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Capítulo Três

Serviço Devocional Puro: A Mudança no Coração

श्री शुक उवाच
एवमेतन्निगदितं पृष्टवान् यद्भवान् मम ।
नृणां यन्म्रियमाणानां मनुष्येषु मनीषिणाम् ॥ १ ॥
śrī-śuka uvāca
evam etan nigaditaṁ
pṛṣṭavān yad bhavān mama
nṛṇāṁ yan mriyamāṇānāṁ
manuṣyeṣu manīṣiṇām

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śrī-śukaḥ uvācaŚrī Śukadeva Gosvāmī disse; evamassim; etattudo isto; nigaditamrespondido; pṛṣṭavāncomo perguntaste; yato que; bhavāntu; mamaa mim; nṛṇāmdo ser humano; yatalguém; mriyamāṇānāmà beira da morte; manuṣyeṣuentre os seres humanos; manīṣiṇāmdos homens inteligentes.

Translation

Śrī Śukadeva Gosvāmī disse: Mahārāja Parīkṣit, respondi-te, então, as perguntas que me fizeste sobre o dever do homem inteligente que está à beira da morte.

Purport

SIGNIFICADO—Na sociedade humana em todo o mundo, existem milhões e bilhões de homens e mulheres, e quase todos têm inteligência fraca porque conhecem muito pouco a alma espiritual. Quase todos eles fazem sobre a vida uma concepção errada, pois se identificam com os corpos materiais grosseiro e sutil, coisas que, na verdade, eles não são. Segundo os cálculos da sociedade humana, eles talvez estejam situados em diferentes posições superiores e inferiores, mas a pessoa deve saber definitivamente que, enquanto não indagar sobre o seu próprio eu situado além do corpo e da mente, todas as suas atividades da vida humana serão um completo fracasso. Portanto, entre milhares e milhares de homens, talvez um indague sobre o seu eu espiritual e, assim, consulte as escrituras reveladas, como os Vedānta-sūtras, a Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam. Porém, embora leia e ouça essas escrituras, se a pessoa não entra em contato com um mestre espiritual autorrealizado, ela não pode realmente compreender a verdadeira natureza do eu etc. E, dentre milhares e centenas de milhares de pessoas, alguém talvez saiba quem é de fato o Senhor Kṛṣṇa. No Caitanya-caritāmṛta (Madhya 20.122-123), afirma-se que o Senhor Kṛṣṇa, por Sua misericórdia imotivada, encarnou como Vyāsadeva e preparou os textos védicos para serem lidos pela classe de homens inteligentes que pertencem a uma sociedade humana que praticamente se esqueceu da relação genuína que ela deve cultivar com Kṛṣṇa. Mesmo essa classe de homens inteligentes pode ter se esquecido de sua relação com o Senhor. Todo o processo de bhakti-yoga, portanto, serve para reviver a relação perdida. E é possível revivê-la na forma de vida humana, que só é obtida devido ao ciclo evolutivo que engloba 8.400.000 espécies de vida. A classe de seres humanos inteligentes deve olhar com atenção essa oportunidade. Nem todos os seres humanos são inteligentes, daí a importância da vida humana nem sempre ser compreendida. Portanto, aqui se usa especificamente manīṣiṇām, que significa “introspectivo”. A pessoa manīṣiṇām, como Mahārāja Parīkṣit, deve, portanto, aceitar os pés de lótus do Senhor Kṛṣṇa e ocupar-se em pleno serviço devocional, ouvindo, cantando etc. o santo nome e os passatempos do Senhor, que são todos hari-kathāmṛta. Essa ação é especialmente recomendada quando a pessoa está se preparando para a morte.
ब्रह्मवर्चसकामस्तु यजेत ब्रह्मण: पतिम् ।
इन्द्रमिन्द्रियकामस्तु प्रजाकाम: प्रजापतीन् ॥ २ ॥
देवीं मायां तु श्रीकामस्तेजस्कामो विभावसुम् ।
वसुकामो वसून रुद्रान् वीर्यकामोऽथ वीर्यवान् ॥ ३ ॥
अन्नाद्यकामस्त्वदितिं स्वर्गकामोऽदिते:सुतान् ।
विश्वान्देवान् राज्यकाम: साध्यान्संसाधको विशाम् ॥ ४ ॥
आयुष्कामोऽश्विनौ देवौ पुष्टिकाम इलां यजेत् ।
प्रतिष्ठाकाम: पुरुषो रोदसी लोकमातरौ ॥ ५ ॥
रूपाभिकामो गन्धर्वान् स्त्रीकामोऽप्सर उर्वशीम् ।
आधिपत्यकाम: सर्वेषां यजेत परमेष्ठिनम् ॥ ६ ॥
यज्ञं यजेद् यशस्काम: कोशकाम: प्रचेतसम् ।
विद्याकामस्तु गिरिशं दाम्पत्यार्थ उमां सतीम् ॥ ७ ॥
brahma-varcasa-kāmas tu
yajeta brahmaṇaḥ patim
indram indriya-kāmas tu
prajā-kāmaḥ prajāpatīn
devīṁ māyāṁ tu śrī-kāmas
tejas-kāmo vibhāvasum
vasu-kāmo vasūn rudrān
vīrya-kāmo ’tha vīryavān
annādya-kāmas tv aditiṁ
svarga-kāmo ’diteḥ sutān
viśvān devān rājya-kāmaḥ
sādhyān saṁsādhako viśām
āyuṣ-kāmo ’śvinau devau
puṣṭi-kāma ilāṁ yajet
pratiṣṭhā-kāmaḥ puruṣo
rodasī loka-mātarau
rūpābhikāmo gandharvān
strī-kāmo ’psara urvaśīm
ādhipatya-kāmaḥ sarveṣāṁ
yajeta parameṣṭhinam
yajñaṁ yajed yaśas-kāmaḥ
kośa-kāmaḥ pracetasam
vidyā-kāmas tu giriśaṁ
dāmpatyārtha umāṁ satīm

Synonyms

brahmaa absoluta; varcasarefulgência; kāmaḥ tumas a pessoa que tem esse desejo; yajetaadora; brahmaṇaḥdos Vedas; patimmestre; indramo rei dos céus; indriya-kāmaḥ tumas a pessoa que deseja fortes órgãos dos sentidos; prajā-kāmaḥa pessoa que deseja muita progênie; prajāpatīnos Prajāpatis; devīma deusa; māyāma mestra do mundo material; tumas; śrī-kāmaḥa pessoa que deseja beleza; tejaḥpoder; kāmaḥalguém que tem esse desejo; vibhāvasumo deus do fogo; vasu-kāmaḥalguém que deseja riqueza; vasūnos semideuses de nome Vasu; rudrānas expansões Rudra do senhor Śiva; vīrya-kāmaḥa pessoa que quer ter forte constituição física; athaportanto; vīryavāno poderosíssimo; anna-adyacereais; kāmaḥa pessoa que tem esse desejo; tumas; aditimAditi, mãe dos semideuses; svargacéu; kāmaḥassim desejando; aditeḥ sutānos filhos de Aditi; viśvānViśvadeva; devānsemideuses; rājya-kāmaḥaqueles que anseiam por reinos; sādhyānos semideuses Sādhya; saṁsādhakaḥque satisfazem os desejos; viśāmda comunidade mercantil; āyuḥ-kāmaḥque deseja longa vida; aśvinauos dois semideuses conhecidos como irmãos Aśvinī; devauos dois semideuses; puṣṭi-kāmaḥa pessoa que deseja adquirir uma compleição muito robusta; ilāma Terra; yajetdeve adorar; pratiṣṭhā-kāmaḥa pessoa que deseja boa fama, ou estabilidade em um posto; puruṣaḥtais homens; rodasīo horizonte; loka-mātaraue a Terra; rūpabeleza; abhikāmaḥdecididamente desejando; gandharvānos habitantes do planeta Gandharva, que são muito belos e hábeis em cantar; strī-kāmaḥa pessoa que deseja uma boa esposa; apsaraḥ urvaśīmas garotas de sociedade do reino celestial; ādhipatya-kāmaḥa pessoa que deseja exercer domínio sobre os outros; sarveṣāmtodos; yajetadevem adorar; parameṣṭhinamBrahmā, o líder do universo; yajñama Personalidade de Deus; yajetdeve adorar; yaśaḥ-kāmaḥalguém que deseja ser famoso; kośa-kāmaḥa pessoa que deseja um bom saldo bancário; pracetasamo tesoureiro do céu, conhecido como Varuṇa; vidyā-kāmaḥ tumas alguém que deseja educação; giriśamo senhor dos Himālayas, o senhor Śiva; dāmpatya-arthaḥe para amor conjugal; umām satīma casta esposa do senhor Śiva, conhecida como Umā.

Translation

A pessoa que deseja absorver-se no brahmajyoti, a refulgência impessoal, deve adorar o mestre dos Vedas [o senhor Brahmā ou Bṛhaspati, o sacerdote erudito]; a pessoa que deseja potência sexual deve adorar o rei celestial, Indra, e a pessoa que deseja boa progênie deve adorar os grandes progenitores, chamados Prajāpatis. A pessoa que deseja boa fortuna deve adorar Durgādevī, a superintendente do mundo material. Alguém que deseja ser muito poderoso deve adorar o fogo, e alguém que se interessa apenas em dinheiro deve adorar os Vasus. A pessoa deve adorar as encarnações Rudra do senhor Śiva se deseja ser um grande herói. A pessoa que quer um grande suprimento de cereais deve adorar Aditi. Alguém que deseja alcançar os planetas celestes deve adorar os filhos de Aditi. Alguém que deseja um reino mundano deve adorar Viśvadeva, e alguém que quer ter popularidade com a massa em geral da população deve adorar o semideus Sādhya. Quem deseja uma longa duração de vida deve adorar os semideuses conhecidos como Aśvinī-kumāras, e quem deseja um corpo de constituição forte deve adorar a Terra. A pessoa que deseja estabilidade em seu posto deve adorar o horizonte e a Terra combinados. Alguém que deseja ser belo deve adorar os lindos habitantes do planeta Gandharva, e a pessoa que deseja uma boa esposa deve adorar as Apsarās e as moças de sociedade Urvaśī do reino celestial. Aquele que deseja exercer domínio sobre os outros deve adorar o senhor Brahmā, o líder do universo. Alguém que deseja fama tangível deve adorar a Personalidade de Deus, e a pessoa que deseja um bom saldo bancário deve adorar o semideus Varuṇa. Se alguém deseja ser um homem realmente erudito, deve adorar o senhor Śiva, e, se alguém deseja uma boa relação matrimonial, deve adorar a casta deusa Umā, a esposa do senhor Śiva.

Purport

SIGNIFICADO—Quem deseja um determinado tipo de sucesso presta uma adoração específica. A alma condicionada que vive dentro do âmbito material não pode dominar todas as espécies de atividades materiais, mas a pessoa pode exercer considerável influência sobre determinado assunto, adorando um semideus específico, como se menciona acima. Rāvaṇa se transformou em um homem poderosíssimo, adorando o senhor Śiva, e, para satisfazer o senhor Śiva, costumava oferecer-lhe cabeças decepadas. Pela graça do senhor Śiva, tornou-se tão poderoso que todos os semideuses o temiam, até que, por fim, ele desafiou a Personalidade de Deus Śrī Rāmacandra, e isso foi a sua ruína. Em outras palavras, todas essas pessoas que querem ganhar alguns ou todos os objetos de gozo material, ou as pessoas materialistas grosseiras, são menos inteligentes em geral, como confirma a Bhagavad-gītā (7.20). Ali, afirma-se que quem é desprovido de todo o bom senso, ou aquele cuja inteligência é removida pela ilusória energia de māyā, deseja alcançar todas as espécies de gozo na vida material, satisfazendo os vários semideuses, ou avançando em civilização material sob o título de progresso científico. O verdadeiro problema da vida no mundo material é resolver a questão de nascimento, morte, velhice e doença. Ninguém quer perder a posição adquirida com o nascimento, ninguém quer defrontar-se com a morte, ninguém quer ficar velho ou inválido, e ninguém quer doenças. Mas esses problemas não são resolvidos nem pela graça de algum semideus, nem pelo aparente avanço da ciência material. A Bhagavad-gītā, bem como o Śrīmad-Bhāgavatam, descrevem que essas pessoas menos inteligentes são desprovidas de toda sensatez. Śukadeva Gosvāmī disse que, dentre as 8.400.000 espécies de entidades vivas, a forma de vida humana é rara e preciosa, e, entre esses raros seres humanos, aqueles que são conscientes dos problemas materiais são ainda mais raros, e pessoas ainda mais raras são aquelas conscientes do valor do Śrīmad-Bhāgavatam, que contém as mensagens do Senhor e de Seus devotos puros. A morte é inevitável para todos, inteligentes ou tolos. Porém, o Gosvāmī chamou Parīkṣit Mahārāja de manīṣī, ou o homem de mente assaz desenvolvida, pois ele largou todo o gozo material na hora da morte e se rendeu por completo aos pés de lótus do Senhor, ouvindo Suas mensagens narradas pela pessoa certa, Śukadeva Gosvāmī. Em contraste, condena-se o desejo de gozo material que cultivam as pessoas empenhadas. Tais desejos são algo como a embriaguez da degradada sociedade humana. As pessoas inteligentes devem tentar evitar essas aspirações e, ao invés disso, devem buscar a vida permanente, retornando ao lar, retornando ao Supremo.
धर्मार्थ उत्तमश्लोकं तन्तु: तन्वन् पितृन् यजेत् ।
रक्षाकाम: पुण्यजनानोजस्कामो मरुद्गणान् ॥ ८ ॥
dharmārtha uttama-ślokaṁ
tantuḥ tanvan pitṝn yajet
rakṣā-kāmaḥ puṇya-janān
ojas-kāmo marud-gaṇān

Synonyms

dharma-arthaḥpara o avanço espiritual; uttama-ślokamo Senhor Supremo ou as pessoas ligadas ao Senhor Supremo; tantuḥpara a progênie; tanvane para protegê-la; pitṝnos habitantes de Pitṛloka; yajetdeve adorar; rakṣā-kāmaḥa pessoa que deseja proteção; puṇya janānpessoas piedosas; ojaḥ-kāmaḥa pessoa que deseja força deve adorar; marut-gaṇānos semideuses.

Translation

A pessoa deve adorar o Senhor Viṣṇu ou Seu devoto para obter avanço espiritual em conhecimento, e, para proteger seus herdeiros e promover o avanço de uma dinastia, deve adorar os vários semideuses.

Purport

SIGNIFICADO—O caminho da religião implica o progresso no caminho do avanço espiritual, em última análise revivendo a eterna relação com o Senhor Viṣṇu em Sua refulgência impessoal, Seu aspecto Paramātmā localizado e, finalmente, Seu aspecto pessoal através do avanço espiritual em conhecimento. E a pessoa que quer estabelecer uma boa dinastia e ser feliz no progresso das relações corpóreas temporárias deve refugiar-se nos Pitās e nos semideuses que residem em outros planetas piedosos. Essas diferentes classes de adoradores de diferentes semideuses podem acabar alcançando os respectivos planetas desses semideuses dentro do universo, mas aquele que alcança os planetas espirituais no brahmajyoti obtém a perfeição máxima.
राज्यकामो मनून् देवान् निऋर्तिं त्वभिचरन् यजेत् ।
कामकामो यजेत् सोममकाम: पुरुषं परम् ॥ ९ ॥
rājya-kāmo manūn devān
nirṛtiṁ tv abhicaran yajet
kāma-kāmo yajet somam
akāmaḥ puruṣaṁ param

Synonyms

rājya-kāmaḥqualquer pessoa que deseja um império ou reino; manūnos Manus, semiencarnações de Deus; devānsemideuses; nirṛtimdemônios; tumas; abhicarandesejando vitória sobre o inimigo; yajetdeve adorar; kāma-kāmaḥa pessoa que deseja gozo dos sentidos; yajetdeve adorar; somamo semideus chamado Candra; akāmaḥa pessoa que não precisa satisfazer desejos materiais; puruṣama Suprema Personalidade de Deus; paramo Supremo.

Translation

Alguém que deseja exercer domínio sobre um reino ou um império deve adorar os Manus. Alguém que deseja obter vitória sobre o inimigo deve adorar os demônios, e a pessoa que deseja gozo dos sentidos deve adorar a Lua. Mas a pessoa que não deseja nenhum gozo material deve adorar a Suprema Personalidade de Deus.

Purport

SIGNIFICADO—Para a pessoa liberada, todos os gozos acima enumerados são considerados absolutamente inúteis. Somente aqueles condicionados pelos modos da energia material externa se deixam cativar pelas diferentes espécies de gozo material. Em outras palavras, o transcendentalista não precisa satisfazer desejos materiais, ao passo que o materialista tem a necessidade de satisfazer todos os tipos de desejos. O Senhor proclamou que os materialistas, que desejam o gozo material e buscam, então, obter o favor de diferentes semideuses, como se mencionou acima, não controlam seus sentidos e acabam fazendo tolices. Portanto, ninguém deve desejar nenhuma espécie de gozo material, e a pessoa deve ser bastante sensata para adorar a Suprema Personalidade de Deus. Os líderes das pessoas insensatas são ainda mais insensatos porque pregam aberta e tolamente que a pessoa pode adorar qualquer forma de semideus e obter o mesmo resultado. Esse tipo de pregação não apenas contradiz os ensinamentos da Bhagavad-gītā e do Śrīmad-Bhāgavatam, mas também é tolo, assim como é tolice alegar que, com a compra de qualquer bilhete de viagem, pode-se chegar ao mesmo destino. Ninguém pode sair de Delhi e chegar a Bombaim comprando uma passagem para Baroda. Aqui, define-se claramente que as pessoas impregnadas de diferentes desejos têm diferentes modos de adoração, mas a pessoa que não tem desejo de gozo material deve adorar o Senhor Supremo, Śrī Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus. E esse processo de adoração se chama serviço devocional. Serviço devocional puro significa serviço ao Senhor sem nenhum vestígio de desejos materiais, incluindo o desejo de atividade fruitiva e especulação empírica. Para a satisfação de desejos materiais, pode-se adorar o Senhor Supremo, mas o resultado dessa adoração é diferente, como se explicará no próximo verso. De um modo geral, o Senhor não satisfaz os desejos de gozo dos sentidos materiais, mas Ele outorga essas bênçãos a Seus adoradores, pois esses acabam chegando ao ponto em que deixam de cultivar o desejo de gozo material. A conclusão é que todos devem tornar mínimos os desejos de gozo material, e, para conseguir isso, a pessoa deve adorar a Suprema Personalidade de Deus, que é descrito aqui como param, ou além da matéria. Śrīpāda Śaṅkarācārya também afirmou que nārāyaṇaḥ paro ’vyaktāt: o Senhor Supremo está além do envolvimento material.
अकाम: सर्वकामो वा मोक्षकाम उदारधी: ।
तीव्रेण भक्तियोगेन यजेत पुरुषं परम् ॥ १० ॥
akāmaḥ sarva-kāmo vā
mokṣa-kāma udāra-dhīḥ
tīvreṇa bhakti-yogena
yajeta puruṣaṁ param

Synonyms

akāmaḥalguém que transcendeu todos os desejos materiais; sarva-kāmaḥalguém que tem a soma total dos desejos materiais; ou; mokṣa-kāmaḥalguém que deseja a liberação; udāra-dhīḥcom inteligência ampla; tīvreṇacom muita força; bhakti-yogenaatravés do serviço devocional ao Senhor; yajetadeve adorar; puruṣamo Senhor; paramo todo supremo.

Translation

A pessoa de inteligência mais desenvolvida, esteja ela repleta de todos os desejos materiais, não tenha nenhum desejo material ou deseje a liberação, deve, por todos os meios, adorar o todo supremo, a Personalidade de Deus.

Purport

SIGNIFICADO—A Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, é descrito na Bhagavad-gītā como puruṣottama, ou a Personalidade Suprema. Somente Ele pode conceder a liberação aos impersonalistas, absorvendo no brahmajyoti, os raios corpóreos do Senhor, esses aspirantes à liberação. O brahmajyoti não está separado do Senhor, assim como o refulgente raio solar não é independente do disco do Sol. Portanto, quem deseja imergir no supremo brahmajyoti impessoal também deve adorar o Senhor através de bhakti-yoga, como se recomenda aqui no Śrīmad-Bhāgavatam. Bhakti-yoga é especialmente enfatizada aqui como o meio de toda a perfeição. Nos capítulos anteriores, afirmou-se que bhakti-yoga é a meta última de karma-yoga e de jñāna-yoga, e, da mesma maneira, declara-se enfaticamente neste capítulo que bhakti-yoga é a meta última das diferentes variedades de adoração a diferentes semideuses. Bhakti-yoga, sendo assim o supremo meio de autorrealização, é aqui recomendada. Todos devem, portanto, adotar com seriedade os métodos de bhakti-yoga, muito embora alguém deseje o gozo material ou libertar-se do cativeiro material.
Akāmaḥ é aquele que não tem desejo material. O ser vivo, sendo naturalmente uma parte integrante do todo supremo puruṣaṁ pūrṇam, tem como função natural servir o Ser Supremo, assim como as partes integrantes do corpo, ou os membros do corpo, destinam-se naturalmente a servir o corpo completo. Ausência de desejos, portanto, não significa ser inerte como uma pedra, mas que a pessoa é consciente de sua verdadeira posição e, dessa maneira, deseja apenas a satisfação do Senhor Supremo. Em seu Sandarbha, Śrīla Jīva Gosvāmī explica essa ausência de desejos como bhajanīya-parama-puruṣa-sukha-mātra-sva-sukhatvam. Isso significa que a pessoa deve sentir-se feliz somente experimentando a felicidade do Senhor Supremo. Essa intuição do ser vivo às vezes se manifesta mesmo durante a etapa em que ele está condicionado ao mundo material, e a mente não desenvolvida de pessoas menos inteligentes expressa essa intuição na forma de altruísmo, filantropia, socialismo, comunismo etc. No campo mundano, procurar fazer o bem aos outros, que vivem na sociedade, comunidade, família, nação ou pertencem à raça humana, é uma manifestação parcial do mesmo sentimento original no qual uma entidade viva pura sente felicidade com a felicidade do Senhor Supremo. Esses sentimentos primorosos foram manifestos pelas donzelas de Vrajabhūmi que queriam a felicidade do Senhor. As gopīs amavam o Senhor sem receberem nada em troca, e essa é a manifestação perfeita do espírito akāmaḥ. O espírito kāma, ou o desejo de satisfação pessoal, exibe-se plenamente no mundo material, ao passo que o espírito de akāmaḥ manifesta-se plenamente no mundo espiritual.
Quem pensa em tornar-se uno com o Senhor, ou imergir no brahmajyoti, também pode estar manifestando o espírito kāma se ele deseja sua própria satisfação, libertando-se das dores materiais. O devoto puro não quer a liberação só para aliviar-se das dores da vida. Mesmo sem a dita liberação, o devoto puro procura satisfazer o Senhor. Influenciado pelo espírito kāma, Arjuna se recusou a lutar no campo de batalha de Kurukṣetra porque, interessado em sua própria satisfação, queria salvar seus parentes. Porém, sendo um devoto puro, aceitou a instrução do Senhor e concordou em lutar, pois voltou à razão e compreendeu que satisfazer o Senhor, sacrificando sua própria satisfação, era seu dever primordial. Assim, tornou-se akāma. Essa é a fase perfeita do ser vivo perfeito.
Udāra-dhīḥ aplica-se a alguém que tem uma perspectiva ampla. As pessoas com desejos de gozo material adoram pequenos semideuses, e a Bhagavad-gītā (7.20) condena essa inteligência como hṛta-jñāna, a inteligência de alguém que perdeu o juízo. Sem a sanção do Senhor Supremo, os semideuses não podem outorgar nada a ninguém. Portanto, a pessoa com visão ampla pode ver que a autoridade última é o Senhor, mesmo quando se refere a benefícios materiais. Nessas circunstâncias, a pessoa com visão ampla, mesmo que deseje gozo material ou liberação, deve passar a adorar diretamente o Senhor. E todos, quer se trate de um akāma, sakāma ou mokṣa-kāma, devem adorar o Senhor com muita diligência. Isso implica que bhakti-yoga pode ser perfeitamente praticada sem nenhuma mistura de karma e jñāna. Assim como o raio solar puro é muito potente e, portanto, é chamado tīvra, do mesmo modo, o bhakti-yoga puramente sob a forma de ouvir, cantar etc. pode ser realizado por toda e qualquer pessoa, não importando qual seja a motivação interna.
एतावानेव यजतामिह नि:श्रेयसोदय: ।
भगवत्यचलो भावो यद् भागवतसंगत: ॥ ११ ॥
etāvān eva yajatām
iha niḥśreyasodayaḥ
bhagavaty acalo bhāvo
yad bhāgavata-saṅgataḥ

Synonyms

etāvāntodas essas diferentes espécies de adoradores; evadecerto; yajatāmenquanto adoram; ihanesta vida; niḥśreyasaa bênção máxima; udayaḥdesenvolvimento; bhagavatià Suprema Personalidade de Deus; acalaḥfirme; bhāvaḥatração espontânea; yata qual; bhāgavatadevoto puro do Senhor; saṅgataḥassociação.

Translation

Todas as diferentes espécies de adoradores de múltiplos semideuses podem alcançar a máxima bênção perfectiva, que é a atração espontânea firmemente fixa na Suprema Personalidade de Deus, através da exclusiva associação com o devoto puro do Senhor.

Purport

SIGNIFICADO—Todas as entidades vivas em diferentes estados de vida dentro da criação material, começando do primeiro semideus, Brahmā, e indo até a pequena formiga, estão condicionadas à lei da natureza material, ou a energia externa do Senhor Supremo. Em seu estado puro, a entidade viva é consciente do fato de que é parte integrante do Senhor, mas, quando é lançada no mundo material devido ao seu desejo de assenhorear-se da energia material, torna-se condicionada pelos três modos da natureza material e, então, luta para alcançar em sua existência o benefício máximo. Essa luta pela existência é como se a pessoa estivesse seguindo um fogo-fátuo sob o encanto do gozo material. Todos os planos para obter gozo material, seja pela adoração a diferentes semideuses, como se descreveu nos versos anteriores deste capítulo, seja pelo avanço modernizado do conhecimento científico sem a ajuda de Deus ou de algum semideus, são apenas ilusórios, pois, apesar de todos esses planos para obter a felicidade, o ser vivo condicionado dentro do âmbito da criação material nunca pode resolver os problemas da vida, a saber, nascimento, morte, velhice e doença. A história do universo está repleta desses idealizadores, e muitos reis e imperadores vêm e vão, deixando apenas planejamentos históricos. Mas os problemas básicos da vida permanecem insolúveis, apesar de todos os esforços desses planejadores.
Na verdade, a vida humana serve para dar solução aos problemas da vida. Ninguém jamais pode resolver esses problemas satisfazendo os diferentes semideuses, adotando diferentes modos de adoração ou empregando o dito avanço em conhecimento científico sem o auxílio de Deus ou dos semideuses. Embora não se dirijam aos materialistas grosseiros, que pouco se importam com Deus ou com os semideuses, os Vedas recomendam a adoração a diferentes semideuses para a conquista de diferentes benefícios, e, por conseguinte, os semideuses não são falsos nem imaginários. Os semideuses são tão reais como nós, mas são muito mais poderosos, pois estão ocupados no serviço direto ao Senhor, administrando os diferentes departamentos do governo universal. A Bhagavad-gītā afirma isso e menciona os diferentes planetas dos semideuses, incluindo aquele do semideus supremo, o senhor Brahmā. Os materialistas grosseiros não acreditam na existência de Deus ou dos semideuses. Tampouco acreditam que diferentes planetas são dominados por diferentes semideuses. Eles estão criando uma grande agitação em relação a alcançarem o corpo celestial mais próximo, Candraloka, ou a Lua, mas, mesmo após tanta pesquisa mecânica, têm apenas informações muito escassas sobre essa Lua, e, apesar de tanta propaganda falsa para vender terra na Lua, os cientistas arrogantes, ou materialistas grosseiros, não podem viver lá, muito menos podem eles alcançar outros planetas, aliás, nem mesmo conseguem contar o número deles. Entretanto, os seguidores dos Vedas têm um método diferente de adquirir conhecimento. Eles aceitam na íntegra as afirmações dos textos védicos como autoridade, conforme já discutimos no primeiro canto, e, portanto, eles têm pleno conhecimento racional sobre Deus e os semideuses, bem como seus diferentes planetas residenciais, situados dentro do âmbito do mundo material e além do limite do céu material. A escritura védica mais autêntica, aceita pelos grandes ācāryas indianos, como Śaṅkara, Rāmānuja, Madhva, Viṣṇusvāmī, Nimbārka e Caitanya, e estudada por todas as importantes personalidades do mundo, é a Bhagavad-gītā, na qual se menciona a adoração aos semideuses e seus respectivos planetas residenciais. A Bhagavad-gītā (9.25) afirma:
yānti deva-vratā devān
pitṝn yānti pitṛ-vratāḥ
bhūtāni yānti bhūtejyā
yānti mad-yājino ’pi mām
“Os adoradores dos semideuses alcançam os respectivos planetas dos semideuses, e os adoradores dos antepassados alcançam os planetas dos antepassados. O materialista grosseiro permanece nos diferentes planetas materiais, mas os devotos do Senhor alcançam o reino de Deus.”
Bhagavad-gītā também nos informa que todos os planetas dentro do mundo material, incluindo Brahmaloka, são apenas uma manifestação temporária, e, após um determinado período, todos eles são aniquilados. Portanto, os semideuses e seus seguidores são todos aniquilados no período de devastação, mas quem alcança o reino de Deus tem participação permanente na vida eterna. Esse é o veredito da literatura védica. Os adoradores dos semideuses têm uma condição que os favorece mais do que os descrentes, isto é, eles estão convictos da versão védica, através da qual são informados de que é benéfico adorar o Senhor Supremo na companhia dos devotos do Senhor. O materialista grosseiro, entretanto, como não tem nenhuma fé na versão védica, permanece eternamente na escuridão, arrastado por uma falsa convicção com base no conhecimento experimental imperfeito, ou a suposta ciência material, que nunca pode chegar ao reino do conhecimento transcendental.
Portanto, enquanto os materialistas grosseiros ou os adoradores dos semideuses temporários não entrarem em contato com um transcendentalista como o devoto puro do Senhor, suas tentativas serão mera perda de energia. Somente pela graça das personalidades divinas, os devotos puros do Senhor, pode alguém alcançar devoção pura, que é a perfeição máxima da vida humana. Apenas o devoto puro do Senhor pode mostrar a alguém o caminho correto, a vida progressiva. Por outro lado, o modo de vida materialista, sem nenhuma informação sobre Deus ou sobre os semideuses, bem como a vida ocupada na adoração aos semideuses, em busca de gozos materiais temporários, são diferentes fases de fantasmagoria. Isso também é explicado com muito esmero na Bhagavad-gītā, mas a Bhagavad-gītā só pode ser entendida na companhia de devotos puros, e não através de interpretações de políticos ou especuladores filosóficos áridos.
ज्ञानं यदाप्रतिनिवृत्तगुणोर्मिचक्र -
मात्मप्रसाद उत यत्र गुणेष्वसङ्ग: ।
कैवल्यसम्मतपथस्त्वथ भक्तियोग:
को निर्वृतो हरिकथासु रतिं न कुर्यात् ॥ १२ ॥
jñānaṁ yad āpratinivṛtta-guṇormi-cakram
ātma-prasāda uta yatra guṇeṣv asaṅgaḥ
kaivalya-sammata-pathas tv atha bhakti-yogaḥ
ko nirvṛto hari-kathāsu ratiṁ na kuryāt

Synonyms

jnānamconhecimento; yataquele que; āaté o limite de; pratinivṛttacompletamente eliminadas; guṇa-ūrmias ondas dos modos materiais; cakramredemoinho; ātma-prasādaḥautossatisfação; utaademais; yatraonde há; guṇeṣuaos modos da natureza; asaṅgaḥnenhum apego; kaivalyatranscendental; sammataaprovado; pathaḥcaminho; tumas; athaportanto; bhakti-yogaḥserviço devocional; kaḥquem; nirvṛtaḥabsorto em; hari-kathāsunos tópicos transcendentais do Senhor; ratimatração; nanão; kuryātfará.

Translation

O conhecimento transcendental relacionado com o Supremo Senhor Hari é conhecimento que produz a completa eliminação das ondas e redemoinhos dos modos materiais. Esse conhecimento traz autossatisfação porque está livre do apego material e, sendo transcendental, é aprovado pelas autoridades. Quem poderia deixar de sentir-se atraído?

Purport

SIGNIFICADO—De acordo com a Bhagavad-gītā (10.9), as características dos devotos puros são maravilhosas. Todas as atividades de um devoto puro estão sempre ocupadas a serviço do Senhor, e, assim, os devotos puros trocam sentimentos de êxtase entre si e saboreiam bem-aventurança transcendental. Essa bem-aventurança transcendental é experimentada mesmo na etapa da prática devocional (sādhana-avasthā), se for devidamente executada sob a orientação de um mestre espiritual genuíno. E, na etapa madura, o sentimento transcendental desenvolvido culmina na percepção da relação específica com o Senhor, a qual é a constituição original da entidade viva (tendo como auge a relação de amor conjugal com o Senhor, que é tida como a bem-aventurança transcendental máxima). Então, bhakti-yoga, sendo o único meio de compreender Deus, chama-se kaivalya. A esse respeito, Śrīla Jīva Gosvāmī cita a versão védica (eko nārāyaṇo devaḥ, parāvarāṇāṁ parama āste kaivalya-saṁjñitaḥ) e estabelece que Nārāyaṇa, a Personalidade de Deus, é conhecido como kaivalya, e o meio que capacita a pessoa a aproximar-se do Senhor chama-se kaivalya-panthā, ou o único meio para alcançar o Supremo. Esse kaivalya-panthā começa com śravaṇa, ou ouvir aqueles tópicos que se relacionam com a Personalidade de Deus, e ouvir esse hari-kathā traz como consequência natural a obtenção de conhecimento transcendental, que causa desapego de todos os tópicos mundanos, nos quais o devoto não sente nenhum sabor. Para o devoto, todas as atividades mundanas – sociais e políticas – perdem o poder de atração, e, no estado maduro, esse devoto perde o interesse até mesmo pelo seu próprio corpo, e mais ainda pelos parentes físicos. Nessa situação, a pessoa não se deixa agitar pelas ondas dos modos materiais. Existem diferentes modos da natureza material, e todas as atividades mundanas nas quais o homem comum está muito interessado, ou das quais participa, deixam de exercer qualquer atração sobre o devoto. Essa situação é aqui descrita como pratinivṛtta-guṇormi, e é possível através de ātma-prasāda, ou completa autossatisfação sem nenhum vínculo material. O devoto primoroso do Senhor chega a essa fase através do serviço devocional, mas, apesar de sua posição elevada, ele pode, para a satisfação do Senhor, desempenhar voluntariamente o papel de um pregador da glória do Senhor e harmonizar tudo com o serviço devocional, mesmo o interesse mundano, só para dar aos neófitos a oportunidade de transformarem em bem-aventurança transcendental o interesse mundano. Śrīla Rūpa Gosvāmī descreveu essa ação do devoto puro como nirbandhaḥ kṛṣṇa-sambandhe yuktaṁ vairāgyam ucyate. Até mesmo as atividades mundanas em sintonia com o serviço ao Senhor também são tidas como transcendentais ou afazeres kaivalya aprovados.
शौनक उवाच
इत्यभिव्याहृतं राजा निशम्य भरतर्षभ: ।
किमन्यत्पृष्टवान् भूयो वैयासकिमृषिं कविम् ॥ १३ ॥
śaunaka uvāca
ity abhivyāhṛtaṁ rājā
niśamya bharatarṣabhaḥ
kim anyat pṛṣṭavān bhūyo
vaiyāsakim ṛṣiṁ kavim

Synonyms

śaunakaḥ uvācaŚaunaka disse; itiassim; abhivyāhṛtamtudo o que foi falado; rājāo rei; niśamyaouvindo; bharata-ṛṣabhaḥMahārāja Parīkṣit; kimque; anyatmais; pṛṣṭavānele lhe perguntou; bhūyaḥnovamente; vaiyāsakimao filho de Vyāsadeva; ṛṣimuma pessoa versada; kavimpoética.

Translation

Śaunaka disse: O filho de Vyāsadeva, Śrīla Śukadeva Gosvāmī, era um sábio altamente erudito e conseguia dar às coisas uma descrição poética. O que Mahārāja Parīkṣit voltou a lhe perguntar após ouvir tudo o que ele dissera?

Purport

SIGNIFICADO—O devoto puro do Senhor automaticamente desenvolve todas as qualidades divinas, e alguns dos aspectos proeminentes dessas qualidades são os seguintes: ele é bondoso, pacífico, veraz, equânime, impecável, magnânimo, meigo, limpo, não possui nada, um benquerente de todos, satisfeito, rendido a Kṛṣṇa, sem anseios, simples, fixo, autocontrolado, come com moderação, ajuizado, cortês, sem orgulho, grave, compassivo, amistoso, poético, hábil e silencioso. Dentre esses vinte e seis aspectos proeminentes de um devoto, como descreve Kṛṣṇadāsa Kavirāja em seu Caitanya-caritāmṛta, sua qualificação poética é especialmente mencionada aqui em relação a Śukadeva Gosvāmī. A apresentação do Śrīmad-Bhāgavatam, que foi por ele recitado, é a contribuição poética máxima. Ele era um sábio erudito autorrealizado. Em outras palavras, ele era um poeta entre os sábios.
एतच्छुश्रूषतां विद्वन् सूत नोऽर्हसि भाषितुम् ।
कथा हरिकथोदर्का: सतां स्यु: सदसि ध्रुवम् ॥ १४ ॥
etac chuśrūṣatāṁ vidvan
sūta no ’rhasi bhāṣitum
kathā hari-kathodarkāḥ
satāṁ syuḥ sadasi dhruvam

Synonyms

etatisso; śuśrūṣatāmdaqueles que estão ansiosos para ouvir; vidvanó erudito; sūtaSūta Gosvāmī; naḥa nós; arhasipossas assim fazer; bhāṣitumsó para explicá-los; kathāḥtópicos; hari-kathā-udarkāḥresultam nos tópicos do Senhor; satāmdos devotos; syuḥpodem ser; sadasina assembleia de; dhruvamna certa.

Translation

Ó erudito Sūta Gosvāmī! Por favor, continua a explicar-nos esses tópicos porque estamos todos ansiosos para ouvir. Além disso, tópicos que resultam em discussões referentes ao Senhor Hari na certa devem ser discutidos na assembleia dos devotos.

Purport

SIGNIFICADO—Como já mencionamos acima, citando o Bhakti-rasāmṛta-sindhu, de Rūpa Gosvāmī, até mesmo as coisas mundanas, se estiverem em harmonia com o serviço ao Senhor Śrī Kṛṣṇa, são aceitas como transcendentais. Por exemplo, as histórias épicas do Rāmāyaṇa e do Mahābhārata, que são especificamente recomendadas para as classes menos inteligentes (mulheres, śūdras e filhos indignos das castas superiores), também são aceitas como literatura védica porque são compiladas em relação com as atividades do Senhor. O Mahābhārata é aceito como a quinta divisão dos Vedas, os quais, classicamente, apresentam quatro divisões, a saber, Sāma, Yajur, Ṛg e Atharva. Os menos inteligentes não aceitam o Mahābhārata como parte dos Vedas, mas os grandes sábios e autoridades aceitam-no como a quinta divisão dos Vedas. A Bhagavad-gītā também faz parte do Mahābhārata, e nele o Senhor fornece muitas instruções para a classe de homens menos inteligentes. Alguns homens menos inteligentes dizem que a Bhagavad-gītā não se destina aos chefes de família, mas esses homens tolos se esquecem de que a Bhagavad-gītā foi explicada a Arjuna, um gṛhastha (homem de família), e falado pelo Senhor em Seu papel de gṛhastha. Logo, a Bhagavad-gītā, embora contenha a alta filosofia da sabedoria védica, está ao alcance dos iniciantes na ciência transcendental, e o Śrīmad-Bhāgavatam é para graduados e pós-graduados na ciência transcendental. Portanto, textos como o Mahābhārata, os Purāṇas e outras escrituras similarmente repletas de passatempos do Senhor, são todas escrituras transcendentais, e os grandes devotos devem reunir-se para comentá-las cheios de confiança.
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A dificuldade é que esses textos, quando discutidos por homens profissionais, parecem literatura mundana, como histórias ou épicos, porque existem muitos fatos e figuras históricos. Por conseguinte, aqui se diz que essas escrituras devem ser discutidas na assembleia de devotos. Enquanto não forem discutidas pelos devotos, essas escrituras não poderão ser saboreadas pela classe de homens superiores. Logo, a conclusão é que, em última análise, o Senhor não é impessoal. Ele é a Pessoa Suprema e executa Suas próprias atividades. Ele é o líder de todas as entidades vivas e desce, por Sua vontade e através de Sua energia pessoal, para resgatar as almas caídas. Assim, Ele age exatamente como os líderes sociais, políticos ou religiosos. Porque esses papéis acabam provocando comentários sobre os tópicos do Senhor, todos esses tópicos preliminares também são transcendentais. Esse é o processo de espiritualizar as atividades cívicas da sociedade humana. Os homens têm propensões a estudar história e muitos outros textos mundanos – fábulas, ficção, dramas, revistas, jornais etc. –, então, é preciso que essas histórias se harmonizem com o transcendental serviço ao Senhor, e todos eles procurarão os tópicos saboreados por todos os devotos. A propaganda de que o Senhor é impessoal, de que Ele não executa atividades e de que Ele é uma pedra bruta sem qualquer nome e forma encorajou as pessoas a tornarem-se demônios ímpios e infiéis, e quanto mais eles se desviam das atividades transcendentais do Senhor, mais eles ficam afeitos às atividades mundanas que apenas limpam o caminho que os leva ao inferno ao invés de ajudá-los a voltar ao lar, voltar ao Supremo. O Śrīmad-Bhāgavatam começa com a história dos Pāṇḍavas (necessariamente repleta de atividades políticas e sociais), apesar do que o Śrīmad-Bhāgavatam é tido como a Pāramahaṁsa-saṁhitā, ou a literatura védica destinada ao transcendentalista mais elevado, e descreve o paraṁ jñānam, o conhecimento transcendental máximo. Todos os devotos puros do Senhor são paramahaṁsas, e são como cisnes, que conhecem a arte de extrair leite de uma mistura de leite e água.
स वै भागवतो राजा पाण्डवेयो महारथ: ।
बालक्रीडनकै: क्रीडन् कृष्णक्रीडां य आददे ॥ १५ ॥
sa vai bhāgavato rājā
pāṇḍaveyo mahā-rathaḥ
bāla-krīḍanakaiḥ krīḍan
kṛṣṇa-kṛīḍāṁ ya ādade

Synonyms

saḥele; vaidecerto; bhāgavataḥum grande devoto do Senhor; rājāMahārāja Parīkṣit; pāṇḍaveyaḥneto dos Pāṇḍavas; mahā-rathaḥum grande lutador; bālaquando era uma criança; krīḍanakaiḥcom bonecos de brinquedo; krīḍanbrincando; kṛṣṇaSenhor Kṛṣṇa; krīḍāmatividades; yaḥquem; ādadeaceitava.

Translation

Mahārāja Parīkṣit, o neto dos Pāṇḍavas, foi, desde sua tenra infância, um grande devoto do Senhor. Mesmo quando brincava com bonecos, ele costumava adorar o Senhor Kṛṣṇa imitando a adoração à Deidade da família.

Purport

SIGNIFICADO—Na Bhagavad-gītā (6.41), afirma-se que mesmo a pessoa que fracassou no desempenho adequado da prática de yoga ganha a oportunidade de nascer na casa de brāhmaṇas devotados ou na casa de homens ricos, como os reis kṣatriyas ou mercadores abastados. Mas Mahārāja Parīkṣit estava num plano superior isso, porque era um grande devoto do Senhor desde seu nascimento anterior, daí ter nascido em uma família imperial dos Kurus, e especialmente a dos Pāṇḍavas. Assim, desde o início de sua infância, ele teve em sua própria família a oportunidade de obter conhecimento íntimo sobre o serviço devocional ao Senhor Kṛṣṇa. Todos os Pāṇḍavas, sendo devotos do Senhor, com certeza veneravam as Deidades da família, praticando adoração no palácio real. As crianças que têm a fortuna de aparecer nessas famílias costumam imitar essa adoração às Deidades, mesmo em seus folguedos infantis. Pela graça do Senhor Śrī Kṛṣṇa, tivemos a oportunidade de nascer em uma família vaiṣṇava e, em nossa infância, imitávamos a adoração ao Senhor Kṛṣṇa, imitando nosso pai. Sob todos os aspectos, nosso pai nos encorajava a observar todas as solenidades, tais como as cerimônias de Ratha-yātrā e Dola-yātrā, e costumava gastar dinheiro liberalmente para distribuir prasāda entre nós e nossos amigos de infância. Nosso mestre espiritual, que também nasceu em uma família vaiṣṇava, recebeu de seu grande pai vaiṣṇava, Ṭhākura Bhaktivinoda, todas as inspirações. Esse é o processo de todas as afortunadas famílias vaiṣṇavas. A célebre Mīrā Bāī era uma inabalável devota que adorava o Senhor Kṛṣṇa como a gloriosa pessoa que ergueu a colina Govardhana.
A história da vida de muitos desses devotos é quase a mesma porque sempre há simetria entre os primórdios da vida de todos os grandes devotos do Senhor. De acordo com Jīva Gosvāmī, Mahārāja Parīkṣit deve ter ouvido sobre os passatempos infantis que o Senhor Kṛṣṇa desempenhou em Vṛndāvana, pois costumava imitar os passatempos enquanto brincava com seus amigos de infância. De acordo com Śrīdhara Svāmī, Mahārāja Parīkṣit costumava imitar a adoração que os membros mais velhos prestavam à Deidade da família. Śrīla Viśvanātha Cakravartī também confirma o ponto de vista de Jīva Gosvāmī. Assim, aceitando qualquer um deles, chega-se à conclusão de que Mahārāja Parīkṣit tinha inclinação natural pelo Senhor Kṛṣṇa desde sua tenra infância. Ele talvez tenha imitado qualquer uma dessas atividades, e todas elas estabelecem que, desde sua tenra infância, ele possuía grande devoção, um sintoma de um mahā-bhāgavata. Esses mahā-bhāgavatas são chamados nitya-siddhas, ou almas liberadas desde o nascimento. Mas também há outros, que talvez não sejam liberados desde o nascimento, mas que, através da associação, desenvolvem uma tendência para o serviço devocional, e eles são chamados sādhana-siddha. Em última análise, não há diferença entre os dois, de modo que a conclusão é que qualquer pessoa pode tornar-se um sādhana-siddha, um devoto do Senhor, bastando associar-se com os devotos puros. O exemplo concreto é nosso grande mestre espiritual Śrī Nārada Muni. Em sua vida anterior, foi um simples filho de uma criada, mas, através da associação com grandes devotos, tornou-se um devoto do Senhor cujo padrão é único na história do serviço devocional.
वैयासकिश्च भगवान् वासुदेवपरायण: ।
उरुगायगुणोदारा: सतां स्युर्हि समागमे ॥ १६ ॥
vaiyāsakiś ca bhagavān
vāsudeva-parāyaṇaḥ
urugāya-guṇodārāḥ
satāṁ syur hi samāgame

Synonyms

vaiyāsakiḥo filho de Vyāsadeva; catambém; bhagavānpleno de conhecimento transcendental; vāsudevaSenhor Kṛṣṇa; parāyaṇaḥapegado a; urugāyada Personalidade de Deus Śrī Kṛṣṇa, que é glorificado por grandes filósofos; guṇa-udārāḥgrandes qualidades; satāmdos devotos; syuḥdeve ter sido; hicertamente; samāgamepela presença de.

Translation

Śukadeva Gosvāmī, o filho de Vyāsadeva, também era pleno de conhecimento transcendental e era um grande devoto do Senhor Kṛṣṇa, filho de Vasudeva. Logo, devem ter acontecido debates sobre o Senhor Kṛṣṇa, que é glorificado por grandes filósofos e na companhia de grandes devotos.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, a palavra satām é muito importante. Satām refere-se aos devotos puros, que têm apenas o desejo de servir ao Senhor. Só na associação desses devotos, as glórias transcendentais do Senhor Kṛṣṇa são adequadamente discutidas. O Senhor diz que todos os Seus tópicos são plenos de significado espiritual, e, quando a pessoa passa a ouvir sobre ele na companhia de satām, com certeza ela sente a grande potência e, então, atinge automaticamente a fase de vida devocional. Como já se descreveu, desde seu próprio nascimento, Mahārāja Parīkṣit era um grande devoto do Senhor, e o mesmo fenômeno aconteceu com Śukadeva Gosvāmī. Ambos estavam no mesmo nível, embora parecesse que Mahārāja Parīkṣit era um grande rei afeito às prerrogativas reais, ao passo que Śukadeva Gosvāmī era um típico renunciante do mundo, tanto que ele sequer cobria seu corpo com uma roupa. À primeira vista, tinha-se a impressão de que Mahārāja Parīkṣit e Śukadeva Gosvāmī pareciam opostos, mas, basicamente, ambos eram imaculados devotos puros do Senhor. Quando tais devotos se reúnem, os únicos tópicos são as discussões sobre as glórias do Senhor, ou bhakti-yoga. Também na Bhagavad-gītā, quando houve a conversa entre o Senhor e Seu devoto Arjuna, não tinha como haver algum tópico diferente de bhakti-yoga, por mais que os eruditos mundanos possam especular sobre isso a seu próprio modo. O uso da palavra ca após vaiyāsakiḥ sugere, de acordo com Śrīla Jīva Gosvāmī, que Śukadeva Gosvāmī e Mahārāja Parīkṣit eram da mesma categoria, fato este há muito estabelecido, embora um estivesse desempenhando o papel de mestre, e o outro, o papel de discípulo. Como o Senhor Kṛṣṇa é o centro dos tópicos, a palavra vāsudeva-parāyaaḥ, ou “devoto de Vāsudeva”, sugere devoto do Senhor Kṛṣṇa, a meta comum. Embora muitos outros estivessem reunidos no lugar onde Mahārāja Parīkṣit jejuava, a conclusão natural é que o único tópico era a glorificação do Senhor Kṛṣṇa, porque o principal orador era Śukadeva Gosvāmī, e o principal membro da audiência era Mahārāja Parīkṣit. Logo, o Śrīmad-Bhāgavatam, tendo sido falado e ouvido pelos dois principais devotos do Senhor, é apenas para a glorificação do Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa.
आयुर्हरति वै पुंसामुद्यन्नस्तं च यन्नसौ ।
तस्यर्ते यत्क्षणो नीत उत्तमश्लोकवार्तया ॥ १७ ॥
āyur harati vai puṁsām
udyann astaṁ ca yann asau
tasyarte yat-kṣaṇo nīta
uttama-śloka-vārtayā

Synonyms

āyuḥduração de vida; haratidiminui; vaidecerto; puṁsāmdas pessoas; udyannascendo; astamse pondo; catambém; yanmovendo-se; asauo Sol; tasyade alguém que glorifica o Senhor; ṛteexceto; yatpor quem; kṣaṇaḥtempo; nītaḥutilizado; uttama-ślokaa excelente Personalidade de Deus; vārtayānos tópicos sobre.

Translation

Nascendo e se pondo, o Sol diminui a duração de vida de todos, exceto daquele que utiliza o tempo discutindo tópicos sobre a excelente Personalidade de Deus.

Purport

SIGNIFICADO—Este verso confirma indiretamente como é muito importante utilizar a forma de vida humana para compreender, através da aceleração do serviço devocional, a relação que rompemos com o Senhor Supremo. O tempo e a maré não esperam por ninguém. Logo, o tempo indicado pelo nascer do sol e pelo pôr do sol será desperdiçado se não o utilizarmos devidamente para compreender a identificação dos valores espirituais. Mesmo o desperdício de uma fração da duração de vida não pode ser compensado com nenhuma quantidade de ouro. A entidade viva (jīva) simplesmente recebe a vida humana para que possa compreender sua identidade espiritual e sua permanente fonte de felicidade. O ser vivo, especialmente o ser humano, busca a felicidade porque a felicidade é a situação natural da entidade viva. Contudo, ele inutilmente busca a felicidade na atmosfera material. Constitucionalmente, o ser vivo é uma centelha espiritual do todo completo, e ele pode sentir felicidade perfeita quando executa atividades espirituais. O Senhor é o espírito totalmente completo, e Seu nome, forma, qualidades, passatempos, séquito e personalidade são todos idênticos a Ele. Quando a pessoa entra em contato com qualquer uma dessas energias do Senhor através do canal adequado, o serviço devocional, abre-se imediatamente a porta da perfeição. Na Bhagavad-gītā (2.40), o Senhor explicou esse contato com as seguintes palavras: “Os esforços empreendidos no serviço devocional nunca são frustrados. Tampouco há algum fracasso. Dar um pequeno início a essas atividades é suficiente até mesmo para liberar uma pessoa do grande oceano dos temores materiais.” Assim como uma droga muito potente injetada na veia age de imediato em todo o corpo, os tópicos transcendentais do Senhor, injetados no ouvido pelo devoto puro do Senhor, podem agir com muita eficiência. Compreender as mensagens transcendentais que são ouvidas implica em compreensão total, assim como a frutificação de uma parte de uma árvore implica na frutificação de todas as outras partes. Essa compreensão conseguida num momento de companhia de devotos puros como Śukadeva Gosvāmī prepara a pessoa para uma vida de completa eternidade. E, assim, o Sol não consegue roubar do devoto puro sua duração de vida, visto que ele está constantemente ocupado no serviço devocional ao Senhor, purificando sua existência. A morte é um sintoma da infecção material do ser vivo eterno; somente devido à infecção material é que a entidade viva eterna está sujeita à lei de nascimento, morte, velhice e doença.
A caridade e outros processos materialistas de atividades piedosas são recomendados nos smṛti-śāstras, como cita Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura. O dinheiro dado em caridade à pessoa digna garante um saldo bancário na próxima vida. Recomenda-se que essa caridade deva ser dada a um brāhmaṇa. Se o dinheiro é dado em caridade a um não-brāhmaṇa (sem qualificação bramânica), ele é devolvido na próxima vida na mesma proporção. Se ele é dado em caridade a um brāhmaṇa semieducado, mesmo nesse caso o dinheiro é devolvido em dobro. Se o dinheiro é dado em caridade a um brāhmaṇa erudito e plenamente qualificado, ele é devolvido em uma quantia centenas e milhares de vezes maior, ao passo que, se o dinheiro é dado a um veda-pāraga (alguém que de fato entendeu o caminho dos Vedas), ele é devolvido ilimitadas vezes o seu valor original. O fim último do conhecimento védico é a compreensão acerca da Personalidade de Deus, o Senhor Kṛṣṇa, como afirma a Bhagavad-gītā (vedaiś ca sarvair aham eva vedyaḥ). Há uma garantia de que o dinheiro dado em caridade será devolvido em diferentes proporções. Do mesmo modo, passar um momento na companhia de um devoto puro, ouvindo e cantando as mensagens transcendentais do Senhor, garante perfeitamente a vida eterna, o retorno ao lar, o retorno ao Supremo. Mad-dhāma gatvā punar janma na vidyate. Em outras palavras, o devoto do Senhor tem garantida a vida eterna. O fato de o devoto envelhecer ou adoecer na vida atual é apenas um ímpeto que o empurra para essa vida eterna que lhe está garantida.
तरव: किं न जीवन्ति भस्त्रा: किं न श्वसन्त्युत ।
न खादन्ति न मेहन्ति किं ग्रामे पशवोऽपरे ॥ १८ ॥
taravaḥ kiṁ na jīvanti
bhastrāḥ kiṁ na śvasanty uta
na khādanti na mehanti
kiṁ grāme paśavo ’pare

Synonyms

taravaḥas árvores; kimacaso; nanão; jīvantivivem; bhastrāḥfole; kimacaso; nanão; śvasantirespira; utatambém; nanão; khādanticomem; nanão; mehantiejaculam sêmen; kimacaso; grāmena localidade; paśavaḥser vivo animalesco; apareoutros.

Translation

Acaso as árvores não vivem? Acaso o fole do ferreiro não respira? E, ao redor de todos nós, acaso os animais selvagens não comem e ejaculam sêmen?

Purport

SIGNIFICADO—O homem materialista da era moderna alegará que a vida, ou parte dela, nunca se destina à discussão de argumentos teosóficos ou teológicos. A maior parte da duração máxima da vida deve servir para comer, beber, fazer sexo, divertir-se e desfrutar. O homem moderno quer viver para sempre através do avanço da ciência material, e existem muitas teorias tolas para prolongar a vida, dando-lhe a duração máxima. Mas o Śrīmad-Bhāgavatam afirma que a vida não se destina ao suposto desenvolvimento econômico ou avanço da ciência materialista, que estimulam a filosofia hedonista, que se resume a comer, acasalar-se, beber e divertir-se. A vida destina-se unicamente a tapasya, a purificar a existência para que a pessoa possa entrar na vida eterna logo após o término da forma de vida humana.
Os materialistas querem prolongar a vida o máximo possível porque não têm informação sobre a próxima vida. Querem obter todos os confortos nesta vida atual porque pensam definitivamente que não há vida após a morte. Essa ignorância sobre a eternidade do ser vivo e a mudança de corpos a que todos se sujeitam no mundo material tem causado estragos na estrutura da sociedade humana moderna. Consequentemente, existem muitos problemas, multiplicados pelos vários planos do homem modernizado. Os planos para resolver os problemas da sociedade têm apenas agravado os problemas. Mesmo que fosse possível viver mais de cem anos, isso necessariamente não implicaria no avanço da civilização humana. O Bhāgavatam diz que certas árvores vivem centenas e milhares de anos. Em Vṛndāvana, existe uma árvore de tamarindo (o local é conhecido como Imlitala) que, segundo se afirma, existe desde a época do Senhor Kṛṣṇa. No jardim botânico de Calcutá, existe uma figueira-de-bengala que se calcula ter mais de quinhentos anos, e existem muitas dessas árvores no mundo todo. Svāmī Śaṅkarācārya viveu apenas trinta e dois anos, e o Senhor Caitanya viveu quarenta e oito anos. Isso significa que as longas vidas das árvores acima mencionadas são mais importantes que a vida de Śaṅkara ou Caitanya? Vida longa sem valor espiritual não é algo muito importante. Alguém talvez duvide que as árvores tenham vida porque elas não respiram. Mas cientistas modernos, como Bose, já provaram que existe vida nas plantas, de modo que a respiração não é sinal de verdadeira vida. O Bhāgavatam diz que o fole do ferreiro respira bem profundamente, mas isso não significa que o fole tenha vida. O materialista argumentará que a vida na árvore e a vida no homem não podem ser comparadas porque a árvore não pode gozar a vida comendo pratos saborosos ou desfrutando do intercurso sexual. Em resposta a isso, o Bhāgavatam pergunta se outros animais, como os cães e os porcos, que vivem na mesma vila com os seres humanos, não comem e gozam de vida sexual. Ao referir-se especificamente a “outros animais”, o Śrīmad-Bhāgavatam deixa claro que as pessoas que estão simplesmente ocupadas em planejar um melhor tipo de vida animal, consistindo em comer, respirar e acasalar-se, também são animais em forma de seres humanos. Uma sociedade formada desses animais polidos não pode beneficiar a humanidade sofredora, pois um animal pode facilmente ferir outro animal, mas raramente pode fazer-lhe o bem.
श्वविड्‍वराहोष्ट्रखरै: संस्तुत: पुरुष: पशु: ।
न यत्कर्णपथोपेतो जातु नाम गदाग्रज: ॥ १९ ॥
śva-viḍ-varāhoṣṭra-kharaiḥ
saṁstutaḥ puruṣaḥ paśuḥ
na yat-karṇa-pathopeto
jātu nāma gadāgrajaḥ

Synonyms

śvaum cão; viṭ-varāhao porco da vila, que come excremento; uṣṭrao camelo; kharaiḥe pelos anos; saṁstutaḥperfeitamente louvada; puruṣaḥuma pessoa; paśuḥanimal; nanunca; yatdele; karṇaouvido; pathacaminho; upetaḥalcançado; jātuem tempo algum; nāmao santo nome; gadāgrajaḥo Senhor Kṛṣṇa, que elimina todos os males.

Translation

Homens que são como cães, porcos, camelos e asnos louvam aqueles homens que nunca ouvem os passatempos transcendentais do Senhor Śrī Kṛṣṇa, aquele que elimina todos os males.

Purport

SIGNIFICADO—A massa geral da população, enquanto não for sistematicamente treinada a desenvolver um padrão superior de vida em valores espirituais, não passará de animais, e, neste verso, ela foi especificamente posta no mesmo nível dos cães, porcos, camelos e asnos. A educação universitária moderna praticamente prepara a pessoa para adquirir uma mentalidade de cachorro, com a qual ela se coloca a serviço de um grande amo. Após concluir uma suposta formação, as pessoas aparentemente instruídas andam de porta em porta como cães, pedindo algum tipo de serviço, e a maior parte delas é dispensada, informada de que não há vagas. Assim como os cães são animais desprezíveis que servem ao amo fielmente em troca de algumas migalhas de pão, o indivíduo serve fielmente a seu amo sem receber uma recompensa que lhe seja suficiente.
As pessoas que não selecionam seu alimento e que comem todas as espécies de imundície são comparadas a porcos. Os porcos têm grande interesse em comer excremento. Assim, o excremento é uma classe de alimento para um determinado tipo de animal. E mesmo as pedras servem de comestíveis para um tipo específico de animal ou ave. Mas o ser humano não se destina a comer toda e qualquer coisa; ele se destina a comer cereais, legumes, frutas, leite, açúcar etc. O alimento animal não se destina ao ser humano. Para mastigar o alimento sólido, o ser humano tem um tipo específico de dentes destinados a cortar frutas e legumes. O ser humano é dotado com dois dentes caninos, como uma concessão às pessoas que preferem comer alimento animal a qualquer custo. Todos sabem que o alimento de um homem é veneno para outro. Os seres humanos devem aceitar os restos do alimento oferecido ao Senhor Śrī Kṛṣṇa, e o Senhor aceita o alimento preparado com folhas, flores, plantas, frutas etc. (Bhagavad-gītā 9.26). Como prescrevem as escrituras védicas, nenhum alimento animal é oferecido ao Senhor. Portanto, o ser humano se destina a comer uma categoria específica de alimento. Ele não deve imitar os animais para obter os supostos valores vitamínicos. Por conseguinte, a pessoa que não faz discriminação no que diz respeito a comer é comparada a um porco.
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O camelo é um tipo de animal que sente prazer em comer espinhos. A pessoa que quer desfrutar a vida familiar ou a vida mundana com seu suposto gozo é comparada ao camelo. A vida materialista está cheia de espinhos, e, assim, a pessoa deve viver apenas segundo o método prescrito pelas regulações védicas, somente para tirar o melhor proveito de um mau negócio. No mundo material, a pessoa consegue sobreviver sugando o próprio sangue. O ponto central de atração para o gozo material é a vida sexual. Desfrutar a vida sexual é sugar o próprio sangue, e isso, a rigor, não precisa de muitas outras explicações. O camelo também suga seu próprio sangue enquanto mastiga galhos espinhentos. Os espinhos que o camelo come cortam-lhe a língua, de modo que o sangue começa a fluir dentro da boca do camelo. Os espinhos, misturados com sangue fresco, criam um sabor para o camelo tolo e, assim, ele sente falso prazer em comer espinhos. De modo semelhante, os grandes magnatas dos negócios, industriais que trabalham muito arduamente para ganhar dinheiro através de diferentes maneiras e meios questionáveis, comem os resultados espinhentos de suas ações, misturados com seu próprio sangue. Portanto, o Bhāgavatam equipara esses sujeitos doentios aos camelos.
O asno é um animal que é célebre como o maior tolo, mesmo entre os animais. O asno trabalha muito arduamente e carrega cargas de peso máximo sem conseguir nenhum lucro para ele mesmo. De um modo geral, quem utiliza o asno é o lavadeiro, cuja posição social não é muito respeitável. E a qualificação especial do asno é que ele está muito acostumado a ser chutado pelo sexo oposto. Quando procura o contato sexual, o asno é chutado pelo sexo frágil, apesar do que ele continua insistindo que a fêmea lhe conceda o prazer sexual. Portanto, o homem que está sob o domínio da mulher é comparado ao asno. A massa em geral da população trabalha muito arduamente, em especial na era de Kali. Nesta era, o ser humano realmente está ocupado no trabalho de um asno, carregando cargas pesadas e dirigindo ṭhelās e riquixás. O aparente avanço da civilização humana ocupou o ser humano no trabalho de um asno. Os trabalhadores nas grandes fábricas e oficinas também se ocupam nesse trabalho pesado, e, após trabalhar arduamente durante o dia, o pobre trabalhador tem de ser novamente chutado pelo sexo frágil, não apenas por causa do gozo sexual, mas também devido a tantos afazeres domésticos.
Logo, o fato de o Śrīmad-Bhāgavatam colocar o homem comum sem qualquer iluminação espiritual na categoria de cães, porcos, camelos e asnos não é nenhum exagero. Os líderes dessas massas de pessoas ignorantes podem sentir-se muito orgulhosos de serem adorados por esse grande número de cães e porcos, mas isso não é muito lisonjeiro. O Bhāgavatam declara abertamente que, embora a pessoa possa ser um grande líder desses cães e porcos disfarçados de homem, se ela não tiver interesse em iluminar-se na ciência de Kṛṣṇa, semelhante líder também é nada mais do que um animal. Ele pode ser designado como um animal forte e poderoso, ou um grande animal, mas, no cálculo do Śrīmad-Bhāgavatam, ele nunca é colocado na categoria dos homens, devido ao seu temperamento ateísta. Ou, em outras palavras, esses líderes ímpios de homens parecidos com cães e porcos são animais maiores, com as qualidades dos animais em maior proporção.
बिले बतोरुक्रमविक्रमान् ये
न श‍ृण्वत: कर्णपुटे नरस्य ।
जिह्वासती दार्दुरिकेव सूत
न चोपगायत्युरुगायगाथा: ॥ २० ॥
bile batorukrama-vikramān ye
na śṛṇvataḥ karṇa-puṭe narasya
jihvāsatī dārdurikeva sūta
na copagāyaty urugāya-gāthāḥ

Synonyms

bileburacos onde moram serpentes; batacomo; urukramao Senhor, que age maravilhosamente; vikramānproezas; yetodas essas; nanunca; śṛṇvataḥouvidas; karṇa-puṭeos orifícios auditivos; narasyado homem; jihvālíngua; asatīinútil; dārdurikādas rãs; ivaexatamente como isso; sūtaó Sūta Gosvāmī; nanunca; catambém; upagāyaticanta em voz alta; urugāyadignas de serem cantadas; gāthāḥcanções.

Translation

Quem não ouviu as mensagens sobre as proezas e atos maravilhosos da Personalidade de Deus e não cantou ou entoou em voz alta as valiosas canções sobre o Senhor deve ser considerado como possuidor de orifícios auditivos semelhantes aos buracos onde moram as serpentes e de língua semelhante à língua de uma rã.

Purport

SIGNIFICADO—Presta-se serviço devocional ao Senhor com todos os membros ou partes do corpo. Isso é a força transcendental dinâmica da alma espiritual; portanto, o devoto ocupa-se cem por cento a serviço do Senhor. A pessoa pode ocupar-se em serviço devocional quando os sentidos do corpo se purificam devido ao contato com o Senhor e pode prestar serviço ao Senhor com a ajuda de todos os sentidos. Nesse caso, os sentidos e a ação dos sentidos devem ser considerados impuros ou materialistas enquanto forem empregados apenas em gozo dos sentidos. Os sentidos purificados não se ocupam no gozo dos sentidos, mas no completo serviço ao Senhor. O Senhor é o Supremo e possui todos os sentidos, e o servo, que é parte integrante do Senhor, também tem os mesmos sentidos. Serviço ao Senhor é o uso completamente puro dos sentidos, como se descreve na Bhagavad-gītā. O Senhor transmitiu instruções com plenos sentidos, e Arjuna as recebeu com plenos sentidos, e assim houve um perfeito intercâmbio de compreensão sensata e lógica entre o mestre e o discípulo. Compreensão espiritual não é o mesmo que uma descarga elétrica que o mestre aplica no discípulo, como alegam tolamente alguns propagandistas. Tudo é repleto de razão e lógica, e a troca de ideias entre o mestre e o discípulo é possível apenas quando a recepção é submissa e verdadeira. No Caitanya-caritāmṛta, afirma-se que, para receber o ensinamento transmitido pelo Senhor Caitanya, a pessoa deve ter intelecto e utilizar todos os seus sentidos a fim de que possa entender, de maneira lógica, a grande missão.
No estado impuro do ser vivo, os vários sentidos estão plenamente ocupados em afazeres mundanos. Se o ouvido não está ocupado no serviço ao Senhor, ouvindo o que fala sobre Ele a Bhagavad-gītā ou o Śrīmad-Bhāgavatam, com certeza os orifícios auditivos serão preenchidos com algo sem valor. Portanto, as mensagens da Bhagavad-gītā e do Śrīmad-Bhāgavatam devem ser pregadas em todo o mundo em alto e bom som. Esse é o dever do devoto puro que realmente ouviu as fontes perfeitas falarem a respeito delas. Muitos querem falar algo aos outros, mas, como não estão treinados em falar sobre o tema da sabedoria védica, todos estão falando tolices, e as pessoas estão recebendo isso sem nenhuma discriminação. Existem centenas e milhares de fontes para distribuir notícias do mundo material, e a população do mundo também as está recebendo. De modo semelhante, a população do mundo deve aprender a ouvir os tópicos transcendentais do Senhor, e o devoto do Senhor deve falar bem alto para que todos possam ouvir. As rãs coaxam bem alto e, assim o fazendo, convidam as serpentes para ir comê-las. O ser humano recebe especialmente uma língua para cantar os hinos védicos, e não para coaxar como rãs. A palavra asatī usada neste verso também é significativa. Asatī se refere a uma mulher que virou prostituta. Sem nenhuma reputação, a prostituta não tem boas qualidades femininas. Do mesmo modo, a língua que o ser humano recebe para cantar os hinos védicos será considerada uma prostituta sempre que estiver ocupada em cantar alguma tolice mundana.
भार: परं पट्टकिरीटजुष्ट -
मप्युत्तमाङ्गं न नमेन्मुकुन्दम् ।
शावौ करौ नो कुरुते सपर्यां
हरेर्लसत्काञ्चनकङ्कणौ वा ॥ २१ ॥
bhāraḥ paraṁ paṭṭa-kirīṭa-juṣṭam
apy uttamāṅgaṁ na namen mukundam
śāvau karau no kurute saparyāṁ
harer lasat-kāñcana-kaṅkaṇau vā

Synonyms

bhāraḥum grande fardo; parampesado; paṭṭaseda; kirīṭaturbante; juṣṭamvestidas com; apimesmo; uttamasuperiores; aṅgampartes do corpo; nanunca; nametse prostram; mukundamo Senhor Kṛṣṇa, o libertador; śāvaucorpos mortos; karaumãos; nonão; kurutefazem; saparyāmadoração; hareḥda Personalidade de Deus; lasatreluzentes; kāñcanafeitas de ouro; kaṅkaṇaupulseiras; muito embora.

Translation

Quando não se prostra diante da Personalidade de Deus que pode conceder mukti [liberdade], a parte superior do corpo, embora coroada com um turbante de seda, não passa de um fardo pesado. E quando não se ocupam a serviço da Personalidade de Deus, Hari, as mãos, embora decoradas com pulseiras reluzentes, são como as de um cadáver.

Purport

SIGNIFICADO—Como se afirmou antes neste texto, existem três categorias de devotos do Senhor. O devoto de primeira classe sempre vê que todos estão prestando serviço ao Senhor, mas o devoto de segunda classe faz distinções entre os devotos e os não-devotos. Os devotos de segunda classe, portanto, prestam-se ao trabalho de pregação e, como se menciona no verso acima, devem pregar bem alto as glórias do Senhor. O devoto de segunda classe aceita discípulos entre os devotos de terceira classe e os não-devotos. Às vezes, para tornar-se pregador, o devoto de primeira classe desce à categoria de devoto de segunda classe. Mas o homem comum, a quem pelo menos cabe tornar-se um devoto de terceira classe, é aqui aconselhado a visitar o templo do Senhor e prostrar-se diante da Deidade, muito embora ele talvez seja um homem muito rico ou mesmo um rei com um turbante de seda ou coroa. O Senhor é o senhor de todos, incluindo os grandes reis e imperadores, e os homens que, segundo a opinião da população mundana, são ricos devem, portanto, assumir como compromisso visitar o templo do Senhor Kṛṣṇa e prostrarem-se regularmente diante da Deidade. Jamais se deve considerar que a forma adorável que o Senhor manifesta no templo é feita de pedra ou madeira, pois, com Sua presença auspiciosa, o Senhor, em Sua encarnação arcā como a Deidade no templo, mostra imenso favor às almas caídas. Através do processo auditivo, como aqui se mencionou antes, é possível passar a compreender a presença do Senhor no templo. Nesse caso, o primeiro processo no trabalho de rotina do serviço devocional – ouvir – é um aspecto essencial. É essencial que todas as classes de devotos ouçam as fontes autênticas, como a Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam. O homem comum que se orgulha de sua posição material e não se prostra diante da Deidade do Senhor no templo, ou que, sem nenhum conhecimento da ciência, desafia a adoração no templo, deve tomar conhecimento de que seu pretenso turbante ou coroa apenas o ajudará a afundar cada vez mais na água do oceano da existência material. Ao afogar-se, um homem que está com um grande peso sobre sua cabeça na certa afundará mais rapidamente do que aqueles que não têm um grande peso. O homem tolo e arrogante desafia a ciência de Deus e diz que, para ele, Deus não tem significado, mas, ao ficar sob o domínio da lei de Deus e ser surpreendido por alguma doença, como a trombose cerebral, esse homem ímpio, com o peso de sua aquisição material, afunda no oceano de ignorância. O avanço da ciência material sem consciência de Deus é uma pesada carga sobre a cabeça da sociedade humana, daí todos deverem dar atenção a esse grande conselho.
Se o homem comum não tem tempo para adorar o Senhor, ele pode ao menos ocupar suas mãos em lavar ou varrer o templo do Senhor durante alguns minutos. Mahārāja Pratāparudra, o poderosíssimo rei de Orissa, vivia muito atarefado com seus intensos afazeres governamentais, mas ele assumiu como compromisso varrer o templo do Senhor Jagannātha em Purī, uma vez por ano, durante o festival do Senhor. A ideia é que, por mais importante que alguém seja, ele tem de aceitar a supremacia do Senhor Supremo. Essa consciência de Deus ajudará até mesmo a prosperidade material da pessoa. A subordinação de Mahārāja Pratāparudra diante do Senhor Jagannātha fez dele um rei poderoso, tanto que nem mesmo o grande pachtun pôde, em sua época, entrar em Orissa por causa da presença do poderoso Mahārāja Pratāparudra. E Mahārāja Pratāparudra acabou recebendo a graça do Senhor Śrī Caitanya porque aceitou subordinar-se ao Senhor do universo. Logo, muito embora tenha em suas mãos pulseiras reluzentes feitas de ouro, a esposa de um homem rico deve ocupar-se em prestar serviço ao Senhor.
बर्हायिते ते नयने नराणां
लिङ्गानि विष्णोर्न निरीक्षतो ये ।
पादौ नृणां तौ द्रुमजन्मभाजौ
क्षेत्राणि नानुव्रजतो हरेर्यौ ॥ २२ ॥
barhāyite te nayane narāṇāṁ
liṅgāni viṣṇor na nirīkṣato ye
pādau nṛṇāṁ tau druma-janma-bhājau
kṣetrāṇi nānuvrajato harer yau

Synonyms

barhāyitecomo plumas de um pavão; teaqueles; nayaneolhos; narāṇāmdos homens; liṅgāniformas; viṣṇoḥda Personalidade de Deus; nanão; nirīkṣataḥolham para; yetodas essas; pādaupernas; nṛṇāmdos homens; tauaquelas; druma-janmanascidos da árvore; bhājaucomo aqueles; kṣetrāṇilugares sagrados; nanunca; anuvrajataḥse dirigem aos; hareḥdo Senhor; yauo qual.

Translation

Os olhos que não contemplam as representações simbólicas da Personalidade de Deus, Viṣṇu [Suas formas, nome, qualidade etc.], são como os olhos gravados nas plumas do pavão, e as pernas que não se locomovem aos lugares sagrados [onde se medita no Senhor] são consideradas como troncos de árvores.

Purport

SIGNIFICADO—Especialmente para os devotos chefes de família, recomenda-se fortemente o caminho da adoração à Deidade. Na medida do possível, todo chefe de família, sob a orientação do mestre espiritual, deve instalar a Deidade de Viṣṇu, em especial formas como Rādhā-Kṛṣṇa, Lakṣmī-Nārāyaṇa ou Sītā-Rāma, ou qualquer outra forma do Senhor, tal como Nṛsiṁha, Varāha, Gaura-Nitāi, Matsya, Kūrma, śālagrāma-śilā e muitas outras formas de Viṣṇu, tais como Trivikrama, Keśava, Acyuta, Vāsudeva, Nārāyaṇa e Dāmodara, como se recomenda nos Tantras vaiṣṇavas ou nos Purāṇas, e a sua família deve observar uma adoração estrita, seguindo as orientações e regulações próprias de arcana-vidhi. Qualquer membro da família que tenha mais de doze anos de idade deve ser iniciado por um mestre espiritual genuíno, e todos os membros da família devem ocupar-se no serviço diário ao Senhor, desde as quatro horas da manhã até as vinte e duas horas da noite, realizando maṅgala-ārātrika, nirañjana, arcana, pūjā, kīrtana, śṛṅgāra, bhoga-vaikāli, sandhyā-ārātrika, pāṭha, bhoga (à noite), śayana-ārātrika etc. Sob a orientação de um mestre espiritual autêntico, a ocupação nessa adoração à Deidade ajudará muito os chefes de família a purificarem sua própria existência e a progredirem bem depressa em conhecimento espiritual. O simples conhecimento teórico livresco não é suficiente para o devoto neófito. O conhecimento livresco é a teoria, ao passo que o processo de arcana é a prática. Deve-se desenvolver o conhecimento espiritual com uma combinação de conhecimento teórico e prático, e esse é o processo que garante a obtenção da perfeição espiritual. Para aprender o serviço devocional, o devoto neófito depende por completo do mestre espiritual competente que sabe como orientar seu discípulo para que ele avance e, pouco a pouco, volte ao lar, volte ao Supremo. Ninguém deve tornar-se um mestre espiritual farsante e fazer negócios só para cobrir suas despesas familiares; é preciso que a pessoa se torne um mestre espiritual competente para libertar o discípulo das garras da morte iminente. Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura define as qualidades genuínas do mestre espiritual, e, nessa descrição, um dos versos diz:
śrī-vigrahārādhana-nitya-nānā-
śṛṅgāra-tan-mandira-mārjanādau
yuktasya bhaktāṁś ca niyuñjato ’pi
vande guroḥ śrī-caraṇāravindam
Śrī-vigraha é a arcā, ou a forma apropriada do Senhor que é digna de adoração, e o discípulo deve ocupar-se em adorar a Deidade regularmente através de śṛṅgāra, mediante decoração e roupas adequadas, bem como através de mandira-mārjana, ou a limpeza do templo. O próprio mestre espiritual é gentil em ensinar ao devoto neófito tudo isso para ajudá-lo a compreender pouco a pouco o nome, a qualidade, a forma etc. transcendentais do Senhor.
Apenas ocupando a atenção no serviço ao Senhor, especialmente em vestir a Deidade e decorar o templo, realizando kīrtanas musicais e aprendendo as instruções espirituais das escrituras, pode o homem comum salvar-se das atrações cinematográficas infernais e das imundas canções libidinosas divulgadas em toda parte pelo rádio. Se a pessoa não consegue manter um templo em casa, deve ir a um templo onde se executam com regularidade todas essas práticas. Visitar o templo de um devoto e ver em um templo bem decorado e santificado as formas do Senhor profusamente adornadas e bem vestidas infundem na mente mundana uma inspiração espiritual natural. As pessoas devem visitar lugares sagrados como Vṛndāvana, onde se mantêm especificamente esses templos e a adoração à Deidade. Outrora, todos os homens ricos, tais como reis e mercadores abastados, construíam esses templos sob a orientação de competentes devotos do Senhor, como os seis Gosvāmīs, e é dever do homem comum tirar proveito desses templos e dos festivais observados nos lugares sagrados de peregrinação, seguindo os passos dos grandes devotos (anuvraja). Ninguém deve visitar todos esses templos e lugares santos de peregrinação com mentalidade de turista, mas, quando forem a esses templos e lugares santificados imortalizados pelos passatempos transcendentais do Senhor, todos devem receber orientação de homens qualificados que conheçam a ciência. Isso se chama anuvraja. Anu significa seguir. Portanto, é melhor seguir a instrução do mestre espiritual genuíno, mesmo ao visitar templos e lugares sagrados de peregrinação. A pessoa que não age dessa maneira está em nível de igualdade com uma árvore inerte, condenada pelo Senhor a não se mexer. O ser humano desperdiça sua tendência de locomover-se ao fazer turismo. Pode-se cumprir o melhor propósito dessas tendências locomotoras com a visita aos lugares sagrados estabelecidos pelos grandes ācāryas, e, desse modo, a pessoa não se deixa desencaminhar pela propaganda ateísta de homens cobiçosos que não conhecem assuntos espirituais.
जीवञ्छवो भागवताङ्‌घ्रिरेणुं
न जातु मर्त्योऽभिलभेत यस्तु ।
श्रीविष्णुपद्या मनुजस्तुलस्या:
श्वसञ्छवो यस्तु न वेद गन्धम् ॥ २३ ॥
jīvañ chavo bhāgavatāṅghri-reṇuṁ
na jātu martyo ’bhilabheta yas tu
śrī-viṣṇu-padyā manujas tulasyāḥ
śvasañ chavo yas tu na veda gandham

Synonyms

jīvanenquanto vive; śavaḥum corpo morto; bhāgavata-aṅghri-reṇuma poeira dos pés de um devoto puro; nanunca; jātuem momento algum; martyaḥmortal; abhilabhetarecebeu especificamente; yaḥuma pessoa; tumas; śrīcom opulência; viṣṇu-padyāḥdos pés de lótus de Viṣṇu; manu-jaḥum descendente de Manu (um homem); tulasyāḥfolhas da árvore de tulasī; śvasanenquanto respira; śavaḥcontinua sendo um corpo morto; yaḥquem; tumas; na vedanunca experimentou; gandhamo aroma.

Translation

A pessoa que em nenhuma ocasião recebeu sobre sua cabeça a poeira dos pés do devoto puro do Senhor com certeza é um cadáver. E a pessoa que nunca experimentou o aroma das folhas de tulasī deixadas nos pés de lótus do Senhor também é um cadáver, embora respire.

Purport

SIGNIFICADO—Segundo Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura, um cadáver que respira é um fantasma. Ao falecer, o homem é considerado morto, mas, quando ele reaparece sob uma forma sutil e invisível à nossa visão atual e continua agindo, semelhante cadáver é chamado de fantasma. Os fantasmas sempre são péssimos elementos, sempre criando dificuldades para os outros. Do mesmo modo, os não-devotos fantasmagóricos, que não respeitam os devotos puros, nem a Deidade de Viṣṇu nos templos, a todo instante criam para os devotos uma situação temerosa. O Senhor nunca aceita alguma oferenda feita por esses fantasmas impuros. Existe um ditado comum segundo o qual a pessoa deve primeiro amar o cachorro do amado para então poder mostrar algum sentimento amoroso pelo amado. Alcança a fase de devoção pura quem serve com sinceridade um devoto puro do Senhor. Portanto, no serviço devocional ao Senhor, a primeira condição é tornar-se servo do devoto puro do Senhor, e satisfaz essa condição quem “recebe a poeira dos pés de lótus de um devoto puro que também prestou serviço a outro devoto puro”. Esse é método de sucessão discipular, ou paramparā devocional.
Mahārāja Rahūgaṇa perguntou ao grande santo Jaḍa Bharata como foi que ele alcançara a fase de paramahaṁsa liberado, e o grande santo deu a seguinte resposta (Śrīmad-Bhāgavatam 5.12.12.):
rahūgaṇaitat tapasā na yāti
na cejyayā nirvapaṇād gṛhād vā
na cchandasā naiva jalāgni-sūryair
vinā mahat-pāda-rajo-’bhiṣekam
“Ó rei Rahūgaṇa, enquanto o indivíduo não for abençoado com a poeira dos pés dos grandes devotos, não alcançará a fase do serviço devocional perfeito, ou a fase de vida de paramahaṁsa. Ninguém pode alcançá-la só porque se submete a tapasya [austeridades], executa o processo de adoração védica, aceita a ordem de vida renunciada, cumpre com os deveres da vida familiar, canta hinos védicos ou pratica penitências sob o Sol escaldante, dentro da água fria ou diante do fogo abrasador.”
Em outras palavras, o Senhor Śrī Kṛṣṇa é propriedade de Seus devotos puros incondicionais, e, nesse caso, apenas os devotos podem dar Kṛṣṇa a outro devoto; Kṛṣṇa nunca é obtido diretamente. Portanto, o Senhor Caitanya designava-Se como gopī-bhartuḥ pada-kamalayor dāsa-dāsānudāsaḥ, ou “o mais obediente servo dos servos do Senhor, que mantém as gopīs, as donzelas de Vṛndāvana”. Por conseguinte, o devoto puro nunca se aproxima diretamente do Senhor, mas tenta satisfazer o servo dos servos do Senhor, e, assim, o Senhor fica satisfeito, e só então pode o devoto saborear as folhas de tulasī deixadas em Seus pés de lótus. Na Brahma-saṁhitā, afirma-se que, para encontrar o Senhor, ninguém precisa tornar-se um grande erudito em literatura védica, pois Ele é fácil de ser alcançado através de Seu devoto puro. Em Vṛndāvana, todos os devotos puros rogam a misericórdia de Śrīmatī Rādhārāṇī, a potência de prazer do Senhor Kṛṣṇa. Śrīmatī Rādhārāṇī constitui aquilo que equivale ao aspecto feminino e dócil do todo supremo, representando a fase de perfeição da natureza feminina existente no mundo. Portanto, a misericórdia de Rādhārāṇī é muito rapidamente acessível aos devotos sinceros, e, no caso de Ela recomendar ao Senhor Kṛṣṇa esse devoto, o Senhor imediatamente aceita que o devoto passe a associar-se com Ele. Conclui-se, portanto, que a pessoa deve levar mais a sério a busca da misericórdia do devoto, e não diretamente a misericórdia do Senhor, e, com essa sua atitude (contando com o respaldo do devoto), a atração natural pelo serviço ao Senhor será revivida.
तदश्मसारं हृदयं बतेदं
यद् गृह्यमाणैर्हरिनामधेयै: ।
न विक्रियेताथ यदा विकारो
नेत्रे जलं गात्ररुहेषु हर्ष: ॥ २४ ॥
tad aśma-sāraṁ hṛdayaṁ batedaṁ
yad gṛhyamāṇair hari-nāma-dheyaiḥ
na vikriyetātha yadā vikāro
netre jalaṁ gātra-ruheṣu harṣaḥ

Synonyms

tataquele; aśma-sāramé de aço; hṛdayamcoração; bata idamcom certeza aquele; yato qual; gṛhyamāṇaiḥapesar de cantar; hari-nāmao santo nome do Senhor; dheyaiḥcom concentração mental; nanão; vikriyetamuda; athaassim; yadāquando; vikāraḥreação; netrenos olhos; jalamlágrimas; gātra-ruheṣunos poros; harṣaḥerupções de êxtase.

Translation

Certamente é de aço o coração que, apesar de a pessoa cantar o santo nome do Senhor com concentração, não se modifica quando ocorre o êxtase, lágrimas enchem os olhos e os cabelos se arrepiam.

Purport

SIGNIFICADO—Observemos para o nosso próprio benefício que, nos três primeiros capítulos do segundo canto, apresenta-se um processo gradual de desenvolvimento do serviço devocional. No primeiro capítulo, enfatizou-se que, para alcançar a consciência de Deus, o passo inicial no serviço devocional consiste em ouvir e cantar, e recomenda-se aos principiantes uma concepção grosseira da forma universal da Personalidade de Deus. Conhecendo essa concepção grosseira em que Deus manifesta Sua energia material, a pessoa se capacita a espiritualizar a mente e os sentidos e a concentrar pouco a pouco a mente no Senhor Viṣṇu, o Supremo, que, como a Superalma, está presente em todos os corações e em toda a parte, em todo átomo do universo material. O sistema de pañca-upāsanā, que recomenda ao homem comum cinco atitudes mentais, também é instituído com este fim, a saber, o desenvolvimento gradual, adoração do superior, que pode se apresentar sob a forma do fogo, da eletricidade, do Sol, da massa de seres vivos, do senhor Śiva e, finalmente, da Superalma impessoal, a representação parcial do Senhor Viṣṇu. Todos eles são descritos com muito esmero no segundo capítulo, mas o terceiro capítulo continua prescrevendo o desenvolvimento depois que a pessoa alcançou de fato a fase na qual ela passa a adorar Viṣṇu, ou o serviço devocional puro, e a fase madura na qual se presta adoração a Viṣṇu está aqui intimamente relacionada com a mudança pela qual passa o coração.
Todo o processo da cultura espiritual tem por objetivo mudar o coração do ser vivo no tocante à sua eterna relação com o Senhor Supremo como um servo subordinado, o que é sua eterna posição constitucional. Logo, com o progresso do serviço devocional, a mudança a que o coração se submete manifesta-se através do desapego gradual da sensação de gozo material estimulada pelo falso desejo de assenhorear-se do mundo e através de um aumento da atitude que consiste em prestar serviço amoroso ao Senhor. Vidhi-bhakti, ou o serviço devocional regulado prestado com os membros do corpo (a saber, os olhos, os ouvidos, o nariz, as mãos e as pernas, como já se explicou aqui antes), é agora enfatizado nesta passagem em relação à mente, que serve de ímpeto para todas as atividades dos membros do corpo. De qualquer maneira, espera-se que, desempenhando serviço devocional regulado, a pessoa acabe manifestando uma mudança em seu coração. Se não houver essa mudança, o coração deverá ser considerado de aço, pois não se derrete nem mesmo quando se canta o santo nome do Senhor. Devemos sempre lembrar que ouvir e cantar são os princípios básicos do cumprimento dos deveres devocionais, e, quando realizados adequadamente, virá o consequente êxtase, com sinais de lágrimas nos olhos e arrepio dos pelos do corpo. Essas consequências são naturais e são os sintomas preliminares da fase de bhāva, que ocorre antes que a pessoa alcance a fase de perfeição, prema, amor por Deus.
Se nenhuma mudança ocorre, nem mesmo após ouvir e cantar continuamente os santos nomes do Senhor, talvez isso se deva apenas às ofensas. Essa é a opinião do Sandarbha. Ao começar a cantar o santo nome do Senhor, se o devoto não tomar nenhum cuidado para evitar as dez classes de ofensas aos pés do santo nome, com certeza as lágrimas nos olhos e o arrepio dos pelos do corpo não provocarão sentimentos de saudade.
A fase de bhāva manifesta-se através de oito sintomas transcendentais, a saber, inércia, transpiração, arrepio dos pelos do corpo, voz embargada, tremor, palidez do corpo, lágrimas nos olhos e, finalmente, transe. O Néctar da Devoção, um estudo resumido do Bhakti-rasāmṛta-sindhu, de Śrīla Rūpa Gosvāmī, explica esses sintomas e descreve vividamente outros fenômenos transcendentais, nas manifestações estáveis e dinâmicas.
Śrīla Viśvanātha Cakravartī Ṭhākura faz uma forte crítica a todas essas exibições de bhāva quando algum neófito inescrupuloso tenta imitar esses sintomas, buscando apreciação barata. Não apenas Viśvanātha Cakravartī, mas também Śrīla Rūpa Gosvāmī, tecem-lhes críticas severas. Às vezes, os devotos mundanos (prākṛta-sahajiyās) tentam imitar todos esses oito sintomas de êxtase, mas os falsos sintomas são imediatamente detectados quando a pessoa vê o pseudodevoto entregue a muitas atividades proibidas. Muito embora decorada com os sinais de um devoto, a pessoa viciada em fumar, beber ou em praticar sexo ilícito com mulheres não pode ter todos esses sintomas extáticos. Às vezes, no entanto, observa-se esses sintomas são deliberadamente imitados, daí Śrīla Viśvanātha Cakravartī lançar aos imitadores a acusação de que seus corações se constituem de pedra. Algumas vezes, chegam inclusive a ser afetados pelo reflexo desses sintomas transcendentais, mas, se insistem em praticar os hábitos proibidos, são casos para os quais não há nenhuma esperança de se obter a compreensão transcendental.
Ao encontrar-se com Śrīla Rāmānanda Rāya, de Kavaur, às margens do Godāvarī, o Senhor Caitanya desenvolveu todos esses sintomas, mas, devido à presença de alguns brāhmaṇas não-devotos que eram assistentes do Rāya, o Senhor conteve esses sintomas. Logo, por certas razões circunstanciais, às vezes eles não são visíveis nem mesmo no corpo de um primoroso devoto. Portanto, o verdadeiro bhāva estável manifesta-se definitivamente quando cessam os desejos materiais (kṣānti), cada momento é utilizado no transcendental serviço amoroso ao Senhor (avyārtha-kālatvam), sempre se deseja glorificar o Senhor (nāma-gāne sadā ruci), é grande a atração por viver na terra do Senhor (prītis tad-vasati sthale), é completo o desapego da felicidade material (virakti), e não há orgulho (māna-śūnyatā). Quem desenvolveu todas essas qualidades transcendentais está de fato na fase de bhāva, diferentemente do devoto mundano ou do imitador cujo coração é de pedra.
Todo o processo pode ser resumido da seguinte maneira: O devoto avançado que canta o santo nome do Senhor sem cometer nenhuma ofensa e é amistoso com todos pode realmente saborear o gosto transcendental reservado a quem glorifica o Senhor. E, como resultado dessa compreensão, desenvolve-se a cessação de todos os desejos materiais etc., como se menciona acima. Como estão na etapa de serviço devocional inferior, os neófitos invariavelmente são invejosos, tanto que inventam seus próprios processos e meios de regulações devocionais sem seguir os ācāryas. Nesse caso, mesmo que sejam vistos cantando o santo nome do Senhor constantemente, não podem saborear o gosto transcendental do santo nome. Portanto, condena-se a pessoa que, por exibição, fica com os olhos cheios d’água, treme, transpira ou perde a consciência. Entretanto, eles podem entrar em contato com um devoto puro do Senhor e corrigir seus maus hábitos; caso contrário, continuarão a ter o coração de pedra e a ser rebeldes a qualquer tratamento. Para que se empreenda uma marcha completa e progressiva no caminho de volta ao lar, de volta ao Supremo, é preciso aceitar as instruções das escrituras reveladas transmitidas por um devoto que as compreende.
अथाभिधेह्यङ्ग मनोऽनुकूलं
प्रभाषसे भागवतप्रधान: ।
यदाह वैयासकिरात्मविद्या-
विशारदो नृपतिं साधु पृष्ट: ॥ २५ ॥
athābhidhehy aṅga mano-’nukūlaṁ
prabhāṣase bhāgavata-pradhānaḥ
yad āha vaiyāsakir ātma-vidyā-
viśārado nṛpatiṁ sādhu pṛṣṭaḥ

Synonyms

athaportanto; abhidhehipor favor, explica; aṅgaó Sūta Gosvāmī; manaḥmente; anukūlamfavorável à nossa mentalidade; prabhāṣaseés tu quem fala; bhāgavatao grande devoto; pradhānaḥo principal; yat āhaaquilo que ele falou; vaiyāsakiḥŚukadeva Gosvāmī; ātma-vidyāconhecimento transcendental; viśāradaḥhábil; nṛpatimao rei; sādhumuito bom; pṛṣṭaḥsendo interpelado.

Translation

Ó Sūta Gosvāmī, tuas palavras são agradáveis à nossa mente. Portanto, por favor, explica-nos isso da mesma maneira como foi falado pelo grande devoto Śukadeva Gosvāmī, que tem muito conhecimento transcendental, e que respondeu às perguntas formuladas por Mahārāja Parīkṣit.

Purport

SIGNIFICADO—O conhecimento explicado por um ācārya anterior, tal como Śukadeva Gosvāmī, e seguido por outro que veio depois, tal como Sūta Gosvāmī, sempre é conhecimento transcendental poderoso e, portanto, é penetrante e útil a todos os estudantes submissos.
Neste ponto, encerram-se os significados Bhaktivedanta do segundo canto, terceiro capítulo, do Śrīmad-Bhāgavatam, intitulado “Serviço Devocional Puro: A Mudança no Coração”