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Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Quinze
Nārada e Aṅgirā Instruem o Rei Citraketu
Neste capítulo, Aṅgirā Ṛṣi, juntamente com Nārada, consola Citraketu tanto quanto possível. Aṅgirā e Nārada Ṛṣi compareceram de maneira a aliviar a excessiva lamentação do rei, instruindo-o sobre o significado da vida espiritual.
Os grandes santos Aṅgirā e Nārada explicaram que a relação entre pai e filho não é real; é uma mera representação da energia ilusória. A relação não existia antes, tampouco perdurará. Pelo arranjo do tempo, a relação existe apenas no presente. Ninguém deve lamentar as perdas temporárias. Toda a manifestação cósmica é temporária; mesmo que exista, ela não é permanente. Pela orientação da Suprema Personalidade de Deus, todas as coisas criadas no mundo material são transitórias. Por um arranjo temporário, um pai gera um filho, ou uma entidade viva se torna filho de um suposto pai. Este arranjo temporário é feito pelo Senhor Supremo. Nem o pai, nem o filho existem de maneira independente.
À medida que ouvia os grandes sábios, o rei ficou aliviado de sua falsa lamentação, e quis saber qual a identidade deles. Os grandes sábios mostraram quem eles eram e o fizeram compreender que todos os sofrimentos se devem ao conceito de vida corpórea. Quem entende sua identidade espiritual e se rende à Suprema Personalidade de Deus, a pessoa espiritual suprema, torna-se feliz de verdade. Quando alguém busca a felicidade na matéria, é certo que lamentará as perdas sofridas em suas relações corpóreas. Autorrealização significa compreender espiritualmente a relação que reciprocamos com Kṛṣṇa. Tal realização põe fim à nossa dolorosa vida material.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
ऊचतुर्मृतकोपान्ते पतितं मृतकोपमम् ।
शोकाभिभूतं राजानं बोधयन्तौ सदुक्तिभि: ॥ १ ॥
ऊचतुर्मृतकोपान्ते पतितं मृतकोपमम् ।
शोकाभिभूतं राजानं बोधयन्तौ सदुक्तिभि: ॥ १ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
ūcatur mṛtakopānte
patitaṁ mṛtakopamam
śokābhibhūtaṁ rājānaṁ
bodhayantau sad-uktibhiḥ
ūcatur mṛtakopānte
patitaṁ mṛtakopamam
śokābhibhūtaṁ rājānaṁ
bodhayantau sad-uktibhiḥ
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; ūcatuḥ — eles falaram; mṛtaka — o corpo morto; upānte — perto de; patitam — caído; mṛtaka-upamam — exatamente como outro corpo morto; śoka-abhibhūtam — muito aflito pela lamentação; rājānam — ao rei; bodhayantau — dando instrução; sat-uktibhiḥ — mediante instruções reais, e não temporárias.
Translation
Śrī Śukadeva Gosvāmī disse: Enquanto o rei Citraketu, dominado pela lamentação, parecia um segundo cadáver ao lado do cadáver de seu filho, os dois grandes sábios, Nārada e Aṅgirā, começaram a lhe conferir as seguintes instruções acerca da consciência espiritual.
Devanagari
कोऽयं स्यात्तव राजेन्द्र भवान् यमनुशोचति ।
त्वं चास्य कतम: सृष्टौ पुरेदानीमत: परम् ॥ २ ॥
त्वं चास्य कतम: सृष्टौ पुरेदानीमत: परम् ॥ २ ॥
Verse text
ko ’yaṁ syāt tava rājendra
bhavān yam anuśocati
tvaṁ cāsya katamaḥ sṛṣṭau
puredānīm ataḥ param
bhavān yam anuśocati
tvaṁ cāsya katamaḥ sṛṣṭau
puredānīm ataḥ param
Synonyms
kaḥ — quem; ayam — isto; syāt — é; tava — para ti; rāja-indra — ó melhor dos reis; bhavān — Vossa Onipotência; yam — quem; anuśocati — lamentas-te por; tvam — tu; ca — e; asya — a ele (o menino morto); katamaḥ — quem; sṛṣṭau — no nascimento; purā — anteriormente; idānīm — neste momento, no presente; ataḥ param — e, doravante, no futuro.
Translation
Ó rei, que relação tem contigo o corpo morto pelo qual te lamentas, e que relação tens com ele? Talvez digas que agora tendes um elo de pai e filho, mas por acaso essa relação existia antes? Será que ela realmente existe agora? Continuará a existir no futuro?
Purport
SIGNIFICADO—As instruções dadas por Nārada e Aṅgirā Muni são as verdadeiras instruções espirituais para as almas condicionadas iludidas. Este mundo é temporário, mas, devido ao nosso karma anterior, viemos aqui e aceitamos corpos, criando relações temporárias em termos de sociedade, amizade, amor, nacionalidade e comunidade, todas as quais terminam ao chegar a morte. Essas relações temporárias não existiam no passado, tampouco existirão no futuro. Portanto, no momento atual, essas aparentes relações são meras ilusões.
Devanagari
यथा प्रयान्ति संयान्ति स्रोतोवेगेन बालुका: ।
संयुज्यन्ते वियुज्यन्ते तथा कालेन देहिन: ॥ ३ ॥
संयुज्यन्ते वियुज्यन्ते तथा कालेन देहिन: ॥ ३ ॥
Verse text
yathā prayānti saṁyānti
sroto-vegena bālukāḥ
saṁyujyante viyujyante
tathā kālena dehinaḥ
sroto-vegena bālukāḥ
saṁyujyante viyujyante
tathā kālena dehinaḥ
Synonyms
yathā — assim como; prayānti — separam-se; saṁyānti — agrupam-se; srotaḥ-vegena — pela força das ondas; bālukāḥ — os pequenos grãos de areia; saṁyujyante — elas se unem; viyujyante — elas se separam; tathā — igualmente; kālena — pelo tempo; dehinaḥ — as entidades vivas que aceitaram corpos materiais.
Translation
Ó rei, assim como pequenas partículas de areia ora se agrupam, ora se separam devido à força das ondas, as entidades vivas que aceitaram corpos materiais ora se unem, ora se separam devido à força do tempo.
Purport
SIGNIFICADO—O engano da alma condicionada está em aceitar o conceito de vida corpórea. O corpo é material, mas, dentro do corpo, está a alma. Esta compreensão é espiritual. Infelizmente, quem está em ignorância e vive sob o encanto da ilusão material aceita o corpo como o eu. Ele não consegue entender que o corpo é matéria. Assim como os pequenos grãos de areia, os corpos se aproximam e se separam pela força do tempo, e as pessoas falsamente lamentam o ajuntamento e a separação. Quem não sabe disso perde a possibilidade de ser feliz. Portanto, na Bhagavad-gītā (2.13), esta é a primeira instrução dada pelo Senhor:
dehino ’smin yathā dehe
kaumāraṁ yauvanaṁ jarā
tathā dehāntara-prāptir
dhīras tatra na muhyati
kaumāraṁ yauvanaṁ jarā
tathā dehāntara-prāptir
dhīras tatra na muhyati
“Assim como a alma encarnada passa seguidamente, neste corpo, da infância à juventude e à velhice, da mesma maneira, a alma passa para um outro corpo após a morte. Uma pessoa sóbria não se confunde com tal mudança.” Não somos o corpo; somos seres espirituais aprisionados no corpo. Nosso verdadeiro interesse consiste em compreender este simples fato. Então, poderemos continuar fazendo progresso espiritual. Caso contrário, se permanecermos no conceito de vida corporal, nossa dolorosa existência material continuará para sempre. Os ajustes políticos, os trabalhos de bem-estar social, a assistência médica e outros programas que inventamos pensando em atingir paz e felicidade jamais perdurarão. Teremos de nos submeter aos consecutivos sofrimentos da vida material. Portanto, a vida material é definida como duḥkhālayam aśāśvatam; ela é um reservatório de condições dolorosas.
Devanagari
यथा धानासु वै धाना भवन्ति न भवन्ति च ।
एवं भूतानि भूतेषु चोदितानीशमायया ॥ ४ ॥
एवं भूतानि भूतेषु चोदितानीशमायया ॥ ४ ॥
Verse text
yathā dhānāsu vai dhānā
bhavanti na bhavanti ca
evaṁ bhūtāni bhūteṣu
coditānīśa-māyayā
bhavanti na bhavanti ca
evaṁ bhūtāni bhūteṣu
coditānīśa-māyayā
Synonyms
yathā — assim como; dhānāsu — através de sementes de arroz; vai — na verdade; dhānāḥ — grãos; bhavanti — são gerados; na — não; bhavanti — são gerados; ca — também; evam — dessa maneira; bhūtāni — as entidades vivas; bhūteṣu — em outras entidades vivas; coditāni — impelidas; īśa-māyayā — pela potência ou poder da Suprema Personalidade de Deus.
Translation
Ao serem espalhadas no solo, as sementes se transformam em plantas algumas vezes e, outras vezes, não o fazem. Às vezes, o solo não é fértil, e a semeadura é improdutiva. Do mesmo modo, às vezes um pai em potencial, sendo impelido pela potência do Senhor Supremo, pode gerar um filho, mas, outras vezes, a concepção não ocorre. Portanto, ninguém deve lamentar-se pela artificial relação de paternidade, que, em última análise, é controlada pelo Senhor Supremo.
Purport
SIGNIFICADO—O fato é que Mahārāja Citraketu não estava destinado a ter um filho. Portanto, embora fosse casado com centenas e milhares de esposas, todas elas eram estéreis, e ele não pôde gerar nem mesmo um filho. Quando Aṅgirā Ṛṣi foi visitar o rei, este pediu que o grande sábio o capacitasse a ter pelo menos um filho. Devido à bênção de Aṅgirā Ṛṣi, māyā favoreceu o rei, o qual recebeu um filho, mas este não viveu por muito tempo. Portanto, no começo, Aṅgirā Ṛṣi disse ao rei que este geraria um filho que lhe causaria júbilo e lamentação.
De acordo com a providência, ou o desejo do Supremo, o rei Citraketu não se destinava a ter filhos. Assim como um grão estéril não pode produzir outros grãos, a pessoa estéril, pela vontade do Senhor Supremo, não pode gerar um filho. Às vezes, nasce um filho mesmo de um pai impotente e de uma mãe estéril, e, outras vezes, um pai potente e uma mãe fértil não têm filhos. Às vezes, na verdade, concebe-se um filho apesar dos métodos anticoncepcionais, e, por causa disso, os pais matam o filho no ventre. Na era atual, matar filhos no ventre se tornou uma prática comum. Por quê? Quando se adota o método contraceptivo, por que ele não funciona? Por que às vezes é gerado um filho de modo que o pai e a mãe tenham que matar o mesmo no ventre? Devemos concluir que as medidas tomadas graças ao suposto conhecimento científico não podem determinar o que acontecerá, pois tudo realmente é decretado com base na vontade suprema. É pela vontade suprema que somos postos em certas condições em termos de família, comunidade e personalidade. Todos esses arranjos são designados pelo Senhor Supremo, que nos concede aquilo que desejamos sob o encanto de māyā, ilusão. Na vida devocional, portanto, ninguém deve desejar nada, pois tudo depende da Suprema Personalidade de Deus. Como se afirma no Bhakti-rasāmṛta-sindhu (1.1.11):
anyābhilāṣitā-śūnyaṁ
jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-
śīlanaṁ bhaktir uttamā
jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-
śīlanaṁ bhaktir uttamā
“Munido de um sentimento propício e livre do desejo de lucro material ou de ganho através de atividades fruitivas ou especulação filosófica é que se deve prestar transcendental serviço amoroso ao Supremo Senhor Kṛṣṇa. Isso se chama serviço devocional puro.” Deve-se agir somente para se desenvolver a consciência de Kṛṣṇa. Para tudo mais, deve-se depender inteiramente da Pessoa Suprema. Não devemos criar planos que nos deixarão frustrados ao final.
Devanagari
वयं च त्वं च ये चेमे तुल्यकालाश्चराचरा: ।
जन्ममृत्योर्यथा पश्चात् प्राङ्नैवमधुनापि भो: ॥ ५ ॥
जन्ममृत्योर्यथा पश्चात् प्राङ्नैवमधुनापि भो: ॥ ५ ॥
Verse text
vayaṁ ca tvaṁ ca ye ceme
tulya-kālāś carācarāḥ
janma-mṛtyor yathā paścāt
prāṅ naivam adhunāpi bhoḥ
tulya-kālāś carācarāḥ
janma-mṛtyor yathā paścāt
prāṅ naivam adhunāpi bhoḥ
Synonyms
vayam — nós (os grandes sábios, os ministros e os partidários do rei); ca — e; tvam — tu; ca — também; ye — quem; ca — também; ime — esses; tulya-kālāḥ — reunidos ao mesmo tempo; cara-acarāḥ — móveis e inertes; janma — nascimento; mṛtyoḥ — e morte; yathā — assim como; paścāt — após; prāk — antes; na — não; evam — assim; adhunā — no presente; api — embora; bhoḥ — ó rei.
Translation
Ó rei, tu e nós – teus conselheiros, tuas esposas e teus ministros –, bem como todas as coisas móveis e imóveis existentes em todo o cosmo neste momento, estamos em uma situação temporária. Antes do nosso nascimento, essa situação inexistia, e, após a nossa morte, ela deixará de existir. Portanto, nossa situação atual é temporária, embora não seja falsa.
Purport
SIGNIFICADO—Os filósofos māyāvādīs dizem que brahma satyaṁ jagan mithyā: o Brahman, o ser vivo, é real, mas sua atual situação corpórea é falsa. Entretanto, de acordo com a filosofia vaiṣṇava, a atual situação não é falsa, senão que é temporária. Ela é como um sonho. O sonho não existe antes de a pessoa adormecer, nem continua após ela despertar. O período de sonho existe apenas nesse intervalo e, portanto, é falso no sentido de que é impermanente. Do mesmo modo, toda a criação material, incluindo o que nós mesmos e os outros criamos, é impermanente. Antes que ocorra um sonho ou depois que ele acabe, não nos lamentamos por uma situação vivida em um sonho, e assim, durante o sonho, ou durante uma situação que simula um sonho, ninguém deve aceitá-los como reais ou se lamentar por causa deles. Isso é conhecimento verdadeiro.
Devanagari
भूतैर्भूतानि भूतेश: सृजत्यवति हन्ति च ।
आत्मसृष्टैरस्वतन्त्रैरनपेक्षोऽपि बालवत् ॥ ६ ॥
आत्मसृष्टैरस्वतन्त्रैरनपेक्षोऽपि बालवत् ॥ ६ ॥
Verse text
bhūtair bhūtāni bhūteśaḥ
sṛjaty avati hanti ca
ātma-sṛṣṭair asvatantrair
anapekṣo ’pi bālavat
sṛjaty avati hanti ca
ātma-sṛṣṭair asvatantrair
anapekṣo ’pi bālavat
Synonyms
bhūtaiḥ — por algumas entidades vivas; bhūtāni — outras entidades vivas; bhūta-īśaḥ — a Suprema Personalidade de Deus, o mestre de tudo; sṛjati — cria; avati — mantém; hanti — mata; ca — também; ātmasṛṣṭaiḥ — que são criadas por Ele; asvatantraiḥ — não independentes; anapekṣaḥ — não interessado (na criação); api — embora; bāla-vat — como um menino.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus, o mestre e proprietário de tudo, decerto não está interessado na manifestação cósmica temporária. Não obstante, assim como um menino que está na praia cria algo pelo qual não se interessa, o Senhor, mantendo tudo sob o Seu controle, causa a criação, a manutenção e a aniquilação. Ele cria, ocupando um pai em gerar um filho, Ele mantém, ocupando um governante ou rei em cuidar do bem-estar público, e Ele aniquila através dos agentes da morte, tais como as serpentes. Os agentes da criação, manutenção e aniquilação não têm potência independente, porém, devido ao encanto da energia ilusória, alguém pode julgar-se o criador, mantenedor e aniquilador.
Purport
SIGNIFICADO—Ninguém pode criar, manter ou aniquilar de maneira independente. A Bhagavad-gītā (3.27), portanto, diz:
prakṛteḥ kriyamāṇāni
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
guṇaiḥ karmāṇi sarvaśaḥ
ahaṅkāra-vimūḍhātmā
kartāham iti manyate
“Confusa, a alma espiritual que está sob a influência do falso ego julga-se a autora das atividades que, de fato, são executadas pelos três modos da natureza material.” A prakṛti, a natureza material, sendo orientada pela Suprema Personalidade de Deus, induz todas as entidades vivas a criar, manter ou aniquilar de acordo com os modos da natureza. Mas a entidade viva, desconhecendo a Pessoa Suprema e Seu agente, a energia material, pensa ser o autor. De fato, ela não é o autor de modo algum. Como agentes do autor supremo, o Senhor Supremo, devemos acatar as ordens do Senhor. As presentes condições caóticas do mundo se devem à ignorância dos líderes que se esqueceram de que foi a Suprema Personalidade de Deus quem os designou para o posto no qual se habilitam a agir. Porque foram nomeados pelo Senhor, cabe-lhes consultar o Senhor e Lhe acatar as determinações. O livro de consulta é a Bhagavad-gītā, no qual o Senhor Supremo confere orientações. Portanto, aqueles que estão ocupados na criação, manutenção e aniquilação devem consultar a Pessoa Suprema, que os designou, e devem agir de acordo com Sua ordem. Então, todos ficarão satisfeitos, e não haverá contratempos.
Devanagari
देहेन देहिनो राजन् देहाद्देहोऽभिजायते ।
बीजादेव यथा बीजं देह्यर्थ इव शाश्वत: ॥ ७ ॥
बीजादेव यथा बीजं देह्यर्थ इव शाश्वत: ॥ ७ ॥
Verse text
dehena dehino rājan
dehād deho ’bhijāyate
bījād eva yathā bījaṁ
dehy artha iva śāśvataḥ
dehād deho ’bhijāyate
bījād eva yathā bījaṁ
dehy artha iva śāśvataḥ
Synonyms
dehena — pelo corpo; dehinaḥ — do pai que possui um corpo material; rājan — ó rei; dehāt — do corpo (da mãe); dehaḥ — outro corpo; abhijāyate — nasce; bījāt — de uma semente; eva — na verdade; yathā — assim como; bījam — outra semente; dehī — uma pessoa que aceitou um corpo material; arthaḥ — os elementos materiais; iva — como; śāśvataḥ — eterna.
Translation
Assim como uma semente pode dar origem a outra semente, ó rei, do mesmo modo, de um corpo [o corpo do pai], por intermédio de outro corpo [o corpo da mãe], surge um terceiro corpo [o corpo do filho]. Como os elementos do corpo material são eternos, a entidade viva que aparece por intermédio desses elementos materiais também é eterna.
Purport
SIGNIFICADO—Através da Bhagavad-gītā, ficamos sabendo que existem duas energias, a saber, a energia superior e a energia inferior. A energia inferior consiste nos elementos materiais: cinco grosseiros e três sutis. Através da manipulação ou supervisão exercida pela energia material, a entidade viva, que representa a energia superior, aparece em diferentes espécies de corpos formados desses elementos. Na verdade, tanto a energia material quanto a energia espiritual – matéria e espírito – existem como potências eternas da Suprema Personalidade de Deus. A entidade potente é a Pessoa Suprema. Uma vez que a energia espiritual, o ser vivo, que é parte integrante do Senhor Supremo, deseja desfrutar deste mundo material, o Senhor lhe concede a oportunidade de aceitar diferentes classes de corpos materiais e desfrutar ou sofrer em diversas condições materiais. De fato, a energia espiritual, a entidade viva que deseja desfrutar das coisas materiais, é manipulada pelo Senhor Supremo. O dito pai e a dita mãe nada têm a ver com a entidade viva. Como resultado de sua própria escolha e karma, o ser vivo assume diferentes corpos através da ingerência dos supostos pais e mães.
Devanagari
देहदेहिविभागोऽयमविवेककृत: पुरा ।
जातिव्यक्तिविभागोऽयं यथा वस्तुनि कल्पित: ॥ ८ ॥
जातिव्यक्तिविभागोऽयं यथा वस्तुनि कल्पित: ॥ ८ ॥
Verse text
deha-dehi-vibhāgo ’yam
aviveka-kṛtaḥ purā
jāti-vyakti-vibhāgo ’yaṁ
yathā vastuni kalpitaḥ
aviveka-kṛtaḥ purā
jāti-vyakti-vibhāgo ’yaṁ
yathā vastuni kalpitaḥ
Synonyms
deha — deste corpo; dehi — e do proprietário do corpo; vibhāgaḥ — a categoria; ayam — isto; aviveka — da ignorância; kṛtaḥ — feito; purā — desde tempos imemoriais; jāti — da classe ou casta; vyakti — e do indivíduo; vibhāgaḥ — divisão; ayam — isto; yathā — assim como; vastuni — no objeto original; kalpitaḥ — imaginado.
Translation
As categorias gerais ou específicas, tais como nacionalidade e individualidade, são imaginações de pessoas que não são avançadas em conhecimento.
Purport
SIGNIFICADO—Na verdade, existem duas energias – material e espiritual. Ambas são sempre existentes porque são emanações da verdade eterna, o Senhor Supremo. Porque, desde tempos imemoriais, a alma individual, a entidade viva individual, desejou agir em esquecimento de sua identidade original, ela está assumindo diversos corpos materiais em diversas condições, e está sendo designada de acordo com as categorias de nacionalidade, comunidade, sociedade, espécie e assim por diante.
Devanagari
श्रीशुक उवाच
एवमाश्वासितो राजा चित्रकेतुर्द्विजोक्तिभि: ।
विमृज्य पाणिना वक्त्रमाधिम्लानमभाषत ॥ ९ ॥
एवमाश्वासितो राजा चित्रकेतुर्द्विजोक्तिभि: ।
विमृज्य पाणिना वक्त्रमाधिम्लानमभाषत ॥ ९ ॥
Verse text
śrī-śuka uvāca
evam āśvāsito rājā
citraketur dvijoktibhiḥ
vimṛjya pāṇinā vaktram
ādhi-mlānam abhāṣata
evam āśvāsito rājā
citraketur dvijoktibhiḥ
vimṛjya pāṇinā vaktram
ādhi-mlānam abhāṣata
Synonyms
śrī-śukaḥ uvāca — Śrī Śukadeva Gosvāmī disse; evam — assim; āśvāsitaḥ — estando iluminado ou ganhando esperança; rājā — o rei; citraketuḥ — Citraketu; dvija-uktibhiḥ — com as instruções dos grandes brāhmaṇas (Nārada e Aṅgirā Ṛṣi); vimṛjya — esfregando; pāṇinā — com a mão; vaktram — seu rosto; ādhi-mlānam — contraído devido à lamentação; abhāṣata — falou de maneira inteligente.
Translation
Śrī Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Assim esclarecido pelas instruções de Nārada e Aṅgirā, o rei Citraketu se sentiu esperançoso com esse conhecimento. Passando as mãos em seu rosto contraído, o rei começou a falar.
Devanagari
श्रीराजोवाच
कौ युवां ज्ञानसम्पन्नौ महिष्ठौ च महीयसाम् ।
अवधूतेन वेषेण गूढाविह समागतौ ॥ १० ॥
कौ युवां ज्ञानसम्पन्नौ महिष्ठौ च महीयसाम् ।
अवधूतेन वेषेण गूढाविह समागतौ ॥ १० ॥
Verse text
śrī-rājovāca
kau yuvāṁ jñāna-sampannau
mahiṣṭhau ca mahīyasām
avadhūtena veṣeṇa
gūḍhāv iha samāgatau
kau yuvāṁ jñāna-sampannau
mahiṣṭhau ca mahīyasām
avadhūtena veṣeṇa
gūḍhāv iha samāgatau
Synonyms
śrī-rājā uvāca — o rei Citraketu disse; kau — quem; yuvām — vós dois; jñāna-sampannau — plenamente desenvolvidos em conhecimento; mahiṣṭhau — os maiores; ca — também; mahīyasām — entre outras grandes personalidades; avadhūtena — dos pedintes liberados e errantes; veṣeṇa — com a vestimenta; gūḍhau — disfarçados; iha — a este lugar; samāgatau — chegastes.
Translation
O rei Citraketu disse: Simplesmente para dissimular vossas identidades, viestes aqui vestidos de avadhūtas, pessoas liberadas, mas vejo que, entre todos os homens, sois os mais elevados em sabedoria. Conheceis todas as coisas como elas são. Portanto, sois as maiores de todas as grandes personalidades.
Devanagari
चरन्ति ह्यवनौ कामं ब्राह्मणा भगवत्प्रिया: ।
मादृशां ग्राम्यबुद्धीनां बोधायोन्मत्तलिङ्गिन: ॥ ११ ॥
मादृशां ग्राम्यबुद्धीनां बोधायोन्मत्तलिङ्गिन: ॥ ११ ॥
Verse text
caranti hy avanau kāmaṁ
brāhmaṇā bhagavat-priyāḥ
mādṛśāṁ grāmya-buddhīnāṁ
bodhāyonmatta-liṅginaḥ
brāhmaṇā bhagavat-priyāḥ
mādṛśāṁ grāmya-buddhīnāṁ
bodhāyonmatta-liṅginaḥ
Synonyms
caranti — vagueiam; hi — na verdade; avanau — na superfície do mundo; kāmam — de acordo com o desejo; brāhmaṇāḥ — os brāhmaṇas; bhagavat-priyāḥ — que também são vaiṣṇavas, muito queridos da Personalidade de Deus; mā-dṛśām — daqueles iguais a mim; grāmya-buddhīnām — que estamos obcecados em consciência material temporária; bodhāya — para o despertar; unmatta-liṅginaḥ — que se vestem como se fossem loucos.
Translation
Os brāhmaṇas que são elevados à posição de vaiṣṇavas, os mais queridos servos de Kṛṣṇa, às vezes se vestem como loucos. Simplesmente para beneficiar materialistas como eu, que vivemos apegados ao gozo dos sentidos, e só para dissipar nossa ignorância, esses vaiṣṇavas, seguindo seu próprio desejo, vagueiam pela superfície do globo.
Devanagari
कुमारो नारद ऋभुरङ्गिरा देवलोऽसित: ।
अपान्तरतमा व्यासो मार्कण्डेयोऽथ गौतम: ॥ १२ ॥
वसिष्ठो भगवान् राम: कपिलो बादरायणि: ।
दुर्वासा याज्ञवल्क्यश्च जातुकर्णस्तथारुणि: ॥ १३ ॥
रोमशश्च्यवनो दत्त आसुरि: सपतञ्जलि: ।
ऋषिर्वेदशिरा धौम्यो मुनि: पञ्चशिखस्तथा ॥ १४ ॥
हिरण्यनाभ: कौशल्य: श्रुतदेव ऋतध्वज: ।
एते परे च सिद्धेशाश्चरन्ति ज्ञानहेतव: ॥ १५ ॥
अपान्तरतमा व्यासो मार्कण्डेयोऽथ गौतम: ॥ १२ ॥
वसिष्ठो भगवान् राम: कपिलो बादरायणि: ।
दुर्वासा याज्ञवल्क्यश्च जातुकर्णस्तथारुणि: ॥ १३ ॥
रोमशश्च्यवनो दत्त आसुरि: सपतञ्जलि: ।
ऋषिर्वेदशिरा धौम्यो मुनि: पञ्चशिखस्तथा ॥ १४ ॥
हिरण्यनाभ: कौशल्य: श्रुतदेव ऋतध्वज: ।
एते परे च सिद्धेशाश्चरन्ति ज्ञानहेतव: ॥ १५ ॥
Verse text
kumāro nārada ṛbhur
aṅgirā devalo ’sitaḥ
apāntaratamā vyāso
mārkaṇḍeyo ’tha gautamaḥ
aṅgirā devalo ’sitaḥ
apāntaratamā vyāso
mārkaṇḍeyo ’tha gautamaḥ
vasiṣṭho bhagavān rāmaḥ
kapilo bādarāyaṇiḥ
durvāsā yājñavalkyaś ca
jātukarṇas tathāruṇiḥ
kapilo bādarāyaṇiḥ
durvāsā yājñavalkyaś ca
jātukarṇas tathāruṇiḥ
romaśaś cyavano datta
āsuriḥ sapatañjaliḥ
ṛṣir veda-śirā dhaumyo
muniḥ pañcaśikhas tathā
āsuriḥ sapatañjaliḥ
ṛṣir veda-śirā dhaumyo
muniḥ pañcaśikhas tathā
hiraṇyanābhaḥ kauśalyaḥ
śrutadeva ṛtadhvajaḥ
ete pare ca siddheśāś
caranti jñāna-hetavaḥ
śrutadeva ṛtadhvajaḥ
ete pare ca siddheśāś
caranti jñāna-hetavaḥ
Synonyms
kumāraḥ — Sanat-kumāra; nāradaḥ — Nārada Muni; ṛbhuḥ — Ṛbhu; aṅgirāḥ — Aṅgirā; devalaḥ — Devala; asitaḥ — Asita; apāntaratamāḥ — o nome anterior de Vyāsa, Apāntaratamā; vyāsaḥ — Vyāsa; mārkaṇḍeyaḥ — Mārkaṇḍeya; atha — e; gautamaḥ — Gautama; vasiṣṭhaḥ — Vasiṣṭha; bhagavān rāmaḥ — Senhor Paraśurāma; kapilaḥ — Kapila; bādarāyaṇiḥ — Śukadeva Gosvāmī; durvāsāḥ — Durvāsā; yājñavalkyaḥ — Yājñavalkya; ca — também; jātukarṇaḥ — Jātukarṇa; tathā — bem como; aruṇiḥ — Aruṇi; romaśaḥ — Romaśa; cyavanaḥ — Cyavana; dattaḥ — Dattātreya; āsuriḥ — Āsuri; sa-patañjaliḥ — com Patañjali Ṛṣi; ṛṣiḥ — o sábio; veda-śirāḥ — a cabeça dos Vedas; dhaumyaḥ — Dhaumya; muniḥ — o sábio; pañcaśikhaḥ — Pañcaśikha; tathā — assim também; hiraṇyanābhaḥ — Hiraṇyanābha; kauśalyaḥ — Kauśalya; śrutadevaḥ — Śrutadeva; ṛtadhvajaḥ — Ṛtadhvaja; ete — todos esses; pare — outros; ca — e; siddha-īśāḥ — os mestres do poder místico; caranti — vagueiam; jñāna-hetavaḥ — pessoas muito eruditas e que pregam no mundo inteiro.
Translation
Ó grandes almas, tomei conhecimento de que, entre as pessoas grandiosas e perfeitas que vagueiam pela superfície da Terra para ministrar conhecimento àqueles que andam cobertos pela ignorância, estão Sanat-kumāra, Nārada, Ṛbhu, Aṅgirā, Devala, Asita, Apāntaratamā [Vyāsadeva], Mārkaṇḍeya, Gautama, Vasiṣṭha, Bhagavān Paraśurāma, Kapila, Śukadeva, Durvāsā, Yājñavalkya, Jātukarṇa e Aruṇi. Outros são Romaśa, Cyavana, Dattātreya, Āsuri, Patañjali, o grande sábio Dhaumya, que é como a cabeça dos Vedas, o sábio Pañcaśikha, Hiraṇyanābha, Kauśalya, Śrutadeva e Ṛtadhvaja. Com certeza, estais incluídos neste meio.
Purport
SIGNIFICADO—A palavra jñāna-hetavaḥ é muito significativa porque grandes personalidades, tais como essas relacionadas nestes versos, vagueiam pela superfície do globo, não para desencaminhar a população, mas para distribuir o conhecimento verdadeiro. Sem esse conhecimento, a vida humana é desperdiçada. Sob a forma de vida humana, devemos entender qual a nossa relação com Kṛṣṇa, ou Deus. Alguém que não tem esse conhecimento está na mesma categoria dos animais. O próprio Senhor diz na Bhagavad-gītā (7.15):
na māṁ duṣkṛtino mūḍhāḥ
prapadyante narādhamāḥ
māyayāpahṛta-jñānā
āsuraṁ bhāvam āśritāḥ
prapadyante narādhamāḥ
māyayāpahṛta-jñānā
āsuraṁ bhāvam āśritāḥ
“Os canalhas que são grosseiramente tolos, que são os mais baixos da humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão e que compartilham da natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim.”
Ignorância significa se ater ao conceito de vida corpórea (yasyātma-buddhiḥ kuṇape tri-dhātuke... sa eva go-kharaḥ). Através dos universos, em especial neste planeta, Bhūrloka, praticamente todos pensam que não existe a alma separada do corpo e, portanto, não é necessária a autorrealização. Mas isso não é verdade. Portanto, todos os brāhmaṇas aqui relacionados, sendo devotos, viajam por todo o mundo para despertar a consciência de Kṛṣṇa nos corações desses materialistas tolos.
Os ācāryas mencionados nestes versos são descritos no Mahābhārata. A palavra pañcaśikha também é importante. Uma pessoa liberada das concepções de annamaya, prāṇamaya, manomaya, vijñānamaya e ānandamaya e que está perfeitamente a par das coberturas sutis da alma se chama pañcaśikha. De acordo com as declarações do Mahābhārata (Śānti-parva, capítulos 218-219), um ācārya chamado Pañcaśikha nasceu na família de Mahārāja Janaka, o governante de Mithila. Os filósofos sāṅkhya aceitam que Pañcaśikhācārya é do grupo deles. O verdadeiro conhecimento se refere à entidade viva que reside dentro do corpo. Infelizmente, devido à ignorância, a entidade viva se identifica com o corpo e, portanto, sente prazer e dor.
Devanagari
तस्माद्युवां ग्राम्यपशोर्मम मूढधिय: प्रभू ।
अन्धे तमसि मग्नस्य ज्ञानदीप उदीर्यताम् ॥ १६ ॥
अन्धे तमसि मग्नस्य ज्ञानदीप उदीर्यताम् ॥ १६ ॥
Verse text
tasmād yuvāṁ grāmya-paśor
mama mūḍha-dhiyaḥ prabhū
andhe tamasi magnasya
jñāna-dīpa udīryatām
mama mūḍha-dhiyaḥ prabhū
andhe tamasi magnasya
jñāna-dīpa udīryatām
Synonyms
tasmāt — portanto; yuvām — ambos; grāmya-paśoḥ — de um animal tal qual um porco ou um cachorro; mama — a mim; mūḍha-dhiyaḥ — que sou muito tolo (porque não tenho conhecimento espiritual); prabhū — ó meus senhores; andhe — na cega; tamasi — escuridão; magnasya — de alguém que está absorto; jñāna-dīpaḥ — o archote do conhecimento; udīryatām — que se acenda.
Translation
Como sois grandes personalidades, podeis dar-me verdadeiro conhecimento. Porque estou imerso na escuridão da ignorância, sou tão tolo que pareço um animal de vila – um porco ou um cão. Portanto, por favor, acendei o archote do conhecimento para que eu seja salvo.
Purport
SIGNIFICADO—Este é o modelo de como alguém deve agir para receber conhecimento. Ele deve submeter-se aos pés de lótus de grandes personalidades que realmente possam dar conhecimento transcendental. Portanto, afirma-se que tasmād guruṁ prapadyeta jijñāsuḥ śreya uttamam: “Quem quer que busque compreender a meta mais elevada e a dádiva da vida deve aproximar-se de um mestre espiritual fidedigno e render-se a ele.” Somente alguém que esteja realmente ansioso por receber conhecimento para dissipar a escuridão da ignorância se interessa em se aproximar de um guru, ou mestre espiritual. Não é em troca de benefícios materiais que se deve procurar o auxílio do guru. Ninguém deve aproximar-se de um guru simplesmente para se curar de alguma doença ou receber algum benefício miraculoso. Não consiste nisso o processo de se aproximar de um guru. Tad-vijñānārtham: devemos aproximar-nos de um guru para podermos entender a ciência transcendental que nos instrui na vida espiritual. Nesta era de Kali, infelizmente, existem muitos gurus farsantes que exibem mágicas a seus discípulos, e, por sua vez, muitos discípulos tolos querem ver essas mágicas para obterem benefícios materiais. Esses discípulos não estão interessados em buscar uma vida espiritual que os salve da escuridão da ignorância. Declara-se:
om ajñāna-timirāndhasya
jñānāñjana-śalākayā
cakṣur unmīlitaṁ yena
tasmai śrī-gurave namaḥ
jñānāñjana-śalākayā
cakṣur unmīlitaṁ yena
tasmai śrī-gurave namaḥ
“Nasci na mais obscura ignorância, mas meu mestre espiritual abriu meus olhos com o archote do conhecimento. Ofereço-lhe minhas respeitosas reverências.” Isso define o que é o guru. Todos estão na escuridão da ignorância. Portanto, todos precisam ser iluminados com o conhecimento transcendental. Aquele que ilumina seu discípulo e impede que apodreça na escuridão da ignorância, tirando-o do mundo material, é um guru de verdade.
Devanagari
श्रीअङ्गिरा उवाच
अहं ते पुत्रकामस्य पुत्रदोऽस्म्यङ्गिरा नृप ।
एष ब्रह्मसुत: साक्षान्नारदो भगवानृषि: ॥ १७ ॥
अहं ते पुत्रकामस्य पुत्रदोऽस्म्यङ्गिरा नृप ।
एष ब्रह्मसुत: साक्षान्नारदो भगवानृषि: ॥ १७ ॥
Verse text
śrī-aṅgirā uvāca
ahaṁ te putra-kāmasya
putrado ’smy aṅgirā nṛpa
eṣa brahma-sutaḥ sākṣān
nārado bhagavān ṛṣiḥ
ahaṁ te putra-kāmasya
putrado ’smy aṅgirā nṛpa
eṣa brahma-sutaḥ sākṣān
nārado bhagavān ṛṣiḥ
Synonyms
śrī-aṅgirāḥ uvāca — o grande sábio Aṅgirā disse; aham — eu; te — de ti; putra-kāmasya — quando desejaste ter um filho; putra-daḥ — o que te propiciou ter o filho; asmi — sou; aṅgirāḥ — Aṅgirā Ṛṣi; nṛpa — ó rei; eṣaḥ — este; brahma-sutaḥ — o filho do senhor Brahmā; sākṣāt — diretamente; nāradaḥ — Nārada Muni; bhagavān — o poderosíssimo; ṛṣiḥ — sábio.
Translation
Aṅgirā disse: Meu querido rei, quando desejaste um filho, aproximei-me de ti. Na verdade, sou o mesmo Aṅgirā Ṛṣi que te propiciou ter esse filho. Quanto a este ṛṣi, ele é o grande sábio Nārada, filho direto do senhor Brahmā.
Devanagari
इत्थं त्वां पुत्रशोकेन मग्नं तमसि दुस्तरे ।
अतदर्हमनुस्मृत्य महापुरुषगोचरम् ॥ १८ ॥
अनुग्रहाय भवत: प्राप्तावावामिह प्रभो ।
ब्रह्मण्यो भगवद्भक्तो नावासादितुमर्हसि ॥ १९ ॥
अतदर्हमनुस्मृत्य महापुरुषगोचरम् ॥ १८ ॥
अनुग्रहाय भवत: प्राप्तावावामिह प्रभो ।
ब्रह्मण्यो भगवद्भक्तो नावासादितुमर्हसि ॥ १९ ॥
Verse text
itthaṁ tvāṁ putra-śokena
magnaṁ tamasi dustare
atad-arham anusmṛtya
mahāpuruṣa-gocaram
magnaṁ tamasi dustare
atad-arham anusmṛtya
mahāpuruṣa-gocaram
anugrahāya bhavataḥ
prāptāv āvām iha prabho
brahmaṇyo bhagavad-bhakto
nāvāsāditum arhasi
prāptāv āvām iha prabho
brahmaṇyo bhagavad-bhakto
nāvāsāditum arhasi
Synonyms
ittham — dessa maneira; tvām — tu; putra-śokena — devido ao pesar da morte de teu filho; magnam — imerso; tamasi — na escuridão; dustare — intransponível; a-tat-arham — inadequado a alguém como tu; anusmṛtya — fazendo com que lembres; mahā-puruṣa — a Suprema Personalidade de Deus; gocaram — que somos avançados em compreender; anugrahāya — só para mostrar favor; bhavataḥ — a ti; prāptau — chegamos; āvām — nós dois; iha — a este lugar; prabho — ó rei; brahmaṇyaḥ — aquele que está situado na Suprema Verdade Absoluta; bhagavat-bhaktaḥ — um devoto avançado da Suprema Personalidade de Deus; na — não; avāsāditum — ficar lamentando; arhasi — mereces.
Translation
Meu querido rei, és um devoto avançado da Suprema Personalidade de Deus. Desfazer-se em lamentação pela perda de algo material é inadequado a alguém como tu. Portanto, nós dois viemos livrar-te dessa falsa lamentação, que se deve ao fato de estares imerso na escuridão da ignorância. Aqueles que, avançados em conhecimento espiritual, deixam afetar-se pela perda ou ganho materiais, não adotam um procedimento muito recomendável.
Purport
SIGNIFICADO—Várias palavras destes versos são muito importantes. A palavra mahā-puruṣa se refere aos devotos avançados e também à Suprema Personalidade de Deus. Mahā significa “a suprema”, e puruṣa, “pessoa”. Alguém que está sempre ocupado a serviço do Senhor Supremo se chama mahā-pauruṣika. Śukadeva Gosvāmī e Mahārāja Parīkṣit às vezes são chamados de mahā-pauruṣika. O devoto deve sempre desejar ocupar-se a serviço dos devotos avançados. Como Śrīla Narottama Dāsa Ṭhākura canta:
tāṅdera caraṇa sevi bhakta-sane vāsa
janame janame haya, ei abhilāṣa
janame janame haya, ei abhilāṣa
O devoto sempre deve procurar viver na companhia de devotos avançados e se ocupar a serviço do Senhor através do sistema paramparā. Através das instruções dos grandes Gosvāmīs de Vṛndāvana, a pessoa deve colocar-se a serviço da missão de Śrī Caitanya Mahāprabhu. Isso se chama tāṅdera caraṇa sevi. Enquanto serve aos pés de lótus dos Gosvāmīs, ela deve viver na companhia dos devotos (bhakta-sane vāsa). Essa é a atividade que condiz com o devoto. O devoto não deve aspirar a lucro material ou se lamentar por perdas materiais. Quando Aṅgirā Ṛṣi e Nārada viram que Mahārāja Citraketu, um devoto avançado, havia caído na escuridão da ignorância e se lamentava pelo corpo material de seu filho, vieram, por misericórdia imotivada, e o aconselharam em relação a como poderia salvar-se dessa ignorância.
Outra palavra significativa é brahmaṇya. Às vezes, dirigimo-nos à Suprema Personalidade de Deus através da oração namo brahmaṇya-devāya, a qual oferece reverências ao Senhor porque Ele é servido pelos devotos. Portanto, este segundo verso afirma que brahmaṇyo bhagavad-bhakto nāvāsāditum arhasi. Esta é a característica de um devoto avançado. Brahma-bhūtaḥ prasannātmā. Para um devoto – uma alma avançada e autorrealizada –, não há motivo para ficar tomado de júbilo ou lamentação materiais. Ele sempre é transcendental à vida condicionada.
Devanagari
तदैव ते परं ज्ञानं ददामि गृहमागत: ।
ज्ञात्वान्याभिनिवेशं ते पुत्रमेव ददाम्यहम् ॥ २० ॥
ज्ञात्वान्याभिनिवेशं ते पुत्रमेव ददाम्यहम् ॥ २० ॥
Verse text
tadaiva te paraṁ jñānaṁ
dadāmi gṛham āgataḥ
jñātvānyābhiniveśaṁ te
putram eva dadāmy aham
dadāmi gṛham āgataḥ
jñātvānyābhiniveśaṁ te
putram eva dadāmy aham
Synonyms
tadā — então; eva — na verdade; te — a ti; param — transcendental; jñānam — conhecimento; dadāmi — eu poderia ter dado; gṛham — ao teu lar; āgataḥ — vim; jñātvā — sabendo; anya-abhiniveśam — absorção em outros temas (em coisas materiais); te — tua; putram — um filho; eva — somente; dadāmi — dei; aham — eu.
Translation
Quando cheguei à tua casa naquela primeira ocasião, poderia ter transmitido a ti o conhecimento transcendental, mas, quando vi que tua mente estava absorta em coisas materiais, apenas te propiciei a vinda de um filho, que te causou júbilo e lamentação.
Devanagari
अधुना पुत्रिणां तापो भवतैवानुभूयते ।
एवं दारा गृहा रायो विविधैश्वर्यसम्पद: ॥ २१ ॥
शब्दादयश्च विषयाश्चला राज्यविभूतय: ।
मही राज्यं बलं कोषो भृत्यामात्यसुहृज्जना: ॥ २२ ॥
सर्वेऽपि शूरसेनेमे शोकमोहभयार्तिदा: ।
गन्धर्वनगरप्रख्या: स्वप्नमायामनोरथा: ॥ २३ ॥
एवं दारा गृहा रायो विविधैश्वर्यसम्पद: ॥ २१ ॥
शब्दादयश्च विषयाश्चला राज्यविभूतय: ।
मही राज्यं बलं कोषो भृत्यामात्यसुहृज्जना: ॥ २२ ॥
सर्वेऽपि शूरसेनेमे शोकमोहभयार्तिदा: ।
गन्धर्वनगरप्रख्या: स्वप्नमायामनोरथा: ॥ २३ ॥
Verse text
adhunā putriṇāṁ tāpo
bhavataivānubhūyate
evaṁ dārā gṛhā rāyo
vividhaiśvarya-sampadaḥ
bhavataivānubhūyate
evaṁ dārā gṛhā rāyo
vividhaiśvarya-sampadaḥ
śabdādayaś ca viṣayāś
calā rājya-vibhūtayaḥ
mahī rājyaṁ balaṁ koṣo
bhṛtyāmātya-suhṛj-janāḥ
calā rājya-vibhūtayaḥ
mahī rājyaṁ balaṁ koṣo
bhṛtyāmātya-suhṛj-janāḥ
sarve ’pi śūraseneme
śoka-moha-bhayārtidāḥ
gandharva-nagara-prakhyāḥ
svapna-māyā-manorathāḥ
śoka-moha-bhayārtidāḥ
gandharva-nagara-prakhyāḥ
svapna-māyā-manorathāḥ
Synonyms
adhunā — no momento atual; putriṇām — de pessoas que têm filhos; tāpaḥ — o tormento; bhavatā — por ti; eva — na verdade; anubhūyate — é experimentado; evam — dessa maneira; dārāḥ — boa esposa; gṛhāḥ — residência; rāyaḥ — riqueza; vividha — várias; aiśvarya — opulências; sampadaḥ — prosperidade; śabda-ādayaḥ — som e assim por diante; ca — e; viṣayāḥ — os objetos de gozo dos sentidos; calāḥ — temporários; rājya — do reino; vibhūtayaḥ — opulências; mahī — terra; rājyam — reino; balam — força; koṣaḥ — tesouro; bhṛtya — servos; amātya — ministros; suhṛt-janāḥ — aliados; sarve — todos; api — na verdade; śūrasena — ó rei de Śūrasena; ime — esses; śoka — da lamentação; moha — da ilusão; bhaya — do temor; arti — da angústia; dāḥ — outorgadores; gandharva-nagara-prakhyāḥ — liderados pela visão ilusória de um gandharva-nagara, um grande palácio dentro da floresta; svapna — sonhos; māyā — ilusões; manorathāḥ — e invenções mentais.
Translation
Meu querido rei, realmente agora estás experimentando o sofrimento que aflige uma pessoa que tem filhos e filhas. Ó rei, proprietário do estado de Śūrasena, a esposa, o lar, a opulência do reinado e várias outras opulências e objetos de percepção sensorial são todos iguais, no sentido de que são temporários. O reino, o poder militar, o tesouro, os servos, os ministros, os amigos e os parentes – todos são causa de medo, ilusão, lamentação e angústia. São como um gandharva-nagara, um palácio inexistente que alguém imagina estar em uma floresta. Porque são impermanentes, não passam de ilusões, sonhos e invenções mentais.
Purport
SIGNIFICADO—Este verso descreve o enredamento que nos prende à existência material. Na existência material, a entidade viva possui muitas coisas – o corpo material, filhos, esposa e assim por diante (dehāpatyakalatrādiṣu). Alguém pode pensar que essas coisas lhe darão proteção, mas isso é impossível. Apesar de todas essas posses, a alma espiritual tem que abandonar sua condição presente e aceitar outra. A próxima condição talvez seja desfavorável – porém, mesmo que seja favorável, a pessoa tem que abandonar essa situação e voltar a aceitar mais um corpo. Dessa maneira, sua tribulação na existência material continua. Um homem sensato deve ter perfeita ciência de que essas coisas jamais conseguirão fazê-lo feliz. A pessoa deve estar convicta de sua identidade espiritual e, como devoto, servir eternamente à Suprema Personalidade de Deus. Aṅgirā Ṛṣi e Nārada Muni deram essas instruções a Mahārāja Citraketu.
Devanagari
दृश्यमाना विनार्थेन न दृश्यन्ते मनोभवा: ।
कर्मभिर्ध्यायतो नानाकर्माणि मनसोऽभवन् ॥ २४ ॥
कर्मभिर्ध्यायतो नानाकर्माणि मनसोऽभवन् ॥ २४ ॥
Verse text
dṛśyamānā vinārthena
na dṛśyante manobhavāḥ
karmabhir dhyāyato nānā-
karmāṇi manaso ’bhavan
na dṛśyante manobhavāḥ
karmabhir dhyāyato nānā-
karmāṇi manaso ’bhavan
Synonyms
dṛśyamānāḥ — sendo percebidas; vinā — sem; arthena — substância ou realidade; na — não; dṛśyante — são vistas; manobhavāḥ — criações ou invenções mentais; karmabhiḥ — mediante atividades fruitivas; dhyāyataḥ — meditando em; nānā — várias; karmāṇi — atividades fruitivas; manasaḥ — da mente; abhavan — surgem.
Translation
Esses objetos visíveis, tais como esposa, filhos e propriedade, são como sonhos e invenções mentais. Na verdade, aquilo que vemos não tem existência permanente. Ora se torna visível, ora invisível. É apenas devido às nossas ações passadas que criamos essas invenções mentais e, devido a essas invenções, continuamos executando outras atividades.
Purport
SIGNIFICADO—Tudo o que é material é uma invenção mental porque é ora visível, ora invisível. À noite, quando sonhamos com tigres e serpentes, eles não estão realmente presentes, mas ficamos com medo porque somos afetados pelas circunstâncias criadas em nossos sonhos. Todas as coisas materiais são como um sonho, pois, na verdade, não têm existência permanente.
Em seu comentário, Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura escreve o seguinte: arthena vyāghra-sarpādinā vinaiva dṛśyamānāḥ svapnādi-bhaṅge sati na dṛśyante tad evaṁ dārādayo ’vāstava-vastu-bhūtāḥ svapnādayo ’vastu-bhūtāś ca sarve manobhavāḥ mano-vāsanā janyatvān manobhavāḥ. À noite, uma pessoa sonha com tigres e serpentes, e, enquanto sonha, realmente os vê, mas, logo que o sonho acaba, eles deixam de existir. Do mesmo modo, o mundo material é uma criação de nossas invenções mentais. Viemos a este mundo material para desfrutar dos recursos materiais e, através da invenção mental, descobrimos muitos e muitos objetos de desfrute, pois nossa mente está sempre absorta em coisas materiais. É por isso que recebemos sucessivos corpos. De acordo com nossas invenções mentais, agimos de várias maneiras, desejando obter várias conquistas, e, através da natureza e da ordem da Suprema Personalidade de Deus (karmaṇā-daiva-netreṇa), alcançamos as vantagens que desejamos. Assim, cada vez mais nos envolvemos em invenções materiais. Essa é a razão pela qual sofremos no mundo material. Através de um tipo de atividade, criamos outra, e todas elas são produtos de nossas invenções mentais.
Devanagari
अयं हि देहिनो देहो द्रव्यज्ञानक्रियात्मक: ।
देहिनो विविधक्लेशसन्तापकृदुदाहृत: ॥ २५ ॥
देहिनो विविधक्लेशसन्तापकृदुदाहृत: ॥ २५ ॥
Verse text
ayaṁ hi dehino deho
dravya-jñāna-kriyātmakaḥ
dehino vividha-kleśa-
santāpa-kṛd udāhṛtaḥ
dravya-jñāna-kriyātmakaḥ
dehino vividha-kleśa-
santāpa-kṛd udāhṛtaḥ
Synonyms
ayam — este; hi — decerto; dehinaḥ — da entidade viva; dehaḥ — corpo; dravya-jñāna-kriyā-ātmakaḥ — consistindo nos elementos materiais, nos sentidos com que se adquire conhecimento, e nos sentidos funcionais; dehinaḥ — da entidade viva; vividha — vários; kleśa — sofrimentos; santāpa — e das dores; kṛt — a causa; udāhṛtaḥ — declara-se.
Translation
A entidade viva que se atém ao conceito de vida corporal está absorta no corpo, que é uma combinação dos elementos físicos, dos cinco sentidos com os quais se adquire conhecimento e dos cinco sentidos funcionais, bem como da mente. Através da mente, a entidade viva sofre três classes de tribulações – adhibhautika, adhidaivika e adhyātmika. Portanto, o corpo é a fonte de todos os sofrimentos.
Purport
SIGNIFICADO—No quinto canto (5.5.4), enquanto instruía Seus filhos, Ṛṣabhadeva disse que asann api kleśada āsa dehaḥ: o corpo, embora temporário, é a causa de todos os sofrimentos da existência material. Como já foi comentado no verso anterior, toda a criação material se baseia na invenção mental. A mente às vezes nos induz a pensar que, se adquirirmos um automóvel, poderemos desfrutar dos elementos físicos, tais como terra, água, ar e fogo, combinados sob as formas de ferro, plástico, petróleo e assim por diante. Trabalhando com os cinco elementos materiais (pañca-bhūtas), bem como com nossos cinco sentidos com os quais se adquire conhecimento, tais como os olhos, os ouvidos e a língua, e com nossos sentidos funcionais, tais como as mãos e as pernas, envolvemo-nos na condição material. Assim, sujeitamo-nos às tribulações conhecidas como adhyātmika, adhidaivika e adhibhautika. A mente é o centro porque é ela que cria todas essas coisas. Entretanto, tão logo um objeto material sofre uma avaria, a mente é afetada, e padecemos. Por exemplo, com os elementos materiais, os sentidos funcionais e os sentidos cognoscitivos, criamos um belíssimo carro, mas, quando há um acidente e, em uma colisão, o carro é destroçado, a mente sofre, e, através da mente, a entidade viva sofre.
O fato é que a entidade viva, enquanto faz invenções mentais, cria a condição material. Porque a matéria é perecível, através da condição material, a entidade viva sofre. Caso contrário, a entidade viva se desapega de todas as condições materiais. Quando alguém chega à plataforma do Brahman, a plataforma de vida espiritual, entendendo plenamente que ele é uma alma espiritual (ahaṁ brahmāsmi), não mais se deixa afetar pela lamentação ou ansiedade. Como o Senhor diz na Bhagavad-gītā (18.54):
brahma-bhūtaḥ prasannātmā
na śocati na kāṅkṣati
na śocati na kāṅkṣati
“Aquele que está assim transcendentalmente situado entende de imediato o Brahman Supremo e se torna cheio de júbilo. Ele nunca se lamenta nem deseja ter nada.” Em outra passagem da Bhagavad-gītā (15.7), o Senhor diz:
mamaivāṁśo jīva-loke
jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ
manaḥ-ṣaṣṭhānīndriyāṇi
prakṛti-sthāni karṣati
jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ
manaḥ-ṣaṣṭhānīndriyāṇi
prakṛti-sthāni karṣati
“As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas eternas partes fragmentárias. Por força da vida condicionada, elas, munidas dos seis sentidos, entre os quais se inclui a mente, empreendem árdua luta.” A entidade viva é de fato parte integrante da Suprema Personalidade de Deus e não é afetada pelas condições materiais, porém, porque a mente (manaḥ) é afetada, os sentidos também o são, e, dentro deste mundo material, a entidade viva luta pela existência.
Devanagari
तस्मात् स्वस्थेन मनसा विमृश्य गतिमात्मन: ।
द्वैते ध्रुवार्थविश्रम्भं त्यजोपशममाविश ॥ २६ ॥
द्वैते ध्रुवार्थविश्रम्भं त्यजोपशममाविश ॥ २६ ॥
Verse text
tasmāt svasthena manasā
vimṛśya gatim ātmanaḥ
dvaite dhruvārtha-viśrambhaṁ
tyajopaśamam āviśa
vimṛśya gatim ātmanaḥ
dvaite dhruvārtha-viśrambhaṁ
tyajopaśamam āviśa
Synonyms
Translation
Portanto, ó rei Citraketu, analisa cuidadosamente a posição do ātmā. Em outras palavras, tenta entender quem és – se és o corpo, a mente ou a alma. Procura investigar de onde foi que vieste, aonde irás após abandonar este corpo, e por que estás sob o controle da lamentação material. Realiza este esforço para entender tua verdadeira posição, então serás capaz de abandonar teu apego desnecessário. Também conseguirás perder a crença de que este mundo material, ou qualquer coisa não relacionada diretamente com o serviço a Kṛṣṇa, são eternos. Só assim poderás obter paz.
Purport
SIGNIFICADO—O movimento da consciência de Kṛṣṇa realmente está se esforçando por trazer à sociedade humana uma condição sóbria. Devido à civilização desorientada, as pessoas, parecendo cães e gatos, estão pulando na vida materialista, executando toda espécie de ações pecaminosas abomináveis e se enredando cada vez mais. O movimento da consciência de Kṛṣṇa prima pela autorrealização porque o Senhor Kṛṣṇa primeiramente orienta a pessoa a entender que não é o corpo, mas o proprietário do corpo. Quem entende este simples fato pode partir rumo à meta da vida. Porque não são educadas em termos da meta da vida, todos estão agindo como loucos e ficam cada vez mais apegados à atmosfera material. O homem desorientado aceita como permanente a condição material. Para ser sóbrio e pacífico, deve-se perder a fé nas coisas materiais e abandonar o apego que se sente por elas.
Devanagari
श्रीनारद उवाच
एतां मन्त्रोपनिषदं प्रतीच्छ प्रयतो मम ।
यां धारयन् सप्तरात्राद् द्रष्टा सङ्कर्षणं विभुम् ॥ २७ ॥
एतां मन्त्रोपनिषदं प्रतीच्छ प्रयतो मम ।
यां धारयन् सप्तरात्राद् द्रष्टा सङ्कर्षणं विभुम् ॥ २७ ॥
Verse text
śrī-nārada uvāca
etāṁ mantropaniṣadaṁ
pratīccha prayato mama
yāṁ dhārayan sapta-rātrād
draṣṭā saṅkarṣaṇaṁ vibhum
etāṁ mantropaniṣadaṁ
pratīccha prayato mama
yāṁ dhārayan sapta-rātrād
draṣṭā saṅkarṣaṇaṁ vibhum
Synonyms
śrī-nāradaḥ uvāca — Śrī Nārada Muni disse; etām — este; mantraupaniṣadam — Upaniṣad sob a forma de um mantra mediante o qual se pode alcançar a meta máxima da vida; pratīccha — aceita; prayataḥ — com muita atenção (após terminar a cerimônia fúnebre de teu filho morto); mama — de mim; yām — o qual; dhārayan — aceitando; sapta-rātrāt — após sete noites; draṣṭā — verás; saṅkarṣaṇam — Saṅkarṣaṇa, a Suprema Personalidade de Deus; vibhum — o Senhor.
Translation
O grande sábio Nārada prosseguiu: Meu querido rei, dedica tua atenção a este auspiciosíssimo mantra que lhe dou agora. Após recebê-lo de mim, passadas sete noites, serás capaz de ver o Senhor face a face.
Devanagari
यत्पादमूलमुपसृत्य नरेन्द्र पूर्वे
शर्वादयो भ्रममिमं द्वितयं विसृज्य ।
सद्यस्तदीयमतुलानधिकं महित्वं
प्रापुर्भवानपि परं न चिरादुपैति ॥ २८ ॥
शर्वादयो भ्रममिमं द्वितयं विसृज्य ।
सद्यस्तदीयमतुलानधिकं महित्वं
प्रापुर्भवानपि परं न चिरादुपैति ॥ २८ ॥
Verse text
yat-pāda-mūlam upasṛtya narendra pūrve
śarvādayo bhramam imaṁ dvitayaṁ visṛjya
sadyas tadīyam atulānadhikaṁ mahitvaṁ
prāpur bhavān api paraṁ na cirād upaiti
śarvādayo bhramam imaṁ dvitayaṁ visṛjya
sadyas tadīyam atulānadhikaṁ mahitvaṁ
prāpur bhavān api paraṁ na cirād upaiti
Synonyms
yat-pāda-mūlam — cujos pés de lótus (do Senhor Saṅkarṣaṇa); upasṛtya — obtendo refúgio a; nara-indra — ó rei; pūrve — outrora; śarva-ādayaḥ — grandes semideuses como o Senhor Mahādeva; bhramam — ilusão; imam — isto; dvitayam — consistindo em dualidade; visṛjya — abandonando; sadyaḥ — de imediato; tadīyam — Suas; atula — inigualáveis; anadhikam — insuperáveis; mahitvam — glórias; prāpuḥ — alcançaram; bhavān — tu mesmo; api — também; param — a morada suprema; na — não; cirāt — após um longo tempo; upaiti — obterás.
Translation
Meu querido rei, em épocas passadas, o senhor Śiva e outros semideuses refugiaram-se aos pés de lótus de Saṅkarṣaṇa. Assim, eles imediatamente se livraram da ilusão da dualidade e alcançaram glórias espirituais inigualáveis e insuperáveis. Muito em breve alcançarás essa mesmíssima posição.
Purport
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do sexto canto, décimo quinto capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Nārada e Aṅgirā Instruem o Rei Citraketu”.