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Capítulo 80

O Encontro do Senhor Kṛṣṇa com Sudāmā Brāhmaṇa

O rei Parīkṣit estava ouvindo de Śukadeva Gosvāmī as narrações dos passatempos do Senhor Kṛṣṇa e do Senhor Balarāma. Esses passatempos são todos transcendentalmente aprazíveis de escutar, e Mahārāja Parīkṣit dirigiu-se a Śukadeva Gosvāmī como segue: “Meu querido senhor, a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é o outorgador tanto da libertação quanto do amor a Deus simultaneamente. Qualquer um que se torne devoto do Senhor automaticamente atinge a libertação sem ter de fazer um esforço separado. Porque o Senhor é ilimitado, Seus passatempos e atividades para criar, manter e destruir a manifestação cósmica inteira também são ilimitados. Portanto, desejo ouvir falar dos outros passatempos dEle que você ainda não descreveu. Meu querido mestre, as almas condicionadas dentro deste mundo material são frustradas na busca pelo prazer da felicidade derivada da satisfação dos sentidos. Tais desejos de desfrute material sempre estão aguilhoando os corações das almas condicionadas. No entanto, estou decerto experimentando como os tópicos transcendentais dos passatempos do Senhor Kṛṣṇa podem evitar que a pessoa seja afetada por tais atividades materiais de gozo dos sentidos. Acredito que nenhuma pessoa inteligente possa rejeitar este método de ouvir os passatempos transcendentais do Senhor reiteradas vezes; simplesmente por ouvir, a pessoa pode sempre permanecer imersa em prazer transcendental. Assim, ela não será atraída ao desfrute dos sentidos materiais”.

Nesta declaração, Mahārāja Parīkṣit usou duas palavras importantes: viṣaṇṇa e viśeṣa-jña. Viṣaṇṇa significa “aborrecido” – as pessoas materialistas inventam muitos modos e meios para ficarem completamente satisfeitas, mas, de fato, elas permanecem taciturnas. A questão que se pode levantar é de que, às vezes, os transcendentalistas também permanecem entediados. Porém, Parīkṣit Mahārāja usou a palavra viśeṣa-jña. Há dois tipos de transcendentalistas, isto é, os impersonalistas e os personalistas. Viśeṣa-jña se refere aos personalistas que estão interessados em variedade transcendental. Os devotos ficam jubilosos ouvindo as descrições das atividades pessoais do Senhor Supremo, ao passo que os impersonalistas, que são de fato mais atraídos pelas características impessoais do Senhor, só são superficialmente atraídos pelas atividades pessoais do Senhor. Como tal, apesar de entrarem em contato com os passatempos do Senhor, os impersonalistas não percebem completamente o benefício a ser auferido e, assim, eles se tornam tão frustrados quanto os materialistas na busca por suas atividades fruitivas.

O rei Parīkṣit continuou: “A habilidade para falar pode ser aperfeiçoada unicamente por descrever as qualidades transcendentais do Senhor. A habilidade para trabalhar com as mãos só pode ter êxito quando a pessoa se ocupa no serviço do Senhor com essas mãos. Analogamente, a mente só pode estar pacífica quando se pensa unicamente em Kṛṣṇa, em plena consciência de Kṛṣṇa. Isso não significa que se deve ter um fortíssimo poder de pensamento: deve-se simplesmente entender que Kṛṣṇa, a Verdade Absoluta, é onipenetrante mediante Seu aspecto localizado de Paramātmā. Se a pessoa pode simplesmente pensar que Kṛṣṇa, como Paramātmā, está em todos os lugares, até mesmo dentro do átomo, ela pode aperfeiçoar as funções de pensar, sentir e desejar da sua mente. O devoto perfeito não vê o mundo material como este parece aos olhos materiais, porque ele vê, em toda parte, a presença do seu adorável Senhor em Sua característica de Paramātmā”.

Mahārāja Parīkṣit continuou dizendo que a função da audição pode ser aperfeiçoada simplesmente ocupando-se em ouvir as atividades transcendentais do Senhor, e a função da cabeça pode ser completamente utilizada quando estiver comprometida em curvar-se diante do Senhor e do Seu representante. Que o Senhor está representado no coração de todos é um fato, motivo pelo qual o devoto altamente avançado oferece seus cumprimentos a todas as entidades vivas, considerando que o corpo é o templo do Senhor. Contudo, não é possível a todos os homens chegarem imediatamente a essa fase de vida, porque este estágio é para o devoto de primeira classe. O devoto de segunda classe pode considerar os vaiṣṇavas, ou os devotos do Senhor, como sendo os representantes de Kṛṣṇa, e o devoto que está apenas começando, o devoto neófito de terceira classe, pode curvar sua cabeça diante da Deidade no templo e diante do mestre espiritual, que são a manifestação direta da Suprema Personalidade de Deus. Logo, na fase de neófito, na fase intermediária ou na fase completamente avançada ou perfeita, a pessoa pode tornar a função da cabeça perfeita curvando-se diante do Senhor ou de Seu representante. Semelhantemente, a pessoa pode aperfeiçoar a função dos olhos vendo o Senhor e Seu representante. Desse modo, todos podem elevar as funções das diferentes partes do seu corpo à fase de perfeição máxima simplesmente se ocupando no serviço ao Senhor ou a Seu representante. Se alguém não é capaz de fazer nada mais, pode simplesmente se curvar diante do Senhor e de Seu representante e beber caraṇāmṛta, a água que lavou os pés de lótus do Senhor ou de Seu devoto.

Ao ouvir essas declarações de Mahārāja Parīkṣit, Śukadeva Gosvāmī ficou dominado pelo êxtase devocional devido à avançada compreensão do rei Parīkṣit acerca da filosofia vaiṣṇava. Śukadeva Gosvāmī já estava descrevendo as atividades do Senhor e, quando solicitado por Mahārāja Parīkṣit a continuar seu relato, ele prosseguiu a narrar o Śrīmad-Bhāgavatam com grande prazer.

Havia um grandioso amigo brāhmaṇa do Senhor Kṛṣṇa. Como um brāhmaṇa perfeito, ele era muito elevado em conhecimento transcendental e, por causa de seu conhecimento avançado, ele não era apegado ao prazer material. Como consequência, ele era muito sereno e lograra controle absoluto sobre seus sentidos. Isso significa que o brāhmaṇa era um devoto perfeito, porque, a menos que a pessoa seja um devoto perfeito, ela não pode alcançar o padrão mais elevado de conhecimento. Declara-se no Bhagavad-gītā que uma pessoa que atinge a perfeição do conhecimento rende-se à Suprema Personalidade de Deus. Em outras palavras, qualquer pessoa que renda a sua vida ao serviço da Suprema Personalidade de Deus alcançou o ponto de conhecimento perfeito. O resultado do conhecimento perfeito é que a pessoa se desapega do modo materialista de vida. Esse desapego significa completo controle dos sentidos, que são sempre atraídos para o prazer material. Os sentidos do devoto se purificam e, nesse estágio, os sentidos se ocupam a serviço do Senhor. Esse é o campo completo do serviço devocional.

Embora o amigo brāhmaṇa do Senhor Kṛṣṇa fosse chefe de família, ele não estava ocupado acumulando riquezas para uma vida muito confortável; ele estava satisfeito com a renda que lhe chegava automaticamente, de acordo com seu destino. Esse é o sinal de conhecimento perfeito. Um homem em conhecimento perfeito sabe que não pode ser mais feliz do que lhe está destinado a ser. Neste mundo material, todos estão destinados a ter certa quantidade de sofrimento e desfrutar certa quantidade de felicidade. A quantidade de felicidade e angústia já é predestinada para cada entidade viva. Ninguém pode aumentar ou diminuir a felicidade do modo materialista de vida. O brāhmaṇa, portanto, não se esforçava por mais felicidade material; ao invés disso, ele usava o seu tempo para avançar em consciência de Kṛṣṇa. Externamente, ele parecia muito pobre, pois não tinha nenhuma roupa custosa e não podia prover vestimentas caras à sua esposa. Como sua condição material não era muito opulenta, eles nem mesmo comiam o suficiente e, assim, ele e a esposa pareciam muito magros. A esposa não estava ansiosa pelo seu conforto pessoal, mas ficava preocupada com seu marido, que era um brāhmaṇa piedoso. Ela ficava ansiosa em relação à sua debilitada saúde e, embora não gostasse de se dirigir ao marido, ela falou as seguintes palavras.

“Meu querido senhor, sei que o Senhor Kṛṣṇa, o esposo da deusa da fortuna, é seu amigo pessoal. Você também é devoto do Senhor Kṛṣṇa, e Ele sempre está pronto a ajudar Seu devoto. Mesmo se você pensa que não está prestando nenhum serviço devocional ao Senhor, você é rendido a Ele, e o Senhor é o protetor da alma rendida. Ademais, sei que o Senhor Kṛṣṇa é a personalidade ideal da cultura védica. Ele é sempre favorável à cultura bramânica e é muito solícito para com os brāhmaṇas qualificados. Você é a pessoa mais afortunada, pois tem como seu amigo a Suprema Personalidade de Deus. O Senhor Kṛṣṇa é o único abrigo para personalidades como você, que se renderam completamente a Ele. Você é santo, erudito e tem controle completo de seus sentidos. Dadas as circunstâncias, o Senhor Kṛṣṇa é seu único abrigo. Então, por favor, vá até Ele. Eu estou certa de que Ele entenderá imediatamente sua posição empobrecida. Como você é chefe de família, você fica angustiado se não tem dinheiro. Contudo, assim que entender sua posição, Kṛṣṇa certamente lhe dará riquezas suficientes, de forma que poderá viver muito confortavelmente. Agora, o Senhor Kṛṣṇa é o rei das dinastias Bhoja, Vṛṣṇi e Andhaka, e ouvi dizer que Ele nunca deixa Sua cidade capital, Dvārakā. Ele está vivendo lá sem compromissos externos. Ele é tão gentil e liberal que dá tudo imediatamente, até mesmo Seu próprio eu, a qualquer pessoa que se renda a Ele. Visto que Ele está preparado para Se doar pessoalmente ao Seu devoto, não há nada de maravilhoso em ceder algumas riquezas materiais. Naturalmente, Ele não dá muita riqueza material ao Seu devoto se ele não está muito firme, mas penso que, em seu caso, Ele sabe perfeitamente bem o quanto você é fixo em serviço devocional. Por conseguinte, Ele não vacilará em proporcionar-lhe algum benefício material para as necessidades básicas da vida”.

Desse modo, a esposa do brāhmaṇa pediu repetidas vezes, em grande humildade e submissão, que ele fosse ter com o Senhor Kṛṣṇa. O brāhmaṇa achava que não havia qualquer necessidade de pedir algum benefício material ao Senhor Śrī Kṛṣṇa, mas ele foi induzido pelas repetidas solicitações de sua esposa. Além disso, ele pensou: “Caso eu vá até lá, poderei ver o Senhor pessoalmente. Essa será uma grande oportunidade, mesmo se eu não Lhe pedir nenhum benefício material”. Quando tinha decidido ir até Kṛṣṇa, ele perguntou à sua esposa se ela tinha alguma coisa na casa que ele pudesse oferecer a Kṛṣṇa, porque ele deveria levar algum presente para Seu amigo. A esposa imediatamente coletou entre os amigos vizinhos quatro punhados de arroz quebrado e amarrou isso em um pano pequeno, como um lenço, e deu ao marido para que esse presenteasse Kṛṣṇa. Sem esperar mais, o brāhmaṇa tomou o embrulho e partiu para Dvārakā para ver seu Senhor. Ele estava absorto no pensamento de que poderia ver o Senhor Kṛṣṇa. Ele não tinha outro pensamento dentro de seu coração que não fosse sobre Kṛṣṇa.

Evidentemente, era muito difícil chegar aos palácios dos reis da dinastia Yadu, mas os brāhmaṇas tinham permissão para visitá-los. Quando o amigo brāhmaṇa do Senhor Kṛṣṇa foi até lá, ele e outros brāhmaṇas tiveram de atravessar três acampamentos militares. Em cada acampamento, havia portões enormes, que ele também teve de atravessar. Depois dos portões e acampamentos, havia dezesseis mil imensos palácios, os quarteirões residenciais das dezesseis mil rainhas do Senhor Kṛṣṇa. O brāhmaṇa entrou em um palácio que era muito esplendidamente decorado. Quando entrou nesse belo palácio, ele sentiu que estava nadando no oceano de prazer transcendental. Ele se sentiu constantemente mergulhando e flutuando naquele oceano transcendental.

Nesse momento, o Senhor Kṛṣṇa estava sentado no leito da rainha Rukmiṇī. Mesmo de uma distância considerável, Ele pôde ver o brāhmaṇa que se aproximava de Sua casa e pôde reconhecê-lo como o Seu amigo. O Senhor Kṛṣṇa imediatamente levantou-Se de Seu assento, adiantou-Se para receber Seu amigo brāhmaṇa e, ao alcançá-lo, abraçou-o com Seus dois braços. Embora o Senhor Kṛṣṇa seja o reservatório de todo prazer transcendental, Ele sentiu grande prazer ao abraçar o brāhmaṇa porque Ele estava Se encontrando com Seu amigo muito querido. O Senhor Kṛṣṇa o fez se sentar no Seu próprio leito e, pessoalmente, levou todos os tipos de frutas e bebidas para oferecer-lhe, como é apropriado na recepção de um convidado adorável. O Senhor Śrī Kṛṣṇa é a pureza suprema, mas, porque estava desempenhando o papel de um ser humano comum, Ele imediatamente lavou os pés do brāhmaṇa para a Sua própria purificação e borrifou a água sobre Sua cabeça. Em seguida, o Senhor untou o corpo do brāhmaṇa com diferentes espécies de polpa aromatizada, tais como sândalo, aguru e açafrão. Ele logo acendeu vários tipos de incensos perfumados e, como é de praxe, ofereceu-lhe ārati com lamparinas acesas. Após dar adequadas boas-vindas, e depois que o brāhmaṇa havia comido e bebido, o Senhor Kṛṣṇa disse: “Meu querido amigo, é uma grande fortuna você vir até aqui”.

O brāhmaṇa, sendo muito pobre, não estava bem vestido; suas roupas estavam rasgadas e sujas, e seu corpo estava muito magro e fraco. Ele não parecia muito limpo, e, por causa do seu corpo debilitado, seus ossos eram distintamente visíveis. A deusa da fortuna Rukmiṇī-devī começou a abaná-lo pessoalmente com o abano cāmara, mas as outras mulheres no palácio ficaram surpresas com o comportamento do Senhor Kṛṣṇa ao receber o brāhmaṇa daquele modo. Elas ficaram perplexas ao verem como o Senhor Kṛṣṇa estava ávido por dar as boas-vindas a esse brāhmaṇa em particular. Elas desejaram saber como o Senhor Kṛṣṇa poderia receber pessoalmente um brāhmaṇa que era miserável, não muito limpo ou arrumado e pobremente vestido; mas, ao mesmo tempo, elas puderam perceber que o brāhmaṇa não era um ser vivo comum. Elas sabiam que ele deveria ter executado grandes atividades piedosas; caso contrário, por que o Senhor Kṛṣṇa, o esposo da deusa da fortuna, estaria tendo tanto cuidado com ele? Elas ficaram ainda mais atônitas ao verem que o brāhmaṇa estava sentado no leito do Senhor Kṛṣṇa. Elas se surpreenderam especialmente ao perceberem que o Senhor Kṛṣṇa abraçara o brāhmaṇa exatamente como Ele abraça Seu irmão mais velho, Balarāmajī, pois o Senhor Kṛṣṇa costumava abraçar apenas Rukmiṇī, Balarāma e ninguém mais.

Depois que o brāhmaṇa foi recebido de uma forma adequada e sentou-se no próprio leito almofadado do Senhor Kṛṣṇa, ele e Kṛṣṇa tomaram a mão um do outro e começaram a falar sobre o início de sua vida, quando ambos viviam sob a proteção do gurukula (uma escola internato). O Senhor Kṛṣṇa disse: “Meu querido amigo brāhmaṇa, você é uma personalidade assaz inteligente e conhece muito bem os princípios da vida religiosa. Eu acredito que, depois que você terminou sua educação na casa de nosso mestre e o remunerou suficientemente, você deve ter regressado à sua casa e aceitado uma esposa adequada. Sei muito bem que, desde o princípio, você não tinha apego ao modo materialista de vida, tampouco desejava ser materialmente muito opulento e, por consequência, você agora está necessitado. Neste mundo material, pessoas que não são apegadas à opulência material são muito raramente encontradas. Tais pessoas desapegadas não têm o mínimo desejo de acumular riqueza e prosperidade para a satisfação dos sentidos, mas, às vezes, elas acumulam dinheiro unicamente para exibir a vida exemplar de um chefe de família. Elas demonstram como, por distribuição apropriada de riqueza, a pessoa pode se tornar um chefe de família ideal e, ao mesmo tempo, um grande devoto. Tais chefes de família ideais serão considerados os seguidores de Meus passos. Eu espero, Meu querido amigo brāhmaṇa, que você se lembre de todos aqueles dias de nossa vida escolar quando você e Eu estávamos vivendo juntos no internato. De fato, qualquer conhecimento que tenhamos recebido na nossa existência foi acumulado em nossa vida de estudante”.

“Se um homem for suficientemente educado durante a vida de estudante sob a direção de um mestre adequado, sua vida será próspera no futuro. Ele poderá muito facilmente cruzar o oceano de necedade, sem estar sujeito à influência da energia ilusória. Meu querido amigo, todos deveriam considerar o pai como o seu primeiro mestre, pois, pela misericórdia do pai, a pessoa adquire seu corpo. O pai é, então, o mestre espiritual natural. Nosso mestre espiritual seguinte é aquele que nos inicia em conhecimento transcendental, e ele deve ser adorado tanto quanto Eu sou. O mestre espiritual pode ser mais de um. O mestre espiritual que instrui o discípulo sobre assuntos espirituais é chamado śikṣā-guru, e o mestre espiritual que inicia o discípulo é chamado dīkṣā-guru. Ambos são Meus representantes. Pode haver muitos mestres espirituais que ensinam, mas o mestre espiritual iniciador é apenas um. Entende-se que o ser humano que busca beneficiar-se no contato com esses mestres espirituais e, recebendo conhecimento apropriado deles, cruza o oceano da existência material, utilizou corretamente a forma humana de vida. Ele tem conhecimento prático de que o primeiro interesse da vida, que só é obtido nesta forma humana, é alcançar a perfeição espiritual e, assim, ser transferido de volta ao lar, de volta ao Supremo”.

“Meu querido amigo, Eu sou o Paramātmā, a Superalma presente no coração de todos, e é Minha ordem direta que a sociedade humana siga os princípios de varṇa e āśrama. Como Eu declarei no Bhagavad-gītā, a sociedade humana deve ser dividida em quatro varṇas de acordo com qualidade e ação. Da mesma forma, todos devem dividir sua vida em quatro partes. Deve-se utilizar a primeira parte da vida tornando-se um estudante genuíno, recebendo conhecimento adequado e mantendo-se no voto de brahmacarya de forma que possa dedicar completamente a sua vida ao serviço do mestre espiritual, sem se entregar à satisfação dos sentidos. Um brahmacārī destina-se a levar uma vida de austeridades e penitências. O chefe de família destina-se a viver uma vida regulada de gratificação sensorial, mas ninguém deve permanecer como um chefe de família durante a terceira fase de vida. Nessa fase, deve-se voltar às austeridades e penitências anteriores da prática da vida de brahmacārī e, assim, se livrar do apego à vida doméstica. Depois de se aliviar dos apegos ao modo materialista de vida, a pessoa pode aceitar a ordem de sannyāsa”.

“Como a Superalma das entidades vivas, Eu sento no coração de todos e observo todas as suas atividades em todas as fases e ordens de vida. Independentemente da fase em que a pessoa esteja, quando observo que ela está desempenhando séria e sinceramente seus deveres prescritos pelo mestre espiritual e está, assim, dedicando sua vida ao serviço do mestre espiritual, ela torna-se muito querida a Mim. Quanto à vida de brahmacarya, se a pessoa continuar a vida de brahmacārī sob a guia de um mestre espiritual, isso é extremamente bom, mas, se na vida de brahmacārī, a pessoa sente impulsos para o sexo, ela deveria separar-se do seu mestre espiritual e satisfazer esse impulso de acordo com o desejo do guru. Segundo o sistema védico, um presente guru-dakṣiṇā é oferecido ao mestre espiritual. Então, o discípulo deve adotar a vida de chefe de família e aceitar uma esposa de acordo com os ritos religiosos”.

Essas instruções dadas pelo Senhor Kṛṣṇa enquanto falava com Seu amigo, o brāhmaṇa erudito, são muito boas para a orientação da sociedade humana. Um sistema de civilização humana que não promove varṇa e āśrama não é nada mais do que uma sociedade animal polida. Complacência para com a vida sexual por parte de um homem ou mulher solteiros nunca é aceitável na sociedade humana. Um homem deve seguir estritamente os princípios da vida de brahmacārī ou, com a permissão do mestre espiritual, deve se casar. Vida de solteiro com sexo ilícito é vida animal, porque os animais não têm tal instituição como o matrimônio.

A sociedade moderna não tem como objetivo cumprir a missão da vida humana, que é voltar ao lar, voltar ao Supremo. Para cumprir essa missão, o sistema de varṇa e āśrama deve ser seguido. Quando o sistema é seguido rígida e conscientemente, ele cumpre essa missão, mas, quando é seguido indiretamente, sem a direção de uma autoridade superior, ele simplesmente cria uma condição perturbadora na sociedade humana e não há paz nem prosperidade.

Kṛṣṇa continuou falando com Seu amigo brāhmaṇa: “Meu querido amigo, penso que você se lembra de nossas atividades durante os dias quando vivíamos como estudantes. Talvez se lembre quando, certa vez, fomos apanhar lenha na floresta por ordem da esposa do guru. Enquanto juntávamos a madeira seca, acabamos por adentrar a floresta densa e nos perdemos. Houve uma inesperada tempestade de poeira e, em seguida, nuvens e raios no céu e o som explosivo de um trovão. Logo em seguida, o Sol se pôs e nós estávamos perdidos na selva escura. Depois disso, começou uma chuva pesada; o solo inteiro ficou inundado com água e não pudemos localizar o caminho de regresso ao āśrama de nosso guru. Talvez você se lembre daquela chuva pesada – não era de fato uma chuva, mas um tipo de devastação. Por causa da tempestade de poeira e da chuva pesada, começamos a nos sentir muito doloridos e, em qualquer direção que virássemos, ficávamos confusos. Naquela condição angustiante, pegamos na mão um do outro e tentamos descobrir nosso caminho de volta. Passamos a noite inteira daquele modo, e, de manhã cedo, quando nossa ausência foi percebida pelo nosso gurudeva, ele ordenou a seus outros discípulos que nos procurassem. Ele também foi com eles e, quando eles nos localizaram na selva, acharam-nos muito aflitos”.

“Com grande compaixão, nosso gurudeva disse: ‘Meus queridos meninos, é muito maravilhoso que vocês tenham passado por tanta dificuldade por minha causa. Todos gostam de cuidar do seu corpo como a primeira consideração, vocês, todavia, são tão bons e fiéis a seu guru que, sem se importarem com confortos físicos, passaram por muitos aborrecimentos por mim. Também me alegro em ver que estudantes autênticos como vocês passarão qualquer tipo de dificuldade para a satisfação do mestre espiritual. Esse é o caminho para um discípulo autêntico ficar livre da sua dívida para com o mestre espiritual. É dever do discípulo dedicar sua vida ao serviço do mestre espiritual. Meus queridos melhores dentre os duas vezes nascidos, estou imensamente satisfeito com seus atos e os abençoo: Que todos os seus desejos e ambições sejam realizados. Que o entendimento dos Vedas que aprenderam de mim continue sempre dentro de sua memória de forma que, em todo momento, vocês possam se lembrar dos ensinamentos védicos e possam citar as instruções sem dificuldade. Assim, vocês nunca ficarão desapontados nesta vida ou na próxima’”.

Kṛṣṇa continuou: “Meu querido amigo, você pode lembrar que muitos incidentes aconteceram enquanto estávamos no āśrama de nosso mestre espiritual. Ambos podemos perceber que, sem as bênçãos do mestre espiritual, ninguém pode ser feliz. Pela misericórdia do mestre espiritual e pelas bênçãos dele, pode-se alcançar paz e prosperidade e cumprir a missão da vida humana”.

Ao ouvir isso, o brāhmaṇa erudito respondeu: “Meu querido Kṛṣṇa, Você é o Senhor Supremo e o mestre espiritual supremo de todos, e, como eu fui afortunado o bastante para morar com Você na casa de nosso guru, penso que não tenho nada mais a fazer quanto aos deveres védicos prescritos. Meu querido Senhor, os hinos védicos, cerimônias ritualísticas, atividades religiosas e todas as outras necessidades para a perfeição da vida humana, incluindo desenvolvimento econômico, satisfação dos sentidos e libertação, são todos derivados de uma única fonte: Sua personalidade suprema. Todos os diferentes processos de vida destinam-se, em última análise, a entender Sua personalidade. Em outras palavras, eles são as diferentes partes de Sua forma transcendental. E, ainda assim, Você representou o papel de um estudante e morou conosco na casa do guru. Isso significa que Você realizou todos esses passatempos apenas para o Seu prazer; caso contrário, não haveria qualquer necessidade de representar o papel de um ser humano”.

Neste ponto, encerram-se os significados Bhaktivedanta do capítulo oitenta de Kṛṣṇa, intitulado “O Encontro do Senhor Kṛṣṇa com Sudāmā Brāhmaṇa”.