ŚB 10.38.11

य ईक्षिताहंरहितोऽप्यसत्सतो:
स्वतेजसापास्ततमोभिदाभ्रम: ।
स्वमाययात्मन् रचितैस्तदीक्षया
प्राणाक्षधीभि: सदनेष्वभीयते ॥ ११ ॥
ya īkṣitāhaṁ-rahito ’py asat-satoḥ
sva-tejasāpāsta-tamo-bhidā-bhramaḥ
sva-māyayātman racitais tad-īkṣayā
prāṇākṣa-dhībhiḥ sadaneṣv abhīyate

Synonyms

yaḥquem; īkṣitāa testemunha; ahamfalso ego; rahitaḥsem; apinão obstante; asat-satoḥde produtos e causas mate­riais; sva-tejasāpor Sua potência pessoal; apāstatendo dissipado; tamaḥa escuridão da ignorância; bhidāa ideia de estar separado; bhramaḥe confusão; sva-māyayāpor Sua energia material criadora; ātmandentro de Si mesmo; racitaiḥpor aqueles que são produzidos (os seres vivos); tat-īkṣayāpor Seu olhar para aquela Māyā; prāṇapelos ares vitais; akṣaos sentidos; dhībhiḥe inte­ligência; sadaneṣudentro dos corpos dos seres vivos; abhīyatesupõe-se a Sua presença.

Translation

Embora Ele seja a testemunha da causa e do efeito materiais, está sempre isento da falsa identificação com eles. Por meio de Sua potência interna, Ele dissipa as trevas da separação e desorientação. As almas individuais neste mundo, que se manifestam aqui quando Ele olha para Sua energia material criadora, percebem-nO indiretamente nas atividades de seus ares vitais, senti­dos e inteligência.

Purport

SIGNIFICADO—Neste verso, Akrūra estabelece a posição todo-poderosa do Senhor Supremo, que ele está prestes a ver em Vṛndāvana. No décimo primeiro canto do Bhāgavatam (11.2.37), descreve-se o falso conceito de estar separado do Senhor: bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ syād īśād apetasya viparyayo ’smṛtiḥ. Embora toda existência emane da Verda­de Absoluta, Kṛṣṇa, imaginamos uma “segunda coisa”, este mundo material, como sendo inteiramente separado da existência do Senhor. Com esta mentalidade, tentamos explorar esta “segunda coisa” para nosso gozo dos sentidos. Dessa forma, a base psicológica da vida material é a ilusão de que este mundo de algum modo seja separado de Deus e, por isso, destine-se ao nosso desfrute.
É irônico que os filósofos impersonalistas, em sua renúncia radical deste mundo, aleguem que ele é completamente falso e separado do Absoluto. Desafortunadamente, tal esforço artificial para despojar este mundo de sua natureza divina, ou, em outros termos, de sua re­lação com Deus, não leva as pessoas a uma completa rejeição dele, mas sim a uma tentativa de desfrutá-lo. Embora seja verdade que este mundo é temporário e assim, em certo sentido, ilusório, o mecanismo da ilusão é uma potência espiritual do Senhor Supremo. Compreen­dendo isto, devemos desistir de imediato de qualquer tentativa de explorar este mundo; antes, devemos reconhecê-lo como uma energia de Deus. Na verdade, abandonaremos nossos desejos materiais somente quando entendermos que este mundo pertence a Deus e, portanto, não se des­tina a nosso prazer egoísta.
A palavra abhīyate neste contexto refere-se a um processo de supor a presença do Senhor por meio da meditação introspectiva. O segun­do canto do Bhāgavatam (2.2.35) também descreve esse processo:
bhagavān sarva-bhūteṣu
lakṣitaḥ svātmanā hariḥ
dṛśyair buddhy-ādibhir draṣṭā
lakṣaṇair anumāpakaiḥ
“A Personalidade de Deus, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, está em todo ser vivo junto com a alma individual. E este fato é percebido e apresentado como hipótese em nossos atos de ver e obter ajuda da inteligência.”
Akrūra afirma que o Senhor está isento do orgulho egoísta que aflige as almas corporificadas comuns. O Senhor, todavia, parece ter um corpo como qualquer um, e, portanto, alguém poderia objetar a afirmação de que Ele é isento de egoísmo. Śrīla Viśvanātha Cakravartī faz o seguinte comentário a respeito deste quebra-cabeça: “Como podemos distinguir entre estar livre de falso ego e ser afligido por ele? ‘Se um ser vivo está situado em um corpo’, [argumenta o oposi­tor,] ‘ele encontrará a infelicidade e confusão que ocorrem dentro dele, assim como alguém que vive em uma casa, quer esteja apegado a ela, quer não, não pode evitar a experiência de escuridão, calor e frio que ocorrem dentro dela.’ A esta objeção, responde-se o seguinte: Por meio de Sua potência interna, o Senhor dissipa a escuridão da igno­rância bem como a separação e desorientação que ela produz.”