Before Verses
Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
CAPÍTULO SEIS
Prahlāda Instrui Seus Colegas Demoníacos
Este capítulo descreve as instruções de Prahlāda Mahārāja a seus amigos de escola. Ao falar a seus amigos, que eram todos filhos de demônios, Prahlāda Mahārāja enfatizava que, desde o início de sua vida, todo ser vivo, especialmente na sociedade humana, deve interessar-se pela compreensão espiritual. Quando crianças, os seres humanos devem aprender que a Suprema Personalidade de Deus é a Deidade que todos precisam adorar. Ninguém deve se interessar em gozo material; em vez disso, todos devem ficar satisfeitos com os ganhos materiais que podem ser obtidos com facilidade, e, como a duração da vida é muito curta, cada momento deve ser utilizado para o avanço espiritual. Pode-se pensar erroneamente: “No começo de nossa vida, desfrutaremos de confortos materiais e, chegada a velhice, poderemos ser conscientes de Kṛṣṇa.” Semelhantes pensamentos materialistas são sempre inúteis porque, na velhice, ninguém pode ser treinado no processo de seguir a vida espiritual. Portanto, desde o começo da vida, a pessoa deve ocupar-se em serviço devocional (śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ). Esse dever é de todas as entidades vivas. A educação material está contaminada pelos três modos da natureza, mas a educação espiritual, que é de extrema necessidade para a sociedade humana, é transcendental. Prahlāda Mahārāja revelou o segredo de que recebera instruções de Nārada Muni. Quem aceita os pés de lótus de Prahlāda Mahārāja, que está na sucessão paramparā, poderá compreender o modo de vida espiritual. Ao aceitar essas atividades; ele não precisa apresentar credenciais materiais.
Após ouvirem Prahlāda Mahārāja, seus colegas lhe perguntaram como ele se tornara tão erudito e avançado. Nessa altura, o capítulo termina.
Devanagari
श्रीप्रह्राद उवाच
कौमार आचरेत्प्राज्ञो धर्मान्भागवतानिह ।
दुर्लभं मानुषं जन्म तदप्यध्रुवमर्थदम् ॥ १ ॥
कौमार आचरेत्प्राज्ञो धर्मान्भागवतानिह ।
दुर्लभं मानुषं जन्म तदप्यध्रुवमर्थदम् ॥ १ ॥
Verse text
śrī-prahrāda uvāca
kaumāra ācaret prājño
dharmān bhāgavatān iha
durlabhaṁ mānuṣaṁ janma
tad apy adhruvam arthadam
kaumāra ācaret prājño
dharmān bhāgavatān iha
durlabhaṁ mānuṣaṁ janma
tad apy adhruvam arthadam
Synonyms
śrī-prahrādaḥ uvāca — Prahlāda Mahārāja disse; kaumāraḥ — na tenra idade da infância; ācaret — deve praticar; prājñaḥ — aquele que é inteligente; dharmān — deveres ocupacionais; bhāgavatān — o serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus; iha — nesta vida; durlabham — obtido muito raramente; mānuṣam — humano; janma — nascimento; tat — este; api — embora; adhruvam — impermanente, temporário; artha-dam — pleno de significado.
Translation
Prahlāda Mahārāja disse: Aquele que é bastante inteligente deve, desde o começo de sua vida, saber usar o corpo humano e, então, desde a tenra idade da infância, praticar as atividades do serviço devocional, abandonando todas as outras ocupações. O corpo humano é muito raro de ser obtido, e, embora temporário como os outros corpos, é valioso porque, na vida humana, pode-se executar serviço devocional. Mesmo com um pouco de serviço devocional sincero, a pessoa pode alcançar a perfeição completa.
Purport
SIGNIFICADO—Para quem segue a civilização védica e lê os Vedas, seu único objetivo é alcançar a fase perfeita na qual presta serviço devocional executado quando estamos na forma de vida humana. Portanto, de acordo com o sistema védico, já no começo da vida, vigora o sistema de brahmacarya, para que, a partir da infância – a partir dos cinco anos de idade –, a pessoa pratique o método de mudar suas atividades humanas e procure ocupar-se em serviço devocional pleno. A Bhagavad-gītā (2.40) confirma que svalpam apy asya dharmasya trāyate mahato bhayāt: “Um pequeno progresso neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo.” A civilização moderna, a qual não se apoia nos vereditos da literatura védica, é tão cruel aos membros da sociedade humana que, em vez de ensinar as crianças a se tornarem brahmacārīs, ensina as mães a matarem seus filhos mesmo dentro do ventre sob o pretexto de refrear o aumento da população. E se, por acaso, uma criança consegue nascer, ela é educada apenas em gozo dos sentidos. Mundo afora, a sociedade humana pouco a pouco está perdendo o interesse na perfeição da vida. De fato, os homens estão vivendo como gatos e cães, desperdiçando a duração de suas vidas humanas, pois, na verdade, preparam-se para transmigrar de novo a uma das espécies degradadas, contidas nas 8.400.000 formas de vida. O movimento da consciência de Kṛṣṇa está muito ansioso para servir a sociedade humana e quer ensinar as pessoas a prestarem serviço devocional, que pode poupar ao ser humano outra queda na vida animal. Como Prahlāda Mahārāja já declarou, śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam/ arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ sakhyam ātma-nivedanam. Em todas as escolas, faculdades e universidades, e também em casa, todos os jovens e as crianças devem aprender a ouvir a respeito da Suprema Personalidade de Deus. Em outras palavras, deve-se ensinar-lhes a ouvir as instruções da Bhagavad-gītā, praticá-las em suas vidas e, assim, fortalecerem-se em serviço devocional, livres do medo de se degradarem à vida animal. Nesta era de Kali, é extremamente fácil seguir o bhāgavata-dharma. Os śāstras dizem:
harer nāma harer nāma
harer nāmaiva kevalam
kalau nāsty eva nāsty eva
nāsty eva gatir anyathā
harer nāmaiva kevalam
kalau nāsty eva nāsty eva
nāsty eva gatir anyathā
É necessário apenas cantar o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa. Todos aqueles que se ocuparem na prática de cantar o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa ficarão inteiramente limpos e, tendo purificado o âmago de seus corações, eles se salvarão do ciclo de nascimentos e mortes.
Devanagari
यथा हि पुरुषस्येह विष्णो: पादोपसर्पणम् ।
यदेष सर्वभूतानां प्रिय आत्मेश्वर: सुहृत् ॥ २ ॥
यदेष सर्वभूतानां प्रिय आत्मेश्वर: सुहृत् ॥ २ ॥
Verse text
yathā hi puruṣasyeha
viṣṇoḥ pādopasarpaṇam
yad eṣa sarva-bhūtānāṁ
priya ātmeśvaraḥ suhṛt
viṣṇoḥ pādopasarpaṇam
yad eṣa sarva-bhūtānāṁ
priya ātmeśvaraḥ suhṛt
Synonyms
yathā — para que; hi — na verdade; puruṣasya — de uma entidade viva; iha — aqui; viṣṇoḥ — do Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus; pāda-upasarpaṇam — aproximando-se dos pés de lótus; yat — porque; eṣaḥ — este; sarva-bhūtānām — de todos os seres vivos; priyaḥ — o querido; ātma-īśvaraḥ — o mestre da alma, a Superalma; suhṛt — o melhor amigo e benquerente.
Translation
A forma de vida humana proporciona a oportunidade de voltarmos ao lar, voltarmos ao Supremo. Portanto, toda entidade viva, especialmente na forma de vida humana, deve ocupar-se em serviço devocional aos pés de lótus do Senhor Viṣṇu. Esse serviço devocional é natural porque o Senhor Viṣṇu, a Suprema Personalidade de Deus, é o mais querido, o mestre da alma e o benquerente de todos os outros seres vivos.
Purport
SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (5.29), o Senhor diz:
bhoktāraṁ yajña-tapasāṁ
sarva-loka-maheśvaram
suhṛdaṁ sarva-bhūtānāṁ
jñātvā māṁ śāntim ṛcchati
sarva-loka-maheśvaram
suhṛdaṁ sarva-bhūtānāṁ
jñātvā māṁ śāntim ṛcchati
“Os sábios, conhecendo-Me como o propósito último de todos os sacrifícios e austeridades, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses e o benfeitor e benquerente de todas as entidades vivas, alcançam a paz, livrando-se dos sofrimentos materiais.” Basta compreender estes três fatos – que o Senhor Supremo, Viṣṇu, é o proprietário de toda a criação, que Ele é o melhor amigo e benquerente de todos os seres vivos e que é o supremo desfrutador de tudo – para que a pessoa se torne pacífica e feliz. Em busca dessa felicidade transcendental, a entidade viva, em diferentes formas de vida e diferentes sistemas planetários, vagueia por todo o universo, mas, como se esqueceu de que, entre ela e Viṣṇu, há uma relação íntima, tudo o que ela faz é sofrer vida após vida. Portanto, na forma de vida humana, o sistema educacional deve ser tão perfeito que se possa compreender a relação íntima com Deus, ou Viṣṇu. Todo ser vivo tem uma relação íntima com Deus. Deve-se glorificar o Senhor adorando-O em śānta-rasa, ou reviver a relação eterna com Viṣṇu como um servo em dāsya-rasa, um amigo em sakhya-rasa, um pai ou mãe em vātsalya-rasa ou um amante conjugal em mādhurya-rasa. Todas essas relações estão na plataforma do amor. Para todos, Viṣṇu é o centro do amor, daí ser necessário todos se ocuparem no serviço amoroso ao Senhor. Como a Suprema Personalidade de Deus afirma, yeṣām ahaṁ priya ātmā sutaś ca sakhā guruḥ suhṛdo daivam iṣṭam. (Śrīmad-Bhāgavatam 3.25.38) Em toda forma de vida, estamos vinculados a Viṣṇu, que é o mais querido, a Superalma, o filho, o amigo e o guru. Sob a forma de vida humana, podemos reviver nossa eterna relação com Deus, e esse deve ser o objetivo da educação. De fato, essa é a perfeição da vida e da educação.
Devanagari
सुखमैन्द्रियकं दैत्या देहयोगेन देहिनाम् ।
सर्वत्र लभ्यते दैवाद्यथा दु:खमयत्नत: ॥ ३ ॥
सर्वत्र लभ्यते दैवाद्यथा दु:खमयत्नत: ॥ ३ ॥
Verse text
sukham aindriyakaṁ daityā
deha-yogena dehinām
sarvatra labhyate daivād
yathā duḥkham ayatnataḥ
deha-yogena dehinām
sarvatra labhyate daivād
yathā duḥkham ayatnataḥ
Synonyms
sukham — felicidade; aindriyakam — que se refere aos sentidos materiais; daityāḥ — ó meus queridos amigos nascidos em famílias demoníacas; deha-yogena — devido ao fato de possuírem uma classe específica de corpo material; dehinām — de todas as entidades vivas corporificadas; sarvatra — em toda parte (em toda forma de vida); labhyate — é acessível; daivāt — por arranjo superior; yathā — assim como; duḥkham — infelicidade; ayatnataḥ — sem esforço.
Translation
Prahlāda Mahārāja continuou: Meus queridos amigos nascidos de famílias demoníacas, a felicidade que o corpo propicia mediante a intervenção dos sentidos está disponível nas diversas formas de vida obtidas de acordo com as atividades fruitivas passadas. Assim como o sofrimento, tal felicidade surge automaticamente, não sendo necessário que seja buscada.
Purport
SIGNIFICADO—Neste mundo material, em toda forma de vida, existe um pouco de felicidade e sofrimento aparentes. Ninguém convida o sofrimento, pois ninguém quer sofrer, mas, ainda assim, ele vem. Do mesmo modo, mesmo que não nos esforcemos para obter as vantagens da felicidade material, elas nos serão automaticamente facultadas. Em toda forma de vida e sem esforço algum, obtém-se essa felicidade e sofrimento. Logo, não há motivo para desperdiçarmos tempo e energia lutando contra os sofrimentos ou trabalhando muito arduamente na tentativa de conseguirmos a felicidade. Sob a forma de vida humana, nossa única ocupação deve consistir em reviver a relação existente entre nós e a Suprema Personalidade de Deus e, assim, qualificarmo-nos para voltar ao lar, voltar ao Supremo. A felicidade e o sofrimento material vêm logo que aceitamos qualquer uma das formas materiais. Não há como evitarmos tal felicidade ou sofrimento. Portanto, a melhor maneira de usarmos a vida humana é aproveitá-la para revivermos nossa relação com Viṣṇu, o Senhor Supremo.
Devanagari
तत्प्रयासो न कर्तव्यो यत आयुर्व्यय: परम् ।
न तथा विन्दते क्षेमं मुकुन्दचरणाम्बुजम् ॥ ४ ॥
न तथा विन्दते क्षेमं मुकुन्दचरणाम्बुजम् ॥ ४ ॥
Verse text
tat-prayāso na kartavyo
yata āyur-vyayaḥ param
na tathā vindate kṣemaṁ
mukunda-caraṇāmbujam
yata āyur-vyayaḥ param
na tathā vindate kṣemaṁ
mukunda-caraṇāmbujam
Synonyms
tat — para esse (gozo dos sentidos e desenvolvimento econômico); prayāsaḥ — esforço; na — não; kartavyaḥ — para ser feito; yataḥ — do qual; āyuḥ-vyayaḥ — desperdício da duração da vida; param — apenas ou definitivamente; na — não; tathā — desse modo; vindate — desfruta do; kṣemam — objetivo último da vida; mukunda — da Suprema Personalidade de Deus, que nos pode libertar das garras materiais; caraṇa-ambujam — os pés de lótus.
Translation
Não se deve empreender esforços meramente para se obter gozo dos sentidos ou felicidade material através do desenvolvimento econômico, pois semelhante empenho redunda apenas em desperdício de tempo e de energia, sem nenhum ganho verdadeiro. É certo que quem concentra na consciência de Kṛṣṇa todos os seus esforços alcançará a plataforma espiritual da autorrealização, mas aquele que se ocupa em desenvolvimento econômico não obtém esse benefício.
Purport
SIGNIFICADO—Vemos que os materialistas estão sempre ocupados no desenvolvimento econômico dia e noite, tentando aumentar suas opulências materiais, mas mesmo supondo que esses empreendimentos lhes tragam algum benefício, isso não soluciona o verdadeiro problema de suas vidas. Tampouco conhecem eles o verdadeiro problema da vida. Isso se deve ao fato de não terem educação espiritual. Notadamente na era atual, todos os homens estão na escuridão, no conceito de vida corpórea, e nada sabem sobre a alma espiritual e suas necessidades. Desorientadas pelos líderes cegos que estão encarregados da sociedade, as pessoas consideram o corpo como sendo tudo e se ocupam em tentar proporcionar conforto material a esse corpo. Semelhante civilização está condenada porque não conduz a humanidade rumo ao verdadeiro processo mediante o qual ela possa conhecer a meta da vida. As pessoas estão simplesmente desperdiçando seu tempo e esta dádiva valiosa, a forma humana, pois o ser humano que não cultiva uma vida espiritual, senão que morre igual a um gato ou cachorro, degrada-se em sua próxima vida. Desperdiçando a vida humana, tal pessoa cai no ciclo de contínuos nascimentos e mortes. Assim, ela não aproveita o verdadeiro benefício da vida humana, que é se tornar consciente de Kṛṣṇa e dar uma solução aos problemas da vida.
Devanagari
ततो यतेत कुशल: क्षेमाय भवमाश्रित: ।
शरीरं पौरुषं यावन्न विपद्येत पुष्कलम् ॥ ५ ॥
शरीरं पौरुषं यावन्न विपद्येत पुष्कलम् ॥ ५ ॥
Verse text
tato yateta kuśalaḥ
kṣemāya bhavam āśritaḥ
śarīraṁ pauruṣaṁ yāvan
na vipadyeta puṣkalam
kṣemāya bhavam āśritaḥ
śarīraṁ pauruṣaṁ yāvan
na vipadyeta puṣkalam
Synonyms
tataḥ — portanto; yateta — deve esforçar-se; kuśalaḥ — um homem inteligente, interessado na meta última da vida; kṣemāya — para o verdadeiro benefício da vida, ou para se libertar do cativeiro material; bhavam āśritaḥ — que está na existência material; śarīram — o corpo; pauruṣam — humano; yāvat — enquanto; na — não; vipadyeta — definha; puṣkalam — forte e robusto.
Translation
Portanto, enquanto está na existência material [bhavam āśritaḥ], alguém que tenha plena competência para distinguir o certo e o errado deve esforçar-se para alcançar a meta mais elevada da vida, aproveitando um corpo forte e vigoroso, que ainda não está sob os efeitos da decrepitude.
Purport
SIGNIFICADO—Como Prahlāda Mahārāja afirmou no começo deste capítulo, kaumāra ācaret prājñaḥ. A palavra prājña se refere a alguém experiente, que pode distinguir o certo e o errado. Semelhante pessoa não deve desperdiçar sua energia e vida humana valiosa e, como um gato ou cachorro, ficar simplesmente trabalhando para desenvolver sua condição econômica.
Há uma expressão neste verso que aceita duas leituras – bhavam āśrītaḥ e bhayam āśritaḥ –, mas qualquer um dos dois significados redundará na mesma conclusão. Bhayam āśritaḥ indica que o modo de vida materialista é sempre amedrontador porque, a cada passo, existem perigos. A vida materialista é cheia de ansiedades e medo (bhayam). Do mesmo modo, sendo aceita a grafia bhavam āśritaḥ, a palavra bhavam refere-se a aborrecimentos e problemas desnecessários. Por falta de consciência de Kṛṣṇa, a pessoa é colocada em bhavam, sendo perpetuamente assolada por nascimento, morte, velhice e doença. Assim, ela se enche de ansiedade.
A sociedade humana deve dividir-se em um sistema social composto de brāhmaṇas, kṣatriyas, vaiśyas e śūdras, mas todos podem ocupar-se em serviço devocional. Se alguém prefere viver sem prestar serviço devocional, seu status de brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya ou śūdra certamente será descabido. Afirma-se que sthānād bhraṣṭāḥ patanty adhaḥ: quer alguém esteja em uma situação superior, quer esteja em uma situação inferior, decerto cairá se não tiver consciência de Kṛṣṇa. Portanto, há um princípio segundo o qual o homem sensato sempre teme cair de sua posição. Ninguém deve cair de sua posição excelsa. O indivíduo pode alcançar a meta mais elevada da vida enquanto o seu corpo estiver forte e robusto. Portanto, devemos viver de modo que sempre mantenhamos a mente e a inteligência fortes e saudáveis para que possamos distinguir entre a meta da vida e uma vida cheia de problemas. O homem prudente deve adotar esse procedimento, aprendendo a discernir o certo e o errado e, então, alcançar a meta da vida.
Devanagari
पुंसो वर्षशतं ह्यायुस्तदर्धं चाजितात्मन: ।
निष्फलं यदसौ रात्र्यां शेतेऽन्धं प्रापितस्तम: ॥ ६ ॥
निष्फलं यदसौ रात्र्यां शेतेऽन्धं प्रापितस्तम: ॥ ६ ॥
Verse text
puṁso varṣa-śataṁ hy āyus
tad-ardhaṁ cājitātmanaḥ
niṣphalaṁ yad asau rātryāṁ
śete ’ndhaṁ prāpitas tamaḥ
tad-ardhaṁ cājitātmanaḥ
niṣphalaṁ yad asau rātryāṁ
śete ’ndhaṁ prāpitas tamaḥ
Synonyms
puṁsaḥ — de todo ser humano; varṣa-śatam — cem anos; hi — na verdade; āyuḥ — duração de vida; tat — disto; ardham — metade; ca — e; ajita-ātmanaḥ — daquele que é servo de seus sentidos; niṣphalam — sem ganho, sem significado; yat — porque; asau — essa pessoa; rātryām — à noite; śete — dorme; andham — ignorância (esquecendo-se de seu corpo e alma); prāpitaḥ — estando em completa; tamaḥ — escuridão.
Translation
Todo ser humano tem uma vida máxima de cem anos, mas, para aquele que não consegue controlar seus sentidos, metade desses anos se perdem completamente porque, à noite, coberto pela ignorância, ele dorme ao longo de doze horas. Por conseguinte, a vida dessa pessoa dura apenas cinquenta anos.
Purport
SIGNIFICADO—O senhor Brahmā, um ser humano e uma formiga todos vivem cem anos, mas os cem anos de cada um deles seguem uma contagem que obedece a padrões distintos. Este é um mundo relativo, e seus momentos relativos são diferentes. Logo, os cem anos de Brahmā não são os mesmos cem anos de um ser humano. Através da Bhagavad-gītā, pode-se compreender que doze horas do dia de Brahmā equivalem a 4.300.000 vezes 1.000 anos (sahasra-yuga-paryantam ahar yad brahmaṇo viduḥ). Portanto, o varṣa-śatam, ou cem anos, é relativamente diferente, de acordo com o tempo, a pessoa e as circunstâncias. Quanto aos seres humanos, o cálculo dado aqui se aplica corretamente ao público em geral. Embora a pessoa tenha no máximo cem anos de vida, perde cinquenta anos ao dormir. Comer, dormir, acasalar-se e defender-se são as quatro necessidades corpóreas, mas, para tirar pleno proveito da duração da vida, quem deseja avançar na consciência espiritual deve reduzir essas atividades. Isso lhe dará a oportunidade de usar plenamente a sua vida.
Devanagari
मुग्धस्य बाल्ये कैशोरे क्रीडतो याति विंशति: ।
जरया ग्रस्तदेहस्य यात्यकल्पस्य विंशति: ॥ ७ ॥
जरया ग्रस्तदेहस्य यात्यकल्पस्य विंशति: ॥ ७ ॥
Verse text
mugdhasya bālye kaiśore
krīḍato yāti viṁśatiḥ
jarayā grasta-dehasya
yāty akalpasya viṁśatiḥ
krīḍato yāti viṁśatiḥ
jarayā grasta-dehasya
yāty akalpasya viṁśatiḥ
Synonyms
mugdhasya — de alguém confuso ou que não tem conhecimento perfeito; bālye — na infância; kaiśore — na juventude; krīḍataḥ — divertindo-se; yāti — passa; viṁśatiḥ — vinte anos; jarayā — pela invalidez; grasta-dehasya — de alguém dominado; yāti — passa; akalpasya — sem determinação, sendo incapaz de sequer executar atividades materiais; viṁśatiḥ — outros vinte anos.
Translation
Na tenra idade da infância, quando todos estão confusos, passam-se dez anos. De modo semelhante, na juventude, ocupada em esportes e diversões, a pessoa vive outros dez anos. Assim, vinte anos são desperdiçados. E, na velhice, quando está inválida, incapaz de sequer executar atividades materiais, desperdiça outros vinte anos.
Purport
SIGNIFICADO—Sem consciência de Kṛṣṇa, a pessoa desperdiça vinte anos na infância e na juventude e outros vinte anos na velhice, quando ela não pode executar nenhuma atividade material e fica cheia de ansiedades, querendo saber como seus filhos e netos se organizarão na vida e como seu patrimônio será protegido. Metade desses anos são gastos dormindo. Além disso, dos sessenta anos restantes, trinta são gastos dormindo à noite. Assim, dos cem anos de vida, setenta são desperdiçados por aquele que não conhece o objetivo da vida e não sabe como utilizar esta forma humana.
Devanagari
दुरापूरेण कामेन मोहेन च बलीयसा ।
शेषं गृहेषु सक्तस्य प्रमत्तस्यापयाति हि ॥ ८ ॥
शेषं गृहेषु सक्तस्य प्रमत्तस्यापयाति हि ॥ ८ ॥
Verse text
durāpūreṇa kāmena
mohena ca balīyasā
śeṣaṁ gṛheṣu saktasya
pramattasyāpayāti hi
mohena ca balīyasā
śeṣaṁ gṛheṣu saktasya
pramattasyāpayāti hi
Synonyms
durāpūreṇa — que nunca se satisfaz; kāmena — devido a uma forte aspiração a desfrutar do mundo material; mohena — devido à confusão; ca — também; balīyasā — que é forte e avassaladora; śeṣam — os anos que ainda lhe restam viver; gṛheṣu — à vida familiar; saktasya — de alguém que é muito apegado; pramattasya — louco; apayāti — são desperdiçados; hi — na verdade.
Translation
Aquele cuja mente e cujos sentidos estão fora de controle se apega cada vez mais à vida familiar devido a insaciáveis desejos luxuriosos e uma fortíssima ilusão. Na vida dessa pessoa destituída de sanidade, os anos que ainda lhe restam também são desperdiçados porque, mesmo durante esses anos, ela não é capaz de se ocupar em serviço devocional.
Purport
SIGNIFICADO—Este é o relato dos cem anos de uma vida. Embora nesta era seja difícil encontrar alguém que viva cem anos, mesmo que ele atinja essa idade, o cálculo é que cinquenta anos são desperdiçados no sono, vinte anos se desperdiçam na infância e na juventude, e vinte anos se perdem na invalidez (jarā-vyādhi). Ainda lhe restariam alguns anos, mas, devido ao intenso apego à vida familiar, todos esses anos também se passam em vão, sem consciência de Deus. Por conseguinte, no começo da vida, a pessoa deve aprender a se tornar um brahmacārī perfeito e, caso se torne um chefe de família, deve saber controlar perfeitamente os sentidos, seguindo os princípios reguladores. Da vida de casado, deve aceitar vānaprastha e ir para a floresta e, depois, aceitar sannyāsa. Essa é a perfeição da vida. Aqueles que são ajitendriya, que não podem controlar seus sentidos, são educados unicamente no gozo dos sentidos desde o começo de suas vidas, e isso nós comprovamos nos países ocidentais. Portanto, mesmo esses cem anos de vida são desperdiçados e dissipados, e, na hora da morte, a pessoa transmigra para outro corpo, o qual não será necessariamente humano. Ao final dos cem anos, aquele que não agiu como um ser humano e não se dedicou a uma vida de tapasya (austeridade e penitência), com certeza ganhará um corpo de gato, cachorro ou porco. Logo, uma vida de desejos luxuriosos e gozo dos sentidos é muito arriscada.
Devanagari
को गृहेषु पुमान्सक्तमात्मानमजितेन्द्रिय: ।
स्नेहपाशैर्दृढैर्बद्धमुत्सहेत विमोचितुम् ॥ ९ ॥
स्नेहपाशैर्दृढैर्बद्धमुत्सहेत विमोचितुम् ॥ ९ ॥
Verse text
ko gṛheṣu pumān saktam
ātmānam ajitendriyaḥ
sneha-pāśair dṛḍhair baddham
utsaheta vimocitum
ātmānam ajitendriyaḥ
sneha-pāśair dṛḍhair baddham
utsaheta vimocitum
Synonyms
kaḥ — o que; gṛheṣu — à vida familiar; pumān — homem; saktam — muito apegado; ātmānam — seu próprio eu, a alma; ajita-indriyaḥ — que não controlou os sentidos; sneha-pāśaiḥ — pelas cordas da afeição; dṛḍhaiḥ — muito fortes; baddham — mãos e pés atados; utsaheta — é capaz; vimocitum — de se libertar do cativeiro material.
Translation
Qual é a pessoa que, estando muito apegada à vida familiar porque não é capaz de controlar seus sentidos, pode libertar-se? Um chefe de família apegado é muito fortemente atado pelas cordas da afeição à sua família [esposa, filhos e outros parentes].
Purport
SIGNIFICADO—A primeira proposta de Prahlāda Mahārāja foi kaumāra ācaret prājño dharmān bhāgavatān iha: “Quem é inteligente o bastante deve, desde o começo da vida – em outras palavras, desde a tenra idade da infância –, utilizar a forma humana e praticar as atividades de serviço devocional, abandonando todas as outras ocupações.” Dharmān bhāgavatān significa os princípios religiosos através dos quais revivemos a relação que existe entre nós e a Suprema Personalidade de Deus. É com esse objetivo que Kṛṣṇa pessoalmente nos aconselha que sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja: “Abandona todos os outros deveres e rende-te a Mim.” Enquanto estamos neste mundo material, inventamos muitos deveres em nome de tantos “ismos”, mas nosso verdadeiro dever é nos livrarmos do ciclo de nascimento, morte, velhice e doença. Para alcançar esse objetivo, a pessoa primeiro deve libertar-se do cativeiro material, especialmente da vida em família. A vida familiar é, na verdade, uma espécie de licença através da qual alguém materialmente apegado tem a oportunidade de desfrutar do gozo dos sentidos subordinando-se aos princípios reguladores. Caso contrário, não haveria necessidade de aceitar a vida de casado.
Antes de se casar, a pessoa deve primeiro ser treinada como brahmacārī e viver sob os cuidados de um guru, cuja residência é chamada de gurukula. Brahmacārī gurukule vasan dānto guror hitam. (Śrīmad-Bhāgavatam 7.12.1) Desde o começo, o brahmacārī aprende a sacrificar tudo para o benefício do guru. Recomenda-se que o brahmacārī vá mendigar de porta em porta, tratando todas as mulheres por mães, e tudo o que ele coleta é entregue em benefício do guru. Desse modo, ele aprende a controlar os sentidos e sacrificar tudo para o guru. Quando ele estiver plenamente treinado, se ele assim o quiser, poderá casar-se. Portanto, ele não será um gṛhastha comum, que sabe apenas satisfazer os sentidos. O gṛhastha treinado pode gradualmente abandonar a vida de casado e ir para a floresta, onde procurará obter maior iluminação espiritual, preparando-se para tomar sannyāsa. Prahlāda Mahārāja explicou a seu pai que, para se livrar de todas as ansiedades materiais, a pessoa deve ir para a floresta. Hitvātma-pātaṁ gṛham andha-kūpam. Ela deve abandonar o lar, que é um local de onde progressivamente se afunda nas regiões mais escuras da existência material. O primeiro conselho é que, portanto, deve-se abandonar a vida de casado (gṛham andha-kūpam). No entanto, se alguém, devido aos sentidos descontrolados, preferir permanecer no poço escuro da vida em família, ele fica mais e mais atado pelas cordas da afeição à sua esposa, filhos, empregados, casa, dinheiro e assim por diante. Semelhante pessoa não pode libertar-se do cativeiro material. Portanto, desde o começo de suas vidas, as crianças devem aprender a ser brahmacārīs excelentes. Então, no futuro, conseguirão abandonar a vida de casado.
Para voltar ao lar, voltar ao Supremo, a pessoa deve ser inteiramente destituída do apego material. Portanto, bhakti-yoga significa vairāgya-vidyā, a arte que nos ajuda a desenvolver desgosto pelo desfrute material.
vāsudeve bhagavati
bhakti-yogaḥ prayojitaḥ
janayaty āśu vairāgyaṁ
jñānaṁ ca yad ahaitukam
bhakti-yogaḥ prayojitaḥ
janayaty āśu vairāgyaṁ
jñānaṁ ca yad ahaitukam
“Aquele que presta serviço devocional à Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, imediatamente adquire conhecimento sem causa e desapego do mundo.” (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.7) Aquele que, desde o começo da vida, ocupa-se em serviço devocional, facilmente alcança vairāgya-vidyā, ou asakti, desapego, e se torna jitendriya, controlador de seus sentidos. Portanto, quem se ocupa em perfeito serviço devocional se chama gosvāmī ou svāmī, senhor dos sentidos. Quem não é senhor dos sentidos não deve aceitar a ordem de vida renunciada, sannyāsa. Uma forte inclinação para o gozo dos sentidos é o motivo da existência do corpo material. Sem conhecimento pleno, ninguém pode desapegar-se do gozo material, mas, enquanto não galgar essa posição, a pessoa não estará em condições de voltar ao lar, voltar ao Supremo.
Devanagari
को न्वर्थतृष्णां विसृजेत्प्राणेभ्योऽपि य ईप्सित: ।
यं क्रीणात्यसुभि: प्रेष्ठैस्तस्कर: सेवको वणिक् ॥ १० ॥
यं क्रीणात्यसुभि: प्रेष्ठैस्तस्कर: सेवको वणिक् ॥ १० ॥
Verse text
ko nv artha-tṛṣṇāṁ visṛjet
prāṇebhyo ’pi ya īpsitaḥ
yaṁ krīṇāty asubhiḥ preṣṭhais
taskaraḥ sevako vaṇik
prāṇebhyo ’pi ya īpsitaḥ
yaṁ krīṇāty asubhiḥ preṣṭhais
taskaraḥ sevako vaṇik
Synonyms
kaḥ — quem; nu — na verdade; artha-tṛṣṇām — um forte desejo de conseguir dinheiro; visṛjet — pode abandonar; prāṇebhyaḥ — do que a vida; api — de fato; yaḥ — o qual; īpsitaḥ — mais desejado; yam — o qual; krīṇāti — tenta conseguir; asubhiḥ — com sua própria vida; preṣṭhaiḥ — muito querida; taskaraḥ — um ladrão; sevakaḥ — um servo profissional; vaṇik — um mercador.
Translation
O dinheiro é tão querido que é considerado mais doce do que o mel. Portanto, quem pode abandonar o desejo de acumular dinheiro, especialmente na vida de casado? Os ladrões, os servos profissionais [os soldados] e os mercadores tentam conseguir dinheiro arriscando inclusive suas próprias vidas, pelas quais têm tanto apreço.
Purport
SIGNIFICADO—Neste verso, indica-se como é que o dinheiro pode ser mais querido do que a própria vida. Arriscando suas próprias vidas, os ladrões podem entrar na casa de um homem rico para roubar o seu dinheiro. Devido a essa violação, podem ser mortos por armas ou atacados por cães de guarda, mas, mesmo assim, tentam praticar o furto. Por que arriscam suas vidas? Apenas para conseguir um pouco de dinheiro. De modo semelhante, um soldado profissional é recrutado ao exército e, por causa do dinheiro, aceita tal serviço, arriscando-se a morrer no campo de batalha. Da mesma forma, em barcos, os mercadores vão de uma região a outra, arriscando suas vidas ou mergulham nas águas do mar, onde buscam pérolas e pedras preciosas. Assim provamos na prática – e todos admitirão – que o dinheiro é mais doce do que o mel. Para conseguir dinheiro, a pessoa arriscará tudo, e isso acontece especialmente com os ricos, que são muito apegados à vida familiar. É claro que, outrora, os membros das castas superiores – os brāhmaṇas, os kṣatriyas e os vaiśyas (todos, exceto os śūdras) – frequentavam o gurukula, onde aprendiam uma vida de renúncia e controle dos sentidos através da prática de brahmacarya e yoga místico. Então, recebiam o direito de constituir uma família. O resultado é que há muitos exemplos de grandes reis e imperadores que abandonaram a vida familiar. Embora fossem extremamente opulentos e donos de seus reinos, eles puderam abandonar todas as suas posses porque, já no começo, foram treinados como brahmacārīs. Portanto, o conselho de Prahlāda Mahārāja é muito apropriado:
kaumāra ācaret prājño
dharmān bhāgavatān iha
durlabhaṁ mānuṣaṁ janma
tad apy adhruvam arthadam
dharmān bhāgavatān iha
durlabhaṁ mānuṣaṁ janma
tad apy adhruvam arthadam
“Aquele que é assaz inteligente deve, desde o começo de sua vida – em outras palavras, desde a tenra idade da infância –, saber utilizar a forma humana e praticar as atividades do serviço devocional, abandonando todas as outras ocupações. Muito raramente se obtém o corpo humano, e, embora temporário como os outros corpos, é valioso porque, na vida humana, pode-se executar o serviço devocional. Quem realiza pelo menos um pouco de serviço devocional sincero pode alcançar a perfeição completa.” A sociedade humana deve aproveitar-se dessa instrução.
Devanagari
कथं प्रियाया अनुकम्पिताया:
सङ्गं रहस्यं रुचिरांश्च मन्त्रान् ।
सुहृत्सु तत्स्नेहसित: शिशूनां
कलाक्षराणामनुरक्तचित्त: ॥ ११ ॥
पुत्रान्स्मरंस्ता दुहितृर्हृदय्या
भ्रातृन् स्वसृर्वा पितरौ च दीनौ ।
गृहान् मनोज्ञोरुपरिच्छदांश्च
वृत्तीश्च कुल्या: पशुभृत्यवर्गान् ॥ १२ ॥
त्यजेत कोशस्कृदिवेहमान:
कर्माणि लोभादवितृप्तकाम: ।
औपस्थ्यजैह्वं बहुमन्यमान:
कथं विरज्येत दुरन्तमोह: ॥ १३ ॥
सङ्गं रहस्यं रुचिरांश्च मन्त्रान् ।
सुहृत्सु तत्स्नेहसित: शिशूनां
कलाक्षराणामनुरक्तचित्त: ॥ ११ ॥
पुत्रान्स्मरंस्ता दुहितृर्हृदय्या
भ्रातृन् स्वसृर्वा पितरौ च दीनौ ।
गृहान् मनोज्ञोरुपरिच्छदांश्च
वृत्तीश्च कुल्या: पशुभृत्यवर्गान् ॥ १२ ॥
त्यजेत कोशस्कृदिवेहमान:
कर्माणि लोभादवितृप्तकाम: ।
औपस्थ्यजैह्वं बहुमन्यमान:
कथं विरज्येत दुरन्तमोह: ॥ १३ ॥
Verse text
kathaṁ priyāyā anukampitāyāḥ
saṅgaṁ rahasyaṁ rucirāṁś ca mantrān
suhṛtsu tat-sneha-sitaḥ śiśūnāṁ
kalākṣarāṇām anurakta-cittaḥ
saṅgaṁ rahasyaṁ rucirāṁś ca mantrān
suhṛtsu tat-sneha-sitaḥ śiśūnāṁ
kalākṣarāṇām anurakta-cittaḥ
putrān smaraṁs tā duhitṝr hṛdayyā
bhrātṝn svasṝr vā pitarau ca dīnau
gṛhān manojñoru-paricchadāṁś ca
vṛttīś ca kulyāḥ paśu-bhṛtya-vargān
bhrātṝn svasṝr vā pitarau ca dīnau
gṛhān manojñoru-paricchadāṁś ca
vṛttīś ca kulyāḥ paśu-bhṛtya-vargān
tyajeta kośas-kṛd ivehamānaḥ
karmāṇi lobhād avitṛpta-kāmaḥ
aupasthya-jaihvaṁ bahu-manyamānaḥ
kathaṁ virajyeta duranta-mohaḥ
karmāṇi lobhād avitṛpta-kāmaḥ
aupasthya-jaihvaṁ bahu-manyamānaḥ
kathaṁ virajyeta duranta-mohaḥ
Synonyms
katham — como; priyāyāḥ — da querida esposa; anukampitāyāḥ — sempre afetuosa e compassiva; saṅgam — a companhia; rahasyam — solitária; rucirān — muito agradável e plausível; ca — e; mantrān — instruções; suhṛtsu — à esposa e filhos; tat-sneha-sitaḥ — estando preso pela afeição deles; śiśūnām — aos filhinhos; kala-akṣarāṇām — falando com linguajar entrecortado; anurakta-cittaḥ — uma pessoa cuja mente está atraída; putrān — os filhos; smaran — pensando; tāḥ — neles; duhitṝḥ — as filhas (casadas e morando com seus esposos); hṛdayyāḥ — sempre situadas no âmago do coração; bhrātṝn — os irmãos; svasṝḥ vā — ou as irmãs; pitarau — pai e mãe; ca — e; dīnau — que na velhice são praticamente inválidos; gṛhān — convívio em família; manojña — muito atrativa; uru — muita; paricchadān — mobília; ca — e; vṛttīḥ — grandes fontes de renda (indústria, negócios); ca — e; kulyāḥ — relacionados com a família; paśu — dos animais (vacas, elefantes e outros animais domésticos); bhṛtya — servos e criadas; vargān — grupos; tyajeta — pode abandonar; kośaḥ-kṛt — o bicho-da-seda; iva — como; īhamānaḥ — executando; karmāṇi — diferentes atividades; lobhāt — devido a desejos insaciáveis; avitṛpta-kāmaḥ — cujos crescentes desejos não são satisfeitos; aupasthya — prazer através dos órgãos genitais; jaihvam — e através da língua; bahu-manyamānaḥ — considerando muito importante; katham — como; virajyeta — é capaz de abandonar; duranta-mohaḥ — estando em grande ilusão.
Translation
Como pode abandonar a companhia de sua família uma pessoa que lhe dedica tanta afeição e cujo âmago do coração está sempre repleto das imagens dos membros familiares? Especificamente, a esposa é sempre muito bondosa e compassiva, e procura satisfazer seu esposo em um local solitário. Quem conseguiria abandonar a companhia de uma esposa tão querida e afetuosa? As criancinhas falam em um linguajar entrecortado, muito agradável de se ouvir, e seu afetuoso pai vive pensando em suas doces palavras. Como ele poderia abandonar-lhes a companhia? A pessoa também tem muito carinho por seus pais idosos e pelos seus filhos e filhas. A filha é especialmente muito querida a seu pai e, enquanto está vivendo na casa de seu esposo, ela não lhe sai da mente. Quem conseguiria abandonar essa companhia? Além disso, no convívio em família, a casa é decorada de mobília, e nela há também animais e servos. Quem seria capaz de abandonar tais confortos? Apegado, o chefe de família é como um bicho-da-seda, que constrói um casulo no qual ele próprio fica preso, incapaz de sair dali. Apenas para satisfazer dois importantes sentidos – os órgãos genitais e a língua –, a pessoa fica atada às condições materiais. Como ela pode escapar?
Purport
SIGNIFICADO—No convívio em família, a principal atração é a bela e agradável esposa, que aumenta cada vez mais a atração doméstica. No desfrute propiciado pela esposa, dois órgãos sensoriais se destacam, a saber, a língua e a genitália. A esposa fala palavras muito doces. Certamente, isso é atrativo. Depois, para satisfazer a língua, ela prepara alimentos muito agradáveis, e quando a língua está satisfeita, os outros órgãos dos sentidos, especialmente a genitália, ficam vigorosos. Assim, a esposa dá prazer através da relação sexual. Vida de casado significa vida sexual (yan maithunādi-gṛhamedhi-sukhaṁ hi tuccham). Isso é atiçado pela língua. Depois, vêm os filhos. Um bebê causa alegria ao falar palavras doces em uma linguagem entrecortada, e, quando os filhos e as filhas crescem, o pai se envolve na educação e casamento deles. Então, ele deve cuidar de seus próprios pais, e ele também se preocupa com a atmosfera social e procura agradar seus irmãos e irmãs. Cada vez mais, ele se emaranha nos afazeres da família – em tamanha intensidade que os deixar é quase impossível. Assim, a vida de casado se torna gṛham andha-kūpam, um poço escuro no qual o homem acabou por cair. É extremamente difícil que semelhante homem consiga escapar dessa situação, caso ele não receba a ajuda de uma pessoa forte, o mestre espiritual, que, com sua corda resistente, as instruções espirituais, socorre as pessoas caídas. Uma pessoa caída deve aproveitar-se dessa corda, e, então, o mestre espiritual, ou Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, irão tirá-lo do poço escuro.
Devanagari
कुटुम्बपोषाय वियन्निजायु
र्न बुध्यतेऽर्थं विहतं प्रमत्त: ।
सर्वत्र तापत्रयदु:खितात्मा
निर्विद्यते न स्वकुटुम्बराम: ॥ १४ ॥
र्न बुध्यतेऽर्थं विहतं प्रमत्त: ।
सर्वत्र तापत्रयदु:खितात्मा
निर्विद्यते न स्वकुटुम्बराम: ॥ १४ ॥
Verse text
kuṭumba-poṣāya viyan nijāyur
na budhyate ’rthaṁ vihataṁ pramattaḥ
sarvatra tāpa-traya-duḥkhitātmā
nirvidyate na sva-kuṭumba-rāmaḥ
na budhyate ’rthaṁ vihataṁ pramattaḥ
sarvatra tāpa-traya-duḥkhitātmā
nirvidyate na sva-kuṭumba-rāmaḥ
Synonyms
kuṭumba — dos membros familiares; poṣāya — para a manutenção; viyat — desperdiçando; nija-āyuḥ — sua vida; na — não; budhyate — compreende; artham — o interesse ou propósito da vida; vihatam — inutilizado; pramattaḥ — estando louco, imerso em condições materiais; sarvatra — em toda parte; tāpa-traya — pelas três espécie de condições dolorosas (adhyātmika, adhidaivika eadhibhautika); duḥkhita — sendo acossado; ātmā — ele próprio; nirvidyate — fica arrependido; na — não; sva-kuṭumba-rāmaḥ — desfrutando apenas pelo fato de manter os membros familiares.
Translation
Aquele que está muito apegado não consegue compreender que, na busca de tentar manter sua família, está desperdiçando sua vida valiosa. Ele também deixa de compreender que o propósito da vida humana, uma vida própria para se entender a Verdade Absoluta, está sendo imperceptivelmente inutilizado. Ele, todavia, é muito arguto e está atento a que nem mesmo um único centavo seja dissipado. Assim, embora esteja sempre experimentando os três sofrimentos, uma pessoa apegada e imersa na existência material não desenvolve aversão à vida material.
Purport
SIGNIFICADO—Um tolo não compreende os valores da vida humana, tampouco compreende que está desperdiçando sua vida valiosa apenas para manter os membros de sua família. Talvez ele seja muito hábil em calcular as mínimas perdas monetárias, mas é tão tolo que não sabe quanto dinheiro está perdendo, mesmo que se tomem como referência os padrões materiais. Cāṇakya Paṇḍita explica que nem mesmo com milhões de dólares alguém pode comprar um instante de sua vida. No entanto, um tolo desperdiça a vida tão valiosa sem saber o quanto está perdendo mesmo de acordo com os cálculos monetários. Embora seja muito hábil em calcular os custos e em fazer negócios, o materialista não compreende que, por falta de conhecimento, está dissipando sua valiosa vida. Mesmo que esteja sempre experimentando as três classes de sofrimento, semelhante materialista não tem inteligência o suficiente para encerrar seu modo de vida materialista.
Devanagari
वित्तेषु नित्याभिनिविष्टचेता
विद्वांश्च दोषं परवित्तहर्तु: ।
प्रेत्येह वाथाप्यजितेन्द्रियस्त-
दशान्तकामो हरते कुटुम्बी ॥ १५ ॥
विद्वांश्च दोषं परवित्तहर्तु: ।
प्रेत्येह वाथाप्यजितेन्द्रियस्त-
दशान्तकामो हरते कुटुम्बी ॥ १५ ॥
Verse text
vitteṣu nityābhiniviṣṭa-cetā
vidvāṁś ca doṣaṁ para-vitta-hartuḥ
pretyeha vāthāpy ajitendriyas tad
aśānta-kāmo harate kuṭumbī
vidvāṁś ca doṣaṁ para-vitta-hartuḥ
pretyeha vāthāpy ajitendriyas tad
aśānta-kāmo harate kuṭumbī
Synonyms
vitteṣu — na riqueza material; nitya-abhiniviṣṭa-cetāḥ — cuja mente está sempre absorta; vidvān — tendo aprendido; ca — também; doṣam — o erro; para-vitta-hartuḥ — daquele que rouba o dinheiro alheio, enganando ou fazendo transações no mercado negro; pretya — após morrer; iha — neste mundo material; vā — ou; athāpi — mesmo assim; ajita-indriyaḥ — porque é incapaz de controlar os sentidos; tat — aquele; aśānta-kāmaḥ — cujos desejos são insaciáveis; harate — rouba; kuṭumbī — muito apegado à sua família.
Translation
Se alguém muito apegado aos deveres de manter sua família for incapaz de controlar os sentidos, o âmago de seu coração ficará absorto em acumular dinheiro. Embora ele saiba que quem se apossa dos bens alheios será punido pelas leis do governo e, depois da morte, pelas leis de Yamarāja, ele continua enganando os outros para conseguir dinheiro.
Purport
SIGNIFICADO—Especialmente nos dias de hoje, as pessoas não acreditam que exista vida após a morte, tribunal de Yamarāja ou que os pecaminosos sofrem várias punições. Porém, deve-se pelo menos saber que aqueles que enganam os outros para conseguir dinheiro serão punidos pelas leis do governo. No entanto, as pessoas não se importam com as leis desta vida ou com aquelas que governam a próxima. Por mais que alguém tenha conhecimento, se for incapaz de controlar seus sentidos, não será capaz de descontinuar suas atividades pecaminosas.
Devanagari
विद्वानपीत्थं दनुजा: कुटुम्बं
पुष्णन्स्वलोकाय न कल्पते वै ।
य: स्वीयपारक्यविभिन्नभाव-
स्तम: प्रपद्येत यथा विमूढ: ॥ १६ ॥
पुष्णन्स्वलोकाय न कल्पते वै ।
य: स्वीयपारक्यविभिन्नभाव-
स्तम: प्रपद्येत यथा विमूढ: ॥ १६ ॥
Verse text
vidvān apītthaṁ danujāḥ kuṭumbaṁ
puṣṇan sva-lokāya na kalpate vai
yaḥ svīya-pārakya-vibhinna-bhāvas
tamaḥ prapadyeta yathā vimūḍhaḥ
puṣṇan sva-lokāya na kalpate vai
yaḥ svīya-pārakya-vibhinna-bhāvas
tamaḥ prapadyeta yathā vimūḍhaḥ
Synonyms
vidvān — sabendo (a inconveniência da existência material, especialmente na vida de casado); api — embora; ittham — assim; danujāḥ — ó filhos dos demônios; kuṭumbam — os membros familiares ou os membros de uma família amplificada (como a comunidade, sociedade, nação ou união de nações); puṣṇan — provendo todos os artigos de primeira necessidade; sva-lokāya — de compreender a si próprio; na — não; kalpate — capaz; vai — na verdade; yaḥ — aquele que; svīya — meu próprio; pārakya — alheio; vibhinna — separado; bhāvaḥ — tendo um conceito de vida; tamaḥ — apenas na escuridão; prapadyeta — entra; yathā — assim como; vimūḍhaḥ — uma pessoa sem educação, ou aquele que é como um animal.
Translation
Ó meus amigos, filhos dos demônios! Neste mundo material, mesmo aqueles que aparentemente são avançados em educação têm a propensão a considerar: “Isso é meu, e aquilo é para os outros.” Assim, tal qual gatos e cachorros não educados, eles, estando sob o limitado conceito de vida familiar, estão sempre ocupados em prover suas famílias com os artigos de primeira necessidade. São incapazes de adotar o conhecimento espiritual; em vez disso, ficam confusos e são dominados pela ignorância.
Purport
SIGNIFICADO—Na sociedade humana, existem tentativas para educar o ser humano, mas, na sociedade animal, não existe tal sistema, tampouco podem-se educar os animais. Portanto, os animais e os homens sem inteligência são chamados de vimūḍha, ou ignorantes, confusos, ao passo que a pessoa educada se chama vidvān. Verdadeiro vidvān é aquele que tenta compreender sua própria posição dentro deste mundo material. Por exemplo, quando Sanātana Gosvāmī se submeteu aos pés de lótus de Śrī Caitanya Mahāprabhu, sua primeira pergunta foi ‘ke āmi,’ ‘kene āmāya jāre tāpa-traya’. Em outras palavras, ele queria compreender sua posição constitucional e por que motivo estava experienciando as três classes de sofrimento da existência material. Esse é o processo de educação. Se alguém não pergunta: “Quem sou eu? Qual o objetivo da minha vida?”, mas, em vez disso, segue as mesmas propensões animais existentes nos gatos e cachorros, de que adianta a sua educação? Como discutido no verso anterior, o ser vivo está preso pelas suas atividades fruitivas, exatamente como um bicho-da-seda fica preso em seu próprio casulo. Devido a um forte desejo de desfrutar deste mundo material, é frequente os tolos ficarem aprisionados em seus atos fruitivos (karma). Essas pessoas aprisionadas se envolvem com sociedade, comunidade e nação e desperdiçam seu tempo, nada lhes valendo terem obtido formas humanas. Especialmente nesta era, Kali-yuga, grandes líderes, políticos, filósofos e cientistas estão todos ocupados em atividades tolas, pensando: “Isso é meu, e aquilo é teu.” Os cientistas inventam armas nucleares e colaboram com os grandes líderes para proteger os interesses de sua própria nação ou sociedade. No entanto, afirma-se claramente neste verso que, apesar de seu conhecimento supostamente avançado, eles, na verdade, têm a mesma mentalidade de cães e gatos. Assim como os gatos, os cachorros e outros animais que não conhecem o verdadeiro interesse de sua vida mergulham cada vez mais na ignorância, as pessoas supostamente educadas e que desconhecem seu verdadeiro interesse pessoal ou a verdadeira meta da vida afundam cada vez mais no materialismo. Portanto, Prahlāda Mahārāja aconselha que todos sigam os princípios do varṇāśrama-dharma. Especificamente, deve-se abandonar a vida familiar em dado momento e aceitar a ordem de vida renunciada para cultivar conhecimento espiritual e, então, libertar-se. Os versos seguintes aprofundam essa discussão.
Devanagari
यतो न कश्चित् क्व च कुत्रचिद् वा
दीन: स्वमात्मानमलं समर्थ: ।
विमोचितुं कामदृशां विहार-
क्रीडामृगो यन्निगडो विसर्ग: ॥ १७ ॥
ततो विदूरात् परिहृत्य दैत्या
दैत्येषु सङ्गं विषयात्मकेषु ।
उपेत नारायणमादिदेवं
स मुक्तसङ्गैरिषितोऽपवर्ग: ॥ १८ ॥
दीन: स्वमात्मानमलं समर्थ: ।
विमोचितुं कामदृशां विहार-
क्रीडामृगो यन्निगडो विसर्ग: ॥ १७ ॥
ततो विदूरात् परिहृत्य दैत्या
दैत्येषु सङ्गं विषयात्मकेषु ।
उपेत नारायणमादिदेवं
स मुक्तसङ्गैरिषितोऽपवर्ग: ॥ १८ ॥
Verse text
yato na kaścit kva ca kutracid vā
dīnaḥ svam ātmānam alaṁ samarthaḥ
vimocituṁ kāma-dṛśāṁ vihāra-
krīḍā-mṛgo yan-nigaḍo visargaḥ
dīnaḥ svam ātmānam alaṁ samarthaḥ
vimocituṁ kāma-dṛśāṁ vihāra-
krīḍā-mṛgo yan-nigaḍo visargaḥ
tato vidūrāt parihṛtya daityā
daityeṣu saṅgaṁ viṣayātmakeṣu
upeta nārāyaṇam ādi-devaṁ
sa mukta-saṅgair iṣito ’pavargaḥ
daityeṣu saṅgaṁ viṣayātmakeṣu
upeta nārāyaṇam ādi-devaṁ
sa mukta-saṅgair iṣito ’pavargaḥ
Synonyms
yataḥ — porque; na — jamais; kaścit — ninguém; kva — em lugar algum; ca — também; kutracit — em tempo algum; vā — ou; dīnaḥ — tendo um pobre fundo de conhecimento; svam — próprio; ātmānam — eu; alam — excessivamente; samarthaḥ — capaz; vimocitum — de se libertar; kāma-dṛśām — de mulheres luxuriosas; vihāra — no prazer sexual; krīḍā-mṛgaḥ — um boêmio; yat — em quem; nigaḍaḥ — que é o grilhão do cativeiro material; visargaḥ — as expansões das relações familiares; tataḥ — nessas circunstâncias; vidūrāt — a distância; parihṛtya — abandonando; daityāḥ — ó meus amigos, filhos dos demônios; daityeṣu — entre os demônios; saṅgam — associação; viṣaya-ātma-keṣu — que são muito apegados ao gozo dos sentidos; upeta — todos devem aproximar-se; nārāyaṇam — do Senhor Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus; ādi-devam — a origem de todos os semideuses; saḥ — Ele; mukta-saṅgaiḥ — através da associação de pessoas liberadas; iṣitaḥ — desejado; apavargaḥ — o caminho da liberação.
Translation
Meus queridos amigos, ó filhos dos demônios, é incontestável o fato de que, desconhecendo a Suprema Personalidade de Deus, ninguém, em parte alguma, jamais conseguiu libertar-se do cativeiro material. Ao contrário, aqueles que não conhecem o Senhor são atados pelas leis materiais. De fato, eles se entregam ao gozo dos sentidos e têm as mulheres como objetivo. Na verdade, são verdadeiros brinquedos nas mãos de mulheres atraentes. Vítimas dessa concepção de vida, são rodeados por filhos, netos e bisnetos e, dessa maneira, ficam agrilhoados ao cativeiro material. Aqueles que são muito apegados a essa concepção de vida se chamam demônios. Portanto, embora sejais filhos de demônios, mantende-vos afastados dessas pessoas e refugiai-vos em Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus, a origem de todos os semideuses, porque, para os devotos de Nārāyaṇa, a meta última é se libertar do cativeiro da existência material.
Purport
SIGNIFICADO—Prahlāda Mahārāja defende o ponto de vista filosófico de que se deve abandonar o poço escuro da vida familiar e ir para a floresta a fim de se refugiar nos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus (hitvātma-pātaṁ gṛham andha-kūpaṁ vanaṁ gato yad dharim āśrayeta). Também neste verso, ele enfatiza o mesmo ponto. Na história da sociedade humana, ninguém, em nenhuma época ou lugar, conseguiu libertar-se porque tinha muita afeição e apego à sua família. Mesmo entre aqueles que parecem ter boa instrução, há o mesmo apego familiar. Nem mesmo na velhice ou na invalidez eles são capazes de abandonar o convívio com suas famílias, pois estão apegados ao gozo dos sentidos. Como temos comentado em diversas ocasiões, yan maithunādi-gṛhamedhi-sukhaṁ hi tuccham: os pretensos chefes de famílias estão atraídos apenas pelo gozo sexual. Assim, eles se mantêm acorrentados à vida familiar e, como se não fosse o bastante, querem que seus filhos sejam igualmente acorrentados. Nas mãos das mulheres, vivem exclusivamente para os prazeres e, dessa maneira, descambam rumo às regiões mais escuras da existência material. Adānta-gobhir viśatāṁ tamisraṁ punaḥ punaś carvita-carvaṇānām. Como são incapazes de controlar os sentidos, continuam a vida de mastigar o mastigado e, portanto, descem às regiões materiais mais escuras. Deve-se abandonar a associação com esses demônios e procurar associar-se com os devotos, pois quem adota esse procedimento será capaz de se libertar do cativeiro material.
Devanagari
न ह्यच्युतं प्रीणयतो बह्वायासोऽसुरात्मजा: ।
आत्मत्वात्सर्वभूतानां सिद्धत्वादिह सर्वत: ॥ १९ ॥
आत्मत्वात्सर्वभूतानां सिद्धत्वादिह सर्वत: ॥ १९ ॥
Verse text
na hy acyutaṁ prīṇayato
bahv-āyāso ’surātmajāḥ
ātmatvāt sarva-bhūtānāṁ
siddhatvād iha sarvataḥ
bahv-āyāso ’surātmajāḥ
ātmatvāt sarva-bhūtānāṁ
siddhatvād iha sarvataḥ
Synonyms
na — não; hi — na verdade; acyutam — a Suprema Personalidade de Deus infalível; prīṇayataḥ — satisfazendo; bahu — muito; āyāsaḥ — esforço; asura-ātma-jāḥ — ó filhos de demônios; ātmatvāt — porque está intimamente relacionado como a Superalma; sarva-bhūtānām — de todas as entidades vivas; siddhatvāt — porque está estabelecido; iha — neste mundo; sarvataḥ — em todas as direções, sempre e de todos os pontos de vista.
Translation
Meus queridos filhos de demônios, Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus, é a Superalma original, o pai de todas as entidades vivas. Em consequência disso, seja uma criança, seja um senhor de idade, nada impede a pessoa de satisfazê-lO ou adorá-lO em quaisquer circunstâncias. A relação entre as entidades vivas e a Suprema Personalidade de Deus é sempre um fato, de modo que não há nenhuma dificuldade em satisfazer o Senhor.
Purport
SIGNIFICADO—Alguém talvez pergunte: “Decerto, todos são muito apegados à vida familiar, mas, se a pessoa abandona a vida familiar e se apega ao serviço ao Senhor, terá que se submeter ao mesmo esforço e problemas. Portanto, qual o benefício de se dar ao trabalho de se ocupar a serviço do Senhor?” Essa objeção não é válida. Na Bhagavad-gītā (14.4), o Senhor afirma:
sarva-yoniṣu kaunteya
mūrtayaḥ sambhavanti yāḥ
tāsāṁ brahma mahad yonir
ahaṁ bīja-pradaḥ pitā
mūrtayaḥ sambhavanti yāḥ
tāsāṁ brahma mahad yonir
ahaṁ bīja-pradaḥ pitā
“Ó filho de Kuntī, deve-se compreender que é com o nascimento nesta natureza material que todas as espécies de vida se tornam possíveis, e que Eu sou o pai que dá a semente.” Nārāyaṇa, o Senhor Supremo, é o pai que dá a semente da qual germina cada entidade viva porque as entidades vivas são Suas partes integrantes (mamaivāṁśo... jīva-bhūtaḥ). Assim como não há dificuldade de se estabelecer uma relação íntima entre o pai e o filho, não há dificuldade de se restabelecer a relação íntima e natural existente entre Nārāyaṇa e as entidades vivas. Svalpam apy asya dharmasya trāyate mahato bhayāt: se alguém presta ao menos um pouco de serviço devocional, Nārāyaṇa está sempre disposto a salvá-lo do maior perigo. O exemplo definitivo é Ajāmila. Como realizou muitas atividades pecaminosas, Ajāmila se afastou da Suprema Personalidade de Deus, e Yamarāja o condenou a receber rigorosas punições, mas, como ele cantou o nome de Nārāyaṇa na hora da morte – embora não estivesse chamando por Nārāyaṇa, senão que chamava por seu filho de nome Nārāyaṇa –, ele se salvou das mãos de Yamarāja. Portanto, para satisfazer Nārāyaṇa, não se requer tanto empenho quanto aquele exigido para satisfazer a família, a comunidade e a nação. É notório que importantes líderes políticos foram mortos devido a alguma leve discrepância em seu comportamento. Por conseguinte, satisfazer a sociedade, a família, a comunidade e a nação é algo extremamente difícil. Em contraste, satisfazer Nārāyaṇa não é nada difícil; é facílimo.
É dever de todos reviverem sua relação com Nārāyaṇa. Um pequeno esforço nessa direção tornará exitosa a tentativa, ao passo que ninguém jamais conseguirá satisfazer sua dita família, sociedade e nação, mesmo que a pessoa se esforce a ponto de sacrificar sua vida. Com um simples esforço dedicado ao serviço devocional de śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ, ouvir e cantar o santo nome do Senhor, pode-se obter o sucesso de agradar a Suprema Personalidade de Deus. Portanto, Śrī Caitanya Mahāprabhu concedeu Suas bênçãos dizendo que paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam: “Todas as glórias ao Śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtana!” Quem deseja alcançar o verdadeiro benefício que esta forma humana é capaz de propiciar deve adotar o canto do santo nome do Senhor.
Devanagari
परावरेषु भूतेषु ब्रह्मान्तस्थावरादिषु ।
भौतिकेषु विकारेषु भूतेष्वथ महत्सु च ॥ २० ॥
गुणेषु गुणसाम्ये च गुणव्यतिकरे तथा ।
एक एव परो ह्यात्मा भगवानीश्वरोऽव्यय: ॥ २१ ॥
प्रत्यगात्मस्वरूपेण दृश्यरूपेण च स्वयम् ।
व्याप्यव्यापकनिर्देश्यो ह्यनिर्देश्योऽविकल्पित: ॥ २२ ॥
केवलानुभवानन्दस्वरूप: परमेश्वर: ।
माययान्तर्हितैश्वर्य ईयते गुणसर्गया ॥ २३ ॥
भौतिकेषु विकारेषु भूतेष्वथ महत्सु च ॥ २० ॥
गुणेषु गुणसाम्ये च गुणव्यतिकरे तथा ।
एक एव परो ह्यात्मा भगवानीश्वरोऽव्यय: ॥ २१ ॥
प्रत्यगात्मस्वरूपेण दृश्यरूपेण च स्वयम् ।
व्याप्यव्यापकनिर्देश्यो ह्यनिर्देश्योऽविकल्पित: ॥ २२ ॥
केवलानुभवानन्दस्वरूप: परमेश्वर: ।
माययान्तर्हितैश्वर्य ईयते गुणसर्गया ॥ २३ ॥
Verse text
parāvareṣu bhūteṣu
brahmānta-sthāvarādiṣu
bhautikeṣu vikāreṣu
bhūteṣv atha mahatsu ca
brahmānta-sthāvarādiṣu
bhautikeṣu vikāreṣu
bhūteṣv atha mahatsu ca
guṇeṣu guṇa-sāmye ca
guṇa-vyatikare tathā
eka eva paro hy ātmā
bhagavān īśvaro ’vyayaḥ
guṇa-vyatikare tathā
eka eva paro hy ātmā
bhagavān īśvaro ’vyayaḥ
pratyag-ātma-svarūpeṇa
dṛśya-rūpeṇa ca svayam
vyāpya-vyāpaka-nirdeśyo
hy anirdeśyo ’vikalpitaḥ
dṛśya-rūpeṇa ca svayam
vyāpya-vyāpaka-nirdeśyo
hy anirdeśyo ’vikalpitaḥ
kevalānubhavānanda-
svarūpaḥ parameśvaraḥ
māyayāntarhitaiśvarya
īyate guṇa-sargayā
svarūpaḥ parameśvaraḥ
māyayāntarhitaiśvarya
īyate guṇa-sargayā
Synonyms
para-avareṣu — em condições de vida elevadas ou infernais; bhūteṣu — nos seres vivos; brahma-anta — indo até o senhor Brahmā; sthāvara-ādiṣu — começando com as formas de vida inertes, as árvores e plantas; bhautikeṣu — dos elementos materiais; vikāreṣu — nas transformações; bhūteṣu — nos cinco elementos grosseiros da natureza material; atha — ademais; mahatsu — no mahat-tattva, a totalidade da energia material; ca — também; guṇeṣu — nos modos da natureza material; guṇa-sāmye — em um equilíbrio das qualidades materiais; ca — e; guṇa-vyatikare — na manifestação desequilibrada dos modos da natureza material; tathā — bem como; ekaḥ — um; eva — apenas; paraḥ — transcendental; hi — na verdade; ātmā — a fonte original; bhagavān — a Suprema Personalidade de Deus; īśvaraḥ — o controlador; avyayaḥ — que não Se deteriora; pratyak — interna; ātma-svarūpeṇa — mediante Sua posição original e constitucional como a Superalma; dṛśya-rūpeṇa — através de Suas formas visíveis; ca — também; svayam — pessoalmente; vyāpya — alcançado; vyāpaka — onipenetrante; nirdeśyaḥ — descritível; hi — decerto; anirdeśyaḥ — indescritível (por causa da delicada existência sutil); avikalpitaḥ — sem diferenciação; kevala — somente; anubhava-ānanda-svarūpaḥ — cuja forma é bem-aventurada e plena de conhecimento; parama-īśvaraḥ — a Suprema Personalidade de Deus, o governante supremo; māyayā — por māyā, a energia ilusória; antarhita — coberto; aiśvaryaḥ — cuja opulência ilimitada; īyate — é tomada pela; guṇa-sargayā — interação dos modos da natureza material.
Translation
A Suprema Personalidade de Deus, o controlador supremo, que é infalível e infatigável, está presente nas diversas formas de vida, desde os seres vivos inertes [sthāvara], tais como as plantas, até Brahmā, a principal criatura viva. Ele também Se encontra nas várias categorias de criações materiais e nos elementos materiais, na totalidade da energia material e nos modos da natureza material [sattva-guṇa, rajo-guṇa e tamo-guṇa], bem como na natureza material imanifesta e no falso ego. Embora único, Ele está presente em toda parte e é, também, a Superalma transcendental, a causa de todas as causas, que, no âmago do coração de todas as entidades vivas, testemunha suas ações. É definido como aquele que é alcançado e como a Superalma onipenetrante, mas, na verdade, Ele não pode ser definido. Ele é imutável e indiviso. Ele é simplesmente percebido como o supremo sac-cid-ānanda [eternidade, conhecimento e bem-aventurança]. Estando o ateísta coberto pela cortina da energia externa, parece-lhe que Ele não existe.
Purport
SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus está presente não apenas como a Superalma de todas as entidades vivas; ao mesmo tempo, penetra tudo em toda a criação. Ele existe em todas as circunstâncias e em todos os tempos. Está no coração do senhor Brahmā e também no âmago do coração do porco, do cachorro, das árvores, das plantas e assim por diante. Ele Se faz presente em toda parte. Está não apenas no coração das entidades vivas, mas também nas coisas materiais, inclusive nos átomos, prótons e elétrons, que são pesquisados pelos cientistas materiais.
O Senhor está presente sob três formas – Brahman, Paramātmā e Bhagavān. Porque Se encontra em toda parte, é descrito como sarvaṁ khalv idaṁ brahma. Viṣṇu está acima do aspecto Brahman. A Bhagavad-gītā confirma que Kṛṣṇa, através de Seu aspecto Brahman, é onipenetrante (mayā tatam idaṁ sarvam), mas o Brahman depende de Kṛṣṇa (brahmaṇo hi pratiṣṭhāham). Sem Kṛṣṇa, não existiria Brahman ou Paramātmā. Portanto, Bhagavān, a Suprema Personalidade de Deus, é a compreensão última acerca da Verdade Absoluta. Muito embora Ele esteja presente no âmago do coração de todos como o Paramātmā, Ele é único, quer na forma individual, quer como o Brahman onipenetrante.
Kṛṣṇa é a causa suprema, e os devotos que se renderam à Suprema Personalidade de Deus podem compreendê-lO e sabem que Ele está presente dentro do universo e dentro do átomo (aṇḍāntara-stha-paramāṇu-cayāntara-stham). Essa compreensão é possível apenas para os devotos que se renderam plenamente aos pés de lótus do Senhor; para os outros, não é possível adquiri-la. Na Bhagavad-gītā (7.14), o próprio Senhor confirma isso:
daivī hy eṣā guṇamayī
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
O ser vivo afortunado aceita se render com espírito de devoção. Após vagar por muitas variedades de vida em muitos sistemas planetários, quando alguém recebe a graça de um devoto e passa a compreender realmente a Verdade Absoluta, ele se rende à Suprema Personalidade de Deus, como confirma a Bhagavad-gītā (bahūnāṁ janmanām ante jñānavān māṁ prapadyate).
Os colegas de Prahlāda Mahārāja, que nasceram em famílias de Daityas, pensavam que era extremamente difícil entender o Absoluto. De fato, temos experiência de que muitas e muitas pessoas dizem a mesmíssima coisa. Todavia, essa não é a realidade. O Absoluto, a Suprema Personalidade de Deus, está muito intimamente relacionado com todas as entidades vivas. Logo, para quem entende a filosofia vaiṣṇava, que explica como Ele está presente em toda parte e como atua em toda parte, adorar o Senhor Supremo ou compreendê-lO não será algo difícil de modo algum. No entanto, apenas mediante a associação com os devotos é que alguém pode compreender o Senhor. Por conseguinte, em Seus ensinamentos a Rūpa Gosvāmī, Śrī Caitanya Mahāprabhu disse:
brahmāṇḍa bhramite kona bhāgyavān jīva
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
Nas condições materiais, a entidade viva vagueia através de muitas variedades de vida e de circunstâncias, mas, se ela entrar em contato com um devoto puro e for bastante inteligente para aceitar suas instruções a respeito do processo do serviço devocional, não encontrará dificuldade alguma em entender a Suprema Personalidade de Deus, a origem do Brahman e de Paramātmā. A esse respeito, Śrīla Madhvācārya diz:
antaryāmī pratyag-ātmā
vyāptaḥ kālo hariḥ smṛtaḥ
prakṛtyā tamasāvṛtatvāt
harer aiśvaryaṁ na jñāyate
vyāptaḥ kālo hariḥ smṛtaḥ
prakṛtyā tamasāvṛtatvāt
harer aiśvaryaṁ na jñāyate
Como o antaryāmī, o Senhor está presente no coração de todos e é visível na alma individual coberta pelo corpo. Na verdade, Ele está em toda parte, a cada momento e em todas as condições, mas, como fica coberto pela cortina da energia material, Deus parece não existir do ponto de vista das pessoas comuns.
Devanagari
तस्मात्सर्वेषु भूतेषु दयां कुरुत सौहृदम् ।
भावमासुरमुन्मुच्य यया तुष्यत्यधोक्षज: ॥ २४ ॥
भावमासुरमुन्मुच्य यया तुष्यत्यधोक्षज: ॥ २४ ॥
Verse text
tasmāt sarveṣu bhūteṣu
dayāṁ kuruta sauhṛdam
bhāvam āsuram unmucya
yayā tuṣyaty adhokṣajaḥ
dayāṁ kuruta sauhṛdam
bhāvam āsuram unmucya
yayā tuṣyaty adhokṣajaḥ
Synonyms
tasmāt — portanto; sarveṣu — a todas; bhūteṣu — as entidades vivas; dayām — misericórdia; kuruta — mostrai; sauhṛdam — amizade; bhāvam — a atitude; āsuram — dos demônios (que distinguem entre amigos e inimigos); unmucya — abandonando; yayā — com a qual; tuṣyati — fica satisfeito; adhokṣajaḥ — o Senhor Supremo, que está além da percepção sensorial.
Translation
Portanto, meus queridos amiguinhos nascidos de demônios, por favor, procedei de maneira tal que o Senhor Supremo, que está além da concepção do conhecimento material, fique satisfeito. Abandonai vossa natureza demoníaca e não cultiveis inimizade ou dualidade. Mostrai misericórdia a todas as entidades vivas, iluminando-as no serviço devocional e, dessa maneira, tornando-vos seus benquerentes.
Purport
SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (18.55), o Senhor diz que bhaktyā mām abhijānāti yāvān yaś cāsmi tattvataḥ: “É apenas através do serviço devocional que alguém pode compreender a Suprema Personalidade de Deus como Ele é.” Prahlāda Mahārāja instruiu seus amigos de classe, os filhos de demônios, a que, afinal, aceitassem o processo de serviço devocional e pregassem a todos a ciência da consciência de Kṛṣṇa. Pregação é o melhor serviço ao Senhor. De imediato, o Senhor ficará muitíssimo satisfeito com aquele que se dedica ao serviço de pregar a consciência de Kṛṣṇa. O próprio Senhor confirma isso na Bhagavad-gītā (18.69), na ca tasmān manuṣyeṣu kaścin me priya-kṛttamaḥ: “Neste mundo, não há nenhum servo que Me seja mais querido do que ele, tampouco em algum momento haverá alguém mais querido.” Se alguém é sincero e, mesmo não tendo muita cultura, faz tudo o que pode para difundir a consciência de Kṛṣṇa, pregando as glórias do Senhor e Sua supremacia, ele se tornará o servo mais querido da Suprema Personalidade de Deus. Isso é bhakti. À medida que a pessoa executa este serviço em prol da humanidade e não discrimina entre amigos e inimigos, o Senhor fica satisfeito, e ela cumpre a missão de sua vida. Portanto, Śrī Caitanya Mahāprabhu aconselha todos a se tornarem devotos gurus e pregarem a consciência de Kṛṣṇa (yāre dekha, tāre kaha ‘kṛṣṇa’-upadeśa). Essa é a maneira mais fácil de se compreender a Suprema Personalidade de Deus. Mediante essa pregação, o pregador fica satisfeito, e aqueles para quem ele prega ficam satisfeitos também. Esse é o processo para trazer paz e tranquilidade ao mundo inteiro.
bhoktāraṁ yajña-tapasāṁ
sarva-loka-maheśvaram
suhṛdaṁ sarva-bhūtānāṁ
jñātvā māṁ śāntim ṛcchati
sarva-loka-maheśvaram
suhṛdaṁ sarva-bhūtānāṁ
jñātvā māṁ śāntim ṛcchati
Recomenda-se que todos compreendam essas três fórmulas de conhecimento relativo ao Senhor Supremo – que Ele é o desfrutador supremo, que Ele é o proprietário de tudo e que Ele é o melhor amigo e benquerente de todos. O pregador deve pessoalmente entender essas verdades e pregá-las a todos. Assim, haverá paz e tranquilidade no mundo inteiro.
Neste verso, a palavra sauhṛdam (“amizade”) é muito significativa. De um modo geral, as pessoas ignoram a consciência de Kṛṣṇa, de maneira que, para se tornar o melhor benquerente delas, o pregador deve ensinar-lhes a consciência de Kṛṣṇa indistintamente. Uma vez que Viṣṇu, o Senhor Supremo, está situado no âmago do coração de todos, cada corpo é um templo de Viṣṇu. Ninguém deve deturpar esta compreensão usando-a como pretexto para palavras tais como daridra-nārāyaṇa. Se Nārāyaṇa reside na casa de um daridra, uma pessoa muito pobre, isso não significa que Nārāyaṇa tornou-Se pobre. Ele reside em toda parte – na casa dos pobres e na casa dos ricos –, mas, em todas as circunstâncias, Ele permanece Nārāyaṇa; pensar que Ele Se torna rico ou pobre é uma estimativa material. Ele é sempre ṣaḍ-aiśvarya-pūrṇa, pleno de seis opulências, em todas as circunstâncias.
Devanagari
तुष्टे च तत्र किमलभ्यमनन्त आद्ये
किं तैर्गुणव्यतिकरादिह ये स्वसिद्धा: ।
धर्मादय: किमगुणेन च काङ्क्षितेन
सारं जुषां चरणयोरुपगायतां न: ॥ २५ ॥
किं तैर्गुणव्यतिकरादिह ये स्वसिद्धा: ।
धर्मादय: किमगुणेन च काङ्क्षितेन
सारं जुषां चरणयोरुपगायतां न: ॥ २५ ॥
Verse text
tuṣṭe ca tatra kim alabhyam ananta ādye
kiṁ tair guṇa-vyatikarād iha ye sva-siddhāḥ
dharmādayaḥ kim aguṇena ca kāṅkṣitena
sāraṁ juṣāṁ caraṇayor upagāyatāṁ naḥ
kiṁ tair guṇa-vyatikarād iha ye sva-siddhāḥ
dharmādayaḥ kim aguṇena ca kāṅkṣitena
sāraṁ juṣāṁ caraṇayor upagāyatāṁ naḥ
Synonyms
tuṣṭe — quando satisfeito; ca — também; tatra — isto; kim — o que; alabhyam — inacessível; anante — a Suprema Personalidade de Deus; ādye — a fonte da qual tudo se origina, a causa de todas as causas; kim — qual a necessidade; taiḥ — para eles; guṇa-vyatikarāt — devido às ações dos modos da natureza material; iha — neste mundo; ye — que; sva-siddhāḥ — automaticamente alcançados; dharma-ādayaḥ — os três princípios de avanço material, a saber, religião, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos; kim — qual a necessidade; aguṇena — da liberação no Supremo; ca — e; kāṅkṣitena — desejada; sāram — essência; juṣām — apreciando; caraṇayoḥ — dos dois pés de lótus do Senhor; upagāyatām — que glorificamos as qualidades do Senhor; naḥ — nosso.
Translation
Nada é inacessível aos devotos que satisfazem a Suprema Personalidade de Deus, o qual é a causa de todas as causas e a fonte que origina tudo. O Senhor é o reservatório de qualidades espirituais ilimitadas. Portanto, qual a vantagem de os devotos que são transcendentais aos modos da natureza material seguirem os princípios da religião, do desenvolvimento econômico, do gozo dos sentidos e da liberação, que são automaticamente obtidos sob a influência dos modos da natureza? Nós, devotos, sempre glorificamos os pés de lótus do Senhor e, portanto, nada precisamos pedir em termos de dharma, kāma, artha e mokṣa.
Purport
SIGNIFICADO—Em uma civilização avançada, o povo tem intenso desejo de ser religioso, de estar bem situado no âmbito econômico, de satisfazer os sentidos ao máximo e, enfim, alcançar a liberação. Todavia, essas metas não devem ser promovidas como desejáveis. Para o devoto, na verdade, todas elas estão muito facilmente acessíveis. Bilvamaṅgala Ṭhākura disse: muktiḥ svayaṁ mukulitāñjali sevate ’smān dharmārtha-kāma-gatayaḥ samaya-pratīkṣāḥ. A liberação sempre permanece à porta do devoto, pronta para cumprir suas ordens. O avanço material em religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e liberação simplesmente aguarda para servir o devoto na primeira oportunidade que surgir. O devoto já está na posição transcendental; ele não precisa apresentar outras credenciais para assumir a posição liberada. Como se confirma na Bhagavad-gītā (14.26), sa guṇān samatītyaitān brahma-bhūyāya kalpate: porque está situado na plataforma Brahman, o devoto é transcendental às ações e reações dos três modos da natureza material.
Prahlāda Mahārāja disse que aguṇena ca kāṅkṣitena: se alguém está ocupado no transcendental serviço amoroso aos pés de lótus do Senhor, ele nada precisa em termos de dharma, artha, kāma ou mokṣa. Portanto, no começo da literatura transcendental Śrīmad-Bhāgavatam, afirma-se que dharmaḥ projjhita-kaitavo ’tra. Dharma, artha, kāma e mokṣa são kaitava – metas falsas e desnecessárias. Nirmatsarāṇām, pessoas que são inteiramente transcendentais às atividades materiais separatistas, que não fazem distinção entre “meu” e “teu”, senão que simplesmente se ocupam no serviço devocional ao Senhor, reúnem verdadeiras condições de aceitar o bhāgavata-dharma (dharmān bhagavatān iha). Porque são nirmatsara, pessoas que não invejam ninguém, desejam que os outros se tornem devotos, inclusive seus inimigos. A esse respeito, Śrīla Madhvācārya observa que kāṅkṣate mokṣa-gam api sukhaṁ nākāṅkṣato yathā. Os devotos não desejam felicidade material alguma, nem mesmo a felicidade proveniente da liberação. Essa atitude se chama anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam. Os karmīs desejam a felicidade material, e os jñānīs desejam a liberação, mas o devoto nada deseja; ele fica satisfeito com o simples fato de prestar transcendental serviço amoroso aos pés de lótus do Senhor e glorificá-lO em toda parte pregando, pois essa atividade é sua vida e alma.
Devanagari
धर्मार्थकाम इति योऽभिहितस्त्रिवर्ग
ईक्षा त्रयी नयदमौ विविधा च वार्ता ।
मन्ये तदेतदखिलं निगमस्य सत्यं
स्वात्मार्पणं स्वसुहृद: परमस्य पुंस: ॥ २६ ॥
ईक्षा त्रयी नयदमौ विविधा च वार्ता ।
मन्ये तदेतदखिलं निगमस्य सत्यं
स्वात्मार्पणं स्वसुहृद: परमस्य पुंस: ॥ २६ ॥
Verse text
dharmārtha-kāma iti yo ’bhihitas tri-varga
īkṣā trayī naya-damau vividhā ca vārtā
manye tad etad akhilaṁ nigamasya satyaṁ
svātmārpaṇaṁ sva-suhṛdaḥ paramasya puṁsaḥ
īkṣā trayī naya-damau vividhā ca vārtā
manye tad etad akhilaṁ nigamasya satyaṁ
svātmārpaṇaṁ sva-suhṛdaḥ paramasya puṁsaḥ
Synonyms
dharma — religião; artha — desenvolvimento econômico; kāmaḥ — gozo dos sentidos regulado; iti — assim; yaḥ — os quais; abhihitaḥ — prescritos; tri-vargaḥ — os três caminhos; īkṣā — autorrealização; trayī — as cerimônias ritualísticas védicas; naya — lógica; damau — e a ciência da lei e da ordem; vividhā — muitas variedades de; ca — também; vārtā — deveres ocupacionais, ou meios de subsistência; manye — considero; tat — a eles; etat — esses; akhilam — todos; nigamasya — dos Vedas; satyam — verdade; sva-ātma-arpaṇam — a completa rendição pessoal; sva-suhṛdaḥ — ao amigo supremo; paramasya — a última; puṁsaḥ — personalidade.
Translation
Religião, desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos são atividades que os Vedas descrevem como tri-varga, ou os três caminhos que levam à salvação. Dentro dessas três categorias, estão a educação e a autorrealização, as cerimônias ritualísticas realizadas de acordo com os preceitos védicos, a lógica, a ciência da lei e da ordem, e os vários meios de subsistência. Esses são os assuntos externos contidos no estudo dos Vedas, e, portanto, eu os considero materiais. Todavia, tomo por transcendental a rendição aos pés de lótus do Senhor Viṣṇu.
Purport
SIGNIFICADO—Estas instruções de Prahlāda Mahārāja enfatizam a posição transcendental do serviço devocional. Como é corroborado na Bhagavad-gītā (14.26):
māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
“Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno e não falha em circunstância alguma, transcende de imediato os modos da natureza material e chega, então, ao nível de Brahman.” Quem se ocupa por completo no serviço devocional ao Senhor eleva-se de imediato à posição transcendental, que é a fase brahma-bhūta. Toda educação ou atividade que não esteja na plataforma brahma-bhūta, a plataforma da autorrealização, é considerada material, e Prahlāda Mahārāja diz que coisas materiais não podem ser a Verdade Absoluta, pois a Verdade Absoluta está na plataforma espiritual. O Senhor Kṛṣṇa também confirma isso na Bhagavad-gītā (2.45), onde Ele diz que traiguṇya-viṣayā vedā nistraiguṇyo bhavārjuna: “Os Vedas tratam principalmente do tema dos três modos da natureza material. Coloca-te acima desses modos, ó Arjuna. Sê transcendental a todos eles.” As atividades na plataforma material, mesmo que sancionadas pelos Vedas, não são a meta última da vida. Quem atinge essa meta permanece na plataforma espiritual, plenamente rendido ao parama-puruṣa, a pessoa suprema. Esse é o objetivo da missão humana. Em resumo, não se devem descartar as cerimônias ritualísticas e os preceitos védicos; eles são os meios para alguém se promover à plataforma espiritual. Contudo, se ele não alcança a plataforma espiritual, as cerimônias védicas são uma mera perda de tempo. O Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.8) confirma isso:
dharmaḥ svanuṣṭhitaḥ puṁsāṁ
viṣvaksena-kathāsu yaḥ
notpādayed yadi ratiṁ
śrama eva hi kevalam
viṣvaksena-kathāsu yaḥ
notpādayed yadi ratiṁ
śrama eva hi kevalam
“Os deveres [dharma] executadas por um homem de acordo com sua própria posição não passam de esforços inúteis se não provocam atração pela mensagem do Senhor Supremo.” Se alguém é muito estrito em executar os vários deveres da religião, mas, por fim, não chega à plataforma de rendição ao Senhor Supremo, os métodos através dos quais ele tenta alcançar a salvação ou elevação são uma simples perda de tempo e energia.
Devanagari
ज्ञानं तदेतदमलं दुरवापमाह
नारायणो नरसख: किल नारदाय ।
एकान्तिनां भगवतस्तदकिञ्चनानां
पादारविन्दरजसाप्लुतदेहिनां स्यात् ॥ २७ ॥
नारायणो नरसख: किल नारदाय ।
एकान्तिनां भगवतस्तदकिञ्चनानां
पादारविन्दरजसाप्लुतदेहिनां स्यात् ॥ २७ ॥
Verse text
jñānaṁ tad etad amalaṁ duravāpam āha
nārāyaṇo nara-sakhaḥ kila nāradāya
ekāntināṁ bhagavatas tad akiñcanānāṁ
pādāravinda-rajasāpluta-dehināṁ syāt
nārāyaṇo nara-sakhaḥ kila nāradāya
ekāntināṁ bhagavatas tad akiñcanānāṁ
pādāravinda-rajasāpluta-dehināṁ syāt
Synonyms
jñānam — conhecimento; tat — este; etat — isto; amalam — sem contaminação material; duravāpam — muito difícil de se entender (sem a misericórdia do devoto); āha — explicou; nārāyaṇaḥ — Senhor Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus; nara-sakhaḥ — o amigo de todas as entidades vivas (especialmente dos seres humanos); kila — decerto; nāradāya — ao grande sábio Nārada; ekāntinām — daqueles que se renderam exclusivamente à Suprema Personalidade de Deus; bhagavataḥ — referente à Suprema Personalidade de Deus; tat — este (conhecimento); akiñcanānām — que não arrogam a si o direito de posses materiais; pāda-aravinda — dos pés de lótus do Senhor; rajasā — com a poeira; āpluta — banhados; dehinām — cujos corpos; syāt — é possível.
Translation
Nārāyaṇa, a Suprema Personalidade de Deus, o amigo benquerente de todas as entidades vivas, explicou outrora este conhecimento ao grande sábio Nārada. Quem não receber a misericórdia de uma pessoa santa como Nārada encontrará extrema dificuldade de entender este conhecimento, mas todo aquele que tenha se refugiado na sucessão discipular de Nārada pode compreender este conhecimento confidencial.
Purport
SIGNIFICADO—Aqui se afirma que este conhecimento confidencial é extremamente difícil de ser entendido, mas é fácil de ser compreendido por alguém que se refugia em um devoto puro. Este conhecimento confidencial também é mencionado no final da Bhagavad-gītā, onde o Senhor diz que sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja: “Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim.” Este conhecimento é um segredo extremamente confidencial, mas pode ser compreendido por aquele que se aproxima da Suprema Personalidade de Deus através do agente fidedigno, o mestre espiritual na sucessão discipular oriunda de Nārada. Prahlāda Mahārāja queria incutir nos filhos dos demônios que, embora esse conhecimento fosse acessível apenas a pessoas santas como Nārada, eles não deveriam ficar desapontados, pois quem se refugia em Nārada e relega os professores materiais tem condições de entender esse conhecimento. Essa compreensão independe de ascendência nobre. Na plataforma espiritual, a entidade viva é certamente pura, de modo que qualquer pessoa que, pela graça do mestre espiritual, alcança a plataforma espiritual, também poderá compreender este conhecimento confidencial.
Devanagari
श्रुतमेतन्मया पूर्वं ज्ञानं विज्ञानसंयुतम् ।
धर्मं भागवतं शुद्धं नारदाद्देवदर्शनात् ॥ २८ ॥
धर्मं भागवतं शुद्धं नारदाद्देवदर्शनात् ॥ २८ ॥
Verse text
śrutam etan mayā pūrvaṁ
jñānaṁ vijñāna-saṁyutam
dharmaṁ bhāgavataṁ śuddhaṁ
nāradād deva-darśanāt
jñānaṁ vijñāna-saṁyutam
dharmaṁ bhāgavataṁ śuddhaṁ
nāradād deva-darśanāt
Synonyms
śrutam — ouvido; etat — isto; mayā — por mim; pūrvam — outrora; jñānam — conhecimento confidencial; vijñāna-saṁyutam — combinado com sua aplicação prática; dharmam — religião transcendental; bhāgavatam — em relação com a Suprema Personalidade de Deus; śuddham — que nada tem a ver com as atividades materiais; nāradāt — do grande santo Nārada; deva — o Senhor Supremo; darśanāt — que sempre vê.
Translation
Prahlāda Mahārāja prosseguiu: Recebi este conhecimento do grande santo Nārada Muni, que está sempre ocupado em serviço devocional. Este conhecimento, o qual se chama bhāgavata-dharma, é plenamente científico. Baseia-se na lógica e na filosofia e é livre de toda a contaminação material.
Devanagari
श्रीदैत्यपुत्रा ऊचु:
प्रह्राद त्वं वयं चापि नर्तेऽन्यं विद्महे गुरुम् ।
एताभ्यां गुरुपुत्राभ्यां बालानामपि हीश्वरौ ॥ २९ ॥
बालस्यान्त:पुरस्थस्य महत्सङ्गो दुरन्वय: ।
छिन्धि न: संशयं सौम्य स्याच्चेद्विस्रम्भकारणम् ॥ ३० ॥
प्रह्राद त्वं वयं चापि नर्तेऽन्यं विद्महे गुरुम् ।
एताभ्यां गुरुपुत्राभ्यां बालानामपि हीश्वरौ ॥ २९ ॥
बालस्यान्त:पुरस्थस्य महत्सङ्गो दुरन्वय: ।
छिन्धि न: संशयं सौम्य स्याच्चेद्विस्रम्भकारणम् ॥ ३० ॥
Verse text
śrī-daitya-putrā ūcuḥ
prahrāda tvaṁ vayaṁ cāpi
narte ’nyaṁ vidmahe gurum
etābhyāṁ guru-putrābhyāṁ
bālānām api hīśvarau
prahrāda tvaṁ vayaṁ cāpi
narte ’nyaṁ vidmahe gurum
etābhyāṁ guru-putrābhyāṁ
bālānām api hīśvarau
bālasyāntaḥpura-sthasya
mahat-saṅgo duranvayaḥ
chindhi naḥ saṁśayaṁ saumya
syāc ced visrambha-kāraṇam
mahat-saṅgo duranvayaḥ
chindhi naḥ saṁśayaṁ saumya
syāc ced visrambha-kāraṇam
Synonyms
śrī-daitya-putrāḥ ūcuḥ — os filhos dos demônios disseram; prahrāda — ó querido amigo Prahlāda; tvam — tu; vayam — nós; ca — e; api — também; na — não; ṛte — exceto; anyam — nenhum outro; vidmahe — conhecemos; gurum — mestre espiritual; etābhyām — esses dois; guru-putrābhyām — os filhos de Śukrācārya; bālānām — de criancinhas; api — embora; hi — na verdade; īśvarau — os dois controladores; bālasya — a uma criança; antaḥpura-sthasya — permanecendo confinada na casa ou no palácio; mahat-saṅgaḥ — a associação de uma grande pessoa como Nārada; duranvayaḥ — muito difícil; chindhi — por favor, dissipa; naḥ — nossa; saṁśayam — dúvida; saumya — ó pessoa cortês; syāt — possa haver; cet — se; visrambha-kāraṇam — motivo para se acreditar (em tuas palavras).
Translation
Os filhos dos demônios responderam: Querido Prahlāda, nem tu nem nós conhecemos outro professor ou mestre espiritual além de Ṣaṇḍa e Amarka, os filhos de Śukrācārya. Afinal, somos crianças, e eles, nossos controladores. Especialmente tu, que sempre ficas confinado no palácio, é muito difícil que te associes com uma grande personalidade. Querido amigo, ó pessoa cortês, explica-nos, por favor, como te foi possível ouvir Nārada? Faze a gentileza de dissipar as dúvidas que temos no tocante a este ponto.
Purport
Neste ponto, encerram-se os significados Bhaktivedanta do sétimo canto, sexto capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Prahlāda Instrui Seus Colegas Demoníacos”.