ŚB 10.63.38
Devanagari
त्वमेक आद्य: पुरुषोऽद्वितीय-
स्तुर्य: स्वदृग् धेतुरहेतुरीश: ।
प्रतीयसेऽथापि यथाविकारं
स्वमायया सर्वगुणप्रसिद्ध्यै ॥ ३८ ॥
स्तुर्य: स्वदृग् धेतुरहेतुरीश: ।
प्रतीयसेऽथापि यथाविकारं
स्वमायया सर्वगुणप्रसिद्ध्यै ॥ ३८ ॥
Verse text
tvam eka ādyaḥ puruṣo ’dvitīyas
turyaḥ sva-dṛg dhetur ahetur īśaḥ
pratīyase ’thāpi yathā-vikāraṁ
sva-māyayā sarva-guṇa-prasiddhyai
turyaḥ sva-dṛg dhetur ahetur īśaḥ
pratīyase ’thāpi yathā-vikāraṁ
sva-māyayā sarva-guṇa-prasiddhyai
Synonyms
tvam — Vós; ekaḥ — um; ādyaḥ — original; puruṣaḥ — a Pessoa Suprema; advitīyaḥ — inigualável; turyaḥ — transcendental; sva-dṛk — automanifestante; hetuḥ — a causa; ahetuḥ — sem causa; īśaḥ — o controlador supremo; pratīyase — és percebido; atha api — não obstante; yathā — segundo; vikāram — várias transformações; sva — por Vossa; māyayā — potência ilusória; sarva — de todas; guṇa — qualidades materiais; prasiddhyai — para a completa manifestação.
Translation
Sois a pessoa original, única e inigualável, transcendental e automanifestante. Não causado, sois a causa de tudo e o controlador último. Não obstante, sois percebido em termos das transformações de matéria efetuadas por Vossa energia ilusória – transformações que sancionais para que as várias qualidades materiais possam manifestar-se por completo.
Purport
SIGNIFICADO—Os ācāryas tecem sobre este verso os seguintes comentários: Śrīla Śrīdhara Svāmī explica que o termo ādyaḥ puruṣaḥ, “o puruṣa original”, indica que o Senhor Kṛṣṇa expande-Se como Mahā-Viṣṇu, o primeiro dos três puruṣas que se encarregam da manifestação cósmica. O Senhor é eka advitīyaḥ, “único e inigualável”, porque não existe ninguém igual ao Senhor ou diferente dEle. Ninguém é completamente igual à Divindade Suprema; mesmo assim, por serem todos os seres vivos expansões da potência da Divindade, ninguém é qualitativamente diferente dEle. Śrī Caitanya Mahāprabhu explica bem esta situação inconcebível afirmando que a Verdade Absoluta e os seres vivos são unos em qualidade, mas diferentes quanto à quantidade. O Absoluto possui consciência espiritual infinita, enquanto os seres vivos possuem consciência infinitesimal, que está sujeita a cobrir-se pela ilusão.
Śrīla Jīva Gosvāmī, comentando o termo ādyaḥ puruṣaḥ, cita a seguinte passagem do Sātvata-tantra, viṣṇos tu trīṇi rūpāṇi: “Há três formas de Viṣṇu [para a manifestação cósmica etc.].” Śrīla Jīva Gosvāmī também cita uma afirmação do Senhor extraída do śruti, pūrvam evāham ihāsam: “No começo, só Eu existia neste mundo.” Essa declaração descreve a forma do Senhor chamada puruṣa-avatāra, que existe antes da manifestação cósmica. Śrīla Jīva Gosvāmī também cita o seguinte śruti-mantra, tat-puruṣasya puruṣatvam, que quer dizer: “Isto constitui o estado do Senhor como o puruṣa.” De fato, o Senhor Kṛṣṇa é a essência da encarnação puruṣa porque Ele é turīya, como se descreve neste verso. Jīva Gosvāmī explica o termo turīya (literalmente, “o quarto”) citando o comentário de Śrīdhara Svāmī sobre o verso 11.15.16 do Bhāgavatam:
virāṭ hiraṇyagarbhaś ca
kāraṇaṁ cety upādhayaḥ
īśasya yat tribhir hīnaṁ
turīyaṁ tad vidur budhāḥ
kāraṇaṁ cety upādhayaḥ
īśasya yat tribhir hīnaṁ
turīyaṁ tad vidur budhāḥ
“A forma universal do Senhor, Sua forma Hiraṇyagarbha e a manifestação causal primordial da natureza material são todos conceitos relativos, mas, porque o próprio Senhor não é encoberto por esses três, as autoridades inteligentes chamam-nO de ‘o quarto’.”
Segundo Śrīla Viśvanātha Cakravartī, a palavra turīya indica que o Senhor é o quarto membro da expansão quádrupla da Divindade chamada Catur-vyūha. Em outras palavras, o Senhor Kṛṣṇa é Vāsudeva.
O Senhor Kṛṣṇa é sva-dṛk – isto é, só Ele pode perceber a Si mesmo perfeitamente – porque Ele é a existência espiritual infinita, infinitamente pura. Ele é hetu, a causa de tudo, apesar do que é ahetu, sem causa. Portanto, Ele é īśa, o controlador supremo.
As duas últimas linhas deste verso têm um significado filosófico especial. Por que o Senhor é percebido de maneiras diferentes por diferentes pessoas, embora Ele seja um só? Aqui se dá uma explicação parcial. Por ação de māyā, a potência externa do Senhor, a natureza material está em constante estado de transformação, vikāra. Em um sentido, então, a natureza material é “irreal”, asat. Mas porque Deus é a suprema realidade, e porque Ele está presente dentro de todas as coisas e todas as coisas são potências dEle, os objetos e energias materiais possuem um grau de realidade. Por isso, algumas pessoas veem um aspecto da energia material e pensam: “Isso é a realidade”, enquanto outras veem um aspecto diferente da energia material e pensam: “Não, isto é a realidade.” Sendo almas condicionadas, somos cobertos por diferentes configurações da natureza material e, dessa maneira, descrevemos a Verdade Suprema ou o Senhor Supremo em termos de nossa visão corrompida. Todavia, mesmo as qualidades encobridoras da natureza material, tais como nossa inteligência, mente e sentidos condicionados, são reais (por se constituírem da potência do Senhor Supremo), e, portanto, através de todas as coisas, podemos perceber, de modo mais ou menos subjetivo, a Suprema Personalidade de Deus. É por isso que o presente verso afirma que pratīyase: “Vós sois percebido.” Além disso, sem a manifestação das qualidades encobridoras da natureza material, a criação não poderia cumprir seu propósito – isto é, permitir que as almas condicionadas tentem ao máximo desfrutar sem Deus até que cheguem ao ponto de compreenderem a futilidade de tal ideia ilusória.