Skip to main content

CAPÍTULO QUATORZE

CHAPTER FOURTEEN

O Rei Purūravā Encanta-se com Urvaśī

King Purūravā Enchanted by Urvaśī

O resumo deste décimo quarto capítulo é dado da seguinte maneira. Este capítulo fala acerca de Soma e como ele raptou a esposa de Bṛhaspati e gerou em seu ventre um filho chamado Budha. Budha gerou Purūravā, que, no ventre de Urvaśī, gerou seis filhos, encabeçados por Āyu.

The summary of this Fourteenth Chapter is given as follows. This chapter describes Soma and how he kidnapped the wife of Bṛhaspati and begot in her womb a son named Budha. Budha begot Purūravā, who begot six sons, headed by Āyu, in the womb of Urvaśī.

O senhor Brahmā nasceu do lótus que brotou do umbigo de Garbhodakaśāyī Viṣṇu. Brahmā teve um filho chamado Atri, e o filho de Atri foi Soma, o rei de todas as substâncias medicinais e estrelas. Soma conquistou todo o universo e, estando cheio de orgulho, raptou Tārā, que era a esposa de Bṛhaspati, o mestre espiritual dos semideuses. Então, sucedeu-se uma grande luta entre os semideuses e os asuras, mas Brahmā resgatou a esposa de Bṛhaspati, tirando-a das garras de Soma, e a devolveu ao seu esposo, fazendo com que a luta terminasse. No ventre de Tārā, Soma gerou um filho chama­do Budha, que mais tarde gerou no ventre de Ilā um filho chamado Aila, ou Purūravā. Urvaśī sentiu-se cativada pela beleza de Purū­ravā e, em razão disso, viveu com ele por algum tempo, mas, quando ela deixou sua companhia, ele quase enlouqueceu. Enquanto viajava mundo afora, encontrou-se com Urvaśī em Kurukṣetra, mas ela concordou em ficar com ele apenas uma noite por ano.

Lord Brahmā was born from the lotus that sprouted from the navel of Garbhodakaśāyī Viṣṇu. Brahmā had a son named Atri, and Atri’s son was Soma, the king of all drugs and stars. Soma became the conqueror of the entire universe, and, being inflated with pride, he kidnapped Tārā, who was the wife of Bṛhaspati, the spiritual master of the demigods. A great fight ensued between the demigods and the asuras, but Brahmā rescued Bṛhaspati’s wife from the clutches of Soma and returned her to her husband, thus stopping the fighting. In the womb of Tārā, Soma begot a son named Budha, who later begot in the womb of Ilā a son named Aila, or Purūravā. Urvaśī was captivated by Purūravā’s beauty, and therefore she lived with him for some time, but when she left his company he became almost like a madman. While traveling all over the world, he met Urvaśī again at Kurukṣetra, but she agreed to join with him for only one night in a year.

Um ano depois, Purūravā encontrou-se com Urvaśī em Kurukṣetra e ficou alegre de estar com ela aquela noite. Contudo, quando pensou que ela iria deixá-lo novamente, ele ficou completamente aflito. Então, Urvaśī aconselhou Purūravā a adorar os Gandharvas. Estando satis­feitos com Purūravā, os Gandharvas deram-lhe uma mulher conhe­cida como Agnisthālī. Purūravā confundiu Agnisthālī com Urvaśī, mas, enquanto andava pela floresta, seu engano foi esclarecido, e ele imediatamente abandonou a companhia dela. Após voltar para casa e meditar em Urvaśī a noite toda, ele quis realizar uma cerimônia ritualística védica para concretizar o seu desejo. Em seguida, ele foi ao mesmo lugar onde deixara Agnisthālī, e lá ele viu que, das entra­nhas de uma árvore śamī, surgira uma árvore aśvattha. Purūravā fez duas varetas dessa árvore e, com elas, produziu fogo. Através desse fogo, podem-se satisfazer todos os desejos luxuriosos. O fogo foi considerado filho de Purūravā. Em Satya-yuga, havia apenas uma divisão social, chamada haṁsa; não havia divisões de varṇa, tais como brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya e śūdra. O Veda era o oṁkāra. Os vários semideuses não eram adorados, pois a Suprema Personalidade de Deus era a única Deidade adorável.

One year later, Purūravā saw Urvaśī at Kurukṣetra and was glad to be with her for one night, but when he thought of her leaving him again, he was overwhelmed by grief. Urvaśī then advised Purūravā to worship the Gandharvas. Being satisfied with Purūravā, the Gandharvas gave him a woman known as Agnisthālī. Purūravā mistook Agnisthālī for Urvaśī, but while he was wandering in the forest his misunderstanding was cleared, and he immediately gave up her company. After returning home and meditating upon Urvaśī all night, he wanted to perform a Vedic ritualistic ceremony to satisfy his desire. Thereafter he went to the same place where he had left Agnisthālī, and there he saw that from the womb of a śamī tree had come an aśvattha tree. Purūravā made two sticks from this tree and thus produced a fire. By such a fire one can satisfy all lusty desires. The fire was considered the son of Purūravā. In Satya-yuga there was only one social division, called haṁsa; there were no divisions of varṇa like brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya and śūdra. The Veda was the oṁkāra. The various demigods were not worshiped, for only the Supreme Personality of Godhead was the worshipable Deity.

VERSO 1:
Śrīla Śukadeva Gosvāmī disse a Mahārāja Parīkṣit: Ó rei, até aqui, ouviste a descrição da dinastia do deus do Sol. Agora, ouve a gloriosíssima e purificante narrativa acerca da dinastia do deus da Lua. Essa narração menciona reis como Aila [Purūravā]. É glorioso ouvir a respeito deles.
Text 1:
Śrīla Śukadeva Gosvāmī said to Mahārāja Parīkṣit: O King, thus far you have heard the description of the dynasty of the sun-god. Now hear the most glorious and purifying description of the dynasty of the moon-god. This description mentions kings like Aila [Purūravā] of whom it is glorious to hear.
VERSO 2:
O Senhor Viṣṇu [Garbhodakaśāyī Viṣṇu] também é conhecido como Sahasra-śīrṣā Puruṣa. Do lago do Seu umbigo, brota um lótus, no qual o senhor Brahmā foi gerado. Atri, o filho do senhor Brahmā, era tão qualificado quanto o seu pai.
Text 2:
Lord Viṣṇu [Garbhodakaśāyī Viṣṇu] is also known as Sahasra-śīrṣā Puruṣa. From the lake of His navel sprang a lotus, on which Lord Brahmā was generated. Atri, the son of Lord Brahmā, was as qualified as his father.
VERSO 3:
Das jubilosas lágrimas de Atri, nasceu um filho chamado Soma, a Lua, que é repleto de raios suavizantes. O senhor Brahmā o apontou como diretor dos brāhmaṇas, das substâncias medicinais e dos luzeiros.
Text 3:
From Atri’s tears of jubilation was born a son named Soma, the moon, who was full of soothing rays. Lord Brahmā appointed him the director of the brāhmaṇas, drugs and luminaries.
VERSO 4:
Após conquistar os três mundos [os sistemas planetários superior, intermediário e inferior], Soma, o deus da Lua, realizou um grande sacrifício conhecido como Rājasūya-yajña. Porque ficara muito ar­rogante, ele raptou à força a esposa de Bṛhaspati, cujo nome era Tārā.
Text 4:
After conquering the three worlds [the upper, middle and lower planetary systems], Soma, the moon-god, performed a great sacrifice known as the Rājasūya-yajña. Because he was very much puffed up, he forcibly kidnapped Bṛhaspati’s wife, whose name was Tārā.
VERSO 5:
Embora Bṛhaspati, o mestre espiritual dos semideuses, solici­tasse-lhe repetidas vezes, Soma não devolveu Tārā. Isso se deveu ao seu falso orgulho. Consequentemente, foi deflagrada uma luta entre os semideuses e os demônios.
Text 5:
Although requested again and again by Bṛhaspati, the spiritual master of the demigods, Soma did not return Tārā. This was due to his false pride. Consequently, a fight ensued between the demigods and the demons.
VERSO 6:
Devido à inimizade entre Bṛhaspati e Śukra, Śukra se aliou ao deus da Lua, e essa sua ação foi imitada pelos demônios. Mas o senhor Śiva, devido à afeição pelo filho do seu mestre espiritual, tomou o partido de Bṛhaspati, e, nesse empreendimento, seguiram-no todos os fantasmas e duendes.
Text 6:
Because of enmity between Bṛhaspati and Śukra, Śukra took the side of the moon-god and was joined by the demons. But Lord Śiva, because of affection for the son of his spiritual master, joined the side of Bṛhaspati and was accompanied by all the ghosts and hobgoblins.
VERSO 7:
O rei Indra, acompanhado de toda classe de semideuses, aliou-se a Bṛhaspati. Assim, desencadeada por Tārā, a esposa de Bṛhaspati, houve uma grande luta, destruindo demônios e semideuses.
Text 7:
King Indra, accompanied by all kinds of demigods, joined the side of Bṛhaspati. Thus there was a great fight, destroying both demons and demigods, only for the sake of Tārā, Bṛhaspati’s wife.
VERSO 8:
Ao ser completamente informado por Aṅgirā acerca de todo o episódio, o senhor Brahmā repreendeu severamente o deus da Lua, Soma. Assim, o senhor Brahmā entregou Tārā a seu esposo, que pôde então entender que ela estava grávida.
Text 8:
When Lord Brahmā was fully informed by Aṅgirā about the entire incident, he severely chastised the moon-god, Soma. Thus Lord Brahmā delivered Tārā to her husband, who could then understand that she was pregnant.
VERSO 9:
Bṛhaspati disse: Mulher tola! Teu ventre, que se destinava a ser fecundado por mim, foi fecundado por outrem. Deves parir ime­diatamente! Deves parir imediatamente! Não tenhas dúvida de que, após o nascimento da criança, não te incinerarei, pois sei que, embora sejas incasta, desejavas ter um filho. Portanto, não te punirei!
Text 9:
Bṛhaspati said: You foolish woman, your womb, which was meant for me to impregnate, has been impregnated by someone other than me. Immediately deliver your child! Immediately deliver it! Be assured that after the child is delivered, I shall not burn you to ashes. I know that although you are unchaste, you wanted a son. Therefore I shall not punish you.
VERSO 10:
Śukadeva Gosvāmī continuou: Por ordem de Bṛhaspati, Tārā, que estava muito envergonhada, imediatamente deu à luz uma criança muito bela e cuja tez era dourada. Tanto Bṛhaspati quanto o deus da Lua, Soma, desejaram ficar com a bela criança.
Text 10:
Śukadeva Gosvāmī continued: By Bṛhaspati’s order, Tārā, who was very much ashamed, immediately gave birth to the child, who was very beautiful, with a golden bodily hue. Both Bṛhaspati and the moon-god, Soma, desired the beautiful child.
VERSO 11:
Novamente irrompeu uma luta entre Bṛhaspati e o deus da Lua, cada um deles alegando: “Este filho é meu, e não teu!” Todos os santos e semideuses ali presentes perguntaram a Tārā de quem real­mente era a criança recém-nascida, mas, como se sentia envergo­nhada, ela não conseguiu responder imediatamente.
Text 11:
Fighting again broke out between Bṛhaspati and the moon-god, both of whom claimed, “This is my child, not yours!” All the saints and demigods present asked Tārā whose child the newborn baby actually was, but because she was ashamed she could not immediately answer.
VERSO 12:
Então, a criança ficou muito irada e exigiu que sua mãe imediata­mente dissesse a verdade. “Mulher incasta!”, disse a criança, “de que adianta teu recato desnecessário? Por que não reconheces teu erro? Conta-me logo a falha que houve em teu comportamento.”
Text 12:
The child then became very angry and demanded that his mother immediately tell the truth. “You unchaste woman,” he said, “what is the use of your unnecessary shame? Why do you not admit your fault? Immediately tell me about your faulty behavior.”
VERSO 13:
Então, o senhor Brahmā levou Tārā a um lugar solitário e, após apaziguá-la, perguntou-lhe a quem realmente pertencia a criança. Ela respondeu bem lentamente: “Este é o filho de Soma, o deus da Lua.” Então, o deus da Lua imediatamente se encarregou da criança.
Text 13:
Lord Brahmā then brought Tārā to a secluded place, and after pacifying her he asked to whom the child actually belonged. She replied very slowly, “This is the son of Soma, the moon-god.” Then the moon-god immediately took charge of the child.
VERSO 14:
Ó Mahārāja Parīkṣit, ao perceber que a criança era muitíssimo inteligente, o senhor Brahmā lhe deu o nome de Budha. Devido a esse filho, o deus da Lua, o governante das estrelas, exultou de grande júbilo.
Text 14:
O Mahārāja Parīkṣit, when Lord Brahmā saw that the child was deeply intelligent, he gave the child the name Budha. The moon-god, the ruler of the stars, enjoyed great jubilation because of this son.
VERSOS 15-16:
Em seguida, Budha gerou no ventre de Ilā um filho que, ao nascer, passou a ser chamado Purūravā. Ele foi descrito no começo do nono canto. Quando sua beleza, qualidades pessoais, magnanimidade, comportamento, riqueza e poder foram descritos por Nārada na corte do rei Indra, a mulher celestial Urvaśī sentiu-se atraída por ele. Trespassada pela flecha de Cupido, ela se aproximou dele.
Texts 15-16:
Thereafter, from Budha, through the womb of Ilā, a son was born named Purūravā, who was described in the beginning of the Ninth Canto. When his beauty, personal qualities, magnanimity, behavior, wealth and power were described by Nārada in the court of Lord Indra, the celestial woman Urvaśī was attracted to him. Pierced by the arrow of Cupid, she thus approached him.
VERSOS 17-18:
Amaldiçoada por Mitra e Varuṇa, a mulher celestial Urvaśī adquiriu os hábitos de um ser humano. Por isso, ao ver Purūravā, o melhor dos varões, cuja beleza lembrava o Cupido, ela se controlou e, então, aproximou-se dele. Quando o rei Purūravā viu Urvaśī, seus olhos ficaram jubilosos em êxtase de alegria, e os pelos de seu corpo se arrepiaram. Com palavras meigas e agradáveis, falou-lhe da seguinte maneira.
Texts 17-18:
Having been cursed by Mitra and Varuṇa, the celestial woman Urvaśī had acquired the habits of a human being. Therefore, upon seeing Purūravā, the best of males, whose beauty resembled that of Cupid, she controlled herself and then approached him. When King Purūravā saw Urvaśī, his eyes became jubilant in the ecstasy of joy, and the hairs on his body stood on end. With mild, pleasing words, he spoke to her as follows.
VERSO 19:
O rei Purūravā disse: Ó bela mulher, sê bem-vinda! Por favor, senta-te aqui e dize o que posso fazer por ti. Podes desfrutar comigo todo o tempo que desejares. Vamos viver felizes, fazendo sexo.
Text 19:
King Purūravā said: O most beautiful woman, you are welcome. Please sit here and tell me what I can do for you. You may enjoy with me as long as you desire. Let us pass our life happily in a sexual relationship.
VERSO 20:
Urvaśī respondeu: Ó formosíssimo homem, qual é a mulher cuja mente e cuja visão não se sentiriam atraídas por ti? Se uma mulher se refu­gia em teu peito, ela não pode recusar-se a desfrutar de uma relação sexual contigo.
Text 20:
Urvaśī replied: O most handsome man, who is the woman whose mind and sight would not be attracted by you? If a woman takes shelter of your chest, she cannot refuse to enjoy with you in a sexual relationship.
VERSO 21:
Meu querido rei Purūravā, por favor, protege esses dois cordeiros, que caíram quando eu também caí. Embora eu pertença aos planetas celestiais e tu pertenças à Terra, decerto gozarei de uma união sexual contigo. Não faço objeções a aceitar-te como meu esposo, pois és superior sob todos os aspectos.
Text 21:
My dear King Purūravā, please give protection to these two lambs, who have fallen down with me. Although I belong to the heavenly planets and you belong to earth, I shall certainly enjoy sexual union with you. I have no objection to accepting you as my husband, for you are superior in every respect.
VERSO 22:
Urvaśī disse: “Meu querido herói, comerei somente as preparações feitas em ghī [manteiga clarificada], e não quero ver-te despi­do em momento algum, exceto na hora do intercurso sexual.” O magnânimo rei Purūravā aceitou essas propostas.
Text 22:
Urvaśī said: “My dear hero, only preparations made in ghee [clarified butter] will be my eatables, and I shall not want to see you naked at any time, except at the time of sexual intercourse.” The great-minded King Purūravā accepted these proposals.
VERSO 23:
Purūravā respondeu: Ó pessoa belíssima, tua beleza é maravilhosa e teus gestos também o são. Na verdade, és atraente para toda a so­ciedade humana. Portanto, como vieste dos planetas celestiais por tua própria conta, quem na Terra não concordaria em servir a uma semideusa da tua magnitude?
Text 23:
Purūravā replied: O beautiful one, your beauty is wonderful and your gestures are also wonderful. Indeed, you are attractive to all human society. Therefore, since you have come of your own accord from the heavenly planets, who on earth would not agree to serve a demigoddess such as you.
VERSO 24:
Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: O melhor dos seres humanos, Purūravā, começou a desfrutar livremente da companhia de Urvaśī, que se ocupava em atividades sexuais com ele em muitos lugares ce­lestiais, tais como Caitraratha e Nandana-kānana, onde os semideuses desfrutam.
Text 24:
Śukadeva Gosvāmī continued: The best of human beings, Purūravā, began freely enjoying the company of Urvaśī, who engaged in sexual activities with him in many celestial places, such as Caitraratha and Nandana-kānana, where the demigods enjoy.
VERSO 25:
O corpo de Urvaśī era tão perfumado como o açafrão de um lótus. Sendo vivificado pela fragrância do seu rosto e do seu corpo, Purūravā, em grande júbilo, desfrutou de sua companhia por muitos dias.
Text 25:
Urvaśī’s body was as fragrant as the saffron of a lotus. Being enlivened by the fragrance of her face and body, Purūravā enjoyed her company for many days with great jubilation.
VERSO 26:
Não vendo Urvaśī em sua assembleia, o rei dos céus, o senhor Indra, disse: “Sem Urvaśī, minha assembleia deixou de ser bela.” Considerando isso, ele pediu aos Gandharvas que a trouxessem de volta ao seu planeta celestial.
Text 26:
Not seeing Urvaśī in his assembly, the King of heaven, Lord Indra, said, “Without Urvaśī my assembly is no longer beautiful.” Considering this, he requested the Gandharvas to bring her back to his heavenly planet.
VERSO 27:
Assim, os Gandharvas vieram à Terra e, à meia-noite, quando tudo estava escuro, apareceram na casa de Purūravā e roubaram os dois cordeiros confiados ao rei por sua esposa, Urvaśī.
Text 27:
Thus the Gandharvas came to earth, and at midnight, when everything was dark, they appeared in the house of Purūravā and stole the two lambs entrusted to the King by his wife, Urvaśī.
VERSO 28:
Urvaśī tratava os dois cordeiros como os seus próprios filhos. Portanto, quando eles estavam sendo levados pelos Gandharvas e começaram a berrar, Urvaśī os ouviu e censurou seu esposo. “Agora estou sendo morta”, disse ela, “sob a proteção de um esposo indigno, que é um covarde e um eunuco, embora se julgue um grande herói.”
Text 28:
Urvaśī treated the two lambs like her own sons. Therefore, when they were being taken by the Gandharvas and began crying, Urvaśī heard them and rebuked her husband. “Now I am being killed,” she said, “under the protection of an unworthy husband, who is a coward and a eunuch although he thinks himself a great hero.”
VERSO 29:
“Porque dependo dele, os criminosos despojaram-me dos meus dois filhos, os cordeiros, de modo que agora estou arruinada. À noite, meu esposo deita-se com medo, exatamente como uma mulher, em­bora durante o dia ele pareça ser um homem.”
Text 29:
“Because I depended on him, the plunderers have deprived me of my two sons the lambs, and therefore I am now lost. My husband lies down at night in fear, exactly like a woman, although he appears to be a man during the day.”
VERSO 30:
Purūravā, golpeado pelas palavras afiadas de Urvaśī, assim como um elefante é golpeado pelo bastão pontiagudo utilizado pelo seu condutor, ficou muito irado. Sem nem mesmo vestir-se adequadamente, empunhou uma espada e saiu desnudo noite adentro, para seguir os Gan­dharvas que haviam roubado os cordeiros.
Text 30:
Purūravā, stricken by the sharp words of Urvaśī like an elephant struck by its driver’s pointed rod, became very angry. Not even dressing himself properly, he took a sword in hand and went out naked into the night to follow the Gandharvas who had stolen the lambs.
VERSO 31:
Após abandonar os dois cordeiros, os Gandharvas reluziam bri­lhantemente como o raio, iluminando assim a casa de Purūravā. Então, Urvaśī viu seu esposo retornando com seus cordeiros nas mãos, mas, como ele estava nu, ela partiu.
Text 31:
After giving up the two lambs, the Gandharvas shone brightly like lightning, thus illuminating the house of Purūravā. Urvaśī then saw her husband returning with the lambs in hand, but he was naked, and therefore she left.
VERSO 32:
Não vendo mais Urvaśī em sua cama, Purūravā ficou muito aflito. Devido à grande atração que sentia por ela, ele estava muito pertur­bado. Assim, lamentando-se, colocou-se a viajar pela Terra, como um louco.
Text 32:
No longer seeing Urvaśī on his bed, Purūravā was most aggrieved. Because of his great attraction for her, he was very much disturbed. Thus, lamenting, he began traveling about the earth like a madman.
VERSO 33:
Certa vez, durante suas viagens pelo mundo, Purūravā, às margens do Sarasvatī em Kurukṣetra, viu Urvaśī na associação de cinco com­panheiras. Com júbilo em seu rosto, falou-lhe, então, as seguintes palavras doces.
Text 33:
Once during his travels all over the world, Purūravā saw Urvaśī, accompanied by five companions, on the bank of the Sarasvatī at Kurukṣetra. With jubilation in his face, he then spoke to her in sweet words as follows.
VERSO 34:
Ó minha querida esposa, ó mais cruel das mulheres. Por favor, fica! Por favor, fica! Sei que, até agora, nunca consegui te fazer feliz, mas isso não é motivo para me abandonares. Essa atitude não é digna de ti. Mesmo que tenhas decidido deixar minha companhia, conversemos por algum tempo.
Text 34:
O my dear wife, O most cruel one, kindly stay, kindly stay. I know that I have never made you happy until now, but you should not give me up for that reason. This is not proper for you. Even if you have decided to give up my company, let us nonetheless talk for some time.
VERSO 35:
Ó deusa, agora que me recusaste, meu belo corpo desmoronará aqui, e como não serve para que dele possas tirar algum prazer, ele será comido por raposas e abutres.
Text 35:
O goddess, now that you have refused me, my beautiful body will fall down here, and because it is unsuitable for your pleasure, it will be eaten by foxes and vultures.
VERSO 36:
Urvaśī disse: Meu querido rei, és um homem, um herói. Espera e não abandones tua vida. Sê sóbrio e não deixes que os sentidos te dominem que nem raposas. Não deixes as raposas te comerem. Em outras palavras, não deves ser controlado pelos teus sentidos. Ao contrário, deves saber que o coração da mulher é como o de uma raposa. Não há proveito em fazer amizade com mulheres.
Text 36:
Urvaśī said: My dear King, you are a man, a hero. Don’t be impatient and give up your life. Be sober and don’t allow the senses to overcome you like foxes. Don’t let the foxes eat you. In other words, you should not be controlled by your senses. Rather, you should know that the heart of a woman is like that of a fox. There is no use making friendship with women.
VERSO 37:
As mulheres, como uma classe, são inclementes e ardilosas. Elas não podem tolerar nem mesmo a mais leve ofensa. Para o seu próprio prazer, são capazes de fazer qualquer atividade irreligiosa e, portanto, não temem matar nem mesmo um esposo ou irmãos fiéis.
Text 37:
Women as a class are merciless and cunning. They cannot tolerate even a slight offense. For their own pleasure they can do anything irreligious, and therefore they do not fear killing even a faithful husband or brother.
VERSO 38:
As mulheres se deixam seduzir pelos homens muito facilmente. Por­tanto, as mulheres corruptas abandonam a amizade de um homem que é seu benquerente e estabelecem falsa amizade com os tolos. Na verdade, elas buscam novos e novos amigos, um após o outro.
Text 38:
Women are very easily seduced by men. Therefore, polluted women give up the friendship of a man who is their well-wisher and establish false friendship among fools. Indeed, they seek newer and newer friends, one after another.
VERSO 39:
Ó meu querido rei, poderás desfrutar comigo como meu esposo no final de cada ano, apenas por uma noite. Dessa maneira, terás outros filhos, um após o outro.
Text 39:
O my dear King, you will be able to enjoy with me as my husband at the end of every year, for one night only. In this way you will have other children, one after another.
VERSO 40:
Compreendendo que Urvaśī estava grávida, Purūravā retornou ao seu palácio. No final de um ano, ali em Kurukṣetra, ele obteve novamente a companhia de Urvaśī, que era então a mãe de um filho heroico.
Text 40:
Understanding that Urvaśī was pregnant, Purūravā returned to his palace. At the end of the year, there at Kurukṣetra, he again obtained the association of Urvaśī, who was then the mother of a heroic son.
VERSO 41:
Tendo recuperado Urvaśī no final do ano, o rei Purūravā estava muito jubiloso, e desfrutou de sexo com ela por uma noite. Em seguida, entretanto, ele ficou muito sentido ao pensar em separar-se dela, de modo que Urvaśī falou-lhe as seguintes palavras.
Text 41:
Having regained Urvaśī at the end of the year, King Purūravā was most jubilant, and he enjoyed her company in sex for one night. But then he was very sorry at the thought of separation from her, so Urvaśī spoke to him as follows.
VERSO 42:
Urvaśī disse: “Meu querido rei, busca refúgio nos Gandharvas, pois eles serão capazes de novamente me entregar a ti.” Seguindo a instrução contida nessas palavras, o rei satisfez os Gandharvas com orações, e os Gandharvas, estando satisfeitos com ele, deram-­lhe uma jovem chamada Agnisthālī, que tinha exatamente a mesma aparência de Urvaśī. Pensando que a jovem era Urvaśī, o rei começou a andar com ela pela floresta, mas, posteriormente, pôde entender que ela não era Urvaśī, mas Agnisthālī.
Text 42:
Urvaśī said: “My dear King, seek shelter of the Gandharvas, for they will be able to deliver me to you again.” In accordance with these words, the King satisfied the Gandharvas by prayers, and the Gandharvas, being pleased with him, gave him an Agnisthālī girl who looked exactly like Urvaśī. Thinking that the girl was Urvaśī, the King began walking with her in the forest, but later he could understand that she was not Urvaśī but Agnisthālī.
VERSO 43:
Então, o rei Purūravā deixou Agnisthālī na floresta e retornou à sua casa, onde meditou em Urvaśī ao longo de toda a noite. No decorrer de sua meditação, começou o milênio Treta, de modo que os princípios dos três Vedas, incluindo o processo de realizar yajña para concretizar as aspirações fruitivas, apareceu dentro do seu coração.
Text 43:
King Purūravā then left Agnisthālī in the forest and returned home, where he meditated all night upon Urvaśī. In the course of his meditation, the Tretā millennium began, and therefore the principles of the three Vedas, including the process of performing yajña to fulfill fruitive activities, appeared within his heart.
VERSOS 44-45:
Quando o processo de yajñas fruitivos se manifestou em seu coração, o rei Purūravā dirigiu-se ao mesmo lugar onde deixara Ag­nisthālī. Ali, ele viu que, das entranhas de uma árvore śamī, havia brotado uma árvore aśvattha. Então, ele pegou um pedaço de ma­deira dessa árvore e fez dele dois araṇis. Desejando ir ao planeta onde Urvaśī residia, ele cantou mantras, meditando no araṇi infe­rior como sendo Urvaśī, no superior como sendo ele mesmo, e no pedaço de madeira entre eles como sendo seu filho. Dessa maneira, ele começou a acender um fogo.
Texts 44-45:
When the process of fruitive yajña became manifest within his heart, King Purūravā went to the same spot where he had left Agnisthālī. There he saw that from the womb of a śamī tree, an aśvattha tree had grown. He then took a piece of wood from that tree and made it into two araṇis. Desiring to go to the planet where Urvaśī resided, he chanted mantras, meditating upon the lower araṇi as Urvaśī, the upper one as himself, and the piece of wood between them as his son. In this way he began to ignite a fire.
VERSO 46:
Ao friccionar os araṇis, Purūravā produziu um fogo. Através desse fogo, a pessoa pode alcançar todo o sucesso no gozo material e purificar-se no nascimento seminal, na iniciação e na realização de sacrifício, que são invocados com as letras a-u-m combinadas. Assim, o fogo era considerado o filho do rei Purūravā.
Text 46:
From Purūravā’s rubbing of the araṇis came a fire. By such a fire one can achieve all success in material enjoyment and be purified in seminal birth, initiation and in the performance of sacrifice, which are invoked with the combined letters a-u-m. Thus the fire was considered the son of King Purūravā.
VERSO 47:
Por meio daquele fogo, Purūravā, que desejava ir ao planeta onde Urvaśī residia, realizou um sacrifício, com o qual satisfez a Supre­ma Personalidade de Deus, Hari, o desfrutador dos resultados dos sacrifícios. Assim, ele adorou o Senhor, que está além da percepção sensorial e é o reservatório de todos os semideuses.
Text 47:
By means of that fire, Purūravā, who desired to go to the planet where Urvaśī resided, performed a sacrifice, by which he satisfied the Supreme Personality of Godhead, Hari, the enjoyer of the results of sacrifice. Thus he worshiped the Lord, who is beyond the perception of the senses and is the reservoir of all the demigods.
VERSO 48:
Em Satya-yuga, o primeiro milênio, todos os mantras védicos estavam incluídos em um mantra – o praṇava, a raiz de todos os mantras védicos. Em outras palavras, sozinho, o Atharva Veda era a fonte de todo o conhecimento védico. A Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa, era a única Deidade adorável; não havia recomendação de que se adorassem os semideuses. Só havia um fogo, e a única ordem de vida na sociedade humana era conhecida como haṁsa.
Text 48:
In the Satya-yuga, the first millennium, all the Vedic mantras were included in one mantra — praṇava, the root of all Vedic mantras. In other words, the Atharva Veda alone was the source of all Vedic knowledge. The Supreme Personality of Godhead Nārāyaṇa was the only worshipable Deity; there was no recommendation for worship of the demigods. Fire was one only, and the only order of life in human society was known as haṁsa.
VERSO 49:
Ó Mahārāja Parīkṣit, no começo de Treta-yuga, o rei Purūravā inaugurou um sacrifício karma-kāṇḍa. Assim, Purūravā, que considerava o fogo do yajña como seu filho, foi capaz de ir a Gandharva­loka, conforme era o seu desejo.
Text 49:
O Mahārāja Parīkṣit, at the beginning of Tretā-yuga, King Purūravā inaugurated a karma-kāṇḍa sacrifice. Thus Purūravā, who considered the yajñic fire his son, was able to go to Gandharvaloka as he desired.