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Purport

CAPÍTULO VINTE E OITO

Kṛṣṇa Liberta Nanda Mahārāja da Morada de Varuṇa

Este capítulo descreve como o Senhor Kṛṣṇa trouxe Nanda Mahā­rāja de volta da morada de Varuṇa e como os vaqueiros viram Vaikuṇṭha.
O rei dos vaqueiros, Nanda Mahārāja, observou o jejum prescri­to do décimo primeiro dia do mês lunar e, então, considerou como quebrar o jejum da maneira certa no décimo segundo dia. Por acaso, faltavam apenas alguns minutos, então ele decidiu tomar seu banho bem no fim da noite, embora, segundo a astrologia, fosse um mo­mento inauspicioso. Assim ele entrou na água do Yamunā. Um servo de Varuṇa, o semideus do oceano, observou Nanda Mahārāja entrar na água em um momento proibido pela escritura e levou-o para a morada do semideus. De manhã bem cedo, os vaqueiros procuraram Nanda sem obter sucesso, mas o Senhor Kṛṣṇa logo entendeu a situação e foi encontrar-Se com Varuṇa. Varuṇa adorou Kṛṣṇa com grande e variada festividade. Em seguida, ele rogou ao Senhor que perdoasse seu servo por ter tolamente prendido o rei dos vaqueiros.
Nanda admirou-se de ver a influência que Śrī Kṛṣṇa exercia na corte de Varuṇadeva e, depois de voltar para casa, ele descreveu suas experiências a seus amigos e parentes. Todos eles pensaram que Kṛṣṇa devia ser a própria Suprema Personalidade de Deus e quiseram ver Sua morada suprema. Em consequência disso, a onisciente Personalidade de Deus providenciou para que eles se banhassem no mesmo lago onde Akrūra teria sua visão da Verdade Absoluta. Ali, o Senhor lhes revelou Brahmaloka, que é concebido por grandes sábios em seu transe místico.
श्रीबादरायणिरुवाच
एकादश्यां निराहार: समभ्यर्च्य जनार्दनम् । स्‍नातुं नन्दस्तु कालिन्द्यां द्वादश्यां जलमाविशत् ॥ १ ॥
śrī-bādarāyaṇir uvāca
ekādaśyāṁ nirāhāraḥ
samabhyarcya janārdanam
snātuṁ nandas tu kālindyāṁ
dvādaśyāṁ jalam āviśat

Synonyms

śrī-bādarāyaṇiḥ uvācaŚrī Bādarāyaṇi (Śukadeva Gosvāmī) disse; ekādaśyāmno Ekādaśī (o décimo primeiro dia do mês lunar); nirāhāraḥjejuando; samabhyarcyatendo adorado; janārdanamo Senhor Janārdana, a Suprema Personalidade de Deus; snātuma fim de banhar-se (antes de quebrar o jejum no seu encerramento prescri­to); nandaḥNanda Mahārāja; tumas; kālindyāmno rio Yamunā; dvādaśyāmno décimo segundo dia; jalamna água; āviśatentrou.

Translation

Śrī Bādarāyaṇi disse: Tendo adorado o Senhor Janārdana e jejuado no dia de Ekādaśī, Nanda Mahārāja entrou na água do Kālindī no dia de Dvādaśī para se banhar.
तं गृहीत्वानयद् भृत्यो वरुणस्यासुरोऽन्तिकम् । अवज्ञायासुरीं वेलां प्रविष्टमुदकं निशि ॥ २ ॥
taṁ gṛhītvānayad bhṛtyo
varuṇasyāsuro ’ntikam
avajñāyāsurīṁ velāṁ
praviṣṭam udakaṁ niśi

Synonyms

tama ele; gṛhītvācapturando; anayatlevou; bhṛtyaḥum servo; varuṇasyade Varuṇa, o senhor do mar; asuraḥdemônio; antikamà presença (de seu amo); avajñāyaque menosprezara; āsurīmo inauspicioso; velāmmomento; praviṣṭamtendo entra­do; udakamna água; niśidurante a noite.

Translation

Porque Nanda Mahārāja entrou na água na calada da noite, menosprezando que o momento era inauspicioso, um servo demoníaco de Varuṇa o capturou e o levou a seu amo.

Purport

SIGNIFICADO—Nanda Mahārāja pretendia quebrar o jejum durante o dia de Dvādaśī, para o qual só faltavam alguns minutos. Então, entrou na água para se banhar em um momento inauspicioso, antes de aparecerem os primeiros raios de luz da aurora.
Aqui se diz que o servo de Varuṇa que aprisionou Nanda Mahārāja era um asura, ou demônio, por razões óbvias. Primeiro, o servo era um tolo que ignorava a posição de Nanda Mahārāja como pai da Su­prema Verdade Absoluta em Seu passatempo. Além disso, a intenção de Nanda Mahārāja era cumprir os preceitos da escritura; logo, o servo de Varuṇa não devia ter prendido Nanda em razão da alegação técnica de que ele se banhava no Yamunā em um momento inauspicio­so. Mais adiante neste capítulo, o próprio Varuṇa dirá que ajānatā māmakena mūḍhena: “Isso foi feito por meu servo ignorante, que é um tolo.” Esse servo tolo não compreendia a posição de Kṛṣṇa, nem de Nanda Mahārāja nem do serviço devocional ao Senhor.
Em conclusão, é claro que o Senhor Kṛṣṇa queria dar uma audiên­cia pessoal a Varuṇa e, ao mesmo tempo, cumprir outros propósitos didáticos. Agora se desenrolará este maravilhoso passatempo.
चुक्रुशुस्तमपश्यन्त: कृष्ण रामेति गोपका: । भगवांस्तदुपश्रुत्य पितरं वरुणाहृतम् । तदन्तिकं गतो राजन्स्वानामभयदो विभु: ॥ ३ ॥
cukruśus tam apaśyantaḥ
kṛṣṇa rāmeti gopakāḥ
bhagavāṁs tad upaśrutya
pitaraṁ varuṇāhṛtam
tad-antikaṁ gato rājan
svānām abhaya-do vibhuḥ

Synonyms

cukruśuḥchamaram em voz alta; tama ele, Nanda; apaśyantaḥnão vendo; kṛṣṇaó Kṛṣṇa; rāmaó Rāma; itiassim; go­pakāḥos vaqueiros; bhagavāno Senhor Supremo, Kṛṣṇa; tatisto; upaśrutyaouvindo; pitaramSeu pai; varuṇapor Varuṇa; āhṛtamlevado embora; tatde Varuṇa; antikamà presença; ga­taḥfoi; rājanmeu querido rei Parīkṣit; svānāmde Seus próprios devotos; abhayao destemor; daḥaquele que dá; vibhuḥo Senhor onipotente.

Translation

Ó rei, não vendo Nanda Mahārāja, os vaqueiros gritaram em voz alta: “Ó Kṛṣṇa! Ó Rāma!” O Senhor Kṛṣṇa ouviu seus gritos e compreendeu que Seu pai fora capturado por Varuṇa. Por isso, o Senhor onipotente, que torna destemidos os Seus devo­tos, foi à corte de Varuṇadeva.

Purport

SIGNIFICADO—Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura explica que, quando foi ao rio se banhar, Nanda Mahārāja estava acompanhado de vários vaqueiros. Porque Nanda não saiu da água, eles começaram a gritar, e o Senhor Kṛṣṇa logo foi até lá. Entendendo a situação, Śrī Kṛṣṇa entrou na água e foi à corte do semideus Varuṇa, determinado a libertar Seu pai e os outros vaqueiros do temor a um mero semideus.
प्राप्तं वीक्ष्य हृषीकेशं लोकपाल: सपर्यया । महत्या पूजयित्वाह तद्दर्शनमहोत्सव: ॥ ४ ॥
prāptaṁ vīkṣya hṛṣīkeśaṁ
loka-pālaḥ saparyayā
mahatyā pūjayitvāha
tad-darśana-mahotsavaḥ

Synonyms

prāptamchegado; vīkṣyavendo; hṛṣīkeśamo Senhor Kṛṣṇa, o controlador dos sentidos; lokaaquele planeta (as regiões aquáti­cas); pālaḥa deidade que preside (Varuṇa); saparyayācom res­peitosas oferendas; mahatyāelaboradas; pūjayitvāadoração; āhafalou; tatdo Senhor Kṛṣṇa; darśanada visão; mahāgrande; utsavaḥjubilante prazer.

Translation

Vendo que o Senhor, Hṛṣīkeśa, chegara, o semideus Varuṇa adorou-O com esmeradas oferendas. Absorto em estado de grande júbilo por ver o Senhor, Varuṇa falou o seguinte.
श्रीवरुण उवाच
अद्य मे निभृतो देहोऽद्यैवार्थोऽधिगत: प्रभो । त्वत्पादभाजो भगवन्नवापु: पारमध्वन: ॥ ५ ॥
śrī-varuṇa uvāca
adya me nibhṛto deho
’dyaivārtho ’dhigataḥ prabho
tvat-pāda-bhājo bhagavann
avāpuḥ pāram adhvanaḥ

Synonyms

śrī-varuṇaḥ uvācaŚrī Varuṇa disse; adyahoje; mepor mim; nibhṛtaḥé levado com êxito; dehaḥmeu corpo material; adyahoje; evade fato; arthaḥa meta da vida; adhigataḥé experimentada; prabhoó Senhor; tvatVossos; pādaos pés de lótus; bhājaḥaqueles que servem; bhagavanó Suprema Personalidade de Deus; avāpuḥalcançaram; pāramo estado de transcendência; adhvanaḥdo caminho (da existência material).

Translation

Śrī Varuṇa disse: Agora meu corpo cumpriu sua função. De fato, agora alcancei a meta da vida, ó Senhor. Aqueles que acei­tam Vossos pés de lótus, ó Personalidade de Deus, podem trans­cender o caminho da existência material.

Purport

SIGNIFICADO—Varuṇa exclama em êxtase nesta passagem que, como agora viu o corpo infinitamente esplendoroso do Senhor Kṛṣṇa, o incômodo de assumir um corpo material teve sua justificação suprema. De fato, o artha, a meta ou verdadeiro valor da vida de Varuṇa, agora fora alcançado. Porque a forma do Senhor Kṛṣṇa é transcendental, aqueles que aceitam Seus pés de lótus ultrapassam os limites da existência material; logo, só os que carecem de conhecimento espiritual presumiriam que os pés de lótus do Senhor são materiais.
नमस्तुभ्यं भगवते ब्रह्मणे परमात्मने । न यत्र श्रूयते माया लोकसृष्टिविकल्पना ॥ ६ ॥
namas tubhyaṁ bhagavate
brahmaṇe paramātmane
na yatra śrūyate māyā
loka-sṛṣṭi-vikalpanā

Synonyms

namaḥreverências; tubhyama Vós; bhagavateà Suprema Personalidade de Deus; brahmaṇea Verdade Absoluta; parama-­ātmanea Alma Suprema; nanão; yatraem quem; śrūyatese ouve falar de; māyāa energia material ilusória; lokadeste mundo; sṛṣṭia criação; vikalpanāque planeja.

Translation

Minhas reverências a Vós, a Suprema Personalidade de Deus, a Verdade Absoluta, a Alma Suprema, dentro de quem não há vestígio da energia ilusória e que orquestra a criação deste mundo.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra śrūyate é significativa neste contexto. O śruti, ou litera­tura védica, consiste em declarações autorizadas do próprio Senhor ou de Seus representantes iluminados. Portanto, nem o Senhor nem autoridades espirituais reconhecidas jamais diriam que existe o de­feito da ilusão na Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus. Śrīla Śrīdhara Svāmī ressalta que a palavra brāhmaṇe neste verso indica que o Senhor é completo em Si mesmo e que o termo paramātmane indica que Ele é o controlador de todas as entidades vivas.
Assim, dentro do ser supremo, completo em Si mesmo e onipotente, não encontramos nenhuma jurisdição da energia material ilusória.
अजानता मामकेन मूढेनाकार्यवेदिना । आनीतोऽयं तव पिता तद्भ‍वान् क्षन्तुमर्हति ॥ ७ ॥
ajānatā māmakena
mūḍhenākārya-vedinā
ānīto ’yaṁ tava pitā
tad bhavān kṣantum arhati

Synonyms

ajānatāpor alguém que era ignorante; māmakenapor meu servo; mūḍhenatolo; akārya-vedināque desconhecia seu dever correto; ānītaḥfoi trazida; ayamesta pessoa; tavaVosso; pitāpai; tatisto; bhavānVós; kṣantum arhatipor favor, perdoai.

Translation

Vosso pai, que se encontra sentado aqui, foi trazido a mim por um tolo e ignorante servo meu, que não entendeu sua devida obrigação. Portanto, por favor, perdoai-nos.

Purport

SIGNIFICADO—A palavra ayam, “este aqui”, indica claramente que o pai de Kṛṣṇa, Nanda Mahārāja, estava presente enquanto Varuṇa falava. De fato, Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura afirma que Varuṇa sentara Nanda Mahārāja em um trono de joias e, por respeito, adorara-o pessoalmente.
Do ponto de vista técnico, Nanda Mahārāja estava correto em entrar na água pouco antes do nascer do Sol. Śrīla Jīva Gosvāmī apresenta a seguinte explicação em seu comentário sobre o primeiro verso deste capítulo: Depois de um Ekādaśī especialmente curto, com a duração de apenas dezoito horas, cerca de seis horas do dia lunar em que se devia quebrar o jejum, a saber, o Dvādaśī, já haviam passado antes da aurora. Como, ao nascer do Sol, já teria passado o momento ade­quado para quebrar o jejum, Nanda Mahārāja decidiu entrar na água em um momento que, sob outro aspecto, era inauspicioso.
É evidente que o servo de Varuṇa devia estar ciente destes detalhes técnicos, prescritos aos seguidores estritos dos rituais védicos. Acima e além disso, Nanda Mahārāja estava agindo como pai do Senhor Supremo e era, portanto, uma pessoa sacratíssima, fora da alçada de insignificantes burocratas cósmicos, como o tolo servo de Varuṇa.
ममाप्यनुग्रहं कृष्ण कर्तुमर्हस्यशेषद‍ृक् । गोविन्द नीयतामेष पिता ते पितृवत्सल ॥ ८ ॥
mamāpy anugrahaṁ kṛṣṇa
kartum arhasy aśeṣa-dṛk
govinda nīyatām eṣa
pitā te pitṛ-vatsala

Synonyms

mamapara mim; apiaté mesmo; anugrahammisericórdia; kṛṣṇaó Senhor Kṛṣṇa; kartum arhasipor favor, fazei; aśeṣatudo; dṛkó Vós que vedes; govindaó Govinda; nīyatāmque ele seja levado; eṣaḥeste; pitāpai; teVosso; pitṛ-vatsalaó Vós que sois muito afetuoso com Vossos pais.

Translation

Ó Kṛṣṇa, ó Vós que vedes tudo, por favor, concedei Vossa misericórdia até mesmo a mim. Ó Govinda, sois muito afetuoso com Vosso pai. Por favor, levai-o para casa.
श्रीशुक उवाच
एवं प्रसादित: कृष्णो भगवानीश्वरेश्वर: । आदायागत्स्वपितरं बन्धूनां चावहन्मुदम् ॥ ९ ॥
śrī-śuka uvāca
evaṁ prasāditaḥ kṛṣṇo
bhagavān īśvareśvaraḥ
ādāyāgāt sva-pitaraṁ
bandhūnāṁ cāvahan mudam

Synonyms

śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; evamassim; prasāditaḥsatisfeito; kṛṣṇaḥo Senhor Kṛṣṇa; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; īśvarade todos os controladores; īśvaraḥo controlador supremo; ādāyatomando; agātfoi; sva-pitaramSeu pai; bandhūnāma Seus parentes; cae; āvahantrazendo; mudamprazer.

Translation

Śukadeva Gosvāmī disse: Assim agradado pelo senhor Varuṇa, Śrī Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, Senhor dos senhores, regressou com Seu pai para casa, onde seus parentes ficaram radiantes em vê-los.

Purport

SIGNIFICADO—Neste passatempo, o Senhor Kṛṣṇa oferece uma sublime demonstra­ção de Sua posição como o Supremo Senhor de todos os senhores. Varuṇa, o semideus dos mares, é poderosíssimo, apesar do que ele ficou feliz de adorar até mesmo o pai do Senhor Kṛṣṇa, e o que dizer de adorar o próprio Kṛṣṇa.
नन्दस्त्वतीन्द्रियं द‍ृष्ट्वा लोकपालमहोदयम् । कृष्णे च सन्नतिं तेषां ज्ञातिभ्यो विस्मितोऽब्रवीत् ॥ १० ॥
nandas tv atīndriyaṁ dṛṣṭvā
loka-pāla-mahodayam
kṛṣṇe ca sannatiṁ teṣāṁ
jñātibhyo vismito ’bravīt

Synonyms

nandaḥNanda Mahārāja; tue; atīndriyamnão visto antes; dṛṣṭvāvendo; loka-pālada deidade controladora do planeta (oceano), Varuṇa; mahā-udayama grande opulência; kṛṣṇea Kṛṣṇa; cae; sannatimo oferecimento de reverências; teṣāmpor eles (Varuṇa e seus seguidores); jñātibhyaḥa seus amigos e parentes; vismitaḥmaravilhado; abravītfalou.

Translation

Nanda Mahārāja ficou atônito ao ver pela primeira vez a grande opulência de Varuṇa, o regente do planeta oceânico, e também de ver como Varuṇa e seus servos ofereceram tão humil­de respeito a Kṛṣṇa. Nanda descreveu tudo isso aos outros vaqueiros, seus colegas de profissão.
ते चौत्सुक्यधियो राजन् मत्वा गोपास्तमीश्वरम् । अपि न: स्वगतिं सूक्ष्मामुपाधास्यदधीश्वर: ॥ ११ ॥
te cautsukya-dhiyo rājan
matvā gopās tam īśvaram
api naḥ sva-gatiṁ sūkṣmām
upādhāsyad adhīśvaraḥ

Synonyms

teeles; cae; autsukyacheias de avidez; dhiyaḥsuas mentes; rājanó rei Parīkṣit; matvāpensando; gopāḥos vaqueiros; tamnEle; īśvaramo Senhor Supremo; apitalvez; naḥa nós; sva-gatimSua própria morada; sūkṣmāmtranscendental; upādhāsyatconcederá; adhīśvaraḥo controlador supremo.

Translation

[Ao ouvirem sobre os passatempos de Kṛṣṇa com Varuṇa,] os vaqueiros consideraram que Kṛṣṇa devia ser o Senhor Supre­mo, e suas mentes, ó rei, encheram-se de avidez. Eles pensaram: “Será que o Senhor Supremo nos concederá Sua morada transcendental?”

Purport

SIGNIFICADO—Os vaqueiros empolgaram-se ao ouvirem como Kṛṣṇa fora à morada de Varuṇa libertar Seu pai. Percebendo de repente que estavam de fato lidando com a Suprema Personalidade de Deus, eles, plenos de júbilo, conjecturavam entre si sobre seu auspicioso destino após terminarem sua vida presente.
इति स्वानां स भगवान् विज्ञायाखिलद‍ृक्स्वयम् । सङ्कल्पसिद्धये तेषां कृपयैतदचिन्तयत् ॥ १२ ॥
iti svānāṁ sa bhagavān
vijñāyākhila-dṛk svayam
saṅkalpa-siddhaye teṣāṁ
kṛpayaitad acintayat

Synonyms

itiassim; svānāmde Seus devotos pessoais; saḥEle; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; vijñāyacompreendendo; akhila-dṛkaquele que tudo vê; svayamEle mesmo; saṅkalpado desejo imaginado; siddhayepara a realização; teṣāmdeles; kṛpayācom compaixão; etatisto (como segue no próximo verso); acintayatpensou.

Translation

Porque é capaz de ver tudo, o Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, automaticamente compreendeu o que os vaqueiros estavam a conjecturar. Querendo mostrar-lhes Sua compaixão mediante a concretização dos desejos deles, o Senhor pensou o seguinte.
जनो वै लोक एतस्मिन्नविद्याकामकर्मभि: । उच्चावचासु गतिषु न वेद स्वां गतिं भ्रमन् ॥ १३ ॥
jano vai loka etasminn
avidyā-kāma-karmabhiḥ
uccāvacāsu gatiṣu
na veda svāṁ gatiṁ bhraman

Synonyms

janaḥpessoas; vaidecerto; lokeno mundo; etasmineste; avidyāsem conhecimento; kāmapor causa de desejos; karmabhiḥpor atividades; uccaentre superiores; avacāsue inferio­res; gatiṣudestinos; na vedanão reconhecem; svāmseu próprio; gatimdestino; bhramanvagando.

Translation

[O Senhor Kṛṣṇa pensou:] Com certeza todos neste mundo estão vagando entre destinos superiores e inferiores, os quais alcançam mediante atividades executadas segundo seus desejos e sem pleno conhecimento. Desse modo, ninguém conhece seu verdadeiro destino.

Purport

SIGNIFICADO—Śrīla Jīva Gosvāmī apresentou uma elaborada explicação de como este verso se aplica aos eternamente liberados residentes de Śrī Vṛndāvana, a morada do Senhor. Um dos princípios filosóficos fundamen­tais do Śrīmad-Bhāgavatam é a distinção entre dois tipos de ilusão, Yogamāyā e Mahāmāyā, respectivamente os estados de existência espiritual e material. Embora Kṛṣṇa seja Deus, o Ser Supremo oni­potente e onisciente, Seus companheiros íntimos no mundo espiritual amam-nO tanto que O veem como seu amado filho, amigo, amante etc. Para que seu amor extático possa transcender os limites da mera reverência, eles se esquecem de que Kṛṣṇa é o Deus Supremo de todos os universos, de modo que seu amor puro e íntimo se expande ilimitadamen­te. Talvez alguém considere que suas atividades de tratar Kṛṣṇa como uma criança indefesa, um belo namorado ou um colega de brincadei­ras são uma manifestação de avidyā, ignorância da posição do Senhor Kṛṣṇa como Deus, mas os residentes de Vṛndāvana estão de fato ignorando a majestade secundária de Kṛṣṇa e focalizando intensa­mente Sua infinita beleza, que é a essência de Sua existência.
Com efeito, descrever o Senhor Kṛṣṇa como o controlador supremo e Deus é quase uma espécie de análise política, já que ela se refere a uma hierarquia de poder e controle. Semelhante análise dos níveis de poder e das hierarquias de governo é significativa em um contexto em que a entidade não se encontra cem por cento rendida, em amor, a uma entidade superior. Em outras palavras, o controle torna-se visível, ou é sentido conscientemente como controle, quando há re­sistência a tal controle. Para citar um exemplo simples, o cidadão piedoso e obediente às leis vê o policial como amigo e benquerente, ao passo que o criminoso o vê como um ameaçador símbolo de cas­tigo. Aqueles que estão entusiasmados com a política do governo não sentem que este os controla, mas sim que os ajuda.
O Senhor Kṛṣṇa, portanto, é visto como um “controlador”, e daí como o “Deus Supremo”, por aqueles que não estão plenamente encantados com Sua beleza e Seus passatempos. Aqueles que estão completa­mente apaixonados pelo Senhor Kṛṣṇa focalizam Suas características sublimes e atrativas e, devido à natureza de sua relação com Ele, não notam muito Seu poder controlador.
Uma prova simples de que os residentes de Vraja transcenderam estados inferiores de consciência de Deus, em vez de terem fracassa­do em alcançá-los, é o fato de que, através de todos os passatempos do Senhor, eles muitas vezes se “lembram” de que Kṛṣṇa é Deus. Em geral, eles se espantam com esta lembrança, por estarem cem por cento absortos em ver Kṛṣṇa como seu amigo, amante etc.
Convencionalmente, usa-se a palavra kāma para indicar um desejo material ou, então, um desejo espiritual tão intenso que, de algum modo, torna-se análogo aos intensos desejos materiais. Ainda assim, perma­nece a distinção fundamental: o desejo material é egoísta e busca a própria satisfação; o desejo espiritual é livre de egoísmo, sendo todo para o prazer do outro, o Senhor. Dessa maneira, os residentes de Vṛndāvana praticavam suas atividades diárias apenas para o prazer de seu amado Kṛṣṇa.
Deve-se lembrar que todo o propósito do advento de Kṛṣṇa a este mundo é atrair os seres vivos de volta ao lar, de volta ao Supremo. Para isso, duas coisas são necessárias: que Seus passatempos exi­bam a beleza da perfeição espiritual e que, de alguma forma, pareçam importantes e daí interessantes para as almas condicionadas deste mundo. O Bhāgavatam afirma muitas vezes que o Senhor Kṛṣṇa encena tal qual um jovem ator, e, sem dúvida, Ele ocupa Seus devotos eternos na representação dramática. Por isso, o Senhor Kṛṣṇa nesta passagem reflete conSigo mesmo que as pessoas neste mundo com certeza não conhecem seu destino último e, com um óbvio toque espirituoso, pensa assim também de Seus companheiros eternamente liberados, que estavam neste mundo fazendo o papel de membros comuns de uma vila de vaqueiros.
Além do duplo sentido obviamente presente neste verso quando se aplica aos liberados companheiros do Senhor, Kṛṣṇa aqui faz uma observação crítica, mordaz e bem direta sobre as pessoas comuns. Quando aplicada a almas condicionadas que estão de fato a vagar pelo universo inteiro, Sua afirmação de que elas agem devido à ignorância e luxúria não é mitigada por nenhum sentido espiritual mais profundo. As pessoas em geral simplesmente são ignorantes e não consideram com seriedade seu destino final. Como de costume, o Senhor Śrī Kṛṣṇa é capaz de dizer muitas verdades profundas e complexas em poucas palavras simples. Como somos afortunados por Deus não ser um árido campo de energia, uma refulgente bolha transcendental ou inexistir por completo – como várias pessoas pensam. De fato, Ele é a admirabilíssima Personalidade de Deus, pleno de quali­dades pessoais e absolutas, e com certeza Ele pode fazer melhor do que nós qualquer coisa que possamos fazer, como o evidencia Sua brilhante manei­ra de falar.
इति सञ्चिन्त्य भगवान् महाकारुणिको हरि: । दर्शयामास लोकं स्वं गोपानां तमस: परम् ॥ १४ ॥
iti sañcintya bhagavān
mahā-kāruṇiko hariḥ
darśayām āsa lokaṁ svaṁ
gopānāṁ tamasaḥ param

Synonyms

iticom estas palavras; sañcintyaconsiderando conSigo mesmo; bhagavāna Suprema Personalidade de Deus; mahā-kāruṇikaḥo mais misericordioso; hariḥo Senhor Hari; darśayām āsamostrou; lokamo planeta, Vaikuṇṭha; svamSeu próprio; gopānāmaos vaqueiros; tamasaḥtrevas materiais; paramalém das.

Translation

Analisando assim profundamente a situação, Hari, a todo-­misericordiosa Suprema Personalidade de Deus, revelou aos vaqueiros Sua morada, que se encontra além das trevas materiais.

Purport

SIGNIFICADO—Este verso deixa claro que a Verdade Absoluta reside em Sua pró­pria morada eterna. Todos nós tentamos viver com tanto conforto quanto possível, rodeando-nos de paz e beleza. Como podemos nós, em nome de “lógica”, negar ao Senhor Supremo, nosso criador, a morada de beleza e conforto supremos conhecida pelas pessoas em geral como o reino de Deus?
सत्यं ज्ञानमनन्तं यद् ब्रह्मज्योति: सनातनम् । यद्धि पश्यन्ति मुनयो गुणापाये समाहिता: ॥ १५ ॥
satyaṁ jñānam anantaṁ yad
brahma-jyotiḥ sanātanam
yad dhi paśyanti munayo
guṇāpāye samāhitāḥ

Synonyms

satyamindestrutível; jñānamconhecimento; anantamilimitado; yatque; brahmaa absoluta; jyotiḥrefulgência; sanātanameterna; yatque; hide fato; paśyantiveem; munayaḥsábios; guṇaos modos da natureza material; apāyequando eles se acalmam; samāhitāḥabsortos em transe.

Translation

O Senhor Kṛṣṇa revelou a indestrutível refulgência espiritual, que é ilimitada, consciente e eterna. Os sábios veem em transe essa existência espiritual quando a consciência deles se livra dos modos da natureza material.

Purport

SIGNIFICADO—No verso quatorze, o Senhor Kṛṣṇa revelou aos residentes de Vṛndāvana Sua própria morada, o planeta espiritual Kṛṣṇaloka. Esse e inúmeros outros planetas Vaikuṇṭha flutuam em um oceano infinito de luz espiritual chamado brahmajyoti. Essa luz espiritual é de fato o céu espiritual, que Kṛṣṇa também, com muita naturalidade, revelou aos residentes de Vṛndāvana. Por exemplo, se queremos mostrar a Lua para uma criança, dizemos: “Olhe para o céu. Veja a Lua lá no céu.” De modo semelhante, o Senhor Kṛṣṇa revelou o vasto céu es­piritual aos residentes de Vṛndāvana, mas, como enfatizado no verso quatorze e no próximo verso (o dezesseis), o verdadeiro destino dos companheiros do Senhor era Seu próprio planeta espiritual.
ते तु ब्रह्मह्रदं नीता मग्ना: कृष्णेन चोद्‌धृता: । दद‍ृशुर्ब्रह्मणो लोकं यत्राक्रूरोऽध्यगात् पुरा ॥ १६ ॥
te tu brahma-hradam nītā
magnāḥ kṛṣṇena coddhṛtāḥ
dadṛśur brahmaṇo lokaṁ
yatrākrūro ’dhyagāt purā

Synonyms

teeles; tue; brahma-hradamao lago conhecido como Brahma-hrada; nītāḥtrazidos; magnāḥsubmersos; kṛṣṇenapor Kṛṣṇa; cae; uddhṛtāḥerguidos; dadṛśuḥviram; brahmaṇaḥda Ver­dade Absoluta; lokamo planeta transcendental; yatraonde; akrūraḥAkrūra; adhyagātviu; purāanteriormente.

Translation

Os vaqueiros foram levados pelo Senhor Kṛṣṇa ao Brahma-hrada, submersos na água e depois retirados. Da mesma posição estratégica de onde Akrūra viu o mundo espiritual, os vaqueiros viram o planeta da Verdade Absoluta.

Purport

SIGNIFICADO—A extensão ilimitada de luz espiritual, chamada brahmajyoti no verso quinze, é comparada a um lago chamado Brahma-hrada. O Senhor Kṛṣṇa submergiu os vaqueiros naquele lago no sentido de que Ele os submergiu na consciência do Brahman impessoal. Mas depois, como indica a palavra uddhṛtāḥ, Ele os elevou a uma compreensão superior, a da Personalidade de Deus em Seu próprio planeta. Como se afirma claramente aqui, dadṛśur brahmaṇo lokam: Eles viram, assim como Akrūra o fizera, a morada transcendental da Verdade Absoluta.
Pode-se resumir a evolução da consciência da seguinte maneira: Na consciência ordinária, percebemos e sentimos atração pela varie­dade de coisas materiais. Ao elevarmo-nos ao primeiro nível de cons­ciência espiritual, transcendemos a variedade material e, em lugar disso, focalizamos o Uno indiferenciado, que repousa por trás dos muitos e lhes dá existência. Por fim, ascendendo à consciência de Kṛṣṇa, descobrimos que o Uno espiritual e absoluto contém sua pró­pria variedade eterna. Com efeito, já que este mundo é mera sombra da existência eterna, é de se esperar que encontraríamos variedade es­piritual dentro do Uno, e de fato nós a encontramos no texto sagrado do Śrīmad-Bhāgavatam.
Leitores sagazes notarão que o passatempo que envolve Akrūra ocorreu mais tarde no Bhāgavatam, depois deste episódio com os vaqueiros. A razão de Śukadeva Gosvāmī dizer que Akrūra viu Vaikuṇṭha-purā “antes” é que todos estes incidentes ocorreram muitos anos antes da conversa entre Śukadeva Gosvāmī e Mahārāja Parīkṣit.
नन्दादयस्तु तं द‍ृष्ट्वा परमानन्दनिवृता: । कृष्णं च तत्रच्छन्दोभि: स्तूयमानं सुविस्मिता: ॥ १७ ॥
nandādayas tu taṁ dṛṣṭvā
paramānanda-nivṛtāḥ
kṛṣṇaṁ ca tatra cchandobhiḥ
stūyamānaṁ su-vismitāḥ

Synonyms

nanda-ādayaḥos vaqueiros encabeçados por Nanda Mahārāja; tue; tamaquilo; dṛṣṭvāvendo; paramasupremo; ānandacom êxtase; nivṛtāḥdominados de alegria; kṛṣṇamo Senhor Kṛṣṇa; cae; tatra; chandobhiḥpelos hinos védicos; stūyamānamsendo louvado; sumuito; vismitāḥsurpresos.

Translation

Nanda Mahārāja e os outros vaqueiros sentiram a mais inten­sa felicidade ao verem aquela morada transcendental. Surpreenderam-se sobretudo de ver lá o próprio Kṛṣṇa, rodeado dos Vedas personificados, que Lhe ofereciam orações.

Purport

SIGNIFICADO—Embora os residentes de Vṛndāvana se considerassem pessoas comuns, o Senhor Kṛṣṇa queria que eles conhecessem sua extraordinária boa fortuna. Assim, dentro de um lago no rio Yamunā, o Senhor lhes mostrou Sua morada pessoal. Os vaqueiros se admiraram de ver que o reino de Deus tinha exatamente a mesma atmosfera espiritual que sua própria Vṛndāvana terrestre e que, assim como o Senhor Kṛṣṇa estava presente em pessoa em sua Vṛndāvana, em sua visão singular Ele estava presente como o Senhor do mundo espiritual.
Como Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura salienta, estes versos enfatizam que o Senhor Kṛṣṇa não mostrou aos vaqueiros uma mera amostra de planeta Vaikuṇṭha, mas que Ele revelou especificamente Seu Kṛṣṇaloka, a maior das moradas eternas e o lar natural dos residentes de Vṛndāvana, que amavam Kṛṣṇa mais do que qualquer outra pessoa já amou.
Neste ponto, encerram-se os significados apresentados pelos humildes servos de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhu­pāda referentes ao décimo canto, vigésimo oitavo capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Kṛṣṇa Liberta Nanda Mahārāja da Morada de Varuṇa”.