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CHAPTER 88

Capítulo 88

The Deliverance of Lord Śiva

A Libertação do Senhor Śiva

As a great devotee of Kṛṣṇa, King Parīkṣit was already liberated, but for clarification he was asking various questions of Śukadeva Gosvāmī. In the previous chapter, King Parīkṣit’s question was, “What is the ultimate goal of the Vedas?” And Śukadeva Gosvāmī explained the matter, giving authoritative descriptions from the disciplic succession, from Sanandana down to Nārāyaṇa Ṛṣi, Nārada, Vyāsadeva and then Śukadeva himself. The conclusion was that devotional service, or bhakti, is the ultimate goal of the Vedas. A neophyte devotee may question, “If the ultimate goal of life, or the conclusion of the Vedas, is to elevate oneself to the platform of devotional service, then why is it observed that a devotee of Lord Viṣṇu is generally not very prosperous materially, whereas a devotee of Lord Śiva is found to be very opulent?” In order to clarify this matter, Parīkṣit Mahārāja asked Śukadeva Gosvāmī, “My dear Śukadeva Gosvāmī, it is generally found that those who engage in the worship of Lord Śiva, whether in human, demoniac or demigod society, become materially very opulent, although Lord Śiva himself lives just like a poverty-stricken person. On the other hand, the devotees of Lord Viṣṇu, who is the controller of the goddess of fortune, do not appear very prosperous, and sometimes they are even found living without any material opulence at all. Lord Śiva lives underneath a tree or in the snow of the Himalayan Mountains. He does not even construct a house for himself, but still the worshipers of Lord Śiva are very rich. Kṛṣṇa, or Lord Viṣṇu, however, lives very opulently, whether in Vaikuṇṭha or in the material world, but His devotees appear poverty-stricken. Why is this so?”

Como grande devoto de Kṛṣṇa, o rei Parīkṣit já era liberto, mas, a título de esclarecimento, ele estava fazendo várias perguntas a Śukadeva Gosvāmī. No capítulo anterior, a pergunta do rei Parīkṣit foi: “Qual é a meta última dos Vedas?” E Śukadeva Gosvāmī explicou o assunto fornecendo descrições autorizadas da sucessão discipular, desde Sanandana, passando por Nārāyaṇa Ṛṣi, Nārada e Vyāsadeva, e depois Śukadeva explicou com suas próprias palavras. A conclusão foi que o serviço devocional, ou bhakti, é a meta última dos Vedas. Um devoto neófito pode perguntar: “Se a meta última da vida, ou a conclusão dos Vedas, é elevar-se à plataforma do serviço devocional, por que se observa que o devoto do Senhor Viṣṇu não é, de modo geral, materialmente muito próspero, ao passo que um devoto do senhor Śiva é muito opulento?” A fim de esclarecer esse assunto, Parīkṣit Mahārāja indagou de Śukadeva Gosvāmī: “Meu querido Śukadeva Gosvāmī, aqueles que se ocupam na adoração ao senhor Śiva, quer na sociedade humana, quer entre os demônios ou na sociedade dos semideuses, tornam-se materialmente muito opulentos, embora o próprio senhor Śiva viva como uma pessoa extremamente pobre. Por outro lado, os devotos do Senhor Viṣṇu, que é o controlador da deusa da fortuna, não se apresentam muito ricos e, às vezes, eles são vistos mesmo sem nenhuma opulência material. O senhor Śiva vive embaixo de uma árvore ou na neve dos Himalaias. Ele nem mesmo constrói uma casa para si mesmo, mas os devotos do senhor Śiva são muito prósperos. Kṛṣṇa, ou o Senhor Viṣṇu, contudo, vive muito prosperamente, quer em Vaikuṇṭha, quer neste mundo material, mas Seus devotos apresentam-se muito pobres. Por que é assim?”

Mahārāja Parīkṣit’s question is very intelligent. The two classes of devotees, namely the devotees of Lord Śiva and the devotees of Lord Viṣṇu, are always in disagreement. Even today in India these two classes of devotees still criticize each other, and especially in South India the followers of Rāmānujācārya and the followers of Śaṅkarācārya hold occasional meetings for understanding the Vedic conclusion. Generally, the followers of Rāmānujācārya come out victorious in such meetings. So Parīkṣit Mahārāja wanted to clarify the situation by asking this question of Śukadeva Gosvāmī. That Lord Śiva lives as a poor man although his devotees appear very opulent, whereas Lord Kṛṣṇa, or Lord Viṣṇu, is always opulent and yet His devotees appear poverty-stricken, is a situation which appears contradictory and puzzling to a discriminating person.

A pergunta de Mahārāja Parīkṣit é muito inteligente. As duas classes de devotos, a saber, os devotos do senhor Śiva e os devotos do Senhor Viṣnu, estão sempre em desacordo. Até mesmo hoje em dia na Índia, essas duas classes de devotos ainda lançam críticas mútuas, e, especialmente no sul da Índia, os seguidores de Rāmānujācārya e os seguidores de Śaṅkarācārya realizam reuniões ocasionais para chegar ao entendimento da conclusão védica. De um modo geral, os seguidores de Rāmānujācārya saem vitoriosos em tais encontros. Assim, Parīkṣit Mahārāja desejou esclarecer a situação fazendo essa pergunta a Śukadeva Gosvāmī. O fato de o senhor Śiva viver como um homem pobre, embora seus devotos tenham grande opulência, ao passo que o Senhor Kṛṣṇa, ou Senhor Viṣṇu, seja sempre opulento e Seus devotos sejam pobres, é uma situação que parece contraditória e intrigante para uma pessoa de discriminação.

Replying to King Parīkṣit’s inquiry, Śukadeva Gosvāmī said that Lord Śiva is the master of the material energy. The material energy is represented by Goddess Durgā, and because Lord Śiva happens to be her husband, Goddess Durgā is completely under his subjugation. Thus Lord Śiva is understood to be the master of the material energy. The material energy is manifested in three qualities, namely goodness, passion and ignorance, and therefore Lord Śiva is the master of these three qualities. Although he is in association with these qualities for the benefit of the conditioned soul, Lord Śiva is their director and is not affected. In other words, although the conditioned soul is affected by the three qualities, Lord Śiva, being their master, is not.

Respondendo à indagação do rei Parīkṣit, Śukadeva Gosvāmī disse que o senhor Śiva é o mestre da energia material. A energia material é representada pela deusa Durgā, e, porque o senhor Śiva é seu esposo, a deusa Durgā está completamente sob seu controle. Por conseguinte, o senhor Śiva é tido como o mestre da energia material. A energia material é manifestada em três qualidades, a saber, bondade, paixão e ignorância; desse modo, o senhor Śiva é o mestre dessas três qualidades. Apesar de estar em associação com essas qualidades para o benefício da alma condicionada, o senhor Śiva é o diretor e não se afeta. Em outras palavras, embora a alma condicionada seja afetada pelas três qualidades, o senhor Śiva, sendo o mestre delas, não o é.

From the statements of Śukadeva Gosvāmī we can understand that the effects of worshiping different demigods are not, as some less intelligent persons suppose, the same as the effects of worshiping Lord Viṣṇu. Śukadeva Gosvāmī clearly states that by worshiping Lord Śiva one achieves one reward whereas by worshiping Lord Viṣṇu one achieves a different reward. This is confirmed in the Bhagavad-gītā: “Those who worship the different demigods achieve the desired results the respective demigods can reward. Similarly, those who worship the material energy receive the suitable reward for such activities, and those who worship the pitṛs receive similar results. But those who engage in devotional service, or worship, of the Supreme Lord – Viṣṇu or Kṛṣṇa – go to the Vaikuṇṭha planets or Kṛṣṇaloka.” One cannot approach the transcendental region, or paravyoma, the spiritual sky, by worshiping Lord Śiva or Brahmā or any other demigod.

A partir da declaração de Śukadeva Gosvāmī, podemos compreender que os efeitos da adoração de diferentes semideuses não são, como as pessoas menos inteligentes supõem, os mesmos daqueles advindos da adoração ao Senhor Viṣṇu. Śukadeva Gosvāmī afirma claramente que, devido à adoração ao senhor Śiva, obtém-se uma recompensa, e que, devido à adoração ao Senhor Viṣṇu, obtém-se outra recompensa. Isso é confirmado no Bhagavad-gītā: “Aqueles que adoram os diferentes semideuses alcançam os resultados desejados que os respectivos semideuses podem proporcionar. Da mesma forma, aqueles que adoram a energia material recebem a recompensa adequada para tais atividades, e aqueles que se ocupam na adoração aos pitṛs recebem recompensas semelhantes. Contudo, aqueles que se ocupam em serviço devocional ou adoração ao Senhor Supremo – Viṣṇu ou Kṛṣṇa – vão para os planetas Vaikuṇṭha ou Kṛṣṇaloka”. Não é possível se aproximar da região transcendental, ou paravyoma, ou céu espiritual, adorando-se o senhor Śiva, Brahmā ou algum outro semideus.

Since this material world is a product of the three qualities of material nature, all varieties of manifestations come from those three qualities. With the aid of materialistic science, modern civilization has created many machines and comforts, yet they are only varieties of the interactions of the three material qualities. Although the devotees of Lord Śiva are able to obtain many material acquisitions, we should know that such devotees are simply collecting products manufactured by the three qualities. The three qualities are again subdivided into sixteen, namely the ten senses (five working senses and five knowledge-acquiring senses), the mind, and the five elements (earth, water, fire, air and sky). These sixteen items are extensions of the three qualities. Material happiness or opulence means gratification of the senses, especially the genitals, the tongue and the mind. By exercising our minds we create many pleasurable things just for enjoyment by the genitals and the tongue. The opulence of a person within this material world is estimated in terms of his exercise of the genitals and the tongue, or, in other words, how well he is able to utilize his sexual capacities and how well he is able to satisfy his fastidious taste by eating palatable dishes. Material advancement of civilization necessitates creating objects of enjoyment by mental concoction just to become happy on the basis of these two principles: pleasures for the genitals and pleasures for the tongue. Herein lies the answer to King Parīkṣit’s question to Śukadeva Gosvāmī as to why the worshipers of Lord Śiva are so opulent.

Visto que este mundo material é um produto das três qualidades da natureza material, todas as variedades de manifestações são provenientes daquelas três qualidades. Com o auxílio da ciência material, a civilização moderna criou muitas máquinas e confortos, mas essas coisas são apenas variedades das interações das três qualidades materiais. Embora os devotos do senhor Śiva sejam capazes de obter muitas aquisições materiais, devemos saber que tais devotos estão simplesmente reunindo produtos manufaturados pelas três qualidades. As três qualidades são novamente subdivididas em dezesseis, a saber, os dez sentidos (cinco sentidos funcionais e cinco sentidos para adquirir conhecimento), a mente e os cinco elementos (terra, água, fogo, ar e céu). Esses dezesseis itens são extensões das três qualidades. A felicidade ou opulência material significa a satisfação dos sentidos, especialmente dos órgãos genitais, da língua e da mente. Através do exercício de nossa mente, criamos muitas coisas prazerosas meramente para o desfrute dos órgãos genitais e da língua. A opulência de uma pessoa dentro deste mundo material é estimada em termos do seu exercício dos genitais e da língua, ou, em outras palavras, quão bem ela é capaz de utilizar sua capacidade sexual e quão bem ela pode satisfazer seu paladar comendo pratos saborosos. O progresso material da civilização exige a criação de objetos de desfrute por meio de elucubrações mentais unicamente para produzir felicidade com base nestes dois princípios: prazeres para os órgãos genitais e prazeres para a língua. Aqui está inserida a resposta para a questão do rei Parīkṣit feita a Śukadeva Gosvāmī quanto ao fato dos adoradores do senhor Śiva serem tão opulentos.

The devotees of Lord Śiva are opulent only in terms of the material qualities. Factually, such so-called advancement of civilization is the cause of entanglement in material existence. It is actually not advancement but degradation. The conclusion is that because Lord Śiva is the master of the three qualities, his devotees are given things manufactured by the interactions of these qualities for the satisfaction of the senses. In the Bhagavad-gītā, however, we get instruction from Lord Kṛṣṇa that one has to transcend this qualitative existence. Nistrai-guṇyo bhavārjuna: the mission of human life is to become transcendental to the three qualities. Unless one is nistrai-guṇya, he cannot get free from material entanglement. In other words, favors received from Lord Śiva are not actually beneficial to the conditioned souls, although materially such facilities seem opulent.

Os devotos do senhor Śiva são opulentos em termos das qualidades materiais. Na verdade, o dito progresso da civilização é a causa do enredamento na existência material. De fato, não é avanço, e, sim, degradação. A conclusão é que, como o senhor Śiva é o mestre das três qualidades, seus devotos recebem coisas manufaturadas pelas interações dessas qualidades para a satisfação dos sentidos. No entanto, no Bhagavad-gītā, obtemos a instrução do Senhor Kṛṣṇa de que se deve transcender esta existência qualitativa. Nistrai-guṇyo bhavārjuna: a missão da vida humana é tornar-se transcendental às três qualidades. A menos que seja nistrai-guṇya, a pessoa não pode libertar-se do enredamento material. Em outras palavras, os favores recebidos do senhor Śiva não são de fato benéficos para as almas condicionadas, embora, materialmente, tais facilidades pareçam opulentas.

Śukadeva Gosvāmī continued, “The Supreme Personality of Godhead, Hari, is transcendental to the three qualities of material nature.” In the Bhagavad-gītā the Lord states that anyone who surrenders unto Him surpasses the control of the three qualities of material nature. Therefore, since Hari’s devotees are transcendental to the control of the three material qualities, certainly He Himself is transcendental. In Śrīmad-Bhāgavatam it is therefore stated that Hari, or Kṛṣṇa, is the original Supreme Personality. There are two kinds of prakṛtis, or potencies, namely the internal potency and the external potency, and Kṛṣṇa is the overlord of both. He is sarva-dṛk, or the overseer of all the actions of the internal and external potencies, and He is also described as upadraṣṭā, the supreme advisor. Because He is the supreme advisor, He is above all the demigods, who merely follow the directions of the supreme advisor. As such, if one directly follows the instructions of the Supreme Lord, as inculcated in the Bhagavad-gītā and Śrīmad-Bhāgavatam, then one gradually becomes nirguṇa, or above the interactions of the material qualities. To be nirguṇa means to be bereft of material opulences because, as we have explained, material opulence means an increase of the actions and reactions of the three material qualities. By worshiping the Supreme Personality of Godhead, instead of being puffed up with material opulences one becomes enriched with spiritual advancement of knowledge in Kṛṣṇa consciousness. To become nirguṇa means to achieve eternal peace, fearlessness, religiousness, knowledge and renunciation. All these are symptoms of becoming free from the contamination of the material qualities.

Śukadeva Gosvāmī continuou: “A Suprema Personalidade de Deus, Hari, é transcendental às três qualidades da natureza material”. No Bhagavad-gītā, o Senhor afirma que qualquer pessoa que se renda a Ele escapa do controle das três qualidades da natureza material. Assim, como os devotos do Senhor Hari são transcendentais ao controle das três qualidades materiais, certamente Ele próprio é transcendental. No Śrīmad-Bhāgavatam, portanto, é declarado que Hari, ou Kṛṣṇa, é a Suprema Personalidade original. Há dois tipos de prakṛtis, ou potências, a saber, a potência interna e a potência externa, e Kṛṣṇa é o senhor de ambas. Ele é sarva-dṛk, ou o supervisor de todas as ações das potências interna e externa; Ele é também descrito como upadraṣṭā, o conselheiro supremo. Como é o conselheiro supremo, Ele encontra-Se acima de todos os semideuses, que meramente seguem as direções do conselheiro supremo. Dessa forma, se alguém segue diretamente as instruções do Senhor Supremo, como enunciadas no Bhagavad-gītā e no Śrīmad-Bhāgavatam, ele se torna nirguṇa, ou acima das interações das qualidades materiais. Ser nirguṇa significa ser desprovido de opulências materiais, porque, como explicamos, a opulência material implica em um aumento das ações e reações das três qualidades materiais. Através da adoração à Suprema Personalidade de Deus, em vez de ficar pretensiosa por causa de opulências materiais, a pessoa enriquece com avanço espiritual de conhecimento em consciência de Kṛṣṇa. Tornar-se nirguṇa significa alcançar a paz eterna, o destemor, a religiosidade, conhecimento e renúncia. Todos esses são sintomas de alguém que se livra da contaminação das qualidades materiais.

Śukadeva Gosvāmī, in answering Parīkṣit Mahārāja’s question, went on to cite a historical instance regarding Parīkṣit Mahārāja’s grandfather, King Yudhiṣṭhira. He said that after finishing the Aśvamedha sacrifice in the great sacrificial arena, King Yudhiṣṭhira, in the presence of great authorities, inquired from Lord Kṛṣṇa on that very same point: how is it that the devotees of Lord Śiva become materially opulent, whereas the devotees of Lord Viṣṇu do not? Śukadeva Gosvāmī specifically referred to King Yudhiṣṭhira as “your grandfather” so that Mahārāja Parīkṣit would be encouraged to think that he was related to Kṛṣṇa and that his grandfathers were intimately connected with the Supreme Personality of Godhead.

Śukadeva Gosvāmī, ao responder à indagação de Parīkṣit Mahārāja, citou um fato histórico relativo ao avô de Parīkṣit Mahārāja, o rei Yudhiṣṭhira. Ele disse que, depois de terminar o sacrifício de Aśvamedha na grande arena de sacrifícios, o rei Yudhiṣṭhira, na presença de grandes autoridades, inquiriu do Senhor Kṛṣṇa sobre o mesmo ponto: como os devotos do senhor Śiva se tornam materialmente opulentos, ao passo que os devotos do Senhor Viṣṇu não? Śukadeva Gosvāmī especificamente se referiu ao rei Yudhiṣṭhira como “seu avô”, de forma que Mahārāja Parīkṣit fosse estimulado a pensar que ele estava ligado a Kṛṣṇa e que seus avôs estavam intimamente relacionados com a Suprema Personalidade de Deus.

Although by nature Kṛṣṇa is always very satisfied, when Mahārāja Yudhiṣṭhira asked this question the Lord became even more satisfied because this question and its answer would bear a great meaning for the entire Kṛṣṇa conscious society. Whenever Lord Kṛṣṇa speaks about something to a specific devotee, it is meant not only for that devotee but for all devotees, and indeed for the entire human society. Instructions by the Supreme Personality of Godhead are important even to Lord Brahmā, Lord Śiva and the other demigods, and if one does not take advantage of the instructions of the Supreme Personality of Godhead, who descends within this world for the benefit of all living entities, he is certainly very unfortunate.

Embora Kṛṣṇa seja sempre muito satisfeito por natureza, quando Mahārāja Yudhiṣṭhira fez esta pergunta, o Senhor ficou ainda mais satisfeito, porque essa pergunta e sua resposta teriam um profundo significado para toda a sociedade consciente de Kṛṣṇa. O que quer que o Senhor Kṛṣṇa fale para um devoto específico, destina-se não apenas àquele devoto, mas a toda a sociedade humana. As instruções da Suprema Personalidade de Deus são importantes até mesmo para o senhor Brahmā, o senhor Śiva e para outros semideuses; quem não busca se beneficiar das instruções da Suprema Personalidade de Deus, que desce a este mundo material para o benefício de todas as entidades vivas, é certamente muito desafortunado.

Lord Kṛṣṇa answered the question of Mahārāja Yudhiṣṭhira as follows: “If I especially favor a devotee and especially wish to care for him, the first thing I do is take away his riches. When the devotee becomes a penniless pauper or is put into a comparatively poverty-stricken position, his relatives and family members no longer take interest in him, and in most cases they give up their connection with him. The devotee then becomes doubly unhappy.” First of all the devotee becomes unhappy because his riches have been taken away by Kṛṣṇa, and he is made even more unhappy when his relatives desert him because of his poverty. We should note, however, that when a devotee falls into a miserable condition in this way, it is not due to past impious activities, known as karma-phala; the poverty of the devotee is a creation of the Personality of Godhead. Similarly, when a devotee becomes materially opulent, that is also not due to his pious activities. In either case, whether the devotee becomes poorer or richer, the arrangement is made by the Supreme Personality of Godhead. This arrangement is especially made by Kṛṣṇa for His devotee just to make him completely dependent upon Him and to free him from all material obligations. He can then concentrate his energies, mind and body – everything – for the service of the Lord, and that is pure devotional service. In the Nārada Pañcarātra it is therefore explained, sarvopādhi-vinirmuktam, which means “being freed from all designations.” Works performed for family, society, community, nation or humanity are all designated: “I belong to this society,” “I belong to this community,” “I belong to this nation,” “I belong to this species of life.” Such identities are all merely designations. When by the grace of the Lord a devotee is freed from all designations, his devotional service is actually naiṣkarmya. Jñānīs are very much attracted by the position of naiṣkarmya, in which one’s actions no longer have any material effect. The devotee’s activities are freed from material effects, and so these activities are no longer in the category of karma-phalam, or fruitive activities. As explained before by the personified Vedas, the happiness and distress of a devotee are produced by the Personality of Godhead, and the devotee therefore does not care whether he is in happiness or in distress. He goes on with his duties in executing devotional service. Although his behavior seems to be subject to the actions and reactions of fruitive activities, he is actually freed from the results of action.

O Senhor Kṛṣṇa respondeu à pergunta de Mahārāja Yudhiṣṭhira com as seguintes palavras: “Se Eu favorecer um devoto e desejar cuidar dele em especial, a primeira medida com a qual procedo é retirar suas riquezas. Quando o devoto se torna pobre ou fica em uma situação de penúria, seus parentes e membros familiares não mais se importam com ele, e, na maioria dos casos, eles o abandonam. Portanto, o devoto se torna duplamente infeliz”. Primeiro de tudo, o devoto fica infeliz porque suas riquezas lhe foram tiradas por Kṛṣṇa, e ele fica ainda mais triste quando seus parentes o largam devido à sua pobreza. Não obstante, devemos perceber que, quando um devoto cai em uma condição miserável dessa forma, não é devido às atividades ímpias passadas, conhecidas como karma-phala; a pobreza do devoto é uma criação da Personalidade de Deus. De igual modo, quando um devoto se torna materialmente opulento, isso também não é resultado de suas atividades piedosas. Em ambos os casos, quer o devoto empobreça, quer enriqueça, o arranjo é elaborado pela Suprema Personalidade de Deus. Esse arranjo é feito especialmente por Kṛṣṇa para o benefício de Seu devoto, apenas para torná-lo completamente dependente dEle e libertá-lo de todas as obrigações materiais. Então, ele poderá concentrar suas energias, mente e corpo – tudo – a serviço do Senhor, e isso é serviço devocional puro. Portanto, no Nārada-pañcarātra, explica-se, sarvopādhi-vinirmuktam, que significa: “Libertar-se de todas as designações”. As obras realizadas para a família, sociedade, comunidade, nação ou humanidade são todas designações: “Pertenço a esta sociedade”, “Pertenço a esta comunidade”, “Pertenço a esta nação”, “Pertenço a esta espécie de vida”. Tais identificações são todas meramente designações. Quando, pela graça do Senhor, um devoto é liberto de todas as designações, seu serviço devocional é realmente naiṣkarmya. Os jñānīs são muito atraídos pela posição de naiṣkarmya, na qual as ações da pessoa não mais apresentam efeitos materiais. As atividades do devoto são isentas de efeitos materiais e, assim, essas atividades não se encontram mais na categoria de karma-phalam, ou atividades fruitivas. Como foi explicado anteriormente pelos Vedas personificados, a felicidade e o sofrimento de um devoto são produzidos pela Personalidade de Deus, e o devoto, portanto, não se preocupa se ele está em felicidade ou em sofrimento. Ele continua com seus deveres, executando serviço devocional. Embora seu comportamento pareça estar sujeito às ações e reações das atividades fruitivas, ele está realmente livre dos resultados da ação.

It may be questioned why a devotee is put into such tribulation by the Personality of Godhead. The answer is that this kind of arrangement by the Lord is just like a father’s sometimes becoming unkind to his sons. Because the devotee is a surrendered soul and is taken charge of by the Supreme Lord, whatever condition of life the Lord puts him in – whether one of distress or of happiness – it is to be understood that behind this arrangement is a large plan designed by the Personality of Godhead. For example, Lord Kṛṣṇa put the Pāṇḍavas into a distressed condition so acute that even grandfather Bhīṣma could not comprehend how such distress could occur. He lamented that although the whole Pāṇḍava family was headed by King Yudhiṣṭhira, the most pious king, and protected by the two great warriors Bhīma and Arjuna, and although, above all, the Pāṇḍavas were all intimate friends and relatives of Lord Kṛṣṇa, they still had to undergo such tribulations. Later, however, it was proved that this was planned by the Supreme Personality of Godhead, Kṛṣṇa, as part of His great mission to annihilate the miscreants and protect the devotees.

Pode-se questionar por que o devoto é colocado pela Personalidade Suprema em tais tribulações. A resposta é que esse tipo de arranjo elaborado pelo Senhor é exatamente como a zanga ocasional de um pai para com seus filhos. Porque o devoto é uma alma rendida e está sob o cuidado do Senhor Supremo, qualquer que seja a condição de vida em que o Senhor o coloque – quer seja de felicidade, quer seja de tristeza – deve-se compreender que, por trás desse arranjo, existe um grande plano elaborado pela Personalidade de Deus. Por exemplo, o Senhor Kṛṣṇa colocou os Pāṇḍavas em uma situação tão aflitiva que até mesmo o avô Bhīṣma não foi capaz de compreender como tal tribulação pudera ocorrer. Ele lamentou que, apesar de toda a família dos Pāṇḍavas estar sob a direção do rei Yudhiṣṭhira, o rei mais piedoso, e protegida pelos dois grandiosos guerreiros Bhīma e Arjuna, e embora, acima de tudo, os Pāṇḍavas fossem todos amigos íntimos e parentes do Senhor Kṛṣṇa, eles, ainda assim, tivessem de se submeter a tais tribulações. Mais tarde, contudo, foi provado que esse fora o plano da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, como parte de Sua grande missão de aniquilar os descrentes e proteger os devotos.

Another question may be raised: What is the difference between a devotee and a common man, since both are put into different kinds of happy and distressful conditions – the devotee by the arrangement of the Personality of Godhead, and the common man as a result of his past deeds? How is the devotee any better than the ordinary karmī? The answer is that the karmīs and the devotees are not on the same level. In whatever condition of life the karmī may be, he continues in the cycle of birth and death because the seed of karma, or fruitive activity, is there, and it fructifies whenever there is an opportunity. By the law of karma a common man is perpetually entangled in repeated birth and death, whereas a devotee’s distress and happiness, not being under the laws of karma, are part of a temporary arrangement by the Supreme Lord which does not entangle the devotee. Such an arrangement is made by the Lord only to serve a temporary purpose. If a karmī performs auspicious acts he is elevated to the heavenly planets, and if he acts impiously he is put into a hellish condition. But whether a devotee acts in a so-called pious or impious manner, he is neither elevated nor degraded but is transferred to the spiritual kingdom. Therefore a devotee’s happiness and distress and a karmī’s happiness and distress are not on the same level. This fact is corroborated by a speech by Yamarāja to his servants in connection with the liberation of Ajāmila. Yamarāja advised his followers that they should approach only those persons who have never uttered the holy name of the Lord or remembered the form, qualities and pastimes of the Lord. Yamarāja also advised his servants never to approach the devotees. On the contrary, he instructed his messengers that if they meet a devotee they should offer their respectful obeisances. So there is no question of a devotee’s being promoted or degraded within this material world. As there is a gulf of difference between the punishment awarded by the mother and the punishment awarded by an enemy, so a devotee’s distress is not the same as the distress of a common karmī.

Outra pergunta pode ser levantada: Qual é a diferença entre um devoto e um homem comum, visto que ambos são postos em diferentes espécies de condições felizes e infelizes – o devoto, por arranjo da Personalidade de Deus, e o homem comum como resultado de seus feitos passados? Como o devoto é melhor que o karmī comum? A resposta é que os karmīs e os devotos não estão no mesmo nível. Em qualquer condição de vida que o karmī seja colocado, ele continua no ciclo de nascimentos e mortes, porque a semente do karma, ou atividade fruitiva, está lá e frutifica sempre que houver uma oportunidade. Pela lei do karma, um homem comum está eternamente enredado em repetidos nascimentos e mortes, ao passo que a felicidade ou a infelicidade do devoto, não estando sujeita às leis do karma, faz parte de um arranjo temporário do Senhor Supremo, o qual não enreda o devoto. Tal arranjo é elaborado pelo Senhor apenas para servir a um propósito momentâneo. Se um karmī executar atos auspiciosos, ele será elevado aos planetas celestiais e, se executar atos ímpios, ele será colocado em uma situação infernal. Contudo, quer o devoto aja de uma maneira supostamente piedosa ou ímpia, ele não é nem elevado nem degradado, mas é transferido para o reino espiritual. Logo, a felicidade e a infelicidade de um devoto e aquelas de um karmī não estão no mesmo nível. Esse fato é corroborado por um discurso de Yamarāja a seus servos em relação à libertação de Ajāmila. Yamarāja advertiu seus seguidores que apenas as pessoas que jamais pronunciaram o santo nome do Senhor ou lembraram a forma, qualidade e passatempos do Senhor devem ser abordadas pelos seus representantes. Yamarāja também advertiu seus servos a nunca se aproximarem dos devotos. Ao contrário, ele instruiu seus mensageiros que, se encontrassem um devoto, deveriam oferecer suas respeitosas reverências. Assim, não há discussão quanto ao fato de um devoto ser elevado ou degradado neste mundo material. Assim como existe um oceano de diferença entre a punição dada pela mãe e aquela aplicada por um inimigo, o infortúnio de um devoto não é igual ao sofrimento de um karmī comum.

Here another question may be raised: If the Supreme Lord is all-powerful, why should He try to reform His devotee by putting him in distress? The answer is that when the Supreme Personality of Godhead puts His devotee in distress, it is not without purpose. Sometimes the purpose is that in distress a devotee’s feelings of attachment to Kṛṣṇa are magnified. For example, when Kṛṣṇa, before leaving the capital of the Pāṇḍavas for His home, asked Kuntīdevī for permission to leave, she said, “My dear Kṛṣṇa, in our distress You were always present with us. Now, because we have been elevated to a royal position, You are leaving us. I would therefore prefer to live in distress than to lose You.” When a devotee is put into a situation of distress, his devotional activities are accelerated. Therefore, to show special favor to a devotee, the Lord sometimes puts him into distress. Besides that, it is stated that the sweetness of happiness is sweeter to those who have tasted bitterness. The Supreme Lord descends to this material world just to protect His devotees from distress. In other words, if devotees were not in a distressed condition, the Lord would not have come down. As for His killing the demons, or miscreants, this can be easily done by His various energies, just as many asuras are killed by His external energy, Goddess Durgā. Therefore the Lord does not need to come down personally to kill such demons, but when His devotee is in distress He must come. Lord Nṛsiṁhadeva appeared not in order to kill Hiraṇyakaśipu but to save Prahlāda and to give him blessings. In other words, because Prahlāda Mahārāja was put into very great distress, the Lord appeared.

Aqui, outra questão pode ser levantada: se o Senhor Supremo é todo-poderoso, por que Ele deve tentar reformar Seu devoto colocando-o em tribulação? A resposta é que, quando a Suprema Personalidade de Deus coloca Seu devoto em uma situação aflitiva, não é sem propósito. Às vezes, o objetivo é que, em tribulação, os sentimentos de apego que o devoto sente por Kṛṣṇa são ampliados. Por exemplo, quando Kṛṣṇa, antes de deixar a capital dos Pāṇḍavas, em direção à Sua residência, pediu permissão a Kuntīdevī para partir, ela disse: “Meu querido Kṛṣṇa, no nosso infortúnio, Você sempre esteve presente conosco. Agora, como fomos elevados a uma posição real, Você está nos deixando. Em vista disso, eu preferiria viver em tribulação a perdê-lO”. Quando um devoto é colocado em uma situação de aflição, suas atividades devocionais são intensificadas. Por conseguinte, para mostrar favor especial ao devoto, o Senhor, às vezes, o coloca em dificuldades. Ademais, afirma-se que a doçura da felicidade é mais doce àqueles que experimentaram a amargura. O Senhor Supremo vem a este mundo material apenas para proteger Seus devotos das situações aflitivas. Em outras palavras, se os devotos não se encontrassem em tribulações, o Senhor não viria. Quanto ao extermínio dos demônios, ou perversos, executado por Ele, isso poderia ser facilmente executado por Suas várias energias, exatamente como os asuras são mortos por Sua energia externa, a deusa Durgā. Logo, o Senhor não precisa descer pessoalmente para aniquilar tais demônios, mas, quando Seu devoto encontra-se em tribulação, Ele deve vir. O Senhor Nṛsiṁhadeva apareceu não a fim de matar Hiraṇyakaśipu, mas para salvar Prahlāda Mahārāja e conceder-lhe Suas bênçãos. Ou seja, porque Prahlāda Mahārāja foi posto em uma situação difícil, o Senhor apareceu.

When after the dense, dark night there is finally sunrise in the morning, it is very pleasant; when there is scorching heat, cold water is very pleasant; and when there is freezing winter, hot water is very pleasant. Similarly, when a devotee, after experiencing the distress of the material world, relishes the spiritual happiness awarded by the Lord, his position is still more pleasant and enjoyable.

Depois de uma noite escura e densa, a luz do Sol pela manhã é muito agradável. Quando há um calor escaldante, a água fria é muito prazerosa, e quando há frio cortante, a água quente proporciona bem-estar. De igual modo, quando um devoto, depois de passar por tribulações no mundo material, desfruta da felicidade espiritual concedida pelo Senhor, sua posição é ainda mais prazerosa e agradável.

The Lord continued, “When My devotee is bereft of all material riches and is deserted by his relatives, friends and family members, because he has no one to look after him he completely takes shelter of the lotus feet of the Lord.” Śrīla Narottama dāsa Ṭhākura has sung in this connection, “My dear Lord Kṛṣṇa, O son of Nanda Mahārāja, You are now standing before me with Śrīmatī Rādhārāṇī, the daughter of King Vṛṣabhānu. I am now surrendering unto You. Please accept me. Please do not kick me away. I have no shelter other than You.”

O Senhor continuou: “Quando Meu devoto é desprovido de todas as riquezas e é abandonado por seus parentes, amigos e membros familiares; porque não tem ninguém para cuidar dele, ele refugia-se completamente nos pés de lótus do Senhor”. Śrīla Narottama Dāsa Thākura cantou a esse respeito: “Meu querido Senhor Kṛṣṇa, ó filho de Nanda Mahārāja, Você agora está diante de mim com Śrīmatī Rādhārāṇī, a filha do rei Vṛṣabhānu. Agora, estou me rendendo a Você. Por obséquio, me aceite e não me despreze. Não tenho outro abrigo exceto Você”.

When a devotee is thus put into so-called miserable conditions and bereft of riches and family, he tries to revive his original position of material opulence. But although he tries again and again, Kṛṣṇa again and again takes away all his resources. Thus he finally becomes disappointed in material activities, and in that stage of frustration in all endeavors, he can fully surrender unto the Supreme Personality of Godhead. Such persons are advised by the Lord from within to associate with devotees. By associating with devotees they naturally become inclined to render service to the Personality of Godhead, and they immediately get all facilities from the Lord to advance in Kṛṣṇa consciousness. The nondevotees, however, are very careful about preserving their material condition of life. Generally, therefore, such nondevotees do not come to worship the Supreme Personality of Godhead, but worship Lord Śiva or other demigods for immediate material profit. In the Bhagavad-gītā it is said, therefore, kāṅkṣantaḥ karmaṇāṁ siddhiṁ yajanta iha devatāḥ: “The karmīs, in order to achieve success within this material world, worship the various demigods.” It is also stated by Lord Kṛṣṇa that those who worship the demigods are not mature in their intelligence. The devotees of the Supreme Personality of Godhead, therefore, because of their strong attachment for Him, do not foolishly go to the demigods.

Assim, quando um devoto é posto em uma condição dita miserável e é desprovido de riquezas e família, ele tenta reviver sua posição original de opulência material. Contudo, embora ele tente repetidas vezes, Kṛṣṇa sempre retira todos os seus recursos. Ele, então, finalmente, desaponta-se com as atividades materiais e, nesse estágio de frustração em todos os seus esforços, ele pode se render plenamente à Suprema Personalidade de Deus. Tais pessoas são aconselhadas interiormente pelo Senhor a se associarem com os devotos. Associando-se com os devotos, elas se inclinam naturalmente a prestar serviço à Personalidade de Deus e imediatamente obtêm todas as facilidades do Senhor para avançarem em consciência de Kṛṣṇa. Os não devotos, contudo, são muito cuidadosos quanto à preservação de sua condição material de vida. Geralmente, portanto, tais não devotos não chegam a adorar a Suprema Personalidade de Deus, senão que adoram o senhor Śiva ou outros semideuses em busca de lucro material imediato. Dessa forma, afirma-se no Bhagavad-gītā, kāṅkṣanataḥ karmaṇāṁ siddhiṁ yajanta iha devatāḥ: “Os karmīs, a fim de obterem sucesso no mundo material, adoram os vários semideuses”. O Senhor Kṛṣṇa também declara que aqueles que adoram os semideuses não estão maduros em sua inteligência. Os devotos da Suprema Personalidade de Deus, portanto, por causa de seu forte apego a Ele, não recorrem tolamente aos semideuses.

Lord Kṛṣṇa said to King Yudhiṣṭhira, “My devotee is not deterred by any adverse conditions of life; he always remains firm and steady. Therefore I give Myself to him, and I favor him so that he can achieve the highest success of life.” The mercy bestowed upon the tried devotee by the Supreme Personality is described as brahma, which indicates that the greatness of that mercy can be compared only to the all-pervasive greatness of Brahman. Brahma means unlimitedly great and unlimitedly expanding. That mercy is also described as paramam, for it has no comparison within this material world, and it is also called sūkṣmam, very fine. Not only is the Lord’s mercy upon the tried devotee great and unlimitedly expansive, but it is of the finest quality of transcendental love between the devotee and the Lord. Such mercy is further described as cin-mātram, completely spiritual. The use of the word mātram indicates absolute spirituality, with no tinge of material qualities. That mercy is also called sat (eternal) and anantakam (unlimited). Since the devotee of the Lord is awarded such unlimited spiritual benefit, why should he worship the demigods? A devotee of Kṛṣṇa does not worship Lord Śiva or Brahmā or any other, subordinate demigod. He completely devotes himself to the transcendental loving service of the Supreme Personality of Godhead.

O Senhor Kṛṣṇa disse ao rei Yudhiṣṭhira: “Meu devoto não é detido por nenhuma condição adversa de vida; ele sempre permanece firme e constante. Assim, Eu Me dou a ele de forma que ele possa alcançar o maior sucesso da vida”. A misericórdia que a Suprema Personalidade confere ao devoto testado é descrita como brahma, o que indica que a grandeza dessa misericórdia só pode ser comparada à grandeza onipenetrante do Brahman. Brahma significa “ilimitadamente grande e crescente”. Essa misericórdia também é descrita como paramam, pois ela não tem comparação neste mundo material, e também é chamada sūkṣmam, “muito refinada”. A misericórdia do Senhor concedida ao devoto não é apenas ilimitadamente grande, mas da mais fina qualidade de amor transcendental entre o devoto e o Senhor. Tal misericórdia é adicionalmente descrita como cin-mātram, “completamente espiritual”. O uso da palavra mātram indica espiritualidade absoluta, sem vestígio de qualidades materiais. Essa misericórdia também é chamada sat (eterna) e anantakam (ilimitada). Visto que o devoto do Senhor recebe tal benefício espiritual ilimitado, por que, então, ele deveria adorar os semideuses? Um devoto de Kṛṣṇa não adora o senhor Śiva ou Brahmā ou qualquer outro semideus subordinado. Ele dedica-se completamente ao serviço transcendental amoroso à Suprema Personalidade de Deus.

Śukadeva Gosvāmī continued, “The demigods, headed by Lord Brahmā and Lord Śiva and including Lord Indra, Candra, Varuṇa and others, are apt to be very quickly satisfied or very quickly angered by the good or ill behavior of their devotees. But this is not so with the Supreme Personality of Godhead, Viṣṇu.” This means that every living entity within this material world, including the demigods, is conducted by the three modes of material nature, and therefore the qualities of ignorance and passion are very prominent within the material world. Those devotees who take blessings from the demigods are also infected with the material qualities, especially passion and ignorance. Lord Śrī Kṛṣṇa has therefore stated in the Bhagavad-gītā that to take blessings from the demigods is less intelligent because when one takes benedictions from the demigods the results of such benedictions are temporary. It is easy to get material opulence by worshiping the demigods, but the result is sometimes disastrous. As such, the benedictions derived from demigods are appreciated only by the less intelligent class of men. Persons who derive benedictions from the demigods gradually become puffed up with material opulence and neglectful of their benefactors.

Śukadeva Gosvāmī continuou: “Os semideuses, liderados pelo senhor Brahmā e pelo senhor Śiva, incluindo o senhor Indra, Candra, Varuṇa e outros, são facilmente satisfeitos ou muito rapidamente enfurecidos pelo bom ou mau comportamento de seus devotos. Contudo, essa não é a realidade em relação à Suprema Personalidade de Deus, Viṣṇu”. Isso significa que toda entidade viva neste mundo material, incluindo os semideuses, é conduzida pelos três modos da natureza material, e, assim, as qualidades da ignorância e da paixão são proeminentes neste mundo material. Os devotos que recebem bênçãos dos semideuses também são infectados pelas qualidades materiais, especialmente da paixão e da ignorância. Em consequência, o Senhor Śrī Kṛṣṇa declarou no Bhagavad-gītā que aceitar bênçãos dos semideuses é menos inteligente, porque, quando se recebe bênçãos dos semideuses, os resultados de tais benefícios são temporários. É fácil obter opulência material adorando-se os semideuses, mas o resultado é ocasionalmente desastroso. Em vista disso, as bênçãos provenientes dos semideuses são apreciadas apenas pela classe menos inteligente de homens. As pessoas que logram benefícios dos semideuses tornam-se pretensiosas devido à opulência material e negligentes em relação aos seus benfeitores.

Śukadeva Gosvāmī addressed King Parīkṣit thus: “My dear King, Lord Brahmā, Lord Viṣṇu and Lord Śiva, the principal trio of the material creation, are able to bless or curse anyone. Of this trio, Lord Brahmā and Lord Śiva are very easily satisfied but also very easily angered. When satisfied they give benedictions without consideration, and when angry they curse the devotee without consideration. But Lord Viṣṇu is not like that. Lord Viṣṇu is very considerate. Whenever a devotee wants something from Lord Viṣṇu, Lord Viṣṇu first considers whether such a benediction will ultimately be good for the devotee. Lord Viṣṇu never bestows any benediction which will ultimately prove disastrous to the devotee. By His transcendental nature, He is always merciful; therefore, before giving any benediction, He considers whether it will prove beneficial for the devotee. Since the Supreme Personality of Godhead is always merciful, even when it appears that He has killed a demon, or even when He apparently becomes angry toward a devotee, His actions are always auspicious. The Supreme Personality of Godhead is therefore known as all good. Whatever He does is good.”

Śukadeva Gosvāmī dirigiu-se ao rei Parīkṣit: “Meu querido rei, o senhor Brahmā, o Senhor Viṣṇu e o senhor Śiva, o trio principal da criação material, são capazes de abençoar ou amaldiçoar qualquer pessoa. Desse trio, o senhor Brahmā e o senhor Śiva são facilmente satisfeitos, mas também muito facilmente contrariados. Quando satisfeitos, eles concedem bênçãos sem discriminação e, quando irados, amaldiçoam o devoto sem consideração. Entretanto, o Senhor Viṣṇu não é assim. O Senhor Viṣṇu possui um grande poder de discriminação. Sempre que um devoto deseja algo do Senhor Viṣṇu, Ele considera se tal bênção será, em última instância, benéfica para o devoto. O Senhor Viṣṇu nunca concede um benefício que será, no final, desastroso para o devoto. Por meio de Sua natureza transcendental, Ele é sempre misericordioso; portanto, antes de proporcionar qualquer bênção, Ele considera se esta será de proveito para o devoto. Visto que a Suprema Personalidade de Deus é sempre misericordiosa, mesmo quando parece que Ele matou um demônio, ou até quando Ele aparentemente fica irado com um devoto, Suas ações são sempre auspiciosas. A Suprema Personalidade de Deus é, portanto, conhecido como absolutamente benéfico. Tudo o que Ele faz é bom”.

As for the benedictions given by demigods like Lord Śiva, there is the following historical incident cited by great sages. Once, Lord Śiva, after giving a benediction to a demon named Vṛkāsura, the son of Śakuni, was himself entrapped in a very dangerous position. Vṛkāsura was searching after a benediction and trying to decide which of the three presiding deities to worship in order to get it. In the meantime he happened to meet the great sage Nārada and consulted with him as to whom he should approach to achieve quick results from his austerity. He inquired, “Of the three deities, namely Lord Brahmā, Lord Viṣṇu and Lord Śiva, who is most quickly satisfied?” Nārada could understand the plan of the demon, and he advised him, “You had better worship Lord Śiva; then you will quickly get the desired result. Lord Śiva is very quickly satisfied and very quickly dissatisfied also. So you try to satisfy Lord Śiva.” Nārada also cited instances wherein demons like Rāvaṇa and Bāṇāsura were enriched with great opulences simply by satisfying Lord Śiva with prayers. Because the great sage Nārada was aware of the nature of the demon Vṛkāsura, he did not advise him to approach Viṣṇu or Lord Brahmā. Persons such as Vṛkāsura, who are situated in the material mode of ignorance, cannot stick to the worship of Viṣṇu.

Quanto às bênçãos concedidas pelos semideuses, como o senhor Śiva, existe o seguinte incidente histórico citado pelos grandes sábios. Certa vez, o senhor Śiva, depois de dar uma bênção ao demônio chamado Vṛkāsura, o filho de Śakuni, ficou ele próprio enredado em uma situação muito perigosa. Vṛkāsura estava procurando por uma bênção e tentou decidir qual das três deidades principais ele poderia adorar a fim de obtê-la. Nesse ínterim, ele encontrou o grande sábio Nārada e consultou-se com ele quanto a quem ele deveria buscar para alcançar resultados rápidos para sua austeridade. Ele perguntou: “Das três deidades, a saber, o senhor Brahmā, o Senhor Viṣṇu e o senhor Śiva, qual é aquela mais rapidamente satisfeita?” Nārada pôde entender o plano do demônio, em virtude do que o advertiu: “É melhor você adorar o senhor Śiva, assim você obterá rapidamente o resultado desejado. O senhor Śiva é muito facilmente satisfeito, e contrariado também. Destarte, tente agradar o Senhor Śiva”. Nārada também citou incidentes onde demônios como Rāvaṇa e Bāṇāsura enriqueceram com enormes opulências simplesmente satisfazendo o senhor Śiva com orações. Como o excelso sábio estava familiarizado com a natureza do demônio Vṛkāsura, ele não o aconselhou a se aproximar de Viṣṇu ou do senhor Brahmā. Pessoas como Vṛkāsura, que estão no modo da ignorância material, não são capazes de adotar a adoração a Viṣṇu.

After receiving instruction from Nārada, the demon Vṛkāsura went to Kedāranātha. The pilgrimage site of Kedāranātha still exists near Kashmir. It is almost always covered by snow, but for part of the year, during the month of July, it is possible to see the deity, and devotees go there to offer their respects. Kedāranātha is for the devotees of Lord Śiva. According to the Vedic principle, when something is offered to the deities to eat, it is offered in a fire. Therefore a fire sacrifice is necessary in all sorts of ceremonies. It is specifically stated in the śāstras that gods are to be offered something to eat through the fire. The demon Vṛkāsura therefore went to Kedāranātha and ignited a sacrificial fire to please Lord Śiva.

Após receber as instruções de Nārada, o demônio Vṛkāsura foi até Kedāranātha. O lugar de peregrinação de Kedāranātha ainda existe próximo à Caxemira. Está quase sempre coberto de neve; porém, por uma parte do ano, durante o mês de julho, é possível ver a deidade, e os devotos vão até lá para oferecer seus respeitos. Kedāranātha destina-se aos devotos do senhor Śiva. De acordo com o princípio védico, quando se oferece algo para as deidades comerem, a oferenda é feita no fogo. Logo, um fogo de sacrifício é requerido em todas as espécies de cerimônias. É especificamente enunciado nos śāstras que os deuses devem receber qualquer coisa para comer através do fogo. Em vista disso, o demônio Vṛkāsura foi a Kedāranātha e acendeu um fogo sacrificial para agradar o senhor Śiva.

After igniting the fire in the name of Lord Śiva, to please him Vṛkāsura began to offer his own flesh by cutting it from his body. Here is an instance of worship in the mode of ignorance. In the Bhagavad-gītā, different types of sacrifices are mentioned. Some sacrifices are in the mode of goodness, some are in the mode of passion, and some are in the mode of ignorance. There are different kinds of tapasya and worship because there are different kinds of people within this world. But the ultimate tapasya, Kṛṣṇa consciousness, is the topmost yoga and the topmost sacrifice. As confirmed in the Bhagavad-gītā, the topmost yoga is to think always of Lord Kṛṣṇa within the heart, and the topmost sacrifice is to perform the saṅkīrtana-yajña.

Depois de acender o fogo em nome de Śiva, ele começou a oferecer sua própria carne, cortando-a de seu corpo a fim de satisfazer o senhor Śiva. Aqui temos uma adoração no modo da ignorância. No Bhagavad-gītā, são mencionados diversos tipos de sacrifícios. Alguns sacrifícios estão no modo da bondade, outros no modo da paixão, enquanto ainda outros estão no modo da ignorância. Há diferentes tipos de tapasya e adoração porque existem tipos distintos de pessoas neste mundo. Contudo, a tapasya última, a consciência de Kṛṣṇa, é o yoga supremo e o sacrifício supremo. Como confirmado no Bhagavad-gītā, o yoga mais elevado é pensar sempre no Senhor Kṛṣṇa dentro do coração, e o sacrifício mais elevado é executar saṅkīrtana-yajña.

In the Bhagavad-gītā it is stated that the worshipers of the demigods have lost their intelligence. As revealed later in this chapter, Vṛkāsura wanted to satisfy Lord Śiva for a third-class materialistic objective, which was temporary and without real benefit. The asuras, or persons within the mode of ignorance, will accept such benedictions from the demigods. In complete contrast to this sacrifice in the mode of ignorance, the arcana-vidhi process for worshiping Lord Viṣṇu or Kṛṣṇa is very simple. Lord Kṛṣṇa says in the Bhagavad-gītā that He accepts from His devotee even a little fruit, a flower or some water, which can be gathered by any person, rich or poor. Of course, those who are rich are not expected to offer only a little water, a little piece of fruit or a little leaf to the Lord; a rich man should offer according to his position. But if the devotee happens to be a very poor man, the Lord will accept even the most meager offering. The worship of Lord Viṣṇu or Kṛṣṇa is very simple, and it can be executed by anyone in this world. But worship in the mode of ignorance, as exhibited by Vṛkāsura, is not only very difficult and painful but is also a useless waste of time. Therefore the Bhagavad-gītā says that the worshipers of the demigods are bereft of intelligence; their process of worship is very difficult, and at the same time the result obtained is flickering and temporary.

O Bhagavad-gītā declara que os adoradores de semideuses perderam sua inteligência. Como será revelado mais tarde neste capítulo, Vṛkāsura queria satisfazer o senhor Śiva para um objetivo material de terceira classe, que era temporário e sem benefício real. Os asuras, ou as pessoas no modo da ignorância, aceitam tais bênçãos dos semideuses. Em completa oposição a esse sacrifício no modo da ignorância, encontra-se o processo arcana-vidhi de adoração ao Senhor Viṣṇu ou Kṛṣṇa, que é muito simples. O Senhor Kṛṣṇa afirma no Bhagavad-gītā que Ele aceita de Seu devoto até mesmo uma fruta pequena, uma flor ou um pouco de água, artigos que podem ser conseguidos por qualquer pessoa rica ou pobre. Naturalmente, aqueles que são ricos não deveriam oferecer apenas uma frutinha, um pouco de água ou uma folhinha ao Senhor; um homem rico deveria fazer oferendas de acordo com sua posição. No entanto, se o devoto for uma pessoa paupérrima, o Senhor aceitará até mesmo a mais insignificante oferenda. A adoração ao Senhor Viṣṇu ou Kṛṣṇa é muito simples e pode ser realizada por qualquer pessoa neste mundo. Não obstante, a adoração no modo da ignorância, como exibida por Vṛkāsura, é não apenas muito difícil e dolorosa, mas também um inútil desperdício de tempo. Diante disso, o Bhagavad-gītā enuncia que os adoradores dos semideuses são desprovidos de inteligência. Seu processo de adoração é muito difícil, e, ao mesmo tempo, o resultado obtido é inconstante e temporário.

Although Vṛkāsura continued his sacrifice for six days, he was unable to personally see Lord Śiva, which was his objective; he wanted to see him face to face and ask him for a benediction. Here is another contrast between demons and devotees. A devotee is confident that whatever he offers to the Deity in full devotional service is accepted by the Lord, but a demon wants to see his worshipable deity face to face so that he can directly take the benediction. A devotee does not worship Viṣṇu or Lord Kṛṣṇa for any benediction. Therefore a devotee is called akāma, free of desire, and a nondevotee is called sarva-kāma, or desirous of everything. On the seventh day, the demon Vṛkāsura decided that he should cut off his head and offer it to satisfy Lord Śiva. Thus he took a bath in a nearby lake, and without drying his body and hair, he prepared to cut off his head. According to the Vedic system, an animal to be offered as a sacrifice has to be bathed first, and while the animal is wet it is sacrificed. When the demon was thus preparing to cut off his head, Lord Śiva became very compassionate. This compassion is a symptom of the quality of goodness. Lord Śiva is called tri-liṅga, “a mixture of the three material qualities.” Therefore his manifestation of the nature of compassion is a sign of the quality of goodness. This compassion, however, is present in every living entity. The compassion of Lord Śiva was aroused not because the demon was offering his flesh into the sacrificial fire but because he was about to commit suicide. This is natural compassion. Even if a common man sees someone preparing to commit suicide, he will try to save him. He does so automatically. There is no need to appeal to him. Therefore when Lord Śiva appeared from the fire to check the demon from suicide, it was not done as a very great favor to him.

Embora Vṛkāsura continuasse seu sacrifício por seis dias, ele foi incapaz de ver o senhor Śiva pessoalmente, o que era seu objetivo. Ele desejava vê-lo face a face e implorar-lhe sua bênção. Temos outro contraste entre os demônios e os devotos. O devoto tem confiança de que qualquer coisa que ele ofereça à Deidade, em pleno serviço devocional, é aceita pelo Senhor, mas um demônio quer ver sua deidade adorável face a face de forma que ele possa receber a bênção diretamente. Um devoto não adora Viṣṇu ou o Senhor Kṛṣṇa em busca de benefícios. Desse modo, o devoto é chamado akāma, livre de desejos, enquanto um não devoto é chamado sarva-kāma, ou desejoso de tudo. No sétimo dia, o demônio Vṛkāsura decidiu que ele deveria cortar sua própria cabeça e oferecê-la para satisfazer o senhor Śiva. Então, ele se banhou em um lago nas proximidades e, sem enxugar o corpo e o cabelo, preparou-se para a decapitação. De acordo com o sistema védico, o animal a ser oferecido em sacrifício deve ser primeiro banhado. Depois, enquanto se encontra molhado, sim, deve ser sacrificado. Assim, quando o demônio estava se preparando para cortar a própria cabeça, o senhor Śiva ficou muito compassivo. Essa compaixão é um sintoma da qualidade da bondade. O senhor Śiva é chamado tri-liṅga, “uma mistura das três qualidades materiais”. Portanto, sua manifestação de natureza compassiva é um sinal da qualidade da bondade. Essa compaixão, entretanto, está presente em toda entidade viva. A compaixão do senhor Śiva foi despertada não porque o demônio estivesse oferecendo sua carne em sacrifício, mas porque ele estava prestes a cometer suicídio. Essa é uma compaixão natural. Mesmo se um homem comum vir alguém se preparando para se matar, ele tentará salvá-lo. Ele age dessa maneira automaticamente. Não há necessidade de apelar a ele. Logo, quando o senhor Śiva apareceu do fogo para impedir o suicídio do demônio, esse ato não foi um grande favor de sua parte.

Lord Śiva’s touch saved the demon from committing suicide; his bodily injuries immediately healed, and his body became as it was before. Then Lord Śiva told the demon, “My dear Vṛkāsura, you do not need to cut off your head. You may ask from me any benediction you like, and I shall fulfill your desire. I do not know why you wanted to cut off your head to satisfy me. I become satisfied even by an offering of a little water.” Actually, according to the Vedic process, the śiva-liṅga in the temple or the form of Lord Śiva in the temple is worshiped simply by offering Ganges water, because it is said that Lord Śiva is greatly satisfied when Ganges water is poured upon his head. Generally, devotees offer Ganges water and the leaves of the bilva tree, which are especially meant for offering to Lord Śiva and Goddess Durgā. The fruit of this tree is also offered to Lord Śiva. Lord Śiva assured Vṛkāsura that he is satisfied by a very simple process of worship. Why then was he so eager to cut off his head, and why was he taking so much pain by cutting his body to pieces and offering it in the fire? There was no need of such severe penances. Anyway, out of compassion and sympathy, Lord Śiva prepared to give him any benediction he liked.

O toque do senhor Śiva salvou o demônio de cometer suicídio; suas feridas corporais sararam imediatamente e seu corpo voltou à forma anterior. Em seguida, o senhor Śiva disse ao demônio: “Meu querido Vṛkāsura, você não precisa cortar sua cabeça. Você pode pedir-me qualquer benefício que deseje e atenderei seu pedido. Não sei por que você queria decapitar-se para a minha satisfação. Fico satisfeito até mesmo com uma pequena oferenda de água”. Na verdade, seguindo-se o processo védico, o śiva-liṅga, ou a forma do senhor Śiva no templo, é adorado simplesmente pelo oferecimento de água do Ganges, porque se diz que o senhor Śiva fica muito satisfeito quando a água do Ganges é derramada sobre sua cabeça. De uma forma geral, os devotos oferecem água do Ganges e folhas da árvore bilva, que se destinam especialmente à oferenda ao senhor Śiva e à deusa Durgā. A fruta desta árvore também é oferecida ao senhor Śiva. O senhor Śiva garantiu a Vṛkāsura que ele fica satisfeito por meio de um processo muito simples de adoração. Então, por que ele estava tão ansioso para cortar sua cabeça, e por que ele estava se submetendo a tantas dores, dilacerando seu corpo e oferecendo-o no fogo? Não havia necessidade de tais penitências. De qualquer forma, devido à compaixão e simpatia, o senhor Śiva preparou-se para lhe dar qualquer tipo de bênção que ele desejasse.

When the demon was offered this facility by Lord Śiva, he asked for a fearful and abominable benediction. The demon was very sinful, and sinful persons do not know what sort of benediction should be asked from the deity. Therefore he asked Lord Śiva to bless him with such power that as soon as he would touch anyone’s head, it would immediately crack and the man would die. The demons are described in the Bhagavad-gītā as duṣkṛtīs, or miscreants. Kṛtī means “very meritorious,” but when duḥ is added it means “abominable.” Instead of surrendering unto the Supreme Personality of Godhead, the duṣkṛtīs worship different demigods to derive abominable material benefits. Although the duṣkṛtīs have brain power and merit, their merit and brain power are used for abominable activities. Sometimes, for example, materialistic scientists invent a lethal weapon. The scientific research for such an invention certainly requires a very good brain, but instead of inventing something beneficial to human society they invent something to accelerate death, which is already assured to every man. They cannot show their meritorious power by inventing something which can save man from death; instead they invent weapons which accelerate the process of death. Similarly, Vṛkāsura, instead of asking Lord Śiva for something beneficial to human society, asked for something very dangerous to human society. Lord Śiva is powerful enough to give any benediction, so the demon could have asked something beneficial from him, but for his personal interest he asked that anyone whose head would be touched by his hand would at once die. Lord Śiva could understand the motive of the demon, and he was very sorry that he had assured him whatever benediction he liked. He could not withdraw his promise, but he was very sorry in his heart that he was to offer him a benediction so dangerous to human society. Devotees of the Personality of Godhead never ask any benediction from Lord Viṣṇu, or Kṛṣṇa, and even if they ask something from the Lord, it is not at all dangerous for human society. That is the difference between the demons and the devotees, or the worshipers of Lord Śiva and the worshipers of Lord Viṣṇu.

Quando o demônio recebeu esse tipo de oferta do senhor Śiva, ele rogou por um tipo abominável e temeroso de benefício. O demônio era muito pecaminoso, e as pessoas pecaminosas não sabem que tipo de bênção rogar da deidade. Portanto, ele pediu ao senhor Śiva que ele fosse investido de tanto poder que, assim que ele tocasse a cabeça de qualquer pessoa, essa imediatamente racharia e a pessoa morreria. Os demônios são descritos no Bhagavad-gītā como duṣkṛtīs, ou perversos. Kṛtī significa “muito meritório”, porém, quando duḥ é adicionado, a palavra passa a significar “abominável”. No lugar de se renderem à Suprema Personalidade de Deus, os duṣkṛtīs adoram diferentes semideuses com o objetivo de lograrem benefícios materiais abomináveis. Embora os duṣkṛtīs possuam inteligência e mérito, essas suas qualidades são utilizadas para atividades abomináveis. Às vezes, por exemplo, os cientistas materialistas inventam uma arma mortífera. Essa pesquisa científica objetivando tal invenção naturalmente exige uma grande inteligência. No entanto, ao invés de inventar algo benéfico para a sociedade humana, eles inventam alguma coisa para acelerar a morte, que já está garantida a todos. Eles não podem exibir seu poder meritório inventando algo que possa salvar o homem da morte; ao contrário, eles criam armas que aceleram o processo da morte. De igual modo, Vṛkāsura, no lugar de pedir ao senhor Śiva alguma coisa para o benefício da sociedade humana, pediu algo muito perigoso aos seres humanos. O senhor Śiva é poderoso o suficiente para conceder qualquer bênção, de modo que o demônio poderia ter-lhe pedido algo benéfico. Contudo, para seu interesse pessoal, ele solicitou que, quando a cabeça de alguém fosse tocada por ele, tal pessoa morresse de imediato. O senhor Śiva pôde entender o motivo do demônio e sentiu muito por lhe ter assegurado qualquer bênção que ele desejasse. Ele não podia retirar sua promessa, motivo pelo qual ficou muito pesaroso em seu coração em ter de oferecer algo tão perigoso à sociedade humana. Os devotos da Personalidade de Deus jamais solicitam qualquer benefício do Senhor Viṣṇu ou Kṛṣṇa, e, mesmo se eles pedirem algo ao Senhor, tal coisa não é de forma alguma perigosa para a sociedade humana. Eis a diferença entre os demônios e os devotos, ou adoradores do senhor Śiva e os adoradores do Senhor Viṣṇu.

While Śukadeva Gosvāmī was narrating the history of Vṛkāsura, he addressed Mahārāja Parīkṣit as Bhārata, referring to King Parīkṣit’s birth in a family of devotees. Mahārāja Parīkṣit was saved by Lord Kṛṣṇa while in his mother’s womb. Later, he could have asked Lord Kṛṣṇa to save him again, from the curse of a brāhmaṇa, but he did not do so. The demon, however, wanted to become immortal by killing everyone with the touch of his hand. Lord Śiva could understand this, but because he had promised, he gave him the benediction.

Enquanto Śukadeva Gosvāmī narrava a história de Vṛkāsura, ele dirigiu-se a Mahārāja Parīkṣit como Bhārata, referindo-se ao nascimento do rei Parīkṣit em uma família de devotos. Mahārāja Parīkṣit foi salvo pelo Senhor Kṛṣṇa enquanto se encontrava no ventre de sua mãe. Mais tarde, ele poderia ter solicitado ao Senhor que o salvasse novamente da maldição de um brāhmaṇa, mas ele assim não o fez. Todavia, o demônio queria se tornar imortal, matando todos com o toque de sua mão. O senhor Śiva foi capaz de compreender isso; porém, como ele havia prometido, ele concedeu a bênção.

The demon, however, being very sinful, immediately decided that he would use the benediction to kill Lord Śiva and take away Gaurī (Pārvatī) for his personal enjoyment. He immediately decided to place his hand on the head of Lord Śiva. Thus Lord Śiva was put into an awkward position because he was endangered by his own benediction to a demon. This is an instance of a materialistic devotee’s misusing the power derived from the demigods.

No entanto, o demônio, sendo muito pecaminoso, decidiu imediatamente que usaria o benefício para matar o senhor Śiva e levar Gaurī (Pārvatī) para seu desfrute pessoal. De imediato, ele decidiu colocar a mão na cabeça do senhor Śiva. Desse modo, o senhor Śiva foi colocado em uma situação embaraçosa, porque ele se encontrava ameaçado pela bênção que ele mesmo concedera a um demônio. Esse é um exemplo de um devoto materialista utilizando indevidamente o poder obtido dos semideuses.

Without further deliberation, the demon Vṛkāsura approached Lord Śiva to place his hand on Lord Śiva’s head. Lord Śiva was so afraid of him that his body trembled, and he fled from the land to the sky and from the sky to other planets, until he reached the limits of the universe, above the higher planetary systems. Lord Śiva fled from one place to another, but the demon Vṛkāsura continued to chase him. The predominating deities of other planets, such as Brahmā, Indra and Candra, could not find any way to save Lord Śiva from the impending danger. Wherever Lord Śiva went, they remained silent.

Sem mais deliberações, o demônio Vṛkāsura aproximou-se do senhor Śiva para colocar a mão sobre sua cabeça. O senhor Śiva estava com tanto medo dele que seu corpo tremia e, assim, ele fugiu da Terra para o céu e do céu para outros planetas, até que ele atingiu os limites do universo, acima dos sistemas planetários superiores. O senhor Śiva fugiu de um lugar para outro, mas o demônio Vṛkāsura continuou a persegui-lo. As deidades predominantes dos outros planetas, tais como Brahmā, Indra e Candra, não conseguiram encontrar uma forma de salvar o senhor Śiva daquele perigo implacável. Aonde quer que o senhor Śiva fosse, eles permaneciam em silêncio.

At last Lord Śiva approached Lord Viṣṇu, who is situated within this universe on the planet known as Śvetadvīpa. Śvetadvīpa is the local Vaikuṇṭha planet, beyond the jurisdiction of the influence of the external energy. Lord Viṣṇu in His all-pervasive feature remains everywhere, but wherever He remains personally is the Vaikuṇṭha atmosphere. In the Bhagavad-gītā it is stated that the Lord remains within the heart of all living entities. As such, the Lord remains within the heart of many lowborn living entities, but that does not mean He is lowborn. Wherever He remains is transformed into Vaikuṇṭha. So the planet within this universe known as Śvetadvīpa is also Vaikuṇṭha-loka. It is said in the śāstras that residential quarters within the forest are in the mode of goodness, residential quarters in big cities, towns and villages are in the mode of passion, and residential quarters in an atmosphere wherein indulgence in the four sinful activities of illicit sex, intoxication, meat-eating and gambling predominates are in the mode of ignorance. But residential quarters in a temple of Viṣṇu, the Supreme Lord, are in Vaikuṇṭha. It doesn’t matter where the temple is situated; the temple itself, wherever it may be, is Vaikuṇṭha. Similarly, the Śvetadvīpa planet, although within the material jurisdiction, is Vaikuṇṭha.

Finalmente, o senhor Śiva aproximou-se do Senhor Viṣṇu, que está situado neste universo no planeta conhecido como Śvetadvīpa. Śvetadīpa é o planeta Vaikuṇṭha local, além da jurisdição da influência da energia material. O Senhor Viṣṇu, em Sua característica onipenetrante, está presente em toda parte, mas onde quer que Ele permaneça pessoalmente, instala-se ali a atmosfera de Vaikuṇṭha. O Bhagavad-gītā declara que o Senhor permanece no interior do coração de todas as entidades vivas. Dessa forma, o Senhor está no coração de muitas entidades vivas de baixo nascimento, mas isso não significa que Ele é de baixo nascimento. Onde quer que Ele esteja, o local se transforma em Vaikuṇṭha. Portanto, o planeta neste universo conhecido como Śvetadvīpa é também Vaikuṇṭha-loka. Afirma-se nos śāstras que as áreas residenciais na floresta estão no modo da bondade, os espaços residenciais nas metrópoles, cidades e vilas encontram-se no modo da paixão, e as habitações localizadas em uma atmosfera em que há indulgência nas quatro atividades pecaminosas de sexo ilícito, intoxicação, ingestão de carne e jogos de azar estão no modo da ignorância. Todavia, residências em um templo de Viṣṇu, o Senhor Supremo, estão em Vaikuṇṭha. Não importa onde o templo esteja situado; o próprio templo, onde quer que esteja, é Vaikuṇṭha. De modo semelhante, o planeta Śvetadīpa, conquanto dentro da jurisdição material, é Vaikuṇṭha.

Lord Śiva finally entered Śvetadvīpa Vaikuṇṭha. In Śvetadvīpa there are great saintly persons who are completely freed from the envious nature of the material world and are beyond the jurisdiction of the four principles of material activity, namely religiosity, economic development, sense gratification and liberation. Anyone who enters into that Vaikuṇṭha planet never returns to this material world. Lord Nārāyaṇa is celebrated as a lover of His devotees, and as soon as He understood that Lord Śiva was in great danger, He appeared as a brahmacārī and personally approached Lord Śiva to receive him from a distant place. The Lord appeared as a perfect brahmacārī, with a belt around His waist, a sacred thread, a deerskin, a brahmacārī stick and raudra beads. (Raudra beads are different from tulasī beads. Raudra beads are used by the devotees of Lord Śiva.) Dressed as a brahmacārī, Lord Nārāyaṇa stood before Lord Śiva. The shining effulgence emanating from His body attracted not only Lord Śiva but also the demon Vṛkāsura.

O senhor Śiva finalmente entrou em Śvetadīpa Vaikuṇṭha. Em Śvetadīpa, existem ilustres pessoas santas que estão completamente livres da natureza invejosa do mundo material e que se encontram além da jurisdição dos quatro princípios da atividade material, a saber, religiosidade, desenvolvimento econômico, satisfação dos sentidos e libertação. Qualquer pessoa que entre nesse planeta Vaikuṇṭha jamais retorna a este mundo material. O Senhor Nārāyaṇa é famoso como aquele que ama Seus devotos; então, assim que percebeu que o senhor Śiva estava correndo um enorme perigo, Ele apareceu como um brahmacārī e pessoalmente aproximou-Se do senhor Śiva para recepcioná-lo à distância. O Senhor apareceu como um brahmacārī perfeito, com um cinto em volta de Sua cintura, um cordão sagrado, uma pele de veado, um cajado de brahmacārī e contas de raudra. (As contas de raudra são diferentes das contas de tulasī. As contas de raudra são usadas pelos devotos do senhor Śiva). Vestido como um brahmacārī, o Senhor Nārāyaṇa postou-Se diante do senhor Śiva. A radiante refulgência que emanava de Seu corpo atraiu não apenas o senhor Śiva, mas também o demônio Vṛkāsura.

Lord Nārāyaṇa offered His respects and obeisances unto Vṛkāsura just to attract his sympathy and attention. Thus stopping the demon, the Lord addressed him as follows: “My dear son of Śakuni, you appear very tired, as if coming from a very distant place. What is your purpose? Why have you come so far? I see that you are fatigued, so I request you to take a little rest. You should not unnecessarily tire your body. Everyone greatly values his body because only with the body can one fulfill all the desires of one’s mind. We should not, therefore, unnecessarily give trouble to the body.”

O Senhor Nārāyaṇa ofereceu Seus respeitos e reverências a Vṛkāsura para atrair sua atenção e simpatia. Parando o demônio dessa maneira, o Senhor dirigiu-lhe as seguintes palavras: “Meu querido filho de Śakuni, você parece muito cansado, como se estivesse vindo de um lugar bem distante. Qual é seu objetivo? Por que você veio até tão longe? Vejo que você está fatigado, assim, peço-lhe que descanse um pouco. Você não deve cansar seu corpo desnecessariamente. Todos valorizam muito seus corpos porque apenas com o corpo a pessoa pode satisfazer os desejos da mente. Portanto, não devemos causar dificuldades desnecessárias ao corpo”.

The brahmacārī addressed Vṛkāsura as the son of Śakuni just to convince him that He was known to his father, Śakuni. Vṛkāsura then took the brahmacārī to be someone known to his family, and therefore the brahmacārī’s sympathetic words appealed to him. Before the demon could argue that he had no time to take rest, the Lord informed him about the importance of the body, and the demon was convinced. Any man, especially a demon, takes his body to be very important. Thus Vṛkāsura became convinced about the importance of his body.

O brahmacārī dirigiu-se a Vṛkāsura como o filho de Śakuni unicamente para convencê-lo de que Ele era conhecido ao pai dele, Śakuni. Portanto, Vṛkāsura entendeu que o brahmacārī era alguém conhecido de sua família, e as palavras simpáticas do brahmacārī lhe foram apelativas. Antes que o demônio pudesse argumentar que não dispunha de tempo para repousar, o Senhor informou-lhe sobre a importância do corpo, e o demônio se convenceu. Qualquer homem, especialmente um demônio, acredita que seu corpo é muito importante. Consequentemente, Vṛkāsura foi convencido sobre a importância de seu corpo.

Then, just to pacify the demon, the brahmacārī told him, “My dear lord, if you think that you can disclose the mission for which you have taken the trouble to come here, maybe I shall be able to help you so that your purpose will be easily served.” Indirectly, the Lord informed him that because the Lord is the Supreme Brahman, He would certainly be able to adjust the awkward situation created by Lord Śiva.

Em seguida, para apaziguar o demônio, o brahmacārī disse-lhe: “Meu querido senhor, se acha que pode revelar a missão pela qual você veio até aqui, talvez Eu possa ajudá-lo para que seu objetivo seja facilmente alcançado”. Indiretamente, o Senhor informou-lhe que, como o Senhor é o Brahman Supremo, Ele certamente seria capaz de solucionar aquela situação embaraçosa criada pelo senhor Śiva.

The demon was greatly pacified by the sweet words of Lord Nārāyaṇa in the form of a brahmacārī, and at last he disclosed all that had happened in regard to the benediction offered by Lord Śiva. The Lord replied to the demon as follows: “I Myself cannot believe that Lord Śiva has in truth given you such a benediction. As far as I know, Lord Śiva is not in a sane mental condition. When he had a quarrel with his father-in-law, Dakṣa, he was cursed to become a piśāca (ghost). Thus he has become the leader of the ghosts and hobgoblins. Therefore I cannot put any faith in his words. But if you still have faith in the words of Lord Śiva, my dear king of the demons, then why don’t you make an experiment by putting your hand on your own head? If the benediction proves false, then you can at once kill this liar, Lord Śiva, so that in the future he will not dare give out false benedictions.”

O demônio foi apaziguado plenamente pelas doces palavras do Senhor Nārāyaṇa na forma de um brahmacārī e, por fim, revelou tudo o que acontecera em relação à bênção oferecida pelo senhor Śiva. O Senhor respondeu ao demônio com as seguintes palavras: “Eu, pessoalmente, não acredito que o senhor Śiva tenha lhe dado tal benefício. Até onde é de Meu conhecimento, o senhor Śiva não se encontra em um estado de sanidade mental. Quando ele discutiu com seu sogro, Dakṣa, ele foi amaldiçoado a se tornar um piśāca (fantasma). Desse modo, ele se tornou o líder dos fantasmas e seres espectrais. Logo, não posso ter confiança em suas palavras. Todavia, se você ainda acredita nas palavras do senhor Śiva, meu querido rei dos demônios, então, por que você não faz uma experiência, colocando sua mão sobre sua própria cabeça? Caso a bênção seja falsa, você poderá imediatamente matar esse mentiroso senhor Śiva de forma que, no futuro, ele não ouse mais lhe conceder bênçãos falsas”.

In this way, by Lord Nārāyaṇa’s sweet words and by the expansion of His superior illusion, the demon became bewildered, and he actually forgot the power of Lord Śiva and his benediction. He was thus very easily persuaded to put his hand on his own head. As soon as the demon did that, his head cracked, as if struck by a thunderbolt, and he immediately died. The demigods from heaven showered flowers on Lord Nārāyaṇa, praising Him with shouts of “All glories!” and “All thanksgiving!” and they offered their obeisances to the Lord. On the death of Vṛkāsura, all the denizens in the higher planetary systems, namely the demigods, the pitṛs, the Gandharvas and the inhabitants of Janaloka, showered flowers on the Personality of Godhead.

Portanto, por meio das doces palavras do Senhor Nārāyaṇa e pela expansão de Sua ilusão superior, o demônio ficou confuso e, de fato, esqueceu-se do poder do senhor Śiva e de sua bênção. Assim, ele foi facilmente persuadido a colocar sua mão sobre a própria cabeça. Tão logo o demônio fez isso, sua cabeça rachou, como se atingida por um raio, e ele morreu imediatamente. Do céu, os semideuses derramaram flores sobre o Senhor Nārāyaṇa, louvando-O com gritos de “Todas as glórias!”, “Todas as graças!” e oferecendo-Lhe reverências. Com a morte de Vṛkāsura, todos os cidadãos nos sistemas planetários superiores, a saber, os semideuses, os pitṛs, os gandharvas e os habitantes de Janaloka, derramaram flores sobre a Personalidade de Deus.

Thus Lord Viṣṇu in the form of a brahmacārī released Lord Śiva from the impending danger and saved the whole situation. Lord Nārāyaṇa then informed Lord Śiva that this demon, Vṛkāsura, was killed as the result of his sinful activities. He was especially sinful and offensive because he wanted to experiment on his own master, Lord Śiva. Lord Nārāyaṇa then told Lord Śiva, “My dear lord, a person who commits an offense to great souls cannot continue to exist. He is vanquished by his own sinful activities, and this is certainly true of this demon, who has committed such an offensive act against you.”

Portanto, o Senhor Viṣṇu, na forma de um brahmacārī, libertou o senhor Śiva de um perigo iminente e salvou toda a situação. Em seguida, o Senhor Nārāyaṇa informou ao senhor Śiva que este demônio Vṛkāsura fora morto como resultado de suas atividades pecaminosas. Ele era especialmente pecaminoso e ofensivo porque desejou testar seu próprio mestre, o senhor Śiva. O Senhor Nārāyaṇa, então, disse ao senhor Śiva: “Meu querido senhor, uma pessoa que comete uma ofensa a grandes almas não pode continuar a existir. Ela é extinta por meio de suas próprias atividades pecaminosas, e isso é deveras verdade em relação a este demônio, que cometeu tamanha ofensa contra você”.

Thus by the grace of the Supreme Personality of Godhead, Nārāyaṇa, who is transcendental to all material qualities, Lord Śiva was saved from being killed by a demon. Anyone who hears this history with faith and devotion is certainly liberated from material entanglement, as well as from the clutches of his enemies.

Assim, pela graça da Suprema Personalidade de Deus, Nārāyaṇa, que é trasnscendental a todas as qualidades materiais, o senhor Śiva foi salvo de ser morto por um demônio. Qualquer pessoa que escute esta história com fé e devoção certamente se liberta do enredamento material, bem como das garras dos inimigos.

Thus ends the Bhaktivedanta purport of the eighty-eighth chapter of Kṛṣṇa, “The Deliverance of Lord Śiva.”

Neste ponto, encerram-se os significados Bhaktivedanta do capítulo oitenta e oito de Kṛṣṇa, intitulado “A Libertação do Senhor Śiva”.