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Purport

Śrī Īśopaniṣad

O Conhecimento que nos Aproxima do Absoluto

Introdução

oṁ pūrṇam adaḥ pūrṇam idaṁ
pūrṇāt pūrṇam udacyate
pūrṇasya pūrṇam ādāya
pūrṇam evāvaśiṣyate

Synonyms

oṁo Todo Completo; pūrṇamperfeitamente completo; adaḥeste; pūrṇamperfeitamente completo; idameste mundo fenomenal; pūrṇātdo perfeitíssimo; pūrṇamunidade completa; udacyateé produzida; pūrṇasyado Todo Completo; pūrṇamcompletamente, tudo; ādāyatendo sido tirado; pūrṇamo equilíbrio completo; evamesmo; avaśiṣyatepermanece.

Translation

Deus, a Pessoa Suprema, é perfeito e completo. Sendo completamente perfeito, tudo que emana dEle, como, por exemplo, este mundo fenomenal, é perfeitamente equipado como todos completos. Tudo o que é produzido pelo Todo Completo também é completo em si mesmo. Porque Ele é o Todo Completo, muito embora tantas unidades completas emanem dEle, Ele permanece o equilíbrio completo.

Purport

O Todo Completo, ou a Suprema Verdade Absoluta, é a Personalidade de Deus completa. Compreender apenas o Brahman impessoal ou o Paramātmā, a Superalma, é compreender de maneira incompleta o Absoluto Completo. A Suprema Personalidade de Deus é sac-cid-ānanda-vigraha. Compreender o Brahman é compreender Seu aspecto sat, que caracteriza Sua eternidade. E compreender Paramātmā é compreender Seus aspectos sat e cit, que caracterizam Sua eternidade e conhecimento. Mas compreender a Personalidade de Deus é compreender todos os aspectos transcendentais — sat, cit e ānanda; eternidade, conhecimento e bem-aventurança. Ao compreendermos a Pessoa Suprema, visualizamos por completo esses aspectos da Verdade Absoluta. Vigraha significa “forma”. Logo, o Todo Completo não é desprovido de forma. Se Ele não tivesse forma, ou se houvesse algum aspecto de Sua criação que fosse superior a Ele, Ele não poderia ser completo. O Todo Completo deve conter tudo o que está dentro do limite de nossa experiência, bem como o que a ultrapassa; caso contrário, Ele não pode ser completo.
O Todo Completo, a Personalidade de Deus, tem potências imensas, todas as quais são tão completas como Ele. Assim, este mundo fenomenal, ou material, também é completo em si mesmo. Os vinte e quatro elementos deste universo material temporário são coordenados de tal maneira a produzir tudo o que é necessário para a manutenção e subsistência deste universo. Não é necessário que alguma outra entidade faça um esforço em separado para tentar mantê-lo. O universo funciona em sua própria escala de tempo, que é estabelecida pela energia do Todo Completo. Quando essa programação termina, a manifestação temporária é aniquilada pelo arranjo completo do Todo Completo.
As pequenas unidades completas (ou seja, os seres vivos) recebem todas as condições favoráveis que as capacitem a compreender o Todo Completo. Todas as formas desprovidas de plenitude existem devido ao conhecimento incompleto do Todo Completo. A forma de vida humana é uma manifestação completa do ser vivo, sendo obtida após a evolução através de oito milhões e quatrocentas mil espécies de vida no ciclo de nascimentos e mortes. Se o ser vivo não compreende sua integridade dentro do Todo Completo nesta vida humana, a qual é abençoada com consciência completa, ele não só perde mais uma oportunidade como também é lançado de novo ao ciclo evolutivo devido à lei da natureza material.
Por não sabermos que na natureza existe um arranjo completo para nossa manutenção, esforçamo-nos em utilizar os recursos da natureza para criarmos uma vida aparentemente completa, permeada por gozo dos sentidos. Como o ser vivo não pode desfrutar da vida materialista sem harmonizar-se com o Todo Completo, a enganosa vida de gozo dos sentidos é uma ilusão. A mão é uma unidade completa apenas enquanto fizer parte de todo o corpo. Separada do corpo, a mão pode parecer real, mas carece de todas as suas potências. De modo semelhante, os seres vivos são partes integrantes do Todo Completo, e, se são separados do Todo Completo, a plenitude ilusória não pode satisfazê-los completamente.
A plenitude da vida humana só pode ser entendida se alguém se ocupa em serviço ao Todo Completo. Todos os serviços neste mundo — sejam eles sociais, políticos, comunitários, mundiais e mesmo interplanetários — permanecerão incompletos enquanto não estiverem em harmonia com o Todo Completo. Quando tudo está em harmonia com o Todo Completo, as partes integrantes também se tornam completas em si mesmas.
īśāvāsyam idam sarvaṁ
yat kiñca jagatyāṁ jagat
tena tyaktena bhuñjīthā
mā gṛdhaḥ kasya svid dhanam

Synonyms

īśapelo Senhor; āvāsyamcontrolado; idamisto; sarvamtudo; yat kiñcatudo o que; jagatyāmdentro do universo; jagattudo o que é animado ou inanimado; tenapor Ele; tyaktenacota designada; bhuñjīthāḥdeve-se aceitar; não; gṛdhaḥesforço para ganhar; kasya svitde outrem; dhanama riqueza.

Translation

O Senhor controla e possui todas as coisas animadas e inanimadas que estão dentro do universo. Portanto, todos devem aceitar apenas as coisas que lhes são necessárias, que foram reservadas como sua cota, e ninguém deve aceitar outras coisas, sabendo bem a quem pertencem.

Purport

O conhecimento védico é infalível porque é transmitido através da perfeita sucessão discipular de mestres espirituais que começa com o próprio Senhor. Como foi Ele que falou a primeira palavra do conhecimento védico, a fonte desse conhecimento é transcendental. As palavras faladas pelo Senhor chamam-se apauruṣeya, o que indica que não partiram de uma pessoa mundana. No mundo material, o ser vivo tem quatro defeitos: (1) Na certa comete erros, (2) sujeita-se à ilusão, (3) tem a propensão a enganar os outros e (4) seus sentidos são imperfeitos. Ninguém que possua essas quatro imperfeições pode transmitir conhecimento perfeito. Os Vedas não são produzidos por semelhante criatura imperfeita. Originalmente, o Senhor transmitiu o conhecimento védico ao coração de Brahmā, o primeiro ser vivo criado, e, por sua vez, Brahmā disseminou esse conhecimento a seus discípulos, que o transmitiram através da história.
Uma vez que o Senhor é pūrṇam, perfeitíssimo, não há nenhuma possibilidade de que Ele Se sujeite às leis da natureza material, que são controladas por Ele mesmo. Entretanto, as entidades vivas e objetos inanimados são controlados pelas leis da natureza e, em última análise, pela potência do Senhor. Este Īśopaniṣad faz parte do Yajur Veda, e, através de suas informações, tomamos conhecimento de quem é o proprietário de todas as coisas que existem dentro do universo.
No sétimo capítulo da Bhagavad-gītā (7.4-5), onde se discute parā e aparā prakṛti, confirma-se que o Senhor é proprietário de tudo dentro do universo. Os elementos da natureza — terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e ego — pertencem todos à energia material inferior do Senhor (aparā prakṛti), enquanto o ser vivo, a energia orgânica, é sua energia superior (parā prakṛti). Essas duas energias, prakṛtis, emanam do Senhor, e, em última análise, Ele é o controlador de tudo o que existe. No universo, não há nada que não pertença à parā ou à aparā prakṛti; portanto, tudo é propriedade do Ser Supremo.
Porque é a Pessoa Completa, a Absoluta Personalidade de Deus tem inteligência completa e perfeita para controlar tudo por meio de Suas diferentes potências. O Ser Supremo é frequentemente comparado ao fogo, e toda coisa orgânica ou inorgânica é comparada ao calor e à luz desse fogo. Assim como o fogo distribui energia sob a forma de calor e luz, o Senhor apresenta diferentes manifestações de Suas energias. Desse modo, Ele permanece o controlador, sustentador e coordenador último de todas as coisas. Ele é o conhecedor de tudo e o benfeitor de todos, pleno de todas as potências concebíveis: poder, riqueza, fama, beleza, conhecimento e renúncia.
Todos devem, portanto, ser bastante inteligentes para saber que, à exceção do Senhor, ninguém é proprietário de nada. Cada qual deve aceitar apenas as coisas que o Senhor lhe reserva como sua cota. A vaca, por exemplo, fornece leite, mas não bebe esse leite; ela come grama e palha e seu leite é designado como alimento para os seres humanos. Esse é o arranjo do Senhor, e devemos nos satisfazer com as coisas que Ele bondosamente reserva para nós, levando sempre em consideração que tudo o que possuímos pertence, de fato, a Ele.
Uma casa, por exemplo, é feita de terra, madeira, pedra, ferro, cimento e muitos outros materiais. E se pensarmos de acordo com o Śrī Īśopaniṣad, deveremos saber que nós mesmos não podemos produzir nenhum desses materiais de construção. Tudo o que podemos fazer é juntá-los e dar-lhes diferentes formatos através de nosso trabalho. Um trabalhador não pode afirmar que é proprietário de uma coisa só porque trabalhou arduamente para manufaturá-la.
Na sociedade moderna, há sempre uma grande desavença entre os proletários e os capitalistas. Essa desavença assumiu proporções internacionais, e o mundo está em perigo. Os homens confrontam-se uns com os outros como inimigos e rosnam como cães e gatos. O Śrī Īśopaniṣad não pode aconselhar cães e gatos, mas pode transmitir ao homem a mensagem de Deus através dos ācāryas (mestres espirituais) genuínos. A raça humana deve aceitar a sabedoria védica contida no Śrī Īśopaniṣad, evitando, assim, guerrilhar por posses materiais. Todos devem satisfazer-se apenas com os privilégios que lhes são concedidos pela misericórdia do Senhor. Não pode haver paz se os comunistas ou capitalistas ou qualquer outro grupo alegar propriedade sobre os recursos da natureza, os quais pertencem unicamente ao Senhor. Os capitalistas não podem coibir os comunistas com simples manobras políticas, e nem os comunistas podem derrotar os capitalistas lutando por pão roubado. Se eles não reconhecem a Suprema Personalidade de Deus como proprietário, todas as posses que alegam possuir são, na verdade, objetos roubados. Consequentemente são passíveis de punição pelas leis da natureza. As bombas nucleares estão nas mãos tanto dos comunistas quanto dos capitalistas. Caso não reconheçam quem é o proprietário, é certo que essas bombas acabarão arruinando ambos os grupos. Portanto, para se salvarem e trazerem paz ao mundo, ambos os grupos devem seguir as instruções do Śrī Īśopaniṣad.
Seres humanos não se destinam a brigar como cães e gatos. Devem ser bastante inteligentes para entenderem a importância e o objetivo da vida humana. A literatura védica foi compilada para a humanidade, e não para cães e gatos. Para alimentarem-se, cães e gatos podem matar outros animais sem incorrerem em pecado; porém, se um homem mata um animal para satisfazer seu paladar incontrolável, ele é responsável por quebrar as leis da natureza. Por conseguinte, ele deve ser punido.
Não podemos aplicar aos animais o padrão de vida humana. O tigre não come arroz ou trigo, nem bebe leite de vaca, porque lhe foi concedido alimento na forma de carne animal. Existem animais e pássaros que são vegetarianos ou carnívoros, mas nenhum deles viola as leis da natureza, que foram determinadas pela vontade de Deus. Os animais, os pássaros, os répteis e outras formas de vida inferior adaptam-se estritamente às leis da natureza; portanto, para eles o pecado está fora de cogitação. Tampouco as instruções védicas destinam-se a eles. Só a vida humana é uma vida de responsabilidade.
Entretanto, é um erro considerar que, pelo simples fato de tornar-se vegetariano, alguém pode deixar de transgredir as leis da natureza. Os vegetais também têm vida, e, embora de acordo com a lei da natureza um ser vivo sirva de alimento para outro, os seres humanos devem reconhecer a autoridade do Senhor Supremo. Logo, ninguém deve orgulhar-se simplesmente por ser um vegetariano estrito. Os animais não têm consciência desenvolvida para compreenderem Deus, enquanto o ser humano é inteligente o bastante para receber lições da literatura védica. A partir daí, ele pode aprender sobre como as leis da natureza funcionam e tirar proveito desse conhecimento. Se o indivíduo negligencia as instruções contidas na literatura védica, sua vida se torna muito arriscada. O ser humano, portanto, precisa reconhecer a autoridade do Senhor Supremo e tornar-se Seu devoto. Deve oferecer tudo em prol do serviço ao Senhor e partilhar apenas dos restos do alimento oferecido ao Senhor. Isso o capacitará a cumprir seu dever corretamente. Na Bhagavad-gītā (9.26), o Senhor afirma diretamente que aceita alimentos vegetarianos preparados pelo devoto puro. Portanto, o ser humano deve não apenas tornar-se um vegetariano estrito como também um devoto do Senhor e oferecer-Lhe todo o seu alimento. Só então pode compartilhar desse alimento prasāda, ou misericórdia de Deus. Aqueles que adotam esse procedimento podem desempenhar corretamente os deveres da vida humana. Aqueles que não oferecem seus alimentos ao Senhor comem apenas pecado e sujeitam-se a várias espécies de sofrimento decorrentes do pecado. (Bhagavad-gītā 3.13)
A causa básica do pecado é a deliberada desobediência às leis da natureza, deixando de levar em consideração que o Senhor é o proprietário de tudo. Desobediência às leis da natureza, ou à ordem do Senhor, arruína o ser humano. Por outro lado, quem for sensato e conhecer as leis da natureza, não se deixando influenciar por apego ou aversão desnecessários, com certeza receberá do Senhor o Seu reconhecimento, capacitando-se a voltar a Deus, de volta ao lar eterno.
kurvann eveha karmāṇi
jijīviṣec chataḿ samāḥ
evaṁ tvayi nānyatheto ’sti
na karma lipyate nare

Synonyms

kurvanfazendo continuamente; evaassim; ihadurante este período de vida; karmāṇitrabalho; jijīviṣeta pessoa deverá viver; śatamcem; samāḥanos; evamvivendo assim; tvayia ti; nanão; anyathāalternativa; itaḥdeste caminho; astiexiste; nanão; karmatrabalho; lipyatepode ser atado; narea um homem.

Translation

Se alguém continua trabalhando dessa maneira, ele pode aspirar a viver por centenas de anos, pois essa classe de trabalho não o atará às leis do karma. O ser humano não tem nenhuma alternativa a este processo.

Purport

Ninguém quer morrer, e todos querem viver a vida o quanto puderem. Esta tendência é visível não apenas no plano individual, mas também no plano coletivo; na comunidade, sociedade ou nação. Todas as espécies de seres vivos lutam arduamente pela vida, e os Vedas dizem que isso é muito natural. O ser vivo é eterno por natureza, mas, devido ao seu cativeiro na existência material, tem que mudar de corpo repetidas vezes. Esse processo chama-se transmigração da alma, ou karma-bandhana, cativeiro infligido pelo trabalho que se executa. A entidade viva precisa trabalhar para sobreviver, pois essa é a lei da natureza material, e se ela não age segundo seus deveres prescritos, viola as leis da natureza e fica cada vez mais atada ao ciclo de nascimentos e mortes, assumindo muitas espécies de vidas.
Outras formas de vida também estão sujeitas ao ciclo de nascimentos e mortes, mas, ao alcançar a vida humana, a entidade viva recebe a oportunidade de livrar-se dos grilhões do karma. Na Bhagavad-gītā, descrevem-se muito claramente karma, akarma e vikarma. As ações executadas de acordo com os deveres prescritos, como mencionam as escrituras reveladas, chamam-se karma. As ações que deixam alguém livre do ciclo de nascimentos e mortes chamam-se akarma. E as ações que são executadas com o abuso da própria liberdade, levando a pessoa a formas de vida inferior, chamam-se vikarma. Dessas três espécies de ações, os homens inteligentes preferem aquela que liberta o homem do cativeiro cármico. Os homens comuns desejam executar bons trabalhos para serem reconhecidos e alcançarem um estado de vida elevada, neste mundo ou no céu. No entanto, os homens mais avançados desejam livrar-se por completo das ações e reações do trabalho. Eles sabem muito bem que o trabalho, seja bom ou ruim, provoca o mesmo cativeiro das misérias materiais. Por conseguinte, esses homens inteligentes buscam o trabalho que os libertem das ações boas ou ruins. Semelhante trabalho libertador é descrito aqui nas páginas do Śrī Īśopaniṣad.
As instruções do Śrī Īśopaniṣad são explicadas de maneira mais elaborada na Bhagavad-gītā, que às vezes é chamado Gītopaniṣad, a nata de todos os Upaniṣads. Na Bhagavad-gītā (3.9-16), Deus afirma que ninguém pode alcançar o estágio de naiṣkarmya, ou akarma, sem executar os deveres prescritos mencionados na literatura védica. Essa literatura pode regular a energia funcional de um ser humano a tal ponto que ele passe a compreender a autoridade do Ser Supremo. Quando ele compreender a autoridade de Deus — Vāsudeva ou Kṛṣṇa — deve-se concluir que atingiu a fase do conhecimento positivo. Nessa fase purificada, os modos da natureza — ou seja, bondade, paixão e ignorância — não podem atuar, e suas ações estão no nível de naiṣkarmya. Esse trabalho não o prende ao ciclo de nascimentos e mortes.
Na verdade, tudo o que alguém precisa fazer é prestar serviço devocional ao Senhor. Entretanto, nas fases de vida inferior, não é possível adotar diretamente as atividades do serviço devocional, nem parar por completo o trabalho fruitivo. A alma condicionada está habituada a trabalhar em troca de gozo dos sentidos — visando a seu interesse egoísta, pessoal ou estendido. O homem comum trabalha visando ao gozo de seus sentidos, e quando esse princípio do gozo do sentido é ampliado de modo a incluir a sociedade, a nação ou a humanidade em geral, ele assume vários nomes atraentes, tais como: altruísmo, socialismo, comunismo, nacionalismo e comunitarismo. Esses “ismos” decerto são formas muito atraentes de karma-bandhana (cativeiro cármico), mas a instrução védica contida no Śrī Īśopaniṣad é que, se alguém deseja realmente viver em função de algum desses “ismos”, deve centralizá-lo em Deus. Não há mal algum em tornar-se um chefe de família ou um altruísta, socialista, comunista, nacionalista ou humanitarista, contanto que as atividades sejam executadas segundo a concepção de īśāvāsya, ou seja, o conceito de que Deus está no centro.
Na Bhagavad-gītā (2.40), o Senhor Kṛṣṇa afirma que as atividades centralizadas em Deus são de tão grande valor que basta apenas algumas poucas delas para salvar alguém do maior dos perigos. Na vida, o maior perigo é voltar a cair no ciclo evolutivo de nascimentos e mortes, formado pelas oito milhões e quatrocentas mil espécies. Se de alguma maneira o homem não aproveita a oportunidade espiritual proporcionada por esta forma de vida humana e volta a cair no ciclo evolutivo, ele deve ser considerado muito desafortunado. Devido a seus sentidos imperfeitos, o tolo não consegue perceber que isso está acontecendo. Consequentemente, o Śrī Īśopaniṣad nos aconselha a empregar nossa energia segundo o espírito de īśāvāsya. Assumindo essa ocupação, podemos desejar viver muitíssimos anos; caso contrário, o simples fato de levar uma vida longa não terá nenhum valor. Uma árvore vive centenas e centenas de anos, mas não faz sentido levar uma grande vida vegetativa, respirando como foles, procriando filhos como os cães e os porcos e comendo como camelos. Uma vida humilde, centralizada em Deus, tem mais valor que uma enganosa vida colossal dedicada ao altruísmo ou socialismo ateus.
Ao serem executadas no espírito do Śrī Īśopaniṣad, as atividades altruístas assumem a forma de karma-yoga. A Bhagavad-gītā (18.5-9) recomenda essas atividades, pois aqueles que as executam ficam protegidos de deslizar no processo evolutivo de nascimentos e mortes. Muito embora possam estar inacabadas, essas atividades centralizadas em Deus continuam sendo boas para o executor, pois lhe garantem uma forma humana em seu próximo nascimento. Dessa maneira, ele pode receber outra oportunidade para melhorar sua posição no caminho da libertação.
O livro Bhakti-rasāmṛta-sindhu, escrito por Śrīla Rūpa Gosvāmī, descreve de maneira elaborada como alguém pode executar atividades centralizadas em Deus. Apresentamos essa obra com o título O Néctar da Devoção. Recomendamos esse valioso livro a todos que se interessem em executar suas atividades no espírito do Śrī Īśopaniṣad.
asuryā nāma te lokā
andhena tamasāvṛtāḥ
tāḿs te pretyābhigacchanti
ye ke cātma-hano janāḥ

Synonyms

asuryāḥdestinado aos asuras; nāmafamoso pelo nome; teaqueles; lokāḥplanetas; andhenapela ignorância; tamasāpela escuridão; āvṛtāḥcobertos; tānaqueles planetas; teeles; pretyaapós a morte; abhigacchantientram em; yequalquer um; ketodos; cae; ātma-hanaḥos matadores da alma; janāḥpessoas.

Translation

O matador da alma, não importa quem seja, tem que entrar nos planetas conhecidos como o mundo dos infiéis, cheios de ignorância e escuridão.

Purport

A vida humana distingue-se da animal por causa de sua profunda responsabilidade. Aqueles que conhecem essa responsabilidade e trabalham nesse espírito chamam-se suras (pessoas divinas), e aqueles que negligenciam ou não conhecem tal responsabilidade chamam-se asuras (demônios). Em todo o universo, existem apenas essas duas classes de seres humanos. O Ṛg Veda declara que os suras almejam sempre os pés de lótus do Supremo Senhor Viṣṇu, e suas ações são compatíveis com isso. O caminho desses seres é tão iluminado quanto o caminho do sol.
Os seres humanos inteligentes devem sempre lembrar-se de que a alma obtém a forma humana após uma evolução de muitos milhões de anos no ciclo de transmigração. O mundo material é às vezes comparado ao oceano, e o corpo humano, a um sólido barco projetado especialmente para cruzá-lo. As escrituras védicas e os ācāryas, os preceptores santos, são comparados a hábeis barqueiros, e as condições propícias proporcionadas pelo corpo humano são comparadas a brisas favoráveis que ajudam o barco a navegar suavemente rumo ao destino desejado. Se, com todas essas condições favoráveis, o ser humano não utiliza plenamente sua vida para alcançar a autorrealização, ele deve ser considerado ātma-hā, um matador da alma. O Śrī Īśopaniṣad adverte em termos claros que o matador da alma está destinado a entrar na mais escura região da ignorância para sofrer perpetuamente.
Existem porcos, cães, camelos, asnos e tantos outros animais cujas necessidades econômicas lhes são tão importantes como as nossas o são para nós. Porém, seus problemas econômicos só são resolvidos sob condições abjetas e desagradáveis. As leis da natureza dão ao ser humano todas as condições favoráveis a uma vida confortável porque a forma de vida humana é mais importante e valiosa que a forma de vida animal. Por que o homem recebe uma vida melhor do que a vida do porco e de outros animais? Por que um funcionário de alto posto do governo recebe melhores condições do que aquelas recebidas por um funcionário comum? A resposta é que o funcionário que está em um posto elevado tem de desempenhar funções de natureza superior. Do mesmo modo, os deveres que os seres humanos têm que executar são superiores àqueles dos animais, que apenas vivem ocupados em alimentar seus estômagos famintos. Todavia, a moderna civilização matadora da alma tem apenas aumentado os problemas do estômago faminto. Quando nos aproximamos de um animal educado que se nos apresenta sob a forma de um homem moderno e civilizado e lhe pedimos que se interesse pela autorrealização, ele diz que apenas deseja trabalhar para satisfazer seu estômago, e que um homem faminto não precisa de autorrealização. Entretanto, as leis da natureza são tão cruéis que, apesar de sua recusa à autorrealização e seu desejo ardente de trabalhar duro só para encher seu estômago, ele vive ameaçado pelo desemprego.
Recebemos esta forma de vida humana não para apenas trabalhar arduamente como asnos, porcos e cães, mas para alcançar a máxima perfeição da vida. Se não nos importamos com a autorrealização, as leis da natureza nos forçam a trabalhar de maneira muito pesada, mesmo que não queiramos. Nesta era, os seres humanos são forçados a trabalhar arduamente como asnos e bois que puxam carroças. Este verso do Śrī Īśopaniṣad revela algumas regiões às quais os asuras são enviados para trabalhar. Deixando de cumprir seus deveres como seres humanos, os homens são obrigados a transmigrar aos planetas dos asuras e nascer em espécies de vida degradadas, nas quais têm que trabalhar arduamente em ignorância e escuridão.
Na Bhagavad-gītā (6.41-43), afirma-se que o homem que ingressa no caminho da autorrealização, mas não completa o processo, embora tenha sinceramente tentado entender qual o seu relacionamento com Deus, recebe a oportunidade de nascer em uma família de śuci ou śrīmat. A palavra śuci indica um brāhmaṇa espiritualmente avançado, e śrīmat indica um vaiśya, um membro da comunidade mercantil. Logo, a pessoa que não consegue alcançar a autorrealização recebe em sua vida seguinte uma oportunidade melhor, devido a seus esforços sinceros nesta vida. Se até mesmo um candidato fracassado recebe a oportunidade de nascer numa família nobre e respeitável, nem se pode imaginar a condição lograda por alguém que seja bem-sucedido. Pelo simples fato de tentar compreender Deus, a pessoa tem como garantia o nascimento numa família rica ou aristocrática, mas aqueles que nem mesmo fazem uma tentativa, que preferem ficar cobertos pela ilusão, que são muito materialistas e são apegados ao gozo material, terão que entrar nas mais escuras regiões do inferno, como confirma toda a literatura védica. Esses asuras materialistas às vezes fazem uma exibição de religiosidade, mas seu objetivo último é a prosperidade material. A Bhagavad-gītā (16.17-18) reprova esses homens, chamando-os ātma-sambhāvita, pois somente são considerados grandes valendo-se de fraudes e são eleitos pelos votos dos ignorantes e através de sua própria riqueza material. É certo que esses asuras entrarão nas mais escuras regiões do universo, pois estão desprovidos de autorrealização e do conhecimento de īśāvāsya, o conhecimento de que Deus é o proprietário universal.
A conclusão é que, como seres humanos, não fomos criados apenas para resolver os problemas econômicos oscilantes, mas para resolver todos os problemas da vida material na qual fomos colocados pelas leis da natureza.
anejad ekaṁ manaso javīyo
nainad devā āpnuvan pūrvam arṣat
tad dhāvato ’nyān atyeti tiṣṭhat
tasminn apo mātariśvā dadhāti

Synonyms

anejatfixo; ekamum; manasaḥdo que a mente; javīyaḥmais rápido; nanão; enatesse Senhor Supremo; devāḥos semideuses, tais como Indra, etc.; āpnuvanpodem aproximar-se; pūrvamem frente; arṣatmovendo-Se rapidamente; tatEle; dhāvataḥaqueles que estão correndo; anyānoutros; atyetiultrapassa; tiṣṭhatpermanecendo no lugar; tasminnEle; apaḥchuva; mātariśvāos deuses que controlam o vento e a chuva; dadhātisuprem.

Translation

Embora permanente em Sua morada, Deus, a Pessoa Suprema, é mais veloz que a mente e pode ultrapassar todos os outros que correm. Os poderosos semideuses não podem aproximar-se dEle. Embora esteja em um lugar, Ele controla aqueles que proveem o ar e a chuva. Ele supera a todos em excelência.

Purport

Nem mesmo os maiores filósofos, através da especulação mental, podem conhecer o Senhor Supremo, que é a Absoluta Personalidade de Deus. Somente os devotos podem conhecê-lO, e isso através de Sua misericórdia. Na Brahma-saṁhitā (5.34), afirma-se que mesmo que um filósofo não-devoto viaje pelo espaço à velocidade da mente ou do vento durante centenas de milhões de anos, ele acabará descobrindo que a Verdade Absoluta está muito distante dele. Continuando, a Brahma-saṁhitā (5.37) descreve que a Absoluta Personalidade de Deus tem uma morada transcendental, conhecida como Goloka, onde Ele reside e ocupa-Se em Seus passatempos. Entretanto, através de Suas potências inconcebíveis, Ele pode alcançar todas as regiões de Sua energia criadora. No Viṣṇu Purāṇa, Suas potências são comparadas ao calor e à luz que emanam do fogo. Mesmo sem sair do lugar, o fogo pode distribuir sua luz e calor a alguma distância; de modo semelhante, a Absoluta Personalidade de Deus, embora permaneça em Sua morada transcendental, pode difundir por toda parte Suas diferentes energias.
Embora sejam inumeráveis, Suas energias podem dividir-se em três categorias principais: a potência interna, a potência marginal e a potência externa. Para cada uma delas, existem milhões de subdivisões. Os semideuses dominantes, dotados de poder para controlar e administrar fenômenos naturais, como o ar, a luz e a chuva, fazem parte da potência marginal da Pessoa Absoluta. Entidades vivas menos importantes, inclusive os seres humanos, também fazem parte dessa potência marginal. O mundo material é uma criação da potência externa do Senhor. E o céu espiritual, onde se situa o reino de Deus, é uma manifestação de Sua potência interna.
Assim, as diferentes energias do Senhor estão presentes em toda parte. Embora o Senhor e Suas energias não sejam diferentes, ninguém deve confundir essas energias com a Verdade Suprema. Também não se deve considerar erroneamente que o Senhor Supremo esteja disperso de modo impessoal por toda parte ou que Ele perca Sua existência pessoal. O homem está acostumado a chegar a conclusões de acordo com sua capacidade de compreensão, mas o Senhor Supremo não está sujeito a essa limitada capacidade intelectiva. Por essa razão, os Upaniṣads nos advertem que ninguém pode aproximar-se do Senhor através de sua potência limitada.
Na Bhagavad-gītā (10.2), o Senhor diz que nem mesmo os grandes ṛṣis e suras podem conhecê-lO. E muito menos os asuras, para quem está completamente fora de questão compreender as atividades do Senhor Supremo. Este quarto mantra do Śrī Īśopaniṣad sugere muito claramente que, em última análise, a Verdade Absoluta é a Pessoa Absoluta; caso contrário, não teria sido necessário apresentar tantos argumentos que comprovam Seus aspectos pessoais.
Embora tenham todos os sintomas do próprio Senhor, as partes individuais integrantes das potências do Senhor têm limitadas esferas de atividades e são, portanto, todas limitadas. As partes integrantes nunca são iguais ao todo; por conseguinte, não podem apreciar a potência completa do Senhor. Sob a influência da natureza material, os seres vivos tolos e ignorantes que não passam de partes integrantes do Senhor tentam presumir sobre a posição transcendental do Senhor. O Śrī Īśopaniṣad adverte sobre a futilidade de tentar estabelecer a identidade do Senhor através da especulação mental. Deve-se tentar aprender sobre a Transcendência com o próprio Senhor, a fonte suprema dos Vedas, pois somente o Senhor tem completo conhecimento sobre a Transcendência.
Cada parte integrante do Todo Completo é dotada de alguma energia específica para agir de acordo com a vontade do Senhor. Quando a entidade viva que é parte integrante se esquece de suas atividades específicas sob a vontade do Senhor, considera-se que ela está em māyā, ilusão. Assim, desde o começo, o Śrī Īśopaniṣad aconselha-nos a que tenhamos cuidado em desempenhar o papel que o Senhor nos designou. Isso não significa que a alma individual não tenha iniciativa própria. Porque é parte integrante do Senhor, ela também deve participar da iniciativa do Senhor. Ao tomar corretamente e com inteligência sua iniciativa, ou adotar a natureza divina, compreendendo que tudo é potência do Senhor, a pessoa pode reviver sua consciência original, que havia perdido devido à associação com māyā, a energia externa.
Dado que todo poder é obtido do Senhor, é para executar a vontade do Senhor que se deve exercer cada poder específico, e não de outra maneira. Quem presta serviço com essa atitude submissa pode conhecer o Senhor. Conhecimento perfeito significa conhecer o Senhor Supremo em todos os Seus aspectos. Também se devem conhecer Suas potências e como elas agem de acordo com Sua vontade. O Senhor descreve esses assuntos na Bhagavad-gītā, a essência dos Upaniṣads.
tad ejati tan naijati
tad dūre tad v antike
tad antar asya sarvasya
tad u sarvasyāsya bāhyataḥ

Synonyms

tateste Senhor Supremo; ejaticaminha; tatEle; nanão; ejaticaminha; tatEle; dūremuito distante; tatEle; utambém; antikemuito próximo; tatEle; antaḥdentro; asyadeste; sarvasyade tudo; tatEle; utambém; sarvasyade tudo; asyadeste; bāhyataḥexterno a.

Translation

O Senhor Supremo caminha e não caminha. Está muito distante, mas também muito próximo. Está dentro de tudo e, ao mesmo tempo, fora de tudo.

Purport

Eis uma descrição de algumas das atividades transcendentais do Senhor Supremo, executadas por Suas potências inconcebíveis. As contradições apresentadas aqui provam as potências inconcebíveis do Senhor. “Ele caminha, Ele não caminha”. Em geral, se alguém caminha, é ilógico dizer que ele não pode caminhar. Mas quando se trata de Deus, essa contradição serve apenas para indicar Seu poder inconcebível. Com nosso limitado campo de conhecimento, não podemos conciliar tais contradições e, portanto, concebemos o Senhor de acordo com nossos limitados poderes intelectivos. Por exemplo, os filósofos impersonalistas da escola māyāvāda aceitam apenas as atividades impessoais do Senhor e rejeitam Seu aspecto pessoal. Contudo, os membros da escola bhāgavata, adotando uma perfeita concepção a respeito do Senhor, aceitam Suas potências inconcebíveis e, assim, compreendem que Ele é pessoal e impessoal. Os bhāgavatas sabem que, sem as potências inconcebíveis, as palavras “Senhor Supremo” não fazem sentido.
Não devemos apoiar a ideia de que, como não podemos ver Deus com nossos olhos, o Senhor não tem existência pessoal. O Śrī Īśopaniṣad refuta esse argumento, de modo que o Senhor está muito distante, mas também muito próximo. A morada do Senhor está situada além do céu material, e não dispomos dos meios para medir nem este céu material. Se o céu material tem tamanha extensão, o que dizer, então, do céu espiritual, que se situa totalmente além daquele? A Bhagavad-gītā (15.6) confirma que o céu espiritual está situado muitíssimo distante do universo material. Porém, apesar de tão distante, o Senhor pode imediatamente, em menos de um segundo, aparecer entre nós, vindo em uma velocidade superior à da mente ou do vento. Ele também pode correr com tamanha velocidade que ninguém pode ultrapassá-lO. No verso anterior, já se descreveu isso.
Entretanto, quando a Personalidade de Deus Se apresenta em nossa frente, nós O desprezamos. Na Bhagavad-gītā (9.11), o Senhor condena essa negligência ignorante, dizendo que os tolos zombam dEle considerando-O um ser mortal. Ele não é um ser mortal, nem aparece ante nós com um corpo produzido pela natureza material. Existem muitos supostos eruditos que argumentam que o Senhor faz Seu advento em um corpo feito de matéria, tal qual um ser humano comum. Desconhecendo Seu poder inconcebível, esses tolos colocam o Senhor em nível de igualdade com os homens comuns.
Como é pleno de potências inconcebíveis, Deus pode aceitar nosso serviço através de qualquer espécie de intermediário e pode converter Suas diferentes potências segundo Sua própria vontade. Os descrentes argumentam que o Senhor não pode encarnar de modo algum porque, caso encarne, Ele vem em uma forma feita de energia material. Esses argumentos são anulados se aceitarmos a existência das potências inconcebíveis do Senhor. Então, compreendemos que, mesmo que o Senhor apareça diante de nós numa forma material, é deveras possível que Ele converta essa energia em energia espiritual. Como a fonte das energias é a mesma, elas podem ser utilizadas de acordo com a vontade de sua fonte. Por exemplo, o Senhor pode aparecer sob a forma da arcā-vigraha, a Deidade, aparentemente feita de terra, pedra ou madeira. As formas da Deidade, embora esculpidas em madeira, pedra ou outro material, não são ídolos, como afirmam os iconoclastas.
Em nosso atual estado imperfeito, o estado de existência material, não podemos ver o Senhor Supremo devido à nossa visão falha. Entretanto, os devotos que desejam vê-lO através da visão material são favorecidos pelo Senhor, que aparece numa forma aparentemente material para aceitar o serviço deles. Ninguém deve pensar que esses devotos, que estão na fase inferior do serviço devocional, adoram um ídolo. Estão de fato adorando o Senhor, que concorda em lhes mostrar uma forma da qual eles podem aproximar-se. Tampouco a arcā é uma forma modelada de acordo com os caprichos do adorador. Essa forma existe eternamente, assim como tudo que lhe concerne. O devoto sincero pode sentir isso de verdade, enquanto o ateísta não.
Na Bhagavad-gītā (4.11), o Senhor diz que dispensa a Seu devoto um tratamento compatível com seu grau de rendição. Ele Se reserva o direito de não Se expor a toda e qualquer pessoa, senão que Se revela apenas às almas que se rendem a Ele. Assim, Ele está sempre ao alcance das almas rendidas, ao passo que fica muitíssimo distanciado das almas que não são rendidas, as quais não podem aproximar-se dEle.
Neste contexto, duas palavras que as escrituras reveladas frequentemente usam ao referirem-se ao Senhor — saguṇa (“com qualidade”) e nirguṇa (“sem qualidades”) — são muito importantes. A palavra saguṇa não insinua que o Senhor deva assumir a forma material e Se sujeitar às leis da natureza material ao aparecer com qualidades perceptíveis. Para Ele, não há diferença entre as energias material e espiritual, porque Ele é a fonte de todas as energias. Sendo o controlador de todas as energias, Ele, ao contrário de nós, não pode em tempo algum estar sob a influência delas. A energia material funciona de acordo com Sua direção. Portanto, Ele pode usar essa energia para satisfazer Seus propósitos e jamais ser influenciado por qualquer das qualidades dessa energia. (Nesse sentido, Ele é nirguṇa, “sem qualidades”.) Tampouco o Senhor, em algum momento, torna-Se uma entidade desprovida de forma, pois, em última análise, Ele é a forma eterna, o Senhor primordial. O Seu aspecto impessoal, ou a refulgência Brahman, é apenas o brilho de Seus raios pessoais, assim como os raios do sol são o brilho do deus do sol.
Quando o menino santo Prahlāda Mahārāja estava perante seu pai ateísta, este perguntou: “Onde está o seu Deus?” Quando Prahlāda respondeu que Deus residia em todas as partes, o pai irado perguntou se o Deus dele estava dentro de um dos pilares do palácio, e o menino disse que sim. No mesmo momento, o rei ateísta reduziu a pedaços o pilar que estava à sua frente, e o Senhor imediatamente apareceu como Nṛsiṁha, a encarnação metade homem, metade leão, e matou o rei ateísta. Logo, o Senhor está dentro de tudo e Ele cria tudo com Suas diferentes energias. Através de Seus poderes inconcebíveis, Ele pode aparecer em qualquer lugar para favorecer Seu devoto sincero. Ao sair do interior do pilar, o Senhor Nṛsiṁha não estava interessado na ordem do rei ateísta, mas estava satisfazendo o desejo de Seu devoto Prahlāda. Um ateísta não pode ordenar que o Senhor apareça, mas o Senhor aparece em toda e qualquer parte para mostrar misericórdia a Seu devoto. Na Bhagavad-gītā (4.8), há uma afirmação semelhante, segundo a qual o Senhor aparece para aniquilar os descrentes e proteger os devotos. É claro que as energias e os agentes que o Senhor possui são suficientes para derrotar os ateístas, mas Ele sente prazer em conceder favor especial ao devoto. Portanto, Ele faz Seu advento. Na verdade, Ele vem a este mundo apenas para favorecer Seus devotos, e não com algum outro propósito.
Na Brahma-saṁhitā (5.35), afirma-se que Govinda, o Senhor primordial, entra em tudo por intermédio de Sua porção plenária. Ele entra no universo bem como nos átomos do universo. Externamente, Ele Se apresenta como Sua forma virāṭ, e está no interior de tudo como antaryāmī. Como antaryāmī, Ele testemunha tudo o que está acontecendo e, através de karma-phala, concede-nos os resultados de nossas ações. Apesar de não nos lembrarmos de nossos atos de vidas passadas, o Senhor é testemunha de todos eles, concedendo-nos os resultados. Assim, temos que nos submeter às reações de todos esses atos.
O fato é que, interna e externamente, só existe Deus. Tudo é manifestação de Suas diferentes energias, assim como o calor e a luz que emanam do fogo. Dessa maneira, existe unidade entre Suas diversas energias. Embora haja unidade, o Senhor, sob Sua forma pessoal, goza ilimitadamente de todos os prazeres desfrutados em grau diminuto pelas entidades vivas, que são Suas partes integrantes.
yas tu sarvāṇi bhūtāny
ātmany evānupaśyati
sarva-bhūteṣu cātmānaṁ
tato na vijugupsate

Synonyms

yaḥaquele que; tumas; sarvāṇitodas; bhūtānias entidades vivas; ātmaniem relação com o Senhor Supremo; evaapenas; anupaśyatiobserva de maneira sistemática; sarva-bhūteṣuem todo ser vivo; cae; ātmānama Superalma; tataḥpor conseguinte; nanão; vijugupsateodeia ninguém.

Translation

Aquele que vê tudo relacionado com o Senhor Supremo, vê todas as entidades vivas como Suas partes integrantes, e vê o Senhor Supremo dentro de tudo, não odeia nada nem ninguém.

Purport

Esta descrição aplica-se ao mahā-bhāgavata, uma grande personalidade que vê tudo relacionado com a Suprema Personalidade de Deus. A presença do Supremo é percebida em três etapas. O kaniṣṭha-adhikārī está na fase de compreensão inferior. De acordo com sua fé religiosa, ele se dirige a um lugar de adoração, tal como um templo, igreja ou mesquita, onde adora segundo os preceitos das escrituras. Os devotos que estão nessa fase consideram que o Senhor está presente no lugar onde se presta adoração, e em nenhuma outra parte. Eles não conseguem determinar em que posição situa-se alguém que presta serviço devocional, tampouco podem definir quem é que compreendeu o Senhor Supremo. Esses devotos seguem as fórmulas rotineiras e às vezes brigam entre si, considerando um tipo de devoção melhor do que outro. Na verdade, esses kaniṣṭha-adhikārīs são devotos materialistas que simplesmente tentam transcender os limites materiais para atingir o plano espiritual.
Aqueles que alcançaram a segunda fase de percepção chamam-se madhyama-adhikārīs. Esses devotos observam as distinções entre as quatro categorias de seres: (1) o Senhor Supremo; (2) os devotos do Senhor; (3) os inocentes, que não têm conhecimento acerca do Senhor, e (4) os ateístas, que não têm fé no Senhor e nem naqueles que prestam serviço devocional ao Senhor. O madhyama-adhikārī manifesta diferentes comportamentos diante dessas quatro classes de pessoas. Ele adora o Senhor, pois O considera seu objeto de amor; faz amizade com aqueles que prestam serviço devocional; tenta despertar nos corações dos inocentes o amor latente que eles têm por Deus, e evita os ateístas, que zombam do canto do nome do Senhor.
Acima do madhyama-adhikārī está o uttama-adhikārī, que vê tudo relacionado ao Senhor Supremo. Semelhante devoto não discrimina entre um ateísta e um teísta, mas vê todos como partes integrantes de Deus. Ele sabe que não existe uma diferença essencial entre um brāhmaṇa altamente erudito e um cão na rua, porque ambos são partes integrantes do Senhor, embora estejam aprisionados em diferentes corpos como consequência das diferentes qualidades das atividades que executaram em vidas passadas. Ele vê que a partícula brāhmaṇa do Senhor Supremo não abusou da pequena independência que recebeu do Senhor, e que a partícula cão do Senhor abusou de sua independência e, portanto, está sendo punida pelas leis da natureza, que a forçaram a aceitar a forma de cão. Sem levar em consideração as respectivas ações executadas pelo brāhmaṇa e pelo cão, o uttama-adhikārī tenta fazer o bem a ambos. Semelhante devoto erudito não se deixa impressionar pelos corpos materiais, mas se sente atraído pela centelha espiritual que está dentro deles.
Na verdade, aqueles que imitam o uttama-adhikārī, ostentando um sentimento de igualdade ou camaradagem, mas que agem na plataforma corpórea, não passam de falsos filantropos. É com o uttama-adhikārī que devemos aprender o conceito de fraternidade universal, e não com um tolo que não tenha a devida compreensão acerca da alma individual ou da Superalma, a expansão do Senhor Supremo que reside em toda parte.
Menciona-se claramente neste sexto mantra que a pessoa deve “observar”, ou ver sistematicamente. Isto quer dizer que ela deve seguir o ācārya anterior, o mestre perfeito. Anupaśyati é a palavra sânscrita usada exatamente nesse contexto. Anu significa “seguir”, e paśyati, “observar”. Logo, a palavra anupaśyati significa que ninguém deve ver as coisas com o olho nu, mas todos devem seguir os ācāryas anteriores. Devido a defeitos materiais, o olho nu não pode ter uma visão correta; só pode ver corretamente quem ouviu uma fonte superior, e a fonte mais elevada é a sabedoria védica, falada pelo próprio Senhor. A verdade védica é transmitida em sucessão discipular começando com o próprio Senhor e Seu discípulo Brahmā, e de Brahmā a Nārada, de Nārada a Vyāsa, e de Vyāsa a muitos de seus discípulos. Outrora, não era necessário registrar as mensagens dos Vedas, porque as pessoas de eras passadas eram mais inteligentes e tinham uma memória mais aguçada. Elas podiam seguir as instruções só por ouvirem uma única vez o mestre espiritual genuíno.
Atualmente, existem muitos comentários sobre as escrituras reveladas, mas a maioria deles não está na linha de sucessão discipular proveniente de Śrīla Vyāsadeva, que compilou originalmente a sabedoria védica. A obra final mais perfeita e sublime escrita por Śrīla Vyāsadeva foi o Śrīmad-Bhāgavatam, que é um comentário natural sobre o Vedānta-sūtra. Há também a Bhagavad-gītā, que foi falada pelo próprio Senhor e registrada por Vyāsadeva. Estas são as escrituras reveladas mais importantes, e qualquer comentário que contradiga os princípios contidos na Bhagavad-gītā ou no Śrīmad-Bhāgavatam não é autorizado. Existe perfeita harmonia entre os Upaniṣads, o Vedānta-sūtra, os Vedas, a Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam, e não se deve tentar chegar a conclusão alguma sobre os Vedas sem receber as instruções transmitidas pelos membros da sucessão discipular de Vyāsadeva, que acreditam na Personalidade de Deus e em Suas diversas energias explicadas no Śrī Īśopaniṣad.
Segundo a Bhagavad-gītā (18.54), apenas alguém que já esteja na plataforma liberada (brahma-bhūta) pode tornar-se um devoto uttama-adhikārī e ver cada ser vivo como seu próprio irmão. Os políticos, que vivem atrás de ganhos materiais, não podem ter essa visão. Quem imita os sintomas de um uttama-adhikārī talvez sirva o corpo material em troca de fama ou recompensa material, mas não serve à alma espiritual. Semelhante imitador não recebe informações a respeito do mundo espiritual. O uttama-adhikārī vê a alma espiritual dentro do corpo material, à qual ele serve como espírito. Deste modo, o aspecto material é automaticamente servido.
yasmin sarvāṇi bhūtāny
ātmaivābhūd vijānataḥ
tatra ko mohaḥ kaḥ śoka
ekatvam anupaśyataḥ

Synonyms

yasminna situação; sarvāṇitodas; bhūtānias entidades vivas; ātmāa cit-kaṇa, ou centelha espiritual; evaapenas; abhūtexiste como; vijānataḥde alguém que conhece; tatranisso; kaḥo que; mohaḥilusão; kaḥo que; śokaḥansiedade; ekatvamigualdade na qualidade; anupaśyataḥde alguém que vê através da autoridade, ou de alguém que vê constantemente dessa maneira.

Translation

Quem sempre vê todas as entidades vivas como centelhas espirituais, iguais ao Senhor em qualidade, torna-se o maior conhecedor das coisas. O que, então, pode ser ilusão ou ansiedade para ele?

Purport

À exceção do madhyama-adhikārī e uttama-adhikārī descritos acima, ninguém pode ver corretamente a posição espiritual do ser vivo. As entidades vivas são qualitativamente iguais ao Senhor Supremo, assim como as centelhas do fogo são qualitativamente iguais ao fogo. Entretanto, quando se trata de quantidade, as centelhas não são fogo, pois a quantidade de calor e luz presente nas centelhas não é a mesma que está presente no fogo. O mahā-bhāgavata, o grande devoto, vê unidade no sentido de que vê tudo como energia do Senhor Supremo. Como não há diferença entre a energia e o energético, existe o sentido de unidade. Embora, do ponto de vista analítico, o calor e a luz sejam diferentes do fogo, sem calor e luz a palavra “fogo” não tem sentido. Portanto, em síntese, calor, luz e fogo são a mesma coisa.
Neste mantra, as palavras ekatvam anupaśyataḥ indicam que, tomando como referência as escrituras reveladas, a pessoa deve ver a unidade de todas as entidades vivas. As centelhas individuais do Todo Supremo (o Senhor) possuem quase oitenta por cento das qualidades que se sabe que o Todo possui, mas, quantitativamente, não são iguais ao Senhor Supremo. Essas qualidades estão presentes em quantidade diminuta, pois a entidade viva não passa de uma diminuta parte integrante do Todo Supremo. Usando outra analogia, a quantidade de sal presente numa gota de água nunca se compara à quantidade de sal presente no oceano completo, apesar do sal presente na gota de água ter a mesma composição química de todo o sal presente no oceano. Se o ser vivo individual fosse igual ao Senhor Supremo, tanto qualitativa quanto quantitativamente, não haveria possibilidade de ele se influenciar pela energia material. Nos mantras anteriores, já se comentou que nenhum ser vivo — nem mesmo os semideuses poderosos — podem superar o Ser Supremo em aspecto algum. Portanto, a palavra ekatvam não significa que o ser vivo seja igual ao Senhor Supremo sob todos os aspectos. No entanto, num sentido mais amplo, ekatvam indica um interesse comum, assim como numa família o interesse de todos os membros é o mesmo, ou numa nação o interesse nacional é o mesmo, embora existam muitos cidadãos individuais diferentes. Como todas as entidades vivas são membros da mesma família suprema, seu interesse e o do Ser Supremo não são diferentes. Todo ser vivo é filho do Ser Supremo. Como se afirma no Bhagavad-gītā (7.5), todas as criaturas vivas neste universo — inclusive os pássaros, os répteis, as formigas, os seres aquáticos, as árvores e assim por diante — são emanações da potência marginal do Senhor Supremo. Portanto, todas elas pertencem à família do Ser Supremo. Não existe conflito de interesses.
As entidades espirituais são destinadas a obter prazer, como confirma o Vedānta-sūtra (1.1.12): ānanda-mayo ’bhyāsāt. Por natureza e constituição, todo ser vivo — incluindo o Senhor Supremo e cada uma de Suas partes integrantes — destina-se a obter prazer eterno. Os seres vivos que estão aprisionados no tabernáculo material constantemente buscam o desfrute, mas o estão buscando no lugar errado. Situada além desta plataforma material está a plataforma espiritual, onde o Ser Supremo desfruta junto de Seus inumeráveis associados. Nessa plataforma, não existe nenhum indício de qualidades materiais, e, portanto, ela chama-se nirguṇa. Na plataforma nirguṇa, nunca se entra em conflito pelo objeto de prazer. Aqui no mundo material, os diferentes seres vivos estão sempre em desacordo porque lhes falta o verdadeiro centro de prazer, o Senhor Supremo, que é o centro da sublime e espiritual dança da rāsa. Todos nós somos destinados a nos unir a Ele e gozar a vida com o mesmo interesse transcendental e sem nenhum conflito. Essa é a plataforma máxima de interesse espiritual e, tão logo a pessoa perceba essa forma perfeita de unidade, fica fora de cogitação a ilusão (moha) ou a lamentação (śoka).
A lamentação é o resultado de uma civilização ímpia, que surge da ilusão. Esse tipo de civilização, fomentada pelos políticos modernos, vive sempre em ansiedade, pois pode ser dizimada a qualquer momento. Esta é a lei da natureza. Como afirma a Bhagavad-gītā (7.14), só podem ultrapassar as estritas leis da natureza aqueles que se rendem aos pés de lótus do Senhor Supremo. Logo, se desejamos nos livrar de todas as espécies de ilusão e ansiedade e unificar todos os diversos interesses, temos que inserir Deus em todas as nossas atividades.
Devemos usar os resultados de nossas atividades para servir ao interesse do Senhor, e não para algum outro propósito. Só quando servirmos ao interesse do Senhor, poderemos compreender o interesse ātma-bhūta mencionado nesta passagem. O interesse ātma-bhūta mencionado neste mantra e o interesse brahma-bhūta mencionado na Bhagavad-gītā (18.54) são a mesmíssima coisa. A ātmā suprema, ou alma, é o próprio Senhor, e a ātmā diminuta é a entidade viva. A ātmā suprema, Paramātmā, mantém sozinha todos os seres individuais diminutos, pois o Senhor Supremo quer sentir prazer na afeição que eles Lhe devotam. O pai se expande em seus filhos e os mantém para obter prazer. Se os filhos obedecerem à vontade do pai, as relações familiares serão harmônicas, com um interesse comum numa atmosfera agradável. A mesma situação vale na plataforma transcendental na família do Parabrahman, o Espírito Supremo.
Tanto quanto as entidades individuais, o Parabrahman é uma pessoa. Nem o Senhor nem as entidades vivas são impessoais. Essas personalidades transcendentais são plenas de bem-aventurança e conhecimento transcendentais e vida eterna. Essa é a verdadeira posição da existência espiritual, e, tão logo passe a conhecer na íntegra essa posição transcendental, a pessoa imediatamente se rende aos pés de lótus do Ser Supremo, Śrī Kṛṣṇa. Mas é raro encontrar semelhante mahātmā, ou grande alma, porque só depois de muitos e muitos nascimentos é que se alcança essa percepção transcendental. Entretanto, uma vez que tenhamos atingido essa compreensão, não haverá mais ilusão e lamentação nem as misérias da existência material — o nascimento e a morte —, todas as quais são experimentadas em nossa vida atual. É essa a informação que obtemos deste mantra do Śrī Īśopaniṣad.
sa paryagāc chukram akāyam avraṇam
asnāviraḿ śuddham apāpa-viddham
kavir manīṣī paribhūḥ svayambhūr
yāthātathyato ’rthān vyadadhāc chāśvatībhyaḥ samābhyaḥ

Synonyms

saḥessa pessoa; paryagātdeve conhecer de fato; śukramonipotente; akāyamnão corporificado; avraṇamirrepreensível; asnāviramsem veias; śuddhamantisséptico; apāpa-viddhamprofilático; kaviḥonisciente; manīṣīfilósofo; paribhūḥmaior de todos; svayambhūḥautossuficiente; yāthāta thyataḥapenas em prosseguimento a; arthāncoisas desejáveis; vyadadhātconcede; śāśvatībhyaḥimemorial; samābhyaḥtempo.

Translation

Essa pessoa deve realmente conhecer o maior de todos, que é não corporificado, é onisciente, irrepreensível, sem veias, puro e não contaminado, o filósofo autossuficiente que desde tempos imemoriais satisfaz o desejo de todos.

Purport

Esta é uma descrição da forma transcendental e eterna da Absoluta Personalidade de Deus. O Senhor Supremo não é desprovido de forma. Ele tem Sua própria forma transcendental, que não se parece nem um pouco com as formas encontradas no mundo material. Neste mundo, as entidades vivas assumem corpos de natureza material, que funcionam como qualquer máquina material. A anatomia de um corpo material precisa de uma constituição mecânica com veias e assim por diante, mas o corpo transcendental do Senhor Supremo não possui nada parecido com veias. Aqui, afirma-se claramente que Ele não é corporificado, o que significa que não há diferença entre Seu corpo e Sua alma. E, diferentemente de nós, Ele não é forçado a aceitar um corpo imposto pelas leis da natureza. Na vida materialmente condicionada, a alma é diferente da forma corpórea grosseira e da mente sutil. Entretanto, ao Senhor Supremo nunca se aplica essa diferença entre Ele e Seu corpo e Sua mente. Ele é o Todo Completo, e Sua mente, corpo e Ele próprio são a mesma coisa.
Na Brahma-saṁhitā (5.1), o Senhor Supremo recebe uma descrição semelhante. Lá, Ele é descrito como sac-cid-ānanda-vigraha, o que significa que Ele é a forma eterna que representa eternamente a existência, o conhecimento e a bem-aventurança transcendentais. Nesse caso, Ele não precisa de um corpo ou mente separados, como precisamos na existência material. A literatura védica afirma com toda a clareza que o corpo transcendental do Senhor é completamente diferente do nosso; logo, às vezes descreve-se que Ele não tem forma. Isso significa que Sua forma não é como a nossa e não podemos percebê-la. Continuando, a Brahma-saṁhitā (5.32) afirma que, com cada parte de Seu corpo, Ele pode executar as funções próprias dos outros sentidos. Isso quer dizer que o Senhor pode caminhar com as mãos, aceitar oferendas com as pernas, ver com as mãos e os pés, comer com os olhos, etc. Nos śruti-mantras, também se afirma que, embora não tenha mãos e pernas como as nossas, o Senhor tem um tipo diferente de mãos e pernas, com as quais pode aceitar tudo o que Lhe oferecemos e correr mais rápido que qualquer pessoa. Com o uso de palavras como śukram (onipotente), este oitavo mantra confirma esses pontos.
A forma adorável do Senhor (arcā-vigraha), instalada no templo por ācāryas autorizados, não é diferente da forma original do Senhor. Esses grandes mestres compreenderam o Senhor em consonância com o mantra sete. Śrī Kṛṣṇa, a forma original do Senhor, expande-Se num ilimitado número de formas, tais como Baladeva, Rāma, Nṛsiṁha e Varāha. Todas essas formas são a mesmíssima Personalidade de Deus. De modo semelhante, o Senhor também Se expande na arcā-vigraha adorada nos templos. Adorando a arcā-vigraha, a pessoa pode imediatamente se aproximar do Senhor, que, com Sua energia onipotente, aceita o serviço prestado pelo devoto. A arcā-vigraha do Senhor vem a este mundo a pedido dos ācāryas, os preceptores santos, e, em virtude da onipotência do Senhor, tem a mesma atuação originalmente empreendida pelo Senhor. Os tolos que não conhecem o Śrī Īśopaniṣad ou algum outro śruti-mantra consideram que a arcā-vigraha adorada por devotos puros é feita de elementos materiais. Essa forma pode parecer material aos olhos imperfeitos dos kaniṣṭha-adhikārīs, ou pessoas tolas, mas eles não sabem que o Senhor, sendo onipotente e onisciente, pode, de acordo com Seus desejos, transformar matéria em espírito e espírito em matéria.
Na Bhagavad-gītā (9.11-12), o Senhor Se compadece da condição caída dos homens que, tendo pouco conhecimento, zombam dEle porque Ele faz Seu advento neste mundo numa forma humana. Essas pessoas pouco informadas desconhecem a onipotência do Senhor. Logo, aos especuladores mentais o Senhor não Se manifesta por completo. A pessoa só pode apreciá-lO num grau proporcional à sua rendição a Ele. As entidades vivas estão numa condição caída só porque se esqueceram de sua relação com Deus.
Neste mantra, bem como em muito outros mantras védicos, afirma-se claramente que, desde tempos imemoriais, o Senhor fornece às entidades vivas diferentes classes de artigos. O ser vivo deseja algo e, proporcionalmente à qualificação da pessoa, o Senhor fornece o objeto desse desejo. O homem que quer ser juiz do Supremo Tribunal não precisa apenas adquirir as qualificações necessárias, mas também o consentimento da autoridade que possa lhe conceder o título de juiz do Supremo Tribunal. As qualificações em si não são suficientes para que ele ocupe o posto: é preciso que isso seja concedido por alguma autoridade superior. Do mesmo modo, proporcionalmente às suas qualificações, o Senhor recompensa as entidades vivas deixando que elas sintam determinado prazer, mas, em si, as boas qualificações não são suficientes para capacitar alguém a receber recompensas. Também é necessária a misericórdia do Senhor.
De um modo geral, o ser vivo não sabe o que pedir ao Senhor, nem a posição que deve assumir. Entretanto, ao passar a conhecer sua posição constitucional, o ser vivo pede que seja aceito na associação transcendental do Senhor para lhe prestar transcendental serviço amoroso. Infelizmente, os seres vivos, sob a influência da natureza material, fazem muitos outros tipos de pedido, e a Bhagavad-gītā (2.41) descreve que essa conduta condiz com alguém cuja inteligência é reduzida e dispersa. A inteligência espiritual é única, mas a inteligência mundana é diversificada. O Śrīmad-Bhāgavatam (7.5.30-31) afirma que aqueles que se deixam cativar pelas belezas temporárias da energia externa se esquecem do verdadeiro objetivo da vida, que consiste em voltar ao Supremo. Esquecendo-se disso, a pessoa recorre a vários planos e programas para que tudo dê certo, mas isso é o mesmo que mastigar o que já foi mastigado. Entretanto, o Senhor é tão bondoso que permite que a entidade viva que está sofrendo desse esquecimento não tenha nenhuma interferência em continuar em seu processo. Assim, este mantra do Śrī Īśopaniad usa a palavra yāthātathyata, que serve para indicar que o Senhor recompensa as entidades vivas exatamente de acordo com o que elas desejam. Se o ser vivo quer ir para o inferno, o Senhor lhe concede o desejo, e não interfere em Sua atitude. Se alguém quer voltar ao lar, voltar ao Supremo, o Senhor o ajuda.
Aqui, Deus é descrito como paribhūḥ, o maior de todos. Ninguém é superior ou igual a Ele. Outros seres vivos são aqueles tidos como mendigos que pedem que o Senhor lhes dê tudo o que eles necessitam. O Senhor supre o que é desejado pelas entidades vivas. Se as entidades vivas tivessem a mesma potência do Senhor — se fossem onipotentes e oniscientes —, ficaria fora de cogitação elas pedirem algo ao Senhor, mesmo que fosse a suposta liberação. Verdadeira liberação significa voltar ao Supremo. A liberação conseguida pelos impersonalistas é um mito, e, por isso, enquanto não se munir de sentidos espirituais e perceber sua posição constitucional, a pessoa sempre continuará buscando o gozo dos sentidos.
Apenas o Senhor Supremo é autossuficiente. Ao aparecer na terra há cinco mil anos, o Senhor Kṛṣṇa, através de Suas várias atividades, apresentou Suas manifestações plenas como a Personalidade de Deus. Em Sua infância, Ele matou muitos demônios poderosos, tais como Aghāsura, Bakāsura e Śakaṭāsura, e não foi preciso que Ele adquirisse esse poder através de algum empenho extra. Ele ergueu a colina Govardhana sem jamais praticar halterofilismo; dançou com as gopīs sem Se restringir a alguma convenção social ou sujeitar-Se a alguma censura. Embora as gopīs se aproximassem dEle demonstrando sintomas de amor extraconjugal, o relacionamento entre as gopīs e o Senhor Kṛṣṇa é adorado até mesmo pelo Senhor Caitanya, que era um sannyāsī estrito e um rígido seguidor das regulações disciplinares. Para confirmar que o Senhor é sempre puro e não contaminado, o Śrī Īśopaniṣad descreve-O como śuddham (antisséptico) e apāpa-viddham (profilático). Ele é antisséptico no sentido de que até mesmo uma substância impura pode purificar-se pelo simples fato de entrar em contato com Ele. A palavra “profilático” refere-se ao poder da associação com Ele. Como menciona a Bhagavad-gītā (9.30-31), um devoto talvez pareça su-durācāra, mal comportado no começo, mas é considerado puro, pois está no caminho correto. Isso se deve à natureza profilática da associação com o Senhor. O Senhor também é apāpa-viddham porque o pecado não pode tocá-lO. Mesmo que atue de uma maneira aparentemente pecaminosa, Suas ações são inteiramente puras, pois não há nenhuma possibilidade de que Ele seja afetado pelo pecado. Porque em todas as circunstâncias é śuddham, puríssimo, Ele é frequentemente comparado ao sol. O sol retira a umidade de muitos lugares impuros da Terra; no entanto, permanece puro. De fato, graças a seus poderes esterilizantes, ele purifica coisas repulsivas. Se o sol, que é um objeto material, é tão poderoso, então mal podemos imaginar a força purificatória do Senhor Todo-Poderoso.
andhaṁ tamaḥ praviśanti
ye ’vidyām upāsate
tato bhūya iva te tamo
ya u vidyāyāḿ ratāḥ

Synonyms

andhamignorância grosseira; tamaḥescuridão; praviśantientram em; yeaqueles que; avidyāmignorância; upāsateadoram; tataḥdo que isso; bhūyaḥmais ainda; ivacomo; teeles; tamaḥescuridão; yeaqueles que; utambém; vidyāyāmno cultivo de conhecimento; ratāḥocupados.

Translation

Aqueles que se ocupam no cultivo de atividades ignorantes entrarão na mais escura região da ignorância. Piores ainda são aqueles que se ocupam no cultivo do pseudoconhecimento.

Purport

Este mantra oferece um estudo comparativo sobre vidyā (conhecimento) e avidyā (ignorância). A ignorância é indubitavelmente perigosa; porém, ao ser deturpado ou aplicado erroneamente, o conhecimento é mais perigoso ainda. Este mantra do Śrī Īśopaniṣad tem mais aplicação hoje do que em qualquer época passada. A civilização moderna empreendeu um considerável avanço no campo da educação em massa, mas o resultado é que as pessoas estão mais infelizes que nunca porque se dá muita ênfase ao avanço material em detrimento do aspecto mais importante da vida — o lado espiritual.
Em relação ao conhecimento, o primeiro mantra explica muito claramente que o Senhor Supremo é o proprietário de tudo e que se esquecer desse fato é ignorância. Quanto mais se esquece desse fato da vida, mais o homem mergulha na escuridão. Em vista disso, uma civilização ímpia, voltada para o falso avanço educacional, é mais perigosa que uma civilização em que as massas de pessoas são menos “instruídas”.
Das diferentes classes de homens — karmīs, jñānīs e yogīs —, os karmīs são aqueles que estão ocupados em atividades de gozo dos sentidos. Na civilização moderna, 99,9 por cento das pessoas estão ocupadas nas atividades de gozo dos sentidos sob os rótulos de industrialismo, desenvolvimento econômico, altruísmo, ativismo político e assim por diante. Todas essas atividades baseiam-se mais ou menos no gozo dos sentidos, deixando de lado a espécie de consciência de Deus descrita no primeiro mantra.
Na linguagem da Bhagavad-gītā (7.15), aqueles que se ocupam de uma maneira grosseira no gozo dos sentidos são mūḍhas, asnos. O asno é um símbolo de estupidez. De acordo com o Śrī Īśopaniṣad, quem se ocupa na simples busca infrutífera de gozo dos sentidos está adorando avidyā, ou ignorância. E aqueles que, em nome do avanço educacional, agem com o propósito de ajudar essa espécie de civilização, na verdade são mais prejudiciais que aqueles que estão na plataforma grosseira do gozo dos sentidos. O avanço de aprendizado empreendido por um povo ateu é tão perigoso como uma joia preciosa na cabeça de uma serpente naja. Uma serpente naja decorada com uma pedra preciosa é mais perigosa do que outra que não tenha esse enfeite. No Hari-bhakti-sudhodaya (3.11.12), o avanço educacional de um povo ateu é comparado aos adornos colocados em um corpo morto. Na Índia, como em muitos outros países, é costume que algumas pessoas liderem uma procissão, carregando um corpo morto adornado para o prazer dos parentes comovidos. No mesmo sentido, a civilização moderna é uma miscelânea de atividades feitas para esconder as misérias perpétuas da existência material. Todas essas atividades visam ao gozo dos sentidos. Porém, acima dos sentidos, está a mente, e, acima da mente, está a inteligência, e, acima da inteligência, está a alma. Logo, o objetivo da verdadeira educação deve ser a autorrealização — compreender os valores espirituais da alma. Toda educação que não conduza a essa compreensão deve ser considerada avidyā, ou ignorância. E cultivar essa ignorância significa descer à mais escura região da ignorância.
De acordo com a Bhagavad-gītā (2.42, 7.15), os falsos educadores mundanos são conhecidos como veda-vāda-rata e māyayāpahṛta-jñāna. Também podem ser demônios ateístas, os mais baixos da humanidade. Os veda-vāda-ratas se fazem passar por grandes conhecedores da literatura védica, mas, infelizmente, desviam-se por completo do propósito dos Vedas. Está dito na Bhagavad-gītā (15.15) que o propósito dos Vedas é conhecer a Personalidade de Deus, mas estes homens veda-vāda-ratas não estão nem um pouco interessados na Personalidade de Deus. Pelo contrário, estão fascinados por resultados fruitivos, como, por exemplo, alcançar o céu.
Como está declarado no mantra um, devemos saber que a Personalidade de Deus é o proprietário de tudo, e que devemos nos contentar com o quinhão que nos foi reservado para satisfazer as necessidades da vida. Toda a literatura védica tem como propósito despertar essa consciência de Deus no ser vivo que se esqueceu dEle, e, para que a humanidade tola desenvolva compreensão, as diferentes escrituras do mundo apresentam de diferente maneiras esse mesmo propósito. Logo, o propósito último de todas as religiões é levar a pessoa de volta ao Supremo.
Mas os veda-vāda-ratas, ao invés de compreenderem que o propósito dos Vedas é reviver na alma sua relação com a Suprema Personalidade de Deus, preferem aceitar que o interesse secundário é o objetivo último dos Vedas. Entende-se por interesse secundário tudo o que possa fornecer o gozo dos sentidos, tal como a obtenção de prazeres celestiais. Entregar-se a esses prazeres é a própria causa do cativeiro material.

Semelhantes pessoas enganam os outros deturpando a literatura védica, chegando inclusive a condenar os Purāṇas, que fornecem aos leigos autênticas explicações védicas. Os veda-vāda-ratas dão suas próprias explicações sobre os Vedas, negligenciando a autoridade de grandes mestres (ācāryas). Também tentam mitificar em sua própria classe de gente alguma pessoa inescrupulosa ostentando-a como o expoente máximo do conhecimento védico. Neste mantra, as apropriadíssimas palavras sânscritas vidyāyāṁ ratāḥ condenam especificamente semelhantes veda-vāda-ratas. Vidyāyām refere-se ao estudo dos Vedas porque os Vedas são a origem de todo o conhecimento (vidyā), e ratāḥ significa “aqueles que estão ocupados”. Logo, vidyāyāṁ ratāḥ quer dizer “aqueles que estão ocupados no estudo dos Vedas”. Nesta passagem, condenam-se os supostos estudantes dos Vedas porque, devido à sua desobediência aos ācāryas, ignoram o verdadeiro propósito dos Vedas. Semelhantes veda-vāda-ratas procuram interpretar cada palavra dos Vedas de modo a satisfazer seus próprios objetivos. Eles não sabem que a literatura védica é uma coleção de livros extraordinários que só podem ser entendidos através da corrente de sucessão discipular.
O Muṇḍaka Upaniṣad (1.2.12) determina que, para compreender a mensagem transcendental dos Vedas, é preciso aproximar-se de um mestre espiritual genuíno. Entretanto, esses veda-vāda-ratas têm seus próprios ācāryas, que não estão na corrente de sucessão transcendental. Assim, eles avançam em direção à mais escura região da ignorância, pois deturpam a literatura védica. Sua queda na ignorância é maior do que a daqueles que não têm nenhum conhecimento acerca dos Vedas.
Os homens da classe māyayāpahṛta-jñāna são “deuses” autofabricados. Semelhantes indivíduos pensam que eles mesmos são o próprio Deus e que não há nenhuma necessidade de adorar outro Deus. Concordarão em prestar adoração a um homem comum, contanto que ele seja rico. Porém, jamais adorarão a Personalidade de Deus. Incapazes de reconhecer sua própria tolice, semelhantes homens não param para pensar como seria possível Deus cair na armadilha de māyā, que é Sua própria energia ilusória. Se Deus algum dia caísse na armadilha de māyā, māyā seria mais poderosa do que Deus. Eles dizem que Deus é todo-poderoso, mas não analisam o fato de que, sendo Deus todo-poderoso, não há nenhuma possibilidade de que Ele fique dominado por māyā. Esses “Deuses” autofabricados não podem dar a essas perguntas uma resposta clara; estão simplesmente satisfeitos em terem se tornado “Deus”.
anyad evāhur vidyayā-
nyad āhur avidyayā
iti śuśruma dhīrāṇāṁ
ye nas tad vicacakṣire

Synonyms

anyatdiferente; evadecerto; āhuḥdisseram; vidyayāpelo cultivo do conhecimento; anyatdiferente; āhuḥdisseram; avidyayāpelo cultivo da ignorância; itiassim; śuśrumaeu ouvi; dhīrāṇāmdos sábios; yeque; naḥnós; tatisto; vicacakṣireexplicaram.

Translation

Os sábios explicaram que se recebe um resultado a partir do cultivo de conhecimento e que se obtém um resultado diferente a partir do cultivo de ignorância.

Purport

Como aconselha o décimo terceiro capítulo da Bhagavad-gītā (13.8-12), deve-se cultivar conhecimento da seguinte maneira:
(1) Tornando-se um perfeito cavalheiro e aprendendo a oferecer aos outros o devido respeito.
(2) Evitando exibir religiosidade apenas em troca de nome e fama.
(3) Não causando ansiedade aos outros pelas ações de seu corpo, pelos pensamentos de sua mente ou por suas palavras.
(4) Aprendendo a ser tolerante, mesmo quando alguém o provoca.
(5) Evitando a duplicidade em seu relacionamento com os outros.
(6) Procurando um mestre espiritual genuíno que possa aos poucos conduzi-lo à fase de compreensão espiritual, submetendo-se a ele, prestando-lhe serviço e fazendo-lhe perguntas relevantes.
(7) Seguindo os princípios reguladores prescritos nas escrituras reveladas para alcançar a plataforma de autorrealização.
(8) Fixando-se nas doutrinas das escrituras reveladas.
(9) Abstendo-se por completo das práticas que são prejudiciais ao interesse da autorrealização.
(10) Aceitando apenas o necessário para a manutenção de seu corpo.
(11) Não se identificando com o corpo material grosseiro, nem considerando que aqueles que têm relação com seu corpo são propriedade sua.
(12) Lembrando-se sempre de que, enquanto tiver um corpo material, terá de enfrentar as misérias manifestadas sob a forma de repetidos nascimentos, velhice, doenças e mortes. Não adianta fazer planos para livrar-se das misérias inerentes ao corpo material. A melhor linha de ação é descobrir o processo pelo qual se pode recuperar a identidade espiritual.
(13) Aceitando apenas as mínimas necessidades da vida que facilitem o avanço espiritual.
(14) Evitando o apego ao cônjuge, filhos e lar mais do que as escrituras reveladas ordenam.
(15) Evitando a felicidade ou aflição resultantes de situações desejáveis ou indesejáveis, sabendo que esses sentimentos são simples criações da mente.
(16) Tornando-se um devoto imaculado da Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, e absorvendo-se em como servi-lO com toda a atenção.
(17) Interessando-se em morar num lugar afastado, onde prevalece uma atmosfera calma e quieta, favorável ao cultivo espiritual, e evitando lugares congestionados, onde os não-devotos se reúnem.
(18) Tornando-se um cientista ou filósofo e pesquisando sobre o conhecimento espiritual, reconhecendo que o conhecimento espiritual é permanente ao passo que o conhecimento material acaba quando o corpo morre.
Esses dezoito itens combinados formam um processo gradual através do qual se pode desenvolver o conhecimento verdadeiro. Considera-se que quaisquer outros métodos estão na categoria da ignorância. Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura, um grande ācārya, afirmava que todas as formas de conhecimento material são meros aspectos externos da energia ilusória e que aqueles que os cultivam ficam no mesmo nível que um asno. Encontramos esse mesmo princípio no Śrī Īśopaniṣad. O avanço do conhecimento material está convertendo em asno o homem moderno. Alguns políticos materialistas, disfarçados de espiritualistas, taxam de satânico o atual sistema de civilização, mas, infelizmente, não se importam com o cultivo do conhecimento verdadeiro que está descrito na Bhagavad-gītā. Por isso, não podem mudar a situação satânica.
Na sociedade moderna, até um menino se considera autossuficiente, e não tem respeito algum pelos mais velhos. Devido ao tipo incorreto de educação transmitido em nossas universidades, os jovens do mundo inteiro têm causado muita dor de cabeça às pessoas mais velhas. Por isso, o Śrī Īśopaniad adverte veementemente que o cultivo da ignorância é diferente do cultivo do conhecimento. As universidades são meros centros de ignorância; por conseguinte, os cientistas estão empenhados na descoberta de armas letais para acabar com a existência de outros países.

Hoje em dia, os estudantes universitários não recebem instruções sobre os princípios reguladores que fazem parte de brahmacarya (vida de estudante celibatário), tampouco têm eles alguma fé em quaisquer preceitos das escrituras. Os princípios religiosos são ensinados visando unicamente nome e fama, e não há nenhum interesse de serem postos em prática. Portanto, há animosidade não apenas nos campos social e político, mas também no campo da religião.
Devido ao cultivo da ignorância pelas pessoas em geral, o nacionalismo desenvolve-se em diferentes partes do mundo. Ninguém leva em consideração que esta Terra pequenina é apenas um pedaço de matéria que, no espaço incomensurável, flutua juntamente com muitos outros pedaços. Em comparação com a vastidão do espaço, estes pedaços de matéria são como partículas de poeira no ar. Como Deus bondosamente criou esses pedaços de matéria completos em si mesmos, eles estão perfeitamente equipados com tudo aquilo que é necessário para que flutuem no espaço. Os condutores de nossas naves espaciais talvez sintam muito orgulho de suas conquistas, mas não levam em conta o condutor supremo dessas gigantescas espaçonaves chamadas planetas.
Existem inumeráveis sóis bem como inumeráveis sistemas planetários. Como partes integrantes infinitesimais do Senhor Supremo, nós, pequeninas criaturas, tentamos dominar esses planetas ilimitados. Como consequência, submetemo-nos a repetidos nascimentos e mortes, e a velhice e a doença acabam frustrando nossos planos. O tempo de vida do ser humano, que é de aproximadamente cem anos, está aos poucos diminuindo para vinte ou trinta anos. Graças ao cultivo da ignorância, os homens iludidos criaram neste planeta suas próprias nações para que, durante esses poucos anos, obtivessem mais intensamente o gozo dos sentidos. Esses tolos elaboram vários planos para traçarem com perfeição os limites territoriais, uma tarefa que é inteiramente impossível. Entretanto, buscando satisfazer esse propósito, cada nação se tornou uma fonte de ansiedade para as outras. Uma nação desperdiça mais de cinquenta por cento de sua energia empregando-a em medidas de defesa. As pessoas não se importam com o cultivo de conhecimento, apesar de se orgulharem falsamente pensando que são avançadas em conhecimento material e espiritual.
O Śrī Īśopaniṣad nos adverte dessa espécie de educação imperfeita, e a Bhagavad-gītā nos instrui acerca de como desenvolver verdadeiro conhecimento. Este mantra afirma que, para obter instruções sobre vidyā (conhecimento), é preciso recorrer a um dhīra. Um dhīra é aquele que não se deixa perturbar pela ilusão material. Só não fica perturbado quem tem perfeita percepção espiritual, pois semelhante pessoa não tem ansiedade e não lamenta por nada. O dhīra compreende que o corpo e a mente materiais que ele acabou adquirindo através da associação material não passam de elementos alheios a ele, em virtude do que ele simplesmente tenta fazer o melhor uso de um mau negócio.
Para a entidade viva espiritual, o corpo e a mente materiais são um mau negócio. No mundo espiritual, a entidade viva executa suas verdadeiras atividades, mas este mundo material é morto. Enquanto as centelhas espirituais vivas estiverem manipulando os pedaços de matéria morta, o mundo morto parecerá um mundo vivo. Na verdade, são as almas vivas, as partes integrantes do ser vivo supremo, que põem o mundo em movimento. Os dhīras passaram a conhecer todos estes fatos depois de ouvirem as autoridades superiores e comprovaram este conhecimento por seguirem os princípios reguladores.
Para seguir os princípios reguladores, é preciso refugiar-se no mestre espiritual genuíno. O mestre espiritual transmite ao discípulo a mensagem transcendental e os princípios reguladores. Semelhante conhecimento não segue o caminho obscuro criado pela educação ignorante. Só pode tornar-se dhīra quem ouve com submissão o mestre espiritual genuíno. Arjuna, por exemplo, tornou-se dhīra ouvindo com submissão o Senhor Kṛṣṇa, a própria Personalidade de Deus. Portanto, o discípulo perfeito deve ser como Arjuna, e o mestre espiritual deve estar no mesmo nível que o próprio Senhor. Este é o processo para receber e compreender vidyā (conhecimento) de um dhīra (o indivíduo imperturbável).
O adhīra (alguém que não recebeu treinamento para tornar-se dhīra) não pode ser um líder instrutivo. Os políticos modernos, que se fazem passar por dhīras, na verdade são adhīras; por isso, ninguém pode esperar que tenham conhecimento perfeito. Estão apenas pensando no dinheiro que poderão ganhar. Nesse caso, como poderão dirigir o povo no caminho da perfeita autorrealização? Portanto, para conseguir verdadeira educação, deve-se ouvir submissamente o dhīra.
vidyāṁ cāvidyāṁ ca yas
tad vedobhayaḿ saha
avidyayā mṛtyuṁ tīrtvā
vidyayāmṛtam aśnute

Synonyms

vvidyāmverdadeiro conhecimento; cae; avidyāmignorância; cae; yaḥa pessoa que; tatisso; vedasabe; ubhayamambos; sahasimultaneamente; avidyayāpelo cultivo da ignorância; mṛtyummortes repetidas; tīrtvātranscendendo; vidyayāpelo cultivo do conhecimento; amṛtamimortalidade; aśnutegoza.

Translation

Só aquele que pode aprender simultaneamente os processos da ignorância e do conhecimento transcendental pode transcender a influência de repetidos nascimentos e mortes e usufruir a bênção completa da imortalidade.

Purport

O homem tenta, desde a criação do mundo material, conseguir uma vida permanente, mas a lei da natureza é tão cruel que ninguém consegue escapar das garras da morte. Ninguém quer morrer, tampouco alguém deseja envelhecer ou adoecer. Entretanto, a lei da natureza não deixa ninguém imune à velhice, doença ou morte. Tampouco o avanço do conhecimento material conseguiu solucionar esses problemas. A ciência material pode descobrir uma bomba nuclear que acelera o processo da morte, mas não pode descobrir nada que proteja o homem das garras cruéis da doença, da velhice e da morte.
Os Purāṇas narram as atividades de Hiraṇyakaśipu, um grande rei que obteve muito avanço material. Com suas conquistas materiais e com a força de sua ignorância, ele queria sobrepujar a morte cruel e, portanto, submeteu-se a uma meditação tão rigorosa que os habitantes de todos os sistemas planetários perturbaram-se com seus poderes sobrenaturais. Ele forçou o criador do universo, o semideus Brahmā, a vir ter com ele, quando então lhe pediu que o deixasse tornar-se amara, uma bênção que, quando recebida, faz com que a pessoa nunca mais morra. Brahmā disse que não lhe poderia conceder essa bênção porque mesmo ele, o criador material que governa todos os planetas, não é amara. Como confirma a Bhagavad-gītā (8.17), Brahmā tem uma vida muito longa, mas isso não quer dizer que ele seja imortal.
Hiraṇya significa “ouro”, e kaśipu significa “cama macia”. Esse astuto cavalheiro Hiraṇyakaśipu estava interessado nestas duas coisas — dinheiro e mulheres —, e queria desfrutar delas tornando-se imortal. Ele pediu a Brahmā muitas bênçãos, na esperança de indiretamente satisfazer seu desejo de tornar-se imortal. Como Brahmā lhe disse que não lhe poderia conceder o dom da imortalidade, Hiraṇyakaśipu pediu para não ser morto por nenhum homem, animal, deus ou qualquer outro ser vivo incluído nas oito milhões e quatrocentas mil espécies de vida. Também pediu para não ser morto na terra, no ar, na água, nem por nenhuma arma. Dessa maneira, Hiraṇyakaśipu ficou pensando que essas garantias o salvariam da morte. Entretanto, embora Brahmā lhe tenha concedido todas essas bênçãos, ele acabou sendo morto por Nṛsiṁha, que é a encarnação de Deus na forma metade leão e metade homem. Para matá-lo, não foi usada nenhuma arma, pois foi morto pelas unhas do Senhor. Tampouco morreu na terra, no ar ou na água, pois foi morto no colo desse maravilhoso ser vivo, Nṛsiṁha, que estava além de sua concepção.
O ponto em questão aqui é que, se nem mesmo Hiraṇyakaśipu, o mais poderoso dos materialistas, pôde tornar-se imortal através de seus vários planos, o que, então, poderão lograr os pequeninos Hiraṇyakaśipus de hoje em dia, cujos planos são frustrados a cada momento?
O Śrī Īśopaniṣad aconselha que não façamos esforços isolados para vencer a luta pela existência. Todos lutam arduamente pela existência, mas as leis da natureza são tão rígidas e rigorosas que não deixam ninguém superá-las. Para alcançar a vida permanente, é preciso preparar-se para voltar ao Supremo.
The process by which one goes back to Godhead is a different branch of knowledge, and it has to be learned from revealed Vedic scriptures such as the O processo para voltar ao Supremo é um ramo de conhecimento diferente, e é preciso aprendê-lo nas escrituras védicas reveladas, tais como os Upaniṣads, Vedānta-sūtra, Bhagavad-gītā e Śrīmad-Bhāgavatam. Para tornar-se feliz nesta vida e alcançar uma vida permanente e bem-aventurada após deixar este corpo material, a pessoa deve estudar essa literatura sagrada e obter conhecimento transcendente. O ser vivo condicionado se esqueceu de seu relacionamento eterno com Deus e vem erroneamente aceitando que o lugar temporário onde nasceu é tudo o que existe. Muito bondosamente, o Senhor transmitiu essas escrituras na Índia e outras escrituras em outros países para que o ser humano que vive no esquecimento se lembre que seu lar não é aqui neste mundo material. Sendo uma entidade espiritual, o ser vivo só poderá ser feliz quando retornar a seu lar espiritual.
De Seu reino, a Personalidade de Deus envia Seus servos genuínos para divulgar essa mensagem que habilita a pessoa a voltar ao Supremo, e às vezes o próprio Senhor vem executar essa tarefa. Como todos os seres vivos são Seus amados filhos, Suas partes integrantes, Deus, mais do que nós, fica compadecido ao ver o sofrimento a que constantemente submetemo-nos nesta condição material. As misérias deste mundo material servem indiretamente para nos ajudar a nos lembrar de nossa incompatibilidade com a matéria morta. Em geral, as entidades vivas inteligentes se dão conta desses avisos e se ocupam no cultivo de vidyā, ou conhecimento transcendental. A vida humana é uma oportunidade para o cultivo do conhecimento espiritual, e o ser humano que não aproveita essa oportunidade é chamado de narādhama, o mais baixo da humanidade.
O caminho de avidyā, ou o progresso em conhecimento material visando o gozo dos sentidos, é o caminho em que predominam repetidos nascimentos e mortes. Como tem existência espiritual, a entidade viva não nasce nem morre. Nascimento e morte aplicam-se à cobertura externa da alma espiritual, o corpo. A morte é comparada ao ato de tirar as roupas; nascimento é o ato de vesti-las. Os seres humanos tolos, estando absortos no cultivo de avidyā, ignorância, não se importam com esse processo cruel. Encantados com a beleza da energia ilusória, submetem-se às mesmas misérias repetidas vezes e não aprendem nenhuma lição com as leis da natureza.
Portanto, o cultivo de vidyā, o conhecimento transcendental, é essencial para o ser humano. Na condição material enferma, o gozo dos sentidos deve ter a máxima restrição possível. Nesta condição corpórea, o gozo sensorial irrestrito é o caminho da ignorância e da morte. O ser vivo não é desprovido de sentidos espirituais; em sua forma espiritual original, cada ser é dotado de todos os sentidos, que agora estão manifestados materialmente, cobertos pelo corpo e pela mente materiais. As atividades dos sentidos materiais são reflexos pervertidos das atividades dos sentidos espirituais originais. Em sua condição doentia, a alma espiritual ocupa-se em atividades materiais impostas pela cobertura material. O verdadeiro gozo dos sentidos só é possível quando se remove a doença do materialismo. Ele só é possível em nossa forma espiritual pura, livre de toda a contaminação material. Para que volte a desfrutar de verdadeiro prazer sensorial, o paciente deve recuperar sua saúde. Logo, o objetivo da vida humana não deve ser o gozo pervertido dos sentidos, mas, sim, a cura da doença material. O agravamento da doença material não é sinal de conhecimento, mas indício de avidyā, ignorância. Para gozar de saúde, uma pessoa que está com febre de quarenta graus não deve aumentá-la para quarenta e um graus, mas deve reduzi-la para o normal, que é trinta e sete graus. Esse deve ser o objetivo da vida humana. A tendência atual da civilização material é aumentar a temperatura de sua condição febril, que, sob a forma da energia atômica, atingiu quarenta e um graus. Enquanto isso, os políticos tolos exclamam que, a qualquer momento, o mundo pode ir para o inferno. É esse o resultado do avanço do conhecimento material e da negligência da parte mais importante da vida, o cultivo do conhecimento espiritual. Neste ponto, o Śrī Īśopaniṣad adverte que não devemos seguir esse caminho perigoso que conduz à morte. Pelo contrário, temos que desenvolver o cultivo de conhecimento espiritual para que nos livremos por completo das garras cruéis da morte.
Isso não significa que todas as atividades que servem para ajudar na manutenção do corpo devam ser interrompidas. Está fora de cogitação parar de agir, assim como está fora de cogitação eliminar completamente a temperatura corporal quando se tenta se recuperar de uma doença. “Tirar o melhor proveito de um mau negócio” é a expressão adequada. Para o cultivo do conhecimento espiritual, é necessária a ajuda do corpo e da mente; por isso, se quisermos alcançar nosso objetivo, se faz necessária a manutenção do corpo e da mente. O normal é que a temperatura fique nos trinta e sete graus, e os grandes sábios e santos da Índia tentaram mantê-la nesse nível, seguindo uma programação equilibrada entre os conhecimentos material e espiritual. Eles não permitem o desperdício da inteligência humana com o gozo doentio dos sentidos.
Sob os princípios da salvação, os Vedas regulam as atividades humanas contaminadas pela tendência ao gozo dos sentidos. Esse sistema emprega religião, desenvolvimento econômico, gozo dos sentidos e salvação. Porém, no momento atual, as pessoas não estão interessadas em religião ou salvação. Elas têm um único objetivo na vida — gozo dos sentidos — e, para alcançar essa meta, fazem planos de desenvolvimento econômico. Os homens desorientados pensam que se deve conservar a religião porque ela contribui para o desenvolvimento econômico, necessário para o gozo dos sentidos. Assim, para garantir que, após a morte, continue havendo gozo dos sentidos nos céus, observam-se certas práticas religiosas. Mas não é esse o propósito da religião. Na verdade, o caminho da religião serve para se alcançar a autorrealização, e o desenvolvimento econômico é necessário apenas para manter o corpo numa condição saudável. O homem deve levar uma vida saudável e ter uma mente sã para que possa compreender vidyā, verdadeiro conhecimento, porque é esse o verdadeiro objetivo da vida humana. Esta vida não foi feita para se trabalhar como um asno ou cultivar avidyā, que promove o gozo dos sentidos.
O caminho de vidyā é muito bem apresentado no Śrīmad-Bhāgavatam, o qual orienta o ser humano a utilizar sua vida em indagar acerca da Verdade Absoluta. A Verdade Absoluta é compreendida aos poucos. Primeiro como Brahman, depois Paramātmā e, por fim, Bhagavān, a Personalidade de Deus. Compreende a Verdade Absoluta o homem magnânimo que alcançou conhecimento e desapego, seguindo os dezoito princípios da Bhagavad-gītā descritos no significado do mantra dez. O objetivo maior desses dezoito princípios é alcançar o transcendental serviço devocional à Personalidade de Deus. Portanto, recomenda-se que todos os tipos de pessoas aprendam a arte do serviço devocional ao Senhor.
Em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu, que apresentamos traduzido como O Néctar da Devoção, Śrīla Rūpa Gosvāmī descreve o caminho que com toda a certeza conduz ao objetivo de vidyā. Além disso, o Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.14) resume o cultivo de vidyā com as seguintes palavras:
tasmād ekena manasā
bhagavān sātvatāṁ patiḥ
śrotavyaḥ kīrtitavyaś ca
dhyeyaḥ pūjyaś ca nityadā
“Portanto, com grande atenção, a pessoa deve constantemente glorificar, lembrar e adorar a Personalidade de Deus, e ouvir sobre Ele, pois Ele é o protetor dos devotos”.
A não ser que a religião, o desenvolvimento econômico e o gozo dos sentidos tenham como objetivo obter o serviço devocional ao Senhor, eles não deixam de ser formas diferentes de ignorância, como o Śrī Īśopaniad indica nos mantras seguintes.
andhaṁ tamaḥ praviśanti
ye ’sambhūtim upāsate
tato bhūya iva te tamo
ya u sambhūtyāḿ ratāḥ

Synonyms

andhamignorância; tamaḥescuridão; praviśantientram em; yeaqueles que; asambhūtimsemideuses; upāsateadoram; tataḥdo que isto; bhūyaḥainda mais; ivadessa maneira; teaqueles; tamaḥescuridão; yeque; utambém; sambhūtyāmno Absoluto; ratāḥocupados.

Translation

Aqueles que se ocupam na adoração aos semideuses entram na mais escura região da ignorância, e pior ainda é o destino reservado àqueles que adoram o Absoluto impessoal.

Purport

A palavra sânscrita asambhūti refere-se àqueles que não têm existência independente. Sambhūti é Deus, a Pessoa Suprema e Absoluta, que é completamente independente de tudo. Na Bhagavad-gītā (10.2), Śrī Kṛṣṇa afirma:
na me viduḥ sura-gaṇāḥ
prabhavaṁ na maharṣayaḥ
aham ādir hi devānāṁ
maharṣīṇāṁ ca sarvaśaḥ
“Nem as hostes de semideuses, nem os grandes sábios conhecem Minha origem ou opulências, pois, sob todos os aspectos, Eu sou a fonte dos semideuses e dos sábios”. Logo, Kṛṣṇa é a origem dos poderes outorgados aos semideuses, aos grandes sábios e aos místicos. Embora eles sejam dotados de grandes poderes, esses poderes são limitados, em virtude do que lhes é muito difícil saber como, através de Sua própria potência interna, Kṛṣṇa em pessoa aparece sob a forma humana.
Com seus minúsculos poderes cerebrais, muitos filósofos e grandes ṛṣis, ou místicos, tentam distinguir entre o Absoluto e o relativo. O ponto máximo ao qual eles podem chegar é a formulação de um conceito negativo sobre o Absoluto sem Lhe atribuir nenhum traço positivo. A definição do Absoluto através da negação não é completa. Essas definições negativas os levam a criar seus próprios conceitos, fazendo com que imaginem que o Absoluto não tem forma nem qualidades. Essas qualidades negativas são simples aspectos opostos encontrados nas qualidades materiais relativas e, portanto, também são relativas. Com essa concepção acerca do Absoluto, o ponto máximo que podemos alcançar é a refulgência impessoal de Deus, conhecida como Brahman, mas não progredimos para compreender Bhagavān, ou seja, Deus como a Pessoa Suprema.
Os especuladores mentais não sabem que Deus, a Pessoa Absoluta, é Kṛṣṇa, que o Brahman impessoal é a refulgência reluzente de Seu corpo transcendental e que o Paramātmā, a Superalma, é Sua representação plenária onipenetrante. Tampouco sabem que Kṛṣṇa tem uma forma eterna, cujas qualidades transcendentais são a bem-aventurança e o conhecimento eternos. Os semideuses e grandes sábios, que não têm existência independente de Deus, consideram erroneamente que Kṛṣṇa é um semideus poderoso e que a refulgência Brahman é a Verdade Absoluta. Mas os devotos de Kṛṣṇa, por força de sua rendição a Ele e de sua devoção imaculada, podem saber que Ele é a Pessoa Absoluta e que tudo emana dEle, o manancial de tudo. Tais devotos prestam-Lhe contínuo serviço amoroso.
Na Bhagavad-gītā (7.20,23), também se afirma que apenas as pessoas sem inteligência e confusas, impelidas por um forte desejo de gozo dos sentidos, adoram os semideuses como um meio de obter alívio transitório dos problemas temporários. Como tem envolvimentos materiais, o ser vivo precisa livrar-se de todo o cativeiro material para, então, alcançar alívio permanente no plano espiritual, onde há bem-aventurança, vida e conhecimento eternos. Portanto, o Śrī Īśopaniṣad instrui que não devemos buscar alívio temporário de nossas dificuldades adorando os semideuses, que, por serem dependentes, podem outorgar apenas benefícios temporários. É preferível adorarmos Deus, a Pessoa Absoluta, Kṛṣṇa, que é todo-atrativo e que pode nos livrar por completo do cativeiro material levando-nos de volta ao lar, de volta ao Supremo.
Afirma-se na Bhagavad-gītā (7.23) que os adoradores dos semideuses podem ir ao planeta dos semideuses. Os adoradores da lua podem ir à lua, os adoradores do sol, ao sol, e assim por diante. Com a ajuda de foguetes, os cientistas modernos estão se aventurando a ir à lua, mas, na verdade, isso não é um empreendimento novo. Os seres humanos, com sua consciência avançada, têm natural inclinação a viajar no espaço sideral e alcançar outros planetas — seja por meio de espaçonaves, poderes sobrenaturais ou adoração a semideuses. Nas escrituras védicas, afirma-se que é possível alcançar outros planetas por qualquer um desses três métodos, mas o método mais comum é a adoração ao semideus encarregado de um planeta específico. Dessa maneira, pode-se alcançar o planeta Lua, o planeta Sol e até mesmo Brahmaloka, o planeta mais elevado neste universo. Entretanto, todos os planetas no universo material são residências temporárias; os únicos planetas permanentes, os vaikuṇṭha-lokas, encontram-se no céu espiritual, onde Deus, a Pessoa Suprema, predomina. Como o Senhor Kṛṣṇa declara na Bhagavad-gītā (8.16):
ā-brahma-bhuvanāl lokāḥ
punar āvartino ’rjuna
mām upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate
“Partindo do planeta mais elevado do mundo material e indo até o mais baixo, todos são lugares de misérias, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança Minha morada, ó filho de Kuntī, nunca mais volta a nascer”.
O Śrī Īśopaniṣad assinala que todo aquele que adora os semideuses e alcança seus planetas materiais ainda permanece na mais escura região do universo. O universo inteiro está coberto pelos elementos materiais gigantescos, assim como um coco está coberto por sua casca com um pouco de água dentro. Como a cobertura é hermeticamente fechada, a escuridão interna é densa e, portanto, para que haja iluminação, precisa-se do sol e da lua. Externamente ao universo, está a vasta e ilimitada expansão brahmajyoti, cheia de vaikuṇṭha-lokas. No brahmajyoti, o planeta maior e mais elevado é Kṛṣṇaloka, ou Goloka Vṛndāvana, onde reside a Suprema Personalidade de Deus, o próprio Śrī Kṛṣṇa. O Senhor Śrī Kṛṣṇa jamais sai de Kṛṣṇaloka. Embora more lá com Seus associados eternos, Ele é onipresente em todas as manifestações cósmicas materiais e espirituais. Esse fato já foi explicado no mantra quatro. Tal qual o sol, o Senhor está presente em toda parte. Entretanto, Ele está em um único lugar, assim como o sol está situado em sua própria órbita inalterável.
Os problemas da vida não podem ser resolvidos com uma simples viagem à lua ou a algum outro planeta acima ou abaixo dela. Por isso, o Śrī Īśopaniṣad adverte que não percamos tempo buscando algum destino dentro deste universo material escuro, mas que tentemos sair dele para alcançar o refulgente reino de Deus. Há muitos pseudo-adoradores que, apenas em troca de nome e fama, tornam-se religiosos. Esses pseudo-religiosos não querem sair deste universo para alcançar o céu espiritual, pois tudo que desejam é se manterem bem posicionados no mundo material sob a aparência de estarem adorando o Senhor. Pregando o culto do ateísmo, os ateístas e os impersonalistas conduzem esses pseudo-religiosos tolos às regiões mais escuras. Os ateístas negam diretamente a existência de Deus, a Pessoa Suprema, e são apoiados pelos impersonalistas, que enfatizam o aspecto impessoal do Senhor Supremo. Até aqui, não encontramos nenhum mantra no Śrī Īśopaniṣad que negasse Deus como a Pessoa Suprema. Afirma-se que Ele pode correr mais rápido que qualquer um. Com certeza, aqueles que correm em busca de outros planetas são pessoas, e, se o Senhor pode correr mais rápido do que eles, como considerá-lO impessoal? A concepção impessoal acerca do Senhor Supremo é outra forma de ignorância, decorrente de uma concepção imperfeita acerca da Verdade Absoluta.
Os pseudo-religiosos ignorantes e os inventores de supostos adventos, violadores diretos dos preceitos védicos, são passíveis de entrar na região mais escura do universo porque enganam seus seguidores. Em geral, para os tolos que não conhecem a sabedoria védica, os impersonalistas fazem-se passar por adventos de Deus. Nas mãos desses enganadores, o conhecimento é mais perigoso do que a própria ignorância. Esses impersonalistas nem mesmo adoram os semideuses como recomendam as escrituras. As escrituras fazem recomendações para que se adorem os semideuses sob certas circunstâncias, mas, ao mesmo tempo, declaram que, normalmente, isso não é necessário. A Bhagavad-gītā (7.23) afirma claramente que os resultados obtidos da adoração aos semideuses não são permanentes. Como o universo material inteiro não é permanente, tudo o que se consegue dentro da escuridão da existência material também é impermanente. O ponto em questão consiste em obter verdadeira vida permanente.
O Senhor declara que logo que O alcançamos através do serviço devocional — o meio único e exclusivo para aproximarmo-nos da Personalidade de Deus — libertamo-nos por completo do cativeiro de nascimentos e mortes. Em outras palavras, o caminho no qual alguém se salva das garras da matéria depende inteiramente dos princípios de conhecimento e desapego obtidos no serviço ao Senhor. Os pseudo-religiosos não têm conhecimento nem desapego dos afazeres materiais, pois a maioria deles quer viver nos grilhões dourados do cativeiro material, à sombra de atividades filantrópicas disfarçadas de princípios religiosos. Exibindo falsos sentimentos religiosos, eles dão um espetáculo de serviço devocional e se fazem passar por mestres espirituais e devotos de Deus, embora se entreguem a toda sorte de atividades imorais. Esses violadores dos princípios religiosos não respeitam os ācāryas autorizados, os preceptores santos que estão na estrita sucessão discipular. Eles ignoram o ācāryopāsana, o princípio védico segundo o qual todos devem adorar o ācārya, e não dão nenhuma importância ao fato de que, na Bhagavad-gītā (4.2), Kṛṣṇa afirma que evaṁ paramparā-prāptam: “Essa ciência suprema de Deus é recebida através da sucessão discipular”. Ao contrário, para enganar as pessoas em geral, eles próprios se tornam pretensos ācāryas, embora nem mesmo sigam os princípios em que se baseia a vida do ācārya.
Esses canalhas são os elementos mais perigosos da sociedade humana. Como não há governo religioso, a lei do Estado não lhes aplica nenhuma punição. Entretanto, não podem escapar da lei do Supremo, que, na Bhagavad-gītā, afirma claramente que os demônios invejosos disfarçados de propagandistas religiosos serão atirados nas regiões mais escuras do inferno (Bhagavad-gītā 16.19-20). O Śrī Īśopaniṣad confirma que esses assim chamados religiosos, após concluírem suas atividades de mestres espirituais, irão aos lugares mais repulsivos do universo, pois o verdadeiro objetivo deles é o gozo dos sentidos.
anyad evāhuḥ sambhavād
anyad āhur asambhavāt
iti śuśruma dhīrāṇāṁ
ye nas tad vicacakṣire

Synonyms

anyatdiferente; evadecerto; āhuḥestá dito; sambhavātadorando o Senhor Supremo, a causa de todas as causas; anyatdiferente; āhuḥestá dito; asambhavātadorando o que não é o Supremo; itiassim; śuśrumaeu ouvi isto; dhīrāṇāmdas autoridades imperturbáveis; yeque; naḥnós; tatsobre este assunto; vicacakṣireexplicaram perfeitamente.

Translation

Está declarado que se obtém um resultado adorando a suprema causa de todas as causas e outro resultado adorando o que não é supremo. Tudo isso foi falado pelas autoridades imperturbáveis, que deram sobre este assunto uma explicação clara.

Purport

Este mantra aprova o processo de se ouvir de autoridades imperturbadas. Quem não ouve o ācārya fidedigno, que jamais se deixa perturbar pelas mudanças existentes no mundo material, não pode ter verdadeiro acesso ao conhecimento transcendente. O mestre espiritual genuíno, que também ouviu seu ācārya imperturbado falar os śruti-mantras, ou o conhecimento védico, jamais apresenta algo que não esteja mencionado na literatura védica. Na Bhagavad-gītā (9.25), afirma-se claramente que aqueles que adoram os pitṛs, ou antepassados, alcançam os planetas dos antepassados; que os materialistas grosseiros que planejam ficar aqui permanecem neste mundo; e que os devotos do Senhor, que adoram apenas o Senhor Kṛṣṇa, a suprema causa de todas as causas, O alcançam no céu espiritual. Também aqui, no Śrī Īśopaniṣad, comprova-se que, através de diferentes modos de adoração, obtêm-se resultados diferentes. Se adorarmos o Senhor Supremo, com certeza O alcançaremos em Sua morada eterna, e, se adorarmos os semideuses, como o deus do sol ou o deus da lua, poderemos sem dúvida alguma atingir seus respectivos planetas. E com certeza também poderemos ficar neste planeta ignóbil com nossas comissões de planejamento e ajustes políticos provisórios se assim desejarmos.
Em nenhuma passagem das escrituras autênticas afirma-se que alguém acabará alcançando a mesma meta fazendo qualquer coisa ou adorando qualquer um. Somente os “mestres” autofabricados oferecem essas teorias tolas, totalmente desvinculados do paramparā, que é o sistema genuíno de sucessão discipular. O mestre espiritual genuíno não pode dizer que todos os caminhos levam ao mesmo objetivo e que, através de seu próprio processo de adoração aos semideuses ou ao Supremo ou a quem seja, qualquer um pode alcançar esse objetivo. É muito fácil o homem comum compreender que só se pode chegar a um determinado destino comprando uma passagem para esse destino. Aquele que comprar uma passagem para Calcutá poderá chegar a Calcutá, mas não a Bombaim. Porém, os supostos mestres espirituais dizem que todos os caminhos levam-nos à meta suprema. Essas ofertas mundanas e comprometedoras atraem muitas criaturas tolas, que se envaidecem com seus métodos inventados de desenvolvimento espiritual. No entanto, as instruções védicas não as apoiam. Enquanto não recebermos o conhecimento transmitido pelo mestre espiritual genuíno que está na linha de sucessão discipular autorizada, não poderemos captar o verdadeiro sentido das coisas. Kṛṣṇa diz a Arjuna na Bhagavad-gītā (4.2):
evaṁ paramparā-prāptam
imaṁ rājarṣayo viduḥ
sa kāleneha mahatā
yogo naṣṭaḥ parantapa
“Esta ciência suprema foi então recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na dessa maneira. Porém, com o passar do tempo, a sucessão foi interrompida, e, portanto, a ciência como ela é parece ter se perdido”.
Quando o Senhor Śrī Kṛṣṇa esteve presente nesta Terra, os princípios de bhakti-yoga definidos na Bhagavad-gītā tinham sido distorcidos. Por isso, foi preciso que o Senhor restabelecesse o sistema discipular, começando com Arjuna, Seu amigo e devoto mais confidencial. O Senhor disse claramente a Arjuna (Bhagavad-gītā 4.3) que, porque ele era Seu devoto e amigo, os princípios contidos na Bhagavad-gītā seriam facilmente compreensíveis a ele. Em outras palavras, somente o devoto e amigo do Senhor pode compreender a Gītā. O que também significa que só é possível compreender a Bhagavad-gītā seguindo o caminho trilhado por Arjuna.
No momento atual, há muitos intérpretes e tradutores desse diálogo sublime que não dão a menor importância ao Senhor Kṛṣṇa e a Arjuna. Esses intérpretes explicam os versos da Bhagavad-gītā à sua própria maneira e, em nome da Gītā, formulam todas as espécies de disparates. Esses intérpretes não acreditam nem em Śrī Kṛṣṇa nem em Sua morada eterna. Como, então, podem explicar a Bhagavad-gītā?
Kṛṣṇa diz claramente que apenas aqueles que perderam o juízo prestam aos semideuses adoração em troca de uma mísera recompensa (Bhagavad-gītā 7.20-23). Em última análise, Ele aconselha que abandonemos todos os métodos e processos de adoração e rendamo-nos única e exclusivamente a Ele (Bhagavad-gītā 18.66). Apenas aqueles que se purificaram de todas as reações pecaminosas podem depositar no Senhor Supremo essa fé inabalável. Outros continuarão pairando na plataforma material com seus processos mesquinhos de adoração e, então, se desviarão do verdadeiro caminho, deixando-se conduzir pela ideia de que todos os caminhos levam ao mesmo objetivo.
Neste mantra do Śrī Īśopaniṣad, a palavra sambhavāt, “através da adoração à causa suprema”, é deveras significativa. O Senhor Kṛṣṇa é a Personalidade de Deus original, e tudo o que existe emana dEle. Na Bhagavad-gītā (10.8), o Senhor diz:
ahaṁ sarvasya prabhavo
mattaḥ sarvaṁ pravartate
iti matvā bhajante māṁ
budhā bhāva-samanvitāḥ
“Eu sou a fonte de todos os mundos, materiais e espirituais. Tudo emana de Mim. Os sábios que reconhecem isso perfeitamente ocupam-se em Meu serviço devocional e adoram-Me de todo o coração”.
Eis uma descrição correta do Senhor Supremo feita pelo próprio Senhor. As palavras sarvasya prabhavaḥ indicam que Kṛṣṇa é o criador de tudo, incluindo Brahmā, Viṣṇu e Śiva. E como essas três principais deidades do mundo material são criadas pelo Senhor, o Senhor é o criador de tudo o que existe nos mundos materiais e espirituais. De modo semelhante, no Atharva Veda (Gopāla-tāpanī Upaniṣad 1.24), afirma-se: “Aquele que existia antes da criação de Brahmā e que iluminou Brahmā com o conhecimento védico é o Senhor Śrī Kṛṣṇa”. Igualmente, no Nārāyaṇa Upaniṣad (1), afirma-se: “A Pessoa Suprema desejou criar todos os seres vivos. Assim, Brahmā nasceu de Nārāyaṇa. Nārāyaṇa criou todos os prajāpatis. Nārāyaṇa criou Indra. Nārāyaṇa criou os oito vasus. Nārāyaṇa criou todos os onze rudras. Nārāyaṇa criou os doze ādityas”. Como Nārāyaṇa é uma manifestação plenária do Senhor Kṛṣṇa, Nārāyaṇa e Kṛṣṇa são a mesmíssima coisa. O Nārāyaṇa Upaniṣad (4) também afirma: “O filho de Devakī (Kṛṣṇa) é o Senhor Supremo”. A identidade de Nārāyaṇa com a suprema causa também foi aceita e confirmada por Śrīpāda Śaṅkarācārya, muito embora ele não pertença ao culto vaiṣṇava, ou personalista. O Atharva Veda (Mahā Upaniṣad) também afirma: “Apenas Nārāyaṇa existia no começo, quando nem Brahmā, Śiva, o fogo, a água, as estrelas, o sol ou a lua existiam. O Senhor não fica sozinho, mas cria o que quer que deseje”. O próprio Kṛṣṇa afirma no Mokṣa-dharma: “Eu criei os prajāpatis e os rudras. Eles não têm completo conhecimento a Meu respeito porque estão cobertos por Minha energia ilusória”. Também se afirma no Varāha Purāṇa: “Nārāyaṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e dEle manifestou-se o Brahmā de quatro cabeças, bem como Rudra, que depois se tornou onisciente”.
Assim, toda a literatura védica confirma que Nārāyaṇa, ou Kṛṣṇa, é a causa de todas as causas. Na Brahma-saṁhitā (5.1), também se afirma que o Senhor Supremo é Śrī Kṛṣṇa, Govinda, a alegria de todo ser vivo e a causa primordial de todas as causas. Aqueles com verdadeira erudição obtêm esse conhecimento, seguindo a evidência dada pelos grandes sábios e pelos Vedas, e por isso decidem adorar o Senhor Kṛṣṇa como tudo o que existe. Eles são chamados budhas, ou realmente eruditos, porque adoram somente Kṛṣṇa.
Ao ouvirmos com fé e amor a mensagem transcendental transmitida pelo ācārya imperturbado, desenvolvemos a convicção de que Kṛṣṇa é tudo o que existe. Quem não tem fé no Senhor Kṛṣṇa, nem sente amor por Ele, não pode se convencer dessa verdade simples. A Bhagavad-gītā (9.11) descreve os infiéis como mūḍhas — tolos ou asnos. Afirma-se que os mūḍhas zombam da Pessoa Suprema porque não receberam do ācārya imperturbado o conhecimento completo. Quem se deixa perturbar pelo redemoinho da energia material não está qualificado para tornar-se um ācārya.
Antes de ouvir a Bhagavad-gītā, Arjuna estava perturbado pelo redemoinho material, por causa de sua afeição à família, sociedade e comunidade. Assim, Arjuna queria se tornar um filantropo, adepto da não-violência neste mundo. Todavia, após ouvir a Pessoa Suprema transmitir o conhecimento védico contido na Bhagavad-gītā, ele tornou-se um budha, mudando sua decisão e passando a adorar o Senhor Śrī Kṛṣṇa, que pessoalmente planejara a batalha de Kurukṣetra. Lutando contra seus supostos parentes, Arjuna adorou o Senhor, tornando-se, então, Seu devoto puro. Essa compreensão só é possível quando se adora o verdadeiro Kṛṣṇa, e não algum “Kṛṣṇa” fabricado e inventado por homens tolos que não conhecem as complexidades da ciência de Kṛṣṇa descrita na Bhagavad-gītā e no Śrīmad-Bhāgavatam.
De acordo com o Vedānta-sūtra, sambhūta é a fonte do nascimento e do sustento, bem como o reservatório que permanece após a aniquilação (janmādy asya yataḥ). O Śrīmad-Bhāgavatam, a obra em que o mesmo autor tece um comentário natural ao Vedānta-sūtra, afirma que a fonte de todas as emanações não é uma pedra morta, mas é abhijña, plenamente consciente. Kṛṣṇa, o Senhor Primordial, também afirma na Bhagavad-gītā (7.26) que Ele tem pleno conhecimento sobre o passado, o presente e o futuro e que ninguém, nem mesmo semideuses tais como Śiva e Brahmā, conhece-O por completo. Com certeza, “líderes espirituais” semi-educados, que se deixam perturbar pelo fluxo da existência material, não podem conhecê-lO na íntegra. Eles tentam se comprometer, fazendo da massa de gente o objeto de adoração, mas não sabem que essa adoração é apenas um mito, porque as massas são imperfeitas. A tentativa desses supostos líderes espirituais é parecida com o ato de a pessoa derramar água nas folhas de uma árvore ao invés de regar a raiz. O processo natural consiste em regar a raiz, mas esses líderes perturbados sentem-se mais atraídos às folhas do que à raiz. Entretanto, mesmo que continuem perpetuamente jogando água nas folhas, tudo secará por falta de nutrição.
O Śrī Īśopaniṣad aconselha-nos a regar a raiz, a fonte germinadora. A adoração à massa humana, prestando-lhe serviço físico, que jamais pode ser perfeito, é menos importante que o serviço à alma. A alma é a raiz que produz diferentes espécies de corpos que lhe são impostos pelas leis do karma. Prestar serviço aos seres humanos, dando-lhes auxílio médico, assistência social e condições educacionais favoráveis e, ao mesmo tempo, cortando o pescoço de pobres animais em matadouros não é, em hipótese alguma, um serviço prestado à alma, o ser vivo.
O ser vivo sofre perpetuamente as misérias materiais existentes sob a forma de nascimento, velhice, doença e morte em diferentes tipos de corpos. A forma de vida humana é uma oportunidade para se sair deste enredamento, bastando restabelecer a relação com o Senhor Supremo. O Senhor vem pessoalmente ensinar essa filosofia, que consiste na rendição ao Supremo, o sambhūta. Ao ensinar a rendição e a adoração ao Senhor Supremo com amor e energia totais, a pessoa presta verdadeiro serviço à humanidade. É essa a instrução contida neste mantra do Śrī Īśopaniṣad.
Nesta era conturbada, a maneira mais simples de adorar o Senhor Supremo é ouvir e cantar Suas grandes atividades. Mas os especuladores mentais, que pensam que as atividades do Senhor são imaginárias, procuram não as ouvir e, para desviar a atenção das massas inocentes, inventam algum jogo de palavras disparatado. Ao invés de ouvirem sobre as atividades do Senhor Kṛṣṇa, esses falsos mestres espirituais promovem a si mesmos, induzindo seus seguidores a glorificá-los. Nos tempos atuais, o número desses farsantes sofreu um considerável aumento, dificultando as atividades dos devotos puros do Senhor, que querem impedir que as massas caiam vítimas dessas propagandas profanas fomentadas por esses farsantes e pseudo-avatāras.
TEnquanto os Upaniṣads dirigem nossa atenção para o Senhor Kṛṣṇa, o Senhor primordial, de uma maneira indireta, a Bhagavad-gītā, que é o resumo de todos os Upaniṣads, assinala diretamente Śrī Kṛṣṇa. Portanto, devemos recorrer à Bhagavad-gītā ou ao Śrīmad-Bhāgavatam para deles ouvirmos sobre como Kṛṣṇa é. Desse modo, a mente aos poucos se purifica de todas as contaminações. O Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.17) diz: “Ouvindo sobre as atividades do Senhor, o devoto chama a atenção do Senhor. Assim, o Senhor, estando situado no coração de todo ser vivo, ajuda o devoto dando-lhe as devidas orientações”. A Bhagavad-gītā (10.10) também confirma isso: dadāmi buddhi-yogaṁ taṁ yena mām upayānti te.
A orientação que o Senhor transmite internamente limpa do coração do devoto toda a contaminação produzida pelos modos da paixão e da ignorância. Os não-devotos estão sob a influência da paixão e da ignorância. Quem está em paixão não pode desapegar-se do anseio material, e quem está em ignorância não pode saber o que ele é ou o que é o Senhor. Logo, quando alguém está em paixão ou ignorância, não há nenhuma oportunidade de ele atingir a autorrealização, por mais que possa representar o papel de religioso. Pela graça do Senhor, o devoto livra-se dos modos da paixão e da ignorância, situando-se, então, na qualidade da bondade, sinal de um brāhmaṇa perfeito. Todos que seguirem o caminho do serviço devocional, sob a orientação do mestre espiritual genuíno, poderão qualificar-se como brāhmaṇas. O Śrīmad-Bhāgavatam (2.4.18) também diz:
kirāta-hūṇāndhra-pulinda-pulkaśā
ābhīra-śumbhā yavanāḥ khasādayaḥ
ye ’nye ca pāpā yad-apāśrayāśrayāḥ
śudhyanti tasmai prabhaviṣṇave namaḥ
Através da orientação de um devoto puro do Senhor, qualquer pessoa de nascimento inferior pode purificar-se, pois o Senhor tem poderes extraordinários.
Ao obter qualificações bramânicas, a pessoa fica feliz e sente entusiasmo para prestar serviço devocional ao Senhor. Para ela, a ciência de Deus se desvenda de modo automático. Conhecendo essa ciência, ela aos poucos se livra dos apegos materiais, e sua mente, que antes vivia imersa em dúvidas, torna-se clara e cristalina. Isto se dá pela graça do Senhor Supremo. Quem atinge esta etapa é uma alma liberada e pode ver o Senhor a cada passo da vida. Esta é a perfeição de sambhava, como descreve este mantra do Śrī Īśopaniad.
sambhūtiṁ ca vināśaṁ ca
yas tad vedobhayaḿ saha
vināśena mṛtyuṁ tīrtvā
sambhūtyāmṛtam aśnute

Synonyms

sambhūtima eterna Personalidade de Deus, Seu nome, forma, passatempos, qualidades e parafernália transcendentais, a variedade que há em Sua morada, etc.; cae; vināśama temporária manifestação material de semideuses, homens, animais, etc., com seus falsos nomes, fama, etc.; catambém; yaḥaquele que; tatisto; vedaconhece; ubhayamambos; sahajuntamente com; vināśenacom todas as coisas suscetíveis à destruição; mṛtyummorte; tīrtvāsuperando; sambhūtyāno reino eterno de Deus; amṛtamimortalidade; aśnutedesfruta.

Translation

É dever do homem conhecer perfeitamente a Personalidade de Deus e Seu nome transcendental, bem como a criação material temporária com seus semideuses, homens e animais temporários. Ao adquirir este conhecimento, ele supera a morte e deixa de se sujeitar à manifestação cósmica efêmera. No reino eterno de Deus, ele desfruta vida eterna, plena de bem-aventurança e conhecimento.

Purport

Com seu aparente avanço de conhecimento, a civilização humana criou muitas coisas materiais, incluindo espaçonaves e a energia atômica. Entretanto, não conseguiu criar uma situação em que as pessoas deixem de morrer, voltar a nascer, envelhecer ou adoecer. Sempre que um homem inteligente apresenta ao suposto cientista uma pergunta a respeito dessas misérias, o cientista responde com muita argúcia que a ciência material está progredindo e que, algum dia, será possível ao homem tornar-se imortal, jovem e saudável. Essas respostas provam sua crassa ignorância a respeito da natureza material. Na natureza, todos estão sob as estritas leis da matéria e devem passar por seis fases de existência: nascimento, crescimento, manutenção, criação de subprodutos, deterioração e, enfim, a morte. Ninguém que esteja em contato com a natureza material pode estar imune a essas seis leis da transformação; portanto, ninguém — semideus, homem, animal ou planta — pode sobreviver para sempre no mundo material.
A duração de vida varia segundo as espécies. O senhor Brahmā, o principal ser vivo deste universo material, vive milhões e milhões de anos, enquanto um germe diminuto vive apenas algumas horas. No mundo material, contudo, ninguém pode sobreviver eternamente. Os seres nascem e são criados sob certas condições, permanecem por algum tempo e, se continuarem a viver, crescem, procriam, degeneram aos poucos e, por fim, desaparecem. De acordo com essas leis, até os milhões de Brahmās que existem nos diferentes universos estão sujeitos a morrer hoje ou amanhã. Portanto, o universo material inteiro é chamado de Martyaloka, o lugar onde há morte.
Os cientistas e políticos materialistas tentam fazer daqui um lugar imortal porque não têm informações sobre a natureza espiritual imortal. Isto se deve ao fato de eles não conhecerem a literatura védica, que contém conhecimento pleno, confirmado pela experiência transcendental madura. Infelizmente, o homem moderno não se interessa em receber o conhecimento contido nos Vedas, Purāṇas e outras escrituras.
O Viṣṇu-Purāṇa (6.7.61) nos dá a seguinte informação:
viṣṇu-śaktiḥ parā proktā
kṣetrajñākhyā tathā parā
avidyā-karma-saṁjñānyā
tṛtīyā śaktir iṣyate
O Senhor Viṣṇu, a Personalidade de Deus, possui diferentes energias, conhecidas como parā (superior) e aparā (inferior). As entidades vivas pertencem à energia superior. A energia material, na qual estamos atualmente enredados, é a energia inferior. Esta energia, que cobre as entidades vivas com ignorância (avidyā) e que as induz a executar atividades fruitivas, possibilita o aparecimento da criação material. No entanto, existe outra parte da energia superior do Senhor que é diferente das entidades vivas e desta energia material inferior. Essa energia superior constitui a morada eterna e imortal do Senhor. Confirma isso a Bhagavad-gītā (8.20):
paras tasmāt tu bhāvo ’nyo
’vyakto ’vyaktāt sanātanaḥ
yaḥ sa sarveṣu bhūteṣu
naśyatsu na vinaśyati
Todos os planetas materiais — superiores, inferiores e intermediários, incluindo o Sol, a Lua e Vênus — estão espalhados pelo universo. Esses planetas existem apenas durante a vida de Brahmā. Entretanto, alguns planetas inferiores são aniquilados ao fim de um dia de Brahmā, e voltam a ser criados no próximo dia de Brahmā. Nos planetas superiores, o tempo tem um cálculo diferente. Em muitos dos planetas superiores, um de nossos anos equivale a apenas 24 horas, ou a um dia e uma noite. De acordo com a escala de tempo dos planetas superiores, as quatro eras da Terra (Satya, Tretā, Dvāpara e Kali) duram apenas 12 mil anos. Essa duração de tempo multiplicada por mil representa um dia de Brahmā, e sua noite tem a mesma duração. Esses dias e noites formam meses e anos, e Brahmā vive cem desses anos, ao fim dos quais toda a manifestação universal é aniquilada.
Durante a noite de Brahmā, todos os seres vivos que residem nos planetas superiores (como o Sol e a Lua), bem como aqueles que estão em Martyaloka (este planeta Terra), e também aqueles que vivem nos planetas inferiores, submergem-se nas águas da devastação. Durante esse período, nenhum ser vivo de nenhuma espécie permanece manifesto, embora continue a existir espiritualmente. Essa fase imanifesta chama-se avyakta. Posteriormente, quando todo o universo é destruído ao final da vida de Brahmā, há outro estado avyakta. Entretanto, além desses dois estados imanifestos, há outro estado imanifesto, que é a atmosfera ou natureza espiritual. Nessa atmosfera, há um grande número de planetas espirituais, e esses planetas existem eternamente, mesmo quando todos os planetas deste universo material são aniquilados ao final da vida de Brahmā. Existem muitos universos materiais, e cada um deles está sob a jurisdição de um Brahmā, e esta manifestação cósmica dentro da jurisdição de vários Brahmās representa apenas um quarto da energia do Senhor (ekapād-vibhūti). Esta é a energia inferior. A natureza espiritual, que se chama tripād-vibhūti, que representa três quartos da energia do Senhor, ultrapassa a jurisdição de Brahmā. Essa é a energia superior, ou parā-prakṛti.
O Senhor Śrī Kṛṣṇa é a pessoa suprema dominante que habita dentro da natureza espiritual. Como a Bhagavad-gītā (8.22) confirma, só podemos nos aproximar dEle através do serviço devocional imaculado, e não através do processo de jñāna (filosofia), yoga (misticismo) ou karma (atividades fruitivas). Os karmīs, ou trabalhadores fruitivos, podem elevar-se aos planetas Svargaloka, que incluem o Sol e a Lua. Os jñānīs e yogīs podem alcançar planetas mais elevados, tais como Maharloka, Tapoloka e Brahmaloka, e, quando aumentam suas qualidades através do serviço devocional, podem ingressar na natureza espiritual, ou na iluminada atmosfera cósmica do céu espiritual (Brahman) ou nos planetas Vaikuṇṭha, de acordo com as qualificações adquiridas. No entanto, é certo que, sem estar treinado no serviço devocional, ninguém pode ingressar nos planetas espirituais Vaikuṇṭha.
Todos os seres nos planetas materiais, desde Brahmā até a formiga, tentam assenhorear-se da natureza material, e isso caracteriza a doença material. Enquanto persistir a doença material, a entidade viva terá de submeter-se ao processo de mudança corpórea. Qualquer que seja a forma que aceite — homem, semideus ou animal — ela, por fim, terá de sujeitar-se a uma condição imanifesta durante as duas devastações: a devastação durante a noite de Brahmā e a devastação ao final da vida de Brahmā. Se quisermos colocar um fim a este processo de repetidos nascimentos e mortes, eliminando os fatores concomitantes, velhice e doença, devemos tentar ingressar nos planetas espirituais, onde poderemos viver eternamente na associação do Senhor Kṛṣṇa ou de Suas expansões plenárias (as formas de Nārāyaṇa). O Senhor Kṛṣṇa ou Suas expansões plenárias dominam cada um desses inumeráveis planetas, fato este confirmado nos śruti-mantras: eko vaśī sarva-gaḥ kṛṣṇa īḍyaḥ/ eko ’pi san bahudhā ’vabhāti. (Gopāla-tāpanī Upaniṣad 1.3.21)
Ninguém pode dominar Kṛṣṇa. A alma condicionada tenta dominar a natureza material e, ao invés disso, submete-se às leis da natureza material e aos sofrimentos que lhe são impostos através de repetidos nascimentos e mortes. O Senhor vem aqui para estabelecer os princípios da religião, e o princípio básico consiste em desenvolver uma atitude de serviço a Ele. Esta é a última instrução que o Senhor apresenta na Bhagavad-gītā (18.66), sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja: “Abandona todos os outros processos e renda-te apenas a Mim”. Infelizmente, homens tolos deturparam esse ensinamento primordial e desencaminharam as massas de diversas maneiras. As pessoas são instadas a abrirem hospitais, mas não a se educarem para que, através do serviço devocional, ingressem no mundo espiritual. São instruídas a se interessarem apenas por atividades assistenciais temporárias, as quais nunca proporcionarão verdadeira paz. Fundam uma grande variedade de instituições públicas e semigovernamentais para tentarem lidar com o devastador poder da natureza, mas não sabem como apaziguar a intransponível natureza. Muitos homens se apresentam como grandes estudiosos da Bhagavad-gītā, mas deixam passar despercebida a mensagem ali contida, através da qual se pode apaziguar a natureza material. Poderosa, a natureza só pode ser apaziguada quando há consciência de Deus, como a Bhagavad-gītā (7.14) assinala claramente.
Neste mantra, o Śrī Īśopaniṣad ensina que é preciso ter perfeito conhecimento simultâneo acerca do sambhūti (a Personalidade de Deus) e vināśa (a manifestação material temporária). Conhecendo apenas a manifestação material, ninguém pode salvar-se, pois, no transcurso da natureza, há devastação a cada momento (ahany ahani bhūtāni gacchantīha yamā-layam). Tampouco pode alguém salvar-se dessas devastações abrindo hospitais. Só pode salvar-se quem conhece por completo a vida eterna, plena de bem-aventurança e percepção. Todo o esquema védico serve para educar as pessoas nesta arte de alcançar vida eterna. As pessoas frequentemente se deixam iludir por atrativos temporários, baseados no gozo dos sentidos, mas o serviço prestado aos objetos dos sentidos é ilusório e degradante.
Portanto, devemos dar a nós mesmos e a nossos semelhantes a salvação correta. Não se trata de gostar ou desgostar da verdade. Ela existe. E se quisermos nos salvar dos repetidos nascimentos e mortes, devemos adotar o serviço devocional ao Senhor. Não pode haver concessão alguma, pois é uma questão de necessidade.
hiraṇmayena pātreṇa
satyasyāpihitaṁ mukham
tat tvaṁ pūṣann apāvṛṇu
satya-dharmāya dṛṣṭaye

Synonyms

hiraṇmayenapela refulgência dourada; pātreṇapor uma cobertura deslumbrante; satyasyada Verdade Suprema; apihitamcoberto; mukhamrosto; tatessa cobertura; tvamEle mesmo; pūṣanó sustentador; apāvṛṇupor favor, remove; satyapuro; dharmāyaao devoto; dṛṣṭayepara mostrar.

Translation

Ó meu Senhor, sustentador de tudo o que vive, o Teu rosto verdadeiro está coberto por Tua refulgência deslumbrante. Por favor, remove essa cobertura e manifesta-Te ao Teu devoto puro.

Purport

Na Bhagavad-gītā (14.27), o Senhor faz a seguinte explicação a respeito de Seus raios pessoais (brahmajyoti), a refulgência deslumbrante de Sua forma pessoal:
brahmaṇo hi pratiṣṭhāham
amṛtasyāvyayasya ca
śāśvatasya ca dharmasya
sukhasyaikāntikasya ca
“Eu sou a base do Brahman impessoal, que é imortal, imperecível e eterno e é a posição constitucional da felicidade última”.

Brahman, Paramātmā e Bhagavān são três aspectos da mesma Verdade Absoluta. Brahman é o aspecto mais facilmente percebido pelo iniciante. Quem progride ainda mais compreende Paramātmā, a Superalma. Por fim, visualizar Bhagavān é a percepção última acerca da Verdade Absoluta. Confirma isso a Bhagavad-gītā (7.7), onde o Senhor Kṛṣṇa diz que Ele é o conceito último acerca da Verdade Absoluta: mattaḥ parataraṁ nānyat. Portanto, Kṛṣṇa é a fonte do brahmajyoti e do Paramātmā onipenetrante. Em uma passagem posterior da Bhagavad-gītā (10.42), Kṛṣṇa continua Sua explicação:
atha vā bahunaitena
kiṁ jñātena tavārjuna
viṣṭabhyāham idaṁ kṛtsnam
ekāṁśena sthito jagat
“Mas qual a necessidade, Arjuna, de todo esse conhecimento minucioso? Com um simples fragmento de Mim mesmo, Eu penetro e sustento todo este universo”. Assim, com uma única porção plenária Sua, o Paramātmā onipenetrante, o Senhor mantém toda a criação material cósmica. Ele também mantém todas as manifestações existentes no mundo espiritual. Portanto, neste śruti-mantra do Śrī Īśopaniṣad, o Senhor é chamado de pūṣan, o mantenedor último.
Kṛṣṇa, a Pessoa Suprema, está sempre repleto de bem-aventurança transcendental (ānanda-mayo ’bhyāsāt). Desde o começo de Seus passatempos infantis em Vṛndāvana, Índia, há cinco mil anos, Kṛṣṇa sempre permaneceu em bem-aventurança transcendental. Matar vários demônios — tais como Agha, Baka, Pūtanā e Pralamba — foi para Ele uma simples recreação agradável. No Seu vilarejo, Vṛndāvana, Ele divertiu-Se com Sua mãe, irmão e amigos, e, ao agir como um travesso ladrão de manteiga, o roubo causou em Seus associados uma bem-aventurança celestial. Sua fama como ladrão de manteiga não é censurável, pois, roubando manteiga, o Senhor alegrou Seus devotos puros. Tudo o que o Senhor fazia em Vṛndāvana era para o prazer de Seus associados que estavam lá. O Senhor criou esses passatempos para atrair os que querem encontrar a Verdade Absoluta, tais como os especuladores áridos e os acrobatas do suposto sistema de haṭha-yoga.
A respeito das diversões infantis do Senhor e dos vaqueirinhos, Seus companheiros de folguedos, Śukadeva Gosvāmī diz no Śrīmad-Bhāgavatam (10.12.11):
itthaṁ satāṁ brahma-sukhānubhūtyā
dāsyaṁ gatānāṁ para-daivatena
māyāśritānāṁ nara-dārakeṇa
sākaṁ vijahruḥ kṛta-puṇya-puñjāḥ
“A Personalidade de Deus, que os jñānīs percebem como o bem-aventurado Brahman impessoal; que os devotos que adotaram a atitude de servos adoram como o Senhor Supremo, e que as pessoas mundanas consideram um ser humano comum, divertia-Se com os vaqueirinhos, que alcançaram sua posição após acumularem os resultados de muitas atividades piedosas”.
Assim, o Senhor ocupa-Se com Seus associados espirituais em amorosas atividades transcendentais, caracterizadas por várias espécies de relações, tais como śānta (neutralidade), dāsya (servidão), sakhya (amizade), vātsalya (afeição parental) e mādhurya (amor conjugal).
Como se afirma que o Senhor Kṛṣṇa nunca sai de Vṛndāvana-dhāma, talvez alguém pergunte como Ele administra os afazeres da criação. A Bhagavad-gītā (13.14-18) dá esta resposta: através de Sua porção plenária conhecida como Paramātmā, Superalma, o Senhor penetra toda a criação material. Embora nada tenha a ver com a criação, manutenção e destruição materiais, o Senhor provoca todos esses fenômenos através de Sua expansão plenária, o Paramātmā. Cada entidade viva é conhecida como ātmā, e a principal ātmā que controla todas as demais é Paramātmā, a Superalma.
O sistema para se compreender Deus é uma grande ciência. Os sāṅkhya-yogīs materialistas podem apenas analisar e meditar nos vinte e quatro fatores da criação material, pois têm pouquíssima informação sobre o puruṣa, o Senhor. E os transcendentalistas impersonalistas estão simplesmente perplexos com a refulgência deslumbrante do brahmajyoti. Para ver a Verdade Absoluta por inteiro, é preciso ultrapassar os vinte e quatro elementos materiais, bem como a refulgência deslumbrante. O Śrī Īśopaniṣad dirige-nos a esse ponto, orando pela remoção da hiraṇmaya-pātra, a cobertura refulgente do Senhor. Enquanto essa cobertura estiver presente, impedindo que se perceba o verdadeiro rosto da Personalidade de Deus, jamais se poderá obter verdadeira compreensão da Verdade Absoluta.
O aspecto Paramātmā da Personalidade de Deus é uma das três expansões plenárias, ou viṣṇu-tattvas, que, no conjunto total, são conhecidas como puruṣa-avatāras. Um desses viṣṇu-tattvas que está dentro do universo é conhecido como Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu. Ele é o Viṣṇu que compõe as três principais deidades — Brahmā, Viṣṇu e Śiva — e Ele é o Paramātmā onipenetrante situado em toda entidade viva individual. O segundo viṣṇu-tattva dentro do universo é o Garbhodakaśāyī Viṣṇu, a Superalma coletiva de todos os seres vivos. Além desses, há o Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu, que repousa no oceano causal. Ele é o criador de todos os universos. O processo de yoga ensina ao estudante sério como encontrar os viṣṇu-tattvas após ter ultrapassado os vinte e quatro elementos materiais da criação cósmica. O cultivo da filosofia empírica ajuda a pessoa a perceber o brahmajyoti impessoal, o qual é a refulgência deslumbrante do corpo transcendental do Senhor Śrī Kṛṣṇa. A Bhagavad-gītā (14.27), bem como a Brahma-saṁhitā (5.40), confirmam que, de fato, o brahmajyoti é a refulgência de Kṛṣṇa:
yasya prabhā prabhavato jagad-aṇḍa-koṭi-
koṭiṣv aśeṣa-vasudhādi vibhūti-bhinnam
tad brahma niṣkalam anantam aśeṣa-bhūtaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
“Nos milhões e milhões de universos, existem inumeráveis planetas, e, através da constituição cósmica, cada um deles difere do outro. Cada um desses planetas está situado num canto do brahmajyoti. Esse brahmajyoti são apenas os raios pessoais da Suprema Personalidade de Deus, Govinda, a quem eu adoro”. Este mantra da Brahma-saṁhitā foi falado a partir do estado de verdadeira compreensão da Verdade Absoluta, e o śruti-mantra do Śrī Īśopaniṣad que está sendo aqui comentado confirma-o como um processo de realização. O mantra do Īśopaniṣad é uma simples oração em que se pede ao Senhor que remova o brahmajyoti para que Seu verdadeiro rosto possa ser visto. Essa refulgência brahmajyoti é descrita em pormenores em vários mantras do Muṇḍaka Upaniṣad (2.2.10-12):
hiraṇmaye pare kośe
virajaṁ brahma niṣkalam
tac chubhraṁ jyotiṣāṁ jyotis
tad yad ātma-vido viduḥ
na tatra sūryo bhāti na candra-tārakaṁ
nemā vidyuto bhānti kuto ’yam agniḥ
tam eva bhāntam anu bhāti sarvaṁ
tasya bhāsā sarvam idaṁ vibhāti
brahmaivedam amṛtaṁ purastād brahma
paścād brahma dakṣiṇataś cottareṇa
adhaś cordhvaṁ ca prasṛtaṁ brahmai-
vedaṁ viśvam idaṁ variṣṭham
“No reino espiritual, situado além da cobertura material, está a ilimitada refulgência Brahman, que está livre da contaminação material. Os transcendentalistas compreendem que essa refulgente luz branca é a luz de todas as luzes. Naquele reino, não há necessidade de iluminação proveniente do sol, luar, fogo ou eletricidade. De fato, toda iluminação que aparece no mundo material é apenas um reflexo dessa iluminação suprema. Esse Brahman está na região anterior e posterior, no Norte e no Sul, no Leste e no Oeste, e também na parte superior e inferior. Em outras palavras, essa suprema refulgência Brahman espalha-se nos céus material e espiritual”.
Conhecimento perfeito significa conhecer Kṛṣṇa como a raiz dessa refulgência Brahman. Esse conhecimento pode ser obtido em escrituras como o Śrīmad-Bhāgavatam, que faz uma perfeita elaboração sobre a ciência de Kṛṣṇa. No Śrīmad-Bhāgavatam, o autor, Śrīla Vyāsadeva, estabelece que a Verdade Absoluta será descrita como Brahman, Paramātmā ou Bhagavān de acordo com nossa percepção. Śrīla Vyāsadeva jamais afirma que a Verdade Suprema é uma jīva, uma entidade viva comum. Jamais se deve considerar que o ser vivo é a Verdade Suprema todo-poderosa. Se ele fosse o Supremo, não precisaria orar pedindo para o Senhor remover Sua cobertura refulgente para poder ver Seu verdadeiro rosto.
A conclusão é que, quando não temos conhecimento das potências da Verdade Absoluta, só percebemos o Brahman impessoal. De modo semelhante, ao compreendermos as potências materiais do Senhor, tendo pouca ou nenhuma informação sobre as potências espirituais, obtemos a percepção Paramātmā. Portanto, perceber a Verdade Absoluta como Brahman e Paramātmā está na plataforma das percepções parciais. Contudo, ao visualizar a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, em toda a Sua potência depois da remoção da hiraṇmaya-pātra, o indivíduo compreende verdadeiramente que vāsudevaḥ sarvam iti (Bhagavad-gītā 7.19): O Senhor Śrī Kṛṣṇa, que é conhecido como Vāsudeva, é tudo – Brahman, Paramātmā e Bhagavān. Ele é Bhāgavan, a raiz, e Brahman e Paramātmā são Seus ramos.
Na Bhagavad-gītā (6.46-47), há uma análise comparativa das três classes de transcendentalistas — os adoradores do Brahman impessoal (jñānīs), os adoradores do aspecto Paramātmā (yogīs) e os devotos do Senhor Śrī Kṛṣṇa (bhaktas). Lá se afirma que os jñānīs, aqueles que cultivaram conhecimento védico, estão numa posição melhor que os trabalhadores fruitivos. No entanto, lá também se diz que os yogīs são superiores aos jñānīs e que, entre todos os yogīs, os mais elevados são aqueles que constantemente servem ao Senhor com todas as suas energias. Em resumo, o filósofo está em melhor situação do que o trabalhador, o místico é superior ao filósofo, e, de todos os yogīs místicos, superior é aquele que segue bhakti-yoga, constantemente ocupando-se no serviço ao Senhor. O Śrī Īśopaniṣad nos encaminha a essa perfeição.
pūṣann ekarṣe yama sūrya prājāpatya
vyūha raśmīn samūha tejo
yat te rūpaṁ kalyāṇa-tamaṁ tat te paśyāmi
yo ’sāv asau puruṣaḥ so ’ham asmi

Synonyms

pūṣanó mantenedor; eka-ṛṣeo filósofo primordial; yamaprincípio regulador; sūryao destino dos sūris (grandes devotos); prājāpatyao benquerente dos prajāpatis (progenitores da humanidade); vyūhapor favor, remove; raśmīnos raios; samūhapor favor, retira; tejaḥrefulgência; yatpara que; teTua; rūpamforma; kalyāṇa-tamamabsolutamente auspiciosa; tatessa; teTua; paśyāmieu possa ver; yaḥaquele que é; asaucomo o Sol; asauesta; puruṣaḥPersonalidade de Deus; saḥo mesmo; ahameu; asmisou.

Translation

Ó meu Senhor, filósofo primordial, mantenedor do universo, ó princípio regulador, destino dos devotos puros, benquerente dos progenitores da humanidade, por favor, remove essa refulgência, Teus raios transcendentais, para que eu possa ver Tua forma de bem-aventurança. O Senhor é a Suprema Personalidade de Deus eterna, semelhante ao sol, tal como sou.

Purport

O sol e seus raios são qualitativamente iguais. Do mesmo modo, em qualidade, o Senhor e as entidades vivas são iguais. O sol é um, mas as moléculas dos raios do sol são inumeráveis. Os raios do sol constituem parte do sol, e, conjuntamente, o sol e seus raios constituem o sol completo. Dentro do próprio sol, reside a divindade do sol, e também dentro do planeta espiritual supremo, Goloka Vṛndāvana, reside o Senhor Kṛṣṇa. Lá, Ele desfruta de Seus passatempos eternos e é de lá que emana a refulgência brahmajyoti, como comprova a Brahma-saṁhitā (5.29):
cintāmaṇi-prakara-sadmasu kalpa-vṛkṣa-
lakṣāvṛteṣu surabhīr abhipālayantam
lakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānaṁ
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
“Adoro Govinda, o Senhor primordial, o progenitor primeiro, que está apascentando as vacas e realizando todos os desejos em moradas repletas de joias espirituais e rodeadas por milhões de árvores-dos-desejos. Ele é sempre servido com grande reverência e afeição por centenas e milhares de lakmīs, ou deusas da fortuna”.
A Brahma-saṁhitā descreve o brahmajyoti como os raios que emanam desse planeta espiritual supremo, Goloka Vṛndāvana, assim como os raios do sol emanam do globo solar. Até não ultrapassarmos o brilho do brahmajyoti, não poderemos receber informação acerca da terra do Senhor. Os filósofos impersonalistas, ofuscados pelo brahmajyoti refulgente, não podem compreender a verdadeira morada do Senhor nem Sua forma transcendental. Limitados por seu pobre fundo de conhecimento, esses pensadores impersonalistas não podem compreender a bem-aventuradíssima forma do Senhor Kṛṣṇa. Portanto, nesta oração, o Śrī Īśopaniṣad roga que o Senhor remova os raios refulgentes, o brahmajyoti, para que o devoto puro possa ver Sua bem-aventurada forma transcendental.
Compreendendo o brahmajyoti impessoal, experimentamos o aspecto auspicioso do Supremo, e, compreendendo Paramātmā, ou o aspecto onipenetrante do Supremo, passamos a experimentar uma iluminação ainda mais auspiciosa. Porém, ao ficar face a face com a própria Personalidade de Deus, o devoto experimenta o aspecto mais auspicioso do Supremo. Por ser chamado de filósofo primordial, mantenedor e benquerente do universo, Deus, como Verdade Suprema, não pode ser impessoal. Este é o veredicto do Śrī Īśopaniṣad. A palavra pūṣan (mantenedor) tem um significado especial, pois, embora mantenha todos os seres, o Senhor mantém especificamente Seus devotos. Após ultrapassar o brahmajyoti impessoal e ver o aspecto pessoal do Senhor e Sua auspiciosíssima forma eterna, o devoto passa a compreender na íntegra a Verdade Absoluta.
Em seu Bhagavat-sandarbha, Śrīla Jīva Gosvāmī afirma: “Na Personalidade de Deus, obtém-se a concepção completa acerca da Verdade Absoluta porque Ele é todo-poderoso e possui potências transcendentais plenas. No brahmajyoti, não se percebe a potência plena da Verdade Absoluta; portanto, a percepção Brahman é apenas uma percepção parcial acerca da Personalidade de Deus. Ó sábios eruditos, a primeira sílaba da palavra bhagavān (bha) tem dois significados: o primeiro é ‘aquele que mantém’ e o segundo é ‘guardião’. A segunda sílaba (ga) significa ‘guia’, ‘líder’ ou ‘criador’. A sílaba vān indica que todo ser vive nEle e que Ele também vive em todos os seres. Em outras palavras, o som transcendental bhagavān representa conhecimento, potência, energia, opulência, força e influência infinitos — todos eles sem nenhum vestígio de embriaguez material”.
O Senhor encarrega-Se da manutenção de Seus devotos puros e progressivamente os guia no caminho que conduz à perfeição devocional. Como líder de Seus devotos, o Senhor acaba concedendo os resultados àqueles que praticam serviço devocional entregando-Se a eles. Por Sua misericórdia incondicional, os devotos do Senhor O veem face a face. Assim, o Senhor ajuda Seus devotos a alcançar o planeta espiritual mais elevado, Goloka Vṛndāvana. Sendo o criador, Ele pode conceder a Seus devotos todas as qualificações necessárias para que eles possam, por fim, alcançá-lO. O Senhor é a causa de todas as causas. Em outras palavras, como não há nada que tenha causado Sua existência, Ele é a causa original. Consequentemente, Ele desfruta Seu próprio eu, manifestando Sua própria potência interna. A potência externa, por sua vez, não se manifesta exatamente através dEle, pois, para isso, Ele expande-Se como os puruṣas, e é por meio dessas formas que Ele mantém os aspectos da manifestação material. Por meio dessas expansões, Ele cria, mantém e aniquila a manifestação cósmica.
O eu do Senhor também manifesta expansões diferenciadas, que são as entidades vivas. Como algumas delas desejam dominar o mundo e imitar o Senhor Supremo, este lhes permite entrar na criação cósmica com a opção de utilizarem completamente sua propensão a assenhorear-se da natureza. Por causa da presença das partes integrantes de Deus, as entidades vivas, o mundo fenomenal inteiro fervilha com ações e reações. Assim, as entidades vivas recebem todas as condições favoráveis para assenhorear-se da natureza material. Porém, o controlador último é o próprio Senhor, sob Seu aspecto plenário como Paramātmā, a Superalma, que é um dos puruṣas.
Logo, há um abismo de diferença entre a entidade viva (ātmā) e o Senhor controlador (Paramātmā), a alma e a Superalma. Paramātmā é o controlador, e ātmā, o controlado, de modo que estão em categorias diferentes. Porque coopera completamente com a ātmā, o Paramātmā é conhecido como o companheiro constante do ser vivo.
O aspecto onipenetrante do Senhor — que existe em todas as circunstâncias de sono e vigília, bem como em estados potenciais, e que gera a jīva-śakti (força viva) seja como almas condicionadas, seja como almas liberadas — é conhecido como Brahman. Como é a origem do Paramātmā e do Brahman, o Senhor é a origem de todas as entidades vivas e de tudo o que possa existir. Quem tem esse conhecimento se ocupa de imediato no serviço devocional ao Senhor. Semelhante devoto puro, que conhece na íntegra o Senhor, apega-se completamente a Ele, de corpo e alma. Sempre que esse devoto se reúne com outros devotos de afinidade semelhante, sua única ocupação consiste em glorificar as atividades transcendentais do Senhor. Aqueles que não têm a mesma perfeição dos devotos puros — ou seja, aqueles que compreenderam apenas os aspectos Brahman e Paramātmā do Senhor — não podem apreciar as atividades dos devotos perfeitos. O Senhor sempre ajuda os devotos puros, transmitindo a seus corações o conhecimento necessário. Assim, por Seu favor especial, o Senhor dissipa toda a escuridão produzida pela ignorância. Os filósofos especuladores e os yogīs não podem imaginar o que vem a ser isso, porque eles dependem, em menor ou maior grau, de sua própria força. Como afirma o Kaṭha Upaniṣad (1.2.23), o Senhor só pode ser conhecido por aqueles que Ele próprio favorece, e por ninguém mais. Esses favores especiais são concedidos apenas a Seus devotos puros. Por conseguinte, o Śrī Īśopaniṣad assinala o favor do Senhor, que está além da jurisdição do brahmajyoti.
vāyur anilam amṛtam
athedaṁ bhasmāntaṁ śarīram
oṁ krato smara kṛtaṁ smara
krato smara kṛtaṁ smara

Synonyms

vāyuḥar vital; anilamreservatório total de ar; amṛtamindestrutível; athaagora; idameste; bhasmāntamdepois de ser reduzido a cinzas; śarīramcorpo; oṁó Senhor; kratoó desfrutador de todos os sacrifícios; smarapor favor, relembra; kṛtamtudo o que foi feito por mim; smarapor favor, relembra; kratoó beneficiário supremo; smarapor favor, relembra; kṛtamtudo o que fiz para Ti; smarapor favor, relembra.

Translation

Que este corpo temporário seja reduzido a cinzas, e que o ar vital fique imerso na totalidade do ar. Ó meu Senhor, por favor, lembra-Te agora de todos os meus sacrifícios, e, como és o beneficiário último, por favor, lembra-Te de tudo o que fiz para Ti.

Purport

O corpo material temporário com certeza é vestimenta estranha. A Bhagavad-gītā (2.20) diz claramente que, após a destruição do corpo material, o ser vivo não é aniquilado nem perde sua identidade. A identidade do ser vivo nunca é impessoal ou amorfa; pelo contrário, é a roupa material que não tem forma e assume um formato de acordo com a forma da pessoa indestrutível. Ao contrário do que pensam as pessoas com um pobre fundo de conhecimento, originalmente nenhuma entidade viva é destituída de forma. Este mantra comprova o fato de que a entidade viva continua a existir depois da aniquilação do corpo material.
No mundo material, a natureza material apresenta uma criatividade maravilhosa, dando aos seres vivos corpos de diferentes qualidades segundo suas propensões para o gozo dos sentidos. Quem quiser provar excremento receberá um corpo material bastante adequado para comer excremento — o de um porco. De modo semelhante, quem quiser comer a carne e o sangue de outros animais pode receber o corpo de tigre, que dispõe de dentes e garras adequados. No entanto, o ser humano não se destina a comer carne, tampouco tem ele algum desejo de provar excremento, mesmo quando se encontra no estado mais aborígene. Os dentes humanos são feitos de tal maneira que possam mastigar e cortar frutas e legumes, embora existam dois dentes caninos para que os seres humanos primitivos que queiram comer carne possam se curvar a esse seu desejo.
Em todo caso, os corpos materiais de todos os animais e seres humanos são estranhos ao ser vivo. Eles mudam de acordo com o que o ser vivo deseja para satisfazer seus sentidos. No ciclo da evolução, a entidade viva muda de corpos sucessivamente. Quando o mundo estava cheio de água, a entidade viva assumiu uma forma aquática. Então, ela passou para a vida vegetal, da vida vegetal para a vida de verme, da vida de verme para a de pássaro, da de pássaro para animal terrestre, e da vida animal terrestre para a forma humana. Quando é dotada de um sentido pleno de conhecimento espiritual, esta forma humana é a forma mais desenvolvida. Este mantra descreve o desenvolvimento mais elevado da sensibilidade espiritual: devemos abandonar o corpo material, que será reduzido a cinzas, e deixarmos o ar vital imergir no eterno reservatório de ar. Dentro do corpo, as atividades dos seres vivos são executadas através do movimento de diferentes espécies de ar, que, em resumo, são conhecidas como prāṇa-vāyu. De um modo geral, os yogīs estudam como controlar os ares do corpo. A alma deve elevar-se de um círculo de ar a outro até que alcance o círculo mais elevado, o brahma-randhra, ponto em que o yogī pode transferir-se a qualquer planeta que deseje. O processo consiste em abandonar um corpo material para depois entrar em outro. Porém, a perfeição mais elevada dessas mudanças só acontece quando a entidade viva consegue abandonar o corpo material completamente (como sugere este mantra) e entra na atmosfera espiritual, onde pode desenvolver uma espécie de corpo inteiramente diferente — um corpo espiritual, que jamais precisa submeter-se a mudanças ou morte.
Aqui no mundo material, a natureza material força a entidade viva a mudar de corpo devido aos seus diferentes desejos de gozo dos sentidos. Esses desejos estão representados nas diversas espécies de vida, desde os germes até os mais aperfeiçoados corpos materiais em que vivem Brahmā e os semideuses. Todos esses seres vivos têm corpos compostos de matéria em diferentes formatos. O homem inteligente vê igualdade, não na variedade de corpos, mas na entidade espiritual. A centelha espiritual, que é parte integrante do Senhor Supremo, é a mesma, esteja ela num corpo de porco ou de semideus. De acordo com suas atividades boas ou viciosas, a entidade viva assume corpos diferentes. O corpo humano é altamente desenvolvido e tem consciência plena. De acordo com a Bhagavad-gītā (7.19), depois de muitas e muitas vidas cultivando conhecimento, o homem mais perfeito rende-se ao Senhor. O cultivo de conhecimento só atinge a perfeição quando o conhecedor rende-se ao Senhor Supremo, Vāsudeva. Caso contrário, se mesmo depois de conhecer sua identidade espiritual a pessoa ainda não sabe que as entidades vivas são partes integrantes do todo, jamais podendo tornar-se o todo, ela terá de recair na atmosfera material. De fato, cairá mesmo que tenha imergido no brahmajyoti.
Como aprendemos nos mantras anteriores, o brahmajyoti que emana do corpo transcendental do Senhor está cheio de centelhas espirituais, que são entidades individuais com pleno sentido de existência. Às vezes, essas entidades vivas desejam obter gozo dos sentidos, razão pela qual são colocadas no mundo material, onde se tornam falsos senhores que seguem os ditames dos sentidos. O desejo de dominar é a doença material do ser vivo, pois, sob o encanto do gozo dos sentidos, ele transmigra pelos diversos corpos manifestados no mundo material. Imergir no brahmajyoti não representa conhecimento maduro. Só com a completa rendição ao Senhor e com o desenvolvimento de uma atitude de serviço espiritual é que alguém alcança a fase de perfeição mais elevada.
Neste mantra, a entidade viva ora pedindo para ingressar no reino espiritual de Deus logo que abandone o corpo e o ar materiais. O devoto ora pedindo que o Senhor Se lembre das atividades e dos sacrifícios que executou antes de seu corpo material ser reduzido a cinzas. Ele faz essa oração no momento da morte, com pleno conhecimento de suas atividades passadas e da meta última. Aquele que está sob completo controle da natureza material lembra-se das atividades hediondas executadas durante a existência de seu corpo material, e, após a morte, obtém outro corpo material. A Bhagavad-gītā (8.6) confirma essa verdade:
yaṁ yaṁ vāpi smaran bhāvaṁ
tyajaty ante kalevaram
taṁ tam evaiti kaunteya
sadā tad-bhāva-bhāvitaḥ
“Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kuntī, esse mesmo estágio ele alcançará impreterivelmente”. Assim, a mente transporta todas as inclinações e gostos do ser vivo para sua próxima vida.
Ao contrário dos animais simples, que não têm mente desenvolvida, o ser humano pode, no leito de morte, lembrar-se das atividades de sua vida como se fosse um sonho durante a noite. Portanto, sua mente permanece sobrecarregada de desejos materiais, não lhe sendo possível conseguir um corpo espiritual com o qual possa entrar no reino espiritual. Entretanto, os devotos, praticantes do serviço devocional ao Senhor, desenvolvem um sentido de amor a Deus. Mesmo que na hora da morte o devoto não se lembre do serviço que prestou ao Senhor, o Senhor não Se esquece desse devoto. Esta oração serve para lembrar o Senhor dos sacrifícios que o devoto realizou. Porém, mesmo sem esse pedido, o Senhor não se esquece do serviço prestado por Seu devoto puro.
Na Bhagavad-gītā (9.30-34), o Senhor descreve claramente Sua relação íntima com Seus devotos: “Mesmo que alguém cometa ações das mais abomináveis, se estiver ocupado em serviço devocional deve ser considerado santo porque está devidamente situado em sua determinação. Ele logo se torna virtuoso e alcança a paz duradoura. Ó filho de Kuntī, declara ousadamente que Meu devoto jamais perece. Ó filho de Pṛthā, mesmo que sejam de nascimento inferior, mulheres, vaiśyas (comerciantes) ou śūdras (trabalhadores braçais), todos os que se refugiam em Mim podem alcançar o destino supremo. Isso tem ainda maior validade para os brāhmaṇas virtuosos, os devotos e os reis santos. Portanto, como você veio a este miserável mundo temporário, ocupa-te em Me prestar serviço amoroso. Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e Me adora. Estando absorto por completo em Mim, com certeza virás a Mim”.
Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura dá a esses versos a seguinte explicação: “Todos devem aceitar que o devoto de Kṛṣṇa está no caminho correto, trilhado pelos santos, muito embora esse devoto pareça ser su-durācāra, ‘uma pessoa licensiosa’. É preciso tentar compreender o verdadeiro significado da palavra su-durācāra. A alma condicionada tem que executar duas funções, ou seja, manter o corpo e também trilhar a autorrealização. Posição social, desenvolvimento mental, limpeza, austeridade, nutrição e luta pela existência são todos para a manutenção do corpo. Quanto à autorrealização, seu dever deve ser ocupar-se como devoto do Senhor. Essas duas funções diferentes são paralelas porque a alma condicionada não pode deixar de manter seu corpo. Entretanto, à medida que as atividades em serviço devocional aumentam, as atividades que servem para a manutenção do corpo vão diminuindo. Enquanto o serviço devocional não atingir a proporção correta, existirá a oportunidade de uma exibição ocasional de atividades mundanas. Mas é preciso notar que essas atividades mundanas não podem continuar por muito tempo porque, pela graça do Senhor, essas imperfeições acabarão muito em breve. Portanto, o serviço devocional é o único caminho correto. Se alguém está no caminho correto, nem mesmo um episódio ocasional de atividades mundanas impedirá o seu avanço em autorrealização”.
Os impersonalistas não obtêm as condições favoráveis à prática do serviço devocional porque estão apegados ao aspecto brahmajyoti do Senhor. Como sugerem os mantras anteriores, eles não podem penetrar no brahmajyoti porque não acreditam na Personalidade de Deus. Estão mais interessados em jogos de palavras e especulação mental. Por conseguinte, os impersonalistas entregam-se a um trabalho infrutífero, como confirma a Bhagavad-gītā (12.5).
Todas as condições favoráveis mencionadas neste mantra podem ser facilmente obtidas através do contato constante com o aspecto pessoal da Verdade Absoluta. O serviço devocional ao Senhor consiste essencialmente em nove atividades transcendentais: (1) ouvir sobre o Senhor, (2) glorificar o Senhor, (3) lembrar-se do Senhor, (4) servir os pés de lótus do Senhor, (5) adorar o Senhor, (6) oferecer orações ao Senhor, (7) servir o Senhor, (8) partilhar amizade com o Senhor, e (9) entregar tudo ao Senhor. Esses nove princípios do serviço devocional — executados individual ou coletivamente — ajudam o devoto a permanecer em constante contato com Deus. Dessa maneira, será mais fácil que, no final da vida, o devoto lembre-se do Senhor. Adotando apenas um desses nove princípios, os seguintes devotos do Senhor conseguiram alcançar a perfeição mais elevada: (1) Ouvindo sobre o Senhor, Mahārāja Parīkṣit, o herói do Śrīmad-Bhāgavatam, alcançou o resultado desejado. (2) Pelo simples fato de glorificar o Senhor, Śukadeva Gosvāmī, o orador do Śrīmad-Bhāgavatam, alcançou sua perfeição. (3) Orando ao Senhor, Akrūra alcançou o resultado desejado. (4) Lembrando-se do Senhor, Prahlāda Mahārāja alcançou o resultado desejado. (5) Adorando o Senhor, Pṛthu Mahārāja alcançou a perfeição. (6) Servindo os pés de lótus do Senhor, Lakṣmī, a deusa da fortuna, alcançou a perfeição. (7) Prestando serviço pessoal ao Senhor, Hanumān alcançou o resultado desejado. (8) Por intermédio de sua amizade com o Senhor, Arjuna alcançou o resultado desejado. (9) Entregando ao Senhor tudo o que ele tinha, Mahārāja Bali alcançou o resultado desejado.
Na verdade, a explicação deste mantra e de praticamente todos os mantras dos hinos védicos é resumida no Vedānta-sūtra e esmiuçada no Śrīmad-Bhāgavatam, que é o fruto maduro da árvore da sabedoria védica. No Śrīmad-Bhāgavatam, este mantra específico é explicado nas perguntas de Mahārāja Parīkṣit e nas respostas de Śukadeva Gosvāmī logo quando eles se encontram. O princípio básico da vida devocional é ouvir e cantar sobre a ciência de Deus. O Bhāgavatam foi ouvido por Mahārāja Parikṣit e recitado por Śukadeva Gosvāmī. Mahārāja Parīkṣit fez perguntas a Śukadeva porque este era um mestre espiritual maior do que qualquer grande yogī ou transcendentalista contemporâneo seu.
A principal pergunta de Mahārāja Parīkṣit foi: “Qual o dever de todo homem, especialmente na hora da morte?” Śukadeva Gosvāmī respondeu:
tasmād bhārata sarvātmā
bhagavān īśvaro hariḥ
śrotavyaḥ kīrtitavyaś ca
smartavyaś cecchatābhayam
“Qualquer um que deseja libertar-se de todas as ansiedades deve sempre ouvir sobre a Personalidade de Deus, glorificá-lO e lembrar-se dEle, que é o supremo diretor de tudo, o eliminador de todas as dificuldades e a Superalma de todas as entidades vivas”. (Śrīmad-Bhāgavatam 2.1.5)
De um modo geral, a suposta sociedade humana passa a noite dormindo e fazendo sexo e, durante o dia, ocupa-se em ganhar todo dinheiro possível ou então em ir às compras para o sustento da família. As pessoas têm pouquíssimo tempo para conversar sobre a Personalidade de Deus ou para perguntar sobre Ele. Elas rejeitam a existência de Deus de muitas maneiras, principalmente declarando que Ele é impessoal, isto é, sem percepção sensorial. Entretanto, a literatura védica — os Upaniṣads, Vedānta-sūtra, Bhagavad-gītā ou o Śrīmad-Bhāgavatam — declara que o Senhor é um ser sensível e superior a todas as outras entidades vivas. Suas atividades gloriosas são idênticas a Ele mesmo. Ninguém deve, portanto, ficar ouvindo e falando sobre as atividades indecorosas dos políticos mundanos e dos supostos grandes homens da sociedade, mas deve organizar sua vida de tal maneira que possa ocupar-se em atividades virtuosas, não desperdiçando um segundo sequer de sua vida. O Śrī Īśopaniṣad nos encaminha para essas atividades virtuosas.
A não ser que estejamos treinados nas práticas devocionais, de que iremos nos lembrar na hora da morte, quando o corpo estiver desmantelado? Como poderemos orar pedindo que o Senhor todo-poderoso lembre-Se de nossos sacrifícios? Sacrifício significa abolir o interesse dos sentidos. Para aprender essa arte, é preciso que, durante a vida, empreguemos os sentidos no serviço ao Senhor. E, na hora da morte, poderemos utilizar os resultados advindos dessa prática.
agne naya supathā rāye asmān
viśvāni deva vayunāni vidvān
yuyodhy asmaj juhurāṇam eno
bhūyiṣṭhāṁ te nama-uktiṁ vidhema

Synonyms

agneó meu Senhor, poderoso como o fogo; nayapor favor, guia; supathāpelo caminho correto; rāyepara alcançar-Te; asmāna nós; viśvānitodos; devaó meu Senhor; vayunāniações; vidvāno conhecedor; yuyodhipor favor, remove; asmatnós; juhurāṇamtodos os obstáculos no caminho; enaḥtodos os vícios; bhūyiṣṭhāmmuito numerosos; tea Ti; namaḥ-uktimpalavras de reverência; vidhemaeu apresento.

Translation

Ó meu Senhor, poderoso como o fogo, ser onipotente, ofereço-Te agora todas as reverências e, no solo, caio a Teus pés. Ó meu Senhor, por favor, guia-me no caminho correto, ajudando-me a alcançar-Te, e, como sabes tudo o que fiz no passado, por favor, livra-me das reações de meus pecados pretéritos para que não venham a existir obstáculos em meu progresso.

Purport

Rendendo-se ao Senhor e suplicando por Sua misericórdia imotivada, o devoto pode progredir no caminho da completa autorrealização. O Senhor é comparado ao fogo porque pode reduzir a cinzas qualquer coisa, incluindo os pecados da alma rendida. Como descrevem os mantras anteriores, a característica verdadeira e definitiva do Absoluto é Seu aspecto como a Personalidade de Deus. Seu aspecto brahmajyoti impessoal é uma cobertura que brilha sobre Seu rosto. As atividades fruitivas, ou a autorrealização através do caminho karma-kāṇḍa, é a etapa inferior desse empreendimento. O mais leve desvio dos princípios reguladores dos Vedas transforma essas atividades em vikarma, ou ações contra o interesse do agente. Iludida, a entidade viva pratica esse vikarma em troca do simples gozo dos sentidos, e assim essas atividades viram obstáculos no caminho da autorrealização.
A autorrealização é possível na forma de vida humana, e não nas outras formas. Existem oito milhões e quatrocentas mil espécies de vida, ou formas de vida, e, destas, a forma humana, quando desenvolvido o cultivo bramânico, apresenta a única oportunidade de obter conhecimento acerca da transcendência. Cultura bramânica significa veracidade, controle dos sentidos, tolerância, simplicidade, conhecimento completo e plena fé em Deus. Não vem ao caso orgulhar-se de uma elevada ascendência. Assim como o filho de um grande homem recebe a oportunidade de tornar-se um grande homem, o filho de um brāhmaṇa recebe a oportunidade de tornar-se um brāhmaṇa. Todavia, esse direito adquirido no nascimento não é tudo, pois é preciso que a própria pessoa desenvolva qualificações bramânicas. Se alguém se orgulha de ter nascido como filho de brāhmaṇa e não se interessa em obter as qualificações de um verdadeiro brāhmaṇa, tal pessoa imediatamente se degrada e cai do caminho da autorrealização. Assim, sua missão como ser humano fracassa.
Na Bhagavad-gītā (6.41-42), o Senhor garante que os yoga-bhraṣṭas, ou almas que caíram do caminho da autorrealização, recebem a oportunidade de corrigirem-se, nascendo em famílias de bons brāhmaṇas ou em famílias de comerciantes ricos. Nascimentos assim proporcionam maiores oportunidades para se cultivar a autorrealização. Entretanto, se tais oportunidades não são aproveitadas devido à ilusão, a pessoa desperdiça a vida humana, uma dádiva concedida pelo Senhor.
Os princípios reguladores agem de tal maneira que, seguindo-os, é possível sair do plano das atividades fruitivas e promover-se à plataforma do conhecimento transcendental. Após muitas e muitas vidas de cultivo do conhecimento transcendental, podemos nos aperfeiçoar quando nos rendemos ao Senhor. Este é o procedimento geral. Entretanto, se nos rendemos logo de início, adotando a atitude devocional que este mantra recomenda, imediatamente superamos todas as fases preliminares. Como se afirma na Bhagavad-gītā (18.66), o Senhor logo Se encarrega dessa alma rendida, libertando-a das reações a seus atos pecaminosos.

As atividades karma-kāṇḍa envolvem muitas ações pecaminosas, ao passo que, nas atividades jñāna-kāṇḍa — o caminho do desenvolvimento filosófico —, o número das ações pecaminosas é menor. Porém, no serviço devocional ao Senhor, o caminho de bhakti, não há praticamente nenhuma oportunidade de incorrer em reações pecaminosas. Quem é devoto do Senhor adquire todas as boas qualificações do próprio Senhor. O que dizer, então, das qualidades de um brāhmaa? Ainda que não tenha nascido em família de brāhmaa, o devoto facilmente adquire as qualificações de um brāhmaa hábil, autorizado a executar sacrifícios. Essa é a onipotência do Senhor. Ele pode fazer um homem nascido em família de brāhmaas tornar-se tão degradado quanto uma pessoa de nascimento inferior e que é comedor de cachorro. Ao mesmo tempo, pela simples força do serviço devocional, Ele também pode transformar em brāhmaa qualificado o indivíduo de nascimento inferior que é comedor de cachorro.
Como está situado dentro do coração de todos, o Senhor onipotente pode dar a Seus devotos sinceros orientações através das quais eles podem trilhar o caminho correto. Essas orientações são especialmente oferecidas ao devoto, mesmo que ele tenha algum outro desejo. Quanto aos outros, Deus sanciona suas ações, mas eles se responsabilizam pelos riscos das ações que executam. No entanto, quando se trata de um devoto, o Senhor o orienta de tal maneira que ele jamais comete uma ação errada. O Śrīmad-Bhāgavatam (11.5.42) diz:
sva-pāda-mūlaṁ bhajataḥ priyasya
tyaktānya-bhāvasya hariḥ pareśaḥ
vikarma yac cotpatitaṁ kathañcid
dhunoti sarvaṁ hṛdi sanniviṣṭaḥ
“O Senhor é tão bondoso com o devoto que está plenamente rendido a Seus pés de lótus que, muito embora o devoto às vezes caia no enredamento de vikarma — atividades que vão de encontro às orientações védicas — Ele imediatamente corrige esses erros a partir do interior do coração do devoto. Isso se dá porque os devotos são muito queridos ao Senhor”.
Neste mantra do Śrī Īśopaniṣad, o devoto ora pedindo que, do interior de seu coração, o Senhor passe a corrigi-lo. Errar é humano. A alma condicionada tende a cometer erros com frequência, e a única medida terapêutica ao combate a esses pecados desintencionais consiste em render-se aos pés de lótus do Senhor para que Ele possa guiá-la impedindo-a de cair vítima desses perigos imprevistos. O Senhor encarrega-Se das almas plenamente rendidas; assim, todos os problemas são resolvidos pelo simples fato de render-se ao Senhor e agir segundo Suas orientações. Há duas maneiras de transmitir ao devoto sincero essas orientações: (1) por intermédio dos santos, escrituras e mestre espiritual; (2) por intermédio do próprio Senhor, que reside no coração de todos. Assim, o devoto, plenamente iluminado com o conhecimento védico, está protegido sob todos os aspectos.
O conhecimento védico é transcendental e não pode ser compreendido através de métodos educacionais mundanos. Só é possível compreender os mantras védicos pela graça do Senhor e do mestre espiritual (yasya deve parā bhaktir yathā deve tathā gurau [Śvetāśvatara Upaniṣad 6.23]). Quando alguém se refugia no mestre espiritual genuíno, deve ficar claro que ele obteve a graça do Senhor. Para um devoto, o Senhor aparece como o mestre espiritual. Assim, o mestre espiritual, os preceitos védicos e o próprio Senhor situado internamente orientam o devoto com força plena. Dessa maneira, não há nenhuma possibilidade de que o devoto volte a cair no lamaçal da ilusão. O devoto, tendo essa proteção de todos os lados, com certeza alcançará o destino final da perfeição. Este mantra faz uma alusão a todo o processo, que é explicado em maiores detalhes no Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.17-20):
Ouvir e cantar as glórias do Senhor são por si só atos de piedade. O Senhor quer que todos ouçam e cantem Suas glórias porque Ele é o benquerente de todas as entidades vivas. Ouvindo e cantando as glórias do Senhor, a pessoa se purifica de todas as coisas indesejáveis, e, então, sua devoção se fixa no Senhor. Nessa etapa, o devoto adquire as qualificações bramânicas, e os efeitos dos modos inferiores da natureza (paixão e ignorância) desaparecem por completo. Devido ao seu serviço devocional, o devoto fica plenamente iluminado, e assim passa a conhecer o caminho do Senhor e o processo para alcançá-lO. À medida que todas as dúvidas diminuem, ele se torna um devoto puro.
Neste ponto, encerram-se os Significados Bhaktivedanta do Śrī Īśopaniad, o conhecimento que nos aproxima da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa.