Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
Capítulo Doze
O Nascimento do Imperador Parīkṣit
Devanagari
शौनक उवाच
अश्वत्थाम्नोपसृष्टेन ब्रह्मशीर्ष्णोरुतेजसा ।
उत्तराया हतो गर्भ ईशेनाजीवित: पुन: ॥ १ ॥
अश्वत्थाम्नोपसृष्टेन ब्रह्मशीर्ष्णोरुतेजसा ।
उत्तराया हतो गर्भ ईशेनाजीवित: पुन: ॥ १ ॥
Verse text
śaunaka uvāca
aśvatthāmnopasṛṣṭena
brahma-śīrṣṇoru-tejasā
uttarāyā hato garbha
īśenājīvitaḥ punaḥ
aśvatthāmnopasṛṣṭena
brahma-śīrṣṇoru-tejasā
uttarāyā hato garbha
īśenājīvitaḥ punaḥ
Synonyms
śaunakaḥ uvāca — o sábio Śaunaka disse; aśvatthāmnā — de Aśvatthāmā (o filho de Droṇa); upasṛṣṭena — pelo lançamento de; brahma-śirṣṇā — a arma invencível, brahmāstra; uru-tejasā — por alta temperatura; uttarāyāḥ — de Uttarā (mãe de Parīkṣit); hataḥ — sendo arruinado; garbhaḥ — ventre; īśena — pelo Senhor Supremo; ājīvitaḥ — ressuscitado; punaḥ — novamente.
Translation
O sábio Śaunaka disse: O ventre de Uttarā, mãe de Mahārāja Parīkṣit, foi arruinado pela medonha e invencível arma brahmāstra lançada por Aśvatthāmā. Todavia, Mahārāja Parīkṣit foi salvo pelo Senhor Supremo.
Purport
SIGNIFICADO—Os sábios reunidos na floresta de Naimiṣāraṇya perguntaram a Sūta Gosvāmī sobre o nascimento de Mahārāja Parīkṣit, mas, no decorrer da narração, outros tópicos como o lançamento da arma brahmāstra pelo filho de Droṇa, sua punição por parte de Arjuna, as orações da rainha Kuntī, a visita dos Pāṇḍavas ao local onde Bhīṣmadeva estava deitado, suas orações e, depois disso, a partida do Senhor para Dvārakā foram discutidos. Sua chegada a Dvārakā, bem como Sua residência com dezesseis mil rainhas etc., foram narradas. Os sábios estavam absortos em ouvir essas descrições, mas agora eles queriam voltar ao tópico original, de modo que Śaunaka Ṛṣi fez esta pergunta. Assim, retoma-se o tema do lançamento da arma brahmāstra por parte de Aśvatthāmā.
Devanagari
तस्य जन्म महाबुद्धे: कर्माणि च महात्मन: ।
निधनं च यथैवासीत्स प्रेत्य गतवान् यथा ॥ २ ॥
निधनं च यथैवासीत्स प्रेत्य गतवान् यथा ॥ २ ॥
Verse text
tasya janma mahā-buddheḥ
karmāṇi ca mahātmanaḥ
nidhanaṁ ca yathaivāsīt
sa pretya gatavān yathā
karmāṇi ca mahātmanaḥ
nidhanaṁ ca yathaivāsīt
sa pretya gatavān yathā
Synonyms
tasya — seu (de Mahārāja Parīkṣit); janma — nascimento; mahā-buddheḥ — de muita inteligência; karmāṇi — atividades; ca — também; mahā-ātmanaḥ — do grande devoto; nidhanam — falecimento; ca — também; yathā — como foi; eva — é claro; āsīt — aconteceu; saḥ — ele; pretya — destino após a morte; gatavān — alcançou; yathā — por assim dizer.
Translation
Como o grande imperador Parīkṣit, que era muito inteligente e um grande devoto, nasceu naquele ventre? Como sua morte aconteceu, e o que ele alcançou após sua morte?
Purport
SIGNIFICADO—O rei de Hastināpura (hoje Delhi) era imperador do mundo, pelo menos até o tempo do filho do imperador Parīkṣit. Mahārāja Parīkṣit foi salvo pelo Senhor no ventre de sua mãe, de modo que ele certamente pôde ser salvo da morte prematura devido à inimizade do filho de um brāhmaṇa. Porque a era de Kali começou a agir logo após a ascensão de Mahārāja Parīkṣit ao poder, o primeiro sinal das apreensões se manifestou na maldição ao inteligentíssimo e devotado rei Mahārāja Parīkṣit. O rei é o protetor dos cidadãos indefesos, cujos bem-estar, paz e prosperidade dependem dele. Infelizmente, devido à instigação da caída era de Kali, um desventurado filho de brāhmaṇa foi levado a condenar o inocente Mahārāja Parīkṣit, em decorrência do que o rei teve de preparar-se para a morte dentro de sete dias. Mahārāja Parīkṣit é especialmente famoso como aquele que é protegido por Viṣṇu, e, ao ser indevidamente amaldiçoado pelo filho de um brāhmaṇa, ele poderia ter invocado a misericórdia do Senhor para salvá-lo, mas ele não o quis porque era devoto puro. O devoto puro nunca pede ao Senhor nenhum favor indevido. Mahārāja Parīkṣit sabia que a maldição do filho de brāhmaṇa que pesava sobre ele era injusta, como todos os demais sabiam, mas ele não quis neutralizá-la porque também sabia que a era de Kali havia começado e que o primeiro sintoma da era, ou seja, a degradação da talentosíssima comunidade brāhmaṇa, também havia começado. Ele não quis interferir na corrente do tempo, senão que se preparou para enfrentar a morte muito alegre e apropriadamente. Foi tão afortunado que teve pelo menos sete dias para se preparar para o encontro com a morte e, assim, ele utilizou o tempo apropriadamente, na companhia de Śukadeva Gosvāmī, o grande santo e devoto do Senhor.
Devanagari
तदिदं श्रोतुमिच्छामो गदितुं यदि मन्यसे ।
ब्रूहि न: श्रद्दधानानां यस्य ज्ञानमदाच्छुक: ॥ ३ ॥
ब्रूहि न: श्रद्दधानानां यस्य ज्ञानमदाच्छुक: ॥ ३ ॥
Verse text
tad idaṁ śrotum icchāmo
gadituṁ yadi manyase
brūhi naḥ śraddadhānānāṁ
yasya jñānam adāc chukaḥ
gadituṁ yadi manyase
brūhi naḥ śraddadhānānāṁ
yasya jñānam adāc chukaḥ
Synonyms
tat — todos; idam — esse; śrotum — ouvir; icchāmaḥ — todos desejando; gaditum — narrar; yadi — se; manyase — tu pensas; brūhi — fala, por favor; naḥ — nós; śraddadhānānām — que somos muito respeitosos; yasya — cujo; jñānam — conhecimento transcendental; adāt — transmitido; śukaḥ — Śrī Śukadeva Gosvāmī.
Translation
Desejamos todos ouvir respeitosamente sobre ele [Mahārāja Parīkṣit], a quem Śukadeva Gosvāmī transmitiu conhecimento transcendental. Por favor, fala sobre este assunto.
Purport
SIGNIFICADO—Śukadeva Gosvāmī transmitiu conhecimento transcendental a Mahārāja Parīkṣit durante os derradeiros sete dias de sua vida, e Mahārāja Parīkṣit o ouviu adequadamente, assim como um aluno entusiasta. O efeito de tal audição e canto fidedignos do Śrīmad-Bhāgavatam foi igualmente compartilhado tanto pelo ouvinte quanto pelo recitador. Ambos foram beneficiados. Dos nove diferentes meios transcendentais de serviço devocional ao Senhor, prescritos no Bhāgavatam, todos eles, ou alguns deles, ou mesmo um só deles, são igualmente benéficos se executados adequadamente. Mahārāja Parīkṣit e Śukadeva Gosvāmī foram sérios executores dos primeiros e importantes dois itens, a saber, o processo de cantar e o processo de ouvir, de modo que ambos foram bem-sucedidos em seu louvável empenho. A compreensão transcendental é alcançada pela seriedade em ouvir e cantar, e por nenhum outro meio. Há um tipo de mestre espiritual e discípulo muito divulgados nesta era de Kali. Dizem que o mestre injeta força espiritual no discípulo através de uma corrente elétrica gerada pelo mestre, e o discípulo começa a sentir o choque. Ele se torna inconsciente e o mestre pede remuneração pela descarga de seu estoque de assim chamados bens espirituais. A divulgação dessa farsa está acontecendo nesta era, e o pobre homem comum está se tornando vítima dessa propaganda. Não encontramos esses contos folclóricos nas relações entre Śukadeva Gosvāmī e seu grande discípulo Mahārāja Parīkṣit. O sábio recitou o Śrīmad-Bhāgavatam com devoção, e o grande rei o ouviu adequadamente. O rei não sentiu nenhum choque de corrente elétrica do mestre, nem ficou inconsciente enquanto recebia o conhecimento do mestre. Ninguém deve, portanto, deixar-se vitimar por essas propagandas desautorizadas feitas por certos falsos representantes do conhecimento védico. Os sábios de Naimiṣāraṇya eram muito respeitosos em ouvir sobre Mahārāja Parīkṣit por ele ter recebido conhecimento de Śukadeva Gosvāmī, por meio do ouvir fervoroso. Ouvir com fervor o mestre espiritual fidedigno é o único caminho para se receber o conhecimento transcendental, e não há necessidade de façanhas médicas ou misticismo oculto para obtenção de efeitos miraculosos. O processo é simples, mas apenas o participante sincero pode alcançar o resultado desejado.
Devanagari
सूत उवाच
अपीपलद्धर्मराज: पितृवद् रञ्जयन् प्रजा: ।
नि:स्पृह: सर्वकामेभ्य: कृष्णपादानुसेवया ॥ ४ ॥
अपीपलद्धर्मराज: पितृवद् रञ्जयन् प्रजा: ।
नि:स्पृह: सर्वकामेभ्य: कृष्णपादानुसेवया ॥ ४ ॥
Verse text
sūta uvāca
apīpalad dharma-rājaḥ
pitṛvad rañjayan prajāḥ
niḥspṛhaḥ sarva-kāmebhyaḥ
kṛṣṇa-pādānusevayā
apīpalad dharma-rājaḥ
pitṛvad rañjayan prajāḥ
niḥspṛhaḥ sarva-kāmebhyaḥ
kṛṣṇa-pādānusevayā
Synonyms
sūtaḥ uvāca — Śrī Sūta Gosvāmī disse; apīpalat — administrou prosperidade; dharma-rājaḥ — rei Yudhiṣṭhira; pitṛ-vat — exatamente como o pai dele; rañjayan — satisfazendo; prajāḥ — todos aqueles que nasceram; niḥspṛhaḥ — sem ambição pessoal; sarva — todas; kāmebhyaḥ — de gozo dos sentidos; kṛṣṇa-pāda — os pés de lótus do Senhor Śrī Kṛṣṇa; anusevayā — em virtude de prestar serviço contínuo.
Translation
Śrī Sūta Gosvāmī disse: O imperador Parīkṣit administrou generosamente a todos durante o seu reinado. Ele era exatamente como o pai dele. Não tinha ambição pessoal e estava livre de todas as espécies de gozo dos sentidos por causa de seu contínuo serviço aos pés de lótus do Senhor Śrī Kṛṣṇa.
Purport
SIGNIFICADO—Como se mencionou em nossa introdução, “há necessidade da ciência de Kṛṣṇa na sociedade humana para toda a humanidade sofredora do mundo, e nós simplesmente pedimos às personalidades que lideram todas as nações que adotem a ciência de Kṛṣṇa para seu próprio bem, para o bem da sociedade, e para o bem de todas as pessoas do mundo.” Assim, isso se confirma aqui, através do exemplo de Mahārāja Yudhiṣṭhira, a personalidade da bondade. Na Índia, as pessoas anseiam pelo rāma-rājya porque a Personalidade de Deus foi o rei ideal, e todos os outros reis ou imperadores na Índia controlavam o destino do mundo para a prosperidade de todos os seres vivos que nascessem na Terra. Aqui, a palavra prajāḥ é significativa. O significado etimológico da palavra é “aquilo que nasce”. Na Terra, há muitas espécies de vida, desde os seres aquáticos até os seres humanos perfeitos, e todos são conhecidos como prajās. O senhor Brahmā, o criador deste universo em particular, é conhecido como o prajāpati porque é o avô de todos que nasceram. Desse modo, prajā é usada num sentido mais amplo do que o usado atualmente. O rei representa todos os seres vivos: os seres aquáticos, plantas, árvores, répteis, pássaros, animais e homens. Todos eles são partes integrantes do Senhor Supremo (Bhagavad-gītā 14.4), e o rei, sendo o representante do Senhor Supremo, tem o dever de proteger a todos. Isso não acontece com os presidentes e ditadores do sistema desmoralizado de administração de hoje, onde os animais inferiores não recebem nenhuma proteção, enquanto os animais superiores recebem suposta proteção. Mas essa é uma grande ciência que só pode ser aprendida por alguém que conheça a ciência de Kṛṣṇa. Conhecendo a ciência de Kṛṣṇa, a pessoa pode tornar-se o ser humano mais perfeito do mundo, e, a menos que se tenha conhecimento desta ciência, todas as qualificações e todos os diplomas de doutorado adquiridos através da educação acadêmica são arruinados e inúteis. Mahārāja Yudhiṣṭhira conhecia muito bem essa ciência de Kṛṣṇa, pois aqui se afirma que, pelo contínuo cultivo dessa ciência, ou pelo contínuo serviço devocional ao Senhor Kṛṣṇa, ele adquiriu a qualificação de administrador do estado. Às vezes, o pai é aparentemente cruel com o filho, mas isso não significa que o pai perdeu sua qualificação de pai. O pai é sempre pai, porque ele sempre deseja de coração o bem do filho. O pai quer que todos os seus filhos se tornem homens melhores do que ele mesmo. Portanto, um rei como Mahārāja Yudhiṣṭhira, que era a personalidade da bondade, queria que todos sob sua administração, especialmente os seres humanos que têm consciência mais bem desenvolvida, se tornassem devotos do Senhor Kṛṣṇa para que todos pudessem livrar-se da mesquinhez da existência material. Seu lema de administração era “todo o bem para os cidadãos”, pois, como a bondade personificada, ele sabia perfeitamente bem o que é de fato bom para eles. Ele conduzia a administração com base nesse princípio, e não no princípio rākṣasi, demoníaco, do gozo dos sentidos. Como rei ideal, ele não tinha ambição pessoal, e não havia lugar para o gozo dos sentidos porque todos os seus sentidos estavam ocupados a cada momento no serviço amoroso ao Senhor Supremo, que inclui o serviço parcial aos seres vivos, que formam as partes integrantes do todo completo. Aqueles que se ocupam em prestar serviço às partes integrantes, deixando de lado o todo, apenas desperdiçam tempo e energia, assim como o faz alguém ao regar as folhas de uma árvore sem regar a raiz. Se vertemos água na raiz, as folhas se vivificam perfeita e automaticamente, mas, se a água é vertida somente nas folhas, toda a energia se desperdiça. Mahārāja Yudhiṣṭhira, portanto, estava constantemente ocupado no serviço ao Senhor, e, assim, as partes integrantes do Senhor, os seres vivos sob sua cuidadosa administração, eram perfeitamente auxiliadas com todo o conforto nesta vida e com todo o progresso na próxima. Assim funciona o sistema perfeito da administração do estado.
Devanagari
सम्पद: क्रतवो लोका महिषी भ्रातरो मही ।
जम्बूद्वीपाधिपत्यं च यशश्च त्रिदिवं गतम् ॥ ५ ॥
जम्बूद्वीपाधिपत्यं च यशश्च त्रिदिवं गतम् ॥ ५ ॥
Verse text
sampadaḥ kratavo lokā
mahiṣī bhrātaro mahī
jambudvīpādhipatyaṁ ca
yaśaś ca tri-divaṁ gatam
mahiṣī bhrātaro mahī
jambudvīpādhipatyaṁ ca
yaśaś ca tri-divaṁ gatam
Synonyms
Translation
Até mesmo aos planetas celestiais chegaram as notícias sobre as posses mundanas de Mahārāja Yudhiṣṭhira, os sacrifícios pelos quais ele alcançaria um destino melhor, sua rainha, seus irmãos vigorosos, seu extenso território, sua soberania sobre o planeta Terra, sua fama e assim por diante.
Purport
SIGNIFICADO—Somente o nome e a fama de um homem grandioso e rico são conhecidos por todo o mundo, e o nome e a fama de Mahārāja Yudhiṣṭhira alcançaram os planetas superiores por causa de sua boa administração, posses mundanas, sua gloriosa esposa Draupadī, a força de seus irmãos Bhīma e Arjuna e seu sólido poder soberano sobre o mundo, conhecido como Jambudvīpa. Aqui, a palavra lokāḥ é significativa. Há diferentes lokas, ou planetas superiores, espalhados por todo o céu, tanto material quanto espiritual. Uma pessoa pode alcançá-los em virtude de seu trabalho na vida atual, como se afirma na Bhagavad-gītā (9.25). Nenhuma entrada forçada é permitida ali. Os mesquinhos cientistas e engenheiros materiais que têm descoberto veículos para viajar por alguns milhares de quilômetros no espaço exterior não terão entrada permitida ali. Esse não é o modo de se alcançarem planetas melhores. A pessoa deve qualificar-se para entrar em tais planetas felizes através do sacrifício e do serviço. Aqueles que são pecaminosos a cada passo da vida podem esperar apenas serem degradados à vida animal para sofrer cada vez mais as dores da existência material, o que também afirma a Bhagavad-gītā (16.19). Os bons sacrifícios e as qualificações de Mahārāja Yudhiṣṭhira eram tão majestosos e virtuosos que mesmo os residentes dos planetas celestiais superiores já estavam preparados para o receber como um deles.
Devanagari
किं ते कामा: सुरस्पार्हा मुकुन्दमनसो द्विजा: ।
अधिजह्रुर्मुदं राज्ञ: क्षुधितस्य यथेतरे ॥ ६ ॥
अधिजह्रुर्मुदं राज्ञ: क्षुधितस्य यथेतरे ॥ ६ ॥
Verse text
kiṁ te kāmāḥ sura-spārhā
mukunda-manaso dvijāḥ
adhijahrur mudaṁ rājñaḥ
kṣudhitasya yathetare
mukunda-manaso dvijāḥ
adhijahrur mudaṁ rājñaḥ
kṣudhitasya yathetare
Synonyms
kim — para que; te — todos aqueles; kāmāḥ — objetos de gozo dos sentidos; sura — dos cidadãos do céu; spārhāḥ — aspirações; mukunda-manasaḥ — daquele que já é consciente de Deus; dvijāḥ — ó brāhmaṇas; adhijahruḥ — podia satisfazer; mudam — prazer; rājñaḥ — do rei; kṣudhitasya — do faminto; yathā — como é; itare — em outras coisas.
Translation
Ó brāhmaṇas, a opulência do rei era tão deslumbrante que os cidadãos do céu aspiravam por ela. No entanto, porque ele estava absorto no serviço ao Senhor, nada podia satisfazê-lo exceto o serviço ao Senhor.
Purport
SIGNIFICADO—Há duas coisas no mundo que podem satisfazer os seres vivos. Quando a pessoa é materialmente absorta, ela se satisfaz apenas com o gozo dos sentidos, mas, quando ela é liberada das condições dos modos materiais, ela se satisfaz somente prestando serviço amoroso para a satisfação do Senhor. Isso significa que o ser vivo é, constitucionalmente, um servidor, e não aquele que é servido. Estando iludida pelas condições da energia externa, a pessoa pensa falsamente que é servida, mas, na verdade, ela não é servida; ela é o servo dos sentidos, como a luxúria, o desejo, a ira, a avareza, o orgulho, a loucura e a intolerância. Quando o sujeito retorna à razão, pela aquisição de conhecimento espiritual, compreende que não é o senhor do mundo material, mas é apenas servo dos sentidos. Nesse momento, ele implora para servir ao Senhor e, assim, torna-se feliz, e não se deixa iludir pela assim chamada felicidade material. Mahārāja Yudhiṣṭhira era uma das almas liberadas, de modo que, para ele, não constituía prazer um vasto reino, uma boa esposa, irmãos obedientes, súditos felizes e mundo próspero. Essas bênçãos seguem automaticamente um devoto puro, mesmo que o devoto não aspire a elas. O exemplo aqui estabelecido é perfeitamente adequado. Está dito que aquele que está com fome jamais se satisfaz com outra coisa que não seja comida.
Todo o mundo material está cheio de seres vivos famintos. A fome não é de boa comida, abrigo ou gozo dos sentidos. A fome é de atmosfera espiritual. Unicamente devido à ignorância, eles pensam que o mundo está insatisfeito, pois não há comida, abrigo, defesa e objetos de gozo dos sentidos o suficiente. Isso se chama ilusão. Enquanto o ser vivo está faminto de satisfação espiritual, ele é erradamente representado como materialmente faminto. Mas os líderes tolos não podem ver que mesmo as pessoas que estão materialmente satisfeitas com mais suntuosidade ainda estão famintas. E qual é sua fome ou pobreza? Essa fome é, verdadeiramente, de alimento espiritual, abrigo espiritual, defesa espiritual e deleite espiritual dos sentidos. Podem-se obter essas coisas na associação com o Espírito Supremo, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, e, por isso, aquele que as tem não consegue se atrair pelos assim chamados alimento, abrigo, defesa e gozo dos sentidos do mundo material, mesmo que sejam saboreados pelos cidadãos dos planetas celestiais. Portanto, na Bhagavad-gītā (8.16), o Senhor diz que mesmo no planeta mais elevado do universo, a saber, Brahmaloka, onde a duração da vida é multiplicada por milhões de anos de acordo com os cálculos da Terra, não podemos satisfazer nossa fome. Essa fome só pode ser satisfeita quando o ser vivo se situa em imortalidade, a qual é alcançada no céu espiritual, muitíssimo acima de Brahmaloka, na companhia do Senhor Mukunda, o Senhor que concede a Seus devotos o prazer transcendental da liberação.
Devanagari
मातुर्गर्भगतो वीर: स तदा भृगुनन्दन ।
ददर्श पुरुषं कञ्चिद्दह्यमानोऽस्त्रतेजसा ॥ ७ ॥
ददर्श पुरुषं कञ्चिद्दह्यमानोऽस्त्रतेजसा ॥ ७ ॥
Verse text
mātur garbha-gato vīraḥ
sa tadā bhṛgu-nandana
dadarśa puruṣaṁ kañcid
dahyamāno ’stra-tejasā
sa tadā bhṛgu-nandana
dadarśa puruṣaṁ kañcid
dahyamāno ’stra-tejasā
Synonyms
mātuḥ — mãe; garbha — ventre; gataḥ — estando situado ali; vīraḥ — o grande lutador; saḥ — o bebê Parīkṣit; tadā — naquele momento; bhṛgu-nandana — ó filho de Bhṛgu; dadarśa — pôde ver; puruṣam — o Senhor Supremo; kañcit — como alguém mais; dahyamānaḥ — sofrendo por estar sendo queimado; astra — o brahmāstra; tejasā — temperatura.
Translation
Ó filho de Bhṛgu [Śaunaka], quando o bebê Parīkṣit, o grande lutador, estava no ventre de sua mãe, Uttarā, e sofria o calor incandescente do brahmāstra [atirado por Aśvatthāmā], ele pôde observar o Senhor Supremo vindo em sua direção.
Purport
SIGNIFICADO—A morte geralmente implica em permanecer em transe por sete meses. Ao ser vivo, de acordo com sua própria ação, se permite entrar no ventre da mãe pelo veículo do sêmen do pai, e, dessa forma, ele desenvolve o corpo desejado. Essa é a lei do nascimento em corpos específicos, de acordo com as próprias ações passadas. Quando acorda do transe, sente a inconveniência de estar confinado dentro do ventre e, desse modo, quer sair dali e, às vezes, afortunadamente, ora ao Senhor por essa liberação. Mahārāja Parīkṣit, quando no ventre de sua mãe, foi atingido pelo brahmāstra lançado por Aśvatthāmā, e estava sentindo o calor escaldante. Contudo, porque era um devoto do Senhor, o Senhor apareceu de imediato dentro do ventre, através de Sua energia todo-poderosa, e a criança pôde ver que alguém tinha vindo para salvá-la. Mesmo naquela condição desamparada, o bebê Parīkṣit aguentou a insuportável temperatura do brahmāstra por ser, por natureza, um grande lutador. Essa é, portanto, a razão de se usar a palavra vīraḥ.
Devanagari
अङ्गुष्ठमात्रममलं स्फुरत्पुरटमौलिनम् ।
अपीव्यदर्शनं श्यामं तडिद्वाससमच्युतम् ॥ ८ ॥
अपीव्यदर्शनं श्यामं तडिद्वाससमच्युतम् ॥ ८ ॥
Verse text
aṅguṣṭha-mātram amalaṁ
sphurat-puraṭa-maulinam
apīvya-darśanaṁ śyāmaṁ
taḍid vāsasam acyutam
sphurat-puraṭa-maulinam
apīvya-darśanaṁ śyāmaṁ
taḍid vāsasam acyutam
Synonyms
Translation
Ele [o Senhor] tinha a altura de apenas um polegar, mas era completamente transcendental. Tinha um corpo muito belo, enegrecido e infalível, vestia uma roupa cintilante e amarela, e tinha um elmo de ouro fulgurante. A criança O viu dessa maneira.
Devanagari
श्रीमद्दीर्घचतुर्बाहुं तप्तकाञ्चनकुण्डलम् ।
क्षतजाक्षं गदापाणिमात्मन: सर्वतोदिशम् ।
परिभ्रमन्तमुल्काभां भ्रामयन्तं गदां मुहु: ॥ ९ ॥
क्षतजाक्षं गदापाणिमात्मन: सर्वतोदिशम् ।
परिभ्रमन्तमुल्काभां भ्रामयन्तं गदां मुहु: ॥ ९ ॥
Verse text
śrīmad-dīrgha-catur-bāhuṁ
tapta-kāñcana-kuṇḍalam
kṣatajākṣaṁ gadā-pāṇim
ātmanaḥ sarvato diśam
paribhramantam ulkābhāṁ
bhrāmayantaṁ gadāṁ muhuḥ
tapta-kāñcana-kuṇḍalam
kṣatajākṣaṁ gadā-pāṇim
ātmanaḥ sarvato diśam
paribhramantam ulkābhāṁ
bhrāmayantaṁ gadāṁ muhuḥ
Synonyms
śrīmat — enriquecido; dīrgha — prolongados; catuḥ-bāhum — de quatro braços; tapta-kāñcana — ouro fundido; kuṇḍalam — brincos; kṣataja-akṣam — olhos com a vermelhidão do sangue; gadā-pāṇim — brandindo uma maça; ātmanaḥ — própria; sarvataḥ — todas; diśam — em volta; paribhramantam — vagando; ulkābhām — como estrelas cadentes; bhrāmayantam — circundando; gadām — a maça; muhuḥ — constantemente.
Translation
O Senhor estava enriquecido com quatro braços, brincos de ouro fundido e olhos vermelhos ardendo em fúria. Conforme Ele caminhava, Sua maça constantemente circundava-O, como uma estrela cadente.
Purport
SIGNIFICADO—Na Brahma-saṁhitā (capítulo 5), afirma-se que o Supremo Senhor Govinda, através de uma porção plenária Sua, entra no halo do universo e Se distribui como Paramātmā, ou a Superalma, não apenas dentro do coração de cada ser vivo, mas também dentro de todos os átomos dos elementos materiais. Assim, o Senhor é onipenetrante através de Sua potência inconcebível e, desse modo, Ele entrou no ventre de Uttarā para salvar Seu amado devoto Mahārāja Parīkṣit. Na Bhagavad-gītā (9.31), o Senhor garantiu a todos que Seus devotos jamais serão destruídos. Ninguém pode matar um devoto do Senhor, porque ele é protegido pelo Senhor, e ninguém pode salvar uma pessoa que o Senhor queira matar. O Senhor é todo-poderoso e, portanto, Ele tanto pode salvar quanto matar, como Lhe aprouver. Ele Se tornou visível para Seu devoto Mahārāja Parīkṣit mesmo naquela posição incômoda (no ventre de sua mãe) sob uma forma exatamente adequada à sua visão. O Senhor pode tornar-Se maior que milhares de universos e, ao mesmo tempo, pode tornar-Se menor que um átomo. Misericordioso como é, Ele Se adapta perfeitamente à visão do ser vivo limitado. Ele é ilimitado. Ele não é limitado a nenhuma medida de nosso cálculo. Ele pode tornar-Se maior do que aquilo que possamos imaginar, e pode tornar-Se menor que aquilo que possamos conceber. Porém, em todas as circunstâncias, Ele é o mesmo Senhor todo-poderoso. Não há diferença entre o Senhor Viṣṇu do tamanho de um polegar no ventre de Uttarā, e o Nārāyaṇa completo no Vaikuṇṭha-dhāma, o reino de Deus. Ele aceita a forma de arcā-vigraha (Deidade adorável) simplesmente para aceitar serviço de Seus diversos devotos incapazes. Pela misericórdia do arcā-vigraha, a forma do Senhor em elementos materiais, os devotos que estão no mundo material podem facilmente se aproximar do Senhor, embora Ele não seja concebível pelos sentidos materiais. Portanto, o arcā-vigraha é uma forma completamente espiritual do Senhor a ser percebida pelos devotos materiais; esse arcā-vigraha do Senhor jamais deve ser considerado como material. Para o Senhor, não há diferença entre matéria e espírito, embora haja um abismo de diferença entre os dois no caso do ser vivo condicionado. Para o Senhor, não há nada senão existência espiritual, e, de forma similar, não há nada exceto existência espiritual para o devoto puro do Senhor, em sua relação íntima com o Senhor.
Devanagari
अस्त्रतेज: स्वगदया नीहारमिव गोपति: ।
विधमन्तं सन्निकर्षे पर्यैक्षत क इत्यसौ ॥ १० ॥
विधमन्तं सन्निकर्षे पर्यैक्षत क इत्यसौ ॥ १० ॥
Verse text
astra-tejaḥ sva-gadayā
nīhāram iva gopatiḥ
vidhamantaṁ sannikarṣe
paryaikṣata ka ity asau
nīhāram iva gopatiḥ
vidhamantaṁ sannikarṣe
paryaikṣata ka ity asau
Synonyms
astra-tejaḥ — radiação do brahmāstra; sva-gadayā — por meio de Sua própria maça; nīhāram — gotas de orvalho; iva — como; gopatiḥ — o Sol; vidhamantam — o ato de extinguir; sannikarṣe — próximo; paryaikṣata — observando; kaḥ — quem; iti asau — este corpo.
Translation
O Senhor ocupou-Se, assim, em extinguir a radiação do brahmāstra, assim como o sol evapora uma gota de orvalho. A criança O observava e refletia sobre quem seria Ele.
Devanagari
विधूय तदमेयात्मा भगवान्धर्मगुब् विभु: ।
मिषतो दशमासस्य तत्रैवान्तर्दधे हरि: ॥ ११ ॥
मिषतो दशमासस्य तत्रैवान्तर्दधे हरि: ॥ ११ ॥
Verse text
vidhūya tad ameyātmā
bhagavān dharma-gub vibhuḥ
miṣato daśamāsasya
tatraivāntardadhe hariḥ
bhagavān dharma-gub vibhuḥ
miṣato daśamāsasya
tatraivāntardadhe hariḥ
Synonyms
vidhūya — tendo desaparecido por completo; tat — esta; ameyātmā — a Superalma onipenetrante; bhagavān — a Personalidade de Deus; dharma-gup — o protetor dos justos; vibhuḥ — o Supremo; miṣataḥ — enquanto observava; daśamāsasya — daquele que é vestido por todas as direções; tatra eva — sem mais demora; antaḥ — fora de vista; dadhe — tornou-Se; hariḥ — o Senhor.
Translation
Enquanto era assim observado pela criança, o Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, a Superalma de todos e o protetor dos justos, que Se espalha por todas as direções e que não é limitado por tempo e espaço, desapareceu subitamente.
Purport
SIGNIFICADO—O bebê Parīkṣit não estava observando algum ser vivo que fosse limitado por tempo e espaço. Há um abismo de diferença entre o Senhor e o ser vivo individual. Aqui, o Senhor é mencionado como o ser vivo supremo, não limitado por tempo e espaço. Todo ser vivo é limitado por tempo e espaço. Mesmo que um ser vivo seja qualitativamente igual ao Senhor, quantitativamente há uma grande diferença entre a Alma Suprema e a alma individual comum. Na Bhagavad-gītā, declara-se que tanto os seres vivos quanto o Ser Supremo são onipenetrantes (yena sarvam idaṁ tatam), mas há uma diferença entre esses dois tipos de onipenetrância. Um ser vivo ou alma comum pode ser onipenetrante dentro de seu próprio corpo limitado, mas o ser vivo supremo é onipenetrante em todo tempo e em todo espaço. Um ser vivo comum não pode estender sua influência sobre outro ser vivo comum através de sua onipenetrância, mas a Suprema Superalma, a Personalidade de Deus, é ilimitadamente capaz de exercer Sua influência sobre todos os lugares e todos os tempos e sobre todos os seres vivos. E porque é onipenetrante, não limitado pelo tempo e espaço, Ele pode aparecer mesmo dentro do ventre da mãe do bebê Parīkṣit. Aqui, Ele é mencionado como o protetor dos justos. Qualquer pessoa que seja uma alma rendida ao Supremo é justa e é especificamente protegida pelo Senhor, em todas as circunstâncias. O Senhor também é o protetor indireto dos injustos, pois Ele redime seus pecados através de Sua potência externa. Aqui, o Senhor é mencionado como aquele que está vestindo as dez direções. Isso significa vestido com roupas dos dez lados, de cima a baixo. Ele está presente em toda parte e, por Sua vontade, pode aparecer e desaparecer de todo e qualquer lugar. Seu desaparecimento da vista do bebê Parīkṣit não significa que Ele tenha aparecido naquele lugar provindo de outro lugar. Ele estava ali presente e, mesmo após Seu desaparecimento, Ele estava ali, embora invisível aos olhos da criança. Esta cobertura material do firmamento refulgente é algo semelhante ao ventre da mãe natureza, e todos nós somos colocados no ventre pelo Senhor, o pai de todos os seres vivos. Ele está presente em toda parte, mesmo neste ventre material da mãe Durgā, e aqueles que são merecedores podem ver o Senhor.
Devanagari
तत: सर्वगुणोदर्के सानुकूलग्रहोदये ।
जज्ञे वंशधर: पाण्डोर्भूय: पाण्डुरिवौजसा ॥ १२ ॥
जज्ञे वंशधर: पाण्डोर्भूय: पाण्डुरिवौजसा ॥ १२ ॥
Verse text
tataḥ sarva-guṇodarke
sānukūla-grahodaye
jajñe vaṁśa-dharaḥ pāṇḍor
bhūyaḥ pāṇḍur ivaujasā
sānukūla-grahodaye
jajñe vaṁśa-dharaḥ pāṇḍor
bhūyaḥ pāṇḍur ivaujasā
Synonyms
tataḥ — logo após; sarva — todos; guṇa — bons signos; udarke — tendo gradualmente evolvido; sa-anukūla — todos favoráveis; grahodaye — constelação de influência estelar; jajñe — nasceu; vaṁśa-dharaḥ — herdeiro presuntivo; pāṇḍoḥ — de Pāṇḍu; bhūyaḥ — sendo; pāṇḍuḥ iva — exatamente como Pāṇḍu; ojasā — pela coragem.
Translation
Logo após, quando todos os bons signos do zodíaco gradualmente evoluíam, o herdeiro presuntivo de Pāṇḍu, que seria exatamente como ele em coragem, nasceu.
Purport
SIGNIFICADO—Os cálculos astronômicos das influências estelares sobre um ser vivo não são suposições, mas são verdadeiros, como se confirma no Śrīmad-Bhāgavatam. Todo ser vivo é controlado a cada minuto pelas leis da natureza, assim como um cidadão é controlado pela influência do estado. As leis do estado são observadas grosseiramente, mas as leis da natureza material, sendo sutis para nosso entendimento grosseiro, não podem ser experimentadas grosseiramente. Como se afirma na Bhagavad-gītā (3.9), toda ação na vida produz uma outra reação, que passa a nos atar, e somente aqueles que estão agindo em benefício de Yajña (Viṣṇu) não são presos pelas reações. Nossas ações são julgadas pelas autoridades superiores, os agentes do Senhor, e, assim, recebemos corpos de acordo com nossas atividades. A lei da natureza é tão sutil que todas as partes de nosso corpo são influenciadas pelas respectivas estrelas, e um ser vivo obtém seu corpo funcional para cumprir seu período de aprisionamento pela manipulação dessa influência astronômica. O destino de um homem, portanto, verifica-se de acordo com a conjunção de estrelas na hora do nascimento, e um horóscopo verdadeiro é feito por um astrólogo erudito. Essa é uma grande ciência, e o mau uso dessa ciência não a torna inútil. Mahārāja Parīkṣit, ou mesmo a Personalidade de Deus, aparecem em determinadas conjunções de boas estrelas, e, desse modo, a influência é exercida sobre o corpo assim nascido num momento auspicioso. A mais auspiciosa conjunção de estrelas ocorre durante o aparecimento do Senhor neste mundo material, e é especificamente chamada de jayantī, uma palavra da qual não se deve abusar usando para outros propósitos. Mahārāja Parīkṣit era não somente um grande imperador kṣatriya, mas também um grande devoto do Senhor. Assim, ele não poderia nascer num momento inauspicioso. Assim como um lugar e tempo apropriados são selecionados para receber uma personalidade respeitável, da mesma forma, para receber uma personalidade como Mahārāja Parīkṣit, que fora protegido especialmente pelo Senhor Supremo, escolhe-se um momento adequado, quando todas as boas estrelas se reúnem para exercer sua influência sobre o rei. Assim, ele nasceu apenas para ser conhecido como o grande herói do Śrīmad-Bhāgavatam. Esse arranjo adequado de influências astrais não é, de modo algum, criação da vontade do homem, mas é o arranjo da administração superior dos agentes do Senhor Supremo. É claro que o arranjo se faz de acordo com as boas ou más ações do ser vivo. Nisso se baseia a importância dos atos piedosos executados pelo ser vivo. Unicamente através de atos piedosos uma pessoa pode ter permissão de obter boa riqueza, boa educação e belos aspectos. Os saṁskāras da escola do sanātana-dharma (a ocupação eterna do homem) são altamente adequados para criar uma atmosfera propícia às boas influências estelares, e, portanto, o garbhādhāna-saṁskāra, ou o primeiro processo purificatório de fecundação prescrito para as castas superiores, é o começo de todos os atos piedosos destinados a obter uma classe de homens na sociedade humana que seja boa, piedosa e inteligente. Haverá paz e prosperidade no mundo unicamente em virtude de população boa e sadia; há inferno e distúrbios unicamente por causa da população indesejada e insana que é entregue ao gozo sexual.
Devanagari
तस्य प्रीतमना राजा विप्रैर्धौम्यकृपादिभि: ।
जातकं कारयामास वाचयित्वा च मङ्गलम् ॥ १३ ॥
जातकं कारयामास वाचयित्वा च मङ्गलम् ॥ १३ ॥
Verse text
tasya prīta-manā rājā
viprair dhaumya-kṛpādibhiḥ
jātakaṁ kārayām āsa
vācayitvā ca maṅgalam
viprair dhaumya-kṛpādibhiḥ
jātakaṁ kārayām āsa
vācayitvā ca maṅgalam
Synonyms
tasya — seu; prīta-manāḥ — satisfeito; rājā — rei Yudhiṣṭhira; vipraiḥ — pelos brāhmaṇas eruditos; dhaumya — Dhaumya; kṛpa — Kṛpa; ādibhiḥ — e outros também; jātakam — um dos processos purificatórios executados logo após o nascimento de uma criança; kārayām āsa — providenciou, então, a execução; vācayitvā — pela recitação; ca — também; maṅgalam — auspiciosos.
Translation
O rei Yudhiṣṭhira, que estava muito satisfeito com o nascimento de Mahārāja Parīkṣit, providenciou a execução do processo purificatório de nascimento. Brāhmaṇas eruditos, encabeçados por Dhaumya e Kṛpa, recitaram hinos auspiciosos.
Purport
SIGNIFICADO—Há necessidade de uma classe de brāhmaṇas boa e inteligente e que seja perita em executar os processos purificatórios prescritos no sistema de varṇāśrama-dharma. A menos que esses processos purificatórios aconteçam, não há possibilidade de boa população, e, na era de Kali, a população de todo o mundo é de qualidade śūdra, ou inferior, por falta desses processos purificatórios. Não é possível, contudo, reviver o processo purificatório védico nesta era, por falta de facilidades adequadas e bons brāhmaṇas, mas há o sistema Pāñcarātrika, também recomendado para esta era. O sistema Pāñcarātrika atua na classe śūdra de homens, supostamente a população da Kali-yuga, e é o processo purificatório prescrito como adequado para esta era e este momento. Tal processo purificatório é permitido apenas para elevação espiritual, e não para qualquer outro propósito. A elevação espiritual nunca se condiciona, de modo algum, a parentesco superior ou inferior.
Após o processo purificatório garbhādhāna, há certos outros saṁskāras, tais como o sīmāntonnayana, o sadha-bhakṣaṇam etc., durante o período da gravidez, e, quando a criança nasce, o primeiro processo purificatório é o jāta-karma. Esse último foi devidamente executado por Mahārāja Yudhiṣṭhira, com a ajuda de brāhmaṇas bondosos e eruditos, como Dhaumya, o sacerdote real, e Kṛpācārya, que era não apenas um sacerdote, mas também um grande general. Esses sacerdotes eruditos e perfeitos, ambos assistidos por outros bons brāhmaṇas, foram empregados por Mahārāja Yudhiṣṭhira para executar a cerimônia. Portanto, todos os saṁskāras, processos purificatórios, não são meras formalidades ou apenas funções sociais, mas todos servem a fins práticos e podem ser executados com sucesso por brāhmaṇas peritos como Dhaumya e Kṛpa. Tais brāhmaṇas não são apenas raros, mas também indisponíveis nesta era, de modo que, com o propósito de trazer elevação espiritual nesta era caída, os Gosvāmīs preferem os processos purificatórios sob as fórmulas do Pāñcarātrika do que dos ritos védicos.
Kṛpācārya é o filho do grande ṛṣi Sardban e nasceu na família de Gautama. Dizem que esse nascimento foi acidental. Por acaso, o grande ṛṣi encontrou Janapadī, uma famosa moça da sociedade celestial, e o ṛṣi Sardban ejaculou sêmen em duas partes. De uma parte, nasceu imediatamente um menino, e, da outra, nasceu uma menina, formando um casal de gêmeos. O menino, mais tarde, ficou conhecido como Kṛpa, e a menina ficou conhecida como Kṛpī. Mahārāja Śantanu, enquanto ocupado em caçar na floresta, apanhou as crianças e as elevou ao status bramânico pelo processo purificatório adequado. Mais tarde, Kṛpācārya se tornou um grande general, como Droṇācārya, e sua irmã se casou com Droṇācārya. Mais tarde, Kṛpācārya participou da Batalha de Kurukṣetra e se uniu ao grupo de Duryodhana. Kṛpācārya ajudou a matar Abhimanyu, o pai de Mahārāja Parīkṣit, mas, ainda assim, era estimado pela família dos Pāṇḍavas devido a ser um brāhmaṇa tão grandioso como Droṇācārya. Quando os Pāṇḍavas foram enviados para a floresta após terem sido derrotados na disputa de um jogo com Duryodhana, Dhṛtarāṣṭra confiou os Pāṇḍavas a Kṛpācārya, que os conduziria. Após o fim da batalha, Kṛpācārya se tornou novamente um membro da assembleia real, e foi chamado durante o nascimento de Mahārāja Parīkṣit para a recitação dos auspiciosos hinos védicos, para fazer da cerimônia um sucesso. Mahārāja Yudhiṣṭhira, enquanto deixava o palácio para sua grande partida rumo aos Himālayas, confiou Mahārāja Parīkṣit como discípulo de Kṛpācārya, e deixou o lar satisfeito pelo fato de Kṛpācārya estar encarregado de Mahārāja Parīkṣit. Os grandes administradores, reis e imperadores estavam sempre sob a orientação de brāhmaṇas eruditos como Kṛpācārya e, dessa forma, eram capazes de agir corretamente no desempenho das responsabilidades políticas.
Devanagari
हिरण्यं गां महीं ग्रामान् हस्त्यश्वान्नृपतिर्वरान् ।
प्रादात्स्वन्नं च विप्रेभ्य: प्रजातीर्थे स तीर्थवित् ॥ १४ ॥
प्रादात्स्वन्नं च विप्रेभ्य: प्रजातीर्थे स तीर्थवित् ॥ १४ ॥
Verse text
hiraṇyaṁ gāṁ mahīṁ grāmān
hasty-aśvān nṛpatir varān
prādāt svannaṁ ca viprebhyaḥ
prajā-tīrthe sa tīrthavit
hasty-aśvān nṛpatir varān
prādāt svannaṁ ca viprebhyaḥ
prajā-tīrthe sa tīrthavit
Synonyms
hiraṇyam — ouro; gām — vacas; mahīm — terra; grāmān — vilas; hasti — elefantes; aśvān — cavalos; nṛpatiḥ — o rei; varān — recompensas; prādāt — deu em caridade; su-annam — grãos alimentícios de qualidade; ca — e; viprebhyaḥ — aos brāhmaṇas; prajā-tīrthe — na ocasião de dar caridade no dia do nascimento de um filho; saḥ — ele; tīrtha-vit — aquele que sabe como, quando e onde se deve dar caridade.
Translation
Com o nascimento de um filho, o rei, que sabia como, onde e quando se deve dar caridade, deu ouro, terra, vilas, elefantes, cavalos e grãos alimentícios de qualidade aos brāhmaṇas.
Purport
SIGNIFICADO—Somente os brāhmaṇas e sannyāsīs são autorizados a aceitar caridade dos chefes de família. Em todas as diferentes ocasiões dos saṁskāras, especialmente por ocasião de nascimento, casamento e morte, distribuem-se riquezas aos brāhmaṇas, pois os brāhmaṇas prestam a mais elevada qualidade de serviço, referente à necessidade primordial da humanidade. A caridade era substancial, na forma de ouro, terra, vilas, cavalos, elefantes e grãos alimentícios, junto de outros ingredientes para cozinhar alimentos completos. Portanto, os brāhmaṇas não eram pobres no verdadeiro sentido do termo. Ao contrário, porque possuíam ouro, terra, vilas, cavalos, elefantes e cereais suficientes, eles nada tinham a ganhar para eles mesmos. Eles simplesmente se devotavam ao bem-estar de toda a sociedade.
A palavra tīrthavit é significativa, dado que o rei sabia bem onde e quando se devia fazer caridade. A caridade nunca é improdutiva ou cega. Nos śāstras, a caridade era oferecida a pessoas merecedoras de aceitarem caridade em virtude da iluminação espiritual. O assim chamado daridra-nārāyaṇa, uma falsa concepção do Senhor Supremo feita por pessoas desautorizadas, jamais se encontra nos śāstras como objeto de caridade. Tampouco um desprezível homem pobre recebe caridade muito munificente na forma de cavalos, elefantes, terras e vilas. A conclusão é que os homens inteligentes, ou os brāhmaṇas especificamente ocupados no serviço ao Senhor, eram adequadamente mantidos, sem ansiedades em relação às necessidades do corpo, e o rei e outros chefes de família zelavam alegremente por todo o seu conforto.
Prescreve-se nos śāstras que, enquanto uma criança está unida à mãe pelo cordão umbilical, a criança é considerada como tendo o mesmo corpo que a mãe, mas logo que o cordão é cortado e a criança é separada da mãe, executa-se o processo purificatório jāta-karma. Os semideuses administrativos e antepassados falecidos da família vão ver a criança recém-nascida, e essa ocasião é especificamente aceita como o momento adequado para distribuir as riquezas às pessoas certas a fim de que seja produtivo para o avanço espiritual da sociedade.
Devanagari
तमूचुर्ब्राह्मणास्तुष्टा राजानं प्रश्रयान्वितम् ।
एष ह्यस्मिन् प्रजातन्तौ पुरूणां पौरवर्षभ ॥ १५ ॥
एष ह्यस्मिन् प्रजातन्तौ पुरूणां पौरवर्षभ ॥ १५ ॥
Verse text
tam ūcur brāhmaṇās tuṣṭā
rājānaṁ praśrayānvitam
eṣa hy asmin prajā-tantau
purūṇāṁ pauravarṣabha
rājānaṁ praśrayānvitam
eṣa hy asmin prajā-tantau
purūṇāṁ pauravarṣabha
Synonyms
tam — a ele; ūcuḥ — dirigiram-se; brāhmaṇāḥ — os brāhmaṇas eruditos; — muito satisfeitos; rājānam — ao rei; praśraya-anvitam — muito agradecidos; eṣaḥ — esse; hi — certamente; asmin — na corrente de; prajā-tantau — linha de descendência; purūṇām — dos Pūrus; paurava-ṛṣabha — o principal entre os Pūrus.
Translation
Os brāhmaṇas eruditos, que estavam muito satisfeitos com a caridade do rei, dirigiram-se a ele como o principal entre os Pūrus e o informaram que seu filho estava certamente na linha de descendência dos Pūrus.
Devanagari
दैवेनाप्रतिघातेन शुक्ले संस्थामुपेयुषि ।
रातो वोऽनुग्रहार्थाय विष्णुना प्रभविष्णुना ॥ १६ ॥
रातो वोऽनुग्रहार्थाय विष्णुना प्रभविष्णुना ॥ १६ ॥
Verse text
daivenāpratighātena
śukle saṁsthām upeyuṣi
rāto vo ’nugrahārthāya
viṣṇunā prabhaviṣṇunā
śukle saṁsthām upeyuṣi
rāto vo ’nugrahārthāya
viṣṇunā prabhaviṣṇunā
Synonyms
daivena — pelo poder sobrenatural; apratighātena — por aquilo que é irresistível; śukle — ao puro; saṁsthām — destruição; upeyuṣi — tendo sido forçado; rātaḥ — restaurado; vaḥ — para ti; anugraha-arthāya — com o propósito de endividar-te; viṣṇunā — pelo Senhor onipenetrante; prabhaviṣṇunā — pelo todo-poderoso.
Translation
Os brāhmaṇas disseram: Esse filho imaculado foi restaurado pelo todo-poderoso e onipenetrante Senhor Viṣṇu, a Personalidade de Deus, para te endividar. Ele foi salvo quando estava ameaçado de ser destruído por uma insuperável arma sobrenatural.
Purport
SIGNIFICADO—O bebê Parīkṣit foi salvo pelo todo-poderoso e onipenetrante Viṣṇu (Senhor Kṛṣṇa) por duas razões. A primeira razão é que a criança no ventre de sua mãe era imaculada, devido a ser um devoto puro do Senhor. A segunda razão é que a criança era o único sobrevivente masculino descendente de Puru, o piedoso antepassado do virtuoso rei Yudhiṣṭhira. O Senhor queria continuar a linha de reis piedosos para governarem a Terra como Seus representantes, para o verdadeiro progresso de uma vida próspera e pacífica. Após a Batalha de Kurukṣetra, até mesmo a geração seguinte a Mahārāja Yudhiṣṭhira foi aniquilada, e não havia ninguém que pudesse gerar outro filho na grande família real. Mahārāja Parīkṣit, o filho de Abhimanyu, era o único herdeiro natural sobrevivente na família, e, devido à insuperável e sobrenatural arma brahmāstra de Aśvatthāmā, ele estava sendo forçado à aniquilação. Aqui, o Senhor Kṛṣṇa é descrito como Viṣṇu, e isso também é significativo. O Senhor Kṛṣṇa, a original Personalidade de Deus, executa o trabalho de proteção e aniquilação em Sua capacidade de Viṣṇu. O Senhor Viṣṇu é a expansão plenária do Senhor Kṛṣṇa. As atividades onipenetrantes do Senhor são executadas por Ele sob Seu aspecto de Viṣṇu. Aqui, o bebê Parīkṣit é descrito como imaculadamente branco, porque é um devoto imaculado do Senhor. Tais devotos imaculados do Senhor aparecem na Terra simplesmente para executar a missão do Senhor. O Senhor deseja que as almas condicionadas que pairam na criação material sejam resgatadas de volta ao lar, de volta ao Supremo, e, desse modo, Ele as ajuda, preparando literaturas transcendentais, como os Vedas, enviando missões de santos e sábios, e delegando Seu representante, o mestre espiritual. Essas literaturas transcendentais, esses missionários e esses representantes do Senhor são imaculadamente brancos porque a contaminação das qualidades materiais não pode sequer tocá-los. Eles sempre são protegidos pelo Senhor quando ameaçados de aniquilação. Essas ameaças tolas são feitas pelos materialistas grosseiros. O brahmāstra, que foi lançado por Aśvatthāmā contra o bebê Parīkṣit, era certamente dotada de poder sobrenatural, e nada no mundo material poderia resistir à sua força de penetração. Contudo, o Senhor todo-poderoso, que está presente em toda parte, dentro e fora, pôde neutralizá-la através de Sua potência todo-poderosa simplesmente para salvar um servo fidedigno do Senhor e descendente de outro devoto, Mahārāja Yudhiṣṭhira, que estava sempre agradecido ao Senhor por Sua misericórdia sem causa.
Devanagari
तस्मान्नाम्ना विष्णुरात इति लोके भविष्यति ।
न सन्देहो महाभाग महाभागवतो महान् ॥ १७ ॥
न सन्देहो महाभाग महाभागवतो महान् ॥ १७ ॥
Verse text
tasmān nāmnā viṣṇu-rāta
iti loke bhaviṣyati
na sandeho mahā-bhāga
mahā-bhāgavato mahān
iti loke bhaviṣyati
na sandeho mahā-bhāga
mahā-bhāgavato mahān
Synonyms
tasmāt — portanto; nāmnā — pelo nome; viṣṇu-rātaḥ — protegida por Viṣṇu, a Personalidade de Deus; iti — assim; loke — em todos os planetas; bhaviṣyati — se tornará famosa; na — não; sandehaḥ — dúvidas; mahā-bhāga — mais afortunado; mahā-bhāgavataḥ — o devoto de primeira classe do Senhor; mahān — qualificada com todas as boas qualidades.
Translation
Por tal motivo, esta criança será famosa no mundo como aquele que é protegido pela Personalidade de Deus. Ó maior dos afortunados, não há dúvida de que essa criança se tornará um devoto de primeira classe e se qualificará com todas as boas qualidades.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor protege todos os seres vivos porque Ele é seu líder supremo. Os hinos védicos confirmam que o Senhor é a Pessoa Suprema entre todas as personalidades. A diferença entre os dois seres vivos é que o uno, a Personalidade de Deus, zela por todos os outros seres vivos, e, por conhecê-lO, pode-se alcançar paz eterna (Kaṭha Upaniṣad). Tal proteção é dada por Suas diferentes potências a diferentes gradações de seres vivos. No caso de Seus devotos imaculados, porém, Ele os protege pessoalmente. Portanto, Mahārāja Parīkṣit foi protegido desde o início de seu aparecimento no ventre de sua mãe. E porque ele é protegido especialmente pelo Senhor, conclui-se através dessa indicação que a criança seria um devoto de primeira classe do Senhor, com todas as boas qualidades. Há três gradações de devotos, a saber, o mahā-bhāgavata, o madhyama-adhikārī e o kaniṣṭha-adhikārī. Aqueles que vão aos templos do Senhor e oferecem adoração respeitosa à Deidade, sem conhecimento suficiente da ciência teológica e, portanto, sem nenhum respeito pelos devotos do Senhor, chamam-se devotos materialistas, ou kaniṣṭha-adhikārīs, os devotos de terceira classe. Em segundo lugar, os devotos que desenvolveram uma mentalidade de serviço genuíno ao Senhor e que, desse modo, fazem amizade apenas com devotos semelhantes, favorecem os neófitos e evitam os ateístas chamam-se devotos de segunda classe. Mas aqueles que veem tudo no Senhor ou tudo do Senhor, e também veem em tudo uma relação eterna com o Senhor, de forma que não há nada dentro de seu campo de visão exceto o Senhor, chamam-se mahā-bhāgavatas, ou devotos de primeira classe do Senhor. Esses devotos de primeira classe do Senhor são perfeitos sob todos os aspectos. Um devoto que esteja em alguma dessas categorias é automaticamente qualificado com todas as boas qualidades, e, assim, um devoto mahā-bhāgavata como Mahārāja Parīkṣit é certamente perfeito sob todos os aspectos. E como Mahārāja Parīkṣit nasceu na família de Mahārāja Yudhiṣṭhira, ele é tratado aqui como o mahā-bhāgavata, ou o maior dos afortunados. A família na qual nasce um mahā-bhāgavata é afortunada porque, devido ao nascimento de um devoto de primeira classe, os membros da família, passados, presentes e futuros, até cem gerações, são liberados pela graça do Senhor, em sinal de respeito por Seu amado devoto. Portanto, quem se torna um devoto imaculado do Senhor traz o mais alto benefício para a sua família.
Devanagari
श्रीराजोवाच
अप्येष वंश्यान् राजर्षीन् पुण्यश्लोकान् महात्मन: ।
अनुवर्तिता स्विद्यशसा साधुवादेन सत्तमा: ॥ १८ ॥
अप्येष वंश्यान् राजर्षीन् पुण्यश्लोकान् महात्मन: ।
अनुवर्तिता स्विद्यशसा साधुवादेन सत्तमा: ॥ १८ ॥
Verse text
śrī-rājovāca
apy eṣa vaṁśyān rājarṣīn
puṇya-ślokān mahātmanaḥ
anuvartitā svid yaśasā
sādhu-vādena sattamāḥ
apy eṣa vaṁśyān rājarṣīn
puṇya-ślokān mahātmanaḥ
anuvartitā svid yaśasā
sādhu-vādena sattamāḥ
Synonyms
śrī-rājā — o rei completamente bom (Mahārāja Yudhiṣṭhira); uvāca — disse; api — acaso; eṣaḥ — este; vaṁśyān — família; rāja-ṛṣīn — de reis santos; puṇya-ślokān — piedoso por força de seu nome; mahā-ātmanaḥ — todos grandes almas; anuvartitā — seguidor; svit — será; yaśasā — pelas realizações; sādhu-vādena — pela glorificação; sat-tamāḥ — ó grandes almas..
Translation
O bom rei [Yudhiṣṭhira] perguntou: Ó grandes almas, acaso ele se tornará um rei tão santo, tão piedoso por força de seu nome e tão famoso e glorioso em suas realizações como outros que apareceram nesta grandiosa família real?
Purport
SIGNIFICADO—Os antepassados do rei Yudhiṣṭhira eram todos grandes reis santos, piedosos e glorificados por suas grandes conquistas. Todos eles foram santos no trono real. E, portanto, todos os membros do estado foram felizes, piedosos, bem comportados, prósperos e espiritualmente iluminados. Esses grandes reis santos eram treinados sob a estrita orientação de grandes almas e de preceitos espirituais, e, como resultado, o reino era repleto de pessoas santas e era uma terra feliz de vida espiritual. O próprio Mahārāja Yudhiṣṭhira era uma réplica de seus ancestrais e desejava que o próximo rei depois dele se tornasse exatamente como seus grandes antepassados. Ele ficou feliz ao saber, da parte dos brāhmaṇas eruditos, que, de acordo com os cálculos astrológicos, a criança nasceria como um devoto de primeira classe do Senhor, e ele queria saber mais confidencialmente se a criança seguiria os passos de seus grandes antepassados. Este é o processo do estado monárquico. O rei regente deve ser um piedoso e cavalheiresco devoto do Senhor, e deve ser o medo personificado para os arrogantes. Ele também deve deixar um herdeiro presuntivo igualmente qualificado para governar os cidadãos inocentes. No contexto moderno dos estados democráticos, as próprias pessoas são caídas ao nível das qualidades dos śūdras, ou menos, e o governo é regido por seu representante, que ignora o modo escritural de educação administrativa. Dessa forma, toda a atmosfera fica sobrecarregada com qualidades śūdras, manifestadas através da luxúria e da avareza. Tais administradores lutam diariamente entre si. O gabinete de ministros muda frequentemente, devido ao egoísmo de partidos e grupos. Todos querem explorar os recursos do estado até morrer. Ninguém se aposenta da vida política a menos que seja forçado a fazê-lo. Como esses homens de baixo nível podem fazer o bem para o povo? O resultado é corrupção, intriga e hipocrisia. Eles devem aprender com o Śrīmad-Bhāgavatam quão ideais devem ser os administradores antes que possam assumir diferentes postos.
Devanagari
ब्राह्मणा ऊचु:
पार्थ प्रजाविता साक्षादिक्ष्वाकुरिव मानव: ।
ब्रह्मण्य: सत्यसन्धश्च रामो दाशरथिर्यथा ॥ १९ ॥
पार्थ प्रजाविता साक्षादिक्ष्वाकुरिव मानव: ।
ब्रह्मण्य: सत्यसन्धश्च रामो दाशरथिर्यथा ॥ १९ ॥
Verse text
brāhmaṇā ūcuḥ
pārtha prajāvitā sākṣād
ikṣvākur iva mānavaḥ
brahmaṇyaḥ satya-sandhaś ca
rāmo dāśarathir yathā
pārtha prajāvitā sākṣād
ikṣvākur iva mānavaḥ
brahmaṇyaḥ satya-sandhaś ca
rāmo dāśarathir yathā
Synonyms
brāhmaṇāḥ — os bons brāhmaṇas; ūcuḥ — disseram; pārtha — ó filho de Pṛthā (Kuntī); prajā — aqueles que nascem; avitā — mantenedor; sākṣāt — diretamente; ikṣvākuḥ iva — exatamente como o rei Ikṣvāku; mānavaḥ — filho de Manu; brahmaṇyaḥ — seguidores dos brāhmaṇas e respeitosos com os mesmos; satya-sandhaḥ — veraz na promessa; ca — também; rāmaḥ — a Personalidade de Deus Rāma; dāśarathiḥ — o filho de Mahārāja Daśaratha; yathā — como Ele.
Translation
Os brāhmaṇas eruditos disseram: Ó filho de Pṛthā, esta criança será exatamente como o rei Ikṣvāku, filho de Manu, na manutenção de todos aqueles que nascem. E no que diz respeito a seguir os princípios bramânicos, especialmente quanto a ser fiel à sua promessa, ele será exatamente como Rāma, a Personalidade de Deus, o filho de Mahārāja Daśaratha.
Purport
SIGNIFICADO—Prajā significa o ser vivo que nasce no mundo material. De fato, o ser vivo não tem nascimento nem morte, mas, devido à sua separação do serviço ao Senhor e por causa de seu desejo de assenhorear-se da natureza material, é-lhe oferecido um corpo adequado para satisfazer seus desejos materiais. Diante disso, as leis da natureza material condicionam a pessoa, e o corpo material é trocado de acordo com seu próprio trabalho. A entidade viva transmigra, desse modo, de um corpo a outro em 8.400.000 espécies de vida. Contudo, por ser parte integrante do Senhor, ela não somente é mantida pelo Senhor em todas as necessidades da vida, como também é protegida pelo Senhor e Seus representantes, os reis santos. Esses reis santos protegem todos os prajās, ou seres vivos, para viverem e cumprirem seus períodos de aprisionamento. Mahārāja Parīkṣit era um verdadeiro rei santo e ideal, pois, enquanto viajava por seu reino, calhou de ver que uma pobre vaca estava prestes a ser morta pelo Kali personificado, a quem ele puniu de imediato como um assassino. Isso significa que mesmo os animais recebiam proteção dos administradores santos, não sob algum ponto de vista sentimental, mas porque aqueles que nascem no mundo material têm o direito de viver. Todos os reis santos, começando do rei do globo solar e descendo até o rei da Terra, têm essa inclinação devido à influência das literaturas védicas. As literaturas védicas também são ensinadas nos planetas superiores, conforme há referência na Bhagavad-gītā (4.1) a respeito dos ensinamentos transmitidos pelo Senhor ao deus do Sol (Vivasvān), e essas lições são transferidas através de sucessão discipular, como foi feito pelo deus do Sol a seu filho Manu, e por Manu a Mahārāja Ikṣvāku. Há catorze Manus em um dia de Brahmā, e o Manu aqui referido é o sétimo Manu, que é um dos prajāpatis (aqueles que criam progênie), e filho do deus do Sol. Ele é conhecido como o Vaivasvata Manu. Ele teve dez filhos, um dos quais é Mahārāja Ikṣvāku. Mahārāja Ikṣvāku também aprendeu bhakti-yoga, como se ensina na Bhagavad-gītā, com seu pai, Manu, que aprendeu com seu pai, o deus do Sol. Mais tarde, o ensinamento da Bhagavad-gītā desceu através de sucessão discipular a partir de Mahārāja Ikṣvāku, mas, no decorrer do tempo, a corrente foi rompida por pessoas inescrupulosas, e, portanto, o conhecimento teve que ser ensinado novamente a Arjuna no Campo de Batalha de Kurukṣetra. Assim, todas as literaturas védicas são correntes desde o próprio início da criação do mundo material, e, desse modo, as literaturas védicas são conhecidas como apauruṣeya (não feitas pelo homem). O conhecimento védico foi proferido pelo Senhor e ouvido primeiramente por Brahmā, o primeiro ser vivo criado dentro do universo.
Mahārāja Ikṣvāku: Um dos filhos de Vaivasvata Manu. Teve cem filhos. Proibiu o comer de carne. Seu filho Śaśāda se tornou o próximo rei depois de sua morte.
Manu: O Manu mencionado neste verso como pai de Ikṣvāku é o sétimo Manu, chamado Vaivasvata Manu, o filho do deus do Sol, Vivasvān, a quem o Senhor Kṛṣṇa transmitiu os ensinamentos da Bhagavad-gītā antes de transmiti-los a Arjuna. A humanidade é descendente de Manu. Esse Vaivasvata Manu teve dez filhos, chamados Ikṣvāku, Nabhaga, Dhṛṣṭa, Śaryāti, Nariṣyanta, Nābhāga, Diṣṭa, Karūṣa, Pṛṣadhra e Vasumān. A encarnação Matsya do Senhor (o peixe gigante) apareceu durante o início do reino de Vaivasvata Manu. Ele aprendeu os princípios da Bhagavad-gītā com seu pai, Vivasvān, o deus do Sol, e tornou a ensiná-los a seu filho Mahārāja Ikṣvāku. No começo de Tretā-yuga, o deus do Sol instruiu o serviço devocional a Manu, e Manu, por sua vez, o ensinou a Ikṣvāku, para o bem-estar de toda a sociedade humana.
Senhor Rāma: A Suprema Personalidade de Deus encarnou como Śrī Rāma, aceitando ser filho de Seu devoto puro Mahārāja Daśaratha, o rei de Ayodhyā. O Senhor Rāma desceu juntamente com Suas porções plenárias, e todas elas apareceram como Seus irmãos mais novos. No mês de Caitra, no nono dia da lua crescente, em Tretā-yuga, o Senhor apareceu, como de costume, para estabelecer os princípios da religião e para aniquilar os elementos perturbadores. Quando era apenas um jovem rapaz, Ele ajudou o grande sábio Viśvāmitra, matando Subāhu e ferindo Mārīcā, os dois demônios que estavam perturbando os sábios no desempenho diário de seus deveres. Os brāhmaṇas e kṣatriyas destinam-se a cooperar para o bem-estar da massa popular. Os brāhmaṇas sábios se esforçam para iluminar as pessoas com conhecimento perfeito, e os kṣatriyas se destinam a protegê-las. O Senhor Rāmacandra é o rei ideal porque protegeu e manteve a mais elevada cultura da humanidade, conhecida como brāhmaṇya-dharma. O Senhor é especificamente o protetor das vacas e dos brāhmaṇas e, por isso, Ele promove a prosperidade do mundo. Ele recompensou os semideuses administrativos com armas efetivas para conquistar os demônios, através da agência de Viśvāmitra. Esteve presente no sacrifício de arco do rei Janaka e, por quebrar o invencível arco de Śiva, casou-Se com Sītādevī, a filha de Mahārāja Janaka.
Após Seu casamento, aceitou o exílio na floresta por catorze anos, por ordem de Seu pai, Mahārāja Daśaratha. Para ajudar a administração dos semideuses, Ele matou catorze mil demônios, e, devido às intrigas dos demônios, Sua esposa, Sītādevī, foi raptada por Rāvaṇa. Ele fez amizade com Sugrīva, que foi ajudado pelo Senhor a matar Vali, irmão de Sugrīva. Com a ajuda do Senhor Rāma, Sugrīva se tornou o rei dos Vānaras (uma raça de gorilas). O Senhor construiu uma ponte flutuante de pedras sobre o Oceano Índico e alcançou Laṅkā, o reino de Rāvaṇa, que havia raptado Sītā. Depois, Ele matou Rāvaṇa, e o irmão de Rāvaṇa, Vibhīṣana, foi instalado no trono de Laṅkā. Vibhīṣana era um dos irmãos de Rāvaṇa, um demônio, mas o Senhor Rāma o fez imortal com Suas bênçãos. Ao expirarem catorze anos, após resolver os assuntos de Laṅkā, o Senhor voltou a Seu reino, Ayodhyā, em um aeroplano de flores. Ele instruiu Seu irmão Śatrughna a atacar Lavaṇāsura, que reinava em Mathurā, e o demônio foi morto. Ele executou dez sacrifícios aśvamedha e, mais tarde, desapareceu enquanto tomava banho no rio Śarayu. O grande épico Rāmāyaṇa é a história das atividades do Senhor Rāma no mundo, e o Rāmāyaṇa autorizado foi escrito pelo grande poeta Vālmīki.
Devanagari
एष दाता शरण्यश्च यथा ह्यौशीनर: शिबि: ।
यशो वितनिता स्वानां दौष्यन्तिरिव यज्वनाम् ॥ २० ॥
यशो वितनिता स्वानां दौष्यन्तिरिव यज्वनाम् ॥ २० ॥
Verse text
eṣa dātā śaraṇyaś ca
yathā hy auśīnaraḥ śibiḥ
yaśo vitanitā svānāṁ
dauṣyantir iva yajvanām
yathā hy auśīnaraḥ śibiḥ
yaśo vitanitā svānāṁ
dauṣyantir iva yajvanām
Synonyms
eṣaḥ — esta criança; dātā — doador caridoso; śaraṇyaḥ — protetor dos rendidos; ca — e; yathā — como; hi — certamente; auśīnaraḥ — o país chamado Uśīnara; śibiḥ — Śibi; yaśaḥ — fama; vitanitā — disseminador; svānām — dos parentes; dauṣyantiḥ iva — como Bharata, o filho de Duṣyanta; yajvanām — daqueles que executaram muitos sacrifícios.
Translation
Esta criança será um munificente doador de caridade e protetor dos rendidos, assim como o famoso rei Śibi do país Uśīnara. E expandirá o nome e a fama de sua família tal qual Bharata, o filho de Mahārāja Duṣyanta.
Purport
SIGNIFICADO—Um rei torna-se famoso por seus atos de caridade, realizações de yajñas, proteção aos rendidos etc. Um rei kṣatriya orgulha-se de proteger as almas rendidas. Essa atitude de um rei chama-se īśvara-bhāva, ou o verdadeiro poder de proteger numa causa justa. Na Bhagavad-gītā, o Senhor instrui os seres vivos a se renderem a Ele, e promete toda a proteção. O Senhor é todo-poderoso e fiel à Sua palavra e, por isso, nunca deixa de proteger Seus diferentes devotos. O rei, sendo o representante do Senhor, tem que possuir essa atitude de proteger as almas rendidas a todo custo. Mahārāja Śibi, o rei de Uśīnara, era amigo íntimo de Mahārāja Yayāti, que foi capaz de alcançar os planetas celestiais juntamente com Mahārāja Śibi. Mahārāja Śibi estava ciente do planeta celestial a que seria transferido após sua morte, e a descrição do planeta celestial é dada no Mahābhārata (Ādi-parva 96.6-9). Mahārāja Śibi tinha uma disposição tão caridosa que desejou dar sua própria posição adquirida no reino celestial a Yayāti, mas este não aceitou. Yayāti foi para o planeta celestial juntamente com grandes ṛṣis, como Aṣṭaka e outros. Diante da pergunta dos ṛṣis, Yayāti relatou os atos piedosos de Śibi quando todos estavam a caminho do céu. Ele se tornou um membro da assembleia de Yamarāja, que passou a ser sua deidade adorável. Como se confirma na Bhagavad-gītā, o adorador dos semideuses vai para os planetas dos semideuses (yānti deva-vratā devān); desse modo, Mahārāja Śibi converteu-se num associado da grande autoridade vaiṣṇava Yamarāja nesse planeta em particular. Enquanto esteve na Terra, ficou muito famoso como protetor das almas rendidas e doador de caridade. Certa vez, o rei do céu assumiu a forma de um pássaro caçador de pombos (águia), e Agni, o deus do fogo, assumiu a forma de um pombo. Enquanto estava sendo caçado pela águia, o pombo refugiou-se no colo de Mahārāja Śibi, e a águia caçadora quis que o rei lhe devolvesse o pombo. O rei desejou lhe dar algum outro tipo de carne como alimento e pediu ao pássaro que não matasse o pombo. A ave de rapina recusou-se a aceitar a oferta do rei, mas depois ficou estabelecido que a águia aceitaria a carne do próprio corpo do rei, em medida equivalente ao peso do pombo. O rei começou a cortar a carne de seu corpo até o peso equivalente, na balança, ao peso do pombo, mas o pombo místico ficava cada vez mais pesado. Então, o rei se colocou sobre a balança para se igualar ao pombo, e os semideuses ficaram muito satisfeitos com ele. O rei do céu e o deus do fogo revelaram sua identidade e abençoaram o rei. Devarṣi Nārada também glorificou Mahārāja Śibi por suas grandes conquistas, especialmente na caridade e proteção. Mahārāja Śibi sacrificou seu próprio filho para a satisfação dos seres humanos em seu reino. E, assim, o bebê Parīkṣit viria a se tornar um segundo Śibi em caridade e proteção.
Dauṣyanti Bharata: Há muitos Bharatas na história, entre os quais são muito famosos o Bharata irmão do Senhor Rāma, o Bharata filho do rei Ṛṣabha, e o Bharata filho de Mahārāja Duṣyanta. E todos esses Bharatas são historicamente conhecidos em todo o universo. Este planeta Terra é conhecido como Bhārata, ou Bhārata-varṣa, devido ao rei Bhārata, o filho de Ṛṣabha, mas, segundo alguns, esta Terra é conhecida como Bhārata devido ao reinado do filho de Duṣyanta. Quanto à nossa convicção, o nome Bhārata-varṣa para esta Terra foi estabelecido a partir do reinado do Bharata filho do rei Ṛṣabha. Antes dele, a Terra era conhecida como Ilāvṛta-varṣa, mas, logo após a coroação de Bharata, o filho de Ṛṣabha, a Terra tornou-se famosa como Bhārata-varṣa.
Todavia, apesar de tudo isso, Bharata, o filho de Mahārāja Duṣyanta, não foi menos importante. Ele é filho da famosa beldade Śakuntalā. Mahārāja Duṣyanta se apaixonou por Śakuntalā na floresta, e Bharata foi concebido. Depois disso, Mahārāja esqueceu sua esposa Śakuntalā por maldição de Kaṇva Muni, e o bebê Bharata foi educado na floresta por sua mãe. Mesmo em sua infância, ele era tão poderoso que desafiava os leões e elefantes na floresta e lutava com eles assim como uma pequena criança brinca com cães e gatos. Porque o corpo do menino tornara-se tão forte, mais que o dito Tarzan moderno, os ṛṣis na floresta o chamaram de Sarvadamana, ou aquele que é capaz de controlar a todos. Uma descrição completa de Mahārāja Bharata é dada no Mahābhārata, Ādi-parva. Os Pāṇḍavas, ou os Kurus, são às vezes tratados de Bhārata devido a terem nascido na dinastia do famoso Mahārāja Bharata, o filho do rei Duṣyanta.
Devanagari
धन्विनामग्रणीरेष तुल्यश्चार्जुनयोर्द्वयो: ।
हुताश इव दुर्धर्ष: समुद्र इव दुस्तर: ॥ २१ ॥
हुताश इव दुर्धर्ष: समुद्र इव दुस्तर: ॥ २१ ॥
Verse text
dhanvinām agraṇīr eṣa
tulyaś cārjunayor dvayoḥ
hutāśa iva durdharṣaḥ
samudra iva dustaraḥ
tulyaś cārjunayor dvayoḥ
hutāśa iva durdharṣaḥ
samudra iva dustaraḥ
Synonyms
Translation
Entre os grandes arqueiros, esta criança será tão boa como Arjuna. Ela será irresistível como o fogo e intransponível como o oceano.
Purport
SIGNIFICADO—Há dois Arjunas na história. Um é Kārtavīrya Arjuna, o rei de Haihaya, e o outro é o avô da criança. Os dois Arjunas são famosos como arqueiros, e está sendo feita a predição de que o bebê Parīkṣit será igual a ambos, particularmente na luta. Dá-se, abaixo, uma breve descrição do Pāṇḍava Arjuna.
Pāṇḍava Arjuna: O grande herói da Bhagavad-gītā. Ele é o filho kṣatriya de Mahārāja Pāṇḍu. A rainha Kuntī podia chamar por qualquer um dos semideuses e, assim, ela chamou por Indra, e Arjuna nasceu dele. Portanto, Arjuna é uma parte plenária do celestial rei Indra. Ele nasceu no mês de Phālguna (fevereiro-março), daí ele também ser chamado de Phālguni. Quando apareceu como filho de Kuntī, sua futura grandeza foi proclamada por mensagens aéreas, e todas as personalidades importantes de diferentes partes do universo, tais como os semideuses, os Gandharvas, os Ādityas (do globo solar), os Rudras, os Vasus, os Nāgas, os diversos ṛṣis (sábios) de importância, e as Apsarās (as moças da sociedade do céu), todos compareceram à cerimônia. As Apsarās satisfizeram a todos com suas danças e canções celestiais. Vasudeva, o pai do Senhor Kṛṣṇa e tio materno de Arjuna, enviou seu sacerdote representante, Kaśyapa, para purificar Arjuna através de todos os saṁskāras, ou processos reformatórios, prescritos. Seu saṁskāra de receber um nome foi realizado na presença dos ṛṣis, habitantes de Śataśṛṅga. Ele se casou com quatro esposas, Draupadī, Subhadrā, Citraṅgadā e Ulūpī, com as quais teve quatro filhos, chamados de Śrutakīrti, Abhimanyu, Babhruvāhana e Irāvān, respectivamente.
Durante sua vida de estudante, foi confiado para seus estudos ao grande professor Droṇācārya, junto de outros Pāṇḍavas e os Kurus. Mas ele superou a todos pela sua dedicação ao estudo, e Droṇācārya ficou especialmente atraído por seu amor à disciplina. Droṇācārya o aceitou como um estudioso de primeira classe e desejou de coração conceder-lhe todas as bênçãos da ciência militar. Ele era tão fervoroso como estudante que costumava praticar a arte do arco mesmo à noite, e, por todas essas razões, o mestre Droṇācārya determinou-se a fazer dele o principal arqueiro do mundo. Ele passou muito brilhantemente no exame de trespassar o alvo, e Droṇācārya ficou muito satisfeito. As famílias reais de Maṇipura e Tripura são descendentes do filho de Arjuna, Babhruvāhana. Arjuna salvou Droṇācārya do ataque de um crocodilo, e o Ācārya, ficando satisfeito com ele, recompensou-o com uma arma chamada brahmaśiras. Mahārāja Drupada era hostil com Droṇācārya, e assim, quando ele atacou o Ācārya, Arjuna o prendeu e o trouxe diante de Droṇācārya. Ele sitiou uma cidade chamada Ahicchatra, pertencente a Mahārāja Drupada, e, após tomá-la, ele a deu para Droṇācārya. O manejo confidencial da arma brahmaśiras foi explicado a Arjuna, e Arjuna prometeu a Droṇācārya que usaria a arma, caso necessário, quando ele (Droṇācārya) se tornasse pessoalmente um inimigo de Arjuna. Com isso, o Ācārya previu a futura guerra de Kurukṣetra, na qual Droṇācārya estava no lado oposto. Mahārāja Drupada, embora derrotado por Arjuna, em favor de seu mestre Droṇācārya, decidiu dar a mão de sua filha Draupadī a seu jovem adversário, mas ficou desapontado quando ouviu os boatos sobre a morte de Arjuna no incêndio de uma casa de goma-laca, por intriga de Duryodhana. Portanto, ele providenciou a seleção pessoal, por parte de Draupadī, de um noivo que pudesse trespassar o olho de um peixe pendurado no teto. Esse truque foi especialmente arquitetado porque somente Arjuna poderia fazer isso, e ele foi bem-sucedido em seu desejo de dar a mão de sua filha igualmente digna a Arjuna. Naquela época, os irmãos de Arjuna viviam incógnitos, devido a um acordo com Duryodhana, e Arjuna e seus irmãos participaram da reunião da seleção de Draupadī vestidos de brāhmaṇas. Quando todos os reis kṣatriyas reunidos viram que um pobre brāhmaṇa tinha sido enguirlandado por Draupadī como seu senhor, Śrī Kṛṣṇa revelou sua identidade a Balarāma.
Arjuna encontrou Ulūpī em Haridvāra (Hardwar) e ficou atraído pela moça pertencente a Nāgaloka, e assim nasceu Iravān. Da mesma forma, ele encontrou Citrāṅgadā, uma filha do rei de Maṇipura, e assim nasceu Babhruvāhana. O Senhor Śrī Kṛṣṇa fez um plano para ajudar Arjuna a raptar Subhadrā, irmã de Śrī Kṛṣṇa, porque Baladeva estava inclinado a dar a mão de Subhadrā a Duryodhana. Yudhiṣṭhira também concordou com Śrī Kṛṣṇa, e, dessa maneira, Subhadrā foi tomada à força por Arjuna e, então, casou-se com ele. O filho de Subhadrā é Abhimanyu, o pai de Parīkṣit Mahārāja, a criança póstuma. Arjuna satisfez o deus do fogo ao incendiar a floresta Khāṇḍava, e, então, o deus do fogo lhe deu uma arma. Indra ficou irado quando se ateou fogo na floresta Khāṇḍava, de modo que Indra, assistido por todos os outros semideuses, começou a lutar contra Arjuna devido a seu grande desafio. Eles foram derrotados por Arjuna, e Indradeva retornou a seu reino celestial. Arjuna também prometeu toda proteção a um sujeito de nome Mayāsura, e esse último o presenteou com um valioso búzio, célebre como Devadatta. Semelhantemente, ele recebeu muitas outras armas valiosas de Indradeva, quando este ficou satisfeito por ver sua bravura.
Quando Mahārāja Yudhiṣṭhira ficou desapontado por não conseguir derrotar o rei de Magadha, Jarāsandha, foi unicamente Arjuna quem deu ao rei Yudhiṣṭhira todos os tipos de garantia, e, dessa forma, Arjuna, Bhīma e o Senhor Kṛṣṇa partiram rumo a Magadha para matar Jarāsandha. Quando ele saiu para trazer todos os outros reis do mundo sob o jugo dos Pāṇḍavas, como era de praxe após a coroação de todo imperador, ele conquistou o país chamado Kelinda e subjugou o rei Bhagadatta. Em seguida, ele viajou através de países como Antagiri, Ulūkapura e Modāpura e subjugou todos os governantes.
Algumas vezes, ele se submetia a severos tipos de penitências e, mais tarde, foi recompensado por Indradeva. O senhor Śiva também quis testar a força de Arjuna e, na forma de um aborígene, o senhor Śiva defrontou-se com ele. Houve uma grande luta entre os dois, e, por fim, o senhor Śiva ficou satisfeito com ele e revelou sua identidade. Arjuna orou ao senhor com toda humildade, e o senhor, estando agradado com ele, presenteou-o com a arma pāśupata. Ele obteve muitas outras armas importantes de diferentes semideuses. Recebeu o daṇḍāstra de Yamarāja, o pāśāstra de Varuṇa, e o antardhānāstra de Kuvera, o tesoureiro do reino celestial. Indra desejou que ele fosse ao reino celestial, o planeta Indraloka, além do planeta Lua. Naquele planeta, ele foi recebido cordialmente pelos residentes locais, e lhe foi oferecida uma recepção no parlamento celestial de Indradeva. Então, ele se encontrou com Indradeva, que não apenas o presenteou com sua arma vajra, mas também lhe ensinou a ciência militar e musical, tal como é usada no planeta celestial. Em um sentido, Indra é o pai verdadeiro de Arjuna e, por isso, ele quis indiretamente entreter Arjuna com a famosa moça da sociedade celestial, Urvaśī, a célebre beldade. As moças da sociedade celestial são luxuriosas, e Urvaśī estava muito ansiosa por ter contato com Arjuna, o ser humano mais forte. Ela se encontrou com Arjuna em seu quarto e lhe expressou seus desejos, mas Arjuna manteve seu caráter impecável, fechando os olhos diante de Urvaśī, dirigindo-se a ela como a mãe da dinastia Kuru e a colocando na categoria de suas mães Kuntī, Mādrī e Śacīdevī, a esposa de Indradeva. Desapontada, Urvaśī amaldiçoou Arjuna e partiu. No planeta celestial, ele também encontrou o grande e célebre asceta Lomaśa e orou a ele pedindo que protegesse Mahārāja Yudhiṣṭhira.
Quando seu primo hostil, Duryodhana, estava sob as garras dos Gandharvas, ele quis salvá-lo e pediu aos Gandharvas que soltassem Duryodhana, mas os Gandharvas se recusaram, momento no qual Arjuna lutou contra eles e libertou Duryodhana. Quando todos os Pāṇḍavas viviam incógnitos, ele se apresentou na corte do rei Virāṭa como um eunuco e foi empregado como o professor musical de Uttarā, sua futura nora, e era conhecido na corte de Virāṭa como Bṛhannala. Como Bṛhannala, ele lutou a favor de Uttara, o filho do rei Virāṭa, e, desse modo, derrotou incógnito os Kurus na luta. Suas armas secretas foram mantidas a salvo, sob a custódia de uma árvore somi, e ele ordenou a Uttarā que as trouxesse de volta. Sua identidade e a identidade de seus irmãos foram mais tarde reveladas a Uttarā. Droṇācārya foi informado da presença de Arjuna na luta entre os Kurus e os Virāṭas. Depois, no Campo de Batalha de Kurukṣetra, ele puniu Aśvatthāmā, que havia matado todos os cinco filhos de Draupadī. Então, todos os irmãos foram até Bhīṣmadeva.
É unicamente devido a Arjuna que os grandes discursos filosóficos da Bhagavad-gītā foram falados novamente pelo Senhor no Campo de Batalha de Kurukṣetra. Seus atos maravilhosos no Campo de Batalha de Kurukṣetra são vividamente descritos no Mahābhārata. Contudo, Arjuna foi derrotado por seu filho Babhruvāhana, em Maṇipura, e caiu inconsciente quando Ulūpī o salvou. Após o desaparecimento do Senhor Kṛṣṇa, a mensagem do acontecimento foi levada por Arjuna a Mahārāja Yudhiṣṭhira. Arjuna visitou Dvārakā novamente, e todas as esposas viúvas do Senhor Kṛṣṇa se lamentaram diante dele. Ele levou todas à presença de Vasudeva e apaziguou a todas. Mais tarde, quando Vasudeva faleceu, ele executou sua cerimônia fúnebre na ausência de Kṛṣṇa. Enquanto Arjuna estava levando todas as esposas de Kṛṣṇa para Indraprastha, ele foi atacado no caminho e não pôde proteger as damas sob sua custódia. Finalmente, aconselhados por Vyāsadeva, todos os irmãos partiram para Mahāprasthāna. No caminho, a pedido de seu irmão, ele abandonou todas as importantes armas como inúteis, e jogou todas na água.
Devanagari
मृगेन्द्र इव विक्रान्तो निषेव्यो हिमवानिव ।
तितिक्षुर्वसुधेवासौ सहिष्णु: पितराविव ॥ २२ ॥
तितिक्षुर्वसुधेवासौ सहिष्णु: पितराविव ॥ २२ ॥
Verse text
mṛgendra iva vikrānto
niṣevyo himavān iva
titikṣur vasudhevāsau
sahiṣṇuḥ pitarāv iva
niṣevyo himavān iva
titikṣur vasudhevāsau
sahiṣṇuḥ pitarāv iva
Synonyms
Translation
Esta criança será tão forte como um leão, e um abrigo tão útil como as montanhas dos Himālayas. Ele será indulgente como a Terra e tão tolerante como seus pais.
Purport
SIGNIFICADO—Uma pessoa é comparada ao leão quando é muito forte em caçar o inimigo. Um homem deve ser um cordeiro em casa e um leão na caça. O leão nunca falha na caça de um animal; de modo semelhante, o líder do estado nunca deve falhar na caça de um inimigo. As montanhas Himālayas são famosas por terem todas as riquezas. Há inúmeras cavernas onde morar, inúmeras árvores de bons frutos para comer, boas fontes onde beber água e profusas drogas e minerais para curar doenças. Qualquer homem que não é materialmente próspero pode refugiar-se nessas grandes montanhas e será provido de tudo que necessita. Tanto os materialistas quanto os espiritualistas podem aproveitar-se do grande refúgio dos Himālayas. Sobre a face da Terra, há muitos distúrbios causados pelos habitantes. Na era moderna, as pessoas começaram a detonar armas atômicas sobre a face da Terra, de modo que a Terra é indulgente com os habitantes, assim como a mãe que perdoa um filho pequeno. Os pais são sempre tolerantes com seus filhos, apesar de todos os tipos de atos malévolos. Um rei ideal deve possuir todas essas boas qualidades, e aqui se prevê que o bebê Parīkṣit teria perfeitamente todas essas qualidades.
Devanagari
पितामहसम: साम्ये प्रसादे गिरिशोपम: ।
आश्रय: सर्वभूतानां यथा देवो रमाश्रय: ॥ २३ ॥
आश्रय: सर्वभूतानां यथा देवो रमाश्रय: ॥ २३ ॥
Verse text
pitāmaha-samaḥ sāmye
prasāde giriśopamaḥ
āśrayaḥ sarva-bhūtānāṁ
yathā devo ramāśrayaḥ
prasāde giriśopamaḥ
āśrayaḥ sarva-bhūtānāṁ
yathā devo ramāśrayaḥ
Synonyms
pitāmaha — o avô, ou Brahmā; samaḥ — igualmente bom; sāmye — quanto a; prasāde — em caridade ou munificência; giriśa — senhor Śiva; upamaḥ — comparação de equilíbrio; āśrayaḥ — abrigo; sarva — todos; bhūtānām — dos seres vivos; yathā — como; devaḥ — o Senhor Supremo; ramā-āśrayaḥ — a Personalidade de Deus.
Translation
Esta criança será como seu avô Yudhiṣṭhira ou como Brahmā em equanimidade mental. Será munificente como o senhor da colina Kailāsa, Śiva. E será o abrigo de todos, assim como a Suprema Personalidade de Deus Nārāyaṇa, que é o refúgio até mesmo da deusa da fortuna.
Purport
SIGNIFICADO—A equanimidade mental se refere tanto a Mahārāja Yudhiṣṭhira quanto a Brahmā, o avô de todos os seres vivos. De acordo com Śrīdhara Svāmī, o avô mencionado é Brahmā, mas, de acordo com Viśvanātha Cakravartī, o avô é o próprio Mahārāja Yudhiṣṭhira. Contudo, em ambos os casos, a comparação é igualmente boa, porque ambos são representantes reconhecidos do Senhor Supremo e, desse modo, ambos têm que manter a equanimidade mental, estando ocupados no trabalho de bem-estar dos seres vivos. Qualquer agente executivo responsável no topo da administração tem que tolerar diferentes tipos de investidas das próprias pessoas para quem ele trabalha. Brahmājī foi criticado até mesmo pelas gopīs, as devotas perfeitas mais elevadas do Senhor. As gopīs estavam insatisfeitas com o trabalho de Brahmā porque o senhor Brahmā, como criador deste universo específico, criou pálpebra que as impediam de ver o Senhor Kṛṣṇa. Elas não podiam tolerar sequer o momento de piscar os olhos, pois isso as impedia de ver seu amado Senhor Kṛṣṇa. O que dizer, então, de outros que são naturalmente muito críticos de cada ação de um homem responsável? Similarmente, Mahārāja Yudhiṣṭhira teve que passar por muitas situações difíceis criadas por seus inimigos, e mostrou ser o mais perfeito mantenedor de equanimidade mental em todas as circunstâncias críticas. Portanto, o exemplo de ambos os avós, sobre a manutenção da equanimidade mental, é completamente adequado.
O senhor Śiva é um semideus notório que concede dádivas aos suplicantes. Portanto, seu nome é Āśutoṣa, ou aquele que é muito facilmente satisfeito. Ele também é chamado de Bhūtanātha, ou o senhor das pessoas comuns, que são apegadas a ele principalmente por causa de suas dádivas munificentes, mesmo sem consideração sobre seus efeitos posteriores. Rāvaṇa era muito apegado ao senhor Śiva e, por tê-lo agradado facilmente, Rāvaṇa se tornou tão poderoso que quis desafiar a autoridade do Senhor Rāma. É claro que Rāvaṇa não foi ajudado de modo algum pelo senhor Śiva quando lutou contra Rāma, a Suprema Personalidade de Deus e o Senhor do senhor Śiva. Para Vṛkāsura, o senhor Śiva concedeu uma bênção que era não somente desastrosa, mas também perturbadora. Vṛkāsura recebeu, pela graça do senhor Śiva, o poder de destruir a cabeça de qualquer pessoa simplesmente por tocá-la. Embora isso fosse concedido pelo senhor Śiva, o sujeito astuto quis experimentar seu poder tocando a cabeça do senhor Śiva. Desse modo, o senhor Śiva teve que se refugiar em Viṣṇu para se salvar do apuro, e o Senhor Viṣṇu, através de Sua potência ilusória, pediu a Vṛkāsura para fazer uma experiência com sua própria cabeça. O sujeito procedeu como pedido e deu fim a si mesmo, e o mundo, dessa maneira, foi salvo de todos os tipos de problemas da parte desse malicioso pedinte dos semideuses. O ponto de destaque é que o senhor Śiva jamais deixa de dar qualquer tipo de dádiva a todos. Portanto, ele é o mais generoso, embora às vezes cometa algum tipo de erro.
Ramā se refere à deusa da fortuna. E seu abrigo é o Senhor Viṣṇu. O Senhor Viṣṇu é o mantenedor de todos os seres vivos. Há inúmeros seres vivos, não apenas na superfície deste planeta, mas também em todas as outras centenas de milhares de planetas. Todos são providos de todas as necessidades da vida para a marcha progressiva rumo à meta da autorrealização, mas, no caminho do gozo dos sentidos, eles são postos em dificuldades pela ação de māyā, a energia ilusória, e, desse modo, viajam pelo caminho de um falso plano de desenvolvimento econômico. Tal desenvolvimento econômico nunca é bem-sucedido porque é ilusório. Esses homens andam sempre em busca da misericórdia da ilusória deusa da fortuna, mas não sabem que a deusa da fortuna só pode viver sob a proteção de Viṣṇu. Sem Viṣṇu, a deusa da fortuna é uma ilusão. Devemos, portanto, buscar a proteção de Viṣṇu, ao invés de buscar diretamente a proteção da deusa da fortuna. Somente Viṣṇu e os devotos de Viṣṇu podem proteger a todos, e porque Mahārāja Parīkṣit, em pessoa, fora protegido por Viṣṇu, foi-lhe completamente possível dar completa proteção a todos que queriam viver sob seu governo.
Devanagari
सर्वसद्गुणमाहात्म्ये एष कृष्णमनुव्रत: ।
रन्तिदेव इवोदारो ययातिरिव धार्मिक: ॥ २४ ॥
रन्तिदेव इवोदारो ययातिरिव धार्मिक: ॥ २४ ॥
Verse text
sarva-sad-guṇa-māhātmye
eṣa kṛṣṇam anuvrataḥ
rantideva ivodāro
yayātir iva dhārmikaḥ
eṣa kṛṣṇam anuvrataḥ
rantideva ivodāro
yayātir iva dhārmikaḥ
Synonyms
sarva-sat-guṇa-māhātmye — glorificado em virtude de todos os atributos divinos; eṣaḥ — esta criança; kṛṣṇam — como o Senhor Kṛṣṇa; anuvrataḥ — um seguidor de Seus passos; rantideva — Rantideva; iva — como; udāraḥ — quanto à magnanimidade; yayātiḥ — Yayāti; iva — como; dhārmikaḥ — a respeito da religião.
Translation
Esta criança será quase tão boa como o Senhor Kṛṣṇa, por seguir Seus passos. Em magnanimidade, ele se tornará tão grandioso como o rei Rantideva. E, em religião, será como Mahārāja Yayāti.
Purport
SIGNIFICADO—A última instrução do Senhor Śrī Kṛṣṇa na Bhagavad-gītā é que devemos abandonar tudo e unicamente seguir os passos do Senhor. As pessoas menos inteligentes, por má sorte, não concordam com essa grande instrução do Senhor, mas aquele que é realmente inteligente assimila essa sublime instrução e é imensamente beneficiado. As pessoas tolas não sabem que a associação é a causa da aquisição de qualidades. A associação com o fogo aquece um objeto, mesmo no sentido material. Portanto, a associação com a Suprema Personalidade de Deus faz uma pessoa qualificar-se como o Senhor. Como já discutimos previamente, pode-se alcançar setenta e oito por cento das qualidades divinas através da associação íntima com o Senhor. Seguir as instruções do Senhor é associar-se com o Senhor. O Senhor não é um objeto material cuja presença tenhamos que sentir para podermos nos associar com Ele. O Senhor está presente em toda parte e em todos os momentos. É completamente possível ter Sua associação simplesmente por seguir Sua instrução, porque o Senhor e Sua instrução, e o Senhor e Seu nome, fama, atributos e parafernália são todos idênticos a Ele, já que são conhecimento absoluto. Mahārāja Parīkṣit se associou com o Senhor mesmo a partir do ventre de sua mãe, e até o último dia de sua preciosa vida, e, desse modo, ele adquiriu, com toda a perfeição, todas as boas qualidades essenciais do Senhor.
Rantideva: Um rei antigo, anterior ao período do Mahābhārata, a quem Nārada Muni se referiu enquanto instruía Sañjaya, como se menciona no Mahābhārata (Droṇa-parva 67). Era um grande rei, liberal na hospitalidade e distribuição de alimentos. Mesmo o Senhor Śrī Kṛṣṇa louvou seus atos de caridade e hospitalidade. Foi abençoado pelo grande Vasiṣṭha Muni por ter-lhe fornecido água fresca, e, assim, ele alcançou o planeta celestial. Costumava fornecer frutas, raízes e folhas aos ṛṣis, em consequência do que foi abençoado por eles com a satisfação de seus desejos. Embora kṣatriya por nascimento, ele nunca comeu carne em sua vida. Era especialmente hospitaleiro com Vasiṣṭha Muni, e ele alcançou a residência planetária mais elevada unicamente por suas bênçãos. É um daqueles reis piedosos cujos nomes são lembrados de manhã e à noite.
Yayāti: O grande imperador do mundo e antepassado original de todas as grandes nações do mundo que pertencem ao ramo ariano e indo-europeu. É o filho de Mahārāja Nahuṣa e se tornou imperador do mundo devido ao fato de seu irmão mais velho ter-se tornado um santo místico grandioso e liberado. Governou o mundo por vários milhares de anos e realizou muitos sacrifícios e atividades piedosas registrados na história, embora sua adolescência fosse muito luxuriosa e cheia de histórias românticas. Ele se apaixonou por Devayānī, a mais querida filha de Śukrācārya. Devayānī desejava casar-se com ele, mas, de início, ele se recusou a aceitá-la porque ela era filha de um brāhmaṇa. Segundo os śāstras, um brāhmaṇa só podia desposar a filha de um brāhmaṇa. Havia muita precaução contra a população varṇa-saṅkara no mundo. Śukrācārya emendou essa lei de proibição matrimonial e induziu o imperador Yayāti a aceitar Devayānī. Devayānī tinha uma dama de companhia chamada Śarmiṣṭhā, que também se apaixonou pelo imperador e, desse modo, foi ter com sua amiga Devayānī. Śukrācārya proibira o imperador Yayāti de chamar Śarmiṣṭhā a seu dormitório, mas Yayāti não conseguiu seguir estritamente sua instrução. Ele se casou secretamente com Śarmiṣṭhā e também teve filhos com ela. Quando Devayānī ficou sabendo disso, foi até seu pai e apresentou queixa. Yayāti era muito apegado a Devayānī, e, quando foi ao local onde estava seu sogro, para chamá-la, Śukrācārya ficou irado com ele e o amaldiçoou a se tornar impotente. Yayāti suplicou a seu sogro que retirasse sua maldição, mas o sábio pediu a Yayāti que solicitasse a juventude de seus filhos e os deixasse ficarem velhos, como condição para que ele se tornasse potente. Ele tinha cinco filhos, dois de Devayānī e três de Śarmiṣṭhā. De seus cinco filhos, a saber, (1) Yadu, (2) Turvasu, (3) Druhyu, (4) Anu e (5) Pūru, cinco famosas dinastias, a saber, (1) a dinastia Yadu, (2) a dinastia Yavana (turca), (3) a dinastia Bhoja, (4) a dinastia Mleccha (grega) e (5) a dinastia Paurava, emanaram para espalhar-se por todo o mundo. Ele alcançou os planetas celestiais em virtude de seus atos piedosos, mas caiu dali por causa de sua autopromoção e por criticar outras grandes almas. Após sua queda, sua filha e seu neto lhe concederam suas virtudes acumuladas, e, com a ajuda de seu neto e de seu amigo Śibi, ele foi novamente promovido ao reino celestial, tornando-se um dos membros da assembleia de Yamarāja, com o qual permanece como um devoto. Ele executou mais de mil sacrifícios diferentes, deu caridade muito liberalmente e foi um rei muito influente. Seu majestoso poder repercutiu por todo o mundo. Seu filho caçula concordou em conceder-lhe sua juventude, mesmo por mil anos, quando ele estava em apuros com desejos luxuriosos. Por fim, ele se desapegou da vida mundana e devolveu novamente a juventude a seu filho Pūru. Ele quis legar o reino a Pūru, mas a nobreza e os súditos não concordaram. Porém, quando ele explicou a seus súditos a grandeza de Pūru, eles concordaram em aceitar Pūru como o rei, e, assim, o imperador Yayāti se retirou da vida familiar e deixou o lar rumo à floresta.
Devanagari
धृत्या बलिसम: कृष्णे प्रह्राद इव सद्ग्रह: ।
आहर्तैषोऽश्वमेधानां वृद्धानां पर्युपासक: ॥ २५ ॥
आहर्तैषोऽश्वमेधानां वृद्धानां पर्युपासक: ॥ २५ ॥
Verse text
dhṛtyā bali-samaḥ kṛṣṇe
prahrāda iva sad-grahaḥ
āhartaiṣo ’śvamedhānāṁ
vṛddhānāṁ paryupāsakaḥ
prahrāda iva sad-grahaḥ
āhartaiṣo ’śvamedhānāṁ
vṛddhānāṁ paryupāsakaḥ
Synonyms
dhṛtyā — pela paciência; bali-samaḥ — como Bali Mahārāja; kṛṣṇe — ao Senhor Śrī Kṛṣṇa; prahrāda — Prahlāda Mahārāja; iva — como; sat-grahaḥ — devoto de; āhartā — realizador; eṣaḥ — esta criança; aśvamedhānām — de sacrifícios Aśvamedha; vṛddhānām — dos homens velhos e experientes; paryupāsakaḥ — seguidor.
Translation
Esta criança será como Bali Mahārāja em paciência, um devoto resoluto do Senhor Kṛṣṇa como Prahlāda Mahārāja, um realizador de muitos sacrifícios aśvamedha [cavalo] e um seguidor dos homens idosos e experientes.
Purport
SIGNIFICADO—Bali Mahārāja: Uma das doze autoridades no serviço devocional ao Senhor. Bali Mahārāja é uma grande autoridade no serviço devocional porque sacrificou tudo para satisfazer o Senhor e abandonou a ligação com seu assim chamado mestre espiritual, que o impedia no caminho de arriscar tudo para o serviço do Senhor. A perfeição máxima da vida religiosa é alcançar o estágio de serviço devocional desinteressado ao Senhor, sem qualquer causa ou sem ser obstruído por qualquer espécie de obrigação mundana. Bali Mahārāja estava determinado a abandonar tudo para a satisfação do Senhor, e não se importou com qualquer obstrução que fosse. Ele é o neto de Prahlāda Mahārāja, outra autoridade no serviço devocional do Senhor. Bali Mahārāja e sua história com Viṣṇu Vāmanadeva são descritos no oitavo canto do Śrīmad-Bhāgavatam (capítulos de 11 a 24).
Prahlāda Mahārāja: Um devoto perfeito do Senhor Kṛṣṇa (Viṣṇu). Seu pai, Hiraṇyakaśipu, castigou-o severamente quando ele tinha apenas cinco anos de idade, por ter-se convertido num devoto imaculado do Senhor. Era o primeiro filho de Hiraṇyakaśipu, e o nome de sua mãe era Kayādhu. Prahlāda Mahārāja era uma autoridade no serviço devocional do Senhor porque teve seu pai morto pelo Senhor Nṛsiṁhadeva, estabelecendo o exemplo de que mesmo um pai deve ser afastado do caminho do serviço devocional se esse pai acontece de ser um obstáculo. Ele teve quatro filhos, e o filho mais velho, Virocana, é o pai de Bali Mahārāja, mencionado acima. A história das atividades de Prahlāda Mahārāja é descrita no sétimo canto do Śrīmad-Bhāgavatam.
Devanagari
राजर्षीणां जनयिता शास्ता चोत्पथगामिनाम् ।
निग्रहीता कलेरेष भुवो धर्मस्य कारणात् ॥ २६ ॥
निग्रहीता कलेरेष भुवो धर्मस्य कारणात् ॥ २६ ॥
Verse text
rājarṣīṇāṁ janayitā
śāstā cotpatha-gāminām
nigrahītā kaler eṣa
bhuvo dharmasya kāraṇāt
śāstā cotpatha-gāminām
nigrahītā kaler eṣa
bhuvo dharmasya kāraṇāt
Synonyms
Translation
Esta criança será o pai de reis que serão como sábios. Em prol da paz do mundo e para o benefício da religião, será o castigador dos presunçosos e daqueles que buscam desavenças.
Purport
SIGNIFICADO—Um devoto do Senhor é o homem mais sábio do mundo. Os sábios são chamados de homens prudentes, e há diferentes tipos de homens prudentes para diferentes ramos de conhecimento. Portanto, a menos que o rei ou líder do estado seja o homem mais prudente, ele não pode controlar todos os tipos de homens prudentes do estado. Na linha da sucessão real na família de Mahārāja Yudhiṣṭhira, todos os reis, sem exceção, eram os homens mais sábios de suas épocas, o que também se prediz a respeito de Mahārāja Parīkṣit e seu filho Mahārāja Janamejaya, que ainda estava por nascer. Tais homens sábios podem tornar-se os castigadores dos presunçosos e destruidores de Kali, ou elementos belicosos. Como ficará claro nos capítulos adiante, Mahārāja Parīkṣit quis matar o Kali personificado, que tentava matar uma vaca, o símbolo da paz e religião. Os sintomas de Kali são (1) vinho, (2) mulheres, (3) jogos e (4) matadouros. Os governantes sábios de todos os estados devem tomar as lições de Mahārāja Parīkṣit sobre como manter a paz e moralidade, subjugando as pessoas arrogantes e belicosas que se entregam ao vinho, mantêm relações ilícitas com mulheres, jogam e comem carne, fornecida por matadouros mantidos regularmente. Nesta era de Kali, concedem-se licenças regulares para a manutenção de todos esses diferentes departamentos de desavenças. Como eles podem, então, esperar paz e moralidade no estado? Os pais do estado, portanto, devem seguir os princípios de se tornarem mais sábios através da devoção ao Senhor, castigando os violadores da disciplina e desarraigando os sintomas das desavenças, como são mencionados acima. Se queremos fogo abrasante, temos que usar combustível seco. Fogo abrasante e combustível líquido não se combinam bem. A paz e a moralidade só podem prosperar com os princípios de Mahārāja Parīkṣit e seus seguidores.
Devanagari
तक्षकादात्मनो मृत्युं द्विजपुत्रोपसर्जितात् ।
प्रपत्स्यत उपश्रुत्य मुक्तसङ्ग: पदं हरे: ॥ २७ ॥
प्रपत्स्यत उपश्रुत्य मुक्तसङ्ग: पदं हरे: ॥ २७ ॥
Verse text
takṣakād ātmano mṛtyuṁ
dvija-putropasarjitāt
prapatsyata upaśrutya
mukta-saṅgaḥ padaṁ hareḥ
dvija-putropasarjitāt
prapatsyata upaśrutya
mukta-saṅgaḥ padaṁ hareḥ
Synonyms
Translation
Após ouvir sobre sua morte, que será causada pela picada de uma serpente alada enviada pelo filho de um brāhmaṇa, ele se livrará de todo o apego material e se renderá à Personalidade de Deus, refugiando-se nEle.
Purport
SIGNIFICADO—Apego material e refúgio aos pés de lótus do Senhor são coisas que não se combinam. Apego material significa ignorância da felicidade transcendental sob o abrigo do Senhor. O serviço devocional ao Senhor, enquanto existe no mundo material, é um meio de praticar nossa relação transcendental com o Senhor, e, quando esse serviço amadurece, livramo-nos completamente de todo apego material e tornamo-nos competentes para voltar ao lar, voltar ao Supremo. Mahārāja Parīkṣit, sendo especialmente apegado ao Senhor desde o começo de seu corpo no ventre de sua mãe, estava continuamente sob o abrigo do Senhor, e o assim chamado aviso de sua morte dentro de sete dias a partir da data da maldição do filho do brāhmaṇa foi uma dádiva para ele, para capacitá-lo a preparar-se para voltar ao lar, voltar ao Supremo. Uma vez que ele era sempre protegido pelo Senhor, ele poderia ter evitado o efeito de tal maldição pela graça do Senhor, mas não quis, por nada, fazer uso dessa vantagem indevida. Ao contrário, ele tirou o melhor proveito de um mau negócio. Por sete dias, continuamente, ele ouviu o Śrīmad-Bhāgavatam da fonte certa e, através dessa circunstância, obteve refúgio aos pés de lótus do Senhor.
Devanagari
जिज्ञासितात्मयाथार्थ्यो मुनेर्व्याससुतादसौ ।
हित्वेदं नृप गङ्गायां यास्यत्यद्धाकुतोभयम् ॥ २८ ॥
हित्वेदं नृप गङ्गायां यास्यत्यद्धाकुतोभयम् ॥ २८ ॥
Verse text
jijñāsitātma-yāthārthyo
muner vyāsa-sutād asau
hitvedaṁ nṛpa gaṅgāyāṁ
yāsyaty addhākutobhayam
muner vyāsa-sutād asau
hitvedaṁ nṛpa gaṅgāyāṁ
yāsyaty addhākutobhayam
Synonyms
jijñāsita — tendo perguntado sobre; ātma-yāthārthyaḥ — conhecimento correto de nosso próprio eu; muneḥ — do filósofo erudito; vyāsa-sutāt — o filho de Vyāsa; asau — ele; hitvā — abandonando; idam — esse apego material; nṛpa — o rei; gaṅgāyām — às margens do Ganges; yāsyati — irá; addhā — diretamente; akutaḥ-bhayam — a vida de destemor.
Translation
Após perguntar sobre o autoconhecimento apropriado ao filho de Vyāsadeva, que será um grande filósofo, ele renunciará a todo apego material e alcançará uma vida de destemor.
Purport
SIGNIFICADO—Conhecimento material significa ignorância do conhecimento de nosso próprio eu. Filosofia significa buscar o conhecimento correto de nosso próprio eu, ou o conhecimento da autorrealização. Sem autorrealização, a filosofia é especulação seca ou um desperdício de tempo e energia. O Śrīmad-Bhāgavatam dá o conhecimento certo de nosso próprio eu, e, ouvindo o Śrīmad-Bhāgavatam, podemos livrar-nos do apego material e entrar no reino do destemor. Este mundo material é assombroso. Seus prisioneiros são sempre temerosos como se estivessem dentro de um presídio. No presídio, ninguém pode violar as regras e regulações da cela, pois violar as regras significa agravar e estender a vida presidiária. Similarmente, nesta existência material, estamos sempre temerosos. Esse temor se chama ansiedade. Todos na vida material, em todas as espécies e variedades de vida, estão cheios de ansiedades, quer violem, quer não violem as leis da natureza. Liberação, ou mukti, significa aliviar-se dessas constantes ansiedades. Isso só é possível quando a ansiedade se converte em serviço devocional ao Senhor. O Śrīmad-Bhāgavatam nos dá a oportunidade de mudar a qualidade da ansiedade da matéria para o espírito. Isso é feito na associação de filósofos eruditos, como o autorrealizado Śukadeva Gosvāmī, o grande filho de Śrī Vyāsadeva. Mahārāja Parīkṣit, após receber aviso de sua morte, aproveitou-se dessa oportunidade através da associação com Śukadeva Gosvāmī e alcançou o resultado desejado.
Há uma espécie de imitação dessa recitação e audição do Śrīmad-Bhāgavatam, feita por profissionais, e sua audiência tola pensa que se livrará das garras do apego material e alcançará a vida de destemor. Essa audição imitativa do Śrīmad-Bhāgavatam é apenas uma caricatura, e ninguém deve se deixar desencaminhar por tal apresentação de bhāgavata-saptāha levada a cabo por indivíduos ridículos e cobiçosos, para manterem um estilo de vida de desfrute material.
Devanagari
इति राज्ञ उपादिश्य विप्रा जातककोविदा: ।
लब्धापचितय: सर्वे प्रतिजग्मु: स्वकान् गृहान् ॥ २९ ॥
लब्धापचितय: सर्वे प्रतिजग्मु: स्वकान् गृहान् ॥ २९ ॥
Verse text
iti rājña upādiśya
viprā jātaka-kovidāḥ
labdhāpacitayaḥ sarve
pratijagmuḥ svakān gṛhān
viprā jātaka-kovidāḥ
labdhāpacitayaḥ sarve
pratijagmuḥ svakān gṛhān
Synonyms
iti — assim; rājñe — ao rei; upādiśya — tendo aconselhado; viprāḥ — pessoas bem versadas nos Vedas; jātaka-kovidāḥ — pessoas peritas em astrologia e na execução de cerimônias de nascimento; labdha-apacitayaḥ — aqueles que receberam remuneração suntuosa; sarve — todos eles; pratijagmuḥ — voltaram; svakān — suas próprias; gṛhān — casas.
Translation
Assim, aqueles que eram peritos em conhecimento astrológico e na execução da cerimônia de nascimento instruíram o rei Yudhiṣṭhira sobre a história futura de seu neto. Então, sendo suntuosamente remunerados, todos retornaram a seus respectivos lares.
Purport
SIGNIFICADO—Os Vedas são o reservatório do conhecimento, material e espiritual. Entretanto, esse conhecimento visa à perfeição da autorrealização. Em outras palavras, os Vedas são os guias para o homem civilizado, sob todos os aspectos. Uma vez que a vida humana é a oportunidade de livrar-se de todas as misérias materiais, ela é orientada apropriadamente pelo conhecimento dos Vedas, no que diz respeito às necessidades materiais e à salvação espiritual. A específica classe inteligente de homens, que eram devotados particularmente ao conhecimento dos Vedas, chamava-se vipras, ou os graduados no conhecimento védico. Há diferentes ramos de conhecimento nos Vedas, dos quais a astrologia e a patologia são dois ramos importantes, necessários para o homem comum. Assim, os homens inteligentes, geralmente conhecidos como brāhmaṇas, dispunham de todos os ramos do conhecimento védico para orientar a sociedade. Mesmo o ramo da educação militar (dhanur-veda) também era adotado por esses homens inteligentes, e os vipras também eram professores dessa seção de conhecimento, como o eram Droṇācārya, Kṛpācārya etc.
A palavra vipra aqui mencionada é significativa. Há uma pequena diferença entre os vipras e os brāhmaṇas. Os vipras são aqueles que são peritos em karma-kāṇḍa, ou atividades fruitivas, orientando a sociedade rumo à satisfação das necessidades materiais da vida, ao passo que os brāhmaṇas são peritos no conhecimento espiritual da transcendência. Esse ramo de conhecimento se chama jñāna-kāṇḍa, e, acima dele, está upāsanā-kāṇḍa. A culminação de upāsanā-kāṇḍa é o serviço devocional ao Senhor Viṣṇu, e, quando os brāhmaṇas alcançam a perfeição, eles são chamados de vaiṣṇavas. A adoração a Viṣṇu é o modo mais elevado de adoração. Os brāhmaṇas elevados são vaiṣṇavas ocupados no transcendental serviço amoroso ao Senhor, e, assim, o Śrīmad-Bhāgavatam, que é a ciência do serviço devocional, é muito querido pelos vaiṣṇavas. E como se explica no início do Śrīmad-Bhāgavatam, ele é o fruto maduro do conhecimento védico e é o tema superior, acima dos três kāṇḍas, a saber, karma, jñāna e upāsanā.
Entre os peritos em karma-kāṇḍa, os vipras peritos em jātaka eram bons astrólogos que podiam dizer toda a história futura de uma criança recém-nascida, simplesmente através de cálculos astrais do momento (lagna). Esses jātaka-vipras peritos estiveram presentes durante o nascimento de Mahārāja Parīkṣit, e seu avô, Mahārāja Yudhiṣṭhira, recompensou os vipras suficientemente com ouro, terras, vilas, cereais e outras coisas valiosas necessárias à vida, que também incluem as vacas. Há necessidade de tais vipras na estrutura social, e é dever do estado mantê-los confortavelmente, como se designa no procedimento védico. Esses vipras especializados, sendo pagos suficientemente pelo estado, podiam prestar serviço gratuito às pessoas em geral, e seu ramo de conhecimento védico, dessa maneira, podia estar acessível a todos.
Devanagari
स एष लोके विख्यात: परीक्षिदिति यत्प्रभु: ।
पूर्वं दृष्टमनुध्यायन् परीक्षेत नरेष्विह ॥ ३० ॥
पूर्वं दृष्टमनुध्यायन् परीक्षेत नरेष्विह ॥ ३० ॥
Verse text
sa eṣa loke vikhyātaḥ
parīkṣid iti yat prabhuḥ
pūrvaṁ dṛṣṭam anudhyāyan
parīkṣeta nareṣv iha
parīkṣid iti yat prabhuḥ
pūrvaṁ dṛṣṭam anudhyāyan
parīkṣeta nareṣv iha
Synonyms
Translation
Assim, seu neto se tornaria famoso no mundo como Parīkṣit [o examinador], pois viria para examinar todos os seres humanos em busca daquela personalidade que havia visto antes de seu nascimento. Desse modo, acabaria por contemplá-lO constantemente.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Parīkṣit, afortunado como era, obteve a impressão do Senhor mesmo no ventre de sua mãe, de modo que sua contemplação do Senhor o acompanhava constantemente. Uma vez que a impressão da forma transcendental do Senhor se fixe na mente de alguém, não se pode mais esquecê-lO em nenhuma circunstância. Após sair do ventre, o bebê Parīkṣit tinha o hábito de examinar a todos para ver se eram aquela personalidade que vira primeiramente no ventre. Porém, ninguém podia ser igualmente ou mais atrativo que o Senhor, e, portanto, ele nunca reconheceu ninguém. Mas o Senhor estava constantemente com ele através de tal averiguação, e Mahārāja Parīkṣit, desse modo, estava sempre ocupado no serviço devocional ao Senhor através da lembrança.
Śrīla Jīva Gosvāmī salienta a este respeito que toda criança, se recebe uma impressão do Senhor desde o comecinho da infância, certamente se torna um grande devoto do Senhor, como Mahārāja Parīkṣit. Pode ser que não sejamos tão afortunados como Mahārāja Parīkṣit de ter a oportunidade de ver o Senhor no ventre de nossa mãe, mas, mesmo que não sejamos tão afortunados, podemos sê-lo se nossos pais assim o desejam. A esse respeito, há um exemplo prático em minha vida pessoal. Meu pai era um devoto puro do Senhor e, quando eu tinha apenas quatro ou cinco anos de idade, meu pai me deu um par das formas de Rādhā e Kṛṣṇa. Por brincadeira, eu costumava adorar essas Deidades junto com minha irmã, e costumava imitar as cerimônias de um templo vizinho de Rādhā-Govinda. Por visitar constantemente esse templo vizinho e copiar as cerimônias com minhas próprias Deidades de brinquedo, desenvolvi uma afinidade natural pelo Senhor. Meu pai costumava observar todas as cerimônias adequadas à minha posição. Mais tarde, essas atividades foram suspensas devido à minha frequência nas escolas e faculdades, e fiquei completamente sem prática. Em minha juventude, no entanto, encontrei meu mestre espiritual, Śrī Śrīmad Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī Mahārāja, e novamente revivi meu velho hábito, e as mesmas Deidades de brinquedo se tornaram minhas Deidades adoráveis com regulação apropriada. Isso perdurou até que deixei minha ligação familiar, e estou satisfeito de que meu generoso pai tenha me dado a primeira impressão que mais tarde se desenvolveu em serviço devocional regulador, por intermédio de Sua Divina Graça. Mahārāja Prahlāda também aconselhou que essas impressões da relação divina devem ser impregnadas desde o começo da infância, pois, de outra forma, podemos perder a oportunidade da forma humana de vida, que é muito valiosa, embora seja temporária como as outras.
Devanagari
स राजपुत्रो ववृधे आशु शुक्ल इवोडुप: ।
आपूर्यमाण: पितृभि: काष्ठाभिरिव सोऽन्वहम् ॥ ३१ ॥
आपूर्यमाण: पितृभि: काष्ठाभिरिव सोऽन्वहम् ॥ ३१ ॥
Verse text
sa rāja-putro vavṛdhe
āśu śukla ivoḍupaḥ
āpūryamāṇaḥ pitṛbhiḥ
kāṣṭhābhir iva so ’nvaham
āśu śukla ivoḍupaḥ
āpūryamāṇaḥ pitṛbhiḥ
kāṣṭhābhir iva so ’nvaham
Synonyms
Translation
Assim como a Lua, em sua quinzena crescente, desenvolve-se dia após dia, o príncipe real [Parīkṣit] muito rapidamente se desenvolveu com exuberância sob os cuidados e plenas facilidades de seus avós tutores.
Devanagari
यक्ष्यमाणोऽश्वमेधेन ज्ञातिद्रोहजिहासया ।
राजा लब्धधनो दध्यौ नान्यत्र करदण्डयो: ॥ ३२ ॥
राजा लब्धधनो दध्यौ नान्यत्र करदण्डयो: ॥ ३२ ॥
Verse text
yakṣyamāṇo ’śvamedhena
jñāti-droha-jihāsayā
rājā labdha-dhano dadhyau
nānyatra kara-daṇḍayoḥ
jñāti-droha-jihāsayā
rājā labdha-dhano dadhyau
nānyatra kara-daṇḍayoḥ
Synonyms
yakṣyamāṇaḥ — desejando realizar; aśvamedhena — pela cerimônia de sacrifício de cavalo; jñāti-droha — luta com parentes; jihāsayā — para se livrar; rājā — rei Yudhiṣṭhira; labdha-dhanaḥ — para obter alguma riqueza; dadhyau — pensava nisso; na anyatra — não de outra forma; kara-daṇḍayoḥ — impostos e multas.
Translation
Justamente nesta época, Mahārāja Yudhiṣṭhira estava pensando na realização de um sacrifício de cavalo para se livrar dos pecados cometidos durante a luta contra seus parentes. Mas ficou ansioso por obter alguma riqueza, pois não havia fundos extras além da coleta de multas e impostos.
Purport
SIGNIFICADO—Assim como os brāhmaṇas e vipras tinham direito de serem subvencionados pelo estado, o chefe executivo do estado tinha o direito de arrecadar impostos e multas junto aos cidadãos. Após a Guerra de Kurukṣetra, o tesouro do estado estava esgotado, e, portanto, não havia fundo extra, exceto o fundo da arrecadação de impostos e multas. Esses fundos eram suficientes apenas para o orçamento do estado, e, não havendo fundo excedente, o rei estava ansioso por obter mais riquezas de alguma outra maneira, para executar o sacrifício de cavalo. Mahārāja Yudhiṣṭhira queria executar esse sacrifício sob a instrução de Bhiṣmadeva.
Devanagari
तदभिप्रेतमालक्ष्य भ्रातरोऽच्युतचोदिता: ।
धनं प्रहीणमाजह्रुरुदीच्यां दिशि भूरिश: ॥ ३३ ॥
धनं प्रहीणमाजह्रुरुदीच्यां दिशि भूरिश: ॥ ३३ ॥
Verse text
tad abhipretam ālakṣya
bhrātaro ’cyuta-coditāḥ
dhanaṁ prahīṇam ājahrur
udīcyāṁ diśi bhūriśaḥ
bhrātaro ’cyuta-coditāḥ
dhanaṁ prahīṇam ājahrur
udīcyāṁ diśi bhūriśaḥ
Synonyms
Translation
Entendendo os desejos do coração do rei, seus irmãos, conforme foram aconselhados pelo infalível Senhor Kṛṣṇa, coletaram suficientes riquezas do norte [deixadas pelo rei Marutta].
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Marutta: Um dos grandes imperadores do mundo. Reinou sobre o mundo antes do reinado de Mahārāja Yudhiṣṭhira. Era filho de Mahārāja Avikṣit e era um grande devoto do filho do deus do Sol, conhecido como Yamarāja. Seu irmão Samvarta era um sacerdote rival do grande Bṛhaspati, o erudito sacerdote dos semideuses. Ele conduziu um sacrifício chamado saṅkara-yajña, com o qual o Senhor ficou tão satisfeito que teve prazer de transmitir-lhe a posse de um pico de montanha de ouro. Esse pico de ouro encontra-se em alguma parte das montanhas dos Himālayas, e os aventureiros modernos podem tentar encontrá-lo ali. Ele era um imperador tão poderoso que, no fim dos dias de sacrifício, os semideuses de outros planetas, como Indra, Candra e Bṛhaspati costumavam visitar seu palácio. E porque tinha o pico de ouro à sua disposição, ele possuía ouro o suficiente. O dossel do altar de sacrifício era todo feito de ouro. Em suas realizações diárias de cerimônias sacrificiais, alguns dos habitantes de Vāyuloka (planetas aéreos) eram convidados para acelerar o trabalho de cozinha da cerimônia. E a assembleia de semideuses na cerimônia era liderada por Viśvadeva.
Através de seu constante trabalho piedoso, ele era capaz de afastar todas as espécies de doença da jurisdição de seu reino. Todos os habitantes dos planetas superiores, como Devaloka e Pitṛloka, ficaram satisfeitos com ele devido a suas grandes cerimônias de sacrifício. Todos os dias, ele costumava dar em caridade aos brāhmaṇas eruditos coisas tais como roupas de cama e colchões, assentos, carruagens e quantidades suficientes de ouro. Devido às caridades munificentes e execuções de inúmeros sacrifícios, o rei do céu, Indradeva, estava plenamente satisfeito com ele e sempre desejava seu bem-estar. Por causa de suas atividades piedosas, ele permaneceu um homem jovem por toda a sua vida e reinou sobre o mundo durante mil anos, cercado de seus súditos satisfeitos, ministros, esposa legítima, filhos e irmãos. Mesmo o Senhor Śrī Kṛṣṇa elogiou seu espírito de atividades piedosas. Ele deu a mão de sua filha única a Maharṣi Aṅgirā, por cujas boas bênçãos ele foi elevado ao reino celestial. A princípio, ele quis oferecer o sacerdócio de seu sacrifício ao erudito Bṛhaspati, mas o semideus se recusou a aceitar o posto porque o rei era um ser humano, um homem desta Terra. Ele ficou muito triste com isso, mas, a conselho de Nārada Muni, apontou Samvarta para o posto, o qual foi bem-sucedido em sua missão.
O êxito de um tipo particular de sacrifício depende do sacerdote encarregado. Nesta era, todos os tipos de sacrifícios são proibidos porque não há sacerdotes eruditos entre os assim chamados brāhmaṇas, que se guiam pela falsa noção de se tornarem filhos de brāhmaṇas sem terem as qualificações bramânicas. Nesta era de Kali, portanto, apenas um tipo de sacrifício é recomendado, o saṅkīrtana-yajña, conforme foi inaugurado pelo Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu.
Devanagari
तेन सम्भृतसम्भारो धर्मपुत्रो युधिष्ठिर: ।
वाजिमेधैस्त्रिभिर्भीतो यज्ञै: समयजद्धरिम् ॥ ३४ ॥
वाजिमेधैस्त्रिभिर्भीतो यज्ञै: समयजद्धरिम् ॥ ३४ ॥
Verse text
tena sambhṛta-sambhāro
dharma-putro yudhiṣṭhiraḥ
vājimedhais tribhir bhīto
yajñaiḥ samayajad dharim
dharma-putro yudhiṣṭhiraḥ
vājimedhais tribhir bhīto
yajñaiḥ samayajad dharim
Synonyms
tena — com aquela riqueza; sambhṛta — coletou; sambhāraḥ — ingredientes; dharma-putraḥ — o rei piedoso; yudhiṣṭhiraḥ — Yudhiṣṭhira; vājimedhaiḥ — pelos sacrifícios de cavalo; tribhiḥ — três vezes; bhītaḥ — estando muito temeroso após a Batalha de Kurukṣetra; yajñaiḥ — sacrifícios; samayajat — perfeitamente adorada; harim — a Personalidade de Deus.
Translation
Com aquelas riquezas, o rei pôde obter os ingredientes para três sacrifícios de cavalo. Assim, o piedoso rei Yudhiṣṭhira, que estava muito temeroso após a Batalha de Kurukṣetra, satisfez o Senhor Hari, a Personalidade de Deus.
Purport
SIGNIFICADO—Mahārāja Yudhiṣṭhira era o ideal e célebre rei piedoso do mundo e, ainda assim, estava muito temeroso após a execução da Batalha de Kurukṣetra, por causa da matança em massa na luta, toda a qual fora feita apenas para instalá-lo no trono. Portanto, ele tomou para si toda a responsabilidade pelos pecados cometidos na guerra, e, para livrar-se de todos aqueles pecados, ele queria executar três sacrifícios nos quais se oferecem cavalos no altar. Um sacrifício desse tipo é muito dispendioso. Mahārāja Yudhiṣṭhira teve até mesmo que coletar os montes de ouro deixados por Mahārāja Marutta e pelos brāhmaṇas que receberam ouro em caridade de Mahārāja Marutta. Os brāhmaṇas eruditos não puderam levar todos os carregamentos de ouro dados por Mahārāja Marutta e, portanto, deixaram para trás a maior parte do presente. E Mahārāja Marutta também não recolheu novamente essas pilhas de ouro dadas em caridade. Além disso, todos os pratos e utensílios de ouro usados no sacrifício também foram atirados nos baldes de lixo, e todas aquelas pilhas de ouro permaneceram por longo tempo sem que ninguém reclamasse sua propriedade, até que Mahārāja Yudhiṣṭhira as coletou para seu próprio interesse. O Senhor Śrī Kṛṣṇa aconselhou os irmãos de Mahārāja Yudhiṣṭhira a coletarem a propriedade não reivindicada, porque ela pertencia ao rei. O que há de mais espantoso é que nenhum súdito do estado havia coletado esse ouro não reivindicado para empreendimentos industriais ou algo semelhante. Isso significa que os cidadãos do estado estavam completamente satisfeitos com todas as coisas necessárias para a vida e, portanto, não tinham a tendência de aceitar esforços produtivos desnecessários, para o gozo dos sentidos. Mahārāja Yudhiṣṭhira também requisitou as pilhas de ouro para a execução de sacrifícios e para satisfazer a Suprema Personalidade de Deus, Hari. De outro modo, ele não teria pensado em coletá-las para o tesouro do estado.
Devemos tirar lições dos atos de Mahārāja Yudhiṣṭhira. Ele estava temeroso dos pecados cometidos no campo de batalha e, por causa disso, quis satisfazer a autoridade suprema. Isso indica que pecados não intencionais também são cometidos em nosso desempenho diário de deveres ocupacionais, e, para neutralizar esses crimes involuntários, devemos executar sacrifícios, conforme são recomendados nas escrituras reveladas. O Senhor diz na Bhagavad-gītā (yajñārthāt karmaṇo ’nyatra loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ) que devemos executar sacrifícios recomendados nas escrituras para nos livrarmos dos comprometimentos de todo trabalho desautorizado, ou mesmo dos crimes involuntários que possamos cometer. Por fazer isso, nós nos livraremos de todos os tipos de pecados. E aqueles que não o fazem, mas trabalham para o interesse próprio ou para o gozo dos sentidos, têm que se submeter a todas as tribulações decorrentes dos pecados cometidos. Portanto, o principal propósito da execução de sacrifícios é satisfazer a Personalidade Suprema, Hari. O processo de execução de sacrifícios pode ser diferente de acordo com diferentes épocas, lugares e pessoas, mas a meta desses sacrifícios é a mesma em todos os tempos e em todas as circunstâncias, isto é, a satisfação do Supremo Senhor Hari. Este é o caminho da vida piedosa, e este é o caminho da paz e prosperidade em todo o mundo. Mahārāja Yudhiṣṭhira fez tudo isso como o rei piedoso ideal do mundo.
Se Mahārāja Yudhiṣṭhira é um pecador no desempenho diário de seus deveres, na administração real dos afazeres do estado, na qual a matança de homens e animais é uma arte reconhecida, então podemos simplesmente imaginar a soma de pecados cometidos consciente ou inconscientemente pela população destreinada de Kali-yuga, que não tem nenhuma maneira de executar sacrifícios para satisfazer o Senhor Supremo. O Bhāgavatam (1.2.13) diz, portanto, que o dever primordial do ser humano é satisfazer o Senhor Supremo através da execução de seu dever ocupacional.
Que qualquer homem de qualquer lugar ou comunidade, casta ou credo, se ocupe em qualquer espécie de dever ocupacional, mas ele deve concordar em executar sacrifícios conforme são recomendados nas escrituras para o lugar, tempo e pessoa em particular. Nas literaturas védicas, recomenda-se que, em Kali-yuga, as pessoas se ocupem em glorificar o Senhor cantando o santo nome de Kṛṣṇa (kīrtanād eva kṛṣṇasya mukta-saṅgaḥ paraṁ vrajet) sem ofensa. Por fazê-lo, podemos nos livrar de todos os pecados e, assim, alcançar a perfeição máxima da vida, retornando ao lar, de volta ao Supremo. Já discutimos isso mais de uma vez nesta grande literatura, em diferentes passagens, especialmente na parte introdutória, ao resumir a vida do Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu, e ainda estamos repetindo o mesmo, visando a trazer paz e prosperidade à sociedade.
O Senhor declara abertamente na Bhagavad-gītā como Ele fica satisfeito conosco, e o mesmo processo é demonstrado praticamente na vida e no trabalho de pregação do Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu. O processo perfeito de realizar yajñas, ou sacrifícios, para satisfazer o Supremo Senhor Hari (a Personalidade de Deus, que nos livra de todas as misérias da existência) é seguir os caminhos do Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu nesta escura era de disputas e dissenções.
Mahārāja Yudhiṣṭhira teve de coletar pilhas de ouro para garantir a parafernália para os yajñas de sacrifícios de cavalos nos dias de abundância; assim, dificilmente podemos pensar em tais execuções de yajñas nestes dias de insuficiência e completa escassez de ouro. No momento atual, temos pilhas de papéis e promessas de que serão convertidos em ouro através do desenvolvimento econômico da civilização moderna. E, ainda assim, não há possibilidade de gastar riquezas como Mahārāja Yudhiṣṭhira, seja individual ou coletivamente, ou pelo patrocínio do estado. Portanto, o método justamente apropriado para esta era é o recomendado pelo Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu, de acordo com o śāstra. Esse método não requer absolutamente nenhuma despesa, apesar do que pode conceder mais benefício que outros métodos dispendiosos de execuções de yajñas.
O yajña do sacrifício de cavalo, ou o yajña do sacrifício de vaca, executados através das regulações védicas, não devem ser entendidos erroneamente como um processo de matança de animais. Ao contrário, os animais oferecidos para o yajña eram rejuvenescidos por um novo período de vida, através do poder transcendental do canto de hinos védicos, os quais, se adequadamente cantados, são diferentes daquilo que é compreendido pelo leigo comum. Os mantras védicos são todos práticos, e a prova disso é o rejuvenescimento do animal sacrificado.
Não há possibilidade de tal canto metódico dos hinos védicos por parte dos supostos brāhmaṇas ou sacerdotes da era atual. Os descendentes destreinados das famílias dos duas vezes nascidos já não são como seus antepassados e, assim, contam como śūdras, ou homens nascidos uma vez. O homem nascido uma vez é incapaz de cantar os hinos védicos, de modo que não há utilidade prática em se cantarem os hinos originais.
E, para salvar a todos, o Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu propôs o movimento de saṅkīrtana, ou yajña, para todos os propósitos práticos, e as pessoas da era atual são energicamente aconselhadas a seguirem este caminho seguro e reconhecido.
Devanagari
आहूतो भगवान् राज्ञा याजयित्वा द्विजैर्नृपम् ।
उवास कतिचिन्मासान् सुहृदां प्रियकाम्यया ॥ ३५ ॥
उवास कतिचिन्मासान् सुहृदां प्रियकाम्यया ॥ ३५ ॥
Verse text
āhūto bhagavān rājñā
yājayitvā dvijair nṛpam
uvāsa katicin māsān
suhṛdāṁ priya-kāmyayā
yājayitvā dvijair nṛpam
uvāsa katicin māsān
suhṛdāṁ priya-kāmyayā
Synonyms
āhūtaḥ — tendo sido chamado por; bhagavān — Senhor Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus; rājñā — pelo rei; yājayitvā — fez com que se executasse; dvijaiḥ — pelos brāhmaṇas eruditos; nṛpam — em benefício do rei; uvāsa — residiu; katicit — alguns; māsān — meses; suhṛdām — por causa dos parentes; priya-kāmyayā — para o prazer.
Translation
O Senhor Śrī Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus, tendo sido convidado aos sacrifícios por Mahārāja Yudhiṣṭhira, cuidou para que eles fossem executados por brāhmaṇas qualificados [duas vezes nascidos]. Depois disso, para o prazer dos parentes, o Senhor permaneceu ali por alguns meses.
Purport
SIGNIFICADO—O Senhor Śrī Kṛṣṇa foi convidado por Mahārāja Yudhiṣṭhira a zelar pela supervisão das execuções do yajña, e o Senhor, para obedecer às ordens de Seu primo mais velho, fez que a execução do yajña fosse levada a cabo por brāhmaṇas duas vezes nascidos. O simples nascimento na família de um brāhmaṇa não qualifica ninguém a executar yajñas. A pessoa tem que ser duas vezes nascida através de treinamento adequado e iniciação pelo ācārya autêntico. Os descendentes nascidos uma vez das famílias de brāhmaṇas são iguais aos śūdras nascidos uma vez, e tais brahma-bandhus, ou descendentes desqualificados nascidos uma vez, devem ser rejeitados de qualquer maneira das cerimônias religiosas ou védicas. O Senhor Śrī Kṛṣṇa foi encarregado de providenciar esse arranjo e, perfeito como Ele é, fez que os yajñas fossem efetuados pelos brāhmaṇas duas vezes nascidos e fidedignos, para o sucesso da execução.
Devanagari
ततो राज्ञाभ्यनुज्ञात: कृष्णया सह बन्धुभि: ।
ययौ द्वारवतीं ब्रह्मन् सार्जुनो यदुभिर्वृत: ॥ ३६ ॥
ययौ द्वारवतीं ब्रह्मन् सार्जुनो यदुभिर्वृत: ॥ ३६ ॥
Verse text
tato rājñābhyanujñātaḥ
kṛṣṇayā saha-bandhubhiḥ
yayau dvāravatīṁ brahman
sārjuno yadubhir vṛtaḥ
kṛṣṇayā saha-bandhubhiḥ
yayau dvāravatīṁ brahman
sārjuno yadubhir vṛtaḥ
Synonyms
tataḥ — depois disso; rājñā — pelo rei; abhyanujñātaḥ — recebendo permissão; kṛṣṇayā — bem como por Draupadī; saha — junto de; bandhubhiḥ — outros parentes; yayau — foram a; dvāravatīm — Dvārakā-dhāma; brahman — ó brāhmaṇas; sa-arjunaḥ — junto de Arjuna; yadubhiḥ — pelos membros da dinastia Yadu; vṛtaḥ — cercado.
Translation
Ó Śaunaka, depois disso, o Senhor, tendo-Se despedido do rei Yudhiṣṭhira, de Draupadī e outros parentes, partiu rumo à cidade de Dvārakā, acompanhado por Arjuna e outros membros da dinastia Yadu.
Purport
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do primeiro canto, décimo segundo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “O Nascimento do Imperador Parīkṣit”.