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CAPÍTULO QUATORZE

Os Três Modos da
Natureza Material

Texto

śrī-bhagavān uvāca
paraṁ bhūyaḥ pravakṣyāmi
jñānānāṁ jñānam uttamam
yaj jñātvā munayaḥ sarve
parāṁ siddhim ito gatāḥ

Sinônimos

śrī-bhagavān uvāca — a Suprema Personalidade de Deus disse; param — transcendental; bhūyaḥ — novamente; pravakṣyāmi — falarei; jñānānām — de todo o conhecimento; jñānam — o conhecimento; uttamam — supremo; yat — o qual; jñātvā — conhecendo; munayaḥ — os sábios; sarve — todos; parām — transcendental; siddhim — perfeição; itaḥ — deste mundo; gatāḥ — alcançaram.

Tradução

A Suprema Personalidade de Deus disse: Volto a lhe expor esta sabedoria suprema, o melhor entre todos os conhecimentos, conhecendo o qual todos os sábios atingiram a perfeição suprema.

Comentário

Do Sétimo Capítulo até o final do Décimo Segundo Capítulo, Śrī Kṛṣṇa revela com pormenores a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus. Agora, o próprio Senhor continua a iluminar Arjuna. Se alguém compreende este capítulo através do processo de especulação filosófica, ele chegará à compreensão do serviço devocional. No Décimo Terceiro Capítulo, foi explicado com clareza que, desenvolvendo conhecimento com humildade, a pessoa tem toda a possibilidade de livrar-se do enredamento material. Também se explicou que é devido à associação com os modos da natureza que a entidade viva está enredada neste mundo material. Agora, neste capítulo, a Personalidade Suprema explica o que são esses modos da natureza, como eles agem, como eles atam e como eles liberam. O Senhor Supremo afirma que o conhecimento explicado neste capítulo é superior ao conhecimento até agora transmitido nos outros capítulos. Compreendendo este conhecimento, vários grandes sábios alcançaram a perfeição e foram transferidos para o mundo espiritual. O Senhor dá aqui uma explicação ainda melhor do mesmo conhecimento. Este conhecimento é muitíssimo superior a todos os outros processos de conhecimento explicados até agora, e compreendendo-o, muitas pessoas alcançaram a perfeição. Logo, espera-se que quem compreender este Décimo Quarto Capítulo alcançará a perfeição.

Texto

idaṁ jñānam upāśritya
mama sādharmyam āgatāḥ
sarge ’pi nopajāyante
pralaye na vyathanti ca

Sinônimos

idam — este; jñānam — conhecimento; upāśritya — refugiando-se em; mama — Minha; sādharmyam — mesma natureza; āgatāḥ — tendo alcançado; sarge api — mesmo na criação; na — nunca; upajāyante — nascem; pralaye — na aniquilação; na — nem; vyathanti — são perturbados; ca — também.

Tradução

Fixando-se neste conhecimento, a pessoa pode alcançar uma natureza transcendental igual à Minha. Nesta situação, ela não nasce no momento da criação nem é perturbada no momento da dissolução.

Comentário

Quem, após adquirir conhecimento transcendental perfeito, desenvolve as mesmas qualidades da Suprema Personalidade de Deus, livra-se de repetidos nascimentos e mortes. No entanto, não se perde a identidade como alma individual. Através da literatura védica fica evidente que as almas liberadas que alcançaram os planetas transcendentais do céu espiritual sempre recorrem aos pés de lótus do Senhor Supremo, estando ocupadas em Seu serviço transcendental amoroso. Logo, nem mesmo após a liberação os devotos perdem suas identidades individuais.

De um modo geral, qualquer conhecimento que obtenhamos no mundo material está contaminado pelos três modos da natureza material. Mas o que não está contaminado chama-se conhecimento transcendental. No momento em que obtemos conhecimento transcendental, já estamos na mesma plataforma da Pessoa Suprema. Aqueles que nada conhecem sobre o céu espiritual afirmam que, após libertar-se das atividades materiais executadas num corpo material, esta identidade espiritual torna-se amorfa, sem nenhuma variedade. Entretanto, assim como há variedade neste mundo material, no mundo espiritual também há variedade. Aqueles que ignoram isto pensam que a existência espiritual é exatamente o oposto da variedade material. Mas na verdade, no céu espiritual, todos obtêm uma forma espiritual. Há atividades espirituais, e a situação espiritual chama-se vida devocional. Está dito que nesta atmosfera não contaminada todos têm as mesmas qualidades do Senhor Supremo. Para obter esse conhecimento, devemos desenvolver todas as qualidades espirituais. Quem desenvolve essas qualidades espirituais não é afetado pela criação nem pela destruição do mundo material.

Texto

mama yonir mahad brahma
tasmin garbhaṁ dadhāmy aham
sambhavaḥ sarva-bhūtānāṁ
tato bhavati bhārata

Sinônimos

mama — Minha; yoniḥ — fonte de nascimento; mahat — a existência material total; brahma — suprema; tasmin — nessa; garbham — gravidez; dadhāmi — crio; aham — Eu; sambhavaḥ — a possibilidade; sarva-bhūtānām — de todas as entidades vivas; tataḥ — depois disso; bhavati — torna-se; bhārata — ó filho de Bharata.

Tradução

A totalidade da substância material, chamada Brahman, é a fonte do nascimento, e é esse Brahman que Eu fecundo, possibilitando os nascimentos de todos os seres vivos, ó filho de Bharata.

Comentário

Esta é uma maneira de explicar o mundo: tudo o que acontece deve-se à combinação de kṣetra e kṣetra-jña, o corpo e a alma espiritual. O próprio Deus Supremo torna possível esta combinação da natureza material e da entidade viva. O mahat-tattva é a causa total da manifestação cósmica total; e esta substância total da causa material, na qual existem os três modos da natureza, às vezes chama-se Brahman. A Personalidade Suprema fecunda esta substância total, e assim se tornam possíveis inumeráveis universos. Esta substância material total, o mahat-tattva, é descrita como Brahman na literatura védica (Muṇḍaka Upaniṣad 1.1.9): tasmād etad brahma nāma-rūpam annaṁ ca jāyate. A Pessoa Suprema deposita neste Brahman as sementes que originam as entidades vivas. Todos os vinte e quatro elementos, começando por terra, água, fogo e ar, são energia material, e constituem o que se chama mahad brahma, ou o grande Brahman, a natureza material. Como se explicou no Sétimo Capítulo, além dessa natureza, há uma outra natureza superior — a entidade viva. Pela vontade da Suprema Personalidade de Deus, a natureza superior entra em contato com a natureza material, e depois todas as entidades vivas nascem desta natureza material.

O escorpião põe seus ovos em montes de arroz, e às vezes se diz que o escorpião nasce do arroz. Mas o arroz não é a causa do escorpião. Na verdade, os ovos foram postos pela mãe. De modo semelhante, a natureza material não é a causa do nascimento das entidades vivas. A semente é dada pela Suprema Personalidade de Deus, e tem-se a impressão de que elas surgem como produtos da natureza material. Assim, cada entidade viva, conforme suas atividades passadas, tem um corpo diferente, criado por esta natureza material, de modo que a entidade possa gozar ou sofrer segundo seus atos passados. O Senhor é a causa de todas as manifestações de entidades vivas neste mundo material.

Texto

sarva-yoniṣu kaunteya
mūrtayaḥ sambhavanti yāḥ
tāsāṁ brahma mahad yonir
ahaṁ bīja-pradaḥ pitā

Sinônimos

sarva-yoniṣu — em todas as espécies de vida; kaunteya — ó filho de Kuntī; mūrtayaḥ — formas; sambhavanti — aparecem; yāḥ — as quais; tāsām — de todas elas; brahma — a suprema; mahat yoniḥ — fonte de nascimento na substância material; aham — Eu; bīja-pradaḥ — o que dá a semente; pitā — pai.

Tradução

Ó filho de Kuntī, deve-se compreender que é com o nascimento nesta natureza material que todas as entidades vivas, em todas as espécies de vida, tornam-se possíveis, e que Eu sou o pai que dá a semente.

Comentário

Neste verso, explica-se claramente que a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é o pai do qual se originam todas as entidades vivas, as quais são combinações da natureza material e da natureza espiritual. Essas entidades vivas existem não só neste planeta, mas em todos os planetas, mesmo no mais elevado, onde vive Brahmā. Em toda a parte há entidades vivas; dentro da terra há entidades vivas, e mesmo dentro da água e do fogo. Todos estes aparecimentos devem-se à mãe, a natureza material, e ao processo através do qual Kṛṣṇa dá a semente. O significado é que o mundo material é fecundado com entidades vivas que, no momento da criação, surgem em várias formas segundo suas ações passadas.

Texto

sattvaṁ rajas tama iti
guṇāḥ prakṛti-sambhavāḥ
nibadhnanti mahā-bāho
dehe dehinam avyayam

Sinônimos

sattvam — o modo da bondade; rajaḥ — o modo da paixão; tamaḥ — o modo da ignorância; iti-assiiti-assim; guṇāḥ — as qualidades; prakṛti — natureza material; sambhavāḥ — produzidas de; nibadhnanti — condicionam; mahā-bāho — ó pessoa de braços poderosos; dehe — neste corpo; dehinam — a entidade viva; avyayam — eterna.

Tradução

A natureza material consiste em três modos — bondade, paixão e ignorância. Ao entrar em contato com a natureza, ó Arjuna de braços poderosos, a entidade viva eterna é condicionada por esses modos.

Comentário

Porque é transcendental, a entidade viva nada tem a ver com esta natureza material. Mesmo assim, por se condicionar ao mundo material, ela age sob o encanto dos três modos da natureza material. Porque as entidades vivas têm diferentes espécies de corpos proporcionados pelos diferentes aspectos da natureza, elas são induzidas a agir de acordo com esta natureza. Esta é a causa das muitas variedades de felicidade e sofrimento.

Texto

tatra sattvaṁ nirmalatvāt
prakāśakam anāmayam
sukha-saṅgena badhnāti
jñāna-saṅgena cānagha

Sinônimos

tatra — lá; sattvam — o modo da bondade; nirmalatvāt — sendo o mais puro no mundo material; prakāśakam — iluminando; anāmayam — sem nenhuma reação pecaminosa; sukha — com felicidade; saṅgena — pela associação; badhnāti — condiciona; jñāna — com o conhecimento; saṅgena — pela associação; ca — também; anagha — ó impecável.

Tradução

Ó pessoa virtuosa, o modo da bondade, sendo mais puro do que os outros, ilumina, livrando a pessoa de todas as reações pecaminosas. Aqueles que estão situados neste modo condicionam-se a uma sensação de felicidade e conhecimento.

Comentário

As entidades vivas condicionadas à natureza material são de várias categorias. Alguém pode ser feliz, outrem, muito ativo, mas há outro que se sente desamparado. Todos estes tipos de manifestações psicológicas são a causa da posição condicionada das entidades na natureza. Nesta seção do Bhagavad-gītā, explica-se como elas se condicionam de maneira diferente. Primeiramente, tecem-se comentários sobre o modo da bondade. No mundo material, quem desenvolve o modo da bondade acaba se tornando mais sábio do que aqueles condicionados a outras circunstâncias. Um homem no modo da bondade não é tão afetado pelas misérias materiais, e ele sente o avanço em conhecimento material. A figura representativa é o brāhmaṇa, que se supõe estar situado no modo da bondade. Esta sensação de felicidade deve-se à compreensão de que, no modo da bondade, a pessoa está mais ou menos livre de reações pecaminosas. Na verdade, na literatura védica se diz que o modo da bondade significa maior conhecimento e uma maior sensação de felicidade.

O problema é que, quando se situa no modo da bondade, o ser vivo fica induzido a sentir que é avançado em conhecimento e que é melhor do que os outros. Dessa maneira, ele se condiciona. Os melhores exemplos são o cientista e o filósofo. Cada qual tem muito orgulho de seu conhecimento, e porque em geral melhoram suas condições de vida, eles sentem uma espécie de felicidade material. Na vida condicionada, esta sensação de felicidade superior deixa-os atados ao modo da bondade da natureza material. Nesse caso, eles ficam atraídos a trabalhar no modo da bondade, e, enquanto sentem atração para essa espécie de trabalho, eles devem aceitar algum dos corpos oferecidos pelos modos da natureza. Assim, não há possibilidade de liberação, ou de sua transferência para o mundo espiritual. Repetidas vezes, a pessoa pode tornar-se um filósofo, um cientista, ou um poeta, e repetidas vezes envolver-se com as mesmas condições desfavoráveis apresentadas sob a forma de nascimentos e mortes. Porém, devido à ilusão que a energia material lhe impõe, o homem pensa que esta espécie de vida é agradável.

Texto

rajo rāgātmakaṁ viddhi
tṛṣṇā-saṅga-samudbhavam
tan nibadhnāti kaunteya
karma-saṅgena dehinam

Sinônimos

rajaḥ — o modo da paixão; rāga-ātmakam — nascido do desejo ou luxúria; viddhi — conheça; tṛṣṇā — com anseio; saṅga — associação; samudbhavam — produzido de; tat — isso; nibadhnāti — ata; kaunteya — ó filho de Kuntī; karma-saṅgena — por associação com atividades fruitivas; dehinam — o corporificado.

Tradução

O modo da paixão nasce de desejos e anseios ilimitados, ó filho de Kuntī, e por causa disso a entidade viva encarnada está presa às ações fruitivas materiais.

Comentário

O modo da paixão caracteriza-se pela atração entre homem e mulher. A mulher sente atração pelo homem, e o homem sente atração pela mulher. Isto se chama modo da paixão. E quanto maior o modo da paixão, maior o anseio pelo prazer material. Deseja-se, então, obter gozo dos sentidos. Na busca pelo prazer dos sentidos, um homem no modo da paixão deseja alguma honraria social ou nacional, e quer ter uma família feliz, com belos filhos, esposa e casa. Estes são os produtos do modo da paixão. Enquanto desejarmos essas conquistas, teremos de trabalhar mui arduamente. Portanto, aqui se afirma com bastante clareza que o ser vivo se envolve com os frutos de suas atividades e assim se prende a essas atividades. A fim de agradar sua esposa, filhos e a sociedade e para manter seu prestígio, ele tem que trabalhar. Por isso, todo o mundo material está mais ou menos no modo da paixão. O avanço da civilização moderna é medido de acordo com seu envolvimento com o modo da paixão. Outrora, tomava-se como referência o modo da bondade. Se nem mesmo aqueles que estão no modo da bondade conseguem liberar-se, que dizer daqueles que estão enredados no modo da paixão?

Texto

tamas tv ajñāna-jaṁ viddhi
mohanaṁ sarva-dehinām
pramādālasya-nidrābhis
tan nibadhnāti bhārata

Sinônimos

tamaḥ — o modo da ignorância; tu — mas; ajñāna-jam — produzido da ignorância; viddhi — saiba; mohanam — a ilusão; sarva-dehinām — de todos os seres corporificados; pramāda — com loucura; ālasya — indolência; nidrābhiḥ — e sono; tat — isso; nibadhnāti — ata; bhārata — ó filho de Bharata.

Tradução

Ó filho de Bharata, fique sabendo que no modo da escuridão, nascido da ignorância, todas as entidades vivas encarnadas ficam iludidas. Os resultados deste modo são a loucura, a indolência e o sono, que atam a alma condicionada.

Comentário

Neste verso, a aplicação específica da palavra tu é muito significativa. Isto quer dizer que o modo da ignorância é uma qualificação muito peculiar da alma encarnada. O modo da ignorância é exatamente o oposto do modo da bondade. No modo da bondade, pelo desenvolvimento de conhecimento, pode-se compreender o porquê das coisas, mas o modo da ignorância é exatamente o oposto. Todo aquele que está sob o encanto do modo da ignorância fica louco, e um louco não pode compreender o porquê das coisas. Ao invés de progredir, ele se degrada. A definição do modo da ignorância é expressa na literatura védica. Vastu-yāthātmya-jñānāvarakaṁ viparyaya-jñāna-janakaṁ tamaḥ: sob o encanto da ignorância, não se pode compreender a verdadeira essência das coisas. Por exemplo, qualquer um pode ver que seu avô morreu e que, portanto, também morrerá; o homem é mortal. Os filhos que ele concebe também morrerão. Logo, a morte é certa. Mesmo assim, as pessoas acumulam dinheiro de maneira desenfreada e trabalham arduamente noite e dia, sem darem a menor importância ao espírito eterno. Isto é loucura. Em sua loucura, elas relutam muito em progredir na compreensão espiritual. Tais pessoas são muito preguiçosas. Elas não se interessam muito quando são convidadas a buscar associação com quem possa lhes dar compreensão espiritual. Elas nem mesmo são ativas como o homem que está sob o controle do modo da paixão. Assim, outro sintoma de alguém soterrado no modo da ignorância é que ele dorme mais do que o necessário. Seis horas de sono são suficientes, mas um homem no modo da ignorância dorme pelo menos dez ou doze horas por dia. Um homem assim parece estar sempre abatido e é viciado em drogas e em dormir. Estes são os sintomas de uma pessoa condicionada ao modo da ignorância.

Texto

sattvaṁ sukhe sañjayati
rajaḥ karmaṇi bhārata
jñānam āvṛtya tu tamaḥ
pramāde sañjayaty uta

Sinônimos

sattvam — o modo da bondade; sukhe — em felicidade; sañjayati — ata; rajaḥ — o modo da paixão; karmaṇi — em atividade fruitiva; bhārata — ó filho de Bharata; jñānam — conhecimento; āvṛtya — cobrindo; tu — mas; tamaḥ — o modo da ignorância; pramāde — em loucura; sañjayati — ata; uta — diz-se.

Tradução

Ó filho de Bharata, o modo da bondade condiciona o homem à felicidade; o da paixão o condiciona à ação fruitiva; e o da ignorância, cobrindo seu conhecimento, o ata à loucura.

Comentário

Quem está no modo da bondade se satisfaz com seu trabalho ou com sua atividade intelectual, assim como um filósofo, cientista ou educador podem se ocupar num determinado campo de conhecimento e ficar satisfeitos com isso. Um homem no modo da paixão pode estar ocupado em atividade fruitiva, possui tanto quanto pode, e gasta em prol de boas causas. Às vezes, ele tenta abrir hospitais, fazer doações para instituições de caridade, etc. Estes sinais são de alguém no modo da paixão. E o modo da ignorância cobre o conhecimento. No modo da ignorância, nada que alguém faça é bom para si mesmo nem para ninguém.

Texto

rajas tamaś cābhibhūya
sattvaṁ bhavati bhārata
rajaḥ sattvaṁ tamaś caiva
tamaḥ sattvaṁ rajas tathā

Sinônimos

rajaḥ — o modo da paixão; tamaḥ — o modo da ignorância; ca — também; abhibhūya — superando; sattvam — o modo da bondade; bhavati — torna-se proeminente; bhārata — ó filho de Bharata; rajaḥ — o modo da paixão; sattvam — o modo da bondade; tamaḥ — o modo da ignorância; ca — também; eva — dessa; tamaḥ — o modo da ignorância; sattvam — o modo da bondade; rajaḥ — o modo da paixão; tathā — assim.

Tradução

Às vezes, o modo da bondade se torna preeminente, derrotando os modos da paixão e da ignorância, ó filho de Bharata. Às vezes, o modo da paixão sobrepuja a bondade e a ignorância, e outras vezes a ignorância derrota a bondade e a paixão. Dessa maneira, há sempre competição pela supremacia.

Comentário

Quando o modo da paixão é preeminente, os modos da bondade e da ignorância são sobrepujados. Quando o modo da bondade é preeminente, a paixão e a ignorância são derrotadas. E quando o modo da ignorância é preeminente, a paixão e a bondade são derrotadas. Esta competição não pára. Portanto, alguém que de fato pretenda avançar em consciência de Kṛṣṇa tem de transcender estes três modos. A preeminência de determinado modo da natureza manifesta-se no comportamento da pessoa, em suas atividades, em sua alimentação, etc. Tudo isto será explicado em capítulos posteriores. Mas se quiser, ela poderá, pela prática, desenvolver o modo da bondade e assim derrotar os modos da ignorância e da paixão. Ela pode também desenvolver o modo da paixão e derrotar a bondade e a ignorância. Ou pode desenvolver o modo da ignorância e derrotar a bondade e a paixão. Embora existam estes três modos da natureza material, se o homem for determinado, poderá ser abençoado com o modo da bondade, e, transcendendo o modo da bondade, poderá situar-se em bondade pura, que se chama o estado vasudeva, um estado em que se pode compreender a ciência de Deus. Pela manifestação de atividades específicas, pode-se compreender em que modo da natureza alguém está situado.

Texto

sarva-dvāreṣu dehe ’smin
prakāśa upajāyate
jñānaṁ yadā tadā vidyād
vivṛddhaṁ sattvam ity uta

Sinônimos

sarva-dvāreṣu — em todos os portões; dehe asmin — neste corpo; prakāśaḥ — a qualidade de iluminação; upajāyate — desenvolve; jñānam — conhecimento; yadā — quando; tadā — nesse momento; vidyāt — conhece; vivṛddham — aumentado; sattvam — o modo da bondade; iti uta — assim se diz.

Tradução

As manifestações do modo da bondade podem ser experimentadas quando todos os portões do corpo são iluminados pelo conhecimento.

Comentário

Há nove portões no corpo: dois olhos, dois ouvidos, duas narinas, a boca, os órgãos genitais e o ânus. Quando cada portão é iluminado pelos sintomas da bondade, deve-se compreender que se desenvolveu o modo da bondade. No modo da bondade, pode-se ter uma visão correta, pode-se ouvir corretamente e podem-se saborear as substâncias corretas. A pessoa fica limpa interna e externamente. Em cada portão, há o desenvolvimento dos sintomas da felicidade, e esta é a posição da bondade.

Texto

lobhaḥ pravṛttir ārambhaḥ
karmaṇām aśamaḥ spṛhā
rajasy etāni jāyante
vivṛddhe bharatarṣabha

Sinônimos

lobhaḥ — cobiça; pravṛttiḥ — atividade; ārambhaḥ — esforço; karmaṇām — em atividades; aśamaḥ — incontroláveis; spṛhā — desejo; rajasi — do modo da paixão; etāni — todos esses; jāyante — desenvolvem; vivṛddhe — quando há excesso; bharata-ṛṣabha — ó principal dos descendentes de Bharata.

Tradução

Ó melhor entre os Bhāratas, quando há um aumento do modo da paixão, desenvolvem-se sintomas de grande apego, atividade fruitiva, esforço intenso e desejo e anseio incontroláveis.

Comentário

Quem está no modo da paixão nunca se satisfaz com a posição já adquirida; sempre deseja melhorar sua posição. Se quer construir uma casa para morar, ele faz o melhor que pode para ter um palácio, como se fosse residir nessa casa eternamente. E desenvolve um grande anseio pelo prazer dos sentidos. O gozo dos sentidos não tem fim. Ele quer sempre ficar em sua casa, e com sua família continuar no processo de desfrutar dos sentidos. Isto nunca termina. Deve-se entender que todos esses sintomas são típicos do modo da paixão.

Texto

aprakāśo ’pravṛttiś ca
pramādo moha eva ca
tamasy etāni jāyante
vivṛddhe kuru-nandana

Sinônimos

aprakāśaḥ — escuridão; apravṛttiḥ — inatividade; ca — e; pramādaḥ — loucura; mohaḥ — ilusão; eva — certamente; ca — também; tamasi — o modo da ignorância; etāni — estes; jāyante — se manifestam; vivṛddhe — quando desenvolvido; kuru-nandana — ó filho de Kuru.

Tradução

Quando predomina o modo da ignorância, ó filho de Kuru, manifestam-se escuridão, inércia, loucura e ilusão.

Comentário

Quando não há iluminação, o conhecimento está ausente. Quem está no modo da ignorância não trabalha segundo os princípios reguladores; ele quer agir por capricho, sem propósito algum. Embora tenha capacidade para trabalhar, ele não se esforça. Isto se chama ilusão. Embora continue mantendo sua consciência, sua vida é inativa. Estes são os sintomas de alguém que está no modo da ignorância.

Texto

yadā sattve pravṛddhe tu
pralayaṁ yāti deha-bhṛt
tadottama-vidāṁ lokān
amalān pratipadyate

Sinônimos

yadā — quando; sattve — o modo da bondade; pravṛddhe — desenvolvido; tu — mas; pralayam — dissolução; yāti — vai; deha-bhṛt — o corporificado; tadā — nesse momento; uttama-vidām — dos grandes sábios; lokān — os planetas; amalān — puros; pratipadyate — atinge.

Tradução

Quando alguém morre no modo da bondade, ele atinge os planetas superiores puros, onde residem os grandes sábios.

Comentário

Quem se estabelece na bondade alcança os sistemas planetários superiores, tais como Brahmaloka ou Janaloka, onde goza felicidade divina. A palavra amalān é significativa; ela quer dizer “livre dos modos da paixão e da ignorância”. Há impurezas no mundo material, mas o modo da bondade é a forma mais pura de existência no mundo material. Existem diferentes espécies de planetas para diferentes espécies de entidades vivas. Aqueles que morrem no modo da bondade elevam-se aos planetas onde moram grandes sábios e grandes devotos.

Texto

rajasi pralayaṁ gatvā
karma-saṅgiṣu jāyate
tathā pralīnas tamasi
mūḍha-yoniṣu jāyate

Sinônimos

rajasi — em paixão; pralayam — dissolução; gatvā — alcançando; karma-saṅgiṣu — na associação daqueles ocupados em atividades fruitivas; jāyate — nasce; tathā — igualmente; pralīnaḥ — sendo dissolvido; tamasi — em ignorância; mūḍha-yoniṣu — em espécies animais; jāyate — nasce.

Tradução

Quando alguém morre no modo da paixão, ele nasce entre os que se ocupam em atividades fruitivas; e quando morre no modo da ignorância, nasce no reino animal.

Comentário

Algumas pessoas têm a convicção de que, ao atingir a forma de vida humana, a alma jamais volta a cair. Isto é incorreto. Segundo este verso, se alguém desenvolve o modo da ignorância, após sua morte ele se degrada a uma forma de vida animal. Desse ponto ele tem que se elevar novamente, através de um processo evolutivo, para mais uma vez chegar à forma de vida humana. Portanto, aqueles que de fato levam a vida humana a sério devem adotar o modo da bondade e cultivar boa associação para transcender os modos materiais e situar-se em consciência de Kṛṣṇa. Este é o objetivo da vida humana. Caso contrário, não há garantia alguma de que o ser humano volte a alcançar a posição humana.

Texto

karmaṇaḥ sukṛtasyāhuḥ
sāttvikaṁ nirmalaṁ phalam
rajasas tu phalaṁ duḥkham
ajñānaṁ tamasaḥ phalam

Sinônimos

karmaṇaḥ — de trabalho; su-kṛtasya — piedoso; āhuḥ — diz-se; sāttvikam — no modo da bondade; nirmalam — purificado; phalam — o resultado; rajasaḥ — do modo da paixão; tu — mas; phalam — o resultado; duḥkham — miséria; ajñānam — contra-senso; tamasaḥ — do modo da ignorância; phalam — o resultado.

Tradução

O resultado da ação piedosa é puro e se diz que está no modo da bondade. Mas a ação feita no modo da paixão resulta em miséria, e a ação executada no modo da ignorância resulta em tolice.

Comentário

O resultado de atividades piedosas executadas no modo da bondade é puro. Portanto, os sábios, livres de toda a ilusão, estão situados em felicidade. Mas as atividades no modo da paixão são deveras miseráveis. Qualquer atividade que visa à obtenção de felicidade material acaba sendo um fracasso. Se, por exemplo, alguém quer ter um arranha-céu, quanta miséria humana não ocorrerá para que se possa construí-lo? O financiador tem de se submeter a muitos problemas para ganhar uma vultosa soma em dinheiro. E aqueles que trabalham como escravos para construir o edifício têm de se submeter a muito esforço físico. Isso é muita miséria. Logo, o Bhagavad-gītā diz que em qualquer atividade executada sob o encanto do modo da paixão há definitivamente grande miséria. Pode parecer que haja um pouco de felicidade mental — “Tenho esta casa ou este dinheiro” — mas esta não é a verdadeira felicidade.

Quanto ao modo da ignorância, o executor não tem conhecimento, e por isso todas as suas atividades atuais resultam em miséria, e depois ele prosseguirá em direção à vida animal. A vida animal é sempre miserável, embora, sob o encanto de māyā, ou a energia ilusória, os animais não compreendam isso. O abate de animais indefesos também se deve ao modo da ignorância. Os matadores de animais não sabem que no futuro o animal terá um corpo adequado para matá-los. Esta é a lei da natureza. Na sociedade humana, se alguém mata um homem ele deve ser enforcado. Esta é a lei do Estado. Devido à ignorância, as pessoas não percebem que existe um Estado perfeito, completamente controlado pelo Senhor Supremo. Cada ser vivo é filho do Senhor Supremo, e Ele não tolera que se mate nem mesmo uma formiga. Deve-se pagar por isso. Logo, entregar-se à matança de animais só para satisfazer a língua é a espécie mais grosseira de ignorância. O ser humano não tem necessidade de matar animais, porque Deus forneceu-lhe tantas coisas boas. Se, apesar disso, ele insiste em comer carne, deve-se entender que está agindo em ignorância e está tornando seu futuro muito tenebroso. De todas as espécies de matança de animais, a matança de vacas é muito nefasta porque a vaca nos dá todas as espécies de prazer, fornecendo o leite. Abater vacas é cometer um dos mais grosseiros atos de ignorância. Na literatura védica (Ṛg Veda 9.46.4), as palavras gobhiḥ prīṇita-matsaram indicam que quem deseja matar a vaca, apesar de estar plenamente satisfeito com o leite, encontra-se na mais grosseira ignorância. Também há uma oração na literatura védica que diz:

namo brahmaṇya-devāya
go-brāhmaṇa-hitāya ca
jagad-dhitāya kṛṣṇāya
govindāya namo namaḥ

“Meu Senhor, Você é o benquerente das vacas e dos brāhmaṇas, e é o benquerente de toda a sociedade humana e do mundo.” (Viṣṇu Purāṇa 1.19.65) O fato é que nesta oração se faz menção especial à proteção das vacas e dos brāhmaṇas. Os brāhmaṇas são o símbolo da educação espiritual, e as vacas são o símbolo do alimento mais valioso; estas duas criaturas vivas, os brāhmaṇas e as vacas, devem receber toda a proteção — este é o verdadeiro progresso da civilização. Na sociedade humana moderna, negligencia-se o conhecimento espiritual e estimula-se a matança de vacas. Deve-se compreender, então, que a sociedade humana avança na direção errada e prepara o caminho de sua própria condenação. Uma civilização que induz os cidadãos a se tornarem animais em suas próximas vidas com certeza não é uma civilização humana. É óbvio que a atual civilização humana está grosseiramente influenciada pelos modos da paixão e da ignorância. Esta é uma era muito perigosa, e todas as nações devem preocupar-se em prover o processo mais fácil, a consciência de Kṛṣṇa, para salvar a humanidade do maior dos perigos.

Texto

sattvāt sañjāyate jñānaṁ
rajaso lobha eva ca
pramāda-mohau tamaso
bhavato ’jñānam eva ca

Sinônimos

sattvāt — do modo da bondade; sañjāyate — desenvolve-se; jñānam — o conhecimento; rajasaḥ — do modo da paixão; lobhaḥ — a cobiça; eva — certamente; ca — também; pramāda — loucura; mohau — e ilusão; tamasaḥ — do modo da ignorância; bhavataḥ — desenvolvem-se; ajñānam — contra-senso; eva — certamente; ca — também.

Tradução

Do modo da bondade, desenvolve-se o verdadeiro conhecimento; do modo da paixão, desenvolve-se a cobiça; e do modo da ignorância, desenvolvem-se a tolice, a loucura e a ilusão.

Comentário

Como a civilização atual não tem muita simpatia pelas entidades vivas, recomenda-se o processo de consciência de Kṛṣṇa. Através da consciência de Kṛṣṇa, a sociedade desenvolverá o modo da bondade. Quando se desenvolver o modo da bondade, as pessoas verão as coisas em sua verdadeira perspectiva. No modo da ignorância, elas são exatamente como animais e não podem ver com clareza. No modo da ignorância, por exemplo, elas não vêem que, matando um animal, estão assumindo o risco de serem mortas pelo mesmo animal na vida seguinte. Porque não se educam com o verdadeiro conhecimento, as pessoas se tornam irresponsáveis. Para acabar com esta irresponsabilidade, deve haver educação para que se desenvolva o modo da bondade nas pessoas em geral. Quando estiverem realmente educadas no modo da bondade, elas se tornarão sóbrias, e terão pleno e autêntico conhecimento das coisas. Então, serão felizes e prósperas. Mesmo que a maioria das pessoas não seja feliz e próspera, se uma determinada porcentagem da população desenvolver a consciência de Kṛṣṇa e se situar no modo da bondade, então será possível que o mundo inteiro obtenha paz e prosperidade. Caso contrário, se o mundo se dedicar aos modos da paixão e ignorância, não poderá haver paz nem prosperidade. No modo da paixão, as pessoas se tornam cobiçosas, e seu desejo de satisfazer os sentidos não tem limites. Nesse caso, pode-se ver que mesmo que se tenha bastante dinheiro e condições favoráveis ao prazer dos sentidos, não há felicidade nem paz de espírito. Isto não é possível, porque se está no modo da paixão. Se alguém realmente quiser a felicidade, seu dinheiro não o ajudará; ele tem que se elevar ao modo da bondade, praticando a consciência de Kṛṣṇa. Quando está ocupado no modo da paixão, ele não só é mentalmente infeliz, mas também sua profissão e ocupação são muito penosas. Ele tem de traçar muitos planos e projetos para conseguir bastante dinheiro a fim de manter seu status quo. Tudo isto é miserável. No modo da ignorância, as pessoas ficam loucas. Estando aflitas com o ambiente em que vivem, elas se refugiam nas drogas, e com isso se afundam mais e mais na ignorância. Sua vida tem um futuro muito tenebroso.

Texto

ūrdhvaṁ gacchanti sattva-sthā
madhye tiṣṭhanti rājasāḥ
jaghanya-guṇa-vṛtti-sthā
adho gacchanti tāmasāḥ

Sinônimos

ūrdhvam — para cima; gacchanti — vão; sattva-sthāḥ — aqueles situados no modo da bondade; madhye — no meio; tiṣṭhanti — moram; rājasāḥ — aqueles situados no modo da paixão; jaghanya — de abominável; guṇa — qualidade; vṛtti-sthāḥ — cuja ocupação; adhaḥ — para baixo; gacchanti — vão; tāmasāḥ — as pessoas no modo da ignorância.

Tradução

Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores; aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres; e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais.

Comentário

Neste verso são apresentados mais explicitamente os resultados das ações nos três modos da natureza. Existe um sistema planetário superior, que consiste nos planetas celestiais, onde todos são altamente elevados. Segundo o seu grau de desenvolvimento no modo da bondade, a entidade viva pode ser transferida para vários planetas deste sistema. O planeta mais elevado é Satyaloka, ou Brahmaloka, onde reside a pessoa primordial deste Universo, o Senhor Brahmā. Já vimos que mal podemos calcular a maravilhosa condição de vida em Brahmaloka, mas a condição de vida mais elevada, o modo da bondade, pode nos conceder isto.

O modo da paixão é misto. Ele é intermediário, entre os modos da bondade e da ignorância. O homem não está sempre puro. Porém, mesmo que estivesse exclusivamente no modo da paixão, ele apenas permaneceria nesta Terra como rei ou homem rico. Mas porque há misturas, ele também pode descer. Nesta Terra, as pessoas no modo da paixão ou da ignorância não podem valer-se de máquinas para aproximarem-se à força dos planetas superiores. No modo da paixão, há também a possibilidade de se tornar louco na próxima vida.

Aqui se descreve como abominável a qualidade mais baixa, o modo da ignorância. O resultado de desenvolver a ignorância é muitíssimo arriscado. É a qualidade mais baixa na natureza material. Abaixo do nível humano existem oito milhões de espécies de vida — aves, animais ferozes, répteis, árvores, etc. — e, segundo o seu envolvimento com o modo da ignorância, as pessoas são arrastadas para estas condições abomináveis. Aqui, a palavra tāmasāḥ é muito significativa. Tāmasāḥ refere-se àqueles que estão sempre sob o modo da ignorância sem se elevar a um modo superior. Seu futuro é muito tenebroso.

Há a oportunidade de os homens no modo da ignorância e paixão elevarem-se ao modo da bondade, e este sistema chama-se consciência de Kṛṣṇa. Mas quem não tirar proveito desta oportunidade com certeza continuará nos modos inferiores.

Texto

nānyaṁ guṇebhyaḥ kartāraṁ
yadā draṣṭānupaśyati
guṇebhyaś ca paraṁ vetti
mad-bhāvaṁ so ’dhigacchati

Sinônimos

na — nenhum; anyam — outro; guṇebhyaḥ — do que as qualidades; kartāram — o executor; yadā — quando; draṣṭā — um vidente; anupaśyati — vê corretamente; guṇebhyaḥ — aos modos da natureza; ca — e; param — transcendental; vetti — conhece; mat-bhāvam — a Minha natureza espiritual; saḥ — ele; adhigacchati — é promovido.

Tradução

Quando alguém vê corretamente que em todas as atividades o único agente que está em ação são estes modos da natureza e quando conhece o Senhor Supremo, que é transcendental a todos esses modos, ele então alcança Minha natureza espiritual.

Comentário

Podemos transcender todas as atividades dos modos da natureza material só por obter a devida compreensão transmitida pelas almas qualificadas. O verdadeiro mestre espiritual é Kṛṣṇa, e Ele está dando este conhecimento espiritual a Arjuna. De modo semelhante, é com aqueles que estão em plena consciência de Kṛṣṇa que se deve aprender esta ciência das atividades relacionadas com os modos da natureza. Senão, nossa vida seguirá um rumo errado. Através da instrução transmitida pelo mestre espiritual genuíno, o ser vivo pode conhecer sua posição espiritual, seu corpo material, seus sentidos, seu aprisionamento e sua posição sob o encanto dos modos da natureza material. Nas garras destes modos ele fica desamparado, mas quando consegue ver sua verdadeira posição, ele então pode alcançar a plataforma transcendental, pois tem como objetivo a vida espiritual. De fato, este ser vivo não é o autor das diferentes atividades. Ele é forçado a agir porque está situado numa determinada espécie de corpo, conduzido por algum modo específico da natureza material. Enquanto não receber a ajuda de uma autoridade espiritual, ele não poderá compreender em que posição está situado de fato. Com a associação de um mestre espiritual genuíno, ele pode ver sua verdadeira posição, e com essa compreensão pode se fixar em plena consciência de Kṛṣṇa. Um homem em consciência de Kṛṣṇa não se deixa controlar pelo encanto dos modos da natureza material. Já se declarou no Sétimo Capítulo que alguém que se tenha rendido a Kṛṣṇa se livra das atividades da natureza material. Para quem é capaz de ver tudo no seu devido lugar, a influência da natureza material cessa gradualmente.

Texto

guṇān etān atītya trīn
dehī deha-samudbhavān
janma-mṛtyu-jarā-duḥkhair
vimukto ’mṛtam aśnute

Sinônimos

guṇān — qualidades; etān — todas estas; atītya — transcendendo; trīn — três; dehī — o corporificado; deha — o corpo; samudbhavān — produzidas de; janma — de nascimento; mṛtyu — morte; jarā — e velhice; duḥkhaiḥ — os sofrimentos; vimuktaḥ — sendo libertado de; amṛtam — néctar; aśnute — goza.

Tradução

Quando é capaz de transcender estes três modos associados com o corpo material, o ser encarnado pode liberar-se do nascimento, da morte, da velhice e dos sofrimentos que são inerentes a eles, e mesmo nesta vida pode gozar o néctar.

Comentário

Explica-se neste verso como, mesmo neste corpo, alguém pode permanecer na posição transcendental, em plena consciência de Kṛṣṇa. A palavra sânscrita dehī significa “encarnado”. Embora alguém esteja dentro deste corpo material, através de seu progresso em conhecimento espiritual, ele poderá se livrar da influência dos modos da natureza. Mesmo neste corpo, ele poderá gozar a felicidade espiritual, porque, após deixar este corpo irá com certeza para o céu espiritual. Mas mesmo neste corpo ele pode gozar de felicidade espiritual. Em outras palavras, o serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa significa libertar-se do enredamento material, e isto será explicado no Décimo Oitavo Capítulo. Quem se libera da influência dos modos da natureza material passa a prestar serviço devocional.

Texto

arjuna uvāca
kair liṅgais trīn guṇān etān
atīto bhavati prabho
kim-ācāraḥ kathaṁ caitāṁs
trīn guṇān ativartate

Sinônimos

arjunaḥ uvāca — Arjuna disse; kaiḥ — por quais; liṅgaiḥ — sintomas; trīn — três; guṇān — qualidades; etān — todas essas; atītaḥ — tendo transcendido; bhavati — é; prabho — ó meu Senhor; kim — qual; ācāraḥ — comportamento; katham — como; ca — também; etān — estas; trīn — três; guṇān — qualidades; ativartate — transcende.

Tradução

Arjuna perguntou: Ó meu querido Senhor, através de quais sintomas reconhece-se quem é transcendental a estes três modos? Qual é seu comportamento? E como ele transcende os modos da natureza?

Comentário

Neste verso, as perguntas de Arjuna vêm a calhar. Ele quer conhecer os sintomas daquele que já transcendeu os modos materiais. Sua primeira pergunta é sobre os sintomas que caracterizam essa pessoa transcendental. Como se pode compreender que ela já transcendeu a influência dos modos da natureza material? Depois, ele quer saber como tal pessoa vive e quais são suas atividades. São elas reguladas ou desreguladas? Então, Arjuna pergunta quais são os meios pelos quais se pode alcançar a natureza transcendental. Isto é muito importante. A não ser que se conheçam os meios diretos, pelos quais alguém pode estar sempre situado na transcendência, não há possibilidade de ele apresentar os sintomas. Logo, todas essas perguntas formuladas por Arjuna são muito importantes, e o Senhor responde a todas elas.

Texto

śrī-bhagavān uvāca
prakāśaṁ ca pravṛttiṁ ca
moham eva ca pāṇḍava
na dveṣṭi sampravṛttāni
na nivṛttāni kāṅkṣati
udāsīna-vad āsīno
guṇair yo na vicālyate
guṇā vartanta ity evaṁ
yo ’vatiṣṭhati neṅgate
sama-duḥkha-sukhaḥ sva-sthaḥ
sama-loṣṭāśma-kāñcanaḥ
tulya-priyāpriyo dhīras
tulya-nindātma-saṁstutiḥ
mānāpamānayos tulyas
tulyo mitrāri-pakṣayoḥ
sarvārambha-parityāgī
guṇātītaḥ sa ucyate

Sinônimos

śrī-bhagavān uvāca — a Suprema Personalidade de Deus disse; prakāśam — iluminação; ca — e; pravṛttim — apego; ca — e; moham — ilusão; eva ca — também; pāṇḍava — ó filho de Pāṇḍu; na dveṣṭi — não odeia; sampravṛttāni — embora desenvolvido; na nivṛttāni — nem parando o desenvolvimento; kāṅkṣati — deseja; udāsīna-vat — como que neutro; āsīnaḥ — situado; guṇaiḥ — pelas qualidades; yaḥ — aquele que; na — nunca; vicālyate — se agita; guṇāḥ — as qualidades; vartante — estão agindo; iti evam — conhecendo assim; yaḥ — aquele que; avatiṣṭhati — permanece; na — nunca; iṅgate — vacila; sama — igual; duḥkha — em sofrimento; sukhaḥ — e felicidade; sva-thaḥ — estando situado em si mesmo; sama — igualmente; loṣṭa — um torrão de terra; aśma — pedra; kāñcanaḥ — ouro; tulya — igualmente disposto; priya — ao querido; apriyaḥ — e ao indesejável; dhīraḥ — estável; tulya — igual; nindā — em difamação; ātma-saṁstutiḥ — e louvor de si mesmo; māna — em honra; apamānayoḥ — e desonra; tulyaḥ — igual; tulyaḥ — igual; mitra — de amigos; ari — e inimigos; pakṣayoḥ — aos grupos; sarva — de todos; ārambha — esforços; parityāgī — renunciador; guṇa-atītaḥ — transcendental aos modos da natureza material; saḥ — ele; ucyate — diz-se que é.

Tradução

A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó filho de Pāṇḍu, aquele que não odeia a iluminação, o apego e a ilusão quando estão presentes, nem os deseja quando desaparecem; que não se abala nem se perturba com quaisquer das reações das qualidades materiais, permanecendo neutro e transcendental, sabendo que os modos é que são ativos; que está situado no eu e tem o mesmo comportamento diante da felicidade e do sofrimento; que olha para um punhado de terra, uma pedra e um pedaço de ouro com a mesma visão; que é igual para o desejável e o indesejável; que é estável, igual no louvor e na repreensão, honra e desonra; que dá o mesmo tratamento tanto ao amigo quanto ao inimigo; e que renunciou a todas as atividades materiais — diz-se que essa pessoa transcendeu os modos da natureza.

Comentário

Arjuna apresentou três perguntas diferentes, e o Senhor responde a elas, uma após outra. Nestes versos, Kṛṣṇa primeiro indica que quem se situa transcendentalmente não tem inveja e nada deseja. Quando o ser vivo permanece neste mundo material recluso no corpo material, deve-se compreender que está sob o controle de um dos três modos da natureza material. Quando está de fato fora do corpo, então está livre das garras dos modos da natureza material. Mas enquanto não sair do corpo material, ele deverá ser neutro. Ele deve ocupar-se no serviço devocional ao Senhor para que imediatamente deixe de identificar-se com o corpo material. Quando se identifica com o corpo material, ele só age em busca de prazer dos sentidos, mas quando se estabelece em consciência de Kṛṣṇa, o gozo dos sentidos pára automaticamente. Ninguém precisa do corpo material, nem precisa aceitar os ditames do corpo material. As qualidades dos modos materiais próprias de cada corpo agirão, mas como alma espiritual, o eu está alheio a essas atividades. Como ele fica à parte? Ele não deseja desfrutar o corpo, nem deseja sair dele. Situado nessa posição transcendental, o devoto automaticamente libera-se. Ele não precisa tentar livrar-se da influência dos modos da natureza material.

A pergunta seguinte refere-se à conduta de alguém transcendentalmente situado. O materialista deixa-se afetar pela aparente honra e desonra oferecidas ao corpo, mas o transcendentalista não se deixa afetar por essa pseudo-honra e desonra. Ele executa seu dever em consciência de Kṛṣṇa e não se importa se alguém o respeita ou desrespeita. Aceita tudo aquilo que é favorável a seu dever em consciência de Kṛṣṇa, e, à exceção disso, ele não tem necessidade de nenhum objeto material, seja pedra, seja ouro. Ele considera todos como sendo seu amigo querido que o ajuda em sua execução da consciência de Kṛṣṇa, e não odeia seu aparente inimigo. Ele é equânime e vê tudo num nível de igualdade porque sabe perfeitamente bem que ele nada tem a ver com a existência material. Questões sociais e políticas não o afetam, porque ele conhece a situação das revoltas e distúrbios temporários. Ele não tenta obter nada para si mesmo. Ele pode tentar conseguir tudo para Kṛṣṇa, mas não se esforça em nada que lhe traga apenas benefício pessoal. Com esse comportamento, ele está em verdadeira transcendência.

Texto

māṁ ca yo ’vyabhicāreṇa
bhakti-yogena sevate
sa guṇān samatītyaitān
brahma-bhūyāya kalpate

Sinônimos

mām — a Mim; ca — também; yaḥ — aquele que; avyabhicāreṇa — sem falta; bhakti-yogena — pelo serviço devocional; sevate — presta serviço; saḥ — ele; guṇān — os modos da natureza material; samatītya — transcendendo; etān — todos esses; brahma-bhūyāya — elevado à plataforma de Brahman; kalpate — se torna.

Tradução

Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno e não falha em circunstância alguma, transcende de imediato os modos da natureza material e chega então ao nível de Brahman.

Comentário

Este verso é uma resposta à terceira pergunta de Arjuna: Qual é o meio para alcançar a posição transcendental? Como se explicou antes, o mundo material está agindo sob o encanto dos modos da natureza material. Ninguém deve se perturbar com as atividades dos modos da natureza; ao invés de pôr sua consciência nessas atividades, o devoto pode transferir sua consciência para as atividades relacionadas com Kṛṣṇa. As atividades referentes a Kṛṣṇa são conhecidas como bhakti-yoga — sempre agir para Kṛṣṇa. Isto inclui não apenas Kṛṣṇa, mas Suas diferentes expansões plenárias, tais como Rāma e Nārāyaṇa. Ele tem inúmeras expansões. Quem se ocupa a serviço de qualquer das formas de Kṛṣṇa, ou de Suas expansões plenárias, é considerado um transcendentalista. Deve-se notar, também, que todas as formas de Kṛṣṇa são plenamente transcendentais, bem-aventuradas, cheias de conhecimento e eternas. Tais personalidades de Deus são onipotentes e oniscientes, e possuem todas as qualidades transcendentais. Logo, se alguém se ocupa no serviço de Kṛṣṇa ou de Suas expansões plenárias com determinação resoluta, poderá transpor os modos da natureza material de maneira muito fácil, embora eles sejam muito difíceis de superar. Isto já foi explicado no Sétimo Capítulo. Quem se rende a Kṛṣṇa imediatamente sobrepuja a influência dos modos da natureza material. Estar em consciência de Kṛṣṇa ou prestar serviço devocional significa adquirir igualdade com Kṛṣṇa. O Senhor diz que por natureza Ele é eterno, bem-aventurado e pleno de conhecimento, e as entidades vivas são partes integrantes do Supremo, assim como as partículas de ouro são partes de uma mina de ouro. Logo, a entidade viva, em sua posição espiritual, é igual ao ouro, tendo as mesmas qualidades de Kṛṣṇa. A individualidade é mantida, caso contrário, ficaria fora de cogitação falar de bhakti-yoga. Bhakti-yoga significa que o Senhor está presente, o devoto está presente, e existe a atividade de intercâmbio amoroso entre o Senhor e o devoto. Portanto, a individualidade está presente na Suprema Personalidade de Deus e na pessoa individual, caso contrário bhakti-yoga não teria sentido. Quem não está situado na mesma posição transcendental do Senhor não pode servir ao Senhor Supremo. Para ser assistente pessoal de um rei é necessário adquirir as devidas qualificações. Logo, exige-se que a pessoa se torne Brahman, ou que fique livre de toda a contaminação material. Na literatura védica está dito que brahmaiva san brahmāpy eti. É possível alcançar o Brahman Supremo tornando-se Brahman. Isto significa que se deve ser qualitativamente uno com o Brahman. Pelo fato de atingir o Brahman, a pessoa, como alma individual, não perde sua identidade eterna de Brahman.

Texto

brahmaṇo hi pratiṣṭhāham
amṛtasyāvyayasya ca
śāśvatasya ca dharmasya
sukhasyaikāntikasya ca

Sinônimos

brahmaṇaḥ — do brahmajyoti impessoal; hi — certamente; pratiṣṭhā — a base; aham — Eu sou; amṛtasya — do imortal; avyayasya — do imperecível; ca — também; śāśvatasya — do eterno; ca — e; dharmasya — da posição constitucional; sukhasya — de felicidade; aikāntikasya — última; ca — também.

Tradução

E Eu sou a base do Brahman impessoal, que é imortal, imperecível e eterno e é a posição constitucional da felicidade última.

Comentário

A constituição do Brahman é a imortalidade, a perpetuidade, a eternidade e a felicidade. O Brahman é o início da realização transcendental. O Paramātmā, a Superalma, é o meio, ou a segunda etapa em realização transcendental, e a Suprema Personalidade de Deus é a compreensão última acerca da Verdade Absoluta. Por isso, tanto o Paramātmā quanto o Brahman impessoal estão incluídos na Pessoa Suprema. No Sétimo Capítulo, explicou-se que a natureza material é uma manifestação da energia inferior do Senhor Supremo. O Senhor fecunda a natureza material inferior com fragmentos da natureza superior, e este toque espiritual age na natureza material. Ao passar a cultivar o conhecimento espiritual, a entidade viva condicionada por esta natureza material deixa a posição de existência material e aos poucos eleva-se até atingir a concepção Brahman acerca do Supremo. Este fato de alcançar na vida o conceito do Brahman é a primeira etapa da auto-realização. Nesta etapa, entende-se que o Brahman é transcendental à posição material, mas não se atingiu ainda total compreensão acerca do Brahman. Se quiser, o transcendentalista poderá continuar na posição de Brahman e então subir aos poucos até a compreensão acerca do Paramātmā e depois atingir a compreensão acerca da Suprema Personalidade de Deus. A literatura védica fornece muitos desses exemplos. No começo, os quatro Kumāras tinham a concepção de que a verdade era o Brahman impessoal, mas então eles se elevaram até a plataforma do serviço devocional. Quem não consegue elevar-se além da concepção do Brahman impessoal corre o risco de cair. No Śrīmad-Bhāgavatam, declara-se que embora alguém talvez suba e passe a entender o Brahman impessoal, se ele não continuar progredindo, e não obtiver informação sobre a Pessoa Suprema, sua inteligência não é perfeitamente clara. Portanto, apesar de ter-se elevado à plataforma do Brahman, existe a possibilidade de cair, se ele não se ocupar no serviço devocional ao Senhor. Na linguagem védica também se diz que raso vai saḥ, rasaṁ hy evāyaṁ labdhvānandī bhavati: “Adquire-se verdadeira bem-aventurança transcendental ao se compreender Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus, o reservatório de prazer”. (Taittirīya Upaniṣad 2.7.1) O Senhor Supremo é pleno de seis opulências, e quando um devoto se aproxima dEle, há um intercâmbio dessas seis opulências. O servo e o rei têm praticamente as mesmas regalias. E assim a felicidade eterna, ou felicidade imperecível, e a vida eterna, acompanham o serviço devocional. Por isso, a compreensão acerca do Brahman, ou a eternidade, ou a perpetuidade, estão incluídas no serviço devocional. Quem está ocupado no serviço devocional já possui tudo isso.

O ser vivo, embora seja Brahman por natureza, tem o desejo de assenhorear-se do mundo material, e devido a isso acaba caindo. Em sua posição constitucional, ele está acima dos três modos da natureza material, mas a associação com a natureza material o enreda nestes diferentes modos — bondade, paixão e ignorância. Devido à sua associação com estes três modos, ele desenvolve o desejo de dominar o mundo material. Ao ocupar-se no serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa, ele imediatamente se situa na posição transcendental, e seu desejo ilícito de controlar a natureza material é removido. Portanto, o processo de serviço devocional, que começa com ouvir, cantar, lembrar — os nove métodos prescritos para a realização do serviço devocional — deve ser praticado na associação dos devotos. Aos poucos, através dessa associação e da influência do mestre espiritual, o devoto deixa de querer assenhorear-se do mundo material e se situa firmemente no serviço transcendental amoroso ao Senhor. Este método é prescrito desde o vigésimo segundo até o último verso deste capítulo. O serviço devocional ao Senhor é muito simples: o devoto deve sempre se ocupar a serviço do Senhor, deve comer os restos de alimento oferecido à Deidade, cheirar as flores oferecidas aos pés de lótus do Senhor, visitar os lugares onde o Senhor realizou Seus passatempos transcendentais, ler sobre as diferentes atividades do Senhor e Sua reciprocidade amorosa com Seus devotos, cantar sempre a vibração transcendental — Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare — e observar os dias de jejum que comemoram os aparecimentos e desaparecimentos do Senhor e de Seus devotos. Seguindo esse processo, ele se desapega por completo de todas as atividades materiais. Quem pode situar-se nesse brahmajyoti ou nas diferentes variedades da concepção acerca do Brahman tem as mesmas qualidades da Suprema Personalidade de Deus.

Neste ponto encerram-se os significados Bhaktivedanta do Décimo Quarto Capítulo do Śrīmad Bhagavad-gītā que trata dos Três Modos da Natureza Material.