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Devanagari
Verse Text
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Translation
Purport
CAPÍTULO VINTE E SETE
O Senhor Indra e Mãe Surabhi Oferecem Orações
Este capítulo descreve como a vaca Surabhi e Indra, depois de terem visto o surpreendente poder do Senhor Kṛṣṇa, executaram uma cerimônia de ablução para Ele.
Temendo que Śrī Kṛṣṇa estivesse cansado por ter erguido a colina Govardhana, Indra veio em segredo à Sua presença, ofereceu reverências e louvou-O. Indra disse que, embora Śrī Kṛṣṇa jamais fique preso na corrente da ilusão material, que nasce da ignorância, Ele, não obstante, aceita um corpo semelhante ao humano e executa várias atividades para estabelecer os princípios religiosos e castigar os perversos. Através desse expediente, Ele esmaga o falso prestígio daqueles que se julgam grandes controladores. Indra declarou ainda que Kṛṣṇa é o pai, guru e Senhor de todas as entidades vivas e que, sob a forma do tempo, Ele é o agente do castigo delas.
Satisfeito com as orações de Indra, Śrī Kṛṣṇa lhe disse que impedira o indra-yajña para que Indra, assoberbado de falso orgulho como estava, se lembrasse do Senhor. Os homens inebriados com a opulência material nunca O veem postado diante deles com a vara do castigo em Sua mão. Portanto, se o Senhor Kṛṣṇa deseja a verdadeira boa fortuna de alguém, Ele o derruba de sua posição ostentosa.
O Senhor Kṛṣṇa ordenou que Indra retornasse à sua posição apropriada nos céus e servisse lá sem egotismo. Indra, junto com a vaca Surabhi, realizaram então uma cerimônia de ablução para Kṛṣṇa, usando a água do Ganges celestial e o leite de mãe Surabhi. Indra e a vaca aproveitaram esta oportunidade para conceder ao Senhor o nome Govinda, e os semideuses lançaram chuvas de flores e recitaram várias orações.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
गोवर्धने धृते शैले आसाराद् रक्षिते व्रजे । गोलोकादाव्रजत्कृष्णं सुरभि: शक्र एव च ॥ १ ॥
गोवर्धने धृते शैले आसाराद् रक्षिते व्रजे । गोलोकादाव्रजत्कृष्णं सुरभि: शक्र एव च ॥ १ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
govardhane dhṛte śaile
āsārād rakṣite vraje
go-lokād āvrajat kṛṣṇaṁ
surabhiḥ śakra eva ca
govardhane dhṛte śaile
āsārād rakṣite vraje
go-lokād āvrajat kṛṣṇaṁ
surabhiḥ śakra eva ca
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; govardhane — Govardhana; dhṛte — tendo sido erguida; śaile — a colina; āsārāt — do aguaceiro; rakṣite — tendo sido protegida; vraje — Vraja; go-lokāt — do planeta das vacas; āvrajat — veio; kṛṣṇam — a Kṛṣṇa; surabhiḥ — mãe Surabhi; śakraḥ — Indra; eva — também; ca — e.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Depois que Kṛṣṇa ergueu a colina Govardhana e, desse modo, protegeu os habitantes de Vraja do terrível aguaceiro, Surabhi, a mãe das vacas, acompanhada por Indra, veio de seu planeta para ver Kṛṣṇa.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra go-lokāt neste contexto indica o planeta material chamado Goloka, que está repleto de vacas excepcionais. Surabhi veio com alegria ver o Senhor Kṛṣṇa, mas Indra veio com medo. Como se indica neste verso, o Senhor Kṛṣṇa teve de adotar medidas extraordinárias para proteger Seus companheiros de Vṛndāvana do ataque condenável e ofensivo de Indra. Sem dúvida, Indra estava envergonhado e também nervoso quanto a seu futuro. Por ter agido de modo incorreto, ele, amedrontado, fora refugiar-se no senhor Brahmā, que então lhe ordenou que fosse ver o Senhor Kṛṣṇa levando consigo a Surabhi do planeta material Goloka.
Devanagari
विविक्त उपसङ्गम्य व्रीडीत: कृतहेलन: । पस्पर्श पादयोरेनं किरीटेनार्कवर्चसा ॥ २ ॥
Verse text
vivikta upasaṅgamya
vrīḍītaḥ kṛta-helanaḥ
pasparśa pādayor enaṁ
kirīṭenārka-varcasā
vrīḍītaḥ kṛta-helanaḥ
pasparśa pādayor enaṁ
kirīṭenārka-varcasā
Synonyms
Translation
Indra estava muito envergonhado de ter ofendido o Senhor. Aproximando-se dEle em um lugar solitário, Indra prostrou-se e repousou seu elmo, cuja refulgência era tão brilhante quanto o Sol, nos pés de lótus do Senhor.
Purport
SIGNIFICADO—O sábio Śrī Vaiśampāyana menciona no Hari-vaṁśa (Viṣṇu-parva 19.3) o “lugar solitário” específico onde Indra se aproximou de Śrī Kṛṣṇa, sa dadarśopaviṣṭaṁ vai govardhana-śilā-tale: “Avistou-O [Kṛṣṇa] sentado no sopé da colina Govardhana.”
A partir dos comentários dos ācāryas, depreendemos que o Senhor Kṛṣṇa queria arranjar um encontro solitário com Indra para que ele não fosse ainda mais humilhado. Indra veio render-se e pedir perdão, e o Senhor permitiu que ele o fizesse em particular.
Devanagari
दृष्टश्रुतानुभावोऽस्य कृष्णस्यामिततेजस: । नष्टत्रिलोकेशमद इदमाह कृताञ्जलि: ॥ ३ ॥
Verse text
dṛṣṭa-śrutānubhāvo ’sya
kṛṣṇasyāmita-tejasaḥ
naṣṭa-tri-lokeśa-mada
idam āha kṛtāñjaliḥ
kṛṣṇasyāmita-tejasaḥ
naṣṭa-tri-lokeśa-mada
idam āha kṛtāñjaliḥ
Synonyms
dṛṣṭa — visto; śruta — ouvido; anubhāvaḥ — o poder; asya — deste; kṛṣṇasya — Senhor Kṛṣṇa; amita — imensuráveis; tejasaḥ — cujas potências; naṣṭa — destruído; tri-loka — dos três mundos; īśa — de ser o senhor; madaḥ — seu inebriamento; idam — estas palavras; āha — disse; kṛta-añjaliḥ — de mãos postas em súplica.
Translation
Agora Indra tinha ouvido falar do poder transcendental do onipotente Kṛṣṇa e também O vira, de modo que seu falso orgulho decorrente de ser o senhor dos três mundos foi assim derrotado. De mãos postas em súplica, ele se dirigiu ao Senhor com as seguintes palavras.
Devanagari
इन्द्र उवाच
विशुद्धसत्त्वं तव धाम शान्तंतपोमयं ध्वस्तरजस्तमस्कम् । मायामयोऽयं गुणसम्प्रवाहोन विद्यते तेऽग्रहणानुबन्ध: ॥ ४ ॥
विशुद्धसत्त्वं तव धाम शान्तंतपोमयं ध्वस्तरजस्तमस्कम् । मायामयोऽयं गुणसम्प्रवाहोन विद्यते तेऽग्रहणानुबन्ध: ॥ ४ ॥
Verse text
indra uvāca
viśuddha-sattvaṁ tava dhāma śāntaṁ
tapo-mayaṁ dhvasta-rajas-tamaskam
māyā-mayo ’yaṁ guṇa-sampravāho
na vidyate te grahaṇānubandhaḥ
viśuddha-sattvaṁ tava dhāma śāntaṁ
tapo-mayaṁ dhvasta-rajas-tamaskam
māyā-mayo ’yaṁ guṇa-sampravāho
na vidyate te grahaṇānubandhaḥ
Synonyms
indraḥ uvāca — Indra disse; viśuddha-sattvam — manifestando a bondade transcendental; tava — Vossa; dhāma — forma; śāntam — imutável; tapaḥ-mayam — plena de conhecimento; dhvasta — destruídos; rajaḥ — o modo da paixão; tamaskam — e o modo da ignorância; māyā-mayaḥ — baseado na ilusão; ayam — este; guṇa — dos modos da natureza material; sampravāhaḥ — o grande fluxo; na vidyate — não está presente; te — dentro de Vós; agrahaṇa — ignorância; anubandhaḥ — que se deve a.
Translation
O rei Indra disse: Vossa forma transcendental, manifestação da bondade pura, não é perturbada por mudanças, brilha com conhecimento e é destituída de paixão e ignorância. Em Vós, inexiste o potente fluxo dos modos da natureza material, que se baseia na ilusão e na ignorância.
Purport
SIGNIFICADO—O grande comentador do Bhāgavatam Śrīla Śrīdhara Svāmī explicou magistralmente os elementos sânscritos deste verso profundo.
A palavra sânscrita dhāma tem vários significados: a) lugar para viver, casa, morada etc.; b) coisa ou pessoa favorita, deleite, ou prazer, c) forma ou aparência; d) poder, força, majestade, glória, esplendor ou luz.
Com relação ao primeiro conjunto de significados, o Vedānta-sūtra declara que a Verdade Absoluta é a fonte e o lugar de repouso de toda a existência, e se diz no primeiro verso do Bhāgavatam que a Verdade Absoluta é Kṛṣṇa. Embora exista em Seu próprio dhāma, ou morada, chamado Kṛṣṇaloka, o Senhor Kṛṣṇa mesmo é a morada de toda a existência, como Arjuna confirma na Bhagavad-gītā, ao se dirigir a Kṛṣṇa como paraṁ dhāma, “a morada suprema”.
O próprio nome Kṛṣṇa indica a pessoa todo-atrativa; logo, o Senhor Kṛṣṇa, a fonte de toda beleza e prazer, é decerto “a coisa ou pessoa favorita, deleite e prazer”. Em última análise, esses termos só podem referir-se a Kṛṣṇa.
Dhāma também se refere a forma ou aparência, e quando Indra ofereceu estas orações, ele estava de fato vendo diretamente a forma de Kṛṣṇa diante dele.
Como se explica claramente na literatura védica, o poder, força, majestade, esplendor e refulgência do Senhor Kṛṣṇa estão todos contidos dentro de Seu corpo transcendental e assim atestam as glórias infinitas do Senhor.
Śrīla Śrīdhara Svāmī resumiu brilhantemente todos esses significados da palavra dhāma, dando o termo sânscrito svarūpa como sinônimo. A palavra svarūpa significa “a forma ou o formato particular de alguém” e também “a condição, caráter ou natureza própria de alguém”. Já que o Senhor Kṛṣṇa, sendo espírito absoluto puro, não difere de Seu corpo, não existe qualquer diferença alguma entre o Senhor e Sua forma visível. Em contraste, nós almas condicionadas neste mundo material somos todos claramente diferentes do corpo, seja este corpo masculino, feminino, negro, branco ou o que for. Todos nós somos almas eternas, diferentes do corpo temporário e frágil.
Quando a palavra svarūpa se aplica a nós, ela indica em especial nossa forma espiritual, porque nossa “própria forma” é de fato nossa “própria condição, caráter ou natureza” eternamente. Logo, a condição liberada em que a forma externa de alguém é sua natureza espiritual mais profunda chama-se svarūpa. Antes de tudo, porém, este termo se refere à Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Tudo isto é indicado neste verso pelas palavras tava dhāma, como o explica Śrīdhara Svāmī.
Śrīdhara Svāmī explicou que, nesta passagem, a palavra śāntam significa “sempre da mesma forma”. Śāntam também pode significar “imperturbado, livre da paixão ou purificado”. Segundo a filosofia védica, toda mudança neste mundo é causada pela influência da paixão e da ignorância. O modo apaixonado é criativo, e o modo ignorante é destrutivo, ao passo que o modo da bondade, sattva, é sereno e mantenedor. De muitas maneiras, este verso enfatiza que o Senhor Kṛṣṇa é livre dos modos da natureza. As palavras viśuddha-sattvam, śāntam, dhvasta-rajas-tamaskam e guṇa-sampravāho na vidyate te, todas indicam isso. Ao contrário de Kṛṣṇa, nós mudamos de um corpo para outro por causa de nosso envolvimento com os modos da natureza; as várias transformações das formas materiais são impulsionadas pelos modos da natureza, os quais são eles mesmos postos em movimento pela influência do tempo. Portanto, quem está livre dos modos materiais da natureza é imutável e está eternamente satisfeito em existência espiritual bem-aventurada. Assim, a palavra śāntam indica que o Senhor não é perturbado pela mudança, já que Ele está livre dos modos da natureza material.
Segundo este verso, o poderoso fluxo dos modos da natureza material – a saber: paixão, estupidez e piedade mundana – baseiam-se em agrahaṇa, que Śrīla Śrīdhara Svāmī traduziu como “ignorância”. Como a raiz sânscrita graḥ significa “tomar, aceitar, agarrar ou compreender”, grahaṇa significa “agarrar” no sentido exato de “captar uma ideia ou fato”. Aqui, portanto, a palavra agrahaṇa significa o fracasso de alguém em compreender sua posição espiritual, e esse fracasso faz com que ele caia nas violentas correntes da existência material.
Infere-se um sentido adicional da palavra agra-haṇa quando ela é dividida no composto agra-haṇa. Agra quer dizer “o primeiro, o mais alto ou o melhor”, e hana quer dizer “matar”. A melhor parte de nossa existência é a alma pura, que é eterna, em contraposição ao corpo e à mente materiais, que são temporários. Portanto, quem prefere a existência material à consciência de Kṛṣṇa está de fato matando a melhor parte de si, a alma, a qual, em seu estado puro, pode desfrutar sem limitações a consciência de Kṛṣṇa.
Śrīla Śrīdhara Svāmī traduziu a expressão tapo-mayam como “pleno de conhecimento”. A palavra tapas, que em geral indica “austeridade”, deriva do verbo sânscrito tap, cujo sentido se pode resumir como aquilo que indica as várias funções do Sol. Tap quer dizer “queimar, brilhar, esquentar etc.” O Senhor Supremo é eternamente perfeito, de modo que tapo-mayam neste contexto não indica que Seu corpo transcendental se destina a austeridades, já que as austeridades são práticas que servem para as almas condicionadas se purificarem ou adquirirem um determinado poder. Um ser onipotente e perfeito nem Se purifica nem adquire poder: Ele é eternamente puro e todo-poderoso. Portanto, Śrīdhara Svāmī, de maneira muito inteligente, compreendeu que neste caso a palavra tapas se refere à função iluminante do Sol e, por isso, indica que o corpo autorrefulgente do Senhor é onisciente. A luz é um símbolo comum de conhecimento. A refulgência espiritual do Senhor não provê mera iluminação física, como no caso de uma vela ou lâmpada elétrica; o que é mais importante, o corpo do Senhor ilumina nossa consciência com conhecimento perfeito, porque a refulgência do Senhor é por si mesma conhecimento perfeito.
Ofereçamos nossas respeitosas reverências aos pés de lótus de Śrīla Śrīdhara Svāmī e agradeçamos-lhe pelos iluminadores comentários a respeito deste verso.
Devanagari
कुतो नु तद्धेतव ईश तत्कृतालोभादयो येऽबुधलिङ्गभावा: । तथापि दण्डं भगवान् बिभर्तिधर्मस्य गुप्त्यै लनिग्रहाय ॥ ५ ॥
Verse text
kuto nu tad-dhetava īśa tat-kṛtā
lobhādayo ye ’budha-linga-bhāvāḥ
tathāpi daṇḍaṁ bhagavān bibharti
dharmasya guptyai khala-nigrahāya
lobhādayo ye ’budha-linga-bhāvāḥ
tathāpi daṇḍaṁ bhagavān bibharti
dharmasya guptyai khala-nigrahāya
Synonyms
kutaḥ — como; nu — decerto; tat — desta (existência do corpo material); hetavaḥ — as causas; īśa — ó Senhor; tat-kṛtāḥ — produzidas pela conexão da pessoa com o corpo material; lobha-ādayaḥ — ganância e assim por diante; ye — os quais; abudha — de uma pessoa ignorante; liṅga-bhāvāḥ — sintomas; tathā api — não obstante; daṇḍam — castigo; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; bibharti — inflige; dharmasya — dos princípios da religião; guptyai — para a proteção; khala — dos perversos; nigrahāya — para o castigo.
Translation
Então, como poderiam existir em Vós os sintomas de um ser ignorante – tais como cobiça, luxúria, ira e inveja –, que são gerados de seu envolvimento prévio na existência material e que fazem com que a pessoa se enrede ainda mais na existência material? Ainda assim, como o Senhor Supremo, impondes o castigo para proteger os princípios religiosos e refrear os perversos.
Purport
SIGNIFICADO—Pode-se analisar esta complexa declaração filosófica de Indra da seguinte maneira: Na primeira linha deste verso, Indra se refere à ideia principal exposta no final do verso anterior – a saber, que as grandes correntes da existência material, que se baseiam na ignorância, não podem existir no Senhor Supremo. As expressões tad-dhetavaḥ e tat-kṛtāḥ indicam que algo causa a manifestação dos modos da natureza, e que estes, por sua vez, tornam-se causa daquilo que os causou. Na segunda linha deste verso, encontramos que são sentimentos materiais como cobiça, luxúria, inveja e ira que fazem os modos da natureza manifestarem-se e que eles mesmos são causados pelos modos da natureza.
A explicação deste aparente paradoxo é a seguinte: Quando a alma condicionada decide associar-se com as qualidades materiais, ela se contamina com essas qualidades. Como se afirma na Gītā (13.22), kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya sad-asad-yoni-janmasu. Por exemplo, na presença de uma mulher sedutora, o homem pode ceder a seus instintos inferiores e tentar desfrutar de uma relação sexual com ela. Em virtude de sua decisão de se associar com as qualidades inferiores da natureza, essas qualidades manifestam-se nele de maneira muito poderosa. Ele é dominado pela luxúria e impelido a tentar repetidas vezes satisfazer seu ardente desejo. Porque sua mente foi infectada pela luxúria, tudo o que ele fizer, pensar e falar será influenciado por seu forte apego ao desejo sexual. Em outras palavras, por escolher associar-se com as qualidades luxuriosas da natureza, ele provocou sua poderosa manifestação dentro de si, e, no final, aquelas mesmas qualidades luxuriosas farão com que ele aceite outro corpo material adequado para as atividades governadas por aquelas qualidades.
As qualidades inferiores, tais como luxúria, cobiça, ira e inveja, são abudha-liṅga-bhāvāḥ, sintomas de ignorância. De fato, como Śrīla Śrīdhara Svāmī indica em seu comentário, a manifestação dos modos da natureza é sinônimo da manifestação de um corpo material em particular. Em toda a literatura védica, explica-se claramente que a alma condicionada recebe um corpo específico, abandona-o e, então, aceita outro, tudo por causa de seu envolvimento com os modos da natureza (kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya). Logo, dizer que alguém está participando nos modos da natureza é dizer que ele está aceitando tipos específicos de corpos adequados às qualidades materiais específicas com que está envolvido.
Um espectador ignorante poderia dar a seguinte interpretação simplista para o passatempo em que Kṛṣṇa ergueu a colina Govardhana: Os residentes de Vṛndāvana eram obrigados pelos princípios védicos a fazer certas oferendas ao deus dos céus, Indra. O menino Kṛṣṇa, ignorando a posição de Indra, usurpou essas oferendas e tomou-as para Seu próprio prazer. Quando Indra tentou punir Kṛṣṇa e Seus companheiros, o Senhor frustrou o esforço de Indra, humildou o mesmo e dissipou seu orgulho e recursos.
Mas esta interpretação superficial é refutada neste verso. Aqui o senhor Indra chama Śrī Kṛṣṇa de bhagavān, indicando que Ele não é uma criança comum, mas, em realidade, Deus. Portanto, o fato de Kṛṣṇa punir Indra fazia parte de Sua missão de proteger os princípios religiosos e subjugar os invejosos; não era uma exibição de ira material ou de cobiça das oferendas destinadas a Indra. Śrī Kṛṣṇa é a existência espiritual pura, e Seu simples e sublime desejo é ocupar todos os seres vivos na vida perfeita e bem-aventurada da consciência de Kṛṣṇa. O desejo de Kṛṣṇa de nos fazer conscientes de Kṛṣṇa não é egotista, pois, em última análise, Kṛṣṇa é tudo e a consciência de Kṛṣṇa é objetivamente a melhor consciência. O senhor Indra é, na verdade, um humilde servo de Kṛṣṇa; fato este que agora ele começa a recordar.
Devanagari
पिता गुरुस्त्वं जगतामधीशोदुरत्यय: काल उपात्तदण्ड: । हिताय चेच्छातनुभि: समीहसेमानं विधुन्वन् जगदीशमानिनाम् ॥ ६ ॥
Verse text
pitā gurus tvaṁ jagatām adhīśo
duratyayaḥ kāla upātta-daṇḍaḥ
hitāya cecchā-tanubhiḥ samīhase
mānaṁ vidhunvan jagad-īśa-māninām
duratyayaḥ kāla upātta-daṇḍaḥ
hitāya cecchā-tanubhiḥ samīhase
mānaṁ vidhunvan jagad-īśa-māninām
Synonyms
pitā — o pai; guruḥ — o mestre espiritual; tvam — Vós; jagatām — do universo inteiro; adhīśaḥ — o controlador supremo; duratyayaḥ — insuperável; kālaḥ — tempo; upātta — infligindo; daṇḍaḥ — castigo; hitāya — para o benefício; ca — e; icchā — assumidas por Vossa livre vontade; tanubhiḥ — por Vossas formas transcendentais; samīhase — Vós Vos esforçais; mānam — o falso orgulho; vidhunvan — erradicando; jagat-īśa — senhores do universo; māninām — daqueles que se julgam.
Translation
Sois o pai e o mestre espiritual deste universo inteiro, e também seu controlador supremo. Sois o tempo insuperável, que inflige castigo aos pecadores para o próprio benefício deles. De fato, sob Vossas várias encarnações, escolhidas por Vossa livre vontade, agis decisivamente a fim de remover o falso orgulho daqueles que se julgam senhores deste mundo.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra hitāya neste verso é significativa. O Senhor Kṛṣṇa protege a religião e castiga os perversos para o benefício do universo inteiro. Falsos sacerdotes, que na verdade são tolos e descrentes, criticam Deus por punir as entidades vivas mediante as ações da natureza. Contudo, quer o Senhor Kṛṣṇa as castigue indiretamente através da natureza, quer diretamente através de Suas encarnações, como aqui se menciona, Ele tem todo o direito de fazê-lo, porque é o pai, mestre espiritual e governante supremo do universo inteiro. Outra maneira através da qual Ele pode encerrar as falsas tentativas das almas condicionadas de estabelecer o reino de Deus sem Deus é por meio de Seu aspecto como o tempo insuperável. Há um ditado: “Poupe a vara e estrague o filho.” Isto é um fato, e, na realidade, é a misericórdia do Senhor que Ele Se dê ao trabalho de retificar nosso mau comportamento, embora os incrédulos critiquem a vigilância paternal do Senhor.
Devanagari
ये मद्विधाज्ञा जगदीशमानिन-स्त्वां वीक्ष्य कालेऽभयमाशु तन्मदम् । हित्वार्यमार्गं प्रभजन्त्यपस्मयाईहा खलानामपि तेऽनुशासनम् ॥ ७ ॥
Verse text
ye mad-vidhājñā jagad-īśa-māninas
tvāṁ vīkṣya kāle ’bhayam āśu tan-madam
hitvārya-mārgaṁ prabhajanty apasmayā
īhā khalānām api te ’nuśāsanam
tvāṁ vīkṣya kāle ’bhayam āśu tan-madam
hitvārya-mārgaṁ prabhajanty apasmayā
īhā khalānām api te ’nuśāsanam
Synonyms
ye — aqueles que; mat-vidha — como eu; ajñāḥ — tolos; jagat-īśa — como senhores do universo; māninaḥ — identificando-se erroneamente; tvām — a Vós; vīkṣya — vendo; kāle — em tempo (de medo); abhayam — destemido; āśu — logo; tat — deles; madam — falso orgulho; hitvā — abandonando; ārya — de devotos que progridem na vida espiritual; mārgam — o caminho; prabhajanti — adotam plenamente; apa-smayāḥ — livres do orgulho; īhā — a atividade; khalānām — dos perversos; api — de fato; te — por Vós; anuśāsanam — a instrução.
Translation
Ao verem que Vós não mostrais temor nem mesmo em face do tempo, até mesmo tolos como eu, que por orgulho se julgam senhores do universo, logo abandonam sua presunção e adotam diretamente o caminho dos que estão progredindo na vida espiritual. Dessa forma, punis os canalhas apenas para instruí-los.
Purport
SIGNIFICADO—A história está repleta de exemplos em que a autoridade suprema destrói o orgulho de homens tolos. Os líderes mundiais modernos lutam orgulhosamente entre si, pondo a população comum em um estado de perigo sem precedentes. Da mesma forma, Indra, orgulhoso de sua posição de aparente prestígio, ousou ameaçar as vidas dos inocentes moradores de Vṛndāvana com armas terríveis, até que sua arrogância foi refreada pela resposta dinâmica do Senhor Supremo.
Hoje em dia, os governos dos países ocidentais tendem a ser eleitos democraticamente, de modo que a massa popular se identifica com o destino de seus líderes. Quando os líderes orgulhosos se entregam à violência, o povo que os elegeu arca com o peso de tais decisões belicosas. Portanto, os povos das nações democráticas do mundo devem eleger líderes conscientes de Kṛṣṇa, que estabelecerão uma administração consoante com as leis de Deus. Se não fizerem isso, seus líderes materialistas, esquecidos da vontade do Senhor Supremo, serão sem dúvida castigados por eventos cataclísmicos, e a população que elegeu semelhantes líderes, sendo responsável pelos atos deles, compartilharão do sofrimento.
É irônico que, nas democracias modernas, não só os líderes se consideram controladores universais, mas a massa popular, julgando serem os líderes meros representantes dela, em vez de representantes de Deus, também se considera, como povo, controladora de sua nação. Logo, o castigo mencionado neste verso se tornou aplicável, de modo sem precedentes, às pessoas em geral no mundo moderno.
O homem atual não deve simplesmente servir de lição da natureza, tendo que cair de sua orgulhosa posição; ele deve, antes, executar com submissão a vontade da todo-atrativa Personalidade de Deus, a Verdade Absoluta, Śrī Kṛṣṇa, e introduzir uma nova era de sanidade, tranquilidade e iluminação generalizada.
Devanagari
स त्वं ममैश्वर्यमदप्लुतस्यकृतागसस्तेऽविदुष: प्रभावम् । क्षन्तुं प्रभोऽथार्हसि मूढचेतसोमैवं पुनर्भून्मतिरीश मेऽसती ॥ ८ ॥
Verse text
sa tvaṁ mamaiśvarya-mada-plutasya
kṛtāgasas te ’viduṣaḥ prabhāvam
kṣantuṁ prabho ’thārhasi mūḍha-cetaso
maivaṁ punar bhūn matir īśa me ’satī
kṛtāgasas te ’viduṣaḥ prabhāvam
kṣantuṁ prabho ’thārhasi mūḍha-cetaso
maivaṁ punar bhūn matir īśa me ’satī
Synonyms
saḥ — Ele; tvam — Vós; mama — meu; aiśvarya — do governo; mada — na embriaguez; plutasya — que está submerso; kṛta — tendo cometido; āgasaḥ — ofensa pecaminosa; te — Vossa; aviduṣaḥ — desconhecendo; prabhāvam — a influência transcendental; kṣantum — perdoar; prabho — ó senhor; atha — portanto; arhasi — deveis; mūḍha — tola; cetasaḥ — cuja inteligência; mā — nunca; evam — assim; punaḥ — de novo; bhūt — que seja; matiḥ — consciência; īśa — ó Senhor; me — minha; asatī — impura.
Translation
Absorto no orgulho decorrente de meu poder regente, ignorante de Vossa majestade, ofendi-Vos. Ó Senhor, por favor, perdoai-me. Minha inteligência estava confusa, mas que minha consciência não volte a ser tão impura.
Purport
SIGNIFICADO—Embora tivesse protegido os habitantes de Vraja erguendo a colina Govardhana, o Senhor Kṛṣṇa ainda não castigara o próprio Indra, e este temia que, a qualquer momento, Śrī Kṛṣṇa chamasse o filho de Vivasvān, Yamarāja, que pune os impudentes que desafiam as leis de Deus.
Indra estava bastante amedrontado e, por isso, suplicou o perdão do Senhor sob o pretexto de que só poderia se purificar mediante a misericórdia de Kṛṣṇa – já que ele era teimoso demais para aprender uma lição através de mera punição.
De fato, apesar da humildade de Indra neste caso, seu coração ainda não se purificou por completo. Mais adiante neste canto, veremos que, quando o Senhor Kṛṣṇa certa vez pegou uma flor pārijāta do reino de Indra, o pobre Indra voltou a reagir com violência contra a Suprema Personalidade de Deus. Logo, devemos aspirar a regressar a nosso lar eterno no reino de Kṛṣṇa e não devemos nos enredar na vida imperfeita dos deuses mundanos.
Devanagari
तवावतारोऽयमधोक्षजेहभुवो भराणामुरुभारजन्मनाम् । चमूपतीनामभवाय देवभवाय युष्मच्चरणानुवर्तिनाम् ॥ ९ ॥
Verse text
tavāvatāro ’yam adhokṣajeha
bhuvo bharāṇām uru-bhāra-janmanām
camū-patīnām abhavāya deva
bhavāya yuṣmac-caraṇānuvartinām
bhuvo bharāṇām uru-bhāra-janmanām
camū-patīnām abhavāya deva
bhavāya yuṣmac-caraṇānuvartinām
Synonyms
tava — Vosso; avatāraḥ — advento; ayam — este; adhokṣaja — ó Senhor transcendental; iha — a este mundo; bhuvaḥ — para a Terra; bharāṇām — que constituem um grande fardo; uru-bhāra — muitas perturbações; janmanām — que deram origem a; camū-patīnām — dos líderes militares; abhavāya — para a destruição; deva — ó Suprema Personalidade de Deus; bhavāya — para o benefício auspicioso; yuṣmat — Vossos; caraṇa — pés de lótus; anuvartinām — daqueles que servem.
Translation
Fazeis Vosso advento neste mundo, ó Senhor transcendental, para destruir os soberanos belicosos que sobrecarregam a Terra e criam muitas perturbações terríveis. Ó Senhor, ao mesmo tempo agis em benefício daqueles que fielmente servem Vossos pés de lótus.
Purport
SIGNIFICADO—Este verso utiliza um atraente recurso poético. Ele declara que o advento do Senhor Kṛṣṇa ao mundo é com o fim de abhava, literalmente “não existência” ou “destruição’, dos demoníacos soberanos belicosos e, ao mesmo tempo, com o fim de bhava, ou “existência, prosperidade”, daqueles que fielmente servem aos pés de lótus do Senhor.
A verdadeira existência, indicada aqui pela palavra bhava, é sac-cid-ānanda, eterna e plena de bem-aventurança e conhecimento. Para um observador desinformado, talvez pareça que Śrī Kṛṣṇa está apenas recompensando Seus seguidores e punindo Seus inimigos do mesmo modo que uma pessoa comum faria. Esta dúvida específica sobre o Senhor é abordada extensamente no sexto canto em relação com o fato de Kṛṣṇa tomar o lado dos semideuses fiéis contra os incrédulos demônios em uma determinada guerra cósmica. Naquele canto, as autoridades vaiṣṇavas deixam bem claro que, na verdade, o Senhor Kṛṣṇa é o pai e o Senhor de todos os seres vivos e que todas as Suas atividades se destinam, portanto, ao benefício de toda a existência. O Senhor Kṛṣṇa realmente não causa a inexistência de ninguém, senão que Ele refreia as atitudes materiais tolas e destrutivas daqueles que desafiam as leis de Deus. Essas leis são criadas para garantir a prosperidade, harmonia e felicidade da criação inteira, e sua violação é um distúrbio injustificável.
Com certeza, Indra tinha esperança de que o Senhor Kṛṣṇa o contasse entre os devotos e não entre os demônios, embora, a considerar pelas ações de Indra, seria possível duvidar de sua lealdade. Indra era ciente dessa possível dúvida e, por isso, como vemos no próximo verso, fez o melhor que pôde para render-se ao Senhor Supremo.
Devanagari
नमस्तुभ्यं भगवते पुरुषाय महात्मने । वासुदेवाय कृष्णाय सात्वतां पतये नम: ॥ १० ॥
Verse text
namas tubhyaṁ bhagavate
puruṣāya mahātmane
vāsudevāya kṛṣṇāya
sātvatāṁ pataye namaḥ
puruṣāya mahātmane
vāsudevāya kṛṣṇāya
sātvatāṁ pataye namaḥ
Synonyms
namaḥ — reverências; tubhyam — a Vós; bhagavate — a Suprema Personalidade de Deus; puruṣāya — o Senhor que mora dentro dos corações de todos; mahā-ātmane — a grande Alma; vāsudevāya — a Ele que reside em toda parte; kṛṣṇāya — Śrī Kṛṣṇa; sātvatām — da dinastia Yadu; pataye — ao senhor; namaḥ — reverências.
Translation
Reverências a Vós, a Suprema Personalidade de Deus, a grande Alma, que sois onipenetrante e que residis nos corações de todos. Minhas reverências a Vós, Kṛṣṇa, o líder da dinastia Yadu.
Devanagari
स्वच्छन्दोपात्तदेहाय विशुद्धज्ञानमूर्तये । सर्वस्मै सर्वबीजाय सर्वभूतात्मने नम: ॥ ११ ॥
Verse text
svacchandopātta-dehāya
viśuddha-jñāna-mūrtaye
sarvasmai sarva-bījāya
sarva-bhūtātmane namaḥ
viśuddha-jñāna-mūrtaye
sarvasmai sarva-bījāya
sarva-bhūtātmane namaḥ
Synonyms
sva — de Seus próprios (devotos); chanda — conforme o desejo; upātta — que assume; dehāya — Seus corpos transcendentais; viśuddha — perfeitamente puro; jñāna — conhecimento; mūrtaye — cuja forma; sarvasmai — a Ele que é tudo; sarva-bījāya — que é a semente de tudo; sarva-bhūta — de todos os seres criados; ātmane — que é a Alma imanente; namaḥ — reverências.
Translation
A Ele que assume corpos transcendentais segundo os desejos de Seus devotos, a Ele cuja forma é a própria consciência pura, a Ele que é tudo, que é a semente de tudo e que é a Alma de todas as criaturas, ofereço minhas reverências.
Purport
SIGNIFICADO—Dificilmente poderíamos deduzir a partir da primeira linha deste verso que Deus é de algum modo impessoal, mas assume um corpo material pessoal. Aqui se diz claramente que o Senhor assume diferentes formas segundo svacchanda – segundo Seu próprio desejo ou segundo os desejos de Seus devotos. Um Deus impessoal dificilmente poderia corresponder aos desejos pessoais de Seus devotos, tampouco poderia, sendo um Deus impessoal, ter desejos, já que o desejo é característico da personalidade. Portanto, o fato de o Senhor manifestar diferentes formas de maneira pessoal, em resposta a desejos pessoais, indica que Ele é uma pessoa eternamente e manifesta Seus diferentes corpos transcendentais como expressão de Sua própria natureza eterna.
A expressão viśuddha-jñāna-mūrtaye é muito significativa. Mūrti indica a forma da Deidade, e aqui se afirma especificamente que a forma do Senhor é ela mesma consciência cem por cento pura. A consciência é o elemento espiritual primário, distinto de qualquer outro elemento material e distinto até mesmo dos elementos materiais sutis ou psicológicos – mente, inteligência e falso ego mundanos – que não passam de coberturas psíquicas da consciência pura. Visto que a forma do Senhor é constituída de consciência pura, dificilmente alguém julgará que ela é um corpo material como os sacos mortais de carne e ossos que carregamos neste mundo.
Nas duas últimas linhas deste verso, há ênfase poética sobre a palavra sarva, “tudo”. O Senhor é tudo: Ele é a semente de tudo e a Alma de toda criatura. Portanto, juntemo-nos a Indra para oferecer nossas reverências ao Senhor.
Devanagari
मयेदं भगवन् गोष्ठनाशायासारवायुभि: । चेष्टितं विहते यज्ञे मानिना तीव्रमन्युना ॥ १२ ॥
Verse text
mayedaṁ bhagavan goṣṭha-
nāśāyāsāra-vāyubhiḥ
ceṣṭitaṁ vihate yajñe
māninā tīvra-manyunā
nāśāyāsāra-vāyubhiḥ
ceṣṭitaṁ vihate yajñe
māninā tīvra-manyunā
Synonyms
mayā — por mim; idam — isto; bhagavan — ó Senhor; goṣṭha — de Vossa comunidade de vaqueiros; nāśāya — para a destruição; āsāra — por fortes chuvas; vāyubhiḥ — e vento; ceṣṭitam — executado; vihate — quando foi interrompido; yajñe — meu sacrifício; māninā — (por mim) que era falsamente orgulhoso; tīvra — terrível; manyunā — cuja ira.
Translation
Meu querido Senhor, quando meu sacrifício foi interrompido, eu me vi tomado de uma terrível ira em razão do falso orgulho. Então, tentei destruir Vossa comunidade de vaqueiros com chuva e ventos severos.
Devanagari
त्वयेशानुगृहीतोऽस्मि ध्वस्तस्तम्भो वृथोद्यम: । ईश्वरं गुरुमात्मानं त्वामहं शरणं गत: ॥ १३ ॥
Verse text
tvayeśānugṛhīto ’smi
dhvasta-stambho vṛthodyamaḥ
īśvaraṁ gurum ātmānaṁ
tvām ahaṁ śaraṇaṁ gataḥ
dhvasta-stambho vṛthodyamaḥ
īśvaraṁ gurum ātmānaṁ
tvām ahaṁ śaraṇaṁ gataḥ
Synonyms
tvayā — por Vós; īśa — ó Senhor; anugṛhītaḥ — mostrada misericórdia; asmi — sou; dhvasta — despedaçado; stambhaḥ — meu falso orgulho; vṛthā — infrutífero; udyamaḥ — meu esforço; īśvaram — o Senhor Supremo; gurum — o mestre espiritual; ātmānam — o verdadeiro Eu; tvām — a Vós; aham — eu; śaraṇam — em busca do refúgio; gataḥ — vim.
Translation
Ó Senhor, mostraste misericórdia para comigo ao despedaçar meu falso orgulho e derrotar minha tentativa [de punir Vṛndāvana]. A Vós, o Senhor Supremo, mestre espiritual e Alma Suprema, agora vim em busca de refúgio.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
एवं सङ्कीर्तित: कृष्णो मघोना भगवानमुम् । मेघगम्भीरया वाचा प्रहसन्निदमब्रवीत् ॥ १४ ॥
एवं सङ्कीर्तित: कृष्णो मघोना भगवानमुम् । मेघगम्भीरया वाचा प्रहसन्निदमब्रवीत् ॥ १४ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
evaṁ saṅkīrtitaḥ kṛṣṇo
maghonā bhagavān amum
megha-gambhīrayā vācā
prahasann idam abravīt
evaṁ saṅkīrtitaḥ kṛṣṇo
maghonā bhagavān amum
megha-gambhīrayā vācā
prahasann idam abravīt
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; evam — dessa maneira; saṅkīrtitaḥ — glorificado; kṛṣṇaḥ — o Senhor Kṛṣṇa; maghonā — por Indra; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; amum — a ele; megha — como as nuvens; gambhīrayā — graves; vācā — com palavras; prahasan — sorrindo; idam — o seguinte; abravīt — disse.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Glorificado dessa maneira por Indra, o Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, sorriu e, então, com uma voz ressoante como as nuvens, disse-lhe o seguinte.
Purport
SIGNIFICADO—Embora neste passatempo Kṛṣṇa parecesse um menininho, as palavras megha-gambhīrayā vācā indicam que Ele falou com Indra com a voz profunda e ressoante do Senhor Supremo.
Devanagari
श्रीभगवानुवाच
मया तेऽकारि मघवन् मखभङ्गोऽनुगृह्णता । मदनुस्मृतये नित्यं मत्तस्येन्द्र श्रिया भृशम् ॥ १५ ॥
मया तेऽकारि मघवन् मखभङ्गोऽनुगृह्णता । मदनुस्मृतये नित्यं मत्तस्येन्द्र श्रिया भृशम् ॥ १५ ॥
Verse text
śrī-bhagavān uvāca
mayā te ’kāri maghavan
makha-bhaṅgo ’nugṛhṇatā
mad-anusmṛtaye nityaṁ
mattasyendra-śriyā bhṛśam
mayā te ’kāri maghavan
makha-bhaṅgo ’nugṛhṇatā
mad-anusmṛtaye nityaṁ
mattasyendra-śriyā bhṛśam
Synonyms
śrī-bhagavān uvāca — a Suprema Personalidade de Deus disse; mayā — por Mim; te — a ti; akāri — foi feito; maghavan — Meu querido Indra; makha — de teu sacrifício; bhaṅgaḥ — a cessação; anugṛhṇatā — agindo para te mostrar misericórdia; mat-anusmṛtaye — objetivando a lembrança de Mim; nityam — constante; mattasya — de alguém inebriado; indra-śriyā — com a opulência de Indra; bhṛśam — grandemente.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Indra, foi por misericórdia que encerrei o sacrifício destinado a ti. Estavas demais inebriado com tua opulência proveniente de seres o rei dos céus, e Eu queria que te lembrasses sempre de Mim.
Purport
SIGNIFICADO—De acordo com Śrīdhara Svāmī, Indra e o Senhor Kṛṣṇa têm uma conversa muito franca, de coração para coração. Indra revelou sua mente ao Senhor, e agora o Senhor Kṛṣṇa também revela Sua própria intenção.
No verso onze deste capítulo, Indra declarou com toda a ênfase que, de fato, o Senhor Kṛṣṇa é tudo; logo, de acordo com os próprios critérios de Indra, esquecer o Senhor Kṛṣṇa é um evidente estado de insanidade. Ao fazer-nos relembrar de Sua existência suprema, o Senhor Supremo não está difundindo uma propaganda orgulhosa sobre Si mesmo tal qual um político ou artista mundanos. O Senhor é satisfeito conSigo mesmo em Sua própria existência infinita e está tentando amorosamente levar-nos de volta à nossa existência perfeita como Seus companheiros eternos.
Do ponto de vista de Deus, até mesmo o poderoso rei dos céus, Indra, é uma mera criança – e, em verdade, uma criança travessa –, daí o Senhor, sendo um pai atencioso, ter castigado Seu filho e o levado de volta à sanidade da consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
मामैश्वर्यश्रीमदान्धो दण्डपाणिं न पश्यति । तं भ्रंशयामि सम्पद्भ्यो यस्य चेच्छाम्यनुग्रहम् ॥ १६ ॥
Verse text
mām aiśvarya-śrī-madāndho
daṇḍa pāṇiṁ na paśyati
taṁ bhraṁśayāmi sampadbhyo
yasya cecchāmy anugraham
daṇḍa pāṇiṁ na paśyati
taṁ bhraṁśayāmi sampadbhyo
yasya cecchāmy anugraham
Synonyms
mām — a Mim; aiśvarya — de seu poder; śrī — e opulência; mada — pelo inebriamento; andhaḥ — tornado cego; daṇḍa — com a vara do castigo; pāṇim — em Minha mão; na paśyati — não vê; tam — a ele; bhraṁśayāmi — faço cair; sampadbhyaḥ — de seus bens materiais; yasya — para quem; ca — e; icchāmi — Eu desejo; anugraham — benefício.
Translation
Um homem cego pelo inebriamento decorrente de seu poder e opulência não consegue Me ver a seu lado com a vara do castigo na mão. Se desejo Seu verdadeiro bem-estar, Eu o arrasto de sua posição materialmente afortunada.
Purport
SIGNIFICADO—Talvez alguém argumente: “Deus deve desejar o verdadeiro bem-estar de todos; portanto, por que o Senhor Kṛṣṇa deveria afirmar neste verso que Ele tira a opulência inebriante de alguém que está para receber Sua misericórdia, em vez de apenas dizer que Ele retirará a opulência de todos e abençoará a todos?” Por outro lado, podemos salientar que a morte irrevogável acontece para todos, e, portanto, o Senhor Kṛṣṇa realmente leva embora a opulência de todos e o falso orgulho de todos. Contudo, se aplicamos a declaração do Senhor Kṛṣṇa a acontecimentos dentro da vida imediata de alguém, antes da morte, podemos nos referir à afirmação de Kṛṣṇa na Bhagavad-gītā (4.11): ye yathā māṁ prapadyante tāṁs tathaiva bhajāmy aham. “À proporção que as pessoas se rendem a Mim, Eu as recompenso de acordo.” O Senhor Kṛṣṇa deseja o bem-estar de todos, mas, quando Ele diz neste verso que yasya cecchāmy anugraham, “para alguém cujo bem-estar Eu desejo”, compreende-se que o Senhor faz referência àqueles que, por suas próprias atividades e pensamentos, manifestaram o desejo de alcançar o benefício espiritual. O Senhor Kṛṣṇa quer que todos sejam felizes em consciência de Kṛṣṇa, mas, quando vê que uma pessoa específica também deseja a felicidade espiritual, o Senhor manifesta o desejo especial de concedê-la àquela pessoa. Este é um ato natural de reciprocidade compatível com a declaração do Senhor samo ’haṁ sarva-bhūteṣu: “Sou igual em Minha atitude para com todos os seres vivos.” (Bhagavad-gītā 9.29)
Devanagari
गम्यतां शक्र भद्रं व: क्रियतां मेऽनुशासनम् । स्थीयतां स्वाधिकारेषु युक्तैर्व: स्तम्भवर्जितै: ॥ १७ ॥
Verse text
gamyatāṁ śakra bhadraṁ vaḥ
kriyatāṁ me ’nuśāsanam
sthīyatāṁ svādhikāreṣu
yuktair vaḥ stambha-varjitaiḥ
kriyatāṁ me ’nuśāsanam
sthīyatāṁ svādhikāreṣu
yuktair vaḥ stambha-varjitaiḥ
Synonyms
gamyatām — podeis ir; śakra — ó Indra; bhadram — boa fortuna; vaḥ — para vós; kriyatām — deveis executar; me — Minha; anuśāsanam — ordem; sthīyatām — podeis permanecer; sva — em vossas próprias; adhikāreṣu — responsabilidades; yuktaiḥ — ocupados com sobriedade; vaḥ — vós; stambha — falso orgulho; varjitaiḥ — desprovidos de.
Translation
Indra, podeis ir agora. Executai Minha ordem e permanecei em vossa posição prescrita de rei dos céus. Mas sede sóbrio e livre de falso orgulho.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, o Senhor Kṛṣṇa Se dirige a Indra usando o plural (vaḥ) porque esta séria instrução se destinava a ser uma lição para todos os semideuses.
Devanagari
अथाह सुरभि: कृष्णमभिवन्द्यमनस्विनी । स्वसन्तानैरुपामन्त्र्य गोपरूपिणमीश्वरम् ॥ १८ ॥
Verse text
athāha surabhiḥ kṛṣṇam
abhivandya manasvinī
sva-santānair upāmantrya
gopa-rūpiṇam īśvaram
abhivandya manasvinī
sva-santānair upāmantrya
gopa-rūpiṇam īśvaram
Synonyms
atha — então; āha — falou; surabhiḥ — a mãe das vacas, Surabhi; kṛṣṇam — a Kṛṣṇa; abhivandya — oferecendo respeitos; manasvinī — de mente tranquila; sva-santānaiḥ — junto de sua prole, as vacas; upāmantrya — rogando Sua atenção; gopa-rūpiṇam — que aparecia sob a forma de um vaqueirinho; īśvaram — o Senhor Supremo.
Translation
Mãe Surabhi, junto de sua prole, as vacas, então ofereceu suas reverências ao Senhor Kṛṣṇa. Respeitosamente solicitando Sua atenção, a gentil senhora se dirigiu à Suprema Personalidade de Deus, que estava presente diante dela como um vaqueirinho.
Purport
SIGNIFICADO—Nesta passagem, a afirmação de que a vaca celestial Surabhi aproximou-se do Senhor Kṛṣṇa junto de sua prole (sva-santānaiḥ) é uma referência às vacas transcendentais que brincam com o Senhor Kṛṣṇa em Vṛndāvana. Embora as vacas do Senhor Kṛṣṇa sejam transcendentais, a vaca celestial Surabhi as enxergava com afeto, como aliás o próprio Senhor Kṛṣṇa as enxergava, como aparentadas a ela. Dado que o Senhor Kṛṣṇa apresentava-Se sob a forma de um vaqueirinho, a situação toda era bastante adequada, e a Surabhi aproveitou a oportunidade para oferecer as seguintes orações.
Devanagari
सुरभिरुवाच
कृष्ण कृष्ण महायोगिन् विश्वात्मन् विश्वसम्भव । भवता लोकनाथेन सनाथा वयमच्युत ॥ १९ ॥
कृष्ण कृष्ण महायोगिन् विश्वात्मन् विश्वसम्भव । भवता लोकनाथेन सनाथा वयमच्युत ॥ १९ ॥
Verse text
surabhir uvāca
kṛṣṇa kṛṣṇa mahā-yogin
viśvātman viśva-sambhava
bhavatā loka-nāthena
sa-nāthā vayam acyuta
kṛṣṇa kṛṣṇa mahā-yogin
viśvātman viśva-sambhava
bhavatā loka-nāthena
sa-nāthā vayam acyuta
Synonyms
Translation
Mãe Surabhi disse: Ó Kṛṣṇa, Kṛṣṇa, maior dos místicos! Ó Alma e origem do universo! Sois o mestre do mundo, e, por Vossa graça, ó Senhor infalível, nós Vos temos como nosso mestre.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura salienta a respeito deste verso que mãe Surabhi está sentindo grande êxtase ao repetir as palavras “Kṛṣṇa, Kṛṣṇa”. Kṛṣṇa ergueu a colina Govardhana por meio de Seu poder místico e, assim, protegeu as vacas de Vṛndāvana, ao passo que seu suposto mestre, Indra, tentara matá-las. Surabhi, por conseguinte, agora compreende claramente que não são os semideuses, mas sim o Deus Supremo, o próprio Kṛṣṇa, que é para sempre o seu verdadeiro mestre.
Devanagari
त्वं न: परमकं दैवं त्वं न इन्द्रो जगत्पते । भवाय भव गोविप्रदेवानां ये च साधव: ॥ २० ॥
Verse text
tvaṁ naḥ paramakaṁ daivaṁ
tvaṁ na indro jagat-pate
bhavāya bhava go-vipra
devānāṁ ye ca sādhavaḥ
tvaṁ na indro jagat-pate
bhavāya bhava go-vipra
devānāṁ ye ca sādhavaḥ
Synonyms
tvam — Vós; naḥ — nossa; paramakam — suprema; daivam — Deidade adorável; tvam — Vós; naḥ — nosso; indraḥ — senhor Indra; jagat-pate — ó Senhor do universo; bhavāya — para o bem-estar; bhava — sede, por favor; go — as vacas; vipra — dos brāhmaṇas; devānām — e dos semideuses; ye — que; ca — e; sādhavaḥ — das pessoas santas.
Translation
Sois nossa Deidade adorável. Portanto, ó Senhor do universo, para o benefício das vacas, dos brāhmaṇas, dos semideuses e de todas as outras pessoas santas, por favor, tornai-Vos nosso Indra.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor Supremo é autossuficiente: Ele pode fazer tudo sozinho. O Senhor nomeou um de Seus inúmeros filhos para a posição de Indra, o senhor do céu cósmico. Mas Indra abusou de sua autoridade, e agora Surabhi solicita ao Senhor Kṛṣṇa, a Verdade Absoluta, que Se torne diretamente seu amo, seu Indra. Devemos cumprir nossos deveres com atenção e sem falso orgulho; dessa maneira, não nos tornaremos obsoletos e embaraçados, como no presente caso do rei Indra, que de fato atacou o Senhor Kṛṣṇa e Seus devotos de Vṛndāvana.
Devanagari
इन्द्रं नस्त्वाभिषेक्ष्यामो ब्रह्मणा चोदिता वयम् । अवतीर्णोऽसि विश्वात्मन् भूमेर्भारापनुत्तये ॥ २१ ॥
Verse text
indraṁ nas tvābhiṣekṣyāmo
brahmaṇā coditā vayam
avatīrṇo ’si viśvātman
bhūmer bhārāpanuttaye
brahmaṇā coditā vayam
avatīrṇo ’si viśvātman
bhūmer bhārāpanuttaye
Synonyms
indram — como Indra; naḥ — nosso; tvā — para Vós; abhiṣekṣyāmaḥ — executaremos a cerimônia de ablução para coroar; brahmaṇā — pelo senhor Brahmā; coditāḥ — ordenados; vayam — nós; avatīrṇaḥ asi — descendestes; viśva-ātman — ó Alma do universo; bhūmeḥ — da Terra; bhāra — o fardo; apanuttaye — para aliviar.
Translation
Conforme foi ordenado pelo senhor Brahmā, realizaremos Vossa cerimônia de ablução para coroar-Vos como Indra. Ó Alma do universo, fazeis Vosso advento neste mundo a fim de aliviar o fardo da Terra.
Purport
SIGNIFICADO—Surabhi deixa bem claro neste verso que está farta da liderança de semideuses imperfeitos como Purandara (Indra), e agora está determinada a servir diretamente ao Senhor Supremo. Visto que Brahmā lhe ordenou, sua tentativa de coroar o Senhor Kṛṣṇa como seu Senhor pessoal é abonada por uma autoridade superior. Além disso, o próprio Senhor Kṛṣṇa desce à Terra para aliviá-la do fardo da autodestrutiva administração mundana; portanto, é perfeitamente compatível com o propósito do Senhor que Ele Se torne o Senhor de Surabhi. Já que governa milhões de universos, o Senhor pode muito bem cuidar de mãe Surabhi.
De fato, Surabhi queria banhar o Senhor para a própria purificação dela e, devido a isso, apresenta seu ardente anseio a Viśvātmā, a Alma do universo, Śrī Kṛṣṇa.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
एवं कृष्णमुपामन्त्र्य सुरभि: पयसात्मन: । जलैराकाशगङ्गाया ऐरावतकरोद्धृतै: ॥ २२ ॥ इन्द्र: सुरर्षिभि: साकं चोदितो देवमातृभि: । अभ्यसिञ्चत दाशार्हं गोविन्द इति चाभ्यधात् ॥ २३ ॥
एवं कृष्णमुपामन्त्र्य सुरभि: पयसात्मन: । जलैराकाशगङ्गाया ऐरावतकरोद्धृतै: ॥ २२ ॥ इन्द्र: सुरर्षिभि: साकं चोदितो देवमातृभि: । अभ्यसिञ्चत दाशार्हं गोविन्द इति चाभ्यधात् ॥ २३ ॥
Verse text
śṛī-śuka uvāca
evaṁ kṛṣṇam upāmantrya
surabhiḥ payasātmanaḥ
jalair ākāśa-gaṅgāyā
airāvata-karoddhṛtaiḥ
evaṁ kṛṣṇam upāmantrya
surabhiḥ payasātmanaḥ
jalair ākāśa-gaṅgāyā
airāvata-karoddhṛtaiḥ
indraḥ surarṣibhiḥ sākaṁ
codito deva-mātṛbhiḥ
abhyasiñcata dāśārhaṁ
govinda iti cābhyadhāt
codito deva-mātṛbhiḥ
abhyasiñcata dāśārhaṁ
govinda iti cābhyadhāt
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; evam — assim; kṛṣṇam — ao Senhor Kṛṣṇa; upāmantrya — solicitando; surabhiḥ — mãe Surabhi; payasā — com leite; ātmanaḥ — dela mesma; jalaiḥ — com água; ākāśa-gaṅgāyāḥ — do Ganges que corre pela região celestial (conhecido como Mandākinī); airāvata — do transportador de Indra, o elefante Airāvata; kara — pela tromba; uddhṛtaiḥ — trazida; indraḥ — o senhor Indra; sura — pelos semideuses; ṛṣibhiḥ — e os grandes sábios; sākam — acompanhado; coditaḥ — inspirado; deva — dos semideuses; mātṛbhiḥ — pelas mães (lideradas por Aditi); abhyasiñcata — banhou; dāśārham — o Senhor Kṛṣṇa, o descendente do rei Daśārha; govindaḥ iti — de Govinda; ca — e; abhyadhāt — chamou o Senhor.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Tendo apelado desse modo ao Senhor Kṛṣṇa, mãe Surabhi executou Sua cerimônia de ablução com o próprio leite dela, e Indra, por ordem de Aditi e outras mães dos semideuses, ungiu o Senhor com água do Gaṅgā celestial trazida na tromba de Airāvata, o elefante que transporta Indra. Então, na companhia dos semideuses e grandes sábios, Indra coroou o Senhor Kṛṣṇa, o descendente de Daśārha, e deu-Lhe o nome de Govinda.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo os ācāryas, por estar embaraçado devido ao disparate que cometera ao atacar Vṛndāvana, Indra relutava em adorar o Senhor. Portanto, as mães celestiais, tais como Aditi, encorajaram-no a adiantar-se e adorar o Senhor. Sentindo-se autorizado pelo estímulo de semideuses menos ofensivos que ele, Indra então banhou o Senhor. Indra descobriu que o belo vaqueirinho chamado Kṛṣṇa é de fato a Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
तत्रागतास्तुम्बुरुनारदादयोगन्धर्वविद्याधरसिद्धचारणा: । जगुर्यशो लोकमलापहं हरे:सुराङ्गना: सन्ननृतुर्मुदान्विता: ॥ २४ ॥
Verse text
tatrāgatās tumburu-nāradādayo
gandharva-vidyādhara-siddha-cāraṇāḥ
jagur yaśo loka-malāpahaṁ hareḥ
surāṅganāḥ sannanṛtur mudānvitāḥ
gandharva-vidyādhara-siddha-cāraṇāḥ
jagur yaśo loka-malāpahaṁ hareḥ
surāṅganāḥ sannanṛtur mudānvitāḥ
Synonyms
tatra — àquele lugar; āgatāḥ — chegando; tumburu — o Gandharva chamado Tumburu; nārada — Nārada Muni; ādayaḥ — e outros semideuses; gandharva-vidyādhara-siddha-cāraṇāḥ — os Gandharvas, Vidyādharas, Siddhas e Cāraṇas; jaguḥ — cantaram; yaśaḥ — as glórias; loka — do mundo inteiro; mala — a contaminação; apaham — que erradica; hareḥ — do Senhor Hari; sura — dos semideuses; aṅganāḥ — as esposas; sannanṛtuḥ — dançaram juntas; mudā anvitāḥ — cheias de alegria.
Translation
Tumburu, Nārada e outros Gandharvas, juntamente com Vidyādharas, Siddhas e Cāraṇas, foram ali para cantar as glórias do Senhor Hari, as quais purificam o mundo inteiro. E as esposas dos semideuses, cheias de alegria, dançaram juntas em honra ao Senhor.
Devanagari
तं तुष्टुवुर्देवनिकायकेतवोह्यवाकिरंश्चाद्भुतपुष्पवृष्टिभि: । लोका: परां निर्वृतिमाप्नुवंस्त्रयोगावस्तदा गामनयन् पयोद्रुताम् ॥ २५ ॥
Verse text
taṁ tuṣṭuvur deva-nikāya-ketavo
hy avākiraṁś cādbhuta-puṣpa-vṛṣṭibhiḥ
lokāḥ parāṁ nirvṛtim āpnuvaṁs trayo
gāvas tadā gām anayan payo-drutām
hy avākiraṁś cādbhuta-puṣpa-vṛṣṭibhiḥ
lokāḥ parāṁ nirvṛtim āpnuvaṁs trayo
gāvas tadā gām anayan payo-drutām
Synonyms
tam — a Ele; tuṣṭuvuḥ — louvaram; deva-nikāya — de todos os semideuses; ketavaḥ — os mais eminentes; hi — de fato; avākiran — eles O cobriram; ca — e; adbhuta — surpreendentes; puṣpa — de flores; vṛṣṭibhiḥ — com chuvas; lokāḥ — os mundos; parām — suprema; nirvṛtim — satisfação; āpnuvan — experimentaram; trayaḥ — os três; gāvaḥ — as vacas; tadā — então; gām — a terra; anayan — levou; payaḥ — com seu leite; drutām — à saturação.
Translation
Os mais eminentes semideuses cantaram os louvores do Senhor e derramaram maravilhosas chuvas de flores ao redor dEle. Todos os três mundos sentiram suprema satisfação, e as vacas encharcaram a superfície da terra com seu leite.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra ketavaḥ significa, literalmente, “estandartes”. Os principais semideuses são os emblemas, ou estandartes, da raça dos semideuses e, por isso, assumiram a posição dianteira de glorificar o Senhor e cobri-lO com uma admirável chuva de flores fragrantes e multicoloridas.
Devanagari
नानारसौघा: सरितो वृक्षा आसन् मधुस्रवा: । अकृष्टपच्यौषधयो गिरयोऽबिभ्रनुन्मणीन् ॥ २६ ॥
Verse text
nānā-rasaughāḥ sarito
vṛkṣā āsan madhu-sravāḥ
akṛṣṭa-pacyauṣadhayo
girayo ’bibhran un maṇīn
vṛkṣā āsan madhu-sravāḥ
akṛṣṭa-pacyauṣadhayo
girayo ’bibhran un maṇīn
Synonyms
nānā — vários; rasa — líquidos; oghāḥ — inundando; saritaḥ — os rios; vṛkṣāḥ — as árvores; āsan — tornaram-se; madhu — com seiva doce; sravāḥ — fluindo; akṛṣṭa — mesmo sem cultivo; pacya — amadurecidas; oṣadhayaḥ — as plantas; girayaḥ — as montanhas; abibhran — traziam; ut — sobre a superfície; maṇīn — joias.
Translation
Os rios fluíam com várias espécies de líquidos saborosos, as árvores manavam mel, as plantas comestíveis amadureciam sem cultivo, e as colinas produziam joias que antes estavam ocultas em seu interior.
Devanagari
कृष्णेऽभिषिक्त एतानि सर्वाणि कुरुनन्दन । निर्वैराण्यभवंस्तात क्रूराण्यपि निसर्गत: ॥ २७ ॥
Verse text
kṛṣṇe ’bhiṣikta etāni
sarvāṇi kuru-nandana
nirvairāṇy abhavaṁs tāta
krūrāṇy api nisargataḥ
sarvāṇi kuru-nandana
nirvairāṇy abhavaṁs tāta
krūrāṇy api nisargataḥ
Synonyms
Translation
Ó Parīkṣit, amado da dinastia Kuru, depois do banho cerimonial do Senhor Kṛṣṇa, todas as criaturas viventes, mesmo aquelas que eram cruéis por natureza, livraram-se por completo da inimizade.
Purport
SIGNIFICADO—Aqueles que são corrompidos por uma espécie de cinismo sofisticado talvez zombem destas descrições de uma paradisíaca situação mundial decorrente apenas da adoração ao Senhor Supremo. Infelizmente, o homem moderno criou um inferno na Terra em virtude de sua cínica rejeição do paraíso na terra, que é deveras possível através da consciência de Kṛṣṇa. A situação descrita nesta passagem, criada simplesmente pela auspiciosa cerimônia de ablução do Senhor, é um incidente histórico autêntico. Já que a história sempre se repete, há esperança de que o movimento da consciência de Kṛṣṇa possa outra vez levar a comunidade mundial à brilhante realidade da existência autorrealizada.
Devanagari
इति गोगोकुलपतिं गोविन्दमभिषिच्य स: । अनुज्ञातो ययौ शक्रो वृतो देवादिभिर्दिवम् ॥ २८ ॥
Verse text
iti go-gokula-patiṁ
govindam abhiṣicya saḥ
anujñāto yayau śakro
vṛto devādibhir divam
govindam abhiṣicya saḥ
anujñāto yayau śakro
vṛto devādibhir divam
Synonyms
iti — assim; go — das vacas; go-kula — e da comunidade dos vaqueiros; patim — o mestre; govindam — o Senhor Kṛṣṇa; abhiṣicya — banhando; saḥ — ele, Indra; anujñātaḥ — permissão concedida; yayau — foi; śakraḥ — o rei Indra; vṛtaḥ — rodeado; deva-ādibhiḥ — pelos semideuses e outros; divam — para o céu.
Translation
Depois de ter realizado a cerimônia de ablução do Senhor Govinda, que é o mestre das vacas e da comunidade dos vaqueiros, o rei Indra recebeu permissão do Senhor e, rodeado pelos semideuses e outros seres superiores, retornou à sua morada celestial.
Purport
Neste ponto, encerram-se os significados apresentados pelos humildes servos de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupāda referentes ao décimo canto, vigésimo sétimo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “O Senhor Indra e Mãe Surabhi Oferecem Orações”.