Before Verses
Devanagari
Verse Text
Synonyms
Translation
Purport
O Néctar da Instrução
Devanagari
वाचो वेगं मनसः क्रोधवेगं जिह्वावेगमुदरोपस्थवेगम् ।
एतान्वेगान्यो विषहेत धीरः सर्वामपीमां पृथिवीं स शिष्यात् ॥ १ ॥
एतान्वेगान्यो विषहेत धीरः सर्वामपीमां पृथिवीं स शिष्यात् ॥ १ ॥
Verse text
vāco vegaṁ manasaḥ krodha-vegaṁ
jihvā-vegam udaropastha-vegam
etān vegān yo viṣaheta dhīraḥ
sarvām apīmāṁ pṛthivīṁ sa śiṣyāt
jihvā-vegam udaropastha-vegam
etān vegān yo viṣaheta dhīraḥ
sarvām apīmāṁ pṛthivīṁ sa śiṣyāt
Synonyms
vācaḥ — da fala; vegam — desejo; manasaḥ — da mente; krodha — da ira; vegam — desejo; jīhvā — da língua; vegam — desejo; udara-upastha — do estômago e dos órgãos genitais; vegam — desejo; etān — esses; vegān — desejos; yaḥ — quem quer que; viṣaheta — seja capaz de tolerar; dhīraḥ — sóbria; sarvām — todos; api — certamente; imām — este; pṛthivīm — mundo; saḥ — esta personalidade; śiṣyāt — pode fazer discípulos.
Translation
Uma pessoa sóbria, que seja capaz de tolerar o desejo de falar, as exigências da mente, as ações da ira e os impulsos da língua, do estômago e dos órgãos genitais, é qualificada para fazer discípulos em todo o mundo.
Purport
No Śrīmad-Bhāgavatam (6.1.9-10), Parīkṣit Mahārāja fez muitas perguntas inteligentes a Śukadeva Gosvāmī. Uma dessas perguntas foi: “Por que é que as pessoas se submetem à expiação se não conseguem controlar os sentidos?” Um ladrão, por exemplo, talvez saiba perfeitamente bem que poderá ser preso por roubar e poderá até mesmo ver um ladrão sendo preso pela polícia, mas, mesmo assim, continuará a roubar. Adquirimos experiência pela audição e pela visão. Uma pessoa menos inteligente adquire experiência vendo, ao passo que uma pessoa mais inteligente adquire experiência ouvindo. Quando uma pessoa inteligente ouve que nos livros de lei e nos śastras, ou escrituras, é dito que roubar não é bom, e quando ouve que um ladrão é castigado ao ser preso, ela se abstém de roubar. Uma pessoa menos inteligente terá primeiro que ser presa e castigada pelo roubo para aprender a parar de roubar. Entretanto, um patife, um tolo, pode ter a experiência tanto do ouvir quanto do ver e pode até ser castigado, mas mesmo assim continuará roubando. Mesmo que essa pessoa se submeta à expiação e seja castigada pelo governo, logo que sair da cadeia ela há de roubar outra vez. Se o castigo ministrado na prisão é considerado uma expiação, qual é o benefício dessa expiação? Assim, Parīkṣit Mahārāja indagou:
dṛṣṭa-śrutābhyāṁ yat pāpaṁ
jānann apy ātmano ’hitam
karoti bhūyo vivaśaḥ
prāyaścittam atho katham
kvacin nivartate ’bhadrāt
kvacic carati tat punaḥ
prāyaścittam atho ’pārthaṁ
manye kuñjara-śaucavat
jānann apy ātmano ’hitam
karoti bhūyo vivaśaḥ
prāyaścittam atho katham
kvacin nivartate ’bhadrāt
kvacic carati tat punaḥ
prāyaścittam atho ’pārthaṁ
manye kuñjara-śaucavat
Ele comparou a expiação a um banho de elefante. O elefante pode tomar um ótimo banho no rio, mas, assim que sai da água, ele atira lama por todo o seu corpo. De que adianta, então, o seu banho? De modo semelhante, muitos espiritualistas cantam o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa e, ao mesmo tempo, fazem muitas coisas proibidas, julgando que seu canto neutralizará suas ofensas. Das dez espécies de ofensas que se pode cometer enquanto se canta o santo nome do Senhor esta se chama nāmno balād yasya hi pāpa-buddhiḥ: cometer atividades pecaminosas se apoiando no cantar do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa. Da mesma maneira, certos cristãos vão à igreja confessar seus pecados, julgando que o fato de confessarem perante um padre e executarem alguma penitência aliviá-los-á dos resultados de seus pecados semanais. Logo que acaba o sábado e vem o domingo, eles começam suas atividades pecaminosas outra vez, esperando serem perdoados no próximo sábado. Esta classe de prāyaścitta, ou expiação, é condenada por Parīkṣit Mahārāja, o rei mais inteligente de sua época. Śukadeva Gosvāmī, igualmente inteligente, como convém ao mestre espiritual de Mahārāja Parīkṣit, respondeu ao rei e confirmou ser correta a sua declaração a respeito da expiação. Não se pode neutralizar uma atividade pecaminosa com uma atividade piedosa. Deste modo, a real prāyaścitta, expiação, é o despertar de nossa adormecida consciência de Kṛṣṇa.
A expiação verdadeira implica em se chegar ao conhecimento real, sendo que para isto existe um processo padrão. Quem segue um processo regulado de higiene não adoece. Um ser humano se destina a ser educado segundo determinados princípios, de forma que possa restabelecer seu conhecimento original. Essa vida metódica é descrita como tapasya. Pode-se gradualmente elevar-se ao padrão do conhecimento verdadeiro, ou à consciência de Kṛṣṇa, praticando austeridade e celibato (brahmacarya), controlando a mente e os sentidos, renunciando a posses em caridade, sendo manifestamente veraz, mantendo-se limpo e praticando yoga-āsanas. Contudo, alguém que tenha a fortuna de associar-se com um devoto puro pode facilmente ultrapassar todas as práticas de controle da mente executadas através do processo do yoga místico, por simplesmente seguir os princípios reguladores da consciência de Kṛṣṇa - o abster-se do sexo ilícito, do consumo de carne, da intoxicação e dos jogos de azar - e pelo simples fato de se ocupar a serviço do Senhor Supremo, sob a orientação do mestre espiritual genuíno. Este processo fácil está sendo recomendado por Śrīla Rūpa Gosvāmī.
Primeiramente, é necessário controlar nossa faculdade de falar. Cada um de nós tem o poder da fala; logo que temos uma oportunidade, pomo-nos a falar. Quando não falamos acerca da consciência de Kṛṣṇa, falamos toda espécie de disparate. No campo, um sapo fala coaxando, e, similarmente, todos que tem língua querem falar, mesmo que tudo o que tenham a dizer seja sem propósito. Porém, o coaxar do sapo simplesmente convida a cobra: “Por favor, venha me comer”. Não obstante, apesar de estar convidando a morte, o sapo continua coaxando. Podemos comparar a conversa dos materialistas e dos filósofos māyāvādīs impersonalistas com o coaxar das rãs e dos sapos. Eles estão sempre falando disparates e, por conseguinte, convidando a morte a pegá-los. Controlar a fala, entretanto, não quer dizer impor-se o silêncio (o processo externo de mauna), como pensam os filósofos māyāvādīs. O silêncio pode parecer útil por algum tempo, mas, por fim, mostrará ser um fracasso. O significado de fala controlada comunicado por Śrīla Rūpa Gosvāmī advoga o processo positivo de kṛṣṇa-kathā, ou seja, ocupar o processo da fala na glorificação do Supremo Senhor Śrī Kṛṣṇa. A língua pode, então, glorificar o nome, a forma, as qualidades e os passatempos do Senhor. O pregador de kṛṣṇa-kathā é sempre transcendental às garras da morte. Esta é a importância de se controlar o desejo de falar.
A inquietude ou inconstância da mente (mano-vega) é controlada quando podemos fixá-la nos pés de lótus de Kṛṣṇa. O Caitanya-Caritāmṛta (Madhya 22.31) diz:
kṛṣṇa – sūrya-sama; māyā haya andhakāra
yāhāṅ kṛṣṇa, tāhāṅ nāhi māyāra adhikāra
yāhāṅ kṛṣṇa, tāhāṅ nāhi māyāra adhikāra
Kṛṣṇa é como o sol e māyā, como a escuridão. Estando o sol presente, não há a possibilidade de existir escuridão. Analogamente, se Kṛṣṇa encontra-Se presente na mente, não é possível que a influência de māyā a agite. O processo ióguico de negar todos os pensamentos materiais não é a solução. Tentar criar um vazio na mente é artificial. O vazio não permanecerá. Porém, se sempre pensarmos em Kṛṣṇa e em como servi-lO melhor, nossa mente será controlada naturalmente.
De forma similar, a ira pode ser controlada. Não podemos parar com a ira por completo, mas, se nos irritamos apenas com aqueles que blasfemam o Senhor ou os devotos do Senhor, podemos, através do processo da consciência de Kṛṣṇa, controlar nossa ira. O Senhor Caitanya Mahāprabhu ficou irado com os irmãos heréticos Jagāi e Mādhāi, que blasfemaram e feriram Nityānanda Prabhu. Em Seu Śikṣāṣṭaka, o Senhor Caitanya escreveu que tṛṇād api sunīcena taror api sahiṣṇunā: “Devemos ser mais humildes que a grama e mais tolerantes que a árvore”. Pode ser, então, que se pergunte por que o Senhor manifestou Sua ira. O importante é que devemos estar dispostos a tolerar todos os insultos contra nossa própria pessoa, mas, quando Kṛṣṇa ou Seu devoto puro são blasfemados, um devoto genuíno se zanga e atua como o fogo contra os ofensores. Não podemos parar com krodha, a ira, mas podemos aplicá-la corretamente. Foi com raiva que Hanuman incendiou Laṅkā, mas ele é adorado como o maior devoto do Senhor Rāmacandra. Isto quer dizer que ele utilizou sua ira de maneira correta. Arjuna serve como outro exemplo. Ele não desejava lutar, mas Kṛṣṇa incitou-lhe a ira: “Tens de lutar!” Não é possível lutar sem ira. Entretanto, a ira é controlada quando utilizada a serviço do Senhor.
Quanto aos impulsos da língua, todos nós temos experiência de que a língua quer comer pratos saborosos. De um modo geral, não devemos permitir que a língua coma de acordo com a sua escolha, senão que devemos controlá-la, fornecendo-lhe prasāda. A atitude do devoto é que ele só comerá quando Kṛṣṇa lhe der prasāda. É assim que se controla o impulso da língua. Deve-se comer prasāda em horas marcadas e não se deve comer em restaurantes nem confeitarias simplesmente para satisfazer os caprichos da língua ou do estômago. Se nos mantivermos fiéis ao princípio de apenas comer prasāda, os impulsos do estômago e da língua poderão ser controlados.
De forma semelhante, os impulsos dos órgãos genitais, o desejo sexual, podem ser controlados quando não são usados desnecessariamente. Os órgãos genitais devem ser usados para gerar uma criança consciente de Kṛṣṇa. Caso contrário, não devem ser usados. O movimento da consciência de Kṛṣṇa estimula o casamento, não para a satisfação dos órgãos genitais, mas para a geração de filhos conscientes de Kṛṣṇa. Quando as crianças crescem um pouco, elas são mandadas para as nossas escolas Gurukula, onde são educadas para que possam se tornar devotos plenamente conscientes de Kṛṣṇa. São necessárias muitas de tais crianças conscientes de Kṛṣṇa, de modo que uma pessoa capaz de gerar uma prole consciente de Kṛṣṇa tem a permissão de utilizar seus órgãos genitais.
Quando uma pessoa adquire bastante experiência dos métodos de controle consciente de Kṛṣṇa, ela pode se habilitar para ser um mestre espiritual genuíno.
Em sua explicação Anuvṛtti ao Upadeśāmṛta, Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura escreve que nossa identificação material cria três classes de impulsos - o impulso de falar, o impulso ou as exigências da mente e as exigências do corpo. Quando uma entidade viva cai vítima destas três classes de impulsos, sua vida se torna pouco auspiciosa. Uma pessoa que treina a resistência a essas exigências ou impulsos chama-se tapasvī, ou “aquele que prática austeridades”. Com tal tapasya, pode-se superar a opressão imposta pela energia material, a potência externa da Suprema Personalidade de Deus.
Quando comentamos em relação ao desejo de falar, referimo-nos à conversa inútil, como, por exemplo, as conversas dos filósofos māyāvādīs impersonalistas, ou das pessoas ocupadas em atividades fruitivas (tecnicamente chamadas karma-kāṇḍa), ou dos materialistas que querem simplesmente gozar a vida sem restrições. Todas estas conversas ou textos são demonstrações práticas do desejo de falar. Há muitas pessoas falando despropositadamente e escrevendo muitos volumes de livros inúteis, e tudo isto é o resultado do desejo de falar. Para que neutralizemos esta tendência, devemos desviar nossa conversa para o tema “Kṛṣṇa”. Explica-se isto no Śrīmad-Bhāgavatam (1.5.10-11):
na yad vacaś citra-padaṁ harer yaśo
jagat-pavitraṁ pragṛṇīta karhicit
tad vāyasaṁ tīrtham uśanti mānasā
na yatra haṁsā niramanty uśik-kṣayāḥ
jagat-pavitraṁ pragṛṇīta karhicit
tad vāyasaṁ tīrtham uśanti mānasā
na yatra haṁsā niramanty uśik-kṣayāḥ
“As pessoas santas consideram que as palavras que não descrevem as glórias do Senhor, o qual é a única pessoa que pode santificar a atmosfera de todo o universo, são como um lugar de peregrinação para corvos. Uma vez que as pessoas plenamente perfeitas são habitantes da morada transcendental, elas não sentem prazer num lugar como esse.”
tad-vāg-visargo janatāgha-viplavo
yasmin prati-ślokam abaddhavaty api
nāmāny anantasya yaśo ’ṅkitāni yat
śṛṇvanti gāyanti gṛṇanti sādhavaḥ
yasmin prati-ślokam abaddhavaty api
nāmāny anantasya yaśo ’ṅkitāni yat
śṛṇvanti gāyanti gṛṇanti sādhavaḥ
“Por outro lado, a literatura que é repleta de descrições das glórias transcendentais do nome, da fama, das formas, dos passatempos, etc. do ilimitado Senhor Supremo, é uma criação diferente, plena de palavras transcendentais voltadas para o objetivo de provocar uma revolução nas vidas ímpias da desorientada civilização deste mundo. Tais textos transcendentais, mesmo que compostos imperfeitamente, são ouvidos, cantados e aceitos por homens purificados, que são inteiramente honestos.”
A conclusão a que chegamos é que só podemos nos abster da conversa inútil e sem propósito quando conversamos a respeito do serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus. Devemos nos esforçar sempre por usar nossa capacidade de falar tendo como objetivo exclusivo a compreensão da consciência de Kṛṣṇa.
Quanto às agitações da mente oscilante, estas se dividem em duas categorias. A primeira chama-se avirodha-prīti, ou apego irrestrito, e a outra se chama virodha-yukta-krodha, a ira que resulta da frustração. A adesão à filosofia dos māyāvādīs, a crença nos resultados fruitivos dos karma-vādīs e em planos baseados em desejos materialistas se chama avirodha-prīti. De um modo geral, os jñānīs, os karmīs e os planejadores materialistas atraem a atenção das almas condicionadas, mas, quando não conseguem realizar seus planos e quando esses planos são frustrados, esses materialistas ficam irados. A frustração dos desejos materiais produz a ira.
De forma semelhante, as exigências do corpo podem ser divididas em três categorias - as exigências da língua, do estômago e dos órgãos genitais. Podemos observar que, no que diz respeito ao corpo, estes três sentidos se situam fisicamente numa linha reta, e que as exigências corpóreas começam com a língua. Se alguém consegue restringir as exigências da língua, limitando suas atividades ao comer de prasāda, os impulsos do estômago e dos órgãos genitais podem ser controlados de maneira automática. A este respeito, Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura diz:
śarīra avidyā jāla, jaḍendriya tāhe kāla,
jīve phele viṣaya-sāgare
tā’ra madhye jihvā ati, lobhamāyā sudurmati,
tā’ke jetā kaṭhina saṁsāre
jīve phele viṣaya-sāgare
tā’ra madhye jihvā ati, lobhamāyā sudurmati,
tā’ke jetā kaṭhina saṁsāre
kṛṣṇa baḍa dayāmaya, karibāre jihvā jaya,
sva-prasāda-anna dila bhāi
sei annāmṛta khāo, rādhā-kṛṣṇa-guṇa gāo,
preme ḍāka caitanya-nitāi
sva-prasāda-anna dila bhāi
sei annāmṛta khāo, rādhā-kṛṣṇa-guṇa gāo,
preme ḍāka caitanya-nitāi
“Ó Senhor! Este corpo material é um monte de ignorância, e os sentidos são uma rede de caminhos que conduzem à morte. De alguma forma, caímos no oceano do gozo material dos sentidos, e de todos os sentidos a língua é o mais voraz e incontrolável. Neste mundo, é muito difícil conquistar a língua, mas Tu, querido Kṛṣṇa, és muito bondoso conosco. Mandas esta prasāda gostosa para nos ajudar a conquistar a língua; por isso, tomemos esta prasāda para nossa plena satisfação e glorifiquemos Suas Onipotências Śrī Śrī Rādhā e Kṛṣṇa, e, com amor, invoquemos a ajuda do Senhor Caitanya e Prabhu Nityānanda.”
Existem seis espécies de rasas (sabores), e, se uma pessoa se deixa agitar por qualquer um deles, ela se vê dominada pelos impulsos da língua. Algumas pessoas se sentem atraídas pelo comer de carne, peixes, caranguejos, ovos e outras coisas produzidas por sêmen e sangue e comidas sob a forma de cadáveres. Há outras que se sentem atraídas por comer legumes, verduras, espinafre ou produtos lácteos, mas tudo para a satisfação das exigências da língua. As pessoas conscientes de Kṛṣṇa devem abandonar tal comer que visa ao gozo dos sentidos - incluindo o uso de quantidades extras de condimentos, como pimenta e tamarindo. Muitos se entregam ao uso de haritakī, nozes de betel, diversos condimentos usados para se fazer pan, tabaco, LSD, maconha, ópio, álcool, café e chá a fim de satisfazerem exigências ilícitas. Se pudermos nos treinar a aceitar apenas os restos do alimento oferecido a Kṛṣṇa, será possível livrarmo-nos da opressão imposta por māyā. Legumes, cereais, frutas, produtos lácteos e água são alimentos apropriados para se oferecer ao Senhor, como prescreve o próprio Senhor Kṛṣṇa. Entretanto, se alguém aceita prasāda só por causa de seu gosto saboroso e, desta maneira, come em excesso, também cai vítima de tentar satisfazer as exigências da língua. Śrī Caitanya Mahāprabhu nos ensinou a evitar pratos muito saborosos, mesmo no caso de estarmos comendo prasāda. Se oferecemos pratos saborosos à Deidade com a intenção de comer essa comida gostosa, vemo-nos envolvidos em tentar satisfazer às exigências da língua. Se aceitamos o convite de um homem rico com a intenção de receber alimentos gostosos, também estamos tentando satisfazer as exigências da língua. O Caitanya-Caritāmṛta (Antya 6.227) declara:
jihvāra lālase yei iti-uti dhāya
śiśnodara-parāyaṇa kṛṣṇa nāhi pāya
śiśnodara-parāyaṇa kṛṣṇa nāhi pāya
“Quem corre daqui para ali, tentando satisfazer seu paladar, e vive apegado aos desejos de seu estômago e órgãos genitais, não é capaz de alcançar Kṛṣṇa.”
Como se declarou anteriormente, a língua, o estômago e os órgãos genitais estão todos situados numa linha reta, sendo classificados dentro da mesma categoria. O Senhor Caitanya diz bhāla nā khāibe āra bhāla nā paribe: “Não se vestir luxuosamente e não comer alimentos deliciosos”. (Cc. Antya 6.236)
Aqueles que sofrem de doenças do estômago não conseguem controlar os impulsos da barriga, pelo menos de acordo com esta análise. Ao desejarmos comer mais do que o necessário, criamos automaticamente muitas inconveniências em nossa vida. Contudo, se observamos dias de jejum como o Ekādaśī e o Janmāṣṭamī, podemos restringir as exigências do estômago.
Quanto aos impulsos dos órgãos genitais, existem dois – o próprio e o impróprio, ou o sexo legal e o ilícito. Um homem devidamente maduro pode se casar segundo as regras e regulações dos śastras e usar seus órgãos genitais para gerar bons filhos. Isto é legal e religioso. De outro modo, ele poderá adotar muitos meios artificiais para satisfazer as exigências dos órgãos genitais e pode ser que não se sujeite a nenhuma restrição. Uma pessoa que se entrega à vida sexual ilícita, como definem os śastras, seja por pensar, por planejar, por comentar, ou por realmente ter relações sexuais, ou por satisfazer os órgãos genitais por intermédio de meios artificiais, fica presa nas garras de māyā. Estas instruções se aplicam não apenas aos chefes de família, como também aos tyāgīs, ou aqueles que se encontram na ordem de vida renunciada. Em seu livro Prema-vivarta, Capítulo Sete, Śrī Jagadānanda Paṇḍita diz:
vairāgī bhāi grāmya-kathā nā śunibe kāne
grāmya-vārtā nā kahibe yabe milibe āne
svapane o nā kara bhāi strī-sambhāṣaṇa
gṛhe strī chāḍiyā bhāi āsiyācha vana
yadi cāha praṇaya rākhite gaurāṅgera sane
choṭa haridāsera kathā thāke yena mane
bhāla nā khāibe āra bhāla nā paribe
hṛdayete rādhā-kṛṣṇa sarvadā sevibe
grāmya-vārtā nā kahibe yabe milibe āne
svapane o nā kara bhāi strī-sambhāṣaṇa
gṛhe strī chāḍiyā bhāi āsiyācha vana
yadi cāha praṇaya rākhite gaurāṅgera sane
choṭa haridāsera kathā thāke yena mane
bhāla nā khāibe āra bhāla nā paribe
hṛdayete rādhā-kṛṣṇa sarvadā sevibe
“Meu querido irmão, estás na ordem de vida renunciada e não deves ouvir conversas sobre coisas mundanas comuns, nem deves conversar a respeito de coisas mundanas ao te encontrares com outras pessoas. Não penses em mulheres nem sequer em sonhos. Aceitaste a ordem de vida renunciada com um voto que proíbe de te associares com mulheres. Se desejas associar-te com Caitanya Mahāprabhu, lembra-te sempre do incidente de Choṭa Haridāsa e de como o Senhor o rejeitou. Não comas pratos luxuosos nem te vistas com roupas finas, mas permanece sempre humilde e serve a Suas Onipotências Śrī Śrī Rādhā-Kṛṣṇa no fundo de teu coração.”
Em conclusão, quem pode controlar estes seis itens - a fala, a mente, a ira, a língua, o estômago e os órgãos genitais - deve ser considerado um svāmī, ou gosvāmī. Svāmī quer dizer “senhor”, e gosvāmī significa “o senhor dos go”, ou sentidos. Aquele que aceita a ordem de vida renunciada assume automaticamente o título de svāmī. Isto não quer dizer que ele é o senhor de sua família, comunidade ou sociedade; ele tem de ser o senhor de seus sentidos. Quem não é senhor de seus sentidos não deve ser chamado de gosvāmī, mas sim de go-dāsa, ou seja, servo dos sentidos. Seguindo os passos dos Seis Gosvāmīs de Vṛndāvana, todos os svamīs ou gosvāmīs devem ocupar-se plenamente no transcendental serviço amoroso ao Senhor. Em oposição a isto, os go-dāsas se dedicam a serviço dos sentidos ou a serviço do mundo material. Esta é a sua única ocupação. Prahlāda Mahārāja descreve ainda o go-dāsa como adānta-go, isto é, alguém cujos sentidos não estão controlados. Um adānta-go não pode tornar-se servo de Kṛṣṇa. No Śrīmad-Bhāgavatam (7.5.30), Prahlāda Mahārāja diz:
matir na kṛṣṇe parataḥ svato vā
mitho ’bhipadyeta gṛha-vratānām
adānta-gobhir viśatāṁ tamisraṁ
punaḥ punaś carvita-carvaṇānām
mitho ’bhipadyeta gṛha-vratānām
adānta-gobhir viśatāṁ tamisraṁ
punaḥ punaś carvita-carvaṇānām
“Para aqueles que decidem continuar sua existência neste mundo material a fim de satisfazerem seus sentidos, não há possibilidade de que se tornem conscientes de Kṛṣṇa, nem através do esforço pessoal, nem por meio da instrução de outros, tampouco por conferências conjuntas. Eles são arrastados pelos sentidos desenfreados para a mais escura região da ignorância e, assim, ocupam-se loucamente no que se chama ‘mastigar o mastigado’.”
Devanagari
अत्याहारः प्रयासश्च प्रजल्पो नियमाग्रहः ।
जनसङ्गश्च लौल्यं च षड्भिर्भक्तिर्विनश्यति ॥ २ ॥
जनसङ्गश्च लौल्यं च षड्भिर्भक्तिर्विनश्यति ॥ २ ॥
Verse text
atyāhāraḥ prayāsaś ca
prajalpo niyamāgrahaḥ
jana-saṅgaś ca laulyaṁ ca
ṣaḍbhir bhaktir vinaśyati
prajalpo niyamāgrahaḥ
jana-saṅgaś ca laulyaṁ ca
ṣaḍbhir bhaktir vinaśyati
Synonyms
ati-āhāraḥ — comer em demasia ou arrecadar em demasia; prayāsaḥ — esforçar-se excessivamente; ca — e; prajalpaḥ — conversa inútil; niyama — regras e regulações; āgrahaḥ — demasiado apego a (ou agrahaḥ - demasiado desprezo a); jana-saṅgaḥ — associação com pessoas de mentalidade mundana; ca — e; laulyam — desejo ardente ou cobiça; ca — e; ṣaḍbhiḥ — por essas seis; bhaktiḥ — serviço devocional; vinaśyati — é destruído.
Translation
Tem seu serviço devocional destruído aquele que se envolve demais nas seis seguintes atividades: (1) comer mais do que o necessário ou arrecadar mais fundos do que o essencial; (2) esforçar-se em demasia por conseguir coisas mundanas que sejam muito difíceis de obter; (3) conversar desnecessariamente a respeito de assuntos mundanos; (4) praticar as regras e regulações das escrituras só por segui-las e não pelo avanço espiritual, ou rejeitar as regras e regulações das escrituras e trabalhar independente ou caprichosamente; (5) associar-se com pessoas de mentalidade mundana, que não estão interessadas na consciência de Kṛṣṇa; e (6) estar ávido por realizações mundanas.
Purport
A vida humana foi feita para que se possa viver de maneira simples com o pensamento elevado. Como todos os seres vivos condicionados estão sob o controle da terceira energia do Senhor, este mundo material é planejado de tal forma que todos são obrigados a trabalhar. A Suprema Personalidade de Deus tem três energias, ou potências básicas. A primeira se chama antaraṅga-śakti, ou potência interna. A segunda se denomina taṭastha-śakti, ou potência marginal. A terceira é chamada bahiraṅga-śakti, ou potência externa. As entidades vivas constituem a potência marginal, estando situadas entre as potências interna e externa. Sendo subordinadas na sua qualidade de servas eternas da Suprema Personalidade de Deus, as jīvātmās, ou entidades vivas atômicas, tem de permanecer sob o controle ou da potência interna ou da potência externa. Quando estão sob o controle da energia interna, manifestam sua atividade ocupacional natural – isto é, a ocupação constante no serviço devocional ao Senhor. Afirma-se isto no Bhagavad-gītā (9.13):
mahātmānas tu māṁ pārtha
daivīṁ prakṛtim āśritāḥ
bhajanty ananya-manaso
jñātvā bhūtādim avyayam
daivīṁ prakṛtim āśritāḥ
bhajanty ananya-manaso
jñātvā bhūtādim avyayam
“Ó filho de Pṛthā, aqueles que não se iludem, as grandes almas, estão sob a proteção da natureza divina. Eles se ocupam completamente em serviço devocional, pois sabem que Eu sou a original e inexaurível Suprema Personalidade de Deus.”
A palavra mahātmā se refere àqueles que são atinados, de mente aberta, e não àqueles de mente limitada. Estes, sempre ocupados em satisfazer os sentidos, às vezes expandem suas atividades a fim de fazer o bem aos outros por meio de algum “ismo” como, por exemplo, o nacionalismo, o humanitarismo ou o altruísmo. Pode ser que rejeitem a satisfação pessoal dos sentidos em nome da satisfação dos sentidos de outras pessoas, como, por exemplo, os membros de sua família, comunidade ou sociedade - seja nacional, seja internacional. Na realidade, tudo isto é gozo dos sentidos estendido, do pessoal ao comunal e ao social. Do ponto de vista material, isto pode parecer muito bom, mas semelhantes atividades não têm nenhum valor espiritual. A base de tais atividades é o gozo dos sentidos, ou pessoal ou estendido. Uma pessoa só pode ser chamada de mahātmā, ou atinada, de mente aberta, quando satisfaz os sentidos do Senhor Supremo.
No verso supracitado do Bhagavad-gītā, as palavras daivīṁ prakṛtim se referem ao controle exercido pela potência interna, ou potência de prazer, da Suprema Personalidade de Deus. Esta potência de prazer se manifesta como Śrīmatī Rādhārāṇī, ou Sua expansão, Lakṣmī, a deusa da fortuna. Quando as almas jīvas individuais se encontram sob o controle da energia interna, seu único interesse é satisfazer a Kṛṣṇa, ou Viṣṇu. Esta é a posição do mahātmā. Quem não é mahātmā é durātmā, ou limitado mentalmente. Tais durātmās mentalmente atrofiados são colocados sob o controle da energia externa do Senhor, mahāmāyā.
De fato, todas as entidades vivas neste mundo material estão sob o controle de mahāmāyā, cuja ocupação é sujeitá-las à influência das três espécies de misérias: adhidaivika-kleśa (sofrimentos provocados pelos semideuses, tais como: secas, terremotos e tempestades), adhibhautika-kleśa (sofrimentos provocados por outras entidades vivas, tais como: insetos ou inimigos) e adhyātmika-kleśa (sofrimentos provocados por nosso próprio corpo e mente, tais como: as doenças mentais e físicas). Daiva-bhūtātma-hetavaḥ: as almas condicionadas, sujeitas a estas três misérias, por intermédio do controle exercido pela energia externa, passam por diversas dificuldades.
O principal problema enfrentado pelas almas condicionadas é a repetição de nascimento, velhice, doença e morte. No mundo material, é preciso trabalhar para o sustento do corpo e da alma, mas como é que se pode realizar tal trabalho de maneira que seja favorável para a execução da consciência de Kṛṣṇa? Todos necessitam de posses, como grãos alimentícios, roupas, dinheiro e outras coisas necessárias para o sustento do corpo. Porém, não se deve arrecadar mais do que o necessário para as reais necessidades básicas. Se seguirmos este princípio natural, não teremos dificuldades em manter o corpo.
De acordo com o arranjo da natureza, as entidades vivas inferiores na escala evolutiva não comem nem arrecadam mais do que o necessário. Consequentemente, de um modo geral, não há problema econômico nem escassez de necessidades no reino animal. Se um saco de arroz é colocado num logradouro público, os pássaros vêm, comem alguns grãos e vão embora. Um ser humano, porém, vem e leva consigo todo o saco. Ele comerá até não poder mais e depois tentará armazenar o resto em algum lugar. De acordo com as escrituras, esta arrecadação em excesso sobre o necessário (atyāhāra) é proibida. Hoje em dia, o mundo inteiro sofre por causa disto.
Arrecadar e comer mais do que o necessário também provocam prayāsa, ou esforço desnecessário. Segundo os desígnios de Deus, qualquer pessoa em toda parte do mundo pode viver mui pacificamente caso tenha uma terra e uma vaca leiteira. Para que o homem ganhe a vida, não é necessário mudar de um lugar para outro, pois ele pode produzir grãos alimentícios em sua própria terra e obter o leite das vacas. Isto pode resolver todos os problemas econômicos. Felizmente, o homem é dotado de inteligência superior para cultivar a consciência de Kṛṣṇa, ou seja, compreender Deus, sua relação com Ele e o objetivo último da vida: o amor a Deus. Infelizmente, o dito homem civilizado, não lhe importando compreender Deus, utiliza sua inteligência para obter mais do que o necessário e comer só para satisfazer a língua. Segundo os desígnios de Deus, há campo de ação suficiente para a produção de leite e cereais para os seres humanos em todo o mundo. Porém, em vez de utilizarem sua inteligência superior para cultivarem a consciência de Deus, os assim chamados homens astutos utilizam incorretamente a sua inteligência e produzem muitas coisas desnecessárias e indesejadas. Deste modo, abrem-se fábricas, matadouros, bordéis e lojas de bebidas. Ao serem aconselhadas a não arrecadarem bens em demasia, a não comerem em excesso ou a não trabalharem desnecessariamente visando conseguir amenidades artificiais, as pessoas pensam que estão sendo recomendadas a voltar a um modo de vida primitivo. Geralmente, ninguém gosta da ideia de viver uma vida simples com um pensamento elevado. Esta é a posição desafortunada em que se encontram as pessoas.
A vida humana é destinada à compreensão de Deus, sendo o ser humano dotado de inteligência superior para este propósito. Quem acredita que esta inteligência elevada foi feita para se alcançar um estado superior, deve seguir as instruções dos textos védicos. Adotando tais instruções da parte de autoridades superiores, a pessoa pode realmente situar-se em conhecimento perfeito e dar um sentido verdadeiro à vida.
No Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.9), Śrī Sūta Gosvāmī descreve o dharma humano correto desta maneira:
dharmasya hy āpavargyasya
nārtho ’rthāyopakalpate
nārthasya dharmaikāntasya
kāmo lābhāya hi smṛtaḥ
nārtho ’rthāyopakalpate
nārthasya dharmaikāntasya
kāmo lābhāya hi smṛtaḥ
“Todos os compromissos ocupacionais [dharma] se destinam, certamente, à liberação última. Nunca devem ser executados em troca de ganhos materiais. Além disso, uma pessoa que se dedique ao serviço ocupacional último [dharma] nunca deve utilizar seus ganhos materiais para cultivar o gozo dos sentidos.”
O primeiro passo na civilização humana consiste nos compromissos ocupacionais realizados segundo os preceitos das escrituras. O ser humano deve treinar sua inteligência superior para poder compreender o dharma básico. Na sociedade humana, há vários conceitos religiosos, caracterizados como hindu, cristão, judeu, muçulmano, budista e assim por diante, pois, sem religião, a sociedade humana não passa de sociedade animal.
Como se declarou anteriormente (dharmasya hy āpavargyasya nārtho ‘rthāyopakalpate), o objetivo da religião é alcançar a emancipação, e não conseguir pão. Às vezes, a sociedade humana cria um sistema de pseudorreligião voltado para o avanço material, mas isso está distante do objetivo do dharma verdadeiro. Religião implica em compreender as leis de Deus, porque, em última análise, é a execução correta destas leis que livra alguém do enredamento material. É este o verdadeiro objetivo da religião. Infelizmente, as pessoas aceitam a religião em troca de prosperidade material devido ao atyāhāra, ou desejo excessivo de obter tal prosperidade. A verdadeira religião, no entanto, instrui as pessoas a ficarem saciadas com as necessidades básicas da vida, enquanto cultivam a consciência de Kṛṣṇa. Embora necessitemos de desenvolvimento econômico, a religião verdadeira permite tal desenvolvimento apenas para o suprimento das necessidades mínimas da existência material. Jīvasya tattva jijñāsā: o real objetivo da vida é indagar a respeito da Verdade Absoluta. Se não empregarmos nosso esforço (prayāsa) em indagar a respeito da Verdade Absoluta, simplesmente aumentaremos nosso empenho em satisfazer nossas necessidades artificiais. Um aspirante ao caminho espiritual deve evitar o esforço mundano.
Outro obstáculo é a prajalpa: a conversa desnecessária. Numa reunião entre amigos, começamos imediatamente a falar sobre coisas dispensáveis, que soam como o coaxar dos sapos. Se temos que conversar, devemos fazê-lo sobre o movimento da consciência de Kṛṣṇa. Aqueles que não estão no movimento da consciência de Kṛṣṇa se interessam em ler uma porção de jornais, revistas e romances, em preencher palavras cruzadas e em muitas outras coisas sem propósito. Dessa maneira, as pessoas simplesmente desperdiçam seu tempo e energia valiosos. Nos países ocidentais, os idosos aposentados jogam cartas, pescam, assistem televisão e discutem sobre inúteis esquemas sócio-políticos. Todas estas e outras atividades frívolas estão incluídas na categoria de prajalpa. Pessoas inteligentes e interessadas na consciência de Kṛṣṇa não devem participar em tais atividades.
Jana-saṅga se refere à associação com pessoas que não estão interessadas na consciência de Kṛṣṇa. Devemos evitar estritamente tal associação. É por isso que Śrīla Narottama dāsa Ṭhākura nos aconselha a só viver na companhia de devotos conscientes de Kṛṣṇa (bhakta-sane vāsa). Devemos sempre ocupar-nos no serviço ao Senhor na companhia de devotos dEle. O contato com pessoas ocupadas numa especialidade semelhante de trabalho é muito conducente para o avanço neste. Consequentemente, os materialistas criam diversas associações e clubes para intensificar seus esforços. No mundo dos negócios, por exemplo, encontramos instituições, como a bolsa de valores e a câmara de comércio. De forma semelhante, estabelecemos a Sociedade Internacional Para a Consciência de Krishna com o propósito de dar às pessoas a oportunidade de se associarem com aqueles que não se esqueceram de Kṛṣṇa. Esta associação espiritual oferecida por nosso movimento da ISKCON tem aumentado dia a dia. Muitas pessoas de diferentes partes do mundo estão aderindo a esta Sociedade para despertar sua adormecida consciência de Kṛṣṇa.
Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura escreve em seu comentário Anuvṛtti que o esforço em demasia feito por especuladores mentais ou filósofos secos para adquirir conhecimento se enquadra na categoria de atyāhāra (arrecadar mais do que o necessário). Segundo o Śrīmad-Bhāgavatam, o esforço feito por especuladores filosóficos ao escreverem volumes de livros sobre filosofia insípida, desprovida de consciência de Kṛṣṇa, é inteiramente fútil. O trabalho de karmīs que escrevem volumes de livros sobre desenvolvimento econômico também se enquadra na categoria de atyāhāra. De modo semelhante, aqueles que não têm desejo de alcançar a consciência de Kṛṣṇa e cujo único interesse é possuir coisas materiais de maneira crescente, seja sob a forma de conhecimento científico ou lucro monetário, estão todos incluídos na categoria de atyāhāra.
Os karmīs se esforçam para acumular cada vez mais dinheiro para as gerações futuras só porque não sabem qual posição terão no futuro. Interessados apenas em conseguir cada vez mais recursos financeiros para seus filhos e netos, tais pessoas tolas nem sequer sabem qual será sua posição na próxima vida. Há muitos incidentes que ilustram este fato. Certa vez, um karmī eminente acumulou vasta fortuna para seus filhos e netos, mas, posteriormente, de acordo com seu karma, ele nasceu na casa de um sapateiro, localizada próxima ao prédio que, em sua vida anterior, construíra para seus filhos. Então, quando este mesmo sapateiro apareceu em sua antiga casa, seus filhos e netos anteriores espancaram-no com seus sapatos. Se não se interessarem pela consciência de Kṛṣṇa, os karmīs e jñānīs simplesmente continuarão desperdiçando suas vidas com atividades infrutíferas.
Aceitar algumas das regras e regulações das escrituras em troca de benefício imediato, como advogam os partidários do utilitarismo, chama-se niyama-āgraha. Menosprezar as regras e regulações dos śastras, que se destinam ao desenvolvimento espiritual, chama-se niyama-agraha. A palavra āgraha significa “ansiedade por aceitar”, e agraha, “deixar de aceitar”. Adicionando-se qualquer uma dessas duas palavras à palavra niyama (“regras e regulações”), forma-se a palavra niyamāgraha. Assim, niyamā-graha tem um significado duplo, que é compreendido conforme as palavras forem combinadas. As pessoas interessadas na consciência de Kṛṣṇa não devem ansiar por aceitar as regras e regulações em troca de avanço econômico. Porém, devem aceitar com muita fé as regras e regulações das escrituras, visando o avanço em consciência de Kṛṣṇa. Necessitam seguir estritamente os princípios reguladores, evitando o sexo ilícito, o consumo de carne, o jogo de azar e a intoxicação.
Deve-se, também, evitar a associação com māyāvādīs, que só blasfeman os vaiṣṇavas (devotos). Os bhukti-kāmīs, interessados em felicidade material, os mukti-kāmīs, que desejam se libertar se fundindo na existência do Absoluto (Brahman) sem forma, e os siddhi-kāmīs, que desejam a perfeição na prática do yoga místico, são classificados com atyāhārīs. Associar-se com pessoas desse tipo não é absolutamente desejável.
Os desejos de expandir a mente com o aperfeiçoamento do yoga místico, com a fusão na existência do Brahman ou com a consecução de prosperidade material caprichosa estão todos incluídos na categoria da cobiça (laulya). Todas as tentativas de adquirir tais benefícios materiais ou um suposto avanço espiritual constituem obstáculos no caminho da consciência de Kṛṣṇa.
A guerra moderna travada entre capitalistas e comunistas* se deve ao fato deles evitarem o conselho de Śrīla Rūpa Gosvāmī com relação à atyāhāra. Os capitalistas modernos acumulam mais bens do que os necessários, e os comunistas, invejosos de sua prosperidade, querem nacionalizar todos os bens e toda a propriedade. Infelizmente, os comunistas não sabem como resolver o problema da riqueza e sua distribuição. Em consequência disto, quando a riqueza dos capitalistas cai nas mãos dos comunistas, não se chega a nenhuma resolução. Em oposição a estas duas filosofias, a ideologia consciente de Kṛṣṇa declara que toda a riqueza pertence a Kṛṣṇa. Assim, a menos que ela seja administrada por Kṛṣṇa, não pode haver solução para o problema econômico da humanidade. Não é colocando a riqueza nas mãos dos comunistas ou dos capitalistas que vai se resolver alguma coisa. Se uma cédula de cem dólares cair na rua, alguém poderá pegá-la e colocá-la em seu bolso. Uma pessoa assim não é honesta. Outra pessoa verá o dinheiro e decidirá deixá-lo ali, considerando que não deve tocar na propriedade alheia. Apesar desta segunda pessoa não roubar o dinheiro para seus próprios fins, ela não sabe como usá-lo adequadamente. Uma terceira pessoa, ao avistar a nota, poderá pegá-la, encontrar a pessoa que a perdeu e entregar-lhe o dinheiro. Este indivíduo não rouba o dinheiro para gastar consigo mesmo, nem o despreza, deixando-o jogado na rua. Pelo fato de pegá-lo e entregá-lo a quem o perdeu, esta pessoa é tanto honesta quanto sábia.
O simples ato de transferir a riqueza dos capitalistas para os comunistas não pode resolver o problema da política moderna, pois tem sido demonstrado que quando um comunista consegue dinheiro ele o usa para o gozo de seus próprios sentidos. Na realidade, a riqueza do mundo pertence a Kṛṣṇa, e cada entidade viva, homem ou animal, tem o direito inato de usar a propriedade de Deus para o seu sustento. Quem pega mais do que requer o seu sustento, seja ele capitalista ou comunista, é um ladrão e, como tal, fica sujeito a ser castigado pelas leis da natureza.
A riqueza do mundo deve ser utilizada para o bem-estar de todas as entidades vivas, pois este é o plano da Mãe Natureza. Todos têm o direito de viver se valendo da riqueza do Senhor. Quando os homens aprenderem a arte de como utilizar cientificamente a propriedade do Senhor, não irão mais usurpar os direitos mútuos. Então, poderá se formar uma sociedade ideal. O princípio básico para uma sociedade espiritual deste tipo é estabelecido no primeiro mantra do Śrī Īśopaniṣad:
īśāvāsyam idaṁ sarvaṁ
yat kiñca jagatyāṁ jagat
tena tyaktena bhuñjīthā
mā gṛdhaḥ kasya svid dhanam
yat kiñca jagatyāṁ jagat
tena tyaktena bhuñjīthā
mā gṛdhaḥ kasya svid dhanam
“Todas as coisas animadas ou inanimadas existentes no Universo são controladas pelo Senhor e Lhe pertencem. Deve-se, portanto, aceitar apenas as coisas que são necessárias, que são reservadas como a sua cota, não devendo aceitar outras coisas, sabendo bem a quem pertencem.”
Os devotos conscientes de Kṛṣṇa sabem muito bem que este mundo material é projetado pelo arranjo perfeito do Senhor de modo a satisfazer todas as necessidades da vida de todos os seres vivos, sem que estes precisem usurpar a vida ou o direito uns dos outros. Este arranjo perfeito proporciona o quinhão adequado de riqueza para cada um, de acordo com as suas reais necessidades, e assim todos podem viver em paz em conformidade com o princípio de vida simples com o pensamento elevado. Infelizmente, os materialistas, que não tem fé no plano de Deus, tampouco aspiram ao desenvolvimento espiritual superior, abusam da inteligência que Deus lhes deu e buscam apenas ampliar suas posses materiais. Eles inventam muitos sistemas, tais como o capitalismo e o comunismo materialista, a fim de melhorar sua posição material. Não mostram interesse pelas leis de Deus nem objetivos superiores. Sempre ansiosos por satisfazer seus ilimitados desejos de gozo dos sentidos, eles se destacam pela habilidade em explorar seus semelhantes: os seres vivos.
Se a sociedade humana desistir destes erros elementares enumerados por Śrīla Rūpa Gosvāmī (atyāhāra, etc.), toda a inimizade que existe entre os homens e os animais, os capitalistas e os comunistas, e assim por diante, acabará. Além disso, serão resolvidos todos os problemas de desajuste e instabilidade político-econômicos. Esta consciência pura é desperta com a adequada educação espiritual e práticas, oferecidas cientificamente pelo movimento da consciência de Kṛṣṇa.
Este movimento da consciência de Kṛṣṇa apresenta uma comunidade espiritual que pode trazer uma condição de paz no mundo. Toda pessoa inteligente deve purificar sua consciência e livrar-se dos seis obstáculos ao serviço devocional supracitados, refugiando-se de todo o coração neste movimento da consciência de Kṛṣṇa.
Devanagari
उत्साहान्निश्चयाद्धैर्यात्तत्तत्कर्मप्रवर्तनात् ।
सङ्गत्यागात्सतो वृत्तेः षड्भिर्भक्तिः प्रसिध्यति ॥ ३ ॥
सङ्गत्यागात्सतो वृत्तेः षड्भिर्भक्तिः प्रसिध्यति ॥ ३ ॥
Verse text
utsāhān niścayād dhairyāt
tat-tat-karma-pravartanāt
saṅga-tyāgāt sato vṛtteḥ
ṣaḍbhir bhaktiḥ prasidhyati
tat-tat-karma-pravartanāt
saṅga-tyāgāt sato vṛtteḥ
ṣaḍbhir bhaktiḥ prasidhyati
Synonyms
utsāhāt — com entusiasmo; niścayāt — com confiança; dhairyāt — com paciência; tat-tat-karma — diversas atividades favoráveis à realização do serviço devocional; pravartanāt — com a realização; saṅga-tyāgāt — por abandonar a companhia de não-devotos; sataḥ — dos grandes ācāryas anteriores; vṛtteḥ — por seguir os passos; ṣaḍbhiḥ — por estes seis; bhaktiḥ — serviço devocional; prasidhyati — avança ou se torna bem-sucedido.
Translation
Há seis princípios favoráveis à prática do serviço devocional puro: (1) ser entusiasta, (2) esforçar-se com confiança, (3) ser paciente, (4) agir segundo os princípios reguladores [tais como: śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇam (SB. 7.5.23) - ouvir, cantar e lembrar-se de Kṛṣṇa], (5) abandonar a companhia de não-devotos e (6) seguir os passos dos ācāryas anteriores. Esses seis princípios garantem, indubitavelmente, o pleno êxito do serviço devocional puro.
Purport
O serviço devocional não é uma questão de especulação sentimental ou êxtase imaginativo. Sua essência é a atividade prática. Em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu (1.1.11), Śrīla Rūpa Gosvāmī define o serviço devocional como segue:
anyābhilāṣitā-śūnyaṁ
jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-
śīlanaṁ bhaktir uttamā
jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-
śīlanaṁ bhaktir uttamā
“Uttamā bhakti, ou devoção pura pela Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, implica em se prestar serviço devocional de maneira favorável ao Senhor. Este serviço devocional deve estar livre de qualquer motivação à parte e desprovido de karma fruitivo, de jñāna impessoal e de todos os outros desejos egoístas.”
Bhakti é uma espécie de cultivo. Ao dizermos “cultivo”, referimo-nos necessariamente à atividade. “Cultivar espiritualidade” não significa sentar-se ociosamente para fazer meditações, como ensinam certos pseudo-yogīs Tal meditação ociosa pode ser boa para aqueles que não têm informação sobre o serviço devocional, sendo, por esta razão, recomendada às vezes como uma forma de se conter atividades materialistas distrativas. Meditação significa parar com todas as atividades despropositadas, pelo menos temporariamente. Contudo, o serviço devocional não apenas produz um fim a todas as atividades mundanas e tolas, como também nos ocupa em atividades devocionais significativas. Śrī Prahlāda Mahārāja recomenda:
śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ
smaraṇaṁ pāda-sevanam
arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ
sakhyam ātma-nivedanam
smaraṇaṁ pāda-sevanam
arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ
sakhyam ātma-nivedanam
Nove são os processos de serviço devocional:
1. ouvir o nome e as glórias da Suprema Personalidade de Deus.
2. cantar as Suas glórias.
3. lembrar-se do Senhor.
4. servir aos pés do Senhor.
5. adorar à Deidade.
6. prestar reverências ao Senhor.
7. atuar como servo do Senhor.
8. fazer amizade com o Senhor.
9. render-se plenamente ao Senhor.
Śravaṇaṁ, ou ouvir, é o primeiro passo para adquirir conhecimento transcendental. Não devemos dar ouvidos a pessoas desautorizadas, mas sim aproximar-nos da pessoa correta, como recomenda o Bhagavad-gītā (4.34):
tad viddhi praṇipātena
paripraśnena sevayā
upadekṣyanti te jñānaṁ
jñāninas tattva-darśinaḥ
paripraśnena sevayā
upadekṣyanti te jñānaṁ
jñāninas tattva-darśinaḥ
“Tenta aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Faze-lhe perguntas com submissão e presta-lhe serviço. As almas autorrealizadas podem transmitir-te conhecimento porque viram a verdade.”
Recomenda-se ainda na Muṇḍaka Upaniṣad: tad-vijñānār- thaṁ sa gurum evābhigacchet: “Para compreender esta ciência transcendental, é preciso aproximar-se de um mestre espiritual autêntico”. Deste modo, este método em que se recebe com submissão o confidencial conhecimento transcendental não se baseia meramente na especulação mental. A este respeito, Śrī Caitanya Mahāprabhu disse a Rūpa Gosvāmī:
brahmāṇḍa bhramite kona bhāgyavān jīva
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja
“Enquanto atravessa a criação universal de Brahmā, pode ser que alguma alma afortunada receba a semente de bhakti-latā, a trepadeira do serviço devocional. Tudo isto acontece pela graça do guru e de Kṛṣṇa.” (Cc. Madhya 19.151) O mundo material é uma prisão para as entidades vivas que, por natureza, são ānandamaya, ou seja, que buscam o prazer. Na verdade, elas querem livrar-se do cárcere deste mundo de felicidade condicional, mas, desconhecendo o processo de liberação, são obrigadas a transmigrar de uma espécie de vida para outra e de um planeta para outro. Dessa maneira, as entidades vivas vagueiam pelo universo material. Quando, por boa fortuna, alguém entra em contato com um devoto puro e o ouve com paciência, ele começa a trilhar o caminho do serviço devocional. Uma oportunidade assim é proporcionada a uma pessoa que seja sincera. A Sociedade Internacional Para a Consciência de Krishna está dando tal chance à humanidade em geral. Se, por boa fortuna, alguém tira proveito desta oportunidade de se ocupar em serviço devocional, o caminho da libertação lhe é aberto imediatamente.
Devemos aceitar com muito entusiasmo esta oportunidade de voltar ao lar, ao Supremo. Sem entusiasmo, não se pode ter êxito. Mesmo no mundo material, precisamos ser muito entusiastas em nosso campo particular de atividade para podermos sair exitosos. Um estudante, um homem de negócios, um artista ou qualquer outra pessoa que almeje o êxito em sua atividade têm de ser entusiastas. Similarmente, devemos ser muito entusiastas no serviço devocional. Entusiasmo quer dizer ação. Mas ação para quem? A resposta é que devemos sempre agir para Kṛṣṇa – kṛṣṇārthākhila-ceṣṭā (Bhakti-rasāmṛta-sindhu).
Em todas as fases da vida, devemos executar atividades devocionais sob a orientação do mestre espiritual para atingir a perfeição no bhakti-yoga. Não é que precisemos nos confinar ou limitar nossas atividades. Kṛṣṇa é onipenetrante. Portanto, nada é independente dEle, como o próprio declara no Bhagavad-gītā (9.4):
mayā tatam idaṁ sarvaṁ
jagad avyakta-mūrtinā
mat-sthāni sarva-bhūtāni
na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ
jagad avyakta-mūrtinā
mat-sthāni sarva-bhūtāni
na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ
“Sob Minha forma imanifesta, Eu penetro este Universo inteiro. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles.” Sob a orientação do mestre espiritual genuíno, devemos fazer tudo o que seja favorável ao serviço de Kṛṣṇa. Por exemplo, neste momento estamos usando um ditafone. O materialista que inventou esta máquina planejou-a para que fosse usada por homens de negócios ou escritores de assuntos mundanos. Certamente, ele jamais pensou em usar o ditafone a serviço de Deus. Nós, porém, estamos usando-o para escrever livros sobre a consciência de Kṛṣṇa. Naturalmente, a fabricação dele está totalmente dentro da energia de Kṛṣṇa. Todas as peças do aparelho, incluindo as funções eletrônicas, são feitas a partir de diferentes combinações e interações das cinco espécies básicas de energia material: bhūmi, jala, agni, vāyu e ākāśa. O inventor utilizou-se do cérebro para fazer esta máquina complicada, e seu cérebro, bem como os ingredientes, foram fornecidos por Kṛṣṇa. Segundo a declaração de Kṛṣṇa, mat-sthāni sarva-bhūtāni: “Tudo depende da Minha energia”. Assim, o devoto pode compreender que, como nada é independente da energia de Kṛṣṇa, deve-se encaixar tudo em Seu serviço.
Chama-se utsāha, ou entusiasmo, o esforço realizado com inteligência em consciência de Kṛṣṇa. Os devotos encontram o método correto por meio do qual tudo pode ser utilizado a serviço do Senhor (nirbandhaḥ kṛṣṇa-sambandhe yuktaṁ vairāgyam ucyate). Executar serviço devocional não é meditar ociosamente, mas sim agir de modo prático no primeiro plano da vida espiritual.
Devemos ter paciência ao realizarmos estas atividades. Na consciência de Kṛṣṇa não se deve ser impaciente. De fato, este movimento da consciência de Kṛṣṇa foi iniciado sem nenhuma ajuda, e no princípio não houve resposta. Mas, como continuamos a realizar nossas atividades devocionais com paciência, aos poucos as pessoas começaram a compreender a importância deste movimento e agora participam dele intensamente. No cumprimento do serviço devocional, não devemos ser impacientes, mas devemos aceitar as instruções do mestre espiritual e pô-las em prática com paciência, dependendo da misericórdia do guru e de Kṛṣṇa. Para que a realização das atividades conscientes de Kṛṣṇa seja exitosa, é necessário ter tanto paciência quanto confiança. É natural que uma jovem recém-casada espere ter filhos com seu esposo, só que ela não pode esperar tê-los logo após o casamento. Evidentemente, quando se casar, ela poderá tentar ter um filho, mas terá de se entregar a seu esposo, confiante de que seu filho desenvolver-se-á e nascerá no momento oportuno. Analogamente, em serviço devocional entregar-se significa ter confiança. O devoto pensa que avaśya rakṣibe kṛṣṇa: “Com toda a certeza, Kṛṣṇa vai me proteger e ajudar para que eu saia exitoso no cumprimento do serviço devocional”. Isto é chamado ‘confiança’.
Como já explicado, não se deve ficar inativo, mas sim ser entusiasta por executar os princípios reguladores - tat-tat-karma-pravartana. A negligência aos princípios reguladores destrói o serviço devocional. Neste movimento da consciência de Kṛṣṇa, há quatro princípios reguladores básicos, que proíbem o sexo ilícito, o consumo de carne, os jogos de azar e a intoxicação. O devoto deve seguir estes preceitos com muito entusiasmo. Se ele deixar de seguir qualquer um desses, é certo que terá o seu progresso impedido. Por isso, Śrīla Rūpa Gosvāmī recomenda que tat-tat-karma-pravartanāt: “Deve-se seguir estritamente os princípios reguladores de vaidhī bhakti”. Além das quatro proibições (yama), há princípios reguladores positivos (niyama), como, por exemplo, o cantar diário de dezesseis voltas nas contas da japa-mālā. Devemos realizar estas atividades reguladoras com fé e entusiasmo. Isto se chama tat-tat-karma-pravartana, ou seja, ocupar-se de formas variadas no serviço devocional.
Além disso, para que se tenha êxito no serviço devocional, deve-se abandonar a companhia de pessoas indesejáveis. Isto inclui os karmīs, os jñānīs, os yogīs e outros não-devotos. Certa vez, um dos devotos casados de Śrī Caitanya Mahāprabhu perguntou-Lhe acerca dos princípios gerais do vaishnavismo, bem como sobre as atividades rotineiras do vaiṣṇava, ao que Śrī Caitanya Mahāprabhu respondeu imediatamente que asat-saṅga-tyāga, - ei vaiṣṇava-ācāra: “Caracteristicamente, o vaiṣṇava é aquele que abandona a companhia de pessoas mundanas, ou não-devotos”. Portanto, Śrīla Narottama dāsa Ṭhākura recomenda que tāṅdera caraṇa sevi bhakta-sane vāsa: deve-se viver na companhia de devotos puros e seguir os princípios reguladores estabelecidos pelos ācāryas anteriores, os seis Gosvāmīs (Śrī Rūpa Gosvāmī, Śrī Sanātana Gosvāmī, Śrī Jīva Gosvāmī, Śrī Raghunātha dāsa Gosvāmī, Śrī Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī e Śrī Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī). Se uma pessoa vive na companhia dos devotos, é pouco provável que se associe com não-devotos. A Sociedade Internacional Para a Consciência de Krishna está abrindo muitos centros com o intuito único de convidar as pessoas a viver na companhia dos devotos e praticar os princípios reguladores da vida espiritual.
Serviço devocional quer dizer “atividades transcendentais”. Na plataforma transcendental, a contaminação pelos três modos qualitativos da natureza material não existe. Esta plataforma se chama viśuddha-sattva, a plataforma da bondade pura, ou a bondade livre da contaminação pelas qualidades da paixão e ignorância. Neste movimento da consciência de Kṛṣṇa, pedimos a todos que se levantem de manhã cedo, por volta das quatro horas, que assistam ao maṅgala-ārati, ou seja, à adoração matinal, que, então, leiam o Śrīmad-Bhāgavatam, façam kīrtana e assim por diante. De tal modo, dedicamo-nos continuamente a atividades dentro do serviço devocional, vinte e quatro horas por dia. Isto se chama sato vṛtti: seguir os passos dos ācāryas anteriores que, com perícia, preencheram todos os momentos do dia com atividades conscientes de Kṛṣṇa.
Caso sigamos estritamente o conselho dado por Śrīla Rūpa Gosvāmī neste verso - isto é, se formos entusiastas, confiantes, pacientes, se abandonarmos a companhia de pessoas não desejadas, se seguirmos os princípios reguladores e nos mantivermos na companhia dos devotos não resta dúvida de que avançaremos em serviço devocional. A este respeito, Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura observa que o cultivo de conhecimento por intermédio da especulação filosófica, o acúmulo de opulência mundana por meio do avanço em atividades fruitivas e o desejo de obter yoga-siddhis, perfeições materiais, são contrários aos princípios do serviço devocional. Temos de nos tornar totalmente indiferentes a tais atividades impermanentes e voltar nossa atenção para os princípios reguladores do serviço devocional. Segundo o Bhagavad-gītā (2.69):
yā niśā sarva-bhūtānāṁ
tasyāṁ jāgarti saṁyamī
yasyāṁ jāgrati bhūtāni
sā niśā paśyato muneḥ
tasyāṁ jāgarti saṁyamī
yasyāṁ jāgrati bhūtāni
sā niśā paśyato muneḥ
“Aquilo que é noite para todos os seres é a hora de despertar para o autocontrolado; e a hora de despertar para todos os seres é noite para o sábio introspectivo.”
A ocupação no serviço devocional ao Senhor é a vida e alma da entidade viva. Nela repousa a meta desejada e a perfeição suprema da vida humana. Devemos ter confiança nisto, além da certeza de que, à exceção do serviço devocional, todas as atividades - tais como a especulação mental, o trabalho fruitivo ou o esforço místico - jamais produzirão benefícios duradouros. A plena confiança no caminho do serviço devocional capacitar-nos-á a alcançar o objetivo que almejamos. Mas, se tentarmos trilhar outros caminhos, isto simplesmente nos deixará inquietos. No Sétimo Canto do Śrīmad-Bhāgavatam afirma-se: “Devemos estar calmamente convencidos de que aqueles que desistem do serviço devocional para praticarem rigorosas austeridade com outros fins não têm suas mentes purificadas, a despeito de suas austeridades avançadas, visto que não têm informação acerca do transcendental serviço amoroso ao Senhor”.
No Sétimo Canto, declara-se ainda: “Apesar das grandes austeridades e penitências que executam, os especuladores mentais e os trabalhadores fruitivos caem por não terem informação sobre os pés de lótus do Senhor”. No entanto, os devotos do Senhor jamais caem. No Bhagavad-gītā (9.31), a Suprema Personalidade de Deus garante a Arjuna que kaunteya pratijānīhi na me bhaktaḥ praṇaśyati: “Ó filho de Kuntī, declara ousadamente que Meu devoto jamais perece”.
Ainda no Bhagavad-gītā (2.40), Kṛṣṇa diz:
nehābhikrama-nāśo ’sti
pratyavāyo na vidyate
svalpam apy asya dharmasya
trāyate mahato bhayāt
pratyavāyo na vidyate
svalpam apy asya dharmasya
trāyate mahato bhayāt
“Neste esforço, não há perda nem diminuição, e um pequeno progresso neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo.”
O serviço devocional é tão puro e perfeito que, uma vez iniciado, arrasta-nos praticamente à força para o sucesso final. Às vezes, pode acontecer de uma pessoa abandonar suas ocupações materiais comuns e, por sentimentalismo, refugiar-se aos pés de lótus do Senhor Supremo, começando, então, a realização preliminar do serviço devocional. Mesmo que esse devoto imaturo caia, para ele não há perda. Por outro lado, qual é o benefício de quem cumpre os deveres prescritos segundo seu varṇa e āśrama, mas não adota o serviço devocional? Mesmo no caso de um devoto caído nascer em família inferior, ele retomará seu serviço devocional do mesmo ponto onde parou. O serviço devocional é ahaituky apratihatā: não é o efeito de alguma causa mundana, nem tampouco pode ser interrompido por algo semelhante ou cerceado permanentemente por uma interrupção material. Por isso, o devoto deve ter confiança em relação à sua ocupação, não devendo se interessar muito pelas atividades dos karmīs, dos jñānīs e dos yogīs.
Certamente há muitas boas qualidades entre os trabalhadores fruitivos, os especuladores filosóficos e os yogīs místicos. Porém, todas as boas qualidades se desenvolvem de forma automática no caráter de um devoto. O devoto não precisa fazer nenhum esforço extrínseco. Como afirma o Śrīmad-Bhāgavatam (5.18.12), todas as boas qualidades dos semideuses se manifestam progressivamente em quem tenha desenvolvido serviço devocional puro. Como o devoto não se interessa por nenhuma atividade material, ele não se contamina materialmente. Ele se situa de imediato na plataforma de vida transcendental. Contudo, aquele que se dedica a atividades mundanas - qualquer que seja sua posição: pseudo-jñānī, yogī, karmī, filantropo, nacionalista - não pode alcançar a fase superior de mahātmā. Ele permanece durātmā, ou mentalmente limitado. Segundo o Bhagavad-gītā (9.13):
mahātmānas tu māṁ pārtha
daivīṁ prakṛtim āśritāḥ
bhajanty ananya-manaso
jñātvā bhūtādim avyayam
daivīṁ prakṛtim āśritāḥ
bhajanty ananya-manaso
jñātvā bhūtādim avyayam
“Ó filho de Prtha, aqueles que não se iludem, as grandes almas, estão sob a proteção da natureza divina. Eles se ocupam completamente em serviço devocional porque sabem que Eu sou a original e inexaurível Suprema Personalidade de Deus.”
Já que todos os devotos do Senhor estão sob a proteção de Sua potência suprema, eles não devem se desviar do caminho de serviço devocional para adotar o caminho do karmī, do jñānī ou do yogī. Isto se chama utsāhān niścayād dhairyāt tat-tat-karma- pravartanāt: realizar as atividades reguladoras do serviço devocional com entusiasmo, paciência e confiança. Dessa maneira, pode-se avançar no serviço devocional sem obstáculos.
Devanagari
ददाति प्रतिगृह्णाति गुह्यमाख्याति पृच्छति ।
भुङ्क्ते भोजयते चैव षड्विधं प्रीतिलक्षणम् ॥ ४ ॥
भुङ्क्ते भोजयते चैव षड्विधं प्रीतिलक्षणम् ॥ ४ ॥
Verse text
dadāti pratigṛhṇāti
guhyam ākhyāti pṛcchati
bhuṅkte bhojayate caiva
ṣaḍ-vidhaṁ prīti-lakṣaṇam
guhyam ākhyāti pṛcchati
bhuṅkte bhojayate caiva
ṣaḍ-vidhaṁ prīti-lakṣaṇam
Synonyms
Translation
Os seis sintomas de amor que os devotos compartilham entre si são: dar presentes em caridade, aceitar presentes caridosos, revelar os pensamentos em confidência, indagar confidencialmente, aceitar prasāda e oferecer prasāda.
Purport
Neste verso, Śrīla Rūpa Gosvāmī explica como se deve realizar atividades devocionais na companhia de outros devotos. Estas atividades compreendem seis especies: (1) dar caridade aos devotos, (2) aceitar tudo o que os devotos possam oferecer em troca, (3) revelar os próprios pensamentos aos devotos, (4) indagar deles acerca do serviço confidencial ao Senhor, (5) aceitar prasāda, ou alimento espiritual, dado pelos devotos e (6) alimentar os devotos com prasāda. O devoto experiente explica e o devoto inexperiente aprende com ele. Isto é guhyam ākhyāti pṛcchati. No caso de um devoto distribuir prasāda, remanescentes da comida oferecida à Suprema Personalidade de Deus, para que mantenhamos nosso espírito de serviço devocional, devemos aceitar este prasāda como a graça do Senhor, recebida por meio dos devotos puros. Devemos, também, convidar os devotos puros a vir à nossa casa, oferecer-lhes prasāda e estar, sob todos os aspectos, preparados para agradá-los. Isto se chama bhuṅkte bhojayate caiva.
Mesmo em atividades sociais comuns, são absolutamente necessárias estas seis espécies de relações entre dois amigos dedicados. Quando, por exemplo, um homem de negócios deseja entrar em contato com outro, ele promove um banquete num hotel e, durante o banquete, exprime abertamente o que deseja fazer. Então, ele pergunta a seu amigo negociante como deve agir, com ocasionais trocas de presentes. Assim, estas seis atividades são realizadas sempre que há uma relação de prīti, ou amor no convívio íntimo. No verso anterior, Śrīla Rūpa Gosvāmī aconselha que devemos abandonar a companhia de pessoas mundanas e manter-nos na companhia dos devotos (saṅga-tyāgāt sato vṛtteḥ). A Sociedade Internacional Para a Consciência de Krishna foi estabelecida para facilitar estas seis espécies de trocas amorosas entre os devotos. Esta Sociedade foi iniciada sem ajuda alguma, mas, como as pessoas estão tomando a frente e lidando com a política de dar e receber, agora a Sociedade está se expandindo em todo o mundo. Ficamos contentes em ver as pessoas fazendo doações muito generosas para o desenvolvimento das atividades da Sociedade, e, por outro lado, aceitando com entusiasmo qualquer contribuição humilde que lhes damos, sob a forma de livros e revistas, que tratam estritamente do assunto “consciência de Kṛṣṇa”. Às vezes, celebramos festivais Hare Kṛṣṇa e convidamos os membros vitalícios e amigos a participarem nos festejos, aceitando prasāda. Embora a maioria de nossos membros venha das faixas mais altas da sociedade, eles, não obstante, vêm e aceitam o pouco de prasāda que podemos lhes oferecer. Por vezes, os membros e simpatizantes indagam mui confidencialmente a respeito dos métodos para se realizar serviço devocional, e nós tentamos explicar isto. Dessa maneira, nossa Sociedade está se espalhando exitosamente em todo o mundo, e os intelectuais de todos os países vão aos poucos apreciando nossas atividades conscientes de Kṛṣṇa. A vida da sociedade consciente de Kṛṣṇa é nutrida por estas seis espécies de trocas amorosas que os devotos fazem entre si. Portanto, é preciso que as pessoas tenham a oportunidade de se associar com os devotos da ISKCON (Sociedade Internacional Para a Consciência de Krishna), porque, simplesmente por reciprocar nas seis maneiras mencionadas acima, um homem comum pode reviver completamente sua adormecida consciência de Krsna. No Bhagavad-gītā (2.62), declara-se que saṅgāt sañjāyate kāmaḥ: nossos desejos e ambições se desenvolvem de acordo com as pessoas com quem andamos. Entre o povo, é comum o ditado: “Dize-me com quem andas e te direi quem és”. Se uma pessoa comum se associar com devotos, não resta dúvida de que ela desenvolverá sua adormecida consciência de Kṛṣṇa. A compreensão da consciência de Kṛṣṇa é inata em todas as entidades vivas, e, até certo ponto, já está desenvolvida quando a entidade viva assume um corpo humano. No Caitanya-caṛitāmrta, diz-se (Madhya 22.107):
nitya-siddha kṛṣṇa-prema ‘sādhya’ kabhu naya
śravaṇādi-śuddha-citte karaye udaya
śravaṇādi-śuddha-citte karaye udaya
“O amor puro por Kṛṣṇa existe eternamente nos corações das entidades vivas. Não é algo que se possa obter de alguma outra fonte. Quando o coração se purifica com o processo de ouvir e cantar, a entidade viva desperta naturalmente.” Já que a consciência de Kṛṣṇa é inata em todas as entidades vivas, todos devem ter a oportunidade de ouvir falar em Kṛṣṇa. Pelo simples fato de ouvir e cantar - śravaṇaṁ kīrtanam - o coração se purifica diretamente e a original consciência de Kṛṣṇa desperta de imediato. A consciência de Kṛṣṇa não é algo que se impõe artificialmente ao coração. Ela já existe. Quem canta o santo nome da Suprema Personalidade de Deus purifica o coração e deixa-o livre de toda a contaminação mundana. Na primeira estrofe de Seu Śri Śikṣāṣṭaka, o Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu diz:
ceto-darpaṇa-mārjanam bhava-mahā-dāvāgni-nirvāpaṇaṁ
śreyaḥ-kairava-candrikā-vitaraṇaṁ vidyā-vadhū-jīvanam
ānandāmbudhi-vardhanaṁ prati-padaṁ pūrṇāmṛtāsvādanaṁ
sarvātma-snapanaṁ paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam
śreyaḥ-kairava-candrikā-vitaraṇaṁ vidyā-vadhū-jīvanam
ānandāmbudhi-vardhanaṁ prati-padaṁ pūrṇāmṛtāsvādanaṁ
sarvātma-snapanaṁ paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam
“Todas as glórias ao Śrī Kṛṣṇa saṅkīrtana, que purifica o coração de toda a poeira acumulada por anos a fio e extingue o fogo da vida condicionada, da repetição de nascimentos e mortes. Este movimento de saṅkīrtana é a dádiva primordial para toda a humanidade, porque espalha os raios da lua da benção. É a vida de todo o conhecimento transcendental. Faz aumentar o oceano de bem-aventurança transcendental, capacitando-nos a saborear plenamente o néctar pelo qual sempre ansiamos.”
A vibração transcendental do mahā-mantra - Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare purifica não apenas aquele que canta, como também o coração de quem ouve. Mesmo as almas que se encontram em corpos de animais inferiores, insetos, árvores e outras espécies de vida, também se purificam e se preparam para tornarem-se totalmente conscientes de Kṛṣṇa pelo simples fato de ouvirem a vibração transcendental. Ṭhākura Haridāsa explicou isto quando Caitanya Mahāprabhu lhe perguntou como as entidades vivas inferiores aos seres humanos podem ser salvas do cativeiro material. Haridāsa Ṭhākura disse que o cantar dos santos nomes é tão poderoso que, mesmo que entoado nas partes mais remotas da selva, as árvores e os animais avançarão em consciência de Kṛṣṇa pelo simples fato de ouvirem a vibração. O próprio Śrī Caitanya Mahāprabhu provou este fato ao passar pela floresta de Jhārikhaṇḍha. Naquela ocasião, os tigres, as cobras, os veados e todos os outros animais abandonaram sua animosidade natural e se puseram a cantar e dançar no saṅkīrtana. Evidentemente, não podemos imitar as atividades de Śrī Caitanya Mahāprabhu, mas devemos seguir seus passos. Não somos poderosos o bastante para encantar animais inferiores, como os tigres, as cobras, os gatos e os cães, ou levá-los a dançar. Mas, se cantarmos os santos nomes do Senhor, poderemos converter muitas pessoas em todo o mundo à consciência de Kṛṣṇa. O ato de distribuir os santos nomes do Senhor é um exemplo sublime de caridade (o princípio dadāti). Além disso, deve-se, também, seguir o princípio pratigṛhṇāti e estar disposto e pronto a receber o presente transcendental. Devemos indagar acerca do movimento da consciência de Kṛṣṇa e revelar nosso pensamento para podermos compreender a situação deste mundo material. Assim, os princípios guhyam ākhyāti pṛcchati podem ser observados.
Todos os domingos, os membros da Sociedade Internacional Para a Consciência de Krishna convidam os seus integrantes e simpatizantes para jantar, promovendo com amor um banquete em todas as suas filiais. Muitas pessoas interessadas vêm honrar o prasāda, e, sempre que possível, elas convidam os membros da Sociedade a irem a suas casas e os alimentam suntuosamente com prasāda. Dessa maneira, tanto os membros da Sociedade quanto o público em geral são beneficiados. As pessoas devem abandonar a companhia de ditos yogīs, jñānīs, karmīs e filantropos, porque a associação com tais pessoas não traz benefício para ninguém. Quem quer realmente alcançar a meta da vida humana deve associar-se com os devotos do movimento da consciência de Kṛṣṇa, por ser este o único movimento que nos ensina como desenvolver amor por Deus. A religião, atividade específica da sociedade humana, distingue os humanos da sociedade animal. Estes não têm igreja, nem mesquita nem sistema religioso. Em todas as partes do mundo, por mais rudimentar que seja a sociedade humana ali, sempre existe algum sistema religioso. Mesmo tribos de aborígenes nas selvas também têm um sistema de religião. Quando um sistema religioso se desenvolve e se converte em amor a Deus, ele é bem-sucedido. Como se declara no Primeiro Canto do Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.6):
sa vai puṁsāṁ paro dharmo
yato bhaktir adhokṣaje
ahaituky apratihatā
yayātmā suprasīdati
yato bhaktir adhokṣaje
ahaituky apratihatā
yayātmā suprasīdati
“A ocupação suprema [dharma] para toda a humanidade é aquela por intermédio da qual os homens podem atingir o serviço devocional amoroso ao Senhor transcendental. Para satisfazer o eu completamente, tal serviço devocional tem de ser imotivado e ininterrupto.”
Se os membros da sociedade humana querem realmente paz de espirito, tranquilidade e relações amistosas entre os homens e as nações, eles têm de seguir o sistema de religião da consciência de Kṛṣṇa, por intermédio do qual poderão desenvolver seu adormecido amor por Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus. Logo que as pessoas assim o fizerem, suas mentes encher-se-ão imediatamente de paz e tranquilidade.
A este respeito, Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura adverte a todos os devotos dedicados a difundir o movimento da consciência de Kṛṣṇa que não falem com os māyāvādīs impersonalistas, os quais estão sempre determinados a se opor a tais movimentos teístas. Neste mundo, formigam māyāvādīs e ateístas, e os partidos políticos do mundo se aproveitam da filosofia māyāvāda e de outras filosofias para promoverem o materialismo. Por vezes, eles chegam inclusive a apoiar um partido forte, com o intuito de fazer oposição ao movimento da consciência de Kṛṣṇa. Os māyāvādīs e outros ateístas não querem que este movimento da consciência de Kṛṣṇa se desenvolva, pois este educa as pessoas a cultivar a consciência de Deus. Esta é a política dos ateístas. Não há benefício em se alimentar uma serpente com leite e bananas, porque ela jamais ficará satisfeita. Ao contrário, quando a serpente toma leite e bananas, ela fica simplesmente mais venenosa (kevalaṁ viṣa-vardhanam). Quando se dá leite para a serpente beber, seu veneno só aumenta. Por um motivo semelhante, não devemos revelar nossos pensamentos às serpentes māyāvādīs e karmīs. Tais revelações de nada adiantarão. É melhor evitar por completo a companhia deles e jamais lhes perguntar nada de confidencial, porque eles não podem dar bons conselhos. Tampouco devemos fazer convites aos māyāvādīs e aos ateístas, nem aceitar seus convites, pois com tal inter-relacionamento íntimo pode ser que a mentalidade ateísta deles nos afete (saṅgāt sāñjāyate kāmaḥ). Devemos nos abster de dar qualquer coisa aos māyāvādīs e aos ateístas ou de aceitar qualquer coisa deles: este é o preceito negativo deste verso. Śrī Caitanya Mahāprabhu também adverte que viṣayīra anna khāile duṣṭa haya mana: [Cc. Antya 6.278] “Quem come refeições preparadas por pessoas mundanas fica com a mente pecaminosa”. A menos que alguém seja muito avançado, não conseguirá utilizar as contribuições de todos para promover o movimento da consciência de Kṛṣṇa. Por isso, por princípio, não se deve aceitar caridade dos māyāvādīs ou dos ateístas. Na verdade, Śrī Caitanya Mahāprabhu proibiu que os devotos se associassem até mesmo com pessoas comuns que estivessem muito viciadas em satisfazer seus sentidos materiais.
Em conclusão, devemos nos manter sempre na companhia dos devotos, observar os princípios devocionais reguladores, seguir os passos dos ācāryas, e, com total obediência, cumprir as ordens do mestre espiritual. Dessa maneira, poderemos desenvolver nosso serviço devocional e nossa adormecida consciência de Kṛṣṇa. Do devoto que não é neófito nem é mahā-bhāgavata (um devoto muito avançado), e que se encontra na fase intermediária de serviço devocional, espera-se que ele ame a Suprema Personalidade de Deus, faça amizade com os devotos, favoreça os ignorantes e rejeite as pessoas invejosas e demoníacas. Neste verso, faz-se uma breve menção do processo de estabelecer relações amorosas com a Suprema Personalidade de Deus e de fazer amizade com os devotos. De acordo com o princípio dadāti, um devoto avançado deve gastar pelo menos cinquenta por cento de sua renda no serviço ao Senhor e Seus devotos. Śrīla Rūpa Gosvāmī estabelece este exemplo em sua vida. Quando decidiu se aposentar, ele distribuiu cinquenta por cento de seus ganhos para o serviço a Kṛṣṇa, vinte e cinco por cento para seus parentes e manteve vinte e cinco por cento para emergências pessoais. Todos os devotos devem seguir este exemplo. Qualquer que seja a nossa renda, devemos gastar cinquenta por cento para Kṛṣṇa e Seus devotos, o que satisfará as exigências de dadāti.
No próximo verso, Śrīla Rūpa Gosvāmī nos informa qual classe de vaiṣṇavas devemos escolher como amigo e como devemos servir aos vaiṣṇavas.
Devanagari
कृष्णेति यस्य गिरि तं मनसाद्रियेत दीक्षास्ति चेत्प्रणतिभिश्च भजन्तमीशम् ।
शुश्रूषया भजनविज्ञमनन्यमन्यनिन्दादिशून्यहृदमीप्सितसङ्गलब्ध्या ॥ ५ ॥
शुश्रूषया भजनविज्ञमनन्यमन्यनिन्दादिशून्यहृदमीप्सितसङ्गलब्ध्या ॥ ५ ॥
Verse text
kṛṣṇeti yasya giri taṁ manasādriyeta
dīkṣāsti cet praṇatibhiś ca bhajantam īśam
śuśrūṣayā bhajana-vijñam ananyam anya-
nindādi-śūnya-hṛdam īpsita-saṅga-labdhyā
dīkṣāsti cet praṇatibhiś ca bhajantam īśam
śuśrūṣayā bhajana-vijñam ananyam anya-
nindādi-śūnya-hṛdam īpsita-saṅga-labdhyā
Synonyms
kṛṣṇa — o santo nome do Senhor Kṛṣṇa; iti — assim; yasya — daquele; giri — nas palavras ou na fala; tam — a ele; manasā — pela mente; ādriyeta — deve-se honrar; dīkṣā — iniciação; asti — ha; cet — se; praṇatibhiḥ — pelas reverências; ca — também; bhajantam — dedicado ao serviço devocional; īśam — à Suprema Personalidade de Deus; śuśrūṣayā — através do serviço prático; bhajana-vijñam — aquele que é avançado no serviço devocional; ananyam — sem desvios; anya-nindā-ādi — de blasfêmia contra os outros etc.; śūnya — completamente isento; hṛdam — cujo coração; īpsita — desejável; saṅga — de companhia; labdhyā — pela obtenção.
Translation
Deve-se honrar mentalmente o devoto que canta o santo nome do Senhor Kṛṣṇa; prestar reverências humildes ao devoto que tenha se submetido à iniciação espiritual [dīkṣā] e que se dedique a adorar a Deidade; deve-se associar com o devoto puro que seja avançado em serviço devocional indesviável, cujo coração está inteiramente isento da propensão a criticar os outros, além de servir fielmente tal devoto.
Purport
Para que se possa aplicar com inteligência as seis espécies de trocas amorosas mencionadas no verso anterior, deve-se escolher as pessoas adequadas, com cuidadoso discernimento. Portanto, Śrīla Rūpa Gosvāmī aconselha que tenhamos nossa relação com os vaiṣṇavas de maneira apropriada, segundo o status específico deles. Neste verso, ele nos diz como devemos nos relacionar com três classes de devotos - o kaniṣṭha-adhikārī, o madhyama-adhikārī e o uttama-adhikārī. Kaniṣṭha-adhikārī é o neófito que recebeu a iniciação hari-nāma do mestre espiritual e está tentando cantar o santo nome de Kṛṣṇa. Devemos respeitar mentalmente uma pessoa assim, considerando-a um kaniṣṭha-vaiṣṇava. O madhyama-adhikārī recebeu iniciação espiritual do mestre espiritual, que o ocupa plenamente em transcendental serviço amoroso ao Senhor. Devemos considerar que o madhyama-adhikārī está situado no meio do caminho em serviço devocional. O uttama-adhikārī, ou o devoto mais elevado, é aquele que é muito avançado em serviço devocional. O uttama-adhikārī não está interessado em blasfemar os outros, seu coração é inteiramente limpo e ele alcançou o estado realizado de imaculada consciência de Kṛṣṇa. Segundo Śrīla Rūpa Gosvāmī, associar-se e servir tal mahā-bhāgavata, ou vaiṣṇava perfeito, é o mais desejado.
Não se deve permanecer na plataforma de kaniṣṭha-adhikārī, ou seja, a plataforma mais baixa de serviço devocional, onde só há interesse em adorar a Deidade no templo. No Décimo Primeiro Canto do Śrīmad-Bhāgavatam (11.2.47), encontramos uma descrição dessa classe de devoto:
arcāyām eva haraye
pūjāṁ yaḥ śraddhayehate
na tad-bhakteṣu cānyeṣu
sa bhaktaḥ prākṛtaḥ smṛtaḥ
pūjāṁ yaḥ śraddhayehate
na tad-bhakteṣu cānyeṣu
sa bhaktaḥ prākṛtaḥ smṛtaḥ
“Quem se dedica fielmente a adorar a Deidade no templo, mas que não sabe como se comportar com os devotos ou com as pessoas em geral, chama-se prākṛta-bhakta, ou kaniṣṭha-adhikārī.”
Portanto, é preciso elevar-se da posição de kaniṣṭha-adhikārī à plataforma de madhyama-adhikārī. O Śrīmad-Bhāgavatam (11.2.46) descreve o madhyama-adhikārī desta maneira:
īśvare tad-adhīneṣu
bāliśeṣu dviṣatsu ca
prema-maitrī-kṛpopekṣā
yaḥ karoti sa madhyamaḥ
bāliśeṣu dviṣatsu ca
prema-maitrī-kṛpopekṣā
yaḥ karoti sa madhyamaḥ
“Madhyama-adhikārī é o devoto que adora a Suprema Personalidade de Deus como o mais elevado objeto de amor, que faz amizade com os devotos do Senhor, que é misericordioso com os ignorantes e que evita os que são invejosos por natureza.”
Esta é a forma correta de cultivar serviço devocional. Por isso, neste verso, Śrīla Rūpa Gosvāmī nos aconselha sobre como devemos tratar diferentes categorias de devotos. Por experiência prática, podemos verificar que há diferentes classes de vaiṣṇavas. De um modo geral, os prākṛta-sahajiyās cantam o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa, só que estão apegados a mulheres, dinheiro e intoxicação. Embora essas pessoas cantem o santo nome do Senhor, ainda não estão devidamente purificadas. Mentalmente, devemos respeitar tais pessoas, porém evitar sua companhia. Quanto àqueles que são inocentes, mas são desviados por causa de má companhia, devem ser auxiliados, caso desejem receber as devidas instruções dos devotos puros. Contudo, devemos prestar nossas respeitosas reverências aos devotos neófitos que já foram iniciados pelo mestre espiritual genuíno e se dedicam seriamente a cumprir as ordens do mestre.
Neste movimento da consciência de Kṛṣṇa, dá-se uma oportunidade a todos, sem discriminação de casta, credo ou cor. Todos são convidados a juntar-se a este movimento, sentar-se conosco, comer prasāda e ouvir a respeito de Kṛṣṇa. Ao percebermos que alguém está realmente interessado na consciência de Kṛṣṇa e quer ser iniciado, aceitamo-lo como discípulo no cantar do santo nome do Senhor. Tendo um devoto neófito sido iniciado e estando ele ocupado em serviço devocional segundo as ordens do mestre espiritual, devemos aceitá-lo de imediato como um vaiṣṇava autêntico e prestar-lhe reverências. Dentre muitos vaiṣṇavas assim, talvez se encontre um seriamente ocupado no serviço ao Senhor, seguindo estritamente todos os princípios reguladores, cantando o número prescrito de voltas nas contas de japa e sempre pensando em como expandir o movimento da consciência de Kṛṣṇa. Semelhante vaiṣṇava deve ser aceito como uttama-adhikārī, devoto muito avançado, e sua companhia deve sempre ser almejada.
O processo pelo qual o devoto se apega a Kṛṣṇa é descrito no Caitanya-caritāmṛta (Antya 4.192):
dīkṣā-kāle bhakta kare ātma-samarpaṇa
sei-kāle kṛṣṇa tāre kare ātma-sama
sei-kāle kṛṣṇa tāre kare ātma-sama
“No momento da iniciação, quando o devoto se entrega plenamente ao serviço do Senhor, Kṛṣṇa o aceita como estando no mesmo nível que Ele mesmo.”
Śrīla Jīva Gosvāmī explica dīkṣa, ou iniciação espiritual, no Bhakti-sandarbha (283):
divyaṁ jñānaṁ yato dadyāt
kuryāt pāpasya saṅkṣayam
tasmād dīkṣeti sā proktā
deśikais tattva-kovidaiḥ
kuryāt pāpasya saṅkṣayam
tasmād dīkṣeti sā proktā
deśikais tattva-kovidaiḥ
“A dīkṣa, ou iniciação espiritual, faz com que o devoto vá aos poucos perdendo o interesse pelo gozo material e gradualmente se interessando pela vida espiritual.”
Temos visto muitos exemplos práticos disto, em especial na Europa e nas Américas. Muitos estudantes que vêm até nós, provenientes de famílias ricas e respeitáveis, perdem rapidamente todo o interesse no gozo material e ficam muito ansiosos por praticar vida espiritual. Embora venham de lares muito prósperos, muitos deles aceitam condições de vida não tão confortáveis. De fato, por amor a Kṛṣṇa, eles estão dispostos a aceitar qualquer condição de vida, contanto que possam viver no templo e se associar com os vaiṣṇavas. Quem se desinteressa deste modo pelo gozo material se torna apto para ser iniciado pelo mestre espiritual. Em prol do avanço na vida espiritual, o Śrīmad-Bhāgavatam (6.1.13) prescreve: tapasā brahmacareṇa śamena ca damena ca. Uma pessoa que leva a sério a aceitação de dīkṣa tem de estar disposta a práticar austeridade, celibato e controle da mente e do corpo. Estando assim preparada e desejosa de receber iluminação espiritual (divyaṁ jñānam), está apta para ser iniciada. Divyaṁ jñānam chama-se tecnicamente tad-vijñāna, ou conhecimento a respeito do Supremo. Tad-vijñānārthaṁ sa gurum evābhigacchet: alguém que esteja interessado no assunto transcendental da Verdade Absoluta deve ser iniciado. Semelhante pessoa deve aproximar-se de um mestre espiritual a fim de receber dīkṣa. O Śrīmad-Bhāgavatam (11.3.21) também prescreve: tasmād guruṁ prapadyeta jijñāsuḥ śreya uttamam. “Aquele que está realmente interessado na ciência transcendental da Verdade Absoluta deve aproximar-se de um mestre espiritual.”
Não devemos aceitar um mestre espiritual sem que sigamos suas instruções. Tampouco devemos aceitar um mestre só para dar um show elegante de vida espiritual. Temos de ser jijñāsu, muito inquisitivos para aprender do mestre espiritual autêntico. As perguntas feitas devem relacionar-se estritamente com a ciência transcendental (jijñāsuḥ śreya uttamam). A palavra uttamam se refere àquilo que está além do conhecimento material. Tama quer dizer “a escuridão deste mundo material”, e ut significa “transcendental”. De um modo geral, as pessoas sentem muita disposição por indagar acerca de assuntos mundanos. Mas, quem quer que tenha perdido tal interesse e só esteja interessado em assuntos transcendentais está bastante apto a ser iniciado. Aquele que foi realmente iniciado pelo mestre espiritual autêntico e se ocupa com seriedade a serviço do Senhor deve ser aceito como madhyama-adhikārī.
O cantar dos santos nomes de Kṛṣṇa é algo tão sublime que, se alguém cantar o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa inofensivamente, tendo o cuidado de evitar as dez ofensas, poderá, sem dúvida alguma, elevar-se paulatinamente à fase em que entenderá que não há diferença entre o santo nome do Senhor e o próprio Senhor. O devoto neófito deve ter muito respeito por alguém que já tenha chegado a esta compreensão. Devemos estar certos de que, se não cantarmos o santo nome do Senhor sem ofensas, não poderemos ser candidatos adequados para o avanço na consciência de Kṛṣṇa. O Śrī Caitanya-caritāmṛta (Madhya 22.69) diz:
yāhāra komala śraddhā, se ‘kaniṣṭha’ jana
krame krame teṅho bhakta ha-ibe ‘uttama’
krame krame teṅho bhakta ha-ibe ‘uttama’
“Aquele cuja fé é fraca e flexível, é chamado de neófito. Porém, pelo fato de seguir o processo gradualmente, elevar-se-á à plataforma de devoto de primeira classe.” Todos começam sua vida devocional a partir da fase neófita. Mas, se a pessoa canta apropriadamente o número prescrito de voltas hari-nāma, ela é elevada progressivamente à plataforma máxima, uttama-adhikārī. O movimento da consciência de Kṛṣṇa prescreve que se cantem dezesseis voltas diárias, porque as pessoas nos países ocidentais não são capazes de concentrar-se por muito tempo enquanto cantam com as contas. É por isso que se prescreve um número mínimo de voltas a serem cantadas. No entanto, Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura costumava dizer que quem não canta pelo menos sessenta e quatro voltas de japa por dia (cem mil nomes) é considerado caído (patita). Segundo seus cálculos, todos nós somos, por assim dizer, caídos, mas, como estamos tentando servir ao Senhor Supremo com toda a sinceridade e sem duplicidade, podemos contar com a misericórdia do Senhor Śrī Caitanya Mahāprabhu, que é famoso como patita-pāvana, o salvador das almas caídas.
Quando Śrīla Satyarāja Khān, o grande devoto de Śrī Caitanya Mahāprabhu, perguntou ao Senhor como se podia reconhecer um vaiṣṇava, Ele respondeu:
prabhu kahe, – “yāṅra mukhe śuni eka-bāra
kṛṣṇa-nāma, sei pūjya, – śreṣṭha sabākāra”
kṛṣṇa-nāma, sei pūjya, – śreṣṭha sabākāra”
“Se, dentre um grupo de pessoas, ouvires alguém dizer a palavra ‘Kṛṣṇa’, mesmo que só uma vez, deves aceitá-lo como o melhor do grupo.” (Cc. Madhya 15.106) O Senhor Caitanya Mahāprabhu prosseguiu:
“ataeva yāṅra mukhe eka kṛṣṇa-nāma
sei ta ’vaiṣṇava, kariha tāṅhāra sammāna”
sei ta ’vaiṣṇava, kariha tāṅhāra sammāna”
“Alguém que esteja interessado em cantar o santo nome de Kṛṣṇa ou que, devido à prática, goste de cantar os nomes de Kṛṣṇa, deve ser aceito como vaiṣṇava e, como tal, é indispensável oferecer-lhe respeitos, ao menos mentalmente.” (Cc. Madhya 15.111) Um de nossos amigos, um famoso músico inglês*, sentiu-se atraído pelo cantar dos santos nomes de Kṛṣṇa e, inclusive, em seus discos, menciona diversas vezes o santo nome de Kṛṣṇa. Em sua casa, ele presta respeitos aos quadros de Kṛṣṇa, como também aos missionários da consciência de Kṛṣṇa. Sob todos os aspectos, ele tem muita estima pelo nome de Kṛṣṇa e pelas atividades dEle. Portanto, prestamos-lhe nossos respeitos sem reservas, pois percebemos que este cavalheiro está avançando gradualmente em consciência de Kṛṣṇa. Uma pessoa assim deve sempre ser respeitada. Em conclusão, os vaiṣṇavas sempre devem respeitar qualquer pessoa que esteja tentando avançar em consciência de Kṛṣṇa pelo processo de cantar o santo nome regularmente. Por outro lado, temos testemunhado que alguns de nossos contemporâneos, supostamente grandes pregadores, têm caído aos poucos no conceito de vida material por deixarem de cantar o santo nome do Senhor.
Enquanto dava instruções a Sanātana Gosvāmī, o Senhor Caitanya Mahāprabhu dividiu o serviço devocional em três categorias.
śāstra-yukti nāhi jāne dṛḍha, śraddhāvān
‘madhyama-adhikārī’ sei mahā-bhāgyavān
‘madhyama-adhikārī’ sei mahā-bhāgyavān
“Uma pessoa cujo conhecimento conclusivo dos śastras não e muito forte, mas que tenha desenvolvido firme fé no cantar do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa e que, além disso, é dedicada no cumprimento de seu serviço devocional prescrito, deve ser considerada um madhyama-adhikārī. Semelhante pessoa é muito afortunada.” (Cc. Madhya 22.67) O madhyama-adhikārī é śraddhāvān, uma pessoa de fé inquebrantável e é, de fato, candidato a avançar mais em serviço devocional. Por conseguinte, o Caitanya-Caritāmṛta (Madhya 22.64) diz:
śraddhāvān jana haya bhakti-adhikārī
‘uttama’, ‘madhyama’, ‘kaniṣṭha’ – śraddhā-anusārī
‘uttama’, ‘madhyama’, ‘kaniṣṭha’ – śraddhā-anusārī
“Alguém se qualifica como devoto na plataforma elementar, na plataforma intermediária e na plataforma mais elevada de serviço devocional de acordo com o desenvolvimento de sua śraddhā [fé].” Ainda no Caitanya-caritāmṛta (Madhya 22.62) se diz:
‘śraddhā’-śabde – viśvāsa kahe sudṛḍha niścaya
kṛṣṇe bhakti kaile sarva-karma kṛta haya
kṛṣṇe bhakti kaile sarva-karma kṛta haya
“Prestando transcendental serviço a Kṛṣṇa, realizamos de forma automática todas as atividades subsidiárias. Esta fé resoluta e inabalável, favorável ao cumprimento do serviço devocional, chama-se śraddhā.” Śraddhā, fé em Kṛṣṇa, constitui o começo da consciência de Kṛṣṇa. Por fé entende-se fé inquebrantável. As palavras do Bhagavad-gītā são instruções de autoridade para os fiéis, e tudo o que Kṛṣṇa diz ali deve ser aceito tal como é, sem interpretações. Foi assim que Arjuna aceitou o Bhagavad-gītā. Após ouvi-lo, Arjuna disse a Kṛṣṇa: sarvam etad ṛtaṁ manye yan māṁ vadasi keśava “Ó Kṛṣṇa, aceito completamente tudo o que me disseste como a verdade.” (Bg. 10.14)
Esta é a forma correta de se compreender o Bhagavad-gītā, e isto se chama śraddhā. Não se trata de aceitar uma parte do Bhagavad-gītā de acordo com a própria interpretação caprichosa e depois rejeitar outra parte. Isto não é śraddhā, que significa aceitar as instruções do Bhagavad-gītā em sua totalidade, especialmente a última instrução: sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja. “Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a mim.” (Bg. 18.66) Quando alguém se torna completamente fiel em relação a esta instrução, sua fé inquebrantável passa a ser a base para o seu avanço em vida espiritual.
Aquele que se dedica cem por cento a cantar o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa vai aos poucos compreendendo sua própria identidade espiritual. A menos que se cante com fé o mantra Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa não se revela: sevonmukhe hi jihvādau svayam eva sphuraty adaḥ. (Bhakti-rasāmṛta sindhu 1.2.234) Não há meios artificiais pelos quais podemos compreender a Suprema Personalidade de Deus. Temos de servir ao Senhor fielmente. Tal serviço começa com a língua (sevonmukhe hi jihvādau), que significa que devemos sempre cantar os santos nomes do Senhor e aceitar kṛṣṇa-prasāda. Não devemos cantar nem aceitar mais nada. O Senhor Supremo Se revela ao devoto que segue este processo fielmente.
Aquele que compreende que é servo eterno de Kṛṣṇa perde o seu interesse por tudo, exceto o serviço a Kṛṣṇa. Sempre pensando em nEle, planejando como propagar o santo nome dEle, este indivíduo compreende que a única coisa que tem a fazer é difundir o movimento da consciência de Kṛṣṇa em todo o mundo. Semelhante pessoa deve ser reconhecida como uttama-adhikārī, devendo-se aceitar sua companhia imediatamente, de acordo com os seis processos supracitados (dadāti pratigṛhṇāti etc.). Na verdade, o devoto vaiṣṇava avançado, uttama-adhikārī, deve ser aceito como mestre espiritual. Devemos oferecer-lhe todas as nossas posses, pois está prescrito que temos que entregar tudo o que temos ao mestre espiritual. O brahmacārī, em particular, deve pedir doações aos outros e oferecê-las ao mestre espiritual. Contudo, não se deve imitar o comportamento de um devoto avançado, ou mahā-bhāgavata, a menos que a pessoa seja autorrealizada, pois tal imitação fará com que esta se degrade.
Neste verso, Śrīla Rūpa Gosvāmī aconselha o devoto a ser inteligente o bastante para distinguir entre o kaniṣṭha-adhikārī, o madhyama-adhikārī e o uttama-adhikārī. O devoto deve, também, saber qual é a sua própria posição e não deve tentar imitar um devoto situado em plataforma superior. Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura dá a entender sob o aspecto prático que se pode reconhecer um vaiṣṇava uttama-adhikārī por sua capacidade de converter ao vaiṣṇavismo muitas almas caídas. Ninguém deve tornar-se mestre espiritual sem ter alcançado a plataforma de uttama-adhikārī. O vaiṣṇava neófito ou aquele situado na plataforma intermediária também podem aceitar discípulos, só que tais discípulos devem estar na mesma plataforma, devendo-se compreender que, sob a orientação insuficiente de tal mestre espiritual, eles não podem avançar muito bem em direção ao objetivo último da vida. Por isso, um discípulo deve ter o cuidado de aceitar um uttama-adhikārī como mestre espiritual.
Devanagari
दृष्टैः स्वभावजनितैर्वपुषश्च दोषैर्न प्राकृतत्वमिह भक्तजनस्य पश्येत् ।
गङ्गाम्भसां न खलु बुद्बुदफेनपङ्कैर्ब्रह्मद्रवत्वमपगच्छति नीरधर्मैः ॥ ६ ॥
गङ्गाम्भसां न खलु बुद्बुदफेनपङ्कैर्ब्रह्मद्रवत्वमपगच्छति नीरधर्मैः ॥ ६ ॥
Verse text
dṛṣṭaiḥ svabhāva-janitair vapuṣaś ca doṣair
na prākṛtatvam iha bhakta-janasya paśyet
gaṅgāmbhasāṁ na khalu budbuda-phena-paṅkair
brahma-dravatvam apagacchati nīra-dharmaiḥ
na prākṛtatvam iha bhakta-janasya paśyet
gaṅgāmbhasāṁ na khalu budbuda-phena-paṅkair
brahma-dravatvam apagacchati nīra-dharmaiḥ
Synonyms
dṛṣṭaiḥ — vistos através da visão comum; svabhāva-janitaiḥ — nascidos segundo sua própria natureza; vapuṣaḥ — do corpo; ca — e; doṣaiḥ — pelos defeitos; na — não; prākṛtatvam — o estado material de ser; iha — neste mundo; bhakta janasya — de um devoto puro; paśyet — deve-se ver; gaṅgā-ambhasām — das águas do Ganges; na — não; khalu — certamente; budbuda-phena-paṅkaiḥ — pelas bolhas, espuma e lama; brahma-dravatvam — a natureza transcendental; apagacchati — deteriora; nīra-dharmaiḥ — as características da água.
Translation
Situado em sua posição consciente de Kṛṣṇa original, o devoto puro não se identifica com o corpo. Não se deve encarar tal devoto a partir de um ponto de vista materialista. Na realidade, não se deve reparar se o corpo do devoto nasceu em família inferior, se tem aspecto feio, se é deformado, doente ou fraco. Segundo a visão comum, essas imperfeições podem parecer importantes no corpo de um devoto puro. Porém, apesar de tais defeitos aparentes, o corpo do devoto puro não pode contaminar-se. É como no caso das águas do Ganges, que às vezes, durante a estação das chuvas, enchem-se de bolhas, espuma e lama. As águas do Ganges não ficam poluídas. Aqueles que são avançados em entendimento espiritual se banharão no Ganges sem considerar a condição da água.
Purport
Śuddha-bhakti, a atividade inerente à alma - em outras palavras, a ocupação no transcendental serviço amoroso ao Senhor - é realizada em condição liberada. O Bhagavad-gītā (14.26) declara:
māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate
“Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno e não falha em circunstância alguma, transcende de imediato os modos qualitativos da natureza material e chega, então, ao nível de Brahman.”
Avyabhicāriṇī bhakti quer dizer ‘devoção imaculada’. Uma pessoa ocupada em serviço devocional deve estar livre de toda a motivação material. Neste movimento da consciência de Kṛṣṇa, deve-se mudar a consciência. A consciência voltada para o desfrute material é consciência material, enquanto a consciência voltada para o serviço a Kṛṣṇa é consciência de Kṛṣṇa. Uma alma rendida serve a Kṛṣṇa sem nenhuma consideração material (anyābhilāṣitā-śūnyam). Jñāna-karmādy-anāvṛtam: o serviço devocional imaculado, que é transcendental às atividades do corpo e da mente, tais como jñāna (especulação mental) e karma (trabalho fruitivo), chama-se bhakti-yoga puro. Bhakti-yoga é a atividade inerente à alma, e quem se ocupa em serviço devocional imaculado e não-contaminado já está liberado (sa guṇān samatītyaitān). O devoto de Kṛṣṇa não está sujeito às condições da matéria, mesmo que as características de seu corpo pareçam estar condicionadas por ela. Por isso, não devemos encarar um devoto puro a partir de um ponto de vista material. Quem não é devoto de verdade não pode ter uma visão perfeita de outro devoto. Como se explica no verso anterior, há três espécies de devotos: o kaniṣṭha-adhikārī, o madhyama-adhikārī e o uttama-adhikārī. O kaniṣṭha-adhikārī não consegue distinguir entre o devoto e o não-devoto. Ele só se preocupa em adorar a Deidade no templo. Entretanto, o madhyama-adhikārī pode distinguir entre o devoto e o não-devoto, como também pode distinguir entre o devoto e o Senhor. Assim, ele trata a Suprema Personalidade de Deus, o devoto e o não-devoto de maneiras diferentes.
Ninguém deve criticar os defeitos do corpo de um devoto puro. No caso de existirem tais defeitos, não se deve reparar neles. O que se deve levar em consideração é a ocupação principal do mestre espiritual, isto é, o serviço devocional, o serviço puro ao Senhor Supremo. Como se afirma no Bhagavad-gītā (9.30):
api cet sudurācāro
bhajate mām ananya-bhāk
sādhur eva sa mantavyaḥ
samyag vyavasito hi saḥ
bhajate mām ananya-bhāk
sādhur eva sa mantavyaḥ
samyag vyavasito hi saḥ
Mesmo que o devoto pareça às vezes ocupar-se em atividades abomináveis, ele deve ser considerado um sādhu, um santo, porque sua verdadeira identidade é a de alguém ocupado em serviço amoroso ao Senhor. Em outras palavras, ele não deve ser considerado um ser humano comum.
Mesmo que não tenha nascido em família de brāhmaṇas ou de gosvāmīs, se o devoto puro estiver ocupado a serviço do Senhor, não deve ser negligenciado. Na realidade, não pode haver uma família de gosvāmīs baseada em considerações de ordem material, em casta ou hereditariedade. De fato, o título de gosvāmī é monopólio dos devotos puros. A este respeito, podemos mencionar os seis Gosvāmīs, encabeçados por Rūpa Gosvāmī e Sanātana Gosvāmī. Rūpa Gosvāmī e Sanātana Gosvāmī tinham praticamente se tornado muçulmanos e, por isso, mudado seus nomes para Dabira Khāsa e Sākara Mallika. Contudo, o próprio Śrī Caitanya Mahāprabhu os converteu em gosvāmīs. Por conseguinte, o título de gosvāmī não é hereditário. A palavra gosvāmī se refere àquele que consegue controlar os seus sentidos, que é o senhor dos sentidos. O devoto não é controlado pelos sentidos, mas é, isto sim, o controlador deles. Consequentemente, deve-se chamá-lo de svāmī ou gosvāmī, mesmo que ele não tenha nascido em família de gosvāmīs
Segundo esta fórmula, os gosvāmīs que são descendentes de Śrī Nityānanda Prabhu e Śrī Advaita Prabhu são certamente devotos, só que não se deve fazer discriminação contra os devotos provenientes de outras famílias. Na verdade, deve-se tratar igualmente tanto os devotos provenientes de uma família constituída de ācāryas quanto os provenientes de uma família comum. Não se deve pensar: “Ah! Eis aqui um gosvāmī americano”, e fazer discriminação contra ele. Tampouco se deve pensar: “Eis aqui um nityānanda-vaṁśa-gosvāmī”. Há uma corrente de protestos contra o fato de nós termos conferido o título de gosvāmī aos vaiṣṇavas ocidentais do movimento da consciência de Kṛṣṇa. Ocasionalmente, chegam a dizer diretamente aos devotos ocidentais que o seu sannyāsa, ou título de gosvāmī, não é genuíno. No entanto, segundo as declarações de Śrīla Rūpa Gosvāmī neste verso, não há diferença entre um gosvāmī ocidental e um gosvāmī de uma família de ācāryas.
Por outro lado, um devoto que tenha obtido o título de gosvāmī, mas não tenha um pai brāhmaṇa, tampouco um pai gosvāmī da família de Nityānanda ou Advaita Prabhu não deve se encher de orgulho artificialmente, pensando que se tornou um gosvāmī Ele deve sempre se lembrar que, se ficar orgulhoso materialmente, cairá de imediato. Este movimento da consciência de Kṛṣṇa é uma ciência transcendental, não havendo motivo para inveja. Este movimento foi feito para os paramahaṁsas, que estão inteiramente livres de toda inveja (paramaṁ nirmatsarāṇām). Não devemos ser invejosos, quer tenhamos nascido em família de gosvāmīs, quer tenhamos recebido o título. Qualquer pessoa que se torne invejosa cai da plataforma de paramahaṁsa.
Se levarmos em consideração os defeitos do corpo de um vaiṣṇava, devemos compreender que estamos cometendo uma ofensa aos seus pés de lótus. E isso é algo muito sério. Inclusive, Śrī Caitanya Mahāprabhu descreve esta ofensa como hātī-mātā - a ofensa do elefante louco. Um elefante louco pode provocar um desastre, especialmente ao entrar em um jardim bem cuidado. Por isso, devemos ter muito cuidado para não cometer nenhuma ofensa a um vaiṣṇava. Todo devoto deve estar pronto a ouvir instruções de um vaiṣṇava superior, ao passo que este deve, sob todos os aspectos, estar disposto a auxiliar um vaiṣṇava inferior. Um devoto é inferior ou superior de acordo com o seu desenvolvimento espiritual em consciência de Kṛṣṇa. É proibido observar as atividades de um vaiṣṇava puro a partir de um ponto de vista material. Especialmente no caso do neófito, é muito prejudicial que ele considere o devoto puro a partir de um ponto de vista material. Portanto, deve-se evitar observar o devoto puro externamente, senão que se deve tentar ver as características internas e compreender como esse devoto está ocupado no transcendental serviço amoroso ao Senhor. Dessa maneira, pode-se evitar observar o devoto puro a partir de um ponto de vista material, sendo assim possível tornar-se, aos poucos, um devoto purificado.
De um modo geral, aqueles que pensam que a consciência de Kṛṣṇa se limita a uma classe de pessoas, a um determinado grupo de devotos ou a uma extensão de terra específica são propensos a observar as características externas do devoto. Neófitos dessa espécie, incapazes de apreciar o serviço elevado do devoto avançado, tentam rebaixar o mahā-bhāgavata à sua plataforma. Temos experimentado esta dificuldade à medida que propagamos a consciência de Kṛṣṇa em todo o mundo. Infelizmente, estamos rodeados por irmãos espirituais neófitos, que não apreciam as extraordinárias atividades da propagação da consciência de Kṛṣṇa em todo o mundo. Eles simplesmente tentam nos levar à plataforma deles, buscando nos criticar de todos os modos. Sentimos muito pesar por suas atividades ingênuas e por seu pobre fundo de conhecimento. Uma pessoa dotada de poder, realmente ocupada no confidencial serviço ao Senhor, não deve ser tratada como um ser humano comum, pois, segundo se afirma, quem não é dotado de poder por Kṛṣṇa não pode difundir o movimento da consciência de Kṛṣṇa em todo o mundo.
Quem critica deste modo um devoto puro, comete uma ofensa (vaiṣṇava-aparādha), que é muito obstrutiva e perigosa para aqueles que desejam avançar em consciência de Kṛṣṇa. Uma pessoa que ofende os pés de lótus de um vaiṣṇava não pode obter nenhum benefício espiritual. Portanto, todos devem ter muito cuidado para não invejar um vaiṣṇava dotado de poder, ou um śuddha-vaiṣṇava. Também é ofensivo considerar que um vaiṣṇava emponderado esteja sujeito a ações disciplinares. É ofensivo tentar dar-lhe conselhos ou corrigí-lo. Podemos distinguir um vaiṣṇava neófito de um avançado por suas atividades. Aquele avançado está sempre na posição de mestre espiritual, ao passo que o neófito é sempre considerado seu discípulo. O mestre espiritual não deve se submeter aos conselhos de um discípulo, nem se sentir na obrigação de ser instruído por aqueles que não são seus discípulos. Esta é a essência do conselho dado por Śrīla Rūpa Gosvāmī no sexto verso.
Devanagari
स्यात् कृष्णनामचरितादिसिताप्यविद्यापित्तोपतप्तरसनस्य न रोचिका नु ।
किन्त्वादरादनुदिनं खलु सैव जुष्टा स्वाद्वी क्रमाद्भवति तद्गदमूलहन्त्री ॥ ७ ॥
किन्त्वादरादनुदिनं खलु सैव जुष्टा स्वाद्वी क्रमाद्भवति तद्गदमूलहन्त्री ॥ ७ ॥
Verse text
syāt kṛṣṇa-nāma-caritādi-sitāpy avidyā-
pittopatapta-rasanasya na rocikā nu
kintv ādarād anudinaṁ khalu saiva juṣṭā
svādvī kramād bhavati tad-gada-mūla-hantrī
pittopatapta-rasanasya na rocikā nu
kintv ādarād anudinaṁ khalu saiva juṣṭā
svādvī kramād bhavati tad-gada-mūla-hantrī
Synonyms
syāt — seja; kṛṣṇa — do Senhor Kṛṣṇa; nāma — o santo nome; carita-ādi — caráter, passatempos e assim por diante; sitā — açúcar-cande; api — embora; avidyā — da ignorância; pitta — pela bile; upatapta — atormentada; rasanasya — da língua; na — não; rocikā — gostoso; nu — ah! Como é maravilhoso; kintu — mas; ādarāt — com cuidado; anudinam — todos os dias, ou vinte e quatro horas por dia; khalu — naturalmente; sā — aquele (o açúcar-cande do santo nome); eva — certamente; juṣṭā — tomado ou cantado; svādvī — saboroso; kramāt — gradualmente; bhavati — torna-se; tad-gada — desta doença; mūla — da raiz; hantrī — o destruidor.
Translation
O santo nome, o caráter, os passatempos e as atividades de Kṛṣṇa são todos transcendentalmente doces como o açúcar-cande. Embora a língua de uma pessoa atormentada pela icterícia da avidyā [ignorância] não possa apreciar nada doce, é maravilhoso que, simplesmente por cantar com cuidado estes doces nomes todos os dias, um sabor natural desperta em sua língua, e sua doença é gradualmente destruída pela raiz.
Purport
Em essência, o santo nome do Senhor Kṛṣṇa, Seus atributos, Seus passatempos e assim por diante fazem parte da verdade, da beleza e da felicidade absolutas. São naturalmente muito doces, como o açúcar-cande, que agrada a todos. Contudo, a ignorância é comparada à doença chamada icterícia, provocada por secreções biliares. Atacada pela icterícia, a língua de uma pessoa doente não pode apreciar o sabor do açúcar-cande. Pelo contrário, um ictérico considera que algo doce tem um gosto amaríssimo. Analogamente, a avidyā (ignorância) perverte a capacidade de apreciar o nome, os atributos, a forma e os passatempos transcendentalmente saborosos de Kṛṣṇa. A despeito desta doença, se alguém adotar a consciência de Kṛṣṇa, com muito cuidado e atenção, cantando o santo nome e ouvindo os passatempos transcendentais de Kṛṣṇa, sua ignorância será destruída e sua língua poderá saborear a doçura da natureza transcendental de Kṛṣṇa e Sua parafernália. Este restabelecimento da saúde espiritual só é possível por intermédio do cultivo regular de consciência de Kṛṣṇa.
Se um homem no mundo material tem mais interesse no modo de vida materialista do que na consciência de Kṛṣṇa, considera-se que ele está em uma condição enferma. A condição normal é permanecer como servo eterno do Senhor (jīvera ‘svarūpa’ haya-kṛṣṇera’nitya-dāsa’). A entidade viva perde este estado saudável quando se esquece de Kṛṣṇa por se sentir atraída pelas características externas da energia māyā de Kṛṣṇa. Este mundo de māyā se chama durāśraya, que significa “abrigo falso ou inseguro”. Quem deposita sua fé em durāśraya, passa a ser um candidato a uma vida sem esperança. No mundo material, todos estão tentando ser felizes, e, apesar de suas tentativas materiais serem frustradas de todos os modos, eles não podem compreender seus erros devido à sua ignorância. As pessoas tentam corrigir um erro cometendo outro. Assim é a luta pela vida no mundo material. Se alguém que se encontra neste estado é aconselhado a adotar a consciência de Kṛṣṇa e ser feliz, ele não aceita tais instruções.
Estamos propagando este movimento da consciência de Kṛṣṇa em todo o mundo justamente para remediar esta ignorância grosseira. O povo em geral é desencaminhado por líderes cegos. Os líderes da sociedade humana - políticos, filósofos e cientistas - estão cegos porque não são conscientes de Kṛṣṇa. Segundo o Bhagavad-gītā, como eles estão desprovidos de conhecimento verdadeiro, devido a seu modo de vida ateísta, na realidade eles são patifes pecaminosos e os mais baixos entre os homens.
na māṁ duṣkṛtino mūḍhāḥ
prapadyante narādhamāḥ
māyayāpahṛta jñānā
āsuraṁ bhāvam āśritāḥ
prapadyante narādhamāḥ
māyayāpahṛta jñānā
āsuraṁ bhāvam āśritāḥ
“Os canalhas que são grosseiramente tolos, que são os mais baixos da humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão e que compartilham da natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim.” (Bg. 7.15)
Pessoas dessa espécie jamais se rendem a Kṛṣṇa e se opõem ao esforço dos que desejam refugiar-se nEle. Quando semelhantes ateístas se tornam líderes da sociedade, toda a atmosfera fica sobrecarregada com ignorância. Numa condição assim, as pessoas não recebem este movimento da consciência de Kṛṣṇa com muito entusiasmo, assim como um ictérico não aprecia o sabor do açúcar-cande. Contudo, é necessário que se saiba que o único remédio específico para a icterícia é o açúcar-cande. De modo semelhante, no estado confuso em que a humanidade se encontra atualmente, a consciência de Kṛṣṇa, o cantar do santo nome do Senhor - Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare - é o único remédio capaz de retificar o mundo. Apesar da consciência de Kṛṣṇa não ser muito saborosa para uma pessoa doente, Śrīla Rūpa Gosvāmī aconselha que, se alguém quiser se curar da doença material, deve adotar a consciência de Kṛṣṇa com muito cuidado e atenção. O tratamento começa com o cantar do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa, porque, cantando este santo nome do Senhor, uma pessoa na condição material aliviar-se-á de todos os equívocos (ceto-darpaṇa-mārjanam). A avidyā, ou seja, um engano em relação à nossa identidade espiritual, fornece a base para o ahaṅkāra, ou o falso ego dentro do coração.
A verdadeira doença se encontra no coração. Entretanto, quem tem a mente e a consciência limpas não pode ser afetado pela doença material. Para purificar a mente e o coração de todos os equívocos, deve-se cantar o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa. Este processo é fácil e benéfico. Cantando o santo nome do Senhor, livramo-nos de imediato do fogo ardente da existência material.
Ao cantar o santo nome do Senhor, passa-se por três fases: a fase ofensiva, o estágio em que as ofensas diminuem e aquele em que se canta com pureza. Quando adota o cantar do mantra Hare Kṛṣṇa, o neófito geralmente comete muitas ofensas, sendo dez básicas*. Evitando-as, o devoto poderá vislumbrar a fase seguinte, situada entre o cantar ofensivo e o cantar puro. Quem chega à fase de pureza se liberta de imediato. Isto se chama bhava-mahā-dāvāgni-nirvāpanam. Logo que nos libertamos do fogo ardente da existência material, podemos saborear o gosto da vida transcendental.
Em conclusão, a fim de livrar-se da doença material, é necessário adotar o cantar do mantra Hare Kṛṣṇa. O movimento da consciência de Kṛṣṇa se destina especialmente a criar uma atmosfera dentro da qual as pessoas possam adotar o cantar do mantra Hare Kṛṣṇa. No começo, é preciso ter é, sendo que, quando esta fé aumenta com o cantar, a pessoa pode tornar-se um membro da Sociedade. Enviamos grupos de saṅkīrtana para todo o mundo, e estes grupos têm experimentado que mesmo nas partes mais remotas do planeta, onde não se conhece Kṛṣṇa, o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa atrai milhares de pessoas. Há áreas onde as pessoas imitam os devotos, rapando as cabeças e cantando o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa, alguns dias após ouvi-lo. Pode ser que isto não passe de imitação, mas arremedar uma coisa boa é algo desejável. Gradualmente, alguns imitadores acabam se interessando por serem iniciados pelo mestre espiritual e se candidatam à iniciação.
Se alguém é sincero, é iniciado, e esta fase se chama bhajana-kriyā. Daí então ele se ocupa realmente no serviço ao Senhor, cantando diariamente as dezesseis voltas regulares do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa na japa, abstendo-se do sexo ilícito, dos intoxicantes, do consumo de carne e dos jogos de azar. Com bhajana-kriyā, a pessoa consegue libertar-se da contaminação da vida materialista. Deixa de frequentar restaurantes ou hotéis, onde se comem pratos supostamente saborosos, feitos com carne e cebola, e não se importa em fumar, beber chá ou café. Não apenas se abstém do sexo ilícito, como também evita a vida sexual por completo. Tampouco tem interesse em perder seu tempo especulando ou participando de jogos de azar. Dessa maneira, conclui-se que ela vai se purificando de todas as coisas indesejáveis (anartha-nivṛtti). A palavra anartha se refere às coisas indesejáveis. Para aqueles que se dedicam ao movimento da consciência de Kṛṣṇa, todos os anarthas são eliminados.
Quando uma pessoa se alivia das coisas indesejáveis, ela se torna constante na realização de suas atividades para Kṛṣṇa. De fato, ela se apega a tais ocupações e experimenta o êxtase enquanto realiza o serviço devocional. Isto se chama bhāva, ou seja, o despertar preliminar do adormecido amor a Deus. Assim, a alma condicionada livra-se da existência material e perde interesse pelo conceito corpóreo de vida, que inclui a opulência e conhecimento materiais, além da atração material de todas as espécies. Nesse momento, pode-se entender quem é a Suprema Personalidade de Deus e o que é Sua māyā.
Embora māyā esteja presente, ela não pode perturbar um devoto que tenha atingido a fase de bhāva. Isto porque o devoto pode ver a verdadeira posição de māyā. Māyā quer dizer “esquecer-se de Kṛṣṇa”, sendo que este esquecimento e a consciência de Kṛṣṇa se mantêm lado a lado, como luz e sombra. Se alguém permanece na sombra, não pode gozar dos recursos oferecidos pela luz, e, se permanece na luz, não pode ser perturbado pela escuridão da sombra. Adotando a consciência de Kṛṣṇa, a pessoa, gradualmente, torna-se liberada e permanece na luz. Na verdade, ela nem sequer toca a escuridão. Como se afirma no Caitanya-caritāmṛta (Madhya, 22.31):
kṛṣṇa – sūrya-sama; māyā haya andhakāra
yāhāṅ kṛṣṇa, tāhāṅ nāhi māyāra adhikāra
yāhāṅ kṛṣṇa, tāhāṅ nāhi māyāra adhikāra
“Kṛṣṇa é comparado ao brilho do sol, e māyā, à escuridão. Onde brilha o sol não pode haver escuridão. Logo que se adota a consciência de Kṛṣṇa, a escuridão da ilusão, a influência da energia externa, desaparece por completo.”
Devanagari
तन्नामरूपचरितादिसुकीर्तनानुस्मृत्योः क्रमेण रसनामनसी नियोज्य ।
तिष्ठन्व्रजे तदनुरागिजनानुगामी कालं नयेदखिलमित्युपदेशसारम् ॥ ८ ॥
तिष्ठन्व्रजे तदनुरागिजनानुगामी कालं नयेदखिलमित्युपदेशसारम् ॥ ८ ॥
Verse text
tan-nāma-rūpa-caritādi-sukīrtanānu-
smṛtyoḥ krameṇa rasanā-manasī niyojya
tiṣṭhan vraje tad-anurāgi-janānugāmī
kālaṁ nayed akhilam ity upadeśa-sāram
smṛtyoḥ krameṇa rasanā-manasī niyojya
tiṣṭhan vraje tad-anurāgi-janānugāmī
kālaṁ nayed akhilam ity upadeśa-sāram
Synonyms
tat — do Senhor Kṛṣṇa; nāma — o santo nome; rūpa — forma; carita-ādi — caráter, passatempos e assim por diante; su-kīrtana — em discutir ou cantar bem; anusmṛtyoḥ — e em lembrar; krameṇa — gradualmente; rasanā — a língua; manasī — e a mente; niyojya — ocupando-se; tiṣṭhan — morando; vraje — em Vraja; tat — ao Senhor Kṛṣṇa; anurāgi — apegadas; jana — pessoas; anugāmī — seguir; kālam — tempo; nayet — deve-se utilizar; akhilam — total; iti — desse modo; upadeśa — de conselho ou instrução; sāram — a essência.
Translation
A essência de todos os conselhos e que se deve utilizar todo o tempo - vinte e quatro horas por dia - para cantar bem e lembrar o nome divino do Senhor, Sua forma transcendental, qualidades e passatempos eternos, ocupando, deste modo, a língua e a mente, gradualmente. Dessa maneira, deve-se morar em Vraja [Goloka Vṛndāvana-dhāma] e servir a Kṛṣṇa sob a orientação dos devotos. Deve-se seguir os passos dos amados devotos do Senhor, que estão profundamente apegados a Seu serviço devocional.
Purport
Já que a mente pode ser nossa amiga ou inimiga, devemos treiná-la para que ela se torne nossa aliada. O movimento da consciência de Kṛṣṇa se destina especialmente a treinar a mente a estar sempre ocupada nos assuntos relacionados a Kṛṣṇa. A mente contém centenas de milhares de impressões, não somente desta vida, mas também de muitíssimas vidas passadas. Às vezes, essas impressões entram em contato entre si e produzem imagens contraditórias. Dessa maneira, a função da mente pode se tornar perigosa para uma alma condicionada. Os estudantes de psicologia têm noção das diversas transformações psicológicas que ocorrem na mente. O Bhagavad-gītā (8.6) diz:
yaṁ yaṁ vāpi smaran bhāvaṁ
tyajaty ante kalevaram
taṁ taṁ evaiti kaunteya
sadā tad-bhāva-bhāvitaḥ
tyajaty ante kalevaram
taṁ taṁ evaiti kaunteya
sadā tad-bhāva-bhāvitaḥ
“Qualquer que seja o estado de existência que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kuntī, esse mesmo estado ele alcançará, impreterivelmente.”
Na hora da morte, a mente e a inteligência da entidade viva criam a forma sutil de determinada espécie de corpo para a próxima vida. Se, repentinamente, a mente pensa em algo não muito conveniente, a pessoa é obrigada a aceitar um nascimento correspondente a tal pensamento na próxima vida. Por outro lado, quem puder pensar em Kṛṣṇa no momento da morte poderá ser transferido para o mundo espiritual, Goloka Vṛndāvana. Este processo de transmigração é muito sutil, e Śrīla Rūpa Gosvāmī, portanto, aconselha os devotos a treinarem suas mentes a fim de serem capazes de se lembrar única e exclusivamente de Kṛṣṇa. De modo semelhante, deve-se treinar a língua a só falar de Kṛṣṇa e saborear apenas kṛṣṇa-prasāda. Śrīla Rūpa Gosvāmī aconselha ainda que tiṣṭhan vraje: deve-se viver em Vṛndāvana ou em qualquer parte de Vrajabhūmi. Vrajabhūmi, ou a terra de Vṛndāvana, ocupa uma area de oitenta e quatro krośas. Uma krośa equivale a cinco quilômetros quadrados. Aquele que faz de Vṛndāvana sua residência deve buscar o abrigo de um devoto avançado que viva ali. Dessa maneira, ele deve pensar sempre em Kṛṣṇa e em Seus passatempos. Śrīla Rūpa Gosvāmī esclarece melhor este ponto em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu (1.2.294):
kṛṣṇaṁ smaran janaṁ cāsya
preṣṭhaṁ nija-samīhitam
tat-tat-kathā-rataś cāsau
kuryād vāsaṁ vraje sadā
preṣṭhaṁ nija-samīhitam
tat-tat-kathā-rataś cāsau
kuryād vāsaṁ vraje sadā
“O devoto deve sempre residir no reino transcendental de Vraja e continuamente se dedicar a kṛṣṇaṁ smaran janaṁ cāsya preṣṭhaṁ, o recordar-se de Śrī Kṛṣṇa e de Seus amados companheiros. Seguindo os passos desses associados e se submetendo à sua orientação eterna, pode-se desenvolver um intenso desejo de servir a Suprema Personalidade de Deus.”
Śrīla Rūpa Gosvāmī declara ainda no Bhakti-rasāmṛta-sindhu (1.2.295):
sevā sādhaka-rūpeṇa
siddha-rūpeṇa cātra hi
tad-bhāva-lipsunā kāryā
vraja-lokānusārataḥ
siddha-rūpeṇa cātra hi
tad-bhāva-lipsunā kāryā
vraja-lokānusārataḥ
“No reino transcendental de Vraja [Vraja-dhāma], a pessoa deve servir a Śrī Kṛṣṇa, o Senhor Supremo, com um sentimento semelhante ao de Seus companheiros, devendo se sujeitar à orientação direta de um associado específico de Kṛṣṇa e seguir-lhe os passos. Pode-se aplicar este método tanto na fase de sādhana [práticas espirituais realizadas enquanto se está na fase do cativeiro], quanto na fase de sādhya [compreensão de Deus], na qual se é siddha-puruṣa, ou alma espiritualmente perfeita.”
Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura faz o seguinte comentário sobre este verso: “Quem ainda não desenvolveu interesse pela consciência de Kṛṣṇa deve abandonar todas as motivações materiais e treinar sua mente, seguindo os princípios reguladores progressivos - cantar e lembrar-se de Kṛṣṇa, Seu nome, forma, qualidades, passatempos e assim por diante. Dessa maneira, após desenvolver um gosto por tais coisas, ele deve tentar viver em Vṛndāvana e passar seu tempo lembrando constantemente do nome de Kṛṣṇa, Sua fama, atividades e qualidades, sob a orientação e proteção de um devoto experiente. Esta é a essência de todas as instruções relativas ao cultivo de serviço devocional.
“Na fase neófita, devemos estar sempre engajados em ouvir kṛṣṇa-kathā. Isto se chama śrāvaṇa-daśā, a fase em que se ouve. Escutando constantemente o transcendental santo nome de Kṛṣṇa e ouvindo falar de Sua forma transcendental, qualidades e passatempos, pode-se chegar à fase de aceitação, chamada varaṇa-daśā. Quem alcança esta fase, apega-se à audição de kṛṣṇa-kathā. Quem consegue cantar em êxtase atinge a fase de smaraṇāvasthā, o estágio da recordação. A recordação, absorção, meditação, lembrança constante e o transe constituem os cinco ítens do kṛṣṇa-smaraṇa progressivo. A princípio, pode ser que se interrompa o lembrar-se de Kṛṣṇa a intervalos, mas, posteriormente, a lembrança prossegue sem interrupções. Quando a lembrança é ininterrupta, ela passa a ser concentrada e é denominada meditação. Ao se expandir e tornar-se constante, a meditação se intitula anusmṛti. Com o anusmṛti ininterrupto e incessante, entra-se na fase de samādhi, ou transe espiritual. Depois que o smaraṇa-dāsa, ou samādhi, desenvolve-se plenamente, a alma chega a compreender sua posição constitucional original. Nessa altura, ela pode entender perfeita e nitidamente sua relação eterna com Kṛṣṇa. Isto se chama sampatti-daśā, a perfeição da vida.
“O Caitanya-Caritāmṛta aconselha os neófitos a abandonarem todas as espécies de desejos motivados e simplesmente se ocuparem no regulativo serviço devocional ao Senhor, de acordo com as orientações das escrituras. Dessa maneira, o novato pode gradualmente desenvolver apego ao nome de Kṛṣṇa, à Sua fama, forma, qualidades e assim por diante. Quem tenha desenvolvido tal apego, poderá servir espontaneamente aos pés de lótus de Kṛṣṇa, sem nem mesmo seguir os princípios reguladores. Esta fase se chama rāga-bhakti, ou serviço devocional com amor espontâneo. O devoto nesta fase pode seguir os passos de um dos companheiros eternos de Kṛṣṇa em Vṛndāvana. Isto se denomina rāgānuga-bhakti. Rāgānuga-bhakti, ou o serviço devocional espontâneo, pode ser realizado na śānta-rasa, em que se aspira a ser como as vacas de Kṛṣṇa, ou a vara, a flauta na mão de Kṛṣṇa, ou as flores em volta do pescoço dEle. Na dāsya-rasa, seguem-se os passos dos servos como Citraka, Patraka ou Raktaka. Na amistosa sakhya-rasa, é possivel tornar-se um amigo de Kṛṣṇa, como Baladeva, Śrīdāmā ou Sudāmā. Na vātsalya-rasa, caracterizada pela afeição maternal e paternal, pode-se vir a ser como Nanda Mahārāja e Yaśodā. Já na mādhurya-rasa, caracterizada pelo amor conjugal, é possível tornar-se como Śrīmatī Rādhārāṇī ou como Suas companheiras, tais como Lalita e Suas servas pessoais (mañjarīs), como Rūpa e Rati. Esta é a essência de todas as instruções quanto ao serviço devocional.”
Devanagari
वैकुण्ठाज्जनितो वरा मधुपुरी तत्रापि रासोत्सवाद्वृन्दारण्यमुदारपाणिरामणात्तत्रापि गोवर्धनः ।
राधाकुण्डमिहापि गोकुलपतेः प्रेमामृताप्लावनात्कुर्यादस्य विराजतो गिरितटे सेवां विवेकी न कः ॥ ९ ॥
राधाकुण्डमिहापि गोकुलपतेः प्रेमामृताप्लावनात्कुर्यादस्य विराजतो गिरितटे सेवां विवेकी न कः ॥ ९ ॥
Verse text
vaikuṇṭhāj janito varā madhu-purī tatrāpi rāsotsavād
vṛndāraṇyam udāra-pāṇi-ramaṇāt tatrāpi govardhanaḥ
rādhā-kuṇḍam ihāpi gokula-pateḥ premāmṛtāplāvanāt
kuryād asya virājato giri-taṭe sevāṁ vivekī na kaḥ
vṛndāraṇyam udāra-pāṇi-ramaṇāt tatrāpi govardhanaḥ
rādhā-kuṇḍam ihāpi gokula-pateḥ premāmṛtāplāvanāt
kuryād asya virājato giri-taṭe sevāṁ vivekī na kaḥ
Synonyms
vaikuṇṭhāt — do que Vaikuṇṭha, o mundo espiritual; janitaḥ — por causa do nascimento; varā — melhor; madhu-purī — a cidade transcendental, conhecida como Mathurā; tatra api — superior a essa; rāsa-utsavāt — por causa da realização da rāsa-līlā; vṛndā-araṇyam — a floresta de Vṛndāvana; udāra-pāṇi — do Senhor Kṛṣṇa; ramaṇāt — por causa de vários tipos de passatempos amorosos; tatra api — superior a essa; govardhanaḥ — a colina de Govardhana; rādhā-kuṇḍam — o lugar conhecido como Rādhā-kuṇḍa; iha api — superior a essa; gokula-pateḥ — de Kṛṣṇa, o Senhor de Gokula; prema-amṛta — com o néctar do amor divino; āplāvanāt — por ter sido inundado; kuryāt — faria; asya — deste (Rādhā-kuṇḍa); virājataḥ — situado; giri-taṭe — no sopé da colina de Govardhana; sevām — serviço; vivekī — que é inteligente; na — não; kaḥ — qual.
Translation
O lugar santo conhecido como Mathurā é espiritualmente superior a Vaikuṇṭha, o mundo transcendental, porque o Senhor nasceu ali. Mas a floresta transcendental de Vṛndāvana é superior a Mathurā-purī por causa dos passatempos da rāsa-līlā de Kṛṣṇa. E a colina de Govardhana é superior à floresta de Vṛndāvana, pois a mão divina de Śrī Kṛṣṇa a ergueu e ela serviu como cenário para Seus vários passatempos amorosos. E, sobretudo, o superexcelente Śrī Rādhā-kuṇḍa ocupa a posição suprema, pois é inundado pelo prema nectáreo e ambrosíaco do Senhor de Gokula, Śrī Kṛṣṇa. Qual, então, será a pessoa inteligente que não estará disposta a servir a este divino Rādhā-kuṇḍa, situado ao pé da colina de Govardhana?
Purport
O mundo espiritual, que constitui três quartos de toda a criação da Suprema Personalidade de Deus, é a mais elevada das regiões, sendo, portanto, naturalmente superior ao mundo material. Contudo, Mathurā e as áreas vizinhas, apesar de aparecerem no mundo material, são consideradas superiores ao mundo espiritual, porque a própria Suprema Personalidade de Deus nasceu lá. As florestas dentro da area de Vṛndāvana são tidas como superiores a Mathurā por causa da presença das doze florestas (dvādaśa-vana), tais como: Tālavana, Madhuvana e Bahulāvana, famosas pelos vários passatempos que nelas o Senhor realizou. Se as florestas de Vṛndāvana são consideradas superiores a Mathurā, a divina colina de Govardhana é superior a elas, porque Kṛṣṇa ergueu esta colina como se ela fosse um guarda-chuva, mantendo-a suspensa com a Sua bela mão de lótus para proteger Seus associados, os habitantes de Vraja, das chuvas torrenciais enviadas pelo irado Indra, o rei dos semideuses. É também na colina de Govardhana que Kṛṣṇa tange as vacas com Seus amigos, os vaqueirinhos, e foi ali também que Ele teve Seu encontro com Sua amadíssima Śrī Rādhā e viveu passatempos amorosos com ela. O Rādhā-kuṇḍa, ao pé de Govardhana, é superior a tudo, porque ali transborda o amor a Kṛṣṇa. Os devotos avançados preferem residir no Rādhā-kuṇḍa, porque este lugar é o cenário de muitas memórias dos eternos romances amorosos entre Kṛṣṇa e Rādhārāṇī (rati-vilāsa).
No Caitanya-caritāmṛta (Madhya-līlā), afirma-se que, quando Śrī Caitanya Mahāprabhu visitou a área de Vrajabhūmi pela primeira vez, a princípio não conseguiu localizar o Rādhā-kuṇḍa. Isto significa que Śrī Caitanya Mahāprabhu estava, na verdade, procurando a localização exata do Rādhā-kuṇḍa. Finalmente, Ele encontrou o lugar santo, onde havia um pequeno lago. Ele tomou banho naquele local e disse a Seus devotos que ali estava o verdadeiro Rādhā-kuṇḍa. Mais tarde, os devotos do Senhor Caitanya, liderados pelos seis Gosvāmīs, tais como Rūpa e Raghunātha dāsa, escavaram o lago. Atualmente, existe naquele local um grande lago conhecido como Rādhā-kuṇḍa. Śrīla Rūpa Gosvāmī atribui muita importancia ao Rādhā-kuṇḍa porque Śrī Caitanya Mahāprabhu desejou intensamente encontrá-lo. Quem, então, abandonaria o Rādhā-kuṇḍa para tentar morar em outra parte? Nenhuma pessoa dotada de inteligência transcendental faria isso. Entretanto, a importância do Rādhā-kuṇḍa não pode ser compreendida por outras sampradāyas vaiṣṇavas, tampouco podem pessoas sem interesse no serviço devocional ao Senhor Caitanya Mahāprabhu entender a importância espiritual e a natureza divina do Rādhā-kuṇḍa. Assim, o Rādhā-kuṇḍa é adorado principalmente pelos Gauḍīya Vaiṣṇavas, os seguidores do Senhor Śrī Kṛṣṇa Caitanya Mahāprabhu.
Devanagari
कर्मिभ्यः परितो हरेः प्रियतया व्यक्तिं ययुर्ज्ञानिनस्तेभ्यो ज्ञानविमुक्तभक्तिपरमाः प्रेमैकनिष्ठास्ततः ।
तेभ्यस्ताः पशुपालपङ्कजदृशस्ताभ्योऽपि सा राधिका प्रेष्ठा तद्वदियं तदीयसरसी तां नाश्रयेत्कः कृती ॥ १० ॥
तेभ्यस्ताः पशुपालपङ्कजदृशस्ताभ्योऽपि सा राधिका प्रेष्ठा तद्वदियं तदीयसरसी तां नाश्रयेत्कः कृती ॥ १० ॥
Verse text
karmibhyaḥ parito hareḥ priyatayā vyaktiṁ yayur jñāninas
tebhyo jñāna-vimukta-bhakti-paramāḥ premaika-niṣṭhās tataḥ
tebhyas tāḥ paśu-pāla-paṅkaja-dṛśas tābhyo ’pi sā rādhikā
preṣṭhā tadvad iyaṁ tadīya-sarasī tāṁ nāśrayet kaḥ kṛtī
tebhyo jñāna-vimukta-bhakti-paramāḥ premaika-niṣṭhās tataḥ
tebhyas tāḥ paśu-pāla-paṅkaja-dṛśas tābhyo ’pi sā rādhikā
preṣṭhā tadvad iyaṁ tadīya-sarasī tāṁ nāśrayet kaḥ kṛtī
Synonyms
karmibhyaḥ — do que todos os trabalhadores fruitivos; paritaḥ — sob todos os aspectos; hareḥ — pela Suprema Personalidade de Deus; priyatayā — porque é favorecido; vyaktim yayuḥ — se diz no śāstra; jñāninaḥ — aqueles que são avançados em conhecimento; tebhyaḥ — superior a eles; jñāna-vimukta — liberados em virtude do conhecimento; bhakti-paramāḥ — aqueles que se dedicam ao serviço devocional; prema-eka-niṣṭhāḥ — aqueles que alcançaram o amor puro a Deus; tataḥ — superior a eles; tebhyaḥ — melhor que eles; tāḥ — elas; paśu-pāla-paṅkaja-dṛśaḥ — as gopīs, que sempre dependem de Kṛṣṇa, o pastorzinho de vacas; tābhyaḥ — acima de todas elas; api — certamente; sā — Ela; rādhikā — Śrīmatī Rādhārāṇī; preṣṭhā — muito querida; tadvat — similarmente; iyam — este; tadīya-sarasī — Seu lago, Śrī Rādhā-kuṇḍa; tām — Rādhā-kuṇḍa; na — não; āsrayet — se abrigaria em; kaḥ — quem; kṛtī — mais afortunadas.
Translation
Os śāstras dizem que, de todas as classes de trabalhadores fruitivos, aquele que é avançado em conhecimento dos valores superiores da vida é favorecido pelo Supremo Senhor Hari. Dentre muitas de tais pessoas avançadas em conhecimento [jñānīs], aquela que está praticamente liberada, em virtude de seu conhecimento, talvez adote o serviço devocional. Esta é superior às outras. Contudo, a que realmente alcançou prema, amor puro por Kṛṣṇa, é superior àquela. As gopīs são mais elevadas que todos os devotos avançados, porque sempre dependem totalmente de Śrī Kṛṣṇa, o vaqueirinho transcendental. Entre as gopīs, a mais querida de Kṛṣṇa é Śrīmati Rādhārāṇī. Seu kuṇḍa [lago] é tão profundamente querido para o Senhor Kṛṣṇa quanto Ela, Rādhārāṇī, a mais querida entre as gopīs. Quem, então, não residiria no Rādhā-kuṇḍa e, com um corpo espiritual sobrecarregado por sentimentos devocionais extáticos [aprākṛta-bhāva], não prestaria serviço devocional ao casal divino Śrī Śrī Rādhā-Govinda, que realizam o Seu aṣṭakālīya-līlā, Seus oito eternos passatempos diários? Na realidade, as pessoas que realizam serviço devocional às margens do Rādhā-kuṇḍa são as mais afortunadas do Universo.
Purport
Atualmente, quase todos se dedicam a alguma espécie de atividade fruitiva. Os que desejam obter lucros materiais através do trabalho são chamados karmīs, ou trabalhadores fruitivos. Todas as entidades vivas neste mundo material estão dominadas pelo encanto de māyā. Descreve-se isto no Viṣṇu Purāṇa (6.7.61):
viṣṇu-śaktiḥ parā proktā
kṣetrajñākhyā tathā parā
avidyā-karma-saṁjñānyā
tṛtīyā śaktir iṣyate
kṣetrajñākhyā tathā parā
avidyā-karma-saṁjñānyā
tṛtīyā śaktir iṣyate
Os sábios dividem as energias da Suprema Personalidade de Deus em três categorias: espiritual, marginal e material. A material é considerada de terceira classe (tṛtīyā śaktiḥ). Os seres vivos dentro da jurisdição da energia material às vezes se empenham como cães e porcos a trabalhar arduamente em troca, simplesmente, de gratificação dos sentidos. Contudo, nesta vida ou, após realizar atividades piedosas, na próxima, alguns karmīs se sentem fortemente atraídos pela realização de várias classes de sacrifícios mencionados nos Vedas. Assim, devido ao seu mérito piedoso, eles são elevados aos planetas celestiais. Na realidade, aqueles que executam sacrifícios estritamente de acordo com os preceitos védicos são elevados à Lua e a planetas acima dela. Como se menciona no Bhagavad-gītā (9.21), kṣīṇe puṇye martya-lokaṁ viśanti: depois de se esgotarem os resultados de suas ditas atividades piedosas, eles voltam novamente à Terra, que é chamada martya-loka, o lugar da morte. Mesmo que tais pessoas sejam elevadas aos planetas celestiais por causa de suas atividades piedosas e mesmo que gozem da vida ali por muitos milhares de anos, não obstante, elas são obrigadas a regressar a este planeta quando se esgotam os resultados de suas atividades piedosas.
Esta é a posição de todos os karmīs, incluindo os que atuam piedosamente e os que atuam impiamente. Neste planeta, encontramos muitos homens de negócios, políticos e outros cujo único interesse é a felicidade material. Eles tentam ganhar dinheiro de qualquer modo, sem levar em consideração se estão usando métodos piedosos ou impiedosos. Pessoas assim são chamadas karmīs, ou materialistas grosseiros. Entre os karmīs, há alguns vikarmīs, pessoas que agem sem a orientação do conhecimento védico. Os que atuam com base no conhecimento védico realizam sacrifícios para a satisfação do Senhor Viṣṇu, bem como receber bençãos dEle. Dessa maneira, são elevados aos sistemas planetários superiores. Tais karmīs são superiores aos vikarmīs, pois são fiéis às orientações dos Vedas e, certamente, são queridos por Kṛṣṇa. No Bhagavad-gītā (4.11), Kṛṣṇa declara: ye yathā māṁ prapadyante tāṁs tathaiva bhajāmy aham. “Eu recompenso alguém na proporção de sua rendição a Mim.” Kṛṣṇa é tão bondoso que satisfaz os desejos dos karmīs e dos jñānīs, isto para não falar dos bhaktas. Embora os karmīs sejam às vezes elevados aos sistemas planetários superiores, enquanto permanecem apegados às atividades fruitivas, são obrigados a aceitar novos corpos materiais após a morte. Quem age piedosamente pode obter um corpo novo entre os semideuses nos sistemas planetários superiores, ou, então, pode alcançar outra posição, na qual desfruta de um maior padrão de felicidade material. Por outro lado, aqueles que se ocupam em atividades ímpias são degradados e nascem como animais, árvores e plantas. Assim, as pessoas santas e eruditas não apreciam os trabalhadores fruitivos que não ligam para as orientações vedicas (vikarmīs). Como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam (5.5.4):
nūnaṁ pramattaḥ kurute vikarma
yad indriya-prītaya āpṛṇoti
na sādhu manye yata ātmano ’yam
asann api kleśada āsa dehaḥ
yad indriya-prītaya āpṛṇoti
na sādhu manye yata ātmano ’yam
asann api kleśada āsa dehaḥ
“Na verdade, os materialistas que, como cães e porcos, trabalham arduamente para a mera satisfação dos sentidos, são loucos. Eles realizam atividades abomináveis de toda espécie apenas para satisfazer os sentidos. As atividades materialistas não são em absoluto dignas de um homem inteligente, pois, o resultado dessas ações é a obtenção de um corpo material, o qual é cheio de misérias.” O objetivo da vida humana é escapar das três espécies de condições miseráveis, que são concomitantes com a existência material. Infelizmente, os trabalhadores fruitivos estão loucos para ganhar dinheiro e adquirir confortos materiais temporários de qualquer modo. Por conseguinte, correm o risco de serem degradados às espécies inferiores de vida. Tolamente, os materialistas fazem muitos planos para poderem tornar-se felizes neste mundo material. Eles não param para pensar que só viverão por um determinado número de anos, a maior parte dos quais terão que passar lutando para conseguir dinheiro em busca de gratificação dos sentidos. Em última análise, tais atividades terminam em morte. Os materialistas não levam em consideração que, após abandonarem o corpo, talvez tenham que encarnar em corpos de animais inferiores, plantas e árvores. De tal modo, todas as suas atividades só fazem destruir o objetivo da vida. Eles não apenas nascem ignorantes, como também agem na plataforma da ignorância, julgando estarem obtendo benefícios materiais sob a forma de arranha-céus, carros bonitos, posições de prestígio etc. Os materialistas não sabem que serão degradados na próxima vida e que todas as suas atividades só contribuem para a sua derrota final (parābhava). Este e o veredicto do Śrīmad-Bhāgavatam (5.5.5): parābhavas tāvad abodha-jātaḥ.
Devemos, portanto, ansiar por compreender a ciência da alma (ātma-tattva). A menos que cheguemos à plataforma de ātma-tattva, por meio da qual compreendemos que somos a alma e não o corpo, permaneceremos na plataforma da ignorância. Dentre milhares e até mesmo milhões de pessoas ignorantes, que estão desperdiçando seu tempo simplesmente tentando satisfazer seus sentidos, pode ser que uma chegue à plataforma do conhecimento e compreenda os valores superiores da vida. Semelhante pessoa se chama jñānī, que sabe que as atividades fruitivas prendê-lo-ão à existência material e farão com que ele transmigre de uma espécie de corpo a outra. Como indica no Śrīmad-Bhāgavatam o termo śarīra-bandha (atado à existência corpórea), enquanto mantivermos qualquer conceito de gozo dos sentidos, nossa mente estará absorta em karma, ou atividades fruitivas, o que nos obrigará a transmigrar de um corpo a outro.
Assim, o jñānī é considerado superior ao karmī, porque, pelo menos, ele se abstém das atividades cegas de gozo dos sentidos. Este é o veredito da Suprema Personalidade de Deus. Contudo, mesmo que o jñānī se liberte da ignorância em que estão os karmīs, se não chegar à plataforma de serviço devocional, ainda é considerado que ele está na ignorância (avidyā). Apesar de ser aceito como jñānī, ou avançado em conhecimento, seu saber é tido como impuro por ele não ter informação sobre o serviço devocional, negligenciando, assim, a adoração direta aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus.
Ao adotar o serviço devocional, este jñānī se torna rapidamente superior a um jñānī comum. Uma pessoa avançada assim é descrita como jñāna-vimukta-bhakti-parama. No Bhagavad-gītā (7.19), Kṛṣṇa explica como o jñānī adota o serviço devocional:
bahūnāṁ janmanām ante
jñānavān māṁ prapadyate
vāsudevaḥ sarvam iti
sa mahātmā sudurlabhaḥ
jñānavān māṁ prapadyate
vāsudevaḥ sarvam iti
sa mahātmā sudurlabhaḥ
“Após muitos nascimentos e mortes, aquele que tem verdadeiro conhecimento se rende a Mim, sabendo que sou a causa de todas as causas e de tudo o que existe. É muito raro encontrar semelhante grande alma.” Na realidade, é sábia a pessoa que se rende aos pes de lótus de Kṛṣṇa, só que é muito raro encontrar um mahātmā (grande alma) assim.
Após adotar o serviço devocional sob os princípios reguladores, pode ser que alguém chegue ao estágio de amor espontâneo por Deus, seguindo os passos de grandes devotos como Nārada, Sanaka e Sanātana. Então, a Suprema Personalidade de Deus o reconhece como superior. Sem dúvida, os devotos que desenvolvem amor por Deus se encontram em posição de destaque.
De todos esses devotos, as gopīs são reconhecidas como superiores, visto que tudo o que elas sabem fazer é satisfazer a Kṛṣṇa. Tampouco as gopīs esperam alguma recompensa de Kṛṣṇa. Na verdade, em certas oportunidades, Kṛṣṇa faz com que elas sofram muito, distanciando-Se. Mesmo assim, elas não conseguem se esquecer dEle. Quando Kṛṣṇa partiu de Vṛndāvana para Mathurā, as gopīs ficaram muito deprimidas e passaram o resto de suas vidas chorando, com saudades dEle. Isto quer dizer que, em certo sentido, elas jamais estiveram realmente separadas de Kṛṣṇa. Não há diferença entre pensar em Kṛṣṇa e associar-se com Ele. Pelo contrário, vipralambha-sevā, ou seja, pensar em Kṛṣṇa sentindo saudades, como fazia Śrī Caitanya Mahāprabhu, é muito melhor que servir a Kṛṣṇa diretamente. Assim, de todos os devotos que desenvolveram puro amor devocional por Kṛṣṇa, as gopīs são as mais elevadas, sendo que, de todas estas gopīs elevadas, Śrīmatī Rādhārāṇī é quem mais Se destaca. Ninguém pode exceder o serviço devocional de Śrīmatī Rādhārāṇī. Na realidade, nem o próprio Kṛṣṇa é capaz de compreender a atitude de Śrīmatī Rādhārāṇī. Por isso, Ele assumiu a posição dEla e apareceu como Śrī Caitanya Mahāprabhu, somente para poder entender Seus sentimentos transcendentais.
Dessa maneira, palmo a palmo, Śrīla Rūpa Gosvāmī conclui que Śrīmatī Rādhārāṇī é a devota mais elevada de Kṛṣṇa e que Seu kuṇḍa (lago), Śrī Rādhā-kuṇḍa, é o lugar mais elevado. Isto é confirmado numa citação do Laghu-bhāgavatāmṛta (Uttara-khaṇḍa 45), como citado no Caitanya-caritāmṛta:
yathā rādhā priyā viṣṇos
tasyāḥ kuṇḍaṁ priyaṁ tathā
sarva-gopīṣu saivaikā
viṣṇor atyanta-vallabhā
tasyāḥ kuṇḍaṁ priyaṁ tathā
sarva-gopīṣu saivaikā
viṣṇor atyanta-vallabhā
“Assim como Śrīmatī Rādhārāṇī é querida pelo Supremo Senhor Kṛṣṇa [Viṣṇu], da mesma forma, o lugar onde Ela Se banha [Rādhā-kuṇḍa] é igualmente querido por Kṛṣṇa. Entre todas as gopīs, Ela sozinha goza da posição suprema de a mais querida do Senhor.”
Portanto, todos os interessados na consciência de Kṛṣṇa devem, por fim, refugiar-se no Rādhā-kuṇḍa e ali executar serviço devocional por toda a vida. Esta é a conclusão de Rūpa Gosvāmī no décimo verso do Upadeśāmṛta.
Devanagari
कृष्णस्योच्चैः प्रणयवसतिः प्रेयसीभ्योऽपि राधा कुण्डं चास्या मुनिभिरभितस्तादृगेव व्यधायि ।
यत्प्रेष्ठैरप्यलमसुलभं किं पुनर्भक्तिभाजां तत्प्रेमेदं सकृदपि सरः स्नातुराविष्करोति ॥ ११ ॥
यत्प्रेष्ठैरप्यलमसुलभं किं पुनर्भक्तिभाजां तत्प्रेमेदं सकृदपि सरः स्नातुराविष्करोति ॥ ११ ॥
Verse text
kṛṣṇasyoccaiḥ praṇaya-vasatiḥ preyasībhyo ’pi rādhā
kuṇḍaṁ cāsyā munibhir abhitas tādṛg eva vyadhāyi
yat preṣṭhair apy alam asulabhaṁ kiṁ punar bhakti-bhājāṁ
tat premedaṁ sakṛd api saraḥ snātur āviṣkaroti
kuṇḍaṁ cāsyā munibhir abhitas tādṛg eva vyadhāyi
yat preṣṭhair apy alam asulabhaṁ kiṁ punar bhakti-bhājāṁ
tat premedaṁ sakṛd api saraḥ snātur āviṣkaroti
Synonyms
kṛṣṇasya — do Senhor Śrī Kṛṣṇa; uccaiḥ — altamente; praṇaya-vasatiḥ — objeto amado; preyasībhyaḥ — dentre as muitas gopīs adoráveis; api — certamente; rādhā — Śrīmatī Rādhārāṇī; ca — também; asyāḥ — dEla; munibhiḥ — pelos grandes sábios; abhitaḥ — sob todos os aspectos; tādṛk eva — similarmente; vyadhāyi — é descrito; yat — que; preṣṭhaiḥ — pelos devotos mais avançados; api — mesmo; alam — bastante; asulabham — difícil de obter; kim — o que; punaḥ — ainda; bhakti-bhājām — para pessoas ocupadas no serviço devocional; tat — este; prema — amor por Deus; idam — este; sakṛt — uma vez que; api — mesmo; saraḥ — lago; snātuḥ — da pessoa que tomou banho; āviṣkaroti — desperta.
Translation
Dos muitos objetos de deleite favorito e de todas as adoráveis donzelas de Vrajabhūmi, Śrīmati Rādhārāṇī é, indubitavelmente, o mais precioso objeto amado de Kṛṣṇa. E, sob todos os aspectos, Seu kuṇḍa divino é descrito por grandes sábios como semelhantemente querido para Ele. Sem dúvida, mesmo para grandes devotos, é muito raro alcançar o Rādhā-kuṇḍa. Portanto, é ainda mais difícil que devotos comuns o alcancem. Se alguém se banha uma só vez nessas águas santas, seu amor puro por Kṛṣṇa desperta plenamente.
Purport
Por que o Rādhā-kuṇḍa é tão elevado? Porque pertence à Śrīmatī Rādhārāṇī, que é o objeto mais amado de Śrī Kṛṣṇa. Entre todas as gopīs, Ela é a mais querida. De forma semelhante, os grandes sábios descrevem que Seu lago, Śrī Rādhā-kuṇḍa, é tão querido por Kṛṣṇa quanto a própria Rādhā. Na verdade, o amor de Kṛṣṇa pelo Rādhā-kuṇḍa e Seu amor por Śrīmatī Rādhārāṇī é o mesmo sob todos os aspectos. Mesmo no caso de grandes personalidades plenamente ocupadas em serviço devocional, é muito raro que alcancem o Rādhā-kuṇḍa, isto para não falar de devotos comuns, que só estão ocupados na prática de vaidhī bhakti.
Afirma-se que o devoto que se banha uma só vez no Rādhā-kuṇḍa desenvolve imediatamente amor puro por Kṛṣṇa, do mesmo modo que as gopīs. Śrīla Rūpa Gosvāmī recomenda que, mesmo que não se possa viver permanentemente às margens do Rādhā-kuṇḍa, deve-se ao menos tomar banho no lago, tantas vezes quanto possível. Este é um ítem muito importante na realização do serviço devocional. Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura escreve a este respeito que o Śrī Rādhā-kuṇḍa é o lugar mais seleto para as pessoas interessadas em aprimorar seu serviço devocional seguindo o exemplo das amigas (sakhīs) e servas íntimas (mañjarīs) de Śrīmatī Rādhārāṇī. As entidades vivas que estão ávidas por regressar ao lar, ao reino transcendental de Deus, Goloka Vṛndāvana, por meio da consecução de seus corpos espirituais (siddha-deha), devem viver no Rādhā-kuṇḍa, refugiar-se nas servas íntimas de Śrī Rādhā e, sob a orientação delas, dedicar-se constantemente a servi-lA. Para aqueles que estão ocupados em serviço devocional, sob a proteção de Śrī Caitanya Mahāprabhu, este é o método mais elevado. A este respeito, Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura escreve que mesmo grandes sábios e devotos, como Nārada e Sanaka, não têm a oportunidade de vir tomar seus banhos no Rādhā-kuṇḍa, isto para não falar de devotos comuns. Se, por grande fortuna, alguém tem a chance de vir ao Rādhā-kuṇḍa e banhar-se ali pelo menos uma vez, ele pode desenvolver seu amor transcendental por Kṛṣṇa, exatamente como as gopīs fizeram. Recomenda-se, também, que se viva às margens do Rādhā-kuṇḍa, absorto no serviço amoroso ao Senhor. Banhar-se ali regularmente e abandonar todas as concepções materiais, abrigando-se em Śrī Rādhā e nas gopīs que A auxiliam. Se alguém se ocupar assim constantemente durante a sua vida, após abandonar o corpo, regressará ao Supremo para servir a Śrī Rādhā da mesma maneira na qual meditou durante sua vida, enquanto esteve às margens do Rādhā-kuṇḍa. Concluindo, viver às margens do Rādhā-kuṇḍa e banhar-se ali diariamente constituem a perfeição máxima do serviço devocional. É uma posição difícil de ser alcançada, mesmo para grandes sábios e devotos, como Nārada. Portanto, a glória do Śrī Rādhā-kuṇḍa não tem limite. Servindo ao Rādhā-kuṇḍa, podemos ter a oportunidade de nos tornar assistentes de Śrīmatī Rādhārāṇī, sob a orientação eterna das gopīs.