Before Verses
Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
CAPÍTULO DEZESSETE
A Descida do Rio Ganges
O décimo sétimo capítulo descreve a origem do rio Ganges e seu curso dentro de Ilāvṛta-varṣa e ao redor do mesmo. Também há uma descrição das orações que o senhor Śiva oferece ao Senhor Saṅkarṣaṇa, uma das expansões quádruplas da Suprema Personalidade de Deus. Certa vez, o Senhor Viṣṇu aproximou-Se de Bali Mahārāja enquanto o rei executava um sacrifício. O Senhor apareceu diante dele como Trivikrama, ou Vāmana, e pediu ao rei que lhe fizesse uma doação de três passos de terra. Com dois passos, o Senhor Vāmana cobriu todos os três sistemas planetários e, com os dedos do Seu pé esquerdo, perfurou a cobertura do universo. Algumas gotas de água do Oceano Causal emanaram desse orifício e caíram sobre a cabeça do senhor Śiva, onde permaneceram por mil milênios. Essas gotas de água são o sagrado rio Ganges. Primeiramente, ele corre pelos planetas celestiais, que se localizam nas solas dos pés do Senhor Viṣṇu. O rio Ganges é conhecido por muitos nomes, tais como Bhāgīrathī e Jāhnavī. Ele purifica Dhruvaloka e os planetas dos sete sábios porque o único desejo tanto de Dhruva quanto dos sábios é servir aos pés de lótus do Senhor.
O rio Ganges, que brota dos pés de lótus do Senhor, inunda os planetas celestiais, especialmente a Lua, após o que ele corre por Brahmapurī, no cume do monte Meru. Nesse ponto, o rio se divide em quatro braços (conhecidos como Sītā, Alakanandā, Cakṣu e Bhadrā), os quais, a seguir, descem rumo ao oceano de água salgada. O defluente conhecido como Sītā corre por Śekhara-parvata e Gandhamādana-parvata, após o que se dirige para Bhadrāśva-varṣa, onde, a leste, mistura-se com o oceano de água salgada. O defluente Cakṣu flui por Mālyavān-giri e, após alcançar Ketumāla-varṣa, já no Ocidente, mistura-se com o oceano de água salgada. O defluente conhecido como Bhadrā flui pelo monte Meru, monte Kumuda e pelas montanhas Nīla, Śveta e Śṛṅgavān, antes de alcançar Kuru-deśa, onde, no norte, desemboca no oceano de água salgada. O defluente Alakanandā corre por Brahmālaya, atravessa muitas montanhas, dentre as quais, Hemakūṭa e Himakūta, após o que alcança Bhārata-varṣa, onde desemboca no lado sul do oceano de água salgada. Muitos outros rios e seus defluentes correm pelos nove varṣas.
A extensão de terra conhecida como Bhārata-varṣa é o campo de atividades, e se reservam os outros oito varṣas a pessoas que querem desfrutar de conforto celestial. Em cada uma dessas oito belas províncias, os cidadãos celestiais desfrutam de vários padrões de conforto e prazeres materiais. Diferentes encarnações da Suprema Personalidade de Deus distribuem Sua misericórdia em cada um dos nove varṣas de Jambūdvīpa.
Em Ilāvṛta-varṣa, o senhor Śiva é o único homem, e vive com sua esposa, Bhavānī, que é servida por muitas criadas. Se algum outro homem se adentra naquela província, Bhavānī o amaldiçoa a se tornar uma mulher. O senhor Śiva adora o Senhor Saṅkarṣaṇa oferecendo várias orações, uma das quais é a seguinte: “Meu querido Senhor, por favor, libertai da vida material todos os Vossos devotos e fazei prisioneiros do mundo material todos aqueles que não são devotos. Sem Vossa misericórdia, ninguém conseguirá libertar-se do cativeiro da existência material.”
Devanagari
श्रीशुक उवाच
तत्र भगवत: साक्षाद्यज्ञलिङ्गस्य विष्णोर्विक्रमतो वामपादाङ्गुष्ठनखनिर्भिन्नोर्ध्वाण्डकटाहविवरेणान्त:प्रविष्टा या बाह्यजलधारा तच्चरणपङ्कजावनेजनारुणकिञ्जल्कोपरञ्जिताखिलजगदघमलापहोपस्पर्शनामला साक्षाद्भगवत्पदीत्यनुपलक्षितवचोऽभिधीयमानातिमहता कालेन युगसहस्रोपलक्षणेन दिवो मूर्धन्यवततार यत्तद्विष्णुपदमाहु: ॥ १ ॥
तत्र भगवत: साक्षाद्यज्ञलिङ्गस्य विष्णोर्विक्रमतो वामपादाङ्गुष्ठनखनिर्भिन्नोर्ध्वाण्डकटाहविवरेणान्त:प्रविष्टा या बाह्यजलधारा तच्चरणपङ्कजावनेजनारुणकिञ्जल्कोपरञ्जिताखिलजगदघमलापहोपस्पर्शनामला साक्षाद्भगवत्पदीत्यनुपलक्षितवचोऽभिधीयमानातिमहता कालेन युगसहस्रोपलक्षणेन दिवो मूर्धन्यवततार यत्तद्विष्णुपदमाहु: ॥ १ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
tatra bhagavataḥ sākṣād yajña-liṅgasya viṣṇor vikramato vāma-pādāṅguṣṭha-nakha-nirbhinnordhvāṇḍa-kaṭāha-vivareṇāntaḥ-praviṣṭā yā bāhya-jala-dhārā tac-caraṇa-paṅkajāvanejanāruṇa-kiñjalkoparañjitākhila-jagad-agha-malāpahopasparśanāmalā sākṣād bhagavat-padīty anupalakṣita-vaco ’bhidhīyamānāti-mahatā kālena yuga-sahasropalakṣaṇena divo mūrdhany avatatāra yat tad viṣṇu-padam āhuḥ.
tatra bhagavataḥ sākṣād yajña-liṅgasya viṣṇor vikramato vāma-pādāṅguṣṭha-nakha-nirbhinnordhvāṇḍa-kaṭāha-vivareṇāntaḥ-praviṣṭā yā bāhya-jala-dhārā tac-caraṇa-paṅkajāvanejanāruṇa-kiñjalkoparañjitākhila-jagad-agha-malāpahopasparśanāmalā sākṣād bhagavat-padīty anupalakṣita-vaco ’bhidhīyamānāti-mahatā kālena yuga-sahasropalakṣaṇena divo mūrdhany avatatāra yat tad viṣṇu-padam āhuḥ.
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; tatra — nesse momento; bhagavataḥ — da encarnação da Suprema Personalidade de Deus; sākṣāt — diretamente; yajña-liṅgasya — do desfrutador dos resultados de todos os sacrifícios; viṣṇoḥ — do Senhor Viṣṇu; vikramataḥ — enquanto dava Seu segundo passo; vāma-pāda — de Sua perna esquerda; aṅguṣṭha — do dedão do pé; nakha — com a unha; nirbhinna — perfurou; ūrdhva — superior; aṇḍa-kaṭāha — a cobertura do universo (consistindo em sete camadas, isto é, terra, água, fogo etc.); vivareṇa — através do orifício; antaḥ-praviṣṭā — tendo penetrado o universo; yā — o qual; bāhya-jala-dhārā — o deflúvio de água proveniente do Oceano Causal fora do universo; tat — dEle; caraṇa-paṅkaja — os pés de lótus; avanejana — ao lavar; aruṇa-kiñjalka — com um pó avermelhado; uparañjitā — ficando colorida; akhila-jagat — do mundo inteiro; agha-mala — as atividades pecaminosas; apahā — destrói; upasparśana — o contato com a qual; amalā — inteiramente pura; sākṣāt — diretamente; bhagavat-padī — emanando dos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus; iti — assim; anupalakṣita — descrito; vacaḥ — pelo nome; abhidhīyamānā — sendo chamado; ati-mahatā kālena — após um longo tempo; yuga-sahasra-upalakṣaṇena — consistindo em mil milênios; divaḥ — do firmamento; mūrdhani — no topo (Dhruvaloka); avatatāra — desce; yat — o qual; tat — este; viṣṇu-padam — os pés de lótus do Senhor Viṣṇu; āhuḥ — eles chamam. .
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: Meu querido rei, o Senhor Viṣṇu, o desfrutador de todos os sacrifícios, apareceu como Vāmanadeva na arena de sacrifício de Bali Mahārāja. Em seguida, estendeu o pé esquerdo até o fim do universo, em cuja cobertura Ele perfurou um orifício com a unha do dedão de Seu pé. Através desse orifício, sob a forma do rio Ganges, a água pura do Oceano Causal penetrou neste universo. Após lavar os pés de lótus do Senhor, que estão cobertos de pó avermelhado, a água do Ganges adquiriu uma coloração rósea muito bela. Basta tocar a água transcendental do Ganges para que o ser vivo possa, de imediato, purificar sua mente, tirando-lhe a contaminação material; não obstante, as águas do rio continuam puras. Porque, antes de descer a este universo, o Ganges toca diretamente os pés de lótus do Senhor, ele é conhecido como Viṣṇupadī. Posteriormente, ele recebe outros nomes, tais como Jāhnavī e Bhāgīrathī. Passados mil milênios, a água do Ganges desce a Dhruvaloka, o planeta mais elevado deste universo. Portanto, todos os sábios e estudiosos eruditos apregoam que Dhruvaloka é Viṣṇupada [“situado aos pés de lótus do Senhor Viṣṇu”].
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, Śukadeva Gosvāmī descreve as glórias do rio Ganges. A água do Ganges se chama patita-pāvanī, a libertadora de todos os seres vivos pecaminosos. É fato comprovado que, banhando-se regularmente no Ganges, a pessoa se purifica tanto externa quanto internamente. Externamente, seu corpo se torna imune a toda espécie de doenças e, internamente, ela aos poucos desenvolve uma atitude devocional para com a Suprema Personalidade de Deus. Em toda a Índia, muitos milhares de indivíduos vivem às margens do Ganges, e, tomando banhos regulares em suas águas, eles sem dúvida se purificam tanto espiritual quanto materialmente. Muitos sábios, incluindo Śaṅkarācārya, compuseram orações em louvor ao Ganges, e a própria Índia se tornou gloriosa porque nela correm rios, tais como o Ganges, Yamunā, Godāvarī, Kāverī, Kṛṣṇā e Narmadā. Todo aquele que vive nas terras adjacentes a esses rios é naturalmente avançado em consciência espiritual. Śrīla Madhvācārya diz:
vārāhe vāma-pādaṁ tu
tad-anyeṣu tu dakṣiṇam
pādaṁ kalpeṣu bhagavān
ujjahāra trivikramaḥ
tad-anyeṣu tu dakṣiṇam
pādaṁ kalpeṣu bhagavān
ujjahāra trivikramaḥ
Apoiando-Se sobre Seu pé direito e estendendo o esquerdo até o extremo do universo, o Senhor Vāmana tornou-Se conhecido como Trivikrama, a encarnação que executou três feitos heroicos.
Devanagari
यत्र ह वाव वीरव्रत औत्तानपादि: परमभागवतोऽस्मत्कुलदेवताचरणारविन्दोदकमिति यामनुसवनमुत्कृष्यमाणभगवद्भक्तियोगेन दृढं क्लिद्यमानान्तर्हृदय औत्कण्ठ्यविवशामीलितलोचनयुगलकुड्मलविगलितामलबाष्पकलयाभिव्यज्यमानरोमपुलककुलकोऽधुनापि परमादरेण शिरसा बिभर्ति ॥ २ ॥
Verse text
yatra ha vāva vīra-vrata auttānapādiḥ parama-bhāgavato ’smat-kula-devatā-caraṇāravindodakam iti yām anusavanam utkṛṣyamāṇa-bhagavad-bhakti-yogena dṛḍhaṁ klidyamānāntar-hṛdaya autkaṇṭhya-vivaśāmīlita-locana-yugala-kuḍmala-vigalitāmala-bāṣpa-kalayābhivyajyamāna-roma-pulaka-kulako ’dhunāpi paramādareṇa śirasā bibharti.
Synonyms
yatra ha vāva — em Dhruvaloka; vīra-vrataḥ — firmemente determinado; auttānapādiḥ — o famoso filho de Mahārāja Uttānapāda; parama-bhāgavataḥ — o devoto mais elevado; asmat — nossa; kuladevatā — da Deidade da família; caraṇa-aravinda — dos pés de lótus; udakam — na água; iti — assim; yām — a qual; anusavanam — constantemente; utkṛṣyamāṇa — aumentando; bhagavat-bhakti-yogena — pelo serviço devocional ao Senhor; dṛḍham — grandemente; klidyamāna-antaḥ-hṛdayaḥ — sentindo-se suave no âmago de seu coração; autkaṇṭhya — devido ao grande anseio; vivaśa — espontaneamente; amīlita — um pouco abertos; locana — dos olhos; yugala — par; kuḍmala — semelhantes a flores; vigalita — emanando; amala — puras; bāṣpa-kalayā — com lágrimas; abhivyajyamāna — manifestando-se; roma-pulaka-kulakaḥ — cujos sinais de êxtase no corpo; adhunā api — inclusive agora; parama-ādareṇa — com muita reverência; śirasā — em sua cabeça; bibharti — ele ostenta.
Translation
Devido à sua firme determinação de prestar serviço devocional, Dhruva Mahārāja, o famoso filho de Mahārāja Uttānapāda, é conhecido como o devoto mais elevado do Senhor Supremo. Conhecedor de que a água sagrada do Ganges lava os pés de lótus do Senhor Viṣṇu, Dhruva Mahārāja, situado em seu próprio planeta, continua recebendo com grande devoção essa água sobre sua cabeça. Como se dedica a pensar constantemente em Kṛṣṇa no âmago do seu coração, ele está sempre transbordando de anseios extáticos. Lágrimas correm de seus olhos semicerrados, e erupções aparecem em todo o seu corpo.
Purport
SIGNIFICADO—Quando alguém está firmemente fixo no serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, ele é conhecido como vīra-vrata, ou completamente determinado. Semelhante devoto intensifica seu êxtase no serviço devocional sem cessar. Portanto, logo que ele se lembra do Senhor Viṣṇu, seus olhos se enchem de lágrimas. Esse sintoma é de um mahā-bhāgavata. Dhruva Mahārāja se mantinha nesse êxtase devocional, e, durante o tempo em que viveu em Jagannātha Purī, Śrī Caitanya Mahāprabhu também nos deu um exemplo prático de êxtase transcendental, e esses Seus passatempos são narrados por completo no Caitanya-caritāmṛta.
Devanagari
तत: सप्त ऋषयस्तत्प्रभावाभिज्ञा यां ननु तपसआत्यन्तिकी सिद्धिरेतावती भगवति सर्वात्मनि वासुदेवेऽनुपरतभक्तियोगलाभेनैवोपेक्षितान्यार्थात्मगतयो मुक्तिमिवागतां मुमुक्षव इव सबहुमानमद्यापि जटाजूटैरुद्वहन्ति ॥ ३ ॥
Verse text
tataḥ sapta ṛṣayas tat prabhāvābhijñā yāṁ nanu tapasa ātyantikī siddhir etāvatī bhagavati sarvātmani vāsudeve ’nuparata-bhakti-yoga-lābhenaivopekṣitānyārthātma-gatayo muktim ivāgatāṁ mumukṣava iva sabahu-mānam adyāpi jaṭā-jūṭair udvahanti.
Synonyms
tataḥ — em seguida; sapta ṛṣayaḥ — os sete grandes sábios (a começar por Marīci); tat prabhāva-abhijñāḥ — que conheciam muito bem a influência do rio Ganges; yām — essa água do Ganges; nanu — na verdade; tapasaḥ — de nossas austeridades; ātyantikī — a definitiva; siddhiḥ — perfeição; etāvatī — esse tanto; bhagavati — a Suprema Personalidade de Deus; sarva-ātmani — no onipenetrante; vāsudeve — Kṛṣṇa; anuparata — contínuo; bhakti-yoga — do processo místico de serviço devocional; lābhena — pelo simples fato de alcançar essa plataforma; eva — decerto; upekṣita — rejeitaram; anya — outros; artha-ātma-gatayaḥ — todos os outros meios de perfeição (a saber, religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e liberação); muktim — ausência de cativeiro material; iva — como; āgatām — obtiveram; mumukṣavaḥ — pessoas que desejam a liberação; iva — como; sa-bahu-mānam — com muita honra; adya api — mesmo agora; jaṭā-jūṭaiḥ — nos tufos de cabelos anelados; udvahanti — eles ostentam.
Translation
Os sete grandes sábios [Marīci, Vasiṣṭha, Atri e assim por diante] residem em planetas abaixo de Dhruvaloka. Cientes da influência das águas do Ganges, até hoje eles mantêm a água do Ganges nos tufos de seus cabelos. Eles concluíram que essa é a riqueza definitiva, a perfeição de todas as austeridades e o melhor meio de praticar vida transcendental. Tendo alcançado o ininterrupto serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, eles rejeitam todos os outros processos benéficos, tais como religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e, inclusive, a imersão no Supremo. Assim como os jñānīs pensam que imergir na existência do Senhor é a realidade máxima, essas sete personalidades elevadas aceitam o serviço devocional como a perfeição da vida.
Purport
SIGNIFICADO—Os transcendentalistas dividem-se em dois grupos principais: os nirviśeṣa-vādīs, ou impersonalistas, e os bhaktas, ou devotos. Os impersonalistas não aceitam a variedade da vida espiritual. Eles querem fundir-se no brahmajyoti, o aspecto Brahman do Senhor Supremo. Por sua vez, os devotos desejam participar das atividades transcendentais do Senhor Supremo. No sistema planetário superior, o planeta mais elevado é Dhruvaloka, e, abaixo de Dhruvaloka, encontram-se os sete planetas onde residem os grandes sábios, a começar por Marīci, Vasiṣṭha e Atri, todos os quais têm o serviço devocional como a perfeição máxima da vida. Portanto, todos eles ostentam sobre suas cabeças a água sagrada do Ganges. Este verso comprova que, para a pessoa que alcançou a plataforma de serviço devocional puro, nada mais, nem mesmo a dita liberação (kaivalya), reveste-se de importância. Śrīla Śrīdhara Svāmī afirma que só pode abandonar todas as outras ocupações, considerando-as insignificantes, quem adota o serviço devocional puro ao Senhor. Prabodhānanda Sarasvatī confirma da seguinte maneira essa afirmação:
kaivalyaṁ narakāyate tri-daśa-pūr ākāśa-puṣpāyate
durdāntendriya-kāla-sarpa-paṭalī protkhāta-daṁṣṭrāyate
viśvaṁ pūrṇa-sukhāyate vidhi-mahendrādiś ca kīṭāyate
yat kāruṇya-kaṭākṣa-vaibhavavatāṁ taṁ gauram eva stumaḥ
durdāntendriya-kāla-sarpa-paṭalī protkhāta-daṁṣṭrāyate
viśvaṁ pūrṇa-sukhāyate vidhi-mahendrādiś ca kīṭāyate
yat kāruṇya-kaṭākṣa-vaibhavavatāṁ taṁ gauram eva stumaḥ
(Caitanya-candrāmṛta 5)
Śrī Caitanya Mahāprabhu explicou e difundiu perfeitamente o processo de bhakti-yoga. Consequentemente, se para aquele que se refugiou aos pés de lótus de Śrī Caitanya Mahāprabhu, a perfeição máxima dos māyāvādīs, kaivalya, ou tornar-se uno com o Supremo, é considerada infernal, o que falar das aspirações dos karmīs que estão apenas interessados em se promoverem aos planetas celestiais? Os devotos consideram tais metas como fantasmagorias inúteis. Há também os yogīs, que tentam controlar os sentidos, porém, enquanto não se estabelecerem na plataforma de serviço devocional, não obterão êxito. Comparam-se os sentidos a serpentes venenosas, mas os sentidos do bhakta ocupado a serviço do Senhor são como serpentes cujas presas peçonhentas foram removidas. O yogī tenta reprimir os sentidos, contudo, mesmo grandes místicos como Viśvāmitra falham nesse intento. Ao se deixar cativar por Menakā enquanto meditava, Viśvāmitra foi dominado pelos seus sentidos. Mais tarde, ela deu à luz Śakuntalā. Portanto, como o Senhor Kṛṣṇa confirma na Bhagavad-gītā (6.47), as pessoas mais sábias do mundo são os bhakti-yogīs:
yoginām api sarveṣāṁ
mad-gatenāntarātmanā
śraddhāvān bhajate yo māṁ
sa me yuktatamo mataḥ
mad-gatenāntarātmanā
śraddhāvān bhajate yo māṁ
sa me yuktatamo mataḥ
“De todos os yogīs, aquele que tem muita fé e sempre se refugia em Mim, adorando-Me em serviço amoroso transcendental, é o mais intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos.”
Devanagari
ततोऽनेकसहस्रकोटिविमानानीकसङ्कुलदेवयानेनावतरन्तीन्दुमण्डलमावार्य ब्रह्मसदने निपतति ॥ ४ ॥
Verse text
tato ’neka-sahasra-koṭi-vimānānīka-saṅkula-deva-yānenāvatar-antīndu maṇḍalam āvārya brahma-sadane nipatati.
Synonyms
tataḥ — depois de purificar os sete planetas dos sete grandes sábios; aneka — muitos; sahasra — milhares; koṭi — de milhões; vimāna-anīka — com contingentes de aeroplanos; saṅkula — congestionados; deva-yānena — pelos caminhos espaciais dos semideuses; avatarantī — descendo; indu-maṇḍalam — o planeta Lua; āvārya — inunda; brahma-sadane — rumo à morada do senhor Brahmā, situada no cume de Sumeru-parvata; nipatati — precipita-se.
Translation
Após purificar os sete planetas próximos a Dhruvaloka [a estrela polar], a água do Ganges é transportada pelos caminhos espaciais dos semideuses em bilhões de aeroplanos celestiais. Então, ela inunda a Lua [Candraloka] e, por fim, chega à morada do senhor Brahmā, situada no cume do monte Meru.
Purport
SIGNIFICADO—Devemos sempre nos lembrar de que o rio Ganges procede do Oceano Causal, situado além da cobertura do universo. Após extravasar pelo orifício criado pelo Senhor Vāmanadeva, a água do Oceano Causal precipita-se em direção a Dhruvaloka (a estrela polar), após o que desce rumo aos sete planetas localizados abaixo de Dhruvaloka. Em seguida, inúmeros aeroplanos celestiais transportam-na até a Lua, depois do que cai no topo do monte Meru, conhecido como Sumeru-parvata. Dessa maneira, a água do Ganges finalmente alcança os planetas inferiores e os picos dos Himalaias, de onde ela corre por Hardwar e por todas as planícies da Índia, purificando toda a Terra. Nesta passagem, explica-se como a água do Ganges, procedendo do topo do universo, alcança os vários planetas. Os aeroplanos celestiais transportam até os outros planetas a água dos planetas dos sábios. Os cientistas supostamente avançados da era moderna tentam ir aos planetas superiores, mas, ao mesmo tempo, estão experimentando uma escassez de energia na Terra. Se fossem realmente cientistas capazes, poderiam pessoalmente ir de aeroplano a outros planetas, mas isso eles não conseguem fazer. Tendo agora desistido de suas viagens à Lua, eles agora tentam ir a outros planetas, mas sem sucesso.
Devanagari
तत्र चतुर्धा भिद्यमाना चतुर्भिर्नामभिश्चतुर्दिशमभिस्पन्दन्ती नदनदीपतिमेवाभिनिविशति सीतालकनन्दा चक्षुर्भद्रेति ॥ ५ ॥
Verse text
tatra caturdhā bhidyamānā caturbhir nāmabhiś catur-diśam abhispandantī nada-nadī-patim evābhiniviśati sītālakanandā cakṣur bhadreti.
Synonyms
tatra — lá (no topo do monte Meru); caturdhā — em quatro braços; bhidyamānā — dividindo-se; caturbhiḥ — com quatro; nāmabhiḥ — nomes; catuḥ-diśam — as quatro direções (leste, oeste, norte e sul); abhispandantī — fluindo em profusão; nada-nadī-patim — no reservatório de todos os grandes rios (o oceano); eva — decerto; abhiniviśati — entram; sītā-alakanandā — Sītā e Alakanandā; cakṣuḥ — Cakṣu; bhadrā — Bhadrā; iti — conhecidos por esses nomes.
Translation
No topo do monte Meru, o Ganges se divide em quatro braços, cada um dos quais flui em uma direção diferente [leste, oeste, norte e sul]. Esses defluentes, conhecidos pelos nomes Sītā, Alakanandā, Cakṣu e Bhadrā, descem rumo ao oceano.
Devanagari
सीता तु ब्रह्मसदनात्केसराचलादिगिरिशिखरेभ्योऽधोऽध: प्रस्रवन्ती गन्धमादनमूर्धसु पतित्वान्तरेण भद्राश्ववर्षं प्राच्यां दिशि क्षारसमुद्रमभिप्रविशति ॥ ६ ॥
Verse text
sītā tu brahma-sadanāt kesarācalādi-giri-śikharebhyo ’dho ’dhaḥ prasravantī gandhamādana-mūrdhasu patitvāntareṇa bhadrāśva-varṣaṁ prācyāṁ diśi kṣāra-samudram abhipraviśati.
Synonyms
sītā — o defluente conhecido como Sītā; tu — decerto; brahma-sadanāt — de Brahmapurī; kesarācala-ādi — de Kesarācala e outras grandes montanhas; giri — colinas; śikharebhyaḥ — dos topos; adhaḥ adhaḥ — para baixo; prasravantī — fluindo; gandhamādana — da montanha Gandhamādana; mūrdhasu — no topo; patitvā — caindo; antareṇa — dentro de; bhadrāśva-varṣam — a província conhecida como Bhadrāśva; prācyām — na oriental; diśi — direção; kṣāra-samudram — no oceano de água salgada; abhipraviśati — desemboca.
Translation
O defluente do Ganges conhecido como Sītā flui por Brahmapurī, no topo do monte Meru, de onde desce para os cumes das circunvizinhas montanhas Kesarācala, que têm quase a mesma altura do próprio monte Meru. Essas montanhas parecem um feixe de filamentos em volta do monte Meru. A partir das montanhas Kesarācala, o Ganges cai sobre o pico da montanha Gandhamādana e depois flui até a terra de Bhadrāśva-varṣa. Enfim, alcança a leste o oceano de água salgada.
Devanagari
एवं माल्यवच्छिखरान्निष्पतन्ती ततोऽनुपरतवेगा केतुमालमभि चक्षु: प्रतीच्यां दिशि सरित्पतिं प्रविशति ॥ ७ ॥
Verse text
evaṁ mālyavac-chikharān niṣpatantī tato ’nuparata-vegā ketumālam abhi cakṣuḥ pratīcyāṁ diśi sarit-patiṁ praviśati.
Synonyms
evam — dessa maneira; mālyavat-śikharāt — do topo da montanha Mālyavān; niṣpatantī — caindo; tataḥ — em seguida; anuparata-vegā — cuja força é ininterrupta; ketumālam abhi — na terra conhecida como Ketumāla-varṣa; cakṣuḥ — o defluente conhecido como Cakṣu; pratīcyām — no oeste; diśi — direção; sarit-patim — o oceano; praviśati — entra em.
Translation
O defluente do Ganges conhecido como Cakṣu cai sobre o topo da montanha Mālyavān, de onde cascateia pela terra de Ketumāla-varṣa. O Ganges corre incessantemente por Ketumāla-varṣa e, dessa maneira, também alcança, a oeste, o oceano de água salgada.
Devanagari
भद्रा चोत्तरतो मेरुशिरसो निपतिता गिरिशिखराद्गिरिशिखरमतिहाय शृङ्गवत: शृङ्गादवस्यन्दमाना उत्तरांस्तु कुरूनभित उदीच्यां दिशि जलधिमभिप्रविशति ॥ ८ ॥
Verse text
bhadrā cottarato meru-śiraso nipatitā giri-śikharād giri-śikharam atihāya śṛṅgavataḥ śṛṅgād avasyandamānā uttarāṁs tu kurūn abhita udīcyāṁ diśi jaladhim abhipraviśati.
Synonyms
bhadrā — o defluente conhecido como Bhadrā; ca — também; uttarataḥ — para o lado norte; meru-śirasaḥ — do topo do monte Meru; nipatitā — tendo caído; giri-śikharāt — do pico da montanha Kumuda; giri-śikharam — até o pico da montanha Nīla; atihāya — atravessando como se não tocasse; śṛṅgavataḥ — da montanha conhecida como Śṛṅgavān; śṛṅgāt — do pico; avasyandamānā — fluindo; uttarān — a parte norte; tu — mas; kurūn — a terra conhecida como Kuru; abhitaḥ — em todos os lados; udīcyām — à norte; diśi — direção; jaladhim — o oceano de água salgada; abhipraviśati — desemboca no.
Translation
O defluente do Ganges conhecido como Bhadrā corre a partir do lado norte da montanha Meru. Suas águas caem sucessivamente sobre os picos da montanha Kumuda, do monte Nīla, da montanha Śveta e da montanha Śṛṅgavān. Depois, correm pela província de Kuru e, após cruzarem essa terra, dirigem-se ao oceano de água salgada, onde desembocam a norte.
Devanagari
तथैवालकनन्दा दक्षिणेन ब्रह्मसदनाद्बहूनि गिरिकूटान्यतिक्रम्य हेमकूटाद्धैमकूटान्यतिरभसतररंहसा लुठयन्ती भारतमभिवर्षं दक्षिणस्यां दिशि जलधिमभिप्रविशति यस्यां स्नानार्थं चागच्छत: पुंस: पदे पदेऽश्वमेधराजसूयादीनां फलं न दुर्लभमिति ॥ ९ ॥
Verse text
tathaivālakanandā dakṣiṇena brahma-sadanād bahūni giri-kūṭāny atikramya hemakūṭād dhaimakūṭāny ati-rabhasatara-raṁhasā luṭhayantī bhāratam abhivarṣaṁ dakṣiṇasyāṁ diśi jaladhim abhipraviśati yasyāṁ snānārthaṁ cāgacchataḥ puṁsaḥ pade pade ’śvamedha-rājasūyādīnāṁ phalaṁ na durlabham iti.
Synonyms
tathā eva — do mesmo modo; alakanandā — o defluente conhecido como Alakanandā; dakṣiṇena — pelo lado sul; brahma-sadanāt — da cidade conhecida como Brahmapurī; bahūni — muitos; giri-kūṭāni — os topos das montanhas; atikramya — cruzando; hemakūṭāt — da montanha Hemakūṭa; haimakūṭāni — e Himakūṭa; ati-rabhasatara — mais impetuosamente; raṁhasā — com muito vigor; luṭhayantī — espoliando; bhāratam abhivarṣam — por todos os lados de Bhārata-varṣa; dakṣiṇasyām — sul; diśi — na direção; jaladhim — o oceano de água salgada; abhipraviśati — desemboca em; yasyām — no qual; snāna-artham — banhar-se; ca — e; āgacchataḥ — da pessoa que vem; puṁsaḥ — uma pessoa; pade pade — passo a passo; aśvamedha-rājasūya-ādīnām — de grandes sacrifícios, tais como o yajña Aśvamedha e o yajña Rājasūya; phalam — o resultado; na — não; durlabham — muito difícil de obter; iti — assim.
Translation
Do mesmo modo, o braço do Ganges conhecido como Alakanandā flui a partir do lado sul de Brahmapurī (Brahma-sadana). Atravessando o topo das montanhas em várias regiões, ele, com imensa impetuosidade, cai sobre o pico das montanhas Hemakūṭa e Himakūṭa. Após inundar o topo dessas montanhas, o Ganges cai sobre a extensão territorial conhecida como Bhārata-varṣa, a qual é também por ele inundada. Então, ao sul, o Ganges desemboca no oceano de água salgada. As pessoas que se banham nesse rio são afortunadas. Não têm grande dificuldade em alcançar progressivamente os resultados decorrentes da execução de grandes sacrifícios, tais como os yajñas Rājasūya e Aśvamedha.
Purport
SIGNIFICADO—O lugar onde o Ganges desemboca na água salgada da baía da Bengala ainda é conhecido como Gaṅgā-sāgara, ou o ponto de encontro do Ganges com a referida baía. Em Makara-saṅkrānti, no mês de janeiro-fevereiro, milhares de pessoas ainda vão se banhar ali, na esperança de se libertarem. Aqui se confirma que elas realmente podem se libertar através desse processo. Aqueles que têm a oportunidade de se banhar no Ganges não enfrentam dificuldade alguma em alcançar os resultados de grandes sacrifícios, tais como as recompensas concedidas mediante a execução dos yajñas Aśvamedha e Rājasūya. A maioria da população da Índia ainda se mantém inclinada a se banhar no Ganges, e existem muitos lugares onde as pessoas podem fazê-lo. Em Prayāga (Allahabad), muitos milhares de pessoas se reúnem durante o mês de janeiro para se banharem na confluência do Ganges com o Yamunā. Depois disso, muitos deles vão até a confluência da baía da Bengala com o Ganges para se banharem ali. Assim, é uma facilidade especial de toda a população da Índia poder banhar-se na água do Ganges em muitos lugares de peregrinação.
Devanagari
अन्ये च नदा नद्यश्च वर्षे वर्षे सन्ति बहुशो मेर्वादिगिरिदुहितर: शतश: ॥ १० ॥
Verse text
anye ca nadā nadyaś ca varṣe varṣe santi bahuśo merv-ādi-giri-duhitaraḥ śataśaḥ.
Synonyms
Translation
Muitos outros rios, grandes ou pequenos, fluem do topo do monte Meru. Esses rios são como filhas da montanha, e, formando centenas de braços, correm pelas várias extensões territoriais.
Devanagari
तत्रापि भारतमेव वर्षं कर्मक्षेत्रमन्यान्यष्ट वर्षाणि स्वर्गिणां पुण्यशेषोपभोगस्थानानि भौमानि स्वर्गपदानि व्यपदिशन्ति ॥ ११ ॥
Verse text
tatrāpi bhāratam eva varṣaṁ karma-kṣetram anyāny aṣṭa varṣāṇi svargiṇāṁ puṇya-śeṣopabhoga-sthānāni bhaumāni svarga-padāni vyapadiśanti.
Synonyms
tatra api — entre todas elas; bhāratam — conhecida como Bhārata-varṣa; eva — decerto; varṣam — a porção de terra; karma-kṣetram — o campo de atividades; anyāni — os outros; aṣṭa varṣāṇi — oito trechos de terra; svargiṇām — das entidades vivas elevadas aos planetas celestiais através de atividades piedosas extraordinárias; puṇya — do saldo das atividades piedosas; śeṣa — do restante; upabhoga-sthānāni — os lugares para o gozo material; bhaumāni svarga-padāni — como os lugares celestiais na Terra; vyapadiśanti — eles designam.
Translation
Entre os nove varṣas, a porção de terra conhecida como Bhārata-varṣa é tida como o campo das atividades fruitivas. Os estudiosos eruditos e as pessoas santas declaram que os outros oito varṣas se destinam a pessoas piedosas muitíssimo elevadas, as quais, após retornarem dos planetas celestiais, desfrutam nesses oito varṣas terrestres o restante do saldo de suas atividades piedosas.
Purport
SIGNIFICADO—Os lugares celestiais para desfrute são divididos em três grupos: os planetas celestiais siderais, os lugares celestiais na Terra e os lugares celestiais bila, que se encontram nas regiões inferiores. Entre essas três classes de lugares celestiais (bhauma-svarga-padāni), na Terra, os oito varṣas, que não incluem Bhārata-varṣa, caracterizam-se como sendo os lugares celestiais. Na Bhagavad-gītā (9.21), Kṛṣṇa diz que kṣīṇe puṇye martya-lokaṁ viśanti: ao esgotarem os méritos de suas atividades piedosas, as pessoas que vivem nos planetas celestiais regressam a esta Terra. Portanto, elas se elevam aos planetas celestiais e, posteriormente, recaem nos planetas terrestres. Esse processo é conhecido como brahmāṇḍa bhramaṇa, o qual consiste em vagar pelas regiões superiores e inferiores de todos os universos. Aqueles que são inteligentes – em outras palavras, aqueles que não perderam sua inteligência – não se envolvem neste processo de perambular para cima e para baixo. Eles adotam o serviço devocional ao Senhor de modo que possam afinal penetrar a cobertura deste universo e entrar no reino espiritual. Então, situam-se em um dos planetas conhecidos como Vaikuṇṭhaloka, ou, em um plano mais elevado, em Kṛṣṇaloka (Goloka Vṛndāvana). O devoto nunca se deixa envolver no processo em que ele é promovido aos planetas celestiais e, então, desce novamente. Por isso, Śrī Caitanya Mahāprabhu diz:
ei rūpe brahmāṇḍa bhramite kona bhāgyavān jīva
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
Entre todas as entidades vivas que perambulam pelo universo, aquela que é muito afortunada entra em contato com o representante da Suprema Personalidade de Deus e obtém, dessa maneira, a oportunidade de prestar serviço devocional.
Aqueles que estão sinceramente buscando o favor de Kṛṣṇa entram em contato com o guru, o autêntico representante de Kṛṣṇa. Os māyāvādīs, que se entregam à especulação mental, e os karmīs, que desejam os resultados de suas ações, não podem tornar-se gurus. O guru tem que ser um representante direto de Kṛṣṇa, distribuindo, sem qualquer mudança, as instruções de Kṛṣṇa. Assim, apenas as pessoas mais afortunadas entram em contato com o guru. Como confirmam os textos védicos, tad-vijñānārthaṁ sa gurum evābhigacchet: para entendermos os assuntos ligados ao mundo espiritual, devemos procurar um guru. O Śrīmad-Bhāgavatam também confirma esse ponto. Tasmād guruṁ prapadyeta jijñāsuḥ śreya uttamam: aquele que está muito interessado em compreender as atividades do mundo espiritual deve buscar um guru, um representante autêntico de Kṛṣṇa. Portanto, a partir de todos os pontos de vista, a palavra guru se refere em especial ao representante genuíno de Kṛṣṇa e a ninguém mais. O Padma Purāṇa afirma que avaiṣṇavo gurur na syāt: quem não é vaiṣṇava, ou quem não é um representante de Kṛṣṇa, não pode tornar-se guru. Não sendo representante de Kṛṣṇa, nem mesmo o brāhmaṇa mais qualificado pode tornar-se guru. É de se esperar que o brāhmaṇa adquira seis classes de qualificações auspiciosas: tornar-se um estudioso muito erudito (paṭhana) e um preceptor muito qualificado (pāṭhana); tornar-se hábil em adorar o Senhor ou os semideuses (yajana) e ensinar os outros a realizarem essa adoração (yājana); qualificar-se como uma pessoa fidedigna e apta a receber doações dos outros (pratigraha) e tornar-se capaz de distribuir riquezas em caridade (dāna). Todavia, caso não seja representante de Kṛṣṇa, nem mesmo um brāhmaṇa que possui essas qualificações pode tornar-se guru (gurur na syāt). Vaiṣṇavaḥ śva-paco guruḥ: em contraste, mesmo que seja um śva-paca, um membro de uma família de comedores de cães, um vaiṣṇava, um representante autêntico de Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus, pode tornar-se guru. Das três divisões dos planetas celestiais (svarga-loka), bhauma-svarga às vezes é aceito como o trecho de terra em Bhārata-varṣa conhecido como Kashmir. Nessa região, há com certeza muitas facilidades para o gozo dos sentidos materiais, mas essa não é a atividade do transcendentalista puro. Rūpa Gosvāmī descreve com as seguintes palavras a ocupação do transcendentalista puro:
anyābhilāṣitā-śūnyaṁ
jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-
śīlanaṁ bhaktir uttamā
jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-
śīlanaṁ bhaktir uttamā
“Devemos prestar transcendental serviço amoroso ao Supremo Senhor Kṛṣṇa em uma atitude favorável e sem desejo de obter lucro ou vantagens materiais através de atividades fruitivas ou especulação filosófica. Isso se chama serviço devocional puro.” Aqueles que, com o único intuito de satisfazer Kṛṣṇa, ocupam-se plenamente em prestar-Lhe serviço devocional não estão interessados nas três divisões dos lugares celestiais, a saber, divya-svarga, bhauma-svarga e bila-svarga.
Devanagari
एषु पुरुषाणामयुतपुरुषायुर्वर्षाणां देवकल्पानां नागायुतप्राणानां वज्रसंहननबलवयोमोदप्रमुदितमहासौरतमिथुनव्यवायापवर्गवर्षधृतैकगर्भ कलत्राणां तत्र तु त्रेतायुगसम: कालो वर्तते ॥ १२ ॥
Verse text
eṣu puruṣāṇām ayuta-puruṣāyur-varṣāṇāṁ deva-kalpānāṁ nāgāyuta-prāṇānāṁ vajra-saṁhanana-bala-vayo-moda-pramudita-mahā-saurata-mithuna-vyavāyāpavarga-varṣa-dhṛtaika-garbha-kalatrāṇāṁ tatra tu tretā-yuga-samaḥ kālo vartate.
Synonyms
eṣu — nesses (oito) varṣas, ou extensões de terra; puruṣāṇām — de todos os homens; ayuta — dez mil; puruṣa — pela medida dos homens; āyuḥ-varṣāṇām — daqueles cujos anos de vida; deva-kalpānām — que são como os semideuses; nāga-ayuta-prāṇānām — tendo a força de dez mil elefantes; vajra-saṁhanana — por corpos tão sólidos como raios; bala — pela força corpórea; vayaḥ — pela juventude; moda — pelo abundante gozo dos sentidos; pramudita — sendo excitados; mahā-saurata — uma grande quantidade de sexo; mithuna — nas combinações do homem com a mulher; vyavāya-apavarga — no fim do período de seu gozo sexual; varṣa — no último ano; dhṛta-eka-garbha — que concebem uma criança; kalatrāṇām — daqueles que têm esposas; tatra — ali; tu — mas; tretā-yuga-samaḥ — exatamente como Tretā-yuga (quando não há tribulação); kālaḥ — tempo; vartate — existe.
Translation
Nesses oito varṣas, ou extensões de terra, os seres humanos vivem dez mil anos de acordo com os cálculos terrestres. Todos os habitantes são quase como semideuses. Eles têm a força corpórea de dez mil elefantes. De fato, seus corpos são tão vigorosos como raios. Levam vidas agradabilíssimas no esplendor da juventude, e tanto os homens quanto as mulheres sentem intenso e demorado prazer durante a união sexual. Passados muitos anos de prazer sensual – quando resta um ano de vida –, a esposa concebe uma criança. Assim, o padrão de prazer dos residentes dessas regiões celestiais é exatamente como o dos seres humanos que viviam em Tretā-yuga.
Purport
SIGNIFICADO—Existem quatro yugas: Satya-yuga, Tretā-yuga, Dvāpara-yuga e Kali-yuga. Durante o primeiro yuga, Satya-yuga, as pessoas eram muito piedosas. Para obterem compreensão espiritual e entender Deus, todos praticavam o sistema de yoga místico. Porque todos viviam absortos em samādhi, ninguém se interessava pelo gozo dos sentidos materiais. Durante Tretā-yuga, as pessoas desfrutavam de prazer sexual sem tribulações. Os sofrimentos materiais começaram em Dvāpara-yuga, mas não eram muito severos. Os sofrimentos materiais de grande intensidade começaram de fato com o advento de Kali-yuga.
Outro aspecto visto neste verso é que, em todos esses oito varṣas celestiais, embora homens e mulheres desfrutem de prazer sexual, não há gravidez. A gravidez ocorre somente em vidas de grau inferior. Por exemplo, os animais como cadelas e porcas engravidam duas vezes por ano e, em cada gravidez, geram-se pelo menos meia dúzia de filhotes. Espécies de vida mais inferior, tais como as serpentes, costumam dar à luz centenas de filhotes de uma só vez. Este verso nos informa que, em graus de vida superiores ao nosso, a gravidez ocorre apenas uma única vez na vida. Embora as pessoas vivam em plena atividade sexual, não existe gravidez. No mundo espiritual, devido à sua elevada atitude devocional, as pessoas não se sentem muito atraídas pela vida sexual. Para sermos precisos, diríamos que não existe vida sexual no mundo espiritual, porém, mesmo que às vezes isso ocorra, a gravidez está fora de cogitação. Contudo, no planeta Terra, os seres humanos engravidam, embora sua tendência seja evitar ter filhos. Nesta pecaminosa era de Kali, as pessoas chegaram ao ponto de recorrer ao artifício de matar os filhos ainda no ventre. Essa prática é muitíssimo degradada e não faz nada além de perpetuar as dolorosas condições materiais daqueles que a executam.
Devanagari
यत्र ह देवपतय: स्वै: स्वैर्गणनायकैर्विहितमहार्हणा: सर्वर्तुकुसुमस्तबकफलकिसलयश्रियाऽऽनम्यमानविटपलता विटपिभिरुपशुम्भमानरुचिरकाननाश्रमायतनवर्षगिरिद्रोणीषु तथा चामलजलाशयेषु विकचविविधनववनरुहामोदमुदितराजहंसजलकुक्कुटकारण्डवसारसचक्रवाकादिभिर्मधुकरनिकराकृतिभिरुपकूजितेषु जलक्रीडादिभिर्विचित्रविनोदै: सुललितसुरसुन्दरीणां कामकलिलविलासहासलीलावलोकाकृष्टमनोदृष्टय: स्वैरं विहरन्ति ॥ १३ ॥
Verse text
yatra ha deva-patayaḥ svaiḥ svair gaṇa-nāyakair vihita-mahārhaṇāḥ sarvartu-kusuma-stabaka-phala-kisalaya-śriyānamyamāna-viṭapa-latā-viṭapibhir upaśumbhamāna-rucira-kānanāśramāyatana-varṣa-giri-droṇīṣu tathā cāmala-jalāśayeṣu vikaca-vividha-nava-vanaruhāmoda-mudita-rāja-haṁsa-jala-kukkuṭa-kāraṇḍava-sārasa-cakravākādibhir madhukara-nikarākṛtibhir upakūjiteṣu jala-krīḍādibhir vicitra-vinodaiḥ sulalita-sura-sundarīṇāṁ kāma-kalila-vilāsa-hāsa-līlāvalokākṛṣṭa-mano-dṛṣṭayaḥ svairaṁ viharanti.
Synonyms
yatra ha — nesses oito trechos de terra; deva-patayaḥ — os senhores dos semideuses, como, por exemplo, o senhor Indra; svaiḥ svaiḥ — pelos seus próprios respectivos; gaṇa-nāyakaiḥ — líderes dos servos; vihita — supridos com; mahā-arhaṇāḥ — presentes valiosos, tais como polpa de sândalo e guirlandas; sarva-ṛtu — em todas as estações; kusuma-stabaka — de cachos de flores; phala — de frutas; kisalaya-śriyā — pelas opulências de brotos; ānamyamāna — curvando-se; viṭapa — cujos galhos; latā — e trepadeiras; viṭapibhiḥ — por muitas árvores; upaśumbhamāna — estando plenamente decorados; rucira — belos; kānana — jardins; āśrama-āyatana — e muitos eremitérios; varṣa-giri-droṇīṣu — os vales entre as montanhas que estabelecem os limites dos trechos de terra; tathā — bem como; ca — também; amala-jala-āśayeṣu — nos lagos com água cristalina; vikaca — que acabam de desabrochar; vividha — muitas variedades; nava-vanaruha-āmoda — pela fragrância das flores de lótus; mudita — entusiasmados; rāja-haṁsa — grandes cisnes; jala-kukkuṭa — galinha-d’água; kāraṇḍava — aves aquáticas chamadas kāraṇḍavas; sārasa — grous; cakravāka-ādibhiḥ — pelos pássaros conhecidos como cakravākas e assim por diante; madhukara-nikara-ākṛtibhiḥ — pelas abelhas; upakūjiteṣu — que nasceram para zunir; jala-krīḍā-ādibhiḥ — tais como diversões na água; vicitra — vários; vinodaiḥ — pelos passatempos; su-lalita — atrativos; sura-sundarīṇām — das mulheres dos semideuses; kāma — da luxúria; kalila — nascidos; vilāsa — passatempos; hāsa — sorrindo; līlā-avaloka — pelos olhares faceiros; ākṛṣṭa-manaḥ — cujas mentes deixam-se atrair; dṛṣṭayaḥ — e cuja visão sente-se atraída; svairam — com muita liberdade; viharanti — ocupam-se em folguedos.
Translation
Em cada uma dessas extensões de terra, existem muitos jardins repletos de flores e frutas sazonais, e existem também eremitérios belamente decorados. Entre as grandes montanhas que demarcam essas terras, encontram-se enormes lagos de água cristalina, cheios de flores de lótus recém-desabrochadas. As aves aquáticas, tais como os cisnes, patos, galinhas-d’água e grous ficam muito agitadas com a fragrância das flores de lótus, e o som fascinante das abelhas invade o ar. Os habitantes dessas terras são líderes importantes entre os semideuses. Sempre servidos por seus respectivos servos, gozam da vida em jardins ao longo dos lagos. Nessa situação agradável, as esposas dos semideuses sorriem de modo galhofeiro para seus esposos e olham para eles com desejos luxuriosos. Todos os semideuses e suas esposas estão constantemente recebendo de seus servos polpa de sândalo e guirlandas de flores. Dessa maneira, todos os habitantes dos oito varṣas celestiais deleitam-se, atraídos pelas atividades do sexo oposto.
Purport
SIGNIFICADO—Aqui temos uma descrição dos planetas celestiais inferiores. Os habitantes desses planetas desfrutam a vida em uma atmosfera agradável, onde há lagos límpidos repletos de flores de lótus recém-desabrochadas e jardins cheios de frutas, flores, várias espécies de pássaros e abelhas a zumbirem. Nessa atmosfera, gozam da vida com suas belíssimas esposas, que sempre estão excitadas sexualmente. Todavia, como se explicará nos versos subsequentes, todos eles são devotos da Suprema Personalidade de Deus. Os habitantes desta Terra também desejam semelhante prazer celestial, mas, quando, de alguma forma, obtêm ditos desfrutes, tais como sexo e intoxicação, esquecem-se por completo de servir ao Senhor Supremo. No entanto, embora nos planetas celestiais os habitantes tenham acesso a um gozo sensorial superior, eles nunca se esquecem de que são servos eternos do Ser Supremo.
Devanagari
नवस्वपि वर्षेषु भगवान्नारायणो महापुरुष: पुरुषाणां तदनुग्रहायात्मतत्त्वव्यूहेनात्मनाद्यापि सन्निधीयते ॥ १४ ॥
Verse text
navasv api varṣeṣu bhagavān nārāyaṇo mahā-puruṣaḥ puruṣāṇāṁ tad-anugrahāyātma-tattva-vyūhenātmanādyāpi sannidhīyate.
Synonyms
navasu — nos nove; api — com certeza; varṣeṣu — trechos de terra conhecidos como varṣas; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; nārāyaṇaḥ — Senhor Viṣṇu; mahā-puruṣaḥ — a Pessoa Suprema; puruṣāṇām — a Seus vários devotos; tat-anugrahāya — para mostrar Sua misericórdia; ātma-tattva-vyūhena — mediante Suas expansões sob as formas quádruplas de Vāsudeva, Saṅkarṣaṇa, Pradyumna e Aniruddha; ātmanā — pessoalmente; adya api — até agora; sannidhīyate — está perto dos devotos para aceitar-lhes o serviço.
Translation
Para mostrar misericórdia aos Seus devotos que residem em cada uma dessas nove extensões de terra, a Suprema Personalidade de Deus, conhecido como Nārāyaṇa, expande-Se nos princípios quádruplos de Vāsudeva, Saṅkarṣaṇa, Pradyumna e Aniruddha. Dessa maneira, Ele permanece perto de Seus devotos para aceitar-lhes o serviço.
Purport
SIGNIFICADO—Em relação a isso, Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura nos informa que os semideuses adoram o Senhor Supremo sob Suas várias formas de Deidades (arcā-vigraha) porque, exceto no mundo espiritual, a pessoa da Suprema Personalidade de Deus não pode ser adorada diretamente. No mundo material, o Senhor é sempre adorado como o arcā-vigraha, ou a Deidade no templo. Não há diferença entre o arcā-vigraha e a pessoa original, de modo que devemos considerar que aqueles que, mesmo neste planeta, ocupam-se em adorar a Deidade no templo com plena opulência, estão sem dúvida em contato direto com a Suprema Personalidade de Deus. Os śāstras prescrevem que arcye viṣṇau śilā-dhīr guruṣu nara-matiḥ: “Ninguém deve tratar a Deidade do templo como pedra ou metal, tampouco deve alguém pensar que o mestre espiritual é um ser humano comum.” Convém seguirmos estritamente este preceito do śāstra e, sem cometer ofensas, devemos adorar a Deidade, a Suprema Personalidade de Deus. O mestre espiritual é o representante direto do Senhor, e ninguém deve considerá-lo um ser humano comum. Quem evita cometer ofensas contra a Deidade e o mestre espiritual pode avançar na vida espiritual, ou em consciência de Kṛṣṇa.
A esse respeito, a seguinte citação aparece no Laghu-bhāgavatāmṛta:
pādme tu parama-vyomnaḥ
pūrvādye dik-catuṣṭaye
vāsudevādayo vyūhaś
catvāraḥ kathitāḥ kramāt
pūrvādye dik-catuṣṭaye
vāsudevādayo vyūhaś
catvāraḥ kathitāḥ kramāt
tathā pāda-vibhūtau ca
nivasanti kramādi me
jalāvṛti-stha-vaikuṇṭha-
sthita vedavatī-pure
nivasanti kramādi me
jalāvṛti-stha-vaikuṇṭha-
sthita vedavatī-pure
satyordhve vaiṣṇave loke
nityākhye dvārakā-pure
śuddhodād uttare śveta-
dvīpe cairāvatī-pure
kṣīrāmbudhi-sthitānte
kroḍa-paryaṅka-dhāmani
nityākhye dvārakā-pure
śuddhodād uttare śveta-
dvīpe cairāvatī-pure
kṣīrāmbudhi-sthitānte
kroḍa-paryaṅka-dhāmani
sātvatīye kvacit tantre
nava vyūhāḥ prakīrtitāḥ
catvāro vāsudevādyā
nārāyaṇa-nṛsiṁhakau
nava vyūhāḥ prakīrtitāḥ
catvāro vāsudevādyā
nārāyaṇa-nṛsiṁhakau
hayagrīvo mahā-kroḍo
brahmā ceti navoditāḥ
tatra brahmā tu vijñeyaḥ
pūrvokta-vidhayā hariḥ
brahmā ceti navoditāḥ
tatra brahmā tu vijñeyaḥ
pūrvokta-vidhayā hariḥ
No Padma Purāṇa, afirma-se que, no mundo espiritual, o Senhor expande-Se pessoalmente em todas as direções e é adorado como Vāsudeva, Saṅkarṣaṇa, Pradyumna e Aniruddha. Neste mundo material, que é apenas um quarto de Sua criação, esse mesmo Deus é representado sob a forma da Deidade. Vāsudeva, Saṅkarṣaṇa, Pradyumna e Aniruddha também estão presentes nas quatro direções deste mundo material. Neste mundo material, existe um Vaikuṇṭhaloka coberto de água e, nesse planeta, há um lugar chamado Vedavatī, onde Se encontra Vāsudeva. Outro planeta, conhecido como Viṣṇuloka, localiza-se acima de Satyaloka, e ali Saṅkarṣaṇa está presente. Igualmente, em Dvārakā-purī, Pradyumna predomina. Na ilha conhecida como Śvetadvīpa, existe um oceano de leite e, em meio a esse oceano, há um lugar chamado Airāvatī-pura, onde Aniruddha repousa sobre Ananta. Em alguns dos sātvata-tantras, consta a descrição dos nove varṣas e da respectiva Deidade predominante: (1) Vāsudeva, (2) Saṅkarṣaṇa, (3) Pradyumna, (4) Aniruddha, (5) Nārāyaṇa, (6) Nṛsiṁha, (7) Hayagrīva, (8) Mahāvarāha e (9) Brahmā.” O senhor Brahmā mencionado neste contexto é a Suprema Personalidade de Deus. Quando faltam seres humanos que tenham se qualificado para agir como o senhor Brahmā, o próprio Senhor assume o posto de Brahmā. Tatra brahmā tu vijñeyaḥ pūrvokta-vidhayā hariḥ. Esse Brahmā aqui mencionado é Hari.
Devanagari
इलावृते तु भगवान् भव एक एव पुमान्न ह्यन्यस्तत्रापरो निर्विशति भवान्या: शापनिमित्तज्ञो यत्प्रवेक्ष्यत: स्त्रीभावस्तत्पश्चाद्वक्ष्यामि ॥ १५ ॥
Verse text
ilāvṛte tu bhagavān bhava eka eva pumān na hy anyas tatrāparo nirviśati bhavānyāḥ śāpa-nimitta-jño yat-pravekṣyataḥ strī-bhāvas tat paścād vakṣyāmi.
Synonyms
ilāvṛte — no trecho de terra conhecido como Ilāvṛta-varṣa; tu — mas; bhagavān — o poderosíssimo; bhavaḥ — senhor Śiva; eka — apenas; eva — decerto; pumān — pessoa do sexo masculino; na — não; hi — com certeza; anyaḥ — nenhum outro; tatra — ali; aparaḥ — a mais; nirviśati — entra; bhavānyāḥ śāpa-nimitta-jñaḥ — que conhece a causa da maldição de Bhavānī, esposa do senhor Śiva; yat-pravekṣyataḥ — de alguém que ousa entrar nesse trecho de terra; strī-bhāvaḥ — transformação em mulher; tat — isto; paścāt — mais tarde; vakṣyāmi — explicarei.
Translation
Śukadeva Gosvāmī disse: No trecho de terra conhecido como Ilāvṛta-varṣa, o único homem é o senhor Śiva, o semideus mais poderoso. A deusa Durgā, esposa do senhor Śiva, não gosta de que homem algum entre naquela terra. Se algum tolo ousa fazê-lo, ela imediatamente o transforma em mulher. Explicarei isso oportunamente [no nono canto do Śrīmad-Bhāgavatam].
Devanagari
भवानीनाथै: स्त्रीगणार्बुदसहस्रैरवरुध्यमानो भगवतश्चतुर्मूर्तेर्महापुरुषस्य तुरीयां तामसीं मूर्तिं प्रकृतिमात्मन: सङ्कर्षणसंज्ञामात्मसमाधिरूपेण सन्निधाप्यैतदभिगृणन् भव उप-धावति ॥ १६ ॥
Verse text
bhavānī-nāthaiḥ strī-gaṇārbuda-sahasrair avarudhyamāno bhagavataś catur-mūrter mahā-puruṣasya turīyāṁ tāmasīṁ mūrtiṁ prakṛtim ātmanaḥ saṅkarṣaṇa-saṁjñām ātma-samādhi-rūpeṇa sannidhāpyaitad abhigṛṇan bhava upadhāvati.
Synonyms
bhavānī-nāthaiḥ — pela companhia de Bhavānī; strī-gaṇa — de mulheres; arbuda-sahasraiḥ — por dez bilhões; avarudhyamānaḥ — sempre sendo servido; bhagavataḥ catuḥ-mūrteḥ — a Suprema Personalidade de Deus, que Se expande em quatro; mahā-puruṣasya — da Pessoa Suprema; turīyām — a quarta expansão; tāmasīm — relacionada com o modo da ignorância; mūrtim — a forma; prakṛtim — como a fonte; ātmanaḥ — dele mesmo (senhor Śiva); saṅkarṣaṇa-saṁjñām — conhecido como Saṅkarṣaṇa; ātma-samādhi-rūpeṇa — meditando nEle em transe, sannidhāpya — trazendo-O para perto; etat — isto; abhigṛṇan — cantando nitidamente; bhavaḥ — o senhor Śiva; upadhāvati — adora.
Translation
Em Ilāvṛta-varṣa, o senhor Śiva está sempre rodeado pelos dez bilhões de criadas da deusa Durgā, que lhe prestam serviços. A expansão quádrupla do Senhor Supremo é composta de Vāsudeva, Pradyumna, Aniruddha e Saṅkarṣaṇa. Saṅkarṣaṇa, a quarta expansão, é certamente transcendental, porém, como no mundo material Suas atividades de destruição estão no modo da ignorância, Ele é conhecido como tāmasī, o Senhor cuja forma está no modo da ignorância. Sabendo que Saṅkarṣaṇa é a causa que origina sua própria existência, o senhor Śiva, cantando o seguinte mantra, absorve-se em transe e sempre medita em Saṅkarṣaṇa.
Purport
SIGNIFICADO—Às vezes, vemos um quadro do senhor Śiva dedicando-se a meditar. Este verso esclarece que, em transe, o senhor Śiva está sempre meditando no Senhor Saṅkarṣaṇa. O senhor Śiva é encarregado da destruição do mundo material. O senhor Brahmā cria o mundo material, o Senhor Viṣṇu o mantém e o senhor Śiva o destrói. Porque a destruição está no modo da ignorância, o senhor Śiva e sua Deidade adorável, Saṅkarṣaṇa, tecnicamente são chamados de tāmasī. O senhor Śiva é a encarnação de tamo-guṇa. Uma vez que tanto o senhor Śiva quanto Saṅkarṣaṇa, sempre iluminados, situam-se em uma posição transcendental, eles nada têm a ver com os modos da natureza material – bondade, paixão e ignorância –, porém, como suas atividades os envolvem com o modo da ignorância, às vezes eles são chamados de tāmasī.
Devanagari
श्रीभगवानुवाच
ॐ नमो भगवते महापुरुषाय सर्वगुणसङ्ख्यानायानन्तायाव्यक्ताय नम इति ॥ १७ ॥
ॐ नमो भगवते महापुरुषाय सर्वगुणसङ्ख्यानायानन्तायाव्यक्ताय नम इति ॥ १७ ॥
Verse text
śrī-bhagavān uvāca
oṁ namo bhagavate mahā-puruṣāya sarva-guṇa-saṅkhyānāyānantāyāvyaktāya nama iti.
oṁ namo bhagavate mahā-puruṣāya sarva-guṇa-saṅkhyānāyānantāyāvyaktāya nama iti.
Synonyms
śrī-bhagavān uvāca — o poderosíssimo senhor Śiva diz; om namo bhagavate — ó Suprema Personalidade de Deus, ofereço-Vos minhas respeitosas reverências; mahā-puruṣāya — que sois a Pessoa Suprema; sarva-guṇa-saṅkhyānāya — o reservatório de todas as qualidades transcendentais; anantāya — o ilimitado; avyaktāya — imanifesto dentro do mundo material; namaḥ — minhas respeitosas reverências; iti — assim.
Translation
O poderosíssimo senhor Śiva diz: Ó Suprema Personalidade de Deus, estando Vós sob essa Vossa expansão de Senhor Saṅkarṣaṇa, aproveito para oferecer-Vos minhas respeitosas reverências. Sois o reservatório de todas as qualidades transcendentais. Embora sejais ilimitado, permaneceis imanifesto para os não-devotos.
Devanagari
भजे भजन्यारणपादपङ्कजंभगस्य कृत्स्नस्य परं परायणम् । भक्तेष्वलं भावितभूतभावनंभवापहं त्वा भवभावमीश्वरम् ॥ १८ ॥
Verse text
bhaje bhajanyāraṇa-pāda-paṅkajaṁ
bhagasya kṛtsnasya paraṁ parāyaṇam
bhakteṣv alaṁ bhāvita-bhūta-bhāvanaṁ
bhavāpahaṁ tvā bhava-bhāvam īśvaram
bhagasya kṛtsnasya paraṁ parāyaṇam
bhakteṣv alaṁ bhāvita-bhūta-bhāvanaṁ
bhavāpahaṁ tvā bhava-bhāvam īśvaram
Synonyms
bhaje — adoro; bhajanya — ó Senhor adorável; araṇa-pāda-paṅkajam — cujos pés de lótus protegem de todas as situações temerosas aqueles que são Vossos devotos; bhagasya — de opulências; kṛtsnasya — de todas as diferentes variedades (riqueza, fama, força, conhecimento, beleza e renúncia); param — o melhor; parāyaṇam — o refúgio definitivo; bhakteṣu — para os devotos; alam — inestimável; bhāvita-bhūta-bhāvanam — que manifestais Vossas diferentes formas para satisfazer Vossos devotos; bhava-apaham — que acabais com a repetição de nascimentos e mortes dos devotos; tvā — a Vós; bhava-bhāvam — que sois a origem da criação material; īśvaram — a Suprema Personalidade de Deus.
Translation
Ó meu Senhor, sois a única pessoa adorável, pois sois a Suprema Personalidade de Deus, o reservatório de todas as opulências. Vossos seguros pés de lótus são a única fonte de proteção para todos os Vossos devotos, os quais satisfazeis manifestando-Vos em várias formas. Ó meu Senhor, libertais das garras da existência material os Vossos devotos. Contudo, por Vossa vontade, os não-devotos permanecem emaranhados na existência material. Por favor, aceitai-me como Vosso servo eterno.
Devanagari
न यस्य मायागुणचित्तवृत्तिभि-र्निरीक्षतो ह्यण्वपि दृष्टिरज्यते । ईशे यथा नोऽजितमन्युरंहसांकस्तं न मन्येत जिगीषुरात्मन: ॥ १९ ॥
Verse text
na yasya māyā-guṇa-citta-vṛttibhir
nirīkṣato hy aṇv api dṛṣṭir ajyate
īśe yathā no ’jita-manyu-raṁhasāṁ
kas taṁ na manyeta jigīṣur ātmanaḥ
nirīkṣato hy aṇv api dṛṣṭir ajyate
īśe yathā no ’jita-manyu-raṁhasāṁ
kas taṁ na manyeta jigīṣur ātmanaḥ
Synonyms
na — jamais; yasya — cuja; māyā — da energia ilusória; guṇa — nas qualidades; citta — do coração; vṛttibhiḥ — pelas atividades (pensar, sentir e querer); nirīkṣataḥ — dEle que está lançando um olhar; hi — com certeza; aṇu — levemente; api — nem mesmo; dṛṣṭiḥ — visão; ajyate — é afetada; īśe — com o propósito de regular; yathā — como; naḥ — de nós; ajita — que não dominamos; manyu — da ira; raṁhasām — a força; kaḥ — quem; tam — a Ele (o Senhor Supremo); na — não; manyeta — adoraria; jigīṣuḥ — desejando controlar; ātmanaḥ — os sentidos.
Translation
Não podemos controlar a força de nossa ira. Portanto, quando olhamos para as coisas materiais, não podemos evitar de sentir atração ou aversão por elas. Mas o Senhor Supremo jamais Se deixa afetar dessa maneira. Embora Ele lance Seu olhar sobre o mundo material com o propósito de criar, manter ou destruí-lo, Ele não Se deixa afetar nem um pouco. Portanto, quem deseja dominar a força dos sentidos deve refugiar-se aos pés de lótus do Senhor. Ele, então, sairá vitorioso.
Purport
SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus está sempre munida de potências inconcebíveis. Embora Ele lance Seu olhar sobre a energia material para que a criação ocorra, Ele não Se deixa afetar pelos modos da natureza material. Devido à Sua posição eternamente transcendental, quando a Suprema Personalidade de Deus aparece neste mundo material, os modos da natureza material não podem afetá-lO. Portanto, o Senhor Supremo é chamado de Transcendente, e todo aquele que deseja ficar bem protegido da influência dos modos da natureza material deve refugiar-se nEle.
Devanagari
असद्दृशो य: प्रतिभाति मायया क्षीबेव मध्वासवताम्रलोचन: । न नागवध्वोऽर्हण ईशिरे ह्रियायत्पादयो: स्पर्शनधर्षितेन्द्रिया: ॥ २० ॥
Verse text
asad-dṛśo yaḥ pratibhāti māyayā
kṣībeva madhv-āsava-tāmra-locanaḥ
na nāga-vadhvo ’rhaṇa īśire hriyā
yat-pādayoḥ sparśana-dharṣitendriyāḥ
kṣībeva madhv-āsava-tāmra-locanaḥ
na nāga-vadhvo ’rhaṇa īśire hriyā
yat-pādayoḥ sparśana-dharṣitendriyāḥ
Synonyms
asat-dṛśaḥ — para uma pessoa cuja visão é contaminada; yaḥ — quem; pratibhāti — parece; māyayā — a influência de māyā; kṣībaḥ — alguém que está embriagado ou irado; iva — como; madhu — pelo mel; āsava — e bebida; tāmra-locanaḥ — tendo olhos avermelhados como cobre; na — não; nāga-vadhvaḥ — as esposas da serpente demoníaca; arhaṇe — à adoração; īśire — mostraram-se incapazes de dar continuidade; hriyā — devido ao acanhamento; yat-pādayoḥ — de cujos pés de lótus; sparśana — pelo contato; dharṣita — agitados; indriyāḥ — cujos sentidos.
Translation
Para as pessoas que têm uma visão impura, os olhos do Senhor Supremo assemelham-se aos de alguém que consome bebidas embriagantes indiscriminadamente. Confusas, semelhantes pessoas ininteligentes se iram contra o Senhor Supremo, e, como elas apresentam esse temperamento irascível, o próprio Senhor parece irado e muito amedrontador. Contudo, isso é uma ilusão. Ao ficarem agitadas pelo contato com os pés de lótus do Senhor, as esposas da serpente demoníaca, devido à timidez, não puderam dar continuidade à adoração que Lhe prestavam. Todavia, o Senhor não Se deixou agitar pelo contato com elas, visto que, em todas as circunstâncias, Ele Se mantém controlado. Portanto, quem se negaria a adorar a Suprema Personalidade de Deus?
Purport
SIGNIFICADO—Todo aquele que não se deixa agitar nem mesmo em ocasiões onde haja motivos para agitação, chama-se dhīra, ou controlado. A Suprema Personalidade de Deus, estando sempre em uma posição transcendental, jamais Se deixa agitar pelo que quer que seja. Portanto, alguém que queira tornar-se dhīra deve refugiar-se aos pés de lótus do Senhor. Na Bhagavad-gītā (2.13), Kṛṣṇa diz que dhīras tatra na muhyati: a pessoa que mantém o controle em todas as circunstâncias jamais se confunde. Prahlāda Mahārāja é o exemplo perfeito de um dhīra. Quando a forma feroz de Nṛsiṁhadeva apareceu para matar Hiraṇyakaśipu, Prahlāda não se agitou. Ele permaneceu calmo e sereno, enquanto outros, incluindo o próprio senhor Brahmā, ficaram assustados com as feições do Senhor.
Devanagari
यमाहुरस्य स्थितिजन्मसंयमंत्रिभिर्विहीनं यमनन्तमृषय: । न वेद सिद्धार्थमिव क्वचित्स्थितंभूमण्डलं मूर्धसहस्रधामसु॒ ॥ २१ ॥
Verse text
yam āhur asya sthiti-janma-saṁyamaṁ
tribhir vihīnaṁ yam anantam ṛṣayaḥ
na veda siddhārtham iva kvacit sthitaṁ
bhū-maṇḍalaṁ mūrdha-sahasra-dhāmasu
tribhir vihīnaṁ yam anantam ṛṣayaḥ
na veda siddhārtham iva kvacit sthitaṁ
bhū-maṇḍalaṁ mūrdha-sahasra-dhāmasu
Synonyms
yam — quem; āhuḥ — disseram; asya — do mundo material; sthiti — a manutenção; janma — criação; saṁyamam — aniquilação; tribhiḥ — essas três; vihīnam — sem; yam — o qual; anantam — ilimitado; ṛṣayaḥ — todos os grandes sábios; na — não; veda — tem a sensação de; siddha-artham — uma semente de mostarda; iva — como; kvacit — onde; sthitam — situado; bhū-maṇḍalam — o universo; mūrdha-sahasra-dhāmasu — sobre as centenas e milhares de capelos do Senhor.
Translation
O senhor Śiva prosseguiu: Todos os grandes sábios aceitam o Senhor como a fonte da criação, manutenção e destruição, embora, em verdade, Ele não tenha qualquer ligação com essas atividades. Portanto, o Senhor é chamado de ilimitado. Embora em Sua encarnação de Śeṣa o Senhor mantenha todos os universos sobre Seus capelos, para Ele cada universo não pesa mais do que uma semente de mostarda. Portanto, quem é a pessoa que, desejando a perfeição, deixaria de adorar o Senhor?
Purport
SIGNIFICADO—A encarnação da Suprema Personalidade de Deus conhecida como Śeṣa ou Ananta tem força, fama, riqueza, conhecimento, beleza e renúncia ilimitados. Como descreve este verso, a força de Ananta é tamanha que os inúmeros universos repousam sobre Seus capelos. Sua feição corpórea é de uma serpente com milhares de capelos, e, como Sua força é ilimitada, todos os universos que repousam sobre Seus capelos não Lhe parecem mais pesados do que sementes de mostarda. É fácil imaginar quão insignificante é uma semente de mostarda que está sobre o capelo de uma serpente. Com relação a isso, o leitor deve consultar o Śrī Caitanya-caritāmṛta, Ādi-līlā, capítulo cinco, versos 117-125, onde se afirma que a encarnação do Senhor Viṣṇu sob a forma da serpente Ananta Śeṣa Nāga sustenta em Seus capelos todos os universos. Na nossa concepção, talvez um universo seja muitíssimo pesado, mas, como o Senhor é ananta (ilimitado), para Ele isso não é mais pesado do que uma semente de mostarda.
Devanagari
यस्याद्य आसीद् गुणविग्रहो महान्विज्ञानधिष्ण्यो भगवानज: किल । यत्सम्भवोऽहं त्रिवृता स्वतेजसावैकारिकं तामसमैन्द्रियं सृजे ॥ २२ ॥ एते वयं यस्य वशे महात्मन:स्थिता: शकुन्ता इव सूत्रयन्त्रिता: । महानहं वैकृततामसेन्द्रिया:सृजाम सर्वे यदनुग्रहादिदम् ॥ २३ ॥
Verse text
yasyādya āsīd guṇa-vigraho mahān
vijñāna-dhiṣṇyo bhagavān ajaḥ kila
yat-sambhavo ’haṁ tri-vṛtā sva-tejasā
vaikārikaṁ tāmasam aindriyaṁ sṛje
vijñāna-dhiṣṇyo bhagavān ajaḥ kila
yat-sambhavo ’haṁ tri-vṛtā sva-tejasā
vaikārikaṁ tāmasam aindriyaṁ sṛje
ete vayaṁ yasya vaśe mahātmanaḥ
sthitāḥ śakuntā iva sūtra-yantritāḥ
mahān ahaṁ vaikṛta-tāmasendriyāḥ
sṛjāma sarve yad-anugrahād idam
sthitāḥ śakuntā iva sūtra-yantritāḥ
mahān ahaṁ vaikṛta-tāmasendriyāḥ
sṛjāma sarve yad-anugrahād idam
Synonyms
yasya — de quem; ādyaḥ — o começo; āsīt — havia; guṇa-vigrahaḥ — a encarnação das qualidades materiais; mahān — a totalidade da energia material; vijñāna — do conhecimento pleno; dhiṣṇyaḥ — o reservatório; bhagavān — o poderosíssimo; ajaḥ — senhor Brahmā; kila — decerto; yat — de quem; sambhavaḥ — nascido; aham — eu; tri-vṛtā — tendo três variedades, de acordo com os três modos da natureza; sva-tejasā — com meu poder material; vaikārikam — todos os semideuses; tāmasam — elementos materiais; aindriyam — os sentidos; sṛje — crio; ete — todos esses; vayam — nós; yasya — de quem; vaśe — sob o controle; mahā-ātmanaḥ — grandes personalidades; sthitāḥ — situadas; śakuntāḥ — abutres; iva — como; sūtra-yantritāḥ — amarrados a uma corda; mahān — o mahat-tattva; aham — eu; vaikṛta — os semideuses; tāmasa — os cinco elementos materiais; indriyāḥ — sentidos; sṛjāmaḥ — criamos; sarve — de todos nós; yat — de quem; anugrahāt — pela misericórdia; idam — este mundo material.
Translation
A partir da Suprema Personalidade de Deus, aparece o senhor Brahmā, cujo corpo é formado da totalidade da energia material, o reservatório de inteligência subjugado pelo modo da paixão da natureza material. Do senhor Brahmā, eu próprio nasço como uma representação do falso ego conhecida como Rudra. Com meu próprio poder, crio todos os outros semideuses, os cinco elementos e os sentidos. Portanto, adoro a Suprema Personalidade de Deus, que, maior do que qualquer um de nós, mantém sob Seu controle, como pássaros amarrados a uma corda, todos os semideuses, os elementos e sentidos materiais, e mesmo o senhor Brahmā e eu somos assim controlados. Somente pela graça do Senhor é que podemos criar, manter e aniquilar o mundo material. Portanto, ofereço minhas respeitosas reverências ao Ser Supremo.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, é apresentada uma descrição resumida da criação. De Saṅkarṣaṇa, Mahā-Viṣṇu expande-Se, e, de Mahā-Viṣṇu, Garbhodakaśāyī Viṣṇu. O senhor Brahmā, que nasceu de Garbhodakaśāyī Viṣṇu, produz o senhor Śiva, de quem surgem gradualmente todos os outros semideuses. O senhor Brahmā, o senhor Śiva e o Senhor Viṣṇu são encarnações das diferentes qualidades materiais. Na verdade, o Senhor Viṣṇu está acima de todas as qualidades materiais, mas, para manter o universo, Ele aceita controlar sattva-guṇa (o modo da bondade). O senhor Brahmā nasce do mahat-tattva. Brahmā cria o universo inteiro, o Senhor Viṣṇu o mantém e o senhor Śiva o aniquila. A Suprema Personalidade de Deus controla todos os semideuses mais importantes – em especial o senhor Brahmā e o senhor Śiva – assim como o dono de um pássaro controla o mesmo amarrando-o com uma corda. Às vezes, controlam-se os abutres dessa maneira.
Devanagari
यन्निर्मितां कर्ह्यपि कर्मपर्वणींमायां जनोऽयं गुणसर्गमोहित: । न वेद निस्तारणयोगमञ्जसातस्मै नमस्ते विलयोदयात्मने ॥ २४ ॥
Verse text
yan-nirmitāṁ karhy api karma-parvaṇīṁ
māyāṁ jano ’yaṁ guṇa-sarga-mohitaḥ
na veda nistāraṇa-yogam añjasā
tasmai namas te vilayodayātmane
māyāṁ jano ’yaṁ guṇa-sarga-mohitaḥ
na veda nistāraṇa-yogam añjasā
tasmai namas te vilayodayātmane
Synonyms
yat — por quem; nirmitām — criado; karhi api — a todo momento; karma-parvaṇīm — que amarra os nós das atividades fruitivas; māyām — a energia ilusória; janaḥ — uma pessoa; ayam — isto; guṇasarga-mohitaḥ — confundida pelos três modos da natureza material; na — não; veda — conhece; nistāraṇa-vogam — o processo de escapar do cativeiro material; añjasā — muito em breve; tasmai — a Ele (o Supremo); namaḥ — respeitosas reverências; te — a Vós; vilaya-udaya-ātmane — em quem tudo é aniquilado e de quem tudo volta a se manifestar.
Translation
A energia ilusória da Suprema Personalidade de Deus prende todos nós, almas condicionadas, neste mundo material. Portanto, enquanto não recebermos o favor dEle, pessoas como nós não poderão descobrir o meio para se escapar dessa energia ilusória. Ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor, que é a causa da criação e da aniquilação.
Purport
SIGNIFICADO—Kṛṣṇa diz claramente na Bhagavad-gītā (7.14):
daivī hy eṣā guṇa-mayī
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
“Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpô-la.” Todas as almas condicionadas, agindo dentro do domínio da energia ilusória do Senhor, consideram o corpo como o eu, e assim elas continuamente perambulam pelo universo, nascendo em diferentes espécies de vida e se envolvendo em mais e mais problemas. Às vezes, elas ficam contrariadas com os problemas e buscam um processo pelo qual possam escapar desse emaranhamento. Infelizmente, tais pretensos investigadores desconhecem a Suprema Personalidade de Deus e Sua energia ilusória, e assim todos eles agem apenas em trevas, nunca encontrando uma saída. Os supostos cientistas e avançados pesquisadores eruditos estão caindo no ridículo de tentar encontrar a causa da vida. Eles não percebem o fato de que a vida já está sendo produzida. Que mérito lhes caberá caso descubram a composição química da vida? Todas as suas substâncias químicas não passam de diferentes transformações dos cinco elementos – terra, água, fogo, ar e éter. Como se afirma na Bhagavad-gītā (2.20), a entidade viva nunca é criada (na jāyate mriyate vā kadācin). Existem cinco elementos materiais grosseiros e três elementos materiais sutis (mente, inteligência e ego), e existem as entidades vivas eternas. A entidade viva deseja uma certa espécie de corpo, e, por ordem da Suprema Personalidade de Deus, esse corpo é criado pela natureza material, que é meramente um tipo de máquina manejada pelo Senhor Supremo. O Senhor concede à entidade viva uma classe específica de corpo mecânico, o qual a entidade viva utiliza conforme as leis das atividades fruitivas. Descrevem-se neste verso as atividades fruitivas: karma-parvaṇīṁ māyām. A entidade viva está sentada em uma máquina (o corpo) e, de acordo com a ordem do Senhor Supremo, ela opera a máquina. Esse é o segredo da transmigração da alma de um corpo a outro. Assim, neste mundo material, a entidade viva se enreda em atividades fruitivas. A Bhagavad-gītā (15.7) afirma que manaḥ ṣaṣṭhānīndriyāṇi prakṛti-sthāni karṣati: a entidade viva está lutando muito arduamente contra os seis sentidos, entre os quais se inclui a mente.
Em todas as atividades da criação e aniquilação, a entidade viva se enreda em atividades fruitivas, que são executadas por māyā, a energia ilusória. Essa entidade viva é exatamente como um computador manejado pela Suprema Personalidade de Deus. Os pretensos cientistas dizem que a natureza age de maneira independente, mas eles não conseguem explicar o que é a natureza. A natureza é meramente uma máquina operada pela Suprema Personalidade de Deus. Ao entender o operador, a pessoa soluciona todos os problemas de sua vida. Como Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā (7.19):
bahūnāṁ janmanām ante
jñānavān māṁ prapadyate
vāsudevaḥ sarvam iti
sa mahātmā sudurlabhaḥ
jñānavān māṁ prapadyate
vāsudevaḥ sarvam iti
sa mahātmā sudurlabhaḥ
“Após muitos nascimentos e mortes, aquele que tem verdadeiro conhecimento rende-se a Mim, sabendo que sou a causa de todas as causas e de tudo o que existe. É muito raro encontrar semelhante grande alma.” O homem sóbrio, portanto, rende-se à Suprema Personalidade de Deus e, dessa maneira, escapa das garras de māyā, a energia ilusória.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do quinto canto, décimo sétimo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “A Descida do Rio Ganges”.