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Devanagari
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Translation
Purport
CAPÍTULO NOVE
Mãe Yaśodā Amarra o Senhor Kṛṣṇa
Enquanto permitia que Kṛṣṇa bebesse o leite de seu seio, mãe Yaśodā se viu forçada a parar porque notou o leite fervendo na panela e transbordando sobre o fogão. Como as criadas estavam ocupadas em outros afazeres, ela parou de dar seu seio para Kṛṣṇa mamar e imediatamente foi cuidar do leite que transbordava. Kṛṣṇa ficou muito irado devido ao comportamento de Sua mãe e planejou um meio de quebrar os potes de iogurte. Porque Ele criou essa perturbação, mãe Yaśodā decidiu amarrá-lO. Esses incidentes são descritos neste capítulo.
Certo dia, estando as criadas ocupadas em outra tarefa, mãe Yaśodā pessoalmente batia o iogurte para fazer manteiga, e, durante essa atividade, Kṛṣṇa veio e pediu-lhe que O deixasse mamar. É claro que mãe Yaśodā imediatamente aceitou Seu pedido, mas, nesse momento, ela viu que, sobre o fogão, o leite quente estava transbordando e, por isso, ela logo parou de dar seu seio para Kṛṣṇa mamar e foi tentar impedir que o leite transbordasse no fogão. Kṛṣṇa, entretanto, tendo sido impedido de continuar mamando, ficou muito irado. Ele pegou um pedaço de pedra, quebrou o pote onde se batia manteiga e entrou em um quarto, onde começou a comer a manteiga recém-batida. Quando mãe Yaśodā, após cuidar do leite que transbordava, regressou e viu o pote quebrado, ela pôde entender que aquilo era obra de Kṛṣṇa, de modo que ela foi procurá-lO. Ao entrar no quarto, ela viu Kṛṣṇa em pé sobre o ulūkhala, um grande pilão para moer especiarias. Tendo virado o pilão de cabeça para baixo, Ele estava roubando a manteiga suspensa a partir do teto e distribuía a manteiga aos macacos. Logo que viu Sua mãe chegando, Kṛṣṇa começou a correr, e mãe Yaśodā colocou-se a persegui-lO. Após percorrer alguma distância, mãe Yaśodā conseguiu agarrar Kṛṣṇa, que, devido à Sua ofensa, estava chorando. Mãe Yaśodā, evidentemente, ameaçou punir Kṛṣṇa se Ele voltasse a agir daquela maneira, e resolveu amarrá-lO com uma corda. Infelizmente, quando chegava a hora de dar o nó na corda, faltava uma distância de dois dedos de corda. Quando ela ampliou a corda, adicionando outra corda, viu que faltavam dois dedos mais uma vez. Repetidamente ela tentava, e repetidamente observava que à corda faltava o tamanho equivalente a dois dedos. Em razão disso, ela ficou muito cansada, e Kṛṣṇa, vendo a exaustão de Sua afetuosa mãe, consentiu em ser amarrado. Então, sentindo compaixão, Ele não lhe mostrou Sua potência ilimitada. Depois que mãe Yaśodā amarrou Kṛṣṇa e ocupou-se em outros afazeres domésticos, Kṛṣṇa notou a presença de duas árvores yamala-arjuna, as quais, na verdade, eram Nalakūvara e Maṇigrīva, dois filhos de Kuvera condenados por Nārada Muni a se tornarem árvores. Então, por Sua misericórdia, Kṛṣṇa começou a dirigir-Se até as árvores, a fim de que o desejo de Narada Muni se realizasse.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
एकदा गृहदासीषु यशोदा नन्दगेहिनी ।
कर्मान्तरनियुक्तासु निर्ममन्थ स्वयं दधि ॥ १ ॥
यानि यानीह गीतानि तद्बालचरितानि च ।
दधिनिर्मन्थने काले स्मरन्ती तान्यगायत ॥ २ ॥
एकदा गृहदासीषु यशोदा नन्दगेहिनी ।
कर्मान्तरनियुक्तासु निर्ममन्थ स्वयं दधि ॥ १ ॥
यानि यानीह गीतानि तद्बालचरितानि च ।
दधिनिर्मन्थने काले स्मरन्ती तान्यगायत ॥ २ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
ekadā gṛha-dāsīṣu
yaśodā nanda-gehinī
karmāntara-niyuktāsu
nirmamantha svayaṁ dadhi
ekadā gṛha-dāsīṣu
yaśodā nanda-gehinī
karmāntara-niyuktāsu
nirmamantha svayaṁ dadhi
yāni yānīha gītāni
tad-bāla-caritāni ca
dadhi-nirmanthane kāle
smarantī tāny agāyata
tad-bāla-caritāni ca
dadhi-nirmanthane kāle
smarantī tāny agāyata
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; ekadā — certo dia; gṛha-dāsīṣu — quando todas as criadas da casa estavam ocupadas em outras tarefas; yaśodā — mãe Yaśodā; nanda-gehinī — a rainha de Nanda Mahārāja; karma-antara — em outros afazeres domésticos; niyuktāsu — estando ocupadas; nirmamantha — batia; svayam — pessoalmente; dadhi — o iogurte; yāni — tudo isso; yāni — isso; iha — a este respeito; gītāni — canções; tat-bāla-caritāni — nas quais as atividades do seu próprio filho eram apresentadas; ca — e; dadhi-nirmanthane — enquanto batia o iogurte; kāle — naquele momento; smarantī — lembrando-se; tāni — de todas elas (sob a forma de canções); agāyata — recitava.
Translation
Śrī Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Certo dia, quando viu que todas as criadas estavam ocupadas em outras tarefas domésticas, mãe Yaśodā pessoalmente começou a bater o iogurte. Enquanto batia, lembrava-se das atividades infantis de Kṛṣṇa e, ao seu próprio modo, compunha canções e deliciava-se em declamar para si mesma todas aquelas atividades.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, citando o Vaiṣṇava-toṣaṇī, de Śrīla Sanātana Gosvāmī, diz que o episódio no qual Kṛṣṇa quebra o pote de iogurte e é amarrado por mãe Yaśodā aconteceu no dia de Dīpāvalī, ou Dīpa-mālikā. Mesmo na Índia de hoje, esse festival costuma ser celebrado com muita pompa no mês de kārtika, com fogos de artifício e luzes, em especial em Bombaim. Deve-se entender que, entre todas as vacas de Nanda Mahārāja, muitas das vacas de mãe Yaśodā comiam apenas gramas tão deliciosas que as gramas automaticamente davam sabor ao leite. Mãe Yaśodā queria pegar o leite dessas vacas, transformá-lo em iogurte e pessoalmente batê-lo até tornar-se manteiga, pois pensava que essa criança Kṛṣṇa ia às casas dos gopas e gopīs vizinhos para roubar manteiga porque não gostava do leite e do iogurte preparados da maneira habitual.
Enquanto batia a manteiga, mãe Yaśodā declamava as atividades infantis de Kṛṣṇa. Antigamente, era costume que, se alguém queria sempre lembrar-se de algo, transformava-o em poemas ou incumbia um poeta profissional para executar essa tarefa. Parece que mãe Yaśodā não queria esquecer-se das atividades de Kṛṣṇa em nenhum instante. Portanto, ela poetizou todas as atividades infantis de Kṛṣṇa, tais como o extermínio de Pūtanā, Aghāsura, Śakaṭāsura e Tṛṇāvarta, e, enquanto batia a manteiga, ela cantava essas atividades em forma de poemas. Isso deve ser adotado pelas pessoas ansiosas por permanecerem conscientes de Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia. Esse incidente mostra quão consciente de Kṛṣṇa era mãe Yaśodā. Para permanecermos em consciência de Kṛṣṇa, devemos seguir pessoas dessa natureza.
Devanagari
क्षौमं वास: पृथुकटितटे बिभ्रती सूत्रनद्धं
पुत्रस्नेहस्नुतकुचयुगं जातकम्पं च सुभ्रू: ।
रज्ज्वाकर्षश्रमभुजचलत्कङ्कणौ कुण्डले च
स्विन्नं वक्त्रं कबरविगलन्मालती निर्ममन्थ ॥ ३ ॥
पुत्रस्नेहस्नुतकुचयुगं जातकम्पं च सुभ्रू: ।
रज्ज्वाकर्षश्रमभुजचलत्कङ्कणौ कुण्डले च
स्विन्नं वक्त्रं कबरविगलन्मालती निर्ममन्थ ॥ ३ ॥
Verse text
kṣaumaṁ vāsaḥ pṛthu-kaṭi-taṭe bibhratī sūtra-naddhaṁ
putra-sneha-snuta-kuca-yugaṁ jāta-kampaṁ ca subhrūḥ
rajjv-ākarṣa-śrama-bhuja-calat-kaṅkaṇau kuṇḍale ca
svinnaṁ vaktraṁ kabara-vigalan-mālatī nirmamantha
putra-sneha-snuta-kuca-yugaṁ jāta-kampaṁ ca subhrūḥ
rajjv-ākarṣa-śrama-bhuja-calat-kaṅkaṇau kuṇḍale ca
svinnaṁ vaktraṁ kabara-vigalan-mālatī nirmamantha
Synonyms
kṣaumam — uma mistura de açafrão e amarelo; vāsaḥ — mãe Yaśodā usava esse sári; pṛthu-kaṭi-taṭe — em volta de seus quadris volumosos; bibhratī — tremendo; sūtra-naddham — presos com um cinto; putra-sneha-snuta — devido ao intenso amor pelo seu filho, tornavam-se úmidos de leite; kuca-yugam — os mamilos dos seus seios; jāta-kampam ca — conforme se moviam e se agitavam com elegância; su-bhrūḥ — que tinha belíssimas sobrancelhas; rajju-ākarṣa — puxando a corda para fazer a batedura; śrama — devido ao esforço; bhuja — sobre cujas mãos; calat-kaṅkaṇau — as duas pulseiras se moviam; kuṇḍale — os dois brincos; ca — também; svinnam — seu cabelo era negro como uma nuvem, de modo que transpirava como chuva; vaktram — pelo seu rosto; kabara-vigalat-mālatī — e flores mālatī caíam de seu cabelo; nirmamantha — assim, mãe Yaśodā batia a manteiga.
Translation
Vestindo um sári amarelo açafroado, com um cinto em volta de seus quadris volumosos, mãe Yaśodā puxava a corda própria para bater, fazendo um esforço considerável; suas pulseiras e brincos agitavam-se e vibravam e todo o seu corpo trepidava. Devido ao intenso amor que sentia pelo seu filho, seus seios estavam úmidos de leite. Seu rosto, com suas belíssimas sobrancelhas, transpirava copiosamente, e flores mālatī caíam de seu cabelo.
Purport
SIGNIFICADO—Qualquer um que deseje ser consciente de Kṛṣṇa em afeição materna ou afeição parental deve contemplar os aspectos físicos de mãe Yaśodā. Nem por isso alguém deve desejar tornar-se como Yaśodā, pois isso seria māyāvāda. Seja em afeição parental ou amor conjugal, amizade ou postura de servo – seja como for –, devemos seguir os passos dos habitantes de Vṛndāvana, e não tentar tornarmo-nos como eles. Portanto, temos aqui esta descrição. Os devotos avançados devem apreciar esta descrição, sempre pensando nos atributos de mãe Yaśodā – como ela se vestia, como ela trabalhava e transpirava, quão belamente as flores adornavam seu cabelo e assim por diante. Todos devem aproveitar-se da descrição completa aqui fornecida, pensando na afeição materna que mãe Yaśodā devotava a Kṛṣṇa.
Devanagari
तां स्तन्यकाम आसाद्य मथ्नन्तीं जननीं हरि: ।
गृहीत्वा दधिमन्थानं न्यषेधत् प्रीतिमावहन् ॥ ४ ॥
गृहीत्वा दधिमन्थानं न्यषेधत् प्रीतिमावहन् ॥ ४ ॥
Verse text
tāṁ stanya-kāma āsādya
mathnantīṁ jananīṁ hariḥ
gṛhītvā dadhi-manthānaṁ
nyaṣedhat prītim āvahan
mathnantīṁ jananīṁ hariḥ
gṛhītvā dadhi-manthānaṁ
nyaṣedhat prītim āvahan
Synonyms
tām — mãe Yaśodā; stanya-kāmaḥ — Kṛṣṇa, que desejava beber o leite de seu seio; āsādya — aparecendo diante dela; mathnantīm — enquanto ela estava batendo manteiga; jananīm — a mãe; hariḥ — Kṛṣṇa; gṛhītvā — agarrando; dadhi-manthānam — o bastão próprio para bater manteiga; nyaṣedhat — impediu; prītim āvahan — criando uma situação de amor e afeição.
Translation
Enquanto mãe Yaśodā batia manteiga, o Senhor Kṛṣṇa, desejando beber o leite de seu seio, apareceu diante dela e, para aumentar-lhe o prazer transcendental, agarrou o bastão próprio para bater a manteiga e, então, impediu-a de continuar executando sua tarefa.
Purport
SIGNIFICADO—Kṛṣṇa estava dormindo no quarto e, logo que despertou, sentiu fome e foi ter com Sua mãe. Querendo interromper-lhe o serviço para beber o leite de seu seio, Ele a impediu de mover o bastão próprio para bater manteiga.
Devanagari
तमङ्कमारूढमपाययत् स्तनं
स्नेहस्नुतं सस्मितमीक्षती मुखम् ।
अतृप्तमुत्सृज्य जवेन सा यया-
वुत्सिच्यमाने पयसि त्वधिश्रिते ॥ ५ ॥
स्नेहस्नुतं सस्मितमीक्षती मुखम् ।
अतृप्तमुत्सृज्य जवेन सा यया-
वुत्सिच्यमाने पयसि त्वधिश्रिते ॥ ५ ॥
Verse text
tam aṅkam ārūḍham apāyayat stanaṁ
sneha-snutaṁ sa-smitam īkṣatī mukham
atṛptam utsṛjya javena sā yayāv
utsicyamāne payasi tv adhiśrite
sneha-snutaṁ sa-smitam īkṣatī mukham
atṛptam utsṛjya javena sā yayāv
utsicyamāne payasi tv adhiśrite
Synonyms
tam — a Kṛṣṇa; aṅkam ārūḍham — muito afetuosamente permitindo sentar-Se em seu colo; apāyayat — deixou beber; stanam — seu seio; sneha-snutam — que derramava leite devido à intensa afeição; sa-smitam īkṣatī mukham — mãe Yaśodā sorria e observava o rosto sorridente de Kṛṣṇa; atṛptam — Kṛṣṇa, que ainda não Se satisfizera plenamente com o leite que bebera; utsṛjya — deixando-O de lado; javena — às pressas; sā — mãe Yaśodā; yayau — deixou aquele lugar; utsicyamāne payasi — por ver que o leite estava transbordando; tu — mas; adhiśrite — na leiteira sobre o fogão.
Translation
Então, mãe Yaśodā abraçou Kṛṣṇa, colocou-O sentado em seu colo e, com grande amor e afeição, começou a olhar para o rosto do Senhor. Devido à sua intensa afeição, o leite escorria de seu seio. Contudo, ao ver que, sobre o fogão, a leiteira estava com o leite fervendo e transbordando, ela imediatamente deixou seu filho e foi cuidar do leite que derramava, embora a criança ainda não estivesse plenamente satisfeita com a quantidade de leite que bebera do seio de Sua mãe.
Purport
SIGNIFICADO—Nos afazeres domésticos de mãe Yaśodā, tudo se destinava a Kṛṣṇa. Embora Kṛṣṇa estivesse bebendo o leite dos seios de mãe Yaśodā, quando ela viu que a leiteira na cozinha estava transbordando, ela teve de cuidar disso imediatamente, de modo que deixou seu filho. Kṛṣṇa zangou-Se muito, pois Ele não tinha ficado plenamente satisfeito com a quantidade de leite que bebera de seu seio. Às vezes, a pessoa deve executar diferentes etapas de uma mesma tarefa antes de concluí-la. Portanto, mãe Yaśodā não foi injusta ao deixar seu filho para cuidar do leite que transbordava. Na plataforma de amor e afeição, cabe ao devoto executar uma atividade primeiro e depois as outras. A intuição apropriada para se fazer isso é dada por Kṛṣṇa.
teṣāṁ satata-yuktānāṁ
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
bhajatāṁ prīti-pūrvakam
dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ
yena mām upayānti te
(Bhagavad-gītā 10.10)
Em consciência de Kṛṣṇa, tudo é dinâmico. Na plataforma da verdade absoluta, Kṛṣṇa guia o devoto para o que deve ser feito primeiro e para o que deve ser feita em seguida.
Devanagari
सञ्जातकोप: स्फुरितारुणाधरं
सन्दश्य दद्भिर्दधिमन्थभाजनम् ।
भित्त्वा मृषाश्रुर्दृषदश्मना रहो
जघास हैयङ्गवमन्तरं गत: ॥ ६ ॥
सन्दश्य दद्भिर्दधिमन्थभाजनम् ।
भित्त्वा मृषाश्रुर्दृषदश्मना रहो
जघास हैयङ्गवमन्तरं गत: ॥ ६ ॥
Verse text
sañjāta-kopaḥ sphuritāruṇādharaṁ
sandaśya dadbhir dadhi-mantha-bhājanam
bhittvā mṛṣāśrur dṛṣad-aśmanā raho
jaghāsa haiyaṅgavam antaraṁ gataḥ
sandaśya dadbhir dadhi-mantha-bhājanam
bhittvā mṛṣāśrur dṛṣad-aśmanā raho
jaghāsa haiyaṅgavam antaraṁ gataḥ
Synonyms
sañjāta-kopaḥ — dessa maneira, Kṛṣṇa estando muito irado; sphurita-aruṇa-adharam — lábios vermelhos inchados; sandaśya — capturando; dadbhiḥ — com Seus dentes; dadhi-mantha-bhājanam — o pote no qual o iogurte estava sendo batido; bhittvā — quebrando; mṛṣā-aśruḥ — com lágrimas falsas nos olhos; dṛṣat-aśmanā — com um pedaço de pedra; rahaḥ — em um lugar solitário; jaghāsa — começou a comer; haiyaṅgavam — a manteiga recém-batida; antaram — para dentro do quarto; gataḥ — tendo ido.
Translation
Estando muito irado e mordendo Seus lábios vermelhos com Seus dentes, Kṛṣṇa, com lágrimas falsas em Seus olhos, quebrou o recipiente de iogurte com um pedaço de pedra. Então, Ele entrou em um quarto e começou a comer em um lugar solitário a manteiga recém-batida.
Purport
SIGNIFICADO—É natural que, ao ficar irada, uma criança comece a chorar com lágrimas falsas em seus olhos. Foi esse o procedimento de Kṛṣṇa, que, mordendo Seus lábios vermelhos com Seus dentes, quebrou o pote com uma pedra, entrou em um quarto e começou a comer a manteiga recém-batida.
Devanagari
उत्तार्य गोपी सुशृतं पय: पुन:
प्रविश्य संदृश्य च दध्यमत्रकम् ।
भग्नं विलोक्य स्वसुतस्य कर्म त-
ज्जहास तं चापि न तत्र पश्यती ॥ ७ ॥
प्रविश्य संदृश्य च दध्यमत्रकम् ।
भग्नं विलोक्य स्वसुतस्य कर्म त-
ज्जहास तं चापि न तत्र पश्यती ॥ ७ ॥
Verse text
uttārya gopī suśṛtaṁ payaḥ punaḥ
praviśya saṁdṛśya ca dadhy-amatrakam
bhagnaṁ vilokya sva-sutasya karma taj
jahāsa taṁ cāpi na tatra paśyatī
praviśya saṁdṛśya ca dadhy-amatrakam
bhagnaṁ vilokya sva-sutasya karma taj
jahāsa taṁ cāpi na tatra paśyatī
Synonyms
uttārya — tirando do fogão; gopī — mãe Yaśodā; su-śṛtam — muito quente; payaḥ — o leite; punaḥ — novamente; praviśya — entrou no local onde se batia manteiga; saṁdṛśya — observando; ca — também; dadhi-amatrakam — o recipiente de iogurte; bhagnam — quebrado; vilokya — tendo isto; sva-sutasya — de seu próprio filho; karma — obra; tat — isso; jahāsa — sorriu; tam ca — Kṛṣṇa também; api — ao mesmo tempo; na — não; tatra — ali; paśyatī — encontrando.
Translation
Mãe Yaśodā, após retirar o leite quente do fogão, retornou ao local onde se batia leite, e, ao ver que o recipiente de iogurte fora quebrado e que Kṛṣṇa não estava presente, ela concluiu que Kṛṣṇa quebrara o pote.
Purport
SIGNIFICADO—Vendo o pote quebrado e Kṛṣṇa ausente, Yaśodā definitivamente concluiu que Kṛṣṇa quebrara o pote. Quanto a isso, não havia dúvida.
Devanagari
उलूखलाङ्घ्रेरुपरि व्यवस्थितं
मर्काय कामं ददतं शिचि स्थितम् ।
हैयङ्गवं चौर्यविशङ्कितेक्षणं
निरीक्ष्य पश्चात् सुतमागमच्छनै: ॥ ८ ॥
मर्काय कामं ददतं शिचि स्थितम् ।
हैयङ्गवं चौर्यविशङ्कितेक्षणं
निरीक्ष्य पश्चात् सुतमागमच्छनै: ॥ ८ ॥
Verse text
ulūkhalāṅghrer upari vyavasthitaṁ
markāya kāmaṁ dadataṁ śici sthitam
haiyaṅgavaṁ caurya-viśaṅkitekṣaṇaṁ
nirīkṣya paścāt sutam āgamac chanaiḥ
markāya kāmaṁ dadataṁ śici sthitam
haiyaṅgavaṁ caurya-viśaṅkitekṣaṇaṁ
nirīkṣya paścāt sutam āgamac chanaiḥ
Synonyms
ulūkhala-aṅghreḥ — do pilão no qual se moíam especiarias e estava virado de cabeça para baixo; upari — no topo; vyavasthitam — Kṛṣṇa estava sentado; markāya — a um macaco; kāmam — de acordo com Sua vontade; dadatam — distribuindo; śici sthitam — colocadas no pote de manteiga, pendurado no balanço; haiyaṅgavam — manteiga e outras preparações lácteas; caurya-viśaṅkita — por ter roubado, olhavam ansiosamente de um lado para outro; īkṣaṇam — cujos olhos; nirīkṣya — vendo essas atividades; paścāt — por trás; sutam — seu filho; āgamat — ela alcançou; śanaiḥ — muito vagarosa e cuidadosamente.
Translation
Naquele momento, Kṛṣṇa, tendo virado de cabeça para baixo um pilão de madeira próprio para moer especiarias, estava sentado sobre este e, de acordo com Sua vontade, distribuía aos macacos preparações lácteas, tais como iogurte e manteiga. Como estava roubando, Ele olhava em volta com grande ansiedade, suspeitando que pudesse ser castigado por Sua mãe. Mãe Yaśodā, ao vê-lO, aproximou-se dEle pelas costas muito cuidadosamente.
Purport
SIGNIFICADO—Mãe Yaśodā pôde encontrar Kṛṣṇa seguindo Suas pegadas lambuzadas de manteiga. Ela viu que Kṛṣṇa estava roubando manteiga, o que a fez sorrir. Nesse ínterim, os corvos também haviam entrado no cômodo, mas saíram dali com medo. Assim, mãe Yaśodā encontrou Kṛṣṇa roubando manteiga e olhando muito ansiosamente para todos os lados.
Devanagari
तामात्तयष्टिं प्रसमीक्ष्य सत्वर-
स्ततोऽवरुह्यापससार भीतवत् ।
गोप्यन्वधावन्न यमाप योगिनां
क्षमं प्रवेष्टुं तपसेरितं मन: ॥ ९ ॥
स्ततोऽवरुह्यापससार भीतवत् ।
गोप्यन्वधावन्न यमाप योगिनां
क्षमं प्रवेष्टुं तपसेरितं मन: ॥ ९ ॥
Verse text
tām ātta-yaṣṭiṁ prasamīkṣya satvaras
tato ’varuhyāpasasāra bhītavat
gopy anvadhāvan na yam āpa yogināṁ
kṣamaṁ praveṣṭuṁ tapaseritaṁ manaḥ
tato ’varuhyāpasasāra bhītavat
gopy anvadhāvan na yam āpa yogināṁ
kṣamaṁ praveṣṭuṁ tapaseritaṁ manaḥ
Synonyms
tām — mãe Yaśodā; ātta-yaṣṭim — carregando uma vara em sua mão; prasamīkṣya — Kṛṣṇa, vendo-a naquela atitude; satvaraḥ — bem depressa; tataḥ — dali; avaruhya — descendo; apasasāra — começou a fugir; bhīta-vat — como se estivesse com muito medo; gopī — mãe Yaśodā; anvadhāvat — começou a segui-lO; na — não; yam — a quem; āpa — deixaram de alcançar; yoginām — dos grandes yogīs, místicos; kṣamam — que puderam alcançá-lO; praveṣṭum — tentando entrar na refulgência Brahman ou no Paramātmā; tapasā — com grandes austeridades e penitências; īritam — tentando atingir esse propósito; manaḥ — através da meditação.
Translation
Ao ver Sua mãe com uma vara na mão, o Senhor Śrī Kṛṣṇa rapidamente desceu do topo do pilão e começou a fugir como se estivesse com muito medo. Embora os yogīs tentem capturá-lO como o Paramātmā através da meditação, desejando entrar na refulgência do Senhor após grandes austeridades e penitências, eles não conseguem alcançá-lO. Mas mãe Yaśodā, pensando que a mesma Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, era seu filho, começou a perseguir Kṛṣṇa para agarrá-lO.
Purport
SIGNIFICADO—Os yogīs, os místicos, querem alcançar Kṛṣṇa como o Paramātmā, e, após grandes austeridades e penitências, tentam aproximar-se dEle, mas não conseguem. Entretanto, aqui vemos que Kṛṣṇa, prestes a ser capturado por Yaśodā, foge apavorado. Isso ilustra a diferença entre o bhakta e o yogī. Os yogīs não podem alcançar Kṛṣṇa, mas os devotos puros, como mãe Yaśodā, já capturaram Kṛṣṇa. Kṛṣṇa inclusive tinha medo da vara de mãe Yaśodā. A rainha Kuntī menciona isso em suas orações: bhaya-bhāvanayā sthitasya. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.8.31) Kṛṣṇa tem medo de mãe Yaśodā, e os yogīs têm medo de Kṛṣṇa. Os yogīs tentam alcançar Kṛṣṇa através de jñāna-yoga e outros yogas, mas fracassam. No entanto, embora mãe Yaśodā fosse uma mulher, Kṛṣṇa sentia medo dela, como se descreve claramente neste verso.
Devanagari
अन्वञ्चमाना जननी बृहच्चल-
च्छ्रोणीभराक्रान्तगति: सुमध्यमा ।
जवेन विस्रंसितकेशबन्धन-
च्युतप्रसूनानुगति: परामृशत् ॥ १० ॥
च्छ्रोणीभराक्रान्तगति: सुमध्यमा ।
जवेन विस्रंसितकेशबन्धन-
च्युतप्रसूनानुगति: परामृशत् ॥ १० ॥
Verse text
anvañcamānā jananī bṛhac-calac-
chroṇī-bharākrānta-gatiḥ sumadhyamā
javena visraṁsita-keśa-bandhana-
cyuta-prasūnānugatiḥ parāmṛśat
chroṇī-bharākrānta-gatiḥ sumadhyamā
javena visraṁsita-keśa-bandhana-
cyuta-prasūnānugatiḥ parāmṛśat
Synonyms
anvañcamānā — seguindo Kṛṣṇa muito rapidamente; jananī — mãe Yaśodā; bṛhat-calat-śroṇī-bhara-ākrānta-gatiḥ — estando sobrecarregada pelo peso de seus grandes seios, ela ficou cansada e teve de reduzir sua velocidade; su-madhyamā — devido à sua cintura fina; javena — como ia muito rápido; visraṁsita-keśa-bandhana — do seu penteado, que se soltara; cyuta-prasūna-anugatiḥ — ela era seguida pelas flores que caíam atrás dela; parāmṛśat — enfim, fatalmente capturou Kṛṣṇa.
Translation
Enquanto seguia Kṛṣṇa, mãe Yaśodā, com sua cintura fina ficando sobrecarregada pelos seus pesados seios, naturalmente teve de reduzir sua velocidade. Como perseguia Kṛṣṇa muito rapidamente, seu cabelo se soltou, e as flores em seu cabelo caíam atrás dela. Entretanto, ela não deixou de capturar seu filho Kṛṣṇa.
Purport
SIGNIFICADO—Através de rigorosas penitências e austeridades, os yogīs não conseguem capturar Kṛṣṇa, mas mãe Yaśodā, apesar de todos os obstáculos, por fim foi capaz de capturar Kṛṣṇa sem maiores problemas. Essa é a diferença entre o yogī e o bhakta. Os yogīs não podem sequer entrar na refulgência de Kṛṣṇa. Yasya prabhā prabhavato jagad-aṇḍa-koṭi-koṭiṣu. (Brahma-saṁhitā 5.40) Nessa refulgência, há milhões de universos, mas nem mesmo após muitos e muitos anos de austeridades os yogīs e jñānīs podem entrar nessa refulgência, ao passo que os bhaktas podem obter Kṛṣṇa simplesmente através do amor e da afeição. Observa-se isso no exemplo aqui mostrado por mãe Yaśodā. Kṛṣṇa, portanto, confirma que, se alguém deseja obtê-lO, deve adotar o serviço devocional.
bhaktyā mām abhijānāti
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad-anantaram
yāvān yaś cāsmi tattvataḥ
tato māṁ tattvato jñātvā
viśate tad-anantaram
(Bhagavad-gītā 18.55)
Os bhaktas entram até mesmo no planeta de Kṛṣṇa com muita facilidade, mas os yogīs e jñānīs, que têm menos inteligência, praticam a meditação através da qual conseguem apenas ficar procurando por Kṛṣṇa. Mesmo que entrem na refulgência de Kṛṣṇa, acabarão caindo.
Devanagari
कृतागसं तं प्ररुदन्तमक्षिणी
कषन्तमञ्जन्मषिणी स्वपाणिना ।
उद्वीक्षमाणं भयविह्वलेक्षणं
हस्ते गृहीत्वा भिषयन्त्यवागुरत् ॥ ११ ॥
कषन्तमञ्जन्मषिणी स्वपाणिना ।
उद्वीक्षमाणं भयविह्वलेक्षणं
हस्ते गृहीत्वा भिषयन्त्यवागुरत् ॥ ११ ॥
Verse text
kṛtāgasaṁ taṁ prarudantam akṣiṇī
kaṣantam añjan-maṣiṇī sva-pāṇinā
udvīkṣamāṇaṁ bhaya-vihvalekṣaṇaṁ
haste gṛhītvā bhiṣayanty avāgurat
kaṣantam añjan-maṣiṇī sva-pāṇinā
udvīkṣamāṇaṁ bhaya-vihvalekṣaṇaṁ
haste gṛhītvā bhiṣayanty avāgurat
Synonyms
kṛta-āgasam — que era um ofensa; tam — a Kṛṣṇa; prarudantam — com uma atitude chorosa; akṣiṇī — Seus dois olhos; kaṣantam — esfregando; añjat-maṣiṇī — a partir de cujos olhos o unguento negro se distribuía por todo o Seu rosto choroso; sva-pāṇinā — com Sua própria mão; udvīkṣamāṇam — que foi visto nessa atitude por mãe Yaśodā; bhaya-vihvala-īkṣaṇam — cujos olhos pareciam aflitos devido ao intenso medo que sentia de Sua mãe; haste — pela mão; gṛhītvā — segurando; bhiṣayantī — mãe Yaśodā estava ameaçando-O; avāgurat — e assim ela O castigou com muita suavidade.
Translation
Ao ser pego por mãe Yaśodā, Kṛṣṇa foi ficando mais e mais assustado e admitiu ser um ofensor. À medida que olhava para Kṛṣṇa, Yaśodā via que, estando Ele chorando, Suas lágrimas misturavam-se com o unguento negro em volta de Seus olhos, e, quando Ele esfregava Seus olhos com as mãos, espalhava o unguento por todo o Seu rosto. Mãe Yaśodā, segurando seu belo filho pela mão, começou a censurá-lo compassivamente.
Purport
SIGNIFICADO—Através destes relacionamentos entre mãe Yaśodā e Kṛṣṇa, podemos entender a elevada posição do devoto puro que presta serviço amoroso ao Senhor. Os yogīs, os jñānīs, os karmīs e os vedantistas não podem nem mesmo se aproximar de Kṛṣṇa; eles permanecem bem longe dEle e tentam entrar em Sua refulgência corpórea, embora também não consigam nem mesmo isso. Os grandes semideuses, como o Senhor Brahmā e o senhor Śiva, sempre adoram o Senhor através de meditação e serviço. Até mesmo o poderosíssimo Yamarāja teme Kṛṣṇa. Portanto, como mostra a história de Ajāmila, Yamarāja instruiu seus seguidores a nem mesmo se aproximarem dos devotos, e muito menos capturá-los. Em outras palavras, Yamarāja também teme Kṛṣṇa e os devotos de Kṛṣṇa. No entanto, esse Kṛṣṇa tornou-Se tão dependente de mãe Yaśodā que bastou que ela mostrasse a Kṛṣṇa a vara que estava em sua mão para que Kṛṣṇa admitisse ser um ofensor e começasse a chorar como uma criança comum. Mãe Yaśodā, evidentemente, não queria infligir um castigo severo a seu amado filho e, portanto, logo jogou sua vara fora e apenas censurou Kṛṣṇa dizendo: “Agora, vou amarrar-Te para que não continues cometendo atividades ofensivas. E, por enquanto, também não poderás brincar com Teus amiguinhos.” No que diz respeito à natureza transcendental da Verdade Absoluta, isso mostra a posição do devoto puro, em contraste com os outros, como os jñānīs, yogīs e seguidores das cerimônias ritualísticas védicas.
Devanagari
त्यक्त्वा यष्टिं सुतं भीतं विज्ञायार्भकवत्सला ।
इयेष किल तं बद्धुं दाम्नातद्वीर्यकोविदा ॥ १२ ॥
इयेष किल तं बद्धुं दाम्नातद्वीर्यकोविदा ॥ १२ ॥
Verse text
tyaktvā yaṣṭiṁ sutaṁ bhītaṁ
vijñāyārbhaka-vatsalā
iyeṣa kila taṁ baddhuṁ
dāmnātad-vīrya-kovidā
vijñāyārbhaka-vatsalā
iyeṣa kila taṁ baddhuṁ
dāmnātad-vīrya-kovidā
Synonyms
tyaktvā — jogando fora; yaṣṭim — a vara em sua mão; sutam — seu filho; bhītam — considerando o grande medo de seu filho; vijñāya — entendendo; arbhaka-vatsalā — a afetuosíssima mãe de Kṛṣṇa; iyeṣa — desejou; kila — na verdade; tam — Kṛṣṇa; baddhum — amarrar; dāmnā — com uma corda; a-tat-vīrya-kovidā — sem conhecimento de que era a supremamente poderosa Personalidade de Deus (devido ao intenso amor por Kṛṣṇa).
Translation
Mãe Yaśodā estava sempre dominada por intenso amor a Kṛṣṇa, não sabendo quem era Kṛṣṇa ou quão poderoso Ele era. Devido à afeição materna por Kṛṣṇa, ela nunca nem mesmo procurou saber quem Ele era. Portanto, ao ver que seu filho ficara com medo excessivo, ela jogou fora a vara e desejou amarrá-lO para que Ele não continuasse cometendo travessuras.
Purport
SIGNIFICADO—Mãe Yaśodā queria amarrar Kṛṣṇa não para castigá-lO, mas porque achava que a criança era tão inquieta que, estando com medo, poderia deixar a casa. Isso seria outra perturbação. Portanto, devido à intensa afeição, para impedir que Kṛṣṇa deixasse a casa, ela quis amarrá-lO com uma corda. Mãe Yaśodā queria incutir em Kṛṣṇa a ideia de que, como Ele ficou com medo simplesmente ao ver sua vara, Ele não deveria realizar essas atividades perturbadoras, como quebrar o recipiente de iogurte e manteiga e distribuir o conteúdo aos macacos. Mãe Yaśodā não estava preocupada em entender quem era Kṛṣṇa e como Seu poder se espalha por toda parte. Esse é um exemplo de amor puro por Kṛṣṇa.
Devanagari
न चान्तर्न बहिर्यस्य न पूर्वं नापि चापरम् ।
पूर्वापरं बहिश्चान्तर्जगतो यो जगच्च य: ॥ १३ ॥
तं मत्वात्मजमव्यक्तं मर्त्यलिङ्गमधोक्षजम् ।
गोपिकोलूखले दाम्ना बबन्ध प्राकृतं यथा ॥ १४ ॥
पूर्वापरं बहिश्चान्तर्जगतो यो जगच्च य: ॥ १३ ॥
तं मत्वात्मजमव्यक्तं मर्त्यलिङ्गमधोक्षजम् ।
गोपिकोलूखले दाम्ना बबन्ध प्राकृतं यथा ॥ १४ ॥
Verse text
na cāntar na bahir yasya
na pūrvaṁ nāpi cāparam
pūrvāparaṁ bahiś cāntar
jagato yo jagac ca yaḥ
na pūrvaṁ nāpi cāparam
pūrvāparaṁ bahiś cāntar
jagato yo jagac ca yaḥ
taṁ matvātmajam avyaktam
martya-liṅgam adhokṣajam
gopikolūkhale dāmnā
babandha prākṛtaṁ yathā
martya-liṅgam adhokṣajam
gopikolūkhale dāmnā
babandha prākṛtaṁ yathā
Synonyms
na — não; ca — também; antaḥ — interior; na — nem; bahiḥ — exterior; yasya — cujo; na — nem; pūrvam — começo; na — nem; api — na verdade; ca — também; aparam — fim; pūrva-aparam — o começo e o fim; bahiḥ ca antaḥ — o externo e o interno; jagataḥ — de toda a manifestação cósmica; yaḥ — aquele que é; jagat ca yaḥ — e aquele que é tudo na criação total; tam — a Ele; matvā — considerando; ātmajam — seu próprio filho; avyaktam — o imanifesto; martya-liṅgam — aparecendo como um ser humano; adhokṣajam — além da percepção sensorial; gopikā — mãe Yaśodā; ulūkhale — ao pilão de moer; dāmnā — com uma corda; babandha — amarrou; prākṛtam yathā — como se faz a uma criança humana comum.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus não tem começo nem fim, exterior ou interior, frente ou posterior. Em outras palavras, Ele é onipenetrante. Porque não está sob a influência do elemento tempo, para Ele não há diferença entre passado, presente e futuro; Ele existe em Sua própria forma transcendental em todos os tempos. Sendo absoluto, estando situado além da relatividade, nEle não há distinções, tais como causa e efeito, embora Ele seja a causa e o efeito de tudo. Essa pessoa imanifesta, que está além da percepção dos sentidos, agora apareceu como uma criança humana, e mãe Yaśodā, considerando-O seu filho comum, pegou uma corda e amarrou-O a um pilão de madeira.
Purport
SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (10.12), Kṛṣṇa é descrito como o Brahman Supremo (paraṁ brahma paraṁ dhāma). A palavra brahma significa “o maior”. Sendo ilimitado e onipenetrante, Kṛṣṇa é maior do que o maior. Como é possível que o onipenetrante possa ser medido ou amarrado? Kṛṣṇa também é o fator tempo. Logo, Ele é onipenetrante não apenas no espaço, mas também no tempo. Costumamos medir o tempo, mas, embora nos limitemos ao passado, presente e futuro, isso não existe para Kṛṣṇa. Todo indivíduo pode ser medido, mas Kṛṣṇa já mostrou que, embora Ele também seja um indivíduo, toda a manifestação cósmica está dentro de Sua boca. Depois de considerados todos esses pontos, conclui-se que Kṛṣṇa não pode ser medido. Então, como Yaśodā queria medi-lO e amarrá-lO? Pode-se ver que isso ocorreu simplesmente na plataforma do amor puro e transcendental. Essa foi a única causa.
advaitam acyutam anādim ananta-rūpam
ādyaṁ purāṇa-puruṣaṁ nava-yauvanaṁ ca
vedeṣu durlabham adurlabham ātma-bhaktau
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
ādyaṁ purāṇa-puruṣaṁ nava-yauvanaṁ ca
vedeṣu durlabham adurlabham ātma-bhaktau
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
(Brahma-saṁhitā 5.33)
Tudo é uno porque Kṛṣṇa é a suprema causa de tudo. Kṛṣṇa não pode ser medido ou calculado através do conhecimento védico (vedeṣu durlabham). Ele Se manifesta apenas aos devotos (adurlabham ātma-bhaktau). Os devotos podem relacionar-se com Ele porque agem com base em serviço amoroso (bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ). Por isso, mãe Yaśodā queria amarrá-lO.
Devanagari
तद् दाम बध्यमानस्य स्वार्भकस्य कृतागस: ।
द्व्यङ्गुलोनमभूत्तेन सन्दधेऽन्यच्च गोपिका ॥ १५ ॥
द्व्यङ्गुलोनमभूत्तेन सन्दधेऽन्यच्च गोपिका ॥ १५ ॥
Verse text
tad dāma badhyamānasya
svārbhakasya kṛtāgasaḥ
dvy-aṅgulonam abhūt tena
sandadhe ’nyac ca gopikā
svārbhakasya kṛtāgasaḥ
dvy-aṅgulonam abhūt tena
sandadhe ’nyac ca gopikā
Synonyms
tat dāma — aquela corda usada para amarrar; badhyamānasya — que estava sendo amarrado por mãe Yaśodā; sva-arbhakasya — do seu próprio filho; kṛta-āgasaḥ — que era desobediente; dvi-aṅgula — dois dedos; ūnam — curta; abhūt — tornou-se; tena — àquela corda; sandadhe — juntou; anyat ca — outra corda; gopikā — mãe Yaśodā.
Translation
Quando tentava amarrar a criança desobediente, mãe Yaśodā viu que a corda era curta, faltando-lhe no comprimento a distância equivalente à largura de dois dedos. Assim, ela pegou outra corda e a emendou com a primeira.
Purport
SIGNIFICADO—Eis a primeira etapa em que Kṛṣṇa mostra Sua potência ilimitada a mãe Yaśodā quando ela tentou amarrá-lO: a corda era muito curta. O Senhor já apresentara Sua potência ilimitada matando Pūtanā, Śakaṭāsura e Tṛṇāvarta. Agora, Kṛṣṇa manifestava outro vibhūti, ou exibição de potência, a mãe Yaśodā. “A menos que Eu concorde”, Kṛṣṇa desejava mostrar, “não podes amarrar-Me”. Assim, embora mãe Yaśodā, em sua tentativa de amarrar Kṛṣṇa, amarrasse uma corda após a outra, ela fracassava por fim. Quando Kṛṣṇa concordou, entretanto, ela foi exitosa. Em outras palavras, a pessoa deve ter amor transcendental por Kṛṣṇa, mas isso não significa que ela possa controlar Kṛṣṇa. Quando Kṛṣṇa está satisfeito com o serviço devocional de alguém, Ele próprio faz tudo. Sevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ. Ele revela mais e mais ao devoto à medida que o devoto avança em serviço. Jihvādau: Esse serviço começa com a língua, cantando e comendo kṛṣṇa-prasāda.
ataḥ śrī-kṛṣṇa-nāmādi
na bhaved grāhyam indriyaiḥ
sevonmukhe hi jihvādau
svayam eva sphuraty adaḥ
na bhaved grāhyam indriyaiḥ
sevonmukhe hi jihvādau
svayam eva sphuraty adaḥ
(Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.2.234)
Devanagari
यदासीत्तदपि न्यूनं तेनान्यदपि सन्दधे ।
तदपि द्व्यङ्गुलं न्यूनं यद् यदादत्त बन्धनम् ॥ १६ ॥
तदपि द्व्यङ्गुलं न्यूनं यद् यदादत्त बन्धनम् ॥ १६ ॥
Verse text
yadāsīt tad api nyūnaṁ
tenānyad api sandadhe
tad api dvy-aṅgulaṁ nyūnaṁ
yad yad ādatta bandhanam
tenānyad api sandadhe
tad api dvy-aṅgulaṁ nyūnaṁ
yad yad ādatta bandhanam
Synonyms
yadā — quando; āsīt — tornou-se; tat api — mesmo a nova corda que fora juntada; nyūnam — ainda curta; tena — então, à segunda corda; anyat api — outra corda também; sandadhe — ela juntou; tat api — essa também; dvi-aṅgulam — dois dedos; nyūnam — permaneceu curta; yat yat ādatta — dessa maneira, uma após a outra, todas as cordas que ela juntava; bandhanam — para amarrar Kṛṣṇa.
Translation
Essa nova corda também era curta, faltando-lhe no comprimento a medida equivalente a dois dedos, e quando se juntou outra corda a ela, ainda faltavam dois dedos. Por mais cordas que ela juntasse, todas eram insuficientes; o comprimento que faltava não se completava.
Devanagari
एवं स्वगेहदामानि यशोदा सन्दधत्यपि ।
गोपीनां सुस्मयन्तीनां स्मयन्ती विस्मिताभवत् ॥ १७ ॥
गोपीनां सुस्मयन्तीनां स्मयन्ती विस्मिताभवत् ॥ १७ ॥
Verse text
evaṁ sva-geha-dāmāni
yaśodā sandadhaty api
gopīnāṁ susmayantīnāṁ
smayantī vismitābhavat
yaśodā sandadhaty api
gopīnāṁ susmayantīnāṁ
smayantī vismitābhavat
Synonyms
evam — dessa maneira; sva-geha-dāmāni — todas as cordas disponíveis na casa; yaśodā — mãe Yaśodā; sandadhati api — embora ela juntasse uma após a outra; gopīnām — quando todas as outras gopīs mais velhas, amigas de mãe Yaśodā; su-smayantīnām — estavam todas sentindo prazer naquela atividade engraçada; smayantī — mãe Yaśodā também sorria; vismitā abhavat — todas estavam admiradas.
Translation
Assim, mãe Yaśodā juntou todas as cordas disponíveis na casa, apesar do que não conseguiu amarrar Kṛṣṇa. As amigas de mãe Yaśodā, as gopīs mais velhas da vizinhança, sorriam e desfrutavam do acontecimento divertido. Igualmente, mãe Yaśodā, embora empreendesse tanto esforço, também sorria. Todas elas estavam admiradas.
Purport
SIGNIFICADO—Na verdade, este incidente foi maravilhoso porque Kṛṣṇa era apenas uma criança de mãos pequeninas. Para amarrá-lO, seria necessário apenas uma corda com pouco mais de meio metro de comprimento. Juntas, todas as cordas na casa decerto mediriam centenas de metros, mas, ainda assim, era impossível amarrá-lO, pois, mesmo após juntar todas as cordas, elas permaneciam muito curtas. Naturalmente, mãe Yaśodā e suas amigas gopīs pensaram: “Como isto é possível?” Diante desse episódio engraçado, todas elas sorriam. A primeira corda era curta, faltando-lhe a medida equivalente à largura de dois dedos, e, depois que se acrescentou a segunda corda a seu comprimento, ainda faltavam dois dedos. Caso se somasse a distância que faltou em todas as cordas, seria obtido o tamanho equivalente à largura de centenas de dedos. Decerto isso era espantoso. Essa foi mais uma ocasião em que Kṛṣṇa manifestou para Sua mãe e as amigas de Sua mãe a Sua potência inconcebível.
Devanagari
स्वमातु: स्विन्नगात्राया विस्रस्तकबरस्रज: ।
दृष्ट्वा परिश्रमं कृष्ण: कृपयासीत् स्वबन्धने ॥ १८ ॥
दृष्ट्वा परिश्रमं कृष्ण: कृपयासीत् स्वबन्धने ॥ १८ ॥
Verse text
sva-mātuḥ svinna-gātrāyā
visrasta-kabara-srajaḥ
dṛṣṭvā pariśramaṁ kṛṣṇaḥ
kṛpayāsīt sva-bandhane
visrasta-kabara-srajaḥ
dṛṣṭvā pariśramaṁ kṛṣṇaḥ
kṛpayāsīt sva-bandhane
Synonyms
sva-mātuḥ — de Sua própria mãe (Yaśodādevī, a mãe de Kṛṣṇa); svinna-gātrāyāḥ — quando Kṛṣṇa viu que Sua mãe transpirava copiosamente devido ao esforço excessivo; visrasta — caíam; kabara — de seu cabelo; srajaḥ — cujas flores; dṛṣṭvā — vendo a condição de Sua mãe; pariśramam — Ele pôde entender que ela ficara exausta e sentia-se cansada; kṛṣṇaḥ — a Suprema Personalidade de Deus; kṛpayā — por Sua imotivada misericórdia para com Sua devota e mãe; āsīt — concordou; sva-bandhane — em amarrá-lO.
Translation
Devido ao árduo esforço empreendido por mãe Yaśodā, todo o seu corpo ficou coberto pela transpiração, as flores caíram de seu cabelo e seu penteado se desfez. Ao ver Sua mãe tão fatigada, a criança Kṛṣṇa teve misericórdia dela e Se deixou amarrar.
Purport
SIGNIFICADO—Quando, por fim, mãe Yaśodā e as outras senhoras viram que Kṛṣṇa, embora decorado com muitas pulseiras e joias, não podia ser amarrado nem mesmo com todas as cordas disponíveis na casa, elas concluíram que Kṛṣṇa era tão afortunado que nenhuma condição material poderia amarrá-lO. Assim, desistiram da ideia de amarrá-lO. Mas na competição entre Kṛṣṇa e Seu devoto, Kṛṣṇa às vezes concorda em sair derrotado. Assim, a energia interna de Kṛṣṇa, yogamāyā, foi acionada, e Kṛṣṇa concordou em ser amarrado por mãe Yaśodā.
Devanagari
एवं सन्दर्शिता ह्यङ्ग हरिणा भृत्यवश्यता ।
स्ववशेनापि कृष्णेन यस्येदं सेश्वरं वशे ॥ १९ ॥
स्ववशेनापि कृष्णेन यस्येदं सेश्वरं वशे ॥ १९ ॥
Verse text
evaṁ sandarśitā hy aṅga
hariṇā bhṛtya-vaśyatā
sva-vaśenāpi kṛṣṇena
yasyedaṁ seśvaraṁ vaśe
hariṇā bhṛtya-vaśyatā
sva-vaśenāpi kṛṣṇena
yasyedaṁ seśvaraṁ vaśe
Synonyms
evam — dessa maneira; sandarśitā — foi mostrado; hi — na verdade; aṅga — ó Mahārāja Parīkṣit; hariṇā — pela Suprema Personalidade de Deus; bhṛtya-vaśyatā — Sua qualidade transcendental mediante a qual Ele fica subordinado ao Seu servo ou devoto; sva-vaśena — que está dentro do controle apenas do Seu próprio eu; api — na verdade; kṛṣṇena — por Kṛṣṇa; yasya — de quem; idam — todo o universo; sa-īśvaram — com os poderosos semideuses, tais como o senhor Śiva e o senhor Brahmā; vaśe — sob o controle.
Translation
Ó Mahārāja Parīkṣit, todo este universo, com seus grandes e insignes semideuses, tais como o senhor Śiva, o senhor Brahmā e o senhor Indra, está sob o controle da Suprema Personalidade de Deus. Entretanto, o Senhor Supremo tem um atributo transcendental: Ele aceita ficar sob o controle de Seus devotos. Kṛṣṇa demonstrou isso agora neste passatempo.
Purport
SIGNIFICADO—Este passatempo de Kṛṣṇa é muito difícil de ser compreendido, mas os devotos podem entendê-lo. Portanto, declara-se que darśayaṁs tad-vidāṁ loka ātmano bhakta-vaśyatām (Śrīmad-Bhāgavatam 10.11.9): O Senhor manifesta o atributo transcendental de ficar sob o controle de Seus devotos. Como se afirma na Brahma-saṁhitā (5.35):
eko ’py asau racayituṁ jagad-aṇḍa-koṭiṁ
yac-chaktir asti jagad-aṇḍa-cayā yad-antaḥ
aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-sthaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
yac-chaktir asti jagad-aṇḍa-cayā yad-antaḥ
aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-sthaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Através de Sua porção plenária Paramātmā, o Senhor controla inúmeros universos e todos os seus semideuses; no entanto, Ele concorda em ser controlado pelo devoto. Nas Upaniṣads, afirma-se que a Suprema Personalidade de Deus pode ser mais veloz do que a mente, mas aqui vemos que, embora quisesse escapar de Sua mãe, Kṛṣṇa acabou sendo derrotado, e mãe Yaśodā agarrou-O. Lakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānam: Kṛṣṇa é servido por centenas e milhares de deusas da fortuna. Entretanto, Ele rouba manteiga como se fosse alguém muito pobre. Yamarāja, o controlador de todas as entidades vivas, teme a ordem de Kṛṣṇa, mas Kṛṣṇa teme a vara de Sua mãe. Essas contradições não podem ser entendidas pelos não-devotos, mas o devoto pode entender quão poderoso é o imaculado serviço devocional a Kṛṣṇa; ele é tão poderoso que Kṛṣṇa pode ser controlado por um devoto impoluto. Este bhṛtya-vaśyatā não significa que Ele está sob o controle do servo; ao contrário, Ele está sob o controle do amor puro do servo. Na Bhagavad-gītā (1.21), afirma-se que Kṛṣṇa tornou-Se quadrigário de Arjuna. Arjuna disse-Lhe que senayor ubhayor madhye rathaṁ sthāpaya me ’cyuta: “Meu querido Kṛṣṇa, concordaste em ser meu quadrigário e em executar minhas ordens. Coloca minha quadriga entre os dois exércitos de soldados.” Kṛṣṇa imediatamente executou esta ordem, e, portanto, pode-se argumentar que Kṛṣṇa não é independente também. Mas isso é ajñāna, ignorância. Kṛṣṇa é sempre completamente independente; quando Ele Se torna subordinado a Seus devotos, isso é uma demonstração de ānanda-cinmaya-rasa, a atuação das qualidades transcendentais que aumenta Seu prazer transcendental. Todos adoram Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus, de modo que Ele às vezes deseja ser controlado por outrem. Semelhante controlador pode ser apenas o devoto puro.
Devanagari
नेमं विरिञ्चो न भवो न श्रीरप्यङ्गसंश्रया ।
प्रसादं लेभिरे गोपी यत्तत्प्राप विमुक्तिदात् ॥ २० ॥
प्रसादं लेभिरे गोपी यत्तत्प्राप विमुक्तिदात् ॥ २० ॥
Verse text
nemaṁ viriñco na bhavo
na śrīr apy aṅga-saṁśrayā
prasādaṁ lebhire gopī
yat tat prāpa vimuktidāt
na śrīr apy aṅga-saṁśrayā
prasādaṁ lebhire gopī
yat tat prāpa vimuktidāt
Synonyms
na — não; imam — esta posição elevada; viriñcaḥ — senhor Brahmā; na — nem; bhavaḥ — senhor Śiva; na — nem; śrīḥ — a deusa da fortuna; api — na verdade; aṅga-saṁśrayā — embora ela seja sempre a melhor metade da Suprema Personalidade de Deus; prasādam — misericórdia; lebhire — obtida; gopī — mãe Yaśodā; yat tat — como aquela que; prāpa — obtida; vimukti-dāt — de Kṛṣṇa, que nos liberta deste mundo material.
Translation
Nem o senhor Brahmā, nem o senhor Śiva, nem mesmo a deusa da fortuna, que é sempre a melhor metade do Senhor Supremo, podem obter da Suprema Personalidade de Deus, o salvador deste mundo material, uma misericórdia semelhante àquela recebida por mãe Yaśodā.
Purport
SIGNIFICADO—Este é um estudo comparativo entre mãe Yaśodā e outros devotos do Senhor. Como se declara no Caitanya-caritāmṛta (Ādi 5.142), ekale īśvara kṛṣṇa, āra saba bhṛtya: O único amo supremo é Kṛṣṇa, e todos os outros são Seus servos. Kṛṣṇa tem a transcendental qualidade bhṛtya-vaśyatā, tornar-Se subordinado a Seu bhṛtya, ou servo. Acontece que, embora todos sejam bhṛtya e embora Kṛṣṇa tenha como qualidade tornar-Se subordinado a Seu bhṛtya, a posição de mãe Yaśodā é a mais elevada. O senhor Brahmā é bhṛtya, servo de Kṛṣṇa, e ele é ādi-kavi, o criador original deste universo (tene brahma hṛdā ya ādi-kavaye). Entretanto, nem mesmo ele pôde obter uma misericórdia semelhante à de mãe Yaśodā. Quanto ao senhor Śiva, ele é o vaiṣṇava mais elevado (vaiṣṇavānāṁ yathā śambhuḥ). Como se não bastasse mencionar o senhor Brahmā e o senhor Śiva, a deusa da fortuna, Lakṣmī, é a companheira que presta constante serviço ao Senhor, uma vez que ela sempre se associa com o seu corpo. Porém, nem mesmo ela pode obter tal misericórdia. Portanto, Mahārāja Parīkṣit estava surpreso, pensando: “Que atividades mãe Yaśodā e Nanda Mahārāja executaram em suas vidas anteriores para obterem tão grandiosa oportunidade de se tornarem os afetuosos pai e mãe de Kṛṣṇa?”
Neste verso, há três declarações negativas – na, na, na. Quando algo é proferido três vezes – “faça-o, faça-o, faça-o” –, deve-se compreender que isso serve para dar grande ênfase a um fato. Neste verso, encontramos na lebhire, na lebhire, na lebhire. Entretanto, mãe Yaśodā está na posição mais elevada, daí Kṛṣṇa ter-Se tornado completamente subordinado a ela.
A palavra vimuktidāt também é significativa. Há diferentes espécies de liberação, tais como sāyujya, sālokya, sārūpya, sārṣṭi e sāmīpya, mas vimukti significa “mukti especial”. Quando, após a liberação, alguém se situa na plataforma de prema-bhakti, afirma-se que ele alcançou vimukti, “mukti especial”. Portanto, menciona-se a palavra na. Śrī Caitanya Mahāprabhu descreve essa elevada plataforma de prema como premā pum-artho mahān, e mãe Yaśodā, em seu convívio amoroso, naturalmente age em tal posição elevada. Portanto, ela é uma devota nitya-siddha, uma expansão da hlādinī, a potência de Kṛṣṇa para desfrutar de bem-aventurança transcendental através de Suas expansões, os devotos especiais (ānanda-cinmaya-rasa-pratibhāvitābhiḥ). Semelhantes devotos não são sādhana-siddhas.
Devanagari
नायं सुखापो भगवान्देहिनां गोपिकासुत: ।
ज्ञानिनां चात्मभूतानां यथा भक्तिमतामिह ॥ २१ ॥
ज्ञानिनां चात्मभूतानां यथा भक्तिमतामिह ॥ २१ ॥
Verse text
nāyaṁ sukhāpo bhagavān
dehināṁ gopikā-sutaḥ
jñānināṁ cātma-bhūtānāṁ
yathā bhaktimatām iha
dehināṁ gopikā-sutaḥ
jñānināṁ cātma-bhūtānāṁ
yathā bhaktimatām iha
Synonyms
na — não; ayam — isto; sukha-āpaḥ — muito facilmente obtido, ou objeto de felicidade; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; dehinām — de pessoas no conceito de vida corpórea, especialmente os karmīs; gopikā-sutaḥ — Kṛṣṇa, o filho de mãe Yaśodā (Kṛṣṇa, como filho de Vasudeva, chama-Se Vāsudeva, e, como filho de mãe Yaśodā, Ele é conhecido como Kṛṣṇa); jñāninām ca — e dos jñānīs, que tentam livrar-se da contaminação material; ātma-bhūtānām — dos yogīs autossuficientes; yathā — como; bhakti-matām — dos devotos; iha — neste mundo.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, o filho de mãe Yaśodā, é acessível aos devotos ocupados em serviço amoroso espontâneo, mas Ele não é muito acessível aos especuladores mentais, àqueles que se empenham em obter a autorrealização através de rigorosas austeridades e penitências, ou àqueles que consideram o corpo como sendo igual ao eu.
Purport
SIGNIFICADO—Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus que age como o filho de mãe Yaśodā, é muito facilmente acessível aos devotos, mas não aos tapasvīs, yogīs, jñānīs e outros que têm um conceito de vida corpórea. Embora às vezes eles possam ser chamados de śānta-bhaktas, a verdadeira bhakti começa com dāsya-rasa. Na Bhagavad-gītā (4.11), Kṛṣṇa diz:
ye yathā māṁ prapadyante
tāṁs tathaiva bhajāmy aham
mama vartmānuvartante
manuṣyāḥ pārtha sarvaśaḥ
tāṁs tathaiva bhajāmy aham
mama vartmānuvartante
manuṣyāḥ pārtha sarvaśaḥ
“A todos os que se rendem a Mim, Eu recompenso de acordo. Todos seguem o Meu caminho sob todos os aspectos, ó filho de Pṛthā.” Todos estão buscando Kṛṣṇa, pois Ele é a Superalma de todas as almas individuais. Cada qual ama seu corpo e quer protegê-lo porque, como alma, cada um está dentro do corpo, e ama-se a alma porque ela é parte integrante da Superalma. Logo, todos realmente estão buscando alcançar a felicidade, revivendo sua relação com a Superalma. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (15.15), vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ: “Através de todos os Vedas, é a Mim que se deve conhecer.” Portanto, os karmīs, jñānīs, yogīs e pessoas santas estão todos buscando por Kṛṣṇa. Porém, seguindo os passos dos devotos que estão em uma relação direta com Kṛṣṇa, especialmente os habitantes de Vṛndāvana, a pessoa pode alcançar a posição suprema na qual ela se associa com Kṛṣṇa. Como se declara, vṛndāvanaṁ parityajya padam ekaṁ na gacchati: Kṛṣṇa não deixa Vṛndāvana nem mesmo por um momento. Os vṛndāvana-vāsīs – mãe Yaśodā, os amigos de Kṛṣṇa e as amantes conjugais de Kṛṣṇa, as jovens gopīs com quem Ele dança – têm relações muito íntimas com Kṛṣṇa, e, se alguém segue os passos desses devotos, Kṛṣṇa Se faz disponível. Embora as expansões nitya-siddha de Kṛṣṇa sempre permaneçam com Kṛṣṇa, se aqueles ocupados em sādhana-siddhi seguirem os passos dos associados nitya-siddha de Kṛṣṇa, esses sādhana-siddhas também poderão facilmente alcançar Kṛṣṇa. Mas há os que estão apegados aos conceitos de vida corpórea. O senhor Brahmā e o senhor Śiva, por exemplo, têm posições muito prestigiosas, motivo pelo qual têm o sentimento de serem īśvaras muito destacados. Em outras palavras, porque são guṇaavatāras e têm posições elevadas, o senhor Brahmā e o senhor Śiva têm um pequeno sentimento de que são como Kṛṣṇa. Em contraste, os devotos puros que moram em Vṛndāvana não possuem nenhum conceito corpóreo. Eles estão plenamente dedicados a servir ao Senhor com sublime afeição, prema. Śrī Caitanya Mahāprabhu, portanto, recomenda que premā pum-artho mahān: A perfeição máxima da vida é prema, amor puro na relação com Kṛṣṇa. E mãe Yaśodā parece ser a mais elevada devota que alcançou essa perfeição.
Devanagari
कृष्णस्तु गृहकृत्येषु व्यग्रायां मातरि प्रभु: ।
अद्राक्षीदर्जुनौ पूर्वं गुह्यकौ धनदात्मजौ ॥ २२ ॥
अद्राक्षीदर्जुनौ पूर्वं गुह्यकौ धनदात्मजौ ॥ २२ ॥
Verse text
kṛṣṇas tu gṛha-kṛtyeṣu
vyagrāyāṁ mātari prabhuḥ
adrākṣīd arjunau pūrvaṁ
guhyakau dhanadātmajau
vyagrāyāṁ mātari prabhuḥ
adrākṣīd arjunau pūrvaṁ
guhyakau dhanadātmajau
Synonyms
kṛṣṇaḥ tu — enquanto isso; gṛha-kṛtyeṣu — com afazeres domésticos; vyagrāyām — muito atarefada; mātari — quando Sua mãe; prabhuḥ — o Senhor; adrākṣīt — observou; arjunau — as árvores gêmeas arjuna; pūrvam — diante dEle; guhyakau — que foram semideuses em um milênio anterior; dhanada-ātmajau — os filhos de Kuvera, o tesoureiro dos semideuses.
Translation
Enquanto mãe Yaśodā estava muito atarefada com afazeres domésticos, o Senhor Supremo, Kṛṣṇa, notou as árvores gêmeas conhecidas como yamala-arjuna, que foram semideuses, filhos de Kuvera, em um milênio anterior.
Devanagari
पुरा नारदशापेन वृक्षतां प्रापितौ मदात् ।
नलकूवरमणिग्रीवाविति ख्यातौ श्रियान्वितौ ॥ २३ ॥
नलकूवरमणिग्रीवाविति ख्यातौ श्रियान्वितौ ॥ २३ ॥
Verse text
purā nārada-śāpena
vṛkṣatāṁ prāpitau madāt
nalakūvara-maṇigrīvāv
iti khyātau śriyānvitau
vṛkṣatāṁ prāpitau madāt
nalakūvara-maṇigrīvāv
iti khyātau śriyānvitau
Synonyms
Translation
Em seu nascimento anterior, esses dois filhos, conhecidos como Nalakūvara e Maṇigrīva, eram extremamente opulentos e afortunados. Contudo, devido ao orgulho e falso prestígio, eles não se importavam com ninguém, de modo que Nārada Muni os amaldiçoou a se tornarem árvores.
Purport
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do décimo canto, nono capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Mãe Yaśodā Amarra o Senhor Kṛṣṇa”.