Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Vinte e Sete
Caṇḍavega Ataca a Cidade do Rei Purañjana; o Caráter de Kālakanyā
Devanagari
नारद उवाच
इत्थं पुरञ्जनं सध्र्यग्वशमानीय विभ्रमै: ।
पुरञ्जनी महाराज रेमे रमयती पतिम् ॥ १ ॥
इत्थं पुरञ्जनं सध्र्यग्वशमानीय विभ्रमै: ।
पुरञ्जनी महाराज रेमे रमयती पतिम् ॥ १ ॥
Verse text
nārada uvāca
itthaṁ purañjanaṁ sadhryag
vaśamānīya vibhramaiḥ
purañjanī mahārāja
reme ramayatī patim
itthaṁ purañjanaṁ sadhryag
vaśamānīya vibhramaiḥ
purañjanī mahārāja
reme ramayatī patim
Synonyms
nāradaḥ uvāca — Nārada disse; ittham — assim; purañjanam — rei Purañjana; sadhryak — por completo; vaśamānīya — trazendo sob seu controle; vibhramaiḥ — com seus encantos; purañjanī — a esposa do rei Purañjana; mahā-rāja — ó rei; reme — desfrutou; ramayatī — dando toda a satisfação possível; patim — a seu esposo.
Translation
O grande sábio Nārada continuou: Meu querido rei, após confundir seu esposo de diferentes maneiras e trazê-lo sob seu controle, a esposa do rei Purañjana deu-lhe toda a satisfação possível e gozou da vida sexual com ele.
Purport
SIGNIFICADO—Após caçar na floresta, o rei Purañjana voltou para casa e, após refrescar-se tomando banho e se servindo de boa comida, saiu à procura de sua esposa. Ao vê-la deitada diretamente sobre o chão, como uma mulher que foi desprezada, e desprovida de roupa decente, ele ficou muito pesaroso. Então, sentiu-se atraído por ela e começou a gozar de sua companhia. Uma entidade viva no mundo material ocupa-se de modo semelhante em atividades pecaminosas. Essas atividades pecaminosas podem ser comparadas à caça do rei Purañjana pela floresta.
É possível neutralizar uma vida pecaminosa através de diversos processos de religião, tais como yajña, vrata e dāna – isto é, realização de sacrifícios, adoção de um voto de cumprir algum ritual religioso e doações caritativas. Dessa maneira, todos podem livrar-se das reações da vida pecaminosa e, ao mesmo tempo, despertar sua consciência de Kṛṣṇa original. Voltando ao lar, tomando seu banho, comendo boa comida, refrescando-se e buscando sua esposa, o rei Purañjana voltou à sua boa consciência em sua vida familiar. Em outras palavras, é melhor uma vida familiar sistemática, tal como é prescrita nos Vedas, do que uma vida pecaminosa e irresponsável. Se esposo e esposa se harmonizam em consciência de Kṛṣṇa e vivem juntos pacificamente, isso é muito bom. Contudo, se o esposo se tornar demasiadamente atraído pela esposa e se esquecer de seu dever na vida, as implicações da vida materialista voltarão mais uma vez. Portanto, Śrīla Rūpa Gosvāmī recomenda que anāsaktasya viṣayān. (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.2.255) Sem se apegarem ao sexo, esposo e esposa devem viver juntos para avançar na vida espiritual. O esposo deve ocupar-se em serviço devocional, e a esposa deve ser fiel e religiosa de acordo com os preceitos védicos. Semelhante combinação é muito boa. Entretanto, se o esposo deixa-se atrair demasiadamente pela esposa devido ao sexo, assume uma posição muito perigosa. As mulheres em geral têm muita inclinação sexual. Na verdade, afirma-se que o desejo sexual da mulher é nove vezes mais forte do que o do homem. Logo, é dever do homem manter a mulher sob seu controle, satisfazendo-a, dando-lhe adornos, boa comida e roupas, e ocupando-a em atividades religiosas. Evidentemente, a mulher deve ter alguns filhos para dessa maneira deixar de perturbar o homem. Infelizmente, se o homem se deixa atrair pela mulher simplesmente para gozar de sexo, a vida familiar se torna abominável.
O grande político Cāṇakya Paṇḍita diz que bhāryā rūpavatī śatruḥ: uma bela esposa é um inimigo. Evidentemente, qualquer mulher é linda aos olhos de seu esposo. Pode ser que outros não vejam a beleza dela, mas o esposo, sentindo muita atração por ela, acha-a sempre muito bela. Se o esposo acha a esposa muito bela, deve-se concluir que ele sente muita atração por ela. Essa atração é a atração do sexo. O mundo inteiro está cativado pelos dois modos da natureza material rajo-guṇa e tamo-guṇa, paixão e ignorância. De um modo geral, as mulheres são muito apaixonadas e menos inteligentes; portanto, de algum modo, o homem não deve deixar-se controlar pela paixão e pela ignorância delas. Praticando bhakti-yoga, ou serviço devocional, um homem pode elevar-se à plataforma da bondade. Se um esposo situado no modo da bondade pode controlar sua esposa, que está em paixão e ignorância, a mulher se beneficia. Esquecendo-se de sua inclinação natural para a paixão e a ignorância, a mulher se torna obediente e fiel a seu esposo, que está situado em bondade. Uma vida assim é muito agradável. Tanto a inteligência do homem quanto a inteligência da mulher podem então funcionar muito bem juntas, e eles podem efetuar uma marcha progressiva rumo à compreensão espiritual. Caso contrário, o esposo, caindo sob o controle da esposa, sacrifica sua qualidade de bondade e torna-se subserviente às qualidades de paixão e ignorância. Dessa maneira, toda a situação se corrompe.
Concluindo, a vida familiar é melhor do que vida pecaminosa e irresponsável, mas, se na vida familiar o esposo subordinar-se à esposa, o envolvimento na vida materialista predominará novamente. Dessa maneira, o cativeiro material do homem será revigorado. Devido a isso, de acordo com o sistema védico, recomenda-se ao homem, depois de certa idade, que abandone sua vida familiar e avance para as fases de vānaprastha e sannyāsa.
Devanagari
स राजा महिषीं राजन् सुस्नातां
रुचिराननाम् ।
कृतस्वस्त्ययनां तृप्तामभ्यनन्ददुपागताम् ॥ २ ॥
रुचिराननाम् ।
कृतस्वस्त्ययनां तृप्तामभ्यनन्ददुपागताम् ॥ २ ॥
Verse text
sa rājā mahiṣīṁ rājan
susnātāṁ rucirānanām
kṛta-svastyayanāṁ tṛptām
abhyanandad upāgatām
susnātāṁ rucirānanām
kṛta-svastyayanāṁ tṛptām
abhyanandad upāgatām
Synonyms
Translation
A rainha se banhou e se vestiu muito bem, com roupas e adornos auspiciosos. Após se alimentar e ficar completamente satisfeita, ela voltou a ter com o rei. Ao ver seu rosto belamente decorado e atrativo, o rei acolheu a rainha com toda devoção.
Purport
SIGNIFICADO—De um modo geral, a mulher costuma vestir-se bem, com roupas finas, e adornar-se com bom gosto. Às vezes, ela inclusive usa flores no cabelo. As mulheres vestem-se especialmente à noite, porque é à noite que o esposo volta para casa, após ter trabalhado arduamente o dia inteiro. É dever da esposa vestir-se muito bem para que, diante do retorno de seu esposo à casa, ele se sinta atraído por suas vestes e asseio, ficando assim satisfeito. Em outras palavras, a esposa é a inspiração de toda a boa inteligência. Ao ver a esposa bem vestida, o homem pode pensar com muita sobriedade sobre os assuntos familiares. Uma pessoa demasiadamente ansiosa acerca de seus deveres familiares não consegue cumpri-los bem. Portanto, a esposa deve ser uma fonte de inspiração e manter a inteligência do esposo em boa ordem para que eles possam, harmoniosamente, resolver os assuntos da vida familiar, sem impedimentos.
Devanagari
तयोपगूढ: परिरब्धकन्धरो
रहोऽनुमन्त्रैरपकृष्टचेतन: ।
न
कालरंहो बुबुधे दुरत्ययं
दिवा निशेति प्रमदापरिग्रह: ॥ ३ ॥
रहोऽनुमन्त्रैरपकृष्टचेतन: ।
न
कालरंहो बुबुधे दुरत्ययं
दिवा निशेति प्रमदापरिग्रह: ॥ ३ ॥
Verse text
tayopagūḍhaḥ parirabdha-kandharo
raho ’numantrair apakṛṣṭa-cetanaḥ
na kāla-raṁho bubudhe duratyayaṁ
divā niśeti pramadā-parigrahaḥ
raho ’numantrair apakṛṣṭa-cetanaḥ
na kāla-raṁho bubudhe duratyayaṁ
divā niśeti pramadā-parigrahaḥ
Synonyms
tayā — pela rainha; upagūḍhaḥ — foi abraçado; parirabdha — abraçou; kandharaḥ — ombros; rahaḥ — em um lugar solitário; anumantraiḥ — com gracejos; apakṛṣṭa-cetanaḥ — tendo uma consciência degradada; na — não; kāla-raṁhaḥ — o passar do tempo; bubudhe — tinha noção de; duratyayam — impossível de superar; divā — dia; niśā — noite; iti — assim; pramadā — pela mulher; parigrahaḥ — cativado.
Translation
A rainha Purañjanī abraçou o rei, o qual respondeu também a envolvendo em seus braços. Dessa maneira, em um lugar solitário, eles trocaram gracejos. O rei Purañjana, dessa maneira, ficou muito cativado por sua bela esposa e se desviou de seu bom senso. Esqueceu-se de que os dias e as noites passavam, fazendo com que a duração de sua vida se escoasse sem nenhum proveito.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra pramadā neste verso é muito significativa. Uma bela esposa com certeza é vivificante para seu esposo, mas, ao mesmo tempo, é causa de degradação. A palavra pramadā significa “vivificante”, bem como “enlouquecedora”. De um modo geral, um chefe de família não leva muito a sério o passar de dias e noites. Uma pessoa ignorante aceita como algo trivial que os dias passem um após o outro e venham noites após noites. Essa é a lei da natureza material. Porém, o homem ignorante não sabe que, quando o Sol nasce cedo pela manhã, ele encurta os dias de sua vida. Assim, dia após dia, a duração de sua vida se reduz, e, esquecendo-se do dever da vida humana, o homem tolo simplesmente permanece na companhia de sua esposa e desfruta com ela em um lugar solitário. Essa condição se chama apakṛṣṭa-cetana, ou consciência degradada. Devemos usar a consciência humana para elevar-nos à consciência de Kṛṣṇa. No entanto, quando alguém se sente demasiadamente atraído por sua esposa e pelos afazeres familiares, não leva a consciência de Kṛṣṇa muito a sério. Assim, degrada-se sem saber que não poderá recuperar um segundo sequer de sua vida, mesmo a troco de milhões de dólares. A maior perda na vida é deixar o tempo passar sem compreender Kṛṣṇa. Cada momento de nossas vidas deve ser utilizado apropriadamente, e a forma correta de aproveitar a vida é incrementar o serviço devocional ao Senhor. Sem serviço devocional ao Senhor, as atividades da vida se tornam uma mera perda de tempo (śrama eva hi kevalam). Não é apenas tornando-nos “cumpridores do dever” que podemos tirar algum proveito na vida. Confirma-se no Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.8):
dharmaḥ sv-anuṣṭhitaḥ puṁsāṁ
viṣvaksena-kathāsu yaḥ
notpādayed yadi ratiṁ
śrama eva hi kevalam
viṣvaksena-kathāsu yaḥ
notpādayed yadi ratiṁ
śrama eva hi kevalam
Se, após desempenhar seu dever ocupacional muito perfeitamente, a pessoa não progredir em consciência de Kṛṣṇa, deve-se entender que terá simplesmente desperdiçado seu tempo com esforço inútil.
Devanagari
शयान उन्नद्धमदो महामना
महार्हतल्पे महिषीभुजोपधि: ।
तामेव वीरो मनुते परं यत-
स्तमोऽभिभूतो न निजं परं च यत् ॥ ४ ॥
महार्हतल्पे महिषीभुजोपधि: ।
तामेव वीरो मनुते परं यत-
स्तमोऽभिभूतो न निजं परं च यत् ॥ ४ ॥
Verse text
śayāna unnaddha-mado mahā-manā
mahārha-talpe mahiṣī-bhujopadhiḥ
tām eva vīro manute paraṁ yatas
tamo-’bhibhūto na nijaṁ paraṁ ca yat
mahārha-talpe mahiṣī-bhujopadhiḥ
tām eva vīro manute paraṁ yatas
tamo-’bhibhūto na nijaṁ paraṁ ca yat
Synonyms
śayānaḥ — deitado; unnaddha-madaḥ — cada vez mais iludido; mahā-manāḥ — avançado em consciência; mahā-arha-talpe — em um leito valioso; mahiṣī — da rainha; bhuja — braços; upadhiḥ — travesseiro; tām — dela; eva — decerto; vīraḥ — o herói; manute — ele considerava; param — a meta da vida; yataḥ — da qual; tamaḥ — pela ignorância; abhibhūtaḥ — dominado; na — não; nijam — seu verdadeiro eu; param — a Suprema Personalidade de Deus; ca — e; yat — que.
Translation
Desse modo, cada vez mais dominado pela ilusão, o rei Purañjana, embora avançado em consciência, permanecia sempre deitado com sua cabeça no travesseiro dos braços de sua esposa. Dessa maneira, ele passou a considerar a mulher como a essência de sua vida. Deixando-se dominar assim pelo modo da ignorância, ele não podia entender o significado da autorrealização, nem do seu eu, nem da Suprema Personalidade de Deus.
Purport
SIGNIFICADO—A vida humana se destina à autorrealização. Em primeiro lugar, cada um precisa compreender seu próprio eu, que este verso descreve como nijam. Em seguida, precisa compreender ou perceber a Superalma, ou Paramātmā, a Suprema Personalidade de Deus. Contudo, quem se torna muito apegado materialmente passa a achar que a mulher é tudo. Esse é o princípio básico do apego material. Em semelhante condição, ninguém pode compreender seu próprio eu ou a Suprema Personalidade de Deus. No Śrīmad-Bhāgavatam (5.5.2), portanto, declara-se: mahat-sevāṁ dvāram āhur vimuktes tamo-dvāraṁ yoṣitāṁ saṅgi-saṅgam. Se alguém se associa com mahātmās, ou devotos, abre-se o seu caminho de liberação. Porém, se fica muito apegado a mulheres ou a pessoas que também são apegadas a mulheres – isto é, apegado a mulheres direta ou indiretamente –, ele abre tamo-dvāram, a porta para a mais escura região de vida infernal.
O rei Purañjana era uma grande alma, altamente intelectualizado e dotado de consciência avançada, mas, por estar muito apegado a mulheres, toda a sua consciência se encobriu. Na era moderna, a consciência das pessoas está demasiadamente encoberta por vinho, mulheres e carne. Em consequência disso, as pessoas não conseguem fazer nenhum progresso em autorrealização. O primeiro passo na autorrealização é saber que somos almas espirituais distintas do corpo. Na segunda fase de autorrealização, acabamos entendendo que toda alma, toda entidade viva individual, é parte integrante da Alma Suprema, Paramātmā, ou a Suprema Personalidade de Deus. Confirma-se isso na Bhagavad-gītā (15.7):
mamaivāṁśo jīva-loke
jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ
manaḥ-ṣaṣṭhānīndriyāṇi
prakṛti-sthāni karṣati
jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ
manaḥ-ṣaṣṭhānīndriyāṇi
prakṛti-sthāni karṣati
“As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas eternas partes fragmentárias. Por força da vida condicionada, elas empreendem árdua luta com os seis sentidos, entre os quais se inclui a mente.”
Todas as entidades vivas são partes integrantes do Senhor Supremo. Infelizmente, nesta civilização atual, tanto os homens quanto as mulheres têm permissão de deixar-se seduzir uns pelos outros desde o início de suas vidas, motivo pelo qual não conseguem chegar à plataforma da autorrealização. Eles não sabem que, sem autorrealização, sofrem a maior perda sob a forma humana de vida. Pensar sempre em mulheres dentro do coração é o mesmo que se deitar com mulheres em um leito valioso. O coração é o leito, sendo o leito mais valioso. Quando um homem pensa em mulheres e em dinheiro, ele deita-se e repousa nos braços de sua amada mulher ou esposa. Dessa maneira, ele se dedica à vida sexual em excesso e se torna incapaz de alcançar a autorrealização.
Devanagari
तयैवं रममाणस्य कामकश्मलचेतस: ।
क्षणार्धमिव राजेन्द्र व्यतिक्रान्तं नवं वय: ॥ ५ ॥
क्षणार्धमिव राजेन्द्र व्यतिक्रान्तं नवं वय: ॥ ५ ॥
Verse text
tayaivaṁ ramamāṇasya
kāma-kaśmala-cetasaḥ
kṣaṇārdham iva rājendra
vyatikrāntaṁ navaṁ vayaḥ
kāma-kaśmala-cetasaḥ
kṣaṇārdham iva rājendra
vyatikrāntaṁ navaṁ vayaḥ
Synonyms
Translation
Meu querido rei Prācīnabarhiṣat, dessa maneira, o rei Purañjana, com seu coração cheio de luxúria e reações pecaminosas, começou a gozar de sexo com sua esposa, de modo que o frescor de sua vida e sua juventude dissiparam-se em um instante.
Purport
SIGNIFICADO—Śrīla Govinda Dāsa Ṭhākura canta:
e-dhana, yauvana, putra, parijana,
ithe ki āche paratīti re
kamala-dala-jala, jīvana ṭalamala,
bhaja huṁ hari-pada nīti re
ithe ki āche paratīti re
kamala-dala-jala, jīvana ṭalamala,
bhaja huṁ hari-pada nīti re
Neste verso, Śrīla Govinda Dāsa diz que, na verdade, não há bem-aventurança nos prazeres da juventude. Um jovem se torna muito luxurioso por querer desfrutar de toda espécie de objetos dos sentidos. Os objetos dos sentidos são: forma, sabor, aroma, tato e som. O método científico moderno, ou o avanço da civilização científica, incentiva o gozo desses cinco sentidos. A geração mais jovem fica muito satisfeita em ver uma bela forma, em ouvir mensagens radiofônicas sobre notícias materiais e músicas de gozo dos sentidos, em cheirar bons perfumes, belas flores e em tocar o corpo suave ou os seios de uma mocinha e gradualmente tocar-lhe os órgãos genitais. Tudo isso também é muito agradável para os animais; portanto, na sociedade humana, impõem-se restrições ao gozo dos cinco objetos dos sentidos. Quem não respeita essas restrições se torna exatamente como um animal.
Assim, neste verso, afirma-se especificamente que kāma-kaśmala-cetasaḥ: a consciência do rei Purañjana estava poluída por desejos luxuriosos e atividades pecaminosas. No verso anterior, afirmou-se que Purañjana, embora avançado em consciência, deitou-se em uma cama muito macia com sua esposa. Isso indica que ele tinha relações sexuais em demasia. As palavras navaṁ vayaḥ também são significativas neste verso, pois indicam o período da juventude que vai dos dezesseis aos trinta anos. Esses treze ou quinze anos de vida são os anos em que se pode gozar muito fortemente dos sentidos. Quando alguém chega a essa idade, pensa que a vida continuará e que ele sempre continuará a gozar de seus sentidos, mas “o tempo e a maré não esperam por ninguém”. O período da juventude expira muito rapidamente. Aquele que desperdiça sua vida simplesmente cometendo atividades pecaminosas na juventude fica imediatamente desapontado e desiludido quando o breve período da juventude se acaba. Os prazeres materiais da juventude são especialmente agradáveis para quem não tem treinamento espiritual. Se alguém recebe treinamento apenas dentro de um conceito corpóreo de vida, leva uma vida de pura desilusão, pois o gozo sensual corpóreo acaba dentro de quarenta anos, ou em um tempo próximo a isso. Depois dos quarenta anos, a pessoa leva uma vida de desilusão por não ter conhecimento espiritual. Para uma pessoa assim, a juventude se acaba em um instante. Desse modo, o prazer que o rei Purañjana sentia, deitado ao lado de sua esposa, expirou muito rapidamente.
Kāma-kaśmala-cetasaḥ também quer dizer que, pelas leis da natureza, o gozo sensual irrestrito não é permitido para quem está na forma humana de vida. Quem satisfaz seus sentidos irrestritamente tem uma vida pecaminosa. Os animais não violam as leis da natureza. Por exemplo, o impulso sexual nos animais é muito forte durante determinados meses do ano. O leão é muito poderoso. Ele é um animal carnívoro muito forte, mas só goza de sexo uma vez por ano. De forma semelhante, de acordo com os preceitos religiosos, o homem se destina a fazer sexo apenas uma vez por mês, após o período menstrual da esposa, e, se a esposa está grávida, ele não tem nenhuma permissão de fazer sexo. Essa é a lei para os seres humanos. O homem tem permissão de ter mais de uma esposa porque ele não pode fazer sexo quando sua esposa está grávida. Se ele quiser sexo nesse período, deverá dirigir-se a outra esposa que não esteja grávida. Essas leis são mencionadas na Manu-saṁhitā e em outras escrituras.
Essas leis e escrituras destinam-se aos seres humanos. Assim sendo, se alguém viola essas leis, torna-se pecaminoso. Em conclusão, o gozo sensual irrestrito é o mesmo que atividades pecaminosas. Sexo ilícito é o sexo que viola as leis dadas nas escrituras. Aquele que viola as leis das escrituras, ou dos Vedas, comete atividades pecaminosas. Estando ocupado em atividades pecaminosas, ele não pode mudar sua consciência. Nossa verdadeira função é mudar nossa consciência de kaśmala, consciência pecaminosa, para Kṛṣṇa, o puro supremo. Como se confirma na Bhagavad-gītā (paraṁ brahma paraṁ dhāma pavitraṁ paramaṁ bhavān), Kṛṣṇa é o puro supremo. Portanto, se mudarmos nossa consciência do gozo material para Kṛṣṇa, nós nos purificaremos. Esse é o processo recomendado pelo Senhor Caitanya Mahāprabhu como o processo de cetodarpaṇa-mārjanam, a limpeza do espelho do coração.
Devanagari
तस्यामजनयत्पुत्रान् पुरञ्जन्यां पुरञ्जन: ।
शतान्येकादश विराडायुषोऽर्धमथात्यगात् ॥ ६ ॥
शतान्येकादश विराडायुषोऽर्धमथात्यगात् ॥ ६ ॥
Verse text
tasyām ajanayat putrān
purañjanyāṁ purañjanaḥ
śatāny ekādaśa virāḍ
āyuṣo ’rdham athātyagāt
purañjanyāṁ purañjanaḥ
śatāny ekādaśa virāḍ
āyuṣo ’rdham athātyagāt
Synonyms
Translation
O grande sábio Nārada dirigiu-se, então, ao rei Prācīnabarhiṣat: Ó longevo [virāṭ], dessa maneira, o rei Purañjana gerou 1.100 filhos no ventre de sua esposa, Purañjanī. Contudo, nesses afazeres, ele gastou metade da duração de sua vida.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, há várias palavras significativas, as primeiras das quais são ekādaśa śatāni. Purañjana gerou 1.100 filhos no ventre de sua esposa, para o que ele consumiu metade de sua vida. Na realidade, todo homem segue um processo semelhante. Se alguém vive no máximo cem anos, em sua vida familiar, ele só faz gerar filhos até os cinquenta anos de idade. Infelizmente, no momento atual, as pessoas não vivem nem mesmo cem anos; todavia, geram filhos até os sessenta anos de idade. Outro ponto a destacar é que outrora as pessoas costumavam gerar 100 ou 200 filhos e filhas. Como deixará evidente o verso seguinte, o rei Purañjana não gerou apenas 1.100 filhos, mas também 110 filhas. No momento atual, ninguém pode gerar tão grande número de filhos. Ao invés disso, a humanidade está muito atarefada em impedir o aumento da população através de métodos anticoncepcionais.
Jamais encontramos nos textos védicos exemplos de que se usassem métodos anticoncepcionais, embora cada um gerasse centenas de filhos. Controlar o aumento populacional através de métodos anticoncepcionais é mais uma das atividades pecaminosas, mas, nesta era de Kali, as pessoas têm se tornado tão pecaminosas que não se importam com as reações resultantes de suas vidas pecaminosas. O rei Purañjana deitou-se com sua esposa, Purañjanī, e gerou um grande número de filhos, e nesses versos não se menciona que ele tenha usado métodos anticoncepcionais. Segundo as escrituras védicas, o método anticoncepcional deve consistir em restringir a vida sexual. Ninguém tem permissão para uma vida sexual irrestrita evitando filhos pelo uso de algum método para impedir a gravidez. Se um homem tem boa consciência, ele consulta sua esposa religiosa e, como resultado dessa consulta, com inteligência, avança em sua habilidade de dar valor à vida. Em outras palavras, se alguém tem a fortuna de ter uma esposa boa e escrupulosa, ele pode decidir, através de consulta mútua, e reconhecer que a vida humana se destina ao avanço em consciência de Kṛṣṇa, e não a gerar um grande número de filhos. Os filhos são chamados pariṇāma, ou subprodutos, e, quando alguém consulta sua boa inteligência, pode ver que seus subprodutos devem ser a expansão de sua consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
दुहितृर्दशोत्तरशतं पितृमातृयशस्करी: ।
शीलौदार्यगुणोपेता: पौरञ्जन्य: प्रजापते ॥ ७ ॥
शीलौदार्यगुणोपेता: पौरञ्जन्य: प्रजापते ॥ ७ ॥
Verse text
duhitṝr daśottara-śataṁ
pitṛ-mātṛ-yaśaskarīḥ
śīlaudārya-guṇopetāḥ
paurañjanyaḥ prajā-pate
pitṛ-mātṛ-yaśaskarīḥ
śīlaudārya-guṇopetāḥ
paurañjanyaḥ prajā-pate
Synonyms
Translation
Ó Prajāpati, ó rei Prācīnabarhiṣat, dessa maneira, o rei Purañjana gerou, também, cento e dez filhas. Todas elas, como o pai e a mãe, eram igualmente gloriosas. Tinham comportamento gentil, magnanimidade e outras boas qualidades.
Purport
SIGNIFICADO—Filhos gerados sob as regras e regulações das escrituras geralmente se tornam tão bons quanto o pai e a mãe, mas filhos que nascem ilegitimamente, de maneira geral, tornam-se varṇa-saṅkara. A população varṇa-saṅkara é irresponsável para com a família, para com a comunidade e até mesmo para com ela própria. Outrora, impedia-se a população varṇa-saṅkara, observando-se o método reformatório chamado garbhādhāna-saṁskāra, uma cerimônia religiosa para se gerar filhos. Neste verso, observamos que, embora o rei Purañjana tivesse gerado tantos filhos, eles não eram varṇa-saṅkara. Todos eram filhos bons e se comportavam bem, e tinham ótimas qualidades, como o pai e a mãe.
Muito embora possamos gerar muitos bons filhos, nosso desejo sexual além do que é prescrito nas normas é considerado pecaminoso. Demasiado gozo de qualquer um dos sentidos (não apenas do sexo) resulta em atividades pecaminosas. Portanto, é preciso tornar-se svāmī ou gosvāmī no final da vida. Podem-se gerar filhos até os cinquenta anos de idade, mas, depois dos cinquenta, deve-se parar de gerar filhos e aceitar a ordem de vānaprastha. Dessa maneira, deve-se deixar o lar para, mais adiante, aceitar sannyāsa. O título de um sannyāsī é svāmī ou gosvāmī, significando que ele se abstém inteiramente do gozo dos sentidos. Ninguém deve aceitar a ordem de sannyāsa caprichosamente; é preciso que a pessoa esteja plenamente confiante de que poderá restringir seus desejos de gozo dos sentidos. A vida familiar do rei Purañjana era, evidentemente, muito feliz. Como se menciona nestes versos, ele gerou 1.100 filhos e 110 filhas. Todos desejam ter mais filhos do que filhas, e, como o número de filhas era menor do que o número de filhos, parece que a vida familiar de Purañjana era muito tranquila e agradável.
Devanagari
स पञ्चालपति: पुत्रान् पितृवंशविवर्धनान् ।
दारै: संयोजयामास दुहितृ: सदृशैर्वरै: ॥ ८ ॥
दारै: संयोजयामास दुहितृ: सदृशैर्वरै: ॥ ८ ॥
Verse text
sa pañcāla-patiḥ putrān
pitṛ-vaṁśa-vivardhanān
dāraiḥ saṁyojayām āsa
duhitṝḥ sadṛśair varaiḥ
pitṛ-vaṁśa-vivardhanān
dāraiḥ saṁyojayām āsa
duhitṝḥ sadṛśair varaiḥ
Synonyms
Translation
Depois disso, o rei Purañjana, o rei do território Pañcāla, a fim de aumentar os descendentes de sua família, casou seus filhos com esposas qualificadas e suas filhas com esposos qualificados.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo o sistema védico, todos devem casar-se. Todos precisam aceitar uma esposa porque a esposa gerará filhos, e os filhos, por sua vez, oferecerão alimentos e cerimônias funerárias aos antepassados, onde quer que possam estar vivendo, para que fiquem felizes. O oferecimento de oblações em nome do Senhor Viṣṇu chama-se piṇḍodaka, e é necessário que os descendentes de uma família ofereçam piṇḍa aos antepassados.
Purañjana, o rei de Pañcāla, não apenas estava satisfeito em sua própria vida sexual, como também fez arranjos para a satisfação da vida sexual de seus 1.100 filhos e 110 filhas. Dessa maneira, alguém pode elevar sua família aristocrática à plataforma de dinastia. É significativo neste verso que Purañjana tenha casado tanto os filhos quanto as filhas. É dever do pai e da mãe providenciar o casamento de seus filhos e filhas. Essa é uma das obrigações na sociedade védica. Os filhos e filhas não devem ter liberdade de misturarem-se com o sexo oposto a não ser que sejam casados. Essa organização social védica é muito boa pelo fato de descontinuar a proliferação de vida sexual ilícita, ou varṇa-saṅkara, que se manifesta sob diferentes nomes na atualidade. Infelizmente, nesta era, embora o pai e a mãe se preocupem em casar seus filhos, os filhos não aceitam casar-se através de arranjos dos pais. Em decorrência disso, o número de varṇa-saṅkara tem aumentado em todo o mundo sob diferentes nomes.
Devanagari
पुत्राणां चाभवन्पुत्रा एकैकस्य शतं शतम् ।
यैर्वै पौरञ्जनो वंश: पञ्चालेषु समेधित: ॥ ९ ॥
यैर्वै पौरञ्जनो वंश: पञ्चालेषु समेधित: ॥ ९ ॥
Verse text
putrāṇāṁ cābhavan putrā
ekaikasya śataṁ śatam
yair vai paurañjano vaṁśaḥ
pañcāleṣu samedhitaḥ
ekaikasya śataṁ śatam
yair vai paurañjano vaṁśaḥ
pañcāleṣu samedhitaḥ
Synonyms
Translation
Desses muitos filhos, cada um gerou centenas e centenas de netos. Dessa maneira, toda a cidade de Pañcāla ficou apinhada desses filhos e netos do rei Purañjana.
Purport
SIGNIFICADO—Lembremo-nos de que Purañjana é a entidade viva, e a cidade de Pañcāla é o corpo. O corpo é o campo de atividades para a entidade viva, como se afirma na Bhagavad-gītā: kṣetra-kṣetrajña. Existem dois constituintes: um é a entidade viva (kṣetrajña), e o outro, o corpo da entidade viva (kṣetra). Qualquer entidade viva pode perceber que está coberta pelo corpo: basta contemplar o corpo por um instante. Um pouco de contemplação nos permite entender que o corpo é nossa posse. Podemos entender isso através da experiência prática e da autoridade dos śāstras. A Bhagavad-gītā (2.13) diz que dehino ’smin yathā dehe: o proprietário do corpo, a alma, encontra-se dentro do corpo. O corpo é considerado pañcāla-deśa, ou seja, o campo de atividades onde a entidade viva pode satisfazer seus sentidos em seu contato com os cinco objetos dos sentidos, a saber, gandha, rasa, rūpa, sparśa e śabda – isto é, os objetos dos sentidos feitos de terra, água, fogo, ar e éter. Neste mundo material, coberta pelo corpo material de matéria grosseira e sutil, cada entidade viva cria ações e reações, as quais são dadas a conhecer alegoricamente nesta passagem como filhos e netos. Há duas espécies de ações e reações: as piedosas e as ímpias. Dessa maneira, nossa existência material torna-se revestida por diferentes ações e reações. A esse respeito, Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura afirma:
karma-kāṇḍa, jñāna-kāṇḍa, kevala viṣera bhāṇḍa,
amṛta baliyā yebā khāya
nānā yoni sadā phire, kadarya bhakṣaṇa kare,
tāra janma adhaḥ-pāte yāya
amṛta baliyā yebā khāya
nānā yoni sadā phire, kadarya bhakṣaṇa kare,
tāra janma adhaḥ-pāte yāya
“Atividades fruitivas e especulação mental não passam de meros copos de veneno. Qualquer pessoa que os beba, julgando-os néctar, é forçada a lutar muito arduamente, vida após vida, em diferentes classes de corpos. Uma pessoa assim come toda espécie de coisas sem sentido e é condenada por suas atividades de dito gozo dos sentidos.”
Assim, o campo de ações e reações, através do qual nossos descendentes se multiplicam, começa com a vida sexual. Purañjana aumentou sua família gerando filhos, os quais, por sua vez, geraram netos. Deste modo, a entidade viva, estando propensa ao gozo sexual, envolve-se em muitas centenas e milhares de ações e reações. Dessa maneira, ela permanece dentro do mundo material, visando apenas ao gozo dos sentidos, e transmigra de corpo para corpo. Seu processo de se reproduzir em tantos filhos e netos resulta em ditas sociedades, nações, comunidades e assim por diante. Todas essas comunidades, sociedades, dinastias e nações são meras expansões da vida sexual. Como afirma Prahlāda Mahārāja: yan maithunādi-gṛhamedhi-sukhaṁ hi tuccham. (Śrīmad-Bhāgavatam 7.9.45) Gṛhamedhī é aquele que deseja permanecer dentro da existência material. Isso quer dizer que ele deseja permanecer dentro deste corpo ou da sociedade para gozar de amizade, amor e comunidade. Seu único prazer está em aumentar o número de desfrutadores de sexo. Ele goza de sexo e procria filhos, que, por sua vez, casam-se e procriam netos. Os netos também se casam e, por sua vez, procriam bisnetos. Dessa maneira, toda a Terra torna-se superpovoada, e então, de repente, ocorrem reações provocadas pela natureza material sob a forma de guerras, fome, pestes, terremotos etc. Assim, toda a população desaparece para novamente ser procriada. Esse processo consta na Bhagavad-gītā (8.19) como repetida criação e aniquilação: bhūtvā bhūtvā pralīyate. Devido à falta de consciência de Kṛṣṇa, toda esta criação e aniquilação está acontecendo sob o nome de civilização humana. Esse ciclo se repete devido à falta de conhecimento do homem sobre a alma e a Suprema Personalidade de Deus.
Devanagari
तेषु तद्रिक्थहारेषु गृहकोशानुजीविषु ।
निरूढेन ममत्वेन विषयेष्वन्वबध्यत ॥ १० ॥
निरूढेन ममत्वेन विषयेष्वन्वबध्यत ॥ १० ॥
Verse text
teṣu tad-riktha-hāreṣu
gṛha-kośānujīviṣu
nirūḍhena mamatvena
viṣayeṣv anvabadhyata
gṛha-kośānujīviṣu
nirūḍhena mamatvena
viṣayeṣv anvabadhyata
Synonyms
Translation
Esses filhos e netos eram, para todos os fins práticos, assaltantes das riquezas do rei Purañjana, incluindo seu lar, tesouro, servos, secretários e todas as demais parafernálias. O apego de Purañjana a essas coisas tinha raízes profundas.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra riktha-hāreṣu, significando “assaltantes da riqueza”, é muito significativa. Os filhos, netos e outros descendentes de alguém são, em última análise, assaltantes da riqueza por ele acumulada. Existem muitos afamados homens de negócios e industriais que acumulam grande riqueza e são muito bem cotados pelo público, mas todo o dinheiro deles é, afinal, depredado por seus filhos e netos. Na Índia, tivemos a oportunidade de conhecer um industrial que, como o rei Purañjana, tinha muita inclinação sexual e meia dúzia de esposas. Cada uma dessas esposas tinha uma instalação separada que consumia vários milhares de rúpias. Certa vez, eu estava conversando com ele e notei que ele estava muito preocupado em conseguir dinheiro para que cada um de seus filhos e filhas pudesse ter pelo menos quinhentas mil rúpias. Assim, esses industriais, homens de negócios ou karmīs são chamados de mūḍhas nos śāstras. Eles trabalham muito arduamente e acumulam dinheiro para ter o prazer de vê-lo depredado por seus filhos e netos. Semelhantes pessoas não querem devolver sua riqueza ao seu verdadeiro proprietário. Como se afirma na Bhagavad-gītā (5.29), bhoktāraṁ yajña-tapasāṁ sarva-loka-maheśvaram: o verdadeiro proprietário de toda riqueza é a Suprema Personalidade de Deus. Ele é o verdadeiro desfrutador. Aqueles que dizem estarem ganhando dinheiro têm hábeis truques para tirar o dinheiro de Deus sob o pretexto de negócios e indústrias. Após acumularem esse dinheiro, têm o prazer de vê-lo saqueado por seus filhos e netos. Assim é o modo de vida materialista. Na vida materialista, as pessoas ficam encarceradas dentro do corpo e iludidas pelo falso egoísmo. Assim, cada um pensa: “Eu sou este corpo”, “Eu sou um ser humano”, “Eu sou americano”, “Eu sou indiano”. Esse conceito corpóreo deve-se ao falso ego. Deixando-se iludir pelo falso ego, a entidade viva se identifica com determinada família, nação ou comunidade. Dessa maneira, seu apego ao mundo material torna-se cada vez mais profundo. Logo, torna-se muito difícil para a entidade viva libertar-se de seu cativeiro. No décimo sexto capítulo da Bhagavad-gītā (16.13-15), apresenta-se a seguinte descrição gráfica de semelhantes pessoas:
idam adya mayā labdham
imaṁ prāpsye manoratham
idam astīdam api me
bhaviṣyati punar dhanam
imaṁ prāpsye manoratham
idam astīdam api me
bhaviṣyati punar dhanam
asau mayā hataḥ śatrur
haniṣye cāparān api
īśvaro ’ham ahaṁ bhogī
siddho ’haṁ balavān sukhī
haniṣye cāparān api
īśvaro ’ham ahaṁ bhogī
siddho ’haṁ balavān sukhī
āḍhyo ’bhijanavān asmi
ko ’nyo ’sti sadṛśo mayā
yakṣye dāsyāmi modiṣya
ity ajñāna-vimohitāḥ
ko ’nyo ’sti sadṛśo mayā
yakṣye dāsyāmi modiṣya
ity ajñāna-vimohitāḥ
“O ser demoníaco pensa: ‘Tanta riqueza eu tenho hoje, e vou ganhar mais conforme meus planos. Tenho tanto agora e isso aumentará mais e mais no futuro. Matei esse meu inimigo, e meus outros inimigos também serão mortos. Eu sou o senhor de tudo. Eu sou o desfrutador. Sou perfeito, poderoso e feliz. Sou o homem mais rico, rodeado por parentes aristocráticos. Não há ninguém tão poderoso e feliz como eu. Executarei sacrifícios, farei alguma caridade, e com isso ficarei contente’. Dessa maneira, eles são iludidos pela ignorância.”
Assim, as pessoas ocupam-se em diversas atividades penosas, e seu apego ao corpo, lar, família, nação e comunidade torna-se cada pez mais profundamente enraizado.
Devanagari
ईजे च क्रतुभिर्घोरैर्दीक्षित: पशुमारकै: ।
देवान् पितृन् भूतपतीन्नानाकामो यथा भवान् ॥ ११ ॥
देवान् पितृन् भूतपतीन्नानाकामो यथा भवान् ॥ ११ ॥
Verse text
īje ca kratubhir ghorair
dīkṣitaḥ paśu-mārakaiḥ
devān pitṝn bhūta-patīn
nānā-kāmo yathā bhavān
dīkṣitaḥ paśu-mārakaiḥ
devān pitṝn bhūta-patīn
nānā-kāmo yathā bhavān
Synonyms
īje — ele adorou; ca — também; kratubhiḥ — mediante sacrifícios; ghoraiḥ — horrendos; dīkṣitaḥ — inspirados; paśu-mārakaiḥ — em que se matam pobres animais; devān — os semideuses; pitṝn — antepassados; bhūta-patīn — grandes líderes da sociedade humana; nānā — diversos; kāmaḥ — tendo desejos; yathā — como; bhavān — tu.
Translation
O grande sábio Nārada prosseguiu: Meu querido rei Prācīnabarhiṣat, assim como tu, o rei Purañjana se envolveu com muitos desejos. Assim, ele adorou semideuses, antepassados e líderes sociais com diversos sacrifícios, os quais eram todos horrendos, visto que era o desejo de matar animais que os inspirava.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, o grande sábio Nārada revela que o caráter de Purañjana estava sendo descrito para servir de lição ao rei Prācīnabarhiṣat. Na realidade, toda a descrição mostrava, de maneira figurativa, as atividades do rei Prācīnabarhiṣat. Neste verso, Nārada diz francamente: “Assim como tu” (yathā bhavān), o que indica que o rei Purañjana não é outro senão o próprio rei Prācīnabarhiṣat. Sendo um grande vaiṣṇava, Nārada Muni queria parar com a matança de animais em sacrifícios. Ele sabia que, se tentasse impedir o rei de realizar sacrifícios, o rei não o ouviria. Por esse motivo, ele descreveu a vida de Purañjana. Neste verso, porém, ele revela pela primeira vez sua intenção, embora não completamente, ao dizer: “Assim como tu.” De um modo geral, os karmīs, que estão apegados a multiplicar seus descendentes, precisam executar muitos sacrifícios e adorar muitos semideuses para o benefício das gerações futuras, como também precisam satisfazer muitos líderes, políticos, filósofos e cientistas para que as coisas aconteçam de modo favorável para as gerações futuras. Os ditos cientistas estão muito ansiosos por saber se as gerações futuras viverão confortavelmente, de modo que procuram encontrar diversos meios de gerar energia para movimentar locomotivas, carros, aviões e assim por diante. Agora estão esgotando o suprimento de petróleo. Essas atividades são descritas na Bhagavad-gītā (2.41):
vyavasāyātmikā buddhir
ekeha kuru-nandana
bahu-śākhā hy anantāś ca
buddhayo ’vyavasāyinām
ekeha kuru-nandana
bahu-śākhā hy anantāś ca
buddhayo ’vyavasāyinām
“Aqueles que trilham o caminho espiritual são resolutos em seus propósitos, e sua meta é uma só. Ó amado filho dos Kurus, a inteligência dos irresolutos tem muitas ramificações.”
De fato, aqueles que conhecem tudo têm determinação para executar a consciência de Kṛṣṇa, mas aqueles que são patifes (mūḍhāḥ), pecadores (duṣkṛtinaḥ) e os mais baixos da humanidade (narādhamāḥ), que estão destituídos de toda inteligência (māyayāpahṛta jñānāḥ) e que se refugiam no modo de vida demoníaco (āsuraṁ bhāvam āśritāḥ), não têm interesse pela consciência de Kṛṣṇa. Sendo assim, eles se comprometem e empreendem muitas atividades. A maioria dessas atividades centraliza-se na matança de animais. A civilização moderna se centraliza na matança de animais. Os karmīs proclamam que, sem comer carne, suas vitaminas ou sua vitalidade serão reduzidas; assim, para se manterem capazes de trabalhar arduamente, eles precisam comer carne e, para digerir a carne, precisam beber, e, para manter o equilíbrio entre beber vinho e comer carne, precisam ter suficiente satisfação sexual, que os manterá capazes de trabalhar arduamente, como se fossem asnos.
Existem dois processos de matança de animais. Um deles é feito em nome de sacrifícios religiosos. Todas as religiões do mundo – exceto os budistas – têm um programa de matar animais em lugares de adoração. Segundo a civilização védica, recomenda-se aos comedores de animais que sacrifiquem um bode no templo de Kālī, sob determinadas normas restritivas, e comam sua carne. Do mesmo modo, recomenda-se que bebam vinho adorando a deusa Caṇḍikā. O propósito é a restrição. Tem-se abandonado todas essas restrições. Hoje em dia, abrem-se regularmente destilarias e matadouros e costuma-se consumir álcool e carne. Um ācārya vaiṣṇava como Nārada Muni sabe muito bem que pessoas ocupadas na matança de animais em nome de religião decerto estão se emaranhando no ciclo de nascimentos e mortes, esquecendo-se da verdadeira meta da vida: voltar ao lar, voltar ao Supremo.
Assim, o grande sábio Nārada, enquanto ensinava o Śrīmad-Bhāgavatam a Vyāsa Muni, condenou as atividades karma-kāṇḍa (fruitivas) mencionadas nos Vedas. Nārada disse a Vyāsa:
jugupsitaṁ dharma-kṛte ’nuśāsataḥ
svabhāva-raktasya mahān vyatikramaḥ
yad vākyato dharma itītaraḥ sthito
na manyate tasya nivāraṇaṁ janaḥ
svabhāva-raktasya mahān vyatikramaḥ
yad vākyato dharma itītaraḥ sthito
na manyate tasya nivāraṇaṁ janaḥ
“As pessoas em geral são naturalmente propensas a desfrutar, e tu as encorajaste dessa maneira em nome da religião. Isso é muito condenável e bastante irracional. Orientando-se por tuas instruções, elas aceitarão semelhantes atividades em nome da religião e pouco se importarão com as proibições.” (ŚrīmadBhāgavatam 1.5.15)
Śrīla Nārada Muni repreendeu Vyāsadeva por compilar tantas escrituras védicas suplementares, que se destinam a orientar as pessoas em geral. Nārada Muni condenou essas escrituras por elas não mencionarem o serviço devocional direto. Sob as instruções de Nārada, Vyāsadeva apresentou a adoração direta à Suprema Personalidade de Deus, tal como é descrita no Śrīmad-Bhāgavatam. Em conclusão, nem a Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu, nem Seu devoto sancionam em algum momento a matança de animais em nome da religião. Na verdade, Kṛṣṇa apareceu como o senhor Buddha para dar fim à matança de animais em nome da religião. Sacrifícios de animais em nome da religião são conduzidos sob a influência de tamo-guṇa (o modo da ignorância), como se indica no décimo oitavo capítulo da Bhagavad-gītā (18.31-32):
yayā dharmam adharmaṁ ca
kāryaṁ cākāryam eva ca
ayathāvat prajānāti
buddhiḥ sā pārtha rājasī
kāryaṁ cākāryam eva ca
ayathāvat prajānāti
buddhiḥ sā pārtha rājasī
adharmaṁ dharmam iti yā
manyate tamasāvṛtā
sarvārthān viparītāṁś ca
buddhiḥ sā pārtha tāmasī
manyate tamasāvṛtā
sarvārthān viparītāṁś ca
buddhiḥ sā pārtha tāmasī
“A compreensão que não pode distinguir entre o modo de vida religioso e o irreligioso, entre a ação que deve ser feita e a ação que não deve ser feita – essa compreensão imperfeita, ó filho de Pṛthā, está no modo da paixão. A compreensão que considera irreligião como religião e religião como irreligião, sob o encanto da ilusão e da escuridão, e avança sempre na direção errada, ó Pārtha, está no modo da ignorância.”
Aqueles que se comprometem com o modo da ignorância inventam sistemas religiosos para matar animais. Na verdade, o dharma é transcendental. Como o Senhor Śrī Kṛṣṇa ensina, precisamos abandonar todos os demais sistemas de religião e simplesmente nos render a Ele (sarva-dharmān parityajya). Assim, o Senhor e Seus devotos e representantes ensinam o dharma transcendental, o qual não permite de forma alguma a matança de animais. No momento atual, é muito lamentável que muitos ditos trabalhadores missionários na Índia estejam difundindo a irreligião em nome da religião. Eles afirmam que o ser humano comum é Deus e recomendam a todos que comam carne, incluindo os assim chamados sannyāsīs.
Devanagari
युक्तेष्वेवं प्रमत्तस्य कुटुम्बासक्तचेतस: ।
आससाद स वै कालो योऽप्रिय: प्रिययोषिताम् ॥ १२ ॥
आससाद स वै कालो योऽप्रिय: प्रिययोषिताम् ॥ १२ ॥
Verse text
yukteṣv evaṁ pramattasya
kuṭumbāsakta-cetasaḥ
āsasāda sa vai kālo
yo ’priyaḥ priya-yoṣitām
kuṭumbāsakta-cetasaḥ
āsasāda sa vai kālo
yo ’priyaḥ priya-yoṣitām
Synonyms
yukteṣu — as atividades beneficentes; evam — assim; pramattasya — estando desatento; kuṭumba — a amigos e parentes; āsakta — apegado; cetasaḥ — consciência; āsasāda — chegou; saḥ — aquele; vai — decerto; kālaḥ — momento; yaḥ — que; apriyaḥ — não muito agradável; priya-yoṣitām — para pessoas apegadas a mulheres.
Translation
Assim, o rei Purañjana, estando apegado às atividades fruitivas (karma-kāṇḍīya), bem como a amigos e parentes, e estando atormentado por uma consciência poluída, enfim chegou ao ponto não muito apreciado por aqueles que se apegam demasiadamente a coisas materiais.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, as palavras priya-yoṣitām e apriyaḥ são muito significativas. A palavra yoṣit significa “mulher”, e priya, “querido” ou “agradável”. A morte não é muito bem-vinda aos que são muito apegados ao gozo material, cuja culminação é o sexo. Existe uma história instrutiva a esse respeito. Certa vez, quando uma pessoa santa seguia seu caminho, encontrou-se com um príncipe, o filho de um rei, e o abençoou dizendo: “Meu querido príncipe, que vivas para sempre.” Em seguida, o sábio encontrou-se com uma pessoa santa e lhe disse: “Podes viver ou morrer.” Depois, o sábio encontrou-se com um devoto brahmacārī e o abençoou dizendo: “Meu querido devoto, podes morrer imediatamente.” Por fim, o sábio encontrou-se com um caçador e o abençoou dizendo: “Não vivas nem morras.” É importante notar que aqueles que são muito sensuais e ocupam-se em gozo dos sentidos não desejam morrer. De um modo geral, um príncipe tem dinheiro suficiente para satisfazer seus sentidos; portanto, o grande sábio disse que ele deveria viver para sempre, pois, enquanto vivesse, poderia gozar da vida, mas, após sua morte, iria para o inferno. Uma vez que o devoto brahmacārī levava uma vida de rigorosas austeridades e penitências para ser promovido a voltar ao Supremo, o sábio disse que ele deveria morrer logo, de modo que não precisasse continuar a trabalhar arduamente, mas pudesse, em vez disso, voltar ao lar, voltar ao Supremo. Uma pessoa santa pode viver ou morrer, pois, durante sua vida, está ocupada em servir ao Senhor e, após a morte, também continua a servir ao Senhor. Assim, esta vida e a próxima são iguais para um devoto santo, pois ele serve ao Senhor em ambas. Como o caçador leva uma vida abominável devido à matança de animais, e como irá para o inferno ao morrer, aconselha-se que ele nem viva nem morra.
O rei Purañjana finalmente chegou à fase da velhice. Na velhice, os sentidos perdem sua força e, embora um velho deseje satisfazer seus sentidos, e especialmente gozar de vida sexual, ele se vê em uma situação muito deplorável, pois seus instrumentos de gozo não funcionam mais. Pessoas sensuais dessa maneira jamais estão preparadas para a morte. Simplesmente querem continuar a viver e prolongar suas vidas através do dito avanço científico. Alguns tolos cientistas russos chegaram a declarar que estão prestes a tornar o homem imortal através do avanço científico. É sob a liderança de loucos dessa espécie que a civilização está “avançando”. A morte cruel, contudo, vem e leva todos, apesar de seus desejos de viver para sempre. Essa classe de mentalidade foi exibida por Hiraṇyakaśipu, mas, quando chegou a hora, o Senhor o matou pessoalmente, em um instante.
Devanagari
चण्डवेग इति ख्यातो गन्धर्वाधिपतिर्नृप ।
गन्धर्वास्तस्य बलिन: षष्ट्युत्तरशतत्रयम् ॥ १३ ॥
गन्धर्वास्तस्य बलिन: षष्ट्युत्तरशतत्रयम् ॥ १३ ॥
Verse text
caṇḍavega iti khyāto
gandharvādhipatir nṛpa
gandharvās tasya balinaḥ
ṣaṣṭy-uttara-śata-trayam
gandharvādhipatir nṛpa
gandharvās tasya balinaḥ
ṣaṣṭy-uttara-śata-trayam
Synonyms
Translation
Ó rei! Em Gandharvaloka, há um monarca chamado Caṇḍavega. Estão sob suas ordens trezentos e sessenta poderosíssimos soldados Gandharvas.
Purport
SIGNIFICADO—Descreve-se aqui o tempo figurativamente como Caṇḍavega. Uma vez que o tempo e a maré não esperam por ninguém, o tempo é chamado aqui de Caṇḍavega, significando “passagem muito rápida”. O passar do tempo é calculado em termos de anos. Um ano contém 360 dias, e os soldados de Caṇḍavega aqui mencionados representam esses dias. O tempo passa velozmente; os poderosos soldados de Caṇḍavega em Gandharvaloka muito rapidamente levam consigo todos os dias de nossa vida. Entre o Sol nascer e se pôr, escoa-se a duração de nossa vida. Assim, conforme os dias passam, cada um de nós perde uma parte da duração de sua vida. Portanto, afirma-se que não podemos recuperar a duração de nossa vida. Contudo, se nos ocupamos em serviço devocional, o Sol não pode levar nosso tempo. Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (2.3.17), āyur harati vai puṁsām udyann astaṁ ca yann asau. Em conclusão, se alguém quer se tornar imortal, ele deve abandonar o gozo dos sentidos. Quem se ocupa em serviço devocional pode, aos poucos, ingressar no reino eterno de Deus.
Miragens e outras coisas ilusórias às vezes são chamadas de Gandharvas. O exaurir da duração de nossa vida se chama envelhecimento. Esse imperceptível passar dos dias de nossa vida é mencionado neste verso, figurativamente, como Gandharvas. Como se explicará em versos posteriores, esses Gandharvas são tanto masculinos quanto femininos. Isso indica que tanto homens quanto mulheres perdem seus anos de vida imperceptivelmente, devido à força do tempo, o qual se descreve aqui como Caṇḍavega.
Devanagari
गन्धर्व्यस्तादृशीरस्य मैथुन्यश्च सितासिता: ।
परिवृत्त्या विलुम्पन्ति सर्वकामविनिर्मिताम् ॥ १४ ॥
परिवृत्त्या विलुम्पन्ति सर्वकामविनिर्मिताम् ॥ १४ ॥
Verse text
gandharvyas tādṛśīr asya
maithunyaś ca sitāsitāḥ
parivṛttyā vilumpanti
sarva-kāma-vinirmitām
maithunyaś ca sitāsitāḥ
parivṛttyā vilumpanti
sarva-kāma-vinirmitām
Synonyms
gandharvyaḥ — Gandharvīs; tādṛśīḥ — de forma semelhante; asya — de Caṇḍavega; maithunyaḥ — companheiras para o intercurso sexual; ca — também; sita — brancos; asitāḥ — negras; parivṛttyā — rodeando; vilumpanti — saqueavam; sarva-kāma — toda a classe de objetos desejáveis; vinirmitām — inventados.
Translation
Juntamente com Caṇḍavega, havia tantas Gandharvīs quanto havia soldados, e todos eles repetidamente saqueavam toda a parafernália destinada ao gozo dos sentidos.
Purport
SIGNIFICADO—Os dias são comparados aos soldados de Caṇḍavega. A noite, geralmente, é o momento reservado ao gozo sexual. Os dias são considerados brancos, e as noites, negras, ou, sob outro ponto de vista, existem duas classes de noites: noites negras e noites brancas. Todos esses dias e noites se combinam para acabar com a duração de nossa vida e com tudo que inventamos para satisfazer os sentidos. Atividades materiais significam inventar coisas destinadas ao gozo dos sentidos. Os cientistas fazem pesquisas para descobrir como podemos satisfazer nossos sentidos de modo cada vez mais elaborado. Nesta Kali-yuga, emprega-se a mentalidade demoníaca para inventar várias máquinas a fim de facilitar o processo de gozo dos sentidos. Tantas são as máquinas usadas em atividades domésticas comuns. Há máquinas para lavar pratos, limpar o chão, barbear-se, cortar o cabelo – hoje em dia, tudo é feito por máquinas. Descrevem-se todos esses recursos para o gozo dos sentidos neste verso como sarva-kāma-vinirmitām. O fator tempo, contudo, é tão forte que não faz apenas a duração de nossa vida esvanecer-se, senão que todas as máquinas e recursos para o gozo dos sentidos se deteriorarem. Portanto, neste verso, usa-se a palavra vilumpanti, “saqueando”. Tudo vem sendo saqueado desde o início de nossa vida.
Este assalto às nossas posses e à duração de nossa vida começa no dia de nosso nascimento. Chegará enfim o dia em que a morte acabará com tudo, e a entidade viva será obrigada a entrar em outro corpo de modo a começar outro capítulo da vida e outra vez iniciar o ciclo de gozo material dos sentidos. Prahlāda Mahārāja descreve esse processo como punaḥ punaś carvita-carvaṇānām (Śrīmad-Bhāgavatam 7.5.30): vida materialista significa mastigar o mastigado repetidamente. O ponto central da vida material é o gozo dos sentidos. Em diferentes espécies de corpos, a entidade viva desfruta de vários sentidos e, criando diversas classes de recursos, ela mastiga o mastigado. Se extrairmos o açúcar da cana-de-açúcar com nossos dentes ou com uma máquina, o resultado será o mesmo – caldo de cana. Pode ser que descubramos muitos processos para se extrair o caldo da cana, mas o resultado será o mesmo.
Devanagari
ते चण्डवेगानुचरा: पुरञ्जनपुरं यदा ।
हर्तुमारेभिरे तत्र प्रत्यषेधत्प्रजागर: ॥ १५ ॥
हर्तुमारेभिरे तत्र प्रत्यषेधत्प्रजागर: ॥ १५ ॥
Verse text
te caṇḍavegānucarāḥ
purañjana-puraṁ yadā
hartum ārebhire tatra
pratyaṣedhat prajāgaraḥ
purañjana-puraṁ yadā
hartum ārebhire tatra
pratyaṣedhat prajāgaraḥ
Synonyms
Translation
Quando o rei Gandharva-rāja [Caṇḍavega] e seus seguidores começaram a assaltar a cidade de Purañjana, uma serpente de cinco cabeças colocou-se a defender a cidade.
Purport
SIGNIFICADO—Quando alguém está dormindo, o ar vital permanece ativo em diferentes sonhos. As cinco cabeças da serpente indicam que o ar vital está cercado por cinco tipos de ar, conhecidos como prāṇa, apāna, vyāna, udāna e samāna. O corpo pode estar inativo, mas o prāṇa, ou o ar vital, sempre age. Até os cinquenta anos de idade, a pessoa pode trabalhar ativamente em busca de gozo dos sentidos, mas, após os cinquenta anos, sua energia diminui, embora ele possa, com grande esforço, trabalhar por dois ou três anos mais – ou talvez até os cinquenta e cinco anos. Assim, a idade dos cinquenta e cinco anos geralmente é considerada pelas leis governamentais como o prazo final para a aposentadoria. A energia, fatigada após os cinquenta anos, é figurativamente descrita nesta passagem como uma serpente de cinco cabeças.
Devanagari
स सप्तभि: शतैरेको विंशत्या च शतं समा: ।
पुरञ्जनपुराध्यक्षो गन्धर्वैर्युयुधे बली ॥ १६ ॥
पुरञ्जनपुराध्यक्षो गन्धर्वैर्युयुधे बली ॥ १६ ॥
Verse text
sa saptabhiḥ śatair eko
viṁśatyā ca śataṁ samāḥ
purañjana-purādhyakṣo
gandharvair yuyudhe balī
viṁśatyā ca śataṁ samāḥ
purañjana-purādhyakṣo
gandharvair yuyudhe balī
Synonyms
Translation
A serpente de cinco cabeças, a superintendente e protetora da cidade do rei Purañjana, lutou com os Gandharvas por cem anos. Ela lutou sozinha contra todos eles, embora eles fossem setecentos e vinte.
Purport
SIGNIFICADO—Os 360 dias e 360 noites combinam-se para tornarem-se os 720 soldados de Caṇḍavega, o tempo. Todos são obrigados a lutar contra esses soldados durante toda a sua vida, começando com o nascimento e terminando com a morte. Essa batalha se chama “a luta pela vida”. Apesar dessa luta, contudo, a entidade viva não morre. Como se confirma na Bhagavad-gītā (2.20), a entidade viva é eterna:
na jāyate mriyate vā kadācin
nāyaṁ bhūtvā bhavitā vā na bhūyaḥ
ajo nityaḥ śāśvato ’yaṁ purāṇo
na hanyate hanyamāne śarīre
nāyaṁ bhūtvā bhavitā vā na bhūyaḥ
ajo nityaḥ śāśvato ’yaṁ purāṇo
na hanyate hanyamāne śarīre
“Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Uma vez que ela existe, jamais deixará de existir. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre.” De fato, a entidade viva não nasce nem morre, mas é obrigada a lutar com as estritas leis da natureza material por toda a duração de sua vida. É forçada, também, a se defrontar com diferentes classes de condições dolorosas. Apesar de tudo isso, a entidade viva, devido à ilusão, pensa que sua situação de gozo dos sentidos é favorável.
Devanagari
क्षीयमाणे स्वसम्बन्धे एकस्मिन् बहुभिर्युधा ।
चिन्तां परां जगामार्त: सराष्ट्रपुरबान्धव: ॥ १७ ॥
चिन्तां परां जगामार्त: सराष्ट्रपुरबान्धव: ॥ १७ ॥
Verse text
kṣīyamāṇe sva-sambandhe
ekasmin bahubhir yudhā
cintāṁ parāṁ jagāmārtaḥ
sa-rāṣṭra-pura-bāndhavaḥ
ekasmin bahubhir yudhā
cintāṁ parāṁ jagāmārtaḥ
sa-rāṣṭra-pura-bāndhavaḥ
Synonyms
kṣīyamāṇe — quando ela ficou fraca; sva-sambandhe — sua amiga íntima; ekasmin — sozinha; bahubhiḥ — contra muitos guerreiros; yudhā — pela batalha; cintām — ansiedade; parām — muito grande; jagāma — obtiveram; ārtaḥ — estando aflito; sa — juntamente com; rāṣṭra — do reino; pura — da cidade; bāndhavaḥ — amigos e parentes.
Translation
Como tinha que lutar sozinha contra tantos soldados, todos eles grandes guerreiros, a serpente de cinco cabeças ficou muito fraca. Vendo que sua amiga mais íntima estava se enfraquecendo, o rei Purañjana e seus amigos e cidadãos que viviam na cidade ficaram todos muito ansiosos.
Purport
SIGNIFICADO—A entidade viva reside dentro do corpo e luta pela vida com os membros do corpo, os quais, neste verso, são chamados de cidadãos e amigos. É possível lutar sozinho contra muitos soldados por algum tempo, mas não por todo o tempo. A entidade viva dentro do corpo pode lutar até o limite de cem anos se tiver sorte, mas, depois disso, não lhe é possível prolongar a luta. Assim, a entidade viva sucumbe e é vitimada. A esse respeito, Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura canta: vṛddha kāla āola saba sukha bhāgala. Quando alguém envelhece, o gozo de felicidades materiais se torna impossível. De um modo geral, as pessoas pensam que religião e piedade vêm no final da vida, ocasião em que, geralmente, elas se tornam meditativas e adotam algum dito processo de yoga para relaxarem, sob o pretexto de fazer meditação. A meditação, contudo, é mera farsa para aqueles que gozam da vida satisfazendo os sentidos. Como se descreve no sexto capítulo da Bhagavad-gītā, meditação (dhyāna, dhāraṇā) é um processo tão difícil que é preciso aprendê-lo desde a juventude. Para meditar, é preciso abster-se de toda espécie de gozo dos sentidos. Infelizmente, hoje em dia, a meditação tornou-se moda para aqueles que são excessivamente viciados em coisas sensuais. Semelhante classe de meditação é derrotada na luta pela vida. Às vezes, tais processos de meditação passam por processos de meditação transcendental. O rei Purañjana, a entidade viva, sendo assim vitimado na árdua luta pela vida, adotou a meditação transcendental juntamente com seus amigos e parentes.
Devanagari
स एव पुर्यां मधुभुक्पञ्चालेषु स्वपार्षदै: ।
उपनीतं बलिं गृह्णन् स्त्रीजितो नाविदद्भयम् ॥ १८ ॥
उपनीतं बलिं गृह्णन् स्त्रीजितो नाविदद्भयम् ॥ १८ ॥
Verse text
sa eva puryāṁ madhu-bhuk
pañcāleṣu sva-pārṣadaiḥ
upanītaṁ baliṁ gṛhṇan
strī-jito nāvidad bhayam
pañcāleṣu sva-pārṣadaiḥ
upanītaṁ baliṁ gṛhṇan
strī-jito nāvidad bhayam
Synonyms
saḥ — ele; eva — decerto; puryām — dentro da cidade; madhu-bhuk — gozando de vida sexual; pañcāleṣu — no reino de Pañcāla (cinco objetos dos sentidos); sva-pārṣadaiḥ — juntamente com seus seguidores; upanītam — trazia; balim — impostos; gṛhṇan — aceitando; strī-jitaḥ — dominado por mulheres; na — não; avidat — entendia; bhayam — temor à morte.
Translation
O rei Purañjana arrecadava impostos na cidade conhecida como Pañcāla, de modo que tinha oportunidades de desfrutar de vida sexual. Estando inteiramente sob o controle de mulheres, ele não podia entender que sua vida estava se acabando e que ele estava à beira da morte.
Purport
SIGNIFICADO—Aproveitando-se de sua posição, os homens do governo – incluindo reis, presidentes, secretários e ministros – utilizam os impostos arrecadados dos cidadãos para o gozo dos sentidos. O Śrīmad-Bhāgavatam afirma que, nesta Kali-yuga, os homens do governo (rājanyas) e aqueles ligados ao governo, bem como altos ministros governamentais, secretários e presidentes, simplesmente cobrarão impostos para satisfazer seus sentidos. Como a economia do governo é instável, o governo não consegue se manter sem aumentar os impostos. Quando cobram impostos, os oficiais do governo utilizam o mesmo para o gozo de seus sentidos. Esses políticos irresponsáveis esquecem que haverá o momento da morte, que virá para tirar todo o seu gozo dos sentidos. Alguns deles estão convencidos de que tudo se acaba após a morte. Essa teoria ateísta foi concebida há muito tempo por um filósofo chamado Cārvāka. Cārvāka recomendava que o homem deveria viver com abundância, fosse mendigando, fazendo empréstimos ou roubando. Ele também sustentava a opinião de que ninguém deveria temer a morte, a próxima vida, a vida passada ou uma vida ímpia porque, depois que o corpo se transforma em cinzas, tudo se acaba. Essa é a filosofia daqueles que são demasiadamente apegados à matéria. Semelhante filosofar não salvará ninguém da morte inevitável, nem de uma vida abominável após a morte.
Devanagari
कालस्य दुहिता काचित्त्रिलोकीं वरमिच्छती ।
पर्यटन्ती न बर्हिष्मन् प्रत्यनन्दत कश्चन ॥ १९ ॥
पर्यटन्ती न बर्हिष्मन् प्रत्यनन्दत कश्चन ॥ १९ ॥
Verse text
kālasya duhitā kācit
tri-lokīṁ varam icchatī
paryaṭantī na barhiṣman
pratyanandata kaścana
tri-lokīṁ varam icchatī
paryaṭantī na barhiṣman
pratyanandata kaścana
Synonyms
Translation
Meu querido rei Prācīnabarhiṣat, nessa ocasião, a filha do formidável Tempo andava à procura de um esposo pelos três mundos. Apesar de ninguém ter concordado em aceitá-la, ela veio.
Purport
SIGNIFICADO—Com o correr do tempo, ao envelhecer e praticamente tornar-se inválido, o corpo fica sujeito a jarā, os sofrimentos da velhice. Existem quatro categorias básicas de sofrimento: nascimento, velhice, doença e morte. Nenhum cientista ou filósofo, em tempo algum, foi capaz de solucionar essas quatro condições dolorosas. A invalidez na velhice, conhecida como jarā, é figurativamente apresentada aqui como a filha do Tempo. Ninguém gosta dela, mas ela está muito ansiosa por aceitar qualquer pessoa como seu esposo. Ninguém gosta de envelhecer e se tornar inválido, mas isso é inevitável para todos.
Devanagari
दौर्भाग्येनात्मनो लोके विश्रुता दुर्भगेति सा ।
या तुष्टा राजर्षये तु वृतादात्पूरवे वरम् ॥ २० ॥
या तुष्टा राजर्षये तु वृतादात्पूरवे वरम् ॥ २० ॥
Verse text
daurbhāgyenātmano loke
viśrutā durbhageti sā
yā tuṣṭā rājarṣaye tu
vṛtādāt pūrave varam
viśrutā durbhageti sā
yā tuṣṭā rājarṣaye tu
vṛtādāt pūrave varam
Synonyms
daurbhāgyena — devido ao infortúnio; ātmanaḥ — dela mesma; loke — no mundo; viśrutā — célebre; durbhagā — muito infeliz; iti — assim; sā — ela; yā — que; tuṣṭā — estando satisfeita; rāja-ṛṣaye — com o grande rei; tu — mas; vṛtā — sendo aceita; adāt — concedeu; pūrave — ao rei Pūru; varam — bênção.
Translation
A filha do Tempo [Jarā] era muito infeliz. Em consequência disso, era conhecida como Durbhagā, “desafortunada”. Contudo, certa vez ela ficou satisfeita com um grande rei, e, como o rei a aceitou, ela lhe concedeu uma grande bênção.
Purport
SIGNIFICADO—Segundo canta Bhaktivinoda Ṭhākura, saba sukha bhāgala: toda espécie de felicidade desaparece na velhice. Logo, ninguém gosta da velhice, ou jarā. Assim, Jarā, sendo a filha do Tempo, é conhecida como uma filha muito infeliz. Entretanto, certa vez ela foi aceita por um grande rei, Yayāti. Yayāti fora amaldiçoado por seu sogro, Śukrācārya, a aceitá-la. Quando a filha de Śukrācārya casou-se com o rei Yayāti, uma de suas amigas, chamada Śarmiṣṭhā, acompanhou-a. Mais tarde, o rei Yayāti ficou muito apegado a Śarmiṣṭhā, e a filha de Śukrācārya foi reclamar disso com seu pai. Em consequência disso, Śukrācārya amaldiçoou o rei Yayāti a envelhecer prematuramente. O rei Yayāti tinha cinco filhos jovens, e rogou a todos eles que trocassem sua juventude pela velhice dele. Ninguém concordou, com exceção do filho caçula, cujo nome era Pūru. Ao aceitar a velhice de Yayāti, Pūru recebeu o reino do pai. Descreve-se que dois dos outros filhos de Yayāti, tendo desobedecido a seu pai, receberam reinos fora da Índia, mais provavelmente na Turquia e na Grécia. Isso quer dizer que alguém poderá acumular riqueza e toda a espécie de opulências materiais, mas, durante a velhice, não poderá desfrutar delas. Embora Pūru houvesse obtido o reino de seu pai, ele não pôde desfrutar de toda a sua opulência, pois havia sacrificado sua juventude. Ninguém deve esperar que chegue à velhice para se tornar consciente de Kṛṣṇa. Devido à invalidez da velhice, ninguém pode progredir em consciência de Kṛṣṇa, por mais rico que seja materialmente.
Devanagari
कदाचिदटमाना सा ब्रह्मलोकान्महीं गतम् ।
वव्रे बृहद्व्रतं मां तु जानती काममोहिता ॥ २१ ॥
वव्रे बृहद्व्रतं मां तु जानती काममोहिता ॥ २१ ॥
Verse text
kadācid aṭamānā sā
brahma-lokān mahīṁ gatam
vavre bṛhad-vrataṁ māṁ tu
jānatī kāma-mohitā
brahma-lokān mahīṁ gatam
vavre bṛhad-vrataṁ māṁ tu
jānatī kāma-mohitā
Synonyms
Translation
Certa vez, quando eu vinha de Brahmaloka, o sistema planetário mais elevado, a esta Terra, a filha do Tempo, vagando pelo universo, encontrou-se comigo. Sabendo que eu era um brahmacārī declarado, ela ficou luxuriosa e propôs que eu a aceitasse.
Purport
SIGNIFICADO—O grande sábio Nārada Muni era um naiṣṭhika-brahmacārī – isto é, ele nunca tivera vida sexual. Consequentemente, ele mantinha sempre o frescor da juventude. A velhice, jarā, não podia atacá-lo. A invalidez da velhice pode dominar um homem comum, mas Nārada Muni era diferente. Julgando Nārada Muni um homem comum, a filha do Tempo o confrontou com seu desejo luxurioso. É necessário muito empenho para resistir à atração de uma mulher. Se até para os idosos é algo difícil, o que dizer, então, para os jovens? Aqueles que vivem como brahmacārīs devem seguir os passos do grande sábio Nārada Muni, que jamais aceitou as propostas de Jarā. Aqueles que são muitíssimo apegados sexualmente se tornam vítimas de jarā e, em pouco tempo, encurtam-se os dias de sua vida. Sem utilizar a forma humana de vida para a consciência de Kṛṣṇa, as vítimas de jarā morrem precocemente neste mundo.
Devanagari
मयि संरभ्य विपुलमदाच्छापं सुदु:सहम् ।
स्थातुमर्हसि नैकत्र मद्याच्ञाविमुखो मुने ॥ २२ ॥
स्थातुमर्हसि नैकत्र मद्याच्ञाविमुखो मुने ॥ २२ ॥
Verse text
mayi saṁrabhya vipula-
madāc chāpaṁ suduḥsaham
sthātum arhasi naikatra
mad-yācñā-vimukho mune
madāc chāpaṁ suduḥsaham
sthātum arhasi naikatra
mad-yācñā-vimukho mune
Synonyms
Translation
O grande sábio Nārada continuou: Quando me recusei a aceitar seu pedido, ela ficou muito irada comigo e amaldiçoou-me severamente. Por eu ter-me negado a atender sua solicitação, ela disse que eu não seria capaz de permanecer em um lugar por muito tempo.
Purport
SIGNIFICADO—O grande sábio Nārada Muni tem um corpo espiritual; portanto, velhice, doença, nascimento e morte não o afetam. Nārada é o devoto mais bondoso do Senhor Supremo, e sua única ocupação é viajar por todo o universo e pregar a consciência de Deus. Em outras palavras, sua ocupação é transformar todos em vaiṣṇavas. Em tais circunstâncias, de um modo geral, não há necessidade de ele permanecer em um só lugar além do tempo necessário para pregar. Uma vez que, por seu próprio livre-arbítrio, ele já está viajando por todo o universo, a maldição de Kālakanyā é descrita como uma boa sorte. Assim como Nārada Muni, muitos outros devotos do Senhor estão ocupados em pregar as glórias do Senhor em diferentes locais e em diferentes universos. Essas personalidades estão além da jurisdição das leis materiais.
Devanagari
ततो विहतसङ्कल्पा कन्यका यवनेश्वरम् ।
मयोपदिष्टमासाद्य वव्रे नाम्ना भयं पतिम् ॥ २३ ॥
मयोपदिष्टमासाद्य वव्रे नाम्ना भयं पतिम् ॥ २३ ॥
Verse text
tato vihata-saṅkalpā
kanyakā yavaneśvaram
mayopadiṣṭam āsādya
vavre nāmnā bhayaṁ patim
kanyakā yavaneśvaram
mayopadiṣṭam āsādya
vavre nāmnā bhayaṁ patim
Synonyms
Translation
Depois de ter ficado desapontada comigo, com minha permissão, ela se aproximou do rei dos Yavanas, cujo nome era Bhaya, ou Medo, e o aceitou como seu esposo.
Purport
SIGNIFICADO—Sendo o vaiṣṇava mais perfeito, Śrī Nārada Muni sempre deseja o bem a outros, mesmo para aquele que o amaldiçoa. Embora Nārada Muni tivesse se recusado a aceitar Kālakanyā, a filha do Tempo, essa recebeu um refúgio. Evidentemente, ninguém poderia conferir refúgio a ela, mas o vaiṣṇava proporcionou um refúgio em algum lugar a essa jovem tão desafortunada. Quando jarā, ou a velhice, ataca, todos se degeneram e se deterioram. De uma vez só, Nārada Muni conferiu abrigo a Kālakanyā e contra-atacou os karmīs comuns. Se alguém aceita as instruções de Nārada Muni, o oceano de medo (bhaya) pode ser rapidamente eliminado pela graça desse grande vaiṣṇava.
Devanagari
ऋषभं यवनानां त्वां वृणे वीरेप्सितं पतिम् ।
सङ्कल्पस्त्वयि भूतानां कृत: किल न रिष्यति ॥ २४ ॥
सङ्कल्पस्त्वयि भूतानां कृत: किल न रिष्यति ॥ २४ ॥
Verse text
ṛṣabhaṁ yavanānāṁ tvāṁ
vṛṇe vīrepsitaṁ patim
saṅkalpas tvayi bhūtānāṁ
kṛtaḥ kila na riṣyati
vṛṇe vīrepsitaṁ patim
saṅkalpas tvayi bhūtānāṁ
kṛtaḥ kila na riṣyati
Synonyms
Translation
Aproximando-se do rei dos Yavanas, Kālakanyā dirigiu-se a ele com um grande herói, dizendo: Respeitável monarca, és o melhor dos intocáveis. Estou apaixonada por ti e desejo-te como meu esposo. Sei que ninguém se frustra ao fazer amizade contigo.
Purport
SIGNIFICADO—As palavras yavanānām ṛṣabham referem-se ao rei dos Yavanas. As palavras sânscritas yavana e mleccha aplicam-se àqueles que não seguem os princípios védicos. Segundo os princípios védicos, todos devem acordar cedo pela manhã, banhar-se, cantar Hare Kṛṣṇa, oferecer mangala-ārati às Deidades, estudar a literatura védica, aceitar prasāda e ocupar-se em vestir e decorar as Deidades. Deve-se também arrecadar dinheiro para os gastos do templo, ou, se alguém é chefe de família, deve trabalhar de acordo com os deveres prescritos de um brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya ou śūdra. Dessa maneira, deve-se viver uma vida de compreensão espiritual: assim é a civilização védica. Quem não segue todas essas regras e regulações chama-se yavana ou mleccha. Não se deve pensar erroneamente que essas palavras se referem a determinadas classes de homens em outros países. Não se trata de preconceito de acordo com nacionalismos. Quer viva na Índia, quer fora da Índia, a pessoa que não segue os princípios védicos é chamada yavana ou mleccha. Alguém que realmente não segue os princípios de higiene prescritos nas regras e regulações védicas está sujeito a muitas doenças contagiosas. Como os discípulos, neste movimento para a consciência de Kṛṣṇa, são aconselhados a seguir os princípios védicos, eles naturalmente se tornam asseados.
Se alguém é consciente de Kṛṣṇa, ele pode trabalhar com o vigor de um jovem mesmo que tenha setenta e cinco ou oitenta anos de idade. Assim, a filha de Kāla (Tempo) não pode dominar um vaiṣṇava. Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī começou a escrever o Caitanya-caritāmṛta já muito idoso, mas apresentou a mais maravilhosa obra sobre as atividades do Senhor Caitanya. Śrīla Rūpa Gosvāmī e Sanātana Gosvāmī começaram suas vidas espirituais em uma idade muito avançada, isto é, depois que se retiraram de sua vida profissional e obrigações familiares. No entanto, eles apresentaram muitos livros valiosos para o avanço da vida espiritual. Isso é confirmado por Śrīla Śrīnivāsa Ācārya, que louvou os Gosvāmīs da seguinte maneira:
nānā-śāstra-vicāraṇaika-nipuṇau sad-dharma-saṁsthāpakau
lokānāṁ hita-kāriṇau tri-bhuvane mānyau śaraṇyākarau
rādhā-kṛṣṇa-padāravinda-bhajanānandena mattālikau
vande rūpa-sanātanau raghu-yugau śrī-jīva-gopālakau
lokānāṁ hita-kāriṇau tri-bhuvane mānyau śaraṇyākarau
rādhā-kṛṣṇa-padāravinda-bhajanānandena mattālikau
vande rūpa-sanātanau raghu-yugau śrī-jīva-gopālakau
“Ofereço minhas respeitosas reverências aos seis Gosvāmīs, Śrī Sanātana Gosvāmī, Śrī Rūpa Gosvāmī, Śrī Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, Śrī Raghunātha Dāsa Gosvāmī, Śrī Jīva Gosvāmī e Śrī Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī, que são muito hábeis em estudar minuciosamente todas as escrituras reveladas com o intuito de estabelecer princípios religiosos eternos para o benefício de todos os seres humanos. Assim, eles são honrados em todos os três mundos, e fazemos bem em nos refugiar neles, pois vivem absortos no estado de espírito das gopīs e ocupam-se em transcendental serviço amoroso a Rādhā e Kṛṣṇa.”
Assim, jarā, o efeito da velhice, não hostiliza um devoto. Isto porque o devoto segue as instruções e a determinação de Nārada Muni. Todos os devotos pertencem à sucessão discipular oriunda de Nārada Muni porque adoram a Deidade de acordo com a orientação de Nārada Muni, chamada Nārada-pañcarātra, ou pāñcarātrika-vidhi. O devoto segue os princípios de pāñcarātrika-vidhi, bem como de bhāgavata-vidhi. Bhāgavata-vidhi inclui o trabalho de pregação – śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ –, ouvir e cantar as glórias do Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus. Pāñcarātrika-vidhi inclui arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ sakhyam ātma-nivedanam. Se um devoto segue rigidamente as instruções de Nārada Muni, ele não teme a velhice, a doença ou a morte. Embora o devoto aparente envelhecer, ele não está sujeito aos sintomas de prostração experimentados por um homem comum na velhice. Em consequência disso, a velhice não faz um devoto ficar com medo da morte, como acontece com um homem comum. Quando jarā, ou a velhice, refugia-se em um devoto, Kālakanyā diminui o temor do devoto. O devoto sabe que, após a morte, irá de volta ao lar, de volta ao Supremo, de modo que ele não receia a morte. Desse modo, ao invés de deprimir o devoto, a idade avançada o ajuda a ficar destemido e, assim, feliz.
Devanagari
द्वाविमावनुशोचन्ति बालावसदवग्रहौ ।
यल्लोकशास्त्रोपनतं न राति न तदिच्छति ॥ २५ ॥
यल्लोकशास्त्रोपनतं न राति न तदिच्छति ॥ २५ ॥
Verse text
dvāv imāv anuśocanti
bālāv asad-avagrahau
yal loka-śāstropanataṁ
na rāti na tad icchati
bālāv asad-avagrahau
yal loka-śāstropanataṁ
na rāti na tad icchati
Synonyms
Translation
Aquele que não faz caridade de acordo com os costumes ou preceitos das escrituras e aquele que não aceita caridade dessa maneira são considerados como estando no modo da ignorância. Pessoas assim trilham o caminho dos tolos. Não há dúvidas de que se lamentarão ao final.
Purport
SIGNIFICADO—Afirma-se aqui como todos devem seguir estritamente as escrituras caso realmente desejem uma vida auspiciosa. Explica-se o mesmo na Bhagavad-gītā (16.23):
yaḥ śāstra-vidhim utsṛjya
vartate kāma-kārataḥ
na sa siddhim avāpnoti
na sukhaṁ na parāṁ gatim
vartate kāma-kārataḥ
na sa siddhim avāpnoti
na sukhaṁ na parāṁ gatim
“Aquele que põe de lado os preceitos das escrituras e age conforme os próprios caprichos não alcança a perfeição, a felicidade, nem o destino supremo.” Alguém que não segue estritamente os termos dos preceitos védicos jamais obtém sucesso na vida nem felicidade. O que dizer, então, de voltar ao lar, voltar ao Supremo?
Uma injunção do śāstra prescreve que o chefe de família ou kṣatriya ou líder administrativo não deve recusar-se a aceitar uma mulher caso ela voluntariamente peça para ser sua esposa. Uma vez que Kālakanyā, a filha do Tempo, foi orientada por Nārada Muni a se oferecer ao Yavana-rāja, o rei dos Yavanas não podia recusá-la. Todas as atividades devem ser realizadas à luz dos preceitos śāstricos. Os preceitos śāstricos são confirmados por grandes sábios, como Nārada Muni. Como afirma Narottama Dāsa Ṭhākura: sādhu-śāstra-guru-vākya, cittete kariyā aikya. Todos devem seguir os princípios das pessoas santas, das escrituras e do mestre espiritual. Dessa maneira, com certeza obterão sucesso na vida. Kālakanyā, a filha do Tempo, apresentou-se diante do rei dos Yavanas precisamente em termos de sādhu, śāstra e guru. Assim, não havia motivo para ele não a aceitar.
Devanagari
अथो भजस्व मां भद्र भजन्तीं मे दयां कुरु ।
एतावान् पौरुषो धर्मो यदार्ताननुकम्पते ॥ २६ ॥
एतावान् पौरुषो धर्मो यदार्ताननुकम्पते ॥ २६ ॥
Verse text
atho bhajasva māṁ bhadra
bhajantīṁ me dayāṁ kuru
etāvān pauruṣo dharmo
yad ārtān anukampate
bhajantīṁ me dayāṁ kuru
etāvān pauruṣo dharmo
yad ārtān anukampate
Synonyms
atho — portanto; bhajasva — aceita; mām — a mim; bhadra — ó cavalheiro; bhajantīm — desejando servir; me — a mim; dayām — misericórdia; kuru — faze; etāvān — tal procedimento; pauruṣaḥ — para qualquer cavalheiro; dharmaḥ — princípio religioso; yat — isto; ārtān — com os aflitos; anukampate — é compassivo.
Translation
Kālakanyā continuou: Ó cavalheiro, agora estou presente diante de ti – com o intuito de servir-te. Por favor, aceita-me e, dessa maneira, mostra-me tua misericórdia. O principal dever de um cavalheiro é ser compassivo com uma pessoa que está aflita.
Purport
SIGNIFICADO—Yavana-rāja, o rei dos Yavanas, também podia ter-se recusado a aceitar Kālakanyā, a filha do Tempo, mas considerou o pedido devido à ordem de Nārada Muni. Assim, aceitou Kālakanyā, mas de maneira diferente. Em outras palavras, os preceitos de Nārada Muni, ou o caminho do serviço devocional, podem ser aceitos por qualquer pessoa dentro dos três mundos, e com certeza pelo rei dos Yavanas. O próprio Senhor Caitanya pedia a todos que pregassem o culto de bhakti-yoga no mundo inteiro, em todas as vilas e cidades. Os pregadores neste movimento para a consciência de Kṛṣṇa têm realmente experimentado que mesmo os yavanas e mlecchas estão adotando a vida espiritual devido à força do pāñcarātrika-vidhi de Nārada Muni. Quando a humanidade seguir a sucessão discipular, como recomenda Caitanya Mahāprabhu, todas as pessoas no mundo inteiro se beneficiarão.
Devanagari
कालकन्योदितवचो निशम्य यवनेश्वर: ।
चिकीर्षुर्देवगुह्यं स सस्मितं तामभाषत ॥ २७ ॥
चिकीर्षुर्देवगुह्यं स सस्मितं तामभाषत ॥ २७ ॥
Verse text
kāla-kanyodita-vaco
niśamya yavaneśvaraḥ
cikīrṣur deva-guhyaṁ sa
sasmitaṁ tām abhāṣata
niśamya yavaneśvaraḥ
cikīrṣur deva-guhyaṁ sa
sasmitaṁ tām abhāṣata
Synonyms
Translation
Após ouvir a afirmação de Kālakanyā, a filha do Tempo, o rei dos Yavanas colocou-se a sorrir e a procurar um meio de executar seu dever confidencial em nome da providência. Então, dirigiu-se a Kālakanyā da seguinte maneira.
Purport
SIGNIFICADO—O Caitanya-caritāmṛta (Ādi 5.142) diz:
ekale īśvara kṛṣṇa, āra saba bhṛtya
yāre yaiche nācāya, se taiche kare nṛtya
yāre yaiche nācāya, se taiche kare nṛtya
Em verdade, o controlador supremo é a Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, e todos são Seus servos. Yavana-rāja, o rei dos Yavanas, também era servo de Kṛṣṇa. Em decorrência disso, ele queria cumprir o propósito de Kṛṣṇa por intermédio de Kālakanyā. Embora Kālakanyā signifique invalidez ou velhice, Yavana-rāja quis servir a Kṛṣṇa introduzindo Kālakanyā em toda parte. Assim, uma pessoa sã, ao chegar à velhice, passa a temer a morte. As pessoas tolas se ocupam em atividades materiais como se fossem viver para sempre e gozar de avanço material, mas, na verdade, não existe avanço material. Iludidas, as pessoas pensam que a opulência material as salvará, mas, embora tenha havido tanto avanço na ciência material, os problemas da sociedade humana – nascimento, morte, velhice e doença – ainda não se resolveram. Entretanto, cientistas tolos acham que avançaram materialmente. Quando Kālakanyā, a invalidez da velhice, os ataca, se eles têm alguma sanidade, ficam com medo da morte. Aqueles que são insensatos simplesmente não se importam com a morte, tampouco sabem o que lhes acontecerá depois de morrerem. Estão sob a impressão errônea de que não há vida após a morte, em consequência do que agem muito irresponsavelmente nesta vida, entregando-se a gozo irrestrito dos sentidos. Para aquele que é inteligente, o aparecimento da velhice é um estímulo para a vida espiritual. Todos naturalmente temem a morte iminente. O rei dos Yavanas tentou utilizar Kālakanyā com esse propósito.
Devanagari
मया निरूपितस्तुभ्यं पतिरात्मसमाधिना ।
नाभिनन्दति लोकोऽयं त्वामभद्रामसम्मताम् ॥ २८ ॥
नाभिनन्दति लोकोऽयं त्वामभद्रामसम्मताम् ॥ २८ ॥
Verse text
mayā nirūpitas tubhyaṁ
patir ātma-samādhinā
nābhinandati loko ’yaṁ
tvām abhadrām asammatām
patir ātma-samādhinā
nābhinandati loko ’yaṁ
tvām abhadrām asammatām
Synonyms
Translation
O rei dos Yavanas respondeu: Depois de muita consideração, encontrei um esposo para ti. Na verdade, na opinião de todas as pessoas, és inauspiciosa e maligna. Uma vez que ninguém gosta de ti, como alguém poderá aceitar-te como sua esposa?
Purport
SIGNIFICADO—Depois de muita consideração, o rei dos Yavanas decidiu fazer o melhor uso de um mau negócio. Kālakanyā era um mau negócio, e ninguém gostava dela, mas tudo pode ser usado a serviço do Senhor. Assim, o rei dos Yavanas tentou utilizá-la para algum propósito. O propósito já foi explicado – isto é, Kālakanyā, como jarā, a invalidez da velhice, pode ser usada para despertar um senso de temor nas pessoas de modo que elas se preparem para a próxima vida, ocupando-se em consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
त्वमव्यक्तगतिर्भुङ्क्ष्व लोकं कर्मविनिर्मितम् ।
या हि मे पृतनायुक्ता प्रजानाशं प्रणेष्यसि ॥ २९ ॥
या हि मे पृतनायुक्ता प्रजानाशं प्रणेष्यसि ॥ २९ ॥
Verse text
tvam avyakta-gatir bhuṅkṣva
lokaṁ karma-vinirmitam
yā hi me pṛtanā-yuktā
prajā-nāśaṁ praṇeṣyasi
lokaṁ karma-vinirmitam
yā hi me pṛtanā-yuktā
prajā-nāśaṁ praṇeṣyasi
Synonyms
tvam — tu; avyakta-gatiḥ — cujo movimento é imperceptível; bhuṅkṣva — desfruta; lokam — este mundo; karma-vinirmitam — criado por meio de atividades fruitivas; yā — aquele que; hi — decerto; me — meus; pṛtanā — soldados; yuktā — auxiliada por; prajā-nāśam — aniquilação das entidades vivas; praṇeṣyasi — desempenharás sem qualquer oposição.
Translation
Este mundo é produto de atividades fruitivas. Portanto, tu poderás imperceptivelmente atacar a todos em geral. Auxiliada por meus soldados, poderás matá-los sem oposição.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra karma-vinirmitam significa “criado por meio de atividades fruitivas”. Todo este mundo material, especialmente nos dias atuais, é resultado de atividades fruitivas. Todos estão inteiramente ocupados em enfeitar o mundo com vias asfaltadas, veículos, eletricidade, arranha-céus, indústrias, negócios etc. Tudo isso parece muito bom para aqueles que só fazem envolver-se em gozo dos sentidos e que ignoram sua identidade espiritual. Como se descreve no Śrīmad-Bhāgavatam (5.5.4):
nūnaṁ pramattaḥ kurute vikarma
yad indriya-prītaya āpṛṇoti
na sādhu manye yata ātmano ’yam
asann api kleśada āsa dehaḥ
yad indriya-prītaya āpṛṇoti
na sādhu manye yata ātmano ’yam
asann api kleśada āsa dehaḥ
Aqueles que não conhecem a alma espiritual se enlouquecem em busca de atividades materialistas, e executam toda espécie de atividades pecaminosas simplesmente para satisfazer seus sentidos. Segundo Ṛṣabhadeva, essas atividades são inauspiciosas porque nos forçam a aceitar um corpo abominável na próxima vida. Está dentro da experiência de todos que, embora tentemos manter o corpo em posições confortáveis, ele está sempre causando dores e sempre está sujeito às três espécies de sofrimento. De outro modo, por que existem tantos hospitais, instituições de caridade e companhias de seguro? De fato, não existe felicidade neste mundo. Todos estão apenas ocupados no esforço de neutralizar a infelicidade. Os tolos aceitam a infelicidade como felicidade; portanto, o rei dos Yavanas decidiu atacar semelhantes tolos imperceptivelmente através da velhice, da doença e, por fim, através da morte. Evidentemente, após a morte, deve haver nascimento; portanto, Yavana-rāja achou sensato matar todos os karmīs por intermédio de Kālakanyā e, dessa maneira, tentar fazê-los conscientes de que o avanço materialista não é um avanço verdadeiro. Todas as entidades vivas são seres espirituais, em virtude do que, sem avanço espiritual, desperdiça-se a forma humana de vida.
Devanagari
प्रज्वारोऽयं मम भ्राता त्वं च मे भगिनी भव ।
चराम्युभाभ्यां लोकेऽस्मिन्नव्यक्तो भीमसैनिक: ॥ ३० ॥
चराम्युभाभ्यां लोकेऽस्मिन्नव्यक्तो भीमसैनिक: ॥ ३० ॥
Verse text
prajvāro ’yaṁ mama bhrātā
tvaṁ ca me bhaginī bhava
carāmy ubhābhyāṁ loke ’sminn
avyakto bhīma-sainikaḥ
tvaṁ ca me bhaginī bhava
carāmy ubhābhyāṁ loke ’sminn
avyakto bhīma-sainikaḥ
Synonyms
prajvāraḥ — chamado Prajvāra; ayam — este; mama — meu; bhrātā — irmão; tvam — tu; ca — também; me — minha; bhaginī — irmã; bhava — passas a ser; carāmi — irei de uma parte a outra; ubhābhyām — por ambos; loke — no mundo; asmin — isto; avyaktaḥ — sem se manifestarem; bhīma — perigosos; sainikaḥ — com soldados.
Translation
O rei dos Yavanas prosseguiu: Aqui está meu irmão Prajvāra. Aceito-te, agora, como minha irmã. Eu vos empregarei, bem como meus perigosos soldados, para agirdes imperceptivelmente dentro deste mundo.
Purport
SIGNIFICADO—Nārada Muni enviou Kālakanyā à presença de Yavana-rāja para que ela pudesse tornar-se sua esposa, mas, ao invés de aceitá-la como sua esposa, Yavana-rāja aceitou-a como sua irmã. Aqueles que não seguem os princípios védicos não se submetem a restrições no que diz respeito à vida sexual. Algumas vezes, portanto, eles não hesitam em fazer sexo com suas irmãs. Nesta era de Kali, há muitos exemplos desses incestos. Embora Yavana-rāja tivesse aceitado o pedido de Nārada Muni para demonstrar-lhe respeito, ele pensava em sexo ilícito. Isso porque ele era o rei dos yavanas e mlecchas.
A palavra prajvāraḥ é muito significativa, pois significa “a febre enviada pelo Senhor Viṣṇu” (uma febre de quarenta e dois graus, temperatura na qual um homem morre). Assim, o rei dos mlecchas e yavanas pediu à filha do Tempo, Kālakanyā, que se tornasse sua irmã. Não havia necessidade de pedir-lhe que se tornasse sua esposa, pois os yavanas e mlecchas não fazem distinções quanto à vida sexual. Assim, uma pessoa pode externamente ser irmã, mãe ou filha e, ainda assim, fazer sexo. O irmão de Yavana-rāja era Prajvāra, e Kālakanyā era a própria invalidez. Combinados e fortalecidos pelos soldados de Yavana-rāja – a saber, condições não higiênicas, sexo ilícito e, enfim, um alto grau de temperatura que ocasiona a morte –, eles seriam capazes de estraçalhar o modo de vida materialista. A esse respeito, é significativo que Nārada fosse imune ao ataque de jarā, ou seja, a invalidez. De modo semelhante, jarā, ou a força destrutiva, não pode atacar nenhum seguidor de Nārada Muni, isto é, nenhum vaiṣṇava puro.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do quarto canto, vigésimo sétimo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Caṇḍavega Ataca a Cidade do Rei Purañjana; o Caráter de Kālakanyā”.