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Capítulo 72

A Libertação do Rei Jarāsandha

Na grande assembleia de cidadãos respeitáveis, amigos, parentes, brāhmaṇas, sábios, kṣatriyas e vaiśyas – na presença de todos, incluindo seus irmãos –, o rei Yudhiṣṭhira dirigiu-se diretamente ao Senhor Kṛṣṇa com a seguinte argumentação: “Meu querido Senhor Kṛṣṇa, o sacrifício conhecido como rājasūya-yajña deve ser executado pelo imperador e é considerado o rei de todos os sacrifícios. Executando esse sacrifício, desejo satisfazer todos os semideuses, que são Seus representantes autorizados dentro deste mundo material e desejo que Você me ajude, por gentileza, nesse grande empreendimento, de forma que possa ser exitoso. No que concerne a nós Pāṇḍavas, não temos nada a pedir dos semideuses. Pessoalmente, estamos de todo satisfeitos por sermos Seus devotos. Como Você diz no Bhagavad-gītā: ‘Pessoas desnorteadas pelos desejos materiais adoram os semideuses’. Mas meu propósito é diferente. Quero realizar este sacrifício rājasūya e convidar os semideuses para mostrar que eles não têm nenhum poder independente de Você – que eles são todos Seus criados e que Você é a Suprema Personalidade de Deus. Pessoas tolas, com um pobre fundo de conhecimento, consideram Sua Onipotência um ser humano comum. Às vezes, elas tentam achar algum erro em Você e, às vezes, elas O difamam. Por essa razão, desejo executar este rājasūya-yajña. Pretendo convidar todos os semideuses, começando pelo senhor Brahmā, o senhor Śiva e outros elevados líderes dos planetas divinos, e, nessa grande assembleia de semideuses de todas as partes do universo, quero corroborar que Você é a Suprema Personalidade de Deus e que todos são Seus servos”.

“Meu querido Senhor, aqueles que estão constantemente em consciência de Kṛṣṇa e pensam em Seus pés de lótus ou em Seus calçados estão certamente livres de toda a contaminação da vida material. Tais pessoas, que se ocupam por completo em Seu serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa, meditando apenas em Você e oferecendo-Lhe orações, são almas purificadas. Estando constantemente ocupadas em serviço consciente de Kṛṣṇa, elas são libertadas do ciclo de repetidos nascimentos e mortes. Ou, até mesmo se elas não desejam ser libertas desta existência material, mas desejam desfrutar de opulência material, seus anseios também são atendidos por intermédio das atividades conscientes de Kṛṣṇa. De fato, aqueles que são devotos puros de Seus pés de lótus não têm nenhum desejo de opulências materiais. Quanto a nós, rendemo-nos completamente a Seus pés de lótus e, por Sua graça, somos tão afortunados que podemos vê-lO em pessoa. Portanto, naturalmente, não temos qualquer anseio por opulências materiais. O veredito da sabedoria védica é que Você é a Suprema Personalidade de Deus. Eu quero reafirmar essa verdade e também almejo mostrar para o mundo a diferença entre aceitá-lO como a Suprema Personalidade de Deus e aceitá-lO como uma poderosa personalidade histórica. Intenciono mostrar ao mundo que se pode atingir a perfeição da vida somente por se abrigar a Seus pés de lótus, assim como se podem satisfazer os galhos, ramos, folhas e flores de uma árvore inteira somente por regar sua raiz. Se a pessoa assumir a consciência de Kṛṣṇa, sua vida será realizada, material e espiritualmente”.

“Isso não significa que Você seja parcial com a pessoa consciente de Kṛṣṇa e indiferente à pessoa não-consciente de Kṛṣṇa. Você é igual com todos; essa é Sua declaração. Você não pode ser parcial com alguém e não Se interessar por outrem, porque Você está situado no coração de todos como a Superalma e concede a todos os respectivos resultados de suas atividades fruitivas. Você propicia a todas as entidades vivas a oportunidade de desfrutar este mundo material como elas desejam. Como a Superalma, Você está situado no corpo junto à entidade viva, dando-lhe os resultados de suas próprias ações, como também oportunidades para dirigir-se rumo a Seu serviço devocional pelo desenvolvimento da consciência de Kṛṣṇa. Você declara abertamente que devemos nos render a Você e abandonar todos os outros compromissos e que Você Se encarregaria de tudo, aliviando-nos das reações de todos os pecados. No entanto, as entidade vivas permanecem apegadas às atividades materiais e sofrem ou desfrutam as reações sem Sua interferência. Você é igual à árvore-dos-desejos dos planetas celestiais, que concede bênçãos segundo os desejos de alguém. Todos são livres para alcançar a perfeição máxima, mas, se a pessoa não quiser assim, Sua concessão de bênçãos menores não é devido à parcialidade”.

Ao ouvir essa declaração do rei Yudhiṣṭhira, o Senhor Kṛṣṇa respondeu como segue: “Meu querido rei Yudhiṣṭhira, ó matador de inimigos, ó justiça ideal personificada, confiro inteiramente Meu apoio à sua decisão de executar o sacrifício rājasūya. Depois de executar esse grande sacrifício, seu bom nome ficará na história da civilização humana. Meu querido rei, posso informar-lhe que todos os grandes sábios, seus antepassados, os semideuses e seus parentes e amigos, inclusive Eu mesmo, desejamos que você execute este sacrifício, e acredito que ele satisfará todas as entidades vivas. Contudo, em primeiro lugar, peço-lhe que conquiste todos os reis do mundo e junte toda a parafernália requerida para executar esse grande sacrifício. Meu querido rei Yudhiṣṭhira, seus quatro irmãos são os representantes diretos de semideuses importantes, como Vāyu e Indra. [É dito que Bhīma nasceu do semideus Vāyu e que Arjuna nasceu do semideus Indra, ao passo que o próprio rei Yudhiṣṭhira nasceu do semideus Yamarāja.] Como tal, seus irmãos são grandes heróis, e você é o rei mais piedoso e autocontrolado e, por isso, é conhecido como Dharmarāja. Todos vocês são tão qualificados em serviço devocional a Mim que automaticamente Me conquistaram”.

O Senhor Kṛṣṇa afirmou ao rei Yudhiṣṭhira que Ele é conquistado pelo amor de alguém que dominou seus sentidos. Alguém que não controlou seus sentidos não pode conquistar a Suprema Personalidade de Deus. Esse é o segredo do serviço devocional. Conquistar os sentidos significa ocupá-los constantemente no serviço ao Senhor. A qualificação específica de todos os irmãos Pāṇḍavas era que eles sempre empenhavam seus sentidos no serviço ao Senhor. Alguém que assim empenha seus sentidos se purifica, e, com sentidos purificados, o devoto pode prestar transcendental serviço amoroso ao Senhor e conquistá-lO.

O Senhor Kṛṣṇa continuou: “Não há ninguém nos três mundos do universo, inclusive os poderosos semideuses, que possa ultrapassar Meus devotos em quaisquer das seis opulências, isto é, riqueza, força, reputação, beleza, conhecimento e renúncia. Então, se você quiser conquistar os reis terrenos, não há qualquer possibilidade de que eles saiam vitoriosos”.

Quando o Senhor Kṛṣṇa encorajou o rei Yudhiṣṭhira dessa maneira, a face do rei brilhou como uma flor desabrochando por causa da felicidade transcendental e, assim, ele ordenou que seus irmãos mais jovens conquistassem todos os reis da Terra em todas as direções. O Senhor Kṛṣṇa autorizou os Pāṇḍavas a executar a grande missão dEle de castigar os descrentes infiéis do mundo e dar proteção aos Seus devotos fiéis. Em Sua forma de Viṣṇu, o Senhor porta quatro armas em Suas quatro mãos – uma flor de lótus e um búzio em duas mãos e, nas outras duas mãos, uma maça e um disco. A maça e o disco destinam-se aos perversos infiéis e aos demônios, e a flor de lótus e o búzio são para os devotos. Contudo, porque o Senhor é o Supremo Absoluto, o resultado de qualquer uma de Suas armas é o mesmo. Com a maça e o disco, Ele castiga os perversos de forma que eles possam se conscientizar e saber que eles não são o absoluto, pois, acima deles, há o Senhor Supremo. E por soar o búzio e oferecer bênçãos com a flor de lótus, Ele sempre garante aos devotos que ninguém pode derrotá-los, nem mesmo em momentos de grande calamidade. O rei Yudhiṣṭhira, sendo assim assegurado pela indicação do Senhor Kṛṣṇa, ordenou seu irmão mais jovem, Sahadeva, acompanhado por soldados da tribo de Sṛñjaya, a conquistar os países meridionais. Da mesma forma, ele ordenou Nakula, acompanhado pelos soldados de Matsyadeśa, a conquistar os reis do lado ocidental. Ele enviou Arjuna, acompanhado pelos soldados de Kekayadeśa, para conquistar os reis do norte, e ordenou a Bhīmasena, acompanhado pelos soldados de Madradeśa (Madras), que conquistasse os reis no lado oriental.

Pode-se notar que, despachando seus irmãos mais jovens para conquistar as diferentes direções, o rei Yudhiṣṭhira não pretendia de fato que eles declarassem guerra aos reis. Na verdade, os irmãos partiram para as várias direções a fim de informar aos respectivos reis sobre a intenção do rei Yudhiṣṭhira de executar o sacrifício rājasūya. Os reis foram assim informados que deveriam pagar impostos para a execução do sacrifício. Esse pagamento de impostos para o imperador Yudhiṣṭhira significava que o rei aceitara sua subjugação diante dele. Se o rei se recusasse a atender o que seria pedido, haveria certamente um combate. Assim, pela sua influência e força, os irmãos submeteram todos os reis das diversas direções e puderam trazer impostos e presentes suficientes, que foram apresentados diante do rei Yudhiṣṭhira.

Contudo, o rei Yudhiṣṭhira ficou muito ansioso quando ouviu que o rei Jarāsandha, de Magadha, não aceitara sua soberania. Vendo a ansiedade do rei Yudhiṣṭhira, o Senhor Kṛṣṇa informou-lhe acerca do plano explicado por Uddhava para vencer o rei Jarāsandha. Portanto, Bhīmasena, Arjuna e o Senhor Kṛṣṇa partiram juntos para Girivraja, a importante cidade de Jarāsandha, vestidos em trajes de brāhmaṇas. Esse foi o plano elaborado por Uddhava antes de o Senhor Kṛṣṇa partir para Hastināpura, e agora estava sendo colocado em prática.

O rei Jarāsandha era um chefe de família responsável e tinha grande respeito pelos brāhmaṇas. Ele era um grande guerreiro, um rei kṣatriya, mas nunca negligenciara as injunções védicas. Considera-se que os brāhmaṇas, conforme os preceitos védicos, são os mestres espirituais de todas as outras castas. O Senhor Kṛṣṇa, Arjuna e Bhīmasena eram, na verdade, kṣatriyas, mas eles se vestiram como brāhmaṇas e, no momento em que o rei Jarāsandha ia dar caridade aos brāhmaṇas e recebê-los como convidados, eles se aproximaram.

O Senhor Kṛṣṇa, vestido como um brāhmaṇa, disse ao rei: “Desejamos todas as glórias à Sua Onipotência. Convidados ao seu palácio real, nós três viemos de uma grande distância para implorar-lhe caridade e esperamos que nos dê, por favor, tudo o que lhe pedirmos. Sabemos sobre suas boas qualidades. Uma pessoa que é tolerante está sempre preparada para tolerar tudo, mesmo que seja angustiante. Da mesma maneira que um criminoso pode executar os atos mais abomináveis, uma pessoa muito caridosa como você pode dar qualquer coisa que lhe seja pedido. Para uma grande personalidade como você, não há nenhuma distinção entre os parentes e os estranhos. Um homem famoso vive para sempre, até mesmo depois da sua morte; portanto, qualquer pessoa que seja completamente condizente e capaz de executar atos que perpetuarão seus bons nome e fama e, ainda assim, não os fizer, tornar-se-á abominável aos olhos das grandes personalidades. Tal pessoa não pode ser condenada o bastante, e sua recusa em dar caridade é lamentável ao longo de toda a sua vida. Sua Majestade deve ter ouvido os nomes gloriosos de personalidades caridosas como Hariścandra, Rantideva e Mudgala, que se mantinham apenas com grãos apanhados dos arrozais, e o grande Mahārāja Śibi, que salvou a vida de um pombo provendo carne do seu próprio corpo. Essas grandes personalidades atingiram fama imortal só por sacrificarem o corpo temporário e perecível”. Assim, o Senhor Kṛṣṇa, trajado de brāhmaṇa, convenceu Jarāsandha de que a fama é imperecível, mas o corpo não. Se alguém pode conseguir nome e fama imperecíveis, com o sacrifício de seu corpo perecível, ele se torna uma figura muito respeitável na história da civilização humana.

Enquanto o Senhor Kṛṣṇa falava, vestido de brāhmaṇa, junto de Arjuna e Bhīma, Jarāsandha percebeu que nenhum dos três parecia ser um brāhmaṇa verdadeiro. Havia sinais nos corpos deles pelos quais Jarāsandha pôde notar que eles eram kṣatriyas. Os ombros estavam marcados com impressões devido à condução de arcos, eles tinham estruturas físicas esbeltas e suas vozes eram graves, com tom de comando. Assim, ele definitivamente concluiu que eles não eram brāhmaṇas, mas, sim, kṣatriyas. Ele também achou que já os vira antes em algum lugar. No entanto, embora essas três pessoas fossem kṣatriyas, elas tinham vindo à porta dele, implorando esmolas como brāhmaṇas. Em consequência, ele decidiu que atenderia seus desejos, apesar de serem kṣatriyas, pois eles já tinham diminuído sua própria posição por aparecer diante dele como mendigos. “Em tais circunstâncias”, ele pensou, “estou preparado para lhes dar qualquer coisa. Até mesmo se eles pedirem meu corpo, não vacilarei em lhes oferecer o que pedem”. Com relação a isso, ele começou a pensar em Bali Mahārāja. O Senhor Viṣṇu, vestido como um brāhmaṇa, aparecera como um mendigo diante de Bali e arrebatou toda a sua opulência e seu reino. Ele, assim, procedeu para o benefício de Indra, que, tendo sido derrotado por Bali Mahārāja, estava desprovido de seu reino. Embora Bali Mahārāja tivesse sido enganado, sua reputação como um grande devoto, capaz de dar qualquer coisa em caridade, ainda é glorificada nos três mundos. Bali Mahārāja pôde descobrir que o brāhmaṇa era o próprio Senhor Viṣṇu e que só viera até ele com o objetivo de tomar seu opulento reino em nome de Indra. O mestre espiritual de Bali e sacerdote da família, Śukrācārya, advertiu-o repetidamente sobre isso, apesar do que Bali não vacilou em ceder em caridade qualquer coisa que o brāhmaṇa desejasse. Por fim, ele entregou tudo àquele brāhmaṇa. “É minha firme determinação”, pensou Jarāsandha, “que, se posso alcançar uma reputação imortal sacrificando este corpo perecível, devo agir para esse propósito; a vida de um kṣatriya que não vive para o benefício dos brāhmaṇas é certamente condenada”.

De fato, o rei Jarāsandha era muito liberal em fazer caridade aos brāhmaṇas e, assim, ele informou o Senhor Kṛṣṇa, Bhīma e Arjuna: “Meus queridos brāhmaṇas, vocês podem solicitar de mim tudo o que desejarem. Se quiserem, também podem levar minha cabeça. Estou preparado para dá-la”.

Depois disso, o Senhor Kṛṣṇa dirigiu-Se a Jarāsandha como segue: “Meu querido rei, por favor, observe que nós não somos de fato brāhmaṇas, nem viemos pedir comida ou grãos. Somos todos kṣatriyas e viemos implorar um duelo contra você. Esperamos que concorde com esta proposta. Note que aqui está o segundo filho do rei Pāṇḍu, Bhīmasena, e o terceiro filho de Pāṇḍu, Arjuna. Quanto a Mim, saiba que sou seu velho inimigo, Kṛṣṇa, o primo dos Pāṇḍavas”.

Quando o Senhor Kṛṣṇa revelou o disfarce, o rei Jarāsandha riu muito ruidosamente e, com grande raiva e em uma voz grave, exclamou: “Seus tolos! Se desejam lutar comigo, concedo seu pedido imediatamente. Quanto a Você, Kṛṣṇa, sei que Você é um covarde. Recuso-me a lutar com Você, pois Você fica muito confuso quando está diante de mim para duelar. Por medo de mim, Você abandonou Sua própria cidade, Mathurā, e agora Se refugiou dentro do mar; em vista disso, tenho de me recusar a lutar com Você. Em relação a Arjuna, sei que ele é mais jovem que eu e não é um lutador compatível. Recuso-me a lutar com ele porque ele não é de forma alguma um adversário à altura. Entretanto, quanto a Bhīmasena, considero que ele seja um oponente satisfatório para lutar comigo”. Depois de falar desse modo, o rei Jarāsandha imediatamente deu uma maça muito pesada a Bhīmasena, empunhou outra e os dois foram para fora das muralhas da cidade a fim de travar um combate.

Bhīmasena e o rei Jarāsandha engalfinharam-se numa luta e, com suas respectivas maças, que eram tão fortes quanto raios, começaram a golpear um ao outro muito severamente, ambos muito empenhados na luta. Os dois eram lutadores especialistas em maças, e suas técnicas de golpear um ao outro eram tão primorosas que pareciam ser dois artistas dramáticos dançando em um palco. Quando as maças de Jarāsandha e Bhīmasena colidiam ruidosamente, o som produzido assemelhava-se ao do impacto das presas de dois grandes elefantes lutadores, ou a um raio em uma tempestade elétrica. Quando dois elefantes lutam em um canavial, cada um deles arrebata uma vara de cana-de-açúcar, prende-a em sua tromba e agride o outro. Nesse momento, a cana-de-açúcar é esmagada com o pesado golpe. De maneira semelhante, quando Bhīmasena e Jarāsandha estavam golpeando um ao outro pesadamente com suas maças em diferentes partes dos corpos – isto é, ombros, braços, clavículas, peitos, coxas, cinturas e pernas –, as maças foram reduzidas a pedaços. Desse modo, todas as maças usadas por Jarāsandha e Bhīmasena foram destruídas, e, assim, os dois inimigos prepararam-se para lutar com as mãos. Jarāsandha e Bhīmasena estavam com muita raiva e começaram a esmagar um ao outro com os punhos. Os golpes dos seus punhos pareciam a pancada de barras de ferro ou o som de raios, e os dois guerreiros assemelhavam-se a dois elefantes lutando. Nenhum podia derrotar o outro, porém, ambos eram especialistas em combate e de igual força, e as técnicas marciais também eram equivalentes. Nem Jarāsandha nem Bhīmasena estavam cansados ou haviam sido derrotados no confronto, embora golpeassem um ao outro continuamente. Ao término de cada dia de luta, eles conviviam à noite como amigos no palácio de Jarāsandha e, no dia seguinte, lutavam novamente. Desse modo, eles lutaram por vinte e sete dias.

No vigésimo oitavo dia, Bhīmasena disse a Kṛṣṇa: “Meu querido Kṛṣṇa, devo admitir francamente que não posso vencer Jarāsandha”. O Senhor Kṛṣṇa, todavia, conhecia o mistério do nascimento de Jarāsandha, que tinha nascido em duas partes distintas de duas mães diferentes. Quando seu pai viu que o bebê era inútil, ele lançou as duas partes na floresta. Lá, elas foram depois encontradas por uma bruxa chamada Jarā, a qual era qualificada nas artes negras. Ela conseguiu unir as duas partes do bebê de cima a baixo. Sabendo disso, o Senhor Kṛṣṇa também sabia como matá-lo. Ele indicou a Bhīmasena que, como Jarāsandha fora trazido à vida pelo acoplamento das duas partes de seu corpo, ele poderia ser exterminado pela separação dessas duas partes. Assim, o Senhor Kṛṣṇa transferiu Seu poder ao corpo de Bhīmasena e o informou do dispositivo pelo qual Jarāsandha poderia ser morto. O Senhor Kṛṣṇa apanhou o graveto de uma árvore, tomou-o em Sua mão e o bifurcou. Dessa maneira, Ele indicou a Bhīmasena como Jarāsandha poderia ser eliminado. O Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, é onipotente, e, se Ele desejar matar alguém, ninguém poderá salvar tal pessoa. De igual modo, se Ele quiser salvar alguém, ninguém poderá matar essa pessoa.

Com as dicas do Senhor Kṛṣṇa, Bhīmasena imediatamente pegou as pernas de Jarāsandha e o arremessou no chão. Quando Jarāsandha caiu, Bhīmasena de pronto apertou uma das pernas de Jarāsandha contra o solo e segurou a outra perna com suas duas mãos. Dominando Jarāsandha dessa forma, ele rasgou o corpo dele em dois, começando do ânus até a cabeça. Como um elefante quebra os galhos de uma árvore em dois, Bhīmasena separou o corpo de Jarāsandha. O público que estava nas proximidades viu que o corpo de Jarāsandha fora dividido em duas partes, de forma que cada metade tinha uma perna, uma coxa, um testículo, metade de uma coluna vertebral, metade de um peito, uma clavícula, um braço, um olho, uma orelha e meia face.

Assim que as notícias da morte de Jarāsandha foram anunciadas, todos os cidadãos de Magadha começaram a gritar, enquanto o Senhor Kṛṣṇa e Arjuna abraçavam Bhīmasena para felicitá-lo. Embora Jarāsandha tivesse sido exterminado, nem Kṛṣṇa nem os dois irmãos Pāṇḍavas fizeram qualquer reivindicação ao trono. O propósito do extermínio de Jarāsandha era impedi-lo de criar uma perturbação à adequada paz mundial. Um demônio sempre cria perturbações, ao passo que um semideus sempre tenta manter a paz no mundo. A missão do Senhor Kṛṣṇa é proteger os íntegros e matar os demônios que perturbam uma situação pacífica. Destarte, o Senhor Kṛṣṇa imediatamente convocou o filho de Jarāsandha, cujo nome era Sahadeva, e, com cerimônias ritualísticas apropriadas, o Senhor pediu-lhe para ocupar o assento de seu pai e governar pacificamente no reino. O Senhor Kṛṣṇa é o mestre da criação cósmica inteira e Ele quer que todos vivam em paz e executem a consciência de Kṛṣṇa. Depois de instalar Sahadeva no trono, Ele libertou todos os reis e príncipes que haviam sido encarcerados desnecessariamente por Jarāsandha.

Neste ponto, encerram-se os significados Bhaktivedanta do capítulo setenta e dois de Kṛṣṇa, intitulado “A Libertação do Rei Jarāsandha”.