio Sarasvatī; su-rodhasoḥ — as margens atraentes; ṛṣīṇām — dos grandes sábios; upaśāntānām — tranquilos; paśyan — vendo; āśrama-sampadaḥ — a prosperidade dos belos eremitérios.
Translation
Após pedir e obter do grande sábio permissão para partir, o monarca subiu em sua quadriga junto com a esposa e procedeu em direção à sua capital, seguido por sua comitiva. Ao longo do caminho, ele viu a prosperidade dos belos eremitérios dos tranquilos videntes em ambas as atraentes margens do Sarasvatī, o rio tão agradável às pessoas santas.
Purport
Assim como as cidades na era moderna são construídas com grande engenharia e habilidade arquitetônica, da mesma forma, em tempos remotos, havia bairros chamados ṛṣi-kulas, onde residiam grandes pessoas santas. Na Índia, ainda hoje há muitos lugares esplêndidos para a compreensão espiritual; há muitos ṛṣis e pessoas santas vivendo em ótimas cabanas às margens do Ganges e do Yamunā, com o propósito de cultivo espiritual. Enquanto passava pelos ṛṣi-kulas, o rei e seu grupo ficaram muito satisfeitos com a beleza das cabanas e eremitérios. Aqui se afirma que paśyann āśrama-sampadaḥ. Os grandes sábios não tinham arranha-céus, mas os eremitérios eram tão belos que o rei ficou muito satisfeito ao vê-los.
Devanagari
तमायान्तमभिप्रेत्य ब्रह्मावर्तात्प्रजा: पतिम् ।
गीतसंस्तुतिवादित्रै: प्रत्युदीयु: प्रहर्षिता: ॥ २८ ॥
गीतसंस्तुतिवादित्रै: प्रत्युदीयु: प्रहर्षिता: ॥ २८ ॥
Verse text
tam āyāntam abhipretya
brahmāvartāt prajāḥ patim
gīta-saṁstuti-vāditraiḥ
pratyudīyuḥ praharṣitāḥ
brahmāvartāt prajāḥ patim
gīta-saṁstuti-vāditraiḥ
pratyudīyuḥ praharṣitāḥ
Synonyms
tam — a ele; āyāntam — que estava chegando; abhipretya — sabendo de; brahmāvartāt — de Brahmāvarta; prajāḥ — seus súditos; patim — seu senhor; gīta-saṁstuti-vāditraiḥ — com canções, louvores e instrumentos musicais; pratyudīyuḥ — vieram saudar; praharṣitāḥ — cheios de júbilo.
Translation
Cheios de júbilo por saber de sua chegada, os súditos vieram de Brahmāvarta para receber seu senhor que retornava, saudando-o com canções, louvores e instrumentos musicais.
Purport
É costume os cidadãos da capital de um reino receberem o rei quando este regressa de uma viagem. Há uma descrição semelhante quando Kṛṣṇa volta a Dvārakā após a Guerra de Kurukṣetra. Naquela ocasião, Ele foi recebido por todas as classes de cidadãos no portão da cidade. Antigamente, as cidades capitais eram cercadas por muros, e havia diferentes portões para a entrada regular. Mesmo na Delhi de hoje em dia, há portões antigos, e algumas outras cidades antigas têm tais portões, onde os cidadãos costumavam reunir-se para receber o rei. Nesta passagem também, os cidadãos de Barhiṣmatī, a capital de Brahmāvarta, o reino de Svāyambhuva, vieram muito bem vestidos receber o imperador com decorações e instrumentos musicais.
Devanagari
बर्हिष्मती नाम पुरी सर्वसम्पत्समन्विता ।
न्यपतन् यत्र रोमाणि यज्ञस्याङ्गं विधुन्वत: ॥ २९ ॥
कुशा: काशास्त एवासन् शश्वद्धरितवर्चस: ।
ऋषयो यै: पराभाव्य यज्ञघ्नान् यज्ञमीजिरे ॥ ३० ॥
न्यपतन् यत्र रोमाणि यज्ञस्याङ्गं विधुन्वत: ॥ २९ ॥
कुशा: काशास्त एवासन् शश्वद्धरितवर्चस: ।
ऋषयो यै: पराभाव्य यज्ञघ्नान् यज्ञमीजिरे ॥ ३० ॥
Verse text
barhiṣmatī nāma purī
sarva-sampat-samanvitā
nyapatan yatra romāṇi
yajñasyāṅgaṁ vidhunvataḥ
sarva-sampat-samanvitā
nyapatan yatra romāṇi
yajñasyāṅgaṁ vidhunvataḥ
kuśāḥ kāśās ta evāsan
śaśvad-dharita-varcasaḥ
ṛṣayo yaiḥ parābhāvya
yajña-ghnān yajñam ījire
śaśvad-dharita-varcasaḥ
ṛṣayo yaiḥ parābhāvya
yajña-ghnān yajñam ījire
Synonyms
barhiṣmatī — Barhiṣmati; nāma — chamada; purī — cidade; sarva-sampat — todos os tipos de riqueza; samanvitā — cheia de; nyapatan — caiu; yatra — onde; romāṇi — os pelos; yajñasya — do Senhor Javali; aṅgam — Seu corpo; vidhunvataḥ — sacudindo; kuśāḥ — grama kuśa; kāśāḥ — grama kāśā; te — eles; eva — certamente; āsan — tornaram-se; śaśvat-harita — das sempre verdes; varcasaḥ — tendo a cor; ṛṣayaḥ — os sábios; yaiḥ — com as quais; parābhāvya — derrotando; yajña-ghnān — os perturbadores das funções sacrificatórias; yajñam — Senhor Viṣṇu; ījire — eles adoraram.
Translation
A cidade de Barhiṣmatī, abençoada por todos os tipos de riquezas, tinha esse nome porque o pelo do Senhor Viṣṇu, de Seu corpo quando Ele Se manifestou como o Senhor Javali, caíra ali. Enquanto sacudia Seu corpo, este mesmo pelo caiu e transformou-se em lâminas das sempre verdes gramas kuśa e kāśa [outro tipo de grama usada para esteiras], com as quais os sábios adoraram o Senhor Viṣṇu, após Este derrotar os demônios que haviam interferido na realização de seus [dos brahmaṇas] sacrifícios.
Purport
Qualquer lugar diretamente ligado ao Senhor Supremo chama-se pīṭha-sthāna. Barhiṣmatī, a capital de Svāyambhuva Manu, era exaltada, não porque a cidade fosse muito próspera em riqueza e opulência, mas porque os pelos do Senhor Varāha caíram naquele mesmo lugar. Esses pelos do Senhor mais tarde cresceram como grama verde, com a qual os sábios costumavam adorar o Senhor depois que o Senhor matou o demônio Hiraṇyākṣa. Yajña significa Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus. Na Bhagavad-gītā, descreve-se karma como yajñārtha. Yajñārtha-karma significa “trabalho feito unicamente para a satisfação de Viṣṇu”. Se alguém fizer algo em troca de gozo dos sentidos, ou com qualquer outro propósito, isso o comprometerá. Se uma pessoa quer livrar-se da reação de seu trabalho, tudo o que ela fizer deve ser para a satisfação de Viṣṇu, ou Yajña. Em Barhiṣmatī, a capital de Svāyambhuva Manu, essas funções específicas estavam sendo executadas pelos grandes sábios e pessoas santas.
Devanagari
कुशकाशमयं बर्हिरास्तीर्य भगवान्मनु: ।
अयजद्यज्ञपुरुषं लब्धा स्थानं यतो भुवम् ॥ ३१ ॥
अयजद्यज्ञपुरुषं लब्धा स्थानं यतो भुवम् ॥ ३१ ॥
Verse text
kuśa-kāśamayaṁ barhir
āstīrya bhagavān manuḥ
ayajad yajña-puruṣaṁ
labdhā sthānaṁ yato bhuvam
āstīrya bhagavān manuḥ
ayajad yajña-puruṣaṁ
labdhā sthānaṁ yato bhuvam
Synonyms
Translation
Manu estendeu um assento de kuśas e kāśas e adorou o Senhor, a Personalidade de Deus, por cuja graça ele havia obtido o governo do globo terrestre.
Purport
Manu é o pai da humanidade, e por isso de Manu vem a palavra inglesa man, ou, em sânscrito, manuṣya. Aqueles que estão numa posição melhor no mundo, tendo riqueza suficiente, devem especialmente aprender lições de Manu, que reconhecia que seu reino e opulência eram dádivas da Suprema Personalidade de Deus e, assim, estava sempre ocupado em serviço devocional. De forma semelhante, os descendentes de Manu, ou seres humanos, especialmente os que estão situados numa condição mais próspera, devem considerar que quaisquer riquezas que tenham são dádivas da Suprema Personalidade de Deus. Essas riquezas devem ser utilizadas a serviço do Senhor em sacrifícios realizados para agradá-lO. É assim que se deve utilizar a riqueza e opulência. Ninguém pode obter riqueza, opulência, bom nascimento, belo corpo ou boa educação sem a misericórdia do Senhor Supremo. Portanto, quem possui essas valiosas facilidades deve manifestar sua gratidão ao Senhor, adorando-O e oferecendo-Lhe aquilo que dEle recebeu. Quando se presta este reconhecimento, seja por parte da família, nação ou sociedade, suas moradas tornam-se quase como Vaikuṇṭha, livrando-se da investida das três espécies de sofrimentos deste mundo material. Na era moderna, a missão da consciência de Kṛṣṇa é fazer que todos reconheçam a supremacia do Senhor Kṛṣṇa; qualquer coisa que uma pessoa consegue possuir deve considerar como dádiva obtida pela graça do Senhor. Todos, portanto, devem ocupar-se em serviço devocional através da consciência de Kṛṣṇa. Se alguém quer ser feliz e pacífico em sua posição, seja como chefe de família, cidadão ou membro da sociedade humana, deve promover o serviço devocional para o prazer do Senhor.
Devanagari
बर्हिष्मतीं नाम विभुर्यां निर्विश्य समावसत् ।
तस्यां प्रविष्टो भवनं तापत्रयविनाशनम् ॥ ३२ ॥
तस्यां प्रविष्टो भवनं तापत्रयविनाशनम् ॥ ३२ ॥
Verse text
barhiṣmatīṁ nāma vibhur
yāṁ nirviśya samāvasat
tasyāṁ praviṣṭo bhavanaṁ
tāpa-traya-vināśanam
yāṁ nirviśya samāvasat
tasyāṁ praviṣṭo bhavanaṁ
tāpa-traya-vināśanam
Synonyms
barhiṣmatīm — a cidade de Barhiṣmati; nāma — chamada; vibhuḥ — o poderosíssimo Svāyambhuva Manu; yām — a qual; nirviśya — tendo entrado; samāvasat — ele vivera anteriormente em; tasyām — naquela cidade; praviṣṭaḥ — entrou; bhavanam — o palácio; tāpa-traya — as três espécies de sofrimentos; vināśanam — destruindo.
Translation
Tendo entrado na cidade de Barhiṣmatī, na qual vivera anteriormente, Manu entrou em seu palácio, que estava envolvido por uma atmosfera que erradicava os três sofrimentos da existência material.
Purport
O mundo material, ou a vida existencial material, está repleto das três espécies de sofrimentos: sofrimentos pertinentes ao corpo e à mente, sofrimentos pertinentes às perturbações naturais e sofrimentos infligidos por outras entidades vivas. A sociedade humana destina-se a criar uma atmosfera espiritual através da propagação do espírito da consciência de Kṛṣṇa. Os sofrimentos da existência material não podem afetar o status de consciência de Kṛṣṇa. Não é que os sofrimentos do mundo material desapareçam completamente quando se adota a consciência de Kṛṣṇa, mas, para quem é consciente de Kṛṣṇa, os sofrimentos da existência material não têm efeito. Não podemos parar os sofrimentos da atmosfera material, mas a consciência de Kṛṣṇa é o método antisséptico para proteger-nos de ser afetados pelos sofrimentos da existência material. Para uma pessoa consciente de Kṛṣṇa, a vida no céu e a vida no inferno são a mesma coisa. Nos versos seguintes, explica-se como Svāyambhuva Manu criou uma atmosfera em que os sofrimentos materiais não o afetavam.
Devanagari
सभार्य: सप्रज: कामान् बुभुजेऽन्याविरोधत: ।
सङ्गीयमानसत्कीर्ति: सस्त्रीभि: सुरगायकै: ।
प्रत्यूषेष्वनुबद्धेन हृदा शृण्वन् हरे: कथा: ॥ ३३ ॥
सङ्गीयमानसत्कीर्ति: सस्त्रीभि: सुरगायकै: ।
प्रत्यूषेष्वनुबद्धेन हृदा शृण्वन् हरे: कथा: ॥ ३३ ॥
Verse text
sabhāryaḥ saprajaḥ kāmān
bubhuje ’nyāvirodhataḥ
saṅgīyamāna-sat-kīrtiḥ
sastrībhiḥ sura-gāyakaiḥ
praty-ūṣeṣv anubaddhena
hṛdā śṛṇvan hareḥ kathāḥ
bubhuje ’nyāvirodhataḥ
saṅgīyamāna-sat-kīrtiḥ
sastrībhiḥ sura-gāyakaiḥ
praty-ūṣeṣv anubaddhena
hṛdā śṛṇvan hareḥ kathāḥ
Synonyms
sa-bhāryaḥ — junto com sua esposa; sa-prajaḥ — junto de seus súditos; kāmān — as necessidades da vida; bubhuje — ele desfrutava; anya — dos outros; avirodhataḥ — sem distúrbio; saṅgīyamāna — sendo louvado; sat-kīrtiḥ — reputação por atividades piedosas; sa-strībhiḥ — junto com suas esposas; sura-gāyakaiḥ — por músicos celestiais; prati-ūṣeṣu — todo amanhecer; anubaddhena — estando apegado; hṛdā — com o coração; śṛṇvan — ouvindo; hareḥ — do Senhor Hari; kathāḥ — os tópicos.
Translation
O imperador Svāyambhuva Manu desfrutava da vida com sua esposa e súditos e satisfazia seus desejos sem ser perturbado por princípios indesejáveis, contrários ao processo da religião. Músicos celestiais e suas esposas cantavam em coro sobre a pura reputação do imperador, que, todo dia de manhã cedo, costumava ouvir os passatempos da Suprema Personalidade de Deus com o coração cheio de amor.
Purport
Na verdade, a sociedade humana destina-se à realização da perfeição em consciência de Kṛṣṇa. Não há restrição contra o fato de viver com esposa e filhos, mas deve-se conduzir a vida de tal modo que não se contrarie os princípios de religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos regulado e, por fim, liberação da existência material. Os princípios védicos são projetados de tal maneira que as almas condicionadas que vêm a esta existência material sejam orientadas na satisfação de seus desejos materiais e, ao mesmo tempo, libertem-se e voltem ao Supremo, voltem ao lar.
Compreende-se que o imperador Svāyambhuva Manu desfrutava de sua vida familiar, seguindo esses princípios. Aqui se afirma que, de manhã cedo, havia músicos que costumavam cantar com instrumentos musicais sobre as glórias do Senhor, e o imperador, com sua família, costumava ouvir pessoalmente sobre os passatempos da Pessoa Suprema. Este costume ainda prevalece na Índia em algumas famílias reais e templos. Músicos profissionais cantam com śahnāīs, e os membros adormecidos da casa gradualmente se levantam de suas camas numa atmosfera agradável. À noite, antes de dormir, os cantores também entoam canções em relação com os passatempos do Senhor, com acompanhamento de śahnāīs, e os chefes de família gradualmente adormecem, lembrando-se das glórias do Senhor. Em todas as casas, além do canto, promovem-se palestras do Bhāgavatam à noite. Os familiares sentam-se, fazem um Hare Kṛṣṇa kīrtana, ouvem narrações do Śrīmad-Bhāgavatam e da Bhagavad-gītā e desfrutam de música antes de ir para a cama. A atmosfera criada por este movimento de saṅkīrtana vive em seus corações, e, enquanto dormem, também sonham com o canto e a glorificação do Senhor. Dessa maneira, pode-se obter a perfeição da consciência de Kṛṣṇa. Essa prática é muito antiga, como aprendemos a partir deste verso do Śrīmad-Bhāgavatam; há milhões de anos atrás, Svāyambhuva Manu costumava valer-se desta oportunidade de viver uma vida familiar na paz e prosperidade de uma atmosfera de consciência de Kṛṣṇa.
Quanto a templos, em todo e cada palácio real ou casa de homem rico, inevitavelmente há um belo templo, e os membros da família levantam-se de madrugada e vão ao templo para ver a cerimônia chamada maṅgalārātrika. A cerimônia de maṅgalārātrika é a primeira adoração da manhã. Na cerimônia de ārātrika, é oferecida uma lamparina em círculos diante das Deidades, bem como um búzio, flores e um abano. Entende-se que o Senhor acorda de manhã cedo, faz uma refeição leve e dá audiência aos devotos. Os devotos, então, voltam para casa ou cantam as glórias do Senhor no templo. Ainda hoje em dia, a cerimônia da madrugada acontece nos templos e palácios indianos. Os templos destinam-se à reunião do público em geral. Os templos dentro de palácios são especialmente para as famílias reais, mas, em muitos desses templos palacianos, o público também tem permissão de fazer visitas. O templo do rei de Jaipur está situado dentro de seu palácio, mas o público tem permissão de reunir-se ali; quem for lá verá que o templo está sempre cheio, com pelo menos quinhentos devotos. Depois da cerimônia de maṅgalārātrika, sentam-se juntos e cantam as glórias do Senhor ao som de instrumentos musicais e, assim, desfrutam da vida. A adoração no templo feita pela família real também é mencionada na Bhagavad-gītā, onde se afirma que aqueles que não conseguem obter sucesso nos princípios de bhakti-yoga no transcurso de uma vida recebem a oportunidade de nascer, na próxima vida, em família de homens ricos, em família real ou em família de brāhmaṇas eruditos, ou devotos. Quem obtém a oportunidade de nascer nessas famílias pode conseguir as vantagens de uma atmosfera consciente de Kṛṣṇa, sem dificuldade. Uma criança nascida nessa atmosfera “kṛṣṇa-izada” certamente desenvolve sua consciência de Kṛṣṇa. A perfeição que ela não conseguiu alcançar em sua vida passada é-lhe novamente oferecida nesta vida, e ela pode tornar-se perfeita, sem falta.
Devanagari
निष्णातं योगमायासु मुनिं स्वायम्भुवं मनुम् ।
यदाभ्रंशयितुं भोगा न शेकुर्भगवत्परम् ॥ ३४ ॥
यदाभ्रंशयितुं भोगा न शेकुर्भगवत्परम् ॥ ३४ ॥
Verse text
niṣṇātaṁ yoga-māyāsu
muniṁ svāyambhuvaṁ manum
yad ābhraṁśayituṁ bhogā
na śekur bhagavat-param
muniṁ svāyambhuvaṁ manum
yad ābhraṁśayituṁ bhogā
na śekur bhagavat-param
Synonyms
niṣṇātam — absorto; yoga-māyāsu — em gozo temporário; munim — que era igual a um santo; svāyambhuvam — Svāyambhuva; manum — Manu; yat — de que; ābhraṁśayitum — fazer desviar; bhogāḥ — desfrutes materiais; na — não; śekuḥ — foram capazes; bhagavat-param — que era um grande devoto da Suprema Personalidade de Deus.
Translation
Assim, Svāyambhuva Manu foi um rei santo. Embora absorto em felicidade material, ele não foi arrastado ao grau inferior de vida, pois sempre desfrutava de sua felicidade material numa atmosfera consciente de Kṛṣṇa.
Purport
De um modo geral, a felicidade régia de gozo material nos arrasta ao mais baixo grau de vida, ou seja, a degradação à vida animal, por causa de gozo dos sentidos irrestrito. Porém, Svāyambhuva Manu era considerado tão bom como um sábio santo porque a atmosfera criada em seu reino e em seu lar era inteiramente consciente de Kṛṣṇa. O mesmo se aplica às almas condicionadas em geral: elas vêm a este mundo material em busca de gozo dos sentidos, mas, se conseguem criar uma atmosfera consciente de Kṛṣṇa, conforme se retrata aqui, ou conforme se prescreve nas escrituras reveladas, mediante a adoração no templo e a adoração caseira à Deidade, então, apesar de seu gozo material, elas podem avançar em pura consciência de Kṛṣṇa, sem dúvida alguma. Atualmente, a civilização moderna está demasiadamente apegada ao modo de vida material, ou o gozo dos sentidos. Portanto, o movimento para a consciência de Kṛṣṇa pode dar às pessoas em geral a melhor oportunidade de utilizar sua vida humana em meio ao desfrute material. A consciência de Kṛṣṇa não interfere em sua propensão ao gozo material, mas simplesmente regula-lhes os hábitos na vida de gozo dos sentidos. Apesar de desfrutarem das vantagens materiais, todos podem libertar-se nesta mesma vida, praticando a consciência de Kṛṣṇa através do simples método de cantar os santos nomes do Senhor – Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare.
Devanagari
अयातयामास्तस्यासन् यामा:स्वान्तरयापना: ।
शृण्वतो ध्यायतो विष्णो: कुर्वतो ब्रुवत: कथा: ॥ ३५ ॥
शृण्वतो ध्यायतो विष्णो: कुर्वतो ब्रुवत: कथा: ॥ ३५ ॥
Verse text
ayāta-yāmās tasyāsan
yāmāḥ svāntara-yāpanāḥ
śṛṇvato dhyāyato viṣṇoḥ
kurvato bruvataḥ kathāḥ
yāmāḥ svāntara-yāpanāḥ
śṛṇvato dhyāyato viṣṇoḥ
kurvato bruvataḥ kathāḥ
Synonyms
Translation
Em consequência disso, embora a duração de sua vida gradualmente chegasse ao fim, sua longa vida, que abrangia uma era Manvantara, não foi gasta em vão, uma vez que ele sempre se dedicou a ouvir, contemplar, anotar e cantar os passatempos do Senhor.
Purport
Assim como a comida recém-preparada é muito saborosa, mas se torna rançosa e insossa se guardada por três ou quatro horas, da mesma forma, a existência do gozo material pode durar enquanto a vida seja viçosa, mas, na parte derradeira da vida, tudo se torna insípido, e tudo parece ser vão e doloroso. A vida do imperador Svāyambhuva Manu, no entanto, não era insípida; conforme ele envelhecia, sua vida mantinha-se viçosa como no início por causa de sua contínua consciência de Kṛṣṇa. A vida de um homem em consciência de Kṛṣṇa é sempre viçosa. Afirma-se que o Sol nasce de manhã e se põe à tarde, e sua função é reduzir a duração da vida de todos. Porém, a alvorada e o crepúsculo não podem reduzir a duração da vida de quem se ocupa em consciência de Kṛṣṇa. A vida de Svāyambhuva Manu não se tornou rançosa após algum tempo porque ele sempre se ocupava em cantar sobre o Senhor Viṣṇu e em meditar nEle. Ele foi o maior dos yogīs porque nunca desperdiçou seu tempo. Aqui se menciona especialmente que viṣṇoḥ kurvato bruvataḥ kathāḥ. Quando falava, ele só falava de Kṛṣṇa e Viṣṇu, a Personalidade de Deus; quando ouvia algo, era sobre Kṛṣṇa; quando meditava, era em Kṛṣṇa e em Suas atividades.
Afirma-se que sua vida foi muito longa, ou seja, durou setenta e um yugas. Um yuga completa-se em 4.320.000 anos, setenta e um desses yugas é a duração da vida de um Manu, e catorze de tais Manus vêm e vão em um dia de Brahmā. Por toda a duração de sua vida – 4.320.000 x 71 anos –, Manu ocupou-se em consciência de Kṛṣṇa, cantando, ouvindo, falando sobre Kṛṣṇa e meditando nEle. Portanto, sua vida não foi desperdiçada, nem se tornou insípida.
Devanagari
स एवं स्वान्तरं निन्ये युगानामेकसप्ततिम् ।
वासुदेवप्रसङ्गेन परिभूतगतित्रय: ॥ ३६ ॥
वासुदेवप्रसङ्गेन परिभूतगतित्रय: ॥ ३६ ॥
Verse text
sa evaṁ svāntaraṁ ninye
yugānām eka-saptatim
vāsudeva-prasaṅgena
paribhūta-gati-trayaḥ
yugānām eka-saptatim
vāsudeva-prasaṅgena
paribhūta-gati-trayaḥ
Synonyms
Translation
Ele passou seu tempo, que durou setenta e um ciclos de quatro eras [71 x 4.320.000 anos], sempre pensando em Vāsudeva e sempre ocupado em assuntos relativos a Vāsudeva. Assim, ele transcendeu os três destinos.
Purport
Há três destinos para pessoas que estão sob o controle dos três modos da natureza material. Esses destinos são às vezes descritos como as fases de vigília, sonho e inconsciência. A Bhagavad-gītā descreve os três destinos como os destinos de pessoas nos modos da bondade, paixão e ignorância. Afirma-se na Gītā que quem está no modo da bondade é promovido a melhores condições de vida em planetas superiores, e quem está no modo da paixão permanece neste mundo material sobre a Terra ou em planetas celestiais, mas quem está no modo da ignorância se degrada a uma vida animal em planetas onde a vida é inferior à humana. Contudo, quem é consciente de Kṛṣṇa está acima desses três modos da natureza material. Afirma-se na Bhagavad-gītā que qualquer pessoa que se ocupe em serviço devocional ao Senhor torna-se automaticamente transcendental aos três destinos da natureza material e situa-se na fase brahma-bhūta, ou seja, na fase autorrealizada. Embora Svāyambhuva Manu, o governante deste mundo material, parecesse estar absorto em felicidade material, ele não estava nem no modo da bondade, nem nos modos da paixão ou ignorância, mas, isto sim, na fase transcendental.
Portanto, aquele que se ocupa plenamente em serviço devocional é sempre liberto. Bilvamaṅgala Ṭhākura, grande devoto do Senhor, afirma: “Se eu tiver devoção inabalável aos pés de lótus de Kṛṣṇa, então a Mãe Liberação sempre se ocupará a meu serviço. A total perfeição de gozo material, religião e desenvolvimento econômico estará sob meu comando.” As pessoas andam atrás de dharma, artha, kāma e mokṣa. Geralmente, elas executam atividades religiosas para obter algum ganho material, e se dedicam a atividades materiais visando o gozo dos sentidos. Após ficarem frustradas no gozo material dos sentidos, elas querem libertar-se e tornar-se unas com a Verdade Absoluta. Esses quatro princípios formam o caminho transcendental para os menos inteligentes. Aqueles que são realmente inteligentes ocupam-se em consciência de Kṛṣṇa, não se importando com esses quatro princípios do método transcendental. Eles se elevam de imediato à plataforma transcendental, que está acima da liberação. A liberação não é uma grande conquista para o devoto, isto para não falar dos resultados de funções ritualísticas em religião, desenvolvimento econômico ou da vida materialista de gozo dos sentidos. Os devotos não se interessam por essas coisas. Eles estão sempre situados na plataforma transcendental da fase brahma-bhūta de autorrealização.
Devanagari
शारीरा मानसा दिव्या वैयासे ये च मानुषा: ।
भौतिकाश्च कथं क्लेशा बाधन्ते हरिसंश्रयम् ॥ ३७ ॥
भौतिकाश्च कथं क्लेशा बाधन्ते हरिसंश्रयम् ॥ ३७ ॥
Verse text
śārīrā mānasā divyā
vaiyāse ye ca mānuṣāḥ
bhautikāś ca kathaṁ kleśā
bādhante hari-saṁśrayam
vaiyāse ye ca mānuṣāḥ
bhautikāś ca kathaṁ kleśā
bādhante hari-saṁśrayam
Synonyms
śārīrāḥ — pertinentes ao corpo; mānasāḥ — pertinentes à mente; divyāḥ — pertinentes a poderes sobrenaturais (semideuses); vaiyāse — ó Vidura; ye — aqueles; ca — e; mānuṣāḥ — pertinentes a outros homens; bhautikāḥ — pertinentes a outros seres vivos; ca — e; katham — como; kleśāḥ — sofrimentos; bādhante — podem incomodar; hari-saṁśrayam — alguém que se abrigou no Senhor Kṛṣṇa.
Translation
Portanto, ó Vidura, como podem os sofrimentos pertinentes ao corpo, à mente, à natureza e a outros homens e criaturas vivas incomodar pessoas situadas inteiramente sob o refúgio do Senhor Kṛṣṇa, em serviço devocional?
Purport
Toda entidade viva neste mundo material sempre é atormentada por alguma espécie de sofrimento, seja pertinente ao corpo, à mente ou a distúrbios naturais. As aflições decorrentes ao frio no inverno e ao rigoroso calor no verão sempre impõem sofrimento às entidades vivas neste mundo material, mas alguém que tenha se refugiado completamente aos pés de lótus do Senhor, em consciência de Kṛṣṇa, está na fase transcendental; não é perturbado por dor alguma, seja em razão do corpo, da mente ou de distúrbios naturais, tais como inverno e verão. Ele é transcendental a todos esses tormentos.
Devanagari
य: पृष्टो मुनिभि: प्राह धर्मान्नानाविदाञ्छुभान् ।
नृणां वर्णाश्रमाणां च सर्वभूतहित: सदा ॥ ३८ ॥
नृणां वर्णाश्रमाणां च सर्वभूतहित: सदा ॥ ३८ ॥
Verse text
yaḥ pṛṣṭo munibhiḥ prāha
dharmān nānā-vidhāñ chubhān
nṛṇāṁ varṇāśramāṇāṁ ca
sarva-bhūta-hitaḥ sadā
dharmān nānā-vidhāñ chubhān
nṛṇāṁ varṇāśramāṇāṁ ca
sarva-bhūta-hitaḥ sadā
Synonyms
yaḥ — que; pṛṣṭaḥ — sendo interrogado; munibhiḥ — pelos sábios; prāha — falou; dharmān — os deveres; nānā-vidhān — muitas variedades; śubhān — auspiciosos; nṛṇām — da sociedade humana; varṇa-āsramārnām — dos varṇas e āśramas; ca — e; sarva-bhūta — para todos os seres vivos; hitaḥ — que confere assistência social; sadā — sempre.
Translation
Em resposta às perguntas de certos sábios, ele [Svāyambhuva Manu], por compaixão por todas as entidades vivas, ensinou os diversos deveres sagrados dos homens em geral e os diferentes varṇas e āśramas.
Devanagari
एतत्त आदिराजस्य मनोश्चरितमद्भुतम् ।
वर्णितं वर्णनीयस्य तदपत्योदयं शृणु ॥ ३९ ॥
वर्णितं वर्णनीयस्य तदपत्योदयं शृणु ॥ ३९ ॥
Verse text
etat ta ādi-rājasya
manoś caritam adbhutam
varṇitaṁ varṇanīyasya
tad-apatyodayaṁ śṛṇu
manoś caritam adbhutam
varṇitaṁ varṇanīyasya
tad-apatyodayaṁ śṛṇu
Synonyms
Translation
Acabo de falar-te sobre o maravilhoso caráter de Svāyambhuva Manu, o rei original, cuja reputação é digna de menção. Por favor, ouve-me falar da prosperidade de sua filha Devahūti.
Purport
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do terceiro canto, vigésimo segundo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “O Casamento de Kardama Muni e Devahūti”.